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Teoria da
literatura e
metodologia dos
estudos literários
René Wellek
Austin Warren
Martins Fontes
Teoria da literatura
e metodologia dos
estudos literários
René Wellek
Austin Warren
Tradução
LUIS CARLOS BORGES
Revisão da tradução
SILVANA VIEIRA
Revisão técnica
VALTER LELLIS SIQUEIRA
Martins Fontes
São Paulo 2003
Esta obra fo i publicada originalmente em inglês com o título
THEORY OF LITERATURE por Harcourt.
Copyright :í / 1956,1949,1947,1942 by Harcourt, Inc.
Copyright © 1984,1977,1975 by René Wellek e Austin Warren
Copyright renovado: 1970 by René Weltek,
Publicado por acordo com Harcourt, Inc.
Copyright © 2005, Livraria Martins Fontes Editora Ltda.,
São Paulo, para a presente edição.
1* edição
novembro de 2003
Tradução
LUÍS CARLOS BORGES
Revisão técnica
Valter Lellis Siqueira
Revisão da tradução
Silvana Vieira
Acompanhamento editorial
Luzia Aparecida dos Santos
Revisão gráfica
Maria Fernanda Alvares
Sandra Garcia Cortes
Produção gráfica
Geraldo Alves
Paginação/Potolitos
Studio 3 Desenvolvimento Editorial
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Wellek, René
Teoria da literatura e metodologia dos estudos literários / René
Wellet, Austin Warren; tradução Laís Carlos Borges; revisão da tra
dução Silvana Vieira ; revisão técnica Valter Lellis Siqueira. - São
Paulo : Martins Fontes, 2003, - (Coleção leitura e crítica)
Título original; Theory of literature.
Bibliografia.
ISBN 85-336-1808-5
1. Lingiifstica 2. Literatura - Filosofia 3. Teoria literária I. Warren,
Austin, 1899-. 11, Título. III. Série.
03-3968 CDD-801
índices para catálogo sistemático:
1. Teoria literária 801
Todos os direitos desta edição para o Brasil reservados à
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340 01325-000 São Paulo SP Brasil
Tel. (11)3241.3677 Fax (11) 3105.6867
e-mail: info@martinsfontes.com.br http:llwww.martinsfontes.com.br
Sumário
Prefácio à primeira edição americana.......................... :.. VII
Prefácio à segunda edição americana.............................. XI
Prefácio à terceira edição americana............................... XIII
PARTE UM
DEFINIÇÕES E DISTINÇÕES
1. A literatura e os estudos literários............................... 3
2. A natureza da literatura................................................ 11
3. A função da literatura................................................... 23
4. A teoria, a crítica e a história literária.......................... 36
5. Literatura geral, literatura comparada e literatura na
cional ............................................................................ 46
PARTE DOIS
OPERAÇÕES PRELIMINARES
6. O ordenamento e o estabelecimento dos testemunhos.. 61
PARTE TRÊS
A ABORDAGEM EXTRÍNSECA AO ESTUDO DA LITERATURA
Introdução............................................................................ 83
7. A literatura e a biografia.............................................. 86
8. A literatura e a psicologia............................................. 94
9. A literatura e a sociedade.......................................... 113
10. A literatura e as idéias.................................................. 138
11. A literatura e as outras artes......................................... 159
PARTE QUATRO
O ESTUDO INTRÍNSECO DA LITERATURA
Introdução........................................................................... 177
12 .0 modo de existência de uma obra de arte literária.... 181
13. Eufonia, ritmo e metro................................................. 202
14. Estilo e estilística.......................................................... 226
15. Imagem, metáfora, símbolo, m ito............... 244
16. A natureza e os modos da ficção narrativa.................. 285
17. Os gêneros literários..................................................... 306
18. A avaliação.................................................................... 324*
19. A história literária........................................... 344
Bibliografia......................................................................... 369
índice rem issivo................................................................... 415
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Dar nome a este livro foi mais difícil do que de costume.
Mesmo um “título breve” adequado, “Teoria da literatura e meto
dologia dos estudos literários”, seria desajeitado demais. Antes
do século XIX teria sido possível, pois, na época, o título ana
lítico completo ocuparia o frontispício enquanto a lombada os
tentaria a inscrição “Literatura”.
Escrevemos um livro que, tanto quanto sabemos, não tem
nenhum paralelo próximo. Não é um livro didático apresentan
do aos jovens os elementos da apreciação literária nem (como
Aims and Methods, de Morize) um levantamento das técnicas
empregadas na pesquisa acadêmica. Ele pode reivindicar certa
conexão com a poética e com a retórica (a partir de Aristóteles
e passando por Blair, Campbell e Kames), tratamentos sistemá
ticos dos gêneros das belas-letras e da estilística, ou com livros
a que se dá o nome de “Princípios da Crítica Literária”. Busca
mos, porém, unir a “poética” (ou teoria literária) e a “crítica” (a
avaliação da literatura) com o “estudo acadêmico” (“pesquisa”)
e a “história literária” (a “dinâmica” da literatura em contraste
com a “estática” da teoria e da crítica). Aproxima-se mais de cer
tas obras alemãs e russas, Gehalt und Gestalt, de Walzel, ou Die
Wissenschcift von der Dichtung, de Julius Petersen, ou Literary
Theory, de Tomachevski. Em contraste com os alemães, porém,
evitamos a mera reprodução das visões de outros e, embora te
nhamos levado em conta outras perspectivas e métodos, escre
vemos a partir de um ponto de vista coerente; em contraste com
Tomachevski, não procuramos oferecer instrução elementar so
bre tópicos como a prosódia. Não somos ecléticos como os ale
mães nem doutrinários como os russos.
Pelos padrões do estudo acadêmico norte-americano mais
antigo, há algo grandioso e mesmo “não acadêmico” na própria
tentativa de formular os pressupostos sobre os quais se condu
zem os estudos literários (quando precisamos ir além dos “fa
tos”) e certa presunção na nossa tentativa de levantamento e
avaliação de investigações altamente especializadas. Todo es
pecialista ficará inevitavelmente insatisfeito com a nossa des
crição da sua especialidade. Não visamos, porém, plenitude mi
nuciosa: os exemplos literários citados são sempre exemplos,
não “provas”; as bibliografias são “seletivas”. Tampouco pro
curamos responder a todas as perguntas que levantamos. Julga
mos ser de utilidade central, para nós e para outros, ser interna
cionais no nosso estudo, fazer as perguntas certas, oferecer um
órganon do método.
Os autores deste livro, que se conheceram na Universida
de de Iowa em 1939, imediatamente perceberam a sua grande
concordância na teoria e na metodologia literárias.
Embora com histórico e instrução diferentes, ambos ha
viam seguido um padrão similar de desenvolvimento, passando
pela pesquisa histórica e pelo trabalho na “história das idéias”,
até a posição de que os estudos literários devem ser especifica
mente literários. Ambos acreditaram que “estudo acadêmico” e
“crítica” eram compatíveis; ambos recusaram-se a fazer distin
ção entre literatura “contemporânea” e literatura do passado.
Em 1941, contribuíram com capítulos sobre “história” e
“crítica” para um volume feito em colaboração, Liíerary Scho-
larship, estimulado e editado por Norman Foerster, a cujo pen
samento
e incentivo eles sabem que devem muito. A ele (não
fosse isso oferecer uma impressão errônea da sua doutrina) de
dicariam este livro.
Os capítulos do presente livro foram realizados com base
em interesses existentes. O sr. Wellek é responsável principal
mente pelos capítulos 1-2,4-7,9-14 e 19; o sr. Warren, pelos ca
pítulos 3,8 e 15-18.0 livro, contudo, é um caso real de colabo
ração em que o autor é a concordância entre os dois escritores.
Em terminologia, tom e ênfase restam, sem dúvida, algumas
discrepâncias entre os dois; eles acham que estas podem ser
compensadas pela percepção de duas mentes diferentes che
gando a um acordo tão substancial.
Resta agradecer ao dr. Stevens e à Divisão de Humanida
des da Fundação Rockfeller, sem cujo auxílio o livro não teria
sido possível, e ao presidente, aos diretores e ao chefe de de
partamento da Universidade de Iowa, pelo seu apoio e genero
sa disponibilidade de tempo; a R. P. Blackmur e X C. Ransom
pelo encorajamento; a Wallace Fowlie, Roman Jakobson, John
McGalliard, John C. Pope e Robert Penn Warren por lerem cer
tos capítulos; à srta. Alison White pela assistência atenciosa e
devotada ao longo de toda a composição do livro.
Os autores desejam agradecer também a gentileza de al
guns editores e casas editoras por permitirem a incorporação
de algumas passagens de escritos anteriores no presente livro:
à Louisiana University Press e a Cleanth Brooks, antigo editor
da Southern Review (por “Modos de existência da obra literá
ria”); à University of North Carolina Press (por uma parte de
“História literária”, em Literary Scholarship, org. Foerster,
1941); à Columbia University Press (por passagens de “Perío
dos e movimentos na história literária” e “O paralelismo entre
a literatura e as artes” em English Institute Annuals, 1940 e
1941); à Philosophical Library (por passagens de “A revolta
contra o positivismo” e “Literatura e sociedade”, em Twen
tieth-Century English, org. Knickerbocker, 1946).
New Haven, 1? de maio de 1948 R e n é W e l l e k
A u s t in W a r r e n
A segunda edição é, substancialmente, uma reimpressão
da primeira, exceto pelo fato de que, no texto, fizemos algu
mas correções e esclarecimentos e acrescentamos alguns elos
nos argumentos e algumas referências a novos desenvolvimen
tos na teoria literária. Decidimos, porém, eliminar o último ca
pítulo da primeira edição (“O estudo da literatura na faculda
de”) que, dez anos após sua publicação, parece antiquado, em
parte porque algumas das reformas sugeridas ali foram adota
das em muitos lugares. Além disso, atualizamos a bibliografia,
eliminando títulos menos importantes ou menos acessíveis e
substituindo-os por uma pequena seleção da grande quantida
de de escritos dedicados a essas questões nos últimos oito anos.
Natal de 1955 R e n é W e l l e k
A u s t in W a r r e n
É recompensador saber que o livro está saindo em tercei
ra edição nos Estados Unidos e na Inglaterra e que foi traduzi
do em espanhol, italiano, japonês, coreano, alemão, português,
hebraico e gujarati, nessa ordem. Novamente, a bibliografia foi
atualizada. Pequenas correções e acréscimos foram feitos no tex
to. Substancialmente, porém, a terceira edição é uma reimpres
são da segunda. Em alguns pontos, pude desenvolver minhas
idéias ou modificá-las em dissertações publicadas pela Yale
University Press com o título Concepts o f Criticism, em 1963, às
quais me refiro nas notas; além disso, History o f Modem Criti
cism, de minha autoria, tenta sustentar a posição teórica deli
neada aqui ao mesmo tempo em que, por sua vez, extrai crité
rios e valores de Theory o f Litemture.
New Haven, Conn., setembro de 1962 R e n é W e l l e k
1. A literatura e os
estudos literários
Em primeiro lugar, devemos fazer uma distinção entre li
teratura e estudos literários. As duas são atividades distintas:
uma é criadora, é uma arte; a outra, se não exatamente uma ciên
cia, é uma espécie de conhecimento ou saber. Houve tentati
vas, naturalmente, de obscurecer essa distinção. Por exemplo,
argumentou-se que não podíamos compreender a literatura a
menos que a escrevêssemos, que não podíamos nem devíamos
estudar Pope sem tentar escrever dísticos heróicos, ou uma pe
ça isabelina sem escrever uma peça em versos brancos1. Contu
do, por mais útil que seja a experiência literária para o estudan
te, o seu objetivo é completamente distinto. Ele deve traduzir a
sua experiência de literatura em termos intelectuais, assimilá-la
a um esquema coerente que tem de ser racional para ser conhe
cimento. Pode ser verdade que a matéria deste estudo seja irra
cional ou que, pelo menos, contenha elementos fortemente ir
racionais, mas nem por isso ele estará numa posição diferente
que a do historiador da pintura, do musicólogo ou mesmo do
sociólogo ou do anatomista.
Está claro que alguns problemas difíceis são suscitados por
essa relação. As soluções propostas foram várias. Alguns teó
ricos simplesmente negariam que os estudos literários sejam
conhecimento e aconselhariam uma “segunda criação”, com re
sultados que, para a maioria de nós, hoje parecem fúteis - a
descrição da Mona Lisa por Pater ou as passagens omamenta-
1. Defendido em Stephen Potter, The Muse in Chains, Londres, 1937.
das de Symonds ou Symons. Tal “crítica criativa” geralmente
significou uma duplicação desnecessária ou, na melhor das hi
póteses, a tradução de uma obra de arte em outra, geralmente
inferior. Outros teóricos extraem do nosso contraste entre a li
teratura e o seu estudo conclusões céticas bem diferentes: a lite
ratura, argumentam, não pode ser “estudada”. Só podemos lê-la,
usufruí-la, apreciá-la. De resto, só o que podemos fazer é acu
mular informações “sobre” a literatura. Tal ceticismo, na ver
dade, é muito mais difundido do que poderíamos imaginar. Na
prática, ele se manifesta em uma ênfase em “fatos” ambientais
e na depreciação de todas as tentativas de ir além deles. A apre
ciação, o gosto, o entusiasmo são deixados à indulgência priva
da como uma fuga inevitável, embora deplorável, da austeridade
do estudo judicioso. Tal dicotomia de “estudo” e “apreciação”
não leva em conta o verdadeiro estudo da literatura, simultanea
mente “literário” e “sistemático”.
O problema é como lidar intelectualmente com a arte e,
em especial, com a arte literária. É possível? E como é possível?
Uma das respostas foi: é possível com os métodos desenvolvi
dos pelas ciências naturais, que só precisam ser transferidos para
o estudo da literatura. Podem-se distinguir muitos tipos dessa
transferência. Um deles é a tentativa de emular os ideais cien
tíficos gerais de objetividade, impessoalidade e certeza, uma
tentativa que, no todo, sustenta a coleta de fatos neutros. Outro
é a tentativa de imitar os métodos da ciência natural por meio
do estudo dos antecedentes e origens causais; na prática, esse
“método genético” justifica a investigação de qualquer tipo de
relação, contanto que seja possível sobre fundamentos crono
lógicos. Aplicada mais rigidamente, a causalidade científica é
usada para explicar fenômenos literários atribuindo causas de
terminantes a condições econômicas, sociais e políticas. Nova
mente, ocorre a introdução dos métodos quantitativos adequa
damente usados em algumas ciências, isto é, estatísticas, tabelas
e gráficos. E, finalmente, a tentativa de usar conceitos biológicos
na pesquisa da evolução da literatura2.
2. Ver bibliografia, cap. 19, seção IV.
Hoje haveria reconhecimento quase geral de que essa trans
ferência não cumpriu as expectativas com que foi feita origi
nalmente. Às vezes, os métodos científicos provaram seu valor
em uma área estritamente limitada ou com uma técnica limitada,
como o uso da estatística em certos métodos de crítica textual
ou no estudo da métrica.
Contudo, a maioria dos que promove
ram essa invasão científica dos estudos literários confessou o fra
casso e rompeu com o ceticismo ou confortou-se com ilusões
quanto aos sucessos futuros do método científico. Assim, I. A.
Richards costumava referir-se aos futuros triunfos da neurolo
gia como capazes de assegurar as soluções de todos os proble
mas literários3.
Teremos de voltar a alguns dos problemas suscitados por
essa aplicação amplamente difundida da ciência natural aos es
tudos literários. Eles não podem ser descartados descuidada
mente, e, sem dúvida, existe um grande campo em que as duas
metodologias entram em contato ou mesmo se sobrepõem. Mé
todos fundamentais como a indução e a dedução, a análise, a
síntese e a comparação são comuns a todos os tipos de conhe
cimento sistemático. Mas, de modo patente, a outra solução se
recomenda: o estudo literário tem os seus próprios métodos vá
lidos, que não são sempre os das ciências naturais mas que, não
obstante, são métodos intelectuais. Apenas uma concepção muito
restrita de verdade pode excluir as conquistas das humanidades
do domínio do conhecimento. Muito antes do desenvolvimen
to científico moderno, a filosofia, a história, a teoria do direito,
a teologia e mesmo a filologia haviam elaborado métodos de
saber. Suas conquistas podem ter sido obscurecidas pelos triun
fos teóricos e práticos das modernas ciências físicas, mas são,
não obstante, reais e permanentes e podem, às vezes com algu
mas modificações, ser ressuscitadas ou renovadas. Devemos
simplesmente reconhecer que existe essa diferença entre os
métodos e objetivos das ciências naturais e das humanidades.
3. I. A. Richards, Principles o f Literary Criticism, Londres, 1924, pp.
120, 251.
Como definir essa diferença é um problema complexo. Já
em 1883, Wilhelm Dilthey elaborou a distinção entre os méto
dos da ciência natural e os da história em termos de um con
traste entre explicação e compreensão4. 0 cientista, argumentou
Dilthey, dá conta de um evento em termos dos seus anteceden
tes causais, ao passo que o historiador tenta compreender o seu
significado. Esse processo de compreender é necessariamente
individual e mesmo subjetivo. Um ano depois, Wilhelm Win-
delband, o conhecido historiador da filosofia, também-atacou
a visão de que as ciências históricas deviam imitar os métodos
das ciências naturais5. Os cientistas naturais tentam estabelecer
leis gerais, ao passo que os historiadores tentam captar o fa
to único e não recorrente. Essa visão foi elaborada e, até certo
ponto, modificada por Heinrich Rickert, que traçou a fronteira
não tanto entre métodos generalizantes e individualizantes,
mas entre as ciências da natureza e as ciências da cultura6. As
ciências da cultura, argumentou, estão interessadas no concre
to e no indivíduo. Os indivíduos, porém, só podem ser desco
bertos e compreendidos por referência a algum esquema de va
lores, o que é meramente outro nome para cultura. Na França,
A. D. Xénopol faz distinção entre as ciências naturais, ocupa
das com os “fatos da repetição”, e a história, ocupada com os
“fatos da sucessão”. Na Itália, Benedetto Croce baseou toda a
sua filosofia em um método histórico que é totalmente dife
rente do método das ciências naturais7.
4. Wilhelm Dilthey, Einleitung in die Geisteswissenschaften, Berlim,
1883.
5. Wilhelm Windelband, Geschichte und Naturwissenschaft, Estrasbur
go, 1894. Reimpresso em Präludien, 4f ed., Tübingen, 1907, vol. II, pp. 136-
60.
6. Heinrich Rickert, Die Grenzen der naturwissenschaftlichen Begriffs
bildung, Tübingen, 1913; também Kulturwissenschaft und Naturwissens
chaft, Tübingen, 1921.
7. A. D. Xénopol, Les principes fondamentaux de T histoire, Paris,
1894; 2? edição sob o título La théorie de l ’histoire, Paris, 1908; Benedetto
Croce, History. Its Theory and Practice, Nova York, 1921, e History as the
Story o f Liberty, Nova York, 1940 (nova ed., 1955).
Uma discussão completa desses problemas envolveria a
decisão sobre problemas como a classificação das ciências, a fi
losofia da história e a teoria do conhecimento8. Contudo, alguns
exemplos concretos podem peio menos sugerir que há um pro
blema muito real que o estudante de literatura tem de enfrentar.
Por que estudamos Shakespeare? Está claro que não estamos
primordialmente interessados no que ele tem em comum com
todos os homens pois, então, poderíamos também estudar qual
quer outro homem; tampouco estamos interessados no que ele
tem em comum com todos os ingleses, todos os homens do re
nascimento, todos os isabelinos, todos os poetas, todos os dra
maturgos, ou mesmo todos os dramaturgos isabelinos porque,
nesse caso, poderíamos também estudar Dekker ou Heywood.
Queremos, antes, descobrir o que é peculiarmente de Shakes
peare, o que toma Shakespeare Shakespeare, e isso obviamente
é um problema de individualidade e valor. Mesmo ao estudar
um período, um movimento, uma literatura nacional específica,
o estudante de literatura estará interessado nisso como uma in
dividualidade, com características e qualidades que o separam
de outros agrupamentos similares.
As alegações a favor da individualidade podem ser susten
tadas também por outro argumento: as tentativas de encontrar
leis gerais na literatura sempre fracassaram. A chamada lei da
literatura inglesa de Louis Cazamian, a “oscilação do ritmo da
mente nacional inglesa” entre dois pólos, o sentimento e o in
telecto (acompanhada ainda pela asserção de que essas oscila
ções se tomam mais velozes quanto mais nos aproximamos da
presente época), é trivial ou falsa. Ela desmorona completamen
te quando aplicada à era vitoriana9. A maioria dessas “leis” reve-
8. Discussões mais completas desses problemas em Maurice Mandel-
baum, The Problem o f Historical Knowledge, Nova York, 1938; Raymond
Aron, La philosophie critique de l ’histoire, Paris, 1938.
9. Louis Cazamian, L ’évolution psychologique de la littérature en An
gleterre, Paris, 1920, e a segunda metade de É. Legouis e L. Cazamian, His
toire de la littérature anglaise, Paris, 1924 (tradução inglesa de H. D. Irvine e
W. D. Maclnnes, 2 vols., Londres, 1926-7).
lam ser apenas uniformidades psicológicas, como ação e reação
ou convenção e revolta, que, mesmo se indubitáveis, não pode
riam nos dizer nada realmente significativo a respeito do proces
so da literatura. Enquanto a física pode ver os seus mais eleva
dos triunfos em uma teoria geral, reduzindo a uma fórmula a ele
tricidade e o calor, a gravitação e a luz, não podemos supor que
alguma lei alcance o objetivo dos estudos literários: quanto mais
geral, mais abstrata e, portanto, mais vazia ela parecerá, e mais o
objeto concreto da obra se esquivará a nossa compreensão.
Assim, existem duas soluções extremas para o nosso pro
blema. Uma, que entrou na moda pelo prestígio das ciências
naturais, identifica o método científico e o método histórico e
conduz à mera coleta de fatos ou ao estabelecimento de “leis”
altamente generalizadas. A outra, que nega que a pesquisa lite
rária seja uma ciência, afirma o caráter pessoal da “compreen
são” literária e a “individualidade”, ou mesmo a “singularidade”,
de toda obra de literatura. Mas, na sua formulação extrema, a
solução anticientífica tem seus riscos evidentes. A “intuição”
pessoal pode levar a uma “apreciação” meramente emocional,
à subjetividade completa. Enfatizar a “individualidade” e mes
mo a “singularidade” de toda obra de arte - embora saudável
como reação a generalizações simplistas - é esquecer que ne
nhuma obra de arte pode ser inteiramente “singular”, já que, se
fosse, seria completamente incompreensível. Naturalmente, é
verdade que só existe um Hamlet ou mesmo um “Trees” de
Joyce Kilmer*. Mesmo um monte de lixo, porém, é singular
no sentido de que as suas exatas proporções, posição e combi
nações químicas não podem ser reproduzidas exatamente.
Além disso, todas as palavras, em toda obra literária, são, pela
própria natureza, “gerais”, não particulares. A disputa entre o
“universal” e o “particular” na literatura vem acontecendo des
de que Aristóteles proclamou que a poesia era mais universal
e, portanto, mais filosófica do que a história, que se interessa-
* (Alfred) Joyce Kilmer (1886-1918), poeta e jornalista americano. (N.
doR .T .)
va apenas pelo particular, e desde que o dr. Johnson afirmou
que o poeta não devia “contar as listas da tulipa”. Os românti
cos e os críticos mais modernos nunca cansam de enfatizar a
particularidade da poesia, a sua “textura”, a sua concretude10.
Mas devemos reconhecer que cada obra de literatura é tanto
geral como particular ou - melhor, talvez - tanto individual
como geral. A individualidade pode ser distinguida da particu
laridade e da singularidade completas11. Como todo ser huma
no, cada obra de literatura tem as suas características indivi
duais mas também compartilha propriedades com outras obras
de arte, assim como todo homem compartilha características
com a humanidade, com todos os membros do seu sexo, nação,
classe, profissão, etc. Assim, podemos generalizar no que diz
respeito a obras de arte, teatro isabelino, todo teatro, toda lite
ratura, toda arte. A crítica literária e a história literária tentam
caracterizar a individualidade de uma obra, de um autor, de um
período ou de uma literatura nacional. Mas essa caracterização
só pode ser obtida em termos universais, com base em uma
teoria literária. A teoria literária, um órganon dos métodos, é a
grande necessidade da pesquisa literária hoje.
Esse ideal, naturalmente, não minimiza a importância da
compreensão empática e da fruição como condições prévias do
nosso conhecimento e, portanto, das nossas reflexões sobre a li
teratura. Elas são, porém, apenas condições prévias. Dizer que
os estudos literários servem apenas à arte da leitura é conceber
erroneamente o ideal de conhecimento organizado, por mais in
dispensável que essa arte possa ser para o estudioso de literatu
ra. Embora “leitura” possa ser usada com amplitude suficiente
10. Ver W. K. Wimsatt, Jr., “The Structure o f the (Concrete Universal’
in Literature”, PMLA, LXII (1947), pp. 262-80 (reimpresso em The Verbal
Icon, Lexington, Ky, 1954, pp. 69-83); Scott Elledge, “The Background and
Development in English Criticism o f the Theories of Generality and Particu
larity”, ibid., pp. 147-82.
11. R. G. Collingwood, “Are History and Science Different Kinds of
Knowledge?”, Mind, XXXI (1922), pp. 449-50, e Pitirim Sorokin, Social and
Cultural Dynamics, Cincinnati, 1937, vol. I, pp. 168-74, etc.
para abranger compreensão crítica e sensibilidade, a arte da
leitura é um ideal para cultivo puramente pessoal. Como tal, é
muito desejável e também serve como base de uma cultura li
terária amplamente difundida. Não pode, contudo, substituir a
concepção de “estudos literários”, concebidos como uma tra
dição suprapessoal, como um corpo crescente de conhecimen
to, discernimentos e julgamentos.
2. A natureza da literatura
O primeiro problema que nos confronta, obviamente, é a
matéria da pesquisa literária. O que é literatura? O que não é li
teratura? Qual é a natureza da literatura? Por mais simples que
possam parecer, tais perguntas raramente são respondidas com
clareza.
Uma maneira é definir “literatura” como tudo o que foi im
presso. Poderemos, então, estudar “a profissão médica no sé
culo XIV”, “os movimentos planetários no início da Idade Mé
dia” ou “a feitiçaria na Velha e na Nova Inglaterra”. Como ar
gumentou Edwin Greenlaw, “nada relacionado com a história
da civilização está fora do nosso campo”, não estamos “limita
dos às belas-letras ou mesmo a registros impressos ou manus
critos na nossa tentativa de compreender um período ou civili
zação” e “devemos ver o nosso trabalho à luz da sua possível
contribuição para a história da cultura”1. Segundo a teoria de
Greenlaw, e a prática de muitos pesquisadores, os estudos lite
rários tomaram-se, assim, não apenas intimamente relacionados
com a história da civilização mas idênticos a ela. Tais estudos
são literários apenas no sentido de que se ocupam de matéria im
pressa ou escrita, necessariamente a fonte primordial da maior
parte da história. Pode-se, naturalmente, argumentar em defesa
de tal visão que os historiadores negligenciam esses problemas,
que estão muito ocupados com a história diplomática, militar e
econômica, e que, portanto, o pesquisador literário tem justifica-
1. Edwin Greenlaw, The Province o f Literary History, Baltimore, 1931,
p. 174.
tiva para invadir e ocupar um terreno fronteiriço. Sem dúvida,
ninguém deve ser proibido de entrar em qualquer área que de
sejar e, sem dúvida, há muito a se dizer a favor do cultivo da
história da civilização nos termos mais amplos. Mas, ainda as
sim, o estudo deixa de ser literário. A objeção de que isso é
apenas uma picuinha a respeito de terminologia não é convin
cente. O estudo de tudo o que está ligado à história da civilização
expulsa, na verdade, os estudos literários. Todas as distinções
caem; critérios alheios são introduzidos na literatura e, por con-
seqüência, a literatura será julgada apenas na medida em que
oferecer resultados para esta ou aquela disciplina adjacente. A
identificação de literatura e história da civilização é uma nega
ção do campo específico e dos métodos específicos dos estu
dos literários.
Outra maneira de definir literatura é limitá-la aos “gran
des livros”, livros que, seja qual for o seu tema, são “notáveis
pela forma ou expressão literária”. No caso, o critério é apenas
o valor estético ou o valor estético em combinação com a dis
tinção intelectual geral. Na poesia lírica, no teatro e na ficção,
os trabalhos mais importantes são selecionados com base em
fundamentos estéticos; os outros livros são escolhidos pela re
putação ou pelo valor estético de um tipo um tanto restrito: es
tilo, composição, força geral de apresentação são as caracterís
ticas normalmente destacadas. Essa é uma maneira comum de
distinguir ou falar de literatura. Ao dizer que “isto não é litera
tura”, expressamos tal julgamento de valor; fazemos o mesmo
tipo de julgamento quando falamos que um livro sobre histó
ria, filosofia ou ciência pertence à “literatura”.
A maioria das histórias literárias realmente incluem o tra
tamento de filósofos, historiadores, teólogos, moralistas, polí
ticos e mesmo de alguns cientistas. Seria difícil, por exemplo,
imaginar uma história literária da Inglaterra do século XVIII
sem um tratamento prolongado de Berkeley e Hume, do bispo
Butler e Gibbon, de Burke e mesmo de Adam Smith. O tra
tamento desses autores, apesar de geralmente muito mais bre
ve do que o de poetas, dramaturgos e romancistas, raras vezes
se limita aos méritos estritamente estéticos. Na prática, temos
descrições superficiais e não especializadas desses autores em
função da sua especialidade. Muito corretamente, Hume só
pode ser julgado como filósofo, Gibbon como historiador, o bis
po Butler como apologista e moralista cristão e Adam Smith
como moralista e economista. Mas, na maioria das histórias da
literatura, esses pensadores são discutidos de maneira frag
mentada, sem o contexto adequado - a história do tema do seu
discurso isto é, sem uma compreensão real da história da fi
losofia, da teoria ética, da historiografia, da teoria econômica.
O historiador literário não se transforma automaticamente em
um historiador adequado dessas disciplinas. Ele se toma sim
plesmente um compilador, um intruso embaraçado.
O estudo de “grandes livros” isolados pode ser altamente
recomendável para fins pedagógicos. Todos devemos aprovar
a idéia de que os estudantes - e, particularmente,
os princi
piantes - deviam ler grandes livros ou, pelo menos, bons livros,
não compilações ou curiosidades históricas2. Podemos, contu
do, ter dúvidas de que valha a pena preservar o princípio na
sua pureza para as ciências, a história ou qualquer outro tema
cumulativo e progressivo. Na história da literatura imaginativa,
a limitação aos grandes livros torna incompreensível a conti
nuidade da tradição literária, o desenvolvimento dos gêneros
literários e, na verdade, a própria natureza do processo literário,
além de obscurecer o pano de fundo das circunstâncias condi
cionantes sociais, lingüísticas, ideológicas e de outros tipos. Na
história, na filosofia e em matérias similares, ela, na verdade,
introduz um ponto de vista excessivamente “estético”. Obvia
mente, não há nenhuma outra razão, além da ênfase no “estilo”
expositivo e na organização, para destacar Thomas Huxley den
tre todos os cientistas ingleses como aquele que vale a pena ler.
Esse critério, com pouquíssimas exceções, dá preferência a po-
pularizadores em detrimento dos grandes originadores: dará pre
ferência, e tem de dar, a Huxley em vez de Darwin, a Bergson
em vez de Kant.
2. Mark van Dören, Liberal Education, Nova York, 1943.
O termo “literatura” parece melhor se o limitamos à arte
da literatura, isto é, à literatura imaginativa. Há certas dificul
dades no emprego desse termo mas, em inglês, as outras possi
bilidades, como “ficção” ou “poesia”, já estão ocupadas por
significados estritos ou, como “literatura imaginativa” ou be
las-letras, são desajeitados e enganosos. Uma das objeções a
“literatura” é a sugestão (na etimologia de litera) de limitação
à literatura escrita ou impressa pois, sem dúvida, qualquer con
cepção coerente deve incluir a “literatura oral”. Nesse aspecto,
o termo alemão Wortkunst e o russo slovesnost levam vanta
gem sobre o equivalente inglês.
A maneira mais simples de solucionar a questão é distin
guir o uso particular dado à língua na literatura. A língua é o
material da literatura, como a pedra ou o bronze são o da escultu
ra, as tintas o da pintura, os sons o da música. Devemos perce
ber, porém, que a língua não é mera matéria inerte, como a pedra,
mas é, ela própria, uma criação do homem e, assim, carregada
com a herança cultural de um grupo lingüístico.
As principais distinções a serem extraídas estão entre os
usos literários, os usos cotidianos e os usos científicos da lin
guagem. Uma discussão desse ponto, de Thomas Clark Pollock,
The Nature o f Literature3, apesar de verdadeira no que lhe diz
respeito, não parece inteiramente satisfatória, especialmente
ao definir a distinção entre a linguagem literária e a linguagem
cotidiana. O problema é crucial e não é, de maneira nenhuma,
simples na prática, já que a literatura, ao contrário das outras ar
tes, não possui um veículo exclusivo e já que, sem dúvida, exis
tem muitas formas mistas e transições sutis. É bem fácil distin
guir a linguagem da ciência da linguagem da literatura. O mero
contraste entre “pensamento” e “emoção” ou “sentimento”, po
rém, não é suficiente. A literatura realmente contém pensa
mento, ao passo que a linguagem emocional não está confinada
exclusivamente à literatura: ouça-se uma conversa de aman
tes ou uma briga comum. Ainda assim, a linguagem científica
3. Thomas C. Pollock, The Nature o f Literature, Princeton, 1942.
ideal é puramente “denotativa”; ela almeja uma correspondên
cia de um para um entre signo e referencial. O signo é comple
tamente arbitrário e, portanto, pode ser substituído por símbo
los equivalentes. O signo também é transparente, isto é, sem
atrair a atenção para si, ele nos dirige inequivocamente para o
seu referencial.
Assim, a linguagem científica tende para um sistema de
signos como o da matemática ou da lógica simbólica. O seu
ideal é uma linguagem universal como a characteristica uni
versalis, que Leibniz começara a planejar já no fim do século
XVII. Comparada com a linguagem científica, a linguagem li
terária parecerá, de certas maneiras, deficiente. É abundante em
ambiguidades; como qualquer outra linguagem histórica, é cheia
de homônimos, categorias arbitrárias ou irracionais, como o
gênero gramatical; é permeada de acidentes históricos, lem
branças e associações. Em uma palavra, ela é altamente “cono
tai iva”. Além disso, a linguagem literária está longe de ser mera
mente referencial. Ela tem o seu lado expressivo; ela comunica
o tom e a postura do falante ou escritor. E ela não apenas for
mula e expressa o que diz, mas também quer influenciar a pos
tura do leitor, persuadi-lo e, por fim, modificá-lo. Há mais uma
importante distinção entre a linguagem literária e a científica:
na primeira, o próprio signo, o simbolismo sonoro da palavra,
é enfatizado. Todos os tipos de técnicas foram inventados para
chamar a atenção para ele, tais como a métrica, a aliteração e
padrões sonoros.
Essas distinções em relação à linguagem científica podem
ser feitas em graus diferentes por várias obras de arte literária:
por exemplo, o padrão sonoro será menos importante em um
romance do que em certos poemas líricos, de tradução adequa
da impossível. O elemento expressivo será bem menos impor
tante em um “romance objetivo”, que pode disfarçar e quase
ocultar a postura do escritor, do que em um poema lírico “pes
soal”. O elemento pragmático, leve na poesia “pura”, pode ser
grande em um romance com um propósito ou em um poema
satírico ou didático. Além disso, o grau em que a linguagem é
intelectualizada pode variar consideravelmente: há poemas di
dáticos e filosóficos e romances problemáticos que se aproxi
mam, pelo menos ocasionalmente, do uso científico da lingua
gem. Ainda assim, quaisquer que sejam os modos mistos evi
dentes em um exame de obras de arte literárias concretas, as
distinções entre o uso literário e o uso científico parecem claras:
a linguagem literária está muito mais profundamente envolvi
da na estrutura histórica da linguagem; ela enfatiza a consciên
cia do próprio signo; ela tem o seu lado expressivo e pragmáti
co, que a linguagem científica sempre desejará, tanto quanto
possível, minimizar.
Mais difícil de estabelecer é a distinção entre a linguagem
cotidiana e a linguagem literária. A linguagem cotidiana não é
um conceito uniforme: ela inclui variantes tão amplas como a
linguagem coloquial, a linguagem do comércio, a linguagem
oficial, a linguagem da religião, o jargão dos estudantes. Ob
viamente, porém, muito do que se disse sobre a linguagem lite
rária é válido para os outros usos da linguagem, exceto o cien
tífico. A linguagem cotidiana também tem a sua função expres
siva, embora esta varie de um insípido anúncio oficial ao apelo
apaixonado suscitado por um momento de crise emocional. A
linguagem cotidiana está cheia de irracionalidades e mudanças
contextuais da linguagem histórica, embora existam momentos
em que almeje quase a precisão da descrição científica. Apenas
ocasionalmente existe a consciência dos próprios signos na
linguagem cotidiana. Contudo, tal consciência realmente surge
- no simbolismo sonoro de nomes e ações ou em trocadilhos.
Sem dúvida, a linguagem cotidiana quer, com muita freqüência,
obter resultados, influenciar ações e posturas. Mas seria falso li
mitá-la meramente à comunicação. A fala de horas a fio de
uma criança sem um ouvinte e a tagarelice social quase sem
sentido de um adulto mostram que há muitos usos da lingua
gem que não são estrita ou, pelo menos, primordialmente co
municativos.
Assim, é quantitativamente, antes de tudo, que a linguagem
literária deve ser diferenciada dos vários usos do cotidiano. Os
recursos da linguagem são explorados de modo muito mais de
liberado e sistemático. Na obra de um poeta subjetivo, temos
manifesta uma “personalidade” muito mais coerente e onipre
sente do que a das pessoas como as vemos em situações coti
dianas. Certos tipos de poesia usarão o paradoxo, a ambiguida
de, a mudança contextuai de significado, até mesmo a associa
ção irracional das categorias gramaticais, como o gênero ou o
tempo, de modo inteiramente deliberado. A linguagem poética
organiza, comprime os recursos da linguagem cotidiana e, às ve
zes, até comete violência contra ela, em uma tentativa de for
çar a nossa consciência e atenção. Muitos desses recursos um
escritor encontrará formados, ou pré-formados, pelas atividades
silenciosas e anônimas de muitas gerações. Em certas literatu
ras altamente desenvolvidas e especialmente em certas épocas,
o poeta limita-se a usar uma convenção estabelecida: a lingua
gem, por assim dizer, poetiza por ele. Ainda assim, toda obra de
arte impõe uma ordem, uma organização, uma unidade aos seus
materiais. Essa unidade às vezes parece frouxa, como em mui
tos sketches ou histórias de aventuras, mas aumenta até a orga
nização complexa e cerrada de certos poemas, na qual pode ser
quase impossível mudar uma palavra ou a posição de uma pa
lavra sem prejudicar o seu efeito total.
A distinção pragmática entre linguagem literária e lingua
gem cotidiana é muito mais clara. Rejeitamos como poesia ou
rotulamos como mera retórica tudo que nos persuada a uma
ação exterior definida. A poesia de verdade afeta-nos com mais
sutileza. A arte impõe certo tipo de estrutura que tira o enun
ciado da obra do mundo da realidade. Na nossa análise semân
tica podemos, portanto, reintroduzir algumas das concepções
comuns da estética: “contemplação desinteressada”, “distância
estética”, “estruturação”. Novamente, porém, devemos perce
ber que a distinção entre arte e não arte, entre literatura e evo
lução linguística não literária, é fluida. A função estética pode
se estender a pronunciamentos lingüísticos do tipo mais varia
do. Seria uma concepção estreita de literatura excluir toda a
arte de propaganda ou a poesia didática e satírica. Temos de re
conhecer formas de transição como o ensaio, a biografia e mui
ta literatura retórica. Em diferentes períodos da história o do
mínio da função estética parece se expandir ou se contrair: a
carta pessoal, às vezes, foi uma forma de arte, como foi o ser
mão, enquanto hoje, em concordância com a tendência con
temporânea contra a confusão de gêneros, surge um estreita
mento da função estética, uma marcada ênfase na pureza da
arte, uma reação contra o pan-esteticismo e suas afirmações tal
como proclamadas pela estética de fins do século XIX. Parece
melhor, porém, considerar como literatura apenas obras em
que a função estética é dominante, enquanto podemos reco
nhecer que há elementos estéticos, como estilo e composição,
em obras que possuem um propósito completamente diferente,
não estético, como tratados científicos, dissertações filosófi
cas, panfletos políticos, sermões.
A natureza da literatura, porém, surge com mais clareza
sob os aspectos referenciais. O centro da arte literária deve ob
viamente ser encontrado nos gêneros tradicionais da lírica, da
epopéia, do drama. Em todos eles, a referência é a um mundo
de ficção, de imaginação. Os enunciados em um romance, em
um poema ou em um drama não são literalmente verdadeiros,
não são proposições lógicas. Há uma diferença central e im
portante entre um enunciado, mesmo em um romance históri
co ou em um romance de Balzac, que parece comunicar “in
formação” a respeito de acontecimentos concretos, e a mesma
informação, surgindo em um livro de história ou sociologia.
Mesmo na lírica subjetiva, o “eu” do poeta é um “eu” ficcio
nal, dramático. Um personagem de romance difere de uma fi
gura histórica ou de uma figura na vida real. Ele é feito apenas
das sentenças que o descrevem ou que são colocadas na sua
boca pelo autor. Ele não tem nenhum passado, nenhum futuro
e, às vezes, nenhuma continuidade de vida. Esta reflexão ele
mentar elimina boa parte da crítica dedicada a Hamlet em Wit
tenberg, à influência do pai de Hamlet sobre seu filho, ao magro
e jovem Falstaff, “à meninice das heroínas de Shakespeare”, à
questão de “quantos filhos tinha Lady Macbeth”4. O tempo e o
4. A maior parte da obra de E. E. Stoll é relevante aqui. Ver também L.
L. Schücking, Charakterprobleme bei Shakespeare, Leipzig, 1919 (trad, in
glesa, Londres, 1922) e L. C. Knights, How Many Children Had Lady Mac-
espaço em um romance não são os da vida real. Mesmo um ro
mance aparentemente muito realista, a própria “fatia de vida”
do naturalista, é construído segundo certas convenções artísti
cas. Especialmente a partir de uma perspectiva histórica poste
rior, podemos ver quão similares são os romances naturalistas
na escolha do tema, do tipo de caracterização, dos eventos sele
cionados ou admitidos, das maneiras de conduzir o diálogo.
Discernimos, igualmente, a convencionalidade extrema até mes
mo do drama mais naturalista, não apenas na sua suposição de
uma estrutura cênica mas na maneira como são tratados o es
paço e o tempo, na maneira como até mesmo o diálogo supos
tamente realista é selecionado e conduzido e na maneira como
os personagens entram e saem do palco5. Quaisquer que sejam
as distinções entre A tempestade e Casa de bonecas, elas com
partilham essa convencionalidade dramática.
Se reconhecemos a “ficcionalidade”, a “invenção” ou a
“imaginação” como a característica distintiva da literatura, pen
samos, portanto, na literatura antes em termos de Homero, Dan
te, Shakespeare, Balzac, Keats que de Cícero ou Montaigne, Bos-
beth?, Cambridge, 1933 (reimpresso em Explorations, Londres, 1946, pp. 15-
54). Estudos recentes sobre convencionalismo versus naturalismo no teatro
são S. L. Bethell, Shakespeare and the Popular Dramatic Tradition, Durham,
N. C. 1944, e Eric Bentley, The Playwrightas Thinker, Nova York, 1946.
5. Para observações sobre o tempo no romance, ver Edwin Muir, The
Structure ofihe Novel, Londres, 1928. Para o tratamento do tempo em outros
gêneros, ver T. Zielinski, “Die Behandlung gleichzeitiger Vorgänge im anti
ken Epos”, Philologus, Supplementband, VIII (1899-1901), pp. 405-99; Leo
Spitzer, “Über zeitliche Perspektive in der neueren französischen Lyrik”, Die
neueren Sprachen, XXXI (1923), pp. 241-66 (reimpresso, Stilstudien, II, Mu
nique, 1928, pp. 50-83); Oskar Walzel, “Zeitform im lyrischen Gedicht” , Das
Wortkunstwerk, Leipzig, 1926, pp. 277-96. Em anos recentes (em parte devi
do à influência da filosofia existencialista) tem se dado muita atenção ao pro
blema do tempo na literatura. Ver Georges Poulet, Ètudes sur le temps hu-
main, Paris, trad. inglesa Baltimore, 1956, e La distance intèrieure, Paris,
1952, trad. inglesa Baltimore, 1959; A. A. Mendilow, Time and the Novel,
Londres, 1952; Hans Meyerhoff, Time in Literature, Berkeley, Calif., 1955.
Ver também Emil Staiger, Die Zeit als Einbildungskraft des Dichters, Zuri
que, 1939, 2? ed., 1953; Günther Müller, Die Bedeutung der Zeit in der Er
zählkunst, Bonn, 1946.
suet ou Emerson. Com certeza, haverá casos “fronteiriços”, obras
como A república, de Platão, aos quais seria difícil negar, pelo
menos nos grandes mitos, passagens de “invenção” e “ficcio-
nalidade”, embora sejam, ao mesmo tempo, primordialmente,
obras de filosofia. Essa concepção de literatura é descritiva, não
avaliadora. Não faz nenhum mal relegar uma obra importante
e influente à retórica, à filosofia, ao panfletarismo político, to
dos os quais podem colocar problemas de análise estética, de es
tilística e composição, similares ou idênticos aos apresentados
pela literatura, mas onde a qualidade central da ficcionalidade
estará ausente. Essa concepção, portanto, incluirá nela todos os
tipos de ficção, mesmo o pior romance, a pior peça teatral. A
classificação da arte deve ser distinguida da avaliação.
Uma incompreensão
comum deve ser eliminada. A litera
tura “imaginativa” não precisa usar imagens. A linguagem poé
tica está permeada de imagens, começando com as figuras mais
simples e culminando nos sistemas mitológicos de um Blake e
um Yeats, que tudo abarcam. Mas as imagens não são essenciais
para o enunciado ficcional e, portanto, de boa parte da literatu
ra. Há bons poemas completamente destituídos de imagens; há
mesmo uma “poesia do enunciado”6. As imagens, além disso,
não devem ser confundidas com a criação de imagens efetivas,
sensoriais, visuais. Sob a influência de Hegel, estetas do sécu
lo XIX como Vischer e Eduard von Hartmann argumentaram
que toda a arte é o “brilho sensorial da idéia”, ao passo que
outra escola (Fiedler, Hildebrand, Riehl) falou de toda a arte
como “pura visibilidade”7. Boa parte da grande literatura, po-
6. “We are Seven”, de Wordsworth, é um exemplo de poema não-figu
rativo. “I love all beautous things, I seek and adore them”, de Robert Bridges,
é urn exemplo de poema sem imagens. O termo “poesia do enunciado” foi
usado primeiro por Mark van Doren em defesa da poesia de Dryden. (Ver
John Dryden, A Study of his Poetry, Nova York, 1946, p, 67; publicado origi
nalmente em 1920.) Pode-se, porém, argumentar que a metáfora, em um sen
tido amplo, é o princípio de toda a poesia, Ver, por exemplo, William K.
Wimsatt e Cleanth Brooks, Literary Criticism. A Short History, Nova York,
1957, pp. 749-50.
7. Adolf von Hildebrand, Das Problem der Form in der bildenden
Kunst, 3? ed., Estrasburgo, 1901 (trad, inglesa Nova York, 1907). Vertam -
rém, não evoca imagens sensoriais e, se o faz, não o faz apenas
a esmo, ocasional e intermitentemente8. Na descrição mesmo de
um personagem ficcional, o escritor pode não sugerir nenhu
ma imagem visual. Não podemos visualizar nenhum dos per
sonagens de Dostoiévski ou Henry James, ao passo que pode
mos conhecer os seus estados de espírito, as suas motivações,
avaliações, posturas e desejos de maneira muito completa.
No máximo, o escritor sugere algum delineamento esque
matizado ou um único traço físico - a prática ffeqüente de
Tólstoi ou Thomas Mann. O fato de termos objeções a muitas
ilustrações, apesar de feitas por bons artistas e, em alguns ca
sos (Thackeray, por exemplo), até mesmo pelo próprio autor,
mostra que o escritor nos apresenta apenas esse delineamento
esquematizado, que não é para ser preenchido em detalhe.
Se tivéssemos de visualizar cada metáfora da poesia fica
ríamos completamente aturdidos e confusos. Embora existam
leitores dados à visualização e passagens na literatura em que
tais imaginações pareçam exigidas pelo texto, a questão psico
lógica não deve ser confundida com a análise dos recursos me
tafóricos do poeta. Esses recursos são, em grande parte, a or
ganização de processos mentais que também ocorrem fora da
literatura. Assim, a metáfora está latente em boa parte da nos
sa linguagem cotidiana e é ostensiva na gíria e nos provérbios
populares. Os termos mais abstratos, por transferência metafó
rica, derivam de relações físicas, em última análise (abranger,
definir, eliminar, substância, assunto, hipótese). A poesia rea
viva esse caráter metafórico da linguagem e nos torna cons
cientes dele, assim como usa os símbolos e mitos da nossa ci
vilização: clássicos, teutônicos, celtas e cristãos.
bém Hermann Konnerth, Die Kunsttheorie Conrad Fiedlers, Munique, 1909;
Alois Riehl, “Bemerkungen zu dem Problem der Form in der Dichtkunst”,
Vierteljahrschrift fiir wissenschaftliche Philosophie, XXI (1897), pp, 283-
306, XXII (1898), pp. 96-114 (uma aplicação do conceito de pura visibilida
de à literatura); Benedetto Croce, “La teoria del Farte come pura visibilità”,
Niiovi saggi di estetica, Bari, 1920, pp. 239-54.
8. Theodor A. Meyer, Das Stilgesetz der Poesie, Leipzig, 1901.
Todas essas distinções entre literatura e não-literatura que
discutimos - a organização, a expressão pessoal, a percepção e
exploração do veículo, a ausência de propósito prático e, natu
ralmente, a ficcionalidade - são reformulações, em uma estru
tura de análise semântica, de termos bem antigos como “uni
dade na variedade”, “contemplação desinteressada”, “distância
estética”, “estruturação” e “invenção”, “imaginação”, “criação”.
Cada um deles descreve um aspecto da obra literária, um traço
característico das suas direções semânticas. Nenhum é satisfa
tório. Pelo menos um resultado deve surgir: uma obra de arte
literária não é um objeto simples mas, antes, uma organização
altamente complexa, de caráter estratificado, com múltiplos sig
nificados e relações. A terminologia costumeira, que fala de um
“organismo”, é um tanto enganosa, já que enfatiza apenas um
aspecto, o da “unidade na variedade”, e leva a paralelos bioló
gicos nem sempre relevantes. Além disso, a “identidade de
conteúdo e forma” na literatura, embora a expressão chame a
atenção para as inter-relações íntimas dentro da obra de arte, é
enganosa por ser excessivamente simplista. Ela encoraja a ilu
são de que a análise de qualquer elemento de um artefato, seja
de conteúdo, seja de técnica, deve ser igualmente útil e, portan
to, absolve-nos da obrigação de ver a obra na sua totalidade.
“Conteúdo” e “forma” são termos usados em sentidos muito
amplos e diversos para que sejam úteis meramente justapostos;
na verdade, mesmo depois de definição cuidadosa, eles dicoto-
mizam a obra de arte de maneira demasiado simples. A análi
se moderna da obra de arte tem de começar com questões mais
complexas: o seu modo de existência, o seu sistema de estratos9.
9. Ver na bibliografia deste capítulo os livros nos quais se baseia esta
discussão.
3. A função da literatura
A natureza e a função da literatura devem, em qualquer
discurso coerente, ser correlatas. O uso da poesia decorre da sua
natureza: todo objeto ou classe de objetos é usado com mais
eficiência e racionalidade pelo que é ou pelo que é centralmen
te. Ela só adquire um uso secundário quando perde sua função
primária: a velha roca torna-se um ornamento, um objeto de
museu; o piano quadrado, que já não serve para a música, tor
na-se uma útil escrivaninha. De modo similar, a natureza de um
objeto decorre do seu uso: ele é o que faz. Um artefato tem a
estrutura adequada ao desempenho da sua função, juntamente
com quaisquer acessórios que o tempo e os materiais possibili
tem e o gosto julgue desejáveis. Pode haver muita coisa na
obra literária que seja desnecessária para a sua fimção literária,
embora interessante ou defensável por outras razões.
As concepções da natureza e da função da literatura mu
daram no curso da história? A pergunta não é fácil de responder.
Se recuarmos o suficiente, podemos dizer que sim; podemos
chegar a um tempo em que a literatura, a filosofia e a religião
existiam indiferenciadas: entre os gregos, Ésquilo e Hesíodo se
riam exemplos, talvez. Platão, porém, já pode falar da luta entre
os poetas e os filósofos como uma luta antiga e designar com
isso algo inteligível para nós. Não devemos, por outro lado, exa
gerar a diferença feita pelas doutrinas da “arte pela arte” no fim
do século XIX ou pelas doutrinas mais recentes de poésie pure.
A “heresia didática”, como Poe chamava a crença na poesia
como instrumento de edificação, não deve ser igualada à dou
trina tradicional do renascimento, de que o poema deleita e en
sina ou que ensina através de deleite.
No todo, a leitura de uma história da estética ou da poética
deixa-nos com a impressão de que, basicamente, não mudaram
a natureza e a função da literatura, tanto quanto estas podem
ser colocadas em grandes termos conceituais gerais, para com
paração e contraste com outras atividades e valores humanos.
A história da estética quase poderia ser resumida como
uma dialética em que a tese e a contratese são o dulce e o uti
le
de Horácio: a poesia é doce e útil. Qualquer adjetivo separa
damente representa uma concepção polar errônea no que diz
respeito à função da poesia - provavelmente é mais fácil corre
lacionar dulce et utile com base na função do que com base na
natureza. A visão de que poesia é prazer (análoga a qualquer
outro prazer) responde à visão de que poesia é instrução (aná
loga a qualquer livro didático)1. A visão de que toda poesia é
ou devia ser propaganda é respondida pela visão de que é, ou
devia ser, som e imagem puros - arabesco sem referência ao
mundo das emoções humanas. As teses antagônicas chegam a
suas versões mais sutis, talvez, nas visões de que a arte é “brin
cadeira” e de que é “trabalho” (o “ofício” da ficção, a “obra” de
arte). Nenhuma visão, isoladamente, pode parecer aceitável.
Quando nos dizem que a poesia é “brincadeira”, divertimento
espontâneo, sentimos que não se fez justiça nem ao cuidado, à
perícia e planejamento do artista nem à seriedade e importân
cia do poema; quando nos dizem, porém, que a poesia é “tra
balho” ou “ofício”, sentimos a violência feita à sua alegria e ao
que Kant chamou de sua “falta de propósito”. Devemos des
crever a função da arte de uma maneira que faça justiça simul
taneamente ao dulce e ao utile.
1. Horácio (Arspoética, versos 333-44) oferece, na verdade, três possí
veis finalidades para a poesia:
Aut prodesse volunt aut delectare poetae
Onme tulit punctum qui miscuit utile dulci,
Lectorem delectando pariterque monendo ...
As “heresias polares” - considerar cada finalidade possível por si mes
ma - são refutadas em R. G. Collingwood, Principles o f Art, Oxford, 1938
(capítulos “Art as Magic” e “Art as Amusement”).
A própria fórmula horaciana oferece um início útil, lem
brando que a precisão no uso de termos críticos é muito recente,
se dermos aos termos horadanos uma extensão generosa o sufi
ciente para abranger a prática criativa romana e renascentista.
Não é preciso considerar que a utilidade da arte se encontra na
aplicação de uma lição moral, como Le Bossu sustentou ser a ra
zão de Homero para escrever a Ilíada ou mesmo como Hegel
descobriu na sua tragédia favorita, Antígona. “Útil” é equivalen
te a “que não é perda de tempo”, não a uma forma de “passar o
tempo”, algo que mereça atenção séria. “Doce” é equivalente a
“não aborrecimento”, “não dever”, “sua própria recompensa”.
Podemos usar esse duplo critério como base da literatura
ou trata-se antes de um critério da grande literatura? Nas dis
cussões mais antigas, as distinções entre grande, bom e “subli-
terário” raramente surgiam. Pode haver dúvida real quanto a
ser ou não a subliteratura “útil” ou “instrutiva”. Pensa-se comu-
mente em mera “fuga” ou “diversão”. Mas a questão tem de ser
respondida em termos de leitores subliterários, não de leitores
de “boa literatura”. Mortimer Adler, pelo menos, encontraria al
gum desejo rudimentar de conhecimento no interesse do me
nos intelectual leitor de romances. E, quanto à “fuga”, Kenneth
Burke lembrou-nos quão simplista pode se tomar uma acusa
ção. O sonho de fuga pode
ajudar um leitor a esclarecer o seu desgosto pelo ambiente em que
está localizado. O artista pode [...] tom ar-se “subversivo” só por
cantar, com toda inocência, o repouso à m argem do M ississippi2.
Em resposta à nossa pergunta, é provável que toda a arte
seja “doce” e “útil” aos seus usuários adequados: que o que ela
articula seja superior ao seu devaneio ou reflexão auto-induzi-
dos, que ela lhes dê prazer pela perícia com que articula o que
eles consideram como o seu próprio devaneio ou reflexão e
pela liberação que experimentam por meio dessa articulação.
2. Mortimer Adler, Art and Prudence, Nova York, 1937, p. 35 e pas
sim,; K. Burke, Counterstatement, Nova York, 1931, p. 151.
Quando uma obra de literatura funciona com sucesso, as
duas “notas” de prazer e utilidade não devem meramente coe
xistir mas fundir-se. O prazer da literatura, precisamos assina
lar, não é uma preferência entre uma longa lista de possíveis
prazeres, mas um “prazer superior” porque é prazer em um
tipo superior de atividade, isto é, a contemplação não aquisiti
va. E a utilidade - a seriedade, a instrução - da literatura é uma
seriedade prazerosa, isto é, não é a seriedade de um dever que
deve ser feito ou de uma lição a ser aprendida mas uma serieda
de estética, uma seriedade da percepção. O relativista que gos
ta de poesia moderna difícil sempre pode ignorar o julgamento
estético tomando o seu gosto uma preferência pessoal, no nível
das palavras cruzadas ou do xadrez. O educacionista pode lo
calizar falsamente a seriedade de um grande poema ou roman
ce na informação histórica que fornece ou na lição moral útil.
Outro ponto de importância: a literatura tem uma função ou
funções? No seu Primer for Critics, Boas expõe alegremente
um pluralismo de interesses e tipos correspondentes de crítica,
e, no fim do seu The Use o f Poetry and the Use o f Criticism,
Eliot insiste melancolicamente, ou pelo menos fastidiosamen
te, na “variedade da poesia” e na variedade de coisas que os ti
pos de poesia podem fazer em várias ocasiões. Mas essas são
exceções. Levar a sério arte, literatura ou poesia é, pelo menos
comumente, atribuir a cada uma delas algum uso adequado a si
mesma. Ao considerar a visão de Arnold de que a poesia podia
suplantar a religião e a filosofia, Eliot escreve: “[...] nada nes
te mundo ou no próximo é substituto de coisa nenhuma [...]” \
Isto é, nenhuma categoria real de valor tem um equivalente
real. Não há substitutos reais. Na prática, a literatura evidente
mente pode tomar o lugar de muitas coisas - da viagem ou per
manência em terras estrangeiras, da experiência direta, da vida
vicária e pode ser usada pelo historiador como documento so
cial. Mas a literatura tem um trabalho, um uso, que nenhuma
outra coisa pode fazer bem? Ou é um amálgama de filosofia, 3
3. G. Boas, Primer fo r Critics, Baltimore, 1937; T. S. Eliot, Use o f
Poetry, Cambridge, Mass, 1933, pp. 113, 155.
história, música e imagens que, em uma economia realmente
moderna, seria distribuído? Esta é a questão básica.
Os defensores da literatura acreditarão que ela não é um
sobrevivente arcaico mas uma permanência, assim como mui
tos que não são poetas nem professores de poesia e que, por
tanto, carecem do interesse profissional pela sobrevivência. A
experiência de valor singular na literatura é básica para qual
quer teoria referente à natureza do valor. Nossas teorias mutá
veis tentam progressivamente fazer mais jus à experiência.
Uma linha contemporânea afirma a utilidade e a serieda
de da poesia declarando que a poesia comunica conhecimento
- um tipo de conhecimento. A poesia é uma forma de conheci
mento. Aristóteles pareceu expressar algo assim no famoso
dito de que a poesia é mais filosófica do que a história, já que a
história “relata as coisas que aconteceram, a poesia, tal como po
diam ter acontecido”, o geral e o provável. Agora, porém, quan
do a história, como a literatura, parece uma disciplina frouxa,
mal definida, e quando a ciência é o impressionante rival, afir
ma-se antes que a literatura oferece um conhecimento das par
ticularidades de que a ciência e a filosofia não se ocupam. En
quanto um teórico neoclássico como o dr. Johnson ainda podia
pensar em poesia em termos da “grandeza da generalidade”, os
teóricos modernos de muitas escolas (por exemplo, Bergson,
Gilby, Ransom, Stace) enfatizam todos a particularidade da
poesia. Stace diz que a peça Otelo não é sobre o ciúme mas so
bre o ciúme de Otelo, o tipo particular de ciúme que poderia
sentir um mouro casado com uma veneziana4.
O caráter típico da literatura ou a particularidade: a teoria
literária e a apologética podem enfatizar um ou outro pois a li
teratura, podemos dizer, é mais
geral do que a história e a bio
grafia, porém mais particularizada do que a psicologia ou a so
ciologia. Mas não é somente na ênfase da teoria literária que
ocorrem mudanças. Na prática literária, o grau específico de
generalidade ou particularidade muda de obra para obra e de
4. W. T. Stace, The Meaning o f Beauty, Londres, 1929, p. 161.
período para período. Pilgrim e Everyman conseguem ser a
humanidade. Morose, porém, o “humorista” de Epiceno, de
Jonson, é uma pessoa muito especial e idiossincrática. O prin
cípio de caracterização na literatura sempre foi definido como
o de combinar o “tipo” com o “individual” - exibindo o tipo no
indivíduo ou o indivíduo no tipo. As tentativas de interpretar
esse princípio, ou dogmas específicos derivados dele, nao foram
muito úteis. As tipologias literárias recuam até a doutrina hora-
ciana do decoro e ao repertório de tipos da comédia romana (por
exemplo, o soldado fanfarrão, o avarento, o filho perdulário e ro
mântico, o criado confidente). Reconhecemos o tipológico no
vamente nos livros de caracteres* do século XVII e nas co
médias de Molière. Mas como aplicar o conceito de maneira
mais geral? A ama de Romeu e Julieta é um tipo? Se é, do quê?
Hamlet é um tipo? Aparentemente, para um público isabelino,
é um melancólico, como o descreveu o dr. Timothy Bright Mas
ele é muitas outras coisas também, e a sua melancolia recebe
uma gênese e um contexto particulares. Em certo sentido, o per
sonagem que é um indivíduo além de um tipo é assim consti
tuído quando se demonstra que é muitos tipos: Hamlet é tam
bém um amante, um ex-amante, um estudioso, um conhecer de
teatro, um espadachim. Todo homem é uma convergência ou
nexo de tipos - mesmo o homem mais simples. Os chamados
personagens-tipo são vistos de maneira “plana”, tal como to
dos nós vemos as pessoas com quem temos um único tipo de
relação; os personagens “redondos” combinam visões e rela
ções, são exibidos em diferentes contextos - vida pública, vida
privada, terras estrangeiras5.
Um valor cognitivo no teatro e no romance parece ser psi
cológico. “Os romancistas podem ensinar-lhe mais sobre a na
tureza humana do que o psicólogo” é uma afirmação conheci-
* Na literatura inglesa, coletâneas de ensaios breves, em prosa ou verso,
que descreviam os vários tipos possíveis de pessoa. Também conhecidas
como “livros de personagens”. (N, do R. T.)
5. “Plano” e “redondo” são termos de Aspects o f the Novel, de Forster,
Londres, 1927, pp. 103 ss.
da. Homey recomenda Dostoiévski, Shakespeare, Ibsen e Bal-
zac como fontes inesgotáveis. E. M. Forster (Aspects o f the No
vel) fala do número muito limitado de pessoas cuja vida interior
e motivações nós conhecemos e considera que o grande servi
ço do romance é revelar a vida introspectiva dos personagens6.
Presumivelmente, as vidas interiores que ele atribui aos seus
personagens são tiradas da sua própria introspecção vigilante.
Poderíamos sustentar que os grandes romances são as fontes
dos psicólogos ou que sao históricos de casos (isto é, exemplos
ilustrativos, típicos). Mas, aqui, parecemos voltar ao fato de que
os psicólogos usarão o romance apenas pelo seu valor típico ge
neralizado: eles tirarão o personagem de Père Goriot do am
biente (a Maison Vauquer) e do contexto total dos personagens.
Max Eastman, ele mesmo um poeta menor, negaria que a
“mente literária” possa, em uma era de ciência, reivindicar a des
coberta da verdade. A “mente literária” é simplesmente a men
te não especializada, amadora, dos dias pré-científicos, tentando
perdurar e tirar vantagem da sua facilidade verbal para criar a
impressão de que está emitindo as “verdades” realmente im
portantes. A verdade na literatura é o mesmo que a verdade fora
da literatura, isto é, conhecimento sistemático e publicamente
verificável. O romancista não tem nenhum atalho mágico para
esse presente estado de conhecimento nas ciências sociais que
constitui a “verdade” contra a qual deve ser confrontada a sua
realidade ficcional. Mas, então, acredita Eastman, o escritor
imaginativo - e especialmente o poeta - compreende errada
mente a si próprio se pensa na sua função primordial como a
de descobrir e comunicar conhecimento. Sua real função é fa
zer-nos perceber o que vemos, imaginar o que já conhecemos
conceituai ou praticamente7.
É difícil traçar a fronteira entre a poesia vista como per
cepção do dado e a poesia vista como “discernimento artísti-
6. Karen Homey, Self-Analysis, Nova York, 1942, pp, 38-9; Forster,
op. c it, p. 74.
7. Max Eastman, The Literary Mind: Its Place in an Age o f Science,
Nova York, 1935, esp. pp. 155 ss.
co”. O artista nos lembra do que deixamos de perceber ou nos
faz ver o que, embora estivesse ali o tempo todo, não tínhamos
visto? Lembramo-nos dos desenhos em preto-e-branco em que
há figuras ocultas ou faces compostas de pontos e linhas parti
das: estavam ali o tempo todo mas não as conseguíamos ver
como todos, como desenhos. Em Intentions, Wilde cita a des
coberta de valor estético no nevoeiro por Whistler, da desco
berta pré-rafaelita de beleza em tipos de mulheres que até en
tão não eram vistos como belos ou como tipos. São casos de
“conhecimento” ou “verdade”? Hesitamos. São descobertas de
novos “valores perceptuais”, de novas “qualidades estéticas”.
Vemos geralmente por que os estetas hesitam em negar a
“verdade” como propriedade e critério da arte8: em parte, trata-se
de um termo honorífico, e ao fazermos essa atribuição registra
mos o nosso respeito sério pela arte, a nossa compreensão da ar
te como um dos valores supremos; em parte, porque sentimos
um temor ilógico de que, se a arte não é “verdadeira”, é uma
“mentira”, como Platão violentamente a chamou. A literatura
imaginativa é uma “ficção”, uma “imitação da vida” artística, ver
bal. O oposto de “ficção” não é “verdade” mas “fato” ou “exis
tência no tempo e no espaço”. O “fato” é mais estranho do que
a probabilidade com que a literatura deve lidar9.
Entre as artes, a literatura, especificamente, parece tam
bém reivindicar “verdade” por meio da visão de vida ( Weltans-
chauung) que toda obra artisticamente coerente possui. O filó
sofo ou crítico deve achar algumas dessas “visões” mais verda
deiras do que outras (como Eliot pensa que a de Dante é mais
verdadeira do que a Shelley ou mesmo do que a de Shakespea-
re), mas qualquer filosofia de vida madura deve ter alguma
medida de verdade - seja como for, ela a reivindica. A verdade
da literatura, como a estamos considerando agora, parece ser a
verdade na literatura - a filosofia que existe, na forma concei-
8. Ver Bernard C. Heyl, New Bearings in Esthetics and Art Criticism,
New Haven, 1943, pp. 51-87.
9. Ver Dorothy Walsh, “The Cognitive Content of Art”, Philosophical
Review, LIT (1943), pp. 433-51.
tual sistemática, fora da literatura mas que pode ser aplicada à
literatura, ilustrada por ela ou incorporada a ela. Nesse sentido,
a verdade em Dante é a teologia católica e a filosofia escolás
tica. A visão de poesia de Eliot, na sua relação com a “verda
de”, parece essencialmente desse tipo. A verdade é o domínio
dos pensadores sistemáticos, e os artistas não são tais pensado
res, embora possam tentar ser se não houver nenhum filósofo
cujo trabalho consigam assimilar adequadamente10.
Toda a controvérsia parece, em grande medida, semânti
ca. O que queremos dizer com “conhecimento”, “verdade”,
“cognição”, “sabedoria”? Se toda verdade é conceituai e pro-
positiva, então as artes - mesmo a arte da literatura - não po
dem ser formas de verdade. Novamente: se as definições redu
toras positivistas são aceitas, limitando a verdade ao que pode
ser verificado metodicamente por qualquer um, então a arte
não pode ser experimentalmente uma forma de verdade. A al
ternativa a ela parece ser alguma verdade
bimodal ou plurimo-
dal: há várias “maneiras de conhecer”. Ou há dois tipos básicos
de conhecimento, cada um dos quais usa um sistema lingüísti-
co de signos: as ciências, que usam o modo “discursivo”, e as
artes, que usam o “representativo”11. Ambos são a verdade? O
primeiro é aquele ao qual os filósofos geralmente têm se refe
rido, ao passo que o segundo abrange o “mito religioso”, assim
como a poesia. Poderíamos chamar o segundo “verdadeiro” em
vez de “a verdade”. A qualidade da adjetivação expressaria a
distinção no centro do equilíbrio: a arte é substantivamente bela
e adjetivamente verdadeira (isto é, ela não entra em conflito
10. Eliot, Selected Essays, Nova York, 1932, pp. 115-17: “O poeta que
‘pensa’”, escreve Eliot, “é meramente o poeta que consegue expressar o equi
valente emocional do pensamento.[...] Toda grande poesia dá a ilusão de uma
visão de vida. Quando entramos no mundo de Homero, Sófocles ou Virgílio,
de Dante ou Shakespeare, inclinamo-nos a crer que estamos apreendendo
algo que pode ser expressado intelectualmente, pois toda emoção precisa ten
de para a formulação intelectual.”
11. Susanne K. Langer, Philosophy in a New Key, Cambridge, Mass.,
1942, “Discursive Forms and Presentational Forms”, pp. 79 ss.
com a verdade). Na sua Ars Poética, MacLeish tentou ajustar as
reivindicações da beleza literária e da filosofia por meio da fór
mula um poema é “igual a: não verdadeiro”: a poesia é tão sé
ria e importante quanto a filosofia (ciência, conhecimento, sa
bedoria) e possui a equivalência de verdade, é como a verdade.
A sra. Langer enfatiza as artes plásticas e, mais ainda, a mú
sica em vez da literatura, no seu apelo ao simbolismo represen
tativo como forma de conhecimento. Aparentemente, ela pensa
na literatura como, de alguma maneira, uma mistura de “dis
cursivo” e “representativo”. Mas o elemento mítico, ou imagens
arquetípicas, da literatura corresponderia ao seu representativo12.
Devemos distinguir as visões de que a arte é descoberta ou
discernimento da verdade do ponto de vista de que a arte - espe
cificamente a literatura - é propaganda, isto é, o ponto de vista
de que o escritor não é o descobridor mas o fornecedor persuasi
vo da verdade. O termo “propaganda” é vago e precisa de exa
me*. Na fala popular, é aplicado apenas a doutrinas tidas como
perniciosas e difundidas por homens em quem não confiamos.
A palavra sugere cálculo, intenção e geralmente é aplicada a
doutrinas ou programas específicos um tanto restritos13. Então,
limitando o sentido do termo, poderíamos dizer que certa arte (o
tipo mais baixo) é propaganda mas que nenhuma grande arte,
boa arte ou Arte pode ser. Se, porém, expandirmos o termo para
que signifique “tentativa, consciente ou não, de influenciar lei
tores para que compartilhem a nossa postura diante da vida”, en
tão é plausível a afirmação de que todos os artistas são ou de
viam ser propagandistas ou (invertendo completamente a posi
ção delineada na sentença anterior) todos os artistas sinceros,
responsáveis são moralmente obrigados a ser propagandistas.
12. Op. cit., p. 288.
* Em inglês, o termo propaganda tem caráter pejorativo, geralmente in
dicando informações de natureza tendenciosa ou enganosa usadas para promo
ver on divulgar uma determinada causa ou ponto de vista de político. (N. do T.)
13. O fato de que os bibliotecários tranquem e os censores proíbam a
venda de alguns livros não prova que só esses livros sejam propaganda, mes
mo no sentido popular. Prova, antes, que os livros proibidos são propaganda
de causas reprovadas pela sociedade vigente.
Segundo Montgmomery Belgion, o artista literário é um
“propagandista irresponsável” . Isto é, todo escritor adota um a vi
são ou teoria de vida. [...] O efeito da obra é sempre persuadir o lei
tor a aceitar essa visão ou teoria, Essa persuasão é sem pre ilícita.
Isto é, o leitor é sem pre levado a crer em alguma coisa, e esse as
sentimento é hipnótico - a arte da representação seduz o leitor [...].
Eliot, que cita Belgion, replica distinguindo “poetas nos
quais é até difícil pensar como propagandistas”, os propagan
distas irresponsáveis e um terceiro grupo, que, como Lucrécio e
Dante, são propagandistas “particularmente conscientes e res
ponsáveis”; e Eliot baseia o julgamento de responsabilidade na
intenção autoral e no efeito histórico14. “Propagandistas respon
sáveis” pareceria, para a maioria das pessoas, uma contradição
em termos mas, interpretado como tensão de impulsos, tem sua
finalidade. A arte séria implica uma visão de vida que pode ser
formulada em termos filosóficos, até mesmo em função de sis
temas15. Entre a coerência artística (o que às vezes é chamado
“lógica artística”) e a coerência filosófica há certo tipo de cor
relação. O artista responsável não tem nenhuma vontade de con
fundir emoção e pensamento, sensibilidade e intelecção, sinceri
dade de sentimento com adequação de experiência e reflexão. A
visão de vida que o artista responsável articula perceptualmente
não é simples, como a maioria das visões que conseguem su
cesso popular como “propaganda”, e uma visão adequadamen
te complexa da vida não pode, por sugestão hipnótica, impelir
à ação prematura ou ingênua.
Resta considerar as concepções da função da literatura
aglomeradas ao redor da palavra “catarse”. A palavra - grego
de Aristóteles, na Poética - tem uma longa história. A exegese
do uso que Aristóteles faz da palavra permanece em disputa,
mas o que Aristóteles pode ter desejado dizer, um problema
14. Eliot, “Poetry and Propaganda”, etn Literary Opinion in America
(org. Zabel), Nova York, 1937, pp. 25 ss.
15. Stace, op. cit., pp. 164 ss.
exegético de interesse, não precisa ser confundido com o pro
blema ao qual o termo veio a ser aplicado. A função da literatu
ra, dizem alguns, é aliviar-nos - escritores ou leitores - da pres
são das emoções. Expressar emoções é libertar-se delas, como
se diz que Goethe se libertou da Weltschmerz ao compor As
tristezas de Werther. E também se diz que o espectador de uma
tragédia ou o leitor de um romance experimentam libertação e
alívio. Suas emoções receberam foco, deixando-o, no final da
experiência estética, “com a mente calma”16.
Mas a literatura nos alivia de emoções ou, ao contrário, in
cita-as? A tragédia e a comédia, pensava Platão, “dão alimento
e bebida às nossas emoções quando devíamos secá-las”. Ou, se
a literatura nos alivia das nossas emoções, elas não são erro
neamente descarregadas quando gastas em ficções poéticas?
Santo Agostinho confessa que, quando jovem, viveu em peca
do moral; contudo, “por tudo isso não chorei, eu, que chorei
por Dido morta...”. Certa literatura é incitadora e outra é catár-
tica ou devemos distinguir entre grupos de leitores e a nature
za da sua reação17? Novamente: toda a arte deve ser catártica?
Esses são problemas a ser tratados em “A literatura e a psicolo
gia” e “A literatura e a sociedade” mas, preliminarmente, têm
de ser levantados agora.
Concluindo: a questão referente à função da literatura tem
uma longa história - no mundo ocidental, de Platão até o pre
sente. Não é uma questão instintivamente levantada pelo poeta
ou pelos que gostam de poesia; para tais, “A beleza é a sua pró
pria razão de ser”, como foi levado a dizer Emerson. A questão
é colocada, antes, por utilitaristas e moralistas, ou por estadis
tas e filósofos, isto é, pelos representantes de outros valores
especiais ou pelos árbitros especulativos de todos os valores.
16. Goethe, Dichtung m á Wahrheit, livro XIII. Collingwood (op. cit.,
pp. 121-4) distingue “expressar emoção” (arte) de “trair emoção”, uma forma
de não-arte.
17. Platão, República, X, § 606 D; Agostinho, Confissões, I, p. 21; A.
Warren, “Literature and Society”, Twentieth-Century English (org. W. S.
Knickerbocker), Nova York,
1946, pp. 304-14.
Qual é, perguntam, a utilidade da poesia, afinal - cui bonol E
fazem a pergunta na dimensão social ou humana plena. Assim
desafiado, o poeta e o leitor instintivo de poesia são forçados,
como cidadãos moral e intelectualmente responsáveis, a dar al
guma resposta racional à comunidade. Fazem isso em uma pas
sagem de xvrm Ars poética. Escrevem uma Defesa ou Apologia
da poesia: o equivalente literário do que, em teologia, é chama
do “apologética”18. Escrevendo para esse fim e para esse públi
co provável, eles naturalmente enfatizam a “utilidade” em lugar
do “deleite” da literatura e, portanto, hoje seria semanticamen
te fácil igualar a “função” da literatura a suas relações extrín
secas. Mas, a partir do movimento romântico, o poeta, muitas
vezes, quando desafiado pela comunidade, deu uma resposta
diferente: a resposta que A. C. Bradley chama de “poesia pela
poesia”19, e os teóricos fazem bem em deixar o termo “função”
servir todo o âmbito “apologético”. Ao usar a palavra assim,
dizemos, a poesia tem muitas funções possíveis. Sua função
primordial e principal é a fidelidade à sua própria natureza.
18. History o f Literary Criticism in the Renaissance, de Spingam (No
va York, ed. rev., 1924), faz o levantamento do nosso tópico sob os termos
“função” e “justificativa” da poesia.
19. A. C. Bradley, “Poetry for Poetry’s Sake”, Oxford Lectures on
Poetry, Oxford, 1909, pp. 3-34.
4. A teoria, a crítica e a
história literária
Como contemplamos uma base racional para o estudo da
literatura, devemos concluir a possibilidade de um estudo siste
mático e integrado da literatura. O inglês não oferece nenhum
nome muito satisfatório para este. Os termos mais comuns são
literary scholarship (estudos literários) e phüology (filologia).
O primeiro termo é reprovável apenas porque parece excluir a
“crítica” e enfatizar a natureza acadêmica do estudo; é aceitá
vel, sem dúvida, se interpretamos o termo scholar (estudioso,
acadêmico, pesquisador) de maneira tão abrangente como fez
Emerson. O segundo termo, “filologia”, está aberto a incom
preensões. Historicamente, foi usado para incluir não apenas
todos os estudos literários e lingüísticos mas todos os produtos
da mente humana. Embora sua maior voga tenha sido na Ale
manha do século XIX, ainda sobrevive nos títulos de publica
ções como Modern Philology, Philological Quarterly e Studies
in Philology. Boeckh, que escreveu uma fundamental Ency-
klopãdie und Methodologie der philologischen Wissenschaften
(1877, mas baseada em conferências dadas desde 1809)1, defi
niu “filologia” como o “conhecimento do conhecido” e, portan
to, o estudo da linguagem e das literaturas, das artes e da polí
tica, da religião e dos costumes sociais. Praticamente idêntica
à história literária de Greenlaw, a filologia de Boeckh é obvia
mente motivada pelas necessidades dos estudos clássicos, para
1. Philip August Boeckh, Encyklopädie und Methodologie der philolo
gischen Wissenschaften. Leipzig, 1877 (2?ed., 1886).
os quais o auxílio da história e da arqueologia parecem parti
cularmente necessários. Com Boeckh, o estudo literário é ape
nas um ramo da filologia, compreendida como uma ciência to
tal da civilização, particularmente uma ciência do que ele, com
o romantismo alemão, denominou “Espírito Nacional”. Hoje,
por causa da sua etimologia e de boa parte do atual trabalho dos
especialistas, muitas vezes compreende-se a filologia como
linguística, especialmente a gramática histórica e o estudo das
formas passadas das línguas. Como o termo tem tantos e tão
divergentes significados, é melhor abandoná-lo.
Outro termo possível para o trabalho do estudioso da lite
ratura é research (pesquisa), Mas este parece particularmente
infeliz pois enfatiza meramente a busca preliminar de materiais
e traça, ou parece traçar, uma distinção insustentável entre os
materiais que têm de ser “pesquisados” e os que estão facilmen
te disponíveis. Por exemplo, é “pesquisa” quando visitamos o
Museu Britânico para ler um livro raro, ao passo que ficar em
casa, em uma poltrona, lendo uma reimpressão do mesmo li
vro aparentemente envolve um processo mental diferente. No
máximo, o termo “pesquisa” sugere certas observações prelimi
nares, cuja extensão e natureza irão variar muito com a natureza
do problema. Não denota com clareza, porém, as sutis preocu
pações com interpretação, caracterização e avaliação, que são pe
culiarmente características dos estudos literários.
No nosso “estudo adequado”, as distinções entre teoria,
crítica e história literária são, claramente, as mais importantes.
Há, primeiro, a distinção entre a literatura vista como ordem
simultânea e a literatura vista primordialmente como uma série
de obras dispostas em ordem cronológica e como partes inte
grais do processo histórico. Há, então, a distinção adicional en
tre o estudo dos princípios e critérios da literatura e o estudo das
obras de arte literárias concretas, quer as estudemos isolada
mente, quer em uma série cronológica. Ela parece ressaltar mais
essas distinções ao descrever como “teoria literária” o estudo
dos princípios da literatura, das suas categorias, critérios, etc.,
e diferenciar os estudos de obras de arte concretas como “críti
ca literária” (de abordagem principalmente estática) ou “histó-
ria literária”. Naturalmente, o termo “crítica literária” muitas ve
zes é usado de maneira que inclua toda a teoria literária, mas tal
uso ignora uma distinção útil. Aristóteles foi um teórico; Saint-
Beuve, um crítico, acima de tudo. Kenneth Burke é, em grande
parte, um teórico literário, ao passo que R. P. Blackmur é um crí
tico literário. O termo “teoria da literatura” poderia muito bem
incluir - como faz este livro - as necessárias “teoria da crítica
literária” e “teoria da história literária”.
Essas distinções são razoavelmente óbvias e têm aceitação
bem ampla. Menos comum, porém, é a percepção de que os mé
todos assim designados não podem ser usados isoladamente, que
estão de tal maneira entrelaçados que tomam inconcebíveis a
teoria literária sem a crítica ou a história, a crítica sem a teoria
e a história ou a história sem a teoria e a crítica. Obviamente, a
teoria literária é impossível, exceto com base em um estudo de
obras literárias concretas. Não podemos chegar a critérios, cate
gorias e esquemas in vacuo. Inversamente, porém, nenhuma crí
tica ou história é possível sem algum conjunto de questões, al
gum sistema de conceitos, alguns pontos de referência, algu
mas generalizações. Naturalmente, não se trata aqui de nenhum
dilema insuperável: toda vez que lemos temos algumas idéias
preconcebidas e sempre mudamos e modificamos essas percep
ções depois de mais experiência com obras literárias. O pro
cesso é dialético: uma interpenetração mútua de teoria e prática.
Houve tentativas de isolar a história literária da teoria e da
crítica. Por exemplo, F. W. Bateson2 argumentou que a história
literária demonstra que A deriva de B, ao passo que a crítica
pronuncia que A é melhor do que B. O primeiro tipo, segundo
essa visão, lida com fatos verificáveis; o segundo, com ques
tões de opinião e fé. Essa distinção, porém, é inteiramente in
sustentável. Simplesmente não há dados na história literária
que sejam “fatos” completamente naturais. Há julgamentos de
valor implícitos na própria escolha de materiais: na distinção
preliminar entre livros e literatura, na mera alocação de espaço
2. F. W. Bateson, “Correspondence”, Scrutiny, IV (1935), pp. 181-5.
a este ou àquele autor. Mesmo a verificação de uma data ou tí
tulo pressupõe algum tipo de julgamento, um que seleciona es
te livro ou acontecimento específico dentre os milhões de outros
livros e acontecimentos. Mesmo reconhecendo que há fatos re
lativamente neutros, fatos como datas, títulos, acontecimentos
biográficos, tudo o que reconhecemos é a possibilidade de com
pilar os anais da literatura. Contudo, qualquer questão um pouco
mais avançada, mesmo uma questão de crítica textual ou de fon
tes e influências, exige atos constantes de julgamento. Um enun
ciado como, por exemplo, “Pope deriva de Dryden” não apenas
pressupõe o ato de selecionar Dryden e Pope dentre os inúme
ros versificadores da época mas exige um conhecimento das
características de Dryden e Pope e, então, uma atividade cons
tante de pesagem, comparação e seleção, que é essencialmente
crítica. A questão da colaboração de Beaumont e Fletcher é in
solúvel, a menos que aceitemos um princípio importante como
o de que certos traços (ou recursos) estilísticos relacionam-se
com um, não com o outro dos dois autores; do contrário, temos
de aceitar as diferenças estilísticas meramente como naturais.
Geralmente, porém, a argumentação a favor de isolar a his
tória literária da crítica literária assenta-se em fundamentos di
ferentes. Não se nega que sejam necessários atos de julgamento
mas argumenta-se que a história literária tem os seus próprios
padrões e critérios peculiares, isto é, os de outras épocas. De
vemos, argumentam esses reconstrucionistas literários, entrar
no espírito e nas posturas dos períodos passados e aceitar os
seus padrões, excluindo deliberadamente a intrusão dos nossos
preconceitos. Essa visão, chamada “historicismo”, foi elabora
da coerentemente na Alemanha durante o século XIX, embora,
mesmo lá, tenha sido criticada por teóricos históricos eminen
tes como Emst Troeltsch3. Parece agora ter penetrado direta ou
indiretamente na Inglaterra e nos Estados Unidos, e muitos dos
nossos “historiadores literários” professam mais ou menos sua
adesão a ela. Hardin Craig, por exemplo, disse que a mais nova
3. Ernst Troeltsch, Der Historismus und seine Probleme, Tübingen,
1922; Der Historismus und seine Überwindung, Berlim, 1924.
e melhor fase da erudição recente é a “esquiva ao pensamento
anacrônico”4. E. E. Stoll, ao estudar as convenções do palco
isabelino e as expectativas do seu público, trabalha sobre a teo
ria de que a reconstrução da intenção do autor é o propósito
central da história literária5. Alguma teoria desse tipo está im
plícita nas muitas tentativas de estudar as teorias psicológicas
isabelinas, tal como a doutrina dos humores ou das concepções
científicas ou pseudocientíficas dos poetas6. Rosemond Tuve
tentou explicar a origem e o significado das imagens dos meta
físicos referindo-se à instrução de Dorme e seus contemporâ
neos na lógica ramista7.
Como tais estudos não podem senão nos convencer de que
períodos diferentes nutriram concepções e convenções críticas
diferentes, concluiu-se que cada época é uma unidade contida
em si mesma, expressada através do seu próprio tipo de poesia,
incomensurável com qualquer outra. Essa visão foi exposta sin
cera e persuasivamente por Frederick A. Pottle no seu Idiom o f
Poetry8. Ele chama a sua posição de “relativismo crítico” e fala
de profundas “mudanças de sensibilidade”, de uma “total des-
continuidade” na história da poesia. Sua exposição é mais va
liosa quando ele a combina com uma aceitação de padrões ab
solutos na ética e na religião.
4. Hardin Craig, Literary Study and the Scholarly Profession, Seattle,
Wash., 1944, p. 70. Ver também pp. 126-7: “A última geração decidiu, um
tanto inesperadamente, que descobrirá o significado e os valores dos próprios
autores antigos e juntou a crença à idéia, por exemplo, de que o significado de
Shakespeare é o maior de todos os significados shakespearianos”.
5. Por exemplo, em Poets and Playwrights, Minneapolis, 1930, p. 217,
e From Shakespeare to Joyce, Nova York, 1944, p. ix.
6. Por exemplo, em Lily Campbell, Shakespeare’s Tragic Heroes: Sla
ves o f Passion, Cambridge, 1930; também Oscar J. Campbell, “What is the
Matter with Hamlet?”, Yale Review, XXXII (1942), pp. 309-22. Stoll abraça
uma variedade diferente de historicismo, que insiste em reconstruir conven
ções do palco mas ataca a reconstrução de teorias psicológicas. Ver “Jaques
and the Antinquaries”, From Shakespeare to Joyce, pp. 138-45.
7. “Imagery and Logic: Ramus and Metaphysical Poetics”, Journal o f
the History o f Ideas, III (1942), pp. 365-400.
8. F. A, Pottle, The Idiom o f Poetry, Ithaca, N. Y. 1941 (2?ed., 1946).
No que tem de melhor, essa concepção de “história literá
ria” exige um esforço de imaginação, de “empatia”, de conge-
nialidade profunda com uma época passada ou um gosto desa
parecido. Fizeram-se esforços bem-sucedidos de reconstruir a
visão geral de vida, as posturas, concepções, preconceitos e su
posições subjacentes de muitas civilizações. Sabemos um bo
cado sobre a postura grega diante dos deuses, das mulheres e dos
escravos; podemos descrever detalhadamente a cosmologia da
Idade Média e há tentativas de demonstrar a maneira muito di
ferente de ver ou, pelo menos, as tradições e convenções artís
ticas muito diferentes sugeridas pela arte bizantina e pela arte
chinesa. Especialmente na Alemanha, há uma pletora de estu
dos, muitos deles influenciados por Spengler, sobre o homem
gótico, o homem barroco - todos, como devem ser, nitidamen
te destacados do nosso tempo, vivendo em um mundo próprio.
No estudo da literatura, essa tentativa de reconstrução his
tórica levou à grande ênfase na intenção do autor, que, supõe-
se, pode ser estudada na história da crítica e do gosto literário.
Supõe-se, geralmente, que se podemos verificar essa intenção
e podemos perceber que o autor a cumpriu, também podemos
nos desembaraçar do problema da crítica. O autor serviu um pro
pósito contemporâneo e não há nenhuma necessidade ou mes
mo possibilidade de crítica adicional ao seu trabalho. O méto
do, assim, leva ao reconhecimento de um único padrão crítico,
o do sucesso contemporâneo. Há, então, não apenas uma, mas
duas centenas de concepções independentes, diversas e mutua
mente exclusivas de literatura, cada uma delas “correta” de al
guma maneira. O ideal da poesia é partido em tantos pedaços
que nada resta dele: o resultado deve ser uma anarquia geral ou,
antes, um nivelamento de todos os valores. A história da litera
tura é reduzida a uma série de fragmentos distintos e, portanto,
finalmente, incompreensíveis. Uma forma mais moderada é
a visão de que existem ideais poéticos polares que são tão di
ferentes que não há nenhum denominador comum entre eles:
classicismo e romantismo, o ideal de Pope e o de Wordsworth,
a poesia da afirmação e a poesia da sugestão.
Toda a idéia de que a “intenção” do autor é o tema adequa
do da história literária parece, contudo, bastante errada. O sig
nificado de uma obra de arte não se esgota na sua intenção nem
equivale a ela. Como sistema de valores, conduz a uma vida in
dependente. O significado total de uma obra de arte não pode
ser definido meramente em função do seu significado para o
autor e os seus contemporâneos. Trata-se, antes, do resultado
de um processo de adição, isto é, a história da crítica pelos seus
muitos leitores em muitas épocas. Parece desnecessário e efe
tivamente impossível declarar, como fazem os reconstrucionis-
tas históricos, que todo esse processo é irrelevante e que de
vemos retornar apenas ao seu começo. Simplesmente não é
possível deixarmos de ser homens do século XX enquanto nos
ocupamos de um julgamento do passado: não podemos esque
cer as associações da nossa linguagem, das nossas posturas
adquiridas, do impacto e da importância dos últimos séculos.
Não podemos nos tornar leitores contemporâneos de Homero
ou Chaucer nem membros do público do teatro de Dioniso, em
Atenas, ou do Globe, em Londres. Sempre haverá uma dife
rença decisiva entre um ato de reconstrução imaginativa e a
participação efetiva em um ponto de vista passado. Não pode
mos realmente acreditar em Dioniso e rir dele ao mesmo tem
po, como possivelmente fez o público das Bacantes de Eurípe-
des9, e poucos de nós podem aceitar os círculos do inferno e a
montanha do purgatório como verdade literal. Se conseguísse
mos realmente reconstruir o significado que Hamlet tinha para
o seu público contemporâneo, só o faríamos empobrecer. Su
primiríamos os significados legítimos que as últimas gerações
encontraram em Hamlet. Excluiríamos a possibilidade de uma
nova interpretação. Isto não é um apelo a favor de leituras errô
neas subjetivas e arbitrárias: o problema de uma distinção entre
leituras “corretas” e erradas permanecerá e precisará de uma
solução em todo caso específico. O estudioso da história não
se contentará com julgar uma obra de arte meramente do pon
to de vista do seu próprio tempo - um privilégio do crítico pra
9. O exemplo vem de Harold Cherniss, “The Biographical Fashion in
Literary Criticism", University o f California Publications in Classical Philo
logy, XII (1943), pp. 279-93.
ticante, que reavaliará o passado em função das necessidades
de um estilo ou movimento do presente. Pode até ser instrutivo
para ele olhar uma obra de arte do ponto de vista de um tercei
ro tempo, nem contemporâneo dele nem do autor, ou fazer o
levantamento de toda a história da interpretação e da crítica de
uma obra, que lhe servirá como guia do significado total.
Na prática, tais escolhas nítidas entre o ponto de vista his
tórico e o presente não são praticáveis. Devemos nos precaver
tanto contra o falso relativismo como contra o falso absolutis
mo. Os valores originam-se do processo histórico de valoração
que, por sua vez, eles nos ajudam a compreender. A resposta
ao relativismo histórico não é um absolutismo doutrinário, que
recorre à “natureza humana imutável” ou à “universalidade da
arte”. Devemos, antes, adotar uma visão para a qual o termo
“perspectivismo” parece adequado. Devemos poder relacionar
uma obra de arte aos valores do seu tempo e de todos os perío
dos subseqüentes ao seu. Uma obra de arte é tanto “eterna”
(isto é, preserva certa identidade) como “histórica” (isto é, pas
sa por um processo de desenvolvimento que pode ser investi
gado). O relativismo reduz a história da literatura a uma série
de fragmentos distintos e, portanto, descontínuos, ao passo que
a maioria dos absolutismos serve apenas uma situação transi
tória do presente ou se baseia (como os padrões dos novos
humanistas, dos marxistas e dos neotomistas) em algum ideal
abstrato não-literário, injusto para com a variedade histórica da
literatura. “Perspectivismo” significa que reconhecemos a exis
tência de uma poesia, uma literatura, comparável em todas as
épocas, desenvolvendo-se, mudando, cheia de possibilidades.
A literatura não é nem uma série de obras únicas, sem nada em
comum, nem uma série de obras encerradas em círculos tem
porais de romantismo e classicismo, da era de Pope e da era de
Wordsworth. Tampouco, naturalmente, é o “universo-monolí
tico” da igualdade e da imutabilidade que o classicismo mais
antigo concebia como ideal. Tanto o absolutismo como o rela
tivismo são falsos, mas o perigo mais insidioso hoje, pelo me
nos na Inglaterra e nos Estados Unidos, é o relativismo equiva
lente à anarquia de valores, à renúncia dá tarefa da crítica.
Na prática, nunca se escreveu uma história literária sem
alguns princípios de seleção e certa tentativa de caracterização
e avaliação. Os historiadores literários que negam a importân
cia da crítica são, eles próprios, críticos inconscientes, que me
ramente assumiram padrões e reputações tradicionais. Geral
mente, hoje, são românticos tardios que fecharam suas mentes
a todos os outros tipos de arte e, em especial, à literatura mo
derna. Mas, como disse com pertinência R. G. Collingwood,
um homem “que afirma saber o que toma Shakespeare um
poeta está afirmando tacitamente que sabe se a srta. Stein é
uma poetisa e, se não, por que não”10.
A exclusão da literatura no estudo sério foi uma conse-
qüência especialmente má dessa postura “erudita”. O termo lite
ratura “moderna” costumava ser interpretado com tanta amplitu
de pelos acadêmicos que praticamente nenhuma obra depois de
Milton era considerada um objeto de estudo inteiramente respei
tável. Desde então, o século XVIII foi aceito como história lite
rária convencional de boa reputação, já que parece oferecer uma
fuga para um mundo mais gracioso, mais estável e mais hierár
quico. O período romântico e o final do século XIX também es
tão começando a receber a atenção dos estudiosos, e há mesmo
alguns homens intrépidos, em posições acadêmicas, que defen
dem e praticam o estudo erudito da literatura contemporânea.
A única objeção possível contra o estudo de autores vivos
é o argumento de que o estudante perde a perspectiva da obra
completa, da explicação que trabalhos posteriores podem dar
às implicações do primeiro. Mas essa desvantagem, válida ape
nas para autores em desenvolvimento, parece pequena quando
comparada com as vantagens que temos por conhecer o am
biente e o tempo e com as oportunidades de conhecimento e
indagação pessoal ou, pelo menos, de correspondência. Se vale
a pena estudar muitos autores de segunda ou mesmo de décima
categoria do passado, também vale a pena estudar um autor de
10. R. G. Collingwood, Principles o f Art, Oxford, 1938, p. 4. Como ob
serva Allen Tate: “O estudioso que nos diz que compreende Dryden, mas nada
de Hopkins ou Yeats, está nos dizendo que não compreende Dryden”, em “Miss
Emily and the Bibliographer” {Reason in Madness, Nova York, 1941, p. 115).
primeira ou mesmo de segunda categoria do nosso próprio tem
po. Geralmente é por falta de percepção ou por timidez que os
acadêmicos relutam em julgar por si mesmos. Professam espe
rar o “veredicto das eras”, não percebendo que esse nada mais
é que o veredicto de outros críticos e leitores, inclusive outros
professores. Toda a suposta imunidade do historiador literário
à crítica e à teoria é inteiramente falsa e por uma razão sim
ples: toda obra de arte existe agora, é diretamente acessível à
observação e é uma solução de certos problemas artísticos, quer
tenha sido composta ontem, quer tenha sido composta há mil
anos. Ela não pode ser analisada, caracterizada ou avaliada sem
o recurso constante a princípios críticos. “O historiador literá
rio deve ser um crítico até mesmo para ser um historiador.”n
Inversamente, a história literária também é altamente im
portante para a crítica literária tão logo esta ultrapassa o pro
nunciamento mais subjetivo do “gosto” e “não gosto”. Um crí
tico que se contentasse em ignorar todas as relações históricas
iria se perder constantemente nos seus julgamentos. Não pode
ria saber qual obra é original e qual é derivativa, e, pela sua ig
norância das condições históricas, erraria constantemente na
compreensão de obras de arte específicas. O crítico com pouca
ou nenhuma história inclina-se a fazer adivinhações desleixa
das ou permitir-se “aventuras entre obras-primas” autobiográ
ficas e, no todo, evitará ocupar-se do passado mais remoto,
deixando-o com satisfação ao antiquário e ao “filólogo”.
Um caso assim é a literatura medieval, especialmente a
literatura medieval inglesa, que - com a possível exceção de
Chaucer - não foi abordada a partir de nenhum ponto de vista
estético e crítico. A aplicação da sensibilidade moderna daria
uma perspectiva diferente a boa parte da poesia anglo-saxã ou
à rica poesia lírica medieval, assim como, inversamente, uma
introdução de pontos de vista históricos e um exame sistemáti
co dos problemas genéticos poderiam lançar muita luz sobre a
literatura contemporânea. O divórcio comum entre crítica lite
rária e história literária tem sido prejudicial para ambas.
11. Norman Foerster, The American Scholar,
Chapei Hill, 1929, p. 36.
5. Literatura geral, literatura
comparada e literatura nacional
Dentro dos estudos literários, distinguimos teoria, história e
crítica. Usando outra base de divisão, tentaremos agora uma defi
nição sistemática de literatura comparada, literatura geral e litera
tura nacional. O termo literatura “comparada” é problemático e,
sem dúvida, essa é uma das razões pelas quais esse importante
modo de estudo literário teve menos do que o sucesso acadê
mico esperado. Matthew Amold, ao traduzir o uso de Ampère de
histoire comparative, aparentemente foi o primeiro a usar o termo
em inglês (1848). Os franceses preferiram o termo usado anterior
mente por Villemain, que falara de Httérature comparée (1829),
por analogia com a Anatomie comparée de Cuvier (1800). Os ale
mães falam de vergleichende Literaturgeschichte1. Nao obstante,
nenhum desses adjetivos diferentemente formados é muito escla
recedor, já que a comparação é um método usado por toda crítica e
ciência e não descreve adequadamente, de nenhuma maneira, os
procedimentos específicos do estudo literário. A comparação for
mal entre literaturas - ou mesmo movimentos, figuras e obras -
raramente é um tema central na história literária, embora um livro
como Minuet, de E C. Green2, comparando aspectos das literatu
ras francesa e inglesa no século XVIII, possa ser esclarecedor ao
definir não apenas paralelos e afinidades mas também divergên
cias entre o desenvolvimento literário de uma nação e o da outra.
Na prática, o termo literatura “comparada” abrangeu e ain
da abrange campos de estudo e grupos de problemas razoavel
1. Ver Fernand Baldensperger, “Littérature comparée: Le mot e la cho
se”, Revue de littérature comparée, 1 (1921), pp. 1-29,
2. F. C. Green, Minuet, Londres, 1935.
mente distintos. Pode significar, primeiro, o estudo da literatu
ra oral, especialmente de temas do conto popular e da sua mi
gração, de como e quando entraram na literatura “superior”,
“artística”. Esse tipo de problema pode ser relegado ao folclo
re, um importante ramo do conhecimento que só em parte se
ocupa dos fatos estéticos, já que estuda a civilização total de
um “povo” (folk), os seus costumes e hábitos, superstições e fer
ramentas, assim como as suas artes. Devemos, porém, endos
sar a visão de que o estudo da literatura oral é parte integral
dos estudos literários pois ele não pode ser separado do estudo
de obras escritas e porque houve e ainda há uma interação con
tínua entre a literatura oral e a literatura escrita. Sem ir ao ex
tremo de folcloristas como Hans Naumann3, que considera a
maior parte da literatura oral tardia gesunkenes Kulturgut, po
demos reconhecer que a literatura escrita da classe superior
afetou profundamente a literatura oral. Por outro lado, devemos
supor a origem popular de muitos gêneros e temas literários
básicos e temos indícios abundantes da ascensão social da lite
ratura popular. Ainda assim, a incorporação ao folclore do ro
mance cavaleiresco e da lírica trovadoresca é um fato indubitá
vel. Essa visão, contudo, teria chocado os românticos, que acre
ditavam na criatividade do povo e na antiguidade remota da arte
popular, não obstante as baladas populares, contos de fadas e
lendas, tal como os conhecemos, serem ffeqüentemente de ori
gem tardia e derivados da classe superior, No entanto, o estudo
da literatura oral deve ser um interesse importante de todo es
tudioso de literatura que queira compreender o processo do de
senvolvimento literário, a origem e a ascensão dos nossos gê
neros e esquemas literários. É lamentável que o estudo da lite
ratura oral tenha, até agora, se preocupado tão exclusivamente
com o estudo dos temas e das suas migrações de país para país,
isto é, com os materiais brutos das literaturas modernas4. Ulti-
3. Hans Naumann, Primitive Gemeinschaftskultur, Jena, 1921.
4. Inteiramente irrelevantes para o estudo de Shakespeare são os parale
los de todo o mundo da história de Hamlet, reunidos no Corpus Hamleticum,
de Schick, 5 vols., Berlim, 1912-38.
mamente, porém, os folcloristas têm voltado a sua atenção cada
vez mais para o estudo de padrões, formas e esquemas, para uma
morfologia das formas literárias, para os problemas do conta
dor, do narrador e do público do conto, preparando assim o ca
minho para uma integração íntima dos seus estudos em uma
concepção geral de erudição literária5. Embora o estudo da li
teratura oral tenha os seus problemas peculiares, os da trans
missão e cenário social6 7, os seus problemas fundamentais, sem
dúvida, são compartilhados com a literatura escrita, e há uma
continuidade entre a literatura oral e a escrita que nunca se in
terrompeu. Os estudiosos das modernas literaturas européias
negligenciaram essas questões em desvantagem própria, ao pas
so que os historiadores da literatura nos países eslavos ou es
candinavos, onde o folclore ainda está vivo - ou estava até re
centemente - , tiveram contato muito mais próximo com esses
estudos. Mas “literatura comparada” não é o termo adequado
para designar o estudo da literatura oral.
Outro sentido de literatura “comparada” liraita-a ao estudo
das relações entre duas ou mais literaturas. Esse é o uso estabe
lecido pela florescente escola dos comparatistes franceses, en
cabeçados por Fernand Baldensperger e reunidos em tomo da
Revue de Littérature comporêe\ A escola tem dado atenção es
pecial, às vezes mecanicamente mas, às vezes, com considerá
vel fineza, a questões como a reputação e a penetração, a in-
5. Isso é verdadeiro quanto ao trabalho de Alexander Veselovsky, que
data da década de 1870, ao trabalho posterior de J. Polívka sobre contos de
fadas russos e aos escritos de Gerhard Gesemann sobre a epopéia iugoslava
(por exemplo, Studien zur südslavischen Volksepik, Reichenberg, 1926). Ver
a descrição instrutiva de Margaret Schlauch, “Folklore in the Soviet Union”,
Science and Society, (1944), pp. 205-22; Stith Thompson, The Folktale, Nova
York, 1946; Vladimir I. Propp, Morphology of the Folk-Tale, trad. Laurence
Scott, Bloomington, Indiana, 1958; Albert B, Lord, The Singer of Tales,
Cambridge, Mass,, 1960.
6. Ver P. Bogatyrev e Roman Jakobson, “Die Folklore als eine beson
dere Form des Schaffens", Donum Natalicium Schrijnen, Nijmegen, Utrecht,
1929, pp. 900-13. Este ensaio parece enfatizar em excesso a distinção entre
literatura popular e literatura mais elevada.
7. Ver bibliografia.
fluência e a fama de Goethe na França e na Inglaterra, de Os-
sian, Carlyle e Schiller na França. Desenvolveu uma metodolo
gia que, indo além da coleta de informações referentes a rese
nhas, traduções e influências, considera cuidadosamente a ima
gem, o conceito de um autor particular em um tempo particular
e fatores de transmissão diversos como periódicos, tradutores,
salões e viajantes, e o “fator receptor”, a atmosfera especial e a
situação literária em que o autor estrangeiro é importado. No
total, acumularam-se muitos testemunhos a favor da íntima
unidade das literaturas da Europa ocidental, e o nosso conheci
mento do “comércio exterior” das literaturas foi incomensura-
velmente aumentado.
Contudo, essa concepção de “literatura comparada” tem
também, reconhecemos, as suas dificuldades peculiares8. Ne
nhum sistema distinto, parece, pode surgir do acúmulo de tais
estudos. Não há nenhuma distinção metodológica entre um es-'
tudo de “Shakespeare na França” e um estudo de “Shakespea
re na Inglaterra do século XVHI” ou entre um estudo da in
fluência de Poe sobre Baudelaire e um da influência de Dryden
sobre Pope. As comparações entre literaturas, se isoladas do
interesse pelas literaturas nacionais totais, tendem a restringir-
se a problemas externos de fontes e influência, reputação e fa
ma. Tais estudos não nos permitem analisar e julgar uma obra
de arte individual
ou mesmo considerar o todo complicado da
sua gênese; em vez disso, dedicam-se principalmente aos ecos de
uma obra-prima, como traduções e imitações, muitas vezes por
autores de segunda categoria, ou à pré-história de uma obra-pri
ma, às migrações e à difusão dos seus temas e formas. A ênfa
se da “literatura comparada” assim concebida está nos elemen
tos externos, e o declínio desse tipo de “literatura comparada”
8. Ver “La letteratura comparata”, de Benedetto Croce, em Problemi ãi
estetica, Bari, 1910, pp. 73-9, que teve origem no primeiro número do Jour
nal o f Comparative Literature, de curta duração, de George Woodberry,
Nova York, 1903; ver R. Wellek, “The Crisis o f Comparative Literature” em
Comparative Literature. Proceedings o f the Second Congress o f the Interna
tional Comparative Literature Association, org. W. P, Friederich, Chapel
Hill, 1959, vol. l,pp . 149-59.
em décadas recentes reflete o abandono geral da ênfase em
meros “fatos”, em fontes e influências.
Uma terceira concepção previne, porém, todas essas críti
cas, ao identificar “literatura comparada” com o estudo da lite
ratura na sua totalidade, com “literatura mundial”, com literatura
“geral” ou “universal”. Há certas dificuldades com essas equa
ções sugeridas. O termo “literatura mundial”, uma tradução de
Weltlitemtur9, talvez seja desnecessariamente grandioso, suge
rindo que a literatura deveria ser estudada em todos os cinco
continentes, da Nova Zelândia à Islândia. Goethe, efetivamen
te, não tinha tal coisa em mente. “Literatura mundial” foi usa
do por ele para indicar um tempo em que todas as literaturas se
tornariam uma. É o ideal da unificação de todas as literaturas
em uma grande síntese, em que cada nação desempenharia a sua
parte em um concerto universal. Mas o próprio Goethe perce
beu que esse é um ideal muito distante, que nenhuma nação está
disposta a renunciar a sua individualidade. Hoje, talvez esteja
mos mais afastados ainda de tal estado de amálgama e argu
mentaríamos que nem sequer podemos desejar seriamente que
as diversidades das literaturas nacionais sejam obliteradas. “Li
teratura mundial” é freqüentemente usado em um terceiro sen
tido. Pode significar o grande tesouro de clássicos, como Ho
mero, Dante, Cervantes, Shakespeare e Goethe, cuja reputação
se espalhou por todo o mundo e durou um tempo considerável.
Assim, tornou-se um sinônimo para “obras-primas”, para uma
seleção da literatura que tem a sua justificativa crítica e peda
gógica mas não pode satisfazer o estudioso, que não pode limi
tar-se aos grandes picos se quiser compreender as cadeias de
montanhas por inteiro ou, descartando a figura, toda a história
e as mudanças.
O termo possivelmente preferível, “literatura geral”, tem
outras desvantagens. Originalmente, foi usado para significar
poética ou teoria e princípios de literatura e, em décadas recen
9. Gespräche mit Eckermann, és Goethe, 31 de janeiro de 1827; Kunst
und Altertum (1827); Werke, Jubiläumsausgabe, vol. XXXVIII, p. 97 (rima
resenha d s Le tasse, de Duval).
tes, Paul Van Tieghen10 tentou capturá-lo para uma concepção
especial, em contraste com “literatura comparada”. Segundo
ele, a “literatura geral” estuda os movimentos e modas da lite
ratura que transcendem as fronteiras nacionais, ao passo que a
“literatura comparada” estuda as inter-relações entre duas ou
mais literaturas. Mas como podemos determinar se, por exem
plo, o ossianismo é um tópico da “literatura geral” ou da “lite
ratura comparada”? Não podemos fazer uma distinção válida
entre a influência de Walter Scott no exterior e a voga interna
cional do romance histórico. Literatura “geral” e literatura “com
parada” mesclam-se inevitavelmente. Talvez fosse melhor fa
lar simplesmente de “literatura”.
Quaisquer que sejam as dificuldades em que possa incor
rer uma concepção de história literária universal, é importante
pensar na literatura como uma totalidade e seguir o crescimen
to e desenvolvimento da literatura sem considerar distinções lin-
güísticas. O grande argumento a favor da literatura “comparada”
ou “geral”, ou simplesmente “literatura”, é a evidente falsida
de da idéia de uma literatura nacional fechada em si mesma. A
literatura ocidental, pelo menos, forma uma unidade, um todo.
Não podemos duvidar da continuidade entre a literatura greco-
romana, o mundo medieval ocidental e as principais literatu
ras modernas, e, sem minimizar a importância das influências
orientais, especiaímente da Bíblia, devemos reconhecer uma
unidade íntima, que inclui toda a Europa, a Rússia, os Estados
Unidos e as literaturas latino-americanas. Esse ideal foi con
templado e, dentro dos seus meios limitados, cumprido pelos
fundadores da história literária no início do século XIX: ho
mens como os Schlegels, Bouterwek, Sismondi e Hallam11. Mas,
10. Paul Van Tieghem, “La synthèse en histoire littéraire: littérature
comparée et littérature générale”, Revue de synthèse historique, XXXI
(1921), pp. 1-27; Robert Petsch, “Allgemeine Literaturwissenschaft”, Zeit
schrift fö r Ästhetik, XXVIII (1934), pp. 254-60.
11. August Wilhelm Schlegel, Über dramatische Kunst und Literatur, 3
vols., Heidelberg, 1809-11; Friedrich Schlegel, Geschichte der alten und
neuen Literatur, Viena, 1815; Friedrich Bouterwek, Geschichte der Poesie
und Beredsamkeit seit dem Ende des dreizehnten Jahrhunderts, 13 vols.,
então, o desenvolvimento do nacionalismo, combinado com o
efeito da especialização crescente, levou a um cultivo provin
ciano, cada vez mais restrito do estudo das literaturas nacionais.
Durante a segunda metade do século XIX, o ideal de uma his
tória literária universal foi, porém, revivido sob a influência do
evolucionismo. Os primeiros praticantes da “literatura compa
rada” foram folcloristas, etnógrafos que, em boa parte sob a
influência de Herbert Spencer, estudaram as origens da literatu
ra, a sua diversificação nas formas literárias orais e a sua emer
gência na epopéia, no teatro e na lírica primitivos* 12. O evolucio-
nísmo, porém, deixou alguns traços na história das literaturas
modernas e aparentemente caiu em descrédito quando aproxi
mou excessívamente o paralelo entre a mudança literária e a evo
lução biológica. Com ele, o ideal da história literária universal
declinou. Felizmente, em anos recentes, há muitos sinais que au
guram um retomo à ambição de uma historiografia literária ge
ral. European Literature and the Latin Middle Ages, de Ernst
Robert Curtius (1948), que investiga lugares-comuns ao longo
de toda a tradição ocidental com uma erudição estupenda, e Mi-
mesis, de Erich Auerbach (1946), uma história do realismo de
Homero a Joyce, baseada em análises estilísticas sensíveis de
passagens individuais13, são conquistas de erudição que demons
Göttingen, 1801-19; Simonde de Sismondi, De la littérature du midi de l'Eu
rope, 4 vols., Paris, 1813; Henry Hallam, An Introduction to the Literature o f
the Fifteenth, Sixteenth and Seventeenth Centuries, 4 vols., Londres, 1836-9.
12. Na Alemanha, H. Steinthal, o fundador da Zeitschrift für Völkerpsy
chologie (desde I860) parece ter sido o primeiro a aplicar sistematicamente os
princípios evolutivos ao estudo literário. A. Veselovski, que, na Rússia, fez
uma tentativa enormemente erudita de “poética evolutiva”, foi aluno de Stein-
thal. Na França, os conceitos evolucionistas são proeminentes, por exemplo,
em Édélestand du Méril, Histoire de la comédie, 2 vols., 1864. Brunetière
aplicou-os às literaturas modernas, como fez John Addington Symonds na In
glaterra (ver bibliografia, cap. 19, seção IV).
13. Europäische Literatur und Lateinisches Mittelalter, Bema, 1948 (trad,
inglesa, Nova York, 1953); Mimesis, Dargestellte Wirklichkeit in der abendlän
dischen Literatur, Bema, 1946 (trad, inglesa, Princeton, 1953). Ver resenha
de René Wellek
em Kenyon Review, XVI (1954), pp. 279-307, e E. Auerbach,
“Epilegomena zu Mimesis” em Romanische Forschungen LXV (1953), pp. 1-18.
tram a unidade da civilização ocidental, a vitalidade da herança
da antiguidade clássica e do cristianismo medieval.
A história literária como síntese, a história literária em es
cala supranacional, terá de ser escrita novamente. O estudo da
literatura comparada, nesse sentido, fará elevadas exigências à
proficiência lingüística dos nossos estudiosos. Pede um alarga
mento de perspectivas, uma supressão de sentimentos locais e
provincianos, difícil de conquistar. Contudo, a literatura é uma,
como a arte e a humanidade são uma, e nessa concepção encon
tra-se o futuro dos estudos literários históricos.
Dentro dessa enorme área - na prática, idêntica a toda his
tória literária - existem, sem dúvida, subdivisões que, às vezes,
são de base lingüística. Existem, por exemplo, os grupos das
três principais famílias linguísticas na Europa - as literaturas
germânicas, românicas e eslavas. As literaturas românicas, par
ticularmente, foram com freqüência estudadas em interligação
próxima, dos dias de Bouterwek até a tentativa de Olschki de
escrever uma história de todas elas no período medieval14. As
literaturas germânicas, de maneira geral, só foram estudadas de
modo comparado quando se referiam ao início da Idade Média,
período em que ainda se pode sentir fortemente a proximidade
de uma civilização teutônica geral15 16. Apesar da costumeira opo
sição dos estudiosos poloneses, parece que as grandes afinida
des lingüísticas das línguas eslavas, em combinação com a tra
dição popular comum, que se estende até às formas métricas,
constituem a base para uma literatura eslava comum15.
14. Leonardo Olschki, Die romanischen Literaturen des Mittelalters,
Wildpark-Potsdam, 1928 (um volume do Handbuch der Literaturwissenschaft
de O. Walzet).
15. Andreas Heusler, Die altgermanische Dichtung, Wildpark-Pots
dam, 1923 (também no Handbuch de Walzel), é um excelente esboço.
16. Jan Máchal, Slovenské literatury, 3 vols., Praga, 1922-9 (inacaba
do), é a tentativa mais recente de escrever uma história de todas as literaturas
eslavas. A possibilidade de uma história da literatura comparada eslava é dis
cutida em Slavische Rundschau, vol. IV. Prova convincente do patrimônio
comum das literaturas eslavas foi fornecida por Roman Jakobson, “The Ker
nel of Comparative Slavic Literature”, em Harvard Slavic Studies (org. H.
Lunt), vol. I, pp. 1-71, Cambridge, Mass., 1953, e por Dmitry Cizevsky, Out
line o f Comparative Slavic Literatures, Boston, Mass., 1952.
A história dos temas e formas, recursos e gêneros é, obvia
mente, uma forma de história internacional. Embora a maioria
dos nossos gêneros descenda da literatura de Grécia e Roma, eles
foram consideravelmente modificados e aumentados durante a
Idade Média. Mesmo a história da métrica, embora intimamente
relacionada com os sistemas linguísticos individuais, é interna
cional. Além disso, os grandes movimentos e estilos literários
da Europa moderna (renascimento, barroco, neoclassicismo, ro
mantismo, realismo, simbolismo) ultrapassam em muito as fron
teiras de uma nação, embora existam significativas diferenças
individuais entre as práticas desses estilos17. Também a sua di
fusão geográfica pode variar. O renascimento, por exemplo, pe
netrou na Polônia mas não na Rússia nem na Boêmia. O estilo
barroco inundou toda a Europa oriental, inclusive a Ucrânia, mas
não tocou a Rússia propriamente dita. Pode ter havido conside
ráveis divergências cronológicas: o estilo barroco sobreviveu nas
civilizações camponesas da Europa oriental até o fim do século
XVIII, quando o Ocidente passou pelo iluminismo, e assim por
diante. No todo, a importância das barreiras linguísticas foi in
devidamente aumentada durante o século XIX.
Essa ênfase deveu-se à íntima associação entre o naciona
lismo romântico (na maior parte, lingüístico) e a ascensão da mo
derna história literária organizada. Continua hoje através de in
fluências práticas como a identificação virtual, especialmente
nos Estados Unidos, do ensino de literatura com o ensino de lín
gua. O resultado, nos Estados Unidos, foi uma extraordinária fal
ta de contato entre os estudantes de literatura inglesa, alemã e
francesa. Cada um desses grupos tem uma marca completa
mente diferente e usa métodos diferentes. Essas disjunções, sem
dúvida, são em parte inevitáveis, pelo simples fato de que os ho-
17. Por exemplo, A. O. Lovejoy, “On the Discrimination o f Romanti
cisms” em PMLA, XXXIX (1924), pp. 229-53. (Reimpresso em Essays in the
History o f Ideas, Baltimore, 1945, pp. 228-53.) Henri Peyre (Le classicisme
français, Nova York, 1942) argumenta vigorosamente a favor da nítida dis
tinção entre o classicismo francês e todos os outros neoclassicismos. Erwin
Panofsky - “Renaissance and Renascences”, Kenyon Review, VI (1944), pp.
201-36 - dá preferência à visão tradicional da Renascença.
mens vivem em um único ambiente lingüístico; não obstante,
elas levam a conseqüências grotescas quando os problemas li
terários são discutidos unicamente com relação às opiniões ex
pressas naquela língua em particular e com referência exclusi
va aos textos e documentos dessa língua. Apesar de, em certos
problemas de estilo artístico, métrica e até mesmo gênero, as
diferenças lingüísticas entre as literaturas européias serem im
portantes, está claro que, para muitos problemas da história
das idéias, inclusive idéias críticas, tais distinções são insus
tentáveis; traçam-se cortes artificiais através de materiais ho
mogêneos e escrevem-se histórias referentes a ecos ideológi
cos expressos por acaso em inglês, alemão ou francês. A aten
ção excessiva a um vernáculo é especialmente prejudicial para
o estudo da literatura medieval, já que, na Idade Média, o latim
era a principal língua literária, e a Europa formava uma unida
de intelectual muito coesa. Uma história da literatura durante a
Idade Média na Inglaterra que negligencie a vasta quantidade
de escritos em latim e anglo-normando oferece uma falsa ima
gem da situação literária e da cultura geral da Inglaterra.
Essa recomendação da literatura comparada não implica,
naturalmente, negligenciar o estudo de literaturas nacionais in
dividuais. Na verdade, é apenas o problema da “nacionalidade”
e das contribuições distintas das nações individuais para esse
processo literário geral que deve ser percebido como central. Em
vez de ser estudado com clareza teórica, o problema foi obscu
recido pelo sentimento nacionalista e pelas teorias raciais. Isolar
as contribuições exatas da literatura inglesa para a literatura ge
ral, um problema fascinante, poderia levar a um deslocamen
to de perspectiva e a uma avaliação alterada mesmo das figuras
principais. Dentro de cada literatura nacional surgem proble
mas similares ao dos quinhões exatos de regiões e cidades. Uma
teoria exagerada, como a de Joseph Nadler18, que professa ser
18. Josef Nadler, Literaturgeschichte der deutschen Stämme und
Landschaften, Regensburg, 3 vols., 1912-18 (2? ed., 4 vols., 1923-8; uma 4?
edição, e nazista, com o título Literaturgeschichte des deutschen Volkes, 4
vols., Berlim, 1938-40). Ver Berliner Romantik, Berlim, 1921, e a discussão
capaz de discernir os traços e características de cada tribo e re
gião alemã e os seus reflexos na literatura, não deve impedir-nos
de examinar esses problemas, raramente investigados com do
mínio dos fatos e método coerente. Muito do que se escreveu
sobre o papel da Nova Inglaterra, do Meio-Oeste e do Sul na
história da literatura americana e a maioria dos escritos sobre o
regionalismo equivalem a não mais do que a expressão de pias
esperanças, orgulho local e ressentimento contra os poderes cen
tralizadores. Qualquer análise objetiva
terá de distinguir ques
tões referentes à ascendência racial dos autores e questões so
ciológicas referentes à proveniência e ao contexto de questões
referentes à influência efetiva da paisagem e questões de tradi
ção e moda literária.
Os problemas de “nacionalidade” tornam-se especialmen
te complicados se temos de decidir que literaturas na mesma
língua são literaturas nacionais distintas, como a literatura ame
ricana e a literatura irlandesa moderna certamente são. Uma per
gunta como por que Goldsmith, Steme e Sheridan não perten
cem à literatura irlandesa, ao passo que Yeats e Joyce pertencem,
precisa de uma resposta. Existem literaturas belga, suíça e aus
tríaca independentes? Não é muito fácil determinar o ponto em
que a literatura escrita nos Estados Unidos deixou de ser “ingle
sa colonial” e tomou-se uma literatura nacional independente.
É o mero fato da independência? É a consciência nacional dos
próprios autores? É o uso de temas nacionais e “cor local”? Ou
é a ascensão de um estilo literário nacional definido?
Apenas quando chegarmos a decisões sobre esses proble
mas seremos capazes de escrever histórias da literatura nacional
que não sejam simplesmente categorias geográficas ou linguís
ticas e capazes de analisar a maneira exata como cada literatu
ra nacional entra na tradição européia. As literaturas universal
e nacional se entrelaçam. Uma convenção européia difundida é
teórica, “Die Wissenschaftslehre der Literaturgeschichte”, em Euphorion,
XXI (1914), pp. 1-63. Ver também H. Gumbel, “Dichtung und Volktum”, em
Philosophie der Literaturwissenchaft (org. E. Ermatinger), Berlim, 1930, pp.
43-9 - uma interpretação nebulosa.
modificada em cada país: também há centros de radiação nos
países individuais e figuras excêntricas e de peso que, indivi
dualmente, destacam uma tradição nacional de outra. Poder
descrever a parcela exata de uma e da outra equivaleria a co
nhecer muito do que vale a pena conhecer na totalidade da his
tória da literatura.
6 .0 ordenamento e o estabelecimento
dos testemunhos
Uma das primeiras tarefas do estudo acadêmico é a mon
tagem dos seus materiais, a eliminação cuidadosa dos efeitos do
tempo, o exame quanto a autoria, autenticidade e data. Enorme
perspicácia e diligência foram dedicadas à solução desses pro
blemas; contudo, o estudante de literatura terá de perceber que
esses trabalhos são preliminares à tarefa final do estudo. Muitas
vezes, a importância dessas operações é particularmente gran
de, já que, sem elas, a análise crítica e a compreensão histórica
seriam irremediavelmente prejudicadas. Isso é verdade no caso
de uma tradição literária semi-sepultada, como a da literatura
anglo-saxã; mas, para o estudante da maioria das literaturas mo
dernas, preocupado com o significado literário das obras, a
importância desses estudos não deve ser exagerada. Eles foram
desnecessariamente ridicularizados por causa do pedantismo
ou glorificados por sua suposta ou real exatidão. A precisão e
a perfeição com que certos problemas podem ser solucionados
sempre atraíram mentes que apreciam o procedimento ordenado
e as complexidades da manipulação, a despeito da importância fi
nal que possam ter. Esses estudos só merecem críticas adversas
quando usurpam o lugar de outros estudos e tomam-se uma es
pecialidade imposta sem piedade a todo estudante de literatura.
Foram editadas meticulosamente, com passagens emendadas e
debatidas com o maior detalhe, obras literárias que, do ponto de
vista literário ou mesmo histórico, não valem a pena ser discu
tidas. Ou, se valem, receberam apenas o tipo de atenção que o
crítico textual dá a um livro. Como outras atividades humanas,
esses exercícios muitas vezes se tomam fins em si mesmos.
Entre esses trabalhos preliminares, temos de distinguir dois
níveis de operações: (1) a montagem e a preparação de um texto
e (2) os problemas de cronologia, autenticidade, autoria, cola
boração, revisão e similares, que foram ffeqüentemente descri
tos como “crítica elevada”, um termo um tanto infeliz, derivado
dos estudos bíblicos.
Será útil distinguir as etapas desses trabalhos. Há, primeiro,
a montagem e a coleta dos materiais, quer manuscritos, quer im
pressos. Na história da literatura inglesa, esse trabalho foi rea
lizado quase completamente, embora, no século XX, algumas
obras razoavelmente importantes, como The Book o f Margery
Kempe, Fulgens and Lucrece, de Medwall, e Rejoice in the Lamb,
de Christopher Smart, tenham sido acrescentadas ao nosso co
nhecimento da história do misticismo inglês e da poesia ingle
sa1. Mas não há fim, naturalmente, para a descoberta de docu
mentos pessoais e jurídicos com os quais ilustrar a literatura ou,
pelo menos, a vida dos autores ingleses. Em décadas recentes,
as descobertas de Leslie Hotson sobre Marlowe ou a redesco-
berta dos papéis de Boswell podem ser citadas como casos bem
conhecidos2. Em outras literaturas, as possibilidades de novas
descobertas podem ser muito maiores, especialmente naquelas
em que pouca coisa foi fixada na escrita.
No campo da literatura oral, a montagem dos materiais tem
problemas especiais, como a descoberta de um cantor ou narra
dor competente, tato e habilidade para induzi-lo a cantar ou re
citar, o método de registrar suas recitações em gramofone ou
escrita fonética e muitos outros. Na busca de material escrito,
1. Henry Medwall, Fulgens and Lucrece (org. Seymour de Ricci),
Nova York, 1920 (ed. crítica de F. S. Boas e A. W. Reed, Oxford, 1926); The
Book o f Margery Kempe, 1436 (versão moderna de W. Butler-Bowden, Lon
dres, 1936. O texto original está sendo editado por Sanford B. Meech. O vol.
I foi publicado pela Early English Text Society, Londres, 1940); Christopher
Smart, Rejoice in the Lamb (org. W. F. Stead), Londres, 1939.
2. Leslie Hotson, The Death o f Christopher Marlowe, Londres, 1925,
Shakespeare versus Shallow, Boston, 1931; The Private Papers o f James
Boswell from Malahide Castle (org. Geoffrey Scott e F. A. Pottle), 18 vols.,
Oxford, 1928-34; The Yale Edition o f the Private Papers o f James Boswell
(org. F. A. Pottle et a l) , Nova York, 1950 ss.
temos de confrontar problemas de natureza puramente prática,
como o contato pessoal com os herdeiros do autor, o nosso pres
tígio social e restrições financeiras e, muitas vezes, é preciso
ter certa habilidade de detetive3. Tal busca pode exigir conheci
mento muito específico como, por exemplo, no caso de Leslie
Hotson, que teve de informar-se muito a respeito do processo
jurídico isabelino para encontrar seu caminho através das mas
sas de documentos do Public Record Office. Como a maioria
dos estudantes pode encontrar suas fontes em bibliotecas, uma
importante ferramenta, sem dúvida, é conhecer as bibliotecas
mais importantes e familiarizar-se com os seus catálogos e ou
tros livros de referência4.
Podemos deixar os detalhes técnicos de catalogação e des
crição bibliográfica aos bibliotecários e bibliógrafos profissio
nais, mas, às vezes, fatos meramente biográficos podem ter rele
vância e valor literários. O número e o tamanho das edições po
dem lançar luz sobre questões de sucesso e reputação; as diferen
ças entre as edições podem nos permitir acompanhar as etapas da
revisão do autor e, assim, iluminar problemas de gênese e evolu
ção da obra de arte. Uma bibliografia habilmente editada como
a Cambridge Bibliography o f English Literature mapeia vastas
áreas de pesquisa, e bibliografias especializadas como a Biblio
graphy o f English Drama, de Greg, a Spenser's Bibliography, de
Johnson, a Dryden Bibliography, de Macdonald, a Pope Biblio
graphy, de Griffith5 podem ser guias para muitos problemas da
3. Ver o sensato conselho de J. M. Osborn, “The Search for English Lite
rary Documents”, English Institute Annual, 1939, Nova York, 1940,
pp. 31-55.
4. Mais úteis para os estudantes de inglês são J. W. Spargo, A Biblio
graphical Manualfor Studentes, Chicago, 1939 (2? ed., 1941); Arthur G. Ken
nedy, A Concise Bibliography fo r Students o f English, 3? ed,, Stanford Uni
versity Press, 1954.
5. Por exemplo, W. W. Greg, A Bibliography o f the English Printed
Drama to the Restoration, Vol. I, Londres, 1939; F. R. Johnson, A Critical
Bibliography o f the Works o f Edmund Spenser Printed before 1770, Baltimo
re, 1933; Hugh Macdonald, John Dryden: A Bibliography o f Early Editions
andDrydeniana, Oxford, 1939; ver James M. Osborn, “Macdonald’s Biblio
graphy of Dryden”, Modem Philology, XXXIX (1942), pp. 312-9; R. H. Grif
fith, Alexander Pope: A Bibliography, duas partes, Austin, Texas, 1922-7,
história da literatura. Tais bibliografias podem precisar de inves
tigações sobre as práticas das casas impressoras e as histórias de
vendedores e publicadores de livros, e exigem conhecimento
dos dispositivos utilizados pelos impressores, marcas d’água,
fontes de tipos, práticas dos compositores e encadernações. Um
conhecimento de biblioteconomia, ou, certamente, uma imensa
erudição sobre a história da produção de livros, é necessário
para decidir questões que, por suas implicações quanto a data,
ordem de edições, etc., podem ser importantes para a história da
literatura. A bibliografia “descritiva”, que usa todas as artes da co
lação e do exame da efetiva paginação de um livro, deve, portan
to, ser distinguida da bibliografia “enumerativa”, da compilação
de listas de livros, que oferecem dados descritivos suficientes
apenas para a identificação6.
Assim que se completa a tarefa de montagem e cataloga
ção, começa o processo de edição. A edição crítica consiste, mui
tas vezes, numa série extremamente complexa de trabalhos,
que incluem tanto a interpretação como a pesquisa histórica.
Há edições que, na introdução e nas notas, contêm crítica de
importância. Na verdade, uma edição crítica pode ser um com
plexo de quase todos os tipos de estudo literário. As edições crí
ticas desempenharam um papel muito importante na história dos
estudos literários: elas podem - para citar um exemplo recente,
como a edição de Chaucer feita por F. N. Robinson - servir como
repositório de saber, como manual de todo o conhecimento a
respeito de um autor. Mas, considerada no seu significado cen
tral como o estabelecimento do texto de uma obra, a edição
crítica tem problemas específicos, dentre o quais a “crítica tex
tual” efetiva é uma técnica altamente desenvolvida, com uma
longa história, especialmente nos estudos clássicos e bíblicos7.
Devemos fazer uma distinção bem nítida entre os proble
mas que surgem na edição de manuscritos clássicos ou medie
vais, por um lado, e de material impresso, por outro. Os mate-
6. R. B. McKerrow, An Introduction to Bibliography fo r Literary Stu
dents, Oxford, 1927.
7. Ver bibliografia, seção I.
riais manuscritos necessitarão, primeiro, de um conhecimento
de paleografia, um estudo que estabeleceu critérios muito sutis
para datar manuscritos e que produziu manuais úteis para deci
frar abreviações8. Muito se fez para remontar a proveniência
exata de manuscritos a mosteiros de um determinado período.
Podem surgir questões muito complexas quanto às relações exa
tas entre esses manuscritos. Uma investigação deve levar a uma
classificação que possa ser graficamente representada por meio
da construção de uma linhagem9. Em décadas recentes, Dom
Henri Quentin e W. W. Greg10 desenvolveram técnicas elabora
das, para as quais reivindicam certeza científica, embora ou
tros estudiosos, como Bédier e Shepard11, tenham argumentado
que não há nenhum método completamente objetivo de estabe
lecer classificações. Embora este não seja o lugar para chegar
a uma decisão sobre tal questão, tenderíamos para a segunda
visão. Concluiríamos que, na maioria dos casos, é aconselhá
vel editar o manuscrito que se conclui ser o mais próximo da
quele do autor, sem tentar a reconstrução de algum “original”
hipotético. A edição, naturalmente, irá valer-se dos resultados
da colação, e a própria escolha do manuscrito será determina
da pelo estudo de toda a tradição manuscrita. As experiências
com os seis manuscritos restantes de Piers Plowman e com os
8. Sobre a paleografia dos documentos literários ingleses, ver Wolf
gang Keller, Angelsächsische Paleographie, 2 vols., Berlim, 1906 (Palaes-
trat, 43? e b). Sobre a caligrafia isabelina, ver Muriel St. Clare Byrne, “Eliza
bethan Handwriting for Beginners”, Review o f English Studies, I (1925), pp.
198-209; Hilary Jenkinson, “Elizabethan Handwritings”, Library, quarta série,
III (1922), pp. 1-34; McKerrow, loc. cit. (pelo apêndice sobre a caligrafia isa
belina); Samuel A. Tannenbaum, The Handwriting o f the Renaissance, Nova
York, 1930. Dispositivos técnicos para investigar manuscritos (microscópios,
raios ultravioleta, etc.) são descritos em R. B. Haselden, Scientific Aids fo r
the Study o f Manuscripts, Oxford, 1935,
9. Linhagens fmamente elaboradas podem ser encontradas em livros
como The Textual Tradition o f Chaucer’s Troilus, de R, K, Root, Chaucer So
ciety, Londres, 1916.
10. Ver bibliografia, seção I.
11. Ver bibliografia, seção I,
B3 manuscritos dos Contos de Cantuária12 levam, pensamos, a
conclusões na maioria das vezes desfavoráveis à idéia de que
alguma vez existiu uma recensão autorizada ou arquétipo aná
logo à edição definitiva de uma obra moderna.
O processo de recensão, isto é, de construção de um estema
ou linhagem, deve ser distinguido da crítica e emenda efetivas
do texto, que, naturalmente, irão basear-se nessas classificações,
mas terão de levar em consideração outros pontos de vista e cri
térios que não os derivados meramente da tradição manuscrita13.
A emenda pode usar o critério da “autenticidade”, isto é, a deri
vação de uma palavra ou passagem particular a partir do manus
crito mais antigo e melhor (isto é, com mais autoridade), mas te
rá de introduzir considerações distintas de “correção”, tais como
critérios lingüísticos, critérios históricos e, finalmente, critérios
psicológicos inevitáveis. Do contrário, poderíamos eliminar er
ros “mecânicos”, leituras erradas, associações ou mesmo mu
danças conscientes dos escribas. Muito deve ser deixado, no
fim, ao afortunado trabalho de adivinhação do crítico, ao seu
gosto e percepção linguística. Os editores modernos tomaram-
se, pensamos que corretamente, mais relutantes em permitir-se
tais adivinhações, mas a reação a favor do texto diplomático pa
rece ter ido muito longe quando os editores reproduzem todas as
abreviações e erros do escriba e todas as flutuações da pontua
ção original. Isso pode ser importante para outros editores ou, às
vezes, para os lingüistas, mas é um impedimento desnecessário
para o estudioso de literatura. Não pleiteamos textos moderniza
dos, mas textos legíveis, que evitem adivinhações e mudanças
desnecessárias e que ofereçam auxílio razoável minimizando o
que são, puramente, convenções e hábitos dos escribas.
12. W. S. MacCormick e J. Haseltine, The MSS. o f the Canterbury Ta
les, Oxford, 1933; J. M. Manley, The Text o f the Canterbury Tales, 8 vols.,
Chicago, 1940; R. W. Chambers e J. H. Grattan, “The Text of Piers Plow
man: Critical Methods”, Modem Language Review, XI (1916), pp. 257-75, e
“The Text of Piers Plowman”, ibid., XXVI (1926), pp. 1-51.
13. Para distinções mais elaboradas, ver Kantorowicz, citado na biblio
grafia, seção I.
Os problemas da edição de materiais impressos normal
mente são mais simples do que os da edição de manuscritos,
apesar de, em geral, serem similares.,Mas há uma distinção, nem
sempre compreendida no passado. No caso de quase todos os
manuscritos clássicos, somos confrontados com documentos de
tempos e lugares muito
diferentes, afastados em séculos do ori
ginal, e, portanto, somos livres para usar a maior parte desses
manuscritos, já que se pode presumir que cada um deles seja
derivado de alguma autoridade antiga final. No caso de livros,
porém, geralmente apenas uma ou duas edições têm algum
tipo de autoridade independente. É preciso escolher uma edi
ção básica, que normalmente será a primeira edição ou a últi
ma edição supervisionada pelo autor. Em alguns casos, como
Leaves o f Grass, de Whitman, que passou por muitas e sucessivas
adições e revisões, ou Dunciad, de Pope, que existe em, pelo
menos, duas versões amplamente divergentes, pode ser neces
sário, para uma edição crítica, imprimir todas ou ambas as ver
sões14. Em geral, os editores modernos relutam em produzir tex
tos ecléticos, embora devamos notar que praticamente todas as
edições de Hamlet foram híbridos entre o segundo in-quarto e o
fólio. Nas peças isabelinas, pode-se chegar à conclusão de que,
às vezes, não houve nenhuma versão final que possa ser re
construída. Como na poesia oral (por exemplo, as baladas), a caça
por um único arquétipo é fútil. Demorou até que os editores de
baladas desistissem de buscá-lo. Percy e Scott “contaminaram”
livremente diferentes versões (e até mesmo as reescreveram),
ao passo que os primeiros editores científicos, como Mother-
well, escolheram uma versão como superior e original. Final
mente, Child decidiu imprimir todas as versões15.
As peças isabelinas representam, de alguma maneira, pro
blemas textuais únicos: sua corrupção é muito maior do que a
14. Ver Sculley Bradley, “The Problem of a Variorum Edition of
Whitman’s Leaves o f Grass", English Institute Annual, 1941, Nova York, 1942,
pp. 129-58; A. Pope, The Dunciad (org. James Sutherland), Londres, 1943.
15. Sigurd B, Hustvedt, Ballad Books and Ballad Menf Cambridge,
Mass., 1930.
da maioria dos livros contemporâneos, em parte porque se con
siderava que as peças não eram dignas de muita atenção na lei
tura de provas e, em parte, porque os manuscritos a partir dos
quais foram impressas eram muitas vezes “papéis sujos” do
autor ou autores e, às vezes, uma cópia de ponto, contendo re
visões e marcas do teatro. Além disso, havia uma classe especial
de maus “in-quartos” que, aparentemente, foram impressos de
memória ou a partir dos papéis fragmentários dos atores, ou,
possivelmente, de uma primitiva versão estenografada. Em dé
cadas recentes, deu-se muita atenção a esses problemas, e os in-
quartos de Shakespeare foram reclassificados depois das des
cobertas de Pollard e Greg16. Pollard demonstrou, com base em
conhecimento puramente “bibliótico”, como marcas d ’água e
fontes de tipos, que certos in-quartos das peças de Shakespea
re, apesar de efetivamente impressos em 1619, foram antedata
dos de propósito, como preparação para uma edição reunida
que não se materializou.
Um estudo atento da caligrafia isabelina, parcialmente
baseado na presunção de que três páginas do manuscrito pre
servado de uma peça, Sir Thomas More, estão escritas com le
tra do próprio Shakespeare17, teve importantes implicações
para a crítica textual, tomando agora possível classificar as
prováveis leituras errôneas do compositor isabelino, enquanto
o estudo das práticas das impressoras demonstrou quais erros
são prováveis ou possíveis. Contudo, a ampla margem para
emendas ainda deixada ao editor individual demonstra que ne
nhum método realmente “objetivo” de crítica textual foi desco
berto. Certamente, muitas das emendas introduzidas por Dover
Wilson na sua edição de Cambridge parecem tão insensatas e
desnecessárias quanto algumas produzidas pelos editores do
século XVIII. Mas é interessante observar que o brilhante pal-
16. Ver bibliografia, seção 11,
17. Shakespeare's Hand in The Play o f Sir Thomas More, Cambridge,
1923 (contribuições de A. W. Pollard, W. W. Greg, Sir E. M. Thompson, J.
D. Wilson e R. W. Chambers); S. A. Tannenbaum, The Books o f Sir Thomas
More, Nova York, 1927.
pite de Theobald - que, no relato da sra. Quickly sobre a mor
te de Falstaff, mudou a absurda expressão a table ofgreenfields
(uma mesa de campos verdes) para a babbled o f green fields
(um balbuciado de campos verdes) - é corraborado pelo estu
do da caligrafia e da ortografia isabelina, isto é, a babbled po
deria muito facilmente ser tomado por a table.
Os argumentos convincentes de que os in-quartos (com a
exceção de alguns ruins) foram, provavelmente, impressos a
partir do manuscrito do autor ou de algum livro de ponto res
tauraram a autoridade das primeiras edições e reduziram, de
certa maneira, a veneração dedicada ao fólio desde os dias do
dr. Johnson. Os críticos textuais ingleses que, um tanto equivo
cadamente, se dizem “bibliógrafos” (McKerrow, Greg, Pollard,
Dover Wilson, etc.) tentaram determinar, em cada caso, qual
pode ter sido a autoridade manuscrita para cada in-quarto, e
usaram essas teorias, obtidas apenas parcialmente com base em
investigação estritamente bibliográfica, para elaboradas hipó
teses sobre a gênese, as revisões, as alterações, as colaborações,
etc. das peças de Shakespeare. Sua preocupação com a crítica
textual é apenas parcial; a obra de Dover Wilson, em especial,
pertence mais legitimamente à “crítica elevada”.
Wilson faz grandes reivindicações para o método:
As vezes, conseguimos nos colocar na pele do compositor
e ter vislumbres do MS. através dos seus olhos. A porta da ofi
cina de Shakespeare está entreaberta.18
Sem dúvida, os “bibliógrafos” lançaram certa luz sobre a
composição das peças isabelinas e sugeriram, possivelmente
provaram, muitos vestígios de revisão e alteração. Mas muitas
das hipóteses de Dover Wilson parecem construções fantasio
sas, cujos indícios parecem leves ou mesmo inexistentes. As
sim, Dover Wilson construiu a gênese de A tempestade. Ele afir
ma que a longa cena de exposição indica a existência de uma
18. The Tempest (org. Sir A. Quiller-Couch e J. D. Wilson), Cambrid-
ge, 1921, p, XXX.
versão anterior em que a pré-história do enredo foi relatada
como uma peça frouxamente construída, no estilo de O conto
de inverno. Mas as ligeiras incoerências e irregularidades na or
ganização do verso, etc. não podem sequer oferecer testemunho
presuntivo a favor de tais fantasias forçadas e desnecessárias19.
A crítica textual foi muito bem-sucedida, mas também
muito incerta, no caso das peças isabelinas, mas é necessária
também em livros aparentemente muito mais bem autentica
dos. Pascal e Goethe, Jane Austen e mesmo Trollope beneficia
ram-se da atenção meticulosa dos editores modernos20, embora
alguns desses estudos tenham degenerado em meras listas de
hábitos das casas impressoras e de caprichos dos compositores.
Ao preparar uma edição, devemos atentar com firmeza pa
ra o seu propósito e o seu suposto público. Haverá um padrão
de editoração para o público de outros estudiosos textuais, que
querem comparar as menores diferenças entre as versões exis
tentes, e outro padrão para o leitor geral, que tem interesse ape
nas moderado nas variações de grafia ou mesmo nas diferenças
menores entre edições.
A editoração apresenta outros problemas além do estabe
lecimento de um texto correto21. Em uma edição reunida sur
gem questões de inclusão e exclusão, ordenação, anotação, etc.,
que podem variar grandemente de caso para caso. Provavel
mente, a edição mais útil para o erudito é a edição completa,
em ordem estritamente cronológica, mas esse ideal pode ser mui
to difícil ou impossível de alcançar. A ordenação cronológica pode
19. E. K. Chambers, “The Integrity of The Tempest”, Review o f English
Studies, I (1925), pp. 129-50; S. A. Tannenbaum, “How Not to Edit Shakes
peare: A Review”, Philological Quarterly, X (1931), pp. 97-137; H. T. Price,
“Towards a Scientific Method of Textual Criticism
in the Elizabethan Dra
ma”, Journal o f English and Germanic Philology, XXXVI (1937), pp. 151-
67 (na verdade, ocupando-se de Dover Wilson, Robertson, etc.),
20. Michael Bemays, Zur Kritik und Geschichte des Goetheschen Tex
tes, Munique, 1866, foi o início da “filosofia goethiana”. Ver também R. W.
Chapman, “The Textual Criticism of English Classics”, The Portrait o f a
Scholar, Oxford, 1922, pp. 65-79.
21. Ver bibliografia, seção III.
ser puramente conjetural ou dissolver o agrupamento artísti
co de poemas em uma coleção. O leitor literário terá objeção à
mistura do grande e do trivial se imprimirmos lado a lado uma
ode de Keats com um poema humorístico incluído em uma car
ta contemporânea. Desejaríamos preservar a ordenação artísti
ca das Fleurs du mal, de Baudelaire, ou das Gedichte, de Conrad
Ferdinand Meyer, mas podemos ter as nossas dúvidas quanto a
ser necessário ou não conservar as classificações elaboradas
de Wordsworth. Não obstante, se rompêssemos a ordem dos
poemas do próprio Wordsworth e os imprimíssemos cronolo
gicamente, encontraríamos grandes dificuldades quanto a qual
versão teríamos de reimprimir. Teria de ser a primeira versão,
já que seria falsificar a imagem do desenvolvimento de Words
worth imprimir uma versão tardia com uma data anterior, mas,
obviamente, parece impróprio desconsiderar a vontade do poe
ta completamente e ignorar as revisões posteriores, que, sem
dúvida, foram progressos em alguns aspectos. Emest de Selin-
court, portanto, decidiu manter a ordem tradicional na sua edi
ção completa dos poemas de Wordsworth. Muitas edições com
pletas, como as de Shelley, ignoram a importante distinção entre
uma obra de arte acabada e um mero fragmento ou esboço que
o poeta talvez tenha abandonado. A reputação literária de mui
tos poetas sofreu por serem excessivamente completas muitas
das edições correntes, que incluem o verso ocasional ou rabis
co de “oficina” lado a lado com o produto acabado.
A questão da anotação também terá de ser decidida pelo
propósito da edição22: o Shakespeare Variorum pode legitima
mente exceder o texto com a massa de anotação que supostamen
te preserva as opiniões de todos os que já escreveram sobre uma
passagem específica de Shakespeare e, portanto, poupará o es
tudioso de pesquisar enormes volumes de material impresso. O
leitor geral precisará de muito menos: geralmente, apenas a in-
22. Michael Bemays, “Zur Lehre von den Zitaten und Noten”, Schriften
zur Kritik und Literaturgeschichte, Berlim, 1899, vol. IV, pp. 253-347; Ar
thur Friedman, “Principles of Historical Annotation in Critical Editions of
Modem Texts” , English Institute Annual, 1941, Nova York, 1942, pp. 115-28.
formação necessária para a compreensão completa de um tex
to. Mas, naturalmente, as opiniões sobre o que é necessário po
dem variar muito: alguns editores contam ao leitor que a rainha
Isabel era protestante ou quem foi David Garrick e, ao mesmo
tempo, esquivam-se a todas as obscuridades concretas (que são
casos reais). E difícil traçar a fronteira da anotação excessiva a
menos que o editor esteja inteiramente certo de qual público e
qual propósito ele quer atingir.
A anotação no sentido explícito - a explicação lingüística,
histórica, etc. de um texto - deve ser distinguida do comentário
geral, que pode simplesmente reunir os materiais para a histó
ria literária ou lingüística (isto é, indicar fontes, paralelos, imi
tações feitas por outros escritores), e do comentário que pode
ser de natureza estética, conter pequenos ensaios sobre passa
gens específicas e, portanto, cumprir de certo modo a função
de antologia. Pode ser que nem sempre seja fácil extrair distin
ções tão precisas; contudo, a mistura de crítica textual, história
literária na forma especial de estudo de fontes, explicação lin
güística e histórica e comentário estético, encontrada em muitas
edições, parece uma moda dúbia dos estudos literários, justifi
cada apenas pela conveniência de ter todos os tipos de infor
mações entre duas capas.
Na edição de cartas, surgem problemas especiais. Elas de
vem ser impressas integralmente, mesmo quando são mensagens
triviais tratando de negócios? A reputação de escritores como
Stevenson, Meredith, Amold e Swinburne não aumentou com
a publicação de cartas que eles nunca pretenderam que fossem
obras de literatura. Devemos também imprimir as respostas,
sem as quais muita correspondência é incompreensível? Com
esse procedimento, muito material heterogêneo imiscui-se nas
obras do autor. Estas são todas questões práticas que não po
dem ser respondidas sem bom senso e certa coerência, muita di
ligência e, ffeqüentemente, engenhosidade e boa sorte.
Além do estabelecimento do texto, a pesquisa preliminar
terá de solucionar questões como a da cronologia, autenticida
de, autoria e revisão. A cronologia, em muitos casos, é suficien
temente estabelecida pela data de publicação na página de ros
to do livro ou por indícios de publicação contemporâneos. Essas
fontes óbvias, porém, muitas vezes estão ausentes; por exemplo,
no caso de muitas peças isabelinas ou de um manuscrito me
dieval. A peça isabelina pode ter sido imprimida muito depois
da primeira exibição; o manuscrito medieval pode ser cópia de
uma cópia, feita centenas de anos após sua data de composi
ção. Os indícios externos devem então ser complementados por
indícios do próprio texto, alusões a eventos contemporâneos
ou a outras fontes datáveis. Esses indícios internos que apon
tam para algum acontecimento externo estabelecerão apenas a
data inicial a partir da qual essa parte do livro foi escrita.
Considere, por exemplo, indícios puramente internos, como
os que podem resultar de um estudo de estatísticas métricas na
tentativa de estabelecer a ordem das peças de Shakespeare. Eles
podem estabelecer a cronologia relativa somente dentro de uma
considerável margem de erro21. Embora seja seguro supor que
o número de rimas nas peças de Shakespeare declina de Love ’s
Labours Lost (que tem a maioria) para O conto de inverno (que
não tem nenhuma), não podemos concluir que O conto de in
verno é necessariamente posterior a A tempestade (que tem duas
rimas). Já que critérios como número de rimas, terminações fe
mininas, versos encadeados não fornecem exatamente os mes
mos resultados, nenhuma correlação entre cronologia e tabelas
métricas pode ser estabelecida. Isoladas de outros indícios, as
tabelas podem ser interpretadas de maneira inteiramente dife
rente. Um crítico do século XVIII, James Hurdis23 24, por exem
plo, achou que Shakespeare progredira do verso irregular de O
conto de inverno para o verso regular de A comédia dos erros.
Contudo, uma combinação judiciosa de todos esses tipos de in-
23. Edmond Malone, “An Essay on the Chronological Order o f Sha
kespeare’s Plays”, a edição de George Steevens das peças de Shakespeare,
Plays (2? ed., 1788, vol. I, pp. 269-346), foi a primeira tentativa bem-sucedi
da. Tabelas métricas baseadas no trabalho de Fleay, Fumivall e König em T.
M. Parrott, Shakespeare. Twenty-three Plays and the Sonnets, Nova York,
1938, p. 94, e em E. K. Chambers, William Shakespeare, Oxford, 1930, vol.
II, pp. 397-408.
24. James Hurdis, Cursory Remarks upon the Arrangement o f the Plays
o f Shakespeare, Londres, 1792.
dício (externo, intemo-extemo e interno) levou a uma cronolo
gia das peças de Shakespeare que, sem dúvida, é amplamente
verdadeira. Métodos estatísticos, principalmente quanto à ocor
rência e à freqüência de certas palavras, também foram usados
para o estabelecimento de uma cronologia relativa dos diálogos
de Platão por Lewis Campbell e, especialmente, por Wincenty
Lutoslawski, que denomina esse método “estilometria”25.
Se temos de considerar manuscritos não datados, as difi
culdades cronológicas multiplicam-se e tornam-se
até mesmo
insolúveis. Podemos ter de recorrer a um estudo da evolução da
caligrafia de um autor. Podemos ter de quebrar a cabeça com
selos ou franquias em cartas, examinar o calendário e investigar
com muito cuidado as migrações exatas do autor, já que estas
podem fornecer uma pista para a datação. As questões crono
lógicas são, com freqüência, muito importantes para o historiador
literário: se não fossem solucionadas, ele não poderia acompa
nhar o desenvolvimento artístico de Shakespeare òu de Chau-
cer, para considerar exemplos em que a datação se deve intei
ramente aos esforços da pesquisa moderna. Malone e Tyrwhitt,
no século XVIII, lançaram as fundações, mas, desde então, a
controvérsia sobre detalhes nunca cessou.
As questões de autenticidade e atribuição podem ser até
mais importantes, e a sua solução pode exigir investigações es
tilísticas e históricas elaboradas26. Temos certeza da autoria da
maior parte das obras da literatura moderna. Mas há uma gran
de literatura pseudônima e anônima que às vezes revela o seu
segredo, mesmo quando esse segredo nada mais é que um nome
sem qualquer relação com as informações biográficas e, por
tanto, tão obscuro quanto o próprio pseudônimo ou anônimo.
25. Wincenty Lutoslawski, The Origin and Growth o f Plato’s Logic
with an Account o f Plato’s Style and the Chronology o f His Writings, Londres,
1897; para comentário, ver John Burnet, Platonism, Berkeley, 1928, pp. 9-12.
26. Giles Dawson, “Authenticity and Attribution of Written Matter”,
English Institute Annual, 1942, Nova York, 1943, pp. 77-100; G. E. Bentley,
“Authenticity and Attribution of the Jacobean and Caroline Drama”, ibid.,
pp. 101-18; ver E. H. C. Oliphant, “Problems of Authorship in Elizabethan
Dramatic Literatura”, Modern Philology, VIII (1911), pp. 411-59.
Em muitos autores, surge a questão do cânone das obras,
O século XVIII descobriu que uma grande parte do que fora
incluído nas edições impressas da obra de Chaucer (como O
testamento de Criseida e A flor e a folha) não podia ser obra
autêntica de Chaucer. Mesmo hoje, o cânone da obra de Sha
kespeare está longe de estabelecido. O pêndulo parece ter oscila
do para o outro extremo desde o tempo em que August Wilhelm
Schlegel argumentou, com estranha confiança, que todos os apó
crifos de Shakespeare eram obra genuína de Shakespeare27. Re
centemente, J. M. Robertson foi o mais destacado proponente
da “desintegração de Shakespeare”, uma visão que creditaria a
Shakespeare pouco mais do que algumas cenas nas peças mais
conhecidas. Segundo essa visão, mesmo Júlio César e O mer
cador de Veneza são nada mais do que uma mixórdia de passa
gens de Marlowe, Greene, Peele, Kyd e vários outros drama
turgos da época28. Boa parte do método de Robert consiste em
investigar pequenos chavões verbais, descobrir incoerências e
paralelos literários. O método é extremamente incerto e volunta
rioso. Parece basear-se em uma falsa suposição e em um círculo
vicioso: sabemos o que é obra de Shakespeare a partir de cer
tos indícios contemporâneos (a inclusão no fólio, registros em
seu nome no Stationer’s Register, etc.), mas Robertson, por meio
de um ato arbitrário de julgamento estético, seleciona apenas
certas passagens eróticas como de autoria de Shakespeare e
nega-lhe a autoria de qualquer coisa que fique aquém desse
padrão ou que exiba similaridades com a prática de dramatur
gos contemporâneos. Contudo, não há nenhuma razão pela qual
Shakespeare nao pudesse ter escrito mal ou descuidadamente
ou pela qual não pudesse ter escrito em vários estilos, imitando
27. August Wilhelm Schlegel, “Anhang, über die angeblich Shakespea-
re’n unterschobenen Stücke”, Über dramatische Kunst und Literatur, Heidel
berg, 1811, Zweiter Theil, Zweite Abtheilung, pp. 229-42.
28. J. M. Robertson, The Shakespeare Canon, quatro partes, Londres,
1922-32; An Introduction to the Study o f the Shakespeare Canon, Londres,
1924; E. K. Chambers, “The Disintegration of Shakespeare”, Proceedings o f
the British Academy, XI (1925), pp. 89-108 (reimpresso em Shakespeare
Gleanings, Oxford, 1944, pp. 1-21).
os seus contemporâneos. Por outro lado, a premissa mais anti
ga, de que toda palavra do fólio é de Shakespeare, não pode ser
sustentada na totalidade.
Sobre alguns desses pontos não é possível chegar a uma
conclusão definitiva, já que o teatro isabelino era uma arte co
munal em alguns aspectos, na qual a colaboração íntima era uma
prática muito real. Os autores individuais, muitas vezes, eram
indistinguíveis pelo estilo. Dois autores podiam muito bem ser
eles próprios incapazes de distinguir qual parte era sua. A co
laboração às vezes propõe ao detetive literário algumas tarefas
praticamente sem esperança29. Mesmo no caso de Beaumont e
Fletcher, no qual temos a vantagem de possuir obra definitiva
mente escrita por Fletcher sozinho, depois da morte de Beau
mont, ainda não se estabeleceu sem controvérsia a divisão da
parte de cada um; um caso completamente perdido é A tragédia
do vingador, que foi atribuída a Webster, Tourner, Middleton e
Marston, cada um por sua vez ou em várias combinações30.
Dificuldades semelhantes surgem nas tentativas de verifi
cação e autoria quando, na ausência de indício externo, uma ma
neira tradicional definida e um estilo uniforme tomam a detec
ção extremamente difícil. Os exemplos são abundantes entre os
trovadores ou entre os panfletistas do século XVIII (quem, al
gum dia, estabelecerá o cânone dos escritos de Defoe?)31, para
não falar das contribuições anônimas para periódicos. Em mui
tos casos, porém, pode-se obter certa medida de sucesso mesmo
29. E. N, S. Thompson, “Elizabethan Dramatic Collaboration”, Englis
che Studien, XL (1908), pp. 30-46; W, J. Lawrence, “Early Dramatic Colla
boration”, Pre-Restoration Stage Studies, Cambridge, Mass., 1927; E. H. C.
Oliphant, “Collaboration in Elizabethan Drama: Mr. W. J. Lawrence’s
Theory”, Philological Quarterly, VIII (1929), pp. 1-10. Para bons exemplos
de discussões sobre Diderot e Pascal, ver André Morize, Problems and Me
thods o f Literary History, Boston, 1922, pp. 157-93.
30. E. H. C. Oliphant, The Plays o f Beaumont and Fletcher. An Attempt
to Determine Their Respective Shares and the Shares o f Others, New Haven,
1927; “The Authorship of The Revenger’s Tragedy”, Studies in Philology,
XXIII (1926), pp. 157-68.
31. John Robert Moore, em Daniel Defoe: Citizen o f the Modem
World, Chicago, 1958, reivindica 541 títulos para Defoe.
nesse caso. A investigação dos registros de casas publicadoras
ou de arquivos marcados de periódicos pode revelar novos indí
cios externos, e o estudo habilidoso de elos entre artigos de au
tores que repetem e citam a si mesmos (como Goldsmith) pode
resultar em conclusões com elevado grau de certeza32. G. Udny
Yule, estatístico e atuário, usou métodos matemáticos muito com
plexos para estudar o vocabulário de autores como Tomás de
Kempis para estabelecer a autoria comum de muitos manuscri
tos33. Os métodos estilísticos, se desenvolvidos com paciência,
embora não cheguem à certeza completa, tomam a identificação
altamente provável.
Na história da literatura, a questão da autenticidade de fal
sificações e fraudes conscienciosas desempenhou um papel
importante e ofereceu ímpeto valioso para mais investigações.
Assim, a controvérsia a respeito do Ossian de Macpherson es
timulou o estudo da poesia folclórica gaélica; a controvérsia
em tomo de Chatterton levou a um estudo intensificado da his
tória e da literatura medievais; e as falsificações de Ireland de
peças e documentos de Shakespeare levaram a debates a res
peito de Shakespeare e da história do teatro isabelino34. Discu
tir Chatterton, Thomas Warton, Thomas Tyrwhitt e Edmond
Malone produziu argumentos históricos e literários para de
monstrar que os poemas Rowley
eram falsificações modernas.
32. New Essays by Oliver Goldsmith (org. R. S. Crane), Chicago, 1927.
33. G. Udny Yule, The Statistical Study o f Literary Vocabulary, Cam
bridge, 1944.
34. J. S. Smart, James Macpherson, Londres, 1905; G. M. Fraser, “The
Truth about Macpherson’s Ossian”, Quarterly Review, CCXLV (1925), pp.
331-45; Derick S. Thomson, The Gaelic Sources o f Macpherson’s Ossian,
Edimburgo, 1952; W. W. Skeat (org.), The Poetical Works o f Thomas Chat
terton with and Essay on the Rowley Poems, 2 vols., Londres, 1871; Thomas
Tyrwhitt, apêndice aos Poems supposed to have been written . . .b y Tho
mas Rowley, 2? ed., Londres, 1778, e A Vindication o f the Appendix to the
Poems called Rowley’s, Londres, 1782; Edmond Malone, Cursory Observations
on the Poems attributed to Thomas Rowley, Londres, 1782; Thomas Warton, An
Enquiry into the Authenticity o f the Poems Attributed to Thomas Rowley, Lon
dres, 1782; J, Mair, The Fourth Forger, Londres, 1938; George Chalmers, An
Apology fo r the Believers in the Shakespeare Papers, Londres, 1797.
Duas gerações depois, W. W. Skeat, que fizera um estudo siste
mático da gramática do médio inglês*, apontou as violações de
convenções gramaticais elementares que deveriam ter traído a
fraude muito mais rápida e completamente. Edmond Malone de
moliu as desajeitadas falsificações do jovem Ireland, mas, mes
mo elas, como Chatterton e Ossian, tiveram defensores de boa re
putação (como Chalmer, um homem de saber considerável), não
destituídos de mérito ha história da pesquisa shakespeariana.
A mera suspeita de falsificação também obrigou os estu
diosos a apoiar os argumentos a favor da datação e atribuição
tradicionais e, assim, a superar a aceitação da tradição em favor
de argumentos positivos: por exemplo, no caso de Hroswitha, a
freira alemã do século X cujas peças às vezes se supõem terem
sido foijadas por Conrad Celtes, o humanista alemão do século
XV, ou do russo Slovo o polku Igoreve, que geralmente é atri
buído ao século XII mas, mesmo recentemente, dizem ter sido
uma falsificação de fins do século XVIIP5. Na Boêmia, a ques
tão da falsificação de dois manuscritos supostamente medievais,
os manuscritos Zelenâ hora e o Královê dvur, foi uma acalorada
questão política até a década de 1880, e a reputação pública de
Thomas Masaryk, mais tarde presidente da Checoslováquia, foi
parcialmente construída nessas disputas e discussões, que come
çaram com a lingüística mas ampliaram-se para tomar-se uma
questão de verdade científica contra a auto-ilusão romântica36.
Em algumas dessas questões de autenticidade e autoria,
podem estar envolvidos problemas de indícios muito elabora
dos, e talvez seja necessário recorrer a todos os tipos de ciên
cia, como a paleografia, a bibliografia, a lingüística e a história.
* Segundo estágio do desenvolvimento da língua inglesa, da falada,
aproximadamente, de 1100 a 1500. (N. do R. T.)
35. Zoltán Haraszti, “The Works of Hroswitha”, More Books, XX
(1945), pp. 87-119, pp. 139-73; Edwin H. Zeydel, “The Authenticity of
Hroswitha’s Works”, Modern Language Notes, LXI (1946), pp. 50-5; André
Mazon, Le Slovo d Igor, Paris, 1940; Henri Grégoire, Roman Jakobson, et al.
(org.), La geste du prince Igor, Nova York, 1948.
36. A melhor descrição em inglês está em Paul Selver, Masaryk: A Bio
graphy, Londres, 1940.
Entre as revelações mais recentes, nenhuma foi mais precisa do
que a condenação de T. J. Wise pela falsificação de cerca de 86
panfletos do século XIX: o trabalho de detecção realizado por
Cárter e Pollard37 envolveu marcas d’água, procedimentos das
casas impressoras - tais como processos de aplicação de tinta, o
uso de certos tipos de papel e de fontes - e coisas semelhantes.
(O propósito literário direto de muitas dessas questões, porém,
é apenas leve: as falsificações de Wise, que nunca inventou um
texto, dizem respeito antes ao colecionador de livros.)
Nunca devemos esquecer que o estabelecimento de uma
data de autoria diferente não elimina a questão efetiva da críti
ca. Os poemas de Chatterton não são piores nem melhores por
terem sido escritos no século XVIII, um ponto muitas vezes
esquecido pelos que, na sua indignação moral, punem com o
desprezo e o esquecimento a obra que se provou ser uma pro
dução posterior.
As questões discutidas neste capítulo são praticamente as
únicas questões a que se dedicam os livros de métodos e manuais
existentes, como os de Morize, Rudler e Sanders38, e são quase
que os únicos métodos sobre os quais a maioria das faculdades
americanas fornece algum tipo de instrução sistemática. Ainda
assim, qualquer que seja a sua importância, deve-se reconhecer
que esse tipo de estudo apenas lança as fundações para uma
análise e uma interpretação efetivas, assim como para a expli
cação causal da literatura. Eles se justificam pelo uso que se dá
aos seus resultados.
37. John Carter e Graham Pollard, An Enquiry into the Nature o f Cer
tain Nineteenth-Century Pamphlets, Londres, 1934; Wildred Partington, For
ging Ahead: The True Story of... T.J. Wise, Nova York, 1939; Letters o f Tho
mas J. Wise to J. H. Wrenn (org. Fannie E. Ratchford), Nova York, 1944 (a
introdução implica H. Buxton Forman e, de maneira não convincente, Ed
mund Gosse).
38. Esses três livros estão relacionados na bibliografia, cap. 19, seção I.
PARTE TRÊS
A ABO R DA G EM E X T R ÍN SE C A
AO EST U D O DA LITER ATU R A
Introdução
Os mais difundidos e florescentes métodos de estudar lite
ratura ocupam-se do seu contexto, do seu ambiente, das suas
causas externas. Esses métodos extrínsecos não se limitam a
um estudo do passado mas são igualmente aplicáveis à literatu
ra do presente. Portanto, o termo “histórico” deveria ser adequa
damente reservado ao estudo da literatura que se concentra na
sua mudança no tempo e, portanto, preocupa-se centralmente
com o problema da história. Embora o estudo “extrínseco” pos
sa meramente tentar interpretar a literatura à luz do seu contex
to e antecedentes sociais, na maioria dos casos torna-se uma
explicação “causal”, que professa dar conta da literatura, expli
cá-la e finalmente reduzi-la às suas origens (a “falácia das ori
gens”). Ninguém pode negar que muito se esclareceu sobre li
teratura com o conhecimento adequado das condições sob as
quais foi produzida; o valor exegético de tal estudo parece in
dubitável. Contudo, está claro que o estudo causal nunca pode
solucionar problemas de descrição, análise e avaliação de um
objeto como obra de arte literária. Causa e efeito são incomen
suráveis: o resultado concreto dessas causas extrínsecas - a obra
de arte - é sempre imprevisível.
Pode-se argumentar que toda a história, todos os fatores
ambientais moldam uma obra de arte. Mas os problemas efeti
vos começam quando avaliamos, comparamos e isolamos os fa
tores individuais que supostamente determinam a obra de arte.
A maioria dos estudiosos tentam isolar uma série específica de
ações e criações humanas e atribuir unicamente a ela uma in-
fluência determinante na obra de literatura. Assim, um grupo
considera a literatura como o produto de um criador individual
e conclui, portanto, que a literatura deve ser investigada princi
palmente através da biografia e da psicologia do autor. Um se
gundo grupo procura os principais fatores determinantes da
criação literária na vida institucional do homem - nas condi
ções econômicas, sociais e políticas; outro grupo relacionado
busca a explicação causal da literatura em outras criações cole
tivas da mente humana, como a história das idéias, a teologia e
as outras artes. Finalmente, há um grupo de estudiosos que bus
ca explicar a literatura em termos do Zeitgeist, certo espírito
quintessencial do tempo, certa atmosfera ou “clima” de opinião,
certa força unitária abstraída
em boa parte das características
das outras artes.
Esses advogados da abordagem extrínseca variam na rigi
dez com que aplicam métodos causais deterministas e, portan
to, nas afirmações que fazem a favor do sucesso do seu méto
do. Os que acreditam na causação social geralmente são os mais
deterministas. Esse radicalismo pode ser explicado pelas suas
afiliações filosóficas com o positivismo e a ciência do século
XIX, mas não devemos esquecer que os adeptos idealistas da
Geistesgeschichte, filosoficamente afiliados ao hegelianismo
e outras formas de pensamento romântico, também são deter
ministas extremos e até mesmo fatalistas.
Muitos estudantes que usam esses métodos farão afirma
ções bem mais modestas. Buscarão estabelecer apenas certo
grau de relação entre a obra de arte e os seus contextos e ante
cedentes e suporão que certo grau de iluminação decorre de tal
conhecimento, embora a relevância precisa dessas relações pos
sa escapar-lhes inteiramente. Esses proponentes mais modes
tos parecem mais sábios pois, com certeza, a explicação causal é
um método muito superestimado no estudo da literatura e, com
igual certeza, nunca pode solucionar os problemas críticos da
análise e da avaliação. Entre os diferentes métodos governados
pela causa, uma explicação da obra de arte em termos do con
texto total parece preferível, já que a redução da literatura ao
efeito de uma única causa é manifestamente impossível. Sem
endossar as concepções específicas da Geistesgeschichte ale
mã, reconhecemos que tal explicação por meio da síntese de to
dos os fatores impede uma importante critica dirigida aos ou
tros métodos correntes. O que decorre é uma tentativa de pesar
a importância desses diferentes fatores e criticar o arsenal de
métodos a partir do ponto de vista da sua relevância para um
estudo que poderia ser denominado centralmente literário ou
“ergocêntrico”.
7. A literatura e a biografia
A causa mais evidente de uma obra de arte é o seu criador,
o autor, e, portanto, a explicação que gira em tomo da persona
lidade e da vida do autor tem sido um dos métodos de estudo
literário mais antigos e bem estabelecidos.
A biografia pode ser julgada em termos dos esclarecimentos
que oferece sobre a produção efetiva de poesia, mas podemos,
naturalmente, defendê-la e justificá-la como um estudo do ho
mem de gênio, do seu desenvolvimento moral, intelectual e emo
cional, que é interessante por si só, e, finalmente, podemos pen
sar na biografia como fornecedora de materiais para um estudo
sistemático da psicologia do poeta e do processo poético.
Esses três pontos de vista devem ser distinguidos cuida
dosamente. Para a nossa concepção de "estudos literários” ape
nas a primeira tese, a de que a biografia explica e esclarece o
produto efetivo da poesia, é diretamente relevante. O segundo
ponto de vista, que defende o interesse intrínseco da biografia,
desloca o centro de atenção para a personalidade humana. O
terceiro considera a biografia como material para uma ciência
ou íiitura ciência, a psicologia da criação artística.
A biografia é um gênero literário antigo. Antes de mais
nada - cronológica e logicamente - ela é parte da historiogra
fia. A biografia não faz nenhuma distinção metodológica en
tre um estadista, um general, um arquiteto, um advogado e
um homem que não desempenha nenhum papel público. E é
bastante razoável a visão de Coleridge, de que qualquer vida,
por mais insignificante, se contada verdadeiramente, seria de
interesse1. Na visão de um biógrafo, o poeta é simplesmente
outro homem, cujo desenvolvimento moral e intelectual, cuja
carreira externa e vida emocional podem ser reconstruídos e
avaliados de acordo com padrões extraídos, geralmente, de al
gum sistema ético ou código de maneiras. Seus escritos podem
surgir como meros fatos de publicação, como acontecimentos
iguais aos da vida de qualquer homem ativo. Vistos assim, os
problemas de um biógrafo são simplesmente os do historiador.
Ele tem de interpretar os seus documentos, cartas, descrições
de testemunhas oculares, reminiscências, declarações autobio
gráficas e decidir questões de autenticidade, fidedignidade das
testemunhas e coisas similares. Ao escrever efetivamente a bio
grafia, ele encontra problemas de apresentação cronológica, de
seleção, de discrição ou franqueza. O trabalho razoavelmente
extenso feito sobre a biografia como gênero lida com tais ques
tões, questões que não são, de nenhuma maneira, especifica
mente literárias2.
No nosso contexto, duas questões de biografia literária são
cruciais. Até que ponto o biógrafo tem justificativa para usar o
testemunho das próprias obras para os seus propósitos? Até
que ponto os resultados da biografia literária são relevantes e
importantes para uma compreensão das próprias obras? Dá-se
geralmente uma resposta afirmativa a ambas as perguntas.
Para a primeira, ela é pressuposta por quase todos os biógrafos
atraídos especialmente por poetas, já que os poetas parecem
oferecer indícios abundantes que podem ser usados na compo
sição de uma biografia, indícios que estarão ausentes, ou qua
se ausentes, no caso de muitos personagens históricos bem mais
influentes. Mas esse otimismo é justificado?
Devemos distinguir duas épocas do homem, duas soluções
possíveis. Para a maior parte da literatura antiga não temos do
cumentos privados em que se possa basear uma biografia. Te
mos apenas uma série de documentos públicos, registros de
1. S. T. Coleridge, em uma carta a Thomas Poole, fevereiro de 1797,
Letters (org. E. H. Coleridge), Londres, 1895, vol. I, p. 4.
2. Ver bibliografia, seção I.
nascimento, ações judiciais e semelhantes e, então, o testemu
nho das obras. Podemos, por exemplo, bem por alto, acompanhar
os movimentos de Shakespeare, e sabemos um pouco sobre suas
finanças, mas não temos absolutamente nada na forma de car
tas, diários, reminiscências, exceto algumas anedotas de auten
ticidade duvidosa. O vasto esforço aplicado no estudo da vida
de Shakespeare produziu poucos resultados de valor literário.
São, principalmente, fatos da cronologia e ilustrações da posi
ção social e das associações de Shakespeare. Portanto, os que
tentaram construir uma biografia real de Shakespeare, do seu
desenvolvimento ético e emocional, se procederam com espíri
to científico, como Caroline Spurgeon tentou no seu estudo das
imagens de Shakespeare, conseguiram apenas uma lista de tri
vialidades ou, se usaram as peças e os sonetos sem prudência,
construíram romances biográficos como os de Georg Brandes
ou Frank Harris3. A suposição toda por trás dessas tentativas (que
começaram, provavelmente, com algumas sugestões de Hazlitt e
Schlegel, elaboradas primeiro, com certa cautela, por Dowden)
está completamente errada. Não podemos, a partir de declara
ções ficcionais, especialmente as feitas em peças, deduzir ne
nhuma inferência válida quanto à biografia de um autor. Pode
mos ter dúvidas sérias até quanto à visão costumeira de que
Shakespeare passou por um período de depressão no qual es
creveu as tragédias e comédias amargas, conquistando certa
serenidade de propósito em A tempestade. Não é evidente por
si que um escritor tenha de se encontrar em um estado de espí
rito trágico para escrever tragédias ou que escreva comédias
quando está satisfeito com a vida. Não existe simplesmente ne
nhuma prova das mágoas de Shakespeare4. Ele não pode ser
responsabilizado pelas visões de Timão ou de Macbeth sobre a
vida, assim como não se pode considerar que sustente as vi-
3. Georg Brandes, William Shakespeare, 2 vols., Copenhague, 1896
(tradução inglesa, 2 vols., Londres, 1898); Frank Harris, The Man Shakespea
re, Nova York, 1909-
4, C. J. Sisson, The Mythical Sorrows o f Shakespeare, British Academy
Lecture, 1934; E, E. Stoll, “The Tempest", Shakespeare and
other Masters,
Cambridge, Mass., 1940, pp. 281-316.
sõcs de Doll Tearsheet ou lago. Não há nenhuma razão para crer
que Próspero fale como Shakespeare: não podemos atribuir aos
autores as idéias, sentimentos, visões, virtudes e vícios dos seus
heróis. E isso é verdadeiro no que diz respeito não apenas aos
personagens de uma peça ou de um romance mas também ao
eu do poema lírico. A relação entre a vida privada e a obra não
6 uma simples relação de causa e efeito.
Os proponentes do método biográfico, porém, terão obje
ções a essas afirmações. As condições, dirão eles, mudaram des
de o tempo de Shakespeare. O testemunho biográfico, para mui
tos poetas, tomou-se abundante porque os poetas tornaram-se
mais conscientes de si, porque se imaginaram vivendo aos olhos
da posteridade (como Milton, Pope, Goethe, Wordsworth ou
Byron) e deixaram muitas declarações autobiográficas, além
de atrair muita atenção dos contemporâneos. A abordagem bio
gráfica agora parece fácil pois podemos confrontar vida e obra.
Na verdade, a abordagem é até convidada e exigida pelo poeta,
especialmente o poeta romântico, que escreve sobre si mesmo e
seus sentimentos mais íntimos ou mesmo, como Byron, carrega
pela Europa o “cortejo do seu coração que sangra”. Esses poetas
falaram de si não apenas em cartas privadas, diários e autobio
grafias mas também nos seus pronunciamentos mais formais. O
Prelúdio de Wordsworth é declaradamente uma autobiografia.
Parece difícil não aceitar esses pronunciamentos - de conteúdo
e mesmo tom às vezes iguais ao da sua correspondência priva
da - pelo seu valor nominal sem interpretar a poesia em fun
ção do poeta, que a via, ele próprio, na conhecida expressão de
Goethe, como “fragmentos de uma grande confissão” .
Devemos certamente distinguir dois tipos de poeta, o ob
jetivo e o subjetivo: os que, como Keats e T. S. Eliot, enfatizam
a “capacidade negativa” do poeta, a sua abertura ao mundo, a
obliteração da sua personalidade concreta, e o tipo oposto de
poeta, que almeja exibir a sua personalidade, que quer dese
nhar um auto-retrato, confessar-se, expressar-se1. Durante lon-
5. John Keats, carta a Richard Woodhouse, 27 de outubro de 1818, Let
ters (org. M. B. Forman), 4? ed., Oxford, 1952, pp. 226-7. Ver W. J. Bate, Ne
gative Capability: The Intuitive Approach in Keats, Cambridge, Mass., 1939;
gos períodos de tempo conhecemos apenas o primeiro tipo: as
obras em que o elemento de expressão pessoal é bem fraco,
embora o valor estético possa ser grande. As novelle italianas,
os romances de cavalaria, os sonetos da renascença, o teatro isa-
belino, os romances naturalistas, a maior parte da poesia fol
clórica, podem servir como exemplos literários.
Contudo, mesmo no caso do poeta subjetivo, a distinção
entre um enunciado pessoal, de natureza autobiográfica, e o uso
do mesmo motivo em uma obra de arte não deve e não pode ser
dispensada. Uma obra de arte forma uma unidade em um pla
no inteiramente diferente, com uma relação com a realidade in-
teiramente diferente da de um livro de memórias, um diário ou
uma carta. Apenas com uma perversão do método biográfico
seria possível que os documentos mais íntimos e, por vezes, os
mais informais da vida de um autor se tomassem o estudo cen
tral, enquanto os poemas reais seriam interpretados à luz dos do
cumentos e ordenados segundo uma escala inteiramente sepa
rada, ou mesmo contraditória, daquela oferecida por qualquer jul
gamento crítico dos poemas. Assim, Brandes tacha Macbeth de
desinteressante porque este se relaciona menos com o que ele
concebe como a personalidade de Shakespeare; assim, Kings-
mill queixa-se de Sohrab e Rustum, de Amold6.
Mesmo quando uma obra de arte contém elementos que
podem ser identificados com certeza como biográficos, esses
elementos estarão tão reordenados e transformados que perde
rão todo o seu significado especificamente pessoal e tomar-se-
ão simplesmente material humano concreto, elementos inte
grais de uma obra. Ramon Fernandez fez essa argumentação
de maneira convincente com respeito a Stendhal. G. W. Meyer
demonstrou quanto do manifestamente autobiográfico Prelú
dio difere da vida real de Wordsworth durante o processo que o
poema diz descrever7.
T. S. Eliot, “Tradition and the Individual Talent”, The Sacred Wood, Londres,
1920, pp. 42-53.
6. Brandes, op. cit., p. 42; H. Kingsmill, Matthew Amold, Londres,
1928, pp. 147-9.
7. Ramon Fernandez, “L’Autobiographie et le roman: l’exemple de
Stendhal”, Messages, Paris, 1926, pp. 78-109 (trad, inglesa, Londres, 1927,
Toda a visão de que a arte é auto-expressão pura e sim
ples, a transcrição de sentimentos e experiências pessoais, é
comprovadamente falsa. Mesmo quando há uma relação ínti
ma entre a obra de arte e a vida de um autor, isso não deve ser
interpretado com o sentido de que a obra de arte é uma mera
cópia da vida. A abordagem biográfica esquece que a obra de
arte não é simplesmente a corporificação da experiência mas
sempre a obra mais recente em uma série de tais obras; é uma
peça, um romance, um poema determinados, tanto quanto são
determinados, pela tradição e pela convenção literárias. A abor
dagem biográfica obscurece na verdade a compreensão adequa
da do processo literário, já que rompe a ordem da tradição lite
rária e coloca no lugar o ciclo vital de um indivíduo. A aborda
gem biográfica ignora também fatos psicológicos simples. Uma
obra de arte pode incorporar antes o “sonho” de um autor que
a sua vida real, ou pode ser a “máscara”, o “antieu” por trás do
qual o autor quer escapar. Além disso, não devemos esquecer que
o artista pode “experimentar” a vida de maneira diferente em
função da sua arte: as experiências concretas são enxergadas
com vistas ao seu uso na literatura e já chegam a ele parcial
mente moldadas pelas tradições e preconcepções artísticas8.
Devemos concluir que a interpretação e o uso biográfico de
toda obra de arte precisa de escrutínio e exame cuidadoso em
cada caso, já que a obra de arte não é um documento para a bio
grafia. Devemos questionar seriamente a Life o f Traherne, de
Gladys I. Wade, que considera cada enunciado dos seus poemas
como verdade biográfica literal, ou os muitos livros a respeito
da vida das irmãs Brontê, que simplesmente tiram passagens in
teiras de Jane Eyre ou Villette. Há The Life and Eager Death o f
Emily Brontê, de Virginia Moore, que pensa que Emily deve ter
experimentado as paixões de Heathcliff, e há outros que argu-
pp, 91-136); George W. Meyer, Wordsworth ’s Formative Years, Ann Arbor,
Mich., 1943.
8.Wilhelm Dilthey, Das Erlebnis und die Dichtung, Leipzig, 1907;
Friedrich Gimdolf, Goethe, Berlim, 1916 (uma distinção é feita entre Urer-
lebnis e Bildungserlebnis).
mentaram que uma mulher não poderia ter escrito O morro dos
ventos uivantes, e que o irmão, Patrick, deve ter sido o verda
deiro autor9. E esse tipo de argumento que levou as pessoas a
afirmar que Shakespeare deve ter visitado a Itália, que deve ter
sido advogado, soldado, professor, fazendeiro. Ellen Terry deu a
resposta esmagadora a tudo isso quando argumentou que, pe
los mesmos critérios, Shakespeare deve ter sido mulher.
Mas, dirão, tais casos de insensatez pretensiosa não resol
vem o problema da personalidade na literatura. Lemos Dante,
Goethe ou Tolstói e sabemos que há uma pessoa por trás da
obra. Há uma similaridade fisionômica indubitável entre os es
critos de um autor. Pode-se perguntar, porém, se não seria me
lhor distinguir nitidamente a pessoa empírica e a obra, que só
pode ser chamada “pessoal” em um sentido metafórico. Há uma
qualidade que podemos chamar “miltoniana” ou “keatsiana” na
obra dos seus autores. Mas essa qualidade pode ser determina
da com base nas próprias obras, ao passo que pode não ser ave-
riguável com base em testemunhos puramente biográficos.
Sa
bemos o que é “virgiliano” ou “shakespeariano” sem termos
nenhum conhecimento biográfico realmente definido dos dois
grandes poetas.
Ainda assim, há ligações, paralelismos, semelhanças oblí
quas, reflexos confusos. O trabalho do poeta pode ser uma
máscara, uma convencionalização dramatizada, mas, freqüen-
temente, é uma convencionalização das suas próprias experiên
cias, da sua própria vida. Há utilidade no estudo biográfico, se
usado com a consciência dessas distinções. Primeiro, sem dú
vida, ele tem valor exegético: pode explicar muitas alusões ou
mesmo palavras na obra de um autor. A estrutura biográfica
também nos ajudará a estudar os mais evidentes de todos os
9. V. Moore, The Life and Eager Death o f Emily Bronte, Londres,
1936; Edith E. Kinsley, Pattern for Genius, Nova York, 1939 (uma biografia
reunindo citações dos romances das irmãs Brontê com nomes verdadeiros
substituindo os fictícios); Romer Wilson, The Life and Private History o f
Emily Jane Bronte, Nova York, 1928 (O morro dos ventos uivantes é tratado
como autobiografia inequivoca).
problemas estritamente relacionados com o desenvolvimento
na história da literatura - o crescimento, o amadurecimento e o
possível declínio da arte de um autor. A biografia também acu
mula os materiais para outras questões da história literária como
as leituras do poeta, suas associações pessoais com outros lite
ratos, suas viagens, a paisagem e as cidades que viu ou onde
viveu: todas elas questões que podem lançar luz sobre a histó
ria literária, isto é, a tradição na qual o poeta estava inserido, as
influências que o formaram, os materiais de que se valeu.
Qualquer que seja a importância da biografia nesses as
pectos, porém, parece perigoso atribuir-lhe qualquer importân
cia especificamente critica. Nenhum testemunho biográfico
pode mudar ou influenciar a avaliação crítica. O critério ffe-
qüentemente aduzido da “sinceridade” é inteiramente falso se
julga a literatura em função da verdade biográfica, da corres
pondência com a experiência ou os sentimentos do autor, tal
como atestado por testemunho externo. Não há nenhuma rela
ção entre “sinceridade” e valor como arte. Os volumes de an
gustiada poesia amorosa perpetrados por adolescentes e os ter
ríveis (por mais que fervorosamente sentidos) poemas religio
sos que enchem as bibliotecas são prova suficiente disso. “Fare
Thee Well...”, de Byron, não é um poema pior nem melhor por
dramatizar as relações reais do poeta com a esposa, e tampou
co “é uma pena”, como pensa Paul Elmer More, que o manus
crito não exiba nenhum vestígio das lágrimas que, segundo as
Memoranda de Thomas Moore, caíram sobre ele10. O poema
existe; as lágrimas, vertidas ou não, as emoções pessoais, tudo
desapareceu e não pode ser reconstruído - nem precisa ser.
10. O exemplo é tirado de C. B. Tinker, The Good Estate o f Poetry,
Boston, 1929, p. 30.
8. A literatura e a psicologia
Com o termo “psicologia da literatura”, podemos querer
designar o estudo psicológico do escritor, como tipo e como in
divíduo, o estudo do processo criativo, o estudo dos tipos e leis
psicológicas presentes em obras literárias ou, finalmente, os
efeitos da literatura sobre os seus leitores (psicologia do públi
co). O quarto consideraremos em “Literatura e sociedade”; os
outros três serão discutidos aqui, um de cada vez. Provavelmen
te apenas o terceiro pertence, estritamente falando, ao estudo li
terário. Os dois primeiros são subdivisões da psicologia da arte:
embora, às vezes, possam servir como abordagens pedagógi
cas envolventes do estudo da literatura, devemos desautorizar
qualquer tentativa de avaliar obras literárias em função das
suas origens (a falácia genética).
A natureza do gênio literário sempre atraiu a especulação,
e já no tempo dos gregos ele era relacionado com a “loucura”
(a ser glosado como o intervalo entre a neurose e a psicose). O
poeta é o “possuído”: ele é diferente dos outros homens, simul
taneamente menos e mais, e o inconsciente do qual ele fala é
sentido, ao mesmo tempo, como sub e supra-racional.
Outra concepção antiga e persistente é a de que o “dom”
do poeta é uma compensação: a Musa levou a visão dos olhos de
Demôdoco mas “deu-lhe o adorável dom da canção” (na Odis
séia), assim como ao cego Tirésias é concedida a visão proféti
ca. Nem sempre, é claro, desvantagem e dom apresentam uma
correlação tão direta, e a doença ou deformidade pode ser psi
cológica ou social em vez de física. Pope era corcunda e anão;
Byron era manco; Proust era um neurótico asmático, de ascen-
dência parcialmente judaica; Keats era mais baixo que outros
homens; Thomas Wolfe muito mais alto. A dificuldade com a teo
ria é justamente a sua facilidade. Após o acontecimento, qual
quer sucesso pode ser atribuído à motivação compensatória, pois
todos têm responsabilidades que podem servir-lhes de incenti
vos. Dúbia, certamente, é a difundida visão de que a neurose -
e a “compensação” - diferenciam os artistas dos cientistas e de
outros “contemplativos”: a distinção óbvia é que os escritores
muitas vezes documentam os seus próprios casos, transforman
do suas moléstias em material temático1.
As questões básicas são estas: se o escritor é um neurótico,
é a sua neurose que provê os temas da sua obra ou apenas a sua
motivação? Se for a segunda, então o escritor não deve ser dife
renciado de outros contemplativos. A outra questão é: se o es
critor é neurótico nos seus temas (como Kafka certamente é),
como o seu trabalho é inteligível para os leitores? O escritor deve
estar fazendo muito mais do que registrar um histórico de caso.
Deve estar lidando com um padrão arquetípico (como faz Dos-
toiévski em Os irmãos Karamázov) ou com um padrão de “per
sonalidade neurótica” amplamente difundido no nosso tempo.
A visão de Freud do escritor não é inteiramente estável.
Como muitos dos seus colegas europeus, notavelmente Jung e
Rank, ele era um homem de cultura geral elevada que, como
todo austríaco instruído, respeitava os clássicos e a literatura
clássica alemã. Então, ele também descobriu na literatura mui
tos insights que anteciparam e corroboraram os seus próprios -
em Os irmãos Karamázov, de Dostoiévski, em Hamlet, no Neveu
deRameau, de Diderot, em Goethe. Mas ele também pensava no
autor como um neurótico obstinado que, pelo seu trabalho criati
vo, esquivava-se a um colapso mas também a qualquer cura real.
1. Ver Alfred Adler, Study o f Organ Inferiority and Its Physical Com
pensation, 1907 (trad, inglesa, 1917); Wayland F. Vaughan, “The Psycho
logy of Composition”, Psych. Review, XXXIU (1926), pp. 467-79; Edmund
Wilson, The Wound and the Bow, Nova York, 1941; também L. MacNeice,
Modern Poetry, Londres, 1938, p. 76; L. Trilling, “Art and Neurosis”, Parti
san Review, XII (1945), pp. 41-9 (reimpresso em The Liberal Imagination,
Nova York, 1950, pp. 160-80).
O artista [diz Freud] é originalmente um homem que se afasta
da realidade porque não consegue entrar em acordo com a exi
gência de renúncia à satisfação instintiva quando ela se apresen
ta pela primeira vez e que, então, na vida da fantasia permite
plena liberdade aos seus desejos eróticos e ambiciosos. Mas ele
encontra um caminho para sair desse mundo de fantasia e voltar
à realidade; com os seus dons especiais, ele molda as suas fanta
sias em um novo tipo de realidade, e os homens concedem-lhes
justificativa como reflexos valiosos da vida real. Assim, por cer
to caminho, ele efetivamente se toma o herói, o rei, o criador, o
favorito que desejava ser, sem o caminho tortuoso de criar alte
rações reais no mundo exterior.
Isto é, o poeta é alguém que sonha acordado e é validado
socialmente. Em vez de alterar esse caráter, ele perpetua e pu
blica as suas fantasias2.
Tal descrição, presume-se, dá conta do filósofo e do “cien
tista
puro” juntamente com o artista, e, portanto, é um tipo de
redução “positivista” da atividade contemplativa ao observar e
nomear em lugar do agir. Não faz justiça ao efeito indireto ou
oblíquo do trabalho contemplativo, às “alterações no mundo ex
terior” efetuadas pelos leitores dos romancistas e filósofos. Tam
bém deixa de reconhecer que a criação é, ela própria, um modo
de trabalho no mundo exterior, que, enquanto o sonhador se con
tenta em sonhar com escrever os seus sonhos, alguém que esteja
efetivamente escrevendo está se ocupando de um ato de exte
riorização e de ajuste à sociedade.
A maioria dos escritores se esquivou a subscrever o freu-
dianismo ortodoxo ou a completar o seu tratamento psicanalí-
tico - que alguns haviam começado. Não quiseram ser “cura
dos” ou “ajustados”, pensando que deixariam de escrever se
fossem ajustados ou que o ajuste proposto fosse a uma norma
lidade ou a um ambiente social que rejeitavam como hipócrita
ou burguês. Assim, Auden afirmou que os artistas devem ser
tão neuróticos quanto puderem suportai, e muitos concorda
ram com freudianos revisionistas, como Horney, Fromm e
2. Ver bibliografia.
Kardiner, em que as concepções de neurose e normalidade de
Freud, extraídas da Viena da virada do século, precisam ser
corrigidas por Marx e pelos antropólogos3.
A teoria da arte como neurose suscita a questão da imagi
nação em relação à crença. O romancista é análogo não apenas
à criança romântica que “conta histórias” - isto é, reconstrói a
sua experiência até que ela se conforme ao seu prazer e crédi
to - , mas também ao homem que sofre de alucinações, que con
funde o mundo da realidade com o mundo de fantasia das suas
esperanças e medos? Alguns romancistas (Dickens, por exem
plo) falavam que viam e ouviam nitidamente seus personagens
e, também, de personagens que assumiam o controle da histó
ria, moldando até um fim diferente do projeto preliminar do
autor. Nenhum dos casos citados pelos psicólogos parece con
firmar a acusação de alucinação; alguns romancistas, porém, po
dem ter a capacidade, comum entre crianças, mas rara depois,
da imagem eidética (nem pós-imagens nem imagens da memó
ria, mas de caráter perceptual, sensorial). No entender de Erich
Jaensch, essa capacidade é sintoma da integração especial que
o artista faz de perceptual e conceituai. Ele retém, e desenvol
veu, uma característica arcaica da raça: ele sente e até vê os
seus pensamentos4.
Outro traço às vezes atribuído aos literatos - mais especifi
camente, ao poeta - é a sinestesia ou vinculação de percepções
sensoriais de dois ou mais sentidos, mais comumente a audição
e a visão (audition colorée: por exemplo, o trompete como es
carlate). Como traço fisiológico é aparentemente, como o dalto-
3. W. H, Auden, Letters from Iceland, Londres, 1937, p. 193; ver L.
MacNeice, Modern Poetry, Londres, 1938, pp. 25-6; Karen Homey, The
Neurotic Personality o f our Time, Nova York, 1937; Erich Fromm, Escape
from Freedom, Nova York, 1941, e Man fo r Himself, Nova York, 1947.
4. Ver W. Silz, “Otto Ludwig and the Process of Poetic Creation”,
PMLA, LX (1945), pp. 860-78, que reproduz a maioria dos tópicos sobre psi
cologia do autor estudados na pesquisa alemã recente; Erich Jaensch, Eidetic
Imagery and Typological Methods o f Investigation, Londres, 1930; também
“Psychological and Psychophysical Investigations of Types...”, em Feelings
and Emotions, Worcester, Mass., 1928, pp. 355 ss.
nismo, resquício de um sensório relativamente indiferenciado.
Com muito mais freqüência, porém, a sinestesia é uma técnica
literária, uma forma de tradução metafórica, a expressão estili
zada de uma postura metafísico-estética diante da vida. Histori
camente, essa postura e estilo são característicos dos períodos
barroco e romântico e, de maneira correspondente, repugnantes
aos períodos racionalistas, em busca antes do “claro e distinto”
do que de “correspondências”, analogias e unificações5.
Desde os seus primeiros escritos críticos, X S. Eliot insiste
em uma visão inclusiva do poeta como aquele que recapitula - ou
melhor, preserva intactos - os seus estratos da história da raça,
mantendo aberta a comunicação com a própria infância e com a
da raça, ao mesmo tempo em que se lança ao futuro. “O artista”,
escreveu ele em 1918, “é mais primitivo, assim como mais civili
zado, do que os seus contemporâneos...” Em 1932, ele retoma a
essa concepção, falando particularmente da “imaginação auditi
va”, mas também das imagens visuais do poeta e, em especial,
das imagens recorrentes, que “podem ter valor simbólico, mas do
que não sabemos dizer, pois elas vieram representar as profunde
zas do sentimento, as quais não podemos espreitar”. Eliot cita
com aprovação o trabalho de Cailliet e Bédé sobre a relação do
movimento simbolista com o estilo primitivo, resumindo: “a men
talidade pré-lógica persiste no homem civilizado, mas toma-se
disponível apenas para o poeta ou através dele”6.
5. Sobre sinestesia, ver Ottokar Fischer, “Über Verbindung von Farbe
und Klang: Eine literar-psychologische Untersuchung”, Zeitschrift fü r Ästhe
tik, II (1907), pp. 501-34; Albert Wellek, “Das Doppelempfinden in der Geis
tesgeschichte”, Zeitschriftför Ästhetik, XXIII (1929), pp. 14-42; “Renaissan-
ce-und Barock-synästhesie”, Deutsche Vierteljahrschrift fü r Literaturwis
senschaft, IX (1931), pp. 534-84; E. v. Erhardt-Siebold, “Harmony of the
Senses in English, German, and French Romanticism”, PMLA, XLVII
(1932), pp. 577-92; W. Silz, “Heine’s Synaesthesia”, PMLA, LVII (1942),
pp. 469-88; S. de Ullman, “Romanticism and Synaesthesia”, PMLA, LX
(1945), pp. 811-27; A. G. Engstrom, “In Defense of Synaesthesia in Literatu
re”, Philological Quarterly, XXV (1946), pp. 1-19.
6. Ver Richard Chase, “The Sense o f the Present”, Kenyon Review, VII
(1945), pp. 218 ss. As citações de The Use o f Poetry, de T. S. Eliot, ocorrem
Nessas passagens não é difícil descobrir a influência de
Cari Jung e uma reformulação da tese junguiana de que, por
baixo do “inconsciente” individual - o resíduo bloqueado do
nosso passado, particularmente da infância encontra-se o
“inconsciente coletivo” - a memória bloqueada do nosso pas
sado racial, até mesmo da nossa pré-humanidade.
Jung tem uma tipologia psicológica elaborada, segundo a
qual se subdividem em “extrovertidos” e “introvertidos” os qua
tro tipos baseados no predomínio, respectivamente, do pensa
mento, do sentimento, da intuição, da sensação. Ele não atribui,
como se poderia supor, todos os escritores à categoria intuitiva-
introvertida ou, mais geralmente, à categoria do introvertido.
Como precaução adicional contra a simplificação, ele observa
que alguns escritores revelam o seu tipo no trabalho criativo, ao
passo que outros revelam o seu antitipo, o seu complemento7.
O homo scriptor, deve-se reconhecer, não é um tipo úni
co. Se inventamos uma mistura romântica de Coleridge, Shel-
ley, Baudelaire e Poe, devemos lembrar imediatamente Racine,
Milton e Goethe ou Jane Austen e Anthony Trollope. Podemos
começar diferenciando os poetas líricos e românticos dos poe
tas dramáticos e épicos e dos seus equivalentes parciais, os ro
mancistas. Um dos tipologistas alemães, Kretschmer, separa
os poetas (que são leptossomáticos e propensos à esquizofre
nia) dos romancistas (que são pícnicos na estrutura física e de
nas pp. 118-19,155 e 148 e n. O ensaio ao qual Eliot se refere, “Le symbolis-
me et 1’âme primitive”, surgiu na Revue de littêrature co m p a rée ;^ fttfS S T f
pp. 356-86. Ver também Émile Cailliet, Symbolisme et âmes primitives, Pa
ris, 1936, cuja “conclusão” relata uma conversa com Eliot.
7. Carl G. Jung, "On the Relation o f Analytical Psychology to Poetic
Art”, Contributions to Analytical Psychology, Londres, 1928, e Psychologi
cal Types (tr. H. G. Baynes), Londres,
1926; e ver J. Jacobi, The Psychology
o f Jung (tr. Bash), New Haven, 1943. Os filósofos, psicólogos e estetas britâ
nicos publicamente em débito com Jung incluem John M. Thorbum, Art and
the Unconscious, 1925; Maud Bodkin, Archetypal Patterns in Poetry, Psycho
logical Studies o f Imagination, 1934; Herbert Read, “Myth, Dream, and Poem”,
Collected Essays in Literary Criticism, Londres, 1938, pp. 101-16; H. G.
Baynes, Mythology o f the Soul, Londres, 1940; M. Esther Harding, Women’s
Mysteries, Londres, 1935.
temperamento maníaco-depressivo ou “ciclóide”). Certamente
há um par tipológico do “possuído”, isto é, o poeta automático,
obsessivo ou profético, e do “artífice”, o escritor que é primor-
dialmente um artesão treinado, habilidoso, responsável. A distin
ção parece parcialmente histórica: o “possuído” é o poeta primi
tivo, o xama; então, dizemos, é o poeta romântico, o expressio-
nista, o surrealista. Os poetas profissionais, treinados nas escolas
de bardos da Irlanda e da Islândia, os poetas da renascença e
do neoclassicismo são “artífices”. Mas, naturalmente, esses tipos
não devem ser compreendidos como mutuamente exclusivos,
mas polares, e, no caso de grandes escritores - incluindo Mil
ton, Poe, James e Eliot, além de Shakespeare e Dostoiévski
temos de pensar no escritor como “artífice” e também “possuí
do”, combinando uma visão de vida defendida obsessivamen
te a um cuidado consciente e preciso com a apresentação des
sa visão8.
Talvez a mais influente das polaridades modernas seja a de
Nietzphe, em O nascimento da tragédia (1872), a polaridade
entre Apoio e Dioniso, as duas divindades artísticas dos gregos
e dos dois tipos e processos artísticos que representam: as artes
da escultura e da música, os estados psicológicos do sonho e da
embriaguez extática. Estes correspondem aproximadamente ao
“artífice” clássico e ao “possuído” romântico (oupoeta vates).
Embora não reconheça, o psicólogo francês Ribot deve de
rivar de Nietzche a base para a sua divisão dos artistas literários
entre os dois tipos de imaginação. O primeiro deles, o “plásti
co”, caracteriza o visualizador agudo, que é incitado principal
mente pela observação do mundo exterior, pela percepção, ao
passo que o “difluente” (o auditivo e simbólico) é o poeta sim-
bolista ou escritor de narrativas românticas (Tieck, Hoffinan,
8. Sobre tipologias do caráter, ver, para uma descrição histórica, A. A.
Roback, The Psychology o f Character with a Survey o f Temperament, Nova
York, 1928; Eduard Spranger, Types o f Men: the Psychology... o f Personality
(tr. Pigors), Halle, 1928; Ernst Kretschmer, Physique and Character ... (tr.
Sprott), Londres, 1925; The Psychology o f Men o f Genius (tr. Cattell), Lon
dres, 1931. Sobre o “artífice” e o “possuído”, ver W. H. Auden, “Psychology
and Art”, The Arts Today (org. G. Grigson), Londres, 1935, pp. 1-21.
Poe), que parte das suas próprias emoções e sentimentos, proje
tando-os através de ritmos e imagens unificadas pela compul
são da sua Stimmung. Sem dúvida, é de Ribot que Eliot parte
ao comparar a “imaginação visual” de Dante com a “imaginação
auditiva” de Milton.
Pode-se oferecer mais um exemplo, o de L. Rusu, um estu
dioso romeno contemporâneo que distingue três tipos de artista:
o “type sympathique” (concebido como alegre, espontâneo, se
melhante a um pássaro na sua criatividade), o “type dêmoniaque
anarchique” e o “type dêmoniaque équilibré”. Os exemplos nem
sempre são felizes mas há uma alusão geral à tese e antítese de
“simpático” e “anárquico”, que tem como síntese um tipo maior,
no qual a luta com o daemon terminou em triunfo, no equilí
brio de tensões. Rusu cita Goethe como o exemplo dessa gran
deza, mas devemos atribuí-la a todos os nossos maiores nomes
- Dante, Shakespeare, Balzac, Dickens, Tolstói e Dostoiévski9.
O “processo criativo” deve abranger toda a seqüência, das
origens subconscientes de uma obra literária às últimas revi
sões que, em alguns escritores, são a parte mais genuinamente
criativa do todo.
Há uma distinção a ser feita entre a estrutura mental de
um poeta e a composição de um poema, entre a impressão e a
expressão. Croce não conquistou o assentimento de escritores
e críticos à sua redução de ambos à intuição estética; na verda
de, algo semelhante à redução oposta foi discutido de maneira
plausível por C. S. Lewis. Mas qualquer tentativa de dualizar o
par como Erlebnis e Dichtung, à maneira de Dilthey, também é
insatisfatória. O pintor vê como pintor; a pintura é a clarifica
ção e o termo do seu ver. O poeta é um artífice de poemas, mas
a matéria dos seus poemas é toda a sua vida percipiente. No ar-
9. F. W. Nietzsche, Die Geburt der Tragödie, 1872; Th. Eibot, Essai
sur l ’imagination créatrice, Paris, 1900 (tr. Baron, Londres, 1906); Liviu
Rusu, Essai sur la création artistique, Paris, 1935. O “daemônico” vem de
Goethe (usado primeiramente em Urworte, 1817) e foi um conceito proemi
nente na moderna teoria alemã; ver M. Schütze, Academie Illusions in the
Field o f Leiters, Chicago, 1933, pp. 91 ss.
tista, em qualquer veículo, toda impressão é moldada pela sua
arte; ele não acumula nenhuma experiência incipiente10.
A “inspiração”, nome tradicional para o fator inconsciente
na criação, é classicamente associada às musas, as filhas da lem
brança, e, no pensamento cristão, ao Espírito Santo. Por defini
ção, o estado inspirado do xamã, profeta ou poeta difere do seu
estado comum. Nas sociedades primitivas, o xamã pode ser ca
paz de entrar voluntariamente em transe ou pode ser involunta
riamente “possuído” por algum ancestral ou controle espiritual
totêmico. Nos tempos modernos, sentimos a inspiração como
algo que possui as marcas essenciais do repentino (como a con
versão) e do impessoal: a obra parece escrita através de nós11.
A inspiração não pode ser induzida? Existem, com certe
za, hábitos criativos, assim como estimulantes e rituais. O ál
cool, o ópio e outras drogas entorpecem a mente consciente, o
“censor” excessivamente crítico, e liberam a atividade do sub
consciente. Coleridge e De Quincey fizeram uma afirmação
mais grandiosa - de que, através do ópio, abria-se ao tratamen
to literário todo um novo mundo de experiência; mas, à luz dos
modernos relatos clínicos, parece que os elementos incomuns
na obra de tais poetas derivam das suas psiques neuróticas e
não do efeito específico da droga. Elisabeth Schneider de
monstrou que
os “sonhos opiáceos” literários [de De Quincey], tão influentes
na escrita posterior, na verdade diferem pouco, salvo na elabo
ração, de um registro feito em seu diário em 1803, antes que ele
começasse a usar ópio...12
10. C. S. Lewis, The Personal Heresy..., Londres, 1939, pp. 22-3; W.
Dilthey, Das Erlebnis und die Dichtung..., Leipzig, 1906; ver Schütze, op.
cit., pp. 96 ss.
11. Norah Chadwick, Poetry and Prophecy, Cambridge, 1942 (sobre
xamanismo); Ribot, Creative Imagination (tr,, Londres, 1906), p. 51.
12. Elisabeth Schneider, “The ‘Dream’ of Kubla Khan”, PMLA, LX
(1945), pp. 784-801, elaborado em Coleridge, Opium, and Kubla Khan, Chicago,
1953. Ver também Jeanette Marks, Genius and Disaster: Studies in Drugs and
Genius, Nova York, 1925.
Assim como os poetas mânticos das comunidades primiti
vas aprendiam métodos para se colocarem em estados favorá
veis à “possessão”, e assim como, por meio das disciplinas espi
rituais do Oriente, os religiosos são aconselhados a usar lugares
e tempos estabelecidos para a oração, e “ejaculações” especiais
ou mantras, os escritores do mundo moderno aprendem, ou pen
sam que aprendem, rituais para induzir o estado criativo. Schil-
ler tinha maçãs podres na escrivaninha; Balzac escrevia com
roupas de monge. Muitos escritores pensam “horizontalmen
te” e até escrevem na cama - escritores tão diferentes quanto
Proust e Mark
Twain. Alguns exigem silêncio e solidão, mas
outros preferem escrever no meio da família ou na companhia
de alguém num café. Há casos, que de tão sensacionais atraem
a atenção, de autores que trabalham a noite toda e dormem du
rante o dia. Provavelmente, essa devoção à noite (tempo de con
templação, do sonho, do subconsciente) é a principal tradição
romântica; mas há, devemos lembrar, uma tradição romântica
rival, a wordsworthiana, que exalta a manhã (o frescor da infân
cia). Alguns autores afirmam que só conseguem escrever em
certas estações, como Milton, que dizia que a sua veia poética
só fluía com felicidade do equinócio do outono ao da primave
ra. O dr. Johnson, que achava detestáveis todas essas teorias,
acreditava que um homem podia escrever em qualquer tempo
se se aplicasse com afinco: ele próprio admitiu ter escrito por
compulsão econômica. Mas podemos supor que esses rituais
aparentemente caprichosos têm em comum o fato de que, por
associação e hábito, facilitam a produção sistemática13.
O modo de transcrição tem algum efeito demonstrável so
bre o estilo literário? Importa se alguém escreve um primeiro
esboço com papel e caneta ou se compõe diretamente na má
quina de escrever? Hemingway achava que a máquina de es
crever “solidifica as nossas frases antes que estejam prontas
para a impressão”, o que dificulta a revisão, que é parte inte-
13. Aelfrida Tillyard, Spiritual Exercises and Their Results..., Londres,
1927; R. van Gelder, Writers and Writing, Nova York, 1946; Samuel John
son, Lives o f the Poets, “Milton” .
gral do escrever; outros supõem que o instrumento contribuiu
para o estilo excessivamente fluente ou jornalístico. Nenhuma
investigação empírica foi feita. Quanto ao ditado, foi usado por
autores de qualidade e espírito bem variados. Milton ditava a
um amanuense versos do Paraíso perdido já compostos na sua
cabeça. Mais interessante, porém, são os casos de Scott, Goe-
the na sua velhice, e Henry James na sua, em que a textura ver
bal é improvisada, apesar de a estrutura já ter sido pensada de
antemão. No caso de James, pelo menos, parece possível fazer
uma ligação causal entre o ditado e o “estilo tardio”, que, à sua
maneira complexamente eloqüente, é oral e tem até mesmo o
tom de conversa14.
Do processo criativo em si não se disse muito, a título de
generalização, que fosse proveitoso para a teoria literária. Te
mos os históricos individuais de autores específicos, mas, na
turalmente, são autores de tempos relativamente recentes e au
tores dados a pensar e escrever analiticamente a respeito da sua
arte (como Goethe e Schiller, Flaubert, James, Eliot e Valéry);
e, então, temos as generalizações abrangentes, feitas por psicó
logos, sobre tópicos como originalidade, invenção, imaginação,
descobrindo o denominador comum entre a criação científica,
filosófica e estética.
Qualquer tratamento moderno do processo criativo irá ocu
par-se principalmente dos papéis relativos desempenhados pela
mente inconsciente e consciente. Seria fácil contrastar períodos
literários: distinguir períodos românticos e expressionistas, que
exaltam o inconsciente, de períodos clássicos e realistas, que en
fatizam a inteligência, a revisão, a comunicação. Mas tal contras
te pode ser prontamente exagerado: as teorias críticas do clas
sicismo e do romantismo diferem de maneira mais radical do
que a prática criativa dos seus melhores escritores.
Os autores mais dados a discutir a sua arte desejam natu
ralmente discutir os seus processos conscientes e técnicos, cujo
14. Sobre Hemingway e a máquina de escrever: R. G. Berkelman,
“How to Put Words on Paper”, Saturday Review o f Literature, 29 de dezem
bro de 1945. Sobre ditado e estilo: Theodora Bosanquet, Henry James at
Work (Hogarth Essays), Londres, 1924.
crédito podem reivindicar, mais do que a sua experiência “da
da”, a experiência não escolhida que é a sua matéria, seu espelho
ou prisma. Há razões óbvias para que os artistas conscientes de
si falem como se a arte fosse impessoal, como se escolhessem
os seus temas por compulsão editorial ou como um problema
estético gratuito. O mais famoso documento sobre o tópico, “A
filosofia da composição”, de Poe, pretende explicar por meio
de quais estratégias metodológicas, procedendo de quais axio
mas estéticos, foi construído o seu “O corvo”. Para defender
sua vaidade contra a acusação de que seus contos de horror
eram imitações literárias, Poe escreveu que seus horrores não
eram da Alemanha, mas da alma; contudo, não podia admitir
que eram da sua própria alma: ele se dizia um engenheiro lite
rário, habilidoso na manipulação dos espíritos dos outros. Em
Poe, é aterradoramente completa a divisão entre o inconscien
te, que provê os temas obsessivos do delírio, da tortura e da
morte, e o consciente, que os desenvolve literariamente15.
Se fizéssemos testes para descobrir o talento literário, eles,
sem dúvida, seriam de dois tipos: um, dirigido aos poetas no
sentido moderno, se preocuparia com as palavras e a sua com
binação, com a imagem e a metáfora, com vínculos semânticos
e fonéticos (isto é, rima, assonância, aliteração); o segundo, para
escritores narrativos (romancistas e dramaturgos), se ocuparia
da caracterização e da estrutura do enredo.
O homem literário é um especialista em associação (“es
pírito”), dissociação (“julgamento”), recombinação (fazer um
novo todo a pãftír de elementos experimentados separadamen
te). Ele usa a palavra como seu veículo. Como criança, pode co
lecionar palavras como outras crianças colecionam bonecas, se
los ou animais de estimação. Para o poeta, a palavra não é pri
mariamente um “signo”, um mostrador transparente, mas um
15. Assim, os estetas alemães citam principalmente Goethe e Otto Lud
wig; os franceses, Flaubert (a correspondência) e Valéry; os críticos america
nos, Henry James (os prefácios à edição de Nova York) e Eliot. Uma excelen
te amostra da visão francesa é Valéry sobre Poe (P. Valéry, “Situation de
Baudelaire”, Variété, II, Paris, 1937, pp. 155-60 - trad, inglesa.,. Variety, se
gunda série, Nova York, 1938, pp. 79-98).
“símbolo”, valioso por si mesmo, assim como na sua capacida
de de ser representativo; pode até mesmo ser um “objeto” ou
“coisa”, valioso pelo som ou pela aparência. Alguns romancis
tas podem usar as palavras como signos (Scott, Cooper, Drei-
ser), caso em que podem ser lidos com proveito quando tradu
zidos em outra língua, ou ser lembrados como estrutura mítica;
os poetas normalmente usam as palavras “simbolicamente”16.
A expressão tradicional “associação de idéias” é um nome
impreciso. Para além do vínculo associativo de palavra com pa
lavra (marcado em alguns poetas), existe a associação dos ob
jetos aos quais se referem as nossas “idéias”. As principais ca
tegorias de tal associação são a contigüidade em tempo e lugar
e a similaridade ou dissimilaridade. O romancista opera basica
mente, talvez, em função da primeira; o poeta, em função da
segunda (que podemos igualar à metáfora); contudo - espe
cialmente na literatura recente - , não se deve estabelecer um
contraste muito marcado.
Em Road to Xanadu, Lowes reconstrói, com a perspicácia
de um brilhante detetive, o processo de associação pelo qual
Coleridge, com sua vasta e curiosa leitura, passou de uma cita
ção ou alusão para outra. No que diz respeito à teoria, porém,
ele logo se dá por satisfeito: alguns termos puramente figurati
vos servem para que ele descreva o processo criativo. Ele fala
dos “átomos fisgados” ou (na expressão de Henry James) de
imagens e idéias que pingam por algum tempo “no poço pro
fundo da cerebração inconsciente”, emergindo depois de pas
sar (na citação favorita dos estudiosos) por uma “mudança ma
rítima”. Quando a leitura recôndita de Coleridge reaparece, às
vezes temos “marchetaria” ou “mosaico”,
às vezes um “mila
gre”. Lowes reconhece formalmente que
no zénite do seu poder, a energia criativa é tanto consciente
como inconsciente [...] controlando conscientemente a multidão
16. Sobre signos e símbolos, ver S. K. Langer, Philosophy in a New
Key, Cambridge, Mass., 1942, pp. 53-78, e Helmut Hatzfeld, “The Language
of the Poet”, Studies in Philology, XLIII (1946), pp. 93-120.
de imagens que, no reservatório (o “poço” do inconsciente),
passaram por uma metamorfose inconsciente;
mas não dá atenção nem tenta definir o que é realmente inten
cional e construtivo no processo criativo17.
No escritor narrativo, pensamos na sua criação de perso
nagens e na sua “invenção” de histórias. Desde o período ro
mântico, não há dúvida de que ambos foram concebidos, de
maneira demasiado simples, como “originais”, ou como cópias
de pessoas reais (uma visão lida também na literatura do pas
sado), ou como plágio. Contudo, mesmo nos romancistas mais
“originais”, como Dickens, os tipos de personagens e as técni
cas narrativas são principalmente tradicionais, tiradas do esto
que literário profissionaly institucional18.
Pode-se supor que a criação de personagens combina, em
graus variáveis, tipos literários herdados, pessoas observadas e
o eu. O realista, poderíamos dizer, observa principalmente o
comportamento ou “coloca-se em emparia”, ao passo que o es
critor romântico “projeta-se”; não obstante, deve-se ter dúvidas
quanto a ser a mera observação suficiente para a caracterização
vívida. Fausto, Mefistófeles, Werther e Wilhelm Meister são to
dos, diz um psicólogo, “projeção na ficção de vários aspectos
da própria natureza de Goethe”. Os eus potenciais do romancis
ta, inclusive os que são vistos como maus, são todos personae
potenciais. “O estado de espírito de um homem é o caráter de
outro.” Os quatro irmãos Karamázov de Dostoiévski são todos
aspectos de Dostoiévski. Tampouco devemos supor que um ro
mancista esteja necessariamente limitado à observação em suas
heroínas. “Madame Bovary, c ’est moi”, diz Flaubert. Apenas
eus reconhecidos internamente como potenciais podem tomar-
se “personagens vivos”, não “planos”, mas “redondos”19.
17. J. L. Lowes, The Road to Xanadu: A Study in the Ways o f the Ima
gination, Boston, 1927.
18. W. Dibelius, Charles Dickens, Leipzig, 1926, pp. 347-73.
19. Albert R. Chandler, Beauty and Human Nature: Elements o f Psycho
logical Aesthetics, Nova York, 1934, p. 328; A. Thibaudet, Gustave Flaubert,
Paris, 1935, pp. 93-102; Frederick H. Prescott, “The Formation of Imaginary
Que tipo de relações esses “personagens vivos” têm com
o eu real do romancista? Quanto mais numerosos e distintos os
seus personagens, menos definida é a sua “personalidade”, pa
rece. Shakespeare desaparece nas suas peças; nem nelas nem
na anedota conseguimos qualquer percepção de um caráter de
finido e individualizado comparável ao de Ben Jonson. O cará
ter do poeta, escreveu Keats certa vez, é não ter nenhum eu:
é tudo e nada [...]. Tem tanto prazer em conceber um lago quan
to uma Imogen Um poeta é a coisa mais apoética que existe
porque não tem nenhuma Identidade - ele está continuamente
dando forma a outro corpo e o preenchendo^.
Todas essas teorias que discutimos pertencem efetivamente
à psicologia do escritor. Os processos da sua criação são o ob
jeto legítimo da curiosidade investigadora dos psicólogos. Eles
podem classificar o poeta segundo tipos fisiológicos e psicoló
gicos; podem descrever os seus males mentais; podem até ex
plorar a sua mente subconsciente. O testemunho do psicólogo
pode vir de documentos não literários ou pode ser extraído das
próprias obras. No segundo caso, precisa ser comparado com o
testemunho documental para ser cuidadosamente interpretado.
A psicologia, por sua vez, pode ser usada para interpretar
e avaliar as próprias obras literárias? A psicologia obviamente
pode lançar luz sobre o processo criativo. Como vimos, deu-se
atenção aos vários métodos de composição, aos hábitos dos
autores ao rever e reescrever. Tem-se estudado a gênese das
obras: as primeiras etapas, os esboços, as leituras rejeitadas.
Não obstante, a relevância crítica de boa parte dessa informa
ção, especialmente as muitas anedotas a respeito dos hábitos
dos escritores, tende a ser superestimada. Um estudo de revi
sões, correções e similares é mais proveitoso do ponto de vista
literário, já que, bem usado, pode ajudar-nos a perceber fissu- 20
Characters”, The Poetic Mind, Nova York, 1922, pp. 187 ss.; A. H. Nethercot,
“Oscar Wilde on His Subdividing Himself’, PMLA, LX (1945), pp. 616-17.
20. The Letters o f John Keats (org. M. B. Forman), 4? ed., Nova York,
1935, p. 227. A emenda textual que se segue é recomendada na nota de Forman.
ras, desvios, distorções criticamente relevantes em uma obra
de arte. Ao analisar como Proust compôs o seu romance cíclico,
Feuillerat ilumina os volumes posteriores, permitindo-nos dis
tinguir vários níveis no seu texto. Um estudo de variantes parece
permitir vislumbres da oficina de um autor21.
Contudo, se examinamos esboços, rejeições, exclusões e
cortes com mais sobriedade, concluímos, finalmente, que não são
necessários para a compreensão da obra acabada ou para um
parecer sobre ela. São tão interessantes quanto qualquer alter
nativa, isto é, podem colocar em relevo as qualidades do texto
final. O mesmo fim, porém, pode muito bem ser alcançado se
elaboramos as alternativas para nós mesmos, quer tenham, quer
não tenham passado pela mente do autor. Os versos de Keats
na “Ode ao rouxinol” :
The som e [voice] that oft-tim es hath
Charm ’d m agic casements, opening on the fo a m
O f perilous seas, in fa e r y lands fo r lo m ,
(A mesma [voz] que tantas vezes
encantou mágicas janelas na espuma recortadas
de mares perigosos, em lendárias terras abandonadas,)
podem ganhar algo se soubermos que Keats considerou ruth-
less seas [mares impiedosos] e mesmo keeüess seas [mares sem
naves]. Mas a condição de ruthless [impiedosos] ou de keelless
não difere essencialmente da de dangerous [perigosos], empty
[vazios], barren [estéreis], shipless [sem barcos], cruel [cruéis]
ou qualquer outro adjetivo que o crítico possa invocar. Não per
tencem à obra de arte; essas questões genéticas tampouco dis
pensam a análise e a avaliação da obra efetiva22.
21. Feuillerat, Comment Proust a composé son roman, New Haven,
1934; ver também os ensaios de Karl Shapiro e Rudolf Amheim em Poets at
Work (org. C. D. Abbott), Nova York, 1948.
22. Ver James H. Smith, The Reading o f Poetry, Boston, 1939 (varian
tes de invenção editorial tomam o lugar das descartadas pelo autor).
Resta a questão da “psicologia” nas próprias obras. Os per
sonagens de peças e romances são julgados por nós como^psP
cologicamente” verdadeiros. As situações são elõgíadasVos en
redos aceitos por causa dessa mesma qualidade. Às vezes, uma
teoria psicológica, sustentada consciente ou vagamente por um
autor, parece ajustar-se a uma figura ou situação. Assim, Lily
Campbell afirmou que Hamlet ajusta-se ao tipo do "homem
sanguíneo sofrendo de melancolia adusta”, conhecido pelos isa-
belinos a partir das suas teorias psicológicas. Da mesma manei
ra, Oscar Campbell tentou demonstrar que Jaques, em As You
Likelt, é um caso de “melancolia inatural produzida pela adus-
tão da fleuma”. Pode-se demonstrar que Walter Shandy sofria
da doença do associacionismo lingüístico descrita em Locke.
Julien Sorel, o herói de Stendhal, é descrito em termos da psi
cologia de Destutt de Tracy, e os diferentes tipos de relação
amorosa são evidentemente classificados segundo o próprio li
vro de Stendhal, De Vamour. Os motivos e os sentimentos de
Rodion Raskolnikov são analisados de uma maneira que suge
re certo conhecimento de psicologia clínica. Proust certamente
tem toda uma teoria
psicológica da memória, importante até
mesmo para a organização do seu trabalho. A psicanálise freu
diana é usada de maneira inteiramente consciente por roman
cistas como Conrad Aiken ou Waldo Frank23.
Pode-se levantar a questão, naturalmente, de determinar se
o autor realmente conseguiu incorporar psicologia a suas figu
ras e relacionamentos. Meras formulações do seu conhecimen
to ou de suas teorias não contariam. Seriam “matéria” ou “con
teúdo”, como qualquer outro tipo de informação encontrado na
literatura como, por exemplo, fatos da navegação, da astrono
mia ou da história. Em alguns casos, a referência à psicologia
contemporânea pode ser colocada em dúvida ou minimizada.
23. Lily B. Campbell, Shakespeare’s Tragic Heroes: Slaves o f Passion,
Cambridge, 1930; Oscar J. Campbell, “What is the Matter with Hamlet?”,
Yale Review, XXXII (1942), pp. 309-22; Henri Delacroix, La psychologie de
Stendhal, Paris, 1918; F. J. Hoffman, Freudianism and the Literary Mind,
Baton Rouge, 1945, pp. 256-88.
As tentativas de encaixar Hamlet ou Jaques em algum esque
ma da psicologia isabelina parecem equivocadas porque a psi
cologia isabelina era contraditória, desconcertante e confusa e
porque Hamlet e Jaques são mais do que tipos. Embora Ras
kolnikov e Sorel ajustem-se a certas teorias psicológicas, eles
o fazem apenas de modo incompleto e intermitente. Sorel às
vezes comporta-se de maneira muito melodramática. O crime
inicial de Raskolnikov tem motivação inadequada. Esses livros
não são primordialmente estudos psicológicos ou exposições
de teorias, mas dramas ou melodramas nos quais as situações
marcantes são mais importantes do que a motivação psicológi
ca realista. Se examinamos os romances que utilizam o “fluxo
de consciência”, logo descobrimos que não existe nenhuma re
produção “real” dos processos mentais efetivos do sujeito, que
o fluxo da consciência é antes um recurso de dramatizar a men
te, de nos fazer perceber claramente como é Benjy, o idiota de
O som e a fúria, de Faulkner, ou a sra. Bloom. Mas há pouco
que pareça científico ou mesmo “realista” nesse recurso24.
Mesmo na hipótese de que o autor consiga fazer suas figu
ras comportarem-se com “verdade psicológica”, podemos mui
to bem suscitar a questão de se tal “verdade” é um valor artís
tico. Muito da grande arte viola continuamente os padrões da
psicologia, quer da contemporânea, quer da subsequente a ela.
Trabalha com situações improváveis, com motivos fantásticos.
Como a exigência de realismo social, a verdade psicológica é
um padrão naturalista sem validade universal. Em alguns casos,
com certeza, o discernimento psicológico parece realçar o valor
artístico. Em tais casos, ele corrobora valores artísticos impor
tantes, os de complexidade e coerência. Mas tal discernimento
pode ser alcançado por outros meios que não um conhecimen
to teórico de psicologia. No sentido de teoria consciente e siste
mática da mente e seus mecanismos, a psicologia é desnecessá
ria para a arte e, em si mesma, destituída de valor artístico25.
24. Ver L. C. T. Forest, “A Caveat for Critics against Invoking Elizabe
than Psychology”, PMLA, LXI (1946), pp. 651-72.
25. Ver os escritos de E. E. Stoll, passim, especialmente From Shakes
peare to Joyce, Nova York, 1944, pp. 70 ss.
Para alguns artistas conscientes, a psicologia pode ter res
tringido a sua percepção da realidade, aguçado os seus poderes
de observação ou permitido que estes se detivessem em pa
drões até então por descobrir. Mas, em si, a psicologia é apenas
preparatória para o ato de criação, e, na obra em si, a verdade
psicológica é um valor artístico apenas se realça a coerência e
a complexidade - resumindo, se for arte.
9. A literatura
e a sociedade
A literatura é uma instituição social que usa como veículo
a linguagem, uma criação social. Dispositivos literários tradicio
nais como o simbolismo e a métrica são sociais por sua própria
natureza. São convenções e normas que só poderiam ter surgido
na sociedade. Mas, além disso, a literatura “representa” a “vida”,
e a “vida”, em grande medida, é uma realidade social, embora o
mundo natural e o mundo interior ou subjetivo do indivíduo tam
bém tenham sido objetos de “imitação literária”. O próprio poeta
é um membro da sociedade, possuindo uma posição social espe
cífica: ele recebe certo grau de reconhecimento social e recom
pensa; ele se dirige a um público, por mais hipotético que seja.
Na verdade, a literatura geralmente surgiu em íntima ligação com
instituições sociais particulares, e, na sociedade primitiva, pode
mos até ser incapazes de distinguir a poesia do ritual, da magia,
do trabalho ou da brincadeira. A literatura também tem uma fun
ção social, ou “uso”, que não pode ser puramente individual. As
sim, a grande maioria das perguntas suscitadas pelo estudo li
terário são, pelo menos finalmente ou por implicação, questões
sociais: questões de tradição e convenção, normas e gêneros,
símbolos e mitos. Juntamente com Tomars, podemos formular:
As instituições estéticas não se baseiam em instituições
sociais; elas nem sequer são parte das instituições sociais: são
um tipo de instituição social que se relaciona intimamente com
as demais1.
1. Ver bibliografia, seção I.
Geralmente, porém, a investigação referente a “literatura
e sociedade” é apresentada de maneira mais estrita e externa.
Fazem-se perguntas a respeito das relações da literatura com uma
dada situação social, com um sistema econômico, social e polí-
1 tico. Fazem-se tentativas de descrever e definir a influência da
sociedade sobre a literatura e de prescrever e julgar a posição
da literatura na sociedade. Essa abordagem social da literatura
é particularmente cultivada pelos que professam uma filosofia
social específica. Os críticos marxistas não apenas estudam as
relações entre literatura e sociedade, mas têm também a sua con
cepção claramente definida de como essas relações deviam ser,
tanto na presente sociedade como em uma futura sociedade “sem
classes”. Eles praticam a crítica valorativa, “judicial”, baseada
em critérios políticos e éticos, não literários. Eles nos dizem
não apenas o que eram e o que são as relações e implicações so
ciais da obra de um autor mas o que deviam ter sido ou devem
ser2. Eles não são apenas estudiosos da literatura e da socieda
de mas profetas do futuro, monitores, propagandistas e têm di
ficuldade para manter separadas essas duas funções.
Geralmente, a discussão da relação entre literatura e socie
dade tem início com a expressão, derivada de De Bonald, de
que “a literatura é uma expressão da sociedade”. Mas o que sig
nifica esse axioma? Se presume que a literatura, em qualquer
tempo dado, espelha “corretamente” a situação social corrente,
é falso; se significa apenas que a literatura retrata alguns aspec
tos da realidade social, é comum, trivial e impreciso3. Dizer que
a literatura espelha ou expressa a vida é ainda mais ambíguo.
Um escritor inevitavelmente expressa a sua experiência e con
cepção total de vida - ou mesmo de toda a vida de um dado
tempo - de maneira completa e exaustiva. É um critério de ava-
2. Ver a excelente discussão de Morris R. Cohen, “American Literary
Criticism and Economic Forces”, Journal o f the History o f Ideas, I (1940),
pp. 369-74.
3. Sobre De Bonald, ver Horatio Smith, “Relativism in Bonald’s Lite
rary Doctrine”, Modern Philology, XXXII (1934), pp. 193-210; B. Croce, “La
letteratura come ‘espressione della società” ’, Problemi di estetica, Bari, 1910,
pp. 56-60.
liação específico dizer que um autor deve expressar a vida do
seu tempo plenamente, que ele deve ser “representativo” da sua
época e sociedade. Além disso, é claro, os termos “plenamente”
e “representativo” exigem muita interpretação: na maior parte da
crítica social parecem significar
que um autor deve ter cons
ciência de situações sociais específicas, por exemplo, da situa
ção difícil do proletariado, ou mesmo que deve compartilhar
uma postura e uma ideologia específicas do crítico.
Na crítica hegeliana e na de Taine, a grandeza histórica ou
social é simplesmente equiparada à grandeza artística. O artista
comunica a verdade e também, necessariamente, verdades his
tóricas e sociais. As obras de arte fornecem “documentos por
que são monumentos”4. É postulada uma harmonia entre o gênio
e a época. “Representatividade”, “verdade social”, por defini
ção, são tanto resultado como causa do valor artístico. Obras
de arte medíocres, médias, embora possam parecer documentos
sociais melhores para um sociólogo moderno, são, para Taine,
inexpressivas e, portanto, não representativas. A literatura não
é realmente um reflexo do processo social, mas a essência, a
suma e o resumo de toda a história.
Parece melhor, porém, adiar o problema da crítica valora-
tiva até que tenhamos destacado as relações efetivas entre lite
ratura e sociedade. Essas relações descritivas (distintas das nor
mativas) admitem classificação razoavelmente rápida.
Primeiro, há a sociologia do escritor, da profissão e das ins
tituições literárias, toda a questão da base econômica da pro
dução literária, da origem e da condição social do escritor, da
sua ideologia social, que pode encontrar expressão em pronun
ciamentos e atividades extraliterárias. Há, então, o problema do
conteúdo social, as implicações e o propósito social das pró
prias obras literárias. Por fim, há os problemas do público e da
influência social efetiva da literatura. Até que ponto a literatura
é realmente determinada por seu cenário social ou dependente
4. Introdução à Histoire de la littérature anglaise (1863): “Si elles four
nissent des documents, c'est qu’elles sont des monuments”, p. xlvii, vol. I da
2? ed.f Paris, 1866.
dele, da mudança e do desenvolvimento social, é uma questão
que, de uma maneira ou de outra, entrará em todas as três divi
sões do nosso problema: a sociologia do escritor, o conteúdo so
cial das próprias obras e a influência da literatura sobre a socie
dade. Teremos de decidir o que se quer dizer com dependência
ou causalidade; por fim, chegaremos ao problema da integra
ção cultural e, especificamente, ao modo como a nossa cultura
é integrada.
Como todo escritor é um membro da sociedade, ele pode
ser estudado como um ser social. Embora a sua biografia seja
a fonte principal, tal estudo pode ser facilmente ampliado para
incluir todo o meio do qual ele provém e no qual viveu. Será
possível acumular informação a respeito da proveniência social,
do histórico familiar, da posição econômica dos escritores. Po
demos demonstrar qual a distribuição exata de aristocratas, bur
gueses e proletários na história da literatura; por exemplo, pode
mos demonstrar a predominância de filhos das classes comer
ciais e profissionalizadas na produção da literatura americana5.
A estatística pode estabelecer que, na Europa moderna, a litera
tura recrutou os seus praticantes, em boa parte, na classe média,
já que a aristocracia esteve preocupada com a busca de glória
ou ócio, ao passo que as classes baixas tinham pouca oportuni
dade de instrução. Na Inglaterra, essa generalização é válida ape
nas com grandes reservas. Os filhos de camponeses e operários
surgem com pouca frequência na literatura inglesa mais antiga:
exceções como Burns e Carlyle são parcialmente explicáveis
por referência ao sistema escolar democrático da Escócia. O pa
pel da aristocracia na literatura inglesa foi atipicamente grande
- em parte porque estava menos separada das classes profis
sionalizadas do que em outros países, onde não havia a primo-
genitura. Mas, com algumas exceções, todos os escritores rus-
5. Ver, por exemplo, Havelock Ellis, A Study o f British Genius, Lon
dres, 1904 (ed. revista, Boston, 1926); Edwin L. Clarke, American Men o f
Letters: Their Nature and Nurture, Nova York, 1916 (“Columbia Studies in
History, Economics, and Public Law”, vol. 72); A. Odin, Genèse des grands
hommes, 2 vols., Paris, 1895.
sos modernos anteriores a Gontcharov e Tchekhov eram de ori
gem aristocrática. Mesmo Dostoiévski era, tecnicamente, um
nobre, embora o seu pai, médico em hospital para pobres em
Moscou, só bem tarde na vida tenha adquirido terra e servos.
É bem fácil coletar tais dados, mas é mais difícil interpre- 1
tá-los. A origem social prescreve a ideologia e o compromisso
social? Os casos de Shelley, Carlyle e Tolstói são exemplos ób
vios de “traição” da própria classe. Fora da Rússia, a maioria dos V
escritores comunistas não é de origem proletária. Críticos sovié
ticos e marxistas levaram a cabo extensas investigações para
determinar precisamente a origem social e o compromisso so
cial dos escritores russos. Assim, P. N. Sakulin baseia o seu tra
tamento da literatura russa recente em distinções cuidadosas en
tre as respectivas literaturas dos camponeses, da pequena bur
guesia, da intelligentsia democrática, da intelligentsia déclassè,
da burguesia, da aristocracia e do proletariado revolucionário6.
No estudo da literatura mais antiga, os estudiosos russos tenta
ram elaborar distinções entre os muitos grupos e subgrupos da
aristocracia russa aos quais Púchkin e Gógol, Turguêniev e Tols
tói comprovadamente pertenceram, em virtude da riqueza que
herdaram e de suas primeiras associações7. Mas é difícil provar
que Púchkin representasse os interesses da empobrecida nobre
za proprietária de terras e que Gógol representasse os do pe
queno proprietário ucraniano; prova-se que é realmente falsa tal
conclusão pela ideologia geral das suas obras e pela atração que
as obras conseguiram fora dos limites de grupo, classe e tempo8.
6. Sakulin, N. P., Die russische Literatur, Wildpark-Potsdam, 1927 (no
Handbuch der Literaturwissenschaft de Oskar Walzel).
7. Por exemplo, D. Blagoy, Sotsiologiya tvorchestva Pushkina (A so
ciologia da criação de Púchkin), Moscou, 1931.
8. Herbert Schoeffler, Protestantismus und Literatur, Leipzig, 1922.
Questões de proveniência social obviamente estão relacionadas intimamente
com questões de primeiras impressões do meio físico e social inicial de um
escritor. Como Choeffler assinalou, os filhos de párocos rurais contribuíram
muito para criar a literatura britânica pré-romântica e o gosto do século
XVIII. Tendo vivido no campo, quase literalmente no cemitério, podem mui
to bem ter sido inclinados ao gosto pela poesia das paisagens e dos túmulos,
para ruminações sobre a morte e a imortalidade.
As origens sociais de um escritor desempenham um papel
menor nas questões suscitadas pela condição, compromisso e
ideologia social, pois os escritores, naturalmente, muitas vezes
colocaram-se ao serviço de outra classe. A maior parte da poesia
cortês foi escrita por homens que, embora nascidos em um es
tado inferior, adotaram a ideologia e o gosto dos seus patronos.
O compromisso, a postura e a ideologia social de um es
critor podem ser estudados não apenas nos seus escritos mas
também, com freqüência, em documentos extraliteráiios. O es
critor foi um cidadão, pronunciou-se sobre questões de impor
tância social e política, participou das questões do seu tempo.
Existem muitos trabalhos sobre as visões políticas e so
ciais de escritores individuais, e, em tempos recentes, dedicou-
se atenção cada vez maior às implicações econômicas dessas
visões. Assim, L. C. Knights, argumentando que a postura eco
nômica de Ben Jonson era profundamente medieval, mostra
que, como muitos outros dramaturgos, ele satirizou a classe as
cendente de usurários, monopolistas, especuladores e “empre
sários”9. Muitas obras de literatura - por exemplo, as peças
“históricas” de Shakespeare e As viagens de Gultíver, de Swift
- foram
reinterpretadas em estreita relação com o contexto po
lítico da época10. Pronunciamentos, decisões e atividades nun
ca devem ser confundidos com as implicações sociais efetivas
das obras de um escritor. Balzac é um exemplo clássico da di
visão possível pois, embora as simpatias professadas estives
sem todas com a ordem antiga, a aristocracia e a Igreja, seu ins
tinto e imaginação detinham-se muito mais no tipo aquisitivo,
no especulador, no novo homem forte da burguesia. Pode ha
ver uma diferença considerável entre a teoria e a prática, entre
a profissão de fé e a capacidade criativa.
9. L. C. Knights, Drama and Society in the Age o f Jonson, Londres,
1937, e Penguin Books, 1962.
10. Lily Campbell, Shakespeare’s Histories: Mirrors o f Elizabethan
Policy, San Marino, 1947; Sir Charles Firth, “The Political Significance of
Swift’s Gulliver’s Travels”, Essays: Historical and Literary, Oxford, 1938,
pp. 210-41.
Esses problemas de origens, compromisso e ideologia so
ciais, se sistematizados, conduzirão a uma sociologia do escri
tor como tipo, ou como tipo em um determinado tempo e lugar.
Podemos distinguir os escritores segundo o seu grau de integra
ção no procejlõTsjQcial. Ele é bem próximo na íítérâtürapopu
lar, mãspode chegar aos extremos da dissociação, da “distância
social”, na boêmia, com o poéte maudit e o gênio criador livre.
No todo, nos tempos modernos, e no Ocidente, o literato pare
ce ter afrouxado os seus vínculos de classe. Surgiu uma “intel-
UgentsicT, uma classe intermediária de profissionais relativa
mente independente. Será a tarefa do sociólogo literário rastrear/-
a sua posição social exata, o seu grau de dependência da classeí
dominante, a fonte econômica precisa do seu apoio, o prestígioS
do escritor em cada sociedade.
Os contornos gerais dessa história já são bem claros. Na li
teratura oral popular, podemos estudar o papel do cantor ou nar
rador, que dependerá intimamente do favorecimento do seu pú
blico: o bardo na Grécia antiga, o scop na antiguidade teutônica,
o contador profissional de contos de fadas no Oriente e na Rús
sia. Na antiga cidade-estado grega, os trágicos e compositores
de ditirambos e de hinos, como Píndaro, tinham a sua posição
especial, semi-religiosa, que se toma lentamente mais seculari-
zada, como podemos perceber quando comparamos Eurípides
com Ésquilo. Entre as cortes do Império Romano, devemos lem
brar que Virgílio, Horácio e Ovídio dependiam da generosida
de e boa vontade de Augusto e Mecenas.
Na Idade Média, há o monge na sua cela, o trovador e o
Minnesänger na corte ou no castelo do barão, os vagantes nas
estradas. O escritor é clérigo ou estudante, ou é um cantor, um
entertainer, um menestrel. Contudo, mesmo reis como Vences-
lau II da Boêmia ou Jaime I da Escócia são agora poetas - ama
dores, diletantes. No Minnesang alemão, os artesãos organizam-
se em guildas poéticas, burgueses que praticam a poesia como
ofício. Com a Renascença, surgiu um grupo de escritores rela
tivamente desvinculados, os humanistas, que às vezes vagavam
de país para país e ofereciam os seus serviços a diferentes pa
tronos. Petrarca é o primeiro poeta laureatus moderno, dotado
de uma concepção grandiosa de sua missão, ao passo que Are-
tino é o protótipo do jornalista literário, vivendo de chanta
gem, mais temido que honrado e respeitado.
De modo geral, a história posterior é a transição do sus
tento de patronos nobres ou ignóbeis para aquele oferecido por
editores, que atuam como agentes previsores do público leitor.
O sistema de patronato aristocrático não foi, porém, universal.
A Igreja e, em breve, o teatro sustentaram tipos especiais de li
teratura. Na Inglaterra, o sistema de patronato aparentemente
começou a fracassar no início do século XVIII. Durante algum
tempo, a literatura, privada dos seus primeiros benfeitores e
ainda não inteiramente sustentada pelo público leitor, esteve
em pior condição econômica. O início da vida do dr. Johnson
como escritor de aluguel e seu desafio a Lorde Chesterfield
simbolizam essas mudanças. Não obstante, uma geração antes,
Pope conseguiu acumular uma fortuna com a sua tradução de
Homero, generosamente subscrita pela nobreza e pelos ho
mens da universidade.
As grandes recompensas financeiras, contudo, vieram
apenas no século XIX, quando Scott e Byron exerceram enor
me influência sobre o gosto e a opinião do público. Voltaire e
Goethe haviam aumentado vastamente o prestígio e a indepen
dência do escritor no continente. O crescimento do público lei
tor e a fundação de grandes revistas, como a Edimburgh e a
Quarterly, transformaram a literatura mais e mais na “institui
ção” quase independente que Prosper de Barante, escrevendo
em 1822, afirmou ter sido no século XVIII".
Como observou Ashley Thomdike, a
característica notável do texto impresso do século XIX não é a
sua vulgarização nem a sua mediocridade mas, antes, a sua es-
11. Prosper de Barante, De la littérature française pendant le dix-hui
tième siècle, Paris, 3? ed., 1822, p. v. O prefácio não se encontra na primeira
edição, de 1809. A teoria de Barante é desenvolvida de modo brilhante por
Harry Levin em “Literature as an Institution”, Accent, VI (1946), pp. 159-68.
Reimpresso em Criticism (org. Schorer, Miles, McKenzie), Nova York,
1948, pp. 546-53.
pecialização. Esse texto impresso não é mais dirigido a um pú
blico uniforme ou homogêneo: ele se divide entre muitos públi
cos e, conseqüentemente, divide-se por muitos temas, interesses
e propósitos12.
Em Fiction and the Reading Public, que poderia muito
bem ser considerado uma homilia sobre o texto de Thomdike,
Q. D. Leavis13 assinala que o camponês do século XVIII que
aprendia a ler tinha de ler o que a aristocracia e a universidade
liam e que, por outro lado, pode se falar adequadamente dos
leitores do século XIX não como “o público” mas como “os
públicos”. Nosso próprio tempo conhece ainda mais multipli
cações nas listas de publicação e nas prateleiras de revistas:
existem livros para crianças de nove a dez anos, livros para gi
nasiais, livros para quem “vive sozinho”, jornais de comércio,
órgãos de instituições, semanários de escola dominical, livros
de western, romances-verdade. Editores, revistas e escritores,
todos se especializam.
Assim, o estudo da base econômica da literatura e da con
dição social do escritor está inextricavelmente ligado ao estudo
do público a que ele se dirige e do qual ele depende financeira
mente14. Mesmo o patrono aristocrático é um público e, muitas
vezes, um público exigente, que requer não apenas a adulação
pessoal mas também a conformidade às convenções da sua clas
se. Na sociedade ainda mais antiga, no grupo em que floresce
a poesia folclórica, a dependência do autor ao público é ainda
maior: seu trabalho não será transmitido, a menos que agrade
imediatamente. O papel do público no teatro é, pelo menos,
igualmente tangível. Houve tentativas de atribuir as mudanças
12. Ashley H. Thomdike, Literature in a Changing Age, Nova York,
1921, p. 36.
13. Q. D. Leavis, Fiction and the Reading Public, Londres, 1932.
14. Alguns trabalhos sobre essas questões: Alfred A. Harbage, Shakes
peare’s Audience, Nova York, 1941; R. J. Allen, The Clubs o f Augustan Lon
don, Cambridge, Mass., 1933; Chauncey B. Tinker, The Salon and English
Letters, Nova York, 1915; Albert Parry, Garrets and Pretenders: A History
o f Bohemianism in America, Nova York, 1933.
nos períodos e no estilo de Shakespeare à mudança entre a pla
téia do Globe, teatro ao ar livre localizado no South Bank e de
público misto, e a do Blackfriars, um salão fechado ffeqüenta-
do pelas classes altas. Torna-se mais difícil investigar a relação
específica entre autor e público em uma época posterior, quan
do o público leitor expande-se rapidamente, tomando-se mais
disperso e heterogêneo, e as relações de autor e público ficam
mais indiretas e oblíquas. O número de intermediários entre os
escritores e o público aumenta. Podemos estudar o papel de ins
tituições e associações sociais como o salon, o café, o clube, a
academia e a universidade. Podemos acompanhar a história dos
periódicos e revistas, assim como das casas publicadoras. O
crítico toma-se um importante intermediário; um grupo de co
nhecedores, bibliófilos e colecionadores pode sustentar certos
tipos de literatura, e as próprias associações de literatos podem
ajudar a criar um público especial de escritores ou pretensos
escritores. Nos Estados Unidos, especialmente, as mulheres que
(segundo Veblen) proporcionam ócio e consumo indireto das
artes ao homem de negócios cansado, tornaram-se determinan
tes ativas do gosto literário.
Ainda assim, os antigos padrões não foram completamen
te substituídos. Todos os governos modernos patrocinam e in
centivam a literatura em vários graus, e patronato significa,
naturalmente, controle e supervisão15. Superestimar a influên
cia consciente do Estado totalitário durante as últimas décadas
seria difícil. Ela foi negativa - na supressão, queima de livros,
censura, silenciamento e repressão - e positiva - no encoraja
mento ao regionalismo de “sangue e terra” ou ao “realismo so
cialista” soviético. O fato de o Estado não ter conseguido criar
uma literatura que, conformando-se às especificações ideoló
gicas, ainda seja grande arte, não pode refutar a visão de que a
regulamentação governamental da literatura é eficaz na oferta
de possibilidades de criação aos que se identificam voluntária
ou relutantemente com as prescrições oficiais. Assim, na Rús-
lS.Ver Grace Overmyer, Government and the Arts, Nova York, 1939.
Sobre a Russia, ver os escritos de Freeman, Max Eastman, W. Frank, etc.
sia soviética, a literatura, pelo menos na teoria, está novamente
se tornando uma arte comunal e o artista foi novamente inte
grado à sociedade.
O gráfico de sucesso, sobrevivência e recrudescência de
um livro ou da reputação e fama de um escritor é, principal
mente, um fenômeno social. Naturalmente, pertence em parte
à “história” da literatura, já que a fama e a reputação são medi
das pela influência efetiva de um escritor sobre outros escrito
res, pelo seu poder original de transformar e mudar a tradição
literária. Em parte, a reputação é uma questão de resposta crí
tica: até agora, foi investigada principalmente com base em
pronunciamentos mais ou menos formais que supostamente
representam o “leitor geral” de um período. Portanto, embora
toda a questão do “remoinho do gosto” seja “social”, ela pode
ser colocada em uma base mais claramente sociológica: o tra
balho detalhado pode investigar a concordância efetiva entre
uma obra e o público específico que fez o seu sucesso; os indí
cios podem estar acumulados em edições e cópias vendidas.
A estratificação de toda sociedade reflete-se na estratifi
cação do seu gosto. Embora as normas das classes superiores
geralmente sejam transmitidas às inferiores, o movimento às
vezes se inverte: o interesse pelo folclore e pela arte primitiva
é um exemplo. Não há nenhuma coincidência necessária entre
avanço político e estético: a liderança na literatura passou para
a burguesia bem antes da supremacia política. A estratificação
social pode sofrer interferência e até ser anulada em questões
de gosto pelas diferenças de idade e sexo, por grupos e asso
ciações específicas. A moda é também um fenômeno impor
tante na literatura moderna pois, em uma sociedade fluida e
competitiva, as normas das classes superiores, rapidamente imi
tadas, têm necessidade constante de substituição. Certamente,
as rápidas mudanças do gosto corrente parecem refletir as rá
pidas mudanças sociais das últimas décadas e a frouxa relação
geral entre artista e público.
O isolamento do escritor moderno em relação à sociedade,
ilustrado pela Grub Street, pela boêmia, por Greenwich Villa-
ge, pelo expatriado americano, convida ao estudo sociológico.
O socialista russo Georgi Plekhánov acredita que a doutrina da
“arte pela arte” desenvolve-se quando os artistas sentem
uma contradição desesperada entre os seus objetivos e os objeti
vos da sociedade à qual pertencem. Os artistas devem ser muito
hostis à sua sociedade e não devem enxergar nenhuma esperan
ça de mudá-la* 16.
Na sua Sociology o f Litemry Taste, Levin L. Schücking
esboçou esses problemas; em outra parte, estudou em detalhe o
papel da família e das mulheres como público no século XVIII17.
Embora muitos testemunhos tenham se acumulado, rara
mente extraíram-se conclusões bem substanciadas quanto às
relações precisas entre a produção da literatura e as suas fun
dações econômicas ou mesmo quanto à influência precisa do
público sobre um escritor, A relação obviamente não é de mera
dependência ou de aquiescência passiva às prescrições do pa
trono ou do público. Os escritores podem conseguir criar o seu
próprio público especial; na verdade, como Coleridge sabia, to
do novo escritor tem de criar o gosto que o usufruirá.
O escritor não é apenas influenciado pela sociedade: ele a
influencia. A arte não meramente reproduz a vida, mas a modi
fica. As pessoas podem moldar as suas vidas pelos padrões dos
heróis e heroínas fictícios. Elas cortejaram, cometeram crimes
e suicídio conforme o livro, seja ele Os sofrimentos de Werther*,
de Goethe, seja os Mosqueteiros, de Dumas. Mas podemos de
finir exatamente a influência de um livro sobre os seus leito-
* Trad. bras. Martins Fontes, São Paulo, 2? ed. 1998.
16. Georgi V. Plekhanov, Art and Society, Nova York, 1936, pp. 43, 63,
etc. Discussões principalmente ideológicas são: A. Cassagne, La théorie de
l ’art pour l ’art en France, Paris, 1906, reimpresso em 1959; Rose R. Egan,
The Genesis o f the Theory o f Art fo r A rt’s Sake in Germany and England,
duas partes, Northampton, 1921-4; Louise Rosenblatt, L ’idée de l ’art pour
l ’art dans la littérature anglaise, Paris, 1931.
17. L. L. Schücking, Die Soziologie der literarischen Geschmacksbil
dung, Munique, 1923 (2? ed., Leipzig, 1931. Trad, inglesa, The Sociology o f
Literary Taste, Londres, 1941); ver Schücking, Die Familie im Puritanismus,
Leipzig, 1929.
res? Algum dia será possível descrever a influência da sátira?
Addison realmente modificou as maneiras da sua sociedade ou
Dickens incitou reformas das prisões de devedores, das escolas
para meninos, dos abrigos de pobres?18 Harriet Beecher Stowe
foi realmente a “mulherzinha que fez a grande guerra”? E o
vento levou mudou a postura dos nortistas para com a guerra
da sra. Stowe? Como Hemingway e Faulkner afetaram os seus
leitores? Quão grande foi a influência da literatura na ascensão
do nacionalismo moderno? Certamente, os romances históricos
de Walter Scott na Escócia, de Henryk Sienkiewicz na Polónia, de
Alois Jirásek na Checoslováquia, fizeram algo bem definido
para promover o orgulho nacional e uma memória comum dos
acontecimentos históricos.
Podemos construir a hipótese - plausível, sem dúvida - de
que os jovens são influenciados de maneira mais direta e vigo
rosa pela leitura desses escritores do que os velhos, que os leito
res inexperientes têm a visão ingênua de que a literatura é mais
uma transcrição do que uma interpretação da vida, que aqueles
cujos livros são poucos encaram estes com mais seriedade ab
soluta do que os leitores profissionais. Podemos propor algo
além de tal conjetura? Podemos utilizar questionários e qual
quer outro modo de investigação sociológica? Nenhuma obje
tividade exata pode ser obtida pois a tentativa de registrar his
tóricos de casos dependerá das lembranças e dos poderes ana
líticos dos interrogados, e os seus testemunhos precisarão de
codificação e avaliação feitas por uma
mente falível. Mas a
pergunta “Como a literatura afeta o seu público?” é uma per
gunta empírica, a ser respondida, se o for, pelo recurso à expe
riência, e, como estamos pensando na literatura no sentido
mais amplo, e na sociedade no sentido mais amplo, não se deve
recorrer à experiência apenas do conhecedor mas também da
raça humana. Sequer começamos a estudar tais questões19.
18. Ver T. A. Jackson, Charles Dickens, The Progress o f a Radical,
Londres, 1937.
19. A sra. Leavis, citada na nota 13; K. C. Link e H. Hopf, People and
Books, Nova York, 1946; F. Baldensperger, La littérature: création, succès,
durée, Paris, 1913; P. Stapfer, Des réputations littéraires, Paris, 1893; Gas-
^ A abordagem muito mais comum às relações entre litera-
vtura e sociedade é o estudo das obras de literatura como docu
mentos sociais, como retratos presumidos da realidade social,
i Tampouco se pode duvidar que algum tipo de retrato social
I possa ser abstraído da literatura. Na verdade, essa foi uma das
primeiras utilizações dadas à literatura por estudiosos sistemá
ticos. Thomas Warton, o primeiro historiador real da poesia in
glesa, argumentou que a literatura tem o “mérito peculiar de re
gistrar fielmente as características das épocas e de preservar a
representação mais pitoresca e expressiva das maneiras’920; e,
para ele e muitos dos seus sucessores antiquários, a literatura
era principalmente um tesouro de costumes e hábitos, uma fon
te para a história da civilização, especialmente da cavalaria e
do seu declínio. Quanto aos leitores modernos, muitos deles de
rivam suas principais impressões de sociedades estrangeiras a
partir da leitura de romances, de Sinclair Lewis e Galsworthy,
de Balzac e Turgueniev.
Usada como documento, a literatura pode fornecer os con
tornos de uma história social. Chaucer e Langland preservam
duas visões da sociedade do século XIV Cedo se percebeu que
o prólogo aos Contos de Cantuária oferecia um levantamento
quase completo dos tipos sociais. Shakespeare, em As alegres
comadres de Windsor, Ben Jonson em várias peças, e Thomas
Deloney parecem nos contar algo sobre a classe média isabeli-
na. Addison, Fielding e Smollett retratam a nova burguesia do
século XVIII; Jane Austen, a aristocracia e os párocos rurais
no início do século XIX; e Trollope, Thackeray e Dickens, o
mundo vitoriano. Na virada do século, Galsworthy nos mostra
a classe média alta inglesa; Wells, a classe média baixa; Ben-
net, as cidades de província.
ton Rageot, Le succès: auteurs et public - essai de critique sociologique, Pa
ris, 1906; Émile Hennequin, La critique scientifique, Paris, 1882. Os efeitos
sociais de outra arte, o cinema, são judiciosamente estudados por Mortimer
Adler em Art and Prudence, Nova York, 1937. Um brilhante esquema dialé
tico de “função, norma e valor estético como fatos sociais” pode ser encontra
do em Jan Mukarovskÿ, Estetická funkce, norma a hodnota jako sociálni fakt,
Praga, 1936.
20. Thomas Warton, History ofEnglish Poetry, Londres, 1774, vol. I, p. 1.
Uma série similar de retratos sociais da vida americana
poderia ser reunida utilizando-se desde os romances de Harriet
Beecher Stowe e Howells até os de Farrell e Steinbeck. A vida
de Paris e da França pós-restauraçao parece preservada nas
centenas de personagens que se movem pela Comédia humana
de Balzac, e Proust traçou com infinito detalhe as estratifica
ções sociais da aristocracia francesa decadente. A Rússia dos
proprietários rurais do século XIX surge nos romances de Tur-
gueniev e Tolstoi; temos vislumbres do mercador e do intelec
tual nas histórias e peças de Tchekhov, e em Cholokhov encon
tramos os fazendeiros coletivizados.
Os exemplos podem ser multiplicados indefinidamente.
Podemos reunir e expor o “mundo” de cada um, o papel que
cada um confere ao amor e ao casamento, aos negócios, às pro
fissões, o perfil que traçam dos clérigos - se estúpidos ou inte
ligentes, virtuosos ou hipócritas ou podemos nos especializar
nos marinheiros de Jane Austen, nos arrivistes de Proust, nas
mulheres casadas de Howells. Esse tipo de especialização irá
nos oferecer monografias sobre “A relação entre senhorio e ar
rendatário na ficção americana do século XIX”, “O marinhei
ro na ficção e no teatro inglês” ou “Os hibemo-americanos na
ficção do século XX”.
Tais estudos, porém, parecem de pouco valor na medida
em que têm como certo que a literatura é simplesmente um es
pelho da vida, uma reprodução e, assim, obviamente, um do
cumento social. Tais estudos fazem sentido apenas se conhe
cermos o método artístico do romancista estudado, e podemos
dizer - não meramente em termos gerais, mas concretamente -
qual a relação do retrato com a realidade social. É realista por
intenção? Ou é, em certos pontos, sátira, caricatura ou ideali
zação romântica? Em um estudo de clareza admirável sobre a
aristocracia e as classes médias na Alemanha, Kohn-Bramsted
nos previne corretamente:
Só uma pessoa com conhecimento da estrutura de uma so
ciedade a partir de outras fontes que não as puramente literárias
pode descobrir se, e até que ponto, certos tipos sociais e o seu
comportamento são reproduzidos no romance. [...] O que é pura
fantasia, o que é observação realista e o que é apenas expressão
dos desejos do autor devem ser separados em cada caso de ma
neira sutil21.
Usando a concepção de “tipos sociais’9 ideais, de Max We-
ber, o mesmo pesquisador estuda fenômenos sociais como o ódio
de classes, o comportamento do parvenu, o esnobismo e a pos
tura perante os judeus, e argumenta que tais fenômenos não são
tanto fatos e padrões comportamentais objetivos mas posturas
complexas e portanto mais bem ilustradas na ficção do que em
outra parte. Os estudiosos das posturas e aspirações sociais po
dem usar material literário se souberem como interpretá-lo
adequadamente. Na verdade, para períodos mais antigos, serão
obrigados a usar material literário ou, pelo menos, semiliterá-
rio, por falta de testemunhos dos sociólogos da época: escrito
res tratando de política, economia e questões públicas gerais.
Os heróis e heroínas da ficção, vilões e aventureiras pro
porcionam indicações interessantes de tais posturas sociais22.
Tais estudos conduzem constantemente à história das idéias éti
cas e religiosas. Conhecemos a posição do traidor no período
medieval e a atitude medieval para com a usura, que, persistindo
na Renascença, presenteia-nos Shylock e, mais tarde, UAvare
de Molière. A qual “pecado mortal" os séculos posteriores cos
tumavam atribuir o vilão? Essa vilania é concebida em termos
de moralidade pessoal ou social? Ele, por exemplo, é um artis
ta do roubo ou um malversador de títulos de viúvas?
O caso clássico é o da comédia da Restauração Inglesa.
Tratava-se de um reino de cornos, uma terra encantada de adul
térios e casamentos de mentira, como acreditava Lamb? Ou era,
como Macaulay gostaria de nos fazer crer, um retrato fiel da
21. E. Kohn-Bramstedt, Aristocracy and the Middle Classes in Ger
many, Londres, 1937, p. 4.
22. Ver André Monglond, Le héros préromantique, Le préromantisme
français, vol. I, Grenoble, 1930; R. P. Utter e G. B. Needham, Pamela’s
Daughters, Nova York, 1937. Também os escritos de E. E. Stoll, por exem-
plo, “Heroes and Villains: Shakespeare, Middleton, Byron, Dickens”, em
From Shakespeare to Joyce, Garden City, 1944, pp. 307-27.
aristocracia decadente, frívola e brutal?23 Ou não devíamos, re
jeitando ambas as possibilidades, ver que grupo social criou essa
arte e para que público? E não devíamos verificar se era uma
arte naturalista ou estilizada? Não devíamos atentar para a sá
tira e a ironia, a auto-ridicularização e a fantasia? Como toda li
teratura, essas peças não são simplesmente documentos; são pe
ças com figuras de repertório, situações de repertório
com casa
mentos teatrais e condições de acordos matrimoniais teatrais.
E. E. Stoll conclui seus muitos argumentos sobre essas questões:
Evidentemente, esta não é uma “sociedade real”, não é um
retrato fiel nem sequer da “vida da moda”; evidentemente, não é
a Inglaterra, nem mesmo “sob os Stuarts”, nem a partir, nem antes
da Revolução ou da Grande Rebelião24.
Ainda assim, a ênfase salutar na convenção e na tradição a
ser encontrada em um escrito como o de Stoll não pode descar
tar as relações entre literatura e sociedade. Mesmo a alegoria
mais abstrusa, a pastoral mais irreal, a farsa mais escandalosa
conseguem, se adequadamente interrogada, dizer-nos algo sobre
a sociedade de uma época.
A literatura ocorre apenas em um contexto social, como
parte de uma cultura, em um meio. A famosa tríade de Taine,
raça, meio e momento, na prática, levou a um estudo exclusivo
do meio. A raça é um integral fixo desconhecido, com o qual
Taine opera muito sem rigor. Muitas vezes é simplesmente o
“caráter nacional” presumido ou o “espírito” inglês ou francês.
O momento pode ser dissolvido no conceito de meio. Uma di
ferença de tempo significa simplesmente um ambiente dife
rente, mas a questão concreta da análise surge apenas se tentar
23. Charles Lamb, “On the Artificial Comedy”, Essays o f Elia, 1821; T.
B. Macaulay, “The Dramatic Works of Wycherley, Congreve, Vanbrugh, and
Farquhar”, Edinburgh Review, LXII (1841); J. Palmer, The Comedy o f Man
ners, Londres, 1913; K. M. Lynch, The Social Mode o f Restoration Comedy,
Nova York, 1926.
24. E. E. Stoll, “Literature and Life”, Shakespeare Studies, Nova York,
1927, e vários ensaios em From Shakespeare to Joyce, Garden City, 1944,
mos decompor o termo “meio”. O ambiente mais imediato de
uma obra literária, reconheceremos então, é a sua tradição lin-
güística e literária, e essa tradição, por sua vez, é envolvida por
um “clima” cultural geral. A literatura só pode ser ligada a situa
ções econômicas, políticas e sociais concretas de maneira bem
menos direta. Naturalmente, há inter-relações entre todas as
esferas das atividades humanas. Por fim, podemos estabelecer
certa ligação entre os modos de produção e a literatura, já que um
sistema econômico geralmente implica algum sistema de poder
e deve controlar as formas da vida familiar. E a família desem
penha um papel importante na educação, nos conceitos de se
xualidade e amor, em toda a convenção e tradição do sentimen
to humano. Assim, é possível vincular mesmo a poesia lírica às
convenções amorosas, aos preconceitos religiosos e concepções
da natureza. Mas essas relações podem ser tortuosas e oblíquas.
Parece possível, contudo, aceitar uma visão que constitui
qualquer atividade humana particular como a “iniciadora” de
todas as outras, seja ela a teoria de Taine, que explica a criação
humana por meio de uma combinação de fatores climáticos,
biológicos e sociais, seja a de Hegel e dos hegelianos, que con
sideram o “espírito” a única força motriz da história, seja a dos
marxistas, que derivam tudo dos modos de produção. Nenhu
ma mudança tecnológica radical ocorreu nos muitos séculos
entre a alta Idade Média e a ascensão do capitalismo, ao passo
que a vida cultural, e a literatura em particular, sofreram as mais
profundas transformações. Tampouco a literatura demonstra sem
pre, pelo menos imedíatamente, muita consciência das mudan
ças tecnológicas de uma época: a Revolução Industrial penetrou
nos romances ingleses apenas na década de quarenta do século
XIX (com Elizabeth Gaskell, Kingsley e Charlotte Bronte), mui
to depois que os seus sintomas fossem claramente visíveis para
os economistas e pensadores sociais.
A situação social, devemos admitir, parece determinar a
possibilidade da concretização de certos valores estéticos, mas
não os próprios valores. Podemos determinar em contornos ge
rais que formas artísticas são possíveis em uma dada socieda
de e quais são impossíveis, mas não é possível prever que essas
formas efetivamente virão a existir. Muitos marxistas - e não
apenas marxistas - tentam atalhos muito toscos da economia
para a literatura. Por exemplo, John Maynard Keynes, uma
pessoa não destituída de conhecimento literário, atribuiu a exis
tência de Shakespeare ao fato de que
estávamos justamente em uma posição financeira que nos per
mitia ter Shakespeare no momento em que ele se apresentou.
Grandes escritores floresceram na atmosfera de exuberância e
alegria, na liberdade de cuidados econômicos sentida pela clas
se dominante, que é engendrada por inflações de lucro25.
Mas as inflações de lucro não produziram grandes poetas
em outros lugares - por exemplo, durante o boom dos anos
vinte nos Estados Unidos e essa visão do Shakespeare oti
mista tampouco é indiscutível. A fórmula oposta, elaborada
por um marxista russo, não é mais útil:
A trágica visão de mundo de Shakespeare foi conseqüên-
cia de ser ele a expressão dramática da aristocracia feudal, que,
na época de Isabel, havia perdido a antiga posição dominante26.
Julgamentos assim contraditórios, vinculados a categorias
imprecisas como otimismo e pessimismo, deixam de lidar con
cretamente com o conteúdo social verificável das peças de
Shakespeare, com as opiniões professadas sobre questões polí
ticas (obviamente a partir das peças de crônica) e com a sua
condição social como escritor.
Devemos ter cuidado, porém, para não descartar a aborda
gem econômica da literatura com tais citações. O próprio
Marx, apesar de ter feito alguns julgamentos extravagantes,
geralmente tinha uma percepção aguda do caráter oblíquo da
relação entre literatura e sociedade. Na introdução à Crítica da
economia política, ele admite que
25. John Maynard Keynes, A Treatise on Money, Nova York, 1930, vol.
II, p. 154.
26. A. V. Lunacharsky, citado por L. C. Knights, loc. cit.t p. 10, do Lis
tener, 27 de dezembro de 1934.
Certos períodos do mais elevado desenvolvimento da arte não
têm nenhuma relação direta com o desenvolvimento geral da so
ciedade nem com a base material e a estrutura da sua organiza
ção. Veja-se o exemplo dos gregos em comparação com as nações
modernas ou mesmo Shakespeare27.
Ele também compreendeu que a moderna divisão do tra
balho conduz a uma contradição definida entre os três fatores
(“momentos”, na sua terminologia hegeliana) do processo so
cial - as “forças produtivas”, as “relações sociais” e a “consciên
cia”. Ele esperava, de uma maneira que não parece evitar o
utópico, que na futura sociedade sem classes essas divisões de
trabalho desapareceriam novamente, que o artista seria integra
do à sociedade outra vez. Ele achava possível que todos pudes
sem ser pintores excelentes, até mesmo originais. “Em uma so
ciedade comunista não haverá nenhum pintor mas, no máximo,
homens que, entre outras coisas, também pintam.”28
O “marxista comum” nos diz que este ou aquele escritor
era um burguês que emitia opiniões reacionárias ou progressi
vas a respeito da Igreja e do Estado. Há uma curiosa contradi
27. Einführung zur Kritik der politischen Ökonomie (1857, um manus
crito que Marx abandonou e que foi publicado em uma revista obscura em
1903. Reimpresso em Karl Marx-Friedrich Engels, Über Kunst und Literatur,
org. M. Lipschitz, Berlim, 1948, pp. 21-2. Essa passagem parece renunciar
completamente à posição marxista. Há outras afirmações cautelosas como,
por exemplo, a carta de Engels para Starkenburg, de 25 de janeiro de 1894.
“O desenvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso, literário, artísti
co, etc. está fundado no desenvolvimento econômico. Mas todos eles reagem,
conjunta ou separadamente, um ao outro e ao fundamento econômico”
(Marx-Engels, Selected Works, vol. I, p. 391). Em uma carta a Joseph Bloch,
de 21 de setembro de 1890, Engels admite que ele e Marx haviam enfatizado
em excesso o fator econômico e negligenciado o papel da interação recíproca;
e, em uma carta a Mehring, de 14 de julho de 1893, ele diz que haviam “ne
gligenciado” o lado formal - a maneira como as idéias se desenvolvem. (Ver
Marx-Engels, Selected Works, vol, I, pp. 383, 390.) Para um estudo cuidado
so ver Peter Demetz, Marx, Engels und die Dichter, Stuttgart, 1959.
28. De Die Deutsche Ideologie (1845-6), em Karl Marx e F. Engels,
Historisch-kritische Gesamtausgabe (org. V. Adoratskij), Berlim, 1932, vol.
V, pp. 21, 373.
ção entre esse determinismo reconhecido, que presume que a
“consciência” deve seguir a “existência”, que um burguês não
pode evitar de ser burguês, e o costumeiro julgamento ético que
o condena justamente por essas opiniões. Na Rússia, observa-
se, escritores de origem burguesa que se juntaram ao proleta
riado estiveram constantemente sujeitos a suspeitas quanto a
sua sinceridade, e toda falta artística ou cívica era atribuída à
sua origem de classe. Contudo, se o progresso, no sentido mar
xista, conduz diretamente do feudalismo, através do capita
lismo burguês, para a “ditadura do proletariado”, seria lógico e
coerente um marxista elogiar os “progressistas” de qualquer tem
po. Ele deveria elogiar o burguês por combater, nas primeiras
etapas do capitalismo, o feudalismo remanescente. Freqüente-
mente, porém, os marxistas criticam os escritores a partir de um
ponto de vista do século XX, ou, como Smimov e Grib, marxis
tas muito críticos com relação à “sociologia vulgar”, resgatam
o escritor burguês reconhecendo a sua humanidade universal.
Assim, Smimov chega à conclusão de que Shakespeare foi o
“ideólogo humanista da burguesia, o expoente do programa
proposto por ela quando, em nome da humanidade, desafiou
pela primeira vez a ordem feudal”29. Mas o conceito de huma
nismo, de universalidade da arte, renuncia à doutrina central
do marxismo, que é essencialmente relativista.
A crítica marxista tem seu melhor momento quando ex
põe as implicações sociais implícitas ou latentes da obra de um
autor. Nesse aspecto, é uma técnica de interpretação paralela
às fundadas nas descobertas de Freud, Nietzsche ou Pareto, ou
à “sociologia do conhecimento” de Scheler-Mannheim. Todos
esses intelectuais suspeitam do intelecto, da doutrina professa
da, da mera declaração. A distinção central é que os métodos
de Nietzsche e Freud são psicológicos, ao passo que a análise
de “resíduos” e “derivados” de Pareto e a técnica da análise da
“ideologia” são sociológicos.
29. A. A. Smimov, Shakespeare: A Marxist Interpretation, Nova York,
1936,p .93.
A “sociologia do conhecimento”, como ilustrada nos es
critos de Max Scheler, Max Weber e Karl Mannheim, foi ela
borada em detalhe e tem algumas vantagens definidas ante as
rivais30. Não apenas chama a atenção para os pressupostos e
implicações de uma dada posição ideológica, mas também en
fatiza os pressupostos e preconceitos ocultos do próprio inves
tigador. É, portanto, autocrítica e consciente de si, até mesmo ao
extremo da morbidez. Também é menos propensa que o mar
xismo e a psicanálise a isolar um único fator como única deter
minante da mudança. Qualquer que seja o seu fracasso no iso
lamento do fenômeno religioso, os estudos de Max Weber na
sociologia da religião são valiosos pela sua tentativa de descre
ver a influência dos fatores ideológicos sobre o comportamen
to e as instituições econômicas - pois a ênfase anterior estivera
inteiramente na influência econômica sobre a ideologia31. Uma
investigação similar das influências da literatura na mudança
social seria muito bem-vinda, embora fosse encontrar dificul
dades análogas. Parece difícil isolar o fator estritamente literá
30. Max Scheler, “Probleme einer Soziologie des Wissens”, Versuch zu
einer Soziologie des Wissens (org. Max Scheler), Munique e Lepzig, 1924,
vol. I, pp. 1-46, e “Probleme einer Soziologie des Wissens”, Die Wissensfor
men und die Gesellschaft, Leipzig, 1926, pp. 1-226; Karl Mannheim, Ideology
and Utopia (trad. L. Wirthe Z. Shils), Londres, 1936 (reimpresso, Nova York,
1955). Algumas discussões são: H. Otto Dahlke, “The Sociology of Know
ledge”, em H. E, Barnes, Howard Becker e F. B. Becker, Contemporary So
cial Theory, Nova York, 1940, pp. 64-99; Robert K. Merton, “The Sociology
of Knowledge”, Twentieth-Century Sociology (org. Georges Gurvitch e Wilbert
E. Moore), Nova York, 1945, pp. 366-405; Gerard L. De Gré, Society and
Ideology: an Inquiry into the Sociology o f Knowledge, Nova York, 1943; Ernst
Gruenwald, Das Problem der Soziologie des Wissens, Viena, 1934; Thelma
Z. Lavine, “Naturalism and the Sociological Analysis of Knowledge”, Natu
ralism and the Human Spirit (org. Yervant H. Krikorian), Nova York, 1944,
pp. 183-209; Alexander C. Kem, “The Sociology of Knowledge in the Study
o f Literature”, Sewanee Review, L (1942), pp. 505-14.
31. Max Weber, Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie, 3 vols.,
Tübingen, 1920-21 (parcialmente traduzido como The Protestant Ethic and
the Spirit o f Capitalism, Londres, 1930); R. H. Tawney, Religion and the Rise
o f Capitalism, Londres, 1926, e Penguin Books, 1938 (novaed. com prefácio,
1937); Joachim Wach, The Sociology o f Religion, Chicago, 1944.
rio e responder se a influência se deve ao próprio fator particular
ou a outras forças, para as quais o fator é um mero “santuário”
ou “canal”32.
A “sociologia do conhecimento” é vítima, porém, do seu ex
cessivo historicismo; ela chegou a conclusões finalmente céticas,
apesar da sua tese de que a “objetividade” pode ser alcançada
sintetizando-se e, portanto, neutralizando-se as perspectivas con
flitantes. É vítima também, na aplicação à literatura, da sua in
capacidade de ligar “conteúdo” e “forma”. Como o marxismo,
preocupado com uma explicação irracionalista, ela é incapaz
de oferecer um fundamento racional para a estética e, portanto,
para a crítica e a avaliação. Isso, naturalmente, é verdadeiro para
todas as abordagens extrínsecas da literatura. Nenhum estudo
causal pode fazer justiça à análise, à descrição e à avaliação de
uma obra literária.
Contudo, o problema “literatura e sociedade”, evidente
mente, pode ser colocado em diferentes termos, os termos das
relações simbólicas ou significativas: compatibilidade, harmo
nia, coerência, congruência, identidade estrutural, analogia es
tilística ou seja qual for o termo com que quisermos designar a
integração de uma cultura e a inter-relação entre as diferentes
atividades dos homens. Sorokin, que analisou as várias possi
bilidades claramente33, concluiu que o grau de integração varia
de sociedade para sociedade.
O marxismo nunca responde a pergunta quanto ao grau de
dependência da literatura na sociedade. Portanto, muitos dos
problemas básicos sequer começaram a ser estudados. Ocasio
nalmente, por exemplo, vemos argumentos a favor da determi
nação social dos gêneros, como no caso da origem burguesa do
romance, ou mesmo dos detalhes das suas posturas e formas,
como na visão não muito convincente de que a tragicomédia
“resulta da impressão de seriedade da classe média ante a ffi-
32. Ver a critica de Pitirim A. Sorokin, Contemporary Sociological
Theories, Nova York, 1928, p. 710.
33, P. A. Sorokin, Fluctuations o f Forms o f Art, Social and Cultural
Dynamics, vol. I, Nova York, 1937, especialmente o capitulo 1.
volidade aristocrática”34. Existirão determinantes sociais defi
nidas de estilos literários amplos como o romantismo - que,
embora associado com a burguesia, era antiburguês na ideolo
gia, pelo menos na Alemanha, desde o seu início?35 Embora
pareça evidente que as ideologias e temas literários dependem
de alguma maneira das circunstâncias sociais, as origens so
ciais das formas e estilos, gêneros e normas literárias efetivas
raramente foram estabelecidas.
As
tentativas mais concretas nos estudos sobre as origens
sociais da literatura encontram-se: na teoria unilateral de Bü-
cher sobre o surgimento da poesia a partir dos ritmos do traba
lho; nos muitos estudos de antropólogos sobre o papel mágico
da arte primitiva, na eruditíssima tentativa de George Thomson
de relacionar concretamente a tragédia grega com os cultos e ri
tuais do tempo de Esquilo e com uma inequívoca revolução so
cial democrática; na tentativa um tanto ingênua de Christopher
Caldwell de estudar as origens da poesia nas emoções tribais e
na “ilusão” burguesa de liberdade individual36.
Só seria possível perguntar se as atitudes sociais não po
dem tomar-se “constitutivas” e entrar em uma obra de arte como
partes efetivas do seu valor artístico, se a determinação social
das formas pudesse ser demonstrada conclusivamente. Pode
mos argumentar que a “verdade social”, embora não seja, como
tal, um valor artístico, corrobora valores artísticos como a com-
34. Edwin Berry Burgum, “Literary Form: Social Forces and Innova
tions”, The Novel and the World's Dilemma, Nova York, 1947, pp. 3-18.
35. Fritz Brüggeman, “Der Kampf um die bürgerliche Welt und Leben
sauffassung in der deutschen Literatur des 18. Jahrhunderts”, Deutsche Vier
teljahrschrift für Literaturwissenschaft und Geistesgeschichte, III (1925), pp.
94-127.
36. Karl Bücher, Arbeit und Rhythmus, Leipzig, 1896; J. E. Harrison,
Ancient Art and Ritual, Nova York, 1913; Themis, Cambridge, 1912; George
Thomson, Aeschylus and Athens, A Study in the Social Origins o f the Drama,
Londres, 1941, e Marxism and Poetry, Londres, 1945 (um pequeno panfleto
de grande interesse, com aplicação a materiais irlandeses); Christopher Caud-
well, Illusion and Reality, Londres, 1937; Kenneth Burke, Attitudes Toward
History, Nova York, 1937; Robert R. Marett (org.), Anthropology and the
Classics, Oxford, 1908.
plexidade e a coerência. Mas não precisa ser assim. Há grande
literatura que possui pouquíssima ou nenhuma relevância so
cial; a literatura social é apenas um tipo de literatura e não é
central na teoria da literatura, a menos que sustentemos a visão
de que a literatura é, basicamente, uma “imitação” da vida como
ela é e da vida social em particular. Mas a literatura não é subs
tituto para a sociologia ou para a política. Ela tem a sua própria
justificação e o seu próprio objetivo.
10. À literatura e as idéias
A relação entre a literatura e as idéias pode ser concebida
de maneiras muito diferentes. Freqüentemente, pensa-se na li
teratura como uma forma de filosofia, como “idéias” embru
lhadas na forma, e ela é analisada para que forneça “idéias con
dutoras”. Os estudantes são encorajados a resumir e compendiar
obras de arte em fimçâo de tais generalizações. O estudo mais an
tigo levou esse método a absurdos extremos; pensamos especial
mente em estudiosos de Shakespeare como Ulrici, que formulou
a idéia central de O mercador de Veneza como summumjus sum-
ma injuria1, Apesar de, hoje, a maioria dos estudiosos estar pre
cavida contra tal intelectualização excessiva, ainda há discussões
que tratam a obra literária como se fosse um tratado filosófico.
A visão oposta é negar qualquer relevância filosófica à
literatura. Em uma conferência, Philosophy and Poetry, George
Boas formulou essa visão bem grosseiramente:
[...] as idéias na poesia geralmente são triviais e muitas vezes
falsas, e ninguém com mais de dezesseis anos julgaria valer a
pena ler poesia meramente pelo que ela diz2.
Segundo T. S. Eliot, nem “Shakespeare nem Dante pensa
ram realmente”3. Pode-se conceder a Boas que o conteúdo in-
1. Hermann Ulrici, Über Shakespeares dramatische Kunst, 1839.
2. George Boas, Philosophy and Poetry, Wheaton College, Mass.,
1932, p. 9.
3. T. S. Eliot, Selected Essays, Nova York, 1932, pp. 115-16.
telectuaí da maior parte da poesia (e ele parece estar pensando
principalmente na poesia lírica) geralmente é muito exagera
do. Se analisamos muitos poemas famosos, admirados pela sua
filosofia, muitas vezes descobrimos meros lugares-comuns re
ferentes à mortalidade do homem ou à incerteza do destino. Os
ditos oraculares de poetas vitorianos como Browning, que pa
receram reveladores a muitos, muitas vezes revelam-se meras
versões portáteis de verdades primevas4. Mesmo se parecemos
conseguir extrair alguma proposição geral como “Beleza é ver
dade, verdade é beleza”, de Keats, resta-nos fazer o que pode
mos dessas proposições conversíveis, a menos que as vejamos
como as conclusões de um poema que ilustra a permanência da
arte e a impermanência das emoções humanas e da beleza na
tural. A redução de uma obra de arte a enunciado doutrinário -
ou, pior ainda, o isolamento de passagens - é desastrosa para a
compreensão do caráter único de uma obra: desintegra a sua
estrutura e impõe critérios de valor alheios.
Com certeza, a literatura pode ser tratada como documen
to na história das idéias e da filosofia pois a história literária é
paralela à história intelectual e a reflete. Frequentemente, enun
ciados explícitos ou alusões exibem o compromisso de um poeta
com uma filosofia específica ou estabelecem que ele teve al
gum contato direto com filosofias que foram bem conhecidas ou,
pelo menos, que tem conhecimento dos seus pressupostos gerais.
Em décadas recentes, todo um grupo de estudiosos ameri
canos dedicou-se ao estudo dessas questões, chamando o seu
método de “história das idéias”, um termo um tanto enganoso
para o método específico e limitado desenvolvido e defendido
por A. O. Lovejoy5. Lovejoy demonstrou brilhantemente a sua
eficácia no livro The Great Chain o/Being [A grande cadeia do
ser], que estuda a idéia de uma escala da natureza desde Platão
4. Por exemplo, “Deus está no céu; tudo vai bem com o mundo” é uma
afirmação de que Deus necessariamente criou o melhor de todos os mundos
possíveis. “Na terra, o arco partido; no céu, um círculo perfeito” é o argumen
to do limitado para o infinito, da consciência de incompletude para a possibi
lidade de completude, etc.
5. Ver bibliografia.
a Schelling, perseguindo a idéia através de todas as modalida
des do pensamento: a filosofia no sentido estrito, o pensamen
to científico, a teologia e - especificamente - a literatura. O
método difere da história da filosofia em dois aspectos. Love-
joy limita o estudo da história da filosofia aos grandes pensado
res e concebe a sua própria “história das idéias” de modo a in
cluir também pequenos pensadores, inclusive os poetas, tidos
como derivados dos pensadores. Ele ainda distingue que a his
tória da filosofia estuda os grandes sistemas, ao passo que a
história das idéias investiga idéias unitárias, isto é, decompõe o
sistema dos filósofos em partes componentes, estudando moti
vos individuais.
As delimitações particulares feitas por Lovejoy, embora
perfeitamente defensáveis como base de um estudo individual
como The Great Chain o f Being, deixam de ser convincentes
no geral. A história dos conceitos filosóficos pertence, muito
adequadamente, à história da filosofia, e foi assim incluída por
Hegel e Windelband há muito tempo. Naturalmente, é tão uni
lateral estudar idéias unitárias em detrimento dos sistemas como
seria unilateral restringir a história da literatura à história da
versificação, da dicção ou das imagens, negligenciando o estu
do desses todos coerentes, as obras de arte específicas. A “histó
ria das idéias” é simplesmente uma abordagem específica da
história geral do pensamento, usando a literatura apenas como
documento e ilustração. Essa suposição é óbvia quando Love
joy diz que grande parte das idéias na poesia reflexiva séria são
“idéias filosóficas diluídas”6.
Não obstante, a “história das idéias” deve ser bem recebi
da pelos estudantes de literatura, e não meramente pela luz in
direta
que uma compreensão melhor da história filosófica deve
lançar sobre a literatura. O método de Lovejoy reage ao inte
lectualismo excessivo da maioria dos historiadores do pensa
mento. Ele reconhece que o pensamento - ou, pelo menos, a
escolha entre sistemas de pensamento - freqüentemente é de
terminado por suposições, por hábitos mentais mais ou menos
6. Ver bibliografia.
inconscientes; que as pessoas são influenciadas na adoção de
idéias pela sua susceptibilidade a diversos tipos de pathos me
tafísico; e que as idéias freqüentemente são palavras-chave,
expressões piedosas, que devem ser estudadas semanticamen
te. Leo Spitzer, que desaprovou muitas das características da
“história das idéias” de Lovejoy, ofereceu, ele mesmo, exemplos
de como combinar a história intelectual e semântica em estu
dos que investigam palavras como “meio”, “ambiência” e “Stim-
mung” através de todas as suas associações e ramificações na
história7. Finalmente, o esquema de Lovejoy tem mais uma ca
racterística atraente. Ele ignora explicitamente a divisão dos
estudos literários e históricos em nacionalidades e línguas.
O valor de conhecer a história da filosofia e do pensamen
to geral para a exegese de um texto poético não pode ser supe
restimado. Além disso, a história literária - especialmente quan
do se ocupa de escritores como Pascal, Emerson, Nietzsche - tem
de tratar constantemente de problemas da história intelectual.
Na verdade, a história da crítica é simplesmente uma parte da
história do pensamento estético - pelo menos, se for tratada
em si, sem referência ao trabalho criador contemporâneo dela.
Sem dúvida, pode-se demonstrar que a literatura inglesa
reflete a história da filosofia. O platonismo renascentista per
meia a poesia isabelina: Spenser escreveu quatro hinos descre
vendo a ascensão neoplatônica da matéria à Beleza Celestial e,
em Faerie Queene, decide a disputa entre Mutabilidade e Na
tureza em favor de uma ordem eterna, imutável. Em Marlowe,
ouvimos reverberações do ateísmo e do ceticismo italíanados
da época. Mesmo em Shakespeare, há muitos vestígios do pla
tonismo renascentista, por exemplo, no famoso discurso de
Ulisses em Troilo, juntamente com ecos de Montaígne e cha
7. Leo Spitzer, “Milieu and Ambiance: An Essay in Historical Seman
tics”, Philosophy and Phenomenological Research, III (1942), pp. 1-42, pp.
169-218 (reimpresso em Essays in Historical Semantics, Nova York, 1948,
pp. 179-316); “Classical and Christian Ideas of World Harmony: Prolegome
na to an Interpretation o f the Word ‘Stimmung’”, Traditio: Studies in Ancient
and Medieval History, Thought and Religion, II (1944), pp. 409-64, e III
(1945), pp. 307-64. Versão ampliada, Baltimore, 1963.
vões do estoicismo. Podemos acompanhar o estudo que Donne
fez dos Pais da Igreja e dos Escolásticos, assim como o impac
to da nova ciência sobre a sua sensibilidade. O próprio Milton
desenvolveu uma teologia e uma cosmogonia altamente pes
soais, que, segundo uma interpretação, combina elementos ma
terialistas e platônicos e vale-se do pensamento oriental e das
doutrinas de seitas contemporâneas, como a dos mortalistas.
Dryden escreveu poesia filosófica que expõe as contro
vérsias teológicas e políticas da época e certamente demonstra
a sua consciência do fideísmo, da ciência moderna, do ceticis
mo e do deísmo. Pode-se descrever Thomson como o exponen
te de um sistema que combina newtonianismo e Shaftesbury.
O Ensaio sobre o homem, de Pope, é abundante em ecos filosó
ficos, e Gray versificou as teorias de Locke em hexâmetros la
tinos. Laurence Steme era um admirador entusiasmado de Loc
ke e usou as suas idéias de associação e duração, muitas vezes
com propósitos cômicos, ao longo de todo o Tristram Shandy.
Dentre os grandes poetas românticos, o próprio Coleridge
foi um filósofo técnico de grande ambição e certa reputação.
Foi um estudioso detalhado de Kant e Schelling e expôs as suas
visões, embora nem sempre de maneira crítica. Através de Co
leridge, cuja própria poesia parece pouco afetada pela sua filo
sofia sistemática, muitas idéias alemãs ou geralmente neopla-
tônicas ingressaram ou reingressaram na tradição da poesia in
glesa. Há vestígios de Kant em Wordsworth e afirmou-se que
ele foi um estudioso dedicado do psicólogo Hartley. Shelley, no
início, foi profundamente influenciado pelos philosophes fran
ceses do século XVIII e por seu discípulo inglês, Godwin, mas,
posteriormente, assimilou idéias derivadas de Espinosa, Berke-
ley e Platão.
A controvérsia vitoriana entre ciência e religião encontra
expressão bem conhecida em Tennyson e Browning. Swinbur-
ne e Hardy refletem o ateísmo pessimista da época, ao passo
que Hopkins demonstra o efeito do seu estudo de Duns Scotus.
George Eliot traduziu Feuerbach e Strauss; Shaw leu Samuel
Butler e Nietzsche. A maior parte dos escritores recentes leu
Freud ou sobre ele. Joyce conhecia não apenas Freud e Jung,
mas Vico, Giordano Bruno e, naturalmente, Tomás de Aquino;
Yeats esteve profundamente imerso em teosofia, misticismo e
até mesmo Berkeley.
Em outras literaturas, os estudos de tais problemas talvez
tenham sido ainda mais abundantes. São inúmeras as interpreta
ções da teologia de Dante. Na França, Ê. Gilson aplicou sua eru
dição em filosofia medieval à exegese de passagens de Rabelais
e Pascal8. Paul Hazard escreveu habilidosamente sobre a Crise
de la conscience européenne perto do fim do século XVII, acom
panhando a difusão das idéias do iluminismo por toda a Euro
pa9. Na Alemanha, são abundantes os estudos sobre o kantis-
mo de Schiller, os contatos de Goethe com Plotino e Espinosa,
de Kleist com Kant, de Hebbel com Hegel e de tópicos assim.
Na Alemanha, na verdade, a colaboração entre filosofia e litera
tura foi, freqüentemente, muito próxima, especialmente durante
o período romântico, quando Fichte, Schelling e Hegel viveram
com os poetas e quando mesmo um poeta tao puro como Höl
derlin pensou ser sua incumbência especular sistematicamente
sobre questões de epistemologia e metafísica. Na Rússia, Dos-
toiévski e Tolstói foram muitas vezes tratados como filósofos
e pensadores religiosos, e mesmo de Púchkin conseguiu-se ex
trair uma sabedoria fugidia10. Na época do movimento simbo-
lista, toda uma escola de “críticos metafísicos” surgiu na Rússia,
interpretando a literatura em função das suas posições filosó
ficas. Rozanov, Merezhkóvski, Chestov, Berdiaev e Viacheslav
Ivanov, todos escrevem sobre Dostoiévski ou em tomo dele11,
8. Étienne Henri Gilson, Les idées et les lettres, Paris, 1932.
9. Paul Hazard, La crise de la conscience européenne, 3 vols., Paris,
1934; La pensée européenne au XVIIIe siècle de Montesquieu à Lessing, 3
vols., Paris, 1946 (traduções inglesas: The European Mind: The Critical
Years, 1680-1715, New Haven, 1953; European Thought in the Eighteenth
Century, New Haven, 1954).
10. M. O. Gerschenzon, Mudrost Pushkina (A sabedoria de Púchkin),
Moscou, 1919.
11. Para estudos “metafísicos” de Dostoiévski, ver V. Rozanov, Legenda
o Velikom inkvizitore, São Petersburgo, 1894; D. Merezhkóvski, Tolstoy i Dos
toievsky, 2 vols., São Petersburgo, 1912 (trad, inglesa incompleta como Tolstoi as
Manand Artist, with an Essay on Dostoievsky, Nova York, 1902); Leo Chestov,
às vezes reduzindo-o meramente a um sistema e raramente
pensando nele como um romancista trágico.
No fim, porém, ou melhor, no início de tais estudos, devem
ser levantadas algumas questões que nem sempre são respondi
das com clareza. Até que ponto meros ecos do pensamento de
filósofos na obra do poeta definem a visão de um autor, espe
cialmente de um autor dramático como Shakespeare? Quão cla
ra e sistematicamente eram sustentadas as visões filosóficas
dos poetas e outros escritores? Frequentemente, não é um ana
cronismo da pior espécie supor
que um escritor de séculos mais
antigos sustentava uma filosofia pessoal, sentia até mesmo a
exigência dela ou vivia entre pessoas que encorajariam algum
padrão pessoal de opiniões ou se interessariam por ele? Os his
toriadores literários muitas vezes não superestimam grosseira
mente, mesmo entre autores recentes, a coerência, a clareza e o
âmbito das suas convicções filosóficas?
Mesmo se pensamos em autores com muita consciência
de si mesmos, ou que foram eles próprios, como em alguns ca
sos, filósofos especulativos e escreveram poesia que poderia ser
chamada de “filosófica”, ainda temos de fazer perguntas como:
a poesia é melhor porque é mais filosófica? A poesia pode ser
julgada segundo o valor da filosofia que adota ou segundo o
grau de discernimento que exibe dessa filosofia? Ou pode ser
julgada pelos critérios da originalidade filosófica, pelo grau com
que modificou o pensamento tradicional? T. S. Eliot preferia
Dante a Shakespeare porque a filosofia de Dante parecia-lhe
mais razoável do que a de Shakespeare. Um filósofo alemão,
Hermann Glockner, argumentou que poesia e filosofia nunca
haviam estado mais distantes do que em Dante porque Dante
adotou um sistema acabado sem modificá-lo12. A verdadeira
Dostoievsky i Nietzsche, São Petersburgo, 1905 (trad, alemã, Berlim, 1931); Ni
kolai Berdiaev, Mirosozertsanie Dostoevskovo (Dostoievsky 's World-View), Pra
ga, 1923 (trad, inglesa a partir do francês, Nova York, 1934), Vyacheslav Iva
nov, Freedom and the Tragic Life: A Study in Dostoyevsky, Nova York, 1952.
12. Hermann Glockner, “Philosophie und Dichtung: Typen ihrer Wech
selwirkung von den Griechen bis auf Hegel”, Zeitschrift fü r Ästhetick, XV
(1920-21), pp. 187-204.
colaboração entre filosofia e poesia ocorreu quando houve pen
sadores poetas como Empédocles, na era pré-socrática grega,
ou durante a Renascença, quando Ficino ou Giordano Bruno
escreveram poesia e filosofia, filosofia poética e poesia filosó
fica, e, mais tarde, na Alemanha, quando Goethe foi tanto um
poeta como um filósofo original.
Mas os padrões filosóficos desse tipo são critérios de crí
tica literária? O Ensaio sobre o homem, de Pope, deve ser con
denado porque demonstra considerável ecletismo nas suas fon
tes e coerência apenas em passagens isoladas, apesar de o total
ser crivado de incoerências gerais? O fato de podermos demons
trar que Shelley progrediu, em certa época de sua vida, do ma
terialismo cm de Godwin para uma espécie de idealismo pla
tônico toma-o melhor ou pior poeta? A impressão de que a
poesia de Shelley é vaga, monótona e aborrecida, que parece
ser a experiência de uma nova geração de leitores, pode ser re
futada mostrando que, bem interpretada, a sua filosofia fez sen
tido no seu tempo ou que esta ou aquela passagem não é sem
sentido mas alude a concepções científicas ou pseudocientí-
ficas contemporâneas?11 Todos esses critérios, com certeza, ba
seiam-se na incompreensão intelectualista, na confusão que se
faz das funções da filosofia e da arte, na incompreensão de como
as idéias efetivamente entram na literatura.
Essas objeções ao excessivo intelectualismo da aborda
gem filosófica foram levadas em conta por alguns métodos, de
senvolvidos especialmente na Alemanha. Rudolf Unger (usando
as idéias de Dilthey) defendeu muito claramente uma aborda
gem que, embora não sistematicamente explorada antes, fora
usada durante muito tempo13 14. Ele corretamente argumenta que
13. Ver René Wellek, “Literary Criticism and Philosophy: A Note on
Revaluation”, Scrutiny, V (1937), pp. 375-83, e F. R. Leavis, “Literary Criti
cism and Philosophy: A Reply”, ibid., VI (1937), pp. 59-70 (reimpresso em
The Importance o f Scrutiny, org. E. Bentley, Nova York, 1948, pp. 23-40),
14. Rudolf Unger, Philosophische Probleme in der neueren Literatur
wissenschaft, Mimique, 1908; Weltanschauung und Dichtung, Zurique, 1917;
Literaturgeschichte als Problemgeschichte, Berlim, 1924; “Literaturges
chichte und Geistesgeschichte”, Deutsche Vierteljahrschrift fü r Literaturwis-
a literatura não é conhecimento filosófico traduzido em ima
gens e verso, mas que a literatura expressa uma postura geral
diante da vida; que os poetas geralmente respondem, de ma
neira não sistemática, a perguntas que também são temas da
filosofia, mas que o modo poético de responder difere em di
ferentes épocas e situações. Unger classifica esses “problemas”
da seguinte maneira, consideravelmente arbitrária: o problema
do destino, com o que pretende referir-se à relação de liberda
de e necessidade, espírito e natureza; o “problema” religioso,
que inclui a interpretação de Cristo, a atitude perante o pecado
e a salvação; o problema dà natureza, que incluiria questões
como o sentimento pela natureza mas também questões de mito
e magia. Outro grupo de problemas Unger denomina o proble
ma do homem. Diz respeito a questões do conceito de homem,
mas também à relação do homem com a morte, ao conceito de
amor do homem; e, finalmente, há um grupo de problemas da
sociedade, da família e do Estado. A atitude dos escritores de
ve ser estudada em relação com esses problemas, e, em alguns
casos, produziram-se livros que tentam estudar a história des
ses problemas em termos de um suposto desenvolvimento ima
nente. Walter Rehm escreveu um longo livro sobre o problema
da morte na poesia alemã; Paul Kluckhohn discorreu sobre a
concepção de amor no século XVIII e na época romântica15 16.
Em outras línguas, há trabalho similar. Romantic Agony,
de Mario Praz, poderia ser descrito como um livro sobre o pro
blema do sexo e da morte, como sugere o seu título italiano, A
carne, a morte e o diabo na literatura romântica}6. Allegory o f
senschaft und Geistesgeschichte, IV (1925), pp. 177-92. Todas as disserta
ções estão reunidas em Aufsätze zur Prinzipienlehre der Literaturgeschichte,
2 vols., Berlim, 1929.
15. Rudolf Unger, Herder, Novalis, Kleist: Studien über die Entwick
lung des Todesproblem, Frankiurt, 1922; Walther Rehm, Der Todesgedanke
in der deutschen Dichtung, Halle, 1928; Paul Kluckholn, Die Auffassung der
Liebe in der Literatur des achtzehnten Jahrhunderts und in der Romantik,
Halle, 1922.
16. Mario Praz, La carne, la morte e il diavolo nella letteratura roman-
tica, Milão, 1930 (trad. inglesa de Angus Davidson, The Romantic Agony,
Londres, 1933).
Love, de C. S. Lewis, além de ser uma história de gênero da ale
goria, contém muito a respeito das posturas mutáveis perante o
amor e o casamento, e Theodore Spencer escreveu um livro so
bre a morte e a tragédia isabelina, Death and Elizabethan Tra-
gedy, que, na sua parte introdutória, estuda a concepção medie
val de morte em contraste com as concepções da Renascença17.
Para dar apenas um exemplo: o homem na Idade Média temia
mais a morte súbita, já que ela impedia a preparação e o arre
pendimento, ao passo que Montaigne começa a pensar que uma
morte repentina é melhor. Ele perdeu a fé na visão cristã de que
a morte é o objetivo da vida. H. N. Fairchild acompanhou ten
dências religiosas na poesia inglesa dos séculos XVIII e XIX
classificando os escritores segundo o fervor dos seus sentimen
tos religiosos18. Na França, a volumosa History o f French Reli-
gious Sentiment in the Seventeenth Century, do abade Gremond,
extrai da literatura boa parte do seu material, e Monglond e Tra-
hard escreveram estudos muito refinados sobre o sentimenta
lismo, o sentimento pré-romântico por excelência e a curiosa
sensibilidade exibida pelos revolucionários franceses19.
Se examinarmos a lista de Unger, devemos reconhecer
que alguns dos problemas que ele enumera são simplesmente
problemas filosóficos, ideológicos para os quais o poeta foi
apenas, na expressão de Sidney, o “filósofo popular certo”, ao
passo que outros problemas pertencem antes à história da sen
sibilidade e do sentimento
que a uma história do pensamento.
Às vezes, o ideológico entremeia-se com o puramente emocio
nal. Na sua postura perante a natureza, o homem é profunda
mente influenciado por especulações cosmológicas e religiosas
mas também por considerações estéticas, convenções literárias
e, possivelmente, mesmo mudanças fisiológicas na sua maneira
17. C. S. Lewis, The Allegory o f Love, Oxford, 1936; Theodore Spen
cer, Death and Elizabethan Tragedy, Cambridge, Mass., 1936.
18. Hoxie Neale Fairchild, Religious Trends in English Poetry, 4 vols.,
Nova York, 1939-57.
19. André Monglond, Le préromantisme français, 2 vols., Grenoble,
1930; Pierre Trahard, Les maîtres de la sensibilité française au XVIIT siècle,
4 vols., Paris 1931-3.
de ver20. O sentimento com relação à paisagem, embora tam
bém determinado por viajantes, pintores e projetistas de jardins,
foi mudado por poetas como Milton ou Thomson e escritores
como Chateaubriand e Ruskin.
Uma história do sentimento trará consideráveis dificulda
des, já que o sentimento é fugidio e, ao mesmo tempo, unifor
me. Os alemães certamente exageraram as mudanças nas pos
turas humanas e construíram esquemas suspeitamente precisos
do seu desenvolvimento. Ainda assim, há pouca dúvida de que
o sentimento muda; no mínimo, de que tem as suas conven
ções e modas. Balzac faz comentários engraçados sobre a pos
tura frívola, à maneira do século XVIII, de M. Hulot para com
o amor, diferente da de Madame Mameffe, que tem as novas
convenções da Restauração, da pobre e fraca mulher, da “irmã
de caridade”21. As torrentes de lágrimas do leitor e do escritor
do século XVIII são lugar-comum na história literária. Gellert,
um poeta alemão de reputação intelectual e social, chorou pela
separação de Grandison e Clementine até encharcar o lenço, o
livro, a mesa e até o soalho, e vangloriou-se disso em uma car
ta22; e mesmo o Dr. Johnson, que nunca se destacou pela bran
dura do seu coração, permitiu-se lágrimas e efusões sentimen
tais com muito menos contenção do que os seus contemporâ
neos, pelo menos os das classes intelectuais23.
No estudo do escritor individual, o ponto de vista menos in-
telectualista de Unger tem as suas vantagens, já que tenta definir
posturas e idéias formuladas de maneira menos tangível, menos
ostensiva. Corre menos risco de isolar e reduzir o conteúdo de
uma obra de arte a mero enunciado em prosa, a mera fórmula.
20. Ver um excelente levantamento da pesquisa “The Use o f Color in
Literature”, de Sigmund Skard, em Proceedings o f the American Philosophi
cal Society, XC (n? 3, julho de 1946), pp. 163-249. A bibliografia de 1.183
itens relaciona também a vasta literatura sobre o sentimento da paisagem.
21. Balzac, Cousine Bette, cap. IX.
22. Gellert, Carta ao conde Hans Moritz von Brühl, 3 de abril de 1755
(na Yale University Library).
23. Dr. Johnson, Orações e meditações, cartas à srta. Boothby, etc.
O estudo dessas posturas levou alguns filósofos alemães a
especular sobre a possibilidade de reduzi-las a alguns tipos de
Weltanschauung, um termo usado com amplitude suficiente
para incluir idéias filosóficas e posturas emocionais. A tentati
va mais bem conhecida é a de Dilthey, que, na sua prática como
historiador literário, enfatizou constantemente a diferença entre
uma idéia e uma experiência (Erlebnis). Ele encontra três tipos
principais na história do pensamento24: o positivismo, que deri
va de Demócrito e Lucrécio e inclui Hobbes, os enciclopedistas
franceses e os modernos materialistas e positivistas; o idealis
mo objetivo, que inclui Heráclito, Espinosa, Leibniz, Schelling,
Hegel; e o idealismo dualista, ou “idealismo da liberdade”, que
inclui Platão, os teólogos cristãos, Kant e Fichte. O primeiro gru
po explica o espiritual por meio do mundo físico; o segundo vê
a realidade como expressão de uma realidade interna e não re
conhece nenhum conflito entre ser e valor; o terceiro supõe a
independência do espírito em relação à natureza. Dilthey, en
tão, associa autores específicos a esses tipos: Balzac e Stendhal
pertencem ao primeiro tipo; Goethe ao segundo; Schiller ao ter
ceiro. Essa é uma classificação que não se baseia meramente
em adoção e pronunciamentos conscientes, mas é dedutível, su-
põe-se, até mesmo da arte menos intelectual. Os tipos também
são associados com posturas psicológicas gerais: assim, o rea
lismo com a predominância do intelecto, o idealismo objetivo
com a predominância do sentimento, o idealismo dualista com
a predominância da vontade.
24. Ver a primeira versão de Dilthey da sua teoria dos tipos em “Die
drei Grundformen der Systeme in der eisten Hälfte des 19. Jahrhunderts”, Ar
chiv fü r Geschichte der Philosophie, XI (1898), pp. 557-86 (reimpresso em
Gesammelte Schriften, Leipzig, 1925, vol. TV, pp. 528-54). Versões posterio
res em “Das Wesen der Philosophie” em Paul Hiimeberg, Die Kultur der Ge
genwart (Teil I, Abteilung VI, “Systematische Philosophie”, Berlim, 1907,
pp. 1-72, reimpresso em Gesammelte Schriften, loc. e it, vol. V, parte I, pp,
339-416) e “Die Typen der Weltanschauung und ihre Ausbildung in den phi
losophischen Systemen”, Weltanschauung, Philosophie, Religion (org. Max
Frischeisen-Köhler), Berlim, 1911, pp. 3-54 (reimpresso loc. cit,, vol. VIII,
pp. 75-120).
Herman Nohl tentou demonstrar que os tipos também são
aplicáveis à pintura e à música25. Rembrandt e Rubens pertencem
aos idealistas objetivos, aos panteístas; pintores como Velázquez
e Hals aos realistas; Michelangelo aos idealistas subjetivos. Ber-
lioz pertence ao tipo um, Schubert ao tipo dois, Beethoven ao
tipo três. O argumento da pintura e da música é importante, pois
sugere que esses tipos também podem existir na literatura sem
nenhum conteúdo ostensivamente intelectual. Unger tentou mos
trar que as diferenças serão válidas até mesmo para os poemas
líricos curtos de Mõrike, C. F. Meyer e Liliencron26; ele e Nohl
tentaram demonstrar que a Weltanschauung pode ser descober
ta meramente a partir do estilo ou, pelo menos, de cenas em um
romance sem nenhum conteúdo intelectual direto. Aqui, a teoria
transforma-se em uma teoria de estilos artísticos fundamen
tais. Walzel tentou ligá-lo aos Conceitos fundamentais da his
tória da arte*, de WÕlfflin, e a tipologias similares27.
O interesse dessas especulações é considerável, e muitas
variantes da teoria aqui exposta foram inventadas na Alema
nha. Também foram aplicadas à história da literatura. Walzel,
por exemplo, vê, na Alemanha do século XIX e, presumivel
mente, na literatura européia, uma clara evolução do tipo dois (o
idealismo objetivo de Goethe e dos românticos), passando pelo
tipo um (realismo), que progressivamente se toma consciência
da fenomenalidade do mundo no impressionismo, até um idea
lismo subjetivo, dualista, exemplificado pelo expressionismo,
o representante do tipo três. O esquema de Walzel não apenas
formula que houve essa mudança, mas que essa mudança é, de
alguma maneira, encadeada e lógica. O panteísmo, em certa eta
pa, leva ao naturalismo, e o naturalismo leva ao impressionis
mo, e a subjetividade do impressionismo finalmente se funde
25. Herman Nohl, Die Weltanschauungen der Malerei, Jena, 1908;
Typische Kunststile in Dichtung und Musik, Jena, 1915.
26. Unger em “Weltanschauung und Dichtung”, Aufsätze..., op. cif., pp.
77 ss.
* Trad. bras. Martins Fontes, São Paulo, 4? ed., 2000.
27 .0 . Walzel, Gehalt und Gestalt im dichterischen Kunstwerk, Berlim-
Babelsberg, 1923, pp. 77 ss.
em um novo idealismo. O esquema é dialético e, em última aná
lise, hegeliano.
Uma visão sóbria dessas especulações ficará cética diante
da precisão desses esquemas. Duvidará do caráter sacro do nú
mero três. O próprio Unger, por exemplo, distingue dois tipos de
idealismo objetivo: um tipo harmonioso, representado por Goe-
the, e um dialético,
em Boehme, Schelling e Hegel; e objeções
similares poderiam ser feitas contra os tipos de “positivismo”,
que parecem abranger uma enorme quantidade de pontos de
vista, muitas vezes altamente divergentes. Mais importante,
contudo, do que tais objeções contra os detalhes da classifica
ção são as dúvidas que devem surgir quanto ao pressuposto
todo que está por trás do empreendimento. Toda tipologia des
se tipo leva somente a uma classificação tosca da literatura como
um todo em três ou, no máximo, cinco ou seis categorias. A in
dividualidade concreta dos poetas e das suas obras é ignorada
ou minimizada. De um ponto de vista literário, parece que se
consegue pouco ao classificar poetas tão diversos como Blake,
Wordsworth e Shelley como “idealistas objetivos”. Não parece
haver motivo para reduzir a história da poesia às permutas de
três ou mais tipos de Weltanschauung. Finalmente, a posição
implica um relativismo radical e excessivo. O pressuposto de
ve ser o de que esses três tipos são de igual valor e que o poeta
não pode deixar de escolher um deles com base no seu tempe
ramento ou em alguma postura fundamentalmente irracional,
meramente dada, perante o mundo. A implicação é a de que exis
tem apenas tais tipos e que todo poeta é uma ilustração desses
tipos. Toda a teoria, naturalmente, baseia-se em uma filosofia
geral da história que supõe uma relação próxima e necessária
entre filosofia e arte, não apenas no indivíduo, mas em um pe
ríodo e na história. Somos levados a uma discussão dos pressu
postos da Geistesgeschichte.
Geistesgeschichte pode ser usado como termo alternativo
para história intelectual, para a história das idéias no sentido
de Lovejoy, e tem a vantagem de ser um termo menos intelec
tualizado do que o inglês. Geist é um termo amplo, que inclui
rá os problemas descritos como pertencentes, em boa parte, à
história do sentimento. Geist, porém, tem associações menos
desejáveis com toda a concepção de “espírito objetivo”. Geis-
tesgeschichte, porém, geralmente é compreendido na Alema
nha em um sentido ainda mais específico: supõe que cada pe
ríodo tem o seu “espírito da época” e pretende
reconstruir o espírito de uma época a partir das diferentes obje-
tivações de uma época - da sua religião aos seus costumes. Pro
curamos pela totalidade por trás dos objetos e explicamos todos
os fatos por esse espírito de época28.
O termo supõe uma coerência muito estrita de todas as
atividades do homem, culturais e de outros tipos, um paralelis
mo completo das artes e das ciências. O método retoma a su
gestões feitas pelos Schlegels e teve Spengler como seu ex
poente mais conhecido, assim como o mais extravagante. Mas
também teve praticantes acadêmicos que são historiadores lite
rários por profissão e que usaram o método, em boa parte, como
materiais literários. Sua prática inclui dialéticos bastante pon
derados, como Korff (que investiga a história da literatura ale
mã entre 1750 e 1830 como um movimento dialético da racio
nalidade para a irracionalidade, para a síntese hegeliana), até as
produções fantásticas, arguciosas, pseudomísticas, verbalistas
de Cysarz, Deutschbein, Stefansky e Meissner29. O método, em
boa parte, é um método de analogia: analogia negativa na medi
da em que tende a enfatizar as diferenças em dada época e es
quecer as semelhanças, e analogia positiva na medida em que
28. H. W. Eppelsheimer, “Das Renaissanceproblem”, Deutsche Viertel
jahrschrift fü r Literaturwissenschaft und Geistesgeschichte, II (1933), p. 497.
29. H. A. Korff, Geist der Goethezeit: Versuch einer ideellen Entwic
klung der klassisch-romantischen Literaturgeschichte, 4 vols., Leipzig,
1923-53; Herbert Cysarz, Erfahrung und Idee, Viena, 1921; Deutsche Ba
rockdichtung, Leipzig, 1924; Literaturgeschichte als Geisteswissenschaft,
Halle, 1926; Von Schiller bis Nietzsche, Halle, 1928; Schiller, Halle, 1934;
Max Deutschbein, D ar Wesen des Romantischen, Coethen, 1921; George Ste
fansky, Das Wesen der deutschen Romantik, Stuttgart, 1923; Paul Meissner,
Die geisteswissenschaftlichen Grundlagen des englischen Literaturbarocks,
Berlim, 1934.
tende a enfatizar as semelhanças entre os acontecimentos ou
produções de um período particular e esquecer as diferenças.
Os períodos romântico e barroco mostraram ser campos de
caça especialmente felizes para tais exercícios de engenho.
Um bom exemplo é Die geisteswissenschaftlichen Grun
dlagen des englischen Literaturbarocks (1934), que define o
espírito da época como um conflito de tendências antitéticas e
persegue essa fórmula incansavelmente em todas as atividades
humanas, da tecnologia à exploração, das viagens à religião. O
material é ordenado precisamente em categorias como expan
são e concentração, macrocosmo e microcosmo, pecado e sal
vação, fé e razão, absolutismo e democracia, “atectônica” e
“tectônica”. Com esse analogizar universal, Meissner chega à
triunfante conclusão de que a época barroca exibiu conflito,
contradição e tensão em todas as suas manifestações. Como
seus colegas, Meissner nunca faz a pergunta óbvia, mas funda
mental, sobre se tal esquema de opostos não poderia ser extraí
do de quase todas as outras épocas. Tampouco pergunta se não
poderíamos impor ao século XVII um esquema de opostos
completamente diferente, inclusive com base nas mesmas cita
ções, retiradas da sua vasta leitura.
De maneira similar, os grandes livros de Korff reduzem
tudo à tese do “racionalismo”, à antítese do “írracionalismo” e
à síntese do romantismo. O racionalismo rapidamente assume,
em Korff, também um significado formal, “classicismo”, e o
írracionalismo assume o significado da forma solta do Sturm
und Drang*, ao passo que o romantismo alemão é forçado a
servir de síntese. Há muitos livros em alemão que trabalham
com tais opostos: o muito mais sóbrio Freiheit und Form, de
Cassirer, e o tortuoso Erfahrung und Idee, de Cysarz30. Em al
guns escritores alemães, esses tipos ideológicos estão intima-
* “Tempestade e sobressalto”, movimento literário alemão (1770-1790)
que, influenciado pelas idéias de Rousseau, marca o início do Romantismo.
Principais representantes: Klinger, Goethe, Schiller. (N. do R. T.)
30. Emst Cassirer, Freiheit und Form, Berlim, 1922; Mee und Gestalt,
Berlim, 1921. Ver Cysarz, op. cit.
mente ligados a tipos raciais ou fundem-se gradualmente a eles:
o alemão ou, pelo menos, o teutônico, é o homem de sentimen
to, ao passo que o latino é o homem de razão; ou, novamente,
os tipos podem ser basicamente psicológicos, como o contras
te costumeiro entre o demoníaco e o racional. Finalmente, diz-
se que os tipos ideológicos são intercambiáveis com conceitos
estilísticos: eles se fundem com o classicismo e o romantismo,
o barroco e o gótico e deram origem a uma enorme literatura,
na qual etnologia, psicologia, ideologia e história da arte são
apresentadas em uma mistura e uma confusão inextricáveis.
Contudo, todo o pressuposto da integração completa de
uma época, de uma raça, de uma obra de arte está aberto a sé
rio questionamento. O paralelismo das artes só pode ser aceito
com grandes reservas. O paralelismo entre a filosofia e a poe
sia está mais aberto ainda à dúvida. Basta pensarmos na poesia
romântica inglesa, que floresceu durante um tempo em que a
filosofia inglesa e a escocesa eram completamente dominadas
pela filosofia do senso comum e pelo utilitarismo. Mesmo em
épocas em que a filosofia parece estar em contato íntimo com
a literatura, a integração efetiva é muito menos certa do que
presume a Geistesgeschichte alemã. O movimento romântico
alemão é estudado, na maior parte das vezes, à luz da filosofia
desenvolvida por homens como Fichte ou Schelling, filósofos
profissionais, e por escritores como Friedrich Schlegel e Nova-
lis, casos fronteiriços em que as produções artísticas concretas
não foram nem de importância central nem muito bem-sucedidas
artisticamente. Os maiores poetas, dramaturgos e romancistas
do movimento romântico alemão tiveram, freqüentemente, re
lações apenas tênues com a filosofia contemporânea (como foi
o caso de E. T. A. Hoffinann e Eichendorff, um católico tradi
cional) ou desenvolveram um ponto de vista filosófico antagô
nico ao dos filósofos românticos par excellence, como fez
Jean Paul Richter, que atacou Fichte, ou Kleist, que se sentia
esmagado por Kant. A forte integração entre filosofia e litera
tura, mesmo durante o movimento romântico alemão, só pode
ser alcançada com argumentos baseados nos fragmentos e in
vestigações teóricas de Novalis e Friedrich Schlegel, discípu
los declarados de Fichte, cujas especulações, muitas vezes iné
ditas no seu tempo, pouca relação têm com a produção de
obras de literatura concretas.
A integração íntima entre filosofia e literatura é muitas
vezes enganosa, e os argumentos a seu favor são superestima
dos porque se baseiam em um estudo da ideologia literária, das
profissões de intenção e de programas que, necessariamente
tomando emprestadas formulações estéticas existentes, podem
manter uma relação apenas remota com a prática efetiva dos
artistas. Esse ceticismo quanto à integração íntima de filosofia
e literatura não nega, naturalmente, a existência de muitas rela
ções e mesmo a probabilidade de certo paralelismo, reforçado
pelo contexto social comum de uma época e, portanto, por in
fluências comuns exercidas sobre a literatura e a filosofia. Mas,
mesmo nesse caso, a suposição de um contexto social comum
pode ser realmente enganosa. A filosofia com ffeqüência tem
sido cultivada por uma classe específica, que pode ser muito di
ferente dos praticantes da poesia, em afiliações e origem so
ciais. A filosofia, muito mais do que a literatura, tem sido iden
tificada com a Igreja e a Academia. Tem, como todas as outras
atividades humanas, a sua própria história, a sua própria dialé
tica: as suas facções e movimentos não estão - parece-nos -
tão intimamente relacionados com os movimentos literários
como supõem muitos dos praticantes da Geistesgeschichte.
A explicação da mudança literária com base no “espírito
da época” parece positivamente viciosa quando esse espírito se
toma um integral e absoluto místicos, em vez de ser, no máxi
mo, indicador de um problema difícil e obscuro. De maneira
geral, a Geistesgeschichte alemã, simplesmente conseguiu trans
ferir critérios de uma série (uma das artes ou a filosofia) para
toda a atividade cultural e, então, caracterizou a época e, nela, ca
da obra literária individual em termos de opostos vagos como
classicismo e romantismo ou racionalismo e irracionalismo. A
concepção do “espírito da época” muitas vezes tem conseqüên-
cias desastrosas também para uma concepção da continuidade
da civilização ocidental: as épocas individuais são tidas como
muito nitidamente distintas e descontínuas, e as revoluções que
exibem são consideradas tão radicais que o Geisteswissens-
chaftler termina não apenas no completo relativismo histórico
(uma época é tão boa quanto outra) mas também em uma fal
sa concepção de individualidade e originalidade, que ignora as
constantes básicas na natureza humana, na civilização e nas an
tes. Em Spengler, chegamos à idéia de ciclos culturais fecha
dos que se desenvolvem por inevitável necessidade: fechados
em si, apesar de misteriosamente paralelos. A Antiguidade não
continua na Idade Média, a continuidade da evolução literária
ocidental é completamente negada ou esquecida.
Esses fantásticos palácios de cartas não devem, natural
mente, obscurecer o real problema de uma história geral da hu
manidade ou, pelo menos, da civilização ocidental. Estamos ple
namente convencidos de que as soluções oferecidas pela Geistes-
geschichte costumeira, com o seu recurso excessivo a oposições
e analogias, o seu pressuposto acrítico das alterações alterna
das de estilos e Denkfòrmen e a sua crença em uma integração
completa de todas as atividades do homem, foram prematuras
e, muitas vezes, imaturas.
Em vez de especular sobre problemas de larga escala
como a filosofia da história e o integral final da civilização, o
estudante de literatura deve voltar a sua atenção para o proble
ma concreto ainda não solucionado nem sequer devidamente
discutido: a questão de como as idéias efetivamente entram na
literatura. A questão obviamente não diz respeito às idéias de
uma obra literária que permanecem mera matéria-prima, mera
informação. A questão só ocorre quando e se essas idéias são
efetivamente incorporadas à própria textura da obra de arte,
quando se tomam “constitutivas”, em resumo, quando deixam
de ser idéias no sentido comum de conceitos e tornam-se sím
bolos ou mesmo mitos. Há o grande domínio da poesia didáti
ca, no qual as idéias são meramente enunciadas, providas de
métrica ou de algum adorno de metáfora ou alegoria. Há o ro
mance de idéias como os de George Sand ou de George Eliot,
em que temos discussões de “problemas” sociais, morais ou fi
losóficos. Em um nível superior de integração, há um romance
como Moby Dick, no qual toda a ação combina algum signifi
cado mítico, ou um poema como Testament o f Beauty, de Brid-
ges, em que a intenção, pelo menos, é imbuída de uma única
metáfora filosófica. E há Dostoiévski, em cujos romances o dra
ma das idéias é exteriorizado em termos concretos de persona
lidades e acontecimentos. Em Os irmãos Karamâzov, os qua
tro irmãos são símbolos, representam um debate ideológico que
é, ao mesmo tempo, um drama pessoal. A conclusão ideológi
ca é integral às catástrofes pessoais das figuras principais.
Mas esses romances e poemas filosóficos, como o Fausto
de Goethe ou os Irmãos de Dostoiévski, são obras de arte su
periores por causa da sua importância filosófica? Não devemos,
antes, concluir que a “verdade filosófica” como tal não tem ne
nhum valor artístico, exatamente como argumentamos que a
verdade psicológica ou social não tem nenhum valor como tal?
A filosofia, o conteúdo ideológico, no seu contexto próprio,
parece realçar o valor artístico porque corrobora muitos valo
res artísticos importantes: os da complexidade e coerência.
Um discernimento teórico pode aumentar a profundidade de
penetração e âmbito de alcance do artista. Mas não precisa ser
assim. O excesso de ideologia atrapalhará o artista se permane
cer por assimilar. Croce argumentou que A divina comédia é com
posta de passagens de poesia alternadas com passagens de teo
logia e pseudociência rimadas31. A segunda parte do Fausto so
fre, indubitavelmente, de intelectualização excessiva, está sem
pre no limiar da alegoria ostensiva, e, em Dostoiévski, sentimos
ffeqüentemente a discrepância entre o sucesso artístico e o peso
do pensamento. Zósima, o porta-voz de Dostoiévski, é um per
sonagem realizado de maneira menos vívida do que Ivan Kara-
mázov. Em um nível inferior, A montanha mágica, de Thomas
Mann, ilustra a mesma contradição: as partes iniciais, com a
evocação do mundo do sanatório, são artisticamente superio
res às partes posteriores, de grandes pretensões filosóficas. Às
vezes, porém, na história da literatura, há casos, certamente ra
ros, em que as idéias se incandescem, quando as figuras e ce
nas não meramente representam mas efetivamente incorporam
31. B. Croce, La poesia diDante, Bari, 1920.
idéias, quando alguma identificação de filosofia e arte parece
ocorrer. A imagem toma-se conceito e o conceito imagem. Mas
esses são necessariamente os ápices da arte, como muitos críti
cos de inclinação filosófica presumem ser? Croce parece estar
certo ao argumentar, em uma discussão da segunda parte de
Fausto, que “quando a poesia toma-se superior dessa maneira,
isto é, superior a si mesma, ela perde nível como poesia
e deve
ser denominada inferior, ou seja, carente de poesia”32. Pelo me
nos, deve-se reconhecer que a poesia filosófica, por mais inte
grada que seja, é apenas um tipo de poesia, e que a sua posição
não é necessariamente central na literatura, a menos que se sus
tente uma teoria de poesia que seja reveladora, essencialmente
mística. A poesia não é filosofia substituta; ela tem a sua pró
pria justificação e o seu próprio objetivo. A poesia de idéias é
como outra poesia, não para ser julgada pelo valor do material,
mas pelo seu grau de integração e intensidade artística.
32. B. Croce, Goethe, Bari, 1919 (trad, inglesa, Londres, 1923, pp, 185-6).
11. A literatura e as
outras artes
A relação da literatura com as belas-artes e a música é mui
to variada e complexa. Às vezes, a poesia extraiu inspiração de
pinturas, da escultura ou da música. Como os objetos naturais e
as pessoas, outras obras de arte podem tomar-se os temas da poe
sia. Que poetas tenham descrito obras de escultura, pintura ou
mesmo música não apresenta nenhum problema teórico. Spen-
ser, sugeriu-se, extraiu de tapeçarias e cortejos algumas de suas
descrições; as pinturas de Claude Lorrain e Salvatore Rosa in
fluenciaram a poesia de paisagens do século XVIII; Keats deri
vou detalhes da sua “Ode a um vaso grego” de uma pintura espe
cífica de Claude Lorrain1. Stephen A. Larrabee considerou todas
as alusões e tratamentos da escultura grega encontrados na poe
sia inglesa2. Albert Thibaudet demonstrou que “L’Après-midi
d ’un faune”, de Mallarmé, foi inspirado em uma pintura de
Boucher, na Galeria Nacional de Londres3. Os poetas, especial
mente os do século XIX, como Hugo, Gautier, os parnasianos
e Tieck, escreveram poemas sobre quadros definidos. Os poetas,
naturalmente, tinham as suas teorias a respeito da pintura e as
suas preferências entre os pintores, que podem ser estudadas e
1. Émile Legouis, Edmund Spenser, Paris, 1923; Elizabeth W. Manwa-
ring, Italian Landscape in Eighteenth-Century England, Nova York, 1925;
Sir Sidney Colvin, John Keats, Londres, 1917.
2. Stephen A. Larrabee, English Bards and Grecian Marbles: The Rela
tionship between Sculpture and Poetry especially in the Romantic Period,
Nova York, 1943.
3. Albert Thibaudet, La poésie de Stéphane Mallarmé, Paris, 1926.
mais ou menos relacionadas com as suas teorias sobre a litera
tura e seus gostos literários. Há aqui uma ampla área de inves
tigação, percorrida apenas parcialmente nas décadas recentes4.
A literatura, por sua vez, pode tomar-se o tema da pintura
ou da música, em especial da música vocal e de programa, as
sim como a literatura, particularmente o poema lírico e o dra
ma, colaborou intimamente com a música. Há um número cada
vez maior de estudos de cantigas medievais ou de poesia lírica
isabelina que enfatizam a íntima associação no cenário musi
cal5. Na história da arte surgiu todo um grupo de eruditos (Er-
win Panofsky, Fritz Saxl e outros), que estudam os significados
conceituais e simbólicos das obras de arte (“iconologia”) e fre-
qüentemente também as suas relações e inspirações literárias6.
Para além dessas questões óbvias de fontes e influências,
inspiração e cooperação, surge um problema mais importante:
a literatura algumas vezes tentou conseguir os efeitos da pintu
ra - tornar-se pintura com palavras - ou os efeitos da música -
transformar-se em música. As vezes, a poesia até quis ser es
cultural. Um crítico pode, como fez Lessing no seu Laokóon e
Irving Babbitt no seu New Laokõon, deplorar essa confusão de
gêneros; não se pode negar, naturalmente, a possibilidade da
metamorfose literal de poesia em escultura, pintura ou música.
O termo “subescultural”, aplicado à poesia, mesmo à de Landor,
Gautier ou Heredia, é meramente uma metáfora vaga, signifi
cando que a poesia comunica uma impressão, de certa maneira,
4. Ver bibliografia, seção I.
5. Ver Bruce Pattison, Music and Poetry o f the English Renaissan
ce, Londres, 1948; Germaine Bontoux, La chanson en Angleterre au temps
d'Elizabeth, Paris, 1938; Miles M. Kastendieck, England’s Musical Poet:
Thomas Campion, Nova York, 1938; John Hollander, The Untuning o f the
Sky, Princeton, 1961.
6. Erwin Panofsky, Studies in Iconology, Nova York, 1939, reimpresso
em 1962, e Meaning in the Visual Arts, Garden City, N.Y., 1955. Ver tam
bém a publicação do Warburg Institute, o trabalho de Fritz Saxl, Edgar Wind
e outros. Há muitos trabalhos sobre a representação pictórica (em vasos) de
Homero e das tragédias gregas, como, por exemplo, Carl Robert, Bild und
Lied, Berlim, 1881; Louis Séchan, Études sur la tragédie grecque dans ses
rapports avec la céramique, Paris, 1926.
similar aos efeitos da escultura grega: frescor, induzido pelo
mármore branco ou moldes de gesso, imobilidade, repouso, con
tornos nítidos, clareza. Devemos reconhecer, porém, que o fres
cor na poesia é algo muito diferente da real sensação tátil do
mármore ou da reconstrução imaginativa dessa percepção a
partir da brancura; que a imobilidade na poesia é algo muito
diferente da imobilidade na escultura. Quando se diz que “Ode
to Evening”, de Collins, é um “poema esculpido”, nada se diz
que indique alguma relação concreta com a escultura7 8. As úni
cas objetividades analisáveis são a métrica e a dicção lentas,
solenes, estranhas o suficiente para chamar a atenção para pa
lavras individuais e, portanto, forçar um ritmo lento na leitura.
Não podemos, porém, negar o sucesso da fórmula hora-
ciana ut pictura poesis%. Embora a quantidade de visualização
na leitura de poesia provavelmente seja superestimada, houve
épocas e houve poetas que realmente fizeram o leitor visuali
zar. Lessing podia estar certo ao criticar a descrição enumera-
tiva da beleza feminina em Ariosto como visualmente ineficaz
(apesar de não necessariamente ineficaz em termos poéticos),
mas os viciados no pitoresco do século XVIII não podem ser des
cartados facilmente, e a literatura moderna, de Chateaubriand
a Proust, deu-nos muitas descrições que no mínimo sugerem os
efeitos da pintura e nos incitam a visualizar as cenas de um mo
do que freqüentemente evoca pinturas contemporâneas. Embo
ra possamos ter dúvidas quanto a poder realmente o poeta su
gerir os efeitos da pintura a leitores hipotéticos que nada sa
bem de pintura, está claro que, na nossa tradição cultural geral,
os escritores de fato sugeriram o emblema, a pintura de paisa
gens do século XVIII, o efeito impressionista de um Whistler e
coisas semelhantes.
7. Larrabee, loc. cit, p. 87. Uma discussão mais completa, de R. Wel-
lek, em uma resenha, Philological Quarterly, XXIII (1944), pp. 382-3.
8. W. G. Howard, “Ut Pictura Poesis” , PMLA, XXIV (1909), pp. 40-
123; Cicely Davies, “Ut pictura poesis”, Modem Language Review, XXX
(1935), pp. 159-69; Rensselaer W. Lee, “Ut Pictura Poesis: The Humanistic
Theory of Painting”, Art Bulletin) XXII (1940), pp. 197-269; Jean H. Hags-
trum, The Sister Arts: The Tradition o f Literary Pictoralism and English
Poetry from Dryden to Gray, Chicago, 1958.
Se a poesia pode alcançar os efeitos da música parece
mais duvidoso, embora muitos afirmem que sim. A “musicali
dade” no verso, atentamente analisada, revela ser algo inteira
mente diverso da “melodia” na música: parece um arranjo de
padrões fonéticos, uma esquiva ao acúmulo de consoantes ou
simplesmente a presença de certos efeitos rítmicos. Em poetas
românticos como Tieck e, mais tarde, Verlaine, as tentativas de
conseguir efeitos musicais são, em boa parte, tentativas de su
primir a estrutura de significado do verso, de evitar construções
lógicas, de enfatizar antes conotações que denotações. Não obs
tante, os contornos indistintos, a imprecisão do significado e a
ilogicidade não são, em sentido literal, “musicais”. As imitações
literárias de estruturas musicais
como o leitmotiv, a sonata ou a
forma sinfônica parecem ser mais concretas, no entanto, é difí
cil entender por que motivos repetitivos, ou certo contraste e
equilíbrio entre estados de espíritos - embora tenham a decla
rada intenção de imitar a composição musical não são, es
sencialmente, os usuais recursos literários da recorrência, do
contraste, etc., que são comuns a todas as artes9. Nos casos re
lativamente raros em que a poesia sugere sons musicais defini
dos, “Les sanglots longs des violons”, de Verlaine, ou “Bells”,
de Poe, o efeito do timbre de um instrumento ou o muito gene
ralizado badalar de sinos é conseguido por meios que não vão
muito além da onomatopéia comum.
Naturalmente, há poemas que foram escritos com a inten
ção de serem musicados por exemplo, muitas canções isabe-
linas e todos os libretos de ópera. Em raros casos, poetas e
compositores foram a mesma pessoa, mas parece difícil provar
que a composição de música e palavras já foi um processo si
multâneo. Mesmo Wagner às vezes escrevia seus “dramas”
anos antes de serem colocados em música, e, sem dúvida, mui-
9. A sra. Una Ellis-Fermor oferece uma elaborada “análise musical” do
Volpone, de Jonson, no seu Jacobean Drama, Londres, 1936, e George R.
Kemodle tentou encontrar a forma sinfônica de Rei Lear, “The Symphonic
Form of King Lear", em Elizabethan Studies and Other Essays in Honor' o f
George C. Reynolds, Boulder, Colorado, 1945, pp. 185-91.
tos poemas líricos foram feitos para serem encaixados em me
lodias já prontas. Mas a relação entre música e poesia de qua
lidade parece um tanto tênue quando pensamos nos indícios for
necidos mesmo pelas mais bem-sucedidas transposições em
termos musicais. Poemas de estrutura cerrada, altamente inte
grada, não se prestam a ser musicados, ao passo que poesia me
díocre ou pobre, como boa parte do Heine ou Wilhelm Müller
iniciais, forneceu o texto para as melhores canções de Schubert
e Schumann. Se a poesia é de alto valor literário, musicá-la ífe-
qüentemente distorce ou obscurece completamente os seus pa
drões, mesmo quando a música tem valor por si mesma. Não
precisamos citar exemplos como o destino do Otelo de Shakes-
peare na ópera de Verdi pois quase todas as transposições dos
salmos ou dos poemas de Goethe oferecem prova adequada da
objeção. A colaboração entre poesia e música existe, com cer
teza, mas a poesia mais elevada não tende para a música, e a mú
sica mais sublime não tem necessidade de palavras.
Os paralelos entre as belas-artes e a literatura geralmente
equivalem à afirmação de que este quadro e aquele poema in
duzem o mesmo estado de espírito em mim: por exemplo, que
sinto o coração leve e alegre ao ouvir um minueto de Mozart,
ao ver uma paisagem de Watteau e lendo um poema anacreôn
tico. Mas esse é o tipo de paralelismo que é de pouco valor para
fins de análise precisa: a alegria induzida por uma peça musi
cal não é a alegria em geral ou mesmo a alegria de uma nuan
ça particular, mas uma emoção que segue de perto o padrão da
música e, assim, está ligada a ele. Na música, experimentamos
emoções que possuem apenas um tom geral em comum com
os da vida real, e mesmo que definamos essas emoções tão de
talhadamente quanto pudermos, ainda estaremos muito afasta
dos do objeto específico que as induziu. Os paralelos entre as
artes que permanecem dentro das reações individuais de um lei
tor ou espectador, e que se contentam em descrever alguma si
milaridade emocional de nossas reações a duas artes, nunca irão,
portanto, prestar-se à versificação e, assim, tomar-se um avanço
cooperativo no nosso conhecimento.
Outra abordagem comum é a das intenções e teorias dos
artistas. Sem dúvida, podemos demonstrar que existem algu-
mas similaridades nas teorias e fórmulas por trás das diferen
tes artes, nos movimentos neoclássico e romântico, e podemos
encontrar também declarações de intenções dos artistas indivi
duais nas diferentes artes que soam idênticas ou similares. Mas
o “classicismo” na música significa algo muito diferente do
seu uso na literatura pela simples razão de que não se conhecia
nada da música realmente antiga (com a exceção de alguns
fragmentos), e esta, portanto, nao podia moldar a evolução da
música como a literatura foi efetivamente moldada pelos pre
ceitos e práticas da Antiguidade. Da mesma maneira, não se
pode descrever a pintura, antes da escavação dos afrescos de
Pompéia e Herculano, como influenciada pela pintura clássica,
apesar da referência frequente às teorias clássicas, a pintores
gregos como Ápeles e a algumas tradições pictóricas remotas,
que devem ter sido herança da Antiguidade por intermédio da
Idade Média. A escultura e a arquitetura, porém, foram deter
minadas pelos modelos clássicos e seus derivados em um grau
que excede em muito as outras artes, inclusive a literatura. As
sim, as teorias e intenções conscientes significam algo muito
diferente nas várias artes e dizem pouco ou nada sobre os re
sultados concretos da atividade de um artista: sua obra e o seu
conteúdo e forma específicos.
Nos raros casos em que artista e poeta são idênticos, po
demos observar melhor como pode ser dúbia para a exegese es
pecífica a abordagem por meio da intenção do autor. Por exem
plo, uma comparação da poesia e das pinturas de Blake, ou de
Rossetti, demonstrarão que o caráter - não meramente a quali
dade técnica - da sua pintura e o da sua poesia são muito dife
rentes, até mesmo divergentes. Um animalzinho grotesco é
tido como representando “Tigre! Tigre! Ardendo em brilho”.
Thackeray ilustrou ele mesmo A feira das vaidades, mas sua
caricatura presunçosa de Becky Sharp não tem nenhuma rela
ção com o complexo personagem do romance. Na estrutura e
na qualidade, há pouca comparação entre os Sonetos de Mi-
chelangelo e a sua escultura e pintura, embora possamos en
contrar as mesmas idéias neoplatônicas em todos e descobrir
algumas similaridades psicológicas10. Isso mostra que o “veí
culo” de uma obra de arte (um termo infeliz, que incorre em pe
tição de princípio) não é meramente um obstáculo técnico a ser
superado pelo artista para expressar a sua personalidade, mas
um fator pré-formado pela tradição e que tem um poderoso ca
ráter determinante, que molda e modifica a abordagem e a ex
pressão do artista individual. O artista não concebe em termos
mentais gerais, mas em termos de material concreto, e o veícu
lo concreto tem a sua própria história, muitas vezes bem dife
rente da de qualquer outro veículo.
Mais valiosa do que a abordagem por meio das intenções
e teorias do artista é uma comparação das artes com base no
seu contexto social e cultural comum. Certamente é possível des
crever o solo nutriente temporal, local ou social das artes e da
literatura e, assim, apontar influências comuns agindo sobre
elas. Muitos paralelos entre as artes só são possíveis porque ig
noram o contexto social inteiramente diferente que a obra de
arte individual atraía ou do qual parecia ser derivada. As clas
ses sociais que criam ou procuram certo tipo de arte podem ser
bem diferentes em qualquer tempo ou lugar. As catedrais góti
cas têm um contexto social diferente do da epopéia francesa, e
a escultura freqüentemente atrai e é financiada por um público
bem diferente do público do romance. Tão falaciosa quanto a
suposição de um contexto social comum às artes em um dado
tempo e lugar é a suposição costumeira de que o contexto inte
lectual é necessariamente idêntico e eficaz em todas as artes.
Parece arriscado interpretar a pintura à luz da filosofia con
temporânea: para mencionar apenas um exemplo, Charles de
Tolnay11 tentou interpretar os quadros de Brueghel, o Velho, como
indício de um monismo panteísta paralelo ao de Cusano ou Pa-
racelso e antecipando Espinosa e Goethe. Mais perigosa ainda
é a “explicação” das artes
em função de um “espírito da épo
10. Ver Erwin Panofsky, “The Neoplatonic Movement and Michelan
gelo”, Studies in Iconology, Nova York, 1939, pp. 171 ss.
11. Charles de Tolnay, Pierre Bruegel l ’Ancien, 2 vols., Bruxelas,
1935; ver também Die Zeichnungen Peter Breugels, Munique, 1925; a crítica
de Carl Neumann em Deutsche Vierteljahrschrift, IV (1926), pp. 308 ss.
ca”, como praticado pela Geistesgeschichte alemã, movimento
que criticamos em outro contexto12.
Os paralelismos genuínos que decorrem do contexto so
cial ou intelectual idêntico ou similar nunca foram analisados
em termos concretos. Não temos nenhum estudo que nos de
monstre claramente como, por exemplo, todas as artes em um
dado tempo ou lugar expandem ou restringem os seus campos
sobre os objetos da '‘natureza”, ou como as normas da arte es
tão ligadas a classes sociais específicas e, portanto, sujeitas a
mudanças uniformes, ou como os valores estéticos mudam com
as revoluções sociais. Eis um amplo campo de investigação,
que sequer foi tocado, apesar de prometer resultados concretos
para a comparação das artes. Naturalmente, apenas influências
similares na evolução das diferentes artes podem ser provadas
por esse método, não qualquer paralelismo necessário.
Obviamente, a abordagem mais central para uma compa
ração das artes baseia-se em uma análise dos objetos de arte
concretos e, assim, das suas relações estruturais. Nunca haverá
uma história da arte adequada, para não falar de uma história
comparada das artes, a menos que nos concentremos em uma
análise das próprias obras e releguemos ao contexto os estudos
da psicologia do leitor e do espectador ou do autor e do artista,
assim como os estudos do contexto cultural e social, por mais
esclarecedores que possam ser do seu ponto de vista. Infeliz-
mente, até agora, não tivemos nenhuma ferramenta para tal
comparação entre as artes. Aqui, surge uma pergunta muito di
fícil: Quais são os elementos comuns e os elementos compará
veis das artes? Não vemos nenhuma luz em uma teoria como a
de Croce, que concentra todos os problemas estéticos no ato da
intuição, misteriosamente identificado com a expressão. Croce
afirma a inexistência de modos de expressão e condena “qual
quer tentativa de classificação estética das artes como absur
da” e, portanto, rejeita a fortiori toda distinção entre gêneros
ou tipos13. Nosso problema tampouco ganha muito com a insis
12. Ver capítulo precedente, “A literatura e as idéias”.
13. Benedetto Croce, Aesthetic (trad. D. Ainslie), Londres, 1929, pp.
62,110,188, et passim.
tência de John Dewey, em Art as Experience (1934), em que
existe uma substância comum entre as artes porque há “condi
ções gerais sem as quais uma experiência não é possível”14.
Sem dúvida, há um denominador comum no ato de toda criação
artística ou, a propósito, em toda criação, atividade e experiên
cia humana. Mas há soluções que não nos ajudam a comparar
as artes. Mais concretamente, Theodore Meyer Greene define os
elementos comparáveis das artes como complexidade, integração
e ritmo, e argumenta eloqüentemente, como John Dewey fizera
antes, a favor da aplicabilidade do termo “ritmo” às artes plás
ticas15. Parece impossível, porém, superar a profunda distinção
entre o ritmo de uma peça musical e o ritmo de uma colunata,
no qual nem a ordem nem o tempo são impostos pela estrutura
da própria obra. Complexidade e integração são apenas outros
termos para “variedade” e “unidade” e, portanto, de uso muito
limitado. Poucas tentativas concretas de chegar a um denomina
dor comum entre as artes sobre uma base estrutural passaram
disso. G. D. BirkhofF, matemático de Harvard, em um livro sobre
a medida estética, Aesthetic Measure16, tentou, com aparente su
cesso, encontrar uma base matemática para a música e formas
artísticas simples e incluiu um estudo da “musicalidade” do ver
so, que também é definida em equações e coeficientes matemáti
cos. Mas o problema da eufonia no verso não pode ser solucio
nado isoladamente do significado, e as notas altas de BirkhofF
para poemas de Edgar Allan Poe parecem confirmar tal suposi
ção. Suas tentativas engenhosas, se aceitas, tenderiam antes a
ampliar o hiato entre as qualidades essencíalmente “literárias”
da poesia e de outras artes que participam muito mais plena
mente da “medida estética” do que a literatura.
14. John Dewey, Art as Experience, Nova York, 1934, p. 212.
15. T. M. Greene, The Arts and the Art o f Criticism, Princeton, 1940,
pp. 213 ss., especialmente pp. 221-6; John Dewey, op. cit., pp. 175 ss., 218
ss. Argumentos contra o uso de ritmo nas artes plásticas podem ser encontra
dos em Ernst Neumann, Untersuchungen zur Psychologie und Aesthetik des
Rhythmus, Leipzig, 1894, e em Fritz Medicus, “Das Problem einer verglei
chenden Geschichte der Künste” , em Philosophie der Literaturwissenschaft
(org. E. Ermatinger), Berlim, 1930, pp. 195 ss.
16. George David Birkhoff, Aesthetic Measure, Cambridge, Mass., 1933.
O problema do paralelismo das artes logo sugeriu a apli
cação à literatura de conceitos de estilo obtidos na história das
artes. No século XVIII, foram feitas inúmeras comparações en
tre a estrutura de Faerie Queene, de Spenser, e a gloriosa de
sordem de uma catedral gótica17. Em The Decline o f the West,
criando analogias entre todas as artes de uma cultura, Spengler
fala da “música de câmara visível da mobília curvada, das salas
de espelhos, pastorais e grupos de porcelana do século XVIII”,
menciona o “estilo Ticiano do madrigal” e refere-se ao “allegro
feroce de Franz Hals e ao andante con moto de Van Dyck”18.
Na Alemanha, esse modo de criar analogias entre as artes esti
mulou copiosos escritos sobre o homem gótico e o espírito do
barroco e levou ao uso literário dos termos “rococó” e “Bieder-
meier”. Na periodização da literatura, a seqüência claramente
elaborada dos estilos artísticos do gótico, renascimento, barro
co, rococó, romantismo, Biedermeier, realismo, impressionis
mo, expressionismo impressionou os historiadores literários e
impôs-se também à literatura. Os estilos denominados são agru
pados em dois grupos principais, apresentando fundamental
mente o contraste entre o clássico e o romântico: gótico, barro
co, romantismo, expressionismo surgem em uma linha; o re
nascimento, o neoclassicismo, o realismo na outra. O rococó e o
Biedermeier podem ser interpretados como variações posterio
res, decadentes, floridas dos estilos precedentes - respectiva
mente, o barroco e o romantismo. Freqüentemente, os parale
lismos são muito forçados, e é fácil destacar absurdos mesmo
nos escritos dos estudiosos de melhor reputação que se permi
tiram esse método19.
17. Por exemplo, no prefácio de John Hughes a sua edição de Faerie
Queene (1715) e nas Letters on Chivalry and Romance, de Richard Hurd
(1762).
18. Oswald Spengler, Der Untergang des Abendlandes, Munique,
1923, vol. I, pp. 151, 297, 299, 322, 339.
19. Ver o artigo de R. Wellek citado na bibliografia, seção I, e o seu
“The Concept of Baroque in Literary Scholarship”, Journal o f Aesthetics and
Art Criticism, V (1946), pp. 77-108. Há muitos exemplos concretos e referên
cias adicionais.
A tentativa mais concreta de transferir as categorias da
história da arte para a literatura é a aplicação dos critérios de
Wõllflín por Oskar Walzel. Em seu Conceitos fundamentais
dti história da arte20, Wõlfflin distinguiu, em bases puramente
estruturais, a arte renascentista e a arte barroca. Ele construiu
um esquema de opostos aplicável a qualquer tipo de quadro,
escultura ou espécime arquitetônico do período. A arte renas
centista, sustentou, é “linear”, ao passo que a arte barroca é
"pictórica”. “Linear” sugere que os contornos das figuras e ob
jetos são traçados claramente, ao passo que “pictórico” signifi
ca que luz e cor, que
tomam imprecisos os contornos dos obje
tos, são, elas próprias, os princípios da composição. A pintura
o a escultura renascentistas usam uma forma “fechada”, um
agrupamento simétrico e equilibrado de figuras ou superfícies,
ao passo que o barroco prefere uma forma “aberta”, uma com
posição assimétrica, que coloca ênfase em um canto da pintura
em vez de no centro, ou mesmo em pontos além da moldura do
quadro. As pinturas renascentistas são “planas” ou, pelo menos,
compostas em diferentes planos recessivos, ao passo que os qua
dros barrocos são “profundos” ou parecem conduzir o olho para
um fundo distante e indistinto. As pinturas renascentistas são
"múltiplas” no sentido de terem partes distintas; as obras bar
rocas são “unificadas”, altamente integradas, cerradas. As obras
dc arte renascentistas são “claras”, ao passo que as obras bar
rocas são relativamente “não claras”, embaçadas, indistintas.
Wõlfflin demonstrou as suas conclusões com uma análise
admiravelmente sensível de obras de arte concretas e sugeriu a
necessidade da progressão da Renascença para o barroco. Cer-
lumente, a sequência não pode ser invertida. Wõlfflin não ofe
rece nenhuma explicação causal do processo, exceto ao sugerir
uma mudança na “maneira de ver”, um processo que, contudo,
não pode ser considerado como puramente fisiológico. Essa
visão, com a sua ênfase em mudanças na “maneira de ver”, nas
mudanças puramente estruturais e de composição remonta às
20. H. Wõlfflin, Kunstgeschichtliche Grundbegriffe, Munique, 1915
(tnul, inglesa de M. D. Hottinger, Nova York, 1932).
teorias de Fiedler e Hildebrand quanto à visibilidade pura e de
riva, em última análise, de Zimmermann, um esteta herbartia-
no21. Mas o próprio Wõlfflin, especialmente nos pronunciamen
tos posteriores22, reconheceu as limitações do seu método e, de
nenhuma maneira, pensou que a sua história das formas hou
vesse esgotado todos os problemas da história da arte. Mesmo
cedo ele admitiu estilos “pessoais” e “locais” e percebeu que os
seus tipos podiam ser encontrados em outras partes que não
nos séculos XVI e XVII, embora de uma forma não tão nítida.
Em 1916, acabando de ler os Conceitos fundamentais da his
tória da arte, Walzel tentou transferir as categorias de Wõlfflin
para a literatura23. Ao estudar a composição das peças de Shakes-
peare, chegou à conclusão de que Shakespeare pertence ao barro
co, já que suas peças não são construídas da maneira simétrica
encontrada por Wõlfflin nos quadros da Renascença. O número
de personagens menores, seu agrupamento assimétrico, a ênfa
se variável em diferentes atos da peça: todas essas característi
cas supostamente demonstram que a técnica de Shakespeare é
a mesma da arte barroca, ao passo que Corneille e Racine, que
compuseram as suas tragédias em tomo de uma figura central
e distribuíram a ênfase entre os atos segundo um padrão aristoté-
lico tradicional, foram considerados do tipo renascentista. Em
um pequeno livro, Wechselseitige Erhellung der Künste, e em
muitos escritos posteriores24, Walzel tentou elaborar e justificar
essa transferência, no princípio, modestamente e, depois, com
afirmações cada vez mais extravagantes.
Algumas das categorias de Wõlfflin podem, com clareza e
bastante facilidade, ser reformuladas em termos literários. Há
21. Ver Hanna Lévy, Henri Wölfflin, Sa théorie. Ses prédécesseurs,
Rottweil, 1936 (uma thèse de Paris).
22. H. Wölfflin, “Kunstgeschichtliche Grundbegriffe: Eine Revision”,
Logos, XXII (1933), pp. 210-24 (reimpresso em Gedanken zur Kunstges
chichte, Basiléia, 1941), pp. 18-24.
23. 0 . Walzel, “Shakespeares dramatische Baukunst”, Jahrbuch der
Shakespearegesellschaft, LII (1916), pp. 3-35 (reimpresso tm D as Wortkunst
werk, Mittel seiner Erforschung, Leipzig, 1926, pp. 302-25).
24. Ibid. (Berlim, 1917), esp. Gehalt und Gestalt im Kunstwerk des
Dichters, Wildpark-Potsdam, 1923, pp. 265 ss. e 282 ss.
uma evidente oposição entre uma arte que prefere contornos
claros e partes distintas e uma arte com composição mais frou
xa e contornos imprecisos. A tentativa de Fritz Strich de des
crever a oposição entre o classicismo e o romantismo alemães
aplicando as categorias de Wülfflin elaboradas para a Renas
cença e o barroco mostra que essas categorias, interpretadas li
beralmente, podem reafirmar a velha oposição entre o poema
clássico perfeito e a poesia romântica inacabada, fragmenta
da ou imprecisa35. Mas resta-nos, então, apenas um conjunto
de opostos para toda a história da literatura. Mesmo reformu
ladas em termos estritamente literários, as categorias de Wõlf-
flin ajudam-nos meramente a ordenar as obras de arte em duas
categorias que, quando examinadas em detalhe, equivalem ape
nas às antigas distinções entre clássico e romântico, estrutura
rigorosa e frouxa, arte plástica e pitoresca: um dualismo que
era conhecido dos Schlegels, de Schelling e de Coleridge e ao
qual chegaram por meio de argumentos ideológicos e literá
rios. O único conjunto de opostos de Wõlfflin consegue agru
par toda a arte clássica e pseudoclássica e, por outro lado, com
binar movimentos muito divergentes como o gótico, o barroco
e o romantismo. Essa teoria parece obscurecer a indubitável e
extremamente importante continuidade entre a Renascença e o
barroco, exatamente como a sua aplicação à literatura alemã
por Strich produz um contraste artificial entre o teatro pseudo-
clássico no desenvolvimento de Schiller e Goethe e o movimento
romântico do início do século XIX, ao passo que deve deixar o
Sturm und Drang inexplicado e incompreendido. Na verdade,
a literatura alemã na virada do século XVIII para o século XIX
forma uma unidade comparativa que parece impossível decom
por em uma antítese irreconciliável. Assim, a teoria de Wõlf-
flin pode ajudar-nos a classificar as obras de arte e estabelecer
ou confirmar o tipo de esquema evolutivo dualista de sobe-des- 25 * * *
25. Fritz Strich, Deutsche Klassik und Romantik, oder Vollendung und
Unendlichkeit, Munique, 1922. Ver também a crítica em Martin Schütze,
Académie Illusions, Chicago, 1933, reimpresso em Hamden, Conn., 1962,
pp. 13,16.
ce, ação-reação, convenção-revolta, o qual, porém, confrontado
com a realidade do processo complexo da literatura, fica mui
to longe de lidar com o padrão altamente diversificado do de
senvolvimento efetivo.
A transferência dos pares de conceitos de WÕlfflin deixa
um importante problema completamente sem solução. Não po
demos explicar de maneira nenhuma o fato indubitável de que
as artes não se desenvolvem com a mesma velocidade ao mes
mo tempo. A literatura às vezes parece deter-se atrás das artes:
por exemplo, mal se podia falar de uma literatura inglesa quan
do as grandes catedrais estavam sendo construídas. Em outras
épocas, a música fica atrás das artes: por exemplo, não podemos
falar de música romântica antes de 1800, ao passo que muita
poesia romântica precedeu essa data. Temos dificuldade para
explicar o fato de ter havido poesia “pitoresca” pelo menos ses
senta anos antes que o pitoresco invadisse a arquitetura26, ou o
fato, mencionado por Burkhardt27, de que Nencia, a descrição
da vida camponesa de Lorenzo, o Magnífico, precedeu em cer
ca de oitenta anos os primeiros quadros de gênero de Jacopo
Bassano e sua escola. Mesmo se esses poucos exemplos fos
sem erradamente escolhidos e pudessem ser refutados, eles sus
citam uma questão que não pode ser respondida por uma teoria
excessivamente simples, segundo a qual, digamos, a música está
sempre uma geração atrás da poesia28. Obviamente, uma corre
lação com fatores sociais deve ser tentada, e esses fatores irão
variar em cada caso.
Somos finalmente confrontados com o problema de que
certos tempos e nações foram extremamente produtivos ape
nas em duas artes, ao passo que completamente estéreis ou me
ramente
imitativos e derivativos em outras. O florescimento da
26. Ver Christopher Hussey, The Picturesque: Studies in a Poifit o f
View, Londres, 1927, p. 5.
27. Jakob Burckhardt, Die Kultur der Renaissance in Italien (org. W.
W. Kaegi), Bema, 1943, p. 370.
28. Há uma boa discussão dessas teorias em Pitirim Sorokin, Social and
Cultural Dynamics, vol. I, Cincinatti, 1937. Ver também W. Passarge, Die
Philosophie der Kunstgeschichte in der Gegenwart, Berlim, 1930.
literatura isabelina, que não foi acompanhado por nenhum flo
rescimento comparável nas belas-artes, é um caso ilustrativo, e
pouco se ganha com especulações no sentido de que a “alma
nacional”, de alguma maneira, concentrou-se em uma arte ou
que, como diz Émile Legouis na sua History ofEnglish Litera-
ture, “Spenser teria se tornado um Ticiano ou Veronese se hou
vesse nascido na Itálida ou um Rubens ou Rembrandt se hou
vesse nascido na Holanda”23. No caso da literatura inglesa, é
fácil sugerir que o puritanismo foi responsável pela negligên
cia das belas-artes, mas isso não é suficiente para explicar as
diferenças entre a produtividade na literatura muito secular e a
comparativa esterilidade na pintura. Mas tudo isso nos leva
muito longe nas questões históricas concretas.
As várias artes - as artes plásticas, a literatura e a música
têm, cada uma, a sua evolução individual, com um ritmo di
ferente e uma estrutura interna de elementos diferente. Sem dú
vida, estão em relação constante uma com a outra, mas essas
relações não são influências que começam em um ponto e de
terminam a evolução das outras artes; elas têm de ser concebi
das antes como um complexo esquema de relações dialéticas
que funcionam de duas maneiras, de uma arte para outra e vice-
versa, e que pode ser completamente transformado dentro da
arte em que entraram. Não se trata de um simples caso de um
“espírito da época” determinando e permeando todas as artes.
Devemos conceber a soma total das atividades culturais do ho
mem como um sistema inteiro de séries que desenvolvem a si
mesmas, cada uma tendo o seu próprio conjunto de normas,
que não são necessariamente idênticas às das séries vizinhas.
A tarefa dos historiadores da arte no sentido mais amplo, in
cluindo historiadores de literatura e de música, é desenvolver
um conjunto de termos descritivos em cada arte, baseados nas
características específicas de cada arte. Assim, a poesia, hoje,
precisa de uma nova poética, de uma técnica de análise a que
não se possa chegar com uma simples transferência ou adapta-
29. É. Legouis e L. Cazamian, Histoire de la littérature anglaise, Paris,
1924, p. 279.
ção de termos das belas-artes. Apenas quando tivermos desen
volvido um sistema bem-sucedido de termos para a análise de
obras de arte literárias poderemos delimitar os períodos literá
rios, não como entidades metafísicas dominadas por um “espíri
to da época”. Tendo estabelecido tais contornos da evolução es
tritamente literária, podemos agora perguntar se essa evolução
é, de alguma maneira, similar à evolução similarmente estabe
lecida das outras artes. A resposta será, como podemos perceber,
nao um mero “sim” ou “não”. Ela assumirá não a forma de li
nhas paralelas, mas de um intricado padrão de coincidências e
divergências.
PARTE QUATRO
O ESTU D O IN T R ÍN SE C O DA
LITER A TU R A
Introdução
O ponto de partida natural e sensato para os estudos literá
rios é a interpretação e a análise das próprias obras literárias.
Afinal, apenas as próprias obras justificam todo o nosso inte
resse pela vida de um autor, pelo seu ambiente social e por todo
o processo da literatura. Curiosamente, porém, a história literá
ria esteve tão preocupada com o cenário de uma obra literária
que as suas tentativas de análise das próprias obras têm sido pou
cas em comparação com os enormes esforços despendidos no
estudo do ambiente. Não é preciso buscar muito longe algumas
das razões para essa ênfase excessiva sobre as circunstâncias
condicionantes em detrimento das próprias obras. A moderna
história da literatura surgiu estreitamente ligada ao movimento
romântico, que só podia subverter o sistema crítico do neoclas
sicismo com o argumento relativista de que tempos diferentes
exigiam padrões diferentes. Assim, a ênfase deslocou-se da li
teratura para o seu contexto histórico, que foi usado para justi
ficar os novos valores atribuídos à antiga literatura. No século
XIX, a explicação por meio de causas tornou-se o grande lema,
cm boa parte como um esforço de emular os métodos das ciên
cias naturais. Além disso, a ruptura da antiga poética, que ocor
reu com o deslocamento do interesse para o gosto individual do
leitor, fortaleceu a convicção de que a arte, sendo fundamen
talmente irracional, devia ser deixada à “apreciação”. Sir Sidney
Lee, na sua conferência inaugural, meramente resumiu a teoria
da maior parte dos estudos literários acadêmicos quando disse:
“Na história da literatura buscamos as circunstâncias externas
políticas, sociais, econômicas - em que é produzida a litera-
tura”1. O resultado da falta de clareza em questões de poética
foi a espantosa impotência da maioria dos estudiosos quando
confrontados com a tarefa de analisar e avaliar efetivamente
uma obra de arte.
Em anos recentes, ocorreu uma saudável reação, que re
conhece que o estudo da literatura devia, antes de mais nada,
concentrar-se nas obras de arte concretas. Os antigos métodos
da retórica, da poética ou da métrica clássicas são e devem ser
revistos e reformulados em termos modernos. Métodos novos
estão sendo introduzidos, baseados em um levantamento do le
que mais amplo de formas da literatura moderna. O método da
explication de textes2 3, na França, a análise formal baseada em
paralelos com a história das belas-artes, cultivada por Oskar
WalzeF, na Alemanha, e especialmente o brilhante movimento
dos formalistas russos e dos seus seguidores checos e polone
ses4, trouxeram novos estímulos para o estudo da obra literária,
que estamos apenas começando a perceber e analisar adequa
damente. Na Inglaterra, alguns dos seguidores de I. A. Richards
deram atenção minuciosa ao texto da poesia5, e, também nos
Estados Unidos, um grupo de críticos fez do estudo da obra de
arte o centro do seu interesse6. Muitos estudos sobre o teatro7,
1. Sir Sidney Lee, The Place o f English Literature in the Modem Uni
versity, Londres, 1913 (reimpresso em Elizabethan and Other Essays, Lon
dres, 1929, p. 7).
2. Ver bibliografia, seção III.
3. Por exemplo, Oskar Walzel, Wechselseitige Erhellung der K&nste,
Berlim, 1917; Gehalt und Gestalt im Kunstwerk des Dichters, Potsdam,
1923; Das Wortkunstwerk, Leipzig, 1926.
4. Sobre o movimento russo, ver Victor Ehrlich, Russian Formalism,
Haia, 1955.
5. Ver especiaknente William Empson, Seven Types o f Ambiguity, Lon
dres, 1930, e Penguin Books, 1962; F. R. Leavis, New Bearings in English
Poetry, Londres, 1932; Geoffrey Tillotson, On the Poetry o f Pope, 1938.
6. Ver bibliografia, seção IV.
7. L. C. Knights, How Many Children had Lady Macbeth?, Londres,
1933, pp. 15-54 (reimpresso em. Explorations, Londres, 1946, pp. 15-54), for
mula bem o argumento contra a confusão de drama e vida. Os escritos de E.
E. Stoll, L. L. Schücking e outros enfatizaram particularmente o papel da
convenção e da distância da vida no drama.
que enfatizam a sua diferença com a vida e combatem a confu
são entre realidade dramática e empírica, também apontam na
mesma direção. De maneira similar, muitos estudos sobre o ro
mance'1 não se contentam com considerá-lo meramente em fun
ção das suas relações com a estrutura social, mas tentam anali
sar os seus métodos artísticos - os seus pontos de vista, a sua
técnica narrativa.
Os formalistas russos fizeram objeções rigorosíssimas à
velha dicotomia
de “conteúdo x forma”, que divide a obra de
arte em duas metades: um conteúdo cru e uma forma sobre
posta, puramente interna8 9. Claramente, o efeito estético de uma
obra de arte não reside no que se chama comumente o seu con
teúdo. Há poucas obras de arte que não são ridículas ou sem
sentido quando em forma de sinopse (que só pode ser justifi
cada como recurso pedagógico)10. Mas uma distinção entre a
forma, como o fator esteticamente ativo, e um conteúdo esteti
camente indiferente depara com dificuldades insuperáveis. À
primeira vista, a fronteira pode parecer razoavelmente nítida.
Se por conteúdo entendemos as idéias e emoções comunicadas
cm uma obra literária, a forma incluiria todos os elementos lin-
güísticos pelos quais o conteúdo é expressado. Mas, se exami
namos essa distinção mais atentamente, percebemos que o con
teúdo implica alguns elementos da forma: por exemplo, os acon
tecimentos contados em um romance são partes do conteúdo,
ao passo que a maneira como são ordenados em um “enredo” é
parte da forma. Dissociados dessa maneira de ordenamento,
8, Os escritos de Joseph Warren Beach e The Craft o f Fiction, de Percy
Lubbock, Londres, 1921, são notáveis. Na Rússia, O Teoriyi prozy (A teoria
da prosa), de Viktor Chklovski, 1925, e muitos escritos de V, V. Vinogradov
e B. M. Eikenbaum aplicam a abordagem formalista ao romance.
9, Jan Múkafovsky, introdução a Máchüv Máj {Mâcha ‘s May), Praga,
1928, pp. iv-vi.
10, Ver “A verdadeira história de um romance ilude o epitomista tão com
pletamente quanto o personagem ... apenas como precipitados da memória o
enredo ou o personagem são tangíveis; contudo, apenas em solução cada um
tem alguma valência emotiva” (C. H. Rickword, “A Note on Fiction”, Toward
Standards o f Criticism, org. F. R. Leavis, Londres, 1935, p, 33).
eles não têm absolutamente nenhum valor artístico. O remédio
comum proposto e amplamente usado pelos alemães, isto é, a
introdução do termo “forma interior”, que originalmente data
de Plotino e Shaftesbury, apenas complica a situação, já que a
fronteira entre forma interior e exterior permanece completa
mente obscura. Deve-se simplesmente admitir que a maneira
como os acontecimentos são ordenados em um enredo é parte
da forma. As coisas tomam-se mais desastrosas para os con
ceitos tradicionais quando percebemos que, mesmo na lingua
gem, comumente considerada parte da forma, é necessário dis
tinguir entre as palavras em si, esteticamente diferentes, e a
maneira como as palavras individuais constituem unidades de
som e significado, esteticamente eficazes. Seria melhor reno-
mear todos os elementos esteticamente indiferentes como “ma
teriais”, ao passo que a maneira como adquirem eficácia esté
tica pode ser chamada “estrutura”. Essa distinção não é, de ma
neira nenhuma, uma simples mudança de nome do antigo par,
conteúdo e forma. Ela atravessa as antigas fronteiras. Os “ma
teriais” incluem elementos antigamente considerados parte do
conteúdo e partes antigamente consideradas formais. A “estru
tura” é um conceito que inclui conteúdo e forma na medida em
que sejam organizados com fins estéticos. A obra de arte, en
tão, é considerada como todo um sistema de signos, ou estrutu
ra de signos, servindo a um objetivo estético específico.
12.0 modo de existência de uma
obra de arte literária
Antes de podermos analisar os diferentes estratos de uma
obra de arte, teremos de levantar uma questão epistemológica
cxlromamente difícil, a do “modo de existência” ou “situação
ontológica” da obra de arte literária (que, em nome da brevidade,
chamaremos “poema” no que segue)1. O que é o poema “real”?
Onde devemos procurá-lo? Como ele existe? Uma resposta cor
reta a essas questões solucionaria muitos problemas críticos e
abriria caminho para a análise adequada da obra literária.
À pergunta do que é e onde está o poema ou, antes, a obra
de arte literária em geral, foram dadas muitas respostas tradi
cionais, que devem ser criticadas e eliminadas antes que possa
mos tentar dar uma resposta pessoal. Uma das respostas mais
comuns e antigas é a visão de que um poema é um “artefato”, um
objeto da mesma natureza que uma escultura ou uma pintura.
Assim, a obra de arte é considerada idêntica às linhas pretas de
tinta sobre o papel ou pergaminho brancos ou, se pensarmos
em um poema babilónico, aos sulcos no tijolo. Obviamente,
essa resposta é bem insatisfatória. Há, antes de tudo, a vasta
“literatura” oral. São poemas ou histórias que nunca foram fi
xados na escrita e ainda continuam a existir. Assim, as linhas
de tinta preta são meramente um método de registrar o poema
que deve ser concebido como existente em outra parte. Se des
truímos a escrita ou mesmo todas as cópias de um livro im
presso, ainda assim, podemos não destruir o poema, já que ele
1, Ver bibliografia, seção 1.
pode estar preservado na tradição oral ou na memória de um
homem como Macaulay, que se vangloriava de conhecer de cor
O paraíso perdido eA carreira do peregrino. Por outro lado, se
destruímos uma pintura, uma escultura ou um edifício, nós os
destruímos completamente, embora possamos preservar des
crições ou registros deles em outro veículo e possamos até ten
tar reconstruir o que se perdeu. Mas sempre criaremos uma
obra de arte diferente (por mais similar que seja), ao passo que
a mera destruição da cópia de um livro ou mesmo de todas as
suas cópias pode não tocar a obra de arte.
Que o escrito no papel nao é o poema “real” pode ser de
monstrado também por outro argumento. A página impressa
contém muitos elementos exteriores ao poema: o tamanho do
tipo, a espécie de tipo usado (romano, itálico), o tamanho da
página e muitos outros fatores. Se considerássemos seriamente
a visão de que o poema é um artefato, teríamos de chegar à con
clusão de que cada cópia ou, pelo menos, cada edição impressa
de maneira diferente é uma diferente obra de arte. Não haveria
nenhuma razão a priori para que cópias em edições diferentes
devessem ser cópias do mesmo livro. Além disso, nem toda im
pressão é considerada por nós, os leitores, a impressão correta
de um poema. O próprio fato de que podemos corrigir erros de
impressão em um texto que podemos não ter lido antes ou, em
alguns raros casos, restaurar o significado genuíno do texto
mostra que não consideramos as linhas impressas como o poe
ma genuíno. Assim, demonstramos que o poema (ou qualquer
obra de arte literária) pode existir fora da sua versão impressa e
que o artefato impresso contém muitos elementos que deve
mos, todos, considerar como não incluídos no poema genuíno.
Ainda assim, essa conclusão negativa não deve cegar-nos
para a enorme importância prática, desde a invenção da escrita
e da imprensa, dos nossos métodos de registrar a poesia. Não
há nenhuma dúvida de que muita literatura se perdeu e, portan
to, foi completamente destruída porque os seus registros escritos
falharam ou foram interrompidos. A escrita e, especialmente,
a impressão tornaram possível a continuidade da tradição lite
rária e devem ter feito muito para aumentar a unidade e a inte-
gridade das obras de arte. Além disso, pelo menos em certos pe
ríodos da história da poesia, a imagem gráfica tornou-se parte
de algumas obras de arte acabadas.
Na poesia chinesa, como demonstrou Emest Fenollosa, os
ideogramas pictóricos fazem parte do significado total dos poe
mas. Todavia, também na tradição ocidental existem os poemas
gráficos da Antologia grega, o “Altar” ou “Churchfloor”, de
(leorge Herbert, e poemas similares dos metafísicos, que, na Eu
ropa, podem encontrar paralelos no gongorismo espanhol, no
maneirismo italiano, no barroco alemão e outros. Também a poe
sia moderna nos Estados Unidos (e. e. cummings), na Alemanha
(Ar no Holz), na França (Mallarmé, Apollinaire) e em outros lu
gares utilizaram recursos
gráficos, como a ordenação incomum
de versos ou mesmo inícios no pé da página, cores de impressão
diferentes, etc.2. No romance Tristram Shandy, Steme usou, já
no século XVIII, páginas em branco e marmorizadas. Todos es
ses recursos são partes integrais dessas obras de arte específi
cas. Embora saibamos que a maior parte da poesia independe
deles, não podem e não devem ser ignorados nesses casos.
Além disso, o papel da impressão na poesia não se limita,
de maneira nenhuma, a tais extravagâncias, relativamente raras;
os fins dos versos, o agrupamento em estrofes, os parágrafos de
passagens em prosa, as rimas visuais ou os trocadilhos são com
preensíveis apenas na escrita, e muitos recursos dessa espécie
devem ser considerados fatores integrais das obras de arte lite
rárias. Uma teoria puramente oral tende a excluir toda conside
ração de tais recursos, mas eles não podem ser ignorados em
nenhuma análise completa de muitas obras de arte literárias. A
sua existência prova que a impressão tomou-se muito impor
tante para a prática da poesia nos tempos modernos, que a poe
sia é escrita também para o olho, assim como para o ouvido.
Embora o uso de recursos gráficos não seja indispensável, eles
2. Ernest Fenollosa, The Chinese Written Character as a Medium fo r
Poetry, Nova York, 1936; Margaret Church, “The First English Pattern
Poems”, PMLA, LXI (1946), pp. 636-50; A. L. Korn, “Puttenham and the
Oriental Pattern Poem”, Comparative Literature, IV (1954), pp. 289-303.
são muito mais ffeqüentes na literatura do que na música, na
qual a partitura impressa ocupa uma posição semelhante à da
página impressa na poesia. Na música, tais usos são raros, em
bora não inexistentes. Há muitos recursos ópticos curiosos
(cores, etc.) nas partituras do madrigal italiano do século XVI.
Haendel, compositor supostamente “puro”, “absoluto”, escre
veu um coro que fala da abertura do mar Vermelho*, em que “a
água se erguia como uma muralha”, e as notas na página im
pressa da música formam fileiras de pontos regularmente es
paçados, sugerindo uma falange ou muralha3.
Começamos com uma teoria que provavelmente não tem
muitos adeptos hoje. A segunda resposta a nossa pergunta co
loca a essência da obra de arte literária na seqüência de sons
emitidos por um falante ou leitor de poesia. Essa é uma solu
ção amplamente aceita, que tem a preferência especialmente
dos recitadores. Mas a resposta é igualmente insatisfatória.
Toda leitura ou recitação em voz alta de um poema é mera
mente uma execução do poema, não o próprio poema. Está
exatamente no mesmo nível que a execução de uma peça musi
cal por um músico. Há - para seguir a linha do argumento an
terior - uma quantidade enorme de literatura escrita que nunca
foi entoada. Para negar isso, temos de subscrever alguma teo
ria absurda, como a de alguns behavioristas, segundo a qual
toda leitura silenciosa é acompanhada por movimentos das
cordas vocais. Na verdade, a experiência demonstra que, a me
nos que sejamos quase analfabetos, ou que estejamos lutando
com a leitura de um texto em língua estrangeira, ou que dese
jemos intencionalmente articular o som murmurando, lemos,
em geral, “globalmente”, isto é, captamos as palavras impres
sas como unidades, sem decompô-las em seqüências de fone
mas, e, portanto, não as pronunciamos nem silenciosamente.
Ao lermos rapidamente, não temos nenhum tempo de articular
os sons com nossas cordas vocais. Supor, além disso, que o poe-
* No oratório Israel no Egito (N. do R. T.)
3,Ver Alfred Einstein, “Augenmusik im Madrigal”, Zeitschrift der in
ternationalen Musikgesellschaft, XIV (1912), pp. 8-21.
mu existe na leitura oral, leva-nos à estranha conclusão de que
ele inexiste quando não é entoado e que é recriado de novo a
eutla leitura.
Mais importante, porém, é que toda leitura de um poema é
muis do que o poema genuíno: cada execução contém elemen
tos que são estranhos ao poema e idiossincrasias individuais de
pronúncia, altura, ritmo e distribuição de tonicidade - elementos
que são determinados pela personalidade do falante ou sinto
mas e meios da sua interpretação do poema. Além disso, a leitu
ra de um poema não apenas acrescenta elementos individuais,
como sempre representa uma mera seleção de componentes im
plícitos no texto do poema: a altura da voz, a velocidade com
que se lê uma passagem, a distribuição e a intensidade dos acen
tos tônicos, podem estar certas ou erradas e, mesmo quando
certas, ainda assim podem representar apenas uma versão da
leitura do poema. Devemos reconhecer que há várias leituras
possíveis para um poema: há leituras que podemos considerar
erradas, quando sentimos que distorcem o verdadeiro signifi
cado do poema, ou leituras que mesmo tendo de admitir que são
corretas e aceitáveis, ainda assim, não nos parecem ideais.
A leitura do poema não é o próprio poema, pois podemos
corrigir a execução mentalmente. Mesmo quando ouvimos uma
recitação que reconhecemos como excelente ou perfeita, não
podemos excluir a possibilidade de que alguma outra pessoa,
ou até o mesmo recitador em outra ocasião, possa oferecer uma
execução muito diferente, que revele igualmente bem outros
elementos do poema. A analogia com uma execução musical é
útil novamente: a execução de uma sinfonia, mesmo por um
Toscanini, não é apropria sinfonia, pois é inevitavelmente colo
rida pela individualidade dos executantes e acrescenta detalhes
concretos de ritmo, rubato, timbre, etc., que poderiam ser mu
dados em outra execução, embora fosse impossível negar que
se trate da mesma sinfonia sendo executada pela segunda vez.
Assim, demonstramos que o poema pode existir fora da execu
ção entoada e que a execução entoada contém muitos elemen
tos que devemos considerar como não incluídos no poema.
Ainda assim, em algumas obras de arte literárias (espe
cialmente na poesia lírica), o aspecto vocal da poesia pode ser
um importante fator da estrutura geral.Vários recursos podem
chamar a atenção para esse aspecto, como a métrica, os padrões
de seqüências de vogais ou consoantes, a aliteração, a assonân-
cia, a rima, etc. Esse fato explica - ou, antes, ajuda a explicar -
a inadequação de boa parte da tradução de poesia lírica, já que
esses padrões sonoros potenciais não podem ser transferidos
para outro sistema lingüístico, embora um tradutor habilidoso
possa aproximar-se do efeito geral na sua língua. Existe, porém,
uma enorme literatura que é relativamente independente de pa
drões sonoros, como se pode demonstrar pelos efeitos históri
cos de muitas obras mesmo em traduções prosaicas. O som
pode ser um fator importante na estrutura do poema, mas a res
posta de que o poema é uma seqüência de sons é tão insatisfa
tória quanto a solução que põe fé na impressão em uma página.
A terceira resposta muito comum a nossa pergunta diz
que o poema é a experiência do leitor. O poema, argumenta-se,
não é nada fora dos processos mentais dos leitores individuais
e, assim, é idêntico ao estado ou processo mental que experi
mentamos ao lê-lo ou ouvi-lo. Novamente, essa solução “psico
lógica” parece insatisfatória. É verdade, naturalmente, que o
poema só pode ser conhecido através das experiências indivi
duais, mas não é idêntico a tal experiência individual. Cada ex
periência individual de um poema contém algo idiossincrático
e puramente individual. Ela é colorida pelo nosso estado de es
pírito e pelo nosso preparo individual. A educação, a persona
lidade de cada leitor, o clima cultural de uma época, as precon-
cepções religiosas, filosóficas ou puramente técnicas de cada
leitor acrescentarão algo instantâneo e exterior a cada leitura de
um poema. Duas leituras, em diferentes ocasiões, pelo mesmo
indivíduo, podem variar consideravelmente, seja porque ele
amadureceu mentalmente, seja porque está enfraquecido por cir
cunstâncias momentâneas como fadiga, preocupação ou distra
ção. Cada experiência do poema, portanto, retira ou acrescenta
alguma coisa individual. A experiência nunca será comensurada
com o poema: mesmo um bom leitor descobrirá novos detalhes
que ele não havia experimentado durante leituras anteriores, e
é desnecessário assinalar quão distorcida ou rasa pode ser a
leitura de um leitor menos instruído ou sem instrução.
A visão de que a experiência mental de um leitor é o pró
prio poema leva à conclusão absurda de que um poema inexis-
(c a menos que experimentado e de que ele é recriado a cada
experiência. Assim, não existiria nenhuma Divina comédia,
mas tantas quanto foi, é e será o número de leitores. Termina
mos no ceticismo completo e chegamos à velha máxima vicio
sa do de gustibus non est disputandum*. Se levássemos a sério
csna visão, seria impossível explicar por que a experiência que
um leitor tem de um poema seria melhor do que a experiência
de qualquer outro leitor e por que é possível corrigir a interpre
tação de outro leitor. Significaria o fim definitivo de todo o en
sino de leitura que almeje elevar a compreensão e a apreciação
de um texto. Os escritos de I. A. Richards, especialmente o seu
Pmctical Criticism**, demonstram quanto se pode fazer ao ana
lisar as idiossincrasias individuais dos leitores e que resultados
um bom professor pode alcançar ao retificar abordagens falsas.
bastante curioso que Richards, sendo um crítico constante da
experiência de seus alunos, defenda uma teoria psicológica ex
trema, que está em franca contradição com sua excelente prática
crítica. A idéia de que a poesia supostamente comanda os nossos
impulsos e a conclusão de que o valor da poesia está em algu
ma espécie de terapia psíquica levam-no, por fim, a admitir que
esse objetivo pode ser alcançado tanto por um poema ruim como
por um bom poema, tanto por um tapete, um vaso, um gesto
como por uma sonata4. Assim, o suposto padrão na nossa men
te não está relacionado com o poema que o causou.
A psicologia do leitor, por mais que seja ela própria inte
ressante ou útil para fins pedagógicos, sempre permanecerá
fora do objeto de estudo literário - a obra de arte concreta - e
é incapaz de lidar com a questão da estrutura e do valor da obra
de arte. As teorias psicológicas devem ser teorias de efeito e
* Gosto não se discute. (N. do T.)
** Trad. bras. A prática da crítica literária, Martins Fontes, São Paulo,
1997.
4. I. A. Richards, Principles o f Literary Criticism, Londres, 1924, pp.
125, 248. Net Practical Criticism, Londres, 1929, p. 349.
podem levar, em casos extremos, a critérios do valor da poesia
como o proposto por A. E. Housman em uma conferência, The
Name andNature ofPoetry (1933), na qual ele nos diz, espera
mos que com ar de troça, que a boa poesia pode ser reconhecida
pelo arrepio na espinha. Isso está no mesmo nível das teorias
do século XVIII, que mediam a qualidade de uma tragédia pela
quantidade de lágrimas vertidas pelo público, ou da concepção
de um crítico de cinema que avalia a qualidade de uma comé
dia com base no número de risadas que contou no público. As
sim, a anarquia, o ceticismo, uma completa confusão de valo
res são o resultado de toda teoria psicológica, já que deve ser
destituída de relação com a estrutura ou com a qualidade de
um poema.
I. A. Richards dá uma ligeira melhorada na teoria psicoló
gica quando define o poema como a “experiência do tipo certo
de leitor”5. Obviamente, todo o problema é deslocado para a
concepção do leitor certo - e do significado desse adjetivo.
Contudo, mesmo supondo uma condição de espírito ideal em
um leitor com o mais refinado histórico e a melhor instrução, a
definição permanece insatisfatória, já que está aberta a todas
as críticas que fizemos ao método psicológico. Ela coloca a es
sência do poema em uma experiência momentânea, que mesmo
o tipo certo de leitor não conseguiria repetir sem mudanças.
Sempre ficará aquém do significado completo de um poema em
qualquer circunstância dada e sempre acrescentará à leitura ele
mentos pessoais inevitáveis.
Uma quarta resposta foi sugerida para contornar essa difi
culdade. O poema, nos dizem, é a experiência do autor. Cabe
aqui um parêntese: podemos rejeitar a visão de que o poema é
a experiência do autor em qualquer época da sua vida após a
criação da obra, quando ele a relê. Ele se toma então, obvia
mente, um simples leitor da sua obra, passível de erros e inter
pretações equivocadas do seu próprio trabalho, tanto quanto
qualquer outro leitor. Poderíamos reunir muitos casos de inter
pretações errôneas flagrantes: a velha anedota sobre Browning
5. Richards, Principies, pp. 225-7.
confessando não compreender o próprio poema provavelmente
Icm o seu elemento de verdade. Acontece a todos nós interpre
tar errado ou não compreender plenamente o que escrevemos
algum tempo atrás. Assim, a resposta sugerida deve referir-se à
experiência do autor durante o tempo da criação. Com “expe
riência do autor” podemos querer designar, porém, duas coisas
diferentes: a experiência consciente, as intenções que o autor
quis incorporar em seu trabalho, ou a experiência total, cons
ciente e inconsciente, durante o prolongado tempo da criação.
A opinião de que o verdadeiro poema deve ser encontrado nas
intenções do autor é difundida, embora não seja sempre for
mulada explicitamente6. Ela justifica grande parte da pesquisa
histórica e está na base de muitos argumentos a favor de inter
pretações específicas. Contudo, no caso da maioria das obras
de arte, não temos testemunhos para reconstruir as intenções
tio autor, exceto a própria obra acabada. Mesmo se possuímos
testemunhos contemporâneos, na forma de uma declaração de
intenção explícita, tal declaração não tem necessariamente de
scr irrecusável para um observador moderno. As “intenções”
do autor são sempre “racionalizações”, comentários que, cer
tamente, devem ser levados em consideração, mas que devem
scr criticados à luz da obra de arte acabada. As “intenções” do
autor podem ir muito além da obra de arte acabada: podem ser
meros pronunciamentos de planos e ideais, ao passo que a exe
cução pode estar muito abaixo ou acima do pretendido. Se pu
déssemos entrevistar Shakespeare, ele provavelmente expres
saria as suas intenções ao escrever Hamlet de uma maneira que
julgaríamos muito insatisfatória. Ainda insistiríamos, com mui
ta razão, em encontrar significados em Hamlet (e não mera
mente em inventá-los) que, provavelmente, estavam longe de
ser formulados na mente consciente de Shakespeare.
Ao dar expressão a suas intenções, os artistas podem ser
fortemente influenciados por uma situação crítica contemporâ
nea e por fórmulas críticas contemporâneas, mas as próprias
fórmulas críticas podem ser inteiramente inadequadas para ca-
6. Ver bibliografia, seção V.
racterizar sua realização artística efetiva. A era barroca é um
claro exemplo disso, já que uma prática artística surpreenden
temente nova encontrava pouca expressão nos pronunciamen
tos dos artistas e nos comentários dos críticos. Um escultor
como Bemini podia falar à Academia de Paris expondo a visão
de que a sua prática estava em estrita conformidade com a dos
antigos, e Daniel Adam Pôppelmann, o arquiteto daquele edi
fício altamente rococó chamado Zwinger, em Dresden, escre
veu todo um panfleto para demonstrar a estrita concordância
de sua criação com os mais puros princípios de Vitrúvio7 8. Os
poetas metafísicos contavam com apenas um punhado de fór
mulas críticas inadequadas (como “versos fortes”) que mal se
aproximam da inovação da sua prática; e os artistas medievais
muitas vezes tinham “intenções” puramente religiosas ou didá
ticas que nem sequer servem de início para expressar os princí
pios artísticos da sua prática. A divergência