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BACTERIOLOGIA CLÍNICA César Henrique Yokomizo Hemocultura Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Listar as principais bactérias responsáveis pela sepse. � Avaliar a metodologia e os aspectos essenciais de uma hemocultura. � Diferenciar os métodos automatizados para diagnóstico por hemocultura. Introdução O sangue, que tem papel central na sepse, serve como via propagadora da resposta inflamatória frente à infecção patogênica. Hemocultura é, portanto, o método diagnóstico mais eficiente para identificar a presença de microrganismos no sangue. A hemocultura foi incorporada à tecnologia diagnóstica pela automa- tização do método de cultura do sangue, entregando, dessa forma, resul- tados com maior velocidade e precisão. As metodologias de hemocultura oferecem vantagens e desvantagens, as quais devem ser consideradas no momento de decidir qual metodologia utilizar. Neste capítulo, você vai compreender o que é sepse e choque séptico, como eles ocorrem e quais são os agentes etiológicos mais comuns responsáveis pela sepse. Além disso, você irá conhecer, ao longo deste capítulo, o método semiautomatizado. Sepse e choque séptico O sangue é classificado como um tecido líquido e coloidal que é composto por diversos tipos celulares que se encontram suspensos no plasma, sua matriz extracelular. O sangue faz parte do sistema vascular e circula por todo o organismo. Em indivíduos sadios, o sangue é estéril, ou seja, não é possível identificar, nele, microrganismos potencialmente patogênicos. A sepse, também conhecida como infecção generalizada, pode ser classi- ficada como uma síndrome patológica complexa e potencialmente fatal. Ela ocorre em decorrência de uma resposta inflamatória sistêmica e exacerbada que se inicia frente a uma infecção, sendo as bactérias os agentes etiológicos mais frequentes nessa infecção inicial. Inflamação sistêmica é a forma que o organismo utiliza para combater o microrganismo patogênico. Como resposta, o sistema imunológico libera diversos mediadores químicos, que são transportados pelo sangue e causam a expansão da inflamação para diversas regiões do organismo, levando à disfunção e/ou falência de vários órgãos. A disfunção ou falência se deve, em geral, à queda da pressão arterial, à oxigenação celular e tecidual deficitária e a complicações relacionadas à coagulação sanguínea (BROOKS et al., 2014). A fonte original da infecção mais comum são os pulmões, como nos casos de pneumonia, por exemplo, no entanto, essa infecção também pode se originar: � nos rins ou na bexiga, por infecções urinárias; � no abdome, em decorrência de apendicite, peritonite ou infecções no fígado; � na pele, devido a feridas, celulites ou aberturas realizadas para intro- dução de cateteres; � no Sistema Nervoso Central, decorrência por exemplo de meningites bacterianas. Os sintomas mais comumente associados à sepse são: febre intensa, cala- frios, falta de ar, suor intenso, desorientação, dor intensa, taquicardia e falta de ar. A sepse pode ser classificada em três níveis distintos, tendo como critério o seu grau de evolução. � Sepse grau inicial: a infecção já causou a resposta inflamatória no sangue e o paciente apresenta, no mínimo, mais de dois sintomas ine- rentes à sepse. � Sepse grave: grau de evolução em que a infecção já extravazou dos vasos sanguíneos, comprometendo o funcionamento de um ou mais órgãos do corpo. � Choque séptico: grau mais avançado e grave da sepse, no qual há uma queda abrupta na pressão arterial, que já não pode mais ser controlada ou restabelecida por medicação via intravenosa (IV), fato que ocasiona a falência de órgãos e eventualmente a morte do paciente. Hemocultura2 O choque séptico é o grau de evolução da sepse com maior taxa de morta- lidade (Figura 1), pois o paciente apresenta diversos sintomas em decorrência da pressão arterial muito baixa, como hipotermia nas extremidades do corpo (braços e pernas), calafrios, dificuldade para respirar e baixa taxa de produ- ção de urina. Devido à baixa oxigenação do cérebro, há confusão mental e desorientação. Medidas emergenciais, nessa situação, incluem utilização de oxigênio suplementar, injeção de fluidos IV (p.ex., soro), antibioticoterapia e medicamentos para restabelecer a pressão arterial. A mortalidade de pa- cientes que chegam ao grau de choque séptico está entre 30 e 40% dos casos, taxa extremamente elevada que denota a gravidade da sepse (GUAREZE; BORDIGNON, 2016). Figura 1. Etapas da sepse. Fonte: Adaptada de Designua/Shutterstock.com. 2. Bactéria na corrente sanguínea 3. Saída dos vasos sanguíneos 4. Disfunção dos órgãosMorte 1. Origens da infecção 3Hemocultura Alguns parâmetros clínicos e laboratoriais, além de confirmarem e iden- tificarem o agente etiológico no sangue, podem ser usados como referência para diagnosticar a sepse: � temperatura corporal superior a 38°C ou inferior a 36°C; � frequência cardíaca superior a 90 batimentos por minuto; � frequência respiratória acima de 20/minuto ou PaCO2 (pressão parcial de gás carbônico) < 32 mmHg; � número de leucócitos sanguíneos > 12.000/µL ou < 4000/µL ou ainda > 10% de bastonetes + metamielócitos. Os bastonetes são neutrófilos imaturos pertencentes à série branca do sangue. O fato de estarem em baixa quantidade pode indicar baixa produção de neutrófilos ou, até mesmo, a destruição dessas células, por outro lado, quando estão em alta quantidade, é possível que haja infecção bacteriana aguda. Os metamielócitos também são glóbulos brancos imaturos granulócitos que representam um estágio posterior ao dos mielócitos, e sua quantificação serve como indicativo de infecção. Os focos primários de infecção mais comuns que podem levar à sepse são (GUAREZE; BORDIGNON, 2016): � dispositivos intravasculares (19%); � trato geniturinário (17%); � trato respiratório (12%); � intestino e peritônio (5%); � pele (5%); � trato biliar (4%); � abscesso intra-abdominal (3%); � outros sítios (8%); � sítios desconhecidos (27%). Hemocultura4 Agentes etiológicos na sepse Diversos focos iniciais, infectados por vários agentes etiológicos, podem disparar a resposta inflamatória que resultará na sepse. Esses agentes são, em sua maioria, bactérias, como a S. pneumoniae, que infecta os pulmões causando pneumonia. A S. pneumoniae é, certamente, o agente etiológico mais frequente associado à sepse. As bactérias mais comuns e seus respectivos focos primários em pacientes não hospitalizados estão listados no Quadro 1. Fonte: Adaptado de Levinson (2016). Foco infeccioso primário Principais bactérias Pele Staphylococcus aureus Streptococcus pyogenes Clostridium perfringens Pulmão Streptococcus pneumoniae Staphylococcus aureus Haemophilus influenzae Enterobactérias Vias urinárias Escherichia coli Intestino/abdome Enterobactérias Anaeróbios — bacilos gram-negativos Enterococcus faecalis Meninge Neisseria meningitidis Streptococcus pneumoniae Haemophilus influenzae Quadro 1. Principais agentes etiológicos relacionados à sepse e seus locais de infecção primários em pacientes não hospitalizados Crianças são um grupo de risco suscetível à sepse, devido ao fato de que seu sistema imunológico ainda não está completamente maduro, assim como os pacientes hospitalizados, por ficarem expostos a diferentes patógenos. Nesses dois casos, os agentes etiológicos mais comuns são mostrados no Quadro 2 (LEVINSON, 2016). 5Hemocultura Fonte: Adaptado de Levinson (2016). Paciente Principais bactérias Crianças Streptococcus agalactiae Haemophilus influenzae Neisseria meningitidis Staphylococcus aureus Salmonella spp. Pacientes hospitalizados Staphylococcus aureus Klebsiella pneumoniae e outras enterobactérias Pseudomonas aeruginosa Acinetobacter baumannii Enterococcus spp. Quadro 2. Principais agentes etiológicos relacionados à sepse e seus locais de infecção primários em crianças e pacientes hospitalizadosO risco de contrair infecções que podem promover a sepse é reduzido drasticamente se estes princípios básicos forem obedecidos: � seguir corretamente o cronograma de vacinação das crianças; � não se automedicar e/ou usar antibióticos indiscriminadamente; � lavar as mãos frequentemente utilizando água e sabão; � ter em mente que a febre em crianças pode ser um sintoma inicial; � realizar o tratamento prescrito pelo médico respeitando os prazos. Metodologia e aspectos da hemocultura O diagnóstico de infecções sanguíneas é imprescindível para atingir o sucesso nos tratamentos. Ele depende de uma avaliação clínico-laboratorial acurada e criteriosa que seja capaz de identificar e tratar corretamente o patógeno que originou a infecção. O sangue circulante, em indivíduos sadios, normalmente se encontra estéril. Embora alguns microrganismos que compõem a microbiota respiratória ou gastrintestinal possam atingir o sangue, estes são rapidamente eliminados pelo sistema reticuloendotelial. Hemocultura6 Nos indivíduos portadores de doenças infecciosas, o microrganismo pa- togênico, em geral bactérias ou fungos, pode cair na corrente sanguínea e expandir a infecção para diferentes órgãos e tecidos. Casos em que a invasão da corrente sanguínea ocorre sem grandes complicações são nomeados como bacteremia, diferentemente de infecções mais graves, como a sepse, na qual os microrganismos se propagam no sangue e induzem uma resposta inflamatória sistêmica (BROOKS et al., 2014). A hemocultura, metodologia que emprega a cultura de uma amostra de sangue em meios específicos, representa uma das ferramentas diagnósticas mais utilizadas em casos de suspeita de bacteremia ou sepse por ser de fácil execução e por fornecer informações altamente relevantes nesses casos. Por intermédio da hemocultura, é possível identificar a presença de patógenos viáveis no sangue, o que é de grande importância diagnóstica, já que estes podem causar sepse e são responsáveis por uma alta taxa de mortalidade. A hemocultura se torna mais importante em casos graves, nos quais o paciente apresenta febre persistente, mas sem acusar infecção em outros exames microbiológicos. Dos pacientes que chegam ao grau de sepse grave, 30 a 50% apresentam resultados positivos de hemocultura. A coleta de hemoculturas não é realizada em todos os quadros infecciosos. Nos casos das infecções bacterianas mais comuns, por exemplo, não é indicada a coleta de hemoculturas, pois a positividade dos exames é baixa, gerando apenas aumento nos custos do tratamento e nenhum tipo de retorno. Para infecções como sinusites, amigdalites, infecções de pele e tecido subcutâneo, indica-se o tratamento com administração dos antibióticos descritos na lite- ratura e empiricamente eficazes contra os agentes etiológicos. A coleta de sangue para hemocultura é indicada nos seguintes casos: � suspeita de endocardite; � suspeita de sepse ou bacteremia; � infecções hospitalares (antes ou após a troca de esquema de tratamento por antibióticos); � febre com origem desconhecida; � infecções em pacientes imunodeprimidos; � meningites (em conjunto com a coleta de líquor — líquido cefalorra- quidiano —, que é mais importante que a hemocultura nesses casos); � pneumonias graves. A solicitação de hemoculturas é sempre realizada pelo médico assistente que é responsável pelo paciente. 7Hemocultura No vídeo do Conselho Regional de Farmácia do estado do Paraná disponibilizado no link a seguir, você poderá assistir à palestra Hemocultura, realizada pela farmacêutica Dra. Laura Gogo. O vídeo apresenta diversas informações relevantes sobre hemocultura. https://qrgo.page.link/xxMks Procedimentos e técnicas de hemocultura Os materiais e equipamentos básicos para realizar a coleta do sangue são: � seringas hipodérmicas descartáveis estéreis; � gaze estéril; � frascos de coleta para armazenar o sangue; � agulhas hipodérmicas descartáveis estéreis e cateteres borboleta; � álcool 70% (pode ser iodado ou não); � estufa bacteriológica. Alguns procedimentos são padrão para a rotina de coleta de sangue: � realizar a coleta de sangue antes de iniciar qualquer terapia antimicrobiana; � deve-se coletar o periférico, que é imediatamente transferido para os frascos de hemocultura para evitar/mitigar a contaminação do sangue; � manipular as amostras com extrema cautela, pois estão potencialmente contaminadas e podem causar graves doenças infectocontagiosas; � para descartar as amostras, estas devem ser primeiramente autoclavadas. Hemocultura8 Os princípios da técnica são simples: � o frasco de hemocultura contendo amostra de sangue é incubado na temperatura de 35 a 37°C por até sete dias (14 dias para casos de suspeita de endocardite); � se houver crescimento no frasco, observado pela turvação e pelo au- mento do volume, o material é repicado em placas de petri que conte- nham diferentes tipos de meio de cultura, os quais variam de acordo com o agente etiológico; � na triagem, identifica-se o agente etiológico e se determina seu perfil de acordo com a resposta a antibióticos e outros fármacos. Alguns dos meios de cultura contidos nos frascos mais utilizados têm a composição apresentada a seguir. Meio TSB (caldo tríptico de soja, do inglês tryptic soy broth): � frascos contendo 9 (pediátrico), 45 ou 90 mL de meio TSB, nos quais são inoculados, respectivamente, 1, 5 ou 10 mL de sangue, resultando em uma proporção 1:10 de sangue e meio de cultura; � adição de SPS (polianetol sulfonato de sódio) ou EDTA (ácido etileno- diamino tetra-acético, do inglês ethylenediamine tetraacetic acid), que agem como anticoagulantes e inibem as atividades imunogênicas e as da enzima lisozima, impedindo, dessa forma, a fagocitose; � CO2 e vácuo para garantir anaerobiose. Alguns meios podem incluir sacarose, que serve como suporte osmótico, impedindo a lise e a dissolução das bactérias. Meio BHI (infusão cérebro e coração, do inglês brain heart infusion): � frascos com 45 mL de meio BHI, nos quais se inoculam 5 mL de sangue (proporção 1:10); � adição de SPS, CO2, processo de vácuo e PABA (ácido paraminoben- zoico) para inibir as sulfonamidas. 9Hemocultura No link a seguir, você terá acesso a um vídeo curto e didático no qual será demonstrada a forma correta de coletar sangue. https://qrgo.page.link/Dwtw1 A quantidade e o volume das amostras coletadas varia de acordo com a idade e o peso do paciente (Quadro 3). Em geral, recomenda-se a coleta de duas amostras de hemoculturas, de locais diferentes, podendo chegar a quatro, não excedendo essa quantidade por haver aumento desnecessário dos custos do tratamento. A definição de amostra equivale a uma punção, que, depois de coletada, será dividida em dois frascos para adultos ou um frasco para pacientes pediátricos até 13 kg. Essa quantidade de coleta permite isolar o agente etiológico com sucesso em mais de 95% dos casos. Fonte: Adaptado de Araujo (2012). Crianças até 13 kg Crianças de 13 a 36 kg Crianças > 36 kg e adultos Frasco aeróbio 1 a 4 mL 5 mL 5 a 10 mL Frasco anaeróbio — 5 mL 5 a 10 mL Volume total/ amostra 1 a 4 mL 10 mL 20 mL Quadro 3. Volume da coleta de sangue para hemocultura e tipos de frascos Hemocultura10 Cada punção realizada em adultos é, geralmente, dividida em dois frascos: um frasco para hemocultura de agentes aeróbios, como Neisseria spp. ou Pseudomonas spp., e um frasco para agentes anaeróbios (enterobactérias ou estafilococos, que são anaeróbios facultativos). Nas crianças, esses volumes mudam em função do peso e da volemia (quantidade de sangue circulante) (Quadro 4). Fonte: Adaptado de Araujo (2012). Peso (kg) Volemia (mL) Volume de sangue por amostra (mL) Volume total de sangue p/ cultura (mL) % da volemia Cultura nº 1 Cultura nº 2 ≤ 1 50 a 99 2 — 2 4 1,1 a 2 100 a 200 2 2 4 4 2 a 12,9 > 200 4 2 6 3 13 a 36 > 800 10 10 20 2,5 > 36 > 2.200 20 a 30 20 a 30 40 a 60 1,8 a 2,7 Quadro4. Volume de coleta de sangue sugerido para crianças e lactentes O melhor momento para a coleta de hemoculturas é durante o aumento da febre ou no pico febril. Nos casos de suspeita de endocardite, em particular, indica-se a coleta de três ou mais amostras, porém, se houver suspeita de infecção sanguínea ligada ao cateter central, recomenda-se a coleta de duas hemoculturas e uma cultura de ponta de cateter. Nos casos em que o médico opta pela permanência do cateter, é possível coletar uma amostra de ponta de cateter e duas de sangue periférico (GUAREZE; BORDIGNON, 2016). Outras recomendações mais genéricas podem ser vistas no Quadro 5. 11Hemocultura Fonte: Adaptado de Araujo (2012). Condição ou síndrome infecciosa Recomendações Suspeita de bacteriemia ou fungemia primária ou secundária (endocardite, meningite, osteomielite, pneumonia, etc.) Obter de duas a três amostras, uma após a outra, de diferentes sítios anatômicos logo após o início dos sintomas. Febre de origem indeterminada (p. ex., abscessos ocultos, febre tifoide, brucelose ou outra síndrome infecciosa não diagnosticada) Obter de duas a três amostras, uma após a outra, de diferentes sítios anatômicos, inicialmente. Se negativas nas primeiras 24 a 48 h de incubação, obter mais duas amostras, uma após a outra, de diferentes sítios anatômicos. Suspeita de bacteriemia ou fungemia com hemoculturas persistentemente negativas Considerar métodos alternativos de hemoculturas específicos para aumentar a recuperação de microbactérias, fungos ou microrganismos fastidiosos. Quadro 5. Indicações de coleta de acordo com a suspeita de caso Para realizar a leitura/diagnóstico da hemocultura manual, segue-se um protocolo de sete dias de incubação dos frascos, com agitação/inversão pe- riódica destes, sendo essa agitação um fator essencial para obter resultados positivos. Durante esses sete dias, realizam-se subcultivos em placas e tanto os frascos quanto esses subcultivos ficam mantidos a 35 ± 2°C. Para o primeiro subcultivo (cultura cega), determina-se que este seja realizado depois de 12 a 18 h do início da hemocultura, em uma placa de ágar-chocolate com incubação em atmosfera de CO2, e incubado por pelo menos 48 h, observando-se diariamente o possível crescimento de UFCs (unidades formadoras de colônias). A análise visual dos frascos deve ser realizada diariamente, partindo-se das 6 às 12 h do início da hemocultura, visando a verificar sinais de hemólise, turbidez, produção de gás ou bolhas e crescimento de biofilmes ou grumos, ou seja, qualquer alteração física visível no conteúdo do frasco até o sétimo dia de cultura que sinalize a possibilidade de positividade. No caso de detecção de alterações, realiza-se um subcultivo imediato da amostra e a preparação de uma lâmina para a microscopia a ser usada em coloração de Gram (ARAUJO, 2012). Hemocultura12 O manual disponibilizado no link a seguir, elaborado pelo Ministério da Saúde em conjunto com a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), fornece diversas informações sobre boas práticas em análises clinicas, incluindo a maneira como pro- ceder em hemoculturas. https://qrgo.page.link/huoHz Métodos automatizados de diagnóstico por hemocultura Além do método de hemocultura manual, existem outros métodos que se mostram muitas vezes mais eficientes, como os semiautomatizados e os automatizados. Método de lise-centrifugação Esse sistema foi considerado o padrão-ouro para hemoculturas durante muitos anos. Ele foi desenvolvido pelos laboratórios Wampole™ (sistema Isolator®) e é constituído de tubo a vácuo para sangue pediátrico ou adulto. O tubo contém uma substância hemolítica para leucócitos e hemácias, causando, portanto, a liberação de microrganismos intracelulares. Depois disso, os tubos são centrifugados e é desprezado o sobrenadante. O pellet formado, que possi- velmente contém o agente etiológico, é então utilizado para semear algum meio em placa de cultura, incluindo-se meios para Legionella, micobactérias e fungos (ARAUJO, 2012). 13Hemocultura Método semiautomatizado Nos sistemas semiautomatizados, os frascos de cultura são constituídos de uma parte para laminocultivo com duas faces, que ficam acoplados à parte superior de um recipiente plástico que contém TSB suplementado com ex- trato de levedura e SPS, sendo possível acrescentar outras substâncias com a finalidade de neutralizar agentes antimicrobianos. O laminocultivo contêm diversos meios, como ágar Sabouraud, ágar MacConkey e ágar-chocolate. Os frascos inferiores que ficam acoplados ao laminocultivo são alocados em estufa específica que verte os caldos periodicamente sobre o laminocultivo por inversão. No frasco, há também um indicador colorimétrico de CO2 que acusa a positividade da cultura. Outros exames, como a identificação etiológica, o an- tibiograma e a bacterioscopia, são realizados retirando colônias desenvolvidas diretamente no laminocultivo, sem a necessidade de subcultivo (ARAUJO, 2012). Acesse o link a seguir e assista a um vídeo curto e didático que mostra o funcionamento de um equipamento de hemocultura semiautomatizado com diversos frascos em seu interior. https://qrgo.page.link/3Sfg7 Método automatizado A hemocultura automatizada requer um equipamento específico para a in- cubação e a inversão dos frascos (Figura 2). Existem diversos equipamentos automatizados no mercado, e as principais vantagens desse tipo de hemocul- tura, quando comparada ao método manual, dizem respeito à velocidade de obtenção de resultados e à menor necessidade de trabalho laboratorial técnico. Hemocultura14 Figura 2. Equipamento automatizado de hemocul- tura com amostras contidas nos frascos de coleta. Fonte: Tajang/Shutterstock.com. Grande parte dos protocolos recomenda cinco dias de incubação, no en- tanto, os resultados positivos são obtidos, majoritariamente, nas primeiras 48 h de cultivo. Na maioria dos equipamentos automatizados, as metodologias têm como princípio tecnológico a detecção fluorimétrica ou colorimétrica. Existem outras diversas vantagens e benefícios ao usar essa metodologia, tais como: � monitoramento contínuo (leituras intervaladas em minutos); � maior sensibilidade e rapidez para detecção da positividade da amostra (agitação); � possibilidade de criação de um banco de dados contendo informações dos patógenos isolados e a sua localização demográfica; � mitigação do risco de contaminação; � amostras negativas não são repicadas; � economia de tempo (resultados mais rápidos) e de insumos; � risco de contaminação durante a manipulação praticamente inexistente; 15Hemocultura � como são usados frascos de plástico, estes são mais leves e oferecem menor risco associado a acidentes. Como principal desvantagem, o custo financeiro da utilização do método ainda é alto, muitas vezes sendo mais aconselhável utilizar o método manual. Nos laboratórios grandes, que dispõem de recursos financeiros e aplicam as metodologias automatizadas, é comum o uso de meios de cultura com resinas ou carvão ativado, pois estes causam a inibição da ação de antimicrobianos e são extremamente úteis nos casos em que os pacientes já receberam antibio- ticoterapia prévia à hemocultura. Em relação aos frascos, os utilizados para cultivos aeróbios precisam ter uma área suficiente de volume de ar que permita o crescimento de bactérias aeróbias estritas, como, por exemplo, P. aeruginosa e algumas leveduras, já os anaeróbios devem ter uma mistura de gases livres que não contenha oxigênio, mantendo-se o vácuo durante a coleta. No que diz respeito aos meios de cultivo, entre as diversas marcas e variedades, os desempenhos são muito semelhantes quanto à identificação dos patógenos mais frequentes (GUAREZE; BORDIGNON, 2016). ARAUJO, M. R. E. Hemocultura: recomendações de coleta, processamento e interpre- tação dos resultados. Journal of Infection Control, v. 1, n. 1, p. 8−19, 2012. BROOKS, F. et al. Microbiologiamédica de Jawetz, Melnick e Adelberg. 26. ed. Porto Alegre: AMGH, 2014. (Lange). GUAREZE, G. M.; BORDIGNON, J. C. Estudo comparativo entre hemocultura automa- tizada e manual em um laboratório do sudoeste do Paraná, Brasil. Revista RBAC, v. 48, n. 3, 2016. Disponível em: http://www.rbac.org.br/artigos/estudo-comparativo-entre- -hemocultura-automatizada-e-manual-em-um-laboratorio-do-sudoeste-do-parana- -brasil-48n-3/. Acesso em: 5 out. 2019. LEVINSON, W. Microbiologia e imunologia médicas. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2016. (Lange). Hemocultura16 Leituras recomendadas BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de procedimentos básicos em microbiologia clínica para o controle de infecção hospitalar. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2009. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_procedimentos_microbio- logiaclinica_controle_infechospitalar.pdf. Acesso em: 5 out. 2019. COLETA de hemocultura. 2018. 1 vídeo (3 min). Publicado pelo canal Conhecendo Análises Clínicas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=GaVl7TCYbOs. Acesso em: 5 out. 2019. ESTUFA Hemobac Trifásico ®: Probac do Brasil. 1 vídeo (29 seg). Publicado pelo canal ProbacdoBrasil. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iKoBwPPZqGo. Acesso em: 5 out. 2019. PALESTRA: hemocultura. 2014. 1 vídeo (27 min). Publicado pelo canal Conselho Re- gional de Farmácia do Estado do Paraná. Disponível em: https://www.youtube.com/ watch?v=qkx-yz2W5yE&t=76s. Acesso em: 5 out. 2019. 17Hemocultura