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1 Disciplina: Gestão de sistemas e unidades educacionais Autora: D.ra Vanessa Roberta Massambani Ruthes Revisão de Conteúdos: D.ra Yara Rodrigues de La Iglesia Designer Instrucional: Sérgio Antonio Zanvettor Júnior Revisão Ortográfica: Esp. Juliano de Paula Neitzki Ano: 2020 Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe da Assessoria de Marketing da Faculdade UNINA. O não cumprimento destas solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais. 2 Vanessa Roberta Massambani Ruthes Gestão de sistemas e unidades educacionais 1ª Edição 2020 Curitiba, PR Faculdade UNINA 3 Faculdade UNINA Rua Cláudio Chatagnier, 112 Curitiba – Paraná – 82520-590 Fone: (41) 3123-9000 Coordenador Técnico Editorial Marcelo Alvino da Silva Conselho Editorial D.r Alex de Britto Rodrigues / D.r Eduardo Soncini Miranda / D.r João Paulo de Souza da Silva / D.ra Marli Pereira de Barros Dias / D.ra Rosi Terezinha Ferrarini Gevaerd / D.ra Wilma de Lara Bueno / D.ra Yara Rodrigues de La Iglesia Revisão de Conteúdos Yara Rodrigues de La Iglesia Designer Instrucional Sérgio Antonio Zanvettor Júnior Revisão Ortográfica Juliano de Paula Neitzki Desenvolvimento Iconográfico Juliana Emy Akiyoshi Eleutério FICHA CATALOGRÁFICA RUTHES, Vanessa Roberta Massambani. Gestão de sistemas e unidades educacionais / Vanessa Roberta Massambani Ruthes. – Curitiba: Faculdade UNINA, 2020. 88 p. ISBN: 978-65-87972-53-4 1. Administração clássica. 2. Missão, visão e valores. 3. Práxis, sistemas e unidades. Material didático da disciplina de Gestão de sistemas e unidades educacionais – Faculdade UNINA, 2020. Natália Figueiredo Martins – CRB 9/1870 4 PALAVRA DA INSTITUIÇÃO Caro(a) aluno(a), Seja bem-vindo(a) à Faculdade UNINA! Nossa faculdade está localizada em Curitiba, na Rua Cláudio Chatagnier, nº 112, no Bairro Bacacheri, criada e credenciada pela Portaria nº 299 de 27 de dezembro 2012, oferece cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão Universitária. A Faculdade assume o compromisso com seus alunos, professores e comunidade de estar sempre sintonizada no objetivo de participar do desenvolvimento do País e de formar não somente bons profissionais, mas também brasileiros conscientes de sua cidadania. Nossos cursos são desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar comprometida com a qualidade do conteúdo oferecido, assim como com as ferramentas de aprendizagem: interatividades pedagógicas, avaliações, plantão de dúvidas via telefone, atendimento via internet, emprego de redes sociais e grupos de estudos, o que proporciona excelente integração entre professores e estudantes. Bons estudos e conte sempre conosco! Faculdade UNINA 5 Sumário Prefácio...................................................................................................... 07 Aula 1 – As teorias de gestão e o contexto escolar .................................... 08 Apresentação da aula 1 ............................................................................. 08 1.1 - A História da Administração ........................................................ 08 1.2 - As teorias da administração ........................................................ 11 1.2.1 - Frederick Taylor e o princípio da supervisão do trabalho ......... 12 1.2.2 - Henri Fayol e a coordenação de ações de gerenciamento ....... 14 1.2.3 - Peter Drucker e a gestão por objetivos .................................... 15 1.3 - A gestão e o aprendizado organizacional ................................... 16 Conclusão da aula 1 .................................................................................. 18 Aula 2 – Os princípios da gestão escolar ................................................... 19 Apresentação da aula 2 ............................................................................. 19 2.1 - A diferença entre administrar e gerir ........................................... 20 2.2 - Entre a empresa e a escola ........................................................ 23 2.3 - A gestão escolar e o processo de ensino-aprendizagem ............ 26 Conclusão da aula 2 .................................................................................. 28 Aula 3 – Gestão escolar, uma prática desenvolvida .................................. 29 Apresentação da aula 3 ............................................................................. 29 3.1 - A gestão escolar e os pressupostos legais ................................. 29 3.2 - As leis que regem as práticas administrativas e pedagógicas da educação .................................................................................................. 31 3.3 - As normativas que regem as práticas administrativas da instituição de ensino .................................................................................. 37 Conclusão da aula 3 .................................................................................. 40 Aula 4 – Concepções de Gestão Escolar I ................................................. 41 Apresentação da aula 4 ............................................................................. 41 4.1 - Os três paradigmas de gestão escolar ........................................ 41 4.2 - O paradigma técnico-científico de gestão escolar ...................... 44 Conclusão da aula 4 .................................................................................. 49 Aula 5 – Concepções de Gestão Escolar II ................................................ 50 Apresentação da aula 5 ............................................................................. 50 5.1 - O paradigma autogestionário ..................................................... 51 5.2 - A gestão compartilhada na educação: possibilidades e desafios 54 Conclusão da aula 5 .................................................................................. 58 6 Aula 6 – Concepções de Gestão Escolar III ............................................... 58 Apresentação da aula 6 ............................................................................. 58 6.1 - O paradigma democrático-participativo ...................................... 59 6.2 - Os pressupostos teóricos do paradigma democrático- participativo ............................................................................................... 63 Conclusão da aula 6 .................................................................................. 67 Aula 7 – Concepções de Gestão Escolar IV .............................................. 67 Apresentação da aula 7 ............................................................................ 67 7.1 - A gestão democrático-participativa da escola e a noção de participação ............................................................................................... 68 7.2 - A gestão democrático-participativa da escola e a noção de autonomia ................................................................................................. 70 Conclusão da aula 7 .................................................................................. 74 Aula 8 – Liderança e Gestão Escolar ......................................................... 75 Apresentação da aula 8 ............................................................................. 75 8.1 - A definição de liderança .............................................................. 768.2 - A liderança na gestão escolar ..................................................... 79 8.3 - O diretor como líder educacional ................................................ 81 Conclusão da aula 8 .................................................................................. 83 Índice Remissivo ....................................................................................... 84 Referências ............................................................................................... 86 7 Prefácio A disciplina de Gestão de Sistemas e Unidades Educacionais tem como objetivo refletir sobre os princípios teóricos que pressupõem para tal ação. Nesse sentido, foi estruturado um itinerário de estudos que contempla aspectos teórico- práticos da administração, os princípios da gestão escolar e os aspectos legais que normatizam a gestão. Em um segundo momento, são apresentadas as principais concepções pedagógicas que baseiam a gestão escolar, a saber: técnico-científica, autogestionária e democrático-participativa. Por fim serão abordados os princípios de liderança que fundamentam a práxis do gestor escolar, principalmente na figura do professor. Bons estudos! 8 Aula 1 – As teorias de gestão e o contexto escolar Apresentação da aula 1 Prezado (a) estudante! Iniciamos nossa primeira aula da disciplina de Gestão de Sistemas e Unidades Educacionais. Vamos conhecer os fundamentos das teorias de administração e seus principais teóricos, como também compreender de que forma as concepções emanadas da gestão podem atuar no contexto educacional. Na história da educação, encontramos diversas formas de fazer gestão escolar. Desde o surgimento das primeiras instituições formais, no fim da Idade Média, encontramos formas diversas de fazer a administração dos bens e serviços. Entretanto, essas práticas estavam mais relacionadas a um processo intuitivo do que a algumas práxis racionalizadas. Vocabulário O termo práxis indica uma relação entre o ser humano e a realidade, na qual, ao operar sobre a realidade, reflete suas ações e as modifica de forma a alcançar os objetivos propostos. No contexto educacional, podemos relacionar a práxis ao processo de ação-reflexão-ação (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 224). No contexto da administração geral, a organização de práxis racionalizada foi um processo paulatino, diretamente relacionado à forma ao desenvolvimento da humanidade e à forma como esse agregava e desenvolvia o conhecimento. 1.1 A história da administração As explicações de como o desenvolvimento da administração ocorreu são inúmeras e partem de diversos pressupostos teóricos. Nós em especial vamos utilizar o realismo materialista. Essa é uma concepção de Xavier Zubiri, um pensador espanhol, que afirma que toda a realidade existente é puramente material e objetiva. Em outras palavras, para esse autor, uma pedra é simplesmente uma pedra, quem dá a ela os diferentes significados é o ser 9 humano. Ao dar a uma pedra um significado, abre-se a possibilidade de transformá-la segundo a aspiração humana. Acredito que vocês já tenham ouvido a anedota (pois não há registro de que ela seja um fato real) da explicação de Michelangelo frente a um elogio que recebera por sua obra Pietà. Para o artista, a escultura já estava presente no bloco de mármore, o que ele fez foi mostrá-la ao mundo. Pergunto a vocês: o que essa afirmação de Michelangelo expressa? O artista, ao olhar para a realidade concreta, doou a ela um significado e após isso a transformou. Pietà – Michelangelo Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/60/Michelangelo%27s_Pieta _5450_cropncleaned_edit-2.jpg Mas, de que forma toda essa dinâmica acontece? Segundo Zubiri (2006, p. 25), essas mudanças ocorrem a partir de determinados padrões sociais que contemplam em si questões como: organização da sociedade, concepções políticas, valores morais e o conhecimento acumulado. Esse último é o grande propulsor do desenvolvimento da humanidade, pois só há inovação na transformação de recursos em possibilidades se há ampliação no conjunto de saberes. Segundo Ruthes (2019, p. 483), “a realidade tem um caráter histórico e é considerada um processo que envolve a transformação dos recursos naturais 10 em possibilidades, que são modos de ser e estar na realidade”. Sob essa ótica de compreensão, podemos sintetizar essa compreensão sobre o desenvolvimento das formas de produção humana, com o seguinte esquema: Desenvolvimento das formas de produção Fonte: acervo do autor (2020). A realidade concreta é a fonte de todo o conhecimento acumulado pela humanidade, a partir desse conhecimento é que podemos produzir novos saberes que impactam na forma como nós atribuímos sentido à realidade. Esse novo significado impacta a forma como trabalhamos com o que é real, transformando-a e a partir disso é que temos inovações, que nos possibilitam mudar o paradigma no qual se vivem em determinado tempo histórico. Vocabulário O termo paradigma indica as formas ou padrões pelos quais podemos entender a realidade. São modelos explicativos compostos por conceitos e conhecimentos que se autocompletam (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 211). No contexto da administração, temos várias fases que possuíam formas de transformação da realidade, cada qual obedecendo o tempo histórico específico e o conjunto de conhecimentos acumulados. Segundo Chiavenato (2000), a humanidade perpassou seis paradigmas da administração, tendo em vista os modos de produção que lhe eram próprios: 11 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Compreendendo o desenvolvimento da administração a partir da “evolução da organização social, reforça a necessidade de se explicitar a sua função enquanto meio de organização do trabalho na sociedade capitalista” (FÉLIX, 1985, p. 34). Nesse sentido, é fundamental para o melhor desenvolvimento de nossa reflexão compreender as principais teorias da administração. 1.2 As teorias da administração Como vimos no item anterior, na história da administração tivemos diversas fases, em cada uma delas uma forma de organização dos processos de trabalho foi sendo desenvolvida. Em fins do século XIX, com a Revolução •Sociedades com alto índice de urbanização; •Modo de produção industrial com foco na competitidade os bens produzidos. O Gigantismo (1914- 1945) •Sociedades em Rede; •Modo de produção tecnológico com foco em novas formas de produção. Fase moderna (1945- 1980) •Sociedades em Rede; •Foco na inovação, que ocorre na troca de conhecimento e tecnologia. A Globalização (Após 1980) •Sociedades com nível de urbanização baixo; • Estrutura econômica familiar; •Modo de produção era a manufatura. Fase artesanal (até 1780) •Sociedades urbanizadas; •Modo de produção era industrial, com foco na mecanização. Fase pré-industrial (1780-1860) •Sociedades com alto índice de urbanização; •Modo de produção industrial com foco na transformação em massa de bens. Fase industrial (1860- 1914) 12 Industrial, de acordo com os primeiros teóricos da administração, a principal finalidade era compreender os processos de produção, buscando estratégias que viabilizassem mais rentabilidade e com a necessidade de melhoria na qualidade dos bens produzidos foi se tornando necessária uma organização sistemática e racional das práticas gerenciais. Saiba mais A Revolução Industrial foi um conjunto de mudanças que aconteceram na Europa nos séculos XVIII e XIX. A principal particularidade dessa revolução foi a substituição do trabalho artesanal pelo assalariado e com o uso das máquinas. Disponível no link: https://www.sohistoria.com.br/resumos/revolucaoindustrial.p hp Considerando esses fatos históricos e os modos de produção doperíodo, cada vez mais se tornou necessária uma reflexão, análise e efetivação de processos que gerassem: maior controle, maior rentabilidade e mais qualidade nos bens produzidos. Inúmeros pensadores refletiram essas formas, entretanto, cada um a partir do tempo histórico em que estava inserido. Em especial, nós vamos trabalhar com três autores: Frederick Taylor, Henri Fayol e Peter Drucker. Segundo Chiavenato (2000), cada um desses pertence a uma fase da história da administração: o Gigantismo, a Moderna e a Globalização. 1.2.1 Frederick Taylor e o princípio da supervisão do trabalho Frederick Taylor (1856-1915) é considerado um dos primeiros pensadores da administração moderna, pois buscou, de forma racionalizada analisar e desenvolver métodos científicos para a racionalização do processo de trabalho dos operários industriais. Sua ótica de análise parte do cotidiano da linha de produção, da organização da rotina de trabalho que, segundo esse autor, devem ser balizadas por quatro princípios: 13 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Ao elencarmos esses princípios em forma de pirâmide, estamos destacando que eles fazem parte de um processo de construção que visa balizar todo um modo de produção. Ao fazer a seleção do funcionário por meio de suas competências, há de se garantir a qualidade e o aumento da produtividade da empresa. Se é organizada a padronização e racionalização do tempo de produção, há como se garantir que o bem produzido seja entregue, a partir de padrões de qualidade, em um intervalo de tempo mínimo. Aos trabalhadores que conseguem desenvolver seu trabalho a partir dessa ótica, é oferecido um incentivo salarial por produtividade, o que os torna mais interessados em desenvolver suas atividades, ou seja, é possível e necessário estabelecer protocolos de trabalho que viabilizassem a racionalização do tempo e premiasse os funcionários com maior produtividade. E, por fim, para que todo esse trabalho possa ser desenvolvido é essencial que haja supervisão de todas as atividades, para que se analise o cumprimento de cada uma delas. Para Chiavenato (2000), nessa lógica de administração do trabalho encontramos quatro princípios básicos do pensamento de Taylor: Seleção por aptidião Padronização e racionalização do tempo Incentivo salarial Supervisão 14 Fonte: acervo do autor (2020). 1.2.2 Henri Fayol e a coordenação de ações de gerenciamento Henri Fayol (1841-1925), é considerado como o pai da administração clássica, pois não estava voltado apenas para a reflexão dos processos de produção, mas também, e preferencialmente, ao processo de gerenciamento administrativo. Henri Fayol (1841-1925) Fonte: https://peoplepill.com/people/henri-fayol/ Para Fayol, não é a forma de produção que molda a maneira como uma empresa é administrada, mas sim é a forma de gerenciamento que garante uma produção de bens com mais lucratividade. Segundo Chiavenato (2000), as conclusões do estudo de Fayol nos permitem vislumbrar um processo de administração pautado em cinco princípios: 15 prever, organizar, comandar, coordenar e controlar. Esses princípios podem ser considerados como modelos que, com as devidas customizações, podem ser implantados em diversos seguimentos de negócio. Fonte: acervo do autor (2020). 1.2.3 Peter Drucker e a gestão por objetivos Peter Drucker (1909-2005) é considerado como um dos mais conceituados teóricos da administração moderna. Ele desenvolve sua teoria de administração por meio de uma lógica diversa de Taylor e Fayol ao apresentar que o que deve balizar o gerenciamento de uma empresa não é apenas a lucratividade, mas sim os objetivos que ela tem frente ao planejamento estruturado. É importante destacar que esse planejamento é de longo prazo, assim, por mais que determinadas ações possam garantir lucratividade imediata, elas não serão realizadas se não estiverem conforme as metas da organização. Importante O funcionário é entendido como colaborador, pois ele não exerce apenas uma função, mas contribui de forma direta no alcance dos objetivos e na realização da missão institucional. Sob esse aspecto, é que nos últimos 50 anos muitas empresas desenvolvem o processo de gestão a partir de três premissas básicas: a missão, a visão e os valores da empresa: 16 Missão É o motivo da empresa existir. Esse relaciona-se às pretensões da firma frente à sociedade e a seus clientes. Visão São os objetivos que a empresa pretende alcançar. Eles devem estar alinhados à missão e precisam expressar o planejamento estratégico da organização. Valores São os princípios que regem todas as ações da empresa. Eles fundamentam a missão e orientam a visão. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). Curiosidade Na administração clássica há os pensadores: Taylor e Fayol, ambos desenvolveram suas análises no mesmo período histórico e ambos buscaram compreender de que forma os processos de trabalho podiam ser otimizados. Taylor analisou as relações de trabalho a partir da linha de produção, buscando compreender de que forma essas podiam ser padronizadas para a melhoria da produtividade. Fayol analisou a forma como os processos de gerenciamento da empresa podem ser mais eficazes. Outro aspecto importante da gestão por objetivos é a forma como compreende o funcionário da empresa. Ele recebe o nome de colaborador, pois não é apenas um prestador de serviços, mas alguém que contribui de forma direta para concretização da missão, no alcance da visão, por meio dos valores. Assim, há a necessidade de que as pessoas que integram o efetivo da instituição identifiquem-se com a missão da instituição e também com os valores. Por esse motivo, os princípios do gerenciamento são diversos dos já apresentados. Eles não se relacionam diretamente à supervisão e ao controle, mas sim à descentralização administrativa que por meio da criação de oportunidades e do desenvolvimento pessoal gera resultados compatíveis com a visão da instituição 1.3 A gestão e o aprendizado organizacional Como vimos, no contexto da administração moderna, e principalmente na teoria de Peter Drucker, o alinhamento pessoal com a missão e com os valores é fundamental para o desenvolvimento da visão da empresa. Isso pressupõe que esse indivíduo não vai apenas contribuir com a instituição, mas que essa vai contribuir com ele, em seu desenvolvimento. Essa compreensão baseia-se na 17 noção de capital humano, na qual as empresas compreendem que o seu desenvolvimento está diretamente relacionado ao desenvolvimento de seus colaboradores. Curiosidade Dentre os pensadores do período de 1960, Peter Drucker é considerado como um dos mais revolucionários, pois afirmava que o lucro não era a única finalidade de uma empresa, mas sim o que ela desejava entregar para seu mercado consumidor. Para ele, a missão, visão e valores são premissas interconectadas, pois a primeira expressa as pretensões que ela tem junto aos clientes, a segunda, os objetivos para alcançá-los e a terceira, os princípios por meio dos quais serão realizadas as ações. Nessas instituições, o conhecimento não é uma realidade verticalizada, mas horizontalizada, ou seja, não há uma imposição dos saberes, mas há sim um aprendizado conjunto construído continuamente. Essa construção ocorre na prática, a partir do know-how dos colaboradores e das situações que precisam ser enfrentadas. Um teórico que versou sobre esse assunto foi Peter Senge, que apresenta cinco disciplinas a partir das quais a empresa pode ser considerada como uma instituição que aprende. Para Senge (2005), uma disciplina é uma técnica de desenvolvimento que precisa ser desenvolvida de forma pessoal ou coletiva, gerando e oportunizando aprendizado. Importante O aprendizadoorganizacional se fundamenta na construção conjunta do saber, a partir do desenvolvimento de uma visão compartilhada que permite uma visão sistêmica da organização. As cinco disciplinas são: 18 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Essas cinco disciplinas devem ser compreendidas como um desenvolvimento da equipe de trabalho, que impacta diretamente nos processos de produção de uma empresa. Elas são uma construção, com vistas a alcançar o pensamento sistêmico, buscando compreender as necessidades da instituição de forma ampla e profunda. Nesse modelo de gestão, o profissional como membro de uma equipe em desenvolvimento tem um papel transformador no contexto da empresa. Curiosidade Peter Senge afirma que, para uma empresa obter sucesso na produção de bens e de serviços, é importante que ela priorize o aprendizado organizacional, para isso é necessário que todos os sujeitos estejam abertos à aprendizagem em equipe, buscando modificar seu modelo mental a fim de construir uma visão compartilhada. Conclusão da aula 1 Como vimos nesta primeira aula, a administração surge como área do conhecimento visando estabelecer parâmetros de organização e gerenciamento dos modos de produção. As teorias da administração nos mostram que nos Domínio Pessoal: “Desenvolvimento contínuo e aprofundamento das capacidades individuais, com paciência, alocação de energias nas situações corretas e ver a realidade de maneira objetiva ” (SENGE, 2005, p. 45). Modelos mentais: “São ideias profundamente arraigadas, generalizações ou mesmo imagens que influenciam nosso modo de encarar o mundo e nossas atitudes” (SENGE, 2005, p. 51). Visão Compartilhada: “É um conjunto de instrumentos e técnicas para alinhar todas as aspirações desencontradas em torno de coisas que as pessoas têm em comum” (SENGE, 2005, p. 54). Aprendizagem Coletiva: “Nenhuma instituição se torna grande se não tiver objetivos, missões que se tornem compartilhados através de toda a organização” (SENGE, 2005, p. 61). Pensamento Sistêmico: É a capacidade que uma pessoa tem de analisar um fenômeno, levando em conta seu contexto e suas possíveis implicações. 19 diferentes tempos e espaços vamos encontrar concepções que tentam estabelecer parâmetros de gerenciamento diversos. Isso permite compreender que as teorias de gestão se pautam no autorregulação dos sujeitos e processos, compreendendo que essa deve proporcionar um aprendizado organizacional. Atividade de Aprendizagem As teorias da administração nos permitem compreender que nos diferentes tempos históricos são necessárias diferentes estratégias gerenciais. Essa necessidade relaciona-se diretamente com a forma como a sociedade se organiza e busca consumir os bens produzidos. Nesse sentido, busque conhecer os contextos históricos de Henri Fayol e Peter Drucker, depois preencha o quadro a seguir, correlacionando esses aspectos aos princípios de suas teorias. Autor Tempo histórico Princípios Henri Fayol Peter Drucker Autor Tempo histórico Princípios Henri Fayol Peter Drucker Aula 2 – Os princípios da gestão escolar Apresentação da aula 2 Prezados estudantes! Nesta segunda aula vamos compreender quais são os princípios da gestão escolar, como também a sua finalidade. A partir dos conceitos estudados anteriormente, vamos buscar identificar a diferença de administrar e gerir uma organização, entender as diferenças existentes entre gerir uma empresa e uma instituição escolar, e por fim compreender a relação 20 entre o processo de gestão escolar e o compromisso com o ensino- aprendizagem. A gestão escolar, mais que uma prática, é um conjunto de técnicas que possibilitam a administração da escola para que cumpra sua função social de ser espaço promotor do ensino-aprendizagem. Uma empresa produz um bem ou um serviço para que seja destinado ao seu público consumidor. A escola não produz bem ou serviços, ela desenvolve um processo de formação que não apenas favorece o conhecimento para os sujeitos, mas busca significar esses saberes a fim de contribuir no desenvolvimento da autonomia da pessoa para o exercício da cidadania. Assim, a escola não é apenas uma empresa, não podendo ser gerida a partir de técnicas de administração clássicas, utilizadas no mercado. Dessa forma, ao refletir sobre a gestão escolar, precisamos compreender não apenas seus princípios, mas também suas finalidades e formas de atuação. 2.1 A diferença entre administrar e gerir Nos últimos 50 anos, o termo “gestão” vem sendo aplicado de forma ampla, designando as práticas e ações da administração de uma instituição. Entretanto, o ato de gerir não corresponde ao de administrar, e vice-versa. Assim, por que essa mudança ocorreu? Quais são os motivos que explicam a alterção conceitual e consequentemente prática? Para respondermos tais questões é necessário retomarmos a noção de dinâmica histórica de Xavier Zubiri (2006) trabalhada em nossa primeira aula. A mudança histórica está relacionada à alteração dos padrões sociais, que por sua vez alteram a forma como as pessoas compreendem a realidade e as possibilidades de transformação dela. No que tange à produção de bens e serviços, muitas mudanças ocorreram ao longo do século XX, possibilitando a mudança de concepção sobre a forma de conduzir os processos de trabalho de uma organização. Se formos analisar as propostas de gestão dos quatro autores estudados em nossa primeira aula, vamos compreender suas concepções diferenciadas sobre a maneira de comandar uma organização. As teorias de Taylor e Fayol 21 fundamentam a administração, já as teorias de Drucker e Senge fundamentam as práticas de gestão. Fonte: desenvolvido pelo autor (2020). Segundo Chiavenato (2000), Taylor e Fayol compreendem que a condução dos processos de trabalho deve estar diretamente relacionada à supervisão e controle dos modos de produção, que eram exercidos por um indivíduo ou organização externo à prática operacional da empresa. Esses dois princípios garantiam a objetividade e racionalidade das estratégias escolhidas, garantido bons resultados. Já Drucker e Senge compreendem que os processos de trabalho devem ser organizados por meio da autorregulação. Essa garante a participação dos vários sujeitos na tomada de decisão, possibilitando um olhar mais amplo e mais eficaz frente às demandas do mercado consumidor. Assim, o que garante bons resultados é a sinergia de toda a equipe em busca de um mesmo objetivo. Sob essa ótica, e compreendendo que esses dois grupos de autores viveram em tempos históricos diferentes, com padrões sociais diversos, é que Dias (2002) afirma que a gestão e a administração têm objetos comuns, mas se constituem práticas diferentes. Taylor e Fayol Controle externo Compreende que a crise pode ser evitada A objetividade e racionalidade garantem bons resultados O poder de decisão é centralizado Drucker e Senge Autorregulação A crise é fonte de aprendizagem A sinergia coletiva garante bons resultados O poder é compartilhado e possibilita crescimento 22 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Enquanto a administração está relacionada à aplicação de teorias pautadas na racionalização dos processos, a gestão parte dessas teorias e busca, a partir das especificidades do contexto organizacional soluções para alcançar os objetivos propostos. Tal compreensão remete à raiz latina da palavra gestão que encontra no substantivo gestio o ato de querer, ou ainda a ação que possui em si uma intencionalidade; ou ainda no verbo gestation a conotação do ato de gestar, de formar uma determinada realidade desde sua origem até o momento em que está completa. Nessa reflexão sobre a diferença entre administrar e gerir, ainda nos cabe uma pergunta: qual ação é mais efetivano processo de condução dos processos organizacionais, a administração ou a gestão? Para responder essa questão, precisamos resgatar a compreensão de Zubiri (2006), na qual a transformação dos padrões sociais é determinante, pois no contexto atual, tendo em vista a multiplicidade social e a globalização, não há apenas uma resposta para a questão posta. Cada instituição deve atentar-se à sua realidade para refletir sobre seu contexto social, o público-alvo, os objetivos organizacionais e a estratégias de mercado, para que possa discernir qual das duas formas de atuação deve escolher. Administração implica "planejar, organizar, dirigir e controlar pessoas para atingir de forma eficiente e eficaz dos objetivos de uma organização" (DIAS, 2002, p. 10). Gestão "é lançar mão de todas as funções e conhecimentos necessários para através de pessoas atingir os objetivos de uma organização de forma eficiente e eficaz" (DIAS, 2002, p. 10). 23 2.2 Entre a empresa e a escola Como pontuamos na introdução desta aula, há uma grande diferença entre realizar a gestão de uma empresa e de uma escola. Segundo Ferreira (2003), isso se deve diretamente a três pontos básicos: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Curiosidade A diferença entre a gestão empresarial e a escolar é que uma tem um trabalho objetivo de produção de bens e prestação de serviços que visam à aceitação dos consumidores e o retorno financeiro, e a outra tem um trabalho voltado para a formação de sujeitos. Segundo Bartinik (2012, p. 47), a gestão empresarial está diretamente relacionada aos objetivos e finalidades de um determinado grupo de pessoas, que possuem interesses financeiros explícitos. Os princípios da gestão empresarial, independentemente dos processos por ela estabelecidos, estão calcados em aspectos de ordem técnica, que em si compreendem uma limitação metodológica nos processos de produção. De outro, esses mesmos aspectos administrativos e burocráticos têm como finalidade a obtenção de objetivos específicos e delimitados. Os métodos de trabalho utilizados na gestão empresarial estão diretamente relacionados com os padrões de qualidade estabelecidos pela instituição. Esses são eminentemente objetivos, pois têm critérios claros e Gestão Empresarial Visa ao crescimento econômico Produção de bens e serviços Consumidores interessados na aquisição do produto ou serviço Gestão escolar Visa à educação e à ampliação do conhecimento Desenvolvimento de processos pedagógicos Sujeitos aos quais é oferecido acesso ao processo de ensino- aprendizagem 24 podem ser mensurados. Outro aspecto importante é a forma como a divisão do trabalho é realizada: as funções e os papéis são estrategicamente estruturados de forma que as metas estabelecidas sejam alcançadas com qualidade e assertividade. Na gestão escolar, por sua vez, temos como foco a organização da instituição escolar para que ela ofereça as condições necessárias para que se cumpram a finalidade da educação: formação do sujeito para a atuação na sociedade de forma autônoma e consciente. Nesta gestão, a escola não realiza a produção de bens ou ainda prestação de serviços, nem resultados predefinidos, mas desenvolve processos pedagógicos focados no ensino- aprendizagem, envolvendo sujeitos detentores de saberes e com uma biografia que é construída nessa interação. Como afirma Paro (2008): O estudante é, não apenas o beneficiário dos serviços que ela presta, mas também participante de sua elaboração. É evidente que essa matéria-prima peculiar, que é o estudante, deve receber um tratamento todo especial, bastante diverso do que recebem elementos materiais que participam do processo de produção, no interior de uma empresa industrial qualquer (PARO, 2008, p. 126). Outro ponto que precisa ser ressaltado é que o trabalhador da educação não desenvolve produtos ou oferece serviços, mas é protagonista de um processo de formação de sujeitos. Segundo Paro (2008, p. 131), a não distinção dos tipos de trabalho e dos papéis de um profissional da educação é responsável pela desqualificação do professor e a desvalorização de sua função social. Curiosidade Na indústria, a desqualificação do operário deu-se por força da divisão pormenorizada do trabalho que visa à maior produtividade. Na escola, embora não se possa menosprezar a divisão do trabalho como fator de desqualificação profissional, não se deve desprezar também outros aspectos específicos da realidade escolar. Nesse contexto, é justo afirmar que o ponto de partida dessa desqualificação não foi a preocupação com a eficiência da escola, mais precisamente a desatenção para com a degradação de seus produtos como acontece em qualquer processo de produção. Na medida em que o bem ou serviço a ser produzido poder ser de qualidade bastante inferior, passa-se a utilizar, em sua elaboração, meios de produção e mão de obra de qualidade 25 também inferior, os quais estão disponíveis geralmente, em maior quantidade e a preços mais baixos. No processo de degradação das atividades do educador escolar, com a consequente desqualificação de seu trabalho, e o aviltamento de seus salários, deu-se algo semelhante: na medida em que não interessava à classe detentora do poder político e econômico, pelo menos no que diz respeito à generalização para as massas trabalhadoras, mais que um ensino de baixíssima qualidade, o Estado, como porta-voz dos interesses dessa classe, passou a dar cada vez menor importância à educação pública, endereçando para aí recursos progressivamente mais insuficientes e descurando cada vez mais das condições em que aí se realizava o ensino de massa. Sob essa ótica apresentada por Paro (2008), surge uma problemática: a aplicação não refletida de uma gestão empresarial no contexto educacional. Sabemos que atualmente os padrões de qualidade educacional são um dos objetivos das redes de ensino. Entretanto, essa qualidade não pode desconsiderar a função emancipadora e cidadã que se pressupõe em uma formação íntegra, que promova a inclusão social. Bartnik (2012, p. 50) nos apresenta de forma sistemática a diferença entre uma gestão com foco empresarial e uma gestão com foco educacional: Dimensão Foco empresarial Foco educacional Escola Atenta-se para a organização burocrática. Prioriza a racionalidade técnica, observando os valores de mercado. Possui uma visão emancipadora e cidadã. Busca a formação integral e assume a inclusão como princípio e compromisso social. Desafio Busca garantir a qualidade formal, a fim de assegurar o desempenho da escola por meio da implementação do planejamento estratégico. Busca garantir a qualidade técnica, humana e política por meio da construção e da implementação coletiva do projeto político-pedagógico. Pressupostos Mantém o pensamento separado da ação. Usa a avaliação como forma de controle. Tende a centralizar o poder em determinados postos hierárquicos. Usa teoria e prática (práxis). Promove a participação da comunidade no processo de decisão. Usa a avaliação diagnóstica e o poder compartilhado. Gestão Estabelece o processo verticalizado na tomada de decisões: diretores, gerentes, supervisores e colaboradores. Estabelece o processo democrático na tomada de decisões coletivas, decorrente de consensos construídos com a participação de representantes dos diversos segmentos da escola. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). 26 Essa compreensão é destacada por Veiga (2001), quando afirma que as diferenças entre o foco empresarial e o foco pedagógico da gestão escolar são profundas, como também estão relacionadas não somente à forma de condução dos processos administrativos, mas aos princípios educacionais que os fundamentam. Assim, a gestão escolar não pode ser circunstancial, mas intencional. 2.3A gestão escolar e o processo de ensino-aprendizagem Como vimos no item anterior, não há como desvincular a gestão escolar do processo de ensino-aprendizagem. Seja qual for o princípio que rege o processo de gestão, ele sempre deve estar voltado para essa dimensão. A escola é uma instituição, entretanto essa não pode ser compreendida de forma metafísica, ela é composta por uma série de sujeitos que direta ou indiretamente participam e contribuem com o processo de gestão escolar. Alguns desses sujeitos são: Fonte: elaborado pelo autor (2020). O profissional que possui mais responsabilidades nesse processo, por ser considerado o líder, é o diretor, pois ele gerencia os diversos processos de gestão realizados na escola: gestão administrativa, financeira, de pessoas, de instâncias colegiadas e pedagógica. Os demais profissionais participam de dois ou mais processos. Você deve estar se perguntando: por que necessariamente de dois processos? Porque independentemente de sua função, o profissional sempre estará relacionado à gestão pedagógica. Por exemplo: os estudantes além de serem responsáveis por desenvolver bem seu papel na dinâmica de ensino-aprendizagem, participam indiretamente a gestão financeira, ao fazer bom uso dos bens da escola. Diretor Pedagogos Professores Agentes educacionais Estudantes Responsáveis Comunidade social 27 Mas, o que queremos enfocar é que todos os profissionais estão e devem estar envolvidos no processo de gestão pedagógica, que prima pela qualidade da educação. Como afirma Saviani (1986), em especial os profissionais da educação devem estar comprometidos com essa qualidade. Para isso, antes de tudo devem se entender como educadores, responsáveis pela formação de sujeitos. Como afirma Bartnik (2012 p. 49): “O processo de gestão escolar propõe a melhoria da qualidade do ensino ofertado, com o objetivo de promover o desenvolvimento de sujeitos autônomos e participativos na sociedade”. A gestão escolar tem como finalidade a garantia de uma educação de qualidade para todos. Para que a gestão pedagógica possa ser realizada com sucesso, é fundamental que a organização administrativa e financeira, como também a demanda de qualificação de pessoal, esteja alinhada com suas necessidades. Sob essa ótica, a gestão escolar não é apenas uma proposta, ela “materializa-se em práticas concretas e ações objetivas a fim de cumprir os objetivos definidos na organização do trabalho escolar”. Por esse motivo é que a gestão pedagógica não é apenas mais um processo de gestão, ela está contida em todos os outros: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Gestão Administrativa e Financeira Gestão de Instâncias Colegiadas Gestão de Pessoas Gestão Pedagógica 28 Para que isso ocorra, é fundamental que a escola tenha orientações internas e externas, que garantam uma gestão com princípios contínuos. Essas orientações são as Políticas Públicas Educacionais, as Diretrizes Educacionais e o Projeto Político-Pedagógico. As duas primeiras são de caráter externo, estabelecidas pelo Estado, constituindo-se um planejamento de curto, médio e longo prazo, que busca garantir o desenvolvimento pleno da educação. A terceira é uma orientação interna, construída pela escola a partir do cenário social e dos princípios educacionais que a constituem. Por meio desses a instituição estabelece ações e estratégias que auxiliarão na busca dos objetivos traçados. Conclusão da aula 2 Nesta segunda aula, identificamos que a administração e a gestão têm princípios teórico/práticos diferentes que podem ser aplicados de forma circunstancial. De outro lado, vimos que a gestão Empresarial e a Gestão Escolar podem utilizar aportes teóricos semelhantes, mas seu objeto de trabalho é diverso. Assim a gestão escolar não pode ser circunstancial, pois tem como premissa a complexidade que é composta por sujeitos e processos que têm como objetivo único o desenvolvimento do ensino-aprendizagem. Atividade de Aprendizagem A gestão escolar tem especificidades teóricas que suplantam as teorias de gestão clássicas. Isso ocorre pela especificidade da instituição escolar e de sua missão na sociedade. Entretanto, se aplicarmos a lógica empresarial à escola, essa será compreendida pelos indicadores qualitativos que possui, e seus profissionais não serão entendidos como educadores, mas como prestadores de serviço. Assim, releia a reflexão de Paro (no box Saiba Mais), e desenvolva um argumento sobre ela. 29 Aula 3 – Gestão escolar, uma prática desenvolvida Apresentação da aula 3 Prezado (a) estudante! Nesta nossa terceira aula vamos buscar compreender que a gestão escolar, além de um processo fundamentado em princípios educacionais, é também uma prática desenvolvida com base em um aporte legal. Para isso, vamos identificar os diferentes tipos de legislação que balizam a educação e compreender de que maneira elas orientam o desenvolvimento da gestão administrativa e pedagógica. Como vimos nas duas primeiras aulas, o processo de gestão tem seus princípios teóricos, e no caso da gestão escolar, são agregadas a essas questões de cunho pedagógico, que não apenas pressupõem, mas orientam a forma como uma instituição escolar deve ser organizada. Em especial, como tratamos na aula anterior, as demandas administrativas, financeiras, de pessoal, precisam convergir para o fomento da qualificação do processo de ensino-aprendizagem. Como afirma Lück (2009): A gestão pedagógica é de todas as dimensões da gestão escolar, a mais importante, pois está mais diretamente envolvida com o foco da escola que é o de promover aprendizagem e formação dos alunos [...] Constitui-se como a dimensão para a qual todas as demais convergem, uma vez que essa se refere ao foco principal do ensino que é a atuação sistemática e intencional de promover a formação e a aprendizagem dos alunos, como condição para que desenvolvam as competências sociais e pessoais necessárias para sua inserção proveitosa na sociedade e no mundo do trabalho, em uma relação de benefício recíproco. Também para que se realizem como seres humanos e tenham qualidade de vida (LÜCK, 2009, p. 95). No que tange à organização dessa forma de gestão, não são utilizados apenas os princípios educacionais, mas há uma série de legislações que baseiam as atividades desenvolvidas pelos gestores educacionais e pelas comunidades escolares. 3.1 A gestão escolar e os pressupostos legais Segundo Barbosa (2010), o que rege a visão e a forma de gestão de uma instituição de ensino são as legislações educacionais. São elas que normatizam 30 todas as suas ações, desde a implantação e a manutenção de processos, como também a sua possível extinção. Em outras palavras, são as leis que garantem a legitimidade social das práticas educacionais, e são elas que visam garantir sua efetividade. Sob essa ótica, segundo Alves (2012, p. 7), a legislação educacional se constitui um conjunto de leis e normas que orientam a escola quanto às questões pedagógicas e administrativas. Curiosidade A legislação educacional é dividida em dois tipos, as que orientam todos os sistemas educacionais, e aquelas que organizam a escola internamente. Essas também são divididas em reguladoras e regulamentadoras, ou seja, entre as que apresentam os princípios e aquelas que demostram como esses podem ser colocados em prática. Existem duas formas pelas quais a legislação se apresenta: Fonte: elaborado pelo autor (2020). No que tange à legislação reguladora, temos como exemplo a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Base da Educação 9394/96. Já na legislação regulamentadora temos diversas formas de expressão, tais como: instruções de aplicação de demandas escolares, deliberações sobre temas considerados polêmicos e portariasque explicitam elementos que precisam ser considerados na tomada de decisão frente à gestão pedagógica. •Tem caráter descritivo; •São leis que definem as competências constitucionais da educação; •Estabelece parâmetros de ação nas esferas municipais, estaduais e federais. Reguladora •Tem caráter prescritivo; •É voltada para a práxis educacional; •Estabelece normas de implantação das legislações educacionais; •Define a forma de funcionamento das instituições escolares. Regulamentadora 31 3.2 As leis que regem as práticas administrativas e pedagógicas da educação O aporte legal que relacionado à educação é muito vasto, como já vimos ele tem a responsabilidade de descrever quais são os princípios e as competências frente à educação. O primeiro documento a ser citado é a Constituição Federal de 1988. Esse documento expressa de forma ampla quais são as diretrizes que precisam ser consideradas para o desenvolvimento da organização educacional no país. Também apresenta as funções do gestor público e de todos os profissionais da educação. Entretanto, antes de iniciarmos uma análise dos artigos que se referem diretamente ao desenvolvimento educacional, é fundamental compreendermos que todos eles estão calcados em diretos fundamentais da pessoa. O Artigo 5º da Carta Magna assegura a todos os cidadãos a igualdade perante a lei, como também os direitos fundamentais: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (BRASIL, 2016). Se a igualdade é a premissa da obediência a lei e o usufruto dos diretos, podemos afirmar que a educação também está inserida nesse contexto. Aqui não estamos falando apenas das questões que envolvem o acesso à educação de qualidade, mas também à função do gestor educacional. Precisa desenvolver suas ações visando ao bem comum, conforme o artigo 37º da Constituição: “A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência”. Dessa forma, o princípio da ética na gestão escolar não é apenas uma demanda da moral, mas também uma questão relacionada à legalidade. Como afirmam Silva e Periotto (2015): Assim quando o gestor escolar age de forma ética cumpre bem e melhor seu papel com aceitação da comunidade, uma vez que a ética está afinada com a lei, devendo o gestor escolar ser atento a todos os seus deveres de administrador bem como submeter-se ao 32 cumprimento do que está estabelecido legalmente (SILVA; PERIOTTO, 2015, p. 36852). Os artigos que rezam de forma direta sobre a legislação escolar são o 205 a 217. Eles tratam de questões relacionadas à educação básica e ao ensino superior. Tendo em vista nosso objetivo, vamos abordar apenas as demandas relacionadas à educação básica. Curiosidade Na administração escolar pública, o gestor deve ter seu comportamento regido pelos princípios da legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da publicidade e da eficiência. O artigo 205 apresenta que a educação é “direito de todos e dever do Estado e da família”. Em outras palavras, o acesso universal à educação deve ser garantido por meio da estruturação de redes e instituições de ensino distribuídos de forma igualitária por todo o país. Importante A Constituição Federal considera que a educação é um direito de todos, que precisa estar pressuposta na liberdade frente ao processo pedagógico, ao pluralismo de ideias que é garantido por meio de uma gestão democrática e que visa à construção de uma educação com qualidade. Tal demanda é um dever do Estado, ou seja, ele precisa empenhar parte de seu orçamento para a garantia de acesso, mas também fornece as diretrizes para o desenvolvimento educacional. E a educação também é dever da família, que tem a obrigação perante a lei de garantir que os sujeitos em idade escolar tenham acesso à educação, sob pena da lei. No artigo 206, são apresentados os princípios básicos que devem reger os processos educacionais. Dentre esses, escolhemos cinco, a saber: igualdade, liberdade, pluralismo, gestão democrática e qualidade. 33 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Dentre as garantias apontadas pela Constituição Federal, o artigo 208 destaca a obrigatoriedade do Ensino Fundamental e o oferecimento do Ensino Médio, como também oferecimento de material didático, transporte e alimentação. Também é garantido, por esse artigo, o acesso à educação infantil, e o atendimento especializado a pessoas com deficiência. Por fim, o artigo 214 versa sobre a necessidade de uma legislação que regulamente um Plano Nacional de Educação que oriente o estabelecimento de metas e estratégias para todas as ações educacionais desenvolvidas por todas as redes de ensino, seja em nível nacional, estadual ou municipal. Para isso estabelece seis objetivos: Igualdade: Refere-se às condições de acesso, como também de permanência na escola. Liberdade: Relaciona-se com a autonomia dos sujeitos frente ao processo de ensino-aprendizagem. Também contempla o direito de divulgação de pensamento pautado em estudos e pesquisas científicas. Pluralismo: Garante a aplicação da multiplicidade de ideias e correntes pedagógicas na prática escolas. Gestão democrática: garantindo a participação dos sujeitos nas decisões sobre demandas escolares. Qualidade: apresnta a necessidade das Redes de Educação primarem pela excelência no processo de ensino-aprendizagem. 34 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Sob a ótica da gestão escolar, todos os princípios que apresentamos se constituem condições sine qua non para a organização da administração das instituições de ensino. Em especial, precisamos destacar que o princípio da gestão democrática na esfera educacional pública é apresentado como princípio na forma da lei. Vocabulário Sine qua non: é uma expressão que se originou do termo legal em latim que pode ser traduzido como “sem a/o qual não pode ser”. Refere-se a uma ação cuja condição ou ingrediente é indispensável e essencial. (Extremamente importante, essencial; que não se pode nem se consegue dispensar; indispensável). Nesse ponto é importante destacar que Constituição Federal de 1998 é um tipo de legislação reguladora, pois apresenta os princípios que regem a vida dos cidadãos e instituições de nosso país, em nosso caso, a educação. Mas, para que esses princípios sejam seguidos são necessárias leis A erradicação do analfabetismo A universalização do atendimento escolar A melhoria da qualidade de ensino Formação para o trabalho Promoção humanística, científica e tecnológica do país Estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto 35 regulamentadoras, que apresentam a forma como esses princípios serão colocados em prática. No que tange à educação, a construção participativa de uma lei que regulamentasse os princípios constitucionais durou cerca de oito anos. Segundo Brandão (2003) esse processo teve um longo caminho devido a diferentes interesses e intervenções na constituição daquela que seria a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB): Saiba mais Durante o período de elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação ocorreram “discussões, envolvendo grande parte dos setores organizados da educação (instituições científicas, acadêmicas e estudantis, movimentos sociais, sindicato de professores, de trabalhadores em educação, de donos de escolas, entidades de classe, etc.) conduzidas de forma relativamente consensual” (BRANDÃO, 2003, p. 14). Entretanto vários percalços impediram que sua aprovaçãoocorresse em um curto espaço de tempo. Dentre essas, encontramos manobras do legislativo para inserir textos substitutivos que desfiguravam toda a discussão realizada com a sociedade, inícios e términos de mandatos legislativos, interesses de grupos educacionais. Em 1996, após uma sequência de tentativas de alteração substancial do texto desenvolvido por meio da participação popular, é aprovado um conteúdo sincrético, repleto de emendas parlamentares, mas que segundo Brandão (2003) atendiam as reivindicações da sociedade. Segundo Silva e Periotto (2015), sendo uma legislação regulamentadora a LDB 9394/96 possui: Peculiar destaque já que estabelece os princípios da educação e os deveres do Estado em relação à educação escolar pública, garantida a livre iniciativa privada bem como determina as responsabilidades da parceria entre União, Estados, Distrito Federal e os municípios na gestão do processo (SILVA; PERIOTTO, 2015, p. 36854). Em sua estrutura, a LDB 9394/96 fundamenta-se nos princípios constitucionais anteriormente destacados, enfocando a igualdade, universalidade e pluralidade da educação em todas as suas esferas: básica e superior. No que tange ao processo de gestão escolar, no artigo 12 da LDB encontramos as principais incumbências dos estabelecimentos de ensino, 36 constituindo-se os balizadores para o desenvolvimento da gestão. Esses balizadores são: I - elaborar e executar sua proposta pedagógica; II - administrar seu pessoal e seus recursos materiais e financeiros; III - assegurar o cumprimento dos dias letivos e horas-aula estabelecidas; IV - velar pelo cumprimento do plano de trabalho de cada docente; V - prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento; VI - articular-se com as famílias e a comunidade, criando processos de integração da sociedade com a escola; VII - informar pai e mãe, conviventes ou não com seus filhos, e, se for o caso, os responsáveis legais, sobre a frequência e rendimento dos alunos, bem como sobre a execução da proposta pedagógica da escola; VIII – notificar ao Conselho Tutelar do Município a relação dos alunos que apresentem quantidade de faltas acima de 30% (trinta por cento) do percentual permitido em lei; IX - promover medidas de conscientização, de prevenção e de combate a todos os tipos de violência, especialmente a intimidação sistemática (bullying), no âmbito das escolas; X - estabelecer ações destinadas a promover a cultura de paz nas escolas; XI - promover ambiente escolar seguro, adotando estratégias de prevenção e enfrentamento ao uso ou dependência de drogas. Nesses princípios encontramos elementos relacionados à: gestão pedagógica, de pessoas, administrativa e financeira; articulação com a comunidade e a Rede de Proteção, promoção de um bom clima escolar e um ambiente seguro. É importante ressaltarmos que nem todos esses elementos estavam na primeira versão da LDB 9394/96, os parágrafos de VII a XI foram posteriormente inseridos. Isso se deve a uma reflexão ampla da sociedade sobre a função social da escola. Em continuidade, outra legislação regulamentadora, o Plano Nacional de Educação, cuja última versão é expressa na lei 13.005/2014. Essa possui 20 metas para a educação no Brasil, que imputam aos gestores da educação a necessidade de pensar estrategicamente um plano de ação para alcançá-las. Importante O Plano Nacional de Educação, tem como objetivo garantir a igualdade, a universalidade e a pluralidade da educação em nível nacional, com o estabelecimento de metas. Dentre essas metas, destacamos: 37 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Saiba mais Para que você possa conhecer com mais profundidade o PNE e seu impacto da gestão educacional, leia o artigo: Impactos das Políticas Educacionais no cotidiano das Escolas Públicas, Plano Nacional de Educação, disponível no link: http://pne.mec.gov.br/images/pdf/Noticias/impactos_politicas_educacionais_coti diano_escolas_publica_PNE.pdf 3.3 As normativas que regem as práticas administrativas da instituição de ensino No item anterior vimos quais são as legislações ad extra que versam sobre a organização escolar, elas regem todo o sistema de ensino público e privado, nas três esferas: federal, estadual e municipal. Nesse item vamos conhecer as normativas internas que organizam as práticas de gestão na escola. São elas: Projeto Político-Pedagógico (PPP), Proposta Pedagógica Curricular (PPC) e Regimento Escolar. Segundo Vasconcelos (2010), o PPP é previsto na LDB 9394/96. No artigo 12, ele se constitui a primeira incumbência da gestão. No artigo 13 é prevista a participação dos docentes na elaboração desse Projeto, garantindo assim o princípio da gestão democrática. Importante O Projeto Político-Pedagógico é constituído por três marcos, que possibilitam o mapeamento do contesto social e o posicionamento pedagógico que vão fundamentar o plano de ação da escola. A universalização de todos os níveis e modalidades de ensino A elevação da escolaridade média de pessoas entre 18 e 29 anos A elevação da alfabetização para 93,4%, e erradicar o anafalbetismo absoluto. A valorização dos profissionais da educação Assegurar condições para a efetivação da gestão democrática no âmbito da educação pública 38 No contexto da instituição de ensino, o PPP é o documento norteador da prática pedagógica escolar. Ele é a expressão da reflexão e planejamento da escola, considerando três marcos: situacional, conceitual e o operacional. Fonte: elaborado pelo autor (2020). Saiba mais Para ampliar seus conhecimentos sobre a importância do PPP como uma ferramenta de gestão pedagógica e escolar, leia o artigo: A Construção do Projeto Político-Pedagógico em uma Perspectiva Democrática: Limites e Possibilidades, disponível no link: http://www.gestaoescolar.diaadia.pr.gov.br /arquivos/File/producoes_pde/artigo_iraci_rambo_vicentini.pdf A PPC apresenta as orientações curriculares (sempre pautadas em documentos oficiais) e disciplinares, como também os encaminhamentos que garantem a transposição didática a partir da concepção pedagógica da escola. É considerada uma normativa que acompanha o PPP, complementando-o no processo de desenvolvimento do ensino-aprendizagem. O Regimento Escolar, por sua vez, é um documento regulamentador que normatiza toda a organização e o funcionamento da instituição de ensino. Ele define as funções e atribuições de cada um dos sujeitos da escola. Além desse caráter normatizador, o Regimento busca viabilizar a operacionalização do PPP, a partir de regras que norteiam ações como: a organização do processo educacional e de gestão, os princípios de convivência para a garantia de um bom Situacional Expressa o contexto social no qual a instituição de ensino se encontra, apresentando os desafios e as estratégias que serão utilizadas para o desenvolvimento do ensino- aprendizagem. Conceitual Expressa a concepção pedagógica a partir da qual a escola desenvolve os processos pedagógicos. Operacional Expressa o Plano de Ação da instituição de ensino frente os desafios apresentados no Marco Situacional e refletidos a partir do Marco conceitual. 39 clima escolar, e o processo avaliativo (que devem ser entendido em suas três formas: diagnóstico, formativo e somativo). Importante O Regimento Escolar é um documento regulamentador que define tanto as funções dos profissionais quanto os processos de organização da escola. Ele viabiliza o desenvolvimento do Projeto Político-Pedagógico e estabelece parâmetros para a gestão. Pode-se afirmar que a escola é um sistema e, segundo Lück (2000), a escola constitui-se em uma “organização sistêmica aberta”, e isso significa que a escola é feita de elementos pessoais com diferentes papéis e estruturas de relacionamentos, integrando-se mutuamentena busca do sucesso e da qualidade do público a ser atendido. Para que esse sistema funcione de forma integrada, deve-se propor uma colaboração mútua entre todos os envolvidos, desprendida de interesses individuais e vaidades para que venha realmente ter uma gestão escolar democrática. Nesse contexto, deve-se considerar a gestão da sociedade globalizada em uma correlação com a gestão educacional, pois o cenário econômico e social tem forte impacto na condução das práticas gestoras da escola. Dessa forma, considero importante lançar uma reflexão inicial acerca dos valores e ideais que estão implícitos nas práticas dos gestores. Ferreira (2003), afirma que: A educação e sua gestão, portanto, enquanto responsáveis por esta “condução”, necessitam firmar-se em ideais comprometidos com a formação humana de profissionais da educação e de profissionais em geral, de todos os cidadãos e cidadãs. Nesse sentido, cabe pensar e questionar: Quais são os ideais que orientam as “tomadas de decisões” na sociedade globalizada e nas instituições? São ideais de equidade, de justiça social, de solidariedade, de democracia ou são ideais individualistas, de dominação e exclusão social? (FERREIRA, 2003, p.03). Ao pensar sobre esses aspectos considerados fundamentais no processo de gestão democrática e nas atitudes dos gestores (sejam eles professores ou não), precisa-se compreender que são ideais que favorecem o alcance dos 40 objetivos propostos para a gestão da escola, do grupo de professores, do grupo de alunos, do grupo de funcionários que compõem o sistema escolar. No entanto, não é difícil encontrar inúmeras escolas que vivem em um campo minado, com pessoas se lutam apenas por seus próprios interesses. Isso ocorre porque, infelizmente, a competitividade e o individualismo sugeridos pela produção e pelo consumo (que se tornaram uma ideologia dominante) são a fonte de novos comportamentos totalitários que se instala no mundo contaminado pela violência, pela falta de tolerância e por toda a ordem de questões que desmantelam a integridade humana. Conclusão da aula 3 A gestão escolar possui um aparato legal que normatiza e orienta sua prática. Esse embasamento legal, em âmbito nacional, garante à educação os princípios de universalidade de acesso e permanência. Já, no contexto da instituição de ensino, as normativas internas da escola que, fundamentadas na legislação, orientam a gestão da instituição escolar. Atividade de aprendizagem A gestão escolar não é apenas um processo que se pauta em teorias da administração, mas também em legislações que apresentam os princípios que balizam as ações do gestor escolar. Dentre essas, encontramos as que são de caráter regulador e as que são de caráter regulamentador. Assim, retome os conteúdos estudados e apresente quais legislações são reguladoras e quais são regulamentadoras. Reguladoras Regulamentadoras Reguladoras Regulamentadoras 41 Aula 4 – Concepções de Gestão Escolar I Apresentação da aula 4 Prezado (a) estudante, nesta quarta aula vamos começar a abordar as diversas concepções pedagógicas de gestão. Após compreender os princípios administrativos da gestão escolar e de conhecer os parâmetros legais para o seu desenvolvimento, vamos abordar as diversas concepções e seus impactos no contexto educacional. Para isso nós vamos conhecer os três paradigmas da gestão e já compreender como se estrutura o técnico-científico. Em nossas 03 aulas anteriores, nos dedicamos a compreender os princípios da gestão escolar por uma perspectiva da administração e da legislação. A partir desta aula, vamos conhecer os principais paradigmas da gestão escolar, seus pressupostos, objetivos e finalidades. 4.1 Os três paradigmas de gestão escolar Como vimos em nossa terceira aula, o aporte legal relacionado à educação não está diretamente relacionado à concepção pedagógica, mas também vimos que as normativas internas, principalmente o PPP, fundamentam o processo de gestão pedagógica a partir do marco situacional e do marco conceitual. Nesse contexto, é que Libâneo, Oliveira e Toschi, (2003) classificam as concepções de gestão em três grandes grupos: a técnico-científica, a autogestionária e a democrático-participativa. É importante destacarmos que essa classificação é de cunho metodológico, ou seja, as características delas podem, e geralmente estão, presentes de maneira entrecruzada e muitas vezes permitem a reconstrução de um desses grupos de concepções, a partir do marco situacional. Segundo Bartnik (2012, p. 74), essas concepções podem ser descritas da seguinte forma: 42 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Essas concepções têm delimitações muito claras: a concepção técnica científica visa à eficiência dos serviços, o autogestionário fundamenta-se na horizontalidade da gestão, e a concepção democrático-participativa nos objetivos assumidos por todos. Libâneo, Oliveira e Toschi, (2003, p. 327) nos ajudam a compreender a diferença entre essas concepções: Técnico-científica Autogestionária Democrático- participativa Prescrição detalhada de funções e tarefas, acentuando a divisão técnica do trabalho escolar. Tende a negar a autoridade e as formas centralizadas de poder, valorizando a construção de normas e de regulamentos pelo próprio grupo. Definição explícita, por parte da equipe escolar, de objetivos sociopolíticos e pedagógicos da escola. Poder centralizado no diretor, destacando-se as relações de subordinação, em que uns têm mais autoridade do que outros; Vincula as formas de gestão interna com as formas de autogestão social (poder coletivo na escola para preparar formas de autogestão no plano político. Articulação da atividade de direção com a iniciativa e a participação das pessoas da escola e das que se relacionam com ela. Ênfase na administração regulada (rígido sistema de normas, regras, procedimentos burocráticos de controle Há decisões coletivas (assembleias, reuniões) e eliminação de todas as formas de exercício de autoridade e de poder. Qualificação e competência profissional. •“Baseia-se na hierarquia de cargos e funções, em regras e procedimentos administrativos, visando a eficiência dos servios escolares”. Concepção técnico- científica •“Baseia-se na responsabilidade coletiva, na ausência de direção centralizada e na acentuação da participação direta e por igual de todos os membros da instituição escolar”. Concepção autogestionária • "Baseia-se na relação entre a direção e a participação dos membros da equipe, prioriza os objetivos assumidos por todos a tomada de decisões coletivas". Concepção democrático- participativa 43 das atividades), descuidando-se, às vezes, dos objetivos específicos da instituição escolar. Enfatiza a auto- organização do grupo de pessoas da instituição por meio das eleições e de alternância no exercício de funções. Busca objetividade no trato das questões da organização e da gestão mediante coleta de informações reais. Recusa as normas e os sistemas de controles, acentuando a responsabilidade coletiva. Acompanhamento a e avaliação sistemáticos com finalidade pedagógica: diagnóstico, acompanhamento dos trabalhos, reorientação de rumos e ações, tomada de decisão. Comunicação assimétrica, baseada em normas e regras. Acredita no poder instituinte da instituição e recusa todo poder instituído. O caráter instituinte dá-se pela prática da participação e da autogestão, modos pelos quais se contesta o poder instituído. Todos dirigem e são dirigidos, todos avaliam e são avaliados. Mais ênfase nas tarefas do que nas pessoas. Enfatiza as interrelações mais do que as tarefas. Ênfase tanto nas tarefas quanto nas relações. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptadopelo DI (2020). Importante A autogestão é um processo horizontalizado de poder, no qual há uma atuação coletiva dos sujeitos, a gestão participativa, por sua vez, na colaboração e no desenvolvimento das ações, baseia-se na adesão individual a uma proposta. A concepção histórico-crítica concebe o ser humano como fruto de um processo histórico e social, assim a prática pedagógica deve conduzir esse estudante a compreender a realidade para que possa transformá-la. Como afirmamos, essas concepções não são estanques entre si, como afirma Bartnik (2012, p. 76): “os princípios e os métodos das concepções de gestão estão presentes, de uma forma ou de outra, na prática educativa das escolas e, na maioria das vezes, não são aplicados na íntegra”. Assim, apesar de uma dessas ser predominante, não é excludente. 44 4.2 O paradigma técnico-científico de gestão escolar Para Libâneo, Oliveira e Toschi, (2003), o paradigma técnico-científico fundamenta-se nas teorias clássicas de administração que conhecemos em nossa primeira aula. Para os autores, esse modelo se fundamenta nos princípios de supervisão e controle, que objetivam estabelecer regras, parâmetros e protocolos para que o processo educacional se desenvolva. Em outras palavras, busca a eficiência e a eficácia do processo de ensino-aprendizagem por meio da utilização de dados quantitativos, com vista a desenvolver a plicar planejamentos que possibilitem a qualificação do processo. Curiosidade A gestão de qualidade total aplica a educação os princípios empresariais que buscam garantir uma prestação de serviço de qualidade. Assim, os estudantes são os clientes diretos da escola, que oferece um processo de ensino- aprendizagem de excelência. O modelo técnico-científico desconsidera a autonomia e o protagonismo dos profissionais da educação, como também não considera a construção do conhecimento como um elemento de formação do sujeito. É importante esclarecer que essa forma de gestão é voltada à geração de resultados a curto prazo, própria do modelo gerencial denominado de Gestão de Qualidade Total (GQT). Saiba mais O modelo de Gestão de Qualidade Total (GQT) é originário da administração japonesa e tem o foco na participação dos colaboradores, resultando em altos índices de produtividade e de eficiência das tarefas propostas. [...] a GQT é responsável por desenvolver um processo em busca do melhoramento contínuo baseado em análises das atividades empresariais (BARTNIK, 2012, p. 77). A GQT tem como princípio fundamental que a qualidade é uma responsabilidade de todas as pessoas imbricado em um processo. Tal compreensão está diretamente relacionada à teoria de Frederick Taylor, que 45 analisou a forma como os processos poderiam gerar melhores resultados. Para isso a utilização de métodos que possibilitem alcançar melhores resultados é a grande responsabilidade do gestor. Depois que os protocolos de trabalho são estabelecidos, eles se tornam responsabilidade de todos os sujeitos, tendo em vista que os resultados estão diretamente relacionados à sincronia de ações. Sob essa lógica, a GQT possui alguns termos próprios que nos ajudam a identificar a compreensão que esse modo de gestão tem das formas de produção e prestação de serviços. Esses termos são: processo, produto e cliente: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Em outras palavras, a GQT desenvolve processos que buscam resultados quantitativos e qualitativos que viabilizem a melhoria dos produtos ou serviços oferecidos. No contexto da educação, a GQT estabelece parâmetros de aprendizagem e desenvolvimento do estudante. O melhoramento contínuo desse processo é que balizará os protocolos de aprendizagem. É importante destacamos que o centro de todo esse processo de gestão é a formação do estudante. Sob essa ótica, Bartnik (2012, p. 79-80) afirma que a tríade que embasa o desenvolvimento da GQT na educação é assim compreendida: Processo •Delimita o conjunto de ações e como elas devem ser realizadas. Produto Resultados dos processos desenvolvidos a fim de possibilitar melhorias aos indivíduos. Cliente Indivíduos (internos ou externos) que compõem o público atendido pela instituição. 46 Fonte: elaborado pelo autor (2020). O estabelecimento dos padrões de qualidade está diretamente relacionado à avaliação do processo de ensino-aprendizagem. Para isso esses padrões devem possuir critérios de avaliação, principalmente qualitativa, pois esses permitirão a verificação do nível de aprendizagem do estudante e sua capacidade de evolução no processo de escolarização. Como afirma Bartnik (2012): Os objetivos da gestão pela qualidade passam pela necessidade de se atingir um padrão de operações que garanta a eficiência e a eficácia dos procedimentos, aumentando a competitividade da escola, na medida em que, após passar pelo processo de implantação, as inovações e as melhorias possam ser reconhecidas (BARTNIK, 2012, p. 83). No Brasil, no ano de 2007, foi criado o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), um indicador que possibilita a avaliação da qualidade da Educação, que estabelece uma relação direta entre a habilidade dos estudantes em avaliações externas e o seu desempenho escolar. Curiosidade IDEB é o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, criado em 2007, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), formulado para medir a qualidade do aprendizado nacional e estabelecer metas para a melhoria do ensino. O Ideb funciona como um indicador nacional que possibilita o monitoramento da qualidade da Educação pela população por meio de dados concretos, com o qual a sociedade pode se mobilizar em busca de Processo •"A instituição de ensino como um todo é o processo, cuja consequência principal é a prestação dos serviços educacionais". Produto •"Na escola é o resultado do trabalho da equipe docente, pedagógica e administrativa, tendo como eixo a aprendizagem do estudante". Cliente •"São todas as pessoas envolvidas no processo de ensino aprendizagem, como professores, equipe pedagógica, funcionários, alunos, pais de alunos e comunidade em geral". 47 melhorias. Para tanto, ele é calculado a partir de dois componentes: a taxa de rendimento escolar (aprovação) e as médias de desempenho nos exames aplicados pelo Inep. Os índices de aprovação são obtidos a partir do Censo Escolar, realizado anualmente. As médias de desempenho utilizadas são as da Prova Brasil, para escolas e municípios, e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), para os estados e o País, realizados a cada dois anos. As metas estabelecidas pelo Ideb são diferenciadas para cada escola e rede de ensino, com o objetivo único de alcançar 6 pontos até 2022, média correspondente ao sistema educacional dos países desenvolvidos. Quando falamos em média de desempenho, nos referimos ao índice de proficiência do estudante frente aos saberes do período da escolarização no qual ele se encontra. Segundo o Centro de Políticas Públicas e Avaliação na Educação (CAED, 2020), a proficiência é: Uma medida que representa um determinado traço latente (aptidão) de um aluno, assim sendo, podemos dizer que o conhecimento de um aluno em determinada disciplina é um traço latente que pode ser medido através de instrumentos compostos por itens elaborados a partir de uma matriz de habilidades (CAED, 2020). Para conseguirmos mensurar a proficiência, é necessário desenvolver avaliações pautadas na Teoria de Resposta ao Item (TRI) na qual os “itens que a prova apresenta possuem características fundamentais que devem ser consideradas na resolução: a dificuldade, a probabilidade e a discriminação” (RUTHES. 2019, p. 39). Dessas três características, a que é fundamental nesse tipo de avaliação é a probabilidade, pois na TRI a probabilidade de acerto de umaquestão está diretamente relacionada com o nível de conhecimento do estudante. Assim, para acertar uma questão mais complexa, o estudante tem antes que demonstrar seu conhecimento em uma pergunta mais simples. Para analisar esse aspecto, é necessário estabelecer uma escala de proficiência, ou seja, definir quais são os níveis de complexidade de determinado saber. Como afirma Ruthes (2019, p. 40): “Quando falamos que a escala de proficiência avalia uma habilidade estamos destacando que ela mensura não apenas o conhecimento teórico, mas a forma como o estudante consegue aplicar esse saber no cotidiano da vida”. Essa ótica de mensuração da aprendizagem, própria do paradigma técnico-científico, é utilizada pelo IDEB para possibilitar o Estado um mapeamento do cenário educacional do país. Esse visa ao desenvolvimento de 48 políticas públicas para fomentar o aprimoramento da educação, como também diminuir das desigualdades de acesso. Saiba mais Para compreender o papel na avaliação externa para a promoção de políticas públicas para a educação, leia o artigo: A avaliação externa como instrumento da gestão educacional nos estados. Disponível no link: http://www.educadores. diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/pdf/avaliacao_externa_fvc.pdf Entretanto, diversos autores pontuam que esse modelo insere no âmbito educacional a lógica de produção capitalista. Saviani (2008) é um desses autores que criticam esse modelo, pois se compreende: Aqueles que ensinam como prestadores de serviço, os que aprendem como clientes e a educação como produto que pode ser produzido com qualidade variável. No entanto, sobre a égide da qualidade total, o verdadeiro cliente das escolas é a empresa ou a sociedade e os alunos são produtos que os estabelecimentos de ensino fornecem a seus clientes. Para que esse produto não se revista de alta qualidade, lança- se mão de método de ‘qualidade total’, que, tendo em vista a satisfação dos clientes, engaja todos os participantes do processo conjugando suas ações, melhorando continuamente suas formas de organização, seus procedimentos e seus produtos (SAVIANI, 2008, p. 440). Essa ponderação feita por Saviani (2008) reflete a importância de perceber, que apesar do paradigma técnico-científico permitir uma análise quatitativa (por meio de indicadores) e qualitativa (por meio do estabelecimento de uma escala de proficiência), ele prescinde de uma compreensão mais profunda do processo de ensino-aprendizagem. Toda a dinâmica de construção de regras, parâmetros e protocolos é realizada de forma verticalizada, não contemplando ou permitindo a participação dos sujeitos que compõem as relações que fundamentam o ensino- aprendizagem. Nesse sentido, os profissionais da educação são compreendidos como simples executores, não refletindo e participando dos encaminhamentos pedagógicos em sua prática docente. Para que a educação possa ser fonte de formação para a autonomia, é necessário que os sujeitos que a compõem sejam partícipes não apenas de sua operacionalização, mas também de sua construção. Para Saviani (2008, p. 185), 49 a educação deve ser entendida como: “o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens”. Dessa forma, o paradigma técnico-científico pode ser considerado como uma proposta reducionista, por não contemplar as diversas perspectivas que compõem o ato de educar. Segundo Rodrigues (1987): A instituição escolar não é uma empresa e sim um local por onde passam prioritariamente relações humanas, sociais, culturais e políticas. E, por isto, dirigi-la não é tarefa que se esgota no desenvolvimento de exigências técnicas, mas também, no apelo às vontades, aos desejos, às diferenças sociais, a emoções e ao comprometimento com a política de transformação social por tarde daqueles que participam do processo educativo (RODRIGUES, 1987, p. 80). Sob essa ótica, podemos afirmar que a visão técnico-científica da educação, apesar de ter sua importância no âmbito da gestão educacional de um Estado, ela não contempla em níveis locais as necessidades de protagonismo educacional. Esse que é realizado tanto por parte da direção, equipe pedagógica, docentes, estudantes e a comunidade escolar. Conclusão da aula 4 A gestão escolar pode ser compreendida a partir de três paradigmas, que fomentam formas diversas da práxis educacional, a saber: técnico-científico, autogestionário e democrático-participativo. No que tange ao primeiro, se desenvolve por meio dos princípios da Gestão de Qualidade Total que se desenvolve um processo de gestão baseada em resultados educacionais. Para isso, estabelece regras, parâmetros e protocolos que viabilizam o desenvolvimento de práticas pedagógicas gerenciais. Assim, esse modelo é compreendido como um espelhamento da lógica capitalista de educação, não considerando os aspectos socioculturais e a forma como se estabelecem as relações humanas. 50 Atividade de aprendizagem A gestão escolar se fundamenta em teorias próprias da administração, mas não se limita a essa realidade, pois precisa ter como pressuposto uma concepção pedagógica específica. Em especial, três paradigmas podem aglutinar as diversas concepções, a saber: técnico-científico, autogestionário e democrático-participativo. Esses modelos têm diferenças fundamentais no que tange à participação dos sujeitos no processo administrativo. Apresente no quadro a seguir essa diferenciação: Técnico-científico Autogestionário Democrático- participativo Aula 5 – Concepções de Gestão Escolar II Apresentação da aula 5 Prezado (a) estudante, nesta quinta aula vamos continuar estudando as concepções de gestão escolar, abordando o paradigma autogestionário. Para isso vamos compreender no que esse consiste esse modelo, seus pressupostos, e suas finalidades. Também vamos conhecer as diferentes formas pelas quais esse paradigma está presente na organização da gestão educacional no Brasil. Na aula anterior, vimos que apesar do processo de gestão educacional seguir princípios delimitados pela legislação em vigor, a gestão escolar sempre se fundamenta em concepções pedagógicas que direcionam a forma como essa é desenvolvida. Nós apresentamos também que existem inúmeras concepções pedagógicas, mas que essas podem ser aglutinadas em três paradigmas. 51 5.1 O paradigma autogestionário Uma das formas de começarmos nossa reflexão sobre a autogestão é buscando definir o que ela vem a ser. Etimologicamente essa expressão é composta por duas palavras. A primeira auto significa aquilo que tem poder de ser o que é, aquilo que pode viver ou funcionar por si mesmo. O segunda, gestão, (como já vimos em nossa segunda aula), vem de gestio, que indica uma ação que em si possui uma intencionalidade. Entretanto, apesar de em um primeiro momento a autogestão indicar uma ação intencional de um indivíduo, ela relaciona-se de forma explicita a um conjunto de indivíduos que possuem intencionalidades semelhantes. Essa concepção é pautada em uma perspectiva socialista na qual os sujeitos só conseguem alcançar as suas finalidades se essas convergirem entre si. Importante A noção de perspectiva socialista não deve ser confundida com o socialismo. Esse se refere “a diferentes doutrinas políticas que têm em comum uma proposta de mudança da organização econômica e política da sociedade, visando o interesse geral, contra os interesses de uma ou mais classes privilegiadas” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 256). A perspectiva socialista se refere à concepção de que o bem estar do social está acima do individual, visando uma gestão compartilhada na qual todos os sujeitos tenham responsabilidades sobre as ações desenvolvidas. Dessaforma as decisões, as formas de trabalho e ainda a partilha dos resultados são de responsabilidade de todos, e não apenas de um indivíduo, ou grupo de indivíduos. Mas, isso não significa também que esses objetivos sejam em prol dos indivíduos, mas eles buscam algo mais apurado, o bem-estar de um grupo social. Assim, a autogestão não é uma ideia ou teoria da administração, ela é sim uma práxis social que busca o bem-estar de um grupo de sujeitos, por meio de um processo horizontalizado de poder, no qual as funções de decisão e ação pertencem a todos os sujeitos. A autogestão é a construção permanente de um modelo de Socialismo, em que as diversas alavancas do poder, os centros de decisão, de gestão e controle, e os mecanismos produtivos sociais, políticos e ideológicos, se encontrem nas mãos dos produtores-cidadãos, 52 organizados livres e democraticamente, em formas associativas criadas pelos próprios sujeitos (RUTHES, 2020). Sob essa ótica, podemos afirmar que o paradigma autogestionário faz uma oposição ao técnico-científico, pois salienta que o poder de decisão não é verticalizado, mas perpassa o conjunto de sujeitos de um grupo social. Um dos pensadores que fundamentam teoricamente esse modelo de gestão é Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865). Para o autor há dois princípios fundantes para refletirmos sobre a autogestão: a igualdade e a liberdade. Segundo Almeida (1983): A liberdade é um direito absoluto, porque é para o homem, como a impenetrabilidade da matéria, uma condição sine qua non de existência, A igualdade é um direito absoluto, porque sem igualdade não há sociedade, pois a natureza está de acordo com a justiça e, por isso nos empurra para a igualdade. [...] porque, de acordo com o julgamento de todo homem, sua liberdade e sua existência são tão preciosas quanto as de qualquer outro (ALMEIDA, 1983, p. 37). Tanto a liberdade quanto a igualdade, entendidas como princípio, são fundamentais para o desenvolvimento da autogestão. Ainda segundo Almeida (1993, p. 38), esses dois princípios precisam sem compreendidos a partir de duas perspectivas: a política e a econômica. Fonte: elaborado pelo autor (2020). Política "A igualdade só seria alcançada com o fim da alienação causada pela burocracia, gerando uma inversão do fluxo hierárquico". "A liberdade só é possível se contrapormos a mesma ao princípio de autoridade. Se encontramos relações verticalizadas encontramos a exploração, se encontramos relações horizontalizadas, encontramos cooperação". Econômica "A igualdade não exixitiria se o produzido fosse restituído a quem o porduziu". "A liberdade só seria verdadeira se todos os contratos econômicos fossem efetudados entre as partes interessadas, garantido igualdade de recursos". 53 Segundo Bartnik (2012, p. 86), a autogestão tem nos “princípios e decisões coletivas, nas ações organizadoras, na ênfase nas inter-relações, mais do que nas tarefas, o desenvolvimento de um raciocínio que orienta a concepção de gestão compartilhada”. Importante “Compartilhar e participar são bastante semelhantes, podendo ser considerados sinônimos, mas não o são. Participar envolve a ideia de aderir a um movimento no sentido de alcançar um objetivo comum, e compartilhar envolve a ideia de promover ou possibilitar adesão”. Dessa forma na participação o indivíduo aceita uma ideia e age segundo ela, já no compartilhar o sujeito auxilia na construção da ideia, tornando-se protagonista em suas ações (GOMES; LOPES, 2000. p. 16). Compreendendo a autogestão por meio dos princípios da gestão compartilhada, é importante destacarmos que: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Nesse ponto, é importante fazermos uma distinção entre a autogestão, a cogestão e a gestão participativa, que, apesar de possuírem similaridades, são abordagens bem diferentes. Autogestão Cogestão Gestão participativa Deve ser entendida como uma forma de exercício coletivo de poder, baseado nos É uma forma de articulação do trabalho no qual os indivíduos auxiliam na organização É o processo no qual os sujeitos colaboram individualmente com o desenvolvimento de É um modelo organizacional no qual as relações de poder são horizontais; A organização deve possuir objetivos claros e aceitos por todos os membros; O planejamento e a execução das ações ocorre por meio da participação e do comprometimento de todos; A cooperação entre os pares é pressuposto; Os resultados são fruto da atuação conjunta de todos. 54 princípios de liberdade e igualdade, tendo as relações de poder horizontalizadas. de como as ações serão executadas, mas não participam do processo decisório, denotando relações de poder verticalizadas. ações, aceitando uma relação parcial de controle, como também certa verticalização do poder. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). A principal diferença entre esses três tipos de gestão está na ideia de protagonismo. Para que a autogestão seja realizada é imprescindível que as decisões coletivas sejam balizadas por ideais comuns, os quais possibilitam o cumprimento do que foi planejado. 5.2 A gestão compartilhada na educação: possibilidades e desafios Na gestão escolar, a autogestão “se configura como um modelo de gestão no qual os participantes mantêm a filosofia da instituição, os programas na busca de objetivos comuns e integrados na tomada de decisão” (BARTNIK, 2012, p. 86). Assim, não há como desenvolver a autogestão, se não há compromisso e adesão a uma ideia. Sob essa ótica, na autogestão há uma grande ênfase dada à participação social, pois essa é que garante que os interesses sociais serão priorizados na tomada de decisão e ações. Como afirma Lück (2009): Num sentido mais amplo, a gestão compartilhada envolve professores, alunos, funcionários e pais de alunos. É uma maneira mais aberta de dirigir a instituição. Para isso funcionar, é preciso que todos os envolvidos assumam e compartilhem responsabilidade nas múltiplas áreas de atuação da escola (LÜCK, 2009). A instituição que mais assume essa forma de gestão na educação é o Poder Público, a partir da lógica da gestão participativa. Pois, como afirma Bartnik (2012, p. 86), apesar das políticas de desenvolvimento partirem do Estado, “os maiores responsáveis pela mudança e pelo desenvolvimento de uma localidade são as pessoas que nela vivem”. Assim, cabe aos gestores públicos “o desenvolvimento de estratégias para o envolvimento das comunidades nos processos de planejamento”. Essa compreensão estabelece uma relação de mutualidade. Ao mesmo tempo que a comunidade participa do planejamento educacional, o Estado 55 promove ações que visam ao empoderamento das comunidades. Como afirma Paula (2005): As estratégias de planejamento e gestão compartilhada, por serem participativas, contribuem para o crescimento do capital humano e do capital social, ampliando as possibilidades de empoderamento da população local e facilitando a conquista da boa governança, que são algumas das condições necessárias para o desenvolvimento sustentável. Saiba mais “O empoderamento é um processo no qual, por meio da conscientização e da informação, é concedido o poder a uma pessoa ou a um grupo delas. Mas seu significado poder ser mais profundo e complexo. [...] empoderamento não é o mesmo do que ter privilégios ou ser dominante em uma determinada situação. [...] é exercer poder sobre si mesmo [...] ou seja, é a capacidade natural ou adquirida de desempenhar qualquer ação de forma consciente”. Disponível no link: https://www.sbcoaching.com.br/blog/empoderamento/ É importante destacarmos que essa forma de autogestão foi pauta de forte discussão nas décadas de 1980 e 1990, período de redemocratização do país. Isso ocorreu tendo em vista que a educação nãoé apenas uma política pública, mas é um planejamento conjunto, que uma estratégia do Estado é também um processo de exercício de autonomia. Como afirma Bartnik (2012): Destacamos que a inserção de segmentos da sociedade na gestão poderá contribuir significativamente para que esse processo deixe de ser dirigido pelos prefeitos ou por outros dirigentes e torne-se de fato um instrumento de conquista da sociedade civil organizada (BARTNIK, 2012, p. 88). No Brasil, temos uma estrutura de autogestão da educação que perpassa as três esferas de poder público: federal, estadual e municipal, por meio de colegiados. Esses colegiados têm como função deliberar normas e orientações frente a situações sociais não previstas na legislação, ou ainda têm caráter consultivo. 56 Fonte: elaborado pelo autor (2020). No contexto escolar, a autogestão é fundamental, pois “os diferentes setores da escola devem fazer parte do planejamento, da tomada de decisão e da execução do projeto escolar” (BARTNIK, 2012, p. 88). Para isso existem diferentes instâncias colegiadas: Os órgãos colegiados têm possibilitado a implementação de novas formas de gestão por meio de um modelo de administração coletiva, em que todos participam dos processos decisórios e do acompanhamento, execução e avaliação das ações nas unidades escolares, envolvendo as questões administrativas, financeiras e pedagógicas (ABRANCHES, 2003, p. 14). Essas promovem uma gestão compartilhada no contexto escolar e possuem diferentes funções. São elas: Conselho Escolar; Associação de Pais, Mestres e Funcionários (APMF), Conselho de Classe e Grêmio Estudantil. Para Galina e Carbello (2009), a função de cada um desses colegiados pode ser definida como: Conselho Escolar “É um órgão colegiado, representativo da Comunidade Escolar, de natureza deliberativa, consultiva, avaliativa e fiscalizadora [...]é a instituição que coordena a gestão escolar, especialmente no que diz respeito ao estudo, planejamento e acompanhamento das principais ações no dia a dia da escola. É um espaço privilegiado para o exercício da vivência cidadã e apropriação de diferentes saberes que favorecem a democracia”. APMF A APMF, pessoa jurídica de direito privado, é um órgão de representação dos Pais, Mestres e Funcionários do Estabelecimento de Ensino, que não tem caráter político-partidário, religioso, racial, nem fins lucrativos. Seus dirigentes e conselheiros não são remunerados, são constituídos por prazo indeterminado e devem obedecer ao objetivo de promover a integração escola-comunidade [...]o 57 espaço de participação da APMF é muito amplo. Além de “gerenciar” o financeiro da escola, tem como atribuições: acompanhar o desenvolvimento da Proposta Pedagógica, sugerindo as alterações que julgar necessárias ao Conselho Escolar; estimular a criação e o desenvolvimento de atividades para pais, alunos professores, funcionários, assim como para a comunidade, após análise do Conselho escolar; mobilizar a comunidade escolar, na perspectiva de sua organização enquanto órgão representativo, para que esta comunidade expresse suas expectativas e necessidades. Conselho de Classe O Conselho de classe é um colegiado de natureza consultiva e deliberativa em assuntos didático pedagógicos e seus objetivos são: avaliar a apropriação pelos alunos dos conteúdos curriculares estabelecidos no Projeto Político Pedagógico da Escola; refletir sobre a relação professor/aluno e analisar a prática pedagógica, buscando alternativas que garantam a efetivação do desenvolvimento do ensino aprendizagem. O Conselho de Classe deve ter condições para fazer uma avaliação do desempenho de alunos e professores, analisar as práticas pedagógicas e traçar metas coletivas ou individuais para solucionar ou amenizar problemas decorrentes deste processo. Grêmio Estudantil O Grêmio Estudantil é o órgão de representação do corpo discente da escola. Ele deve representar a vontade coletiva dos estudantes e promover a ampliação da democracia, desenvolvendo a consciência crítica [...]deve representar os estudantes, defender seus direitos, estreitar a comunicação dos alunos entre si e com a comunidade escolar, promovendo atividades educacionais, culturais, cívicas, desportivas e sociais. Também é função do Grêmio realizar intercâmbio de caráter cultural e educacional com outras instituições. O Grêmio é um espaço privilegiado para empreender o espírito democrático e desenvolver a ética e a cidadania na prática. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). Mas para que essas instâncias tenham uma atuação efetiva no contexto escolar, é necessário ter em mente que “tal realidade processa de forma gradativa, organizada e será concretizada através de um planejamento coletivo, 58 com a participação de toda a comunidade escolar, partindo do conhecimento de sua realidade” (GOMES; LOPES, 2000, p. 16). Conclusão da aula 5 O Paradigma Autogestionário pressupõe a gestão compartilhada. Na educação, a gestão compartilhada envolve a comunidade e a partir de seu protagonismo desenvolve ações de melhoria do ensino-aprendizagem. O método utilizado pela gestão compartilhada é a ação – reflexão – ação, que possibilita o aperfeiçoamento da gestão educacional. Atividade de aprendizagem O paradigma autogestionário se pressupõe na gestão compartilhada que promove o empoderamento e a participação dos sujeitos em todos os níveis de reflexão, tomada de decisão e ação. Apesar do termo participação estar incluído no contexto da autogestão, ele não faz parte de seu aporte teórico- prático. Assim apresente os motivos pelos quais essa afirmação é verdadeira. Compartilhar e participar são bastante semelhantes, podendo ser considerados sinônimos, mas não o são. Participar envolve a ideia de aderir a um movimento no sentido de alcançar um objetivo comum, e compartilhar envolve a ideia de promover ou possibilitar adesão. Dessa forma na participação o indivíduo aceita uma ideia e age segundo ela, já no compartilhar o sujeito auxilia na construção da ideia, tornando-se protagonista em suas ações. Aula 6 – Concepções de Gestão Escolar III Apresentação da aula 6 Prezado (a) estudante, nesta quinta aula vamos continuar abordando as concepções de gestão escolar, tratando agora do paradigma democrático- participativo. Para tanto, vamos compreender o que é e como se organiza a democracia no espaço escolar, e de que forma a participação social é fundamental para sua consolidação. 59 Como vimos em nossas duas aulas anteriores, a concepção pedagógica, utilizada para efetivar a gestão, delineia a forma como ocorrem as relações no contexto escolar, como também são efetivadas as práticas pedagógicas. No paradigma democrático-participativo não é diferente, pois a participação de toda a comunidade escolar é o elemento balizador da ação. 6.1 O paradigma democrático-participativo Quando falamos em democracia, muitos conceitos advêm em nossa mente, isso se deve ao fato de que esse termo possui uma polissemia considerável. Vaz (1999) afirma que quando os conceitos não estão claros, ou quando significam realidades diferentes para grupos de pessoas, há a necessidade de retomá-lo desde sua origem e compreender a evolução dele. Para nossa reflexão tal intento se faz necessário, pois a democracia no contexto da gestão escolar tem uma abordagem própria, que pressupõem um esclarecimento conceitual. A palavra “democracia” tem sua origem no idioma grego, o radical demo significa povo, e o radical cracia indica poder. Assim, de forma bem simplificada podemos dizer em um primeiro momento que a democracia é uma realidade social na qual o povo tem o poder. Entretanto, quando voltamos à história começamos a perceber que esse poder do povo tem alguns condicionantes. A primeira forma de organizaçãodemocrática se instaurou na Grécia Antiga, no século VI a.C., quando Péricles ascende ao poder em Atenas. É importante destacarmos que esse modelo político social é característico apelas dessa Cidade-Estado (polis), e se instaura como oposição ao governo aristocrático que excluía os cidadãos e a eles ofereciam duras penas. Segundo Japiassú e Marcondes (2006): A pólis se constituía como uma unidade política e territorial, sobretudo através do vínculo que seus cidadãos mantinham com ela por lealdade, identidade cultural e origem. É na pólis que se dá a democracia caracterizada pela igualdade dos cidadãos perante a lei e pela participação desses na decisão política (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 2200. No contexto na pólis grega, a democracia é concebida como direta, na qual os cidadãos representam seus interesses em uma assembleia pública que 60 ocorria na praça. Dessa forma as pessoas não apenas participavam do processo político, mas tinham controle sobre a organização social, pois em sua maioria estavam diretamente envolvidos com as demandas públicas, por meio da atividade política. Essa deve ser compreendida como “tudo aquilo que diz respeito aos cidadãos e ao governo da cidade, aos negócios públicos” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 220). Todavia, é preciso nós esclarecermos o conceito de cidadania na Grécia. Em linhas gerais, o cidadão é o sujeito que faz parte de uma sociedade, sendo por ela reconhecimento como detentor de diretos e deveres. Na Grécia, porém, nem todas a pessoas eram consideradas cidadãs, ou seja, nem todas possuíam direitos sociais, portanto, não eram alcançadas pela instituição da democracia. Eram elas: mulheres, estrangeiros, escravos e crianças. Em outras palavras, apenas os homens tinham participação direta na vida política da cidade. Essa compreensão de uma democracia para poucos permeou toda a Antiguidade Clássica, seja em outras Cidades-estados gregas, ou ainda no próprio Império Romano. Após esse período, por mais de uma dezena de séculos, a democracia como forma de governo não mais existiu. Desde o fim do Império Romano, até a Revolução Francesa, os modelos políticos oscilavam entre a monarquia absolutista e a aristocracia. Tipos de governo que atendiam apenas os interesses de pequenos grupos detentores do poder, impedindo a outra parte da população do acesso aos diretos sociais. Em meados de 1700, tendo em vista a radicalização da monarquia absolutista e do surgimento do Iluminismo, o ideal da democracia ressurge na França. Importante O Iluminismo é um movimento que se “caracteriza pela defesa da ciência e da racionalidade crítica, contra a fé, a superstição e o dogma religioso [...] no plano político, o Iluminismo defende as liberdades individuais e os direitos do cidadão contra o autoritarismo e o abuso de poder. Os iluministas consideravam que o ser humano poderia se emancipar através da razão e do saber, ao qual todos deveriam ter livre acesso” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p.142). 61 Nesse período, de extrema desigualdade social, a democracia é evocada a partir de três elementos: liberdade, igualdade e fraternidade, que resumem em si a proposta de democracia que impeliu a Revolução Francesa: Liberdade Evoca o princípio de que todos os indivíduos são livres, e não podem ser subjugados nem pela lei, nem pela expropriação econômica. Igualdade Sendo livres, todos são iguais perante a lei. Dessa forma, a existência de um aporte legal que determine os direitos de todas as pessoas é uma condição sine qua non para a democracia. Fraternidade Se todos são livres e iguais perante a lei, para que a sociedade possa se desenvolver e prosperar, é importante que exista a fraternidade, como princípio de convivência social. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). A Revolução Francesa buscou a instauração da democracia, mas foi nos Estados Unidos da América que esse ideal se tornou realidade. Após anos de luta pela independência, esse país a conquistou no ano de 1783 e estabeleceu uma estrutura democrática, na qual os cidadãos eram representados por pessoas que aglutinavam em si os ideais democráticos, e que com a evolução desse processo começaram a ser eleitas por meio do voto. A partir desse contexto histórico, percebemos que a democracia pode ser compreendida como um “regime político no qual a soberania é exercida pelo povo, pelo conjunto dos cidadãos, que exercem a escola universal” (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006, p. 67). Também pudemos identificar dois tipos básicos por meio da qual a democracia é exercida: direta e representativa. Para Japiassú e Marcondes (2006, p. 67), essas duas expressões da democracia podem ser definidas, como: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Democracia direta: é aquela em que o poder é exercido pelo povo, sem intermediários. Democracia representativa: é aquela na qual o povo delega seus poderes a um parlamento eleito. 62 Entretanto, o paradigma educacional que estamos estudando é nominado de democrático-participativo. Você deve estar pensando, qual é a diferença entre essas? Não há diferença. Tanto na democracia direta quanto na representativa o elemento da participação é basilar: não há democracia se não houver participação dos sujeitos detentores do poder. Além da participação, outros três elementos precisam ser considerados para que haja democracia: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Dessa forma, como afirma Bartnik (2012, p. 96): “A democracia expressa valores, responsabilidade e subentende não apenas ideais, mas práticas de participação no planejamento, construção e exercício das diferentes formas de gestão”, ou seja, ela exige que o sujeito se inclua no processo participativo, e no caso da gestão escolar participe do planejamento e realização do processo de gestão. Entretanto, ao contrário do modelo autogestionário, essa participação não se relaciona à elaboração das premissas estratégicas, mas sim da forma como essas podem ser desenvolvidas. Curiosidade O modelo autogestionário é uma forma de gestão que não se detém em elementos teóricos de organização dos processos educacionais, ela é uma práxis social. A autogestão se desenvolve por meio de um modelo horizontalizado de poder, no qual os sujeitos possuem poder de decisão em busca do bem comum. Coletividade: pressupõem que o conjunto dos sujeitos só poderão construir um processo democrático, se possuirem objetivos comuns, mesmo que a partir de ideiais diferentes. Autonomia: é condição primeira para o exercício da cidadania, pois seu exercício garante ao sujeito a possibilidade de realizar escolhas deliberadas, frente aos ideiais que possui. Direitos: elementos a partir dos quais os sujeitos imbricados no processo democrático tem as garantias de que sua atuação é desenvolvida, sem possibilidade de cerceamento. 63 Saiba mais Para ampliar seus conhecimentos sobre a gestão a partir do paradigma democrático-participativo, leia o capítulo 07 do livro: Gestão Democrática da Escola Pública, disponível no link: https://books.google.com.br/books?hl=pt- BR&lr=&id=pfVADwAAQBAJ&oi=fnd&pg=PT5&dq=gest%C3%A3o+democr%C 3%A1tica&ots=jHitEFFs6I&sig=rUsMcMH69gpdPu6jWwf6-gCIRPo#v=onepage &q=gest%C3%A3o%20democr%C3%A1tica&f=false Dessa forma, a gestão democrático-participativa pode ser expressa por meio de um triângulo invertido no qual a reflexão coletiva a partir da qual são tomadas decisões e por meio da participação e do engajamento essas decisões são colocadas em prática. Fonte: elaborado pelo autor (2020). 6.2 Os pressupostos teóricos do paradigma democrático-participativo Sendo a democracia um movimento social, participativo, que pressupõe a autonomia e a liberdade, no contexto educacional o paradigma democrático- participativo constitui-se um modelo mais apropriadopara a gestão escolar. Bartink (2012) apresenta dois motivos que justificam essa afirmação: Por possibilitar o envolvimento de todos os integrantes da escola no processo de tomada de decisão, organização e funcionamento do trabalho pedagógico e administrativo; porque o fato de todos participarem do planejamento, reflexão e execução das práticas de gestão, amplia o conhecimento acerca dos objetivos, aprofunda a compreensão das funções e metas da escola e, consequentemente, amplia o grau de interação entre equipe diretiva e pedagógica, docentes, discentes, pais e comunidade (BARTINK, 2012, p. 97). Reflexão coletiva Decisão coletiva Participação e engajamento 64 Importante A instituição de ensino tem autonomia no encaminhamento do trabalho pedagógico, estruturando uma organização de todos os processos a partir dos marcos situacionais e conceituais. Para esse paradigma, a educação é uma prática que está inserida na história e que ocorre por meio da ação social. Essa compreensão é própria da corrente histórico-crítica, fundada por Demerval Saviani em fins da década de 1970. Para esse autor, a prática pedagógica é uma ação inserida em um tempo e em um espaço, ou seja, inserida na história por meio das relações sociais. Em outras palavras, “uma atividade mediadora no seio da prática social global” (SAVIANI, 1986, p. 120). A concepção histórico-crítica tem seu fundamento na teoria de Antônio Gramsci (1891-1937), que afirmava que a educação precisa ser fonte de emancipação para o sujeito, a partir do conceito de práxis. Curiosidade O pensamento de Gramsci se fundamenta na ideia de que a educação é fonte de emancipação do sujeito, que passa a ser um agente transformador da realidade, por meio da participação social, seja a grande propulsora na formação de pessoas que não são apenas reprodutores de conhecimento, mas que utilizem esse conhecimento na prática cotidiana, buscando modificá-la. Essa atuação política só pode ser realizada pelo intelectual orgânico, o responsável por ser agente transformador da realidade. Como afirma Soler (2017, p. 543): “Em outras palavras, trata-se de dizer o seguinte: o político não interpreta a realidade, mas atua efetivamente, exercendo um papel social que é sempre crítico, segundo Bianchi (2009). Essa leitura nos permite pensar em uma estreita relação do político com o intelectual orgânico no que diz respeito à função desempenhada por ambos nos mecanismos institucionais, como os partidos políticos, as universidades e as fábricas. Essa correlação desembocará na efetivação de um estatuto comprometido com a construção de novos valores. Da mesma maneira que o político, o intelectual orgânico responsabiliza-se não somente por pensar as bases de atuação do socialismo, mas por participar efetivamente em cada setor, sempre procurando despertar a consciência coletiva das classes oprimidas pelo capitalismo, pois o intelectual orgânico atua internamente ao sistema, buscando destituir ideologias em nome de uma nova concepção cultural emancipadora das massas”. 65 Sob essa ótica é que Prais (1996, p. 32-34) afirma que a pedagogia histórico-crítica é progressista, pois permite aos profissionais da educação desenvolverem suas atividades não apenas no aspecto teórico, mas principalmente no que tange aos elementos emancipatórios dos membros da sociedade. Ainda, segundo Prais (1996, p. 108), a perspectiva histórico-crítica possui uma série de compreensões da realidade, que fundamentam sua proposta educacional, a saber: o homem como produto histórico, a cultura tomada como socialização; a dialética como método de conhecimento, o trabalho como princípio educativo; a educação politécnica e a escola única. Segundo Bartnik (2012, p. 108-111), esses pressupostos podem ser entendidos da seguinte forma: O homem como produto histórico “A gestão da escola deve partir da premissa de que o homem é um ser histórico e organiza o trabalho educativo, considerando que a formação dos alunos se constrói no conjunto das relações sociais. A escola tem grande relevância entre os atores sociais que interferem na formação dos alunos; primeiro, pela especificidade do trabalho educativo, que busca a formação humana; segundo, porque a escola institucionalmente é o lócus legítimo de promoção de aprendizagem e já é uma cultura instituída, para onde os pais encaminham os filhos por longos anos e por várias horas diárias”. A cultura tomada como socialização “A cultura é um elemento de socialização, o que implica a necessidade de que seja instituída uma proposta pedagógica que valorize os saberes trabalhados na ação docente como elementos da cultura ampla. Estes, transformados em saber escolar, auxiliam o aluno a entender e participar ativamente do meio social. A apropriação dos saberes pelos estudantes se dá no sentido de superar o mero desempenho de tarefas específicas e possibilitar a simulação de situações concretas da sua prática social”. A dialética como método de conhecimento “Pressupõe a historicidade na análise da realidade, percebendo-se a contradição como elemento responsável pela mudança social. Portanto, nessa perspectiva, qualquer reflexão sobre a prática pedagógica deve levar em conta as diferenças materiais de classe. [...] A dialética como método de conhecimento se relaciona com a razão de ser da 66 escola, com o lócus privilegiado do trabalho com o conhecimento – a sala de aula. [...] A dialética pode ser concebida por meio de cinco passos: a prática social, a problematização das questões postas no cotidiano, a reflexão teórica e por fim retorna-se a prática social, buscando resignificá-la a partir do processo de construção do saber”. O trabalho como princípio educativo “Fundamenta-se a gestão escolar na medida em que as equipes diretiva, pedagógica e docente da escola concebem-no como algo construídos historicamente, na busca da humanização, ultrapassando a mera necessidade de sobrevivência. Se prevalece a concepção de trabalho como princípio educativo, os educadores se comprometem, desde os primeiros anos da educação básica, em garantir, na relação entre o professor, aluno e conhecimento, a reflexão contextualizada e problematizadora sobre os conteúdos culturais”. A educação politécnica “Constitui-se como fundamento da gestão colegiada na medida em que a organização da escola e dos conteúdos prioriza, no fazer docente, a articulação entre o saber e o saber fazer, promovendo constantemente, a articulação da teoria com a prática. A politecnia pressupõe que o professor, na condução da ação docente, encaminhe o trabalho com conteúdos integrando as atividades manuais com as intelectuais e relacionando intimamente a teoria com a prática”. A escola única “Configura-se como fundamento da gestão colegiada sempre que a escola organizada, de forma a reduzir as desigualdades sociais e garantir o direito ao acesso à cultura, à ciência e à tecnologia para todos, não de forma enciclopédica, mas atuando no desenvolvimento das capacidades intelectivas e práticas dos alunos. Possibilita o acesso de todos, independentemente de cor, raça, credo e compromete-se com uma educação de qualidade, tanto do ponto de vista técnico (conteúdos métodos e técnicas) como no aspecto político (fins da educação, valores, condições para intervir na sociedade)”. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). A partir desses seis fundamentos, podemos compreender que para a pedagogia histórico-crítica, a formação do sujeito, do conhecimento e do saber pedagógico perpassam a educação. 67 Curiosidade No modelo autogestionário, a gestão compartilhada é um dos pontos fundamentais. Sendo na gestão compartilhada, o sujeito auxilia na construção de todas as fases da gestão, na gestão participativa a pessoa aceita uma ideia com a qual se identifica, assumindo as responsabilidadesdas ações. Conclusão da aula 6 O paradigma democrático-participativo, mais que uma concepção teórica, é uma prática social, que se fundamenta na coletividade: reflexão, decisão, participação. Tem como fundamentação teórica a pedagogia histórico-crítica, que afirma que a educação perpassa tanto a história quanto as relações sociais, possibilitando a emancipação dos sujeitos. Atividade de aprendizagem Como vimos, o princípio democrático na educação perpassa tanto a participação como a emancipação dos sujeitos. A pedagogia histórico crítica possui como um de seus fundamentos a dialética como método de conhecimento, pois esse somente ocorre na interação de sujeitos entre si e com a realidade social. Sob essa perspectiva, apresente alguns elementos da dialética que fomentam o aprendizado, mas também a emancipação do sujeito. Aula 7 – Concepções de Gestão Escolar IV Apresentação da aula 7 Olá, estudante! Nesta nossa sétima aula vamos continuar aprofundando os elementos do paradigma democrático-participativo. Vamos conhecer quais são os dois fundamentos que permitem que esse paradigma se desenvolva e se consolide no contexto escolar. A saber: a participação e a autonomia. No que tange ao primeiro, vamos resgatar o que é a participação e qual é sua finalidade 68 na gestão participativa. Em relação ao segundo, vamos buscar compreender como a escola pode ser promotora de autonomia, tanto nos processos de gestão quanto na prática pedagógica. Na nossa última aula, começamos a conhecer o paradigma democrático- participativo, compreendendo que ele se pauta em uma forma de trabalho que pressupõe a participação e que essa se constitui um dos fundamentos de tal prática pedagógica. De outro, também vimos que esse paradigma se fundamenta na pedagógica histórico-crítica, que visa ao desenvolvimento da educação a partir da participação social que gera nos sujeitos autonomia. Também vamos nos dedicar a compreender um pouco mais no que consiste os dois elementos fundantes desse modelo educacional: a participação e a autonomia, que compõem o processo de formação democrática. Sem conhecer o que eles são, qual é sua finalidade e a e os resultados que ele visa produzir, não vamos conseguir compreender sua importância. Pois: Fonte: elaborado pelo autor (2020). 7.1 A gestão democrático-participativa da escola e a noção de participação Em nossa aula anterior, nós vimos que a participação é uma condição sine qua non para que o modelo democrático de gestão escolar e pedagógica possa existir. Vimos também que participar tem uma característica muito diversa do compartilhar, no que tange à responsabilidade frente à ação. O compartilhar envolve uma responsabilidade igualitária que inicia com o planejamento, a A democracia se manifesta Na participação social e política Que busca formas sujeitos autônomos 69 execução e a avaliação dos resultados. O participar não contempla a responsabilidade igualitária, pois os sujeitos envolvidos nesse processo têm funções específicas, com responsabilidades específicas. Essas responsabilidades implicam em direitos e deveres que o sujeito precisa seguir, mas que também precisa defender e transmitir por meio da educação. Nesse contexto, não podemos ter em mente que os direitos e deveres têm apenas caráter normativo. Como afirma Lück (2009): Não se trata, portanto de um sentido normativo e imperativo de direitos e deveres e sim de um sentido interativo pelo qual se transformam continuamente e são superados por estágios sucessivos de complexidade que vão tornando mais amplas, complexas e significativas as funções sociais do grupo, ao mesmo tempo em que seus membros vão desenvolvendo a consciência do processo como um todo e de seus múltiplos desdobramentos (LÜCK, 2009, p. 70). Sob essa ótica, percebemos que no contexto da participação o processo de formação é fundamental, tendo em vista que ele fomenta a formação de consciência social, que por sua vez passa a se tornar elemento constitutivo da prática do sujeito. Aqui percebemos que no contexto escolar a participação não é apenas pauta de aulas e temáticas inseridas no currículo, ou ainda e atividades multidisciplinares, mas é sim uma prática social, na qual os estudantes unem teoria e prática, que gerará uma práxis democrática não apenas no contexto escolar, mas em todas as relações que travarem na sociedade. Como afirma Lück (2009): Vai-se criando no interior da escola uma cultura própria orientada pela realização dos ideais da educação, que passam a fazer parte natural do modo de ser e de fazer da escola e, por isso mesmo, não precisa ser imposta de fora para dentro. A construção da consciência e responsabilidade social sobre o papel de todos na promoção da aprendizagem e formação dos alunos (inclusive deles próprios com esse fim), constitui-se, pois em condição imprescindível para a construção de escola democrática e realização de gestão democrática (LÜCK, 2009, p. 71). Pode-se perceber, que a participação, no paradigma democrático- participativo está diretamente relacionada aos objetivos da escola enquanto instituição social e política. Desta maneira, os profissionais da educação precisam ter duas características: o protagonismo e o profissionalismo, que segundo Bartnik (2011) pressupõem: 70 Compromisso no sentido de não descuidar da formação para a cidadania; Clareza de que a escola e sua organização estão inseridas em um contexto social amplo e que seus atores sofrem e emanam influências da e para a sociedade civil e política, de que fazem parte; Compreensão de que na prática da gestão escolar está imbricada a concepção de educação, de homem, de ensino-aprendizagem e para que tipo de sociedade a proposta pedagógica de sua escola está comprometida (BARTNIK, 2011, p. 98). Sob essa ótica, a participação possibilita uma maior aproximação dos profissionais, visando ao trabalho conjunto e à redução das desigualdades relacionadas à formação, possibilitando assim o crescimento coletivo. Como afirma Lück (2009, p. 71): “portanto, a participação está centrada na busca de formas mais democráticas de promover a gestão de uma unidade social”. 7.2 A gestão democrático-participativa da escola e a noção de autonomia Na gestão democrática, além da noção de participação, a de autonomia é considerada como fundante, pois ela não é apenas pressuposta, é também resultado, pois a autonomia gera participação e a participação gera empoderamento. Fonte: elaborado pelo autor (2020). Mas, o que é autonomia? A palavra autonomia vem do idioma grego, e indica a capacidade que um sujeito tem de escolher as normas que vai seguir. De forma muito simplória, podemos definir, assim, que a autonomia é uma capacidade individual de fazer escolhas frente à realidade. Mas, para podermos aprofundar esse conceito vamos buscar o pensamento de um filósofo alemão Immanuel Kant, que foi responsável pela compreensão moderna de autonomia. Ele viveu no período do Iluminismo, e buscava os fundamentos para afirmar que a racionalidade humana pode ser considerada como irrefutável. Em sua obra Crítica da Razão Pura, lança os fundamentos para ratificar sua teoria. Mas é em um manuscrito denominado: Autonomia do sujeito Participação do sujeito Empoderamento dos sujeitos 71 Resposta à pergunta o que é o Esclarecimento? que o autor expõe a compreensão sobre a autonomia que se tornou clássica. Utilizando as expressões: maioridade e menoridade, o autor afirma que o ser humano precisa buscar a primeira. Essa se constitui a capacidade de realizar escolhas sem apoiar-se em qualquer opinião alheia, ou seja, a independência total frente à opinião ou determinação externa. A menoridade, por sua vez, é a incapacidade que o sujeito possui de decidir por si mesmo, precisando de outros(Estado, religião...) para fazer suas escolhas. Saiba mais A obra Reposta à pergunta o que é Esclarecimento? aborda o tema da autonomia (maioridade) correlacionando-a diretamente com o da heteronomia, menoridade. Segue o trecho da obra: Esclarecimento é a saída do homem da menoridade pela qual é o próprio culpado. Menoridade é a incapacidade de servir-se do próprio entendimento sem direção alheia. O homem é o próprio culpado por esta incapacidade, quando sua causa reside na falta, não de entendimento, mas de resolução e coragem de fazer uso dele sem a direção de outra pessoa. Ousa fazer uso de teu próprio entendimento! [...] para a maioridade, porém, nada é exigido, além da liberdade; e mais especificamente a liberdade menos danosa de dotas, a saber: utilizar publicamente sua razão em todas as dimensões (KANT apud MARCONDES, 2007, p. 95). A noção de maioridade refere-se diretamente à autonomia, e à de menoridade à de heteronomia. Como afirma Bresolin (2013, p. 169): A autonomia demonstra que o homem tem a capacidade de ser dono de si, livre de toda dependência diferente da razão. Dessa forma, ser moral é ser autônomo, ou seja, para uma ação revestir-se de valor moral precisa ser racionalmente determinada. Logo, o que não se obtém por determinação interna, da própria razão, não pode valer como uma lei em uma possível legislação universal, uma vez que o princípio da ação foi heteronomamente obtido. Por conseguinte, a heteronomia ocorre quando a vontade não se dá a lei a si mesma, mas é sim um impulso estranho que dá a lei. A autonomia não é algo que a pessoa simplesmente possua, mas sim um comportamento que a pessoa desenvolve, o próprio Kant ressalta isso quando afirma: “É, portanto, difícil para cada homem isoladamente livrar-se da menoridade que nele se tornou quase uma natureza”. Segundo o autor, é na 72 convivência social, nos espaços em que se cultiva o livre pensar, que o processo de desenvolvimento da autonomia ocorre, mas de forma paulatina, pois se constitui uma mudança na forma de ser e estar no mundo. Sob essa ótica é que a autonomia deve ser compreendida no ambiente escolar. Em primeiro lugar, ela é fonte propulsora da atuação dos profissionais de educação, pois somente por meio dela é que as relações no contexto escolar poderão ser democráticas. Mas também a escola deve ser um espaço de formação para a autonomia, possibilitado aos estudantes a participação nos processos educacionais. Como afirma Libâneo, Oliveira e Toschi (2003, p. 328): “como a autonomia opõe-se às formas autoritárias de tomadas de decisão, sua realização concreta nas instituições dá-se pela participação livre na escolha de objetivos e na construção conjunta de ações”. O grande desafio das instituições escolares é criar espaços educacionais que permitam a atuação participativa e promotora de empoderamento das pessoas. Isso somente é possível se a prática educativa estiver calcada nos princípios sociopolíticos da escola. Em nossas aulas já vimos que esses permeiam a construção do Projeto Político-pedagógico (PPP), principalmente no marco-conceitual, no qual são expressas as concepções da escola frente à realidade que a cerca. Como afirma Rios (1998): Construir ética a politicamente a autonomia não teria significado se não se aliassem à perspectiva ético-política a dimensão técnica, o domínio seguro de conhecimentos específicos, a utilização de uma metodologia eficaz, a consciência crítica e o propósito firme de ir ao encontro das necessidades concretas da sociedade de seu tempo (RIOS, 1998, p. 12). A autonomia no contexto escolar pressupõe: o envolvimento de todos na reflexão conjunta sobre a realidade, propondo possibilidades de ação sobre as quais a tomada de decisão e realização são coletivas. É importante reformar que todo esse processo perpassa os princípios sociopolíticos descritos no PPP. Saiba mais Para compreender a proposta da gestão democrático-participativa em relação ao modelo empresarial, leia o artigo: Crítica a concepção empresarial de Educação: uma contribuição da pedagogia histórico crítica. Disponível no link: https://portalseer.ufba.br/index.php/revistagerminal/article/view/12410 73 Para Bartnik (2012, p. 100-101), a autonomia na gestão escolar precisa ser compreendida a partir de quatro dimensões: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Administrativa “Representa a possibilidade dos profissionais da escola gerirem os planos, os programas e os projetos, adequando-os à estrutura da instituição, à realidade na qual se inserem e ao contexto histórico e social. A autonomia administrativa compreende um espaço de negociação e garantia do direito da comunidade escolar eleger seus dirigentes, constituir conselhos escolares com funções deliberativa, consultiva e fiscalizadora, bem como elaborar e aprovar nos respectivos conselhos, o plano de gestão da escola”. Pedagógica “Tem a ver com as normas e encaminhamentos e procedimentos das questões pedagógicas, tais como elaboração e explicitação de objetivos pedagógicos, científicos, tecnológicos, artísticos e culturais; análise, implementação e avaliação do currículo escolar; seleção e organização de conteúdo; construção de metodologias e práticas avaliativas; instituição da pesquisa e de programas de formação continuada, em parceria com as universidades e outra agências sociais; estabelecimento de critérios sobre acesso, promoção e recuperação dos alunos; e conferência de graus e outros títulos escolares considerando-se sempre a função social da escola, a organização do trabalho pedagógico e a melhoria permanente do processo de ensino- aprendizagem”. Pedagógica Jurídica Financeira Administrativa Escola 74 Jurídica “Refere-se à possibilidade da escola elaborar, em coerência com as políticas diretrizes dos órgãos centrais, as próprias normas e orientações internas no que se refere a aspectos como admissão de professores, estabelecimento de convênios, matrículas e transferências dos alunos, implantação de projetos diversos, oferecendo, nesse processo, condições de participação cultural, profissional e sociopolítica a todos os sujeitos que atuam no processo educativo escolar”. Financeira Configura-se na prerrogativa de escola pública, que recebe as verbas repassadas pelo Poder Público, administrar os recursos financeiros e aplicar e remanejar diferentes rubricas; compreende a competência para elaborar e executar seu orçamento, com fluxo regular do poder público, permitindo à escola planejar e executar atividades, independentemente de outras fontes de receita com fins específicos. Enfatiza-se que tais recursos devem existir e ser suficientes para efetivas a proposta pedagógica com qualidade, preservando a dignidade dos docentes e discentes. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). Esses quatro elementos da autonomia na gestão escolar “reforçam as bases necessárias para o desenvolvimento da cidadania, pautada na participação de todos os sujeitos da escola. De outro, também auxiliam na construção de uma gestão de caráter coletivo, na qual o foco de trabalho é o processo de ensino-aprendizagem com qualidade. Conclusão da aula 7 A gestão democrática se pressupõe em duas dimensões: participação e autonomia. A participação e a autonomia são os princípios fundantes da prática pedagógica a partir de uma vivência dos fundamentos sociopolíticos no contexto escolar. Também possibilitam a organização do trabalho pedagógico de forma democrática. Visando à formação para o exercício da cidadania, por meio da participação social. 75 Atividade de aprendizagem No paradigma democrático-participativo dois elementos são considerados fundamentais para a boa organização da gestão e para que a escola antiga suas finalidades: a participação e a autonomia. Essas precisam estar presentesna práxis de todos os profissionais, buscando promover espaços de formação para a cidadania. Sob essa ótica, apresente a forma como essa formação pode ser compreendida. Aula 8 – Liderança e gestão escolar Apresentação da aula 8 Prezado (a) estudante! Nesta nossa oitava aula vamos analisar liderança na gestão escolar. Para tanto, vamos buscar uma definição para liderança, tanto no que tange ao que é, como a forma como ela pode ser desenvolvida. A partir disso, vamos entender de que forma a liderança educacional pode viabilizar a melhoria do processo de ensino-aprendizagem. Por fim, vamos analisar o perfil do diretor como uma liderança democrática. Na atualidade, a temática da liderança é muito presente. Temos ouvido que a liderança é uma característica fundamental para todos os seres humanos, como também podemos encontrar de forma muito fácil treinamentos para o desenvolvimento de bons líderes, em todos os segmentos da sociedade. Mas, sob tantos holofotes a questão da liderança pode acabar perdendo seu sentido, tendo em vista que se tornou um produto ou um slogan a ser oferecido comercialmente. Assim, refletir sobre a liderança é mais que uma replicação de discursos encontrados em vários espaços da sociedade. No campo da educação, essa delicadeza ao tratar o tema da liderança deve ser ainda maior. 76 8.1 A definição de liderança O que é ser um bom líder? Muitas vezes essa questão é respondida a partir da ótica da motivação e do carisma. Mas, ser líder não se reduz apenas a essas duas características. Segundo Bergamini (1994, p. 103), "Assim como o amor, a liderança continuou a ser algo que todos sabiam que existia, mas ninguém podia definir". Importante A liderança é a competência que permite ao sujeito a mobilização de pessoas e recursos a fim de atingir os objetivos da instituição de ensino. Se formos olhar a história, vamos perceber que a liderança é uma competência que esteve sempre presente na vida humana. Desde os primórdios, os diferentes grupos sociais sempre necessitaram de uma figura que condensasse em si as aspirações de todos os sujeitos, fazendo com que esse fosse respeitado e seguido. Mas essa compreensão ainda reforça a ideia de que a liderança relaciona-se com o carisma. Assim, como afirma Bergamini (1994): A preocupação com a liderança é tão antiga quanto a história escrita: A república de Platão constitui um bom exemplo dessas preocupações iniciais ao falar da adequada educação e treinamento dos líderes políticos, assim como da grande parte dos filósofos políticos que desde essa época procuraram lidar com esse problema. Isso permite dizer que a liderança tem sido investigada desde há muito e, como tal, é justo que apresente as mais variadas interpretações. Somente o conjunto de todos esses pontos de vista oferece a possibilidade de uma visão mais abrangente a respeito do tema (BERGAMINI, 1994, p. 103). Assim, segundo Bergamini (1994), essa temática deve ser estudada em uma multiplicidade de aspectos, mas que podem ser interligadas em quatro tipos de pesquisa: Análise do que o líder é enquanto tal, por meio da análise e dos traços ou características da personalidade que sejam responsáveis pela eficácia de seus atos. Estudo que reflete a forma como as ações do líder tem impacto sobre sua atuação junto às pessoas. Pesquisa sobre quais são as circunstâncias que viabilizam a uma pessoa se formar como um líder. Sobretudo, as variáveis sociais. Estudo das motivações de um sujeito no exercício da liderança e o resultado disso junto às pessoas e aos objetivos (BERGAMINI, 1994, p. 103). 77 Esses tipos de pesquisa, ainda presentes no âmbito acadêmico, permitiram que vários estudos sobre o perfil de liderança fossem realizados. Esses têm como objetivo compreender como os comportamentos do indivíduo frente às circunstâncias e às pessoas poderiam ser caracterizados e classificados. Um dos primeiros estudos realizados, mas que continua atual, foi desenvolvido em 1939, pelo pesquisador Kurt Lewin. Ele, junto com uma equipe de especialistas, analisou a forma como crianças se relacionavam com situações de interação social e tomada de decisão. Posteriormente, analisaram se os mesmos padrões eram perceptíveis em sujeitos adultos. Ao final do estudo, eles concluíram existir três estilos de liderança, ou seja, três formas por meio das quais o indivíduo se relaciona com os outros, com o meio e com a tomada de decisão: autocrático (impositivo), democrático (participativo) e liberal (tolerante). Para Lewin (1939; 1947), encontramos as seguintes características em cada um desses estilos: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Em cada um desses estilos percebemos diferenças substanciais quanto às características, enquanto o primeiro os liderados têm uma função mais operacional, nos dois seguintes, eles são convidados a participar ou tomar decisões. Da mesma forma, podemos perceber que nos três existem tanto vantagens quanto desvantagens. Autocrático Centralizadora Pouca participação dos liderados na tomada de decisão Decisões rápidas e centralizadas no líder Conflitos dentro da equipe e dependência do líder Democrático Articuladora Distribuição do poder de decisão com os liderados Aumento do comprometimento dos liderados Decisões mais lentas e controle menor sobre os processos Liberal Permissiva Líder apoia os subordinados a tomarem decisões Maior motivação para os especialistas autônomos Desorganização devido à liderança enfraquecida 78 Em outras palavras, não existe um estilo de liderança ideal, todos eles são necessários. O elemento condicionante para todo esse processo é a circunstância. Como afirma Cortella (2009, p. 09): “Nenhum de nós exerce liderança ou é liderado o tempo todo. Isto é, vivemos as duas condições em momentos variados. É por essa razão que a liderança, no meu entender, é circunstancial”. Em momentos diversos o líder é chamado a exercer um dos estilos de liderança. Entretanto, é importante afirmar que a liderança democrática é a que fomenta de forma mais eficaz o engajamento dos sujeitos, pois “enquanto a chefia é caracterizada pelo poder de mando sustentado pela posição que a pessoa ocupa em determinada hierarquia, a liderança é uma autoridade que se constrói pelo exemplo, pela admiração, pelo respeito” (CORTELLA, 2009, p. 09). Curiosidade No estilo democrático de liderança encontramos elementos que viabilizam a participação articulada de todos os sujeitos da escola no processo de reflexão, planejamento, ação e avaliação dos processos pedagógicos. Mas, como podemos conceber essa diferença? Veja a imagem abaixo: Diferenças Fonte: acervo do autor (2020). 79 Curiosidade Na liderança democrática a participação dos sujeitos é fundamental, pois auxilia não apenas no engajamento e participação, mas também na busca conjunta pela qualidade da educação. No contexto escolar, a liderança deve ser uma característica inerente do gestor, do diretor, que articula dos profissionais no processo educativo. Como afirma Lück (2009, 76), algumas características mínimas são: Fonte: elaborado pelo autor (2020). 8.2 A liderança na gestão escolar Como vimos a liderança é uma competência que está em constante desenvolvimento, de outro também vimos que dentre os estilões de liderança o que mais se aproxima da educação é o democrático, pois viabiliza a participação Disponibilidade em aceitar e expressar no trabalho com pessoas os desafios inerentes ao trabalho educacional, suas dificuldades e limitações, com um olhar para as possibilidades de sua superação. Estimulação do melhor que existe nas pessoas ao seu redor, a partir de uma perspectiva proativa a respeito delas e de sua atuação. Clareza a respeito da missão, visão e valores educacionais,assim como da participação das pessoas nessa compreensão e sua expressão em suas ações. Orientação com perspectiva dinâmica, inovadora e norteada para a melhoria contínua. Exercício contínuo do diálogo aberto e da capacidade de ouvir. Construção de oportunidades de participação e orientação para o compartilhamento de responsabilidades. Cultivo de atitudes que acompanham a expressão de comportamentos de liderança. 80 de todos garantindo a efetividade do processo de ensino-aprendizagem. Para Bartnik (2012, p. 99), esse processo tem as seguintes fases: Fonte: elaborado pelo autor (2020). Corroborando tal visão, Lück (2011, p. 25) afirma que: “A gestão escolar é um processo que tem que ser efetivamente [democrática] e sendo a competência no foco da liderança constituindo-se em um dos fatores de maior impacto sobre a qualidade dos processos educacionais”. Essa qualidade é o grande resultado da liderança. Para Leithwood (2004), “não existe nenhum caso documentado de alguma escola que tenha conseguido uma reviravolta nos resultados de seus estudantes sem ter uma liderança talentosa”. O que nos faz concluir que o grande foco da liderança do diretor é a melhoria do ensino. Para isso, o diretor precisa compreender que suas ações precisam ser: Desenvolvidas Coordenadas Responsáveis Mediante a oportunidade do seu exercício, sem receio de perder espaço ou poder. Pois a liderança exercida por muitas pessoas sem coordenação pode resultar em uma desorientação, dado o risco de se perder o eixo e o foco central das ações. Uma vez que todos e cada um que atuam na escola devem prestar contas de seus atos, em relação à sua contribuição para o bom funcionamento da escola voltado para a aprendizagem dos estudantes. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). Mas, esse não é possível pensarmos a gestão democrática como um processo linear, ele é profundamente dialético, pois exige um esforço de trabalhar com diferentes relações humanas e perspectivas ou concepções pedagógicas. Assim, o tripé de toda essa dinâmica é: Sujeitos envolvidos Compreende m os problemas cotidianos Pensam sobre os problemas propondo soluções Participam das decisões de como implantá- las 81 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Esses elementos evidenciam que o diretor precisa ter um caráter reflexivo e estratégico sobre as demandas administrativas, dos docentes, o desenvolvimento dos discentes. Para isso, retomando a importância que o Projeto Político-Pedagógico (PPP) tem no âmbito da gestão, Veiga (1998) propõe alguns questionamentos propositivos: Qual é o contexto filosófico, político econômico e cultural em que a escola está inserida? Que percepção de ser humano se tem? Que valores devem ser seguidos para a sua formação? A formação para a cidadania tem sido o fio condutor do trabalho pedagógico da escola? (VEIGA, 1998, p. 20). Essas indagações cujas repostas se encontram no PPP da escola, a partir de seus três marcos auxiliam o gestor a atuar proativamente frente aos processos ou ações que não estão a contento, mas também a buscar soluções em conjunto, para a garantia da aprendizagem dos estudantes. 8.3 O diretor como líder educacional Como vimos anteriormente, na gestão democrática, não basta que o diretor seja um líder, mas que saiba também compartilhar sua liderança com os demais sujeitos. Para isso, um elemento é fundamental, a comunicação assertiva. Segundo Coelho (2019), a comunicação eficaz perpassa uma série de estratégias que o diretor deve lançar mão para trabalhar com a sua equipe, visando à articulação das necessidades, à autonomia dos sujeitos e à participação. Para isso, alguns elementos precisam ser considerados: Relações baseadas na confiança mútua Relações que não evitam conversas difíceis Reconhecimento da importância de todos os membros da equipe da escola 82 Comunicação Assertiva Características As ações e as expressões não são divergentes, é firme em situações que exigem esse comportamento, mas de forma respeitosa consigo e com os demais. Crenças Acredita e age a partir do princípio da igualdade e da isonomia. Assim todos os sujeitos precisam ser integrados. Expressão corporal Postura relaxada, aberta e acolhedora. Consequências Estabelece relações cordiais e profissionais, criando um canal de comunicação aberto com os demais membros da equipe. Fonte: elaborado pelo autor (2020), adaptado pelo DI (2020). Outro elemento fundamental é que a comunicação, por mais assertiva que seja, ela demora um tempo para ser internalizada pelo sujeito. Segundo Motta (2012, p. 41), ela perpassa por algumas fases: Comunicação Fonte: acervo do autor (2020). Segundo Motta (2012, p. 41), há uma correlação entre o tempo e o conhecimento de determinado fato. Assim, por mais que a comunicação ocorra de forma assertiva, a direção da escola precisa compreender que a comunicação da forma como a gestão democrática ocorre é fundamental para que se construa uma cultura. Nesse contexto, algumas competências do diretor como gestor democrático precisam ser destacadas. Para Lück (2009, p. 69), são: 83 Fonte: elaborado pelo autor (2020). Conclusão da aula 8 A liderança é uma habilidade de gestão que visa à integração dos sujeitos tendo em vista um objetivo comum. No contexto escolar, o estilo de liderança a ser desenvolvido é o democrático, buscando em conjunto a melhoria do ensino- aprendizagem. O diretor é o sujeito que tem um papel essencial, tendo em vista que é o líder de um processo de planejamento e execução de objetivos comuns. Atividade de aprendizagem A liderança é uma competência de gestão que possui basicamente três estilos: o autocrático, o democrático e o liberal. Cada um, com suas características acabam definindo os perfis de liderança. No contexto escolas, a gestão democrática é considerada como a mais eficaz. Justifique essa afirmação. Equilibra e integra as interfaces e diferentes áreas de ação da escola e a interação entre as pessoas, em torno de um ideário educacional comum, visão, missão e valores da escola. Lidera a atuação integrada e cooperativa de todos os participantes da escola, na promoção de um ambiente educativo e de aprendizagem, orientado por elevadas expectativas, estabelecidas coletivamente e amplamente compartilhadas. Demonstra interesse genuíno pela atuação dos professores, dos funcionários e dos estudantes da escola, orientando o seu trabalho em equipe, incentivando o compartilhamento de experiências e agregando resultados coletivos. Estimula participantes de todos os segmentos da escola a envolverem-se na realização dos projetos escolares, melhoria da escola e promoção da aprendizagem e formação dos alunos, como uma causa comum a todos, de modo a integrarem-se no conjunto do trabalho realizado Promove práticas de coliderança, compartilhando responsabilidades e espaços de ação entre os participantes da comunidade escolar, como condição para a promoção da gestão compartilhada e da construção da identidade da escola 84 Índice Remissivo A definição de liderança ............................................................................ (Autocrático; democrático; liberal) 76 A diferença entre administrar e gerir .......................................................... (Autoregulação; controle externo; práticas e ações) 20 A gestão compartilhada na educação: possibilidades e desafios .............. (Conselho escolar; gestão participativa; poder público) 54 A gestão democrático-participativa da escola e a noção de autonomia...... (Autonomia do sujeito; empoderamento dos sujeitos; participação do sujeito) 70 A gestão democrático-participativa da escola e a noção de participação (Aproximação dos profissionais; redução das desigualdades;sine qua non) 68 A gestão e o aprendizado organizacional .................................................. (Aprendizagem coletiva; know-how; visão compartilhada) 16 A gestão escolar e o processo de ensino-aprendizagem ........................... (Gestão administrativa; gestão de instância; gestão pedagógica) 26 A gestão escolar e os pressupostos legais ................................................ (Legislação educacional; manutenção de processos; reguladora e regulamentadora) 29 A História da Administração ...................................................................... (Realidade concreta; realidade existente; realismo materialista) 08 A liderança na gestão escolar .................................................................... (Coordenadas; desenvolvidas; responsáveis) 79 As leis que regem as práticas administrativas e pedagógicas da educação .................................................................................................. (Gestão democrática; pluralismo; qualidade) 31 As normativas que regem as práticas administrativas da instituição de ensino ....................................................................................................... (Conceitual; operacional; situacional) 37 As teorias da administração ...................................................................... (Análise e efetivação; fase da história da administração; Revolução Industrial) 11 As teorias de gestão e o contexto escolar .................................................. (Práxis; sistemas; unidades) 08 Concepções de Gestão Escolar I .............................................................. (Contexto educacional; paradigmas da gestão; técnico-científico) 41 85 Concepções de Gestão Escolar II ............................................................. (Concepções pedagógicas; gestão educacional; paradigma autogestionário) 50 Concepções de Gestão Escolar III ............................................................ (Concepção pedagógica; paradigma democrático; participação social) 58 Concepções de Gestão Escolar IV ............................................................ (Democracia; participação social; sujeitos autônomos) 67 Entre a empresa e a escola ....................................................................... (Dimensão; foco educacional; foco empresarial) 23 Frederick Taylor e o princípio da supervisão do trabalho ........................... (Aptidão; incentivo; padronização) 12 Gestão escolar, uma prática desenvolvida ................................................ (Atividades desenvolvidas; gestão pedagógica; princípios educacionais) 29 Henri Fayol e a coordenação de ações de gerenciamento ........................ (Administração clássica; coordenar e controlar; comandar e organizar) 14 Liderança e Gestão Escolar ...................................................................... (Liderança; liderança democrática; liderança educacional) 75 O diretor como líder educacional ............................................................... (Absorve; comunicação assertiva; entende) 81 O paradigma autogestionário ................................................................... (Auto-gestio; práxis sociais; política econômica) 51 O paradigma democrático-participativo ..................................................... (Cidade-Estado; democracia; reflexão coletiva) 59 O paradigma técnico-científico de gestão escolar ..................................... (IDEB; processo educacional; supervisão e controle) 44 Os pressupostos teóricos do paradigma democrático-participativo ........... (A escola única; educação uma prática; histórico-crítica) 63 Os princípios da gestão escolar ................................................................. (Conhecimento; gestão escolar; processo de formação) 19 Os três paradigmas de gestão escolar ...................................................... (Autogestionário; democrático-participativo; técnico-científico) 41 Peter Drucker e a gestão por objetivos ...................................................... (Administração moderna; missão, visão e valores; princípios de gerenciamento) 15 86 Referências ABRANCHES, M.; Colegiado Escolar: Espaço de participação da comunidade. São Paulo: Cortez, 2003. ALMEIDA, H. M.; Autogestão: da ideia às práticas. 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