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SEPSE CASO CLÍNICO • Paciente de 70 anos, internada no pronto socorro devido rebaixamento do nível de consciência, febre intermitente e disúria há 3 dias. Antecedentes de diabetes e hipertensão arterial, em uso de metformina e hidroclorotiazida. Realizado atendimento pré hospitalar sendo medicada com 2g de Ceftriaxona por via endovenosa. Ao exame: mau estado geral, afebril, perfusão periférica lentificada, sem sinais de congestão pulmonar, sem sinais de desconforto respiratório. PA = 80x50mmHg, extremidades sem edemas, escala de Glasgow 12. Hemograma: HB 10,5g/dl, Ht 33%, GB 20000/mm3 (15% bastões, 60% segmentados, 15% linfócitos). Plaquetas: 130.000/mm3. INTRODUÇÃO • A definição de sepse evoluiu ao longo do tempo. Recentemente, o termo “sepse” foi definido como disfunção orgânica com risco de vida, causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção. • Existem várias ferramentas de triagem disponíveis para identificar sepse. • SIRS → Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica. • ESCORE qSOFA → avaliação sequencial rápida de falha de órgão. • O estado séptico afeta quase todos os sistemas orgânicos e pode levar a profundas perturbações fisiológicas e laboratoriais. • O manejo da sepse depende da identificação precoce e da terapia antimicrobiana empírica, ressuscitação com fluidos adequada, mas não excessiva, e suporte das metas hemodinâmicas com vasopressores. • A noradrenalina foi sugerida como o vasopressor inicial de escolha.* • Classificação de SIRS: pelo menos 2 critérios. É importante diferenciar de sepse, e lembrar que nem toda SIRS é de causa infecciosa, como em queimaduras extensas e pancreatite. Toda sepse é uma SIRS, mas nem toda SIRS é uma sepse. o Temperatura 38°C ou < 36°C; o FC > 90bpm; o FR > 20irpm; o Leucócitos totais > 12.000 ou < 4000 ou bastonetes >10%. SIRS • Sepse 1: o Resposta inflamatória à infecção. O diagnóstico clínico foi definido por 2 ou mais critérios da Síndrome de Resposta Inflamatória Sistêmica (SIRS). o O choque séptico foi definido como hipotensão persistente ou hiperlactatemia apesar da ressuscitação com fluidos. • Sepse 2: o Manteve se praticamente as mesmas definições. o Introdução dos critérios de gravidade. o Sequential Organ Failure Assessment (SOFA) para identificar disfunção orgânica, que era indicativa de sepse grave. • Sepse 3: é o conceito atual usado. Considera foco de infecção suspeito/identificado com injúria/disfunção orgânica. • O conceito atual de sepse: disfunção orgânica ameaçadora à vida causada por uma resposta desregulada do hospedeiro à infecção. Infecção documentada ou presumida e aumento agudo de 2 ou mais pontos no SOFA. • Já o conceito atual de choque séptico: sepse com alterações circulatórias e metabólicas (celulares) graves, levando ao aumento substancial da mortalidade. Sepse com necessidade de terapia com vasopressores para manutenção de PAM > 65mmHg e lactato > 2 mmol/L (18mg/dl) após adequada ressuscitação volêmica. • Para cálculo da PAM: 2PAD+PAS/3 • O SOFA depende de avaliação laboratorial, até os resultados saírem, podemos usar o qSOFA que não necessita e é mais simplificado. • Quando > ou = 2 considera-se paciente em sepse. EPIDEMIOLOGIA • No Brasil, 30% dos leitos de UTI são ocupados com pacientes sépticos. A sepse possui mortalidade maior que 50%. • Incidência anual: 300 casos por 100.000 habitantes (população adulta). • Mortalidade: 20 a 50% (intra-hospitalar). • 750.000 casos novos por anos nos EUA. Já no Brasil, 400.000 novos casos de sepse grave nas UTIs. • Estimativa de 1400 mortes por dia por sepse grave ou choque séptico em todo o mundo. FISIOPATOLOGIA • Resposta inflamatória à toxina → produção aumentada de mediadores inflamatórios → febre + vasodilatação → hipotensão arterial → disfunção de órgãos. MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS • Cardiovascular: o Venodilatação que leva à hipotensão. o Depressão miocárdica é observada em até 60% dos pacientes. o Níveis levemente elevados de troponina são comummente observados e podem estar relacionados à gravidade da sepse. • Pulmonar: o Lesão pulmonar é mediada por citocinas, as quais resultam em aumento a permeabilidade do endotélio alveolar e capilar. o Causa edema pulmonar não cardiogênico, que prejudica a oxigenação e a ventilação. o O desenvolvimento de hipóxia e acidose metabólica resulta em taquipneia significativa. • Renal: o A lesão renal aguda (LRA) relacionada à sepse contribui significativamente para a morbidade e mortalidade da sepse. o Os fatores de risco para o desenvolvimento de IRA são a idade avançada, doença renal crônica e doença cardiovascular. o A ressuscitação de volume imediata, evitando hipotensão e evitando o uso de agentes nefrotóxicos, como contraste intravenoso, pode ajudar a minimizar os riscos de desenvolver LRA. • Neurológico: o A encefalopatia séptica é uma manifestação comum de sepse grave e choque séptico. o Os sintomas podem incluir mudanças no estado mental, alteração no ciclo sono/vigília, desorientação, agitação e alucinações. o O estado mental alterado pode ser o único sinal de apresentação em pacientes geriátricos.* MANEJO CLÍNICO DA SEPSE • Pacote de 1 hora: o Medir lactato. o Coletar culturas. o Administrar antibioticoterapia. o Administrar cristaloides → 30ml/kg em 3 horas. o Vasopressor para manter PAM >65mmHg. • O lactato é produzido através da glicólise anaeróbia. Quando ocorre falha na mitocôndria, o piruvato é convertido em lactato + 2ATPs. O lactato vai para a corrente sanguínea, gerando hiperlactatemia, que causa acidose metabólica. O aumento do lactato é marcador prognóstico. A dosagem de lactato na primeira hora é uma regra rígida. Já a segunda dosagem, que deve ser feita em casos de apresentação de lactato > 2mmol/L na dosagem inicial, que antes participava do pacote de 6 horas, passou a ter limite de 2 – 4 horas do início da ressuscitação volêmica. • A coleta de culturas apropriadas devem ser sempre obtidas ANTES da administração da antibioticoterapia, se não houver atraso significativo no início dos antimicrobianos (> 45 minutos), coletar em pelo menos 2 sítios diferentes – grau 1C. Recomendação forte. • A antibioticoterapia inicial empírica com 2 ou mais drogas com atividade contra qualquer patógeno suspeito (bactérias, fungos ou vírus) e com penetração adequada no sítio presumido da infecção – grau 1B. Reavaliação diária para potencial descalonamento – grau 1B. A duração da antibioticoterapia deve ser de 7 a 10 dias. Recomendação forte. • Ressuscitação volêmica: devemos fazer reposição com 30ml/kg de cristaloides na presença de hipotensão induzida pela sepse e/ou lactato >/= 4mmol/L. O objetivo da reposição volêmica deverá ser a normalização dos níveis séricos de lactato nos pacientes com lactato elevado, como marcador de hipoperfusão tecidual, sendo necessário a finalização em até 3 horas. Devemos individualizar o paciente. Recomendação forte. • Em 2008, tanto a noradrenalina ou dopamina eram consideradas vasopressores de primeira escolha para corrigir a hipotensão no choque séptico. Já em 2012, a noradrenalina passa a ser a vasopressora de primeira escolha no choque séptico – grau 1B. Recomendação forte. Sempre devemos manter a PAM > 65mmHg. RETORNANDO AO CASO • Como você justifica? Infecção associada a disfunção orgânica e HD → infecção do trato urinário e sepse. Necessidade de internação em UTI. • A conduta inicial é: o Medir lactato. o Colher culturas. o Administrar antibioticoterapia: Ceftriaxona 2g de ataque e 1g de 12/12 horas. Aguardar culturas e avaliar necessidade de escalonamento. o Administrar cristaloides 30ml/kg em 3 horas. o Vasopressores para PAM > 65mmHg. • Antibioticoterapia: Ceftriaxone 2g de dose de ataque, e depois 1g de 12/12 horas por EV. E aguardar culturas e se resistente modificar o esquema. SURVIVING SEPSIS 2021 • QUICK SOFA: não deverá ser usado como ferramenta de triagem para diagnósticode sepse. É um marcador de triagem de gravidade. • Lactato: deve medir o lactato (apesar de não estar presente nos critérios de SOFA), pode ser usado como alvo terapêutico e não é necessário normalizar, é recomendado checar se diminuir (não tem um parâmetro de quando deve diminuir). • Paciente com sepse deverá ser encaminhado para UTI nas primeiras 6 horas. • Ressuscitação inicial: não houve mudança, antes 30ml/kg era uma recomendação forte, agora é uma recomendação fraca. Lactato alto>36 ou hipotensão PAM <65mmHg. • O tempo de enchimento capilar como alvo da ressuscitação → parâmetro de melhora, principalmente em lugares que não possuem dosagem de lactato disponível. • Diagnóstico de infecção: coletar culturas (melhores práticas). • Antibioticoterapia: choque e alta suspeita clínica de sepse para instituir o ATB na primeira hora. Não usar procalcitonina como ferramenta para decidir o uso do ATB (sugestão para retirar o ATB mais rapidamente).