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Freud
Skinner
Wallon
Lacan
Piaget
V ygotsky
Introdução à
Psicologia da
Educação
c' sAbordagens
Kester Carrara
(organizador)
Adrián Oscar Dongo Montoya
Elena Etsuko Shirahige
José Sterza Justo
Kester Carrara
Maria Letícia B. P. Nascimento
Marília Matsuko Higa
Suely Amaral Mello
Avkrcamp.
11)1 I O H A
Introdução à
da
importância da Psicologia no processo eductl j
cional é tão evidente quanto polêmica. Não d sem
razão que, em dado momento histórico, apenas esln ou
aquela abordagem, dc acordo com o prestígio ulcunçn
do, constitui preferência - às vezes verdadeiro modls- j
mo - entre os educadores e/ou órgãos oficiais que
patrocinam o modelo de educação a ser adotado. () falo
é que a formulação de cada abordagem, quer pela
concepção de homem que contém, quer pelos pressti
postos teóricos adotados ou pelos seus desdobramentos
práticos, necessariamente implica uma estrutura de *
política educacional, um conjunto de objetivos cspecíl í '
cos na formação acadêmica e um projeto socioculltual
típico. As abordagens psicológicas, nessa perspectiva,
são muitas, mas nem todas com repercussão significai!
va no contexto educacional.
Nesta obra os autores apresentam caminhos diferentes e i
igualmente importantes a serem conhecidos pelos |
educadores. Propostas de estudiosos são examinadas do
modo abreviado e em linguagem acessível, todavia
evitando-se qualquer superficialidade desnecessária
Os textos, que também podem ser utilizados separada
mente, são indicados para professores que queiram i
compreender melhor as diferentes abordagens, hem
como para graduandos de Pedagogia e cursos afins com i
interesse em iniciar um contato com alguns dos princi
pais enfoques da Psicologia da Educação.
Avkrcamp.
EDITORA
Psicologia
Educação
Introdução à
Psicologia da
Educação
CncAbordagens
Kester Carrara
(organizador)
Adrián Oscar Dongo Montoya
Elena Etsuko Shirahige
José Sterza Justo
Kester Carrara
Maria Letícia B. P. Nascimento
Marília Matsuko Higa
Suely Amaral Mello
Av e r c a m p ,
E D I T O R A
COPYRIGHT © 2004 by
I DITORA AVERCAMP LTDA.
Av Ir,ií, 79 -c j. 35B
04082-000 - São Paulo - SP
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n° 9.610, de 19 de fevereiro
de 1998.
Impresso no Brasil.
Printed in Brazil.
1'1 edição 2004
1J reimpressão 2005; 2a reimpressão 2006;
3a reimpressão 2007; 4a reimpressão 2008;
5'1 reimpressão 2010; 6a reimpressão 2010;
7a reimpressão 2012; 8- reimpressão 2014 (PLT);
9a reimpressão 2014
Capa:
e Assessoria Ltda.
Este livro contempla ̂ Nova Qftnprnfin rln I ím^n-rTmilIfjnr-~i de acordo com o Decreto
no 6.583, de 29 de setembro de 2008.
Este livro contempla a Nova Ortografia da Língua Portuguesa,
de acordo com o Decreto nô 6.583, de 29 de setembro de 2008.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
148 Introdução à psicologia da
educação: seis abordagens / Kester
Carrara (organizador). — São Paulo:
Avercamp, 2004.
Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-89311-13-7
1. Psicologia educacional. 2.
Educação. 2 Psicanálise. I Carrara,
Kester.
LUMMI Produção Vifcrat
e Assessoria Ltda.
Composição:
LUMMI Produção Visual
Prc dução:
*A44ana Mauro
CD D -370 .1 5
mailto:avercamp@terra.com.br
http://www.avercamp.com.br
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br
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s Sobre os Autores
V . /
° Sjqos .
A drián O scar Dongo M ontoya - Livre-docente do Departamento de
Psicologia da Educação e professor do Programa de Pós-Gra
duação em Filosofia da Faculdade de Filosofia e Ciências da
UNESP, Marília-SP.
Elena Etsuko Shirahige - Psicóloga clínica e educacional, doutora pela
Faculdade de Educação da USP, docente do Curso de Pós-
-Graduação em Psicopedagogia da Universidade Presbiteriana
Mackenzie.
José Sterza Justo - Professor-assistente doutor do Departamento de
Psicologia Evolutiva, Social e Escolar da Faculdade de Ciên
cias e Letras da UNESP, Assis-SP.
K ester Carrara - Livre-docente do Departamento de Psicologia da
Faculdade de Ciências da UNESP, Bauru-SP e professor do
Programa de Pós-Graduação em Filosofia da FFC/UNESP,
Marília-SP. (e-mail: kester.carrara@uol.com.br)
M aria Letícia B. P. N ascimento - Pedagoga, doutora em Educação pela
Faculdade de Educação da USP, professora do Curso de Pe
dagogia da Universidade Presbiteriana Mackenzie na área de
Educação Infantil.
mailto:kester.carrara@uol.com.br
6 • Introdução u Psicologia da Educação
M arília M atsuko H iga - Psicóloga, doutoranda em Psicologia pelo
Instituto de Psicologia da USP, professora-assistente do De
partamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Filo
sofia e Ciências da UNESP, Marília-SP.
Suely A maral M ello - Professora-assistente, doutora do Departamen
to de Didática e docente do Programa de Pós-Graduação em
Educação da Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP,
Marília-SP.
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2 Apresentação
v^ t \ l a ç âo .
Há diversas maneiras pelas quais pode ser organizado um texto
introdutório de Psicologia da Educação. Pode-se adotar um enfoque
teórico específico, abordado por um único autor; pode-se apresentar
um material orientado pelos parâmetros teóricos direta ou indireta
mente sugeridos pelos órgãos oficiais; pode-se também organizar um
texto centrado nas questões candentes que permeiam o debate no ce
nário atual da Educação. Respeitados os variados contextos, as alter
nativas são igualmente válidas e possíveis, até mesmo pelo fato de
que, excedido o limite imposto pelos objetivos do material, um texto
que pretenda responder a todas as possibilidades perde a condição de
introdutório e passa a exigir do leitor um esforço que vai além da
conotação didática do contato inicial com determinado assunto.
Não foi diferente com este livro. Deparamo-nos com a incum
bência preliminar de eleger a forma de apresentação do material. Es
colhido apenas um enfoque teórico, qualquer que fosse, estaria esta
belecido o primeiro viés da apresentação de um texto introdutório de
Psicologia da Educação. No presente trabalho, porém, ainda que al
gumas óticas importantes precisassem ser deixadas de lado, a possi
bilidade de escolher apenas um viés teórico foi minimizada face à
liberdade de convidar alguns colegas para discorrerem sobre o assun
to à luz de diferentes abordagens. Assim se procedeu, reunindo ao
menos seis entre diversas formas relevantes (e, por vezes, polêmicas)
8 • Intiodu^uo à Psicologia da Educa^ao
de abordar as contribuições da Psicologia à Educação. Os autores con
vidados são profissionais reconhecidos pela sua identificação com os
assuntos de que tratam e pelo trabalho de ensino e pesquisa que têm
conduzido ao longo dos últimos anos.
Sabe-se, adicionalmente, que quaisquer conceitos tratados, ain
da que em texto de interesse genérico, ensejam a possibilidade de
interpretações e leituras diferentes. Talvez constitua uma deficiência
deste trabalho a concisão dos textos, que, embora justificada pela na
tureza do livro, pode semear indagações ao leitor incipiente. Por ou
tro lado, é visível uma certa irregularidade quanto ao nível de dificul
dade das leituras: optou-se por ir e vir entre o conceituai e o cotidia
no, entre os exemplos e a teoria, entre as polêmicas e o consenso. Por
isso, o leitor pode ter, às vezes, a impressão de uma leitura densa, e,
em outros momentos, ter a sensação de uma apresentação simplificada
do material. O importante, para que o texto seja produtivo, é que ele
proporcione um cotejamento transparente das abordagens, tomando
como pressuposto que nenhuma delas se pretende melhor ou pior, e
também que esteja disponível à apreciação inaugural do leitor que
pensaaprofundar suas incursões à Psicologia da Educação.
Pela característica introdutória dos textos, o leitor encontrará pela
frente um material apresentado de forma sintética (mas razoavelmen
te estruturada) e simples (mas não superficial). Apreendidos os con
teúdos, por certo estará preparado para leituras mais densas, recomen
dadas ao final dos textos pelos próprios autores.
Os textos apresentam teorias de certo modo clássicas, porém si
nalizam para um debate atualizado de conceitos e dão margem, para
o leitor atento, à escolha de um entre vários caminhos que, em tese,
podem levar à educação emancipadora. Sem dúvida, o leitor deve
considerar não ser passível nem recomendável nenhuma aplicação
asséptica dos pressupostos apresentados, uma vez que a Psicologia,
de fato, ainda que amparada em cuidados com eventuais cânones de
cientificidade, não pode prescindir da compreensão da complexa na
tureza ético-política das práticas educacionais.
Kester Carrara
(organizador)
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Sumário
Capítulo I - A Contribuição da Psicanálise à Educação 13
Elena Etsuko Shirahige • Marília Matsuko Higa
1.1 O Que É Psicanálise? 13
1.2 Como Surgiu a Psicanálise? 13
1.3 A Estrutura da Personalidade 17
1.3.1 Oid 17
1.3.2 O ego 18
1.3.3 O superego 19
1.4 Processos Mentais: o Inconsciente, o Consciente
e o Pré-Consciente 19
1.4.1 O inconsciente 20
1.4.2 O consciente 20
1.4.3 O pré-consciente 20
1.5 A Dinâmica da Personalidade 21
1.5.1 O instinto (impulso instintivo ou pulsão) 21
1.5.2 Quantos instintos existem? 23
1.5.3 Distribuição da energia psíquica 24
1.5.4 Mecanismos de defesa do ego 24
1.6 Fases do Desenvolvimento da Sexualidade Infantil 27
1.6.1 Fase oral 28
1.6.2 Fase anal 28
1.6.3 Fase fálica 29
1.6.4 Período de latência 34
1.6.5 Fase genital 34
1.7 Contribuição da Psicanálise à Educação 35
10 • Introdução à Psicologia da Educação
1.7.1 A revolucionária teoria de Freud contribuiu de
alguma forma para a aducação? 35
1.7.2 A educação e o conceito de transferência
1.7.3 A educação e o processo de sublimação
1.7.4 A educação e a sexualidade 38
1.7.5 A educação e os impulsos parciais 38
1.7.6 Psicopedagogia e psicanálise 40
Exercícios 42
Glossário 42
Referências 45
36
37
Leituras Recomendadas 46
Capítulo II - A Criança Concreta, Completa e Contextualizada: a Psicologia
de Henri Wallon 47
Maria Letícia B. P. Nascimento
11.1 Constituição da Subjetividade e Construção do Conhecimento:
o Desenvolvimento Infantil 49
11.2 A Consciência de Si: Integração e Conflitos Eu-Outro 52
11.3 Emoção: Simultaneamente Orgânica e Social 56
11.4 O Movimento e suas Dimensões 58
11.5 O Pensamento: Origens e Uso da Linguagem 60
11.6 Psicologia e Educação 63
Exercícios 65
Obras 67
Referências 68
Bibliografia de Apoio 68
Capítulo III - A Psicanálise Lacaniana e a Educação 71
José Sterza Justo
III.1 A Linguagem e a Cultura na Constituição do Sujeito 75
II 1.2 A Importância do Espelho na Constituição do Sujeito 83
III.3 Sobre as Fundações 89
II 1.4 Espelhismos, Heranças e Desejos na Educação 92
Exercícios 103
Glossário 104
Referências 107
Capítulo IV - Behaviorismo, Análise do Comportamento e Educação 109
Kester Car rara
IV.l Princípios Básicos da AEC 114
1V.1.1 Distinção operante-respondente 114
IV. 1.2 Reforçamento e punição 115
S u m á rio I 11
IV.1.3 Tipos de reforçadores 116
IV.1.4 Controle de estímulos 117
IV.1.5 Esquemas de reforçamento 118
IV. 1.6 Aproximações sucessivas 119
IV.1.7 Reforçamento diferencial 119
IV. 2 AEC e Educação: Controvérsias e Novas Perspectivas 120
Exercícios 132
Referências 132
Leituras Recomendadas 133
Capítulo V - A Escola de Vygotsky 135
Suely Amaral Mello
V. l Introdução 135
V.2 O Ser Humano Constrói sua Natureza 137
V.3 Educação e Desenvolvimento Humano 139
V.4 Aprendizagem e Desenvolvimento 142
V.S Alguns Elementos para Compreender a Aprendizagem 143
V.5.I As zonas de desenvolvimento e o papel do educador 143
V.S.2 Em que circunstâncias as crianças aprendem? 145
V.5.3 O conceito de atividade e a atividade principal 146
V.5.4 A aprendizagem como processo compartilhado 148
V.5.5 A criação de novos motivos, interesses e necessidades 149
V.6 A Criança Competente 152
V. 7 A Guisa de Conclusão 153
Exercícios 154
Leituras Recomendadas 154
Capítulo VI - Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educação 157
Adrián Oscar Dongo Montoya
VI. 1 A Psicologia e a Epistemologia Genéticas: Noções Gerais 158
VI.2 Pesquisas sobre o Conhecimento Lógico-Matemático
e suas Implicações Educacionais 161
VI.3 Pesquisas sobre o Conhecimento Físico e suas Implicações
Educacionais 163
VI.4 Pesquisas sobre os Conhecimentos Sociais e Culturais
e suas Implicações Educacionais 172
VI.5 Pesquisas sobre o Desenvolvimento Moral e suas Implicações
Educacionais 175
VI.6 Pesquisas sobre as Origens e Desenvolvimento da Linguagem
e suas Implicações Educacionais 179
VI.7 Outras Pesquisas 182
Exercícios 182
Referências 183
• C
ap
itu
lo. c<?~ Elena Etsuko Shirahige • Marília Matsuko Higa
— ------------------------------------------- ------------- — -----------------------— - - ■ — ■■■— - ................. ............... -
T f %
S A Contribuição da Psicanálise
f '
s°-%,e0 à Educação
1.1 0 Q ue É Psicanálise?
A Psicanálise é Psicologia? Um psicólogo pode ser psicanalista?
O que é analista? O termo Psicanálise costuma suscitar confusões e
vale a pena fazer um esclarecimento inicial a respeito dele.
A expressão Psicanálise designa uma ciência, uma área de co
nhecimento, uma escola psicológica que busca penetrar na dimensão
profunda do psiquismo humano para conhecê-lo. Enquanto ciência,
possui um método, um conjunto de procedimentos para o estudo dos
fenômenos humanos.
Assim, com o termo Psicanálise podemos nos referir também ao
método que lhe é peculiar, neste caso, o método de associação livre,
que é um método interpretativo. Podemos ainda nos referir à forma do
próprio tratamento psicológico, utilizando as expressões Psicoterapia,
Terapia Analítica ou Psicanalítica ou simplesmente Psicanálise.
1.2 Como Surgiu a Psicanálise?
Em meados do século XIX, na Alemanha, a Psicologia surgiu
como ciência independente, cujo objeto de estudo consistia na análise
da consciência. Esta era concebida como se fosse composta dc ele-
14 • IntioduMio á Psicologia da Educação
inentos estruturais em estreita ligação com os órgãos dos sentidos.
Por exemplo: a sensação visual da cor era correlacionada com mu
danças fotoquímicas na retina do olho.
Várias críticas com argumentos diferentes foram dirigidas a essa
concepção e as grandes polêmicas da época diziam respeito aos ele
mentos básicos da consciência e sua forma de composição. Sigmund
Freud, um dos críticos dessa visão tradicional, alegava que a análise
da consciência era limitada e inadequada, pois a compreensão dos
motivos fundamentais do comportamento humano requeria um outro
elemento: o inconsciente. Ele comparou a mente a uma montanha de
gelo flutuante, cuja parte visível da superfície representava a consciên
cia e a submersa, a parte maior, representava o inconsciente. Nessa
vasta região do inconsciente encontram-se os impulsos, as idéias e os
sentimentos reprimidos, enfim as forças vitais e invisíveis que exer
cem controle sobre os pensamentos e ações conscientes do homem.
Assim, coube a ele o mérito da descoberta do nível inconsciente da
personalidade, o que revolucionou e ampliou o horizonte do estudo
do homem. Por essa razão, sua teoria é chamada Psicologia Profunda.
Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856, na Morávia, e
morreu em 23 de setembro de 1939, em Londres. Viveu a maior parte
de sua vida em Viena, deixando a cidade apenas durante a ocupação
nazista.
Em 1873, matriculou-se na Escola de Medicina da Universidade
de Viena, graduando-se oito anos depois. Embora nunca tivesse pen
sado em clinicar, as oportunidades acadêmicas, escassas para um ju
deu, forçaram-no a exercer sua profissão. Seu interesse pelaNeurolo
gia levou-o a especializar-se no tratamento de doenças nervosas. Seus
pressupostos básicos surgiram não só dos estudos em Neurologia
como também de sua preocupação terapêutica com os doentes men
tais, o que o levou a focalizar o aspecto anormal da personalidade.
Foram mais de 40 anos de um longo caminho de descobertas até
chegar ao vasto acervo que constitui, hoje, a teoria psicanalítica.
Para isso, foram importantes e decisivas algumas parcerias das quais
Freud pôde extrair pontos que, paulatinamente, foram moldando seu
pensamento.
Podemos citar, dentro dessa perspectiva, o seu estudo, em Paris,
com Jean Charcot, famoso psiquiatra francês que utilizava hipnose no
tratamento de histeria, cujos sintomas variam desde vômitos persis
C a p ítu lo I * A Contribuição da Pskanàliso à Educaçao I IS
tentes até alucinações visuais contínuas, passando por contrações,
paralisias faciais, perturbações da visão, ataques nervosos e convul
sões. Durante a hipnose, Charcot provocava o aparecimento e o desa
parecimento desses sintomas histéricos. Isso mostrou para Freud que
não havia comprometimento físico ou neurológico dos pacientes,
como se acreditava naquela época. A partir dessa experiência, Freud
concebeu o primeiro postulado de sua teoria, qual seja, a natureza psí
quica da histeria.
Outro fato relevante foi observar os pacientes após a hipnose, pois
eles adotavam as condutas que lhes eram sugeridas durante o sono hip
nótico. Freud concluiu que não apenas os conteúdos conscientes influen
ciavam o comportamento humano, mas também os inconscientes.
Essas descobertas quanto à natureza psíquica das neuroses e à
possibilidade de o inconsciente influenciar a conduta foram cruciais e
constituíram ponto de partida para o desenvolvimento da teoria freu
diana sobre o psiquismo do homem.
Outra experiência decisiva foi seu trabalho com Breuer, um mé
dico vienense que utilizava um método pelo qual o paciente ficava
curado de seus sintomas pelo processo de falar sobre si próprio. Freud
encontrou nesse método catártico (cura pela fala - a palavra catarse
vem do grego e significa purificação) um caminho para alcançar os
conteúdos inconscientes que havia postulado. No tratamento de pa
cientes histéricos, Freud observou que, durante o sono hipnótico, quan
do os pacientes respondiam a perguntas, algumas palavras lhe pareciam
mais significativas, carregadas de conteúdo emocional. Pediu, então,
que os pacientes contassem tudo o que lhes viesse à mente ao serem
mencionadas novamente essas palavras. Os pacientes relatavam his
tórias cujos conteúdos apresentavam ligação estreita com os fatos
ocorridos na vida deles. Surpreendentemente, após essas sessões,
Freud e Breuer observaram uma melhora significativa nos pacientes,
como se eles tivessem se purificado dessas lembranças.
Dessas experiências, Freud concluiu que os fatos ou aconteci
mentos que ficavam aparentemente esquecidos eram cruciais na de
terminação do atual comportamento manifesto do indivíduo. Além
disso, mediante o uso do método catártico de Breuer, Freud desenvol
veu seu método de associação livre. Neste método, solicita-se ao pa
ciente que relate tudo o que lhe venha à mente, sem restrições e sem
preocupação com a lógica e significação. A utilização desse método
possibilitou a Freud enfatizar a importância das ocorrências da pri
meira infância sobre a formação da personalidade do indivíduo e sua
16 • Introdução ó Psicologia da Educação
posterior evolução e descobrir a associação de cada ocorrência com
outras, formando uma cadeia.
Freud e Breuer trabalharam juntos no estudo de alguns casos de
histeria; no entanto se separaram por causa de divergências quanto à
origem da doença. O argumento de Freud era que conflitos sexuais
causavam a histeria, mas Breuer mantinha uma visão tradicional, o
que os levou ao distanciamento.
Assim, Freud passou a trabalhar sozinho, desenvolvendo suas
idéias, o que resultou na publicação de sua primeira grande obra
A interpretação dos sonhos, em 1900. Outras obras se seguiram, cha
mando a atenção dos médicos e cientistas de várias partes do mundo.
Dentre elas, Psicopatologia da vida cotidiana (1904), Instintos e suas
vicissitudes (1915), Introdução geral à Psicanálise (1917), Novas li
ções introdutórias sobre a Psicanálise (1933) e, sua última obra, Esbo
ço de Psicanálise (1940). As obras completas de Freud foram publicadas
postumamente e constam de 24 volumes na edição inglesa de 1953.
É importante lembrar a relevância dos estudos de Freud com
pacientes histéricas para a elaboração da teoria psicanalítica. Nesses
estudos há, segundo o autor, uma supervalorização da história de se
dução relatada pelas pacientes. No entanto, por meio deles descobriu-
-se a importância das fantasias na vida mental dos pacientes. Por trás
dessas fantasias, desvelou-se o material que permitiu a Freud traçar o
desenvolvimento da função sexual. Dessa descoberta resultou o tra
balho intitulado A sexualidade infantil, que chocou a sociedade da
época e serviu de pretexto às resistências contra a Psicanálise. A con
sequência mais importante da obra foi colocar por terra um dos pila
res da teoria da sexualidade, ou seja, a constituição da sexualidade
como própria do período da puberdade. Mas, como veremos adiante,
o conceito de sexualidade empregado por Freud é um pouco diferente
daquele que marca o senso comum em torno do assunto.
Freud teve vários seguidores, destacando-se entre tantos Emest
Jones, da Inglaterra, que redigiu, mais tarde, uma biografia de três vo
lumes de seu mestre; Carl Gustav Jung, de Zurique; Karl Abraham, de
Berlim; Alfred Adler, de Viena etc. Jung e Adler separaram-se posterior
mente do grupo e desenvolveram pontos de vista particulares.
Freud criticou as práticas educacionais de sua época. No entan
to, não há em sua obra tratado sobre educação. Esse assunto foi en
globado em outro, mais geral, o das relações entre o indivíduo e o que
ele chamou de “civilização”. Enquanto seus contemporâneos atri
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educaçao I 17
buíam o aumento do número de doenças mentais aos danos produzi
dos pela civilização industrial moderna, Freud dirigiu suas críticas à
moral sexual civilizada. Para ele, a atitude moral diante da sexualida
de era responsável pelas neuroses. A educação, enquanto veícúlo des
sa moral, era seu agente propagador; portanto, sua reforma constitui
ría uma via mais curta para a transformação da moral sexual. Caberia
aos educadores, munidos de conhecimento sobre a Psicanálise, a tare
fa de prevenir as neuroses. Mais tarde, porém, Freud abandonou essa
esperança depositada em tal função profilática da educação.
Relataremos, em seguida, as idéias de Freud acerca da teoria da
personalidade, mais especificamente, os conceitos básicos de sua teo
ria, o desenvolvimento do indivíduo e sua contribuição à educação.
1.3 A Estrutura da P ersonalidade
A Psicanálise, ao estudar o aparelho psíquico do indivíduo, divi-
de-o em regiões e instâncias: o id, o ego e o superego. A personalida
de é composta desses três sistemas e o comportamento é resultante da
interação entre eles. Embora cada um desses sistemas tenha suas pró
prias funções, princípios operantes, dinamismos e mecanismos, os três
atuam de uma forma tão estreita que é difícil determinar os seus efei
tos separadamente.
1 .3 .1 O i d
O id é a instância original da psique, é a matriz dentro da qual o
ego e o superego se diferenciam. É um substrato contendo tudo o que
é psicologicamente herdado, de onde provêm os impulsos ou pulsõcs
(tradução mais comum em português). Seus conteúdos são as repre
sentações psíquicas dos instintos, ou seja, representações do mundo
interno da experiência subjetiva, a verdadeira realidade psíquica como
Freud o chamou. Está intimamente relacionado com os processos
corporais, dos quais retira sua própria energia; portanto, é o reserva
tório da energia física que põe em funcionamento osoutros sistemas.
Podemos dizer que é o componente biológico da personalidade.
Quando ocorre uma estimulação externa ou uma excitação inter
na, o nível de tensão do organismo se eleva e o id funciona de tal
IH • Intioiluçuo ò Psicologia da Educação
maneira visando a descarregar imediatamente essa tensão, pois não
tolera energias muito intensas. Procura fazer com que o organismo
retorne e permaneça num nível de conforto e baixa tensão. Esse prin
cípio de redução da tensão é denominado princípio do prazer.
Para realizar esse objetivo, o id dispõe de dois processos: a ação
reflexa e o processo primário. O organismo é equipado por ações re
flexas, que são reações automáticas e inatas, como tossir, espirrar,
piscar etc., que reduzem imediatamente as tensões. Já no processo
primário a redução da tensão se dá pela formação da imagem mental
do objeto desejado. Por exemplo, quando uma pessoa está faminta,
ela forma a imagem mental da comida como uma maneira de satisfa
zer seu desejo. Para Freud, um outro exemplo ilustrativo do processo
primário é o sonho, que representa sempre a satisfação ou a tentativa
de satisfação de desejos.
Ocorre que a imagem mental da comida para uma pessoa famin
ta não reduz sua tensão ou sua fome. Ela precisa procurar, encontrar
e consumir alimento para satisfazer, de fato, sua fome. Dessa forma,
entra em ação a segunda estrutura do sistema: o ego. Este opera no
nível da consciência, fazendo o indivíduo partir em busca da realiza
ção concreta do seu desejo.
Podemos dizer que, ao nascer, o indivíduo é puro id e é puro in
consciente. Mediante o contato com a pressão da realidade, a massa
indiferenciada vai se estruturando e formando o ego.
1 .3 .2 O EGO
E o responsável pelo contato com o ambiente, com a realidade
externa, e constitui a sede de quase todas as funções mentais. Pode
mos dizer que é o componente psicológico da personalidade. Enquan
to o id conhece apenas a realidade subjetiva da mente, o ego é capaz
de diferenciar entre ela e a realidade do mundo externo. No exemplo
da pessoa faminta, o ego é capaz de diferenciar a imagem mental da
comida (realidade subjetiva) e a percepção real dela como existe no
mundo externo (realidade externa).
Para o id interessa apenas saber se uma experiência é agradável
ou desagradável (princípio do prazer). Já o ego quer se certificar se
uma experiência é falsa ou real, se tem existência externa ou não.
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise o Edutaçao I 19
Enquanto isso, retém a descarga imediata da tensão até que seja encon
trado o objeto apropriado para a satisfação da necessidade, suspenden
do, temporariamente, o princípio do prazer. Por essa razão, dizemos
que o ego é regido pelo princípio da realidade e opera, em função dis
so, por meio do processo secundário.
O ego, por meio desse processo secundário, elabora um plano
para satisfazer a necessidade e depois o testa a fim de verificar a fun
cionalidade de sua ação. Cabe a ele controlar as direções da ação,
bem como selecionar a quais aspectos do meio deverá reagir e quais
instintos devem ser satisfeitos. O ego, por ser a parte organizada do id
e por possuir a função de realizar os objetivos dessa instância primá
ria, desempenha, assim, a difícil tarefa de integrar as exigências,
muitas vezes antagônicas, do id, do meio ambiente e do superego. E
o intermediário entre as exigências instintivas do organismo e as con
dições do ambiente.
1 .3 .3 O SUPEREGO
Último sistema a se desenvolver, o superego nada mais é do que
uma parte bastante diferenciada do ego, a tal ponto que podem se con
trapor frontalmente. É o censor das funções do ego e decide se algo é
certo ou errado, de modo a garantir que uma pessoa aja em harmonia
com os padrões sociais vigentes. E o árbitro moral internalizado, ou
seja, o representante interno dos valores e ideais da sociedade transmi
tidos e reforçados pelo sistema de punições e recompensas impostas
à criança pelos pais. Portanto, representa mais o ideal do que o real,
tende mais à perfeição do que ao prazer e, podemos dizer, é o compo
nente social da personalidade. Dessa forma, bloqueia os impulsos do
id, principalmente os de natureza sexual e agressiva, pois são os impul
sos mais condenados pela sociedade quando exteriorizados.
1.4 P rocessos M entais: o Inconsciente, o Consciente
e o P ré-C onsciente
Segundo Freud, o conteúdo da mente pode ser: inconsciente,
consciente ou pré-consciente.
VO • In troduzo ò Psicologia da Educação
1.4.1 O IN C O N S C IE N TE
No modelo freudiano, o inconsciente é o lugar teórico dos im
pulsos instintivos ou pulsões e das representações reprimidas ou da
quelas que nunca puderam chegar à consciência.
No inconsciente há energia instintiva livre e representações que
podem ser carregadas com essa energia e influir no funcionamento da
consciência. Há uma série de forças impulsionando a vida mental.
Essas forças ou impulsos instintivos representam as necessidades do
organismo humano e de seu psiquismo, como a fome, o sexo, a curio
sidade etc. Há, porém, necessidades ou impulsos instintivos antagôni
cos, frontalmente contrários às normas da socialização, como certos
desejos sexuais e agressivos, cujo acesso à consciência é proibido pela
censura interna, não permitindo que cheguem a ser representados cons
cientemente. Esse mecanismo de proibição denomina-se repressão ou
recalque.
O id, modelo estrutural da psique desenvolvido por Freud, é puro
inconsciente.
1.4.2 O C O NSCIENTE
Tudo o que conhecemos é consciência: a percepção do mundo
objetivo, as lembranças, os sentimentos, o pensamento e a percepção
do mundo subjetivo, ou seja, como concebemos as lembranças, os
sentimentos, os sonhos, os devaneios. Um conteúdo mental para ter
acesso à consciência precisa ser um acontecimento perceptível.
1.4.3 O PR É-C O N SCIEN TE
E o sistema psíquico que serve de intermediário entre o incons
ciente e a consciência. Nele estão as representações que podem se tor
nar conscientes, desde que o sujeito se interesse por elas, e as represen
tações de fatos esquecidos, incômodos, mas não censurados no âmbito
do inconsciente, em que se verifica uma proibição que dificulta sua
evocação, uma força para afastá-los da consciência. Esse mecanismo
denomina-se supressão. A pré-consciência tem a função de selecionar
os atos motores e as vias de pensamento para a consciência. Vimos que
a consciência exige que o conteúdo mental seja perceptível. No entan
to, a maioria dos acontecimentos mentais não possui essa qualidade,
C a p itu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educaçao I 71
mas pode ser representada na consciência por estar ligada a lembran
ças verbais ou sensoriais que têm essa qualidade necessária. Essas
representações verbais ou sensoriais, por pertencerem ao sistema pré-
-consciente, são facilmente acessíveis à consciência.
O pré-consciente está separado do sistema inconsciente pela cen
sura, que não permite a passagem de seus conteúdos para o pré-cons-
ciente sem sofrerem transformações.
O ego, uma das estruturas da personalidade, liga-se estreitamen
te ao sistema pré-consciente/consciente, mas há também funções in
conscientes do ego, os mecanismos de defesa.
1.5 A D inâmica da Personalidade
Dada a apresentação das estruturas (o id, o ego e o superego)
que compõem a personalidade e as qualidades dos conteúdos men
tais, como elas atuam no funcionamento de uma pessoa?
Embora cada estrutura tenha denominação particular e opere se
gundo princípios distintos, em circunstâncias habituais, esses sistemas
trabalham como uma unidade completa sob o gerenciamento do ego.
Bem, para algo funcionar há necessidade de um elemento que o
faça se mover. Nessa perspectiva, Freud sofreu a influência da filoso
fia positivista e determinista da época. O homem era visto como um
sistema complexo de energia, a qual se originava da alimentação e
era gasta tanto nos processos fisiológicos como respiração, circula
ção, digestão etc.quanto nas atividades como pensamento, memória
etc., enfim, a energia era definida em termos da ação que ela desenca
deava. Para Freud, então, era pertinente referir-se à energia psíquica
se a ação traduzisse uma atividade psicológica. E essa energia, segun
do o princípio da conservação, jamais poderia ser subtraída do total
da energia cósmica, embora pudesse passar de um estado ao outro. A
energia psíquica, portanto, podia ser convertida em energia física e
vice-versa. O id, com seus instintos, era o ponto de contato entre es
sas duas energias, a do corpo e a da personalidade.
1 .5 .1 O IN S T IN T O (IM P U L S O IN S T IN T IV O OU P U LS Ã O )
Trata-se de uma representação psicológica inata de uma fonte de
excitação corpórea. A representação psicológica chama-se desejo e a
22 • Intioduuio ò Psicologia da Educação
excitação corpórea que o causa denomina-se necessidade. Por exem
plo, no caso de uma pessoa faminta, ao afirmarmos que os tecidos do
organismo apresentam deficiência nutritiva, estamos nos referindo ao
estado fisiológico. Há, portanto, necessidade de alimentação. A re
presentação psicológica desse estado é o desejo de alimentar-se. A
pessoa faminta procura alimento, ficando mais sensível a estímulos
que o sugerem, como o cheiro. Quer dizer, então, que os instintos são
propulsores da personalidade, impulsionam o comportamento e de
terminam a direção que ele deverá tomar.
O instinto é a quantidade de energia psíquica necessária para
movimentar as diferentes operações da personalidade. Os instintos
tomados como um todo compõem a soma total de energia psíquica de
que dispõe a personalidade. Têm sua sede no id e originam-se do pro
cesso metabólico.
Falamos acima que a excitação corpórea causa uma representação
psicológica. Essas excitações podem surgir em diferentes partes do
corpo e a região em que surgem constitui a fonte do impulso ou do
instinto; trata-se, portanto, de uma condição ou necessidade do corpo.
O objetivo primordial do instinto é reduzir a excitação, sendo essa re
dução sentida como satisfação (princípio do prazer). Para satisfazer os
impulsos instintivos é necessária a participação de algum objeto ou de
alguma pessoa, que não são simplesmente a coisa específica ou as con
dições que satisfaçam a necessidade, mas todo comportamento que visa
a assegurar a coisa ou condição. No caso da pessoa faminta, ela tem
que realizar certas ações para conseguir o que deseja, isto é, comer.
Segundo a teoria freudiana, a fonte e o objetivo ou a finalidade
do instinto permanecem constantes durante toda a vida, exceto quan
do a fonte é mudada ou eliminada pela maturidade física ou quando
surgem novos instintos, na medida em que aparecem novas necessi
dades orgânicas.
Por outro lado, o objeto ou os meios pelos quais a pessoa procura
satisfazer seus impulsos variam no decorrer da vida como veremos no
tópico sobre o desenvolvimento da personalidade. Isso é possível gra
ças à capacidade de deslocamento da energia psíquica. Caso um objeto
não esteja ao alcance da pessoa, devido à sua ausência ou à existência
de barreiras na própria personalidade do indivíduo, a energia psíquica
pode ser aplicada a outro. Dessa forma, os objetos podem ser substituí
dos até que seja encontrado um que satisfaça o sujeito.
C a p ítu lo I * A Contribuição da Psicanálise à Educaçao | 73
Esse deslocamento de energia de um objeto a outro é que asse
gura a plasticidade da natureza humana e a versatilidade do compor
tamento. Os interesses, os hábitos, as preferências e as atitudes dos
adultos nada mais são do que deslocamentos de energia das escolhas
objetais.
Podemos afirmar ainda que o instinto tem uma força que é deter
minada pela intensidade da necessidade subjacente. Por exemplo, no
caso da pessoa faminta, quando a deficiência alimentar se torna maior,
a força do instinto também aumenta.
Em suma, os instintos apresentam quatro aspectos: uma fonte,
um objetivo ou finalidade, um objeto e um impulso.
1 .5 .2 Q u a n t o s in s t i n t o s e x i s t e m ?
Freud não se preocupou em enumerar os instintos existentes, mas
classificou-os em dois grandes grupos: os instintos de vida e os de morte.
Os instintos de vida são instintos que servem tanto para autocon-
servação (fome, sede e fuga à dor) como para preservação da espécie
(sexo). Freud atribuiu grande importância à sexualidade, um dos as
pectos que caracteriza sua teoria, como um impulso básico e funda
mental para o ajustamento da personalidade e chamou de libido a
forma de energia pela qual os instintos de vida realizam sua tarefa.
Trata-se, na verdade, de uma designação para a energia sexual. Mais
adiante, no tópico sobre o desenvolvimento, veremos as maneiras pelas
quais se satisfaz a sexualidade e que o objeto de interesse sexual varia
muito ao longo da vida.
Os instintos de morte são instintos destrutivos, menos evidentes
do que os de vida, mas que cumprem sua função. Para Freud, a morte
é a finalidade de toda vida e, portanto, toda pessoa tem desejo incons
ciente de morrer. No entanto, ele não se referiu às fontes orgânicas
dos instintos de morte, tampouco atribuiu nome à energia pela qual
eles cumprem sua tarefa, mas desenvolveu argumentos em favor do
desejo de morte. Para isso, apoiou-se no princípio de constância de
Fechner, qual seja, que todos os processos vivos tendem a retornar à
estabilidade do mundo inorgânico. Considerou que o desejo de morte
nada mais é do que a representação psicológica do princípio de cons
tância e que os impulsos agressivos são derivados dos instintos de
74 • Introdução à Psicologia da Educação
morte. A agressividade é a manifestação de morte (autodestruição)
contra objetos substitutivos.
Os instintos de vida e de morte e seus derivados entram em ação
agrupando-se, neutralizando-se ou ainda trocando de posição. Por
exemplo, a alimentação representa a fusão da fome (instinto de vida)
e da agressividade (instinto de morte), pois o comer envolve o mor
der, mastigar e triturar a comida. O amor, derivado do instinto de vida,
portanto sexual, pode tanto neutralizar o ódio, que é instinto de mor
te, bem como tomar seu lugar.
1 .5 .3 D i s t r i b u i ç ã o d a e n e r g i a p s íq u ic a
Dissemos que os instintos contêm toda a energia psíquica que os
três sistemas da personalidade (o id, o ego e o superego) utilizam para
realizar seu trabalho. Sabemos também que a quantidade de energia
disponível é limitada. Como se dá, então, a distribuição e a utilização
dessa energia por eles?
Como há um limite de quantidade de energia disponível, os dife
rentes sistemas a disputam. Quando há maior quantidade de energia
em um sistema, este se torna preponderante sobre os demais, a não
ser que nova energia seja acrescentada ao sistema todo.
1 .5 .4 M e c a n is m o s d e d e f e s a d o e g o
O mundo contemporâneo leva as pessoas a viverem situações
com altas doses de ansiedade. Mas a função da ansiedade é alertar o
ego ou o “eu” para situações de perigo, controlando ou inibindo os
desejos que vão ao encontro dessas situações. E, portanto, uma fun
ção necessária ao desenvolvimento psíquico. O que se questiona hoje
é o excesso de situações que provocam ansiedades a que estamos
expostos. Sabe-se, no entanto, que o ego pode empregar e emprega
real mente a qualquer momento todos os processos de sua formação e
função para sua defesa.
() objetivo do presente item é apresentar algumas atividades es
pecíficas de defesa do ego. São processos que se referem principal-
mcntc às defesas do ego contra o id. E importante assinalar que esses
mecanismos de defesa são inconscientes.
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise á Educação I 25
□ Repressão - é um mecanismo de defesa básico pelo qual os senti
mentos, as lembranças e os impulsos proibidos são expulsos da
consciência. Exemplo: o funcionário embriagado demonstra hosti
lidade em relação ao chefe a quem sempre trata amistosamente
quando sóbrio.
□ Negação- trata-se de um mecanismo primitivo que consiste em
negar um fato evidente. É geralmente uma defesa contra a angús
tia, negando a realidade. Exemplo: um fumante insiste em dizer
não haver evidência empírica convincente de que fumar faz mal à
saúde.
□ Formação reativa - neste mecanismo expressam-se sentimentos
opostos ao sentimento que produz ansiedade. Uma maneira de deter
minar a natureza da formação reativa é responder às questões: de
que ameaça o psiquismo, ou o ego, está se defendendo? Quais são
os impulsos ameaçadores para o ego? Se a ameaça for o ódio, este
aparecerá sob o disfarce do amor; se o sentimento temido é o amor,
este estará disfarçado em ódio.
Assim, o amor pode aparecer substituindo o ódio, a gentileza pode
substituir a crueldade, a ordem e a limpeza podem substituir o pra
zer da sujeira etc. Na formação reativa, a conduta expressa o con
flito entre o senso moral e um comportamento inaceitável. Um
aluno pode abandonar atitudes que não são socialmente aceitas
pelos professores, como também apresentar atitudes inversas. As
sim, um adolescente pode mostrar-se hostil a uma colega, objeto
de amor não correspondido.
□ Projeção - mecanismo de defesa que consiste em atribuir incons
cientemente ao outro, e, de forma mais geral, em perceber no mun
do exterior, suas próprias pulsões e conflitos interiores. Na proje
ção, é possível liberar afetos intoleráveis. Um marido extremamen
te ciumento pode não ter consciência de seus impulsos de infideli
dade. Um professor, crítico ácido da incompetência dos alunos,
pode, inconscientemente, esconder o medo de sua própria incom
petência.
Na projeção, quando se diz “ele me ama”, o significado é “eu o
amo”, quando se diz “ela me ofendeu”, pode-se entender “eu a
ofendi”.
A projeção é um mecanismo que desempenha um papel importan
te nos primeiros estágios da infância. Assim, uma criança, quando
acusada de ter quebrado algum objeto, pode atribuir a outra crian
26 • Introdução à Psicologia da Educação
ça o seu ato. Um indivíduo preconceituoso também pode justificar
suas ações com base em experiências negativas anteriores.
Na patologia mental, a projeção adquire uma importância particu
lar. Ocorrem, muitas vezes, acusações graves do tipo “fulano me
violentou”. No caso, esse comportamento pode ser denominado
como paranoico.
□ Racionalização - justificação de um comportamento cujas razões
verdadeiras são ignoradas, ou melhor, apresentação de explicações
que justifiquem certas ações. Em geral, essas explicações não são
convincentes, mas o indivíduo acredita nelas. Exemplo: um escri
tor magoado por ter sido preterido pela namorada fica sabendo que
ela se casara e partira com o marido em viagem de núpcias, num
navio. Escreve, então, a história do naufrágio de um navio em que
um jovem casal, em viagem de núpcias, morre. Dessa forma, leva
a cabo seu sentimento de vingança, de revanche, por meio de uma
ação racional. Usa racionalmente a lógica da emoção. Na raciona
lização, usam-se explicações racionais para uma razão de ordem
emocional. Assim, um político que perdeu a eleição explica aos
eleitores que houve fraude.
□ Fixação - é a permanência num estágio primitivo de desenvolvi
mento. Como veremos adiante, o desenvolvimento da sexualidade
passa por fases bem definidas até se alcançar a maturidade. Essas
passagens, no entanto, não são indolores. A ocorrência de frustra
ções e ansiedades pode acarretar uma parada temporária ou per
manente do desenvolvimento. A pessoa pode, enfim, fixar-se em
um dos estágios da sexualidade. Um exemplo clássico desse me
canismo é o prazer voyeur, ou seja, o prazer provocado pela visão
de órgãos ou atos sexuais. No caso em questão, a fixação remonta
à fase fálica do desenvolvimento, à curiosidade infantil de ver os
órgãos genitais alheios.
□ Regressão - o mecanismo da regressão consiste em retornar a um
estágio anterior de desenvolvimento. A fixação, às vezes, e a regres
são, em particular, constituem mecanismos de defesa que ocorrem
em condições relativas, pois raramente acontecem de uma forma
completa. Isso significa que ambas surgem em determinadas situa
ções e desaparecem com a resolução do conflito que as originou.
Exemplos clássicos de regressão denotam certos traços infantis de
conduta. E o caso da criança que em seu primeiro dia escolar pode
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educaçao I 27
voltar a chupar o dedo, urinar etc., ou da aluna de 5a série em busca
da “tia” única.
□ Deslocamento - mecanismo psíquico inconsciente pelo qual uma
descarga afetiva (emoção, impulso) é transferida de seu objeto ver
dadeiro para um elemento substituto. Desloca-se a ação ou senti
mento para um outro objeto, diferente do original. Exemplos: me
ninos inconformados por terem perdido o jogo de futebol chutam
furiosamente as traves do campo; humilhado pelo patrão, o mari
do bate na esposa.
□ Sublimação - é, possivelmente, o mecanismo de defesa do ego
mais importante para os nossos propósitos, ou seja, para a relação
entre a Psicanálise e a educação. Introduzido por Freud, esse ter
mo designa o mecanismo de defesa pelo qual certos impulsos in
conscientes são desviados de seus objetos primitivos para fins so
cialmente úteis e integram-se à personalidade. A sublimação tem
um papel importante na adaptação do indivíduo a seu meio, per
mitindo seu ajustamento social sem, contudo, inibir o seu desen
volvimento pessoal. Na sublimação é possível canalizar pulsões
destrutivas para fins socialmente úteis. O exemplo clássico é a ca
nalização da agressividade para determinadas atividades profissio
nais socialmente valorizadas, como no caso dos cirurgiões.
1.6 Fases do D esenvolvimento da Sexualidade Infantil
No trabalho citado anteriormente, A sexualidade infantil, Freud
postula a existência na sexualidade humana de impulsos presentes
desde a infância, os chamados impulsos ou pulsões parciais, que de
sempenham importante papel na educação.
Esses impulsos ou pulsões parciais seriam aspectos perversos da
sexualidade infantil. Perversos por serem desvios do impulso sexual
em relação ao seu objeto e ao seu fim. Freud percebeu que existe na
vida sexual infantil uma organização entre esses impulsos ou pulsões
sexuais. Agrupou-os então em fases de desenvolvimento. Alguns au
tores denominam fases de desenvolvimento da libido. Libido, é im
portante lembrar, é o nome usado na Psicanálise para designar a ener
gia sexual. As fases ou estágios do desenvolvimento são: fase oral,
fase anal, fase fâlica, período de latência e fase genital.
28 • Introdução a Psicologia da Educação
1 .6 .1 F a s e o r a l
Nesta fase, que dura aproximadamente o primeiro ano da vida
da criança ou um ano e meio, a zona oral desempenha o papel princi
pal - o prazer advém da sucção. A boca e sua extensão, como os
lábios e a língua, constituem a zona erógena (zona de prazer). Os ob
jetos escolhidos são os seios ou seus substitutos, como os dedos, a
chupeta, alimentos etc. As crianças, no estágio oral, levam qualquer
objeto à boca, mordendo-o ou sugando-o. O mundo, nessa fase, tem
características de boca. Assim, o “gostar” ou “não gostar” da criança
poderia ser expresso como “quero colocar na boca” ou “quero tirar da
boca”. Daí advêm expressões usuais como “uma leitura gostosa”,
“quero morder o bebê” etc. O prazer de fumar, beber, beijar, declamar
poesia, fazer discursos e, de forma mais agressiva, morder prova que
a fase oral não desaparece total mente.
A medida que o desenvolvimento da criança prossegue, impõe-
-se a necessidade de desmame, surgem as tentativas de uso da lingua
gem e a percepção de outras pessoas. Esses fatos precipitam a perda
da primazia da boca e a criança passa para a segunda fase do desen
volvimento da libido, a fase anal.
1 .6 .2 F a s e a n a l
A duração da fase anal pode ser estimada em aproximadamente
um ano e meio. Nessa fase, o ânus constitui a zona privilegiada das
tensões e gratificações sexuais.
A sensaçãode prazer ou desprazer está associada à expulsão
(defecação) ou à retenção das fezes. O prazer advém também da ma
nipulação das mesmas. Nesse estágio aparece a oposição, presente na
vida sexual, entre o ativo e o passivo, mas ainda não caracterizada,
segundo Freud, pelo masculino e feminino. Na passagem da fase oral
para a fase anal, a educação esfincteriana, ou seja, o controle da eva
cuação, tem papel relevante. Ao conseguir controlar seus esfíncteres
a criança tem a sensação de poder controlar também seus impulsos.
Os resquícios da fase anal podem ser percebidos na idade adulta
na forma como os indivíduos administram sua vida econômica, tornan
do-se perdulários ou generosos (a expulsão), parcimoniosos ou mesmo
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educação I 29
avarentos (retenção), ávidos em dominar ou que se satisfazem retendo...
Esses resquícios aparecem também no desejo passivo de sempre rece
ber do mundo (retenção) ou na intolerância às frustrações e limites, no
desejo de expulsá-los. Na repressão aos impulsos anais, o indivíduo
poderá tornar-se obcecado por limpeza.
São considerados substitutos prazerosos para as fezes a massa de
modelar, o barro, a massa de pão, entre outros. A fixação ou perma
nência do impulso sexual nessa fase pode ser encontrada de forma
sublimada nos escultores, pintores etc.
Observa-se, portanto, que os selos ou marcas características de
cada estágio permanecem, não desaparecendo totalmente.
Após as colocações acima, é possível imaginar como as desco
bertas de Freud devem ter sido chocantes em sua época, já que ainda
hoje elas nos perturbam, deixando-nos momentaneamente incrédulos!
1 .6 .3 F a s e f á l i c a
No entanto, a terceira fase do desenvolvimento da libido, a fase
fálica, deve ter provocado um escândalo maior ainda! O estágio fálico
ocorre por volta dos três ou quatro anos de idade e as zonas erógenas
localizam-se nos órgãos genitais. Denomina-se fase fálica porque o
pênis (= falo) é o principal objeto de interesse da criança de ambos os
sexos. Na menina, o clitóris é o correspondente feminino do pênis.
O desejo de ver os órgãos genitais de colegas e de exibir os pró
prios são manifestações características da fase fálica, assim como o
desejo de manipulação dos órgãos genitais. O voyeur seria o adulto
fixado na primitiva curiosidade infantil de contemplar o outro. A vi
são seria sua única via de obter prazer, sendo refém desse sentido.
Também o exibicionista em sua ânsia de mostrar seus órgãos genitais
e ser visto estaria fixado no estágio fálico.
É importante observar que as fases de desenvolvimento sexual não
são, como já foi dito, realmente abandonadas. A passagem de uma fase
à outra significa integração, mas não o desaparecimento total da ante
rior. Portanto, em várias situações pontuais da vida ou até mesmo de
maneira mais persistente, as pessoas podem apresentar as marcas de
uma determinada fase.
30 • Introdução à Psicologia da Educação
As fases configuram práticas perversas, isto é, desvios da sexuali
dade que acontecem tanto no indivíduo normal como no chamado neu
rótico durante o desenvolvimento da sexualidade. Apesar das marcas
ou selos, elas estão, no entanto, submetidas ao domínio da genitalidade.
Complexo de Édipo
É na fase fálica, também denominada estágio edipiano, que Freud
localiza o aparecimento de uma relação triangular singular entre pai,
mãe e filho, que configura o complexo de Édipo.
Trata-se de uma relação de amor que tem como objeto o proge-
nitor do sexo oposto - mãe, no caso do menino; pai, no caso da me
nina - e impulsos de rivalidade e ciúme do progenitor do mesmo sexo.
O nome complexo de Édipo origina-se na tragédia grega Édipo - rei,
escrita por Sófocles.
A história de Édipo, o rei mítico de Tebas que mata seu pai e se
casa com a mãe, aparece assim resumida por Freud em seu livro A
interpretação dos sonhos (parte I, p. 277):
Édipo, filho de Laio, Rei de Tebas, e de Jocasta, foi en-
jeitado quando criança porque um oráculo advertira Laio que a
criança que ainda não nascera seria o assassino de seu pai. A
criança foi salva e cresceu como príncipe numa corte estran
geira, até que, em dúvida quanto à sua origem, ele também
interrogou o oráculo e foi advertido que evitasse o seu lar, vis
to que estava destinado a assassinar seu pai e receber a mãe em
casamento. Na estrada que o levava para longe do local que
ele acreditava ser seu lar, encontrou-se com o Rei Laio e o
matou numa súbita rixa. Em seguida, dirigiu-se a Tebas e re
solveu o enigma apresentado pela Esfinge que lhe barrava o
caminho. Por gratidão, os tebanos fizeram-no rei e lhe deram a
mão de Jocasta em casamento. Ele reinou por muito tempo com
paz e honra, e ela que, sem que ele soubesse, era sua mãe, lhe
deu dois filhos e duas filhas. Foi quando, então, irrompeu uma
peste e os tebanos interrogaram mais uma vez o oráculo. É
neste ponto que tem início a tragédia de Sófocles. Os mensa
geiros trazem de volta a resposta de que a peste cessará quan
do o assassino de Laio tiver sido expulso do país. Mas ele,
C a p ítu lo I * A Contribuição da Psicanálise á Educaçao I 31
onde está ele? Como encontrar agora os vestígios desse crime
tão antigo? A ação da peça consiste em nada mais do que o
processo de revelar, com pausas engenhosas e sensação sem
pre crescente - um processo que pode ser comparado ao traba
lho de uma psicanálise que o próprio Édipo é o assassino de
Laio, mais ainda, que ele é o filho do homem assassinado e de
Jocasta. Apavorado com a abominação que ele inadvertidamen-
te perpetrara, Édipo cega-se a si próprio e abandona seu lar. A
predição do oráculo foi cumprida.
Explica Freud que o destino de Édipo nos comove porque pode
ría ser o nosso. É como se o oráculo tivesse lançado sobre nossa ca
beça igual maldição antes de nascermos:
É o destino de todos nós, talvez, dirigir nosso primeiro
impulso sexual no sentido de nossa mãe e nosso primeiro ódio
e nosso primeiro desejo assassino contra nosso pai. O Rei
Édipo, que assassinou seu pai Laio e casou com sua mãe
Jocasta, simplesmente nos mostra a realização de nossos pri
meiros desejos de infância.
Assim, o amor infantil dirigido ao progenitor do sexo oposto car
rega também impulsos de ciúme e rivalidade dirigidos ao progenitor do
mesmo sexo, representando a situação edipiana. Essa situação suscita
sentimentos ambivalentes, ou seja, sentimentos de amor e ódio. Simul
taneamente, a criança teme ser punida por seus desejos proibidos, o
que gera nela sentimento de culpa. Enfim, vencida pelo sentimento
de culpa e medo diante de um rival superior e poderoso (pai e mãe),
a criança aceita renunciar ao seu objeto de amor. Transforma a rivali
dade em identificação, isto é, em desejo de ser como o pai ou a mãe,
antigos rivais. Mãe e pai transformam-se, dessa forma, em modelos
constitutivos: a mãe para a filha, o pai para o filho. Essa situação
edipiana constitui um ensaio geral dos amores futuros da criança.
O estágio de vida que abrange o complexo de Édipo, a fase fálica,
é de importância crucial para o psiquismo.
Para o antropólogo Lévi-Strauss, a passagem da natureza para a
cultura ocorre com a proibição do incesto. Segundo ele, a passagem
pela fase edipiana enquadraria a criança à lei do incesto, integrando-a
à ordem humana universal da cultura.
32 • Introdução à Psicologia da Educação
Foi no inconsciente de seus pacientes que Freud descobriu as
fantasias de incesto com o genitor de sexo oposto, associadas a ciú
mes e rancores homicidas em relação ao genitor do mesmo sexo. No
entanto, é importante assinalar que o complexo de Edipo encontra-se
presente na vida mental tanto dos chamados neuróticos como das
pessoas normais. A apresentação extremamente esquemática desse
complexo constitui apenas um contato inicial com o assunto.
Complexo de Castração
No desenvolvimento do complexo de Edipo, o desejo sexual do
menino pela mãe e sua rivalidade com o pai geram ressentimentosem relação à figura paterna. Dessa situação, origina-se no garoto o
temor de que, enciumado, o pai possa puni-lo, castrando-o. Renuncia
então aos seus desejos eróticos pela mãe, identificando-se com o pai,
antigo rival. A esse choque afetivo, o temor à castração, denomina-se
complexo de castração. Trata-se, na realidade, de um sistema incons
ciente de emoções relacionadas ao valor simbólico do falo.
A menina descobre no decorrer de seu desenvolvimento que o
menino possui pênis, o qual não lhe foi dado pela mãe. A inveja do
pênis corresponde, na menina, ao complexo de castração no menino.
Enquanto o menino teme perder um objeto de valor, o pênis, a meni
na sente-se prejudicada por não possuí-lo, buscando compensar essa
falta no desejo pelo pênis paterno. Observa-se a angústia da castração
em várias situações de perda e de separação do objeto, como no des
mame e na defecação.
Os complexos de Edipo e de castração fundamentam psicologi
camente as diferenças sexuais.
Narcisismo
Uma das concepções de Freud bastante utilizadas na atualidade
é o conceito de narcisismo. Em virtude de sua complexidade, o pre
sente texto restringir-se-á à apresentação de algumas noções básicas
sobre o tema.
O narcisismo é caracterizado desde a Grécia antiga como o amor do
indivíduo por si próprio. O poeta latino Ovídio imortalizou em seu livro
Metamorfoses a lenda de Narciso, cuja síntese apresentamos a seguir:
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educaçao I 33
Filho de Deus Céfiso, protetor de rio de mesmo nome, e.
da Ninfa Liriope, Narciso era de uma beleza ímpar. Atraiu o
desejo de mais de uma Ninfa, dentre elas Eco, a quem repeliu.
Desesperada, esta adoeceu e implorou à Deusa Nêmesis que a
vingasse. Durante uma caçada, o rapaz fez uma pausa junto a
uma fonte de águas claras: fascinado por seu reflexo, supôs
estar vendo um outro ser e, paralisado, não mais conseguiu
desviar os olhos daquele rosto que era o seu. Apaixonado por
si mesmo, Narciso mergulhou os braços na água para abraçar
aquela imagem que não parava de se esquivar. Torturado por
esse desejo impossível, chorou e acabou por perceber que ele
mesmo era o objeto de seu amor. Quis então se separar de sua
própria pessoa e se feriu até sangrar, antes de se despedir do
espelho fatal e expirar. Em sinal de luto, suas irmãs, as Náiades
e as Díades, cortaram os cabelos. Quando quiseram instalar o
corpo de Narciso numa pira, constataram que havia se trans
formado numa flor.
O termo narcisismo, segundo Freud, encontra-se na descrição fei
ta por Paul Nãcke (1899) para denotar a atitude de urna pessoa que
rata seu próprio corpo como trata o corpo de um objeto sexual: contem
plando-o, afagando-o. Freud remonta a compreensão do narcisismo à
primeira infância, ao chamado narcisismo primário. Inicialmente, a li-
bido do bebê não se relaciona com o mundo externo. O bebê não dis
tingue o “eu” e o “não eu”. Sua única realidade é seu próprio corpo,
com suas sensações físicas de frio, calor, sede, sono. A criança é para
si mesma o objeto de amor. Gradativamente, porém, ela se percebe
separada da mãe, do mundo externo. Ao perceber o mundo externo
com suas normas e regras, transforma o seu narcisismo original em
amor objetai. Segundo Freud, o indivíduo evolui do narcisismo abso
luto para a capacidade de raciocínio e amor objetai. A pessoa normal,
comum, amadurecida, é aquela cujo narcisismo atingiu um grau so
cialmente aceitável. Todo indivíduo conserva, no entanto, um certo
grau de narcisismo.
Nas alucinações e nos delírios paranóicos a situação é semelhan
te à do bebê. A diferença é que nelas o mundo exterior deixa de ser
real, ao passo que para o bebê o mundo exterior não existe. Na aluci
nação, a percepção não registra os fatos do mundo externo, apenas as
experiências subjetivas.
Foi por intermédio desses mecanismos de ruptura com a realida
de exterior que Freud pôde desvendar a natureza do narcisismo. Nes
34 • Introdução à Psicologia da Educação
te não se percebe a realidade de outra pessoa como diferente de sua
realidade interna. Ocorre, assim, uma ausência de interesse genuíno
pelo mundo externo.
1 .6 .4 P e r ío d o d e l a t ê n c ia
O período fálico é de muita tensão e dificuldade para a criança,
pois ela vive sentimentos edipianos. E quando ocorre também o de
senvolvimento do superego. Após essa fase, a criança passa por um
período mais calmo, denominado período de latência. Corresponde
ao primeiro período de escolarização do ensino fundamental ( l â a 4a
série) que antecede a adolescência. Segundo Freud, trata-se de um
período de relativa estabilidade, mas fundamental para a aquisição de
habilidades, valores e papéis culturalmente aceitos.
O superego torna-se mais organizado, pois a convivência com
outras pessoas, além dos pais, contribui não só para a formação do
sistema de valores, mas também para confrontar diferentes sistemas,
o que torna a criança mais flexível e tolerante.
Embora o termo latência traga a ideia de calmaria, não significa
que nesse período não haja dificuldades, mas apenas que nele não
surgem novos problemas básicos de relações próximas. Essa fase é a
mera consequência lógica da situação edipiana vivida anteriormente
como desenvolvimento dos papéis sexuais e resultante da identifica
ção da criança com o pai ou com a mãe e da acentuação do seu papel
sexual, seja masculino ou feminino.
Alguns autores afirmam que a teoria freudiana não capta o que
ocorre nesse período com a mesma riqueza e profundidade que o faz
em relação ao período pré-escolar ou aos problemas da adolescência.
1 .6 .5 F a s e g e n it a l
Segundo a teoria freudiana, a estrutura básica da personalidade
forma-se no fim da fase fálica. A adolescência seria a fase de reativação
dos impulsos sexuais adormecidos durante o período de latência.
Os períodos pré-genitais que antecedem essa fase são caracteri
zados pelo narcisismo ou amor a si mesmo, isto é, o indivíduo tem
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educação I 35
satisfação ao estimular e manipular o próprio corpo. Na fase genital,
esse narcisismo é canalizado para escolhas objetais genuínas. O ado
lescente estabelece uma relação de amor mais altruísta, um amor que
tem como objetivo a felicidade do objeto amado e, simultaneamente,
a sua própria, numa relação mútua satisfatória.
Sob certos aspectos, o adolescente revive o período edipiano
quando se sente atraído por uma pessoa do sexo oposto, deixando
apenas de ser incestuoso o objeto do amor. Os impulsos libidinosos
que antes se voltavam para figuras parentais podem ser dirigidos para
pessoas que apresentam certas semelhanças com elas. Por exemplo,
um rapaz pode sentir-se atraído por uma moça explicitamente seme
lhante à mãe ou, ainda, pode haver semelhanças entre o pai da moça
e seu namorado.
Além da atração sexual, a socialização, as atividades grupais, a
escolha profissional, a preparação para constituir uma família carac
terizam essa fase do desenvolvimento, na qual o indivíduo, da criança
narcisista em busca de prazer, torna-se um adulto socializado e orien
tado para a realidade. Não significa, no entanto, que os impulsos das
fases anteriores (oral, anal e fálica) sejam substituídos pelos da genital,
mas eles se fundem e se sintetizam nos impulsos genitais. A reprodu
ção é a principal função biológica dessa fase e os aspectos psicológi
cos ajudam na realização desse objetivo.
Quanto ao desenvolvimento da personalidade, Freud o vincula a
quatro fontes principais de tensão: processo de crescimento fisiológi
co, frustrações, conflitos e perigos. O indivíduo é obrigado a desen
volver formas de reduzir tensões que emanam dessas fontes, o que o
leva ao crescimento, à evolução.
1.7 Contribuição da Psicanálise à Educação
1.7.1 A REVOLUCIONÁRIA TEORIA DE FREUD CONTRIBUIU
DE ALGUMA FORMA PARA A EDUCAÇÃO?
Freud nutria esperança de que a Psicanálise, uma teoria explica
tiva da natureza, do funcionamento e da forma de desenvolvimentodo psiquismo, pudesse contribuir para reformar os métodos e objeti
vos educacionais, exercendo, assim, uma ação profilática.
36 • Introdução à Psicologia da Educação
Autoras como Catherine Millot, em Freud antipedagogo, e Ma
ria Cristina Kupfer, em Freud e a Educação - o mestre do impossível,
mostram que a Pedagogia e a Psicanálise caminham em sentidos opos
tos. Enquanto a primeira tem como meta a estabilidade e a previsibi
lidade, a segunda trabalha com um ferramental altamente imprevisível.
Millot é mais categórica em sua posição, afirmando que a desco
berta do inconsciente invalida qualquer tentativa de construir uma
ciência pedagógica que evite recalques e neuroses. Embora a Psica
nálise tenha esclarecido os mecanismos psíquicos em que se funda o
processo educacional, tal esclarecimento não aumentou o domínio so
bre esse processo. Para Kupfer, se como psicanalista Freud foi um
antipedagogo, no sentido de não conseguir fundar sobre as descobertas
da Psicanálise uma Pedagogia que prevenisse as neuroses, foi também
um mestre da teoria psicanalítica ao difundir suas idéias alterando o
panorama da cultura e da ciência de seu tempo até a contemporaneidade.
Ele fundou o movimento psicanalítico, proferiu inúmeras conferên
cias, provocando debates e polêmicas acirradas, e formou um círculo
de discípulos envolvidos intelectual e emocionalmente em torno dele.
Foi, portanto, um mestre.
1.7.2 A EDUCAÇÃO E O CONCEITO DE TRANSFERÊNCIA
Por meio de suas análises, Freud elaborou o conceito de transfe
rência, fenômeno presente em toda situação em que duas pessoas se
relacionam frente a frente. Esse fenômeno foi observado inicialmente
no tratamento analítico: formava-se entre o paciente e o médico uma
relação emocional especial muito além dos limites racionais.
Sabe-se hoje que essa relação pode variar entre a devoção e a
admiração mais afetuosas até a inimizade e a hostilidade mais acirra
das. Deriva das relações afetivo-sexuais anteriores e inconscientes do
paciente. A transferência tanto positiva quanto negativa pode se trans
formar em poderoso instrumento terapêutico desempenhando um pa
pel relevante no processo de cura.
A transferência encontra-se também presente na relação profes-
sor-aluno e nos permite refletir sobre o que possibilita ao aluno acre
ditar no professor e chegar a aprender. E, portanto, um poderoso ins
trumento no processo de aprendizagem. Constitui-se, assim, numa
contribuição essencial da Psicanálise à educação.
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educação I 37
1.7.3 A EDUCAÇÃO E O PROCESSO DE SUBLIMAÇÃO
E importante lembrar, para compreensão do assunto em pauta, que
o conceito de sexualidade para a Psicanálise é bastante amplo. Em seu
livro Dois verbetes de enciclopédia (p. 297), Freud escreve o seguinte:
Tornou-se necessário ampliar o conceito do que era sexual,
até abranger mais que o impulso no sentido da união dos dois
sexos no ato sexual ou da provocação de sensações agradáveis
específicas nos órgãos genitais. Essa ampliação foi, porém, re
compensada pela nova possibilidade de apreender a vida sexual
infantil, normal e perversa, como um todo único.
Podemos dizer, enfim, que a sexualidade se refere a tudo aquilo que
pode provocar prazer e que se encontra em toda atividade humana.
Mesmo a amamentação é uma experiência prazerosa, tanto para o bebê
que suga o seio como para a mãe que o amamenta.
Observa-se com isso a visão ampliada da sexualidade, caracteri
zando sua plasticidade e flexibilidade.
Assim, apesar de o desenvolvimento da sexualidade pressupor,
na idade adulta, práticas genitais, isso nem sempre ocorre. Na perver
são adulta, por exemplo, o impulso parcial recusa a submeter-se ao
domínio genital. Há fixação numa fase infantil, como no exemplo
clássico do voyeur, que só encontra prazer pela visão das práticas ou
dos órgãos sexuais alheios. Do mesmo modo como acontece na crian
ça, o impulso sexual não está associado a um objeto definido, poden
do ser atingido por diversas vias.
Dessa forma, observam-se novamente aspectos flexíveis na sexua
lidade humana, como a possibilidade de se passar do domínio genital
para os estágios anteriores de desenvolvimento. Observa-se, sobretudo,
que o impulso sexual não possui uma fixação, como ocorre com o
instinto. O objeto pelo qual se satisfaz lhe é indiferente, podendo ser
tanto uma mulher como uma parte de seu corpo, os pés, por exemplo.
Ele é desviante, intercambiável e pode ser direcionado para fins não
propriamente sexuais, como na sublimação.
A sublimação implica no desvio de uma pulsão do desejo direta
mente sexual para um fim socialmente útil. Por intermédio do meca
38 • Introdução à Psicologia da Educação
nismo da sublimação os indivíduos podem dedicar-se a atividades
“espiritualmente elevadas” como as relacionadas com a arte, a ciên
cia, a promoção de valores humanos e de melhores condições de vida.
Por serem impulsionadas pela energia sexual, embora sua finalidade
não seja diretamente o sexo, é possível perceber a presença da libido
nessas atividades. O prazer na realização de uma tarefa, mesmo de
natureza tênue, traz a marca de sua origem sexual no empenho e na
paixão com que alguns indivíduos dedicam-se a ela.
1.7.4 A EDUCAÇÃO E A SEXUALIDADE
Inicialmente Freud associou a doença nervosa a uma educação
moral repressora. As noções de pecado, pudor, vergonha inibiríam os
impulsos sexuais limitando seu desenvolvimento. A doença nervosa
poderia ser, então, resultado das restrições morais excessivas. No en
tanto, Freud chegou à conclusão de que existiría no interior da sexua
lidade um componente de desprazer que reforçaria a moralidade. Além
disso, percebeu que uma satisfação plena dos impulsos é impossível e
até mortal. A preservação da vida tanto do indivíduo como do grupo
implica no recalque - repressão sexual profunda e inconsciente - da
sexualidade.
A Psicanálise, enfim, pode contribuir com a educação delimitan
do uma de suas tarefas: conseguir o equilíbrio usando sua autoridade
na correção educativa necessária, mas não de forma excessiva.
O presente espaço é evidentemente exíguo para um debate mais
aprofundado dessa questão. Aliás, uma questão que pela sua comple
xidade e importância merecería um olhar mais atento dos estudiosos,
seja da Psicanálise, seja da Educação.
1.7.5 A EDUCAÇÃO E OS IMPULSOS PARCIAIS
Uma vez que a possibilidade de suprimir os impulsos parciais,
além de inútil, pode levar à neurose, é importante que o educador
saiba utilizar a energia desses impulsos. No caso do olhar do voyeur,
é preciso conduzi-lo para que possa contemplar o mundo e os objetos
a sua volta, compreendê-los e estabelecer um novo saber que permita
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educação I 39
transformar sua curiosidade em desejo de conhecimento, em curiosi
dade intelectual. Em relação à pulsão da sucção, é fundamental que o
professor não recrimine a criança por levar à boca qualquer objeto,
mas que lhe forneça “alimentação” por meio de bons objetos, como
conhecimento, e de atividades lúdicas e artísticas, a fim de nutri-la
intelectualmente. Ao mostrar a existência de uma sexualidade infantil
constituída por aspectos perversos, a Psicanálise aponta também para
a existência de um mal inato no ser humano. Todavia, em vez de exor
cizá-lo, a Psicanálise propõe o desvio desse “mal” para fins úteis à
sociedade mediante a sublimação.
Esta parece ser a proposta da Psicanálise para a educação: que o
educador possa buscar com o educando o justo equilíbrio entre o pra
zer individual e as necessidades coletivas.
Também o professor colombiano Américo Calero expressa em
seu texto “Notas sobre a concepção de Educação de Freud” sua preo
cupação com as relações entre a Psicanálise e a educação. Diz o autor
que na extensa obra de Freud não se encontra uma teoria sistemática
e integrada sobre educação e assinala uma evolução nas concepções
de Freud sobre o papel do educador.
Nos seus primeirostrabalhos, quando abordava a repressão so
bre a criança para que ela se adaptasse à vida social, Freud considera
va secundário o papel do educador. Em 1918, colocou que a dissi
mulação dos adultos no trato com a sexualidade levava as crianças à
neurose ou à perversão. Defendeu a educação sexual da criança, ressal
tando que se deveria responder a todas as suas perguntas, e assinalou
que um dos erros mais prejudiciais, pelo perigo de levar à neurose, é
ocultar da criança a realidade sobre a sexualidade e amedrontá-la com
argumentos religiosos.
Embora tenha privilegiado a educação em função da sexualida
de, segundo Calero em 1911 Freud começa a insistir em uma “educa
ção para a realidade”. Ou seja, a Educação deveria ser considerada
um estímulo para a submissão do princípio do prazer ao princípio da
realidade. Uma educação para a realidade teria como objetivo impe
dir o homem de permanecer na infância levando-o a enfrentar a vida,
a dura “vida inimiga”.
Outra tarefa do educador seria conseguir um equilíbrio justo en
tre a permissão e a proibição, isto é, sacrificar o mínimo de prazer
sem entrar em choque com as exigências da sociedade.
40 • Introdução u Psicologia da Educação
1.7.6 PSICOPEDAGOGIA E PSICANÁLISE
O termo Psicopedagogia é usado, comumente, em português,
francês e espanhol para referir-se à psicologia dos processos ligados à
aprendizagem e ao ensino. Não há um termo correspondente em in
glês, apenas designações como Psicologia Educacional, Psicologia do
Ensino, Psicologia da Aprendizagem etc.
Segundo a Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), esta
é entendida como a área que estuda e lida com o processo de apren
dizagem e suas dificuldades.
A Psicopedagogia tem sua origem, no Brasil, na fragmentação
da educação - a Pedagogia de um lado e a Psicologia do outro - em
decorrência da própria extensão do processo educacional, o que levou
ao surgimento de diferentes ciências aplicadas à educação, como So
ciologia da Educação, Psicologia da Educação etc.
Seu objeto de estudo é a pessoa a ser educada, seus processos de
aprendizagem e as alterações de tais processos, visando a resolver proble
mas de aprendizagem mediante o atendimento individual e terapêutico,
tendo o profissional uma atuação remediativa. Ampliou-se, porém, seu
objeto de estudo para uma realidade institucional, como a escolar, a hos
pitalar e a da comunidade, atingindo diferentes faixas etárias e de
escolarização, tanto em atuação remediativa quanto preventiva.
Em seu campo teórico, há inúmeras abordagens acerca das difi
culdades de aprendizagem. Nesse contexto, visualizamos a contribui
ção da Psicanálise em algumas delas. Citaremos dois autores, repre
sentantes da abordagem afetivo-cognitiva, talvez os mais difundidos
e discutidos, que buscam na Psicanálise subsídios para a compreen
são dos problemas de aprendizagem: Jorge Visca e Sara Pain.
Jorge Visca elaborou a abordagem teórico-técnica denominada
Epistemologia Convergente, uma integração das teorias de Piaget, da
Psicanálise e da Psicologia Social de Enrique Pichon-Rivière, para
conceituar aprendizagem e suas dificuldades. Por meio dela procura
compreender a participação dos aspectos afetivos, cognitivos e do meio
que convergem no processo de aprendizagem do ser humano. Ou seja,
articula as dimensões afetiva e cognitiva como constituintes de um sis
tema único, no qual há constante interjogo entre essas duas dimensões
C a p itu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educação I 41
e no contato com o meio ocorre a evolução de cada uma e do sistema
estabelecido. Para ele, a análise do interjogo construído pelas duas di
mensões é fundamental, pois fornece subsídios para a compreensão da
singularidade dos processos de aprendizagem de cada indivíduo.
Sara Pain, por sua vez, apresenta uma proposta de trabalho sobre
problemas de aprendizagem fundamentada e articulada sobre três teo
rias: a Psicanálise, a teoria piagetiana e o materialismo dialético.
Considera a participação do inconsciente na construção do conheci
mento. Essa participação constitui nada mais que a articulação do de
sejo e do conhecimento, um mecanismo afetivo que o indivíduo põe
em funcionamento. A dificuldade de aprendizagem é vista como sin
toma e, dessa forma, cumpre uma função positiva e integrativa dentro
da estrutura total da situação pessoal. O não aprender, portanto, não
se configura como o oposto do aprender. Para lidar com a dificuldade
de aprendizagem, sua proposta é inter-relacionar os aspectos orgâni
cos, intelectuais e o desejo do sujeito, este visto como um ser históri
co. Busca nos esquemas propostos pela teoria psicogenética de Piaget
auxílio para estudar as operações lógicas e na Psicanálise, subsídios
da ordem de significação.
As descobertas psicanalíticas como o inconsciente e a pulsão de
morte são incompatíveis com a Pedagogia. Na medida em que o in
consciente implica o imprevisível, o imponderável e a falta de con
trole, impede a criação de uma metodologia pedagógico-psicanalíti-
ca, a qual requer ordem, estabilidade e previsibilidade. A noção de
inconsciente nos mostra que, embora o educador possa organizar seu
conhecimento, ele não tem controle sobre o efeito que produz sobre
seus alunos, mais especificamente, não tem acesso às repercussões
inconscientes de tudo que ensina.
Contudo, podemos dizer que a Psicanálise abre um novo olhar
sobre o aluno, um ser que tem subjetividade e desejo, um ser cujas
manifestações, muitas vezes de difícil aceitação, têm seus significa
dos, da mesma forma que seus sintomas de não aprender. Além disso,
a Psicanálise possibilita compreender certas dificuldades do aluno, na
medida em que dá a conhecer o processo de desenvolvimento de sua
personalidade.
Ao educador ela possibilita reavaliar suas atitudes, suas práticas
do cotidiano da sala de aula e sua concepção acerca da aprendizagem
4 2 • Introdução à Psicologia da Educação
e serve para lembrá-lo de que possui os mesmos aparatos psicológicos
do aprendiz. O processo de aprendizagem envolve, assim, um en
contro do desejo de ensinar do professor com o desejo de aprender do
aluno. Nessa perspectiva, a transferência que ocorre na relação aluno-
-professor é fundamental.
Exercícios
1) Quais são os pressupostos básicos da teoria psicanalítica?
2) Qual a função das três estruturas (o id, o ego e o superego) da
personalidade?
3) Explique as relações entre id, ego e superego.
4) Observe uma criança nas fases oral e anal e apresente suas consi
derações.
5) Dê dois exemplos dos seguintes mecanismos de defesa: projeção,
repressão e formação reativa.
6) Extraia da relação entre o id, o ego e o superego, bem como das
tensões e conflitos produzidos pela libido, situações que podem
ser aplicadas na concepção e prática educacionais.
G lossário
Agressividade - em sentido restrito designa o comportamento hostil,
destrutivo. Para a Psicanálise é a manifestação do instinto de
morte.
Consciente - é uma qualidade mental e envolve todos os conteúdos
que são perceptíveis. E tudo aquilo que é conhecido.
Deslocamento - consiste em deslocar o sentimento ou a ação para outro
objeto diferente do original. Exemplo: a hostilidade em relação ao
chefe pode ser deslocada para um funcionário subalterno.
Ego - é uma das estruturas da personalidade que se origina do id
mediante o contato com o meio externo. E o segundo sistema a se
desenvolver na personalidade da pessoa e age como intermediário
entre o id e as exigências do superego e do ambiente.
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educação I 43
Fase anal - segunda fase da organização da libido, na qual a prima
zia do prazer se encontra no ânus.
Fase fálica - terceira fase da organização da libido, na qual o pênis é
o objeto de interesse das crianças de ambos os sexos. Fálico origi-
na-se de falo, que significa pênis.
Fase oral - primeira fase da organização da libido, na qual a zona
oral (boca, lábios, língua) desempenha o papelprincipal.
Fim sexual - ato a que o impulso conduz.
Fixação - permanência de uma pessoa em um estágio de desenvolvi
mento primitivo pelo fato de o estágio seguinte estar carregado de
ansiedade.
Formação reativa - mecanismo de defesa pelo qual um impulso ou
sentimento que produz ansiedade é substituído pelo seu oposto.
Id - é o polo instintivo ou pulsional da personalidade, dentro do qual
se diferenciam o ego e o superego. Seu conteúdo é inconsciente,
podendo ser hereditário ou recalcado.
Identificação - processo de tornar-se semelhante a alguém ou a algo
em relação a aspectos de comportamento ou pensamento.
Inconsciente - é o local das representações reprimidas ou das pulsões
ou impulsos instintivos.
Instinto (impulso instintivo ou pulsão) - é a representação mental,
no id, de uma fonte somatória de excitação. Os instintos compõem
a soma total de energia psíquica e impulsionam o comportamen
to, determinando a direção que ele deve tomar.
Instintos de morte (pulsões de morte) - são pulsões que se contra
põem às pulsões de vida e tendem a reconduzir o ser vivo ao es
tado inorgânico. Quando voltadas para o interior tendem à
autodestruição e quando dirigidas para o exterior manifestam-se
sob a forma de agressividade e hostilidade.
Instintos de vida (pulsões de vida) - são os instintos que servem
para a autoconservação e perpetuação da espécie e que se contra
põem às pulsões de morte.
Libido - é a designação de energia sexual, ou seja, é a energia que
constitui o substrato das transformações dos impulsos sexuais.
Mecanismo de defesa - consiste nas maneiras de o psiquismo se pro
teger de ameaças. São os mecanismos psicológicos utilizados para
diminuir a angústia originada por conflitos interiores.
44 • Introdução à Psicologia da Educação
Narcisismo - consiste no amor excessivo a si mesmo. Para a Psica
nálise é quando toda a energia da libido é investida sobre o “eu”.
Negação - mecanismo de defesa contra a angústia que consiste em
negar a evidência. Por esse mecanismo o indivíduo se recusa a
reconhecer fatos reais penosos ou que provocam ansiedades, trans-
formando-os em fatos imaginários.
Objeto - termo utilizado para nomear pessoas ou coisas do ambiente
externo, animadas ou não, que são psicologicamente significati
vas para a vida psíquica do indivíduo.
Objeto sexual - pessoa ou coisa que exerce atração sexual.
Perversão - desvios em relação ao fim ou ao objeto sexual.
Pré-consciente - é o intermediário entre o inconsciente e o conscien
te. Contém representações que podem se tornar conscientes se a
atenção se voltar para elas.
Princípio da realidade - é o princípio pelo qual o ego opera, suspen
dendo temporariamente a descarga de tensão (princípio do prazer)
até que seja encontrado um objeto apropriado para a satisfação da
necessidade.
Princípio do prazer - é o princípio pelo qual o ego opera, reduzindo
a tensão.
Processo primário - é o processo pelo qual o id realiza seu objetivo
de evitar a dor e obter prazer (princípio do prazer), formando a
representação mental de um objeto que removerá a tensão. É o
processo que caracteriza o sistema inconsciente.
Processo secundário - é o processo pelo qual o ego opera, orientado
pela realidade. E o pensamento realista. E o processo que caracte
riza o sistema pré-consciente/consciente.
Projeção - mecanismo de defesa que consiste em atribuir inconscien
temente a outros e perceber no mundo externo suas próprias
pulsões e seus conflitos interiores.
Racionalização - explicações racionais para justificar ações de ori
gem emocional.
Regressão - retorno às atitudes e condutas características de um está
gio anterior de desenvolvimento.
Relações de objeto - refere-se à atitude ou conduta do indivíduo em
relação aos objetos.
C a p ítu lo I • A Contribuição da Psicanálise à Educuçuo | 4 ‘>
Repressão (recalque) - é o mecanismo pelo qual o indivíduo procu
ra reter no inconsciente representações ligadas a um instinto ou
pulsão.
Sexualidade - conjunto de fenômenos da vida sexual. Os psicanalistas
distinguem a genitalidade, conjunto de características ligadas aos
órgãos de cópula, da sexualidade, estendida ao amor em geral.
Sublimação - desvio de um impulso de seus objetivos diretamente
sexuais para fins socialmente úteis.
Superego - é o terceiro sistema estrutural da personalidade. Represen
ta as restrições sociais internalizadas e exerce a tarefa de censor das
funções do ego, que bloqueia os impulsos ou pulsões do id.
Supressão - é o mecanismo pelo qual os conteúdos da pré-consciên-
cia são afastados da consciência.
Transferência - processo psicológico que consiste em transferir para
pessoas ou objetos aparentemente neutros emoções e atitudes que
existem no indivíduo desde a infância. Na terapia psicanalítica, a
transferência é essencial para a cura. Trata-se de uma relação
afetiva particular que o paciente estabelece com o terapeuta para
reviver suas experiências passadas.
R eferências
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BIAGGIO, A. M. B. Psicologia do desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 1983.
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_______________A interpretação dos sonhos. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
______ Dois verbetes de enciclopédia. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
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.C
ap
ito
/o
, Maria Letícia B. P. Nascimento
A Criança Concreta, Completa e
Contextualizada: a Psicologia
de Henri Wallon'
A psicologia de Henri Wallon (1879-1962) é considerada com
plexa. Tomando a dialética como fundamento epistemológico, Wallon
buscou compreender o desenvolvimento infantil por meio das rela
ções estabelecidas entre a criança e seu ambiente, privilegiando a
pessoa em sua totalidade, nas suas expressões singulares e na relação
com os outros. Dessa maneira, não propôs um sistema linear e orga
nizado de etapas de evolução psíquica, mas desenvolveu sua teoria
buscando compreender os objetivos da criança e os meios que ela
utiliza para realizá-los, estudando cada uma de suas manifestações no
conjunto de suas possibilidades. Sua teoria expõe a evolução psíquica
passando de um campo a outro da atividade infantil, em textos entre
meados por termos médicos e neurológicos.
Médico, psiquiatra, psicólogo e educador, nessa ordem de forma
ção, dedicou-se primeiro à Psicopatologia, em decorrência de sua atua
ção como médico na Primeira Guerra Mundial. Concentrou-se, em 1
1 Parte do texto foi extraída de NASCIMENTO,Maria Letícia B. P. Corpo e fala na
constituição do eu : investigação sobre o prelúdio da pessoa em creche pública.
São Paulo, 1997. Dissertação (Mestrado em Educação). Faculdade de Educação
da Universidade de São Paulo.
48 • Introdução à Psicologia da Educação
seguida, na análise do psiquismo humano, voltando-se para a psicolo
gia da criança. Seu profundo interesse pela educação permitiu-lhe com
preender a Psicologia e a Pedagogia como ciências complementares,
sem que houvesse superioridade de uma sobre a outra, ou seja, via a
prática educativa como campo para a pesquisa psicológica e, em para
lelo, a investigação psicológica como base para uma possível renova
ção da prática educativa, numa relação de reciprocidade.
Contemporâneo de Sigmund Freud (1856-1939), de Jean Piaget
(1896-1980) e de Lev Vygotsky (1896-1934), viveu, como eles, sob a
influência do evolucionismo, embora, para Wallon, a realidade psico
lógica tivesse história e condições materiais de existência, ou seja, o
desenvolvimento infantil inseria-se num contexto em que as relações
interpessoais, históricas e culturais eram privilegiadas.
Wallon define o ser humano como geneticamente social:
Jamais pude dissociar o biológico do social, não porque
os creia redutíveis entre si, mas porque, no homem, eles me
parecem tão estreitamente complementares, desde o nascimen
to, que a vida psíquica só pode ser encarada tendo em vista
suas relações recíprocas. (Wallon, apud Werebe & Nadel-
-Brulfert, 1986, p. 8)
Por relações recíprocas entre o desenvolvimento biológico e o
desenvolvimento social pode-se entender que um é condição do ou
tro, pois, ao nascer, a criança tem movimentos impulsivos ou refle
xos, descargas musculares provocadas principalmente por sensações
internas de desconforto. Em função da própria inaptidão, a criança
passa por períodos de espera ou de privação e depende de alguém que
satisfaça suas necessidades. Suas reações impulsivas, orgânicas e
desordenadas precisam ser completadas, compensadas e interpretadas
pelo meio envolvente.
A resposta do meio vai favorecer o estabelecimento de conexões,
pela criança, entre as ações do adulto próximo e as manifestações
impulsivas, e, em pouco tempo, essas associações fisiológicas trans
formam-se em manifestações expressivas, ou seja, vão constituir uma
troca emocional entre criança e adulto próximo.
Estabelece-se, assim, o prelúdio da constituição psíquica, ao mes
mo tempo em que é criado um estado de indivisão entre o que depen
de do exterior e do próprio sujeito, ou seja, “a união da situação, ou
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e (ontextualizada I 49
ambiente, com o sujeito começa por ser global e indiscerníver
(Wallon, 1986, p. 162). Nesse sentido, não existe um sujeito a princí
pio: o que existe é uma indiferenciação entre o recém-nascido e o
meio social (a mãe, o outro) e físico que o acolhe. A criança nasce
para a vida psíquica pela emoção, que, ao lado do movimento, ali
menta a simbiose inicial.
Diz Wallon que, “incapaz de efetuar algo por si próprio, ele [o
recém-nascido] é manipulado pelo ‘outro’ e é nos movimentos desse
‘outro’ que suas primeiras atitudes tomarão forma” (ibid., p. 161). As
atitudes, vinculadas aos estados de desconforto, de necessidade, im
primem, na relação, aspectos culturais distintos, configurando a sin
gularidade e a historicidade de cada criança. Nesse sentido, o adulto
é um mediador entre a criança e ela mesma, entre ela e os elementos
do mundo cultural onde nasceu.
A indiferenciação entre a criança e o meio envolvente, a comu
nhão afetiva estabelecida, constitui uma primeira relação psicológica:
a emoção que, segundo Tran-Thong (1967), revela a originalidade da
contribuição de Wallon aos estudos sobre o desenvolvimento infantil.
I l . l Constituição da Subjetividade e Construção
do Conhecimento: o Desenvolvimento Infantil
Ao contrário de Piaget, cuja epistemologia genética é mais co
nhecida entre nós, para Wallon o desenvolvimento não começa
cognitivamente: a atividade da criança está primeiramente voltada
para a sensibilidade interna (visceral e afetiva), que abrange o primei
ro ano de vida. A afetividade, na teoria, vai designar os processos
psíquicos que acompanham as manifestações orgânicas da emoção
(Dantas, 1990). A essa sensibilidade, posteriormente, vai se acrescen
tar a sensibilidade externa (elementos do mundo exterior), caracteri
zando, então, o aspecto cognitivo do desenvolvimento.
Não se trata porém de um processo linear, no qual o aspecto afe
tivo cederá lugar ao cognitivo. A anterioridade indica conflito e oposi
ção permanente entre eles. As condutas cognitivas surgem das afetivas;
estas se subordinarão àquelas, alternando-se em fases centrípetas, vol
tadas para si mesmas, e centrífugas, de interesse pelo mundo humano
ou pelo mundo físico. A elaboração do subjetivo se faz sobre o objetivo
e vice-versa.
SO • Introdução à Psicologia da Educação
Segundo Dantas (1990), isso indica que o controle da razão so
bre a emoção poderá ser mais sólido quanto mais longe for o desen
volvimento da razão. Vale dizer que, tomando o princípio dialético da
teoria, quanto mais elaborada a emoção, melhor fluirá a razão. Pode-
-se pensar que um “eu” bem constituído terá mais possibilidades de se
colocar no lugar do “outro”, de maneira a discutir ou compreender
diferentes pontos de vista.
Acompanhando as etapas do desenvolvimento, na organização
de Tran-Thong2 (1967) - visto que nos livros e artigos que publicou
Wallon não apresenta as etapas do desenvolvimento numa ordem li
near - , essa alternância entre afetivo e cognitivo, ou a predominância
de um aspecto sobre o outro nas diferentes idades da criança, fica
mais clara.
Ao nascer, a criança é um ser centrípeto, ocupado consigo mes
mo, e reage pouco ou nada aos objetos do mundo físico. Suas reações
vão se voltar para o mundo humano, principalmente para o adulto
mais próximo dela; na maioria dos casos, a mãe.
Se no útero materno a satisfação das necessidades alimentares
ou posturais era automática, no período pós-nascimento, as sensações
internas de desconforto revelam-se por meio de movimentos reflexos.
As respostas do meio a essas manifestações permitirão que o bebê
estabeleça relações entre suas manifestações impulsivas e as ações do
adulto, o que Wallon denomina reações úteis.
A etapa impulsiva prepara a etapa emocional que, nas palavras de
Dantas (1990), corresponde ao predomínio da motricidade que mani
festa a emoção. O movimento atua sobre o meio humano como forma
de comunicação. A emoção é o elo entre a criança e o outro.
Os efeitos dessa ligação tornam as manifestações cada vez mais
nitidamente expressivas, intencionais. Contudo, antes de se caracteri
zar como processo relacionai, o estágio impulsivo-emocional aponta
para o fechamento da consciência sobre si, isto é, para a indiferencia-
ção entre a criança e o outro.
Gradativamente, os elementos do mundo exterior vão se consti
tuindo como objeto de interesse e exploração, fazendo predominar
2 Que procurou ordenar os conceitos e as etapas de desenvolvimento propostos
por Wallon.
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contextualizada I 51
um aspecto mais centrífugo no desenvolvimento. Segundo Tran-Thong,
“a passagem do estádio emocional ao sensório-motor e projetivo é uma
passagem da atividade tônica, automática e afetiva, à atividade
relacionai, que põe a criança em contato com o mundo exterior dos
objetos” (1967, p. 184), preponderante nessa outra etapa. Isso significa
que há “uma troca de orientação, de uma fase centrípeta e subjetiva [de
ordem emocional] para uma fase centrífuga e objetiva” (ibid.), de or
dem cognitiva, de conhecimento sensorial do mundo.
O movimento objetivo se completará com o andar - que dará à
criança a possibilidade de deslocamento no espaço, tanto de si mes
ma quanto dos objetos - e com a palavra - que lhe permitirá identifi
car e nomear esses objetos.De acordo com Dantas (1990), ao longo dessa etapa, sensório-
-motora e projetiva, há uma nova utilização das coisas, que deixam de
ser apenas exploradas e manuseadas e se tornam significantes, isto é,
adquirem uma dimensão além do aqui e do agora. À autonomia senso-
-motora adquirida com o andar segue-se de maneira quase imediata a
entrada no mundo dos signos, que emancipa a criança da realidade.
Assim como será possível identificar e nomear objetos, o que
Wallon denomina consciência de si, permitirá a ela objetivar-se, identi
ficando sua imagem e seu nome. No estágio do personalismo, essa
conquista vai fazer com que se volte de novo para o mundo humano, no
qual se colocará, sucessivamente, em situação de oposição, sedução e
imitação, iniciando outra vez uma fase centrípeta do desenvolvimento.
A consciência de si vai abrir espaço para um retorno ao mundo
físico, mundo do conhecimento, quando a criança irá adquirir um
pouco mais de autonomia e ampliar seu domínio do espaço físico,
auxiliada pela representação. Em outras palavras, na etapa categorial,
o maior domínio do universo simbólico permitirá que ela se dirija a
objetos não necessariamente presentes, sobre os quais será capaz de
pensar e operar.
Essa fase centrífuga será seguida por outra, de caráter centrípeto,
de construção de si mesma, já na adolescência. Nesse momento, ela
torna a se voltar para o mundo humano, modificada pelo caráter
cognitivo da etapa anterior, ou seja, distinguindo-se do outro pela di
ferenciação de pontos de vista.
A descrição das etapas evidencia o que Wallon denomina princí
pios funcionais integração, preponderância e alternância , que de-
52 • Introdução à Psicologia da Educação
finem o desenvolvimento como um processo descontínuo, marcado
por rupturas e crises. Nessas etapas, as formas de atividade construídas
pela criança passam por reformulações. Ora preponderam os aspectos
afetivos, voltados para o mundo humano, ora os cognitivos, voltados
, para o mundo físico, que se alternam, proporcionando características
próprias a cada etapa. A ordem para a realização do desenvolvimen
to, além disso, é permeada pela cultura e pelo ambiente onde a crian
ça está inserida.
11.2 A Consciência de Si: Integração e Conflitos Eu-O utro
A afetividade, o movimento e a inteligência constituem campos
funcionais entre os quais se distribui a atividade da criança. Quase
que indiferenciados no princípio do desenvolvimento vão, aos pou
cos, diferenciando-se. O mesmo processo - da indiferenciação para a
diferenciação - acontece na constituição da pessoa.
A origem da evolução psíquica está ligada ao desenvolvimento
dos diferentes sistemas de sensibilidade interoceptiva (visceral),
proprioceptiva (sensações ligadas ao equilíbrio, às atitudes e aos
movimentos) e exteroceptiva (voltada para as excitações de origem
exterior), que vão se completando ao longo do primeiro ano de vida e
que atuarão conjuntamente (associações intersensoriais), unificando
o campo da percepção, já no terceiro mês de vida, do mesmo modo
que a consciência corporal, primeira forma do “eu”, é o resultado das
diferenciações e das ligações dessas sensibilidades.
Na perspectiva walloniana, a constituição do “eu” é ao mesmo
tempo a construção do “não eu”, a percepção do que é próprio e do
que é exterior a si mesmo. Diferentemente de Piaget, que proclama
que a criança, de um “eu” egocêntrico e autocentrado, acaba por so
cializar-se, Wallon a concebe como um ser geneticamente social, que
nasce num meio envolvente do qual depende inteiramente para a sa
tisfação de seus desconfortos e necessidades alimentares e posturais.
A participação do outro na formação da consciência de si é con
sequência da simbiose inicial entre a criança e o meio envolvente. A
confusão entre a criança e o outro, que interpreta e responde aos seus
movimentos impulsivos, tornará o “eu” e o “não eu” indistinguíveis.
Essa comunhão afetiva torna-se uma consciência orgânica, subjetiva,
que, pela troca afetiva com o outro, c a ele devolvida, ou seja, “a
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contextualizada I 53
subjetividade da consciência transforma-se em sociabilidade por in
termédio da expressão emotiva” (Wallon, apud Tran-Thong, 1967,
p. 180). Nesse momento, sociabilidade significa, enquanto sujeito, de
pendência do outro para “ser”.
A construção da pessoa acontece na medida em que a criança,
opondo-se ao outro, distancia-se do meio onde está envolvida. A su
cessão de elementos de ordem afetiva e cognitiva se alternam no pro
cesso de desenvolvimento, sublinhando os aspectos subjetivos e obje
tivos na construção do “eu” e do mundo. O recorte corporal permite
uma objetivação da imagem e, portanto, a consciência de um “eu”
subjetivo, que o espelho reflete.
Em 1931, Wallon escreveu um artigo, “Comment se développe
chez 1’enfant la notion du corps propre”3, no qual descreve o processo
de estruturação da imagem corporal e o estágio do espelho. O texto
detalha e analisa o processo de constituição do corpo pela criança, em
suas diferentes etapas, ponto de partida para a constituição do “eu”
psíquico. A noção de unidade corporal, antes de ser uma realização
simples e/ou primitiva, passa pela distinção entre o que é do corpo e
o que é exterior ao corpo e implica em diferentes relações funcionais,
que se sucedem e se integram nas variadas manifestações de ativida
de da criança.
Reorganizado em capítulos, esse artigo foi publicado em 1934
em As origem do caráter na criança4, com o título “Consciência e
individualização do próprio corpo”. A obra, que focaliza os três pri
meiros anos de vida da criança, reproduz publicações de cursos pro
feridos na Sorbonne, entre 1929 e 1931.
Divergindo de outros autores, Wallon não postula que a consciên
cia do “eu” venha antes da consciência do outro, isto é, que a cons
ciência de si seja essencial e primitivamente individual e que haja
uma passagem desse estado para uma consciência social. Ao contrá
rio, aponta que é na interação com o meio que a criança constitui sua
individualidade (Wallon, 1966, p. 175).
3 Publicado no Journal de Psychologie de novembro/dezembro do mesmo ano,
reeditado na revista Enfance, n. 1-2, de 1963, e traduzido para o português em
Objetivos e m étodos da psicologia. Lisboa: Estampa, 1975.
4 Foi utilizada a tradução de Heloysa Dantas de Souza Pinto. São Paulo: Nova
Alexandria, 1995.
54 • Introdução à Psicologia da Educação
No processo de consciência corporal e psíquica, interagem os
domínios interoceptivo, proprioceptivo e exteroceptivo, embora suas
manifestações sejam distanciadas cronologicamente. O domínio
exteroceptivo vai se constituindo gradativamente, a começar pela sen
sibilidade ao contato, ainda orgânica e afetiva, “progressivamente
substituída por atividade de aspecto mais sensório-motor” (Wallon,
1995, p. 187). Segundo Wallon, num primeiro momento, o organismo
predomina sobre o social.
Ao longo do primeiro ano de vida, o interesse pela presença
humana prevalece. O contato com os objetos é intermediado por pes
soas. O interesse da criança por eles parece ser uma transferência da
pessoa para o objeto por ela apresentado. As sensações auditivas, vi
suais ou táteis, que começam a se constituir, despertam reações
afetivas, não exploratórias.
Com o aumento dos recursos próprios e da possibilidade da ação
direta sobre as coisas, gradativamente a criança começa a se interes
sar mais pelo mundo físico, diminuindo as solicitações ao adulto pró
ximo. Vai ocupar-se então em acompanhar objetos em seu campo vi
sual, pegá-los e soltá-los, verificando os efeitos de seu gesto. Essa
atividade circular será seguida pela atividade exploratória, que, am
pliada pelo andar e pela palavra, permitirá à criança deslocar objetos
no espaço, nomeá-los, deslocar-se, nomear as diferentes partes do
corpo e explorá-las.
Esse movimento vai provocar uma singularização dos objetos e,
ao mesmo tempo, uma diferenciação entre o que é desi mesma e o
que é externo. Diz Tran-Thong (1967) que:
As atividades de exploração do corpo próprio, de indivi-
dualização das partes corporais, do seu reconhecimento e da
sua integração na unidade do corpo, de delimitação do espaço
subjetivo e do espaço envolvente, assim como das atividades
sociais afetivas de delimitação de si em relação aos outros, são
contemporâneas das atividades sensório-motoras e projetivas,
que as tornam possíveis, mas que vão ser ultrapassadas, dando
origem à pessoa consciente, (p. 208-9)
De acordo com a teoria de Wallon, na etapa anterior, já tendo
descoberto seus pés e suas mãos, a criança experimentava os limites
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contoxtualiimlu I '»'»
do próprio corpo, numa exploração sistemática. Cada órgão, porém,
era tratado como objeto, estranho a seu corpo. A individualização de
cada parte do corpo e sua integração numa unidade corporal vai cau
sar uma delimitação de si em relação aos outros.
Essa diferenciação se produzirá no que Wallon denomina perío
do do espelho, quando a objetivação do próprio corpo, possível gra
ças às diferentes formas de duplicação da própria imagem e aos pri
meiros avanços ao mundo simbólico, permitirá à criança conhecer-se
de fora para dentro, integrando sensação, percepção e imagem de si
mesma.
Ao longo do terceiro ano de vida, a partir do acabamento do “eu”
corporal, a criança consegue destacar-se dos seres e das coisas, apro-
priando-se de si e dos objetos. A consciência de si vai produzir-se
mediante uma crise de oposição ao outro, ao “não eu”. Para afirmar-
-se como um “eu”, diz a teoria, ela precisa negar o outro e, mais do
que isso, expulsar o que é do outro em si mesma. Essa afirmação de
si é caracterizada por um ponto de vista pessoal exclusivo, unilateral,
agressivo; uma ruptura na simbiose anterior.
Tran-Thong (1967) afirma que:
Com a crise de oposição a criança deixa, na sua lingua
gem, de se designar na terceira pessoa e emprega, por vezes
ostensivamente, os pronomes eu e me. O seu sentimento pes
soal estende-se aos objetos nos quais o sentido de posse se
concretiza... (p. 219)
Segundo a teoria, a oposição é sucedida pela sedução e imitação
do outro. A dependência em relação ao outro - busca de sua admira
ção, utilização do outro como modelo - parece significar um “eu”
afetivo, ainda parcialmente constituído.
Essa etapa subj et iva mente objetiva, em que a atividade cognitiva
é a própria constituição do “eu”, é seguida pela transposição da delimi
tação pessoal para o plano da inteligência, que vai favorecer a constru
ção de categorias mentais que permitirão definir e explicar a realidade.
A aquisição da capacidade conceituai, posteriormente, já na ado
lescência, vai ajudar a elaborar um novo patamar do “eu”, que talvez
possa ser denominado de “eu” cognitivo, capaz de assumir diferentes
funçóes e ocupar diferentes posições nos variados grupos que frequcn-
56 • Introdução à Psicologia da Educação
ta. O outro, aí, será alguém - pessoa ou grupo - que se posiciona de
maneira diferente. A diferenciação do “eu” e do “não eu” vai supor
uma diferenciação de pontos de vista.
A constituição do “eu”, contudo, é um processo que jamais se
acaba: o outro interior, ou fantasma do outro, segundo Wallon, vai
acompanhar o “eu” durante toda a vida. Diz ele que:
As pessoas do meio nada mais são, em suma, que oca
siões ou motivos para o sujeito exprimir-se e realizar-se. Mas,
se ele pode dar-lhes vida e consistência fora de si, é porque
realizou, em si, a distinção do seu “eu” e do que lhe é comple
mento indispensável: esse estranho essencial que é o “outro”.
A distinção [...] resulta de uma bipartição mais íntima entre
dois termos que não poderíam existir um sem o outro, ainda ou
porque antagonistas, um que é uma afirmação da identidade
consigo próprio e o outro que resume aquilo que é necessário
expulsar dessa identidade para conservá-la. (1986, p. 164)
A construção do “eu” não tem limite temporal, acontece durante
toda a vida.
11.3 Emoção: Simultaneamente O rgânica e Social
A emoção, simultaneamente biológica e social em sua natureza,
é o primeiro ponto de comunicação entre a criança e o meio envol
vente. Colocada numa perspectiva genética, adquire seu significado
funcional.
O componente orgânico das emoções garante a sobrevivência do
recém-nascido. Entretanto, não se esgota aí, como revelam as altera
ções físicas constatadas nas diferentes idades numa situação de pre
domínio da emoção: batimentos cardíacos acelerados, alterações na
respiração, “frio na barriga”, por exemplo. Ao mesmo tempo em que
acontecem internamente, as emoções trazem consigo mudanças visí
veis nas expressões faciais, gestuais e na postura. Nesse sentido, esta
dos de profunda emoção contagiam aqueles que estão próximos.
Emoção e afetividade não podem ser compreendidas da mesma
maneira. As primeiras manifestações de afetividade, no bebê, têm alto
componente emocional. Na medida em que a criança adquire a lin
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contextualizadu I 57
guagem, ampliam-se os recursos para a expressão da afetividade, tor
nando possíveis os sentimentos, que não envolvem alterações físicas
visíveis. Nesse sentido, a afetividade é um campo funcional mais ela
borado do que a emoção, embora tenha nela sua origem. Uma aná
lise detalhada sobre a teoria da emoção é encontrada no livro de M.
Martinet, Teoria das emoções5.
Segundo Zazzo, “a emoção é uma linguagem antes da lingua
gem” (1978, p. 98). É a primeira manifestação psicogenética da
afetividade e precede o aparecimento de condutas cognitivas:
...os primeiros sistemas de reações organizados sob a in
fluência do ambiente, as emoções, tendem tão somente a reali
zar, por meio de manifestações consonantes e contagiosas, uma
fusão de sensibilidades entre o indivíduo e os que o cercam.
Elas podem, sem dúvida, ser encaradas como a origem da cons
ciência, porque, pelo jogo de atitudes determinadas, elas ex
primem e fixam para o próprio sujeito certas disposições espe
cíficas de sua sensibilidade. Porém, elas só constituem o ponto
de partida da sua consciência pessoal por intermédio do grupo
onde elas começam por fundi-lo e do qual receberá as fórmu
las diferenciadas de ação e os instrumentos intelectuais sem os
quais ser-lhe-ia impossível operar as distinções e as classifica
ções necessárias ao conhecimento das coisas e dele mesmo.
(Wallon, 1995, p. 276-7)
Como elemento que possibilita o acesso ao universo simbólico
do grupo social, incluindo aí a linguagem, a emoção torna-se o funda
mento da razão. Nas palavras de Dantas (1990), “a razão nasce da
emoção e vive de sua morte”, o que revela o antagonismo entre os
dois elementos, antagonismo esse que evidencia o caráter paradoxal
das emoções. Quando a emoção prevalece, a razão se retrai; o oposto
é também verdadeiro. Assim, emoção e razão, cuja origem é comum,
complementam-se e opõem-se na constituição da pessoa.
5 MARTINET, M. Teoria das em oções - introdução à obra de Henri Wallon. Lisboa:
Moraes, 1981.
58 • Introdução à Psicologia da Educação
11.4 O M ovimento e suas D imensões
O papel do movimento na psicogenética walloniana tem duas
dimensões distintas, uma afetiva e outra cognitiva. A afetiva se rela
ciona aos gestos ou movimentos expressivos que têm a intenção de
causar impacto sobre o outro. A cognitiva se refere à ação direta so
bre o meio físico.
No recém-nascido, antes de atuar diretamente sobre o meio físi
co, o movimento atua sobre o meio humano, mobilizando o adulto
próximo por meio de sua expressividade. Assim, é possível pensar
que a primeira função do movimento é afetiva, que serve principal
mente à comunicação criança-adulto próximo.
O caráter exploratório do movimento começa a surgir a partir
dos gestos de pegar, empurrar, abrir e fechar, o que Wallon denomina
praxias, que ampliam a exploração do mundo objetivo. Esse movi
mento, entretanto, mantém sua expressividade,como se verá mais à
frente, na referência à atividade ideomotora.
O andar possibilita à criança o reconhecimento espacial dos ob
jetos e de si mesma, ou seja, ela manipula os objetos, deslocando-os
ou deslocando-se, o que vai permitir seu reconhecimento e agrupa
mento, numa apropriação de suas qualidades. Segundo Tran-Thong,
“não se trata nem duma análise nem dum inventário, mas é o reco
nhecimento duma estrutura significativa que só é possível em relação
a outras estruturas” (1967, p. 193).
A linguagem, por sua vez, permite reforçar a identificação de
diferentes objetos e sua localização. O nome ajuda a individualizá-los
em relação ao conjunto perceptivo, compará-los, destacá-los da im
pressão presente. Wallon afirma que a noção de objeto não é resulta
do da reunião dos dados sensoriais ou motores, mas implica numa
integração “a um outro plano da vida psíquica, a uma ordem diferente
de operações, na qual intervém a atividade simbólica” (1995, p. 192).
O andar e a linguagem colocam à disposição da criança um
mundo exterior, onde os objetos adquirem mais independência e rea
lidade, o que inaugura um tipo de atividade que Wallon chama ativi
dade projetiva, que:
Consiste em realizações ideomotoras em que as imagens
mentais são imediatamente projetadas em atos que os provocam
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contoxtualiiada I S9
e que os esgotam ao mesmo tempo, fusionando-os, misturando-
-os com as realidades exteriores. (Tran-Thong, 1967, p. 195)
O que a teoria walloniana indica é um alargamento do espaço
motor pela constituição de um espaço mental, no qual os limites vão
se ampliando na medida da ampliação do pensamento. Este, a princí
pio, vai ser expresso por intermédio do movimento e da linguagem
simultaneamente, o que Wallon denomina pensamento ideomotor.
Nesse sentido, em sua origem, o pensamento é sustentado pela
motricidade e, gradativamente, ao longo da infância, a motricidade se
reduzirá aos movimentos vocais, e o pensamento será impulsionado
pela fala.
Num primeiro momento, a criança recorre ao gesto para expres
sar o que pensa, o que significa que impedir a criança de se movi
mentar é fazê-la parar de pensar. A atividade projetiva, ou seja, o ato
mental projetado em atos motores, abre caminho para a representa
ção, isto é, para o desdobramento da realidade, para o alargamento do
espaço mental, para a possibilidade de “prolongar a lembrança no
presente e substituir o presente pela antecipação, pela combinação,
pelo cálculo ou somente pela imaginação e pelo sonho”.
A imitação, contemporânea da atividade projetiva, é o prelúdio
da representação. Não se trata de uma repetição imediata, mas, perce
bida uma situação, a criança a recria, estruturando os elementos sen-
soriais num conjunto para reconstituí-los, depois de um período de
“incubação”. Wallon não a localiza senão na segunda metade do se
gundo ano, quando, integrando as sensibilidades exteroceptivas e
proprioceptivas, a criança é capaz dc dominar seu corpo e seus movi
mentos e imitar o que vê ao seu redor. Segundo Tran-Thong “na có
pia do modelo, [a criança] deve interiorizar o sensível transformando
as impressões sensório-motoras em fórmulas mentais” (1967, p. 198).
O “poder” imitar reflete uma fusão à situação ou ao objeto, ou
seja, é perceber, elaborar e copiar uma ação no aqui e no agora. O
“querer” imitar, contudo, sobrepõe-se a essa ação: de um lado, tem-se
aquilo que é percebido, imaginado ou desejado e, de outro, aquilo
que é realizado ou que se constitui a representação do modelo.
Entre essas ações se coloca o simulacro, que corresponde à mími
ca, cuja ação se realiza independente da permanência do objeto. Nas
palavras de Dantas, “...o objeto é absorvido pelos gestos que o supõem.
Trata-se de uma utilização do objeto sem objeto, apenas postural e
60 • Introdução à Psicologia da Educação
gestual...” (1990, p. 13). Sua origem está nas atitudes e posturas que
servem de modelo à criança. Trata-se de uma ação realizada à imagem
de um ato verdadeiro que dispensa o objeto real. O simulacro contém
em si o real, a imagem e os signos. Segundo Tran-Thong, “gestos e
símbolos encontram-se numa relação conflitual que define o processo
de simbolização na criança desta idade” (1967, p. 198).
O desdobramento da realidade só será possível quando o símbo
lo e, principalmente, o signo se tornarem instrumentos de significa
ção, pressupondo a representação do real. A linguagem vai organizar
esse universo simbólico e permitir sua expressão: “Através da lingua
gem, o objeto do pensamento deixa de ser exclusivamente o que, pela
sua presença, se impõe à percepção” (Wallon, 1998, p. 174).
11.5 0 Pensamento: O rigens e U so da Linguagem
Wallon não formulou, explicitamente, uma teoria sobre o desen
volvimento da linguagem, mas se refere a ela em diferentes textos.
Para ele, a linguagem é suporte e instrumento para os progressos do
pensamento e para a constituição do “eu”, revelando as diferentes
fases pelas quais passa a criança.
Os primeiros anos de vida são caracterizados por uma inteligên
cia sensório-motora, essencialmente prática, que se apoia em percep
ções e movimentos, sem a intervenção da linguagem ou do pensa
mento.
A aquisição das primeiras palavras, na fase sensório-motora, re
lacionadas à nomeação dos objetos, antes de distingui-los do conjunto
perceptivo em que estão inseridos, vai se caracterizar pela diversida
de de sentidos atribuídos a elas. Sua sonoridade prepondera sobre a
lógica, ou seja, os termos são associados independentemente de sua
significação objetiva. Essa sonoridade, de caráter subjetivo, sustenta
o pensamento.
Ao mesmo tempo em que uma mesma palavra serve para designar
diversos objetos, a cada objeto corresponde um nome. Essa confusão é
pertinente ao pensamento sincrético, principal característica do pensa
mento da criança de três a seis anos, impregnado de subjetividade, no
qual prevalecem os critérios afetivos sobre os lógicos e objetivos. A
atividade mental da criança percebe e representa a realidade de forma
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contextualizada I 61
diferenciada, misturando sujeito e objeto, assim como os vários planos
do conhecimento, ou seja, a representação dos objetos e situações pela
criança está impregnada de experiências sensoriais e afetivas.
A preponderância afetiva sobre o pensamento está presente nas
explicações sobre o mundo objetivo, revelando as origens afetivas da
atividade cognitiva. O processo de simbolização vai permitir que o
pensamento se distancie da subjetividade para atingir uma represen
tação mais objetiva da realidade, a partir da preponderância de refe
rências mais objetivas.
Distinguir-se do outro, diferenciar sujeito e objeto é tarefa do
desenvolvimento do pensamento. Ao longo do período em que preva
lece o pensamento ideomotor, citado anteriormente, no qual ação e
fala - realidade e imagem - não se dissociam, o delineamento entre o
que é próprio e o que não é começa a se colocar segundo os jogos de
alternância, nos quais a criança, em diálogos consigo mesma, exerci
ta o “eu” e o “outro”, assumindo ora um papel, ora o outro, como se
os experimentasse sem ser capaz ainda de fixar seu próprio lugar. Os
papéis são diferenciados pelas entonações que ela lhes confere. Se
gundo Wallon (1995):
Os diálogos mantidos consigo mesma correspondem aos
desempenhos alternantes; ambos constituem um sinal da épo
ca em que a criança descobre nas situações que está vivendo a
dualidade das atitudes complementares ou antagônicas, (p. 257)
Tais diálogos tendem a desaparecer quando da afirmação de seu
ponto de vista pessoal, que coincide com o prelúdio da representação,
momento em que será capaz de substituir os objetos por palavras que
os representam, evocar o passado e antecipar o futuro.
Da perspectiva da consciência de si, a utilização dos pronomes
possessivos e pessoais, na forma direta ou oblíqua, em primeira pessoa,
será umaconquista do terceiro ano de vida, da passagem da etapa
projetiva para a personalista. Até então, a criança utiliza o termo “eu”
ocasional mente, referindo-se a si mesma na terceira pessoa, como se
fosse o outro, mal distinguindo seu ponto de vista. Wallon afirma que:
O período da 3U pessoa é também o da 2a: a criança não
sabe transformar em eu os tu que lhe são dirigidos e que inci-
tam seus diálogos consigo mesma. A causa disso c sempre sua
62 • Introdução ó Psicologia da Educação
incapacidade de integrar as situações das quais participa ao sen
timento soberano de sua identidade pessoal. (Ibid., p. 259)
Maior autonomia no uso da palavra significa consistência da fun
ção simbólica e vice-versa ou mais independência da fala em relação
à ação. A utilização do pronome em primeira pessoa no processo de
percepção de um “eu” é um indício da consciência de si. Diz Wallon
(1975) sobre o terceiro ano de vida:
E afinal a época em que deixando de designar-se na ter
ceira pessoa emprega, por vezes com ostentação, os pronomes
“Eu sujeito” e “Eu complemento”6. Por extensão do seu senti
mento pessoal aos objetos, o “Meu” ganha um significado bem
preciso de posse: existe o objeto emprestado, cuja utilização é
apenas momentânea, e aquele que pertence permanentemente
à mesma pessoa, (p. 158)
Do ponto de vista da realidade objetiva, a função simbólica mar
ca a capacidade da criança de representar algum objeto ou aconteci
mento ausente, por meio da construção e atribuição de significados a
esse objeto ou acontecimento. Os símbolos permitem a ela lidar com
a realidade distante da experiência imediata e assim reconstruir uma
realidade maior de passado e futuro que amplia e enriquece seu mun
do. A representação permite à criança deixar de pertencer unicamente
ao aqui e agora e dirigir-se para um plano em que o real corresponde
a noções mais ou menos estáveis, mais resistentes às flutuações da
sensibilidade ou das disposições subjetivas.
O pensamento categorial, no qual a diferenciação será a tônica, é
forjado ao longo da etapa personalista, a partir da distinção
estabelecida no plano pessoal. A função categorial organiza o mundo
objetivo em categorias - séries, classes - , estruturadas sobre a estabi
lidade do plano simbólico, ou seja, permite a objetivação do real.
Organizar categorias significa separar as coisas de suas qualida
des, estabelecendo novas combinações. A função categorial, portan
6 Respectivamente J e e moi. A língua francesa, diferentemente da nossa, tem os
dois termos para o “eu”: o primeiro (Je ) é uma referência da criança a si mesma,
o segundo (moi) indica consciência ou percepção de si em relação ao mundo
exterior.
C a p itu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contoxlualiim lu I 63
to, permite análise e síntese, comparação e generalização, promoven
do a abstração. Na interação com o conhecimento formal, torna-se
possível à criança apropriar-se das diferenciações estabelecidas cul-
turalmente para realizar suas discriminações específicas.
11.6 P sicologia e Educação
Wallon manifestou-se em relação à educação, tendo elaborado
textos específicos e um projeto de reforma do ensino, o “Projeto
Langevin-Wallon”7, de 1947. Foi o criador da cadeira de Psicologia e
Educação da Infância no Collège de France, permanecendo como pro
fessor dessa disciplina entre 1937 e 1941 e entre 1944 e 1949.
Analisou os sistemas pedagógicos propostos em seu tempo, re
conhecendo o valor de suas contribuições, mas, ao mesmo tempo,
evidenciando seu alcance social limitado, principalmente por não te
rem conseguido superar a contradição entre indivíduo e sociedade,
ora privilegiando um, ora outro. Se os conflitos entre ambos são ine
vitáveis, pela ordem de seus interesses, e necessários, pois que se
opõem, é na sua confluência que se coloca a prática educacional. Para
Wallon, a integração entre a formação da pessoa e sua inserção na
coletividade asseguraria a realização da educação (Werebe, 1986).
Destacou o trabalho de Decroly (1871-1932), que entendia a ne
cessidade de respeitar a criança como uma pessoa completa, sobre quem
publicou um artigo8, e de Makarenko (1888-1939), cuja pedagogia im
plicava na inserção de cada um na coletividade9. Coerente com a posi
ção marxista que advogava, via na educação um caráter político-social
fundamental.
Segundo Wallon, o projeto de sociedade define o projeto de edu
cação. Para ele, formar sujeitos históricos, autônomos, capazes de
construir sua sociedade implicava em associar essa meta aos métodos
7 O texto completo está em MERANI, A. L. Psicologia e pedagogia: as idéias peda
gógicas de Henri Wallon. Lisboa: Editorial Notícias, 1977, p. 173-221.
8 Lóeuvre du Docteur Decroly. Paris: Comitê Français pour Ueducation Préscolaire,
1953. Reeditado em En fan ce , n. 1-2, 1968.
9 Ver MAKARENKO, Antón S. Poema pedagógico. Tradução de Tatiana Belinky.
São Paulo: Brasiliense, 1985 (v. 1), 1986 (v. 2 e 3).
64 • Introdução à Psicologia da Educação
pedagógicos, não sem se apoiar em princípios científicos relativos ao
conhecimento da criança e do meio onde se desenvolve.
O Projeto Langevin-Wallon é o retrato de seus ideais de homem,
sociedade e educação. Chamado a assumir esse projeto de reformu
lação do sistema educacional francês, após a morte de Paul Langevin,
em 1946, Wallon pôde expressar sua opção por uma sociedade carac
terizada pela democracia e pela justiça social. Para isso, o projeto
previa transformações na estrutura e no funcionamento do sistema
escolar, oferecendo também sugestões sobre métodos de ensino.
A teoria psicogenética de Wallon revela-se de grande importân
cia para a educação. Em primeiro lugar, porque compreende a criança
completa, o que implica a necessidade de uma prática pedagógica que
dê conta dos aspectos intelectual, afetivo e motor integrados, sem privi
legiar o cognitivo, fazendo com que a escola deixe de ser um espaço
meramente instrucional para tornar-se lugar de desenvolvimento da
pessoa. Esse desenvolvimento responde ao plano biológico em inte
ração com o plano social: a criança concreta tem história, faz parte de
um grupo social, traz consigo elementos da cultura em que está
inserida. Além disso, a criança contextualizada apresenta característi
cas específicas em seu desenvolvimento.
O modelo escolar tradicional tem como objetivo disciplinar,
homogeneizar. As atividades propostas pouco significam para o pro
cesso de desenvolvimento e aprendizagem de qualquer criança, para
sua constituição como pessoa. Além disso, por se repetirem indefini
damente para qualquer grupo, revelam o caráter universal e a-históri-
co com o qual foram elaboradas, desconsiderando o contexto e a sin
gularidade de cada criança. Em outras palavras, nelas predomina uma
visão adultocêntrica da infância. Entretanto, diz Wallon: “A criança
só sabe viver a sua infância. Conhecê-la pertence ao adulto. Mas o
que vai prevalecer nesse conhecimento: o ponto de vista do adulto ou
o da criança?” (Wallon, 1998, p. 27)
Uma proposta que considere a teoria de Wallon privilegiará a
observação atenta das crianças, de tal modo que seja possível reco
nhecer as mudanças de objetivos de sua conduta, em diferentes ida
des e situações. No contexto de sua psicologia, uma prática pedagógi
ca adequada será aquela que promova relações entre a criança e o meio
humano e físico, incluindo aí o conhecimento, reconhecendo que se
modificam reciprocamente. O meio é o campo da atividade da criança,
ao mesmo tempo em que dele retira recursos para sua ação. Cada etapa
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e (ontextualizada I 6S
do desenvolvimento define um tipo particular de relação com o meio.
Se, ao nascer, a criança volta-se para o meio humano, por meio dele
voltar-se-á para o mundo físico, adquirindo recursos cada vez mais ela
borados para interagir com a cultura em que está inserida.
A teoria de Wallon, marcada pela visão de que a configuração
social é a primeira instância doser humano e que é num processo de
interação social que se constitui o “eu”, num processo gradual e con
tínuo, revela-se de grande atualidade se colocada em interlocução com
textos contemporâneos, produzidos em estudos da Sociologia da In
fância, área que constitui importante marco para compreender a crian
ça como sujeito que estabelece relações sociais concretas, afetando e
sendo afetado pelas interações com os adultos e com seus pares, desen
cadeadas nos espaços escolares e domésticos.
Nos grandes centros urbanos, a rotina cultural experimentada, apro
priada e reinventada pela criança apresenta aspectos dos contextos es
colares e domésticos, estruturais e funcionalmente diferentes, onde são
estabelecidas as relações socioculturais. As experiências vividas com
seus pares, fora de casa, em creches e escolas, vão constituir outras
referências para elas. Serão os diferentes adultos, mas, principalmente,
as várias crianças, com as quais vão conviver cotidianamente, ao longo
de muitas horas, que vão oferecer elementos para a constituição de uma
singularidade. O processo de humanização se concretiza nos meios e
nos grupos que a criança frequenta. Segundo Wallon, “o meio é um
complemento indispensável ao ser vivo” (1986, p. 168).
Entrar em contato com a obra de Wallon, ainda que a comple
xidade de seus textos o mantenha como um autor “alternativo”, pou
co divulgado e pouco compreendido, significa descobrir outras
possibilidades de reflexão sobre seus textos, novas leituras sobre o de
senvolvimento infantil e, sobretudo, uma maneira original de pensar
a Psicologia.
Exercícios
1) Pensar a criança completa, concreta e contextualizada significa
abrir mão do caráter universal e a-histórico do desenvolvimento.
Wallon construiu sua teoria sobre essa base. Como você poderia
justificar a escolha feita por ele?
66 • Introdução à Psicologia da Educação
2) Wallon descreve o desenvolvimento infantil como uma construção
progressiva, em que se sucedem períodos com predominância alter-
nadamente afetiva e cognitiva. A que correspondem as atividades
predominantes em cada etapa?
3) De acordo com a teoria walloniana, o fundamento do psiquismo é
a emoção, que opera a passagem do mundo orgânico para o social.
A partir desse pressuposto, discuta:
• O que caracteriza essa passagem?
• Qual o papel do meio humano no processo?
4) A inteligência pode ser caracterizada de diferentes maneiras, ao
longo do desenvolvimento da criança, segundo Wallon. Uma de
las é o pensamento sincrético, presente entre os três e os seis anos
de idade. Como você o explica?
5) Ainda entre os três e os seis anos de idade, a grande tarefa da crian
ça é a construção do “eu”. Nesse sentido, a construção do objeto
deve estar a serviço da construção do sujeito e não o contrário.
Por quê?
6) Observando crianças de aproximadamente dois anos de idade,
registrou-se a seguinte cena:
Aproximando-se de novo do espelho, J. (20 meses) “fala” com
ele. Olha, abre a boca, ergue braços, ergue roupa, olha sua barriga
e a barriga no espelho. Encosta o rosto no espelho e “fala” de
novo. Aproxima-se e distancia-se. Ri, faz careta, se mexe e sai do
espelho.
Discuta seu significado no processo de consciência de si.
7 ) Vendo imagens do grupo de crianças ao qual pertence, filmadas
em dias anteriores, L. (33 meses), parecendo entusiasmada com a
própria imagem, identifica-se espontaneamente como L., utilizan
do a terceira pessoa para referir-se a si mesma. Em seguida diz
“Sou eu! Sou eu!”. Como você explica essa situação?
8) Exigir que a criança pequena fique sentada, parada, impede-a de
pensar. Relacione essa afirmação com o pensamento ideomotor.
9 ) Qual é o papel da imitação no desenvolvimento da criança?
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contextualiiada I 67
O bras
Uma bibliografia completa das publicações de Wallon e sobre
Wallon, em francês, pode ser encontrada em ZAZZO, R. Henri
Wallon: psicologia e marxismo. Lisboa: Vega, 1978, p. 183-209.
Cronologia e bibliografia são também encontradas em WEREBE,
M. J. G. & NADEL-BRULFERT, J. (orgs.) Henri Wallon. São Paulo:
Ática, 1986 (Coleção grandes cientistas sociais, 52), p. 31-36 e
GALVÃO, 1. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvi
mento infantil. Petrópolis: Vozes, 1995, p. 123-131.
Apresento a seguir seus livros mais conhecidos:
L 'enfant turbulent (1925)
Mostra o resultado da observação de 200 crianças com síndromes
psicomotoras e se configura no ponto de partida para a elaboração
de sua teoria. Apresenta os períodos impulsivo-emocional, sensó-
rio-motor, projetivo, personalista e a teoria da emoção.
As origens do caráter na criança (1934, 1995l0)
Conjunto de cursos ministrados, entre 1921 e 1931, na Sorbonne.
Descreve a criança nos três primeiros anos de vida, destacando
seu comportamento emocional, a individualização do próprio cor
po e a formação da consciência de si como processos paralelos e
complementares do desenvolvimento nessa faixa. Detalha a teoria
da emoção no início do desenvolvimento e seu papel biológico
(tônus) e social (primeira forma de comunicação).
A evolução psicológica da criança (1941, 1998)
Apresenta os princípios do desenvolvimento (oposição/conflito/ne-
gação, alternância e integração) e aborda cada campo funcional.
Do acto ao pensamento (1942, 1966)
Aborda a origem motora do ato mental, apresentando a interde
pendência entre o motor e o intelectual.
10 A primeira data refere-se à publicação original; a segunda, à edição em português.
68 • Introdução à Psicologia da Educação
As origens do pensamento na criança (1945, 1989)
Reúne entrevistas e diálogos entre crianças de cinco e nove anos,
destacando as características do pensamento sincrético, o conflito
entre o discursivo (verbal) e o emocional (pré-verbal) e os níveis da
linguagem: linguagem tônica (reação ao som, não ao conteúdo), sen-
sório-motora (musical: rima, ritmo), semântica.
R eferências
DANTAS, lleloysa. A infância da razão: uma introdução à psicologia da inteli
gência de Henri Wallon. São Paulo: Manole, 1990.
TRAN-THONG. Estádios e conceito de estádio de desenvolvimento da criança
na psicologia contemporânea. Porto: Afrontamento, 1967, Segunda Parte, Capí
tulo Primeiro, p. 159-264.
WALLON, Henri. Do acto ao pensamento. Tradução de J. Seabra-Dinis. Lisboa:
Portugália, 1966. (Colecção Problemas, 10)
_______ Níveis e flutuações do eu. In: Objectivos e métodos da psicologia.
Lisboa: Estampa, 1975, p. 153-172.
_______ Psicologia e educação da criança. Tradução de Ana Rabaça e Calado
Trindade. Lisboa: Editorial Veja, 1979.
_______ As origens do pensamento na criança. Tradução de Doris Sanches
Pinheiro e Fernanda Alves Braga. São Paulo: Manole, 1989.
_______ As origens do caráter na criança. Tradução de Heloysa Dantas de
Souza Pinto. São Paulo: Nova Alexandria, 1995.
_______ A evolução psicológica da criança. Tradução de Cristina Carvalho. 2.
ed. Lisboa: Edições 70, 1998. (Nova Biblioteca, 70)
ZAZZO, René. Henri Wallon: psicologia e marxismo. Lisboa: Vega, 1978.
Bibliografia de A poio
DANTAS, Heloysa. A afetividade e a construção do sujeito na psicogenética de
Wallon. In: LA TA1LLE, Yves de. Piaget, Vygotsky, Wallon: teorias
psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992, p. 85-98.
C a p ítu lo II • A Criança Concreta, Completa e Contextualizada I 69
GALVÃO, Izabel. Uma reflexão sobre o pensamento pedagógico de Henri
Wallon. Idéias. São Paulo: FDE, n. 20, p. 33-40, 1993.
----------- Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil.
Petrópolis: Vozes, 1995.
----------- O espaço do movimento: investigação no cotidiano de uma pré-escola
à luz da teoria de Henri Wallon. São Paulo, 1992. Dissertação (Mestrado em
Educação). Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
MAHONEY, Abigail A. & ALMEIDA, Laurinda R. (orgs.) Henri Wallon: psico
logia e educação. São Paulo: Loyola, 2000.
MARTINET, M. Teoria das emoções: introdução à obra de Henri Wallon. Lisboa: Moraes, 1981.
MERANI, Alberto L. Psicologia e pedagogia: as idéias pedagógicas de Henri
Wallon. Lisboa: Editorial Notícias, 1977.
NASCIMENTO, Maria Letícia B. P. Corpo e fala na constituição do eu: investi
gação sobre o prelúdio da pessoa em creche pública. São Paulo, 1997. Dissertação
(Mestrado em Educação). Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo.
VASCONCELLOS, Vera M. R. Wallon e o papel da imitação na emergência de
significado no desenvolvimento infantil. In: PEDROSA, M. I. et al. (org.) Inves
tigação da criança em interação social. Recife: UFPE, 1996, p. 33-47. (Coletâ
neas da ANPEPP, v. 1, n. 4)
WALLON, Henri. O papel do outro na consciência do eu. In: WEREBE, M. J. G.
& NADEL-BRULFERT, J. Henri Wallon. São Paulo: Ática, 1986, p. 158-167.
----------- Os meios, os grupos e a psicogênese da criança. In: WEREBE, M. J. G.
& NADEL-BRULFERT, J. Henri Wallon. São Paulo: Ática, 1986, p. 168-178.
WEREBE, Maria José G. & NADEL-BRULFERT, Jacqueline (orgs.) Henri
Wallon. São Paulo: Ática, 1986. (Coleção grandes cientistas sociais, 52)
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A Psicanálise
e a Educacão
Lacaniana
Freud sempre foi muito zeloso na difusão de sua teoria e de sua
técnica psicoterapêutica. Quando suas idéias começaram a despertar
interesse, formou um grupo de estudos que se reunia em sua própria
casa, em Viena, às quartas-feiras. Rapidamente o movimento cresceu,
passando a atrair profissionais de outros países, culminando, em 1910,
com a fundação da Sociedade Internacional de Psicanálise (SIP). Freud
mantinha-se atento às colaborações de seus discípulos, selecionando e
filtrando aquilo que considerava adequado ao desenvolvimento de sua
teoria, procurando preservar os postulados centrais da Psicanálise.
Diferentemente de outras teorias, a Psicanálise não se desenvol
veu nem se difundiu por intermédio da universidade, mas pelas asso
ciações de psicanalistas que, ainda hoje, muito bem organizadas como
uma rede mundial, detêm o controle do desenvolvimento dessa ciên
cia e da formação de novos profissionais. É claro que o grande suces
so da Psicanálise no mundo ocidental, como teoria e prática psicote
rapêutica, suscitou todo um jogo de interesses e poder no interior do
movimento psicanalítico, desde a época de Freud, gerando conflitos,
desavenças e disputas pelo controle desse cobiçado arsenal teórico e do
precioso naco do mercado das psicoterapias. Nesse palco de disputa e
de jogo de poder, muitos foram afastados, expulsos ou se desligaram da
Psicanálise oficial, fundaram suas próprias escolas e conseguiram bri
lhar por conta própria, como ocorreu com Jung, Adlcr e Reich. As
disputas, os expurgos e as desíiliações sempre foram justificados como
72 • Introdução à Psicologia da Educação
tendo sido produzidos por divergências quanto ao cerne do legado de
Freud: eram comuns acusações de heresia e desvios em relação aos
ensinamentos centrais do Mestre, no embate entre as forças adversá
rias que periodicamente surgiam no interior da organização. O argu
mento de traição e deturpação das teses de Freud e a consequente
alegação da necessidade de se resgatarem os tesouros originais deixa
dos por sua obra ganharam bastante espaço e converteram-se na prin
cipal justificativa tanto para as deserções e rupturas como para a fun
dação de outros grupos e associações.
Jacques Lacan foi um desses discípulos rebeldes que provoca
ram incômodos razoáveis nos detentores do comando da SIP, a partir
dos anos 50, marcando profundamente a psicanálise francesa. Ele
esteve sempre ativo e envolvido nos principais debates deflagrados
em torno de questões teóricas, da formação de novos analistas e do
funcionamento da associação. Ingressou no movimento psicanalítico
professando a necessidade do retorno a Freud, segundo ele, para não
deixar morrer a tradição da “peste”, ou seja, um certo caráter de per
turbação, incômodo e subversão do instituído que, de acordo com o
próprio Freud, seria inerente à Psicanálise e se alastraria por onde
quer que passasse.
A chegada de Lacan produz abalos sísmicos no edifício psicanalí
tico, sacudindo tanto a teoria quanto as instituições gerenciadoras do
legado de Freud. Sua figura, sempre polêmica, é também disparadora
ou foco de outros sismos na própria sociedade que funda em torno de si
e de suas idéias. A primeira dissidência de Lacan ocorre em 1953, quan
do, com vários outros psicanalistas, abandona a Sociedade Psicanalí-
tica de Paris, filiada à SIP, e juntos fundam a Sociedade Francesa de
Psicanálise (SFP) como uma organização independente.
Dez anos depois, a nova sociedade será também abalada por um
grande impasse. Em função de interesses diversos, surge na SFP a
intenção de filiar-se à SIP; porém, tal pretensão esbarra na exigência,
por parte desta última, de que Lacan seja excluído da lista dos analis
tas didatas. A maioria aceita tal imposição e Lacan acaba sendo ex
pulso em 1963. No ano seguinte, cria sua própria entidade: a Escola
Freudiana de Paris.
Não tardará muito para que novas questões teóricas e divergên
cias profundas sobre a formação gerem outras dissidências. Em 1969,
Lacan encabeça a defesa de uma proposta de formação de analistas
relativamente diferenciada da tradicional, conferindo maior autono
mia aos candidatos e gerando uma crise de tal monta que acabou por
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educação I 73
provocar, em 1969, a saída de um grupo de psicanalistas da escola
por ele dirigida. Os dissidentes fundam o Quarto Grupo, em alusão ao
número de fracionamentos do movimento psicanalítico francês. Po
rém, o gesto mais contundente ocorre em 1980, quando Lacan, tam
bém no meio de uma crise, dissolve sua escola para criar outra, a
Escola da Causa Freudiana, que perdura até hoje.
O propalado retorno a Freud, significando a correção de desvios
desvirtualizadores da sua obra, atribuídos a seus discípulos, será insis
tentemente afirmado como a principal finalidade do movimento
lacaniano e constituir-se-á no grande mote de atração de novos adep
tos. A bandeira ou o projeto científico de retomo a Freud organizará
todo o movimento lacaniano, que rapidamente ganhará expressão sig
nificativa, primeiro no círculo da intelectualidade e da psicanálise fran
cesa, depois no cenário de outros países, inclusive da América Latina,
despontando primeiro na Argentina e posteriormente no Brasil.
Lacan, psiquiatra com certo prestígio na França, frequentador dos
círculos de intelectuais (filósofos, artistas e cientistas) de sua época,
concluiu em 1933 sua tese de doutorado sobre as relações da paranóia
com a culpa, analisando casos clínicos marcados por tentativas de
homicídio ou pela presença de temas sociais no núcleo do delírio.
Demonstrava já sua capacidade de interligar temas clássicos da Psi
quiatria (a paranóia) a preocupações de outras áreas do conhecimen
to, como a Sociologia. Afirma, por exemplo, nesse trabalho, que a
diferença entre uma paranóica como Aimée - nome dado a um caso
clínico de uma mulher que acaba confinada num manicômio judiciá
rio após tentar assassinar uma atriz famosa por sentir-se ameaçada e
perseguida por ela - e de um como Rousseau, já que também era
reconhecido como um paranoico, é que o segundo conseguiu acesso
aos meios sociais de comunicação e assim pôde colocar sua produção
delirante no circuito do saber e lapidar suas visões de mundo no uni
verso da intelectualidade oficial, conquistando, dessa forma, reconhe
cimento e legitimidade para suas impulsões delirantes.
Observa-se nesse trabalho a preocupação com a agressividade, a
destrutividade, a psicose, a identificação, o espelhismo e a lingua
gem, que acompanhará seus desenvolvimentos teóricos posteriores,
mas, sobretudo, evidencia-se aí uma inquietação e uma atração pelo
insólito, pelo incomum e pelo incompreensível, tal como se apresenta
0 gesto homicida de Aimée tentando ferir a atriz com uma navalha.
A leitura de Freud porLacan será profundamente marcada pela
1 mguística, substituindo o clássico modelo biológico presente na base
74 • Introdução à Psicologia da Educação
da fundação da Psicanálise pelo modelo antropológico-cultural. As
sim, o inconsciente - conceito central na teoria psicanalítica - passa
a ser entendido não como uma instância psicológica localizada no
ponto de contato entre o somático e o psíquico, mas como estruturado
pela linguagem e na relação do sujeito com o “Outro”.
Dessa forma, o inconsciente nascería da inscrição do sujeito na
linguagem, inscrição essa dada pelo contato com seus semelhantes e
por sua inserção na cultura, ou seja, no universo dos signos, das sig
nificações, num mundo codificado, constituído fundamentalmente por
significantes - sons, imagens visuais, olfativas, táteis; enfim, aquilo
que transporta significados (idéias, conceitos e representações). Os
significantes, por sua vez, não produzem significação por uma sim
ples associação a um significado convencionado pela cultura, mas sim
por suas articulações com outros significantes, dentro de uma cadeia
instituída pelas regras da linguagem. Por exemplo, uma palavra não
significa por si mesma, mas pelo lugar que ocupa na frase, ou seja,
pela relação que estabelece com outras palavras dentro das regras
gramaticais de uma dada língua. Os significantes mais importantes,
na acepção lacaniana, são aqueles que aparecem abruptamente, ou
irrompem involuntariamente, sem controle ou sem o comando da
consciência, como o que acontece, por exemplo, nas expressões de
falhas ou erros da memória, quando nos esquecemos do nome de uma
pessoa conhecida ou quando trocamos palavras.
O inconsciente, portanto, não se circunscreve num lugar deter
minado no interior do aparelho psíquico, delimitando a fronteira en
tre o somático e o psíquico ou recobrindo representações primitivas
dos impulsos instintivos; não é um conceito topográfico, mas um con
ceito dinâmico referido à linguagem, alusivo àquilo que no ser falante
resta por dizer, que permanece nas entrelinhas ou no não dito. Con
forme assinala Nasio (1993, p. 22):
...o inconsciente é um processo ativo, que não para de se
exteriorizar através de atos, acontecimentos ou palavras que
reunam as condições definidoras do significante, a saber: ser
uma expressão involuntária, oportuna, desprovida de sentido e
identificável como um acontecimento ligado a outros aconteci
mentos ausentes e virtuais.
Nessa ânsia de se exteriorizar, o inconsciente se deixa captar por
toda sorte de possibilidades oferecidas pela linguagem, como as re
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana o a Eilucacao I /'»
presentações por semelhanças - metáfora - e as representações por
contiguidade - metonímia. A linguagem do inconsciente, tal como
aparece no sonho, por exemplo, é extremamente simbólica, a ponto
de não conseguirmos decifrá-la inteiramente. A linguagem simbólica
do inconsciente admite a condensação - a reunião de vários significa
dos numa mesma imagem - e o deslocamento - a substituição de
imagens na expressão de um significado ou o uso de uma parte para
representar o todo.
Mas, além de ser o celeiro do simbolismo, o inconsciente é tam
bém o manancial da busca do “outro”, de alguém ou de alguma coisa
onde possa efetivamente produzir sentido. Não há um inconsciente
propriamente individual. Enquanto linguagem, as produções do in
consciente estão sempre referidas a um “outro”, estarão sempre
dirigidas a um destinatário e cunhadas pela presença desse outro no
discurso. Na verdade, o inconsciente não está nem no indivíduo nem
fora dele, mas exatamente no espaço da relação que se estabelece entre
o “Eu” e o “Outro”.
A noção do nascimento do inconsciente não no biológico mas na
cultura, no contato do sujeito com o “Outro”, mediado pela linguagem,
é uma das principais contribuições da teoria lacaniana à Psicanálise.
I l l . l A Linguagem e a Cultura na Constituição do Sujeito
“A vaca sabe ser vaca. Mas o homem precisa de bula para ser
homem.” Essa afirmação de Jorge Forbes, um eminente psicanalista
lacaniano brasileiro, em entrevista dada à revista IstoE (2003, p. 45),
sintetiza algo essencial da condição humana: a necessidade do Outro.
O animal vive movido pela convicção de seus instintos, que não relu
tam em dar respostas rápidas, automáticas e eficazes a um estímulo
interno ou externo.
Os instintos dos animais não vacilam diante das estimulações,
dispondo de respostas prontas e acabadas a tudo aquilo que, vindo do
meio ambiente ou do interior do organismo, os afeta gerando algum
incômodo ou produzindo um estado de excitação. Os animais não são
tomados por vacilações quando afetados por algum acontecimento do
seu meio nem se consomem em dúvidas “existenciais”. O animal sabe
comer quando tem fome, sabe se defender quando está em perigo,
sabe procurar um parceiro para se acasalar; enfim, dispõe de um re
76 • Introdução à Psicologia da Educação
pertório de comportamentos, a maioria herdados, que o habilitam para
a vida. Tal repertório é fixo na espécie e a homogeneidade dos com
portamentos, derivada da herança, caracteriza a identidade da espécie
no plano comportamental. Assim, uma vaca sabe ser uma vaca. Pos
sui todos os padrões de conduta de sua espécie, sabe que alimento
buscar, o que fazer para atrair um macho e assim por diante. A vaca
não se detém diante da famosa dúvida ontológica: “Ser ou não ser?”
Com o homem se passa algo totalmente diferente. Quando vem
ao mundo, não sabe o que é, nem tem à sua disposição algum meca
nismo biológico que lhe dê, por herança e sem a necessidade de algu
ma forma de apropriação, os recursos comportamentais mínimos para
a sobrevivência. O homem não vem ao mundo com um registro, já
dado no seu organismo, de como se defender, buscar o semelhante,
associar-se, reproduzir, proteger a prole, amar e assim por diante.
Todos aqueles comportamentos que aparecem espontaneamente nos
animais, sem a necessidade de uma aprendizagem, nos homens são
insuficientes para o enfrentamento de toda a complexidade que o ca
racteriza. São poucos os comportamentos instintivos no homem, re-
sumindo-se praticamente aos primeiros reflexos que operam no início
da vida, como o da sucção.
O fato de o homem não ter a parte principal de sua conduta de
terminada pela herança biológica o torna capaz de criar, inventar e
ser agente de sua própria história. O não saber inicial do homem pro
piciará um saber praticamente ilimitado a ser construído ao longo de
sua história. Será justamente a falta de um saber pronto sobre sua
existência que o lançará à busca desenfreada do conhecimento.
É importante considerar algumas diferenças inscritas na consti
tuição da natureza “instintiva” do homem e dos outros animais. Se é
certo que os homens, como os outros animais, dispõem de algumas
orientações inatas que impulsionarão sua conduta desde o início da
vida, é certo também que tais instintos possuem características espe
cíficas quando referidos ao ser humano. A principal especificidade
reside no fato de que no homem tais instintos são plásticos, flexíveis,
podendo ser modificados com a experiência, enquanto no restante dos
animais são mais fixos e estereotipados, admitindo pouca ou nenhu
ma modificação ao longo da vida ou do processo de desenvolvimento
tanto filo como ontogenético. Vale dizer: a espécie humana modifica
substancialmente suas disposições inatas, assim como cada indivíduo
também o faz ao longo de sua vida, enquanto os outros animais man
têm seus padrões herdados de comportamento, com maior rigidez,
tanto na história da espécie como no curso da vida de cada indivíduo.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educa<m» I 77
Os “instintos” humanos são bastante flexíveis quanto aos obje
tos a que visam, quanto aos próprios objetivos e quanto à parte do
corpo mobilizada na busca de gratificação. Um rápido olhar sobre as
necessidades básicas dos organismos vivos permite visualizarclara
mente os diferentes graus de flexibilidade instintiva entre as espécies.
E claro que a escala filogenética ou o grau de evolução das espécies
em relação à capacidade de aprendizagem e transformação exigiría
um exame mais detalhado da questão da maleabilidade dos instintos
ou quanto ao papel da aprendizagem na formação de condutas e hábi
tos. Para os nossos propósitos, no momento, tomaremos o homem
numa categoria e o restante dos animais em outra, sabendo, entretan
to, que nessa segunda categoria existem diferenças respeitáveis quan
to ao grau.
Resguardadas as devidas ponderações, é possível verificar que
os “instintos” humanos são bastante flexíveis em relação aos objetos
que elegem para a realização de sua finalidade última: a remoção da
excitação ou a satisfação da necessidade. Mesmo tomando disposi
ções instintuais mais elementares e rígidas do homem, como a fome,
é possível constatar que ele consegue se valer de uma infinidade de
objetos para realizar essa necessidade, removendo a excitação por ela
produzida. Por isso mesmo, encontramos nas diferentes culturas há
bitos alimentares distintos, assim como observamos entre os indiví
duos de cada cultura uma enorme variação da preferência alimentar.
No campo da sexualidade tal flexibilidade é ainda maior. O ser huma
no praticamente não tem limites para eleger os objetos de sua sexua
lidade, como podemos observar nas eleições mais estranhas e exóti
cas, como o caso da necrofilia - escolha de cadáveres como objetos
sexuais. Ocorre a mesma coisa quanto aos objetivos ou ao tipo de
relacionamento estabelecido com os objetos. A oscilação entre passi
vidade e atividade pode ocorrer com qualquer desejo e, ainda, finali
dades variadíssimas podem ser estabelecidas como intenção da busca
do objeto. Por exemplo, a sexualidade pode assumir como finalidade
o propósito de dominar o objeto (finalidade ativa) ou submeter-se a
ele (finalidade passiva); humilhá-lo, infligir-lhe dor ou ser humilhado
e castigado; observar, contemplar ou ser observado e admirado. As
zonas erógenas também migram, podendo, a rigor, catalisar qualquer
parte do corpo, embora algumas, como boca, ânus e órgãos genitais
ocorram com maior frequência.
Nos outros animais, objetos, objetivos e zonas erógenas são muito
mais fixos, estabelecendo um padrão na espécie. Os órgãos genitais
78 • Introdução à Psicologia da Educação
característicos de cada espécie assumem a primazia como zonas
erógenas, assim como um outro indivíduo da mesma espécie é geral
mente eleito como objeto preferencial e a cópula, a serviço da fecun
dação, comumente se estabelece como objetivo único.
Porém, o mais surpreendente, no caso do ser humano, é a possibi
lidade de surgirem condutas contrárias às exigências pulsionais. Como
destaca Reich (1975), o ser humano é capaz de contrariar as demandas
de suas pulsões a ponto de renunciar completamente à sua satisfação
ou exceder-se na busca do prazer. Consegue, por exemplo, não comer
quando está com fome ou, inversamente, comer exageradamente mes
mo estando sem fome. Consegue “não transar” quando está com desejo
ou, inversamente, “transar” compulsivamente, buscando o prazer além
das demandas pulsionais. No caso dos animais, há uma maior adequa
ção entre a necessidade e as buscas de satisfação.
O ser humano possui essa intrigante capacidade de se reprimir,
significando aqui a repressão não simplesmente à abstenção da reali
zação de um desejo - o que os animais também fazem quando con
têm um impulso por medo de um castigo mas também à sonegação
de uma representação que impede a consciência de tomar conheci
mento do desejo e, assim, poder propiciar alguma satisfação.
No ser humano a pulsão, enquanto representação mental, enquan
to fenômeno psicológico, assume autonomia em relação ao biológico,
abrindo caminho para as variações quanto aos objetos, objetivos, zo
nas erógenas e grau de realização de um desejo. Justamente essa
plasticidade da pulsão possibilita ao homem criar representações, ins
tituir-se como ser da linguagem, vislumbrar alternativas, descolar-se
dos determinismos das necessidades biológicas brutas e, assim, ser
alçado à condição de sujeito produtor de cultura.
Mas, se por um lado a capacidade de produzir representações
acerca de si e do seu mundo e de subjetivar a realidade permite ao
homem a condição de sujeito, por outro o coloca como refém da cul
tura, num lugar inicial de não saber, um não saber que não diz respei
to apenas ao mundo externo, mas também, e principalmente, a si
mesmo, ao seu próprio desejo. Aliás, sendo o desejo uma representa
ção, algo que alude a um possível e que surge precisamente porque o
aparelho psíquico não consegue prover um encontro radical entre a
necessidade e o objeto, jamais um desejo conseguirá preencher total
mente a falta que ele denuncia. O próprio do desejo é denunciar uma
falta, impelindo o sujeito a uma busca que, porém, jamais será preen
C a p itu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Eduuicuo I /«/
chida totalmente. O projeto humano de busca da felicidade, entendi
da como a realização plena dos desejos, está fadado ao fracasso, pelo
menos enquanto busca da plenitude ou do paraíso. Portanto, se o ho
mem enquanto animal desejante inaugura-se como sujeito, paga o
preço da infelicidade ou do sofrimento psíquico potencializado pelas
condições sociais que ampliam sobremaneira as restrições ao gozo ou
o direcionam para propósitos alheios, instituídos por uma ordem po
lítica e econômica alienadora.
Se as necessidades dos animais indicam claramente as faltas, pres
crevendo os objetos e objetivos, o ser humano, por sua vez, vê-se às
voltas com a falta, porém sem ter de antemão a indicação exata de como
preenchê-la. E justamente essa busca de decifração das faltas que inau
gura o desejo, sinalizando as possibilidades de encontro ou reencontro
de algo que possa apaziguar a ansiedade do sentimento de incompletude.
Não possuindo um saber prévio, como o da vaca, o homem precisa
conquistá-lo ou produzi-lo em contato com os outros. Dessa condição
de conviver com os semelhantes advêm a metáfora da bula.
Ele precisa encontrar a prescrição de sua existência no mundo e,
como o biológico não lhe dá a receita ou a bula, terá que procurá-la
no contato com os outros. Tal como no caso dos remédios, a bula
contém a composição do sujeito (quem ele é ou o que se pretende que
ele seja), as indicações de uso (seu lugar e função no mundo), o modo
de usar (como agir, desejar) e até mesmo os efeitos colaterais (riscos
decorrentes de sua presença no mundo).
A herança do ser humano, portanto, não é uma herança biológi
ca, mas cultural. Não são os comportamentos herdados ou inatos que
direcionarão a conduta do homem ao longo de sua vida, mas as he
ranças culturais, igualmente determinantes, porém que permitem sua
metabolização pelo sujeito.
Uma característica importante das heranças culturais é que, dife
rentemente das biológicas, elas não são autorreveladoras, não estão
anunciadas e nem se realizam automaticamente por meio do sujeito.
Hanna Arendt (1972) coloca sabiamente essa especificidade da cultu
ra ao utilizar um aforismo para enunciar o caráter silencioso dos le
gados que cada geração deixa para as outras. Diz cia: “Nossa herança
nos foi deixada sem nenhum testamento”. A autora utiliza esse
aforismo para analisar a situação dos intelectuais franceses que se
filiaram à resistência, durante a ocupação nazista, ocorrida na Segun
da Guerra Mundial. Segundo ela, os intelectuais que participaram da
80 • Introdução à Psicologia da Educação
resistência detiveram em suas mãos um precioso tesouro, a visão de
liberdade pública, mas não conseguiram sequer reconhecê-lo plena
mente e muito menos nomeá-lo, dar-lhe um nome e, assim, poder
transmiti-lo às gerações seguintes.
Esse fracasso na transmissão dos legados que uma geração deixa à
outra não é uma especificidade desse episódio particular da história,
mas algo próprio da transmissibilidadedas conquistas de uma geração
a outra. Isso porque, primeiro, os tais tesouros ou legados, lutas e rea
lizações de cada geração não são plenamente reconhecíveis em seu
devido valor pela própria geração que os produz. Tais realizações, na
verdade, expressam sonhos, miragens e por isso mesmo não têm como
ser compreendidas diretamente, expressas e transmitidas em uníssono.
Além dessa dificuldade intrínseca à nomeação dos tesouros para
a própria compreensão daqueles que os detêm, e para sua transmis
sibilidade para os herdeiros, existem os bloqueios ou as censuras de
correntes das forças sociais contrárias aos ideários de certos tesou
ros, para as quais não interessam nem sua elucidação nem sua passa
gem para a história.
Esse fenômeno das heranças não atestadas, tomado no plano
macrossocial da história da civilização ou no plano microssocial e
psicológico do processo de desenvolvimento do indivíduo, pode ser
claramente visualizado quando nos interrogamos sobre o que nossa
geração procurou realizar no plano político e o que deixou de suas
realizações para as gerações posteriores, ou mesmo quando nos inter
rogamos sobre as heranças psicossociais que rondam nossa trajetória
de vida pessoal. De quais legados culturais somos herdeiros enquanto
geração e o que estamos deixando para as seguintes? O que herdamos
dos sonhos e realizações de nossos pais e o que estamos projetando
nos nossos filhos? Quais tesouros estamos usufruindo e repassando
para nossos filhos, com alguns enriquecimentos? Quais dívidas
estamos pagando e quais outras estamos deixando a nossos herdei
ros? O essencial dessa herança, seja um bem ou uma dívida, não é
propriamente o valor ou o peso que possa representar para o herdeiro,
mas sim o fato de ela estar ou não atestada, isto é, nomeada e
esclarecida tal como num testamento clássico de bens onde tudo que
está sendo deixado está devidamente indicado, nomeado e destinado
a cada herdeiro. A ausência do testamento impede o herdeiro de saber
o que está recebendo e o que pode fazer para utilizar os tesouros rece
bidos ou saldar as dívidas que recaem sobre ele.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educa^uo I Al
No plano ontogenético, poderiamos entender a metáfora da he
rança não atestada como aquela que é transmitida silenciosamente,
nas entrelinhas, aquela que se incrusta no inconsciente, no não dito. A
herança sem testamento, no plano psicológico, inclui as expectativas
dos pais, seus desejos em relação aos filhos, suas intenções em relação
a eles, os sonhos e os projetos que lhes são destinados e que nem se
quer são totalmente reconhecidos pelos próprios pais. Essa herança está
ali, como uma bula, indicando desejos, formas de ser, agir, prevendo
destinos, formatando o sujeito sem que, também à semelhança de uma
bula, o texto esteja escrito em letras grandes e legíveis.
Hanna Arendt (1972) coloca como condição fundamental para a
constituição do sujeito sua apropriação do passado, a posse da heran
ça e dos legados deixados pelas gerações anteriores, entendendo essa
possibilidade de apropriação como uma busca ativa na qual tais te
souros possam ser apreendidos, renomeados, ressignificados e postos
a serviço da orientação do sujeito no seu tempo.
Os tesouros, como visagens de uma geração, não estariam pron
tos e lapidados, mas necessitariam de um acabamento por parte de
quem os construiu, como também precisariam ser reconstruídos por
aqueles que os herdaram. O pensamento e a linguagem funcionariam
aí como uma peça fundamental. Por intermédio deles é que tanto o
acabamento da experiência como sua transmissão seriam possíveis.
Refletir a experiência, dar-lhe significados, movimentá-la para o pas
sado e para o futuro, contá-la e recontá-la seriam tarefas indispensá
veis para a apropriação e a transmissão da herança. A “bula cultural”,
portanto, para funcionar como um tesouro teria que estar devidamen
te lida pela geração que a construiu e usou e relida por aquelas a quem
foi transmitida. Mais ainda, conforme a autora, fatos isolados de seu
contexto perdem seu sentido e, no máximo, são registrados pela me
mória como acontecimentos desconexos, desprovidos de significação.
Portanto, não apenas os eventos, mas o contexto geral que lhes dá
significação constitui o bem mais precioso da herança. Não se trata
apenas de ter acesso a fatos isolados, mas aos sentidos dados por suas
disposições no discurso que os capta e transmite.
Juntando a afirmação primeira de que o homem precisa de bula
para saber ser homem com o aforismo utilizado por Hanna Arendt
(1972), segundo o qual “nossa herança foi deixada sem testamento”,
concluímos que o ser humano precisa de uma bula, mas que essa bula
está ilegível. O acesso à herança - a inteligibilidade da bula - é con-
82 • Introdução à Psicologia da Educação
tlição indispensável para a constituição do sujeito. Sem uma apropria
ção ativa dos legados destinados ao sujeito, do acervo que lhe foi dei
xado e que persegue seu caminho, não há como ele redirecionar a rota
que lhe foi prescrita pela herança e, assim, instituir-se como participan
te de sua própria história de vida. A apropriação dessa herança só é
possível pela da linguagem - por atos que nomeiem o que foi destina
do ao sujeito, que indiquem o cenário e as intenções que cercam sua
gênese e acompanham sua existência; enfim, que possam funcionar
como uma narrativa, uma história que explicite o lugar do sujeito na
trama ou no enredo, o projeto do qual faz parte.
A “historiação” torna-se uma atividade indispensável. É neces
sário contar e recontar a história - coletiva e pessoal - como forma de
produzir incessantemente sentidos e permitir ao sujeito a decifração
dos enigmas que rondam sua existência no mundo. É justamente a
ausência de uma bula legível, clara e monossêmica, tal como aconte
ce com a bula biológica da vaca, que torna o ser humano um sujeito
cuja carência maior é a ausência de conhecimento e que o lança, ine
vitavelmente, como Edipo, em busca da decifração dos enigmas in
crustados nas fundações de sua pessoa, aqueles atos básicos que o
colocaram no mundo.
Por isso mesmo a criança, desde muito cedo, indaga incessante
mente sobre suas origens e fatos marcantes de seu passado. Quer sa
ber como nasceu, onde, que acontecimentos acompanharam sua vin
da ao mundo. Quer saber de sua história, de uma época da qual possui
poucos ou nenhum registro, ou de fatos dos quais não teve conheci
mento. Indaga sobre episódios dos quais foi protagonista e se deleita,
em geral, ao saber de cenas pitorescas. Como sabemos, a atração das
crianças por histórias infantis também funciona como meio de acesso
ao seu próprio passado e aos sentidos de sua existência simbolizados
nas figuras dos personagens e nas tramas desenroladas na narrativa.
Contar, recontar e elaborar são os grandes recursos disponíveis
ao ser humano, enquanto portador da linguagem e do pensamento,
para apropriar-se de suas heranças, da bula ou da cultura que o desig
na como homem. São os recursos pelos quais, desde a infância, o ser
humano pode ir decifrando os enigmas de sua existência, desvelando
tanto as intenções mais próximas, os desejos mais imediatos e
constitutivos de suas fundações - o desejo parental - , como aqueles
mediatos, presentes no cenário mais amplo da sociedade.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educacao I H I
111.2 A Importância do Espelho na Constituição do Sujeito
Uma das grandes contribuições de Lacan à (re)leitura de Freud se
deu mediante sua teorização sobre o estádio do espelho no desenvolvi
mento da criança. Sua primeira comunicação sobre essa teoria ocorreu
num congresso de Psicanálise, realizado em Zurique, em 1949. Nessa
ocasião, o debate em torno desse assunto foi bastante polêmico, como
seriam suas demais contribuições à teoria psicanalítica.
Seu texto sobre o estádio do espelho, que pode ser tomado tam
bém como um dos textos fundadores da psicanálise lacaniana, tratadas tentativas, por parte do bebê, de elaborar as imagens deflagradas
nos primórdios de sua relação com o mundo.
Como é sabido, o relacionamento da criança com o espelho
por ora tomado como o espelho comum - passa, ao longo do primeiro
ano de vida, por transformações interessantes. Num primeiro momen
to, o bebê não demonstra nenhuma atração por sua imagem refletida
no espelho, como se não reconhecesse ali qualquer coisa especial
capaz de chamar a sua atenção. Num segundo momento, sua reação
diante do espelho se modifica: ele é tomado por uma intensa excita
ção, passa a observar atentamente o que vê ali, demonstrando alegria
e curiosidade por aquela imagem ainda não reconhecida como sendo
a sua, mas como se fosse a de uma outra pessoa. Num momento se
guinte, dá um passo adiante, procurando olhar atrás do espelho para
certificar-se da existência dessa outra pessoa que visualiza na sua pró
pria imagem. Começa a se evidenciar a suspeita da criança de que
aquilo que aparece no espelho é apenas uma imagem; porém, ainda
não reconhecida plenamente como sendo a sua própria. No estádio
final, a criança é capaz de se reconhecer nela.
O momento inicial da inexistência de qualquer interesse pela
imagem refletida no espelho corresponde ao período da indiferencia-
ção do bebê em relação ao mundo externo. Como é sabido, no início
da vida, o bebê não consegue perceber-se como algo separado dos
demais objetos do mundo. Não existe distinção entre sujeito/objeto,
Eu/não Eu, mundo interno/mundo externo. Por isso mesmo, ele não
demonstra qualquer reação especial frente às imagens refletidas no
espelho; no máximo as toma como qualquer outra formada na sua
percepção e tida como mais uma do montante desse mundo indiferen-
ciado. Subsiste, nesse período, um funcionamento psicológico coman
dado pelo narcisismo primário - investimentos afetivos que se ligam
84 • Introdução à Psicologia da Educação
a objetos tomados como parte desse “Eu” soberano, grandioso, que
abarca ou não se destaca do restante do mundo. O “Outro”, aquilo
que residiría num espaço diferenciado, independente do sujeito, ainda
não é instituído, como tal, no universo do bebê nesse período da
indiferenciação.
No plano das representações mentais, conforme assinala Piera
Aulagnier (1979), as primeiras imagens geradas, nesse momento, cons-
tituem-se como imagem-coisa, ou seja, como representações que não
diferenciam o representante, o representado e o agente da representa
ção. Poderiamos entender essas imagens primitivas como represen
tações alucinatórias onde a imagem criada (representante) confunde-
-se com a coisa (objeto representado) e não há o reconhecimento do
agente da representação. Aulagnier chama tais representações de
pictográficas por serem essencialmente icônicas (baseadas em ima
gens) e por buscarem a maior similaridade possível entre o representan
te e o representado. O pictograma procura decalcar, copiar o mais
fielmente possível, como uma fotografia, a coisa que está sendo re
presentada. As representações pictográficas são próprias de uma lin
guagem tida como mais primitiva, simplificada, concreta e, embora
sendo típicas das primeiras manifestações da capacidade do homem
de representar, tanto na filogenia como na ontogenia, não desapare
cem ao longo do processo de desenvolvimento, mas continuam sendo
utilizadas, por exemplo, na arte contemporânea e pelo adulto.
O momento da descoberta, pela criança, de que no espelho exis
te alguma coisa que tomará como um “outro” denuncia uma mudança
importantíssima no seu psiquismo. Ela já começa a diferenciar o “Eu”
e o “Outro”, embora ainda não consiga realizar uma separação com
pleta e realista entre ambos, visualizando o “outro” a partir de sua
própria imagem ou tomando sua imagem como sendo o “outro”, um
estranho no qual não se reconhece.
Esse período será acompanhado por uma mudança importante
no processo de representação e por um avanço considerável em todo
esse caminho de acesso à linguagem. Surgem as chamadas represen
tações cênicas, nas quais começam a circular intenções ou visadas de
desejos de um sobre o outro ator de uma cena. Aliás, somente aí se
constitui o cenário propriamente dito, onde as imagens se movimen
tam conforme as intencionalidades expressivas dos desejos. Antes, nas
representações pictográficas, predominavam as imagens fundidas aos
objetos, sem nenhum reconhecimento de singularidades dadas por suas
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educaçao I HS
intenções próprias. Portanto, não havia confrontos ou a possibilidade
de ação e reação de um sobre o outro.
Na representação cênica, o início da separação sujeito/objeto e
das discriminações dos objetos do mundo entre si permite uma pri
meira visualização do cenário onde personagens distintos se movi
mentam, agem e reagem. Porém, ainda não há o reconhecimento ple
no da fonte das intencionalidades que aí circulam, persistindo uma
certa confusão entre o “Eu” e o “Outro”, implementada pelo uso da
projeção e da introjeção, ou seja, pelo mecanismo de atribuição ao
“outro” de coisas que, na verdade, pertencem ao sujeito (projeção)
ou, inversamente, tomando como produção sua coisas pertencentes
ao “outro” (introjeção). As próprias imagens preliminares pelas quais
a criança começa a se reconhecer como pessoa, incluindo as imagens
do seu corpo, transitam nesse movimento de projeção e introjeção,
produzindo identificações completamente alienantes. Como se obser
va nesse período de não reconhecimento da própria imagem refletida
no espelho, o próprio corpo é tomado como sendo de um “outro”,
revelando o extremo desse momento de alienação do “Eu” na figura
do “Outro”.
Na representação cênica, o que transita na relação entre o “Eu” e
o “Outro”, projetiva e introjetivamente, são as intenções dos atores
presentes no cenário ou as aparições primitivas do desejo nas quais,
de qualquer maneira, não há o reconhecimento efetivo do sujeito do
desejo ou o discernimento de que desejo é de quem.
No último momento do estádio do espelho, a criança sabe que o
que está ali é ela ou, melhor ainda, sua imagem. Consegue agora di
ferenciar o representante do representado e do agente da representa
ção. Reconhece que aquela imagem é apenas um reflexo de si mesma
e que é ela quem está captando a própria imagem. A coisa se diferen
cia de sua representação, abrindo caminho para a instituição da rela
ção significante/significado na linguagem e para o domínio da pala
vra. Aulagnier (1979) entende esse momento como sendo o da insti
tuição da representação da palavra, no lugar da representação da
coisa, característica do pictograma.
O fundamental, entretanto, dentro das formulações de Lacan
(1998) acerca do estádio do espelho é compreender o nascimento do
“Eu” no processo de espelhamento, em que esse “Eu” começará a se
formar a partir de uma imagem criada não por ele mesmo, mas pelo
“Outro”. A ideia é simples: imaginemos que o espelho principal no
86 • Introdução à Psicologia da Educação
qual a criança se mira não é o espelho propriamente dito, mas o olhar
da mãe. E nesse grande espelho (mãe) que a criança se projeta e se vê
cotidianamente quando busca ou recebe alimento, carinho, proteção e
cuidados. É a reação da mãe diante do bebê que fornecerá as imagens
primordiais dele mesmo, que dirá a ele quem ele é, o que está sentin
do, quais seus desejos e assim por diante. A mãe, ou quem preenche
a função materna, funcionará como uma tradutora para o bebê. É ela
quem decifrará, inicialmente, para a criança, os enigmas de si e do
mundo. Mesmo o mais elementar incômodo ou a mais trivial das ne
cessidades, como a fome, receberá uma tradução feita pela mãe me
diante a qual a criança começará a realizar representações sobre si e
sobre seu mundo, até mesmo a representação dessa distinção “Eu”/
“Outro”. Por exemplo, quando o bebê, recém-nascido, é assaltado pelo
incômodo da fome ele sente esse algo que o incomoda, enseja algu
mas ações reflexaspara se livrar desse estado de desconforto, mas
não consegue reconhecer (representar) adequadamente o que está
acontecendo em todo o cenário e assim produzir uma compreensão
capaz de apontar as soluções do problema. Quando a mãe, diante do
choro da criança, oferece-lhe alimento, é como se estivesse lhe dizen
do que aquilo que ela (criança) está sentindo chama-se “fome” e pode
ser aliviado com aquilo que se chama “leite”, mediante uma ação
chamada “mamar”. E evidente que não é a palavra propriamente dita
que circula aí, nesse momento, mas imagens decorrentes da reação da
mãe e que construirão para a criança as primeiras representações de
suas próprias necessidades, sentimentos e ações.
A mãe, ou quem preenche a função materna na relação com a
criança, estará no lugar desse tradutor que verterá para ela os sentidos
de sua própria experiência. É como se diante dos olhos do bebê esti
vesse se desenrolando uma série de imagens legendadas pelo “Ou
tro”, como num filme falado em outra língua.
O olhar da mãe fornecerá para a criança as primeiras imagens de
si mesma. E pelo espelho do olhar materno que o bebê começa a se
ver e se reconhecer. Portanto, o “Eu” começa a se formar de maneira
totalmente alienada: o bebê começa a se representar tomando para si
aquelas imagens geradas pelo olhar materno. Como o olhar da mãe
será constituído a partir dos seus desejos projetados na criança, serão
os desejos maternos que serão tomados como sendo os próprios dese
jos da criança. A gênese do desejo do sujeito é, portanto, o desejo do
“outro”.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educacuo I 8 /
Essa condição de alienação primeva do “Eu” na figura do “Ou
tro” é própria do período de indiferenciação e persiste durante toda a
fase do espelhamento, quando a criança não consegue reconhecer sua
própria imagem, estabelecendo com o “Outro” uma relação imaginá
ria em que transitam intensamente a projeção e a introjeção. A condi
ção para a superação do espelhismo e para o reconhecimento de si
como algo desalienado da figura do “outro” é o acesso ao plano simbó
lico, no qual a imagem refletida pelo espelho será tomada apenas como
uma imagem e reconhecida como sendo um simples reflexo do pró
prio sujeito. Representante e representado definitivamente se separam,
ou significante e significado se isolam, possibilitando o surgimento da
palavra e da linguagem. “Eu” e “Outro” passam a ser reconhecidos
como campos distintos e, mais ainda, existindo entre eles a presença de
um terceiro, que intercede e barra a simbiose entre mãe e criança, essa
fusão que representa a visagem de um gozo absoluto.
A aparição da figura paterna na relação simbiótica estabelecida
entre a mãe e a criança representará um interdito no espectro do gozo
absoluto, instaurando o lugar da lei na estrutura psíquica. A presença
do pai desfaz a díade estabelecida entre o par mãe-criança, instauran
do uma estrutura de relacionamento triádico em que, fundamental
mente, a mãe representa o lugar do desejo, o filho o do desejante e o
pai o da interdição.
E importante salientar que esse pai representa, antes de tudo, um
lugar específico na estrutura da relação: o lugar da lei, da interdição.
Ele é fundamentalmente uma função que poderá ser exercida por qual
quer personagem e não somente pelo pai biológico; aliás, pode-se
prescindir da existência concreta dele. Por isso mesmo, ele é mais um
nome do que uma pessoa concreta. Como sabemos, é “em nome do
pai”, mais do que de suas ações efetivas, que se estabelece a lei fami
liar. O cotidiano está repleto de exemplos dessa imago paterna que
expressa a presença da lei. E comum a mãe interditar o filho “em
nome do pai”, ou seja, evocando seu nome para cercear alguma
investida do desejo do filho. Falas tais como “seu pai não vai gostar"
ou “seu pai não vai permitir” são recorrentes como forma de apresen
tação da lei e da interdição. Esse “pai” é mais um significante do que
uma pessoa de carne e osso e, portanto, constitui-se eminentemente
pela linguagem.
A inserção do nome do pai, da interdição, na relação da criança
com a mãe é que permitirá a constituição de um lugar próprio da crian
88 • Introdução à Psicologia da Educação
ça destacado da figura materna. Impedida de continuar colada na mãe,
prisioneira do seu desejo, a criança descobrirá seu lugar próprio, seu
desejo, desvinculada da figura materna. Paradoxalmente, é a interdi
ção que permitirá à criança desalienar-se da figura materna, desco
brindo seu lugar de filho, de sujeito, na rede de relações em que esta
rá inscrita como um ponto de cruzamento dos fluxos afetivos que nela
transitam. A chegada do pai afasta a criança da mãe e, ao fazê-lo,
designa-lhe um lugar próprio onde encontrará sua própria imagem,
sua identidade ou seu nome.
A instauração do relacionamento triádico é fundamental para a
constituição do sujeito. É na tríade que o sujeito irá descobrir que não
é soberano e onipotente, mas que seu desejo está submetido a um
terceiro, a uma lei, desfazendo suas ilusões narcisistas. Tal experiên
cia é decisiva para a inserção do sujeito na cultura e nas relações so
ciais, possibilitando o efetivo reconhecimento do “Eu” e do “Outro”,
constituídos numa rede de relações em que todos os elementos são
interdependentes. A existência de um depende do outro de tal forma
que os lugares ocupados na relação não estão dados a priori nem são
fixos, mas são construídos e se movimentam uns em relação aos ou
tros, como num jogo de futebol. Essa noção é extremamente impor
tante para compreendermos qualquer contexto de relações. Cada ele
mento, cada sujeito, se constitui numa relação ocupando um determi
nado lugar a partir dos lugares ocupados por “outros”, como numa
luta de boxe, em que cada boxeador ocupará um lugar e se movimen
tará no ringue tendo como referência o lugar e a movimentação do
seu adversário, ou como numa frase, em que cada palavra se define
pela relação que estabelece com as demais. Portanto, o sujeito não é
uma entidade isolada, o inconsciente não é algo mergulhado nas
profundezas de um indivíduo, mas produzido numa relação. Logo, o
sujeito se constitui nas encruzilhadas. Seu lugar estará sendo posto
sempre entre outros lugares, numa rede, e não num ponto isolado e
desconectado das outras caselas que o circundam.
E necessário enfatizar que tudo isso - o espelhismo, as diferen
tes formas de representação, a tríade que permite o surgimento do
sujeito e seu relativismo em relação ao “outro” - , embora apresenta
do em sua gênese num momento particular do desenvolvimento, sub
siste no funcionamento psicológico do sujeito, podendo produzir di-
namismos da personalidade, mesmo em períodos tardios. Por exem
plo, o espelhismo, típico do primeiro ano de vida, frequentemente
domina relações na fase adulta.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educação I 89
Sintetizando as idéias básicas da teoria lacaniana, diriamos que
a linguagem é o elemento constitutivo fundamental do homem e do
seu mundo. O sujeito aparece na e pela linguagem e a rede de rela
ções na qual está imerso é, ela própria, também estruturada como lin
guagem, tal como o inconsciente e assim por diante. A linguagem
não é apenas um sistema de representação, ela também institui rela
ções, materializa-se na comunicação, no diálogo, no discurso, num
dado contexto e é estruturante do lugar ocupado pelo sujeito na rede
de relações psicossociais, fazendo com que o sujeito do inconsciente
emerja na relação com o “outro”.
111.3 Sobre as Fundações
Tomando a constituição do “Eu” como algo que emerge da pre
sença do “Outro” e a questão da herança, discutidas anteriormente, é
possível visualizar, na gênese do sujeito, como se formam os marcos
de sua referência, como são criadas suas fundações.
De imediato, é possível afirmar que os legados da herança tran
sitam na rede de relações e são desejos impressos no sujeito por aque
les a quem está conectado, ou seja, pelos intérpretesencarregados de
traduzir-lhe as imagens que emergem dessa relação, provendo-lhe
representações de si próprio e do mundo.
O desejo da mãe, que designará num primeiro momento o lugar
da criança no mundo, funciona como um desses marcos inaugurais. A
presença do pai, num segundo momento, deslocará a criança para um
lugar próprio, distanciado da mãe e mantido sob o espectro da função
materna e paterna. A aparição da função paterna estabelece outro
marco de referência importante para o sujeito.
Basicamente, são esses dois marcos que constituem a fundação
do sujeito e servirão como bússola para sua orientação na rede de
relações e na sua trajetória de vida.
Contardo Calligaris (1992), um renomado psicanalista lacaniano
europeu, porém com bastante vivência da cultura brasileira, faz uma
leitura interessante das nossas fundações e dos seus reflexos na nossa
subjetividade. Ele busca na história da nossa cultura, nas nossas heran
ças mais longínquas, elementos capazes de esclarecer alguns de nossos
90 • Introdução ò Psicologia da Educação
hábitos e costumes, particularmente relacionados ao tratamento que
damos às crianças c como concebemos a infância e a educação.
Segundo ele, a ocupação do Brasil pelos europeus se deu pela
miragem subjetiva dos invasores de encontro do paraíso, um lugar de
riquezas, de gozo fácil e de felicidade absoluta. Tal miragem
correspondería à visada infantil de acesso pleno e irrestrito ao corpo
materno: fonte de todos os prazeres, da satisfação de todos os dese
jos. A ausência de uma resistência significativa às miragens ensande-
cidas dos exploradores teria esmaecido a noção de lei, um interdito
que pudesse colocar algum freio na sanha dos conquistadores, tal
como a palavra do pai coloca limites para a criança.
Assim, nossa herança cultural, nossas fundações, seria marcada
principalmente por esse sonho primevo de felicidade e gozo sem li
mites que teria atravessado o tempo e estaria presente ainda hoje,
direcionando nossa subjetividade.
Com efeito, reconhecemos facilmente entre nós o “jeitinho brasi
leiro”, expressão direta do esmaecimento da lei ou da disposição para
burlá-la e transgredi-la, como se estivéssemos reencenando a chegada
dos primeiros exploradores ávidos para usufruir a posse da terra e exau
ri-la, sem nenhuma restrição ou senso de responsabilidade.
Também não é difícil reconhecer essa herança no relacionamen
to pais-filhos. Os pais projetam nos filhos seus sonhos frustrados de
felicidade, destinando a eles a realização do gozo que não consegui
ram conquistar. Mas é sobretudo visível a dificuldade que pais e adul
tos, de maneira geral, têm em interditar o filho ou a criança. Qualquer
restrição a um desejo soa como um grande pecado cometido por de
salmados que não se compadecem com o “sofrimento” da criança. É
comum ver pais extremamente pobres fazendo qualquer sacrifício para
atender aos pedidos de presentes de suas crianças, desde guloseimas
de supermercado até brinquedos mais sofisticados. E lugar-comum
na nossa cultura que “criança não pode passar vontade” ou ser objeto
de interdição.
Porém, Calligaris (1992) chama a atenção para o fato de que, ao
lado de toda essa valorização e essa condescendência com a criança,
coexiste um sentimento de negligência e maus-tratos beirando à
barbárie, como acontece nas mais variadas formas de violência prati
cada contra a criança. Segundo ele, tal paradoxo só existe porque não
há na nossa cultura um reconhecimento efetivo do lugar inalienável
da criança, onde ela poderia ser reconhecida e tratada conforme de
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a tduca<ao I 91
mandas que lhe fossem próprias. Na verdade, o adulto se espelha na
criança tomando-a como portadora dos seus desejos, visadas de gozo
e de busca do paraíso perdido. Não seriam os desejos da criança que
estariam sendo realizados, mas sim os dos pais nela projetados. A
incapacidade para interditar não permite à criança se reencontrar con
sigo mesma, com seus desejos constituídos a partir de um lugar pró
prio na rede de relações. A criança subsiste como um fantasma
parental submetida ao imperativo do gozo absoluto, tão impositivo
quanto uma censura autoritária e mais alienante do que ela por apri
sionar o sujeito no desejo do outro, retirando-lhe a possibilidade de
uma insurreição que lhe daria um lugar próprio.
Tais heranças culturais, tornando tênues os limites entre o adulto
e a criança, potencializam o trânsito de tantos outros desejos parentais
na figura do filho. O nome dado à criança expressa os desejos inaugu
rais depositados pelos pais na figura do filho. São as fundações mais
arcaicas e os assentamentos primevos estabelecidos mesmo antes do
nascimento.
O nome próprio funciona como a primeira nomeação do desejo
parental, como um testamento que designa os legados da criança e
indica os investimentos afetivos que recaem sobre ela, as idealizações
dos pais e o projeto de vida do qual é portadora. Como sabemos, o
sobrenome pertence ao domínio da filiação, à linhagem parental, co
locando o sujeito numa rede familiar e, a partir dela, numa rede social
mais ampla. O nome pertence ao domínio da fantasia; não está
preestabelecido, permitindo a projeção de vários desejos.
Cada época foi marcada por certos hábitos na escolha dos no
mes. Antes, era comum atribuir ao neonato o nome do santo do dia
do nascimento. Em algumas famílias, prevalecia o hábito de homena
gear um antepassado recaindo normal mente a escolha sobre as figu
ras dos avós, tios ou do próprio pai. E curioso notar que a escolha de
um nome de alguém da própria família seguia um padrão vertical,
designava a hierarquia familiar, visava a cultivar uma tradição, perpe
tuar algo valorizado no homenageado. Jamais se fazia uma escolha
lateral, optando-se, por exemplo, pelo nome de um primo, a não ser
em raros casos, quando o homenageado havia morrido. Aliás, os ca
sos de homenagem aos mortos, colocando-se seus nomes nos nasci
dos, demonstram com clareza a existência de um lugar já estruturado
destinado ao sujeito no núcleo familiar. O nome do morto funciona
como depositário do desejo parental, uma herança cujos legados indi
92 • Introdução à Psicologia da Educação
carão, sobretudo, o que se espera do filho. O nome é, pois, um com
ponente central da formação da imagem do sujeito no espelho mater
no, no qual a criança irá mirar-se para realizar os primeiros reconhe
cimentos de si própria.
Nos costumes da atualidade, é comum os pais escolherem os
nomes dos filhos homenageando um pop star da mídia ou acompa
nhando uma tendência da moda. Surgem as safras de certos nomes
que, inclusive, invadem as planilhas de matrícula das escolas. Existe
ainda o gosto pela sonoridade da palavra ou simplesmente uma atra
ção estética como critérios para a escolha do nome.
Seja como for, o fundamental é que o nome e tudo o que mais
designe a criança, colocando-a num lugar delineado pelo desejo do
“Outro”, explicitem suas heranças filo e ontogenéticas, tomando-as re
conhecíveis o máximo possível. Isso implica que sejam simbolizadas e
não tratadas como um espelhismo alienante, que sirvam de âncoras para
o sujeito poder se movimentar no horizonte de possibilidades e não se
afundar com o peso de fixações que não o deixam sair do lugar.
O silêncio do desejo parental ou sua omissão, o não testamento
da herança, impedirá a criança de reconhecer seu lugar, apreender seus
legados, tesouros e dívidas e, assim, poder orientar-se no espaço e no
tempo, traçando um caminho próprio.
111.4 Espelhismos, H eranças e Desejos na Educação
Bertolt Brecht (1963), conhecido escritor alemão contemporâ
neo de Freud, retratou no conto “Diálogos dos exilados” a educação
de uma forma muito provocativa e indulgente; porém, com a geniali
dade de um artista que consegue, com intuição e sensibilidade, pene
trar no âmago das coisas, na mundaneidade. Escolhemos esse conto
para ilustrar algumas questões básicas que saltam à vista numolhar
lacaniano sobre a educação.
Nele, Brecht retrata dois amigos falando sobre educação, con
versando num café, como faziam toda manhã. Um deles começa a ler
para o outro um trecho de seus escritos sobre experiências da infância
na escola. Após expor seu ceticismo em relação à escola, situando-a
como transmissora de práticas e valores sustentadores de uma socie
dade hipócrita e injusta, o personagem começa a descrever episódios
C a p itu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educação I 93
de sua experiência escolar. Num deles, havia um professor que se
deliciava em humilhar os alunos, lançando-lhes questões a que não
conseguiam responder. Assim realizava sua onipotência, ostentando sua
sabedoria diante da fragilidade dos alunos. Certa vez, quando um
supervisor visitou a sala para avaliar o trabalho do professor, como
acontecia rotineiramente, os alunos ficaram todos mudos e não respon
deram a nenhuma pergunta do supervisor, como se não tivessem apren
dido nada da matéria ensinada. O professor ficou muito constrangido e,
desse dia em diante, não foi mais aquela figura mesquinha.
Outro professor tinha um péssimo hábito: cultuava uma deusa
chamada “Justiça”. Debruçava-se obsessivamente na correção de pro
vas procurando ser o mais correto possível na avaliação. Costumava
assinalar os erros em vermelho na prova dos alunos e calculava a nota
contando o número de erros cometidos. Os alunos tentavam ludibriar
o professor apagando os traços vermelhos colocados por ele, raspan
do a tinta ou passando a borracha bem forte. O professor detectava
facilmente o uso desse expediente, olhando a folha por transparência,
contra a luz. Um aluno, no entanto, teria sido mais hábil e esperto do
que seus colegas. Acrescentava mais traços vermelhos em passagens
corretas da prova e então protestava ao professor que, reconhecendo a
“injustiça” cometida, descontava do total de erros o número dos seus
“equívocos” e, assim, aumentava a nota. Após relatar esse episódio o
personagem comenta, ironicamente, que era preciso reconhecer que
esse aluno aprendera a refletir na escola.
Outra experiência que jamais esquecera, e que considerava la
pidar, teria ocorrido no primeiro dia de aula. Logo na entrada, o pro
fessor pediu que todos se reunissem, de pé, num canto da sala. Orde
nou, em seguida, que fossem ocupar seus lugares nas carteiras. Porém
ele havia retirado, propositalmente, uma cadeira da sala de modo que
um aluno acabou ficando de pé, sem encontrar um lugar. O professor,
então, aproximou-se dele e lhe deu um bofetão.
Nesse momento de sua narrativa, o amigo interlocutor o inter
rompe para elogiar eloquentemente esse professor. Afirma que se tra
tava de um gênio: usando um recurso extremamente simples - a falta
de uma cadeira na sala - teria exposto para os alunos toda a crueldade
do mundo com o qual iriam se defrontar. Um mundo injusto, compe
titivo, que deixa muitos sem lugar e os pune brutalmente. Essa seria
uma lição preciosa, fundamental na preparação do aluno para a vida
e, segundo o personagem, seria uma falta grave se essa disciplina não
94 • Introdução à Psicologia da Educação
constasse do currículo escolar. Comenta ainda que seria uma pena e
um engodo se a escola simulasse, pela sua maneira de tratar os alu
nos, a existência de uma sociedade justa, igualitária, solidária, coope
rativa, cidadã, enfim, calcada em valores que assegurassem a cidada
nia, a coletividade, o amparo, a segurança, a proteção e a realização
das aspirações humanas mais elevadas. O aluno assim formado esta
ria completamente iludido quanto ao mundo e, além de ser ridiculari
zado, seguramente não estaria equipado para enfrentar a “lei da sel
va”. Dessa forma, a função precípua da escola e da educação seria a
de mostrar o mundo tal como ele é, colocando o aluno em contato
com o lodo, cabendo a ele nadar ou engoli-lo. O papel do professor
seria, basicamente, o de encarnar os tipos humanos fundamentais e
deflagrar na sala de aula, na relação com os alunos, as cenas típicas
da sociedade, as pessoas gananciosas, mesquinhas, exploradoras, nar
cisistas e assim por diante, dando a oportunidade para os alunos
vivenciarem o contato com esses tipos paradigmáticos. As disciplinas
seriam meros pretextos para que essas cenas mundanas fossem
reproduzidas na sala de aula, na relação do aluno com o professor. O
verdadeiro conteúdo ou a verdadeira aprendizagem residiria nessas
“lições de vida” deflagradas na interação.
O diálogo entre os personagens termina com um deles dizendo
que, tendo tido uma experiência escolar bastante rica quanto a tais
“lições de vida”, julgava-se devidamente preparado para enfrentar o
mundo, mas que um dia as virtudes acabam sendo exigidas e que aí...
Esse conto é bastante intrigante, provocativo, pessimista e, no
geral, fere o brio do professor por prevalecer uma visão de escola e de
educação como meros instrumentos de mergulho da criança e do jo
vem no lodo, embora no final, como escritor genial que é, com meia
dúzia de palavras e pontos de reticências Brecht deixa a questão to
talmente em aberto.
Como professores, somos levados a pensar uma escola e uma
educação transformadoras, inspiradas por ideais elevados e assim por
diante. De fato, é bom que seja assim: por mais difícil que esteja o
cenário e por mais arruinado que esteja o mundo é importante vis
lumbrar alternativas de uma vida melhor. No entanto, isso não impe
de, e até exige, que tenhamos um olhar crítico para nossa realidade.
Para isso, o conto de Brecht é valioso.
Como toda obra de arte de qualidade, o conto é inesgotável. Pre
tendemos apenas explorá-lo nas suas relações com os pontos da teo
ria lacaniana que comentamos para refletirmos sobre a educação.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educaçao I V>
Em primeiro lugar, salta à vista uma visão de escola como um
cenário eminentemente humano e mundano, ou seja, um lugar consti
tuído fundamentalmente por pessoas e onde circulam cruamente os
altibaixos do homem.
Esse é um primeiro ponto a ser destacado dentro de uma visão
lacaniana de homem e mundo: a mundaneidade resulta da presença
do homem inserido em lugares designados por uma rede de relações.
No conto de Brecht, os professores e seus alunos - não prédios,
equipamentos ou tecnologias de ensino - representam a escola e pro
tagonizam seus acontecimentos. Como participantes de uma rede de
relações, eles ocupam lugares (de professor e aluno) que se definem
um em relação ao outro e aos demais nós da rede. Cada um desses
lugares se designa por uma função, de maneira a que seus ocupantes
se constituam como porta-vozes de um discurso do qual são mensa
geiros. Assim, aquele professor descrito como adepto contumaz da
justiça, além de, como professor, ocupar o lugar do suposto saber, é
porta-voz do senso de justiça, obediência e correção, valores circu
lantes na sociedade.
O professor, enquanto um tipo humano, representa o espelho no
qual o aluno se mira para se reconhecer ou rejeitar as imagens de si e
do seu mundo ali refletidas. Esse fenômeno do espelhamento, tão bem
explorado por Brecht no seu conto, é estruturante da relação professor-
-aluno. Enquanto lugar-função na estrutura das relações, o professor terá
que se constituir no lugar do ideal do ego do aluno; ele terá que repre
sentar para o aluno suas aspirações mais elevadas, seus projetos, o ideal
de si mesmo que persegue e procura alcançar.
É necessário ressaltar que o professor não terá que ser efetiva
mente aquilo que o aluno almeja, mas sim representar simbolicamen
te tais ideais. Por isso mesmo designamos anteriormente o lugar do
professor como sendo o do “suposto” saber, ou seja, o aluno terá que
se posicionar e encontrar o seu lugar em relação a esse outro lugar
onde presumivelmente está o saber. E evidente que, por mais que o
professor saiba e tenha conhecimento da matéria que ensina, a busca
do aluno ou aquilo que ele atribui ao professor e tenta conquistar para
siestará sempre muito além do que o professor efetivamente detém.
Até porque, e isso é fundamental, o que o aluno imputa ao professor
não é apenas o conhecimento intelectual, mas, sobretudo, afetos que
ele tentará direcionar para si. Como é enfatizado por um dos persona
gens de Brecht, o professor encarna tipos humanos; ele está ali diante
96 • Introdução à Psicologia da Educação
do aluno como pessoa inteira e é assim que será admirado ou odiado.
Ele acaba dando lições de vida e não somente de Matemática ou
Geografia, por exemplo, porque está ali diante do aluno como um ser
humano, com uma história de vida de sucesso ou fracasso, admirada ou
desprezada e assim por diante. Aliás, é comum o professor, em suas
aulas, tecer longos comentários sobre assuntos que nada têm a ver com
a disciplina que ensina. Normalmente fala de sua vida pessoal, em
muitos casos se expondo de forma demasiada, tecendo comentários
sobre seus feitos profissionais ou até amorosos, queixando-se de doen
ças, sofrimentos e frustrações afetivas, ou então expondo suas opi
niões sobre outros professores, sobre alunos, sobre a escola ou até
sobre política; porém, de forma absolutamente pessoal. O persona
gem do conto de Brecht seguramente diria que esse é o verdadeiro
professor e, provavelmente, ainda com ironia, diria que, de fato, para
um trabalho assim tão pessoal, para tamanha exposição da intimida
de, maior talvez do que a de uma modelo posando nua, o salário real
mente é muito baixo.
Ironias à parte, resta a constatação das relações transferenciais
estabelecidas entre professor e aluno. No plano psicológico, isso pos
sibilita a invasão da sala de aula pelos fantasmas do professor e do
aluno advindos de seus relacionamentos afetivo-emocionais estabele
cidos com outros personagens e lugares, em momentos bem distan
tes. Pela via da transferência, além de estarem trazendo para a sala de
aula modelos de relações e vínculos emocionais estabelecidos princi
palmente com as figuras da família, estão também tomando um ao
outro dentro da lógica do espelhamento. O professor, entorpecido por
uma gravitação narcisista, toma o aluno como seu ego ideal e o aluno
toma o professor como seu ideal de ego. O professor tende a tomar o
aluno como extensão de si mesmo. Ele se vê no aluno, projetivamente,
seja como o jovem de outrora, seja como aquele que deverá absorver
seus ensinamentos, suas qualidades e assim, como um duplo, conti
nuar seu projeto narcisista. O aluno, por sua vez, deposita no profes
sor seus ideais, vendo-o como um modelo a ser seguido.
Essa condição de espelhamento é inevitável na relação professor-
-aluno e precisa ter a devida consideração. Obviamente, o professor não
deve se valer dessa condição de ideal do aluno para dominá-lo e
assujeitá-lo, da mesma forma que não pode tomar o aluno como exten
são de sua pessoa e, à semelhança dos pais, fazê-lo um sucessor encar
regado de saldar suas dívidas.
C a p ítu lo III * A Psicanálise Lacaniana o a Educaçno I 9 /
O professor, tal como a mãe, funciona como um espelho através
do qual o aluno irá construir sua imagem enquanto pessoa e, particu
larmente, enquanto sujeito em busca do conhecimento. O olhar do
professor é decisivo para as imagens que o aluno forma de si mesmo.
E óbvio que a criança não chega à escola como uma página em bran
co. Trará incrustada em si os olhares de “outros” que habitaram sua
vida emocional-afetiva e procurará, no olhar do professor, a reprodu
ção dessas imagens de si já cristalizadas, como se fosse buscar nesse
novo espelho a mesma imagem já vista e conhecida. Por outro lado, o
professor também estará dominado por um acervo de imagens, decor
rentes de suas experiências anteriores, com as quais irá fotografar o
aluno e presentear-lhe com essa foto. Se esse processo de espelhamen-
to não for interrogado e questionado, a alienação, o relacionamento
fantasmático e as representações cênicas dominarão essa relação impe
dindo o surgimento de qualquer autonomia.
Porém, para que se estabeleça uma relação em que possam tran
sitar transferências, espelhismos e as modificações próprias do desen
volvimento de um relacionamento, é necessário que os lugares este
jam bem constituídos. Aliás, é a diferenciação de lugares e funções
na relação que age como fator de crescimento ou de solução de con
flitos e dilemas que possam surgir. Os maiores problemas não decor
rem daquilo que está transitando na relação (seu conteúdo), mas do
modo como os lugares estão constituídos e delimitados na relação (a
forma, a estrutura). Com a estrutura bem posta, qualquer conflito
poderá ser resolvido ou, pelo menos, enfrentado pelo sujeito dentro
de condições psicológicas básicas para isso.
Como sabemos, nem sempre a mãe ou o pai conseguem ocupar
efetivamente o lugar que lhes cabe na relação entre si ou com os fi
lhos. Podem se tornar extremamente distantes, recusando a função
materna ou paterna, ou procurar uma aproximação exagerada, trans
formando-se em “amiguinhos dos filhos”, ou então se colocar em
oposição, produzindo verdadeiras colisões ou esmagamentos do lugar
do filho. Em qualquer um desses casos não há lugares bem delimita
dos e constituídos na relação. No primeiro, há um esvaecimento de
um e outro pela negação e recusa dos vínculos; no segundo, os luga
res estão fantasmaticamente sobrepostos, colados, impedindo a dife
renciação e, no terceiro, o antagonismo exacerbado cria a mesma
dependência e a mesma confusão dos lugares pela negação, onde cada
um se define não por afirmar o que é e pretende, mas por se afirmar
em oposição ao outro (“sou e quero o que ele não é e não quer”).
98 • Introdução à Psicologia da Educação
A relação professor-aluno pode ser invadida por essas dificulda
des na constituição dos lugares e, consequentemente, no funciona
mento da relação. Saber exatamente que lugares são esses e quais
exatamente as funções que lhes correspondem não é tarefa fácil; po
rém, é fundamental que isso seja objeto de constante preocupação e
de redefinição. O importante é saber que lugar devemos ocupar e
destinar ao aluno, dentro da visão de educação e de escola que nos
orienta como educadores.
Tais lugares não somente devem permitir a expressão do sujeito,
como ainda, na rede de relações, devem existir lugares vazios, à se
melhança das casas vazias que permitem a circulação das peças num
jogo de xadrez, para que o sujeito possa circular, para que o conheci
mento possa circular, e a palavra também, criando-se assim espaços
para a liberdade, a criatividade e a expansão do sujeito.
Retomando a ótica de Contardo Calligaris sobre o papel da in
terdição na constituição do sujeito e na educação, diriamos que, na
delimitação dos lugares ocupados pelos sujeitos na rede de relações,
inclusive no caso da relação professor-aluno, é necessário que se ob
serve efetivamente o limite de cada um e que haja uma lei estabele
cendo direitos e coibindo transgressões. E necessário ter bem claro
que a violência e as opressões não decorrem da aplicação da lei, mas
precisamente da ausência da lei, quando alguém impõe soberanamen
te seu arbítrio e sua vontade. A interdição, portanto, não significa
censura ou coibição autoritária, mas sim estabelecimento de limites
entre os lugares constituídos na rede de relações. Não significa tam
bém cerceamento de contato; ao contrário, significa exatamente a
promoção de contatos e relacionamentos possibilitados por um
posicionamento efetivo de cada um diante do “Outro”, a partir dos
lugares que ocupam na rede de relações. Por mais paradoxal que pos
sa parecer, é exatamente aquele educador (pai ou professor) que se
apresenta como liberal, como promotor dos prazeres da criança, que
acaba funcionando como um educador tóxico, ou seja, que não per
mite o surgimento do próprio desejo da criança, que não consegue
superar o espelhismo na relação, tornando-a uma eterna dependente.
É preciso ficar atento para não se deixar iludir por idéias e propos
tas educacionaisfáceis que procuram vender o sonho de felicidade, tal
como aquele do qual foram vítimas os primeiros exploradores que che
garam ao nosso país e também os imigrantes de cujas tragédias huma
nas e político-sociais ainda somos herdeiros. Quando se fala, por exem
plo, de uma pedagogia assentada no “prazer” (de ensinar e aprender) é
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana c a Educucao I 99
necessário saber de quem é esse prazer, saber, no final das contas, do
que se está falando: do prazer fantasmático decorrente do desejo do
“outro”, do prazer narcisista que ignora e prescinde da presença do “ou
tro”, ou do prazer autoritário que exige que o “outro” goze?
Numa cultura tão carente e vitimada, onde qualquer alusão à in
terdição soa como profecia da opressão e miséria, é difícil reconhecer
o papel da existência de limites e impedimentos na coexistência hu
mana. Mais difícil ainda é entender que justamente essa miragem do
paraíso e da transgressibilidade é que impede o efetivo reconhecimen
to das faltas e dos caminhos para solucioná-las na realidade.
Enfim, o professor precisa encontrar seu lugar na relação com o
aluno e exercer com toda autoridade as funções que lhe são outorga
das, especialmente a de provedor e interditor. A relação triádica pre
cisa ser assumida na relação professor-aluno, ou seja, é necessário
explicitar que entre o aluno e o conhecimento (objeto do seu desejo)
há um terceiro, o professor, que funcionará como elemento de regu
lação do acesso a esse objeto. O professor, inicialmente visto como
detentor absoluto do conhecimento, alçado pelo aluno ao lugar do
suposto saber, normalmente se deixa capturar por essa imagem gran
diosa de si vislumbrada no olhar do aluno e assume acriticamente
todo o poder que tal transferência lhe confere. Quando o aluno não o
investe desse poder decorrente do suposto saber, utiliza-se de instru
mentos coercitivos para se impor como tal, como dono absoluto da
verdade e do mando. No primeiro caso, utiliza-se da sedução, da alie
nação do aluno espelhado na sua imagem; no segundo, se vale do
poder institucional que lhe é conferido. Nenhuma dessas situações é,
evidentemente, facilitadora da ascensão do aluno ao lugar de sujeito
do conhecimento. O professor sedutor, aquele que aliena o aluno na
sua imagem narcisista de “grande mestre”, procurará manter o aluno
como um eterno dependente. Esse professor funciona como um pro
fessor “tóxico”, tal como aqueles pais que jamais deixam os filhos
assumirem a condução da vida deles, temendo a quebra do vínculo
afetivo que, nesse caso, é mais necessário para a segurança dos pais
do que dos filhos. Tanto o professor alienador como o autoritário são
codependentes, ou seja, dependerão da dependência do aluno em
relação a eles, tornando-os portanto eternos ignorantes ou aprisiona
dos no lugar do “não saber”.
O verdadeiro saber do professor não é aquele mero conhecimen
to do conteúdo da matéria que ensina, mas, sobretudo, é o conheci
mento do lugar que ocupa na relação com o aluno e da importância do
100 • Introdução à Psicologia da Educação
seu lugar como parâmetro na constituição dos lugares dos seus alunos
na sala de aula, assim como o lugar dos pais designará os lugares dos
filhos no grupo familiar. Como é sabido, o relacionamento entre os fi
lhos e o lugar de cada um na estrutura familiar dependerão do lugar
ocupado pelos pais, do relacionamento que estabelecem com cada um.
Assim, cada filho ocupa um lugar determinado, constituído em torno
do epicentro paterno/matemo, surgindo, por exemplo, o lugar do mais
velho, do mais novo, do filho do meio e assim por diante, cada um
espelhando o desejo parental e estabelecendo e relacionando-se com os
demais a partir dessa posição que ocupam no núcleo familiar.
A figura do professor na sala de aula funciona como a dos pais
no grupo familiar. É a partir dela que se constituem os lugares espe
cíficos de cada aluno e é por ela que passam os vínculos afetivos e os
relacionamentos estabelecidos entre os alunos. O professor precisa ter
noção de toda essa sua implicação como elemento mediador das rela
ções do aluno com o objeto do conhecimento e de toda a rede de
relacionamentos constituída na sala de aula.
O professor precisa sair desse lugar inicial onde ele é confundi
do com o objeto do desejo do aluno para se colocar no lugar de me
diador. O professor é investido fantasmaticamente como sendo ele
próprio o objeto do desejo do aluno, numa relação de espelhismo. E
notável como, principalmente na universidade, o nome do professor
se confunde com o nome da disciplina que ensina. Assim, os alunos
se referem a uma dada disciplina dando a ela o nome do professor.
Não dizem, por exemplo, que têm aula de uma disciplina X, mas sim
que têm aula do professor X, colocando o nome do professor no lugar
do nome da disciplina e estabelecendo um vínculo positivo ou nega
tivo com aquela matéria a partir do tipo de vínculo afetivo-emocional
estabelecido com o professor. Não conseguem diferenciar a pessoa do
professor da natureza da disciplina que ele ensina ou tomá-lo apenas
como um mediador, como um lugar de passagem e não como o pro
prietário daquele conhecimento.
O professor precisa sair desse lugar de proprietário, de fusão com
o objeto do conhecimento, para se colocar como um terceiro, como
um elo entre o aluno e o objeto do conhecimento. Na rede de rela
ções, é muito comum, por parte dos mestres, a intenção de formar
discípulos à sua imagem e semelhança - suas crias porém, para
possibilitar a autonomia do aluno, necessária para sua participação
como sujeito na construção do conhecimento, o professor precisa des
tituir-se do lugar de proprietário do aluno e do seu conhecimento. Para
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana e a Educaaio I 101
tanto, é importante que ele saiba abdicar do seu narcisismo, permitir
que o aluno desfaça sua alienação, crie vínculos com o conhecimento
por intermédio de outros mediadores, diminuindo sua dependência e
seus investimentos fantasmáticos. A existência de lugares “vazios” é
indispensável para a desalienação do aluno, lugares esses que não são
preenchidos pelo professor, mas deixados para o aparecimento do novo,
do diferente, de vínculos, idéias e conexões construídas independente
mente da figura do professor.
Quanto à intermediação do professor nos relacionamentos esta
belecidos entre os alunos, sua tarefa principal é a de possibilitar a
abertura de frestas nas redomas que enjaulam cada aluno em determi
nados papéis-função na sala de aula. Como podemos verificar nos
grupamentos constituídos em qualquer situação de ensino-aprendiza-
gem, a rede de relações destina, a cada um ou a pequenas células
formadas por mais de um indivíduo, determinados papéis-função que
sustentam o conjunto do grupo delimitado na sala de aula ou na esco
la como um todo. Estamos aqui fazendo um recorte na rede de rela
ções, circunscrevendo-a a um espaço limitado e sabendo que princi
palmente hoje, com a enorme expansão das comunicações, essa rede
é praticamente ilimitada. Pois bem, na rede local da sala de aula
emergem os conhecidos papéis-função de “aluno dedicado”, “aluno
inteligente”, “aluno disciplinado”, “aluno crítico”, “aluno criativo”,
“aluno carente” e assim por diante, sempre, é claro, constituídos a
partir dos seus opostos, como o aluno “relapso”, “burro”, “indiscipli
nado”, “acrítico”, “afortunado”, e outros antônimos que sempre acom
panharão os nomes que forem firmados para designar um lugar no
grupo. Como foi dito anteriormente, cada lugar depende de outros,
principalmente do seu oposto. Sem a figura do “aluno inteligente”
não haveria a do “deficiente”, a ponto de podermos afirmar que, se
guindo a lógica dialética, um elemento depende da existência do seu
contrário e se define mais pelo que nega do que pelo que afirma como
sendo suas qualidades, ou seja, um elemento é definido tanto pelo
que é como pelo que não é.
O aluno, quando chega à sala deaula, assim como a criança quan
do nasce, encontra certos lugares psicossociais postos, analogamente
ao que acontece com o espaço geográfico quando já está reservado
um quarto ou um berço para o bebê ou quando o aluno já encontra na
sala de aula cadeiras que, posicionadas umas em relação às outras,
estão aguardando-o para situá-lo geograficamente, ou melhor, para
sitiá-lo num determinado compartimento, lí notável como os alunos,
102 • Introdução à Psicologia da Educação
mesmo podendo se deslocar a cada dia por diferentes cadeiras, insis
tem em permanecer sempre no mesmo local e esse local acaba sendo
tomado como signo de sua presença naquele espaço, designando ati
tudes e posturas decorrentes de seu posicionamento em relação aos
outros. E conhecida a “síndrome” dos alunos que ocupam o “fundo
da sala”, por exemplo.
Os lugares psicossociais já estão dados previamente na estrutura
das relações que configuram a escola e vão sendo preenchidos por
aluno e professor na sala de aula. Assim, os personagens que habitam
a sala de aula vão ocupando posições ou assumindo papéis-função
que estão disponíveis, adaptando ou modelando na estrutura da esco
la predisposições constituídas a partir de cristalizações de modos de
ser e agir do indivíduo, decorrentes de seus relacionamentos anterio
res ou daqueles estabelecidos em outros espaços. É importante lem
brar que tais lugares psicossociais são formados por desejos ou por
expectativas, intenções e buscas circulantes nas relações onde cada
um pretende preencher suas faltas no contato com o “outro”.
O problema não está na existência desses lugares preestabeleci-
dos para o sujeito, mas sim no seu aprisionamento a eles pelo desejo
do “outro”, tal como a mãe faz quando amarra a criança às suas fal
tas, tornando-a dependente e não lhe permitindo constituir seu pró
prio desejo. O problema surge quando tanto o aluno quanto o profes
sor não conseguem se desvencilhar das amarras do desejo do “outro”,
que os aprisionam num determinado lugar. O ideal é que o aluno pos
sa circular por diferentes lugares psicossociais, ressignificar-se a cada
passagem por diferentes possibilidades e espaços e, a partir daí, en
contrar um canto próprio. Além disso, o ideal é que ele possa também
habitar esses lugares como lugares simbólicos, isto é, como represen
tações de si constituídas a partir de um significantc central - a figura
do professor - e que tais representações indiquem possibilidades de
suas faltas ou significados de sua presença naquele lugar, ou seja, que
funcionem como alusões à sua pessoa e não como uma coisa sitiada
num jeito único de existir, dado como uma realidade inamovível ou
como um aprisionamento ao desejo do “outro”.
Considerando que a figura do educador é o eixo central dessas
representações do educando, ela precisa ser construída no plano sim
bólico e não no fantasmático, ainda que esse simbólico expresse sua
condição de encarnar tipos humanos fundamentais da sociedade, tal
como Brecht, no seu conto, predestina a função do professor.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana o a Educu<uo I 101
É justamente no plano simbólico que o sujeito consegue represen
tar o real - sua condição de faltante - e o imaginário - as faltas que
circulam no espelhamento em relação ao outro - e finalmente vislum
brar seus desejos, suas faltas e alternativas para seu preenchimento.
Em suma, de um olhar lacaniano é possível entender a educação
como um fenômeno que surge da condição humana de movimentar-
-se pela busca incessante de saber, dos meios para ler e compreender a
bula que registra o que é o ser humano e seu mundo. Essa bula não
vem com o bebê, não está nele, mas na cultura, no “Outro”, cifrada, e
só pode ser apreendida pelo acesso aos códigos para sua decifração
mediante o domínio da linguagem. A bula funciona como uma heran
ça cujo testamento, no entanto, não está completo, seja porque não
explicita claramente o que está destinado ao sujeito, seja porque omi
te parcelas dos bens e das dívidas que lhe cabem na filiação à huma
nidade. Tais legados dos quais é herdeiro são indicados e transmitidos
pela linguagem, ou melhor, são constituídos por ela. Portanto, jamais
serão completamente acessíveis, dado que a linguagem, pelo seu ca
ráter representacional, por valer-se de signos em substituição às coisas,
por operar com relações estabelecidas entre significantes e signi
ficados, fornece, no máximo, um espectro do real. Subsiste no sujeito
e no seu mundo um indizível, um resto por dizer, ainda mais quando
a interdição atua sonegando representações, cassando significantes ou
fixando, de forma estereotipada, certas significações. Tudo isso que
fica por dizer, sempre presente na estrutura psicológica do sujeito, é o
que podemos entender como inconsciente.
O básico da herança, individual ou coletiva, é o desejo do “Ou
tro” dirigido ao sujeito. E a partir do desejo do “Outro” que o sujeito
se descobre como ser desejante, ser da falta ou da incompletude, ne
cessitando de contato com seus semelhantes.
A educação ocupa o maior espaço da bula, podendo auxiliar o
sujeito no conhecimento e na conquista da parte que lhe cabe neste
latifúndio mundano ou subtrair-lhe a condição de sujeito, aprisionan
do-o em lugares psicossociais fechados ou impedindo que construa
seu próprio lugar no enfrentamento com o “Outro”.
Exercícios
1) Examine os conceitos básicos da psicanálise lacaniana e analise
as relações existentes entre eles.
104 • Introdução à Psicologia da Educação
2) Exemplifique o mecanismo de identificação e de espelhamento
com situações observadas no cotidiano, na sala de aula, em fil
mes, na literatura ou em outras obras de arte.
3) Interprete uma narrativa extraída de um conto, de um romance ou
do registro de uma fala comum colhida no cotidiano, procurando
identificar o uso de metáforas, metonímias e outros recursos de
produção de efeitos de sentido.
4) Discuta a importância da linguagem para o homem, apontando o
impacto da imagem e do signo disseminados no mundo contem
porâneo pelos diferentes meios de comunicação.
5) Faça uma leitura dos signos presentes nas imagens arquitetônicas
dos prédios dos espaços educacionais.
6) Analise um grupo levando em consideração o lugar psicossocial
ocupado pelos seus membros.
G lossário
Condensação - mecanismo psicológico, próprio do inconsciente, pelo
qual ocorre uma junção e fusão de conteúdos ou materiais aními-
cos. Pela condensação, representações de desejos ou intenções
diversas são reunidas numa única representação. No sonho, por
exemplo, uma imagem pode ser montada mediante a sobreposição
de vários objetos fundidos entre si e, por isso, possuir vários sig
nificados. A condensação assegura a polissemia da linguagem, isto
é, a capacidade de um termo ou expressão possuir vários sentidos.
Desejo - alude a um fenômeno da linguagem: é a expressão, pela
palavra, da incompletude do sujeito e de sua condição de faltante.
O desejo, portanto, expressa as buscas, por meio da palavra, dos
objetos supostamente perdidos. E sempre conveniente lembrar que
o desejo se forma na relação entre o “Eu” e o “Outro” e, devido
ao espelhamento, ele se constitui a partir do “outro”.
Deslocamento - mecanismo psicológico, próprio do funcionamento do
inconsciente, responsável pela substituição de um material psicoló
gico (anímico) por outro. E pelo deslocamento que um objeto do
desejo pode ser substituído por outro ou que o todo pode ser subs
tituído por uma de suas partes. Na linguagem, o deslocamento pos
sibilita a figuração de um significado por uma de suas parcelas, vi
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana o a Edu(a<ao I I0S
sando com tal transposição a desfocar o sentido original ou encon
trar um subterfúgio para driblar a censura que recai sobre ele.
“Eu” - no sentido amplo, refere-se à instância psicológica constituída
pelo senso de diferenciação sujeito/mundo. Reúne funções e quali
dades como consciência, memória,controle motor, pensamento e
percepção, sendo responsável pela mediação das relações entre
supereu (superego) e Isso (Id). Lacan enfatiza o “Eu” como lugar
de identificação e como resultado do olhar do outro sobre o sujeito.
E pelo “Outro” que o sujeito se reconhece e forma as imagens pelas
quais se diferencia dos demais objetos do seu mundo.
Gozo - termo largamente empregado na terminologia lacaniana. Dife-
rencia-se do prazer, comumente tomado como a sensação de alívio
produzida pela redução da tensão no uso de um objeto desejado. O
gozo situa-se no campo da relação do sujeito com a palavra e de-
senrola-se no plano simbólico. E a satisfação obtida no manejo da
linguagem, na obtenção dos sentidos das buscas do sujeito e não na
posse propriamente dita dos objetos. O protótipo do gozo é aquele
que acompanha as visadas do desejo do “outro”. O que desejamos
na relação com o “outro” não é ele em si, mas seu desejo, suas
intenções em relação a nós, ou seja, visamos a significantes e nos
realizamos com o encontro simbólico do “outro”.
Inconsciente - Freud utilizou esse termo para qualificar certos con
teúdos e processos psicológicos não acessíveis à consciência.
Empregou ainda o termo para designar uma região psicológica for
mada por conteúdos recalcados e por pulsões móveis e errantes
capazes de migrarem para objetivos e objetos variados. No senti
do lacaniano, o inconsciente é entendido como um sistema decor
rente da linguagem, cujo traço fundamental é operar por intermé
dio de representações nas quais o representante (significante) é
separado do representado (significado). Assim, o recalcamento age
sonegando ou barrando uma figura à consciência, pela qual um
material poderia ser apreendido ou representado. Além disso, por
não aprisionar os significantes a determinados significados, o in
consciente, à semelhança da mobilidade da pulsão, pode valer-se
de todo tipo de metamorfose para se expressar, fazendo uso de
analogias, como no caso da metáfora, e de outros meios passíveis
de expor figurativamente um material capaz de significação.
Metáfora - figura de linguagem pela qual o efeito de sentido é pro
duzido fazendo a palavra migrar de um campo semântico para
outro e, assim, por semelhança, associá-la a um objeto diferente
daquele que habitualmente ela designa, por exemplo, quando cha
106 • Introdução ò Psicologia da Educação
mamos uma pessoa de “burra”. Lacan destaca na metáfora a subs
tituição de uma palavra por outra, como no caso da substituição
da palavra “pessoa” por “burra”, enfatizando a propriedade da
metáfora de condensar significados, ou seja, a capacidade de uma
palavra poder carregar vários significados e poder expressá-los
conforme seu posicionamento na frase.
Metonímia - figura de linguagem pela qual a significação é produzi
da pela substituição de uma palavra por outra com a qual possui
uma relação de continuidade. Assim, o todo pode ser expresso
por uma de suas partes, como no caso do uso da palavra “cabeça”
para designar “rebanho”. A metonímia opera pelo deslocamento,
permitindo ao desejo, em sua mobilidade, saltar de um objeto para
outro ou, mais comumente, tentar buscar o todo inatingível do
objeto por intermédio de suas partes, fracionando-o e fragmentan
do o próprio sujeito.
“Outro”, “outro” - designa tudo aquilo que determina o sujeito, que
funciona como seu espelho e especifica, na relação, seu lugar no
mundo. Na terminologia lacaniana, o “Outro”, grafado com ini
cial maiuscula, designa todo tipo de contraste pelo qual o “Eu” se
reconhece localizado num determinado lugar. Pode ser tomado
como a cultura, o mundo social e simbólico que ronda o sujeito.
Grafado com a letra inicial minúscula, refere-se aos pares estabe
lecidos concretamente nas relações, concebidos de forma imagi
nária, ou seja, numa relação de espelhamento.
Paranóia - refere-se a uma organização e a um funcionamento psi
cológico em que predominam a ansiedade persecutória (temor de
um ataque repentino perpetrado por inimigos) e delírios de perse
guição, erotomaníacos e de grandeza. Destacam-se na paranóia a
capacidade de fabulação e um interpretacionismo sistematizado,
pelos quais o sujeito dá sentido a si e a seu mundo, em geral atri
buindo-se uma missão grandiosa e salvadora da humanidade.
Significado - é a ideia ou conceito veiculado pelo significante. Trata-
-se de um fenômeno psicológico, posto que o significado não é o
referente ou o objeto real, mas a ideia formada sobre ele e que o
representa na mente do sujeito.
Significante - no uso corrente, refere-se ao substrato material do sig
no, isto é, designa tudo aquilo que transporta o significado: sons,
imagens visuais, impressões táteis, olfativas, gustativas, cinestésicas
etc. Entretanto, é preciso considerar que tal substrato material é,
antes de tudo, um fenômeno psicológico, ou seja, não é o som em
si, mas a impressão ou imagem acústica gerada pelo psiquismo.
C a p ítu lo III • A Psicanálise Lacaniana o a Edu<u<nu I 1 0 /
Signo - unidade básica da linguagem constituída pela articulação do
significante com o significado. Algumas teorias da linguagem
entendem o signo como composto de uma estrutura triádica. Além
de significante e significado, o signo portaria também um referen
te ou a imagem mental da coisa ou daquilo que está sendo repre
sentado.
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. C
ap
itu
/0 Kester Carrara
Behaviorismo, Análise do
Comportamento e Educação
O predomínio recente de abordagens ancoradas no socioconstruti-
vismo e no cognitivismo tem reduzido o espaço para que as propostas
da Análise Experimental do Comportamento (AEC) sejam acolhidas
na área da educação. A Análise Comportamental e a filosofia de ciên
cia que lhe é subjacente, o Behaviorismo Radical, têm constituído objeto
de frequentes e contundentes críticas, especialmente na área da educa
ção. Paradoxalmente, apesar da literatura crítica, as pesquisas nessa
abordagem têm crescido significativamente em todo o mundo, incluí
dos os principais núcleos brasileiros de pesquisa das universidades pú
blicas. A participação efetiva de pesquisadores, com apresentação de
trabalhos relevantes, tem sido ampla nos principais eventos, como os
da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), da So
ciedade Brasileira de Psicologia (SBP) e da Associação Brasileira de
Psicoterapia e Medicina Comportamental (ABPMC). Tendo em vista
a ampla discussão centrada no contexto teórico e o desenvolvimento
intenso de pesquisas experimentais, estaria a AEC reaparecendo como
abordagem promissora em relação à área educacional? Nessa pers
pectiva, em que medida essa abordagem, relegada a planos menores
enquanto reacionária e positivista, seria capaz de colocar seus acha
dos a serviço de uma educação progressista e emancipadora?
Por certo, aquelesque conhecem razoavelmente a história da
Análise do Comportamento e do Behaviorismo Radical reconhecem-
-na inegavelmente polêmica e controvertida. Essa constatação decorre
1 1 0 * Introdução à Psicologia da Educação
da (coerente) combinação de uma filosofia objetivo-pragmática com
um modelo de ciência fundado na observação, na interação organis-
mo-contexto mediada pelo comportamento e na valorização do con
trole pelas consequências. Historicamente, esse arranjo de pressupos
tos e condições, temperado pelo determinismo probabilístico e cen
trado em incisivo antimentalismo, associado a frequente desconheci
mento de algumas relevantes possibilidades de aplicação, tem sido
responsável constante por alguns temores, críticas, ou mesmo sumá
ria rejeição à abordagem.
De forma geral, o Behaviorismo apareceu em 1913, com Watson,
a partir de um artigo que condensava a tendência objetivista da épo
ca: propunha a substituição da consciência pelo comportamento en
quanto objeto de estudo, ao mesmo tempo em que sugeria o uso da
observação, em contrapartida à introspecção, como instrumento pre
dileto de acesso às atividades humanas. Mais tarde, os historiadores
diriam que Watson teria sido um behaviorista ortodoxo, uma vez que
excluira quaisquer conteúdos internos do escopo de finalidades da
Psicologia. Outros, posteriormente, incluíram esses conteúdos como
importantes e pertencentes à natureza humana, mas, por conta das
dificuldades instrumentais, tecnológicas e de procedimentos de ob
servação, sinalizariam no sentido de não constituírem parte dos estu
dos de uma ciência objetiva. Influenciada pelo modelo de ciência
unificada almejado pelos positivistas lógicos do Círculo de Viena, essa
nova fase do Behaviorismo (Metodológico) não foi adiante. Seguiu-se-
-lhe a proposta de Skinner, que, embora reconhecendo as grandes difi
culdades da utilização dos relatos verbais e descrente da adequação do
uso de eventuais indicadores fisiológicos como referentes claros dos
eventos privados, acolheu explicitamente tais eventos em seu referen
cial (Behaviorismo Radical). Neste, a expressão radical, ao invés de
sinonimizar qualquer edifício teórico impenetrável, reducionista ou in
transigente, representa abertamente a ideia de que o comportamento
(behavior) constitui, por excelência, a raiz epistemológica por via da
qual se pode melhor compreender, com transparência de dados e proce
dimentos replicáveis, alguns dos mais fundos enigmas humanos.
Naturalmente, outras abordagens também têm proporcionado
relevantes contribuições nessa mesma direção, mediante outras óticas
e construções teóricas distintas. De sua parte, a Análise Experimental
do Comportamento (ou Análise Comportamental), ciência constituí
da sobre pressupostos filosóficos behavioristas, ainda que enfrentan
do literatura crítica considerável, já acumula significativo conjunto
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento e Edutacao 1111
de aplicações bem-sucedidas em variadas áreas e apresenta amplia
ção inequívoca de pesquisadores e usuários nos mais diversos setores
de atuação humana. Seu sucesso prático, todavia, não livra a Análise
do Comportamento da vigilância ética e do constante e acurado exa
me de sua validade epistemológica, seja por parte de seus oponentes,
seja por parte de seus próprios seguidores.
Tomar o Behaviorismo como referência equivale a centrar aten
ção nas interações entre organismos e ambientes em que estes se in
serem. Decorre dessa postura uma primeira implicação fundamental:
ao contrário do que frequentemente se veicula, a Análise do Com
portamento não considera os organismos vivos quer enquanto mera
mente passivos, quer enquanto unilateralmente ativos. De modo parti
cular, os seres biologicamente constituídos, ao mesmo tempo em que,
mediante comportamentos, agem sobre o mundo, por ele são direta
mente influenciados. Não haveria nenhum sentido, em função do pres
suposto da tríplice (ou mais ampla, a partir de Sidman, 1986) relação
de contingências, presumir uma natureza passiva, ou, ao contrário, ima-
nente e unilateralmente ativa dos organismos: o comportamento ocorre
diante de e é alterado por determinadas condições ambientais e, por
seu turno, também altera o ambiente. O estudo dessas relações funcio
nais constitui finalidade precípua da Análise do Comportamento.
Posto de outra maneira, ao dirigir seu olhar para as relações fun
cionais, o analista adota enfoque divergente da tradicional pesquisa
de causalidade linear: escapa ao modelo newtoniano e apoia-se no
modelo machiano que enuncia que “descrever é explicar”, tal qual
Mach (1915), que influenciou Skinner, sugere à comunidade científi
ca. É nesse sentido que o analista comportamental passa a observar,
registrar e sistematizar, enquanto dados empíricos, todos os eventos
que ocorrem concomitantemente, seja precedendo, seja sucedendo um
determinado comportamento.
Diante de condições ambientais específicas (contexto anteceden
te), as consequências para um certo conjunto de respostas seleciona
das é que são responsáveis pelo aumento ou redução da probabilidade
de ocorrência de respostas similares num futuro em que condições
ambientais semelhantes estejam presentes. Fora de dúvida, naturalmen
te, está o fato de que adquirem probabilidade maior de ocorrência aque
las respostas com maior semelhança em relação à originalmente refor
çada. Daí a ideia de classe de respostas, em que estas, produzindo na
história do indivíduo consequências equivalentes, são mais prováveis,
mesmo que apresentem dimensões morfológicas diferentes.
112 • Introdução à Psicologia da Educação
Skinner, com o Behaviorismo Radical, entende que as relações
indivíduo-ambiente, especialmente no que diz respeito ao aspecto so-
ciocultural, são controladas pelas consequências do cotidiano
(ontogênese), assim como, no que toca à filogênese, a evolução é de
modo similar explicada no paradigma darwiniano.
Também se caracteriza o Behaviorismo Radical como uma filo
sofia monista e materialista, na medida em que entende tanto o corpo
(e todas as ações humanas) quanto o ambiente como sendo constituí
dos de um único estofo material. Skinner rompe com o dualismo,
mesmo quando trata da questão dos eventos privados, acerca dos quais
recomenda que não se confunda a díade público-privado com outra,
objetivo-subjetivo. São dicotomias muito diferentes e ainda que, como
já se mencionou, seja reconhecida a imensa dificuldade de mensura-
ção de eventos privados, isso não significa que eles pertençam a outra
dimensão e a outro estofo da realidade. Mesmo que não pública -
explicita e exemplifica Skinner - sua dor de dente é tão concreta e tão
física quanto as teclas de sua máquina de escrever (daí desposar um
monismo qualificado com o adjetivo de fisicalista).
Ainda que não apenas para desfazer mal-entendidos da crítica
externa, mas inclusive para dirimir querelas internas aos próprios
behavioristas, vale tratar, com a brevidade que o texto recomenda, da
pertinente questão da teorização. Ao constituir-se em abordagem que
privilegia a dimensão descritivo-observacional, indiretamente a Aná
lise do Comportamento e, particularmente, B. F. Skinner têm sido
identificados como abordagem e autor ateóricos ou antiteóricos. Nes
se sentido, haveria, ao lado de um desinteresse pelas conjecturas, uma
(necessária) superficialidade no exame da complexa rede de relações
entre variáveis que controlam o comportamento humano. Mesmo en
tre behavioristas, por vezes tem sido realimentada a ideia de que faz
verdadeira ciência quem pouco formula hipóteses, quem pouco de
duz, quem não infere, quem não conjectura. Ou seja, apenas o faria
quem se dedicasse, exclusivamente, ao empírico. Embora o próprio
Skinner tivesse alertado para o fato de que são os dados empíricos os
melhores argumentos científicos, também foi ele, em histórico artigo
(1950), quem abordou a acusação que lhe faziam de ser um antiteóri-
co. Mostra, em síntese,que era contrário apenas a teorizar com argu
mentos sustentados em outra dimensão que não aquela em que se
encontram os fatos a serem explicados (o comportamento explicado
por eventos mentais, de estofo não físico, por exemplo). Nesse caso -
e apenas nesse caso Skinner argumentava contra as teorizações; nada
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o Educaçao I I I I
mais. Em todos os outros, era um defensor do exercício fundamental
da teorização em ciência; de resto, instrumental imprescindível à ela
boração de novos problemas científicos a serem respondidos median
te o aparato da ciência. Embora emérito pesquisador e reconhecido
designer de estratégias, técnicas e procedimentos de pesquisa, admi
tia os limites do experimentalismo puro, uma vez que este pouco fer
tiliza a inspiração de novas hipóteses desafiadoras na ciência. Para
confirmar essa posição, Skinner empreendeu grandes aventuras teóri
cas, todas bem sustentadas nos dados de suas investigações cientí
ficas, o que pode ser constatado pela leitura de suas mais de 230 pu
blicações (cf. Carrara, 1992), de 1930 a 1990.
Para tornar ainda mais clara a dimensão na qual Skinner argu
mentava contra a teorização a partir de conceitos e supostos eventos
de outra dimensão, tome-se a questão do mentalismo. Skinner é
antimentalista não porque negue a existência e importância dos even
tos privados (aliás, fator privilegiado a distingui-lo dos behavioristas
metodológicos), mas porque não aceita eventos mentais, estruturas
mentais, estruturas cognitivas, estruturas de personalidade, volição,
traços, drives, instintos, entre tantos, enquanto entes explicativos do
comportamento, dada sua característica eminentemente subjetiva. Essa
rejeição funda-se, portanto, exclusivamente na fidelidade ao monismo
fisicalista e no modelo descritivista, bem como na consequente ex
clusão de constructos hipotéticos próprios das correntes dualistas.
Custou caro a Skinner a incompreensão dos críticos a esse respeito,
especialmente quando se sinonimizava sua posição com uma suposta
negação à existência de cognição, sentimentos e emoções. A esses, é
óbvio, Skinner não negava existência, mas apenas o status causai
numa ciência do comportamento.
É fácil constatar em que medida as convicções skinnerianas fo
ram aguilhoadas pela crítica (alguns exemplos podem ser encontra
dos em Carrara, 1998). De fato, algumas de suas descobertas podem
ter sido prematura e descuradamente aplicadas, com resultados e
metodologia passíveis de pertinentes críticas (cf. Ayllon & Azrin,
1968). O desenvolvimento e o constante aprimoramento, tanto no que
concerne a procedimentos quanto no que, incisivamente, diz respeito
ao aperfeiçoamento ético da abordagem, entretanto, são inegáveis.
Como assinalou Bijou (1984):
T e m s id o d ito q u e a a p lic a ç ã o d a a n á lis e c o m p o r ta m e n ta l
d o d e s e n v o lv im e n to in fa n t i l p o d e te r e fe ito s p re ju d ic ia is p a ra
1 1 4 * Introdução à Psicologia da Educação
a criança, a educação fundamental e a terapia infantil. Isso
ocorre na aplicação prática de qualquer sistema de Psicologia
(psicanalítica, cognitiva ou comportamental) quando quem a
aplica não está adequadamente preparado. Com o fim de pre
venir esse mau uso do conhecimento psicológico devem exis
tir normas profissionais e legais que incluam padrões cuidado
samente definidos de treinamento, supervisão e experiência
daqueles que se qualifiquem como profissionais, (p. 30)
IV . l P rincípios Básicos da AEC
Derivados da experimentação controlada e testados principal
mente sob o design típico da AEC (o delineamento de sujeito único,
mediante replicação), alguns princípios estão consolidados enquanto
imprescindíveis e típicos dessa abordagem, bem como algumas dis
tinções e determinados conceitos. IV.
IV. 1.1 D i s t i n ç ã o o p e r a n t e - r e s p o n d e n t e
Preliminarmente, cabe uma importante distinção de paradigmas:
há comportamentos típicos da espécie, dados geneticamente, que são
controlados (“causados”) por eventos antecedentes, chamados estímu
los eliciadores. O exemplo sobejamente conhecido advém do para
digma de Pavlov, em que um estímulo (neutro para a resposta de sa
livar de um cão - no caso um som de campainha) é pareado a outro
(incondicionado, como pó de carne, que é colocado diretamente na
boca do animal). Como resultado de sistemático pareamento, o som
passa a eliciar a mesma resposta antes produzida apenas pelo pó de
carne (condicionamento respondente, representado por E -*■ R).
Cedo, nos seus escritos, Skinner identificou outro tipo de condi
cionamento mais frequente nas atividades humanas cotidianas: o ope-
rante. Neste caso, as respostas não são eliciadas, mas emitidas. Ou
seja, o organismo “aprende”, em função de sua história, que o respon
der diante de um certo conjunto de condições tem certa probabilidade
de ser seguido por uma consequência específica. Por exemplo,
verbalizar “táxi!”, acrescentando certa postura física (talvez o polegar
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportanmnto d 11I11<<M<10 I M S
erguido), sinalizando diante de um contexto ambiental específico: um
veículo que se aproxima, portando uma pequena plaqueta iluminada
no teto (em que se lê, obviamente, “Táxi”). E nítida a importância da
história de interações do indivíduo com seu ambiente, nesse caso. Dela
depende a probabilidade de que o possível passageiro repita seu gesto
na próxima vez que quiser parar um táxi, bem como depende do seu
sucesso em parar o veículo, dessa vez, nessa específica rua. Pode-se
notar, no caso, que o paradigma envolvido é outro (... R —*■ ER), onde
uma determinada resposta (R), emitida diante de certo conjunto de
condições ambientais (...), tem uma probabilidade previsível de ser
seguida de um estímulo reforçador (—* ER). Note-se que o paradigma
representa apenas uma situação simbólica mínima, reduzida, e que
pode ser encontrada com símbolos similares em outros textos. Em
outras palavras, no exemplo mencionado, na verdade não há uma res
posta específica, mas uma série delas, pertencentes a uma classe fun
cional, que constituem um conjunto de comportamentos típicos, com
plexos, a serem provavelmente seguidos pela parada do referido táxi.
Depreende-se, daí, a tipicidade, no operante, da tríplice relação
de contingências. Nela:
1) eventos antecedentes estão presentes e precedem a ocorrência
(emissão) de um determinado comportamento;
2) ocorre, em seguida, um certo comportamento constituído de qual
quer mudança mensurável e observável no curso de atividades
executadas por um organismo vivo;
3) seguem-se eventos responsáveis pela manutenção, ampliação ou
redução da probabilidade de ocorrência futura de respostas simila
res à ora consequenciada (o que remete, de volta, à ideia de classe
de respostas).
IV.1.2 R e f o r ç a m e n t o e p u n i ç ã o
A lógica da Análise do Comportamento sustenta-se, principal
mente, na seleção pelas consequências. Os efeitos produzidos por
essas consequências, via de regra, são aumento, manutenção da fre
quência de respostas ou sua diminuição. Pode-se ter um reforçamento
positivo quando ocorre fortalecimento da resposta (aumento da pro
babilidade de sua ocorrência) como resultado da apresentação de um
116 • Introdução o Psicologia da Educação
estímulo (reforçador positivo). Pode-se ter um reforçamento negativo
quando, como consequência da emissão de determinada resposta, tem-
-se a retirada de um estímulo (aversivo), redundando, também, em
aumento da probabilidade da resposta que produziu tal retirada. Note-
-se que nesses dois casos ocorre sempre aumento da probabilidade de
ocorrência da resposta, seja pela apresentação, seja pela retirada de
um estímulo: trata-se, nas duas situações, do procedimento de refor
çamento (positivo ou negativo).
Uma terceira situação é a da punição “positiva”, em que uma
resposta é seguida de um estímulo (aversivo) e suafrequência se re
duz. Finalmente, a quarta situação típica é a da punição “negativa”,
em que a emissão da resposta tem como consequência a perda de um
reforçador positivo. Note-se, nesses dois casos, que sempre ocorre re
dução da frequência das respostas.
Naturalmente, os analistas do comportamento devem evitar o uso
de punição, quer pelos subprodutos negativos que ela gera para o orga
nismo, quer pelo fato de que seus efeitos tendem a ser temporários, o
mais das vezes controlados pela contingência punitiva: quando esta
cessa, o comportamento antes sob seu controle tende a, rapidamente,
voltar à condição anterior. Sem dúvida, conforme já se anunciou desde
o início deste texto, a atuação dos analistas do comportamento, embora
intensa nos Estados Unidos nas diversas áreas, tem permanecido em
outros lugares, razoavelmente restrita ao âmbito da clínica. Na área edu
cacional, exceto por trabalhos isolados, dá lugar especialmente ao en
foque piagetiano, sobejamente melhor acolhido nas várias instâncias
oficiais da educação brasileira. Ainda assim, não é pequeno o número
de analistas em atividade, haja vista sua participação na literatura, even
tos e entidades que congregam profissionais da Psicologia. IV.
I V . 1 .3 T ip o s d e r e f o r ç a d o r e s
No paradigma operante, pode-se falar em reforçadores incondi-
cionados (primários) ou condicionados (secundários). O primeiro já
possui propriedades reforçadoras, enquanto o segundo requer
pareamento prévio com outros reforçadores para adquirir seus efei
tos. Os reforçadores podem, ainda, ser classificados em simples ou
generalizados, conforme adquiram suas propriedades reforçadoras por
pareamento com um único reforçador prévio ou com vários. Os refor
çadores também podem ser naturais ou arbitrários, conforme sigam,
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o [ducu^no 1 1 1 /
tipicamente, no ambiente social, determinada resposta (ler para com
preender um romance e ser reforçado naturalmente a partir da com
preensão da trama e sua identificação com situações prazerosas do
cotidiano, por exemplo, exemplifica reforçadores naturais) ou con
forme se constituam em artifícios, apenas utilizados para intermediar,
na prática, uma situação de aprendizagem (um “muito bem” do pro
fessor diante da mesma leitura já mencionada representa uma conse
quência artificial). Por certo, a utilização de reforçadores naturais é
preferível, embora, às vezes, seja inevitável o uso de reforçadores
arbitrários como primeiro passo para se chegar aos naturais numa si
tuação qualquer do cotidiano.
I V . 1 .4 C o n t r o l e d e e s t í m u l o s
Conceito essencial na Análise do Comportamento é o de controle
de estímulos, em que duas dimensões do mesmo continuum são consi
deradas: generalização e discriminação de estímulos. Observa-se a pri
meira situação quando o indivíduo responde de forma igual ou seme
lhante frente a estímulos diferentes. Na discriminação, o indivíduo
responde de forma diferente a estímulos diferentes. No estabelecimen
to de uma discriminação simples estão incluídos pelo menos dois es
tímulos discriminativos: um SD e um SR. As respostas que ocorrem
diante do primeiro estímulo são reforçadas, enquanto aquelas emiti
das diante do segundo, não. Como resultado, naturalmente, o indiví
duo passa a responder sistematicamente diante do primeiro estímulo.
Tal configuração de estímulos discriminativos, no ambiente na
tural, assume complexidade muito maior, na medida em que se esta
belece uma rede de condições que passam a controlar os repertórios
discriminativos. O controle de estímulos, nas suas diversas variantes,
exerce papel central na Análise do Comportamento. Merece especial
atenção o estudo das discriminações condicionais envolvendo rela
ções arbitrárias entre estímulos discriminativos condicionais e as dis
criminações para as quais eles estabelecem a ocasião.
O estudo do comportamento simbólico, envolvendo classes de equi
valência, iniciado mediante experimentos com animais e abrangendo a
comparação de respostas escolhidas com uma amostra, exemplo ou mo
delo (matching to sample), evoluiu amplamente em diversas aplicações
ao comportamento humano, sendo reconhecidas, hoje, as propriedades de
relações denominadas reflexividade, simetria e transitividade. Cons-
1 1 8 a Introdução à Psicologia da Educação
tituiriam propriedades reflexivas aquelas que se mantêm entre um de
terminado termo e ele mesmo (A = A); constituiríam propriedades si
métricas aquelas em que a ordem dos termos da relação é reversível (se
A = B, então B = A); constituiríam propriedades transitivas aquelas em
que os termos comuns em dois pares ordenados determinariam um ter
ceiro par ordenado (se A = B e B = C, então A = C).
I V . 1 .5 E s q u e m a s d e r e f o r ç a m e n t o
E fácil concluir que existem inúmeras maneiras pelas quais as
consequências dos comportamentos operantes podem se apresentar.
Também não é difícil supor que, dependendo dessa relação de contin
gência, os comportamentos por essa via instalados e/ou controlados
serão mais ou menos “resistentes”, mais ou menos “estáveis” ou terão
tais ou quais características e daí por diante. De fato, assim é. Ou
seja, o modo pelo qual a ocorrência de um reforço é programado cos
tuma ser designado esquema de reforçamento.
Os esquemas mais comumente utilizados são: reforçamento
contínuo ou reforçamento intermitente. No primeiro, toda resposta
é seguida de um reforço: há uma relação de 1:1, portanto. Já os es
quemas de reforçamento intermitentes, em que apenas algumas res
postas são reforçadas, podem ser de razão ou de intervalo. Os de
razão implicam uma certa quantidade de respostas para cada reforço.
Se essa quantidade for fixa (exemplo: 2:1, 3:1, 100:1), naturalmente
estaremos diante de um esquema de reforçamento em razão fixa (do
qual o esquema contínuo é apenas um caso particular (1:1)). Se essa
quantidade for variável e aleatória, estaremos diante de um esquema
de reforçamento em razão variável (num esquema de reforçamento
em razão variável, 3:1, por exemplo, ocorrerão, em média, 3 respos
tas para cada evento reforçador, mas poderemos ter, nos episódios in
dividuais, 2 respostas para 1 reforço, 3 para 1, 4 para 1, de modo que
a média de respostas para cada reforço seja, no caso, 3).
Ainda entre os esquemas intermitentes, temos os de intervalo
fixo e os de intervalo variável, em que o parâmetro controlador é o
tempo. Assim, num esquema de intervalo fixo 3’, receberá reforço
apenas a primeira resposta emitida após o término do intervalo de
três minutos. Valem os mesmos critérios apontados quanto aos esque
mas de razão variável, quando se trata do tempo aleatório e variável
dos esquemas de intervalo.
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o Edu«u<m 1 IV
Muitas propriedades específicas de respostas são geradas a cada
esquema de reforçamento. Para exemplificar pelos mais simples, os
esquemas intermitentes produzem repertórios de resposta com resis
tência à extinção muito mais alta; os esquemas de razão produzem
altas frequências de resposta; os esquemas de reforço contínuo asse
guram a manutenção imediata das respostas, sendo os recomendados
quando se trata do momento de instalação de comportamentos, mais
que de sua manutenção.
IV. 1.6 A p r o x i m a ç õ e s s u c e s s iv a s
Pode-se, portanto, instalar, eliminar, aumentar ou reduzir a força
de um operante (o que, conforme cada situação, é possível medir pela
frequência, duração, intensidade, topografia ou outra unidade ou cri
tério de medida arbitrado, desde que fisicamente identificável). A
instalação de comportamentos, via de regra, realiza-se mediante a
técnica de modelagem por aproximações sucessivas, reforçando-se,
seletivamente, respostas parecidas com a resposta final esperada.
Assim, se se deseja a pronúncia correta da palavra “água” pela crian
ça, é funcional o uso dos primeiros reforços diante de aproximaçõesfeitas por ela ao vocábulo correto. Todavia, a boa técnica, para resul
tados precisos e rápidos, exige não reforçar excessivamente “elos in
corretos” entre o comportamento inicial e o final (algo como “a”,
“aga”, “aua” etc.), reforçando-se, em contrapartida, até que o com
portamento final esteja bem instalado, episódios cada vez mais simi
lares ao comportamento esperado. Também é notório o prejuízo re
sultante de “pular” etapas, supondo a criança, no caso, tão preparada
quanto o adulto para, sem mais intermediação, poder emitir o padrão
final “água”. Está sempre em jogo, portanto, o princípio de aproxi
mações sucessivas mediante o uso de pequenos passos, o que implica
redução de erros desnecessários. IV.
IV. 1.7 R e f o r ç a m e n t o d i f e r e n c i a l
Ainda no exemplo precedente, reforçam-se, portanto, respostas
que se aproximem do repertório desejado, mas não outras que esca
pem aos critérios estabelecidos. Está em curso o reforçamento dife
rencial, procedimento cm que se reforça uma resposta específica, co-
170 • Intioduçno a Psicologia da Educação
locando-se em extinção (ou diminuindo a força, mediante a retirada
do reforço) todas as demais, porque, ainda que possam ter alguma
similaridade topográfica, estão fora dos critérios estabelecidos. Ob
tém-se com isso a chamada diferenciação de respostas, que resulta do
procedimento de reforçamento diferencial (um padrão de respostas é
fortalecido, em detrimento do enfraquecimento das demais formas de
resposta apresentadas). A resposta escolhida é, assim, designada res
posta diferenciada.
Finalmente, ressalte-se que dezenas de outras questões, princípios
básicos, achados significativos e áreas de pesquisa e atuação poderíam
ser arrolados aqui, fosse outra, que não essencialmente introdutória, a
finalidade deste texto. A bibliografia básica, indicada ao final, pode
sugerir ao leitor inúmeros assuntos relevantes a serem estudados.
IV .2 AEC e Educação: Controvérsias e N ovas P erspectivas
Em que medida e de que maneira os principais achados da Análi
se do Comportamento foram, até aqui, colocados em prática na área
educacional? Houve aceitação? Quais os resultados? Qual o estado atual
dessas questões? Quais perspectivas se apresentam para o futuro?
Respeitados os limites editoriais quanto ao formato e as finalida
des deste pequeno texto, ao mesmo tempo em que respeitado o cuida
do de não super simplificar o assunto, essas serão as principais inda
gações a serem, se não respondidas face à sua complexidade, ao me
nos analisadas brevemente.
Uma das características mais caras à AEC, e que sempre fez parte
das recomendações dos seus autores quando de iniciativas junto ao
sistema escolar, é a questão da clareza na especificação de objetivos
comportamentais. Do final dos anos 60 em diante, inúmeras iniciati
vas no ensino norte-americano e em bom número de escolas brasilei
ras, estiveram carregadas de excepcional preocupação com a defini
ção de objetivos instrucionais claros. Embora a (pertinente) ideia fos
se expressar os objetivos (educacionais e instrucionais) em termos de
comportamentos a serem apresentados pelo aluno ao final do proces
so, a exacerbação desse cuidado e, por vezes, a má compreensão das
razões para essa prática conduziram frequentemente e em pouco tem
po a uma condição de descrédito ao procedimento. Equívocos (técni
cos, mais que teóricos) aconteceram, por exemplo, quando, a despei
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o Ediutiftio 1171
to da proposta de definir clara e objetivamente o que se pretendia
com certos procedimentos educacionais, os autores de tentativas de
formulação de objetivos comportamentais faziam das próprias defini
ções o assunto central. Isso levou a uma aparência de ensino segmen
tado, reducionista, tecnicista e atomizado, em que, decerto, a poste
rior reunião dos comportamentos altamente particulares ensinados não
conseguiría representar ou constituir-se no próprio objetivo educacio
nal maior então proposto. Por exemplo, as inúmeras respostas isola
das numa aula de computação aritmética simples, quando eventual
mente reunidas no repertório do educando, nem sempre conseguem
dar conta da ideia geral almejada pelos professores, de “compreensão
do significado de operações aritméticas simples”. Naturalmente, redi
gido dessa forma, esse não teria sido um objetivo proposto por analis
tas do comportamento, mas, de resto, certamente continuaria uma
aspiração genérica no meio educacional. Isso denota também que no
contexto da AEC, embora detentora de procedimentos relevantes para
a educação, têm faltado aos analistas (grosso modo) estratégias de
articulação entre as metas pretendidas e os achados científicos exis
tentes na área. Recentemente, pesquisadores experientes (cf. Luna,
2001) têm reconhecido as grandes resistências à Análise do Compor
tamento aplicada à educação:
Definitivamente, a análise do comportamento é persona
non grata (se é que já foi grata um dia). No entanto, ela se
mantém presente e atuante. Independentemente de tentativas
ostensivas em contrário, ela mantém-se nas universidades como
parte do currículo. Pelo menos nos grandes centros, esforços
sérios de avaliação do ensino dessa disciplina têm evidenciado
que os alunos reconhecem a seriedade, o cuidado e o preparo
dos professores que a ministram. Nesse sentido, fala bem alto
o número contínuo (se não crescente) de alunos interessados
em monitoria e em pesquisa extracurricular. Os programas de
pós-graduação em análise do comportamento mantêm-se bem
avaliados e com demanda contínua (apesar de crescerem em
número). Uma avaliação externa da produtividade dos pesqui
sadores em análise do comportamento pode ser conduzida pelo
número de processos aprovados em agências como as Funda
ções de Apoio à Pesquisa e o CNPq e a participação de pes
quisadores em eventos internacionais. Finalmente, pesquisado
res publicamente identificados com a análise do comportamen
to são eontinuamente requisitados por órgãos oficiais nacio
177 • Intioduuio à Psicologia da Educação
nais como consultores e participantes de comissões. Como ex
plicar, então, a baixa penetração/atuação dos profissionais iden
tificados com a análise do comportamento no encaminhamen
to de problemas educacionais? Há vários fatores a analisar e
eu selecionei alguns que me parecem particularmente impor
tantes. (p. 145)
Provisoriamente, apesar da incógnita, retomemos os princípios
frequentemente associados aos projetos educacionais behavioristas,
nos quais se destacam:
1) a necessidade de que se garanta uma boa densidade de reforça-
mento, sempre dirigida aos comportamentos compatíveis que le
vem diretamente ao comportamento desejado;
2) a importância de assegurar oportunidades, em sala de aula, para
que o aluno tenha condições de emitir os comportamentos selecio
nados em função dos objetivos;
3) a recomendação de se utilizar, preferencialmente, situações de
aprendizagem que apresentem maior probabilidade de gerar refor-
çadores naturais. Como já se mencionou, ainda que o professor
possa se ver obrigado a, inicialmente, valer-se do expediente de
usar reforçadores sociais arbitrários, deve buscar sua pronta subs
tituição pelos reforçadores naturais. Obviamente, não tem sentido
que o aluno aprenda a diferença entre as cores verde, amarelo e
vermelho de um semáforo em virtude do elogio do professor ou de
meio ponto a mais na nota: o que deve controlar a discriminação
feita pelo estudante é o valor de sobrevivência social resultante do
dominar essa informação, ou seja, o controle pelas consequências
naturais na sua vida cotidiana gerado pela aquisição dessa discri
minação simples. Portanto, embora seja aceitável o uso provisório
de reforçadores arbitrários (artificiais), esse procedimento só tem
sentido se for etapa que antecede outra, em que o aprender adquire
perenidade em função de consequências naturais. Deve-se, ainda,
tomar o cuidado para não entenderessa proposição como tendo
fundo utilitarista (no sentido ético mais negativo do pragmatismo);
na verdade, é imprescindível que o comportamento do educando
seja mantido por consequências naturais de sua vida cotidiana, mas
esta não necessariamente está limitada ao fazer ou às situações
consumatórias corriqueiras. Ler, horas a fio, um livro de ficção,
embora não torne facilmente explícita uma situação típica de so
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o lilutmm» | 17.1
brevivência da espécie, muito menos um rol imediatamente obje
tivo de consequências operantes, sinaliza claramente a possibili
dade de que o comportamento de ler também esteja controlado
pelas consequências intrínsecas já associadas pelo leitor, na sua
história de vida, a outros valores essenciais (reforçadores): daí a
leitura ser reportada como “interessante”, por exemplo;
4) a utilização do “princípio de progressão gradual para estabelecer
repertórios complexos”, conforme sugere Matos (1993):
Dê inicialmente o máximo de ajuda necessária ao aluno
e retire gradualmente essa ajuda; estabeleça critérios os míni
mos possíveis de desempenho e aumente gradualmente suas
exigências; construa sequências longas passo a passo; final
mente, diminua gradualmente a frequência e a magnitude dos
reforçadores extrínsecos à situação. Os critérios de mudança
nos estímulos antecedentes (instruções, situações, ilustrações,
generalizações etc.) e nas regras de consequenciação devem
ser: 1) consistentes com o desempenho do aluno e 2) relevan
tes, isto é, devem acompanhar o progresso do aluno (o que será
retomado mais tarde) e estar estreitamente vinculados aos com
portamentos que se desejam que os alunos aprendam, (p. 157)
5) o fato de que facilita o ensino constatar a existência ou instalar
comportamentos que constituem condições para a aprendizagem
em geral, tais como o prestar atenção e o seguir instruções ver
bais, frequentemente presentes em todas as demais situações de
ensino, qualquer que seja o seu nível. Naturalmente, pode-se cor
rer o risco de incidir numa regressão infinita quanto a eventuais
“pré-requisitos”, de modo que, para melhor compreender essa ques
tão, recomenda-se, à vista do Behaviorismo Radical, uma leitura
da questão da complementaridade entre os aspectos filogenético c
ontogenético;
6) a necessidade de evitar, tanto quanto possível, ocasiões que levem
o aluno a cometer erros desnecessários (o que não deve ser con
fundido com a ideia corrente e, não raro, mal compreendida, do
“erro construtivo”, na verdade uma resposta funcional e produtiva
da criança que deve ser valorizada). Utilizar o princípio dos pe
quenos passos e especificar com muita clareza o que se espera do
aluno (cspecialmente tornar claro para ele próprio, antes que para
124 • Introdução ò Psicologia do Educação
a instituição ou para meros formulários) são providências que po
dem reduzir a probabilidade de que educando e professor errem
demasiada e desnecessariamente, produzindo frustrações que ini
bem a motivação geral para novas tentativas de aprendizagem.
Muitas outras sugestões poderíam ser arroladas para nortear par
te da atuação em sala de aula. As “máquinas de ensinar” e o ensino
programado também têm sido associados a Skinner e à AEC, por ve
zes como iniciativas desumanizantes, porque excluiríam a presença
do professor. Ambos os projetos, certamente interligados, foram pen
sados inicialmente por Skinner e tiveram suas sementes lançadas há
mais de 50 anos. O ensino programado, bem como as teaching
machines, propunham uma série de princípios (pequenas doses, cla
reza de objetivos, imediaticidade das consequências etc.), de modo
que o velho objetivo do “ensino eficaz”, por vezes entre os autores
norte-americanos equalizado com a ideia de educação “consumató-
ria” e “conteudista” (nada coerente com o que se pretende numa vi
são emancipadora), pudesse ser rapidamente alcançado.
Iniciativas marcantes com sistemas instrucionais personalizados
ocorreram, nas décadas de 60 e 70, especialmente nos Estados Uni
dos, México e Brasil (UnB, por exemplo). Diversos textos programa
dos foram escritos, mas também aqui, ao que parece, ao lado da resis
tência cultural às novas tecnologias (vide situação recente do Ensino
a Distância - EaD), estratégias pouco esclarecedoras, por exemplo,
acerca do imprescindível papel do educador (e da preservação de par
te fundamental de sua interação com o aluno), não foram levadas
adiante com sucesso. Como consequência, retoma relevância a obser
vação de Luna (2001):
Pessoalmente, não tenho dúvidas de que temos o que di
zer e muito a contribuir para a melhoria e o desenvolvimento
da Educação. Mas não seremos moda, não constituiremos dog
ma (felizmente), muito menos deteremos um produto desejado
de consumo. Razões para explicar esse status não faltam... Se
pretendemos intervir no sistema educacional parecem impres
cindíveis algumas linhas de ação coordenadas. 1) Analisarmos
macrocontingências que nos permitam posicionar-nos lado a
lado com os formuladores das políticas educacionais; afinal,
valor é ou não parte da contingência?; 2) Prepararmo-nos para
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o Eduta^uo I 17S
identificar que problemas ameaçam - se não o futuro da cultu
ra, como queria Skinner - pelo menos o presente da nossa so
ciedade; 3) Produzir material educacional passível de ser ab
sorvido pelo professor na situação de ensino e divulgar seus
resultados e eficiência; 4) Preparar o professor para usá-lo. O
trabalho direto com o professor tem uma possibilidade de mul
tiplicação dificilmente alcançada pelo trabalho direto com o
aluno; 5) Marcar presença em todos os eventos em que o tema
da educação esteja presente. Não avançaremos nada se nos
confinarmos a eventos específicos da AEC. (p. 154-5)
É necessário registrar, por outro lado, que tem sido muito pro
missora a produção científica (e as aplicações práticas) na área que
estuda equivalência de estímulos e questões correlatas. Atualmente,
essa área reúne grupos importantes de pesquisadores da AEC em todo
o mundo, devendo-se muito de suas raízes primeiras ao trabalho con
sistente de Murray Sidman. Intervenções com grande sucesso têm sido
empreendidas, seja no que concerne a uma análise comportamental
da leitura e da escrita, seja no que diz respeito às relações entre com
portamento acadêmico e (in)disciplina escolar. Esta última, se abor
dada com os tradicionais procedimentos aversivos, por um lado, ou
mediante simples posturas gratuitamente acolhedoras, compreensivas
ou de superproteção, por outro, tem apresentado grande resistência à
mudança, exigindo novos procedimentos. As pesquisas mais recentes
têm confirmado o pressuposto da incompatibilidade de respostas en
quanto boa técnica nesses casos. Ou seja, no que concerne à indisci
plina, o envolvimento do aluno em programas que organizam sequên
cias apropriadas de ensino, que respeitam o ritmo de aprendizagem
individual, que proporcionam consequências apropriadas aos alunos
e que, portanto, asseguram condições para que eles se envolvam po
sitivamente com a instrução garantem incompatibilidade genérica com
a apresentação e manutenção da indisciplina escolar.
No que diz respeito à leitura e escrita, inúmeros procedimentos
bem-sucedidos têm sido implementados. Segundo De Rose (1999):
O ensino de leitura e escrita envolve, portanto, o estabe
lecimento de relações de controle de estímulo envolvendo estí
mulos textuais, seja como estímulos controladores da resposta,
176 • Introdução à Psicologia da Educação
no caso da leitura, seja como produto da resposta, no caso da
escrita. Os estímulos textuais, no entanto, têm significado. Se
considerarmos apenas palavras isoladas, o significado pode ser
analisado em termos de relações de equivalência entre os estí
mulos textuais e seus referentes. O procedimento de empare-
Ihamento com modelo é central, tanto para a análise das relações de equivalência quanto para o ensino das relações de con
trole de estímulo e equivalência envolvidas na leitura e escrita.
(...) Desta forma, programas de ensino bem construídos,
de acordo com esses princípios, tomam-se altamente eficazes
para promover a aprendizagem e a satisfação do estudante com
seus resultados. Mesmo nas situações em que for necessário
utilizar consequências extrínsecas, um bom programa de ensi
no pode criar condições para que a própria aprendizagem e seus
resultados adquiram propriedades de reforçador condicionado,
ou seja, para que o estudante passe a “gostar de aprender”, de
modo que a aprendizagem venha a ser a própria recompensa
para o engajamento na tarefa acadêmica, (p. 6, 19)
Mesmo que sob perene jurisdição da crítica ética, ideológica e
social, cremos que a educação não pode prescindir da rica pluralidade
de opções teóricas de aprendizagem disponíveis (e neste pequeno li
vro apenas algumas são apresentadas, de modo brevíssimo, dada a
natureza introdutória do texto) em favor de posição hegemônica qual
quer, mormente quando essa hegemonia é cíclica e frequentemente
representa insólitas tentativas episódicas, governo a governo, de apon
tar alternativas redentoras (menos para a própria educação do que para
projetos políticos personalistas). Nessa perspectiva, ressalvada nossa
opção profissional pela abordagem comportamental contextualista
(que explicitaremos adiante), entendemos que o melhor projeto de
abordagem da Psicologia para a educação é... aquele que é bem-feito!
Ou seja, cremos nas contribuições psicanalíticas, nas cognitivo-cons-
trutivistas, nas histórico-sociais, na medida em que derivem de proje
tos sérios e consistentes, voltados para uma educação emancipadora e
progressista. Não é sem razão, igualmente, que entendemos existirem
motivos substantivos o suficiente para sustentar boas propostas com-
portamentalistas para a educação.
Os exemplos de aplicações equivocadas, em todas as abordagens,
preenchem muitas páginas da história da educação. Os exemplos de
C a p itu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o [<lu((i(<io I 1 7 /
equívocos teóricos acerca do que supostamente pensariam os analis
tas do comportamento ou acerca daquilo que essa abordagem preco
nizaria igualmente estão espalhados pela literatura de segunda mão
disponível entre estudantes e profissionais da área: mesmo textos hoje
considerados clássicos apresentam vieses marcantes ao tratar das dis
tinções entre escolas e correntes de pensamento da Psicologia.
Portanto, é crível que também - mas não exclusivamente - a
Análise do Comportamento pode trazer contribuições valiosas à edu
cação e que deveria ser papel dos órgãos oficiais encarregados de
pensar as políticas públicas para a educação agir de modo plural: ao
lado de grande transparência e de rigor ético, por vezes em falta, é
rara, embora desejável, a adoção de postura mais pluralista na aceita
ção e no apoio cuidadoso a iniciativas múltiplas na área do ensino e
da aprendizagem.
Na abordagem comportamental, para exemplo que não se preten
de generalizar a grandes conglomerados populacionais, permitimo-nos
recuperar parte do relato do interessante empreendimento adotado pela
comunidade mexicana Los Horcones (http://www.loshorcones.org.mx),
tal como o apresentou Juan Robinson, um membro dessa comunidade
fundada nos anos 70 por estudantes mexicanos de Psicologia (e de AEC,
portanto), durante uma das mesas-redondas do III Simpósio em Filoso
fia e Ciência, na UNESP-Marília, em 1999 (Carrara, 2001):
A partir de um ponto de vista behaviorista, podemos di
zer que a maior parte dos problemas educativos atuais se deri
va de uma concepção mentalista sobre o comportamento hu
mano. Por mentalismo nos referimos a qualquer filosofia que
trate de explicar o comportamento humano referindo-se a even
tos mentais e afirme que esses eventos se auto-originam e se
automantêm... uma filosofia mentalista explica o comportamen
to... referindo-se a eventos que ocorrem na mente. Por exem
plo: o mentalista dirá que um estudante não presta atenção
porque tem uma “mente apática ou inerte”, ou que um profes
sor precisa de uma “mente dinâmica, clara e criativa” para
ensinar efetivamente. O mentalista também afirma que a edu
cação atual não é de qualidade porque os indivíduos que po
dem influir sobre ela não têm uma “atitude mental positiva”
dirigida à educação, (p. 129-130)
http://www.loshorcones.org.mx
1
178 • Introdução n Psicologia da Educação
Esse mesmo autor enumera ao menos 17 princípios que na expe
riência de ensino com as crianças da comunidade Los Horcones têm
sido levados efetivamente a sério e têm produzido resultados anima
dores. São eles, resumidamente e em contraposição ao que Robinson
chama de “filosofia mentalista”:
1) O comportamento do professor e do aluno são eventos naturais, ou
seja, trata-se de fenômenos observáveis e mensuráveis.
2) O comportamento do professor e do aluno têm causas; não ocor
rem sem razão. Seu comportamento é resultado de interação com
o meio educativo. A definição comportamental de meio difere da
definição comum desse termo, ou seja, trata-se de tudo o que afe
ta a conduta, quer seja um evento físico, químico, biológico ou
comportamental.
3) O comportamento do professor e o comportamento do estudante
estão sujeitos a explicações com bases científicas, que por sua vez
constituem objeto de estudo do behaviorismo.
4) O professor aprende a ensinar efetivamente pelas consequências
que recebe ao ensinar.
5) O professor não apenas ensina comportamentos aos estudantes,
mas também lhes ensina como certos eventos podem ser reforça-
dores, neutros ou aversivos.
6) A relação entre professor e aluno é bidirecional, afetando-se reci
procamente; daí a importância de manejo do meio que afeta seus
comportamentos.
7) Todo professor e todo estudante são dignos de serem tratados como
pessoas, o que inclui evitar eventos aversivos. A ciência do com
portamento contribui para que cada pessoa seja tratada com dig
nidade, evitando punições e priorizando consequências positivas.
8) Por considerar aluno e professor pessoas únicas e não como gru
po, a filosofia behaviorista promove a utilização de métodos de
ensino personalizados e sistemas de avaliação não comparativos.
9) O behaviorismo não considera o ser humano como passivo diante
do ambiente. A ciência do comportamento entende que há intera
ção de meio e pessoas.
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do Comportamento o Eliminem | | W
10) A filosofia comportamentalista de educação é otimista: isso quer
dizer que o comportamento do professor e do estudante não está
predeterminado de modo fatalista. Todo professor pode aprender
a ensinar efetivamente e todo estudante pode aprender com êxito.
11 ) 0 ensino eficaz requer conhecimento científico sobre como ensi
nar. O educador precisa adquirir competência na aplicação dos
princípios comportamentais.
12) O reforçamento positivo é mal interpretado quando se diz que
sua aplicação produz efeitos colaterais negativos, como depen
dência e falta de criatividade. E claro que a aplicação inapropria-
da de reforçamento positivo produzirá efeitos negativos.
13) A filosofia comportamentalista enfatiza o uso de reforçamento
natural na manutenção do comportamento.
14) O uso de extinção e reforçamento de comportamentos incompa
tíveis são técnicas comportamentais propostas pelo comportamen-
talismo como alternativas ao uso do castigo.
15) A Análise do Comportamento usa o princípio de modelagem com
aproximações sucessivas. E importante esclarecer que a expres
são técnica “modelagem” não guarda similaridade com qualquer
ideia de “modelar a pessoa”.
16) Os professores também devem ensinar habilidades sociais e pes
soais, não apenas habilidades acadêmicas. Relacionar-se apropria
damente com outras pessoas, comunicar-se efetivamente, ser ca
paz de solucionar e prevenir problemas interpessoais são condu
tas que a escola deveensinar e manter nos estudantes.
17) A filosofia comportamentalista de educação promove o ensino
de comportamentos pró-sociais (comunitários) que contribuam
para um mundo melhor para todos e rejeita a ideia de escola que
ensine aos seus estudantes, preponderantemente, sobrevivência
fundada na competição, desigualdade e discriminação e que fo
menta uma sociedade competitiva, desigual e discricionária. Em
Los I lorcones ensina-se enfaticamente a cooperação, a igualda
de, o compartilhamento, a não violência e a importância dos cui
dados com a preservação do meio ambiente.
130 • Introdução á Psicologia da Educação
Por fim, J. Robinson esclarece que a sua comunidade, que adota
um sistema de governo chamado personocracia (em que todas as
pessoas podem participar das decisões que afetam a comunidade),
elegeu, por unanimidade, a proposta de um Modelo Educacional Per-
sonalizante-Comunitário-Comportamental (MEPCC) para sua educa
ção geral. O modelo é “personalizante” (e não personalizado) porque
busca ajudar o estudante a melhorar como pessoa e não somente a
sobressair nos estudos e porque apoia o desenvolvimento pessoal da
queles envolvidos no processo educacional, para que se tornem me
lhores cidadãos. Robinson fez questão de lembrar que, embora a co
munidade também se utilize do Sistema de Instrução Personalizada,
não é por isso que ele é nomeado como personalizante, senão pela
sua importância para o desenvolvimento total da pessoa.
O MEPCC é também um modelo comunitário, na medida em
que enfatiza um comportamento construtivo (e que busca a melhor
cidadania, como aqui designamos) para a comunidade, incluindo, por
exemplo, cooperação e igualdade. Para tanto, o modelo não trata os
alunos isoladamente, mas a escola como uma comunidade integrada
por professores, administradores, estudantes e familiares, ou seja, tra
ta-se de uma comunidade dentro de outra comunidade. Por sua vez,
os alunos de Los Horcones, que é uma comunidade pequena no Esta
do de Sonora, a cada ano realizam exames de certificação de compe
tência, administrados pelo Estado mexicano. Explica J. Robinson que
o MEPCC é um modelo comunitário por considerar que a educação
não pode se limitar à instituição de ensino; pelo contrário, deve se
estender a toda a comunidade enquanto lugar onde se pode ensinar e
aprender. Uma das principais características da família comunitária é
justamente o fato de ter caráter educativo, porque busca compartilhar
o ensino e aplicar os princípios comportamentais a todos os membros
da comunidade, que vivem sob o que designam ser um sistema coope-
rativo-econômico do tipo Walden (referindo-se à novela utópica
Walden //, de B. F. Skinner). Conclui J. Robinson:
O b e h a v i o r i s m o r a d i c a l é u r n a f i l o s o f i a h u m a n i s t a , n ã o
c o n s i d e r a n d o o s s e r e s h u m a n o s c o m o m á q u i n a s q u e r e s p o n
d e m a e s t í m u l o s , s e n ã o c o m o p e s s o a s q u e i n t e r a g e m c o m s e u
m e i o a f e t a n d o - o e s e n d o a f e t a d a s p o r e l e . O b e h a v i o r i s m o r a
d i c a l n ã o n e g a o q u e o s s e r e s h u m a n o s p e n s a m o s o u s e n t i m o s .
L o s H o r c o n e s é u m l a b o r a t ó r i o c u l t u r a l o n d e s e i n v e s t i g a m
p r á t i c a s c u l t u r a i s q u e d e m o n s t r e m s e r e f e t i v a s p a r a o d e s e n
C a p ítu lo IV • Behaviorismo, Análise do (om poitom m ilo u filuuuuo I n i
v o l v i m e n t o d e u m a n o v a s o c i e d a d e , b a s e a d a n a c o o p e r a ç ã o ,
i g u a l d a d e , p a c i f i s m o e c o m s u s t e n t a ç ã o e c o l ó g i c a , ( p . 1 4 0 )
Cabe-nos assinalar que, entre os primórdios do ensino programa
do no Brasil, nos anos 60, de modo competente liderados pela pro
fessora Carolina Bori, por Rodolpho Azzi e por Fred Keller, e os dias
atuais, grandes avanços de pesquisa se deram na AEC. Por outro lado,
está, naturalmente, muito distante a ótica epistemológica atual em
relação à incipiente proposta do behaviorismo ortodoxo watsoniano
de 1913, embora com esta seja frequentemente confundida. É certo,
todavia, que muito existe a aperfeiçoar e que, tendo em vista a enor
me ampliação das publicações, dos eventos científicos, dos progra
mas de pós-graduação e a criação e desenvolvimento de entidades
representativas da área, a Análise do Comportamento vem se expan
dindo de forma considerável nos últimos anos. Concomitantemente,
sua aplicação em vários campos, inclusive na educação, constitui con
sequência natural a ser constatada proximamente. Nesses novos de
senvolvimentos do behaviorismo têm sido cogitadas, com frequência,
alternativas teórico-práticas renovadoras, como é o caso das análises
que têm sido feitas, de 1988 para cá, a respeito da possível adoção de
uma ênfase humanista contextualista (no sentido pepperiano) no Beha
viorismo Radical, o que implica, entre outras questões, a ampliação
das variáveis a serem consideradas quando se analisam relações
funcionais, bem como redimensionamento do conceito e alcance da
ideia de ambiente enquanto contexto em que se insere o comporta
mento. Esse e outros temas, todavia, fogem ao escopo deste texto,
embora sinalizem com o fato de a Análise do Comportamento se cons
tituir como ciência que, mesmo detentora de vasto cacife teórico-
-tecnológico, permanece aberta e em constante desenvolvimento.
Como já mencionamos em outros escritos (Carrara, 1998), os tempos
exigem agora outro tipo de esforço possível, já que:
. . . p e r m a n e c e c l a r a a p o s s i b i l i d a d e d e q u e d i f e r e n t e s v i a s
s e j a m u t i l i z a d a s p a r a a c o m p r e e n s ã o d o s e r h u m a n o . N e s s e
s e n t i d o , b e h a v i o r i s t a s , f e n o m e n ó l o g o s , e s t r u t u r a l i s t a s c t a n t o s
o u t r o s d e v e m a b r i r m ã o d a i l u s ó r i a e x c l u s i v i d a d e q u e a t é a q u i
a d v o g a r a m , f i c a n d o p r e p a r a d o s p a r a u m a n o v a e r a n a P s i c o l o
g i a : p r e c i s a m p e r g u n t a r - s e o q u e a P s i c o l o g i a t e m a f a z e r , em
conjunto, e m f a v o r d a c o n s t r u ç ã o d a c i d a d a n i a , ( p . 3 1 7 )
13? • Introdução a Psicologia da Educação
Exercícios
1) Quais são os pressupostos básicos do Behaviorismo Radical?
2) O que distingue o Behaviorismo Radical do Behaviorismo Meto
dológico?
3) O que é um esquema de reforçamento?
4) O que é a tríplice contingência? Explique cada um dos seus termos.
5) Com base nos princípios da AEC, analise a frase: “O que é refor-
çador para uns, não é para outros”.
6) Descreva o procedimento de modelagem por aproximações suces
sivas.
7) Dê um exemplo de como a AEC poderia ser empregada na área de
educação.
R eferências
A Y L L O N , T . & A Z R I N , N . H . The token economy: a m o t i v a t i o n a l s y s t e m f o r
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_______ Sobre o Behaviorismo. S ã o P a u l o : C u l t r i x , 1 9 8 0 .
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Suely Amaral Mello
| A Escola de Vygotsky
V . l Introdução
A teoria histórico-cultural parte do pressuposto de que, na presen
ça de condições adequadas de vida e de educação, que serão esclarecidas
ao longo do texto, as crianças desenvolvem intensamente, e desde os
primeiros anos de vida, diferentes atividades práticas, intelectuais e ar
tísticas e iniciam a formação de idéias, sentimentos e hábitos morais e
traços de personalidade que até pouco tempo atrás julgávamos impos
sível. Como isso pode se dar e qual o significado desse desenvolvimen
to para a educação e, mais especialmente, para a educação escolar, é o
que procuraremos discutir nas páginas seguintes.
Antes de entrarmos nas discussões pedagógicas, cremos ser im
portante conhecer o contexto em que surgiu a teoria e suas teses princi
pais. A teoria histórico-cultural, mais conhecida no Brasil como Es
cola de Vygotsky, constituiu-se como uma vertente da psicologia que
se desenvolvia na União Soviética, nas décadas iniciais do século XX.
Os autores que autodenominaram sua corrente de pensamento como
histórico-cultural tinham razões para isso: partiam do pressuposto de
que o homem é um ser de natureza social. O que significa isso? Ad
mitida a origem animal dos homens, restava à ciência explicar suas
especificidades frente aos outros animais: como se forma, no homem,
sua inteligência, sua personalidade... em uma palavra, a consciência
humana que faz de cada pessoa um ser único e irrepetível.
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
1.16 • Introdução á Psicologia da Educação
Outras correntes da Psicologia, presentes no início do século
passado, ou simplesmente ignoravam a consciência e tratavam ape
nas de explicar os elementos mais simples do comportamento huma
no ou explicavam a consciência dos homens apelando para uma dádi
va divina. Insatisfeito com essas explicações, Vygotsky, o fundador
da teoria histórico-cultural, retomou os estudos de Karl Marx, reali
zados no século XIX, que apontavam que os homens não são dotados
de muita ou pouca inteligência, solidários ou egoístas, plenos ou va
zios de aptidões para a poesia, para a música, para a ciência devido a
uma vontade divina. Da mesma forma que os homens não são ricos
ou pobres por uma decisão divina, mas devido ao lugar que ocupam
nas relações sociais - que, diga-se de passagem, foram criadas pelos
homens ao longo da história - , também não têm mais ou menos capa
cidades, mais ou menos habilidades, mais ou menos aptidões para as
artes, para a filosofia e para a ciência por um dom divino, mas devido
às suas condições materiais de vida e de educação, que são condicio
nadas pelo lugar que ocupam nas relações sociais.
Vem daí, pois, o nome dessa corrente da Psicologia: da compre
ensão de ser humano - do conceito de homem - que fundamenta os
estudos e investigações dessa teoria. A teoria histórico-cultural supe
ra a concepção de que a criança traz, ao nascer, o conjunto de apti
dões e capacidades - que vai apresentar quando adulta - dadas como
potencialidades que ela vai desenvolver mais ou desenvolver menos à
medida que cresce e de acordo com o meio em que vive, mas sempre
dentro do conjunto de possibilidades que tem no nascimento. Para a
teoria histórico-cultural, a criança nasce com uma única potenciali
dade, a potencialidade para aprender potencialidades; com uma única
aptidão, a aptidão para aprender aptidões; com uma única capacida
de, a capacidade ilimitada de aprender e, nesse processo, desenvolver
sua inteligência - que se constitui mediante a linguagem oral, a aten
ção, a memória, o pensamento, o controle da própria conduta, a lin
guagem escrita, o desenho, o cálculo - e sua personalidade - a auto-
estima, os valores morais e éticos, a afetividade. Em outras palavras,
o ser humano não nasce humano, mas aprende a ser humano com as
outras pessoas - com as gerações adultas e com as crianças mais ve
lhas - , com as situaçõesque vive, no momento histórico em que vive
e com a cultura a que tem acesso. O ser humano é, pois, um ser his
tórico-cultural. As habilidades, capacidades e aptidões humanas cria
das e necessárias à vida eram umas na Pré-História, outras na Idade
Média, outras ainda no início da Revolução Industrial e são outras
neste momento da nossa história. E cada ser humano, em seu tempo.
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
C a p ítu lo V • A Escola de Vygotsky I 137
apropria-se daquelas qualidades humanas disponíveis e necessárias
para viver em sua época. Essas qualidades, além disso, diferem de
um grupo social para outro, de acordo com o acesso que cada pessoa
tem à cultura.
Quando falamos em cultura, queremos dizer tudo o que os seres
humanos vieram criando ao longo da história: tanto coisas materiais
como não materiais. As coisas materiais da cultura são constituídas
pelos instrumentos de trabalho, pelas máquinas, pelos objetos que
utilizamos para as mais diferentes atividades - o que usamos para
vestir, mobiliar a casa, a própria casa, os livros... só para dar um pe
queno exemplo do conjunto enorme de objetos que os homens cria
ram ao longo da história. As coisas não materiais formam um con
junto igualmente extenso constituído pelos hábitos e costumes de um
povo, pela língua, pelos conhecimentos, pelas artes, pelas idéias...
Então, o ser humano depende daquilo que aprende, do que conhece e
utiliza da cultura acumulada para ser aquilo que é.
V .2 0 Ser H umano Constrói sua N atureza
Diferentemente dos outros animais, que trazem, ao nascer, o con
junto de habilidades que vão desenvolver na idade adulta, o homem
precisa aprender as habilidades que poderá desenvolver. Isso pode pa
recer uma vantagem para os animais, no entanto tal condição deter
mina que os animais não se desenvolvam para além daquelas habili
dades que já lhes vêm dadas biologicamente. Com isso, eles repetem
sempre suas gerações anteriores: aquilo que um animal aprende em
sua experiência individual não é transmitido para as futuras gerações,
ou seja, os animais não acumulam conhecimento de uma geração para
outra, não fazem história. Só para exemplificar, um gato caça hoje
como sempre caçou ao longo da história. Já o ser humano, sem as
habilidades dadas biologicamente, precisa aprendê-las e as aprende
sempre com a geração com que convive e no mundo em que vive.
O homem, desde o princípio da história humana, não parou de
modificar suas condições de vida e a si próprio. Ao mesmo tempo, todo
o conhecimento e todos os objetos que foi criando não pararam de ser
transmitidos de uma geração para outra, o que possibilitou a história
humana. Essa transmissão de uma geração para outra dos conheci
mentos, aptidões c habilidades que foram sendo criadas ao longo da
história só sc tornou possível devido a uma forma de atividade abso
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
Denise Peruzzo
IÜH • In liodw ao á Psicologia da Educação
lutamente própria dos homens: a criação de objetos externos da cul-
tura - os instrumentos de trabalho, as máquinas, a arte. Esses objetos
não existiam no início da história humana e se tornaram possíveis
pela atividade criadora e produtiva específica do homem: o trabalho.
Ao construir esse conjunto de objetos que constituem a cultura huma
na, os homens foram criando também as aptidões, habilidades e capa
cidades humanas necessárias à sua utilização e tais habilidades foram
ficando como se estivessem cristalizadas - encarnadas - nesses obje
tos da cultura. Assim, cada nova criança que nasce, nasce num mun
do pleno de objetos que escondem aptidões, habilidades e capacida
des que foram criadas ao longo da história e que são, portanto, modi
ficadas a cada nova geração, com o aperfeiçoamento de objetos já
existentes e com a criação de novos. Ao aprender a utilizar os objetos
da cultura que encontra na sociedade e no momento histórico em que
vive, cada novo ser humano reproduz para si aquelas capacidades,
habilidades e aptidões que estão cristalizadas naqueles objetos da
cultura a que tem acesso. Dessa forma, diferentemente dos filhotes
dos outros animais, cada nova geração de seres humanos não nasce
para repetir as aptidões da espécie, mas para aprender as aptidões ne
cessárias à utilização da cultura no mundo e no momento histórico
em que vive. Assim, à medida que aprende a utilizar a cultura, a crian
ça vai acumulando experiências em conjunto com as outras pessoas
com quem vive e vai criando sua inteligência e sua personalidade.
De acordo com a concepção de ser humano da teoria histórico-
-cultural, vamos percebendo uma de suas teses principais: o processo
de desenvolvimento resulta do processo de aprendizagem. Esse pro
cesso de aprendizagem da cultura e de reprodução das aptidões hu
manas nela encarnadas é um processo socialmente mediado. O que
significa isso? As aptidões humanas que estão cristalizadas nos obje
tos da cultura não estão expostas ou imediatamente dadas nesses ob
jetos. A criança só se apropria das aptidões cristalizadas nesses obje
tos quando ela aprende a realizar a atividade adequada para a qual o
objeto foi criado. Para dar um exemplo, só nos apropriamos da colher
quando aprendemos a utilizá-la de acordo com o uso social para o
qual ela foi inventada. Para isso, é necessária a mediação de um parcei
ro mais experiente que demonstre seu uso ou que instrua verbalmente a
criança. Esse processo pode ser intencional, ou seja, realizado quando
o parceiro mais experiente tem a intenção explícita de ensinar, ou pode
ser espontâneo, ou seja, realizado sem a intenção explícita de ensinar,
como quando aprendemos a usar a colher observando alguém. De uma
forma ou de outra, pela sua função, o processo de apropriação é sem
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C a p ítu lo V • A Escola do V yq o liky I 139
pre um processo de educação. É esse processo que garante a trans
missão do desenvolvimento histórico da humanidade para as gera
ções seguintes e possibilita a história. Para ilustrar essa ideia, se o
nosso planeta fosse vítima de uma catástrofe que apenas poupasse as
crianças pequenas e os objetos da cultura e fizesse desaparecer todos
os adultos e as crianças maiores, a vida humana continuaria, mas a
história da humanidade teria que recomeçar, pois, sem ter quem ensi
nasse às crianças o uso dos tesouros da cultura, eles continuariam e
existir fisicamente, mas não poderíam ser apropriados por elas: as
máquinas deixariam de funcionar, os livros ficariam sem leitores, as
obras de arte perderíam sua função estética. A história, portanto, só é
possível com a transmissão às novas gerações das aquisições da cul
tura humana. Esse é o significado profundo da afirmação que ouvi
mos, sem, muitas vezes, darmos conta de seu significado: o homem é
um ser social não porque ele viva ou goste de viver em grupo, mas
porque, sem a sociedade, sem os outros com quem aprender a ser um
ser humano, o homem não se torna humano com inteligência, perso
nalidade e consciência.
Assim, enquanto os animais têm apenas duas fontes de conheci
mento - o instinto e a experiência individual que termina com sua
morte - , o homem tem três fontes essenciais de conhecimento: a he
rança biológica - que é o ponto de partida necessário, ainda que não
suficiente, para o desenvolvimento daquelas características tipicamen
te humanas como a linguagem, a memória e a atenção voluntárias, o
pensamento e o controle da própria conduta - , a experiência indivi
dual - que deixa suas marcas na cultura e na história humana - e a
experiência humana - a herança social pela qual as gerações passadas
transmitem suas experiências, seus conhecimentos, suas habilidades,
suas aptidões e suascapacidades e as novas gerações recebem das
gerações anteriores tudo o que foi criado antes: os objetos da cultura
material (as máquinas, as casas, os objetos) e da cultura não material
ou intelectual (a linguagem, as artes, as ciências), reproduzindo, nes
se processo, as aptidões criadas até então.
V .3 Educação e Desenvolvimento H umano
Essa compreensão de homem e de como ele se desenvolve que é
assumida pela teoria histórico-cultural vai condicionar toda a compre
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140 • Introdução à Psicologia da Educação
ensão que essa teoria tem da questão educacional. Uma vez que a teo
ria concebe todo o processo de desenvolvimento das qualidades tipica
mente humanas como um processo de educação, suas investigações
envolvem sempre contribuições para refletirmos sobre o processo edu
cativo, de um modo geral, e a prática pedagógica escolar, em especial.
Antes de conhecermos a teoria histórico-cultural, pensávamos -
conforme havíamos aprendido com as teorias anteriores - que o ser
humano já carregava, ao nascer, o conjunto de aptidões, habilidades e
capacidades que teria quando adulto. Desse ponto de vista, aprende
mos a pensar que a educação deveria facilitar o desenvolvimento das
qualidades que estariam naturalmente dadas no nascimento. Assim
como o senso comum, essas teorias, a que chamamos naturalizantes,
entendem que o desenvolvimento das qualidades do ser humano - de
sua inteligência e de sua personalidade - acontece naturalmente à
medida que a criança vai crescendo. Ou seja, aquilo que a criança
traz consigo ao nascer basta para seu desenvolvimento: as experiên
cias e condições concretas de vida e de educação contribuirão para
esse desenvolvimento, mas não são essenciais para que ele ocorra,
uma vez que não criam qualidades que já não existam naturalmente
dadas no nascimento. Tais teorias, que têm Piaget como seu principal
representante, trouxeram um certo imobilismo para a atuação do edu
cador, pois, segundo elas, as qualidades que o sujeito não trouxesse
consigo, de nada adiantaria tentar formar, uma vez que a educação
apenas facilitaria o desenvolvimento daquelas qualidades para as quais
o sujeito apresentasse uma predisposição para desenvolver.
Com a teoria histórico-cultural, aprendemos que o papel da edu
cação é garantir a criação de aptidões que são inicialmente externas
aos indivíduos e que estão dadas como possibilidades nos objetos
materiais e intelectuais da cultura. Para garantir a criação de aptidões
nas novas gerações, é necessário que as condições de vida e educação
possibilitem o acesso dos indivíduos das novas gerações à cultura
historicamente acumulada.
Os educadores - os pais, a professora, as gerações adultas, os par
ceiros mais experientes - têm papel essencial nesse processo, pois as
crianças não têm condições de decifrar sozinhas as conquistas da cultura
humana. Isso só é possível com a orientação e a ajuda constante dos
parceiros mais experientes, no processo da educação e do ensino. Nes
se sentido é que o educador é o mediador da relação da criança com o
mundo que ela irá conhecer, pois os objetos da cultura só fazem sentido
quando aprendemos seu uso social - e só pode ensinar o uso social das
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C a p ítu lo V • A EhoIii do V yuohky j 141
coisas quem já sabe usá-las. Na relação com o parceiro mais cxpe
riente, o velho relógio de pulso de ponteiros deixa de ser um objeto
quadrado ou redondo - com números de 1 a 12 distribuídos em torno
de um eixo, com dois ponteiros que giram num espaço recoberto por
um vidro e é preso a duas correias - e passa a ser um instrumento
para marcar a passagem das horas. Ou seja, apenas pela experiência
social o objeto assume o fim para o qual ele foi criado.
Conforme Vygotsky, as funções psíquicas humanas, como a lin
guagem oral, o pensamento, a memória, o controle da própria condu
ta, a linguagem escrita, o cálculo, antes de se tornarem internas ao
indivíduo, precisam ser vivenciadas nas relações entre as pessoas: não
se desenvolvem espontaneamente, não existem no indivíduo como
uma potencialidade, mas são experimentadas inicialmente sob a for
ma de atividade interpsíquica (entre pessoas) antes de assumirem a
forma de atividade intrapsíquica (dentro da pessoa). Se a apropriação
da linguagem oral, do pensamento, da memória, da linguagem escrita
e do cálculo resulta de um processo de internalização de processos
externos, então a ação do educador é de suma importância para diri
gir intencionalmente o processo educativo. O educador não é, pois,
um facilitador no sentido de que possibilita um nível de desenvolvi
mento que aconteceria independentemente da aprendizagem. Do pon
to de vista da teoria histórico-cultural, a tarefa do educador é garantir
a reprodução1, em cada criança, das aptidões humanas que são produ
zidas pelo conjunto dos homens e que, sem a transmissão da cultura,
não aconteceria. Para garantir a apropriação dessas qualidades, é pre
ciso que os educadores identifiquem aqueles elementos culturais que
precisam ser assimilados pela criança para que ela desenvolva ao
máximo as aptidões, capacidades e habilidades criadas ao longo da
história pelas gerações antecedentes e, ao mesmo tempo, é necessário
que descubram as formas mais adequadas de garantir esse objetivo.
Antes de discutirmos esse assunto mais específico dos conteúdos e
metodologia, algumas questões de caráter mais geral merecem ser
discutidas com o objetivo de explicitar o papel essencial da educação
e do ensino para o desenvolvimento das qualidades humanas.
1 Reprodução não tem aqui o sentido negativo que lhe atribuem os críticos da escola
como reprodutivista. Com esse termo nos referimos ao fato de que cada novo ser
humano precisa se apropriar das qualidades humanas que foram criadas pelos
homens ao longo da história humana. Esse não é um processo de invenção de
novas qualidades, mas de reprodução das já existentes e a partir das quais se faz
possível a criação de novas.
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147 * Introdução ú Psicologia da Educação
V .4 A prendizagem e Desenvolvimento
A compreensão de ser humano e de como ele reproduz para si as
qualidades humanas na relação que estabelece com as outras pessoas
e no contato com a cultura acumulada traz, também, uma nova com
preensão da relação entre aprendizado e desenvolvimento. Com Piaget
aprendemos a pensar que o desenvolvimento antecede a aprendiza
gem e que é condição para que a aprendizagem aconteça. A formação
de Piaget na área das ciências naturais - Piaget era biólogo - levou-o
a conceber o desenvolvimento humano à semelhança dos demais se
res vivos, que trazem ao nascer toda a informação, geneticamente
dada, para se desenvolverem e se tornarem representantes adultos de
sua espécie. Desse ponto de vista, tomou-se o desenvolvimento das
características humanas nos seres humanos como naturalmente dadas
ao nascer e pensou-se que o desenvolvimento fosse determinado bio
logicamente. Como já afirmamos, desse ponto de vista as condições
materiais de vida e educação exerceríam certa influência nesse de
senvolvimento, mas não o impulsionariam, pois não criariam capaci
dades e aptidões novas no indivíduo. Portanto, não são consideradas
essenciais para que o desenvolvimento ocorra. Em outras palavras,
para essa concepção, as relações do indivíduo com a cultura são im
portantes, mas não essenciais, uma vez que sem elas haveria um nível
de desenvolvimento humano garantido pela carga biológica com que
a criança nasce.
E justamente nesse ponto que se localiza a ruptura que precisa
ser compreendida para que possamos dimensionar adequadamente a
concepção adotada por Vygotsky e as implicações pedagógicas daí
decorrentes. Para Vygotsky, o desenvolvimentoda inteligência e da
personalidade é externamente motivado, ou seja, é resultado da apren
dizagem. As características inatas do indivíduo são condição essen
cial para seu desenvolvimento, mas não são suficientes, pois não têm
força motora em relação a esse desenvolvimento. As relações do in
divíduo com a cultura constituem condição essencial para seu desen
volvimento, uma vez que criam aptidões e capacidades que não exis
tem no indivíduo no nascimento. Em outras palavras, para a teoria
histórico-cultural, na ausência da relação com a cultura, o desenvol
vimento tipicamente humano não ocorrerá. Isso significa que a rela
ção entre desenvolvimento e aprendizagem ganha uma nova perspec
tiva: não é o desenvolvimento que antecede e possibilita a aprendiza
gem, mas, ao contrário, é a aprendizagem que antecede, possibilita e
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C a p ítu lo V • A Escola do V yqohky | N I
impulsiona o desenvolvimento. Sem o contato da criança com a ciillu
ra, com os adultos, com as crianças mais velhas e com as gerações mais
velhas, a criação das capacidades e aptidões humanas não ocorrerá. Dito
de outra forma, o desenvolvimento fica impedido de ocorrer na falta de
situações que permitam o aprendizado.
Se a aprendizagem é tão importante, uma vez que move o desen
volvimento das qualidades humanas em cada ser humano, precisa
mos ir à teoria histórico-cultural e perguntar: quando acontece a apren
dizagem?
V .5 A lguns Elementos para Compreender a A prendizagem
Em que condições a aprendizagem acontece? Qualquer ensino
pode levar à aprendizagem? Vygotsky ajuda a responder a essas ques
tões quando discute a relação entre as zonas de desenvolvimento real
e próxima.
V.5.1 As ZONAS DE DESENVOLVIMENTO E O PAPEL DO EDUCADOR
Ao estudar as formas tradicionais de avaliação do desenvolvi
mento psíquico, ou seja, do desenvolvimento daquelas funções como
a linguagem, o cálculo, o pensamento, a memória, o controle da con
duta, Vygotsky percebeu que, para avaliar esse desenvolvimento, uti
lizava-se apenas aquilo que a criança era capaz de fazer de forma in
dependente, ou seja, sem a ajuda de outros. Vygotsky chamou esse
nível de desenvolvimento de zona de desenvolvimento real, uma vez
que expressa o nível de desenvolvimento psíquico já alcançado pela
criança. No entanto, percebeu a existência de um outro indicador que
precisava ser necessariamente considerado ao lado do desenvolvimen
to real já alcançado pela criança. Esse outro indicador foi chamado
nível ou zona de desenvolvimento próximo e se manifesta por aquilo
que a criança ainda não é capaz de fazer sozinha, mas já é capaz de
fazer em colaboração com um parceiro mais experiente. Para
Vygotsky, ao fazer com a ajuda de um parceiro mais experiente aqui
lo que ainda não é capaz de fazer sozinha, a criança se prepara para,
em breve, realizar a atividade por si mesma. Dessa forma, só há apren
dizagem quando o ensino incidir na zona de desenvolvimento próxi
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144 • Introdução à Psicologia da Educação
mo. Se ensinarmos para a criança aquilo que ela já sabe, não haverá
nem aprendizagem nem desenvolvimento. O mesmo acontecerá se
ensinarmos algo que está muito além de sua possibilidade de aprendi
zagem, ou seja, para além daquilo que ela possa fazer com a ajuda de
alguém.
Por isso, para Vygotsky, o bom ensino é aquele que garante apren
dizagem e impulsiona o desenvolvimento. Nesse sentido, o bom ensi
no acontece num processo colaborativo entre o educador e a criança:
o educador não deve fazer as atividades pela nem para a criança, mas
com ela, atuando como parceiro mais experiente, não no lugar da
criança. Quando a criança realiza, com a ajuda de um educador, tare
fas que superam seu nível de desenvolvimento, ela se prepara para
realizá-las sozinha, pois o aprendizado cria processos de desenvolvi
mento que, aos poucos, vão se tornando parte de suas possibilidades
reais. Como lembra Vygotsky, o desenvolvimento da linguagem, do
pensamento, da memória voluntária, do controle da conduta - que só
o ser humano tem capacidade de desenvolver - , ocorre a partir do
exterior: primeiro a criança experimenta a fala, a orientação de sua
conduta, a atenção, a observação, a memória, a linguagem escrita, o
cálculo matemático, o desenho etc., em conjunto com os outros, e só
depois essas funções se tomam internas ao seu pensamento.
Dessa forma, fica claro que o papel da escola é dirigir o trabalho
educativo para estágios de desenvolvimento ainda não alcançados pela
criança. Ou seja, o trabalho educativo deve impulsionar novos conhe
cimentos e novas conquistas, a partir do nível real de desenvolvimen
to da criança - de seu desenvolvimento consolidado, daquilo que a
criança já sabe. Por isso é que Vygotsky conclui que o bom ensino
não é aquele que incide sobre o que a criança já sabe ou já é capaz de
fazer, mas é aquele que faz avançar o que a criança já sabe, ou seja,
que a desafia para o que ela ainda não sabe ou só é capaz de fazer
com a ajuda de outros.
Essa discussão destaca a importância da interferência intencio
nal do adulto - do planejamento competente do educador - e também
a importância de atividades com grupos de crianças de diferentes ida
des e níveis de desenvolvimento, onde quem sabe ensina quem não
sabe. O educador deve, portanto, intervir, provocando avanços que de
forma espontânea não ocorreríam.
No entanto, a compreensão de que o educador tem um papel
essencial no processo de desenvolvimento humano não nos deve le
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C a p ítu lo V • A Escola do VyyoU ky I I1S
var a pensar que o ensino deva ser centrado exclusivamente na inten
ção do professor de ensinar e independente da criança. Ainda que o
educador deva interferir, de forma intencional, por meio do processo
de ensino, para fazer avançar o nível de desenvolvimento já alcança
do pela criança, isso não significa absolutamente que se possa ensinar
à criança tudo aquilo que acreditamos ser conveniente sem considerar
as particularidades de seu processo de aprendizagem. Para garantir
que o processo de ensino impulsione ao máximo o desenvolvimento
da criança precisamos conhecer também as especificidades do desen
volvimento das crianças.
V .5 .2 E m q u e c ir c u n s t â n c ia s as c r ia n ç a s a p r e n d e m ?
Já vimos que a intervenção do adulto deve considerar sempre a
relação entre o desenvolvimento real já alcançado pela criança e o
nível de seu desenvolvimento próximo; só assim a intervenção do
educador provoca o aprendizado. Retomando considerações que fize
mos anteriormente, a criança só tem condições de aprender a fazer
sozinha num futuro próximo aquilo que ela consegue fazer hoje com
a colaboração de alguém mais experiente. Assim sendo, o que não é
possível que ela faça em colaboração com um parceiro mais expe
riente não adianta ser compartilhado pelo educador.
Com essa reflexão, percebemos que o processo de aprendizagem
é sempre colaborativo, ou seja, resulta da ação conjunta entre o edu
cador ou parceiro mais experiente e aquele que aprende.
Além disso, o processo de aprendizagem é sempre ativo do pon
to de vista do sujeito que aprende: para se apropriar de um objeto,
vimos que é necessário que o aprendiz reproduza, com o objeto, o uso
social para o qual ele foi criado. No caso da colher, é preciso que o
sujeito a utilize para comer, da forma como socialmente a utilizamos.
Essa concepção de processo de aprendizagem traz, para a refle
xão pedagógica, a compreensão de que a aprendizagem não resulta de
um processo de criação, mas de umprocesso de reprodução do uso
que a sociedade faz dos objetos, das técnicas e mesmo das relações
sociais, dos costumes, dos hábitos, da língua.
Em outras palavras, o processo de aprendizagem exige a atuação
do adulto junto com a criança, mas, para se apropriar de um objeto ou
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Mto importante
M 6 • liitiotlufuo à Psicologia da Educação
dc lima habilidade, a criança precisa realizar, ela própria, as ativida
des, e não o educador por ela ou para ela.
Outro elemento ainda deve ser considerado quando tratamos de
compreender o processo de aprendizagem: é o que a teoria histórico-
-cultural chama de períodos sensitivos.
V.5.3 O CONCEITO DE ATIVIDADE E A ATIVIDADE PRINCIPAL
Quando observamos as crianças pequenas, percebemos que cada
idade se distingue por uma sensibilidade seletiva frente a diferentes
tipos de ensino ou de influência dos adultos. A existência desses pe
ríodos sensitivos se explica pelo fato de que o ensino influencia prin
cipalmente aquelas qualidades que estão em processo de formação.
Só para ilustrar, nos primeiros meses de vida, a atividade principal da
criança, aquela pela qual ela entra em contato com o mundo que a
rodeia, aprende e se desenvolve, é a comunicação com os adultos que
cuidam dela. Essa comunicação ainda não é verbal mas emocional. A
iniciativa antecipadora dos adultos de falar com a criança antes que
ela seja capaz de responder ou entender e de aproximar objetos para
ela ver e pegar cria novas necessidades: a necessidade de comunica
ção e de manipulação dos objetos. Nessa atividade com objetos, a
criança acumula experiências que formam as premissas para o desen
volvimento do pensamento. Inicialmente esse desenvolvimento do
pensamento acontece segundo as imagens daquilo que a criança está
fazendo no momento. Depois, ela pensa com as imagens que vão fi
cando em sua memória e, só mais tarde, com a aquisição da lingua
gem oral, o pensamento se torna verbal. Na atividade com objetos,
também acontece o desenvolvimento da memória, da atenção e da
própria linguagem oral - ao categorizar os objetos que vai conhecen
do (os pesados, os leves, os sonoros, os redondos), a criança vai crian
do as condições para o desenvolvimento da fala. Próximo aos três
anos, o interesse da criança recai sobre a utilização dos objetos tal
como ela vê os adultos utilizarem e passa a imitar os adultos em suas
relações sociais e com o mundo da cultura. Até próximo aos seis anos
de idade, o faz de conta será a atividade principal da criança. Será
por meio dessa atividade, que alguns autores chamam jogo, outros
chamam brincar, que a criança mais vai desenvolver a linguagem, o
pensamento, a atenção, a memória, os sentimentos morais, os traços
de caráter; vai aprender a conviver em grupo, a controlar a própria
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conduta... A partir da entrada na escola fundamental, o estudo passa a
ser a atividade principal. Isso significa dizer que é pela atividade de
estudo que a criança mais amplia seu conhecimento sobre o mundo,
mais é levada a pensar e reorganizar o que pensa e melhor compreen
de as relações sociais.
Em cada etapa de desenvolvimento, a criança adota um tipo de
atividade que permite, dentro das particularidades desse desenvolvi
mento, a ampliação de suas qualidades humanas. Considerando as
situações em que observamos as crianças atuando, aprendendo e se
desenvolvendo, constatamos que as situações que garantem mais
aprendizado são aquelas que envolvem intensamente as crianças na
quilo que estão fazendo: não atuam mecanicamente, mas atuam com
o corpo e o intelecto, concentradas no fazer que realizam. Quando
isso acontece, dizemos que o fazer da criança se realiza como uma
atividade e não como um fazer mecânico. Para a teoria histórico-cul-
tural, a realização de uma tarefa leva à aprendizagem quando esta se
configura como uma atividade. O que caracteriza uma atividade? Em
que condições o sujeito mergulha de corpo e mente numa tarefa?
Leontiev, um pesquisador que trabalhou com Vygotsky e ajudou
a desenvolver suas idéias, chama atividade não a qualquer coisa que
a pessoa faça, mas apenas àquilo que faz sentido para ela. E quando
uma tarefa adquire sentido para a pessoa que a realiza? Vejamos. Toda
tarefa que a pessoa faz tem sempre um objetivo e um motivo. O ob
jetivo é aquilo que deve ser alcançado no final da tarefa - seu resul
tado - , que já é previsto como uma ideia, antes do início da ação. O
motivo é a necessidade que leva a pessoa a agir. O sentido é dado
pela relação entre o motivo e o objetivo - ou resultado - previsto para
a tarefa. Se houver uma coincidência entre motivo e objetivo, ou seja,
se a pessoa atua porque está interessada, necessitada ou motivada pelo
resultado que alcançará no final da tarefa, então a atividade tem um
sentido para ela. Em outras palavras, se o resultado da tarefa respon
de a uma necessidade, motivo ou interesse da pessoa que a realiza,
percebemos que a pessoa está inteiramente envolvida em seu fazer:
sabendo por que realiza a tarefa e querendo chegar ao seu resultado.
Nesse caso, dizemos que ela realiza uma atividade e, ao realizar essa
atividade, está se apropriando das aptidões, habilidades e capacidades
envolvidas nessa tarefa.
Com isso, percebemos que atividade não é sinônimo de execu
ção de uma tarefa pela criança. Ao contrário, a atividade envolve o
conhecimento do objetivo pela criança e, mais ainda, esse objetivo da
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148 • Introdução à Psicologia da Educação
atividade deve responder a um motivo, a uma necessidade ou a um
interesse da criança. Quando refletimos sobre isso, percebemos que
devemos envolver, sempre que possível, a criança no processo de pla
nejamento, seja de forma direta, quando ela participa das decisões do
que fazer e de como fazer, seja de forma indireta, quando apontamos
para ela o objetivo da tarefa proposta na perspectiva de criar ou res
ponder a uma necessidade, motivo ou interesse seu.
Desse ponto de vista, promovemos aprendizagem e, consequen
temente, desenvolvimento, à medida que respondemos ao desejo ou à
necessidade de conhecimento das crianças. Ainda nessa perspectiva,
a atividade que faz sentido para a criança é a chave pela qual ela entra
em contato com o mundo, aprende a usar a cultura e se apropria das
aptidões, capacidades e habilidades humanas.
Essa compreensão do processo de aprendizagem, ao revelar a
importância essencial do sentido da atividade, coloca sob suspeita os
processos artificiais de ensino presentes em muitas escolas. A com
preensão reducionista do processo de apropriação da leitura como
decodificação dos sons desenhados na palavra escrita, assim como a
compreensão de que a apropriação da escrita resulta do exercício
motor, acolhe procedimentos mecânicos que, nas palavras de
Vygotsky, “ensinam as crianças a traçar as letras e a formar palavras
com elas, mas não ensinam a linguagem escrita”. As atividades arti
ficiais criadas apenas para ensinar a criança a ler e escrever, e que
não utilizam a leitura e a escrita para o fim verdadeiro para o qual
foram criadas, não geram necessidades de leitura e escrita na criança,
nem buscam sua iniciativa. Desse modo, não fazem sentido para a
criança que aprende. Ler apenas para aprender a ler e escrever apenas
para aprender a escrever tornam-se tarefas que até podem fazer senti
do para o adulto que ensina, mas não para a criança que está sendo
introduzida no mundo da escrita.
V.5.4 A APRENDIZAGEM COMO PROCESSOCOMPARTILHADO
Da compreensão de que a atividade deve ser um processo neces
sariamente ativo por parte da criança e significativo para garantir a
apropriação do conhecimento, nasce uma questão que merece nossa
reflexão. Diz respeito ao fato de que se o bom ensino é aquele que
incide sobre o que a criança ainda não sabe, como garantir que a crian
ça realize, ela própria, a atividade? O fazer compartilhado entre o
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C a p ítu lo V • A Escola dc V ygohky | I4 V
educador e a criança é a garantia para que ela mantenha uma atitude
ativa em relação ao conhecimento e que, ao mesmo tempo, conheça o
novo. Isso não significa que o educador se iguale à criança no proces
so de ensino, mas que, ao coordenar e dirigir esse processo para o
desenvolvimento das qualidades humanas, compartilhe com a criança
os passos dos procedimentos didáticos, os objetivos das tarefas pro
postas, a divisão das tarefas possíveis e provoque a iniciativa e a ati
vidade da criança no processo de execução da tarefa, assim como sua
participação na avaliação da atividade desenvolvida.
A participação da criança em nenhum momento desqualifica o tra
balho intencional do educador; ao contrário, qualifica-o ainda mais, uma
vez que esse trabalho compartilhado possibilita a atuação do aprendiz
em níveis cada vez mais elevados e a internalização de aptidões, habi
lidades e capacidades humanas cada vez mais elaboradas. O que não se
pode perder de vista é a atividade principal específica que caracteriza
as diferentes etapas do desenvolvimento humano, pois é por meio dela
que o indivíduo entra em contato com novos conhecimentos e
internaliza aptidões e capacidades. Assim, por exemplo, entre três e
seis anos, devemos considerar que o faz de conta é a atividade pela
qual novas capacidades e aptidões podem ser introduzidas às crianças.
Uma segunda questão, apresentada pelo conceito de atividade,
diz respeito ao fato de que a atividade deve responder aos desejos,
interesses e motivos da criança. Em relação a isso, vale perguntar: se
a criança precisa experimentar as atividades mais diversificadas para
se apropriar de aptidões, capacidades e habilidades também diversifi
cadas, como podemos diversificar a experiência da criança quando
suas necessidades, interesses e motivos são restritos? Em outras pala
vras, o que fazer quando as crianças não mostram interesse, motivo
ou necessidade de leitura? Devemos simplesmente ignorar a leitura?
V.5.5 A CRIAÇÃO DE NOVOS MOTIVOS, INTERESSES
E NECESSIDADES
Na visão de Gramsci, um importante filósofo italiano do século
passado, o papel da escola é formar cada criança para ser um dirigen
te, um cidadão preparado para ser o presidente da república ou mes
mo para escolher de forma autônoma e crítica os caminhos de sua
própria vida. Para isso, devemos criar nas crianças o máximo daque
las habilidades, capacidades e aptidões disponíveis no momento his
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ISO • lnliodu(uo a Psicologia da Educação
tórico em que vivem. A formação dessas aptidões resulta, como vi
mos, do processo de educação, do acesso à cultura. O que fazer frente
a crianças que não apresentam necessidades, interesses ou motivos de
aprender e, nesse sentido, de fazer avançar seu desenvolvimento às
máximas possibilidades permitidas pelo desenvolvimento humano?
Para refletir sobre essa questão, devemos lembrar que os moti
vos e interesses humanos são históricos e sociais, ou seja, são criados
nas crianças pela sociedade em que vivem e por tudo o que acontece
ao seu redor. Se são criados, não devem ser vistos como algo natural
da criança e, consequentemente, como algo inquestionável. Os moti
vos, necessidades e interesses são aprendidos a partir das condições
concretas de vida e educação: por exemplo, os programas de TV a
que assistimos criam, em nós, interesses e motivos. Olhando a ques
tão dos motivos desse ponto de vista, duas idéias nos assaltam. Pri
meira ideia: se os motivos, os interesses e as necessidades são apren
didos, então velhos motivos podem ser modificados e novos podem
ser ensinados ou criados. Ou seja, na escola, podemos criar novos
motivos que contribuam para o desenvolvimento de aptidões e capa
cidades humanizadoras que tornem a criança um ser humano mais
completo. Segunda ideia: se os motivos que as crianças ou alunos
trazem para a escola são aprendidos nas diferentes situações que vi
vem, então o papel da instituição escolar não é o de responder às neces
sidades, aos motivos ou interesses que as crianças trazem para a escola.
Tais necessidades, ensinadas às crianças pela vida cotidiana, estão liga
das à sobrevivência do indivíduo, mas, em geral, não criam nelas ne
cessidades humanizadoras - como a necessidade de conhecimento, a
necessidade de expressão pela arte, a necessidade da reflexão filosófica
e a necessidade de um posicionamento ético - que contribuam para que
alcancem o máximo de desenvolvimento humano. O papel da educa
ção escolar é, então, criar novas necessidades humanizadoras nas crian
ças. O educador é, assim, um criador de necessidades que contribuam
para o desenvolvimento humano nas crianças.
Como provocar nas crianças o surgimento de novos motivos, ne
cessidades e interesses de tal forma que elas possam ampliar suas neces
sidades de conhecimento para esferas de atividades não experimenta
das? Ou, em outras palavras, como criar novos motivos e interesses
ligados às atividades humanas que a vida cotidiana não estimula nas
crianças - o estudo, o desejo de conhecimento, a solidariedade, a arte?
Para responder a essas perguntas, é preciso distinguir os motivos
eficazes, aqueles que levam o sujeito a agir, daqueles motivos que são
Denise Peruzzo
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IMPORTANTE
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C a p ítu lo V • A Escola de Vygotsky 1151
compreendidos pelo sujeito, mas são ineficazes para impulsionar sua
ação. Quando uma criança lê um livro “para ir brincar”, por exemplo,
“ir brincar” é o motivo eficaz que move sua ação. Ela pode até enten
der que “ler o livro é importante para conhecer o assunto de que tra
ta”, mas não é esse o motivo que a faz ler. Se lembrarmos o que estu
damos sobre a atividade (a atividade se constitui quando o motivo
que leva o sujeito a agir coincide com o resultado da tarefa que reali
za), então percebemos que, nesse caso, a criança não faz a leitura como
uma atividade, pois o motivo (ir brincar) não tem relação direta com
o resultado que ela obtém ao final da ação que realiza (conhecer o
assunto do livro). Nessa situação, a leitura não tem sentido para a
criança: ela só lê para poder ir brincar em seguida. E ela lê pensando
no brincar e não concentrada na leitura.
No entanto, nesse processo de ler para poder ir brincar, a criança
pode se interessar pelo assunto do livro. Quando isso acontece, “co
nhecer o assunto do livro” - que é o resultado da leitura - torna-se
também o motivo da leitura. Nesse caso, a leitura se tornou uma ati
vidade que tem sentido para a criança, pois o motivo e o resultado
daquilo que ela realiza coincidem. A criança passa a ler profunda
mente interessada na leitura.
Em que condições o resultado da atividade passa a ser também
seu motivo? Isso ocorrerá quando o resultado da tarefa que realiza se
tornar mais significativo para a criança do que o motivo que inicial
mente impulsionou seu agir. Nesse caso, a atividade se torna significati
va para a criança. Voltando ao exemplo da leitura, essa passagem se dá
quando o assunto do livro é tão atrativo que a criança percebe que co
nhecê-lo é tão gostoso quanto ir brincare, assim, passa a ler para conhe
cer o assunto. Nesse caso, dizemos que a criança passou a compreender
a leitura num nível mais elevado em sua consciência. Essa passagem
transformou a leitura em uma atividade significativa. Ao ler motivada
por conhecer o assunto do livro, a criança concentra-se inteiramente na
leitura e aprende, cria uma nova necessidade e se desenvolve.
Trazendo essa discussão para a escola, percebemos que as con
dições concretas para a criação de novos motivos são, em primeiro
lugar, que a criança tenha oportunidades de experiências diversificadas
para que possa vir a fazer delas atividades carregadas de sentido, ou
seja, é preciso propor experiências que possam vir a se tornar ativida
des significativas. No entanto - e essa é a segunda condição para que a
ação se torne uma atividade significativa , essas experiências preci
sam ser propostas de forma tal que a criança envolva-se inteiramente
Denise Peruzzo
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I 52 • Inlioduçoo (i Psicologia da Educação
cm sua realização e que o objetivo da atividade se torne o motivo que
move o fazer da criança. Crianças que não gostam de parar para ouvir
histórias certamente passarão a fazê-lo se as histórias contadas em sala
por sua temática e apresentação - atraírem sua atenção e criarem nelas
um novo desejo, uma nova necessidade, um novo prazer.
Escolher bem aquilo que será proposto às crianças é essencial.
Para isso, conhecer a prática social - a vida - em que as crianças se
inserem, os temas que atraem inicialmente sua atenção, os interesses
e necessidades já criados nas crianças muito ajudará o trabalho do
educador. Por isso, na escola, além de oportunidades diversificadas
de contato com a cultura acumulada histórica c socialmente, as crian
ças precisam dar a conhecer sua identidade, isto é, o que acontece
quando a escola está aberta à vida que acontece antes, durante e de
pois do horário escolar.
Ao mesmo tempo, é preciso que o educador descubra as formas
mais adequadas de trabalho com o seu grupo. Isso se faz possível
quando o educador conhece os níveis de desenvolvimento real e pró
ximo das crianças, quando conhece as regularidades do desenvolvi
mento delas, ou seja, conhece quais as funções psíquicas que se en
contram em desenvolvimento em determinada etapa e que constituem
os períodos mais adequados às influências da educação, e, ainda, quan
do percebe qual atividade é principal para a criança em determinada
etapa de seu desenvolvimento e propicia a experiência da criança sob
tal forma de atividade.
V .6 A Criança Competente
Por tudo o que vimos, ao longo da discussão das teses centrais
da teoria histórico-cultural, a criança que emerge dos estudos dessa
teoria é uma criança capaz: capaz de interagir com o adulto desde os
primeiros dias de vida e desenvolver, a partir do contato emocional
com esse adulto, a necessidade de comunicação; capaz de interagir
com os objetos que o adulto lhe apresenta e, nessa atividade com
objetos, criar as premissas para o desenvolvimento das funções psí
quicas que caracterizam o homem adulto, como o pensamento, a aten
ção, a memória, a linguagem oral; capaz de internalizar, a partir da
relação com os adultos, funções essenciais, como o pensamento ver
bal, o controle da própria conduta, idéias e sentimentos morais e éti-
cos... enfim, capacidades, habilidades e aptidões que definirão sua
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C a p ítu lo V • A Escola do Vygotsky IS3
inteligência e sua personalidade; capaz de colocar-se no lugar do adul
to e, nesse processo, compreender os papéis e as relações sociais que
testemunha; capaz de fazer teorias, interpretando fenômenos e rela
ções - teorias essas que, embora não sejam estáveis e científicas, são
exercícios de pensamento e de interpretação das experiências vividas.
Tal concepção de criança como um ser capaz muda radicalmente
a compreensão, ainda hoje vigente, acerca da infância em nossa socie
dade. Apesar dos perceptíveis avanços que podemos contar quando
ensaiamos pensar a criança como cidadã, nossa relação adulto-crian-
ça é, todavia, marcada pelo preconceito que concebe a criança como
um ser incapaz, alguém que não sabe e não é capaz de aprender. Por
isso, em geral, não a ensinamos a usar a máquina fotográfica - mas a
escondemos - quando ela tem interesse, tiramos a caneta de suas mãos
e a colocamos em lugar inacessível, para ela não a estragar, e assim
por diante. Em geral, sempre subestimamos sua capacidade de apren
der - ou quem sabe a nossa capacidade de ensinar? - alegando que a
criança é pequena. De uma forma ou de outra, sem estabelecer uma
relação consciente com o processo de educação dos pequenos, reser
vamos para eles um lugar menos importante nas relações sociais de
que eles participam - na família, na creche, na pré-escola. De acordo
com a teoria histórico-cultural, o lugar ocupado pela criança nas rela
ções sociais de que participa é força motivadora de seu desenvolvi
mento e esse lugar é justamente determinado pela concepção que os
adultos têm acerca da criança e de seu desenvolvimento, pois o adul
to é quem se aproxima da criança, apresenta o mundo da cultura para
ela e cria nela necessidades, interesses e motivos, de acordo com a
experiência que vai proporcionando para a criança. Com isso, perce
bemos o significado dessa nova concepção de criança que emerge da
teoria, essencial para a proposição de experiências que façam avançar
o desenvolvimento humano na criança.
V .7 A G uisa de Conclusão
Conforme aponta a teoria histórico-cultural, quando respeitamos
a atividade principal das crianças, na presença de condições adequa
das de vida e de educação, elas, até os seis anos, desenvolvem inten
samente diferentes atividades práticas, intelectuais e artísticas c ini
ciam a formação de idéias, sentimentos e hábitos morais e traços de
personalidade. Isso, no entanto, não deve nos levar a cometer o equí
Denise Peruzzo
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IS 4 • Introdução ò Psicologia da Educação
voco de acreditar que a abreviação da infância vai garantir um maior
progresso tecnológico... O ensino da criança de zero a seis anos não
se desenvolve sob a forma de lição escolar, mas sob a forma de jogo,
de observação direta, de diferentes tipos de atividade plástica.
Para os estudiosos da Escola de Vygotsky, as condições ótimas
para a realização das máximas possibilidades da criança e seu desen
volvimento harmônico não se criam pelo ensino forçado, antecipado,
dirigido a diminuir a infância, a converter, antes do tempo, a criança
pequena em pré-escolar e o pré-escolar em escolar. É indispensável, ao
contrário, o desenvolvimento máximo das formas especificamente in
fantis de atividade lúdica, prática e plástica e também da comunicação
das crianças entre si e entre os adultos. É sobre essa base que se deve
realizar a formação orientada ao desenvolvimento daquilo que consti
tui o bem mais valioso da pessoa: a inteligência e a personalidade.
Exercícios
1) O que o educador precisa considerar ao programar uma atividade
para seus alunos, se seu objetivo é garantir que as crianças apren
dam e se desenvolvam?
2) Do ponto de vista da teoria histórico-cultural, que papel tem a
educação no desenvolvimento humano e que papel desempenha o
educador nesse processo de desenvolvimento?
3) Como a teoria histórico-cultural conceitua atividade e que impli
cações esse conceito tem para o processo educativo escolar?
4) Como o educador pode atuar para criar novos motivos, interesses
ou necessidades de conhecimento nos alunos?
5) Como a teoria histórico-cultural compreende a relação entre apren
dizagem e desenvolvimento? Quaisas implicações dessa compre
ensão para o trabalho do educador?
Leituras recomendadas
D U A R T E , N . Educação escolar, teoria do cotidiano e a Escola de Vygotsky.
C a m p i n a s : A u t o r e s A s s o c i a d o s , 1 9 9 7 .
C a p ítu lo V • A Escola do Vygotiky ISS
L E O N T I E V , A . N . O h o m e m e a c u l t u r a . I n : O desenvolvimento do psiquismo.
L i s b o a : L i v r o s N o v o s H o r i z o n t e s , 1 9 7 8 .
_______________ U m a c o n t r i b u i ç ã o à t e o r i a d o d e s e n v o l v i m e n t o d a p s i q u e i n f a n t i l . I n :
V Y G O T S K Y , L . S . e t a l . Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. S ã o
P a u l o : Í c o n e / E d u s p , 1 9 8 8 .
M E L L O , S . A . A l g u m a s i m p l i c a ç õ e s p e d a g ó g i c a s d a E s c o l a d e V y g o t s k y p a r a a
e d u c a ç ã o i n f a n t i l . Pro-posições. v . 1 0 , n . 1 { 2 8 } , m a r . 1 9 9 9 . ( R e v i s t a q u a d r i e n a l d a
F a c u l d a d e d e E d u c a ç ã o d a U n i c a m p )
S A V I A N I , D . Pedagogia histórico-crítica: p r i m e i r a s a p r o x i m a ç õ e s . S ã o P a u l o :
C o r t e z / A u t o r e s A s s o c i a d o s , 1 9 9 1 .
V Y G O T S K Y , L . S . A p r e n d i z a g e m e d e s e n v o l v i m e n t o i n t e l e c t u a l n a i d a d e e s c o l a r .
I n : V Y G O T S K Y , L . S . e t a l . Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. S ã o
P a u l o : Í c o n e / E d u s p , 1 9 8 8 .
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lo
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C ap/f o.
Adrián Oscar Dongo Montoya
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Contribuições do Psicologia
e Epistemologia Genéticas
para a Educação
São bastante conhecidas as contribuições da teoria e das pesqui
sas de Piaget nas tarefas educacionais. Seria difícil negar sua enorme
influência no século XX na modificação de posturas e concepções
tradicionais de ensino. Entretanto, o alcance de sua obra e a sua con
cepção teórica ainda não foram esgotados; pelo contrário, podem abrir
novas contribuições para a teoria e para a prática educacional quanto
maiores forem os avanços na compreensão da originalidade e profun
didade do seu pensamento.
O presente trabalho pretende destacar as possíveis contribuições
da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a educação a partir de
uma leitura que leve em conta a teoria e a pesquisa piagetiana sobre a
troca entre o sujeito e o meio em função das particularidades dos con
teúdos a serem adquiridos, sobretudo dos conteúdos do mundo real.
Sem postular a dependência da Pedagogia para com a Psicologia
nem pretender constituir esta como fundamento daquela, é evidente
que a pesquisa psicológica pode fornecer conhecimentos científicos
precisos e necessários sobre os quais a Pedagogia pode se apoiar. Esse
foi o ponto de vista de Piaget sobre a relação entre a pesquisa psico
lógica e a Pedagogia. Assim, para o educador se afastar do pressupos
to de que os conhecimentos podem ser simplesmente transmitidos e
aprendidos numa ordem lógica predeterminada, ele precisa conhecer
os processos e mecanismos intelectuais envolvidos na aprendizagem
tios conteúdos.
I *»tt • Introdução à Psicologia da Educação
Embora exista consciência da necessidade desse conhecimento
para a ação pedagógica e educacional, o pensamento e a obra desse
autor, infelizmente, foram reduzidos ao desenvolvimento das estruturas
lógico-matemáticas, particularmente aos seus estágios sucessivos. Essa
forma de leitura contribuiu muito para o empobrecimento do seu pen
samento e limitou, assim, a sua contribuição para a ação educacional.
Entretanto, uma leitura mais atenta da obra de Piaget nos infor
ma que o desenvolvimento e a aquisição das estruturas lógico-mate
máticas são apenas uma parte do seu sistema teórico. As estruturas
lógico-matemáticas dizem respeito às formas gerais e puras de co
nhecimento, independentes do conteúdo particular do real, pois a sua
substância não é extraída das propriedades dos objetos, mas, sim, dos
relacionamentos e coordenações realizados pelo sujeito sobre os ob
jetos. Saber conservar o número de elementos de um conjunto dc
pedrinhas independe da sua composição física e das suas proprieda
des inerentes. A Epistemologia Genética não se reduz às estruturas
lógico-matemáticas, embora elas sejam necessárias para a formação
de outros conhecimentos.
O que se torna importante destacar, então, é que quanto melhor
forem conhecidos os caminhos e mecanismos psicológicos formado
res das diferentes operações, noções e explicações do mundo real - e
não somente das operações lógico-matemáticas - , as contribuições da
Psicogênese para a prática docente serão, sem dúvida, enormes e
imprevisíveis.
V I. 1 A Psicologia e a Epistemologia G enéticas: N oções G erais
E preciso dizer que a Epistemologia Genética é uma ciência nova,
inaugurada pelos trabalhos de Piaget, que tem como objetivo revelar
os processos pelos quais se constituem os diferentes estados - estru
turas - do conhecimento. Diferentemente do tratamento tradicional
dado à pesquisa do conhecimento, Piaget se propôs um novo desafio:
constituir como fato da pesquisa epistemológica não o conhecimento
enquanto estado acabado, mas sim como processo de formação dos
diferentes estados alcançados pelo conhecimento. A Epistemologia
Genética, desse modo, exige, além da formalização lógica e matemá
tica, dois procedimentos básicos: a pesquisa histórica das idéias cien
tíficas (e prc-cientíücas) e a pesquisa psicogenética. Desses dois mo
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educação | IS 9
dos de pesquisa (Sociogênese e Psicogênese) surgiram as novidades
explicativas de uma nova epistemologia, ou, o que quer dizer a mes
ma coisa, as novidades explicativas da nova epistemologia se apoiam
na pesquisa histórica e na pesquisa psicogenética. Por isso, a verda
deira compreensão da obra desse autor não poderia prescindir do es
tudo complementar e solidário dessas duas formas de pesquisas.
A pesquisa histórica do desenvolvimento do conhecimento cientí
fico e pré-científico é de grande importância, pois mostra que essa for
ma de conhecimento apresenta uma gênese, isto é, transformações por
reorganizações contínuas, que começam pelas formas mais primitivas
(fenomenistas e egocêntricas, nas representações míticas e animistas) e
vão até as formas mais acabadas da ciência contemporânea. A Socio
gênese, portanto, tem mostrado que tanto nos conhecimentos lógico-
-matemáticos como nos conhecimentos físicos e socioculturais há avan
ços e aprimoramentos por reconstruções sucessivas.
A Psicogênese, por outro lado, toma-se um instrumento podero
so na pesquisa do conhecimento-processo quando verifica, no desen
volvimento individual, mediante a pesquisa experimental, as pertinên-
cias das hipóteses epistemológicas em disputa. O estudo das funções
psicológicas como a memória, a atividade perceptiva, as representa
ções imagéticas, as representações conceituais, das estruturas afetivas,
cognitivas e morais nos planos sensório-motor e conceituai, dos me
canismos psicológicos como a abstração empírica e reflexionante, a
generalização indutiva e construtiva etc., participantes na constituição
dos diferentes patamares do conhecimento, mostra a fecundidade da
pesquisa psicogenética na revelação de novos fatos e na interpretação
nova de velhos problemas.
Assim, em coerência com esse modo de entender o conhecimen
to como processo, a Epistemologia Genética e a Psicologia Genética
colocam duas hipóteses científicas fundamentais a serem considera
das na pesquisa sobre a evolução dos conhecimentos. Em primeiro
lugar, concebem o conhecimento como ato de assimilação aos esque
mas de ação, isto é, assimilação a ações que se coordenam em siste
mas lógico-matemáticos, o que significa que o conhecimento, nos
diferentes planos e campos em que se articula, não é simplesmente
conexão associativa e linguagem.Em segundo lugar, como consegui
mos analisar num texto anterior (Dongo-Montoya, 2000), no proces
so de desenvolvimento psicológico do conhecimento (e da afetividade)
existe uma dialética radical entre os processos de continuidade e de
desconlinuidade, o que significa que os novos avanços do indivíduo
160 • Introdução à Psicologia da Educação
(e da ciência) são sempre reconstruções das conquistas anteriores e
não rupturas radicais nem simples prolongamentos.
Essas duas hipóteses são mais bem esclarecidas quando analisamos
os aspectos funcional e estrutural da inteligência e/ou do conhecimento.
O aspecto funcional diz respeito aos processos adaptativos e
organizativos, comuns a todos os níveis da atividade intelectual, e o
aspecto estrutural, às formas ou estruturas alcançadas pelo sujeito nos
processos adaptativos.
No processo adaptativo, o esquema sensório-motor mais primiti
vo é uma ação que se aplica a um conjunto de objetos e não a outros,
à maneira de um conceito (ou pré-conceito) que no seu exercício in
sere certas qualidades comuns dos objetos. Reciprocamente, esses
esquemas e conceitos, no seu exercício, são obrigados a se ajustar e
se transformar em função das particularidades dos objetos. Desse
modo, no exercício de um mesmo esquema, encontramos tanto a sua
dimensão assimiladora quanto a sua dimensão acomodadora. Mas esse
fato coloca imediatamente uma questão crucial: por que o esquema
de ação funciona inserindo objetos e transformando-se em função
desse exercício assimilador? Simplesmente porque todo esquema de
ação funciona como sistema ou como um todo organizado. Este últi
mo aspecto é o aspecto organizador do funcionamento da inteligência
e se refere tanto à composição interna de um mesmo esquema quanto
às suas coordenações com outros esquemas.
Os esquemas sensório-motores, assim como os esquemas con
ceituais, na medida em que se adaptam a novas realidades, dão lugar
a novas formas de organização. As novas formas de organização se
constituem, então, como resultado das transformações sofridas pelas
anteriores, tendo como resultado esquemas de maior abrangência so
bre os dados exteriores. Para Piaget, esse progresso não poderia se
explicar apenas por força das imposições do meio nem pela emergên
cia de estruturas pré-formadas, mas sim por sucessivas reorganiza
ções internas (construções) na busca de maior coerência e equilíbrio
estável. Esse processo de reorganização interna é chamado na teoria
de Piaget de equilibração majorante. Nesse processo, a constituição
de formas a partir de formas anteriores explica-se por meio do meca
nismo de abstração reflexionante. Esse mecanismo, contrariamente
às abstrações empíricas, que retiram dados e caracteres observáveis
nos objetos, permite retirar ou abstrair o que há de comum nos relacio
namentos que se fazem sobre os objetos. Por exemplo, a classificação
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educaçào 1161
conceptual ou pré-conceptual não é resultado dos caracteres observá
veis nos objetos nem nas ações materiais, mas sim das ações de juntar
e separar os objetos, isto é, das coordenações que se fazem sobre os
objetos (que não são observáveis).
Como se pode notar, o resultado do processo de adaptação e
organizativo define o aspecto estrutural da inteligência; reciprocamen
te, o dinamismo do processo adaptativo não poderá funcionar sem
uma estrutura prévia. Por isso, não poderia existir estrutura sem fun
cionamento nem funcionamento sem estrutura. De igual modo, se as
novas estruturas são formadas por reorganizações das estruturas ante
riores, não poderia existir, por isso mesmo, rupturas absolutas nem
simples prolongamentos ou continuidades.
VI.2 P esquisas sobre o Conhecimento Lógico- M atemático
e suas Implicações Educacionais
As pesquisas de Piaget sobre o conhecimento lógico-matemático
revelaram que a sua formação consiste numa verdadeira criação e
construção por parte do indivíduo. Noutras palavras, a criança, na tro
ca permanente com o meio, insere os objetos em sistemas de relações
cada vez mais complexos e reversíveis. As noções de série, de classe
e número são as maiores testemunhas desse processo construtivo.
Entretanto, essa forma de conhecimento, como se tem observado nas
linhas anteriores, diz respeito às formas mais gerais de conhecimento,
as quais são formadas, por abstração reflexionante, a partir das for
mas e coordenações efetuadas pelo sujeito sobre os objetos. A extra
ção das formas ou estruturas não é feita dos caracteres e particulari
dades dos objetos (como seu peso, sua força, sua velocidade, sua con
sistência etc.), mas sim dos relacionamentos e das coordenações que
o sujeito estabelece sobre esses objetos. Isso não quer dizer que os
objetos deixem de ser necessários e importantes, como poderia argu
mentar uma concepção apriorista; pelo contrário, são eles que possi
bilitam a formação das estruturas ou dos esquemas sensório-motores
e conceituais (ordem, classificação, espaço, número etc.). A partici
pação dos objetos exteriores e da experiência é tão importante que,
no começo da construção dessas estruturas, o sujeito não estabelece
separação alguma entre a própria forma que ele constrói e o conteúdo
físico dos objetos; somente no caso do conhecimento lógico-matemá
tico a atenção está voltada para os próprios relacionamentos e coor-
1 b 'l • Introdução à Psicologia da Educação
dcnações feitas pelo sujeito e não para as propriedades e resistências
particulares dos objetos a serem transformados.
São múltiplas as implicações práticas e educacionais das pesqui
sas realizadas sobre o conhecimento lógico-matemático. O ensino da
Matemática contemporânea se enriqueceu devido à descoberta
psicogenética de que a noção de número é produto da síntese das re
lações simétricas e assimétricas, isto é, do domínio prévio das rela
ções de classes e de séries lógicas. É claro que o número não se reduz
a isso, como mostram pesquisas mais atuais, entretanto essa desco
berta permitiu, no seio do ensino da Matemática, colocar a criança
como um agente central e ativo da aprendizagem. Esse triunfo
inquestionável da Psicologia e Epistemologia Genéticas contribuiu,
entretanto, para identificar a teoria de Piaget com o conhecimento
lógico-matemático. A introdução da teoria dos conjuntos no ensino
da Matemática teve como argumento a sua suposta identidade com o
desenvolvimento do pensamento lógico-matemático na criança.
Por outro lado, o fato de terem-se realizado muitas pesquisas
comparativas do desenvolvimento cognitivo, tendo como base as pro
vas operatórias - provas que denunciam estruturas básicas e de cará
ter lógico-aritmético - , conduziu à ideia de que a teoria de Piaget se
reduzia a diagnosticar os níveis gerais de desenvolvimento cognitivo.
E claro que o diagnóstico do nível cognitivo das crianças por inter
médio das provas operatórias tem cumprido grande importância na
clínica, na escola e na pesquisa comparativa, mas os instrumentos não
refletem e nem substituem toda a teoria.
Como essas pesquisas e trabalhos tiveram como principal objeti
vo diagnosticar o nível cognitivo da criança, assim como observar os
pré-requisitos intelectuais - em analogia com as pesquisas de QI -
para a aprendizagem dos conteúdos escolares, reforçaram a ideia pré-
-concebida de que a pesquisa piagetiana teria pouco a ver com a par
ticularidade da aquisição dos conteúdos escolares. Ideia que serviu de
pretexto para a crítica da teoria de Piaget como espontaneísta e para
a legitimação de concepções que defendiam o resgate do ensino dos
conteúdos escolares em oposição ao escolanovismo.
E fácil constatar que a divulgação da teoria de Piaget esteve (e
ainda se encontra) centrada na compreensão do estágio intelectual ou
mental das crianças e não nos processos de construção do real (físico
e cultural). Em decorrência disso, quando o professor de escola, por
exemplo, é solicitado a trabalhar comas descobertas de Emília Fer
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educuçuo I 16 t
reiro sobre a aquisição da escrita, ele não percebe conexão alguma
entre os resultados da pesquisa dessa autora e a teoria de Piaget e, se
percebe, assimila-os à construção das estruturas lógico-matemáticas.
Corno consequência, então, de privilegiar o estudo das estruturas
lógico-matemáticas e deixar num segundo plano os estudos sobre a
aquisição e o desenvolvimento do conhecimento do mundo real (es
crita, ciências da natureza, Geografia, História etc.), o pensamento
piagetiano foi alvo de severas críticas no meio educacional. Ainda se
diz hoje que a teoria piagetiana é “cognitivista” por estar interessada
somente em diagnosticar as estruturas gerais do conhecimento e, por
isso, ficar alheia às questões de aprendizagem de conteúdos específi
cos. Alega-se que o interesse dessa teoria estaria centrado apenas no
conhecimento geral e que não serviría portanto para a análise das si
tuações concretas do ensino e da aprendizagem escolar. Associada
com essa crítica estaria a negligência da teoria piagetiana em relação
às questões sociais e culturais, o que é evidentemente falso.
V I .3 P esquisas sobre o Conhecimento Físico
e suas Implicações Educacionais
Se há um lugar onde se pode reconhecer a novidade e originali
dade da epistemologia piagetiana é na formulação do processo de
aquisição do conhecimento físico. Chama-se conhecimento físico so
bretudo o modo como a ciência da natureza apreende o mundo real e
realiza explicações causais sobre ele. Contrariamente ao positivismo,
a perspectiva da Epistemologia Genética, à semelhança das concep
ções mais dialéticas e relacionais, como a de Brunschvicg e Bachelard,
transcende a simples busca de regularidades e leis constatáveis para
avançar na direção da formulação de sistemas de representação ou
modelos de interpretação.
A aquisição do conhecimento físico, como se pode observar, diz
respeito à formação e aprendizagem do conhecimento do mundo ex
terior, à aquisição do conhecimento sobre as propriedades inerentes
aos objetos; tal aquisição, porém, é possível somente pela sua inser
ção progressiva em sistemas operatórios e esquemas explicativos.
Assim, esses sistemas se constituem em mediadores epistemológicos
nos diferentes níveis de organização e de relação do sujeito com o
objeto, e isso desde o início. As diferentes noções físicas estudadas
161 • Introdução à Psicologia da Educação
por Piaget e seus colaboradores revelam esse caráter fundamental. As
pesquisas sobre as noções tísicas de conservação (substância, peso e
volume), as pesquisas sobre questões de mecânica e de dinâmica, como
as noções de força, de velocidade, de tempo, de espaço físico, de trans
missão de movimentos, e as pesquisas sobre composição e combinação
interna dos corpos, como o atomismo, e dos processos químicos reve
lam duas condições: a necessária abstração de caracteres específicos
dos objetos (abstração empírica) e a sua inserção progressiva em sis
temas de relações ou de coordenações (abstrações reflexionantes).
Se o conhecimento físico não deixa de ser uma organização lógi
ca e matemática do mundo (quantificação intensiva e extensiva), ele
não é uma simples aplicação das estruturas lógico-matemáticas, como
o senso comum poderia acreditar. Pelo contrário, a apreensão da reali
dade exterior exige relacionamentos e coordenações progressivas c es
pecíficas sobre as propriedades e conteúdos particulares dos objetos,
como o seu peso, seu volume, sua duração, sua força etc. Por isso, é
necessário agir e ter experiência sobre os caracteres específicos dos
objetos para realizar abstrações empíricas desses dados e inseri-los
em sistemas de relações. Assim, mesmo no plano do conhecimento
sensório-motor e prático, é somente pesando e estabelecendo relações
sobre os objetos que é possível saber que um objeto X tem peso igual
a um objeto Y. Também no plano da representação conceptual, so
mente comparando e reconstituindo os estados percebidos pelos quais
passa a transformação da matéria é possível compor operatoriamente
a quantidade dessa qualidade física. A afirmação da necessária parti
cipação da experiência sensível não significa o retorno ao empirismo,
pois, se a experiência é absolutamente necessária, a experiência real
não é possível sem a indispensável contribuição das coordenações das
ações. O conhecimento do mundo real não se reduz à experiência
sensível nem ao seu oposto, à dedução pura; ele é produto da ação
solidária de ambos (por isso as necessárias abstrações empíricas e
reflexionantes).
É preciso levar em conta a experiência com os objetos para reti
rar deles as suas características particulares; essa experiência, porém,
não é suficiente, porque a realidade objetiva do mundo não é possível
de ser apreendida sem que seja inserida em sistemas de relações. A
realidade imediata que aparece aos sentidos é somente fenomênica e
egocêntrica. Somente é possível alcançar a objetividade da realidade
exterior pela mediação dos sistemas de relação e, isso, desde os ní
veis mais elementares da atividade sensório-motora.
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educação I 16b
A realidade exterior é construída por ser resultado da abstração
progressiva das propriedades inerentes dos objetos, enquanto inseri
dos em sistemas de relações. Esses sistemas podem ser desde os mais
primitivos até os mais objetivos e científicos, dos mais centrados na
aparência fenomênica dos objetos e na ação imediata do sujeito até os
mais profundos e desligados da subjetividade individual e do grupo.
Assim, por exemplo, a noção primitiva de substância é aquela que se
encontra atrelada à ação de reencontrar perceptivamente os elemen
tos de um objeto, de tal maneira que se a forma e o estado da matéria
mudarem radicalmente o sujeito não acreditará mais na conservação
da sua substância. Quando da dissolução de torrões de açúcar num
copo de água, a criança acredita no aniquilamento total dessa subs
tância, apesar de constatar a permanência do nível da água, do peso e
mesmo do seu sabor. Embora a criança lembre perfeitamente os esta
dos pelos quais passou a transformação dessa matéria, ela não conse
gue compô-los num sistema coerente que permita prever a conserva
ção da quantidade total dos seus elementos ou formular a hipótese da
conservação da unidade mínima de matéria (condição da origem do
atomismo). No que se refere às experiências da mudança da forma de
uma bolinha de barro, a criança, da mesma maneira, acredita na alte
ração da sua substância, do seu peso e do seu volume. Apesar de lem
brar os estados pelos quais passa a transformação, ela não consegue
reconstituí-los e compô-los num sistema de relações e compreender,
dessa maneira, a conservação da substância.
O peso primitivo é, igualmente, uma noção atrelada à ação de so
pesar, de tal modo que o peso dos corpos é avaliado em função daquilo
que se pode medir com as mãos e com o corpo. A criança, apesar de
observar e constatar que a matéria dissolvida pesa igual antes e de
pois da sua transformação, pensa que o peso inicial não é o mesmo
após a sua dissolução. Mesmo no nível em que a criança consegue pen
sar a conservação da substância, ela tem a impressão de que o peso
diminui até o seu aniquilamento total, pois não consegue imaginar
que uma matéria dissolvida e cujos grãos se tornam muito pequenos e
invisíveis poderia ainda continuar pesando. Esses grãos diminutos já
não são possíveis de serem sopesados com as próprias mãos!
O que acontece em relação ao peso acontece também em relação
à conservação do volume. A diferença agora é de organizar um novo
conteúdo, o qual tem a ver com o espaço ocupado pelos corpos em
estado de compressão e de descompressão. São os fatores do Icnome-
nismo e egocentrismo que impedem novamente a composição opera-
I 66 • Intmduoio « Psicologiada Educação
(ói ia, assim como a fraqueza dessa composição impede o afastamento
dessas idéias primitivas.
O fenômeno físico da transmissão mediata de movimento, para
uma criança pequena, significa uma ação imediata de um agente so
bre o paciente. Essa noção, central na teoria da causalidade, é inter
pretada pela criança em função da ação dela sobre os objetos e não
como uma relação entre objetos considerados como externos. Desse
modo, para a criança pequena, não é possível pensar transmissão de
força através de objetos imóveis, pois todo movimento de um corpo é
causado pela ação exterior e imediata de outro objeto.
O mesmo acontece com a noção de tempo, que se encontra redu
zida, nos estágios primitivos, ao movimento do próprio corpo. Nesse
caso, não há um tempo homogêneo que consiga inserir o próprio
movimento e o dos objetos exteriores.
Em síntese, o que se pode destacar desses diferentes estudos é
que, nos níveis primitivos da causalidade e do conhecimento físico, o
sujeito abstrai certos caracteres dos objetos sem inseri-los em siste
mas de relações, pois eles dizem respeito às atividades particulares e
isoladas do sujeito, como reencontrar objetos percebidos, sopesar,
preencher os espaços vazios, impulsionar imediatamente os objetos,
conceber a sucessão e duração dos corpos em função do espaço per
corrido e do esforço realizado etc.
Nas suas formas acabadas o conhecimento físico apresenta os
traços de uma verdadeira composição lógico-matemática, pois as
ações particulares se encontram coordenadas operatoriamente. O aca
bamento da noção de conservação da substância, que se realiza na
criança por volta dos sete/oito anos, ocorre quando ela percebe que a
quantidade de elementos que compõem a matéria não se altera apesar
das transformações na sua forma e no seu estado físico. Diante da
dissolução do açúcar na água, por exemplo, a criança tem certeza de
que todos os grãos que faziam parte do torrão inicial continuam os
mesmos. Essa certeza a priori é resultado de uma composição opera-
tória (reversível) de deslocamentos e fracionamentos físicos (espacial
e temporalmente inseridos) sobre as transformações da matéria. Essa
forma de composição, sem ser uma pura forma lógico-matemática, é
uma operação mental que considera transformações reais, nas quais a
matéria em questão se parte e desloca sucessivamente e, por isso, al
cança a conservação do todo inicial: a somatória dos elementos assim
iracionados e deslocados pelo efeito da propriedade da água é igual
aos elementos do estado inicial da matéria. É claro que antes do aca
bamento dessa noção a criança inicia afirmando a conservação da
substância de uma forma intuitiva, pois o apoio da sua afirmação é
ainda um dado empírico e não uma composição operatória. Assim,
sabe que alguma coisa se conserva, mas não se encontra convencida
de que o todo inicial permanece inalterado, pois o fundamento da sua
certeza ainda não é um sistema de operações físicas.
A conservação do peso segue um caminho análogo ao da subs
tância ao exigir ações de fracionamentos e deslocamentos, mas, coisa
surpreendente, a sua construção operatória se inicia somente quando
a noção de substância é acabada, a partir de uma forma fenomenista e
egocêntrica. Piaget explica que isso acontece devido ao fato de que a
ideia inicial de peso se encontra atrelada à ação de sopesar, e essa
ideia é tão forte que dificulta o triunfo da forma operatória de pensar.
A transmissão mediata de movimento passa por um processo
evolutivo análogo ao da conservação da matéria. No seu começo essa
noção se reduz a uma transmissão imediata, de tal modo que a ação
de um agente A sobre um paciente B por intermédio de um agente C,
para a criança pequena, significa uma ação direta de A sobre C. Mes
mo quando o movimento do agente intermediário é anulado a criança
percebe movimentos de translação de A sobre C. Essa forma de ação
a distância é chamada viagem imaginária. Há uma pequena evolução,
quando o movimento de B é interpretado como resultado de uma su
cessão de transmissões imediatas. Portanto, a noção da transmissão
mediata, no sentido do impulso que atravessa os objetos intermediá
rios, encontra-se ausente nos níveis iniciais e a sua construção é pos
sível somente quando as ações entre os objetos são compostas de uma
maneira operatória. Essa composição apresenta uma particularidade
que é necessário frisar: do resultado da ação de A sobre C o sujeito
deduz a ação de A sobre B e de B sobre C, mesmo que os objetos
intermediários permaneçam imóveis. Trata-se aqui de uma transitivi-
dade física e não simplesmente lógico-matemática, pois o sujeito é
obrigado a reconstituir os estados anteriores da transformação e da
conservação da força inicial. Portanto, nesse caso, as operações estão
submetidas às condições espaço-temporais do mundo real e não são
simplesmente coordenações formais.
O estudo da noção temporal é mais ilustrativo da condição espa-
ço-temporal das operações físicas (que são mentais). Essa noção, se
gundo a física clássica, é resultado de uma intuição primária, que jun-
C a p itu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educaçao | 1 6 /
I6H • lntio<lu<ao à Psicologia da Educação
Io com a noção de espaço constitui a noção de velocidade. A pesquisa
psicogenética, à semelhança da teoria da relatividade, revela que a
noção de tempo é aquela que é derivada a partir da noção primitiva
de velocidade e a partir da sua diferenciação da noção espacial. As
sim, num primeiro momento, para a criança, o tempo primitivo está
ligado ao ritmo dos seus próprios movimentos, isto é, das sucessões e
durações das suas próprias ações. Um progresso inicial acontece quan
do a velocidade e o tempo são avaliados em termos de ultrapassagem
dos pontos de chegada. Progressivamente, os acontecimentos que
duram e se sucedem se ordenam de maneira operatória até formar um
tempo homogêneo.
O que é importante destacar do processo construtivo do tempo
homogêneo é o fato de que ele não é resultado da simples aplicação
de uma forma lógico-matemática à sucessão dos acontecimentos, mas
sim da organização progressiva de uma dimensão do mundo exterior,
qual seja, o ritmo ou velocidade do movimento dos corpos, inicial
mente atrelado ao movimento do próprio corpo (ritmo das ações exer
cido sobre os objetos), para logo se libertar e objetivar-se em razão da
sua composição operatória. O tempo homogêneo é, portanto, resulta
do de uma composição física de natureza operatória.
Assim, o estudo psicogenético das noções físicas mostra a ne
cessidade de afastar duas hipóteses tradicionalmente aceitas: a pri
meira consiste em considerar as operações lógico-aritméticas como
precedendo as operações físicas e imaginá-las como uma forma de
terminando seu conteúdo; a segunda considera as construções lógico-
-aritméticas a partir das construções físicas, as quais conduziríam a
supervalorizar o conteúdo experimental.
A primeira hipótese mostra-se aparentemente mais verossímil.
Parece que seria preciso começar por saber seriar pesos e concluir
com o peso A = o peso A” se A = A’ e A’ = A”, para poder em segui
da construir as invariantes de peso da bolinha transformada em salsi
cha ou do açúcar dissolvido na água transparente. Ora, as pesquisas
sobre as noções de conservação física (substância, peso e volume),
relacionadas às composições formais (lógico-aritméticas) sobre essas
qualidades, mostram que nada disso acontece:
...nem a lógica das classes de Aristóteles nem mesmo a
das relações de Russel poderíam impunemente pretender pas
sar à frente do trabalho dos Galileus ou dos Lavoisiers, pois
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educuçao I W»V
não é possível constituir uma lógica nem uma aritmética do
peso antes de ele [o sujeito] possuir a física. (1975, p. 297)
Os dados psicogenéticos mostram, com toda evidência, que as
construções lógico-aritméticas e as construçõesfísicas são paralelas e
sincronizam-se na medida em que se generalizam os três tipos de
objetos analisados (substância, peso e volume), sem que as primeiras
precedam as segundas. Esses dados mostram também que à ausência
de invariantes físicas corresponde a ausência de invariantes operató-
rias de ordem lógica, isto é, enquanto a criança não considera o peso
de um objeto como uma invariante física, ela não consegue compor
nem lógica nem aritmeticamente as equivalências de peso.
A segunda hipótese também não seria aceitável, pois não somente
a indução experimental mas ainda a própria leitura da experiência
constituem composições. A experiência real, contrária à experiência
imediata, constitui uma construção, do mesmo modo que o sistema
de relacionamento operatório é oposto ao egocentrismo.
Para a terceira interpretação, que é a de Piaget, as operações ló-
gico-matemáticas e as operações físicas são solidárias num desenvol
vimento comum. Mas qual a natureza dessa solidariedade? E neces
sário chegar a uma invariante física para raciocinar corretamente so
bre a noção correspondente ou constituir invariantes lógicas para po
der construir os sistemas físicos que lhes correspondem? Para Piaget,
colocado dessa maneira, o problema seria bem artificial, porque é
evidente que existem relações lógico-aritméticas, isto é, extemporâ
neas, em toda construção física, e relações espaço-temporais e, por
tanto, físicas, em toda construção lógica (reuniões, seriações etc.), mas
das quais se pode fazer legitimamente abstração.
Antes dos seis ou sete anos a criança só representa os números
como figuras e os seres lógicos como objetos complexos inseridos
em coleções. E apenas no momento em que ultrapassa esse nível in
tuitivo, para conceber as operações reversíveis, que o sujeito começa
a distinguir as operações físicas e as operações lógico-matemáticas:
elas constituem, em seu mecanismo formal, exatamente as mesmas
transformações, mas as primeiras se aplicam ao objeto como tal e às
suas partes ou às suas relações espaço-temporais internas, e as segun
das, às coleções dos objetos (classes), às relações entre objetos con
cebidos como elementos de classes ou entre classes (relações) ou às
duas ao mesmo tempo (números). Tal é a diferença entre os dois tipos
I /O • IniiadiKoo à Psicologia da Educação
tle operações. Portanto, não é de surpreender que seus grupamentos
qualitativos ou intensivos e suas quantificações numéricas ou métri
cas sejam sempre sincrônicos para as mesmas realidades (substância,
peso ou volume).
Mas, se as operações físicas constituem uma composição do mun
do exterior, o problema imediato é se a realidade a isso se presta sem
nada acrescentar. Como temos visto em parágrafos anteriores, o desen
volvimento das noções físicas denuncia as resistências que os objetos
impõem aos sujeitos. Daí as particularidades e a ausência de linearidade
do desenvolvimento e a aquisição do conhecimento físico. Daí também
a necessidade de se realizar pesquisas experimentais sobre as particula
ridades do desenvolvimento das diferentes noções do mundo natural.
No que se refere às implicações das pesquisas psicogenéticas do
conhecimento físico para a educação, podemos considerar algumas.
Em primeiro lugar, os fatos psicogenéticos evidenciam a necessidade
urgente de abolir, no campo educacional, as posturas reducionistas
em relação ao conteúdo (conteudismo) e em relação à forma (forma
lismo). É preciso que o educador conheça tanto o conteúdo acabado
quanto os processos e mecanismos pelos quais esse conteúdo é
construído. Somente esses conhecimentos podem impedir, sobretudo
no ensino das ciências da natureza, que a ação pedagógica continue
se reduzindo à transmissão de conteúdos acabados, sem permitir ao
aluno a necessária problematização dos fenômenos e a explicação
espontânea dos dados constatados. Mesmo quando o currículo esco
lar demanda atividades de observação da realidade natural e observa
ções de laboratório, não é mais possível (mesmo com a ajuda de com
putadores) realizar experiências fora das atividades de problemati
zação, de interpretação e de controle de dados por parte dos alunos.
Noutras palavras, não é mais possível formar o espírito inteligente
fora da análise e da pesquisa atenta da realidade com a qual o sujeito
convive e experimenta, assim como, reciprocamente, não é possível
apreender essa realidade independentemente das tomadas de consciên
cia progressiva que envolvem necessariamente a construção do racio
cínio operatório. Nesse sentido, o núcleo central da ação educativa
deverá resgatar a pesquisa científica da caricatura a que foi submetida
no ensino fundamental.
Sobre esse assunto é importante resgatar as colocações de Piaget
(1998, p. 179) sobre o ensino elementar das ciências naturais. Para
ele constitui um imenso progresso a substituição do ensino verbal e
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educaçao I 1/1
da leitura dos manuais por urna série de constatações diretas e de
experiências propriamente ditas. Porém, no próprio terreno da experi
mentação concreta, ainda existem duas maneiras de conceber a rela
ção do professor com a criança e desta com os objetos sobre os quais
incide sua ação. Uma é preparar tudo, de tal modo que a experiência
consista numa espécie de leitura compulsória e totalmente regulada
de antemão. A outra é provocar no aluno uma invenção das próprias
experiências, limitando-o a fazer com que tome plena consciência dos
problemas, que em parte ele mesmo já se coloca, e a ativar a desco
berta de novos problemas, até fazer dele um experimentador ativo
que procura e acha soluções, por meio de inúmeras tentativas talvez,
mas por seus próprios meios intelectuais. O método de pesquisa no
campo das ciências da natureza exige substituir a simples leitura dos
fatos, enquanto dados externos, pela organização espontânea das rela
ções e pela própria construção do processo indutivo (que não deixa
de ser construtivo).
Em segundo lugar, o ensino de qualquer dos conteúdos da reali
dade física exige um conhecimento prévio, por parte do educador, das
particularidades do percurso que seguem o desenvolvimento e o pro
cesso de aquisição de tal ou qual conteúdo. Sem uma referência dessa
natureza é artificial e carente de sentido possibilitar problematizações
e a aquisição verdadeira de alguma noção científica. E imprescindí
vel que o educador que lida com conteúdos científicos conheça as
noções espontâneas (no sentido de serem independentes do ensino
escolar), específicas e necessárias à aquisição de determinado con
teúdo escolar sobre o real. Por exemplo, como ensinar as noções de
combinação química de uma substância qualquer se a criança ou o
adolescente desconhece a noção de conservação elementar da maté
ria, de peso e de volume? Como introduzi-lo no mundo da combina
ção das partículas mínimas de matéria se nem sequer a noção mais
primária de átomo se encontra constituída? Sabemos hoje que os pré-
-socráticos somente conseguiram formular a ideia de átomo quando
pensaram a composição da matéria de uma forma operatória, ideia
que foi reiniciada por Lavoisier depois de mais de 20 séculos. Do
mesmo modo, podemos nos perguntar como seria possível o adoles
cente compreender a noção relativa de tempo se nem sequer a noção
homogênea foi ainda construída? Como entender a lei dos pesos em
equilíbrio sobre uma balança se a noção elementar de força ainda não
foi descoberta? Assim, os fatos da pesquisa psicogenética sobre o co
nhecimento físico colocam em evidência que as noções físicas ele-
172 • Infiodufiio à Psicologia da Educação
mcnlares, e não simplesmente o domínio do raciocínio lógico e ma-
lemático geral, constituem a subestrutura necessária para a compreen
são de todo ensino da Física no ensino médio.
Em terceiro lugar, se a pesquisa dos fenômenos físicos exige um
trabalho de busca, controle e inteipretação por parte dos indivíduos,esse trabalho não exclui, segundo Piaget, a discussão e a colaboração
entre os pares e, portanto, uma vida social organizada entre os própri
os alunos:
...a experimentação se completa pela discussão conjunta,
a redação ou o desenho nos cadernos de observação convoca a
colaboração dos pesquisadores, em suma, o exercício das ope
rações constitutivas do saber supõe essa cooperação intelec
tual que é o meio necessário para a organização das próprias
operações individuais. (1998, p. 180)
E justamente nesse processo que a participação do educador se
revitaliza e se torna insubstituível, pois, como o próprio autor diz, de
pois de ter sido instigador junto às problematizações e descobertas de
cada criança, tornou-se animador das discussões do grupo de “pesqui
sadores”.
Em quarto lugar, os processos e mecanismos revelados na cons
trução do conhecimento físico podem contribuir enorme e imprevisi-
velmente para melhor compreensão dos processos e mecanismos dos
conhecimentos sociais e culturais. Se estes últimos dizem respeito às
regras e normas coletivas de ação, construídas social e historicamen
te, o processo de aquisição por parte do indivíduo seria diametralmente
oposto àquele do conhecimento físico? Será que os conhecimentos
sociais e culturais, por terem particularidades específicas (regras e
acordos coletivos), não exigem na sua aquisição composições pro
gressivas sobre os elementos abstraídos da realidade exterior, como
os modelos físicos?
V I .4 P esquisas sobre os Conhecimentos Sociais e Culturais
e suas Implicações Educacionais
Apesar das diferenças que separam os conhecimentos físicos dos
sociais e culturais, estes últimos se desenvolvem e são adquiridos de
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Gonóticas para a Educaçuo I 173
forma análoga aos primeiros. Essa analogia obedece ao fato de que
tal como o conhecimento físico, o conhecimento social e cultural exige
abstrações empíricas, no sentido de extrair caracteres e particularida
des do mundo exterior, e inserção desses dados em sistema de rela
ções ou composições lógico-matemáticas. Deve-se igualmente ao fato
de que as composições sucessivas, efetuadas pelo sujeito, realizam-se
numa sequência de complexidade e objetividade progressiva.
As pesquisas de Emília Ferreiro sobre a psicogênese da escrita
obedecem a essa forma de evolução e refletem de forma original, no
campo dos conteúdos culturais, as principais hipóteses da teoria
piagetiana sobre a construtividade do mundo real. As pesquisas de
Ferreiro, de enorme importância para os desafios da alfabetização, so
bretudo nos países do terceiro mundo, tratam de revelar os processos e
os estados pelos quais o sujeito adquire conceitualmente um sistema de
representação sobre a própria fala. Assim como a humanidade percor
reu, progressivamente, milênios para organizar um sistema de repre
sentação conceptual sobre as regras da escrita, o indivíduo também
organiza progressivamente sistemas de representação conceptual para
conseguir escrever e ler consciente e competentemente.
Como no caso do conhecimento físico, a escrita apresenta-se ao
sujeito, do ponto de vista ontológico, como um sistema exterior e
acabado, com as suas leis e seus mecanismos internos. O problema
epistemológico e genético aparece quando surgem as seguintes per
guntas: de que modo o indivíduo interpreta esses signos e sinais já
organizados e quais os processos e estados que o indivíduo constrói
para alcançá-los? Esse indivíduo começa interpretando de um modo
objetivo e acabado ou inicia a sua interpretação de um modo fenome-
nista e egocêntrico, como no caso dos conhecimentos físicos observa
dos no item anterior? A interpretação progride por meio dos sistemas
de interpretação cada vez mais complexos e acabados? E justamente
a essas interrogações que as pesquisas psicogenéticas de Ferreiro res
pondem de forma original e surpreendente.
No campo da pesquisa do conhecimento social e cultural a pes
quisa psicogenética se complementa com a pesquisa sociogenética.
No desenvolvimento da escrita, num trabalho anterior (Dongo Mon-
toya, 1996), nós mesmos verificamos a existência de estados e pro
cessos análogos na psicogênese e no desenvolvimento histórico da
escrita. Ambas as formas de pesquisas revelam um progresso lento c
sucessivo, que vai desde as formas mais elementares (com as caracte
I / 4 • lutioiluccio ò Psicologia da Educação
rísticas de fenomenismo e egocentrismo) até as formas mais objetivas
de representação conceptual (escrita alfabética).
Piaget, a propósito das suas primeiras pesquisas sobre a causali
dade e representação do mundo no sujeito, descreve e analisa o de
senvolvimento de algumas noções sociais e culturais na criança. Es
sas pesquisas revelam a complexidade construtiva das noções do
mundo real (tanto do mundo físico como do mundo cultural). Dentro
das pesquisas atuais, realizadas no campo social e cultural, podemos
destacar aquelas efetuadas por Juan Delval (1989). Essas pesquisas
revelam, a nosso ver, aquilo que afirmamos a propósito das pesquisas
de Ferreiro: a apropriação progressiva de conteúdos sociais pela crian
ça passa pela construção progressiva e original de formas de repre
sentação e por processos comuns ao conhecimento físico (abstração
empírica e abstração reflexionante).
A pesquisa realizada por Sandra Regina Ferreira de Oliveira
(2000), nossa co-orientanda, sobre o tempo histórico na criança, mos
tra como se desenvolvem noções de passado e idéias espontâneas re
lativas à história da civilização. E importante destacar nessa pesquisa
o fato de que o tempo histórico na criança, do mesmo modo que o
tempo físico, é heterogêneo, pois se encontra centrado na própria ação
e na aparência fenomênica da sucessão e da duração dos aconteci
mentos. A diferença entre ambos consiste no fato de que os conteú
dos da representação histórica são acontecimentos sociais vividos e
transmitidos pela escola e pelas gerações mais velhas. Para a criança,
cada um dos acontecimentos representados tem seu próprio tempo e
não um tempo comum e homogêneo que os possa inserir. A história
se reduz, assim, a fatos e acontecimentos simplesmente justapostos.
Quais as implicações educacionais dessas pesquisas? Em primei
ro lugar, os fatos importantes da pesquisa psicogenética mostram a
existência de uma construção progressiva de modelos originais de
interpretação por parte da criança e ao mesmo tempo processos e
mecanismos de construtividade comuns aos objetos do inundo real.
Isso demonstra que, do ponto de vista pedagógico, tanto o estado al
cançado como o processo de formação são muito importantes para
assegurar a aprendizagem dos conteúdos. Desse modo, a ação peda
gógica não poderia contentar-se com a transmissão de conteúdos aca
bados, mas sim, e sobretudo, com a forma de alcançá-los. Assim como
no caso dos conhecimentos físicos, no caso dos conteúdos sociais e
culturais se faz necessário o questionamento da realidade pesquisada
para que a criança tenha a oportunidade de criar hipóteses e modelos
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para n Educaçcio | I / S
interpretativos originais, de verificá-los e controlar os fatos e aconte
cimentos postulados. Faz-se necessária igualmente a discussão e eo
laboração com os colegas “pesquisadores”.
O exposto exige do educador constituir-se num pesquisador que
não domine apenas o conteúdo acabado a ser ensinado, mas também, e
sobretudo, os processos pelos quais esse conteúdo se constitui progres
sivamente no indivíduo e na história da ciência a ser ensinada. Esses
conhecimentos é que deveríam ser os seus referenciais permanentes.
Do contrário, como se pode contribuir para a superação das hipóteses
elementares, para a reelaboração dos conhecimentos anteriores e para
alcançar desse modo conhecimentos mais objetivos e mais acabados?
Em segundo lugar, a organização mais objetiva e sistemática dos
dados segueum percurso de acordo com uma organização de comple
xidade progressiva e operatória. Esses modos de organização conforme
a particularidade de cada área e setor do conhecimento seguem geral
mente um percurso original e nem sempre refletem o caminho percor
rido pela ciência em questão. Disso advêm a necessidade de realizar
novas pesquisas psicogenéticas e sociogenéticas para descobrir os mo
delos sucessivos construídos pela criança e pela ciência, que possam
servir de referência para a reflexão e prática educacional.
V I.5 P esquisas sobre o D esenvolvimento M oral
e suas Implicações Educacionais
As pesquisas filosóficas e psicológicas sobre a moralidade são
de longa data. Na obra de Piaget, apesar de poucos trabalhos dedica
dos a esse assunto, há uma novidade no seu modo de tratamento. Essa
novidade se materializa pelo tratamento científico outorgado a esse
tema, fundamentando-o em fatos constatáveis com suas leis e com
seus processos, e por abordá-lo como um processo de construção real
por parte do indivíduo.
Não insistiremos sobre o primeiro ponto neste trabalho. E sobre
o segundo ponto que gostaríamos de nos deter, isto é, sobre a particu
laridade da construção moral.
Em primeiro lugar, o fato que percorre toda a obra psicogenética
de Piaget é o de que o esquematismo da ação prática ou sensório-
-motora é condição do desenvolvimento da representação e do pensa
mento humano. O pensamento, embora ultrapasse os alcances da in-
1 / 6 * Introdução <■ Psicologia da Educação
tcligência scnsório-motora, não deixa de obedecer às leis do esque-
matismo anterior e constituir a sua interiorização e tomada de cons
ciência. No desenvolvimento da moralidade infantil, Piaget mostra
também a continuidade e descontinuidade entre a regra motora e a
regra representada. A consciência moral na criança é um prolonga
mento, com reconstrução, das ações práticas morais, do mesmo modo
que o processo de interiorização ou conceptualização das estruturas e
noções intelectuais.
Em segundo lugar, a grande descoberta da Psicologia Genética é
ter invertido o tratamento clássico dado à moralidade humana. Embo
ra exista, nos estudos clássicos da moral, consenso sobre o fato de o
respeito constituir o sentimento fundamental que possibilita a aquisi
ção das noções morais, as formas de tratamento dessa relação é que
podem ser diametralmente opostas. Assim, segundo Piaget (1998),
enquanto Kant vê no respeito um resultado da lei e Durkheim um
reflexo da sociedade, Bovet mostra, ao contrário, que o respeito pelas
pessoas constitui um fato primário e que mesmo a lei dele deriva.
Para Bovet (1912), duas condições são necessárias e suficientes para
que se desenvolva a consciência da obrigação: em primeiro lugar, que
um indivíduo dê ordens a outro e, em segundo, que esse outro respei
te aquele de quem emanam as ordens. Noutras palavras, é suficiente
que a criança respeite seus pais ou professores para que as ordens pres
critas por eles sejam aceitas por ela e por isso se tornem obrigatórias.
Esse resultado, para Piaget, é essencial para a educação moral, posto
que leva logo de início a situar as relações de indivíduo a indivíduo
acima de qualquer ensinamento oral e teórico. Por isso é necessário
duvidar da eficácia e possibilidades da educação moral que se apoia
nas lições morais e nos belos discursos, pois as concepções de bem e
de mal serão abstraídas das relações sociais efetivamente vividas.
Entretanto, se esse modo de colocar a relação entre o respeito e
a lei moral é novo, é preciso ainda diferenciar as modalidades que
assumem o respeito na relação entre os indivíduos. Assim, as pesqui
sas de Piaget distinguem dois tipos de respeito. Por um lado, há o
respeito unilateral que implica a desigualdade entre aquele que res
peita e aquele que é respeitado; é o respeito do pequeno pelo grande,
da criança pelo adulto, do caçula pelo irmão mais velho. Esse respei
to, que traz consigo uma coação inevitável do superior sobre o infe
rior, é característico daquela relação social que Piaget chama de rela
ção de coação. Por outro lado, existe o respeito mútuo, pois os indiví
duos que estão em contato se consideram iguais e se respeitam reci
procamente. Esse respeito não implica nenhuma coação e caracteriza
C a p ítu lo V I • Contribuições da Psicologia e Epistemologia Genéticas para a Educuçno | I / /
um segundo tipo de relação social que Piaget chama de relação de
cooperação. Essa relação constitui a essência das relações entre crian
ças ou entre adolescentes num jogo regulamentado, numa organiza
ção de autogoverno ou numa discussão sincera e bem conduzida.
É importante acrescentar que, para Piaget, esses dois tipos de
respeito explicam a existência de duas morais. O respeito unilateral
fazendo par com a relação de coação moral conduz ao sentimento de
dever. Mas o dever primitivo, assim resultante da pressão do adulto
sobre a criança, permanece essencialmente heterônomo. Ao contrá
rio, a moral resultante do respeito mútuo e das relações de coopera
ção pode caracterizar-se por um sentimento diferente, o sentimento
do bem, mais interior à consciência, cujo ideal de reciprocidade tende
a tornar-se inteiramente autônomo.
Os resultados das pesquisas psicogenéticas sobre a moral mos
tram, então, que a melhor forma das instituições educacionais contri
buírem na formação de indivíduos autônomos é pela educação moral
ativa, isto é, pelo favorecimento de experiências morais não apenas de
coação - que são inevitáveis nas práticas morais autoritárias - , mas
também, e sobretudo, de cooperação. E necessário que, para os partici
pantes da escola ativa, a educação moral não constitua uma matéria
especial de ensino, mas um aspecto particular da totalidade do sistema:
...a educação forma um todo, e a atividade que a criança
executa com relação a cada uma das disciplinas escolares su
põe um esforço de caráter e um conjunto de condutas morais,
assim como supõe uma certa tensão da inteligência e mobiliza
ção de interesses. Esteja ocupada em analisar regras da gramá
tica, em resolver um problema de matemática ou em documen
tar um ponto da história, a criança que trabalha “ativamente” é
obrigada, não só diante de si como diante do grupo social que
é a classe ou a “equipe” da qual faz parte, a comportar-se de
modo muito diferente do aluno tradicional que escuta uma li
ção ou realiza um “dever” escolar. (Piaget, 1998, p. 43)
E nesse sentido que, a nosso ver, dever-se-iam pensar as ques
tões atualmente faladas em tennos de “educação transversal”.
Por outro lado, um procedimento ativo especificamente moral
tem a ver com as relações de autogoverno. Para Piaget ( 1998, p. 44-
-5), para aprender física ou gramática, não há método melhor que des-
I / 8 • Intioduçao à Psicologia da Educação
cobrir por si, por meio da experiência ou análise de textos, as leis da
matéria ou as regras da linguagem; do mesmo modo, para adquirir o
sentido da disciplina, da solidariedade e da responsabilidade, a escola
‘‘ativa” deve esforçar-se em colocar a criança numa situação tal em
que ela experimente diretamente essas realidades espirituais e descu
bra por si mesma, pouco a pouco, suas leis constitutivas. Ora, acres
centa esse autor, posto que a classe forma uma sociedade real, uma
associação que repousa sobre o trabalho em comum de seus mem
bros, é natural confiar às próprias crianças a organização dessa socie
dade. Elaborando elas mesmas as leis que regulamentarão a discipli
na escolar, elegendo elas mesmas o governo que virá a se encarregar
de tais leis e constituindo o poder judiciário que terá por função a
repressão dos delitos, as crianças adquirirão a possibilidade de apren
der, pela experiência, o que é a obediência à regra, a adesão ao grupo
social e a responsabilidade individual.
Em terceiro lugar, no desenvolvimento do julgamento moral as
coordenações que o sujeito estabelece não são de caráter geral, como
no caso das estruturas lógico-matemáticas,