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gente criando o futuro EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS Organizadora Glória Freitas EDUCAÇÃO DAS RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS Organizadora Glória Freitas Educação das Relações Étnico-Raciais GRUPO SER EDUCACIONAL C M Y CM MY CY CMY K SUMÁRIO UNIDADE 01 Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional 12 Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional: conceito de diversidade cultural 12 Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e a presença dela na escola 21 Reconhecendo o discurso pedagógico da diversidade 27 Entendendo a introdução a educação étnico-racial 40 Entendendo a introdução a educação étnico-racial: conceitos de etnia e raça 40 Entendendo a introdução a educação étnico-racial na realidade brasileira 42 Analisando os fundamentos legais para a educação das relações étnico-raciais 46 UNIDADE 02 Reconhecendo o contato com a realidade de outro: histórias, culturas e sociedades africanas (literatura, arte, língua e cultura africanas e afro-brasileiras) 60 Reconhecendo o contato com a realidade de outro e o conceito de alteridade 60 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 6ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 6 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Reconhecendo o contato com a realidade de outro: histórias, culturas e sociedades africanas (literatura, arte, língua e cultura africanas e afro-brasileiras) 69 Definindo o outro: o negro na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições da matriz africana nas artes brasileiras e a resistência negra no Brasil 76 Relembrando o contato com a realidade do outro: histórias, culturas e sociedades ameríndias e os diversos povos indígenas do Brasil: culturas indígenas no Brasil. (literatura, arte, língua e cultura indígenas brasileiras) 87 Nomeando o outro: os povos indígenas na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições dos povos indígenas nas artes brasileiras e resistência indígena no Brasil 95 UNIDADE 03 Refletindo sobre a diversidade cultural e sobre o respeito às diferenças 108 Refletindo sobre a diversidade cultural e sobre o respeito às diferenças: questões iniciais e essências sobre diversidade e diferenças nas práticas pedagógicas 108 Refletindo sobre a diversidade cultural e sobre às diferenças, nas práticas pedagógicas: diferenças ambiental-ecológica, étnico- racial, de gêneros, faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais, escolhas sexuais, entre outras 112 Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente 122 Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente: histórias, pensamentos e conquistas 122 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 7ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 7 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente: refletindo sobre o futuro do respeito às diferenças 132 Desenvolvendo uma prática pedagógica que contemple o outro e suas semelhanças e diferenças 138 Avaliando a necessidade de repensar o papel do educador diante da diversidade cultural 146 UNIDADE 04 Reconhecendo a escola como espaço privilegiado de encontro das diferenças 154 Desenvolvendo metodologia de ensino em educação das relações étnico-raciais 162 Desenvolvendo metodologia de ensino em educação das relações étnico-raciais: questões conceituais 162 Desenvolvendo metodologia de ensino em educação das relações étnico-raciais, na busca de reflexivas e criativas práticas 166 Produzindo uma educação voltada às relações étnico- raciais 173 Planejando currículo e práxis pedagógica voltados a diversidade cultural e etnicorracial: questões iniciais sobre currículo e práxis pedagógica 180 Planejando currículo e práxis pedagógica voltados a diversidade cultural e etnicorracial: recomendações curriculares legais brasileiras 184 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 8ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 8 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 9 UNIDADE 01 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 9ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 9 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais10 Olá! Você estudará nesta unidade acerca da diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e o discurso pedagógico da diversidade, especialmente no ambiente escolar. Além disso, veremos sobre a educação a partir dos conceitos de etnia e raça, sobretudo na realidade brasileira. E ainda, analisaremos os fundamentos legais da educação das relações étnico-raciais. Preparado(a)? Ao longo deste estudo você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 10ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 10 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 11 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 1. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: OBJETIVOS 1 Entender a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional; 2 Reconhecer o discurso pedagógico da diversidade; 3 Compreender os conceitos básicos da educação étnico-racial; 4 Analisar os fundamentos legais para a educação das relações étnico-raciais. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 11ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 11 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais12 Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional Ao término deste capítulo você será capaz de reconhecer a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e o Discurso Pedagógico da Diversidade, o conceito de Diversidade Cultural e a presença da Diversidade Cultural na escola. Conseguirá explicar a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional. Será capaz de reconhecer o Discurso Pedagógico da Diversi- dade e entender a introdução a Educação Étnico-Racial. Por fim, será capaz de analisar os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Isto será fundamental para o exercício de sua profissão. Isto será fundamental para a sua compreensão sobre a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional e o Discurso Pedagógico da Diversidade. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional: conceito de diversidade cultural Vamos começar explicando a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional, e isso requer a busca do conceito de Diversidade Cultural para conseguirmos melhor explicá-la. Você já conhece a expressão Diversidade ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 12ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 12 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 13 Cultural? Em algum momento de sua formação estudantil já leu ou ouviu que a Diversidade Cultural seria algo relevante na nossa formação humana e na formaçãodo Povo Brasileiro? Já ouviu alguém falando sobre a importância de os futuros educadores reconhecerem as diversidades culturais que aparecem dentro de sala de aula? E ouviu professores falando sobre isso? Estas e outras indagações levam a uma questão inicial e que precisará ser respondida: afinal, qual é o significado de Diversidade Cultural? Diversidade pode significar variedade, diferença e multiplicidade. A diferença é qualidade do que é diferente; o que distingue uma coisa de outra, a falta de igualdade ou de semelhança (ABRAMOVICH, 2006, p. 12). Diversidade Cultural remete ao termo cultura. Cultura está relacionada a todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo ser humano não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade da qual é membro. Em 1871, cultura foi definida por Edward Burnett Tylor, na sua obra “Acultura primitiva”, é todo o complexo de conhecimentos, artes, moral, crenças, costumes, leis, costumes, capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem, como membro e dentro da sociedade (TYLOR, 1871). Entendemos que cultura não pode ser pensada de forma singular. O mais certo é dizer culturas, sempre no plural, lembrando que são mutantes, ou seja, mudam os valores, leis, práticas. São múltiplas as crenças e variadas às práticas. Como são diversificadas as instituições, dentre das diferentes formações sociais! Na realidade, é verdadeiro afirmar que dentro de uma sociedade, como a brasileira, por exemplo, caracterizada por ser, como qualquer outra, temporal e histórica, que aconteçam muitas transformações culturais (CHAUÍ, 1995). Claro que os futuros professores necessitarão de reflexões sobre a definição de cultura. Ou seriam definições? O que é inegável é que você pertence a uma cultura local, situada em uma ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 13ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 13 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais14 determinada região do Brasil, e na região em que você vive existem distintos grupos sociais. Existem no Brasil minorias étnicas como os Povos Indígenas ou Povos Originários do Brasil. E existe uma cultura universal e que é patrimônio da humanidade. A cultura é um processo de humanização que imprime significados da vida social. Em sociedades plurais, como a sociedade brasileira, convivem diferentes matrizes culturais, diferentes idiomas culturais. Cada uma das culturas consigna uma visão de mundo, um quadro próprio de referência, seus próprios modos de pensar, de conhecer, de sentir, de fazer, de ser. Assim é comum que cada cultura desenvolva seus próprios sistemas de classificação, capaz de organizar o real, em conformidade com a sua própria lógica simbólica. Sendo assim as distintas culturas carregam suas dessemelhanças. Não são mesmo iguais, são diversas, são diferentes. Pensando na nossa realidade brasileira, a nossa diversidade cultural é resultante da sociedade plural que somos de norte ao sul desse imenso país. Figura 1 Fonte: freepik ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 14ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 14 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 15 Como querer afirmar que somos sujeitos submetidos a uma cultura única e indivisível, chamada Cultura Nacional Brasileira? Como somos pertencentes a esta sociedade plural, decorrente disso surge esta vastidão de diversidades culturais, neste país chamado Brasil. O que não quer dizer que tudo é pacífico, integrado e ocorra em uma perfeita união entre tantas diversidades culturais. Algo impede uma maior comunicação entre nossas diversidades culturais. Diante disso, o que dificulta e impede é o fato de estarmos imersos na ideia etnocêntrica de que algumas diversidades culturais são superiores ou melhores que outras. O que impede que sejamos capazes de reconhecer e respeitar as alteridades, aquilo que o outro é e representa diferente de si. E isso causa exclusões ou desrespeitos às outras diversidades culturais. Ou seja: Embora se intercomuniquem, essa comunicabilidade é regida pelo ordenamento social de natureza etnocêntrica que estrutura as relações de alteridade em nossa sociedade. Os mecanismos de integração, assimilação, disjunção e troca, na medida em que orientados etnocentrica- mente, configuram uma dinâmica assimétrica, exclu- dente. (BANDEIRA, 2003, p. 143) Diversidade cultural pode ser conceituada como a representação, dentro de um sistema social, de pessoas afiliadas aos grupos distintamente diferentes, do ponto de vista de significado cultural (HANASHIRO; CARVALHO, 2005). Trazendo a luz à discussão das diversificadas expressões culturais, entre diferentes grupos, majoritários ou minoritários. Outra forma de conceituar Diversidade Cultural, levando em conta a ideia de Identidade Cultural (o que se relaciona com as certezas que temos de pertencimento a uma determinada cultura), é afirmar que se trata de um conjunto imenso de pessoas, que não partilham das mesmas identidades grupais, suas identidades enquanto pertencentes a grupos são distintas e bem delimitadas, mesmo que vivam no mesmo sistema social. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 15ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 15 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais16 O autor completa que, a diversidade cultural englobaria os mais diversos grupamentos humanos, percorrendo um caminho que passa por raça e por gênero, dando conta de abarcar a idade, história pessoal e corporativa, formação educacional, função e personalidade. Inclui, também, estilo de vida, preferência sexual, origem geográfica. Além disso, existem conceituações que diferenciam dimen- sões primárias, definidas como diferenças humanas imutáveis, tais como idade, etnia, gênero, raça, orientação sexual e habili- dades físicas; e diferenças secundárias mutáveis: como formação educacional, localização geográ-fica e experiência de trabalho. Nas nossas ações sociais e culturais demonstramos que cada um de nós passa por um processo de produção da iden- tidade e de diferença. E isso nos diferencia uns dos outros. E que precisam ser respeitados socialmente e no âmbito das instituições que frequentamos, principalmente na escola. Os que trabalham na escola devem ir além da tolerância, do respeito às diferenças, com relação a identidade e diferença de cada aluno, e isso começa por procurar entender como são produzidas as identidades culturais. A diversidade biológica pode ser um produto da natureza; o mesmo não se pode dizer da diversidade cultural. A diversidade cultural não é, nunca, um ponto de origem: ela é, em vez disso, o ponto final de um processo conduzido por operações de diferenciação. Uma política pedagógica e curricular da identidade e da diferença tem a obrigação de ir além das benevolentes declarações de boa vontade para com a diferença. Ela tem que colocar no seu centro uma teoria que permita não simplesmente reconhecer e celebrar a diferença e a identidade, mas questioná-las. (SILVA,2000, p. 100) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 16ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 16 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 17 É interessante começar a busca pelos significados da expressão Diversidade Cultural, destacando o cuidado e diferen- ciando-a do senso comum, daquilo que costumamos ouvir e de opiniões pessoais. Diversidade Cultural não é fazer a defesa de que o nosso país, o Brasil, é pluriétnico (formadopor muitas etnias diferentes, tanto autóctones (nativas) ou que vieram de outros continentes como o africano, europeu e asiático, e é pluricultural (diferentes culturas estão presentes na nossa realidade). Não devemos confundir diversidade cultural com uma polí- tica universalista, de maneira a contemplar o todo, todas as formas culturais, todas as culturas, como se pudessem ser dialogadas, trocadas (ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p. 94). Passando uma impressão errônea que a diversidade cultural seria o campo esvaziado da diferença, ou seja, a diversidade cultural acaba por abolir diferenças profundas e intensas das pessoas e de seus grupos sociais de pertencimento. Isso não é verdade! A diversidade Cultural precisa ser diferenciada das expli- cações que aniquilem as desigualdades. Já que as desigualdades são reais e expressas em muitos modos, inclusive pelas mani- festações culturais de distintos grupos sociais. Há desigualdades irreconciliáveis, seja de poder, seja das classes sociais, mas isto é obscurecido. Portanto, há muitas maneiras de esvaziar aquilo que são diferenças que é o contrário da construção identitária, pois cabe às diferenças: borrá-las. Em relação à diversidade supõe-se que a troca se realiza entre homens livres e iguais, o que sabemos não existe.(ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p. 94) O instigante tema diversidade cultural convoca a um posicionamento crítico e político, solicitando um novo olhar. E é mais ampliado que consiga abarcar os seus múltiplos recortes. Diante de uma realidade cultural e racialmente miscigenada, como é o caso da sociedade brasileira, essa tarefa torna-se ainda mais desafiadora. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 17ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 17 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais18 Ao falar em diversidade cultural, entram em cena partes consideráveis da população brasileira: negros, índios, mulheres, homossexuais e pessoas com deficiência, ganham visibilidades às lutas que estes grupos travaram, ao longo da história do Brasil, batalhas para garantir às suas diversidades e o clamor por políticas públicas que sejam capazes de atender os seus anseios. É interessante ressaltar que alguns sujeitos e grupos vão à luta para garantir suas visibilidades e em busca de políticas públicas afirmativas, como os Povos Indígenas Brasileiros e os Afrodescendentes. É perceptível que: [...] imigração, gênero, sexualidade, raça, etnia, religião e língua são os principais fatores que desencadearam um processo de mobilização e discussão sobre a diversidade, sendo que em vários contextos esses fatores estão inter- relacionados ou interseccionados. (ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p. 87) É possível entender diversidade cultural como sendo as diferenças construídas culturalmente, tornando-se, então, empiricamente observáveis; e ainda podemos entender como diversidade cultural as diferenças também construídas ao longo do processo histórico, nas relações sociais e nas relações de poder. Muitas vezes, os grupos humanos tornam o outro diferente para fazê-lo inimigo, para dominá-lo. Gomes (2003) fala que, tratar da diversidade cultural vai além de reconhecer o outro, saber da existência dele com e na sua diferença. Constituem pensar a relação entre o Eu e o Outro. Eis o encantamento em discutir sobre a diversidade. Ao considerarmos o outro, o diferente, não deixamos de focar a atenção sobre o nosso grupo, a nossa história, o nosso povo. Ou seja, falamos o tempo inteiro em semelhanças e diferenças. Diversidade cultural vai além do ato de analisar um com- portamento individual. E ainda exige uma discussão política, em razão de a diversidade cultural tratar das relações estabelecidas entre os grupos humanos, e por isso mesmo não está fora das ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 18ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 18 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 19 relações de poder. Ela diz respeito aos padrões e aos valores que regulam essas relações (GOMES, 2003, p. 72). Ao relacionar a discussão da diversidade cultural inseridas nas atividades escolares é necessário impedir que ele seja pensado como um tema transversal. Muito mais do que um tema ou um conteúdo a ser incluído no currículo, a diversidade cultural é um componente do humano. Ela é constituinte da nossa formação humana. Somos sujeitos sociais, históricos, culturais e, por isso, mesmo diferentes (GOMES, 2003, p. 73). Quando a educação se volta para a garantia da diversidade cultural, realiza um direito das crianças. E, ainda, faz das diferenças um trunfo, explorá-las na sua riqueza, possibilitar a troca, proceder como grupo, entender que o acontecer humano é feito de avanços e limites. O que significa abrir conexões entre tantos elementos distintos da vasta cultura brasileira. Em uma busca intensa pelo novo e capaz de incentivar as vidas dos educandos, devendo levar os educadores a buscar a adoção de práticas pedagógicas, sociais e políticas em que as diferenças sejam entendidas como parte de nossa vivência e não como algo exótico e nem como desvio ou desvantagem. A diversidade é uma mistura de pessoas, detentoras de identidades distintas, mas interagindo em um só sistema social. Nesses sistemas, coexistem grupos de maioria e de minoria. Os grupos de maioria são os grupos cujos membros historicamente obtiveram vantagens em termos de recursos econômicos e de poder em relação aos outros. Ao falar diversidade cultural aparece à necessidade de saber o que queremos dizer com a palavra Diversidade e com a palavra Cultura, e, posteriormente será possível chegar a um significado para a expressão Diversidade Cultural. A diversidade cultural é a riqueza da humanidade. Para cumprir sua tarefa humanista, a escola precisa mostrar aos alunos que existem outras culturas além da sua. Por isso, a escola tem que ser local, como ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 19ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 19 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais20 ponto de partida, mas tem que ser internacional e intercultural, como ponto de chegada. Autonomia da escola não significa isolamento, fechamento numa cultura particular. Escola autônoma significa escola curiosa, ousada, buscando dialogar com todas as culturas e concepções de mundo. Pluralismo não significa ecletismo, um conjunto amorfo de retalhos culturais. Significa sobretudo diálogo com todas as culturas, a partir de uma cultura que se abre as demais. (GADOTTI, 1992, p. 23) Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Educação para a Diversidade: uma prática a ser construída na Educação Básica (Silva, 2007), acessível pelo link: https://bit.ly/2MDZSVR. (Acesso em 19/12/2019). SAIBA MAIS Figura 2: Cerimônia de encerramento da nona edição dos Jogos dos Povos Indígenas (Olinda PE) Fonte: Wikimedia Commons ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 20ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 20 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 21 Explicando a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e a presença dela na escola. Você já é capaz de explicar a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional e conceituar diversidade cultural? Agora, você vai será desafiado a conseguir explicar a diversidade cultural como característica da nossa formação humana e nacional, e refletir sobre a presençadela na escola. As reflexões e publicações sobre temas como diversidade cultural, na sua relação com as minorias, impôs como um tema proeminente, em países da América do Norte - Canadá e Estados Unidos. Desde a década de 60, os movimentos políticos a favor da integração racial levaram à promulgação de leis visando à igualdade de oportunidades de educação e ao emprego para todos (FLEURY, 2000, p.19). Zelosos dos seus importantes papéis, os educadores deverão agir para integrar as diversidades culturais que coexistam dentro da escola e da sala de aula, instaurando um respeito as alteridades, aos outros e aos alunos. Levando em consideração os discursos simbólicos que consigam justificar as relações de alteridade, o formato e a maneira como esses discursos se reproduzem ou de como enfatizam determinados fragmentos temáticos, oportunos em dada situação, momento ou contexto particular, sempre transformando a diferença em desigualdade (BANDEIRA, 2003, p. 143) Estar em uma escola, aprendendo ou lecionando, representa momentos significativos para ter contato e adquirir elementos importantes da cultura universal. Bem como é uma oportunidade de aprender a lidar com as diferenças locais, regionais, de cada grupo social, raciais, de gênero e convivendo com as minorias étnicas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 21ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 21 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais22 A diversidade étnico-cultural nos mostra que os sujeitos sociais, sendo históricos, são, também, culturais. Essa constatação indica que é necessário repensar, rompendo com as práticas seletivas, fragmentadas, corporativistas, sexistas e racistas. (GOMES e GONÇALVES e SILVA, 2006, p. 25) Dentro desta perspectiva, cabe ao educador, ao deparar-se com as diversas manifestações culturais populares ou culturas da cidadania, agir respeitando-as e dando-lhes vozes, dentro da escola. Cultura popular seria, na perspectiva de Paulo Freire, tomada de consciência da realidade nacional, para produzir transformações e criar formas de relações sociais e políticas; significa consciência de direitos, possibilidade de criar novos direitos e capacidade de defendê-los contra o autoritarismo, a violência (simbólica ou não) e o arbítrio. Interessará, certamente, a cada futuro educador, usar seu tempo na universidade, para preparar e consolidar, um modo adequado e consistente para o exercício do magistério, focado na realidade de que os alunos trazem múltiplas expressões de distintas culturas, implicando a necessidade de a educação ser multicultural, pluralista (não são homogêneos mesmos os alunos, como não somos homogêneos os brasileiros). E, as futuras ações didáticas deverão ser focadas no respeito à cultura de cada aluno, portanto, democrática. Cada educador deverá estar disposto a instaurar a equidade e o respeito mútuo, superando preconceitos de toda espécie, principalmente os preconceitos de raça e de pobreza. O que significa que o professor deverá ter respeito aos direitos dos alunos e que ninguém poderá deixar de matriculado e de permanecer na escola por qualquer tipo de preconceito. Neste sentido, os estudantes universitários que estão almejando os exercícios do magistério deverão aprender sobre a importância da renovação dos conteúdos culturais escolares, fazendo dialogar com a educação regular (aquela que acontece nas salas de aula), com os conteúdos aprendidos no âmbito da educação não-formal, firmando compromissos com uma educação para a equidade. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 22ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 22 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 23 Figura 3 Fonte: freepik Isso acontece quando se leva a sério a diferença cultural. O respeito aos direitos humanos é fator para a democracia e, justamente, democracia e direitos humanos não se constituíram, a não ser muito recentemente e com exceções, em conteúdos nodais da escola brasileira. É preciso experimentar uma educação multicultural, focada no que é universal e ao mesmo tempo é específico de um povo. Toda escola deve abrir os horizontes de seus alunos para a compreensão de outras culturas, de outras linguagens e modos de pensar, num mundo cada vez mais próximo, procurando construir uma sociedade pluralista e interdependente. As crianças chegam às escolas e carregam suas condições sociais próprias e relacionadas aos grupos sociais que pertencem. É necessário perceber que elas não são apenas portadoras de especialidades biopsicológicas. Os educadores precisam entender que a infância é uma construção social. Infância é distinta de imaturidade biológica, não é natural nem universal e aparece como componente estrutural de muitas sociedades (ROCHA; COSTA, 2014, p.85). Por isso, é importante verificar as relações sociais em que as crianças estão inseridas, ao mesmo tempo em que devem ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 23ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 23 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais24 ser vistas como participantes do mundo social e produtores de culturas diversas. Devem ser vistas como ativas na construção e determinação das suas próprias vidas, das vidas dos que cercam e das sociedades onde vivem. Crianças não são sujeitos passivos das estruturas. As crianças interagem com muitos subgrupos etários e não ficam estáticos nas suas capacidades de ação, de expressar sentimentos e pensamentos, de movimentar-se com autonomia. É importante lembrar que as crianças são constituídas como seres sociais, e assim sendo disseminam-se pelos diversos modos de estratificação social: a classe social, a etnia a que pertencem, a raça, o gênero, a região do globo onde vivem. Os diferentes espaços estruturais diferenciam profundamente as crianças. (SARMENTO, 2005, p. 370) Vamos a um exemplo prático, ao comparar um menino europeu, na faixa etária entre 6 e 12 anos, pertencente a etnia dominante europeia e de raça branca, com família submetida as condições econômicas favoráveis e possuindo maiores possibilidades de viver com saúde, que tem acesso e permanência escolar garantidos, com seus direitos de brincar, ser alimentado suficientemente, portar boas roupas, ter brinquedos, viver em uma boa casa e ter horas de lazer favorecidas, em comparação com uma menina da América do Sul, na Índia ou África, vinda das classes populares e mais empobrecidas sul-americanas, indianas ou africanas, é imprescindível entender que a diversidade social e cultural distingue este menino europeu destas meninas que vivem em condições econômicas precárias, em seus distintos continentes. Isso significa que são bastante menores, neste caso, as possibilidades de estudar, brincar e aceder a bens de consumo, e muito maiores as possibilidades de estar doente e de ter sobre os ombros as responsabilidades e os encargos domésticos. As crianças demandam tratamentos que levem em conta a diversidade que as tornam os sujeitos que são. Não é justo que o educador, na sala de aula, as veja parcialmente. É imperativo que os professores façam distinções efetivas, conceituais, semânticas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 24ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 24 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 25 (processos de referenciação e significação próprias das crianças sobre a infância e suas diversidades culturais, sintáticas (relativas às regras de articulação entre os elementos simbólicos) e morfológicas (referentes a especificaçãodas formas que adotam os elementos característicos das culturas da infância). Desta forma, cabe ao professor entender que a criança enquanto um sujeito concreto que integra essa categoria geracional e que, na sua existência, para além da pertença a um grupo etário próprio, é sempre um ator social que pertence a uma classe social, a um gênero etc. Assim, cada criança deverá ser tratada como um sujeito que vive mergulhado à sua própria diversidade cultural, e que poderá até coincidir em alguns elementos com as culturas de seus professores, mas difere em muitos pontos e precisará ser respeitada no seu direito a sua específica diversidade cultural. Junto com seus pares, com as crianças que compartilham o seu cotidiano, a escola deverá não coibir a apropriação, reinvenção e a reprodução que elas produzem juntas, colaborando para conseguir lidar com experiências contraproducentes, ao mesmo tempo em que se estabelecem fronteiras de inclusão e exclusão (de gênero, de subgrupos etários, de status), que estão fortemente implicados nos processos de identificação social. Caberá aos que planejam as rotinas educativas: [...] construir novos espaços educativos que reinventem a escola pública como a casa das crianças, reencontrando a sua vocação primordial, isto é, o lugar onde as crianças se constituem, pela ação cultural, em seres ditados do direito de participação cidadã no espaço coletivo. (SARMENTO, 2002, p. 16) É necessário levar em conta a criança enquanto portadora de diversidade cultural, e a responsabilidade do educador como quem sustenta, com bastante respeito, lugares de convivências criativas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 25ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 25 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais26 Deve-se deixá-las livres como atores sociais, nas diversidades culturais e nas alteridades delas. Cada criança deve ser reconhecida como Outro e reconhecer as demais naquilo que elas carregam como Outro também, com os adultos. As condições culturais e sociais são heterogêneas, mas incidem perante uma condição infantil comum: a de uma geração desprovida de condições autônomas de sobrevivência e de crescimento e que está sob o controle da geração adulta. Os conteúdos e as formas presentes nas culturas infantis são interdependentes das culturas das sociedades onde vivem, sendo afetadas pelas mais diversas relações de classe, de gênero e de proveniência étnica, que impedem definitivamente a fixação num sistema coerente único dos modos de significação e ação infantil. As crianças precisam ser reconhecidas como produtores de cultura própria à sua geração. E são estas culturas da infância que exprimem as contradições que visualizam na sociedade em que habitam. A escola e a família são espaços que oferecem interações diversas e o contato com culturas dirigidas pelos adultos (pais e professores) e culturas construídas nesses encontros entre as crianças. Os adultos costumam oferecer produtos de suas culturas às crianças. Passam às novas gerações suas decisões arbitrárias ao selecionarem ou recusarem alguns valores e saberes. Isso acontece com os pais, com os educadores e é perceptível no conjunto de dispositivos culturais produzidos para as crianças, com uma orientação do mercado, configuradora da indústria cultural para a infância (literatura infantil, jogos e brinquedos, cinema, bandas-desenhadas, jogos vídeo e informativos, sites e outros dispositivos da Internet, serviços variados – de férias, de tempos livres, de comemoração de aniversário, de festas, etc.). (SARMENTO, 2002, p. 5) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 26ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 26 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 27 E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo até aqui, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido, até este momento, a explicar a Diversidade Cultural como Característica da nossa Formação Humana e Nacional, o conceito de Diversidade Cultural e a presença da Diversidade Cultural na escola. Reconhecendo o discurso pedagógico da diversidade Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Multiculturalismo e educação: em defesa da diversidade cultural (Silva, 2007), acessível pelo link: https://bit.ly/2BHZHq5 (Acesso em 19/12/2019). SAIBA MAIS Reconhecendo o discurso pedagógico da diversidade é necessário para você entender as responsabilidades e adesões da escola e dos educadores sobre a importância de promover a diversidade nas atividades educativas. Você percorrerá pela história do discurso pedagógico hegemônico, desde a idade moderna, e posteriormente entenderá sua diferenciação com o discurso pedagógico da diversidade. OBJETIVO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 27ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 27 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais28 O Discurso Pedagógico revela aquilo acontece nas relações entre os professores e os alunos, dos detalhes mais insignificantes aos mais essenciais. Trata nas formas como a escola pretende modificar as mentes, os modos de agir e de pensar das novas gerações a favor da Diversidade. É inegável que as nossas indissociáveis e interdependentes identidades e diferenças, são geradas a partir da nossa condição de sujeitos ou asujeitados à linguagem, no âmbito de um específico dentro discurso. Isso deve inspirar os educadores a examinar, minuciosamente, seus modos de produção, onde e quando foram produzidas, através do discurso. A maioria das escolas costumam operar a favor da normalização e este movimento, no interior das salas de aulas parece estar produzindo mais expurgo da norma do que identidades encaixadas na ordem. Quer dizer, há cada vez mais ‘estranhos’ do que ‘normais’. Na medida em que os professores tentam domar as identidades dos seus alunos mais proliferam as diferenças. Indagando se não existiria uma possibilidade pedagógica para lidar com a diferença sem excluí-la, Costa (2008) defende que seria indispensável desessencializar as identidades e historicizá-las, mostrar e problematizar as identidades em sua face construída, produzida nas injunções políticas do poder no interior das sociedades e das culturas. O pensamento de Michel Foucault vai ajudar você a entender sobre os discursos e sobre as práticas atreladas a eles. Este autor francês entendia que os discursos são poderosos, agem, vigiam e controlam os sujeitos. É bem difícil escapar de tanta vigilância e das recorrentes punições nas instituições, dos rótulos que vão sendo pregados na testa dos que não respeitam as normas, a partir da saída da Idade Média, na Idade moderna. São os discursos eles mesmos que exercem seu próprio controle; procedimentos que funcionam, sobretudo, a título de princípios de classificação, de ordenação, de distribuição, como se tratasse desta vez, de submeter ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 28ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 28 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 29 outra dimensão do discurso: a do acontecimento e do acaso. (FOUCAULT, 2002 p. 21) Historicamente, a partir da modernidade, a escola passa a agir de um modo diferenciado das práticas medievais. Foucault bem mais tarde estudou este momento histórico (século XX). Estudou os colégios da Era Moderna, seus disciplinamentos, vigilâncias e punições, respaldadaspelo discurso hegemônico moderno, com seus objetivos de controlar e moldar a subjetivação dos sujeitos na modernidade, focando na formação do aluno, filho dos burgueses e cristãos. Tal discurso carregava seus mecanismos de poder, controle e disciplinamento, que eram vistos como inquestionáveis e posteriormente naturalizados como regras infalíveis em nome da racionalidade, para educar as novas gerações. Interessou a Foucault estudar sobre a história das construções sociais impostas sobre os alunos, bem como os saberes e poderes que os discursos pedagógicos veiculam. Suas pesquisas sobre este importante momento da história da educação revelaram o aluno, na modernidade, asujeitado ao discurso pedagógico e seus métodos, mostrando seu poder dentro dos colégios. E tal poder é conhecido como poder disciplinar: O poder disciplinar é, com efeito, um poder que, em vez de se apropriar e de retirar, tem como função maior ‘adestrar’; ou sem dúvida adestrar para retirar e se apropriar ainda mais e melhor. (...) A disciplina ‘fabrica’ indivíduos; ela é a técnica específica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício. Não é um poder triunfante que, a partir de seu próprio excesso, pode-se fiar em seu superpoderio; é um poder modesto, desconfiado, que funciona a modo de uma economia calculada, mas permanente (FOUCAULT, 1981, p.153) Foucault (1981) contribuiu para o entendimento de que foram elaborados, a partir da modernidade, métodos capazes de ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 29ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 29 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais30 realizar o controle meticuloso das operações do corpo, sujeitando-o nas suas forças, tornando-o dócil e útil. Estes métodos operados para conseguir tal asujeitamento é denominado ‘disciplinas’. Tais processos disciplinares ou disciplinamentos levariam tempos para serem operados nos conventos, oficinas e exércitos e foram expandindo seus domínios, passando a serem fórmulas gerais de dominação dos sujeitos, no decorrer XVII e XVIII. Diferenciados dos tempos e dos modos da escravidão, na antiguidade e nos tempos medievais, a modernidade traz novidades, pois não fundamentam numa relação de apropriação dos corpos; é até a elegância da disciplina dispensar essa relação custosa e violenta obtendo efeitos de utilidade pelo menos igualmente grandes. O que fabricaria a disciplina? Foucault responde que fabrica indivíduos, a disciplina é uma técnica própria e relacionada a um poder, que coisifica os sujeitos, transformando-os em objetos e instrumentos de seu funcionamento. Não age pelo excesso e confiante no seu imenso poder, representa um poder módico, acanhado, funcionando a modo de uma economia calculada, mas permanente. Humildes modalidades, procedimentos menores, se os comprarmos aos rituais majestosos da soberania ou aos grandes aparelhos do Estado. Vieram das descobertas das ciências modernas, como da Medicina e alguns eficazes modelos de normatização, como por exemplo, as ortopedizações empregadas para endireitar o corpo, transportado para disciplinar as mentes dos alunos, nos colégios. Avançou a pedagogização do conhecimento e o disciplinamento, tantos nos corpos como nas mentes dos alunos. Não parando nunca mais e permanece atual na estrutura escolar e nos discursos pedagógicos, normatizando os sujeitos, professores ou alunos. Normatizou-se primeiro a produção dos canhões e dos fuzis, em meados do século XVIII, a fim de assegurar a utilização por qualquer soldado de qualquer oficina, etc. depois de ter normatizado os canhões, a França normatizou seus professores. As primeiras Escolas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 30ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 30 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 31 Normais destinadas a dar a todos os professores o mesmo tipo de formação e, por conseguinte, o mesmo nível de qualificação, apareceram em torno de 1775, antes de sua institucionalização em 1790 ou 1791. A França normatizou seus canhões e seus professores, a Alemanha normatizou seus médicos. (FOUCAULT, 1982, p. 83) Foucault (2002) comenta que em todas as sociedades ocorrem produção de discurso, que é, simultaneamente, controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. Um dos procedimentos é a exclusão, outro deles é a interdição. Em alguns casos, em lugares e instâncias mais sombrias das sociedades, o discurso nem é neutro e tão pouco transparente, a política e a sexualidade são alguns destes lugares. Os educadores deveriam saber e refletir sobre suas práticas, as inter-relações contidas nelas, os modos como são operados os objetivos de homogeneizar as diversidades, as diferenças, as identidades, contendo os diferentes, os irreverentes, os criativos, os que possuem modos distintos dos seus próprios, das suas famílias e da sua classe social. E aprender com eles! Foucault aponta que ainda que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e o poder. Nisso não há nada espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostra – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nós queremos apoderar. (FOUCAULT, 2002, p. 10) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 31ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 31 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais32 Portanto, nada aniquilará nos educandos os seus desejos de serem ouvidos em suas subjetividades, nos seus anseios e nas suas manifestações culturais que lhes foram fazendo sentidos nas suas jornadas pelas suas existências. Assim, tradicionalmente, o espaço escolar é o lugar da disputa entre o discurso pedagógico hegemônico (dentro da cabeça dos professores desde a modernidade aos dias atuais) e os interesses, desejos e ideias das novas gerações. É necessário, na contemporaneidade tentar fazer um esforço para ouvir as outras vozes silenciadas dos alunos, procedentes de suas quebradas, de seus guetos, de suas comunidades, das suas casas e de suas famílias. Invadindo a escola com estes outros cantos, outras danças, dissonantes, mas reais. Figura 4: Crianças e Dança dos Caboclinhos no Carnaval do Brasil Fonte: Wikimedia Commons Foucault reflete que para os gregos (século VI) o discurso era pronunciado pelo sujeito que tinha direito a ele, em conformidade com algum ritual próprio à época. O discurso tinha a capacidade de profetizar o futuro, com a adesão dos indivíduos. Depois tudo mudou, na passagem da Antiguidade Clássica para o início da Idade Média. A verdade se deslocou do ato ritualizado, eficaz e justo, de enunciação, para o próprio enunciado: para seu sentido, sua forma, seu objeto, sua relação e suas referências. (FOUCAULT, 2002, p. 13) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 32ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 32 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 33 Já na chegada à modernidade (lá pelos séculos XVI e XVII), Foucault aponta que apareceu uma vontade de saber que, antecipando- se a seus conteúdos atuais, desenhava planos deobjetos possíveis, observáveis, mensuráveis, classificáveis, uma vontade de saber que impunha ao sujeito cognoscente (e de certa forma antes de qualquer experiência) certa posição, certo olhar e certa função (ver, em vez de ler, verificar, em vez de comentar); uma vontade de saber que prescrevia (e de certo modo mais geral do que qualquer instrumento determinado) o nível técnico do qual deveriam investir-se os conhecimentos para serem verificáveis e úteis. (FOUCAULT, 2002, p. 16/17) E a pedagogia estará presente com suas práticas, agindo em nome deste sistema moderno e excludente. Serve para reforçar e conduzir este projeto de verdade da modernidade, a serviço da realização dos procedimentos de controle e de delimitação próprios ao discurso pedagógico hegemônico. Isso desfavorece, até os dias atuais, que outros discursos não hegemônicos possam chegar à escola e democraticamente oferecer suas contribuições, aproximando os alunos que se sentem desmotivados por discursos outros, distanciados de suas vidas e seus anseios. A escola precisa pensar nisso! Rever seus métodos, renovar suas intenções e oxigenar velhas práticas. E Foucault esclarece o modo de procedimento de um discurso, oposta ao lugar do aluno como sujeito capaz de fazer comentários sobre o que leu, estando longe de um projeto de leitor autônomo e capaz de falar com propriedade e com liberdade sobre temas propostos na sala de aula. A organização das disciplinas se opõe tanto ao princípio do comentário como ao do autor. Ao do autor, visto que uma disciplina se define por um domínio de objetos, um conjunto de métodos, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 33ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 33 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais34 um corpus de proposições verdadeiras, um jogo de regras e de definições, de técnicas e de instrumentos: tudo isso constitui uma espécie de sistema anônimo à disposição de quem quer ou pode-se servir dele, sem que seu sentido ou sua validade estejam ligados a quem sucedeu ser seu inventor (FOUCAULT, 2002, p. 30) A criação de um autor, suas palavras próprias são apropriadas por um determinado discurso que coloca a produção dele no anonimato. E este princípio da disciplina que desvaloriza a autoria dos que produziram os livros ou textos, desvalorizando até mesmo o desejo dos alunos de serem autores, criadores de novos textos, este princípio da disciplina se opõe também ao do comentário: em uma disciplina, diferentemente do comentário, o que é suposto no ponto de partida, não é um sentido que precisa ser redescoberto, nem uma identidade que deve ser repetida; é aquilo que é requerido para a construção de novos enunciados. (FOUCAULT, 2002, p. 30) Assim, nem é solicitado ao aluno que aprenda a comentar a própria realidade, o que leu e até o que escreveu. As leituras que possam fazer do mundo não são necessárias. Só interessa mesmo é que o discurso hegemônico exercido e seus modos de agir possam ser apreendidos. Foucault fala em biopoder, uma etapa nova e posterior ao século XVIII. A diferença é que o biopoder se diferencia do poder disciplinar e técnica de adestrar o homem-corpo, punindo-o e vigiando constantemente. Parece para agir no campo do homem- espécie. O biopoder vai operar como uma novidade, uma nova tecnologia de poder, distinta do poder disciplinar, mas não o descartará, fará uma fusão com ela. Sendo assim preservada e operando seus resultados nas instituições modernas ocidentais até hoje. Foucault esclarece que ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 34ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 34 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 35 a disciplina tenta reger a multiplicidade dos homens na medida em que essa multiplicidade pode e deve redundar em corpos individuais que devem ser vigiados, treinados, utilizados, eventualmente punidos. E, depois, a nova tecnologia que se instala se dirige à multiplicidade dos homens, não na medida em que eles se resumem em corpos, mas na medida em que ela forma, ao contrário, uma massa global, afetada por processos de conjunto que são próprios da vida, que são processos como o nascimento, a morte, a produção, a doença etc.(FOUCAULT, 1999, p. 291) Como vencer as determinações deixadas pelo discurso pedagógico hegemônico, nascido na modernidade, com todas as suas consequências nas mais simples ou complexas atividades escolares, para incorporar à diversidade cultural, a multiculturalidade, as marcas presentes nas nossas manifestações culturais e trazer um novo e progressista discurso pedagógico aberto às diferenças, capaz de conduzir ações afirmativas às minorias desprivilegiadas, no decorrer de mais de 500 anos de exclusão? O que travariam a passagem desses discursos pedagógicos hegemônicos e tradicionais para os inovadores Discursos Pedagógicos da Diversidade? As mudanças têm sido então, quase sempre, a burocratização do outro, sua inclusão curricular e, assim, a sua banalização, seu único dia no calendário, seu folclore, seu detalhado exotismo. Muitos olhares para as diferenças das crianças ficaram do lado de fora do foco e das discussões dos educadores. E permanecem sem querer ver. Se, em algum momento da nossa pergunta sobre educação, tínhamos nos esquecidos do outro, agora detestamos sua lembrança, maldizemos a hora de sua existência e da sua experiência, corremos desesperados a aumentar o número de alunos e de cadeiras nas aulas, mudamos as capas dos livros que ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 35ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 35 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais36 já publicamos há muito tempo, re-uniformizamos o outro sob a sombra de novas terminologias. Novas terminologias sem sujeitos. (SKLIAR, 2003, p.40) A escola brasileira repete um discurso de inspiração dos princípios que movimentaram o pensamento sobre a educação e a escola republicana francesa, de que deve ser única e igual para todos, e desta forma, oculta e mantém uma ética de indiferença em relação às diferenças. Ou seja, há uma indiferença ao outro como fundamento da escola. O que levaria a uma visão de homogeneização diante de sujeitos heterogêneos (diferentes). Impondo, dentro da escola um saber, de uma racionalidade, de uma estética, de um sujeito epistêmico único, legitimado como hegemônico como parâmetro único de medida, de conhecimento, de aprendizagem e de formação. São impostos parâmetros universais e abolidas as diferenças, que tornam desiguais em iguais, atingindo e trazendo para todos a mesma medida e avaliação, resultando em classificar o ‘outro’ como inferior, incivilizado, fracassado, repetente, bárbaro etc. Um Discurso Pedagógico da Diversidade impõe diferenças e modos novos de ver o diferente, propõe-se a tolerância a alguns coletivos: as classes populares, os negros, os homossexuais, mas ainda os vemos como aqueles que não sabem inferiores, e que necessitarão da adesão e empenho de cada educador, diante de uma realidade que aponta justamente para o contrário, para a exclusão e a indiferença com as diferenças. Na busca de outro discurso pedagógico é necessário superar a marca pesada que ficou na escolha brasileira a favor da escola tradicional, impedindo novas metodologias, concepções progressistas, organizações disciplinares inovadoras e inspiradas em concepções epistemológicas progressistas, criando possibilidades de ampla autonomia e participação dos educandos. Fazendo a aposta por uma escola como comunidade participativa, refletindo sobre o fato de a escola defender ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais- Aberto - SER.indb 36ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 36 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 37 a participação - autonomia, mas comporta-se de modo autoritário e com contradições: instituição igualitária que reproduz desigualdade social; instituição respeitadora das diferenças e tolerante, mas que provoca atitudes discriminatórias; instituição que proclama a aprendizagem crítica e criativa, mas usa métodos memorísticos e meios verbais; instituição democrática, mas que usa hábitos autoritários que limitam a participação. (Martins, 2006, p. 79) Na busca de uma nova pedagogia, já não mais voltada aos discursos hegemônicos, surgidos desde a Era Moderna, construtores das escolas tradicionais, ultrapassando-os e apoiando- se no Discurso Pedagógico da Diversidade é preciso estar aberto para construir novas mentalidades, para além de falar apenas por falar. O discurso das diversidades permite entender como podemos compreender as distintas diferenças, desde a análise da realidade sociopolítica e sociocultural (multiculturalidade, interculturalidade). Isso significa estar aberto às diversidades, alteridades e diferenças, em fazer encontros interculturais (entre culturas diferentes), abrindo espaços de expressão multiculturais (entre muitas culturas em diálogo). Querendo constituir bons encontros com as várias diversidades culturais trazidas pelos educandos, ouvi-los falar sobre estes mundos outros, em suas expressões diversas daquelas mais familiares aos educadores e que impliquem em novas aprendizagens para os educadores. O Discurso Pedagógico da Diversidade destaca a concepção humanista da igualdade, do valor e da afirmação das diferenças na diversidade cultural, de gênero/sexo, de capacidades e da relação entre diferença-semelhança, pluralidade e identidade. Isso demandará o acolhimento dos direitos à diferença, o conhecimento das histórias e das culturas dos diferentes agrupamentos sociais, que são os formadores, as matrizes do Povo Brasileiro, no antes e no depois da colonização portuguesa, a abertura às estéticas oriundas das diversidades culturais brasileiras. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 37ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 37 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais38 É uma grande mudança de concepção e que estará apoiada em novas tendências educativas. Estão subjacentes a estas apreciações várias tendências educativas, fruto da diversidade dos discursos na sua análise às realidades concretas educativas (MARTINS, 2006, p. 84). Martins defende que na diversidade de discursos pedagógicos, os indicativos à necessidade de uma educação especial para determinados coletivos ou grupos com deficiências ou necessidades de aceder ao currículo, às diferenças linguísticas, as metodologias adequadas a cada contexto etc. O que pode ser apontado para o futuro da educação, em uma perspectiva alimentada por um discurso pedagógico da diversidade é que poderá caminhar para ‘muitos e diversos espaços’, enquadrando-se no sentido de que cada vez mais o indivíduo realiza a sua aprendizagem ou aprendizagens em espaços diversificados. O Discurso Pedagógico da Diversidade poderá oferecer novas perspectivas. As respostas educativas (enfoques) dessas pedagogias inovadoras emergentes falam menos de igualdade e mais de liberdade, de qualidade e competências para o desempenho profissional (MARTINS, 2006, p. 89). Dando vozes aos que costumam ser obrigados a não argumentar com as suas próprias diversidades culturais ou seus modos de expressão, trazendo-lhes novos capitais culturais, novos conhecimentos, acesso amplo as produções culturais da humanidade. Os discursos são a favor do acesso à cultura e à educação das classes mais desfavorecidas, da democratização escolar, do desencadear de novos métodos e estratégias e conteúdo, da compreensão crítica da realidade, da educação social e cívica (cidadania), investigação-ação e resolução de problemas, de novos instrumentos metodológicos, novos reportórios de técnicas, do desenvolvimento de materiais de ensino específicos (‘Humanities ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 38ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 38 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 39 Project’ de Stenhouse), de novos modelos de ensino e de formação de professores, novos espaços de aprendizagem, da educação integral, racional e científica formadora da conduta moral, das cidades educativas e comunidades de vida, da construção do conhecimento e do desenvolvimento da inteligência e criatividade, de novos tipos de aprendizagem, de experiências na comunidade, etc. (MARTINS, 2006, p. 89) O discurso pedagógico da diversidade com seus olhares, linguagens e abordagens, diversidades de ideias, temáticas, perspectivas, enfoques e tendências devem abrir espaço para novas e melhores práticas educativas. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Multiculturalismo e educação:em defesa da diversidade cultural (Silva, 2007), acessível pelo link: https://bit.ly/2BHZHq5 (Acesso em 19/12/2019). SAIBA MAIS E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que para reconhecer o Discurso Pedagógico da Diversidade é necessário entender as responsabilidades e adesões da escola e dos educadores sobre a importância de promover a diversidade, nas atividades educativas. Você percorreu pela história do Discurso Pedagógico Hegemônico, desde a Idade Moderna, e posteriormente foi capaz de entender sua diferenciação com o Discurso Pedagógico da Diversidade. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 39ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 39 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais40 Entendendo a introdução a educação étnico-racial Você será capaz de entender, de um modo introdutório, a Educação Étnico-Racial. Isso facilitará a sua futura inserção em sala de aula, desenvolvendo suas atividades educadoras para as diversidades das crianças. OBJETIVO Entendendo a introdução a educação étnico-racial: conceitos de etnia e raça Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial, buscando conceitos de Etnia e Raça é importante para diferenciar e perceber a dessemelhança entre os conceitos de Etnia e Raça. O fato é que a preocupação com uma Educação Étnico- Racial traz o desafio de pensar em propostas curriculares que não neguem as nossas verdades étnico-raciais, bastante fáceis de serem conhecidas, através de saberes históricos, sociais, antropológicos, bastante reveladores das nossas realidades Étnico-Raciais brasileiras. Isso significa ter elementos suficientes para realizar um consistente combate ao racismo e as discri- minações originalmente étnico-raciais. É necessário que a escola e os educadores estejam dispostos a conhecer ideias que fortaleçam, dentro dela e nestes professores, sendo veiculadas aos alunos, para que os conhecimentos novos operem a favor do desenvolvimento de valores, atitudes e posturas capazes de educar cidadãos que tenham orgulho de seus pertencimentos étnico-raciais. Sejam os descendentes de africanos, povos indígenas, descendentes ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 40ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 40 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das RelaçõesÉtnico-Raciais 41 de europeus, de asiáticos – para interagirem na construção de uma nação democrática, em que todos, igualmente, tenham seus direitos garantidos (BRASIL, 2004, p.02), bem como suas identidades valorizadas. O termo Raça perpassa por uma conotação política, usado em demasia no Brasil, nas relações sociais brasileiras, com objetivos de informar como determinadas características físicas, como cor de pele, tipo de cabelo, entre outras, influenciam, interferem e até mesmo determinam o destino e o lugar social dos sujeitos no interior da sociedade brasileira. E, posteriormente, as populações negras brasileiras, no âmbito de suas organizações e lutas político-sociais, foram capazes de ressignificar o termo Raça, passando a utilizá-lo com um sentido político e de valorização do legado deixado pelos africanos. E o termo Étnico, que aparece na expressão étnico-racial, é usada para delimitar as verdadeiras, reais e tensas relações relacionadas as nossas diferenças, na cor da pele e traços fisionômicos o são também devido à raiz cultural plantada na ancestralidade africana, que difere em visão de mundo, valores e princípios das de origem indígena, europeia e asiática. O termo étnico, então, está associado e é imprescindível para delimitar que um dado sujeito pode até a mesma cor da pele que seu colega de sala de aula, terem os dois o mesmo tipo de cabelo e semelhantes traços sociais e culturais que os diferenciem, sendo estes dois educandos pertencentes as etnias diferentes. Grupos étnicos são agrupamentos de pessoas, portadoras de determinadas características marcantes de suas culturas, carregando suas diferenças ancestrais, linguísticas, de valores, de hábitos alimentares, costumes e manifestações culturais. E já Raça representa uma construção social usada para caracterizar os diferentes sujeitos, montada em particularidades relacionadas a cor da pele ou marcas físicas. O termo raça é sociológico e não biológico. E podemos afirmar que todos pertencemos a raça humana. Tal espécie humana teria surgido por volta de 350 mil ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 41ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 41 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais42 anos atrás, no leste do continente africano. Sendo assim, somos ancestralmente todos africanos. Entendendo a introdução a educação étnico-racial na realidade brasileira Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial na Realidade Brasileira será possível conhecer mais sobre nossas diversidades Étnico-Raciais e culturais. Em um país fortemente marcado pela diversidade, desde os primórdios, nos tempos em que os Povos Originários chamavam o nosso Pais e a região da América do Sul, pelo nome de Pindorama, que significa terra livre dos males, segundo os habitantes originários, os povos tupis e guaranis. E, ainda, a região da América era chamada de Abya Yala, em língua do Povo Indígena Kuna significando a ‘TerraViva’ ou ‘Terra em florescimento’. Posteriormente, já nos tempos da colonização portuguesa, entre os primeiros estrangeiros que se tornaram moradores do Brasil e vieram de Portugal, constavam pessoas, como Jerônimo de Albuquerque (conhecido como o Adão Pernambucano), cunhado do administrador da Capitânia de Pernambuco, sendo que Jerônimo e a sua irmã traziam as marcas das suas ancestralidades rramita- muculmana, muçulmana-semita, negra pré-saaraniana e aqui no Brasil chegaram na condição de representantedo rei de Portugal. Encontrando aqui no Brasil a filha do Cacique Arcoverde Tabajara (do tronco linguístico Tupy), com quem teve vários filhos que foram registrados e fizeram história, como também seus inúmeros descendentes. (LIMA, 2013) Mas, nem tudo foi semelhante e pacífico ao encontro inaugural deste casal por volta do ano 1534. O Brasil contava com milhões de habitantes indígenas que foram mortos, por não aceitar a condição de escravização. O Antropólogo brasileiro e Ex-Ministro da Educação, Darcy Ribeiro, considera que no processo de Formação do Povo Brasileiro, destacam-se conflitos ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 42ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 42 03/02/2021 17:27:4503/02/2021 17:27:45 Educação das Relações Étnico-Raciais 43 intensos entre índios, negros e brancos. Pode‐se afirmar, mesmo, que vivemos praticamente em estado de guerra latente, que, por vezes, e com frequência, se torna cruento, sangrento. Entendendo a introdução a Educação Étnico-Racial, com o objetivo de exercer o magistério, em um país fortemente marcado por uma história intensa de dificuldades entre seus grupos Étnico- Raciais, na relação difícil de contatos entre diferentes etnias (Inter étnicos) é necessário desvelar os preconceitos, revelar as impropriedades das falsas narrativas e entender as verdades profundas e que não podem ser caladas, dentro das escolas: Conflitos Interétnicos existiram desde sempre, opondo as tribos indígenas umas às outras. Mas isto se dava sem maiores consequências, porque nenhuma delas tinha possibilidade de impor sua hegemonia às demais. A situação muda completamente quando entra nesse conflito um novo tipo de contendor, de caráter irreconciliável, que é o dominador europeu e os novos grupos humanos que ele vai aglutinando, avassalando e configurando como uma macro etnia expan-sionista (RIBEIRO, 1995, p.168). Posteriormente, chegaram africanos na condição indigna de escravizados em grande número, proibidos de falar a própria língua, confessarem a própria religião e obrigado a trabalhar em condições absolutamente terríveis, martirizados ou supliciados perversamente. Diante disso, as consequências da colonização portuguesa e católica sobre as populações indígenas, africanas e afro- brasileiras foram cruéis e todas as Políticas Públicas Afirmativas, de reparação, oferecidas aos povos afro-brasileiros e indígenas, são mínimas diante da monstruosa ação governamental, seja nos tempos coloniais, imperiais ou republicanos sobre estes povos e seus descendentes. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 43ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 43 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais44 Figura 5: Congada, Dança Brasileira nos Tempos Colônias Fonte: Wikimedia Commons E foram produtoras de práticas racistas e preconceituosas, capazes de construir e reiteradamente repetidas a partir de preconceitos, frutos da ignorância que grupos étnicos tidos como superiores têm acerca da história das organizações e modo de vida daqueles considerados inferiores. Um dos efeitos foi, e continua sendo, as intensas demonstrações de ódio, de preconceito que circulam pela sociedade brasileira, incluindo os espaços educacionais e atingindo as práticas pedagógicas, por estarem dentro da cabeça de muitos professores, presentes nos discursos e até nos livros, criou um cenário em que o preconceito incutido na cabeça do professor e sua incapacidade em lidar profissionalmente com a diversidade, somando-se ao conteúdo preconceituoso dos livros e materiais didáticos e às relações preconceituosas entre os alunos de diferentes ascendências étnico-raciais, sociais e outras, desestimulam o aluno negro e prejudicam seu aprendizado. (MUNANGA, 2005: 16) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 44ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 44 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 45 Uma experiência de Educação Étnico-Racial necessitará trazer à sala de aula a diversidade de linguagens representativas na nossa formação étnico-racial brasileira, em toda a suacompletude, para que os mais diversos sujeitos se sintam subjetivamente e culturalmente contemplados, com direito à livre e autoral expressão suas diferenças étnico-raciais, com a riqueza de suas manifestações distintas. Lembrando e considerando, na sala de aula, que a questão do negro e a questão do índio, embora do ponto de vista da tradição histórica assimilacionista e do processo hegemônico de integração social apresentem muitos pontos em comum, também mostram profundas diferenças do ponto de vista do modo predominante de inserção na sociedade de classe, das regulações, da ‘fabricação’ das identidades, da natureza dos processos de subordinação e dos mecanismos com que são operados, tanto no interior dos grupos como externamente (BANDEIRA, 2003, p. 143) Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Conceitos de gênero, etnia e raça: reflexões sobre a diversidade cultural na educação escolar (Silva, 2007), acessível pelo link: http://bit.ly/35gA60Q. (Acesso em 04/07/2017). SAIBA MAIS E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido a entender, de um modo ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 45ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 45 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais46 introdutório, a Educação Étnico-Racial. Isso facilitará a sua futura inserção em sala de aula, desenvolvendo suas atividades educadoras. Entendendo, agora, tanto os conceitos de Raça e Etnia, bem como aspectos importantes sobre a Educação Étnico- Racial, na Realidade Brasileira Analisando os fundamentos legais para a educação das relações étnico-raciais. Ao analisar os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais, você terá parâmetros para cumprir e propor Projetos Políticos Pedagógicos, currículos, metodologias e práticas educativas. OBJETIVO As lutas populares pela redemocratização, conduzidas pelo povo brasileiro (indígenas, povo negro organizado em movimentos, povos do campo e lideranças comunitárias), foram intensas antes e depois da promulgação da Constituição de 1988. Eram esperadas, no conjunto de tantas reivindicações, que ocorreriam reais mudanças na educação das relações étnico- raciais brasileira. O fruto das lutas está na redação e explicitação de que a Educação é um direito de todos, no artigo 205, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Definindo-a como direito de todos e dever do Estado e da família, a ser incentivada e promovida com colaboração de toda a sociedade, dirigindo o desenvolvimento pleno da pessoa, preparo para exercer plenamente a cidadania e a qualificação para o trabalho. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 46ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 46 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 47 Neste momento histórico quem seriam as crianças aleijadas do seu acesso e permanência na escola? Quem seriam os reprovados, ano após ano? Eram aqueles que evadiam da escola por ter recebido um acento entre os que fracassaram nela, muitas vezes sendo o 1.º membro de famílias pobres e negras a frequentar uma escola. Tratados como inaptos, imputados por diagnósticos que os desabilitavam para a aprendizagem, para aprender a ler, escrever e os empurravam ou para uma sala especial ou para fora da escola, com eles iam todos os sonhos de muitas gerações de seus antecedentes. A Constituição Federal, a constituição da redemocratização e cidadã, lhes dá os direitos constitucionais de acesso e permanência, com muito o que ser feito, para mudar a realidade dentro das escolas, garantindo-lhes o direito à educação, e com a concretização deste direito fundamental, ter respaldados a sua identidade cultural (e de seus familiares), a promoção, a tolerância e o respeito com relação às suas diferenças étnico- raciais (BRASIL, 1988). O Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8,069/1990) foi promulgado 1990, e estava relacionado às diretrizes internacionais constituídas pela Convenção dos Direitos da Criança, da ONU, em 1989. Representou grande mobilização de pais, professores e comunidades. No artigo 5º é garantido o direito as crianças ou adolescentes brasileiras de não serem atingidos por nenhuma forma de discriminação, exploração, negligência, crueldade, exploração, violência e opressão, com punições a qualquer atentado, tanto por ação como por omissão, dos seus direitos fundamentais. Outro elemento significativo para a garantia da Educação Étnico-Racial, no artigo 16 desta importante e valorosa lei, respaldando o direito à liberdade, participando da vida familiar e comunitária, sem nenhum tipo de discriminação, entre elas configuram as discriminações étnico- raciais (BRASL, 1990). ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 47ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 47 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais48 Um pouco mais adiante, na nossa história, os parâmetros curriculares nacionais/PCN’s (BRASIL,1997) são diretrizes curriculares, organizadas pelo Governo Federal para orientar as práticas educativas de todas as disciplinas curriculares, da rede pública, onde frequentam os estudantes mais empobrecidos, e podia ser adotada, sem obrigatoriedade, pela rede privada de ensino brasileira. A temática da diversidade étnico-racial apareceu tornou-se como um tema transversal curricular, ponto de ser contemplado em qualquer disciplina. Logo de início o documento afirma que a educação deve ser voltada para a cidadania, os vários termos como Ética, Meio Ambiente, Saúde, Orientação Sexual, Trabalho e Consumo e Pluralidade Cultural são tratados como temas a serem incorporados, seguindo uma conexão entre a realidade social dos estudantes e saberes teóricos, aos campos gerais do currículo. (ABRAMOVICH; RODRIGUES; CRUZ, 2011, p. 90) Já o Parecer 017/2001 de 2001, do Conselho Nacional de Educação, vai afirmar a conscientização do direito de constituição de identidade própria e o dever do reconhecimento da identidade do outro, ambos engajados como o direito à igualdade e ao respeito às diferenças, afirmando oportunidades diferenciadas (o que quer dizer o direito a equidade), tantas quantas forem necessárias, com vistas à busca da igualdade. O princípio da equidade reconhece a diferença e a necessidade de haver condições diferenciadas para o processo educacional. (BRASIL, 200, p. 11) Diante das históricas e complexas disparidades e discriminações que prejudicavam a escolarização da população negra brasileira, o CNE – Conselho Nacional de Educação, com seu papel mediador entre o Estado, os sistemas de ensino do Brasil resolve ouvir os antigos e inaudíveis apelos e mobilizações do movimento negro brasileiro para que a escola passasse a ser palco e contemplasse a diversidade social e étnico-racial afro-brasileira. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 48ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 48 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 49 Na atualidade, o preconceito e a discriminação baseada em critérios étnico-raciais estão entre os principais motivadores da evasão escolar das pessoas negras. A escola como uma instituição que reproduz as estruturas da sociedade também reproduz o racismo, como ideologia e como prática de relações sociais que inviabiliza e imobiliza as pessoas, inferiorizando-as e desqualificando-as emfunção da sua raça ou cor. Buscando contribuir com a desconstrução desse processo, em 2003 é promulgada a Lei Federal nº 10.639 que institui a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana (AGUIAR, 2009, p. 12) Isso foi materializado com as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (BRASIL, 2004). O Conselho Nacional de Educação (CNE) interpretou as determinações da Lei 10.639/ 2003(BRASIL, 2003) que introduziu na Lei 9394/1996 das Diretrizes e Bases da Educação Nacional (BRASIL, 1996), a obrigatoriedade do ensino de história e cultura Afro-Brasileira e Africana. As políticas inclusivas são aquelas voltadas para a redução das desigualdades sociais, promovendo a universalização de direitos civis, políticos e sociais, estabelecendo a igualdade de fato. As políticas públicas includentes não são formuladas como um benefício para um grupo em detrimento de outro, mas sim para combater as discriminações que impedem o acesso aos direitos sociais, em igualdade de condições, por parte de grupos considerados em vulnerabilidade, por terem uma história marcada pela exclusão e por desigualdades de condições(NUNES, 2014, p. 11) Tais DCNs para a Educação das Relações Étnicos- Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 49ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 49 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais50 e Africana vão declarar que: Reconhecimento implica justiça e iguais direitos sociais, civis, culturais e econômicos, bem como valorização da diversidade daquilo que distingue os negros dos outros grupos que compõem a população brasileira.(BRASIL, 2003, p. 5). Exigindo mudanças significativas que perpassam os discursos, raciocínios, lógicas, gestos, posturas, modo de tratar as pessoas negras.(BRASIL, 2003, p. 5) Determinando o conhecimento da história e cultura afro- brasileira e africana, para produzir o efeito de desconstruir o mito da democracia racial na sociedade brasileira; mito este que difunde crença de que, se os negros não atingem os mesmos patamares que os não negros, é por falta de competência ou interesse, desconsiderando as desigualdades seculares que a estrutura social hierárquica cria com prejuízos para o negro. (BRASIL, 2003, p. 5) Estas novas determinações colocaram, no núcleo de novos posicionamentos, ordenamentos e recomendações, a educação das relações étnico-raciais. Deste modo, conformou uma nova política curricular que passou a atingir no âmago do convívio, trocas e confrontos em que têm se educado os brasileiros de diferentes origens étnico-raciais, particularmente descendentes de africanos e de europeus, com nítidas desvantagens para os primeiros. Figura 6: Pintura da Festa de Nossa Senhora do Rosário, Padroeira dos negros no Brasil, feita pelo artistaalemão Rugendas, em visita ao Brasil, no Século XIX Fonte: Wikimedia Commons ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 50ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 50 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 51 Os Povos Indígenas, os povos autóctones ou originários do Brasil, foram às lutas por seus direitos, nos tempos da redemocratização e que culminaram com as lutas por uma nova constituição. Esta imensa dívida social do Estado Brasileiro com seus povos originários começa a ser equacionado com a Constituição de 1988. (BRASIL, 1988) É importante ressaltar que a constituição permite ao cidadão, seus direitos à educação bilíngue (já que são falantes da língua materna, pertencente ao seu povo e da Língua Portuguesa), ao acesso aos conhecimentos universais, sem que isso despreze tais línguas e seus milenares saberes tradicionais. Com relação a isso, o artigo 210 assegurou o direito de empregar suas línguas maternas, bem como seus processos de aprendizagem. Assim, a escola passa a ser, por força deste preceito constitucional, uma ferramenta de valorização e sistematização de seus mais diversos saberes e múltiplas práticas tradicionais, e também o espaço de permanência, de acesso e da obtenção de conhecimentos universais, caminhando junto com a obrigatória valorização dos conhecimentos étnicos, já que existem diversos povos indígenas no Brasil, falantes de dessemelhantes línguas e que possuem culturas distintas. Além da Constituição de 1988, anos depois para aqueles que já esperavam por quase 500 anos, a Lei de Diretrizes de Bases da educação Nacional/LBB 9394/96 (BRASIL, 1996) passou a reconhecer legalmente as diferenças e peculiaridades do diversos Povos Indígenas habitantes do vasto território nacional. No seu artigo 78, é garantindo-lhes, aos povos indígenas, todos o direito, e apoios que se fizerem necessários, a recuperar suas memórias históricas, a reafirmar suas identidades étnicas e a obter a valorização de suas línguas maternas e suas específicas ciências, com a garantia do acesso às informações, dos conhecimentos técnicos e científicos da nossa sociedade nacional, além e do que for relativo as demais sociedades indígenas e não-índias.(BRASIL, 1988) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 51ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 51 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais52 Já Plano Nacional de Educação/PNE de 2001 (BRASIL, 2001) instituiu objetivos e metas especificas para o desenvolvimento da educação escolar indígena diferenciada, que deverá ser intercultural, bilíngue (em língua materna indígena e na Língua Português do Brasil), com garantia de qualidade. Isso levou a criação de Cursos de Formação Superior para professores indígenas e que funcionavam nas férias das universidades públicas brasileiras. Assim, muitos professores indígenas formam e atuam nas suas aldeias espalhadas pelo Brasil. Uma vitória inigualável para conseguir os objetivos firmados nestes marcos legais tão significativos, focados na diversidade dos povos indígenas e nas suas mais diversas tradições culturais específicas, caminhando na concretude da especificidade que é o ensino para crianças indígenas, com seus direitos a diferença, a interculturalidade (conviver entre culturas diferenças) e da manutenção de suas diversidades linguística, pois longe estão os tempos coloniais em que eram proibidos de falar a língua materna e obrigados a falar a mesma língua do rei de Portugal, além das suas culturas e histórias tão diversificadas. Existe um longo caminho ainda para ser realizado entre indígenas e não indígenas na busca de um diálogo respeitoso e tolerante com relação aos povos indígenas e suas diferenças. Os não indígenas precisarão aprender a valorizar e preservar todas as diversas culturas indígenas, reconhecendo os povos indígenas, seus direitos ao acesso e permanência a todos os níveis de escolaridade, respeitando as suas histórias e culturas. Como já citado, na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional/LDB (9.394/96) (BRASIL, 1966), foi adicionada a Lei 10.639/2003 (BRASIL,2003), promovendo o ensino da História e Cultura Afro-brasileira. Essa alteração foi regulamentada com a aprovação do Parecer nº. 03/2004 do Conselho Nacional de Educação, que estabeleceu Diretrizes Curriculares ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 52ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 52 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 53 Nacionais para a Educação das Relações Etnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, e da Resolução, nº. 1, de 17 de junhode 2004. O Parecer CNE/ CP nº. 03, de 10 de março de 2004, indicou conteúdos a serem incluídos e também as necessárias modificações nos currículos escolares, enquanto a Resolução CNE/CP nº.1 detalhou os direitos e as obrigações dos entes federados frente à implementação da Lei 10.639/03. (NUNES, 2014, p. 10) Anos depois, foi necessário ampliar tal dispositivo legal, contemplando os nossos povos originários, os indígenas brasileiros, com a promulgação da Lei 11.645/2008. (BRASIL, 2008) Estas duas modificações provocadas na LDB trouxeram as lutas conjuntas dos povos afro-brasileiros e indígenas em prol do combate mútuo ao racismo, que sofrem os negros e os indígenas desde os tempos da colonização brasileira, já passados 120 anos da proclamação da República e do fim da escravidão. São os ecos das lutas contra a discriminação as diversidades étnica-culturais de indígenas e negros, configurando também em uma luta contra os desrespeitos aos direitos à educação das duas importantes matrizes da formação do povo brasileiro (indígena e afro-brasileira). A LEI Nº 11.645, data de10 de março de 2008, modificou o artigo 26 da LDB (BRASIL, 1996), dando o seguinte novo texto: Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. (BRASIL, 2008) Esclarecendo que o conteúdo programático terá que incluir diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 53ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 53 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais54 a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil. (BRASIL, 2008, p.01) Fica esclarecido nesta modificação ao texto original da LDB (BRASIL, 1996) que os conteúdos alusivos à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileira. (BRASIL, 2008, p.01) As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena, publicada em junho de 2012, garante, como princípios da especificidade da Educação Escolar Indígena, os esforços no bilinguismo e multilinguíssimo, da organização comunitária e da interculturalidade fundamentem os projetos educativos das comunidades indígenas, valorizando suas línguas e conhecimentos tradicionais. (BRASIL, 2012a, p. 3) Isso implica em trazer para a escola algo já existente, desde bem antes da colonização portuguesa, a coexistência de mais de uma língua falada por crianças e adultos, os modos distintos de organização comunitária dos diferentes povos indígenas e os conhecimentos tradicionais que são veiculados pela oralidade. Levando em conta as dimensões biopsicossociais, culturais, cosmológicas, afetivas, cognitivas, linguísticas. Diante disso, exigiu-se a formação de professores indígenas, para assegurar um ensino e pedagogias harmônicos com as formas próprias destes povos produzirem conhecimentos. Bem como a relevância da pesquisa e da elaboração de materiais didáticos adequados para trazer a qualidade sociocultural, que permita aos povos indígenas, nos termos preconizados pela LDB, a recuperação de suas memórias históricas; a reafirmação de suas identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 54ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 54 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 55 As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola, publicada em novembro de 2012 (BRASIL, 2012b), tocam na Educação Escolar Quilombola, a ser oferecida as crianças, adolescentes e jovens quilombolas, remanescentes de antigos grupamentos de populações africanas e afro-brasileiras que se organizaram, ao longo da cruel história da escravidão brasileira em comunidades rurais para resistir e viver nas suas lutas pela liberdade. Tais diretrizes demandam a organização do ensino, a ser ministrado nas escolas, baseando- se na memória coletiva e línguas reminiscentes, bem como em marcos civilizatórios, práticas culturais, acervos e repertórios orais, festejos, usos, tradições e demais elementos que conformam o patrimônio cultural das comunidades quilombolas de todo o país. (BRASIL, 2012, p. 26) Tais diretrizes para a escola quilombola e para os povos quilombolas espalhados pelo país requerem o ensino, currículo e o projeto político-pedagógico em constante diálogo com a realidade dos povos quilombolas. Estas, demandam que a Educação Escolar Quilombola contemple ao longo das suas etapas e modalidades: a cultura, as tradições, a oralidade, a memória, a ancestralidade, o mundo do trabalho, o etnodesenvolvimento, a estética, as lutas pela terra e pelo território. Isso significa trazer para o cotidiano das crianças quilombolas, na escola, a presença constante de inúmeros saberes que estão presentes e agem na vida social de todos os povos quilombolas brasileiro. Já a Base Nacional Comum Curricular/BNCC (BRASIL, 2018), trata da necessidade de pensar os planejamentos curriculares focando na equidade e na reversão da histórica situação de exclusão histórica de grupos como os povos indígenas originários e as populações das comunidades remanescentes de quilombos e demais afrodescendentes – e as pessoas que não puderam estudar ou completar sua escolaridade na idade própria. (BRASIL, 2018, p. 15/16) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 55ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 55 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais56 Na nossa BNCC (BRASIL, 2018), a Educação Escolar Indígena, para acontecer nas escolas localizadas dentro das Terras Indígenas, deverá garantir competências específicas baseadas nos princípios da coletividade, reciprocidade, integralidade, espiritualidade e alteridade indígena, a serem desenvolvidas a partir de suas culturas tradicionais reconhecidas nos currículos dos sistemas de ensino e propostas pedagógicas. Isso significa assegurar uma educação intercultural, considerando nas ações educativas o respeito e a presença, em sala de aula, das cosmologias (visões de mundo) dos vários povos indígenas brasileiros, das suas lógicas, dos seus valores e seus princípios pedagógicos. A BNCC (BRASIL, 2018) recomenda que as propostas pedagógicas considerem a existência de atividades educativas que envolvam a abordagem de temas contemporâneos que afetam a vida humana em escala local, regional e global, preferencialmente de forma transversal e integradora. (BRASIL, 2018, p. 17). Configuram entre estes temas, entre outros, a educação em direitos humanos, amparada no Decreto nº 7.037/2009, Parecer CNE/CP nº 8/2012 e Resolução CNE/CP nº 1/201221). E a educação das relações étnico-raciais e ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena (Leis nº 10.639/2003 e 11.645/2008, Parecer CNE/CP nº 3/2004 e Resolução CNE/CP nº 1/200422). (BRASIL, 2018, p. 19/20) Todos os Fundamentos Legais para a Educação das Relações Étnico-Raciais construídos no Brasil, desde os tempos da redemocratização, são frutos de lutas intensas do povo brasileiro, negro e indígena. Devem e podem estar presentes aos currículos de governos e escolas. Precisarão constar nos cotidianosdas atividades escolares. E assim sendo, demandam a formação de educadores conscientes de tais legislações, que as respeitem e as cumpram, na exatidão em que elas formam escritas. Movidos por sentimentos de respeito e adesão históricos e culturais e de cumplicidade coma tais histórias e as culturas dos Povos Indígenas e afro-brasileiros do nosso país. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 56ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 56 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 57 UNIDADE 02 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 57ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 57 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais58 Caro aluno, pensar a educação na perspectiva da das relações raciais é estar comprometido com um projeto de sociedade, de homem e de mundo que contemplem todas as pessoas, buscando a igualdade de oportunidades, consideradas as diferenças e necessidades específicas necessárias. Considerar que muitas desigualdades e exclusões que se constituíram historicamente, só poderão ser mudadas e ressignificadas com ações específicas, alterando o curso da história. Você estudará na Unidade 2 – O Contato com o Outro: Histórias, Culturas e Sociedades Africanas, Afro-brasileiras e Povos Indígenas do Brasil. Reconhecendo o contato com a realidade de outro, definir o Outro e nomear o Outro. Preparado? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 58ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 58 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 59 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 2. O Contato com o Outro: Histórias, Culturas e Sociedades Africanas, Afro- brasileiras e Povos Indígenas do Brasil. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: OBJETIVOS 1 Reconhecer o contato com a realidade de outro: Histórias, culturas e Sociedades Africanas (Literatura, Arte, língua e Cultura Africanas e Afro-brasileiras). 2 Definir o Outro: O Negro na Sociedade Brasileira, as Relações Raciais, Contribuições da Matriz Africana nas Artes Brasileiras e Resistência Negra no Brasil. 3 Entender o Contato com a Realidade do Outro: Histórias, culturas e Sociedades Ameríndias e os diversos Povos Indígenas do Brasil: Culturas Indígenas no Brasil. (Literatura, Arte, língua e Cultura Indígenas Brasileiras). 4 Compreender o Outro: Os Povos Indígenas na Sociedade Brasileira, as Relações Raciais, Contribuições dos Povos Indígenas nas Artes Brasileiras e Resistência Indígena no Brasil. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 59ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 59 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais60 Reconhecendo o contato com a realidade de outro: histórias, culturas e sociedades africanas (literatura, arte, língua e cultura africanas e afro-brasileiras) Ao término deste capítulo você será capaz de reconhecer o contato com a realidade de outro: histórias, culturas e sociedades africanas (literatura, arte, língua e cultura africanas e afro- brasileiras), bem como você será capaz de definir o outro: o negro na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições da matriz africana nas artes brasileiras e resistência negra no brasil. em seguida, você será capaz de relembrar o contato com a realidade do outro: histórias, culturas e sociedades ameríndias e os diversos povos indígenas do Brasil: culturas indígenas no brasil. (literatura, arte, língua e cultura indígenas brasileiras).Por último, você será capaz nomear o Outro: Os Povos Indígenas na Sociedade Brasileira, as Relações Raciais, Contribuições dos Povos Indígenas nas Artes Brasileiras e Resistência Indígena no Brasil. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO Reconhecendo o contato com a realidade de outro e o conceito de alteridade Você reconhecerá o contato com a realidade do outro: histórias, culturas e sociedades africanas (literatura, arte, língua e cultura africanas e afro-brasileiras), constituirá um percurso afirmativo para o entendimento de nossa sociedade profundamente marcada pela presença da matriz africana e afro-brasileira. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 60ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 60 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 61 Ao reconhecer este contato, você já afirma o quão diferente e dispare é com relação a sua realidade. E fica uma indagação: Como você estabelece suas relações com o Outro, sendo você alguém que recebe sentidos da sua realidade social, e, ao mesmo tempo produz sentidos? Reflita quais são as relações que você costuma estabelecer com o outro, aquele sujeito bem distinto de você. E como a cultura que você pertence vê o entendimento do outro? É difícil? O certo é que muitas pessoas reclamam, e não são incomuns, as dificuldades de lidar com a existência do outro. Que tipos de dificuldades são essas? Dificuldades essas que abrangem a compreensão que se tem do que se denomina como outro, a gama de especificidades das relações que estabelecemos com o outro (por vezes, ausente ou negado em sua condição de sujeito) e o conjunto de ideias, noções e significados subjacentes à percepção imediata que temos do outro. (SANTOS, 1999, p. 375) Você já tem conhecimento de que a nossa realidade brasileira é constituída por inúmeros grupos formados por diferentes culturas? Saiba que não são todos os grupos submetidos às mesmas relações de poder. Devem ser respeitados, mesmo que intensamente desiguais da cultura em que você cresceu e vive. Estas matrizes de formação do povo brasileiro foram fazendo seus encontros, com muitos conflitos, estabelecendo relações desiguais de poder e situados em três momentos da história do Brasil - a colonização, a construção do Brasil nação e a República. Isso estruturou no Brasil um processo de construção das representações da alteridade tentando apreender a dinâmica do desejo e do medo da diferença que estão na base da construção do outro e de si mesmo. Significando que as nossas diferenças foram dificultando contatos entre as nossas alteridades e estabelecendo e aprofundando hostilidades. Para um melhor entendimento, é importante lembrar que alteridade é aquela posição, circunstância ou ainda a qualidade ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 61ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 61 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais62 que é constituída por meio de relações de diferenças, de contrastes e de distinções. “Alteridade é produto de duplo processo de construção e de exclusão social que, indissoluvelmente ligados como os dois lados de uma folha, mantêm sua unidade por meio de um sistema de representações”. (JODELET, 1999, p. 47) É bom lembrar que a alteridade só pode ser analisada tendo como pano de fundo as condições que estruturam as relações sociais, em um contexto plural. Devemos ficar atentos, na sala de aula, sobre as injustas repre-sentações que alimentamos entre os alunos ou nos calamos às elas. Elas podem ser produtoras de exclusões sociais. E no caso particular das escolas, podem produzir evasões das crianças. As nossas dificuldadesde conviver com as diferenças, as alteridades, aquilo que o outro é diferente de mim, pode e deve ser entendido a partir das necessidades coletivas de tão distintos sujeitos que somos, nós os brasileiros, entre nós mesmos. E devem ser solucionadas! É necessário que cada professor reflita sobre o seu papel social e procure distinguir a alteridade de fora (aquilo que é distante, é exótico como determinadas comidas de alguns povos em relação aos outros povos de outras culturas). E aquela outra, a alteridade de dentro (aquelas diferenças que surgem dentro de uma mesma cultura ou grupo social). A alteridade anda junto com a noção de ipseidade que é aquele caráter que perpetra com que o indivíduo seja ele mesmo e distinto de todos os outros; remetendo a uma distinção antropologicamente originária e fundamental – a distinção entre o mesmo e o outro. Estabelecendo, assim, uma relação de identidade em cada indivíduo. Desde crianças estamos construindo uma noção de alteridade, apoiados no outro, assim fomos elaborando as nossas identidades, assentadas em relações intersubjetivas. E é a intersubjetividade que consente a existência do ato significante, ao mesmo tempo em que, de outro lado, previne o totalitarismo de interpretações simbólicas que se propõem únicas, ou capazes de exaurir o objeto com a versão que propõem. Você precisa aceitar a diferença do ‘outro’. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 62ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 62 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 63 É necessário ficar atento as adversidades trazidas pelo individualismo, que ainda que traga responsabilidade, autonomia e liberdade, reduz a vida social ao isolamento, solidão, discórdia e angústia. Considera-se que uma saída apreciável poderá ser a compreensão da ética da alteridade em aliança com o lazer. Já que a ética da alteridade é ferramenta para transmutar e transgredir todas as amarras impostas pela sociedade, da moral estabelecida e das culturas fechadas em si mesmas. Isso acontecerá pelo fato de a Ética da Alteridade consentir na entrada em mundos ‘outros’, e dos ‘outros’, com suas distintas belezas poéticas, abrindo-se a encontrar novos modos de viver e novas narrativas, encantando- se com elas ou pelo menos aprendendo a respeitá-las. O que deve ser evitado na escola, nas ações educativas com os tão distintos educandos é pensar que: o outro não significa ou pouco significa para nós. Pois ele não faz parte de nós, é um estranho, um alienígena. Ele é o índio, o negro, a mulher, o excluído. Eu o explico, eu o domino, eu o exploro. E mais: sou eu que decido quando há dominação, quando há compreensão, quando há exploração. (GUARESCHI, 1999, p. 159-160) E, já outro autor, Moreira (1982) considera que a ética da alteridade é a ilimitada responsabilidade que cada um de nós possui com relação à vida do ‘outro’, permitindo que as nossas diferenças possam dialogar. Porém, é necessário abrir as conexões para permitir que o contato com o outro não seja praticado com a destituição da singularidade, da identidade, da verdade e de tudo o que o ‘outro’ é com relação as minhas diferenças. O que é necessário evitar é isso: Eu convido-o, eu dou-lhe as boas-vindas ao meu lar, sob a condição de que você se adapte às leis e normas do meu território, de acordo com a minha linguagem, tradição, memória etc. Os educadores deverão fugir de tendências que se apoiam em representações do Povo Brasileiro, e suas matrizes africana, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 63ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 63 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais64 afro-brasileira e indígena, montadas em depreciá-los e deturpar suas diferenças. Rompendo com antigas visões, datadas por discursos racistas, voltados para a supremacia branca em um país profundamente tocado pelas marcas destas matrizes, juntamente com a matriz europeia, nem toda ela 100% branca. É interessante refletir, aprender e rebater racismos e preconceitos. As sucessivas gerações formadas por uma pedagogia higienizada produziram o indivíduo urbano de nosso tempo. Indivíduo física e sexualmente obcecado pelo seu corpo; moral e sentimentalmente centrado em sua dor e seu prazer; socialmente racista e burguês em suas crenças e condutas; finalmente politicamente convicto de que a disciplina regressiva de sua vida depende a grandeza e o progresso do Estado brasileiro. (COSTA, 1983, p. 214) As relações sociais nos influenciam, em conjunto com a nossa vontade de conhecer o mundo, ao mesmo tempo em que nos reconhecemos. Lidar com as diferenças envolvem desejo. Nosso desejo é que vai definir os modos como a nossa sociedade opera com a intrigada rede de relações humanas, que permite tanto a construção dos saberes como dos sentidos, eles próprios são atividades cruciais para sustentar a formação de identidades, sentimentos de pertença e o sentido de comunidade. Isso acontece ao Ego (eu) e ao Alter (outro). Duveen (1998) defende que o mundo em que as novas gerações acessam é articulado ao redor de diferenças e valorizações delas, agindo para estruturar e influenciar as representações que eles tenham da realidade e dou ‘outro’. Tais representações sobre como perceber a realidade e o ‘outro’ aparecem antes da consolidação de suas identidades, tais identidades são apoiadas em tais representações. A identidade seria uma luta para conseguir reconhecimento e necessita da construção da alteridade. Então funcionaria assim: A identidade da criança e seu eu, é entendida como diferenciação do ‘outro’, representa a construção da ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 64ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 64 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 65 diferença. Sendo que a relação com o outro acontece por coação (forçada, hierarquizada, um é superior ao outro) ou pela cooperação (construção coletiva, interação, a diferença é vista como produtiva para a criança) (DUVEEN, 1998). Por tudo isso é necessário: Olhar o rosto do outro e ter o rosto do outro como referência significa cuidar e considerar o alter (outro) como diferente do mesmo. Daí o termo Alteridade. Cuidar do outro, ter infinita responsabilidade para com o outro, é fugir da pretensão do ‘mesmo’ e abrir- se para a revelação do outro, para a manifestação do outro, para a expressão do outro e, portanto, escapar das redes de dominação. É, igualmente, aceitar o diferente e ir ao encontro dele. E ter como princípio ético o encontro com aquele que não sou eu, em uma situação sempre de liberdade e diálogo. (MOREIRA; JUNIOR,2018, p.29) Veja, dependendo do contexto em que você está inserido vai surgir uma demanda relacionada à sua identidade. O que não significa que você vá realizar tal esperada demanda. Você poderá agir, em suas tarefas cotidianas, afirmando-a ou contrariando-a. Isso significa que os rituais sociais, presentes na sociedade, servem para reatualizar uma identidade pressuposta, ou seja, já inscrita no contexto em que você vive. Assim, acontece nas festas. E que solicita que você aceite as prescrições das condutas corretas, reproduzindo as ações determinadas no seio da sua realidade social. O que acontece é que, aparentemente, a identidade de uma pessoa pode parecer tão intrínseca, tão grudada a pele da pessoa que nem existem outras formas de identificação, a posição de mim (o eu ser-posto) me identifica, discriminando- me como dotado de certos atributos que me dão uma identidade considerada formalmente como atemporal. Mas não é assim tão natural! A identidade é cultural e social. ebook completo impressão - Educação dasRelações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 65ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 65 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais66 Quando você está inserido nas suas relações sociais com o ‘outro’, o que ocorre é que você se representa, e tal representação adota um sentido tríplice: 1) Você se representa 2) ao se representar, exerce papéis relacionados aos condicionamentos (por exemplo, você é vizinha dos seus vizinhos, e tal representação costuma ocultar outros elementos que constituem a sua totalidade) e 3) à medida que você se representa, repõe a sua identidade pressuposta (implícita a você). Sendo assim, sua identidade é constituída por muitas representações que você faz de si mesmo, que repomos daquelas representações que nos são esperados e pelas representações dos papéis a que estamos determinados. A identidade nunca é estática, sempre ocorrendo no seu próprio processo de produção. Funciona assim: Ser não estático é! Ser é Estar Sendo! Enfim, identidade é movimento. Identidade é metamorfose. E sermos um e outro para que cheguemos a ser um, numa infindável transformação. Todo educador deve ficar atento a necessária tarefa de apreender os diversos patamares que se estabelecem nas relações com o outro, os diferentes graus de proximidade desse outro numa realidade social. Aquele que não é o mesmo que ‘nós’ pode ser apenas diferente, mas próximo, ou constituir-se como um alter em ‘sua forma mais extrema e alienante’ como é no caso do racismo e, certamente, de todas as formas de exclusão social. (SANTOS, 1999, p. 377) Os Educadores devem sempre estar atentos a relação entre o ego (eu) e o alter (outro) e que demanda que tais educadores fiquem atentos e sejam receptivos as dessemelhantes formas de sociabilidades fora da escola, de dentro da escola, entendendo e permitindo as diversidades de manifestações culturais, respeitando as sociedades em que os educadores vivem e partindo destas realidades para conduzir seus aprendizados. Respeitem as diferenças! Já que são as pertenças grupais que sustentam os processos simbólicos e materiais responsáveis pela construção da alteridade. Disso ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 66ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 66 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 67 decorre a necessidade de se estudar a alteridade sempre levando em consideração os níveis interpessoais e intergrupais. (SANTOS, 1999, p. 376) Tais construções de diferenças, que não devem ser menosprezadas, foram elaboradas, historicamente, têm como alicerce projetos políticos, econômicos, sociais e culturais. Muitas vezes, interagimos ou nos negamos a interagir com o outro, a partir das representações errôneas que temos sobre eles. Perdemos bons encontros! Estas representações vieram de visões hegemônicas, produzidas pelos colonizadores, irreais, injustas, racistas e que precisam ser evitadas pelos educadores. A construção da alteridade e do mesmo se move ao compasso das conjunturas históricas. Somos histórica e culturalmente constituídos. Submetidos e submetemos as novas gerações a um trabalho cognitivo e afetivo constante de construção e reconstrução das representações expressando relações de poder desiguais, conflitos de interesse e valores vigentes a cada época. Cada educador, no seu cotidiano dentro da escola, precisa refletir sobre a necessidade de reconhecimento do outro como um ser de desejos, de projetos e perspectivas próprias. “O outro não se esgota no conjunto de significados construídos pelo eu”.(SANTOS, 1999, p. 378) Isso significa que por mais que um educador seja autoritário, só veja o mundo pela sua própria perspectiva, expressando-se sob os olhos de sua própria realidade social, classe social e as representações historicamente construídas, repletas de preconceitos, nada impedira que o alter (outro) seja ele próprio, realize sua própria resistência. Isso fica evidente quando se trata de definir o contato com o Outro, percorrendo as Histórias, Culturas e Sociedades Africanas, Afro- brasileiras, Ameríndias e os Povos Indígenas do Brasil. Não podemos contestar que a inserção predominante do negro na sociedade de classe se deu primordialmente como trabalhador analfabeto, estigmatizado pelo legado da escravidão, com pouca ou nenhuma qualificação. Isso criou uma representação dos negros ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 67ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 67 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais68 brasileiros repletas de preconceitos. Há uma exceção historicamente comprovada, configurada por outro modo de inserção dos negros, como pertencentes a comunidades negras rurais que, na transição do trabalho escravo para o trabalho livre, estranharam o modelo e contestatoriamente procederam a sua inserção como grupo social e culturalmente diferenciado. Já com relação aos indígenas, a inserção do índio, nesta mesma sociedade de classe aconteceu de um modo diferente. Os modos de inserção dos diversos Povos Indígenas foram como grupo etnicamente diferenciado, de fora para dentro e/ou de dentro para fora. A inserção de índios como trabalhadores, embora ocorrendo, não se constituiu em tendência vultosa. Aos ‘outros’, distanciados dos seus modos de viver, sentir, pensar, comer, dançar, amar, além do seu estranhamento com tantas diferenças, não poderão ser oferecidos o racismo em suas mais diferentes (todas dolorosas) demonstrações. O racismo é uma forma de etnocentrismo, todavia, associado mais diretamente à visão biologizada do evolucionismo social. O etnocentrismo e o racismo desumanizam, inferiorizam (BANDEIRA, 2003, p. 144). É bastante descabido produzir expressões de racismo em sala de aula ou permitir que as crianças o façam. Nenhuma explicação etnocêntrica, ou seja, que tenta produzir um sentido de verdade para algo inverídico, afirmando que um povo é superior a outro. Já que não é! Não configura verdade científica qualquer supremacia racial! O racismo comporta, porém, uma dimensão sutil de repulsão que o etnocentrismo generalista necessariamente não comporta. Embora o termo étnico índio assim como o termo negro tenham sido socialmente cunhados para apagar diferenças entre os diversos povos americanos e africanos, tornando- os um classificador de fração de classe, o índio concreto é de modo geral associado a uma etnia particular, sua pertença a um povo é reconhecida. (BANDEIRA, 2003, p. 144) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 68ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 68 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 69 Então, no contato com os ‘outros’ é necessário conhecê- los em tudo o que são de verdade. Foram povos africanos de países diferentes, culturas distintas e línguas diferenciadas que aportaram, forçadamente aqui, naqueles navios. Foram e são Povos Originários diversificados em línguas, em suas culturas que foram reduzidos a denominação ‘índios’ pelo fato de algum colonizador julgar que havia chegado à Índia, ao chegar às terras brasileiras. É necessário ir em busca do reconhecimento da diferença étnica, potente o suficiente para permitir o verdadeiro reconhecimento de pertencimento cultural de um determinado povo. O termo caboclo se aproxima do ponto vista social, cultural e político do termo negro. Ambos desenraizam, despojam e subtraem dos atores sociais concretos tradições, valores e práticas de suas culturas ancestrais. Reconhecendo o contato com a realidade de outro: histórias, culturas e sociedades africanas (literatura, arte, língua e cultura africanase afro-brasileiras) Você reconhecerá, ao final da leitura, o contato com a realidade de outro: histórias, culturas e sociedades africanas, bem como a literatura, arte, língua e cultura africanas e afro- brasileiras. tal contato com tão vasta contribuição desta matriz formadora do povo brasileiro será um mergulho necessário e salutar na sua formação docente. É importante refletir que nas políticas educacionais voltadas para realizar integração democrática das diversidades, algumas deverão contemplar problemas comuns à questão do negro e à questão do índio, outras deverão contemplar especificidades próprias de cada grupo. Isso será decisivo para a formação de novas mentalidades, assentadas na realidade étnico-cultural brasileira e com um efeito reparador às contribuições do negro africano (vindos de diversas realidades e regiões do continente africano). ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 69ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 69 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais70 As práticas e os valores culturais dos negros foram incorporados como produção nacional popular, reduzindo a diversidade dos afro-brasileiros à diferença racial, socialmente estigmatizada. É inegável a herança africana está em suas marcas firmes e vivas nos modos de sentir, pensar, sonhar e agir de certas nações do hemisfério ocidental(SILVERIO, 2013, p.7). Isso é perceptível nos Estados Unidos, Brasil, Caribe, entre outras partes em que se deu a diáspora africana, lugares onde os africanos vieram viver e permaneceram escravizados. É certo afirmar que tais marcas culturais africanas influenciaram as culturas de países como o Brasil e fundamentaram fortemente as identidades culturais que circulam por este país, pós-chegada do colonizador português. O século XX foi marcado pela busca de significação histórica desta grande influência cultural das culturas africanas, entendidas através da história africana. Passou a ser um erro histórico narrar a nossa história com olhos voltados aos nossos preconceitos, frutos do etnocentrismo, não dedicando espaço a história verdadeira destes encontros entre a África e o Brasil. Diante disso, a história da áfrica comprova que o continente africano foi o berço de inúmeras civilizações. A Civilização Egípcia, alguns esquecem, estava no continente africano. Fora isso, existiram pungentes Impérios. Foram abafados, pelos ocidentais, que os africanos criaram inúmeras, complexas e originais formas de governo. Algumas eram fundamentadas em uma ordem genealógica (clãs e linhagens). Atualmente, coexistem governos republicanos e clãs como no Reino de Ghana, difíceis de compreensão para os nossos fracassados modelos coloniais e imperiais. E existiram formatos governamentais avançados, anterior a chegada dos europeus para agir na perversa colonização e escravização dos povos africanos, eram os exemplares e notáveis processos iniciativos (com a existência de classes de idade), montados através de chefias, organizados por diversificadas unidades políticas. Ganha destaque o Império de poderoso de Aukar ou Império de Ghana (século IV)(MELO; BRAGA, 2010). Seus ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 70ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 70 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 71 poderes foram contidos somente por volta do ano 1011 (século XII) pelos Povos Bérberes (chamados de Bárbaros por não se submeterem aso comandos de outros povos). Tais povos, os Almorávidas, irão até a Península Ibérica. Já no século IV a.C existiam grandes chefias, Estados tradicionais, entre elas configurava a primeira dinastia de Gana. Já as escavações comprovam a existência de uma arte cerâmica de Nok (Nigéria), entre os séculos V a.C. ao II século d.C., demonstrando o seu apogeu e complexidade (SALUM,1999). Assim, os importantes impérios de Gana e Mali, entre outros existiram lá na África ocidental, no exato momento da Idade Média europeia (que vai acabar no século XV). Outros reinos localizados para os lados oriental e central africanos (como os Lunda e Luba) realizaram entre eles suas disputas entre os séculos XVI e XIX, com seus poderes análogos aos estados monárquicos ou imperiais. Além disso, o reino do kongo desenvolveu suas táticas e relacionamentos externos desde o século XIII. Esta ideia de que a colonização falsamente difundiu e que descobriu um ‘outro’ mundo selvagem, onde só viviam tribos em guerra, nômades, subdesenvolvidos são construções a serviço dos interesses europeus na região africana. História semelhante é sempre recontada com relação aos povos ameríndios, os povos originários e que já viviam na América antes dos europeus aportarem aqui. Dizer que tais povos não tinham suas histórias para contar são injustas mentiras. A África tradicional, anterior aos processos de colonização europeia e a vinda de povos africanos ao Brasil, era diversificada e inde-pendente, carregando suas distinções sociais, econômicas e culturais, pelo vasto território. No bojo do projeto capitalista, organizado pelos países que colonizaram, forçadamente, a África, estava um projeto de desqualificar seus saberes, suas ciências, seus conhecimentos, suas culturas e suas línguas. E difundindo narrativas que os qualificam como lugares inóspitos, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 71ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 71 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais72 tórridos, improdutivos, repletos de povos vivendo como bárbaros, sem cultura, sem história própria e incivilizados. Isso tudo foi alimentado pelo discurso do etnocentrismo, do século XIX. É necessário, pois, ver de que História e de que Civilização se trata. Isso tudo a favor de um projeto imperialista, liberal e colonial, para fazer engrenar o capitalismo, montados nas ideias veiculadas na Era Moderna, no século XVI, com as grandes invenções e as grandes navegações. Os Povos Africanos que vieram viver no Brasil Colônia, na condição de escravizados, eram de diversas origens. Uma parte deles vieram da África Ocidental. Eram povos sudaneses e/ou iorubas (nagôs, ketus, egbás); gegês (ewês, fons); fantiashanti (genericamente conhecidos como mina); povos islamizados (mandingas, haussas, peuls). (SILVÉRIO, 2013, p. 13). O autor afirma ainda que, outros povos africanos que vieram para o Brasil eram originários da África Central, foram os Povos Bantos, eram os bakongos, mbundo, ovimbundos, bawoyo, wili (isto é, congos, angolas, benguelas, cabindas e loangos). Também vieram ao Brasil, africanos provenientes da África Oriental, eram chamados de moçambiques. Eles chegaram, foram instalados nesta condição de escravizados e foram imprimindo as suas marcas culturais, constituindo a gênese das culturas negras brasileiras, apesar da destituição ampla subjetiva e social impostas pela escravização. Não eram estrangeiros fugindo de alguma calamidade, guerra ou fome. Eram pessoas obrigadas a sair de suas casas, dos seus países, abandonarem suas línguas, na condição degradante de escravizados. Os povos sudaneses e/ou iorubas deixaram suas marcas culturais e influenciaram a história a partir da Bahia, pelo Norte e Nordeste do Brasil. Eram suas características: o culto aos orixás, a realização de cerimônias de iniciação, a prática de ritos mágicos, música e dança/ rituais, a elaboração de esculturas em madeira, em metais e outros trabalhos manuais como, por ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 72ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 72 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46Educação das Relações Étnico-Raciais 73 exemplo, instrumentos musicais. A cultura iorubana é apontada ainda como fonte de influência ao nosso léxico. (SILVÉRIO, 2013, p. 13) Foram mais de quatro milhões de negro-africanos para alguns estudiosos e para outros eram mais ainda, que chegaram no Brasil, ao longo de bem mais de três séculos consecutivos. No decorrer do século XVI, a Bahia configurava o maior núcleo português. Havia trinta e tantos engenhos, movidos por 3 ou 4 mil escravos negros e 8 mil índios. Nessa proporção, o componente negro‐africano iria aumentar cada vez mais. Já os Povos Africanos Bantos, foram instalados nos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais e eles ficaram notabilizados pelo fato de uma das suas línguas, quimbundo ser incorporada ao nosso português do Brasil. E ainda por festas: coroação dos reis, danças que emulam a caça e a guerra (carnaval), festas do boi, folclore;esculturas em madeira, confecção de objetos domésticos etc. Além destes aspectos culturais e linguísticos apontados acima, ressaltando o fato de sermos o povo brasileiro que somos, carregando elementos constitutivos de tais culturas africanas, os africanos que vieram morar no Brasil, nos longos e terríveis tempos da Colonização Portuguesa, tiveram seus protagonismos na dimensão sociopolítica, e não religiosa e messiânica, das revoltas do século XIX. Outro aspecto importante das novas pesquisas é a identificação da forte presença de afro-brasileiros nesses movimentos. Os descendentes destes africanos e nascidos no Brasil comprovam que juntos aos escravizados não fugiram das lutas em prol das necessárias e justas mudanças sociais na história do Brasil. Seus descendentes, os afrodescendentes, os afro-brasileiros, o povo negro brasileiro organizado em seus movimentos prosseguem nas lutas. Além disso, é inegável que os africanos e seus descendentes desenvolveram no Brasil forte farmacopeia, com seus fazeres e saberes tradicionais, junto à manipulação de ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 73ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 73 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais74 plantas medicinais e condimentares em comunidades quilombolas e/ou afro-brasileiras como um patrimônio cultural, ehoje se avalia seu uso, e importância, na atenção básica à saúde. Destacaram-se na literatura algumas importantes mulheres negras, entre os séculos XIX e XXI. Maria Firmina dos Reis, maranhense, nasceu em 1825, com diversas publicações, entre elas o romance Úrsula. Era abolicionista e escreveu o livro A Escrava, em que reforça postura antiescravista da personagem Maria. E foi compositora do hino da abolição da Escravatura. HINO À LIBERDADE DOS ESCRAVOS Autoria de Maria Firmina dos Reis Salve Pátria do Progresso! Salve! Salve Deus a Igualdade! Salve! Salve o Sol que raiou hoje, Difundindo a Liberdade! Quebrou-se enfim a cadeia Da nefanda Escravidão! Aqueles que antes oprimias, Hoje terás como irmão! Carolina Maria de Jesus nasceu em 1914 e morreu em 1977, afirmava que nos momentos em que passava fome, em vez de xingar alguém, preferia escrever. Lá na favela do Canindé, na zona norte de São Paulo, onde era catadora e costumava narrar sobre sua realidade em papéis encontrados no lixo. Até que publicou o seu livro Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, em 1960, com narrativas sobre as discriminações que as mulheres negras, empobrecidas e faveladas passavam. Ainda foram lançadas outras obras dela: Casa de Alvenaria, Pedaços de fome e Provérbios. Além de obras póstumas: Diário de Bitita (1977), Um Brasil para Brasileiros (1982), Meu Estranho Diário (1996), Antologia ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 74ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 74 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 75 Pessoal (1996), Onde Estaes Felicidade (2014), Meu sonho é escrever – Contos inéditos e outros escritos (2018). Entre tantas outras escritoras negras de ontem e hoje, ressalta-se Conceição Evaristo, Doutora em literatura. Ela começou a publicar poemas em 1990 e continua ativa. Ela nasceu em uma favela na capital mineira. Escreveu a obra Olhos d’Água (2014), Ponciá Vicêncio (2003) e o Becos da Memória (2006), Poemas da Recordação e Outros Movimentos (2008). Nesta obra mais recente, Olhos D’água, Conceição Evaristo apresenta narrativas, em 15 contos entrelaçados, com histórias de mulheres e homens negros e as lutas deles com diversos tipos de violência e depreciação sofridos na sociedade. (EVARISTO,2016). Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Conceição Evaristo – Encontros de Interrogação (2015). Depoimento gravado durante o evento Escritora-Leitora, em maio de 2015, no Itaú Cultural, em São Paulo/SP. No link: https://bit.ly/2UpdI2t SAIBA MAIS Com as suas leituras, até este momento, você reconhecerá o contato com a realidade de outro: Histórias, culturas e Sociedades Africanas (Literatura, Arte, língua e Cultura Africanas e Afro-brasileiras). Na primeira parte, será possível reconhecer o contato com a realidade de outro e o conceito de alteridade para conseguir entender o ‘outro’ africano, em suas diferenças. E na parte final, você será capaz de reconhecer o contato com a realidade de outro, através das Histórias, culturas e Sociedades Africanas (Literatura, Arte, língua e Cultura Africanas e Afro-brasileiras). ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 75ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 75 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais76 Figura 1: Carolina de Jesus autografa seu livro Quarto de Despejo em 1960 Fonte: wikipedia commons Definindo o outro: o negro na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições da matriz africana nas artes brasileiras e a resistência negra no Brasil Definindo o Outro, os negros na sociedade brasileira, nas relações raciais, nas contribuições da matriz africana nas artes brasileiras e na resistência negra no Brasil, virão muitos elementos para você definir o papel do negro no Brasil, dos tempos coloniais aos dias atuais. OBJETIVO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 76ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 76 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 77 É inegável o papel gigantesco que os africanos e os afro- brasileiros trouxeram e trazem para a formação do povo brasileiro, nas nossas história e cultura. Tratando da história do Brasil, a população negra, seja em condição de escravizado, chegando ao Brasil, tendo partindo do continente africano e sendo provenientes de vários países, passando por longos períodos sob a condição indigna de escravizados, lutando pela libertação. Ou seja, a história de seus descendentes na mesma condição, escravizado ou libertos, empreendendo as suas lutas por liberdade e direitos, batalhas diárias até hoje. Lutaram e lutam pelo reconhecimento de seus direitos, negados pelo longo período em que durou a escravidão no Brasil. A África, no período colonial brasileiro, possuía inúmeras línguas, como ainda continuam existindo. Comparados aos indígenas brasileiros, os autóctones, os que já habitavam aqui, anteriores a chegada dos portugueses, pode-se até entender que os africanos seriam mais homogêneos no plano da cultura, os africanos variavam também largamente nessa esfera. Tudo isso fazia com que a uniformidade racial não correspondesse a uma unidade linguístico‐cultural. Eram diversas as culturas dos africanos! Os africanos constituíam uma consolidadadiversidade linguística e cultural. Rapidamente os poderes locais e os que manipulavam o tráfico de escravizados consideraram útil aos fins mercantis e para evitar planos de fugas, impedirem a concentração de escravos oriundos de uma mesma etnia, nas mesmas propriedades, e até nos mesmos navios negreiros, impediu a formação de núcleos solidários que retivessem o patrimônio cultural africano. Sendo que a condição de escravizados não os calou completamente, ainda que fossem todos obrigados a falar a língua do rei de Portugal, conseguiram influenciar com suas línguas, sendo sujeitos participantes da criação e diferenciação do nosso português brasileiro. É possível perceber que falamos uma língua com muitas diferenciações do português falado em Portugal, Português do Brasil. Os africanos trouxeram novas palavras. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 77ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 77 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais78 Aquelas vozes submergidas no inconsciente iconográfico dessa gente trazida em cativeiro se fazem perceptíveis na pronúncia rica em vogais da nossa fala (ri.ti.mo, pi.néu, a.di.vo.ga.do), na nossa sintaxe (tendência a não marcar o plural do substantivo no sintagma nominal (os menino(s), as casa(s)), na dupla negação (não quero não),no emprego preferencial pela próclise (eu lhe disse, me dê), mas se revelam de maneira inequívoca nas centenas de palavras que foram e ainda são apropriadas como linguístico do português do Brasil a enriquecerem o imaginário simbólico da língua portuguesa.(CASTRO, 2011, p.01) Tais palavras recebidas dos africanos são faladas demasiadamente, nos nossos cotidianos, configurando marcas lexicais que portam elementos culturais africanos, repartidos com a sociedade brasileira e que transitam, no âmbito da recreação (samba, capoeira, forró, lundu, maculelê), dos instrumentos musicais (berimbau, cuíca, agogô, timbau), da culinária (mocotó, moqueca, mungunzá, canjica), da religiosidade (candomblé, macumba, umbanda), das poéticas orais (os tutus dos acalantos, o tindolelê das cantigas de roda), das doenças (caxumba, tunga), da flora (dendê, maxixe, jiló, andu, moranga), da fauna (camundongo, minhoca, caçote, marimbondo), dos usos e costumes (cochilo, muamba, catimba), dos ornamentos (miçanga, balangandã), das vestes (tanga, sunga, canga), da habitação (cafofo, moquiço), da família (caçula, babá), do corpo humano (bunda, corcunda, banguela, capenga), dos objetos fabricados (caçamba, tipóia, moringa), das relações pessoais de carinho (xodó, dengo, cafuné), dos insultos (sacana, xibungo, lelé), do mando (bamba, capanga), do comércio (quitanda, bufunfa, muamba, maracutaia). (CASTRO, 2011, p. 01) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 78ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 78 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 79 Trazido ao Brasil forçado, construindo o país, sendo que a luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi, ainda é, a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional. Teve que aprender a língua falada no brasil. Dominou-a, não só a refez, emprestando singularidade ao português do Brasil, mas também possibilitou sua difusão por todo o território, uma vez que nas outras áreas se falava principalmente a língua dos índios, o tupi‐guarani. Um número imenso de africanos foi, forçadamente, trazido ao Brasil. Calculo que o Brasil, no seu fazimento, gastou cerca de 12 milhões de negros, desgastados como a principal força de trabalho de tudo o que se produziu aqui e de tudo que aqui se edificou. Não permaneceram sem resistência ao sistema colonizador e escravagista que os oprimiu por séculos. Ao fim do período colonial, constituía uma das maiores massas negras do mundo moderno. Sua abolição, a mais tardia da história, foi a causa principal da queda do Império e da proclamação da República. Esta mercantilização dos corpos dos africanos, pelos países da diáspora africana encontrou muitas resistências e insurreições. Na década de 1570, na Bahia, surgiram os focos iniciais de resistência de escravizados. Estes criaram o primeiro quilombo de que se tem notícia, que foi destruído em 1575. Neste período, os engenhos espalhados pelo Brasil contavam com cerca de 15 mil escravizados. Alguns estudos mostram que no final desse século começou a se formar o maior e mais organizado quilombo que se conhece, Palmares. (MELO; Braga, 2010, p. 65) Neste Quilombo de Palmares viveram entre 20 a 50 mil pessoas, sua organização era através de um sistema político próprio, calcado na tradição dos povos africanos. “Apoiava-se numa economia de subsistência baseada na caça, na pesca, na agricultura e no artesanato”. (MELO; BRAGA, 2010, p. 65) O grande nome, figura heroica e exemplo de liderança e resistência foi Zumbi dos Palmares, foi a liderança do mais ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 79ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 79 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais80 famoso quilombo da história do Brasil, o Quilombo dos Palmares, notabilizado como um dos capitais nomes da resistência negra contra escravidão. O dia 20 de novembro tornou-se o Dia Nacional da Consciência Negra em sua homenagem, pois nessa data ele foi morto por seus captores. Diferenciando-se de seus precursores, Zumbi não almejava negociatas suspeitas com os brancos. Ele substituiu a estratégia de defesa passiva por outra ofensiva, organizando ataques- surpresa a engenhos, libertando escravizados e apoderando-se de armas, munição e suprimentos. Somente em 1695 é que Zumbi foi atacado e morto. Sua cabeça foi cortada e exposta em praça pública para que cessassem os boatos de que ele era indestrutível. Caso você não conheça esta história de resistência negra no Brasil, você poderá desconfiar da existência de tantas lutas, do longo processo de resistência contra os governos coloniais brasileiros. Isso acontece pelo fato das histórias dos africanos e afro-brasileiros serem desconhecidas. Eram e são poucos os autores que têm retratado a história de participação efetiva dos escravizados africanos no processo de formação do povo brasileiro e da real herança cultural que nos deixaram. Serem reconhecidos nas suas histórias e culturas africanas e afro-brasileiras configurou campos de lutas dos afro-brasileiros, do povo negro brasileiro em seus combates, nos movimentos negros. Isso foi trazendo avanços, como marcos legais que traziam esta possibilidade e exigência para dentro das escolas, de suas histórias e culturas (lei 10.639/2003 e 11. 11.645/2008). Como frutos deste processo intenso de reinvindicações dos movimentos organizados dos negros brasileiros, foi possível realizar uma revisão histórica com relação à contribuição negro- africana em todos os aspectos da vida social, cultural, política e econômica na sociedade brasileira). Isso configurou uma oportunidade ímpar na história da educação brasileira! As crianças afro-brasileiras, bem como qualquer outra criança, começaram a contar com professores mais bem preparados para tratar de temas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 80ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 80 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais 81 como as culturas africanas, nas atividades escolares. Isso começou a fornecer referências identitárias positivas aos descendentes dos negros africanos e que vivem no Brasil. Hoje já existem comprovações cientificas de que a raçahumana surgiu na África. Isso quer dizer que somos originalmente africanos. Todos os seres humanos. Voltando os olhos para a História da África, é interessante perceber que na cultura africana tudo é ‘História’. A grande História da vida compreende a História da terra e das Águas (geografia) a História dos vegetais (botânica e farmacopéia), a História dos ‘Filhos do seio da Terra’ (mineralogia e metais,) a História dos astros (astronomia, astrologia), a História das águas, e assim por diante. [...] Por exemplo, o mesmo velho conhecerá não apenas a ciência das plantas (as propriedades boas e más de cada planta), mas também ‘as ciências da terra’ (as propriedades agrícolas ou medicinais dos diferentes tipos de solo), a ciência das águas, astronomia, cosmogonia, psicologia, etc. (BÂ, 1982, p. 195) Tais ciências africanas, profundamente ligadas a vida, com os seus conhecimentos abertos a uma utilização prática. E, ainda, as ciências ‘iniciatórias’ ou ocultas, tão distanciadas do público desconhecedor das antigas tradições africanas, bastante vinculadas e integradas a vida trata-se sempre, para a África tradicional, de uma ciência eminentemente prática que consiste em saber como entrar em relação apropriada com as forças que sustentam o mundo visível, e que podem ser colocadas a serviço da vida. Quanto ao negro brasileiro na Sociedade Brasileira, as Relações Raciais tensas e preconceituosas que necessitou combater, bem como as contribuições desta Matriz Africana e afro-brasileira nas Artes Brasileiras e Resistência Negra no Brasil foram inúmeras e precisam ser conhecidas pelas crianças nas escolas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 81ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 81 03/02/2021 17:27:4603/02/2021 17:27:46 Educação das Relações Étnico-Raciais82 As famílias negras no Brasil colonial, imperial e republicano souberam e sabem das consequências de tão longo tempo de construção de papéis que carregam pelas futuras gerações de brasileiros as mais cruéis discriminações. Ser negro é enfrentar uma história de quase quinhentos anos de resistência à dor, ao sofrimento físico e moral, à sensação de não existir, a prática de ainda não pertencer a uma sociedade na qual consagrou tudo o que possuía, oferecendo ainda hoje o resto de si mesmo. Ser negro não pode ser resumido a um ‘estado de espírito’, a ‘alma branca ou negra’, a aspectos de comportamento que determinados brancos elegeram como sendo de negro e assim adotá-los como seus.(NASCIMENTO; 1974a, p.76). Maria Beatriz Nascimento, mulher negra e nordestina, historiadora, poetisa, militou ativamente nos movimentos pelos direitos humanos de mulheres e negros. Foi assassinada em 1995, quando cursava o seu mestrado, em decorrência do apoio que prestou a uma amiga que estava sofrendo com uma relação abusiva por parte do companheiro desta amiga. Foi ele quem a assassinou. Beatriz Nascimento deixou grande contribuição com suas escritas e publicações. Foi roteirista, sendo que a produção de sua autoria mais reconhecida é o filme e documentário Ôri (1989), em que é documentado a trajetória dos movimentos negros brasileiros entre 1977 e 1988. Nesta produção é possível entender sobre a corporeidade do negro, as injustas vidas dos africanos escravizados e dos afrodescendentes brasileiros, bem como o foco na situação desigual, de inferioridade e injusta das mulheres negras no Brasil. Beatriz Nascimento entendia que na história tradicional do povo negro subsistem ainda resquícios das sociedades africanas, além de uma cultura forjada no Brasil, e que esta cultura tramada em um processo de dominação, é perniciosa e bastante difícil, e que mantém o grupo no lugar onde o poder dominante acha que deve ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 82ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 82 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 83 estar. Isto é o que eu chamo de ‘Cultura da Discriminação’. Ela defendia que era necessário ir além da discussão e da visualização do processo de dominação de uma cultura sobre a outra (da cultura do dominador colonizador a cultura negra). Recomendando que os negros brasileiros deveriam procurar os elementos dentro de nossa cultura que estão provocando essa mesma subordinação? Até que ponto a cultura do branco nos domina e até que ponto a nossa própria cultura também está interagindo nesse processo de dominação? Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Vídeo: Trecho curto do Filme Ôri, com roteiro de Maria Beatriz Nascimento e dirigido pela cineasta Raquel Gerber. Disponível no link: https:// bit.ly/37nnNCx SAIBA MAIS Sobre o Negro na Sociedade Brasileira, as Relações Raciais, as contribuições da Matriz Africana e a Resistência Negra, Beatriz Nascimento questionava os conteúdos ideologicamente dominantes, preconceituosos, racistas, repassados, etnocêntricos, quando são falados ou escritos termos como aceitação, integração e igualdade. Ela considerava que era bem difícil estudar a discriminação racial, usando estes três termos para analisar a história do negro brasileiro, em uma sociedade racista, com elemento de análise teórica impregnado de uma cultura em todos os sentidos branca e europeizada se faz necessário perguntar-se a si próprio se determinados termos correspondem à sua perspectiva, se não são somente reflexos do preconceito, repetidos automaticamente sem nenhuma preocupação crítica. Ou seja, se não estamos somente repetindo os conceitos do dominador sem ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 83ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 83 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais84 nos perguntarmos se isto corresponde ou não à nossa visão das coisas, se estes conceitos são uma prática, e caso fossem uma prática se isto é satisfatório para o negro. Somos aceitos por quem? Para quê? O que muda ser aceito? O que é ser igual? A quem ser igual? É possível ser igual? Para que ser igual? (NASCIMENTO, 1974a, p.68) Os últimos anos do século XX aos dias atuais serão decisivos para a construção de novos conhecimentos sobre o Negro na Sociedade Brasileira as Relações Raciais, contribuições da Matriz Africana e Resistência Negra, tanto dentro das universidades como fora, na produção acadêmica e as artes em geral, na literatura em geral, no cinema, surgiram e continuam a surgir muitos teóricos, estudiosos e pensadores. Os apelos de Beatriz Nascimento fizeram seus ecos e trouxeram seus resultados. A todo o momento o preconceito racial é demonstrado diante de nós, é sentido. Porém, como se reveste de uma certa tolerância, nem sempre é possível percebermos até onde a intenção de nos humilhar existiu. De certa forma, algumas destas manifestações já foram incorporadas como parte nossa. Quando, entretanto, a agressão aflora, manifesta-se uma violência incontida por parte do branco, e mesmo nestas ocasiões ‘pensamos duas vezes’! antes de reagir, pois, como expus acima, no nosso ‘ego histórico’ as mistificações agiram a contento. (NASCIMENTO, 1974b, p. 42) Ressalta-se o importante e pioneiro papel desempenhado, na 1.ª metade do século XX, pelo escritor, teatrólogo, ativista, militante, Abdias do Nascimento, organizador em 1938 do inovador I Congresso Afro-Brasileiro (já passados 50 anos da decretação do fim da escravidão no Brasil). Abdias do Nascimento criou, em 1944, o extraordinário Teatro Experimental do Negro (TEN) para denunciar o preconceito e a discriminação e dar vozes aos talentos negros. Essa demanda continua sendo atual. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto -SER.indb 84ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 84 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 85 Abdias Nascimento narra os seus propósitos com o TEN: Nosso Teatro seria um laboratório de experimentação cultural e artística, cujo trabalho, ação e produção explícita e claramente enfrentavam a supremacia cultural elitista-arianizante das classes dominantes. O TEN existiu como um desmascaramento sistemático da hipocrisia racial que permeia a nação. Havia e continua vigente uma fi losofi a de relações de raças nos fundamentos da sociedade brasileira; paradoxalmente, o nome dessa fi losofi a é ‘democracia racial’. ‘Democracia racial’ que é um mero disfarce que as classes branco/brancóides utilizam como estratagema, sob o qual permanecem desfrutando ad aeternum.(NASCIMENTO, 1980, p. 68) Em 1988, a constituição federal vai criminalizar a discriminação racial e surgiu a Fundação Cultural Palmares, junto ao Ministério da Cultura, realizando extenso e consistente trabalho em prol das artes e culturas negras, junto aos afro- brasileiros (MELO; BRAGA, 2010). Figura 2: Escultura da Cultura Nok, datada entre o século V a.C ao século IV d.C., Nigéria (mais de 2500 anos atrás) Fonte: wikipedia commons ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 85ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 85 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais86 As duas primeiras décadas, do nosso atual século XXI, foram vigorosas nas participações e protagonismos dos Negros na Sociedade Brasileira, movidos por muitas mobilizações e por resultados configurados em marcos legais e políticas Públicas dos governos. As Relações Raciais foram debatidas, e, foram oferecidas inúmeras contribuições da Matriz Africana, dos afros descendentes, dos afro-brasileiros nas Artes Brasileiras. A Resistência Negra no Brasil prossegue forte e com seus resultados, apesar das históricas consequências do longo escravismo. Existem muitas conquistas por alcançar! Em 2003 foi criada a SEPPIR (Secretaria Especial de Política de Promoção da Igualdade Racial) criando um lugar de destino de muitas reinvindicações históricas. Um pouco adiante surgiu o Estatuto da Igualdade racial (2009). As comunidades quilombolas começaram a receber maior apoio e serem certificadas pela Fundação Cultural Palmares, em diversos estados brasileiros. Sendo que no ano de 2007 mais de 1000 delas foram certificadas (MELO, BRAGA, 2010). As culturas dos afro-brasileiros são valorizadas. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: As relações étnico-raciais no Brasil contemporâneo a partir da perspectiva da Diáspora Africana. Disponível no link: https://bit.ly/3haSuPQ SAIBA MAIS Ao final da sua leitura, você será capaz de definir o Outro, os negros na Sociedade Brasileira, nas Relações Raciais, nas Contribuições da Matriz Africana nas Artes Brasileiras e na Resistência Negra no Brasil, terá visto muitos elementos para você definir o papel do negro, no Brasil, dos tempos coloniais aos dias atuais. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 86ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 86 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 87 Relembrando o contato com a realidade do outro: histórias, culturas e sociedades ameríndias e os diversos povos indígenas do Brasil: culturas indígenas no Brasil. (literatura, arte, língua e cultura indígenas brasileiras) Relembrando o contato com a realidade do outro: histórias, culturas e sociedades ameríndias e os diversos povos indígenas do Brasil: culturas indígenas no Brasil. (literatura, arte, língua e cultura indígenas brasileiras), tudo isso fará com você conheça para não mais esquecer a contribuição das nossas matrizes indígenas do Brasil e como se encontram hoje. OBJETIVO Conhecer a realidade do ‘Outro’, do sujeito indígena, na história do Brasil, requer conhecer para não esquecer! E para aproximar de um universo que poderá ser visto como tão distante, ou pelo fato de a Amazônia estar longe geograficamente de muitas outras regiões do Brasil ou por julgar que os tempos dos indígenas já passaram. A falta do contato com a história das diversas culturas indígenas que viveram e vivem nas Américas e no Brasil fazem falta aos professores, e, consequentemente aos alunos. Os grupos indígenas que aqui já viviam no litoral brasileiro, e viram chegar os primeiros portugueses eram sobretudo povos indígenas de tronco tupi que, havendo se instalado uns séculos antes, ainda estavam desalojando antigos ocupantes oriundos de outras matrizes culturais. Somavam, talvez, 1 milhão de índios, divididos em dezenas de grupos. Tais grupos indígenas estavam ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 87ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 87 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais88 organizados, um por um, compreendendo um conglomerado de várias aldeias de trezentos a 2 mil habitantes. Não confundir com todos os povos indígenas que viviam no Brasil do século XVI, época da chegada dos colonizadores. Esta soma que representa uma vultosa presença populacional indígena é somente dos povos que falavam a língua Tupy, esta língua que deixou tantos nomes que repetimos sem nem mesmo nos damos conta dela. E, ressaltando que só a contagem dos povos de língua Tupy no litoral tinha à mesma população que Portugal na mesma época. “Apesar da unidade linguística e cultural que permite classificá‐los numa sómacroetnia, oposta globalmente aos outros povos designados pelos portugueses como tapuias (ou inimigos)”. (RIBEIRO, 1995, p. 32). O fato é que jamais os grupamentos Tupy conseguiram unificar‐se numa organização política que lhes permitisse atuar conjugadamente. Isso demonstra o equívoco histórico e cultural da expressão os índios brasileiros ou os indígenas brasileiros. A diversidade étnico-cultural é histórica e isso já se dava antes da chegada do colonizador. Os povos tupy, na escala da evolução cultural, faziam neste momento da chegada dos portugueses e por conta própria a sua revolução agrícola, ultrapassando assim a condição paleolítica. É faziam por um caminho próprio, juntamente com outros povos da floresta tropical que haviam domesticado diversas plantas, retirando‐as da condição selvagem para a de mantimento de seus roçados. Um exemplo extraordinário é a mandioca, porque se tratava de uma planta venenosa a qual eles deviam, não apenas cultivar, mas também tratar adequadamente para extrair‐lhe o ácido cianídrico, tornando‐a comestível.(RIBEIRO, 1995, p. 31) Aquelas representações preconceituosas medonhas e racistas feitas sobre os índios brasileiros, vestidos como os mesmos trajes, falando um português que levam aos risos, são injustas diante da diversidade étnico-linguística e cultural, expressa de muitos modos, com tradições distintas, quando se fala sobre a história e a cultura indígena, no Brasil. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 88ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 88 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 89 Com um novo inimigo morando no Brasil, o português colonizador, só foi possível aos Povos Tupy conseguiram estruturar efêmeras confederações regionais que logo desapareceram. A mais importante delas, conhecida como Confederação dos Tamoios, foi ensejada pela aliança com os franceses (RIBEIRO, 1995, p. 33), na baía de Guanabara. Além dos Povos Tamoios, reuniu, entre 1563 a 1567,os Povos Tupinambá, no Rio de Janeiro e os Povos Carijó no planalto paulista, apoiados pelos Povos Goitacá e pelos Povos Aimoré da Serra do Mar, que não eram de língua Tupy, e sim de Língua jê (um outro trono linguístico que persiste ainda hoje no Brasil, em estados como Mato Grosso, Tocantins e na Região Sul do Maranhão). Neste momento estavam opostos aos portugueses e aos povos indígenas que os apoiavam. E os portugueses, entre eles os padres jesuítas manipulam seus defensores: Nessa guerra inverossímil da Reforma versus a Contra‐Reforma, dos calvinistas contra os jesuítas, em que tanto os franceses como os portugueses combatiam com exércitos indígenas de milhares de guerreiros ‐ 4557, segundo Léry; 12 mil nos dois lados na batalha final do Rio de Janeiro, em 1567, segundo cálculos de Carlos A. Dias (1981) ‐, jogava‐se o destino da colonização. E eles nem sabiam por que lutavam, simplesmente eram atiçados pelos europeus, explorando sua agressividade recíproca. Os Tamoios venceram diversas batalhas, destruíram a capitania do Espírito Santo e ameaçaram seriamente a de São Paulo. Mas foram, afinal, vencidos pelas tropas indígenas aliciadas pelos jesuítas. (RIBEIRO, 1995, p. 33) Aqueles que invadiram as terras foram os colonizadores. É interessante que os professores entendam as reais histórias para conseguir produzir verdade iras narrativas aos seus alunos. Os portugueses, no século XVI, eram muito diferentes dos diversos povos indígenas brasileiros. Os povos indígenas que viviam no Brasil eram todos eles estruturados em tribos autônomas, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 89ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 89 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais90 autárquicas e não estratificadas em classes, o enxame de invasores era a presença local avançada de uma vasta e vetusta civilização urbana e classista. (RIBEIRO, 1995, p. 37) Este ‘outro’, o português, europeu era o atraso, o vinculado aos sistemas de governo não democráticos, opressores e racistas, não respeitavam outras religiosidades, culturas e costumes. Estes portugueses desconheciam a tolerância a diversidade étnico-cultural em que viviam os povos indígenas brasileiros. Além de estabelecerem conflito e aprofundar alguns já existentes, entre os distintos povos indígenas que aqui viviam, trouxeram a obrigatoriedade de todos seguirem a língua do rei de Portugal, bem como sua religião, mexendo profundamente nas diversas culturas, línguas, cosmologias e religiosidade de tantos e distintos povos. Outro agente poderoso de tal projeto colonizador era o padre jesuíta que desconhecia culturas e religiosidades próprias dos povos que encontrou aqui no Brasil, a partir do século XVI. Era a Igreja católica, com seu braço repressivo, o Santo Ofício. Ouvindo denúncias e calúnias na busca de heresias e bestialidades, julgava, condenava, encarcerava e até queimava vivos os mais ousados.(RIBEIRO, 1995, p. 37) Isso havia sido arquitetado ainda no século XV, anterior a chegada de qualquer português ao Brasil, e prossegue firme, nestes tempos em que vivemos, no século XXI, com outros projetos evangelistas. Veja o que escreveu o papa em 1954: Não sem grande alegria chegou ao nosso conhecimento que nosso dileto filho infante D. Henrique, incendiado no ardor da fé e zelo da salvação das almas, se esforça por fazer conhecer e venerar em todo o orbe o nome gloriosíssimo de Deus, reduzindo à sua fé não só os sarracenos, inimigos dela, como também quaisquer outros infiéis.(Papa Nicolau V, 1454, p. 01) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 90ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 90 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 91 Isso atingirá os modos de produção artística no Brasil colonial. Gandon (1997) explicou que: os jesuítas procuraram adaptar a arte europeia ao contexto cultural dos índios brasileiros. Escrevendo em 1585, o padre Anchieta relatava que numa das três missões de índios cristãos livres, situadas na costa norte da Bahia - Espírito Santo, São João e Santo Antonio - os padres ensinavam os índios a cantar, e tem seu coro de canto e flautas para suas festas, e fazem suas danças à portuguesa com tamboris e violas, com muita graça, como se fossem meninos portugueses, e quando fazem estas danças põem uns diademas na cabeça de penas de pássaros de várias cores, e desta sorte fazem também os arcos, empenam e pintam o corpo. Desde o século XVI, os jesuítas se serviam também dos autos -forma teatral de uma trama popular, com cantos e danças - como elemento eficaz da catequese. É bastante provável que, desde então, personagens representativos dos indígenas figurassem nestas peças, encenadas sobretudo no ciclo natalino.(GANDON, 1997, p. 156/157) Isso trouxe uma popularização de tais autos, para eles afluíram as populares danças dramáticas, apresentadas nas portas das igrejas coloniais brasileiras. Anos mais tarde, os africanos chegaram e novos elementos foram embutidos, dentro das manifestações artísticas populares do Brasil. Algumas pessoas, nesta altura da história do Brasil, em pleno século XXI expressam seus preconceitos com relação a este outro, o indígena. Odeiam, sem sequer conhecerem. Movidos por algum motivo relacionado ao tom da pele, etnia, ao fato de alguns povos estarem empobrecidos, de não apreciar qualquer outra estética diferente da sua própria classe social, da sua própria cidade ou identificações étnicas, ou por falarem línguas que não são aquelas deixadas pelos colonizadores. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 91ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 91 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais92 Diante das diferenças entre os brasileiros não-indígenas para reconhecer os ‘outros’, para conhecer aqueles desconhecidos brasileiros indígenas, é necessário cuidar das informações. Gersem Baniwa é indígena brasileiro, pertence ao Povo Baniwa, do Alto do Rio Negro, é antropólogo, trabalhou no Ministério da Educação, e atua como Assessor Técnico do Fórum de Educação e Saúde Indígena do Amazonas – FOREEIA. Ele professor doutor adjunto da Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Com ele é possível você aprender sobre a realidade de um povo indígena do Brasil. Mas é importante relativizar que tais conhecimentos são apenas do povo Baniwa. Cada povo indígena, ontem e hoje, vai ter seus saberes culturais distintos. Gersem Baniwa esclarece que estes ‘outros’, os povos indígenas, não ficam felizes ao serem: enquadrados pelas lógicas academicistas que alimentam e sustentam os processos de reprodução do capitalismo individualista, que tem gerado uma sociedade cada vez mais em retorno à civilização da barbárie e da selvageria, por meio da violência, da exploração econômica desumana, do império da lei do mais rico e dos que tem poder político à base de democracias das elites econômicas e políticas. Os povos indígenas gostariam de compartilhar com o mundo, a partir da universidade, seus saberes, seus valores comunitários, suas cosmologias, suas visões de mundo e seus modos de ser, de viver e de estar no mundo, onde o bem viver coletivo é a prioridade(BANIWA,2012, p. 3) Indagado sobre a sua cultura e a sua história e de seu Povo Indígena Baniwa, como um sujeito que faz parte de um grupo que lida com o conhecimento em que se ensina o que se vive, Gersem Baniwa esclarece que entre os Baniwa uma lição que se aprender cedo, com os pais e antepassados é que só se ensina o que se vive. Ensinar é viver. Tais ensinamentos advêm da antiga ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 92ebookcompleto impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 92 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 93 filosofia da vida cósmica do povo Baniwa, que sempre evitou separar teoria e prática, observação e vivência. Neste século XXI, é possível ler a literatura feita por alguns indígenas publicada. Ressalta-se a presença de um escritor do Povo Munduruku, que vivem no estado do Pará, na Amazônia, autor das seguintes obras: Histórias de índio, coisas de índio e As serpentes que roubaram a noite. Ele foi laureado pela UNESCO, com uma Menção honrosa no Prêmio Literatura para crianças e Jovens na questão da tolerância, com a obra Meu avô Apolinário. Conheça um trecho da obra: E foi ouvindo as histórias que meu avô contava que percebi o que os povos tradicionais podiam oferecer à cidade. […] E isso me dá um álibi para usar as narrativas míticas para falar às pessoas com a mesma paixão com que o velho falava comigo. Acho que foi assim que surgiu em mim o interesse de narrar histórias para ajudar as pessoas a olharem para dentro de si mesmas, compreenderem sua própria história e aceitá-la amorosamente (MUNDURUKU, 2009, p. 14-16) Outros renomados indígenas escritores são David Kopenawa, do Povo Indígena Yanomami, com livro publicado. Ailton Krenak, do povo Krenak, de Minas Gerais, militante no Movimento Indígena Brasileiro, também já publicou. Outro escritor indígena é Carlos Haki’y, da liderança importante do tuxawa Crispim de Leão, importante liderança do Povo Sateré, Guerra da Cabanagem. Do Povo Indígena Potiguar, da paraíba, destaca-se a escritora Eliane Potiguar, vivendo e publicando no Rio de Janeiro, escreveu o livro Autora Metade cara, metade máscara. O Povo Indígena conta com um escritor destacada e conhecido é Olívio Jekupé, com diversos livros escritos. Ele é da aldeia Kurukutu, em São Paulo. Tal vigorosa e rica literatura precisa chegar às escolas e ser do conhecimento das crianças e adolescentes. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 93ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 93 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais94 Figura 3: Guerrilhas de Rugendas Fonte: wikipedia commons Apostando em que na vida trata-se de experimentar o mundo, tanto materialmente, como cognitivamente, afetivamente e espiritualmente. Assim, a pedagogia Baniwa busca educar através da observação, da experimentação e dos exemplos. Os adultos ensinam as crianças Baniwa a observar, experimentar e seguir todos os bons exemplos. Isso é viver. Já vão longe os tempos coloniais e persistem as visões equivocadas sobre os povos indígenas que sobreviveram aos 500 anos de colonização em processo até hoje. Esta é a opinião do movimento indígena brasileiro em seus documentos em que denunciam as situações de desrespeitos aos marcos legais que os colocaram, nas primeiras décadas do século XXI, em situações reparadoras dos mais cruéis tratamentos do estado brasileiro, a partir de abril de 1500. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 94ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 94 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 95 Ao final desta leitura, você será capaz de reconhecer contos de fadas renovados. Sendo capaz de distingui-los dos contos tradicionais, por estar esclarecido para você que os contos de fadas renovados narram histórias, com elementos dos contos tradicionais, renovando-os. Nomeando o outro: os povos indígenas na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições dos povos indígenas nas artes brasileiras e resistência indígena no Brasil Nomeando o outro, os povos indígenas na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições dos povos indígenas nas artes brasileiras e resistência indígena no brasil, trará uma nova e verdadeira visão sobre a gigantesca contribuição indígena à história e cultura brasileiras. Naquele fatídico momento da chegada dos portugueses, os povos tupy, que viviam ali no litoral apreenderam aquela chegada do europeu como um acontecimento espantoso, só assimilável em sua visão mítica do mundo. Seriam gente de seu Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: Conheça os Povos Indígenas Brasileiros. No site é possível visualizar os nomes de todos, na opção ‘mostrar todos’. Ou, ainda, navegar pelo site com duas outras opções: Por estado (Unidade da Federação) ou por família linguística, lendo sobre os diversos povos indígenas do Brasil. Disponível no link: https://bit.ly/2zdLfoU SAIBA MAIS ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 95ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 95 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais96 deus sol, o criador ‐ Maíra ‐, que vinha milagrosamente sobre as ondas do mar grosso. Este ser sobrenatural Maíra ou Mahyra. Ele é a personagem central de um equívoco que data de cinco séculos: no século XVI, os jesuítas procuraram descobrir uma entidade sobrenatural que pudesse ser comparada ao Deus cristão a fim de facilitar a catequese. Representeando um dos primeiros equívocos dos portugueses com relação as cosmologias indígenas, as suas culturas e religiosidades, O Padre Manoel de Nóbrega teria escolhido usar a representatividade de Maíra e de outros deuses aos seus propósitos evangelizadores e colonizadores. E tudo indica que foi Nóbrega quem fez a escolha: ‘Esta gentilidade nenhuma coisa adora, nem conhece Deus, somente aos trovões chamam de Tupane; que é como quem diz coisa divina. E assim nós não temos outro vocábulo mais conveniente para os trazer ao conhecimento de Deus, que chamar-lhe Pai Tupane’. Não há dúvida que a adoção dessa palavra, com esse sentido, constituiu em mais uma dificuldade para as missões jesuíticas.(LARAIA, 2005, p.11) Chegando na costa brasileira, descendendo das embarcações, foram pensados como seus deuses e com bondade. Só poderiam estar chegando da morada dos deuses e dos ancestrais. Utilizamos a palavra ‘céu’ para indicar o local onde vivem as almas dos antepassados e o herói mítico e principal ancestral, Mahyra. Povos Indígenas como os Suruís e os Assurinis declararam que estaria localizado em uma região por cima das nuvens. Os Povos Originários tentaram explicar aqueles povos que chegaram com suas cosmologias. Dando-lhes um lugar entre os seus mais sagrados e cultuados seres espirituais. Com o tempo será possível entender que não eram deuses os portugueses. E nem viriam de uma Terra sem Males, não tendo, ainda as melhores intenções com relação aos povos que encontraram. Ainda não sabiam o que os esperavam, diante dos planos dos colonizadores com relação aos verdadeiros donos da terra, os povos indígenas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 96ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 96 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 97 Não havia como interpretar seus desígnios, tanto podiam ser ferozes como pacíficos, espoliadores ou dadores. Os povos indígenas entendiam, à primeira vista, como eles próprios se comportavam e eram. Assim, estes estrangeiros só poderiam ser boas pessoas, pensaram os povos que viviam no litoral. Assim, pensavam estes ameríndios, parte dos povos originários da América, além de muitos outros povos. Mesmo porque, no seu mundo, mais belo era dar que receber. Ali, ninguém jamais espoliara ninguém e a pessoa alguma se negava louvor por sua bravura e criatividade. Era ainda uma Terra sem males e sem governos tiranos, com hospitalidade. Além disso,julgavam os povos indígenas tupy que viviam no litoral, que os portugueses ao sair do mar, eram apenas feios, fétidos e infectos. Não havia como negá‐lo. É certo que, depois do banho e da comida, melhoraram de aspecto e de modos. Tais povos indígenas não entenderam, ainda, as razões que levavam os portugueses a agirem com tanta aflição. Tanta ganância com as toras de Pau-Brasil que apressadamente recolhiam. Não agiam de modo nenhum com a semelhança marca destes povos originários, na base do dom e contra dom, não buscavam nas relações com os povos indígenas reciprocidades e correntes contínuas de doações. Deste modo agiam e ainda agem muitos povos indígenas brasileiros. Eles não precificavam (colocavam preços) nos objetos que doavam aos portugueses. Os valores seriam implícitos aos objetos e ações. Isso era e é oposto a nascente e atuante economia do mercado qualificada por trocas diretas, daqueles bens e de serviços. Por que se afanavam tanto em seus fazimentos? Por que acumulavam tudo, gostando mais de tomar e reter do que de dar, intercambiar? Sua sofreguidão seria inverossímil se não fosse tão visível no empenho de juntar toras de pau vermelho, como se estivessem condenados, para sobreviver, a alcançá- las e embarcá‐las incansavelmente?(RIBEIRO, 1995, p. 45) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 97ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 97 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais98 500 anos de colonização não apagou aquilo que o antropólogo Mauss (2003) chamou de Economia do Dom, descrevendo em sua escrita sobre as pesquisas em sociedades primitivas, em comunidades antigas e indígenas no mundo. Assim, a cultura trazida pelos portugueses poderia operou bem mais males que bênçãos. Os anos que se seguiram foram de resistências contra todas as táticas dos colonizadores para apoderar-se de suas terras, trazendo suas próprias leis e criando uma visão imposta, unificadora, injusta, cruel, mentirosa, desapropriadora, enquanto produziam explicações irreais sobre os nodos de viver, dos mais diversos povos indígenas. Os anos passaram e os Povos Indígenas que escaparam deste grande projeto colonizador europeu, iniciado no século XVI, não aniquila-ram totalmente as suas integradas culturas e permanecem vivas, nas distintas Culturas Indígenas, no Brasil atual. As culturas andam de braços dados com as cosmologias diferenciadas do ‘outro’ descendente do colonizador e de ‘outros’ povos indígenas. Cada povo indígena apresenta seus próprios modos culturais e suas epistemologias, cosmologias, modos de produzir e repassar conhecimentos. Um exemplo disso foi dado por um destes povos, que vive na Bahia. O Povo Pataxó esclarece que até mesmo a matemática, uma ciência tão exata, tão ocidentalmente posta, está vinculada a relação como eles percebem o mundo, as visões de mundo dos Pataxós. É possível aprender com o mundo a matemática, assim somar, a operação da adição funciona: Eu vou te dizer. Por exemplo, quando o cipó se abraça a uma árvore, ele está fazendo a adição do amor. E isso quer dizer que ele se abraçou para fazer um só corpo. A árvore e o cipó se abraçaram para se tornar em um só corpo. Quer dizer que um pertence a dois e dois pertence a um. Formaram um corpo só, fizeram a adição do amor. E fizeram isso para sobreviver um ao outro. Tem planta que precisa da outra para sobreviver. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 98ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 98 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 99 Então isso é matemática. E também a matemática faz igualar tudo na natureza. O amor da Natureza iguala tudo. Quer dizer que se tem um amor na Natureza, sempre vai ter espaço para mais uma planta que vier. Vamos dizer que dá uma fruteira aqui e ali amadurece as frutas e uma paca vai lá e come uma fruta, lá adiante ela deixa o caroço. Lá nasce. Pode, tá cheio, mais ali sempre vai haver ali a Natureza, ela tá com o coração dela aberto. A Natureza tem o coração de mãe, sempre na casa dela, sempre cabe o lugar para mais um. Isso é matemática e isso é valor(ROCHA; D’URÇO 2008, p. 1) Os povos indígenas, ontem e hoje, dançam para comemorar atos, ocorrências e fatos relativos às vidas e as mais diversas tradições, que não são únicas, mas particulares, indistintas para os vários Povos Indígenas brasileiros. Existem danças para a preparação da guerra e ao regressar de batalhas, para comemoração algum cacique, as safras, do amadurecer das frutas, por ótimas pescarias e para festejar a puberdade das meninas, ou para homenagear seus mortos e ancestrais. É possível dançar para afastar as doenças, as epidemias e muitos flagelos. Tais linguagens dos corpos indígenas, em movimentos nas suas danças, suas organizações estéticas, desde as pinturas corporais (usando uma fruta chamada jenipapo ou o urucum, na região tocantina maranhense, que também serve para colorir a comida) às ricas coreografias, passando pelos belos cantos em suas línguas, tudo está integrado às suas religiosidades e ritualísticas indígenas. As danças que persistem e existem ainda hoje foram furtos das resistências as perseguições inúmeras. Não existia uma compreensão por outro parâmetro que não fossem a vida dos brancos, suas festas, sua religiosidade e seus modos de festejar. Um Inglês visitando o Brasil em 1810 teriam observado os indígenas dançando e afirmou, que eles eram cristãos embora se ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 99ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 99 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais100 diga que alguns deles conservam em segredo seus ritos bárbaros, prestando adoração ao maracáe praticando todas as cerimônias de sua religião, se posso usar essa palavra. E espantavam bastante aos Governantes e párocos. O Governador da Província de Pernambuco em 1827foi incumbido pelo imperador a fazer um levantamento sobre a índole, costumes e inclinações dos índios. Ele se chamava José Carlos Mayrink da Silva Ferrão e realizou a sua escrita, afirmando: Nos domingos e dias santos aparecem alguns no templo; que trejeitos, porém não fazem, quando assistem ao Santo sacrifício! Ignoram tudo o que é pureza religiosa, sabem sofrivelmente a arte dos hipócritas: no mesmo dia, porém, ou no outro adoram os seus ídolos, bebem, dançam segundo o rito de sua estulta (tola) religião.(NAUD, 1971, p. 331) As danças resistiram! E educam as novas gerações sobre suas culturas e histórias. Assim, as mais diversificadas Culturas Indígenas existentes, coexistentes, em diálogos, são provas vivas da pluralidade cultural, no Brasil atual, colocam as festividades como modos de educação, nestes momentos comemorativos, em que celebram coletivamente, como por exemplo, a Festa do Moqueado, para celebrar a menarca (1.ª menstruação) de meninas (como o povo Guajajara lá no sul do Maranhão) são passados valores poderosos deste povo para suas próximas gerações. Aquelas meninas serão as futuras mães e responsáveis pelas novas gerações e pelo repasse e manutenção das suas culturas aos filhos. Ou a tradicional festividade dos povos indígenas do Xingu. É a dança do kuarup, nome de uma árvore sagrada, e ao mesmo tempo do ritual anual de respeito aos mortos, em Mato Grosso. Nas festas, motivadas por fatos distintos, que os diversificados povos indígenas e suas culturas atuais, apoiadas em suas ancestralidades escrevem suas memórias, seus valores, seus códigos de regras, suas crenças, suas angústias pelo árduo trabalho, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 100ebook completo impressão - Educação das RelaçõesÉtnico-Raciais - Aberto - SER.indb 100 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 101 suas esperanças e fantasias. Os ingredientes que compõem a festa popular são também textos por meio dos quais a gente simples manifesta tudo aquilo que lhe toca mais profunda e intensamente. (...). Consequentemente, podemos pensar a festa como uma grande escola, na qual se aprende, antes de outras tantas coisas, como a vida em sociedade acontece - seus valores, seus conflitos e suas possibilidades de interação e sociabilidade. (PESSOA, 2007, p. 4-5) Tais festividades que contam com a participação de todos os que vivem em cada território indígena, pelo extenso Brasil, são apoiados em mitos, as verdades em formas de narrativas que cada povo indígena mantém e comemora, repassando-os as novas gerações. Herdamos dos nossos povos indígenas o gosto intenso de festejar. Os povos indígenas são marcados por suas inúmeras festividades indígenas. E que eram e são lugares de aprendizagem, marcando todos os seus contingentes populacionais e cada um singularmente com os seus valores, as suas normas, as suas tradições; ao mesmo tempo em que se transforma sempre num grande balcão, numa grande demonstração das inovações, das mudanças, das novas descobertas, das novas concepções. Toda a vitalidade festiva da cultura popular brasileira dos autos natalinos ao carnaval, da Festa do Boi na Amazônia, passando pelo Bumba Meu Boi no Maranhão às quadrilhas juninas, são as marcas culturais de matrizes como as indígenas. Quem vai à festa tem a possibilidade de aprender que o que se sabe ainda não é tudo para se continuar a viver e a reproduzir as condições de sobrevivência. São oportunidades de novas aprendizagens e devem ser vivenciadas nas escolas. Nos bailes pastoris, encenados ainda hoje em vários pontos do litoral norte da Bahia como partes dos festejos natalinos, caboclos e africanos aparecem, geralmente, entre os personagens. São dramatizações populares brasileiras encenadas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 101ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 101 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais102 e apreciadas por muitas partes do Brasil. As matrizes fundadoras do povo brasileiro, indígena (chamada de cabocla por alguns), são representadas em diversas encenações cantadas e dançadas. Em muitos casos, os indígenas e os negros aparecem repletos de estereótipos. Mas resistiram com suas culturas e histórias. Assim, é possível ver que na Bahia, aparece personagem africano, falando mal o português, comparável aos africanos escravizados, ao chegarem ao Brasil, encarnando o estereótipo de uma imagem preconceituosa do negro, porém inverte constantemente o seu papel de ridículo, ridicularizando, ao mesmo tempo, os senhores e senhoras de escravos e denunciando aspectos da escravidão. Aprendendo também que o novo é nossa herança cultural, em constante processo de reconstrução, geração a geração, graças aos legados ancestrais do povo brasileiro, indígena e afro-brasileiro, conservados pela cultura popular tradicional, incansável em se refazer, sem fechar os olhos para os legados dos nossos povos originários. Talvez isso explique a grandiosidade das nossas festas populares, por todo o país e o ano todo, reunindo gerações diferentes em torno do ensinar e o aprender para preservá-las e sempre atualizá-las: A festa popular é o grande e fecundo momento a nos ensinar que a arte de viver e de compreender a vida que nos envolve está na perfeita integração entre o velho e o novo. Sem o novo, paramos no tempo. Mas sem o velho nos apresentamos ao presente e ao futuro de mãos vazias. (PESSOA, 2005, p. 30) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 102ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 102 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 103 Figura 4: Povos Indígenas do Brasil na Época do Descobrimento Fonte: wikipedia commons Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Vídeo: Conheça mais sobre os Povos Indígenas Brasileiros, neste vídeo com a liderança indígena, escritor e xamã (liderança indígena), Davi Kopenawa – Seminário Arte, Cultura e Educação na América Latina (2018). Disponível no link: https://bit.ly/3h8CZI4 SAIBA MAIS ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 103ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 103 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais104 Ao término deste capítulo você é capaz de reconhecer o contato com a realidade de outro: histórias, culturas e sociedades africanas (literatura, arte, língua e cultura africanas e afro-brasileiras). bem como, você já é capaz de definir o outro: o negro na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições da matriz africana nas artes brasileiras e resistência negra no brasil. em seguida, você leu e já é capaz de relembrar o contato com a realidade do outro: histórias, culturas e sociedades ameríndias e os diversos povos indígenas do brasil: culturas indígenas no brasil. (literatura, arte, língua e cultura indígenas brasileiras). por último, você leu e já é capaz nomear o outro: os povos indígenas na sociedade brasileira, as relações raciais, contribuições dos povos indígenas nas artes brasileiras e resistência indígena no brasil. RESUMINDO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 104ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 104 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 105 UNIDADE 03 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 105ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 105 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais106 A diversidade é inerente ao ser humano e é uma importante discussão a ser considerada no trabalho escolar. Nesse sentido, é necessário discutir inovações nas ações pedagógicas para que a escola pare de reproduzir sujeitos fragmentados e assuma uma proposta pluricultural para melhor atender as necessidades dos sujeitos e da sociedade que ele está inserido. Você estudará na Unidade 3 sobre a Prática Pedagógica que contemple o Outro em suas semelhanças e diferenças, levando em conta a Diversidade Cultural. Preparado? Ao longo deste estudo você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 106ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 106 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 107 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 3. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: OBJETIVOS 1 Refletir sobre a Diversidade Cultural e sobre o respeito às diferenças ambiental ecológica, étnico-racial, de gêneros, faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais, escolhas sexuais, entre outras. 2 Entender a Diversidade Cultural Brasileira na Prática Docente. 3 Desenvolver uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças. 4 Compreender a Necessidade de Repensar o Papel do Educador diante da Diversidade Cultural. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 107ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 10703/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais108 Refletindo sobre a diversidade cultural e sobre o respeito às diferenças Ao término deste capítulo você será capaz de compreender o desenvolvimento de uma Prática Pedagógica que contemple o Outro em suas semelhanças e diferenças, levando em conta a Diversidade Cultural. Inicialmente você irá refletir sobre a Diversidade Cultural e sobre o respeito às relevantes diferenças, como as diferenças ambiental-ecológica, étnico-racial, de gêneros, entre as faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais, escolhas sexuais, entre outras. Em seguida, você pensará sobre a necessária tarefa de aplicar a Diversidade Cultural Brasileira na Prática Docente, percorrendo Histórias, pensamentos, conquistas e refletindo sobre o futuro do respeito às diferenças. Ainda refletindo sobre a prática pedagógica, você focará em reflexões sobre como desenvolver uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças. E, por fim, você vai avaliar a necessidade de repensar o papel do Educador diante da Diversidade Cultural. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO Refletindo sobre a diversidade cultural e sobre o respeito às diferenças: questões iniciais e essências sobre diversidade e diferenças nas práticas pedagógicas. Refletindo sobre a Diversidade Cultural e sobre o respeito às diferenças, você tomará contato com as questões iniciais e essências sobre diversidade e diferenças, e, tais aprendizagens ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 108ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 108 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 109 farão enorme diferença nas suas futuras práticas pedagógicas, além de fornecer elementos para refletir sobre erros de algumas atuais práticas pedagógicas que não levam em conta nem as diversidades culturais e nem as diferenças entre as pessoas. Você vai começar esta leitura com uma reflexão sobre a Diversidade Cultural e sobre o respeito às diferenças, tomando consciência de questões iniciais e essências sobre diversidade e diferenças, dentro das (e nas) práticas pedagógicas. Isso significa que você vai refletir sobre a Diversidade Cultural e as Diferenças, juntas e dentro das escolas. A Diversidade Cultural precisa ser vista como a expressão de opostos. Sobre este tema é possível afirmar que a Diversidade Cultural é diversa, [...] ou seja, não se constitui como um mosaico harmônico, mas um conjunto de opostos, divergentes e contraditórios. A Diversidade Cultural é cultural e não natural, ou seja, resulta das trocas entre sujeitos, grupos sociais e instituições a partir de suas diferenças, mas também de suas desigualdades, tensões e conflitos.(BARROS, 2008, p. 18) E, é possível ainda afirmar que a Diversidade Cultural surge como uma resposta a algo que já era uma indagação, além de significar a procura decidida de um sujeito, e não exclusivamente uma constatação antropológica. É o resultado de uma construção deliberada, e não apenas um pressuposto, um ponto de partida. Um projeto, e não apenas um inventário (BARROS, 2008, p. 19). Na busca de entender pelo ponto de vista cultural, o que é a diversidade, os caminhos poderão levar ao entendimento da diversidade como a construção ao mesmo tempo histórica, cultural e social das diferenças. Algo é incontestável: A Diversidade Cultural se realiza no humano, ao longo da História. E é nesse contexto que as relações raciais se configuram, constroem e reconstroem. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 109ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 109 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais110 E o que afirmar sobre as diferenças? Existe um encontro entre o tema da diversidade cultural e das diferenças. E ficará evidente que por mais que cada comunidade seja distinta da outra, e que seus membros compartilhem idênticos ou semelhantes atos, festas, comemorações e modos de sentir e pensar, cada um de seus membros aprenderá socialmente a pertencer a uma determinada diversidade cultural, e, assim, carregar suas diferenças. As mais novas gerações aprendem de mãos dadas com as mais antigas, seus mestres e com os legados deixados pelos seus antepassados, chamados de ancestrais. E como estas pessoas, em seus grupos, com as suas diversidades culturais, agem nas e com as diferenças? O Antropólogo Claude Lévi-Strauss, já em 1950, naquele cenário posterior aos horrores da 2.ª grande guerra, no discurso sobre Raça e História, para a UNESCO, já havia proposto três principais marcações conceituais para a compreensão e atuação com a diversidade cultural. Lévi-Strauss afirmou com relação a diversidade cultural que era imprescindível que ela fosse realizada de tais formas a permitir diálogos generosos entre as distintas diversidades culturais (KAUARK; BARROS; TORREÃO;MIGUEZ, 2015). Segundo o entendimento do importante estudioso francês e que morou em São Paulo, na juventude, deu aulas na Universidade de São Paulo e visitou alguns dos nossos povos indígenas, no Brasil, ele considerou que era importante uma reflexão sobre a compreensão da inexistência de uma relação de causa e efeito entre as diferenças culturais e as diferenças no plano biológico. O que isso quer dizer? Que não podemos acreditar em inatismo de nossas diferenças que são culturais. As nossas diferenças biológicas nem as causam e nem produzem efeitos sobre elas. As diferenças não se limitam a biologia. Existe desde 2007 uma convenção que trata da garantia da soberania, relacionada ao respeito às políticas culturais. É a Convenção da Unesco sobre a Proteção e a Promoção da ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 110ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 110 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 111 Diversidade das Expressões Culturais. E que em sua história vem sendo utilizada como um instrumento para pressionar diversos governos, na busca da construção e manutenção de poderosas políticas públicas, capazes de promover e proteger a diversidade cultural. E neste documento da UNESCO, a diversidade cultural é vista como um valor universal, repassando uma ideia que os bens e serviços culturais possuem valores e sentidos que demandam tratamentos diferenciados, incidindo sobre os nossos direitos a diversidade cultural. Quando um Governo, Técnicos Educacionais de uma Secretária Estadual ou Municipal de Educação, seus conscientes coordenadores pedagógicos, e ainda, os seus professores reflexivos tomam a iniciativa de cumprir as legislações relacionadas à educação e que zelam pela existência de um planejamento de atividades educacionais, que levem em conta a diversidade cultural e as diferenças, é necessário louvar todos estes esforços! O fato é que as existências das legislações, nas instâncias federal, estadual e municipal não determinam que as práticas pedagógicas sejam profundamente tocadas e focadas, na Diversidade Cultural e no respeito às diferenças. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Vídeo - Brasil: DNA África.Trata da origem dos afrodescendentes e a importância dos africanos na construção do Brasil. O projeto está baseado em três eixos: o histórico, o cultural e o científico. Acessível pelo link: https://bit.ly/2Yd9Xyn. (Acesso em 04/01/2020). SAIBA MAIS ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 111ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 111 03/02/2021 17:27:4703/02/202117:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais112 Refletindo sobre a diversidade cultural e sobre às diferenças, nas práticas pedagógicas: diferenças ambiental- ecológica, étnico-racial, de gêneros, faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais, escolhas sexuais, entre outras. Refletindo sobre a Diversidade Cultural e sobre às diferenças, nas práticas pedagógicas faz-se necessário lançar mão de reflexões sobre as diferenças ambiental-ecológica, étnico-racial, de gêneros, faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais, escolhas sexuais, entre outras. OBJETIVO É necessário comemorar tais práticas pedagógicas e tais políticas públicas que as amparam, bem como os legisladores que constituíram estes relevantes marcos legais. É importante que as políticas educacionais de integração democrática das diversidades, contemplem problemas comuns à questão do negro e à questão do índio, outras deverão contemplar especificidades próprias de cada grupo. E, que, ainda, nossas políticas educacionais oportunizem uma educação de cultura, através de campanhas massivas e intensivas de ‘fabricação’ contra-hegemônica de identidades de negros e índios como atores sociais partícipes do processo de construção do País. E isso é possível acontecer se existirem, no seio da sociedade, políticas Públicas inúmeras e potentes, não somente as políticas públicas educacionais, mas também as políticas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 112ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 112 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 113 afirmativas ostensivas de presença negra e presença índia nas mídias, de assunção às esferas decisórias, de cotas de vagas em escolas e, no caso dos negros, de quotas de empregos nas diversas atividades econômicas. Assim, antes de pensar nas Práticas pedagógicas é necessário a luta ou a preservação, a depender do momento histórico que passa o país, de algumas políticas educacionais, que contemple as especificidades das populações afro-brasileiras e das populações indígenas. No caso das populações indígenas, a questão do bilinguismo continua sendo uma questão crucial. Isso significa manter a língua materna! Não podemos falar em contemplar a diversidade cultural e as diferenças étnico-raciais brasileiras, sem pensar em manter as línguas maternas indígenas. Muitos povos indígenas conservam sua língua, mas a tendência de perda é cada vez mais acentuada. Isso para falar em um único seguimento de nossas diferenças, no recorte étnico-racial, com foco nas línguas. Mas existem muitos outros! Gersem dos Santos Luciano (2006), Gersem Baniwa, indígena brasileiro, do Povo Indígena Baniwa, da Amazônia Brasileira, Doutor em Antropologia, é escritor e professor universitário. Deu e continua dando grande contribuição ao nosso país nos tempos em que atuou como Conselheiro no Conselho Nacional de Educação (2006/2008 e 2016 a 2020). É possível aprender com Gersem Baniwa sobre diversidade cultural e diferença étnico-racial indígena, ou mais apropriadamente diferenças. Gersem Luciano, do Povo Indígena Baniwa (2008), fala sobre ser falante de outras línguas, em um país que a maioria só fala uma única língua, o português do Brasil. Declarando que os povos indígenas enfrentam a imposição de padrões, que vão da alimentação à língua. Somos obrigados a aprender e a falar uma outra língua, muitas vezes abdicando de nossas línguas, de nossas tradições e assim por diante (LUCIANO, 2008, p. 69). Neste sentido, refletir sobre as diferenças e as diversidades culturais visíveis e coexistindo com as intenções educativas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 113ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 113 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais114 dos professores, passam por mudanças nas mentalidades dos educadores e pela instauração de novas posturas, tolerantes as diferenças dos alunos. E, caminhar um pouco mais além, saindo da leve aceitação, desta aparente situação de tolerância para uma convivência mais partilhada da diversidade. Porque uma coisa é tolerar alguém; outra coisa é conseguir compartilhar modos de pensar, valores, conhecimentos e assim por diante. As diferenças indígenas são representativas das diferentes culturas dos povos que habitam e constituem o nosso país: olhar a diferença não como um problema, mas como um valor, um enriquecimento da sociedade brasileira (um patrimônio nacional). Tratando das diferenças indígenas, Luciano (2006) defende que a escola, que foi exaustivamente usada como um dos fundamentais instrumentos durante a história do contato para descaracterizar e destruir as culturas indígenas, possa vir a ser um instrumental decisivo na reconstrução e na afirmação das identidades e dos projetos coletivos de vida. Como distinguir os Povos Indígenas e suas grandes diferenças? São povos que representam culturas, línguas, conhecimentos e crenças únicas, e sua contribuição ao patrimônio mundial – na arte, na música, nas tecnologias, nas medicinas e em outras riquezas culturais – é incalculável. Eles configuram uma enorme diversidade cultural, uma vez que vivem em espaços geográficos, sociais e políticos sumamente diferentes. (LUCIANO, 2006, p. 47) O escritor e indígena Gersem Luciano explica que a diversidade cultural de cada povo indígena, bem como a história de cada um deles e os contextos e que vivem desenvolvem dificuldades para reduzi-los ou enquadrá-los com uma só definição. Talvez exista no imaginário popular, fruto do preconceito de que índio é tudo igual, servindo para diminuir o valor e a riqueza da diversidade cultural dos povos nativos e originários da América continental (LUCIANO, 2006, p. 40). ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 114ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 114 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 115 Este autor, Gersem Luciano, do Povo Indígena Baniwa, reflete sobre a realidade brasileira, com relação a diversidade cultural. Isso explica a diversidade cultural e a diferença de uma das matrizes do povo brasileiro, que são os Povos Indígenas, além da necessidade de ouvir deles mesmos sobre eles mesmos e suas diversidades e diferenças. A seguinte definição deles pode ser até uma lição que podemos usar para definir a diversidade dos alunos: Eles mesmos, em geral, não aceitam as tentativas exteriores de retratá-los e defendem como um princípio fundamental o direito de se auto definirem. Somente depois da promulgação da Constituição Cidadã, de 1988, é que um novo tempo foi instituído no Brasil, com relação as garantias e respeitos as diversidades culturais indígenas. Assim, inicia-se o terceiro período, do Indigenismo Governamental Contemporâneo – pós 1988 (LUCIANO, 1988). Sendo que o fato acentuado de tal período teria sido, segundo Luciano, a superação teórico-jurídica do princípio da tutela dos povos indígenas por parte do Estado brasileiro (entendida como incapacidade indígena) e o reconhecimento da diversidade cultural e da organização política dos índio. Os Povos Indígenas são sujeitos com direitos às diferenças. Mas nem sempre isso é perceptível. Apesar de existirem 223 povos indígenas no Brasil. Estes 223 diferentes povos não são idênticos, são povos diferentes um do outro. Por que é diferente? Porque cada povo tem sua língua própria, têm suas tradições próprias, sua mitologia própria, sua cosmologia própria, que se distinguem das demais. Já desde a largada dos portugueses e espanhóis dos portos europeus, os planos não constituíam o respeito as diferenças e nem muito menos à diversidade cultural. O projetopassava pela unificação e domínio. Constitui-se um: [...]projeto ambicioso de dominação cultural, econômica, política e militar do mundo, ou seja, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 115ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 115 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais116 um projeto político dos europeus, que os povos indígenas não conheciam e não podiam adivinhar qual fosse. Eles não eram capazes de entender a lógica das disputas territoriais como parte de um projeto político civilizatório, de caráter mundial e centralizador, uma vez que só conheciam as experiências dos conflitos territoriais intertribais e interlocais.(LUCIANO, 2006, p. 17) O que aponta ainda, em pleno século XXI, com relação aos povos indígenas, é que toda a história da colonização e até os dias atuais, persiste uma danosa prática histórica, que permanece agindo para manter a invisibilidade e o preconceito, contestando até os direitos dessas coletividades indígenas. Com relação a Diversidade Cultural, as diferenças e os afrodescendentes, o povo negro brasileiros, os descendentes dos africanos que viveram no Brasil na condição indigna de escravizados, é impossível tocar nas suas singularidades sem tratar das relações racistas produzidas no Brasil, nas quais o povo negro foi duramente atingido em suas diferenças e identidades. Este racismo foi sendo alimentado pela reafirmação da ambi-guidade do ser e não-ser, insistentemente presente nas mentes dos que tratam desta questão, ou seja, da imprecisão de alguns quando tratam sobre a realidade de racismo que o povo negro vive, no Brasil, entre outros povos do Brasil que estão imersos na nossa realidade de pluralidade étnica. Não há como falar sobre a participação do povo negro no Brasil, a sua presença no complexo leque da Diversidade Cultural brasileira, as diversas formas por meio das quais esse grupo étnico-racial constrói sua identidade sem considerar o contexto do racismo na sociedade brasileira. (GOMES, 2008, p. 135) Isso levará você a reflexão sobre as desigualdades que enfrentam os afrodescendentes no Brasil, neste imenso país ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 116ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 116 03/02/2021 17:27:4703/02/2021 17:27:47 Educação das Relações Étnico-Raciais 117 construído com os esforços de seus ancestrais. O fato é que, a população negra do Brasil, precisa lidar com suas diversidades culturais, com suas diferenças, e com a persistência do racismo, a não-integração ou integração marginal do negro na nossa sociedade, a cidadania precária e subalterna que permeia a vida e a conquista dos direitos. São desigualdades históricas que caminham lado a lado com a desigualdade socioeconômica, mas cada uma tem a sua forma de operar na cultura, na política, na educação, nos contextos das relações de poder, na vida dos sujeitos sociais. Algumas pessoas, não negras ou não identificadas com as lutas em prol de igualdades de oportunidades, de parcela significativa do povo negro e empobrecido, costumam maldizer as políticas afirmativas, como as políticas de cotas raciais das universidades. Um dado estatístico, revelado por pesquisas do IPEA, no fim do século XX, determina reflexões: No ano de 1999, 98% deles não tinham ingressado na Universidade. Isso demanda um olhar mais apurado. Com as políticas de Cotas nas Universidades Públicas brasileiras, o quadro foi amenizado, passando a ser de 12,8% a presença de jovens negros (pretos e pardos), na faixa etária entre 18 e 24 anos, entre os que são estudantes matriculados em instituições de ensino superior no Brasil. Pode representar um número ainda ínfimo, mas mudanças ocorreram, graças às políticas afirmativas de cotas. A presença de estudantes negros, na totalidade da população brasileira, foi ampliada de negros nas universidades, segundo dados do ano de 2015, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Isso comprova que a presença nula mudou com a política de cotas, mas poderá melhor ainda mais. É significativo revelar que, em 2018, no Brasil mais de 19 milhões de pessoas se declaram pretas, segundo dados de 2019, divulgados pelo IBGE. Somando aos não declarados representam grande contingente populacional. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 117ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 117 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais118 É necessário refletir sobre os dados todos acima. Eles revelam que é necessário investimento em políticas Públicas educacionais que tragam um contingente cada vez maior de crianças, adolescentes e jovens negros para dentro das escolas, nos mais diversos níveis da Educação Básica e para a Universidade. Muitos avanços aconteceram e gigantescos passos precisarão ser dados para superar todos estes séculos de desigualdade. O país desafia com seus quadros acentuados de desigualdades, de desníveis e com as suas precariedades nas políticas educacionais de caráter universal. Elas não conseguem atingir de forma igualitária alguns grupos específicos da nossa população. Essa situação desvela uma das falácias do mito da democracia racial brasileiro, ou seja, a crença de que negros e brancos encontram-se em situação de harmonia e igualdade no Brasil. Que harmonia? Que igualdade? O que os dados estão dizendo? (GOMES, 2008, p. 137) Sendo assim é muito importante garantir as necessárias e justas mudanças educacionais e epistemológicas, ou seja, operando nas formas como construímos o conhecimento, ou que práticas educativas fazemos para as crianças construírem, e serem suficientemente capazes de entender, considerar e afirmar, dentro das instituições educacionais, que as ações dos negros como sujeitos políticos ao longo da História poderá ser dar visibilidade às práticas culturais, políticas, educacionais e organizativas do segmento negro da população brasileira. Refletindo sobre a Diversidade Cultural e sobre às diferenças, nas práticas pedagógicas, com os olhos nas diferenças étnico-raciais, do Povo Negro Brasileiro, focando sobre a situação de gênero, pensando na mulher negra professora, e nos negros que enfrentam suas diferenças relacionadas as faixas geracionais, ligando com as realidades de suas classes sociais, e não discriminando aqueles negros que são de religiões afrodescendentes ou religiões de matriz africana, é necessário promover seus direitos todos a diversidade ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 118ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 118 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 119 cultural e suas diferenças. A escola brasileira precisará avançar na sua intolerância com as diferenças religiosas. As crianças sofrem e ainda são obrigadas a assistir aulas que desconhecem seus cultos sagrados: [...] Mais do que ‘tolerância religiosa’, o que se reivindica é o reconhecimento, a aceitação e o respeito da diversidade religiosa brasileira. As religiões de matriz africana têm sofrido muitas pressões e discriminações. No entanto, a organização dos praticantes dos cultos afro-brasileiros tem ampliado e alcançado algumas vitórias políticas em diferentes lugares do País. (GOMES, 2008, p. 143). Sobre as relações entre a diversidade cultural e as diferenças ambiental-ecológica, apontando como uma estratégia para tempos difíceis de acentuadas mudanças climáticas, aquecimento global com relevantes danos para a população mundial, com perspectivas de agravamento nas próximas décadas, segundo dados de cientistas do clima, são necessárias reflexões. Qual seriao papel das práticas pedagógicas, nas escolas brasileiras? O mundo já vê estarrecido episódios que demandam novas significações e novos contatos com a preservação ambiental- ecológica, em uma aliança com a diversidade cultural e as diferenças dos diversos povos que habitam o território brasileiro e que necessitam da terra para produzir, além de alimentos, suas diversidades culturais. É o caso de indígenas, quilombolas e demais pessoas e comunidades tradicionais que vivem no Campo. Recentemente chamaram a atenção nos lamentáveis episódios de rompimentos de barragens em Minas Gerais (2019), os danos graves às vidas das comunidades ribeirinhas, pescadores e povos indígenas de Minas Gerais. Pensando no mundo todo são diversos episódios como incêndios e mudanças drásticas no clima que criam a categoria de desabrigados ambientais. Isso demanda reflexões significativas pela preservação dos nossos ecossistemas, entre eles a Amazônia, onde habitam muitos dos nossos povos indígenas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 119ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 119 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais120 A nossa diversidade cultural e o nosso pluralismo cultural prova que não somos idênticos, ou seja, não somos iguais, somos diferentes, carregamos diferenças, que aparecem em diversos formatos, nos longos séculos de luta contra os projetos de unificação, propostos pelos colonizadores da nossa América e de nosso Brasil. Já os colonizadores portugueses não eram únicos, carregavam suas diferenças. Os povos indígenas eram e são diversos. E os africanos eram idênticos, somente, na condição indigna de escravização. É evidente que Governos Federal, Estadual e Municipal, as legislações eficazes e Políticas Públicas de Educação serão necessárias e devem ser mantidas, a escola sozinha não pode realizar tão imprescindíveis tarefas. Já neste século foi proposto pelo Governo Federal, o Programa Brasil Plural. Foi praticado pela Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural, através do Ministério da Cultura, em 2004. É interessante analisar os pontos escolhidos para focar em tal programa, figuravam: a valorização da diversidade das expressões culturais nacionais e regionais, o fortalecimento da democracia, com igualdade de gênero, raça e etnia e a cidadania com transparência, diálogo social e garantia dos direitos humanos. Bem como a garantia de apoio, promoção e intercâmbio aos grupos e redes de produtores culturais, manterem suas diversificadas manifestações culturais, salvaguardando as qualidades identitárias (de identidade, de diferença) por gênero, orientação sexual, grupos etários, étnicos e da cultura popular. Além de promover a identificação, preservação e valorização dos patrimônios culturais brasileiros, assegurando sua integridade, permanência, sustentabilidade e diversidade. Algo a ser pensado na escola é uma condição de diferença e de portador de diversidade cultural da criança ou do jovem com deficiência! As legislações avançaram! Os educadores precisam entender e garantir a perfeita inclusão das pessoas com deficiência.Toda uma legislação recente os salvaguarda na escola! ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 120ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 120 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 121 Todos estes elementos devem ser levados em consideração para a realização de práticas pedagógicas que levem em conta a diversidade cultural e as diferenças ambiental-ecológica, étnico- racial, de gêneros, faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais (Crianças, adolescentes, jovens e adultos com defi ciência), escolhas sexuais, entre outras. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Vídeo - Darcy Ribeiro narra no seu livro o Povo Brasileiro, a matriz indígena. Acessível pelo link: https://bit.ly/3hhhzsm. E a matriz afrodescendente. Acessível pelo link: https://bit.ly/2AeHZtZ. (Acesso em 04/01/2020). SAIBA MAIS Figura 1: Brasileiros Fonte: Wikimedia Commons ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 121ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 121 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais122 Você foi capaz de refletir sobre o sobre a Diversidade Cultural e sobre o respeito às relevantes diferenças, inicialmente focando nas questões iniciais e essências sobre diversidade e diferenças, nas práticas pedagógicas. Por fim, você foi capaz de refletir sobre Diversidade Cultural e sobre cada uma das seguintes diferenças, a saber, ambiental-ecológica, étnico-racial, de gêneros, entre as faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais (pessoas com deficiências), escolhas sexuais, entre outras. Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente Você será capaz de aplicar a diversidade cultural brasileira na prática docente, você vai entrar nas especificidades das práticas docentes, nos saberes e fazeres docentes, sob o foco da presença da diversidade cultural brasileira, levado pela indagação e como promovê-la, no cotidiano escolar. OBJETIVO Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente: histórias, pensamentos e conquistas. Quando você refletir sobre a relação entre Diversidade Cultural, diferença e prática pedagógica, dentro das escolas, procure pensar que as nossas diferenças e aquelas que aprendemos nas nossas casas, e vemos desde pequenos, no contato com as nossas comunidades, não devem ser naturalizados, nem romantizados e muito menos vistos como ingênuos. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 122ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 122 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 123 Não devemos aceitar que eles sejam sentidos ou teorizados como algo que compense os maus tratos e todo o longo processo de escravização do povo africano ou de desapropriação dos povos indígenas, duas das nossas importantes matrizes, imersas nas nossas culturas e em nossa diversidade cultural, demandando respeito aos seus direitos e visibilidade. E muito menos devemos amenizar as hibridizações contemporâneas (algumas misturas que acabam por desqualificar e anular as marcas constituintes de nossas culturas e de pertencimento dos povos negros e indígenas brasileiros. Permitir isso impede perspectivas e atitudes mais efetivas de proteção, promoção e articulação, dos legados de nossos ancestrais negros, indígenas e europeus. Cada um destes agrupamentos trouxe contribuições singulares e que devem ser preservadas. É necessário admitir inicialmente que somente o desvendar desta necessidade, movida por sentimentos que caminham pela trilha de uma reparação histórica de tantos silenciamentos diante de toda a diversidade cultural brasileira e com as nossas mais distintas diferenças não vão mover rapidamente a engrenagem que ficou parada e está enferrujada. É preciso ir bem além da boa vontade, em sala de aula, e estabelecer um caminho, mesmo que seja longo para desconstruir velhas: [...] práticas geradas por estruturas de dominação colonial de longo prazo, de produção da desigualdade a partir das diferenças socioculturais, estas consideradas como signo de inferioridade. Tal enunciação prescritiva da busca de ‘novas posturas’ mal disfarça o exercício da violência (adocicada que seja), única caução de uma ‘verdade’ também única e totalitária. É preciso ir bem mais adiante.(LIMA, 2006, p. 13) Isso fará você retornar a uma questão: o que as escolas e suas práticaspedagógicas devem e podem fazer pela nossa diversidade cultural, aliada às nossas diferenças, agindo de uma ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 123ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 123 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais124 maneira que não anulem e jamais destruam as nossas diferenças? E a resposta possível é a defesa evidente que existe uma grande necessidade de educar para a diversidade ou de uma educação para a diversidade entendida menos como uma atitude de respeito passivo e mais como uma forma de estar no mundo, em que a articulação das diferenças se configura como pré-requisito ao desenvolvimento humano. Há uma alternativa já antiga e conhecida pelos Povos Indígenas do Brasil. É uma possibilidade de Educação diferenciada, que não esconde nem nossas diversidades culturais e nem as nossas diferenças. É a Educação intercultural focada em trazer os diversos elementos de várias culturas, tais conhecimentos, valores e tradições, que se articulam e se integram nas práticas cotidianas das pessoas, para o campo das políticas de divulgação e de valorização da Diversidade Cultural e para o dia-a-dia das pessoas, bem como das instituições escolares e das nossas sociedades, mas nem sempre bem utilizadas. É bom destacar que a interculturalidade não é inverter a relação desigual de discriminado a discriminador, mas uma superação de qualquer forma de simetria nas relações culturais entre indivíduos e sociedades. Existem pessoas que desconhecem a nossa diversidade cultural brasileira e, ainda, ignoram e discriminam as nossas mais distintas diferenças, diferenças ambiental-ecológica, étnico- racial, de gêneros, faixas geracionais, classes sociais, religiões, necessidades especiais, escolhas sexuais, entre tantas outras.Já educadores precisarão conhecê-las e respeitá-las muito bem! A realidade social brasileira e nos demais Estados contemporâneos está vinculada às diferenças socioculturais? Como podemos fazer com que as escolas sejam espaços de aprender com as diferenças socioculturais e todas as demais diferenças que brotem dentro das escolas? Como fazer um cenário pedagógico que permitam dialogar com as diferenças e as diversidades culturais já existentes, dentro das escolas? Como começar este caminho? Como vencer os preconceitos e dissipar tanto racismo? ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 124ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 124 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 125 Sempre que uma realidade educacional inspira e respira demo- craticamente práticas pedagógicas inclusivas, com respeito às diferenças e as diversidade cultural, não se pode dizer apenas que cumprem as legislações. Agem e são justos com a nossa história, ou mais precisamente as nossas histórias e culturas dos diversos povos, nossas intensas matrizes do povo brasileiro. O Brasil não é ou não multicultural? É diverso? É sempre bom refletir que: [...] a multicultura brasileira reflete a rica pluralidade que se manifesta na miscigenação de seu povo, na cor da pele, nos costumes, na culinária, vestimentas, folclore, comportamento etc. Todavia (e infelizmente) se reflete também nas relações de poder e nas desigualdades entre os privilegiados e os outros – as denominadas de forma depreciativa ‘minorias’.(FERREIRA, 2015, p. 306) Refletindo sobre a questão da Diversidade Cultural, das diferenças, das identidades nas salas de aula, é possível afirmar palavras que remetem à atualíssimas reflexões sobre estes temas que você está estudando agora, diferenciando-as de formas antigas, ultrapassadas e superadas. Depois de fazer suas considerações sobre os cenários desoladores em que alojaram as nossas diversidades culturais no Brasil, ao longo da nossa história, desde a chegada dos portugueses, escondendo-as, assim como se fosse possível àquilo recalcado, ocultado, não ser perceptível, este projeto nacional de homogeneização (assim como se fosse fácil misturar óleo e água), tal projeto de embranquecimento e destituição das nossas diversidades e diferenças foi chegando às escolas, aos alunos, montadas dentro das cabeças dos professores, presentes aos currículos, mantidas como mentiras que parecem verdades nos nosso livros didáticos. E com quais finalidades? Para que os futuros professores, não indígenas e que desconhecem a diversidade cultural e as diferenças dos povos ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 125ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 125 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais126 indígenas, possam falar deles com propriedades e sem preconceitos? Servirá para os que são muito pouco ou pouco conhecedores da diversidade linguística, dos modos de vida e das visões de mundo de povos de histórias tão distintas como os que habitam o Brasil e que compõem um patrimônio humano inigualável. E para que possamos construir uma escola aberta às diferenças e a diversidade cultural que tenha por princípio elementar o respeito à diferença, o cultivo da diversidade, a polifonia de tradições e opiniões e que se paute pela tolerância, como tantos preconizam no presente. Com tais mentiras que pareciam verdades foram surgindo explicações, que caracterizavam as nossas diferenças como nulas e parecíamos menos complexos do que somos, menos diversificados culturalmente do que somos, menos diferentes étnico-racialmente do que somos. Foram mentindo sobre nós e estas mentiras pareciam verdades de tanto serem repetidas. Então, uma tarefa surgiu como preponderante. Era necessário tocar as mentes das pessoas para ver as invisibilidades, diante de nossa diversidade cultural. Estes desafios exteriores à sala de aula, são, concomitan- temente, desafios para dentro das salas de aula, relacionados aos temas da diversidade cultural e das diferenças, que estão fora e dentro da escola. O que podemos almejar como reconhecimento de nossas diferenças? E quando falamos em diferenças designamos as individuais e as coletivas. Queremos ver reconhecidas as nossas diferenças coletivas e individuais como uma condição de cidadania quando as identidades diversas são reconhecidas como direitos civis e políticos, consequentemente absorvidos pelos sistemas políticos e jurídicos no âmbito do Estado Nacional. Não devemos agir nas escolas, com relação aos modos diferentes de alguns agrupamentos com relação à educação, como educam seus filhos, com os mesmos parâmetros de análise equivocada dos colonizadores portugueses. Eles achavam que somente as diferenças deles eram boas, válidas e certas. E que somente os seus métodos para educar eram os mais acertados. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 126ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 126 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 127 A Educação é um direito social e um processo de desenvolvimento humano, que demanda Políticas Públicas de Educação. Já nos Parâmetros Curriculares Nacionais (1997), a educação escolar corresponde a um espaço sociocultural e institucional responsável pelo trato pedagógico do conhecimento e da cultura. Historicamente, esta universalização do direito à educação foi tardia no Brasil, mesmo depois da Proclamação da República. O que necessariamente deve ser comemorado como fruto das lutas populares e que resultaram nos avanços dos marcos legais da educação Nacional, a partir de 1988, com a nova Constituição Federal, carinhosa e esperançosamente chamada de Constituição Cidadã. Não ocorreu sem lutas! O Grande abolicionista, pensador e escritor negrobrasileiro, Luiz Gama nasceu em 1830, sua mãe Luiza Mahin era africana e estava na condição de escravizada, Luiz Gama nasceu livre, e posteriormente foi vendido pelo próprio pai, quando tinha dez anos. Nunca teve um diploma universitário. Atuou nos tribunais e conseguiu com seus esforços libertar mais de 500 pessoas negras, em condição de escravizados. Hábil leitor, ele ia atrás das leis escravistas brasileiras, no século XIX, conseguindo examinar saídas para a libertação de muitas pessoas, antes do fim da escravidão, no Brasil. Em uma carta de importante valor histórico, datada de 1880, um pouco antes da assinatura do fim da escravidão no Brasil, declarou: [...] Em 1847, contava eu 17 anos, quando para a casa do sr. Cardoso, veio morar, como hóspede, para estudar humanidades, tendo deixado a cidade de Campinas, onde morava, o menino Antônio Rodrigues do Prado Júnior, hoje doutor em direito, ex-magistrado de elevados méritos, e residente em Mogi-Guassu, onde é fazendeiro. Fizemos amizade íntima, de irmãos diletos, e ele começou a ensinar-me as primeiras letras. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 127ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 127 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais128 Em 1848, sabendo eu ler e contar alguma cousa, e tendo obtido ardilosa e secretamente provas inconcussas de minha liberdade, retirei-me, fugindo, da casa do alferes Antônio Pereira Cardoso, que aliás votava-me a maior estima, e fui assentar praça. (MOURA; MOURA, 2004, p. 170) No tempo em que serviu no exército, como praça, ele narra que se fez copista (fazia cópias); escreveu para o escritório de um escrivão tornando-se amigo dele. Ordenança dele, narrando que por meu caráter, por minha atividade e por meu comportamento, conquistei a sua estima e a sua proteção; e as boas lições de letras e de civismo, que conservo com orgulho. Sem o direito universal a educação, tendo nascido livre, sendo filho de uma africana escravizada, os dois eram lideranças da resistência negra, a mãe e ele, Luiz Gama aprendeu a ler e as tarefas ligadas a um exercício intelectual e unido as letras, graças aos amigos que foi fazendo pela vida. Sua vida é exemplar da falta que as políticas públicas podem fazer! Lá pelo ano de 1856, ainda longe estava à abolição, após ter servido no cargo de escrivão diante de muitas autoridades policiais, conta fui nomeado amanuense da Secretaria de Polícia, onde servi até 1868, época em que ‘por turbulento e sedicioso’ fui demitido a ‘bem do serviço público’, pelos conservadores, que então haviam subido ao poder. (MOURA; MOURA, 2004, p.170). Assim, por pura perseguição política e não por algum grave delito no exercício de sua profissão. “Desde que me fiz soldado, comecei a ser homem; porque até os 10 anos fui criança; dos 10 aos 18, fui soldado. Fiz versos; escrevi para muitos jornais; colaborei em outros literários e políticos, e redigi alguns”. (MOURA; MOURA, 2004, p. 170). Um renovado intelectual brasileiro, do século XIX, Luiz Gama lutou muito pelos direitos dos afrodescendentes. Uma escola pública que aplicasse a Diversidade Cultural Brasileira na Prática Docente, fez falta à vida do menino ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 128ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 128 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 129 Luiz Gama, lá no século XIX! O fato é que no decorrer das últimas décadas o século XX e das duas primeiras décadas do século XXI, a sociedade civil organizada e os Governos Federal, Estaduais e Municipais brasileiros organizaram pujante conjunto de marcos legais e de políticas públicas, focadas nas diferenças étnico-raciais e na diversidade cultural brasileira. Para que as escolas e as práticas docentes possam ser inclusivas e não ocultar ou insultar as nossas diferenças e nossas diversidades culturais, serão necessárias mudanças íntimas (na subjetividade de cada educador) e também externas ou sociais nos currículos, nas metodologias, na avaliação e na relação com a comunidade em seu entorno, na formação docente, entre tantas outras questões. No caso das práticas pedagógicas é necessário se debruçar sobre todas as ausências como, por exemplo, a ausência do negro no livro didático, a ausência de mulheres negras na política, a ausência dos negros nos cargos de poder, entre outros, são formas de exclusão e de não-existência ativamente. Estas ausências do povo negro, com sua diversidade cultural e suas diferenças foram, perversamente, produzidas, dentro da realidade brasileira e nos contextos histórico, político, cultural e educacional. Ou seja, elas foram produzidas conquanto tais. Essas ausências também podem ser encontradas no campo epistemológico, como, por exemplo, na própria produção do conhecimento. Quanto à questão da diversidade cultural dos povos indígenas, a Constituição Federal de 1988 representou um divisor de águas de um processo longo de exclusão das diversidades culturais e diferenças entre os mais de 200 povos indígenas brasileiros. Isso operou uma ruptura com um modelo excludente, já existente desde o início da República brasileira (1889), baseada em uma política extremamente etnocida (voltada a exterminar os povos indígenas), repressiva e genocida. O que operava era uma política determinada de negação e de banimento dessa Diversidade Cultural. Passamos mais de ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 129ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 129 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais130 quatro séculos em que a política oficial dos dirigentes, seja no período colonial ou pós-colonial, distinguia negativamente essas pessoas e grupos, física e culturalmente. Uma primeira iniciativa neste sentido foram os Parâmetros Curriculares Nacional (1997), diversidade cultural figura entre os temas transversais. De lá para cá, as demandas para a escola que levem em conta a diversidade cultural e a diferença de cada povo indígena passa por vê-la, a escola, como um ‘contexto’: [...] um lugar onde a relação entre os conhecimentos tradicionais e os novos conhecimentos científicos e tecnológicos deverão articular-se de forma equilibrada, além de ser uma possibilidade de informação a respeito da sociedade nacional, facilitando o ‘diálogo intercultural’ e a construção de relações igualitárias – fundamentadas no respeito, no reconhecimento e na valori-zação das diferenças culturais – entre os povos indígenas, a sociedade civil e o Estado. (LUCIANO, 2006, p. 148) Os Parâmetros curriculares Nacionais/PCN’s representaram apenas um ponta pé em uma história de silenciamentos e exclusões as matrizes dos povos brasileiros. Pois nem existe uma só cultura, existem diversas culturas e elas se encontram dentro da escola. Além da escola e o currículo dela assumirem que as crianças representam muitas culturas diferentes, é preciso ir além. É necessário reconhecer a cultura docente, do aluno e da comunidade, a presença da cultura escolar, mas não questiona o lugar que a diversidade de culturas ocupa na escola. Mais do que múltiplas, as culturas diferem entre si. Refletindo sobre a aplicação da Diversidade Cultural e das diferenças, nas práticas pedagógicas, com os olhos nas diferenças étnico-raciais, do Povo Negro Brasileiro, discutindo as questões de gênero, pensando na exclusão da mulher negra ou do homossexual de qualquer etnia, e nos desafios geracionais dos negros, na velhice da população negra, ou nos desafios dos ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 130ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto- SER.indb 130 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 131 adultos e idosos que vão aprender a escrever e ler, nas salas de Educação de Jovens e adultos, entendendo o desejo do jovem negro de chegar na universidade, entendendo-os de dentro de suas realidades sociais e classes sociais, e não perseguindo os negros que são de religiões afrodescendentes ou religiões de matriz africana, muitos avanços precisarão acontecer nas escolas. E isso configurou campos de lutas antigas dos negros, nos seus debates sobre a diversidade cultural, no campo minado das desigualdades brasileiras, a ponto de transformar e re-semantizar suas reivindicações, hoje, em políticas de ações afirmativas. Faz-se necessário compreender o caráter radical e emancipatório de tais políticas. Refletir sobre as aplicações da diversidade nas práticas peda-gógicas para o povo negro é se deparar com: [...] um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, concebidas com vistas ao combate à discriminação racial, de gênero e de origem nacional, bem como para corrigir os efeitos presentes da discriminação praticada no passado, tendo por objetivo a concretização do ideal de efetiva igualdade de acesso a bens fundamentais como educação e emprego. (GOMES, 2001, p. 40) Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Artigo: As Dimensões da Diversidade Cultural Brasileira. Acessível pelo link: https://bit. ly/3dNJ5eE. Acesso em 04/01/2020). SAIBA MAIS ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 131ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 131 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais132 Figura 2: Encontro Afro-latino em Salvador Fonte: Wikimedia Commons Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente: refletindo sobre o futuro do respeito às diferenças. Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente, você poderá perceber as conquistas das lutas e o que poderá ser fruto no futuro. E o que mudou e com ainda poderá mudar para ser mais justo? Já existem muitas iniciativas e muitas outras precisarão continuar sendo aplicadas. E que avancemos com políticas Públicas Educacionais e com práticas inclusivas! Diferentes daquelas políticas antidiscriminatórias, que atendem a criança, o jovem, a mulher, o homem, o idoso, ou ainda o membro de uma comunidade de Religião de Matriz Africana, baseadas em lei de conteúdo meramente proibitivo, que se singularizam por oferecerem às respectivas vítimas tão somente instrumentos jurídicos de caráter reparatório e de intervenção, tão ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 132ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 132 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 133 recorrentes na televisão e nos jornais, de fatos tão devastadores, racistas, intolerantes e que acabam na frente de um delegado de polícia, com o simples pagamento de uma fiança. Ir além é preciso! O que a escola deverá buscar, conquistar e efetivar são as ações afirmativas. E o que são ações afirmativas? As ações afirmativas [...]têm natureza multifacetária e visam evitar que a discrimi-nação se verifique nas formas usualmente conhecidas – isto é, formalmente, por meio de normas de aplicação geral ou específica, ou através de mecanismos informais, difusos, estruturais, enraizados nas práticas culturais e no imaginário coletivo. (Gomes 2001, p. 41) A questão a ser considerada é se as Práticas Pedagógicas também foram transformadas essencialmente. O que é necessário refletir é se as práticas Pedagógicas aplicam a Diversidade Cultural Brasileira, e isso faz sentido nas práticas dos educadores de crianças, adolescentes e jovens que chegam na escola, fora da faixa etária determinada para cursar os seus primeiros anos escolares, sem os discriminar por suas diferenças e levando em conta as suas diversidades culturais? As práticas Pedagógicas que se intitulam como iguais para todos seriam ou não mais ou menos discriminatórias? Segundo Gomes acabariam por ser mais discriminatórias. Essa afirmação pode parecer paradoxal, mas, dependendo do discurso e da prática desenvolvida, pode-se incorrer no erro da homogeneização em detrimento do reconhecimento das diferenças. É fundamental entender que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação/LDBEN Nacional determina um cenário de garantias legais para aplicar a diversidade cultura, nas práticas docentes. Caso professor queira? Caso ele não tenha nenhuma oposição a esta lei? Não! É um marco legal a ser respeitado! O fato é que já escorridos tantos anos, desde a homologação da LDBEN (BRASL, 1996), apresenta-se um desacerto entre a ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 133ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 133 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais134 lei e as práticas docentes. Muitos educadores continuam sem entender que as diversidades culturais, em sala de aula, dependem da boa vontade deles. E isso implica em abandonar práticas docentes retrógradas, conservadoras e centradas nas construções de cultura e de diversidade que permeiam o grupamento social ao qual determinados educadores pertencem, que parece anular as necessidades de emancipação, e de oferecer experiências educativas que impulsionem os alunos para o futuro, passando pelos legados dos seus antepassados. As matrizes indígena e negra é de todos nós! O professor deve aplicar a Diversidade Cultural Brasileira na Prática Docente, a partir das Diretrizes Curriculares Nacionais, de iniciativas do Conselho Nacional de Educação/CNE e do Ministério da Educação/MEC, para promover a Educação das Relações Étnico-Raciais, que poderá acontecer em iniciativas, firmadas em marcos legais, como no Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e indígena, apoiados em princípios como Socialização e visibilidade da cultura negro-africana e indígena. Passando, inicialmente, pela sensibilização dos professores para a importância de aplicar a diversidade cultural brasileira, que envolve a Formação de professores com vistas à sensibilização e à construção de estratégias para melhor equacionar questões ligadas ao combate às discriminações racial e de gênero e à homofobia. Ainda que tais diversidades não sejam familiares aos educadores, mas é bom lembrar que são reais aos diversificados alunos que encontram pelo caminho. Aplicando a diversidade cultural brasileira na prática docente, vai demandar a construção de material didático- pedagógico que contemple a diversidade étnico-racial na escola. Perpassando pela importante valorização de diversificados saberes, construídas no âmbito da diversi-dade cultural dos povos que constituíram o povo brasileiro. O que passa pela Valorização das identidades presentes nas escolas, sem deixar de lado esse esforço nos momentos de festas e comemorações. Isso significa ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 134ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 134 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 135 abrir a escola para a vida comunitária, onde podem estar muitos grupos diversificados e artísticos que dançam ou encenam elementos constitutivos da nossa memória oral brasileira, chamados por alguns como folclóricas, parte integrante da nossa vibrante diversidade cultural tradicional. Isso traz elementos suficientes para compor um cotidiano escolar com pesquisa, aprendizagem e envolvimento das crianças. Aos que pretendem aplicar a diversidadecultural na prática docente na educação Infantil, em que currículos, bases e parâmetros curriculares já focam no Cuidar e Educar, é necessário planejar e ao mesmo tempo questionar as escolhas pautadas em padrões dominantes que reforçam os preconceitos e os estereótipos. Isso vai exigir que sejam elencados, construídos ou recuperados princípios para os cuidados embasados em valores éticos, nos quais atitudes racistas e preconceituosas não podem ser admitidas. Nessa direção, a observação atenciosa de suas próprias, o que requer um desejo e um cuidado em promover práticas e atitudes podem permitir às educadoras rever suas posturas e readequá-las em dimensões não-racistas. É interessante que o educador infantil, embutido na tarefa de aplicar a diversidade cultural na sua ação docente, que ele queira aprender sobre as construções epistemológicas dos diversos grupamentos que formaram o povo brasileiro (destacando duas matrizes bem importantes, o negro e o indígena). Como eles definem o processo de aprender? Como os grupos de manifestações da cultura popular tradicional costumam ensinar aos seus novos membros dos grupos? Que metodologias estão contidas nelas? E aprender com eles! É bom lembrar que para aprender é necessário que alguém mais experiente, em geral mais velho, se disponha a demonstrar, a acompanhar a realização de tarefas, sem interferir, a aprovar o resultado ou a exigir que seja refeita. Talvez seja necessário, no combate aos racismos e preconceitos, trazer as manifestações da diversidade cultural ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 135ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 135 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais136 daqueles que são atingidos por vitimizações, sejam por preconceitos étnico-raciais, ou outros relacionados a origem e até ao fato de viver em uma família incomum aos modelos burgueses, como grande parte das crianças brasileiras, que vivem em uma sociedade ainda submetida a um acentuado machismo, com maioria de votantes mulheres e grande número delas são as chefes de família. Bem como as famílias que surgem em casamentos entre pessoas do mesmo sexo. É necessário vencer os preconceitos embutidos em sua postura, linguagem e prática escolar; reestruturar seu envolvimento e se comprometer com a perspectiva multicultural da educação. O professor, atento às diferenças, deverá buscar na história e na cultura de cada criança e poderá responder suas indagações sobre como agir. É necessário que o professor entenda e aceite as diversidades! Na recente e homologada Base Nacional Comum Curricular/ BNCC (2018), configura como uma das Competências da Educação Básica (para Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio): [...] Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade (BRASIL, 2018, p. 09). Na Educação Infantil, a BNCC recomenda que a escola precisa conhecer e trabalhar com as culturas plurais, dialogando com a riqueza/diversidade cultural das famílias e da comunidade. Já no Ensino Fundamental, a BNCC recomenda uma atenção mútua, imbricada à questão dos multiletramentos, essa proposta considera, como uma de suas premissas, a diversidade cultural. A BNCC ressalta sobre a temática da diversidade cultural o fato de mais de 250 línguas são faladas no país. Indígenas, de imigração, de sinais, crioulas e afro-brasileiras, além do português e de suas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 136ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 136 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 137 variedades. Esse patrimônio cultural e linguístico é desconhecido por grande parte da população brasileira. E, ainda, indica para considerar a temática diversidade cultural, abrangendo formas e produções de expressão várias e distintas, a literatura infantil e juvenil, o cânone, o culto, o popular, a cultura de massa, a cultura das mídias, as culturas juvenis etc., de forma a garantir ampliação de repertório, além de interação e trato com o diferente. Do 1.º ao 5.º ano do Ensino Fundamental, no ensino da Língua Portuguesa, a BNCC (BRADIL, 2018) recomenda, no Campo Artístico-Literário, vinculado a leitura, a fruição e produção de textos literários e artísticos, uma atenção a textos que bem representem a diversidade cultural e linguística, que favoreçam experiências estéticas. Alguns gêneros deste campo: lendas, mitos, fábulas, contos, crônicas, canção, poemas, poemas visuais, cordéis, quadrinhos, tirinhas, charge/cartum, dentre outros. Configurando ainda, no Ensino da Geografia no 4.º ano, o tema Território e diversidade cultural, e no 5.º ano, Diferenças étnico-raciais e étnico-culturais e desigualdades sociais. Na área de Ciências Humanas, no Ensino Fundamental configura a valorização e temas como os direitos humanos, respeito ao ambiente e à coletividade, fortalecendo os valores sociais, tais como a solidariedade, a participação e o protagonismo voltados para o bem comum; e, sobretudo, a preocupação com as desigualdades sociais. Sendo assim a atuação do pedagogo, nas escolas, fará obrigatoriamente encontros com o tema da diversidade cultural. E, configura como competência específica de Ciências Humanas para todo o Ensino Fundamental, refletir sobre atividades que façam o aluno compreender a si e ao outro como identidades diferentes, de forma a exercitar o respeito à diferença em uma sociedade plural e promover os direitos humanos. Assim, esta última e as demais demandas da BNCC (BRASIL, 2018) configuram um foco em aplicar a Diversidade Cultural Brasileira na Prática Docente, aberta a aplicação da diversidade cultural nas escolas. Isso não se deu por simples ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 137ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 137 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais138 decisão dos seus elaboradores, foi fruto de lutas constantes da sociedade civil organizada, dos povos negros, indígenas, que vivem nos campos e nas comunidades mais empobrecidas e historicamente excluídas dos antigos currículos, desde a colonização até a república. O futuro é a diversidade cultural, assim como já era o nosso silenciado passado para a grande maioria da população brasileira. Sendo assim ser contemplada! Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso às seguintes fontes de consulta e aprofundamento: Artigo: Educação, diferença, diversidade e desigualdade (páginas 13 a 15). Acessível pelo link: https://bit.ly/2UjXis8. Vídeo: A Invenção do Brasil genética, técnica e simbólica continua. Acessível pelo link: https://bit.ly/2AUZfEr SAIBA MAIS Você foi capaz de focar sobre a aplicação da Diversidade Cultural na Prática pedagógica, propiciando importantes aprendizagens de como conciliar as Diversidades Culturais Brasileiras em sala de aula, não discriminando-as, e promovendo- as. Neste percurso foi possível percorrer algumas Histórias, pensamentos e conquistas. Conquistando, assim, um futuro de respeito às diferenças. Desenvolvendo uma prática pedagógica que contemple o outro e suas semelhanças e diferenças Desenvolvendo uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças, isso significa lidar com o singular e as singularidades, com aquilo que é ou nos ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 138ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais- Aberto - SER.indb 138 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 139 parece ser intraduzível (sem tradução para nossos sentimentos e pensamentos). E, também, com aquilo que toca na nossa capacidade e na capacidade do Outro de diferir, no direito de diferir, bem como a expressão do universal, de uma ética e de um conjunto de direitos humanos. Simul-taneamente uma coisa e outra, é nessa tensão de opostos que sua realidade se revela rica, dinâmica e desafiadora. E diferir (em português) é originada da palavra difere, que podemos traduzir como ‘dispensar’ e ainda ‘Ser diferente’. Sendo assim está a se tratar sobre a diferença. Bem como do nosso direito de sermos diferentes uns dos outros. E de sermos divergentes um do outro e de possuirmos opiniões diversas. E mais: somos desafiados pela própria experiência humana a aprender a conviver com as diferenças. O nosso grande desafio está em desenvolver uma postura ética de não hierarquizar as diferenças e entender que nenhum grupo humano e social é melhor ou pior do que outro. Na realidade, somos diferentes. (GOMES, p.22) A história brasileira é uma luta constante de tais grupos para terem suas diversidades culturais e diferenças respeitadas, em espaços como a escola, a educação nacional é excludente às diferenças e a diversidade cultural desde a chegada dos primeiros jesuítas. Pensar na diversidade cultural, no respeito as diferenças, com a responsabilidade de desenvolver uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças demanda o reconhecimento das diferenças é, acima de tudo, uma condição para o diálogo, e, portanto, para a construção de uma união mais ampla de pessoas diferentes. Pensar em como desenvolver uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças é assegurar que o educador seja visto como o Sujeito do processo educacional, e concomitantemente, seja visto como o aprendiz da temática e ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 139ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 139 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais140 mediador entre o/a aluno/a e o objeto da aprendizagem, no caso, os conteúdos da história e cultura afro-brasileira e africana, bem como a educação das relações étnico-raciais, bem como estudar a história e cultura indígena e dos povos europeus e asiáticos que vieram viver no Brasil, a partir do século XVI. As práticas pedagógicas devem ser desenvolvidas, objetivando que os educandos sejam capazes de sentir e entender o outro, naquilo que ele é diferente ou semelhante a ele mesmo. O que se deve querer é o diálogo salutar entre as diferenças e as semelhanças, nunca deverá ser a indiferença com a dessemelhança do outro. Nem a zombaria, escárnio e discriminação em sala de aula. A escola deverá ser o lugar dos diálogos das diferenças! As buscas devem ser centradas em desenvolver Práticas Peda-gógicas que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças, modificando-os neste contato, em sala de aula, fazendo-os melhores pessoas com as suas semelhanças e diferenças, que nunca podem ser vistas como muros que separam as pessoas. O importante é desenvolver Práticas Pedagógicas que não coloquem nenhum aluno na situação de invisibilidade ou escárnio, por qualquer tipo de diferença que habite em sua subjetividade, interioridade e exterioridade, e que promovam e: [...] reverenciem o princípio da integração, reconhecendo a importância de se conviver e aprender com as diferenças, promovendo atividades em que as trocas sejam privilegiadas e estimuladas. Que reconheçam a interdependência entre corpo, emoção e cognição no ato de aprender. Que privilegiem a ação em grupo, com propostas de trabalho vivenciadas coletivamente (docentes e discentes), levando em conta a singularidade individual. Que rompam com a visão compartimentada dos conteúdos escolares. (BRASIL, 2006, p. 68) Isso deverá acontecer no âmbito das mais diversas práticas escolares. Haverá sempre algo a aprender com as ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 140ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 140 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 141 dessemelhanças do outro e a ensinar com as nossas diferenças. E, sempre é possível descobrir semelhanças por sermos todos membros de uma só raça, a raça humana. Desenvolvendo uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças, nem sempre foi fácil no Brasil e continua representando um campo tremendo de lutas contra estereótipos, contra preconceitos e contra o desconhecimento da maioria da população brasileira sobre a real formação do povo brasileiro. Por isso, desde a redemocratização, nas últimas décadas do século XX muitos agrupamentos travaram suas grandes batalhas, entre eles negros, indígenas e homossexuais. Esta história de mobilização afetou a sala de aula, tornado a escola como espaço de inclusão e repensar de nossas intolerâncias e preconceitos. O que foi conquistado até o fim das duas primeiras décadas do século XXI apontam para o repensar dos currículos e a necessidade de repensar as formações docentes iniciais e continuadas, além de transformar o cotidiano da sala de aula, nas suas práticas pedagógicas que precisarão ser intensamente inclusivas, na sociedade movida pela diversidade cultural que é o Brasil. Foi necessário redescobrir os sujeitos e valorizá-los. Um bom caminho para repensar as propostas curriculares para infância, adolescência, juventude e vida adulta poderá ser uma orientação que tenha como foco os sujeitos da educação. A grande questão é: como o conhecimento escolar poderá contribuir para o pleno desenvolvimento humano dos sujeitos? Não se trata de negar a importância do conhecimento escolar, mas de abolir o equívoco histórico da escola e da educação de ter como foco prioritariamente os ‘conteúdos’ e não os sujeitos do processo educativo.(GOMES, 2007, p. 33) Desenvolver uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças, demandou que a ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 141ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 141 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais142 diversidade cultural brasileira indagasse os currículos, escolas, professores e suas práticas sobre muitas questões. Entre elas configurou o ordenamento temporal. Existem realidades distantes das grandes cidades em que eventos significativos de uma cultura mobilizam forças coletivas e a presença das crianças na escola precisa ser equacionada em tais ocasiões. São festividades dos povos indígenas ou dos quilombolas, entre outros povos que vivem no campo. São tempos de colheitas no campo! Repensar ordenamentos temporais garante o direito de todos à educação. As pesquisas educacionais mostram que a rigidez desse ordenamento é uma das causas do abandono escolar de coletivos sociais considerados como mais vulneráveis. Além disso, esta prática pedagógica exigiu que além do currículo, escola, lógicas, organização espacial e temporal, também mudassem as pessoas todas que fazem a escola: Professores, diretores, coordenadores, alunos, funcionários e a relação com os mais varados grupos que estão localizados no entorno da escola e que são significativos em aprendizagem sobre as semelhanças e diferenças dos povos brasileiros. São frutos da inter-relação entre escola, sociedade e cultura e, mais precisamente, da relação entre escola e movimentos sociais. Isso não se faz somente nas festas mais significativas do povo brasileiro e assumidas pelos mais diversos grupos, muitas vezes localizados tão próximosda escola e desconhecidos dentro dela. Mas também nas festas! Trazê-los para apresentações dentro da escola, entrevistá-los com os alunos, promovê-los em muitas ocasiões e escrever suas histórias representam tomar posições contra as diversas formas de dominação, exclusão e discriminação. É entender a educação como um direito social e o respeito à diversidade no interior de um campo político. É necessário levar em conta que as Práticas Pedagógicas não devem impedir o diálogo com o desconhecido outro, em suas Semelhanças e nas Diferenças. Muitas vezes o aluno vive em uma família muito distinta da família de seus colegas e da professora. Existem crianças com diversidade de credos ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 142ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 142 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 143 religiosos, de comportamentos e de filosofias de vida. Diferentes arranjos familiares e afetivos são cada vez mais presentes. Situações que, por não sabermos lidar, acabam causando angústias e incompreensões. Isso precisa levar para adiante do impasse e ser revertido por práticas inclusivas e que estabeleçam o diálogo entre as diferenças e semelhanças. O salutar exercício da escuta e da tolerância do ‘outro’ é um aprendizado que nunca acaba, mas, para começar, precisamos nos dispor a ouvir antes de emitir nossos julgamentos, antes de rotular, classificar e ter um pouco mais de cautela antes de afirmar que algo é errado ou certo, conveniente ou inapropriado. Em muitas ocasiões, será necessário que o professor abra mão de suas certezas e ideais de criança, jovem e adulto, para ver somente outros tipos de configurações familiares e modos singulares de vestir, de arrumar o cabelo, de coloridas roupas, de cultos e de vinculações culturais tão distintas daquela professora e que merecem ser respeitadas. Um aluno que se comporta de uma maneira diferente é somente um ser que demanda um tratamento na condição de igualdade diante dos outros, ou seja, uma igualdade que se orienta pelo direito de ser diferente (diverso), e não desigual. E isso remete a que não se confunda diversidade com desigualdade, já que a primeira diz respeito à qualidade de organizar-se de forma particular, e a segunda, às mazelas produzidas por uma sociedade desigual. É importante garantir que os encontros entre as nossas diferenças e semelhanças, nas horas das práticas Pedagógicas, possam contribuir para que cada criança solidifique as suas identidades, não que elas sejam inaudíveis, ou sejam caladas. A identidade se constrói dentro do próprio grupo e se faz a partir de uma relação de alteridade. Ou seja, ela necessita do ‘outro’ para poder se definir, é como se identifica um perfil identitário: pelos opostos. Isso configura a necessidade da criação e atividades, no cotidiano escolar que mostrem as identidades mais diferenciadas que compõem a escola, de um modo festivo, comemorativo e ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 143ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 143 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais144 vistos todos com respeito e a consideração que eles trazem nas suas construções. Uma boa tarefa é catalogar as diferenças, nos seus modos de comer, festejar, existir e resistir. Algo bem importante é não alimentar dualismos, dos bons contra os maus, do bem contra o mal, nas práticas pedagógicas, que devem dialogar comas diferenças e semelhanças, lutando contra uma concepção das relações de gênero em que o polo masculino sempre detém o poder e o feminino é desprovido de poder – daí a necessidade de ‘fortalecer’ ou de ‘dar poder’ às mulheres(LOURO, 2003, p. 115). É preciso ter consciência que os casos de feminicídio vem aumentando no Brasil. No final da década passada, no 1.º semestre de 2019 aumentou em 44%, no estado de São Paulo, segundo dados amplamente divulgados pela imprensa. Os anos de escolaridade poderão ser positivos na construção de convivência pacífica e construtiva com as nossas diferenças múltiplas sejam de gênero, étnica, de origem e outras. As meninas e mulheres representam já uma considerável maioria nas escolas. A grande maioria das professoras da Educação infantil e Ensino Fundamental são mulheres. Isso deverá ser mais um elemento motivador de um cuidado para não impor discursos retrógrados, sexistas, machistas e que discriminam as meninas, dentro das práticas pedagógicas. Outro fator relevante é não criar práticas pedagógicas que discriminem os homossexuais e bissexuais (reconhecidamente vitimados pela homofobia). As desigualdades só poderão ser percebidas – e desestabilizadas e subvertidas – na medida em que estivermos atentas/os para suas formas de produção e reprodução. Desenvolvendo uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças, requer que os educadores e as educadoras inventem e solicitem a participação das meninas e dos meninos para que apareçam: [...] formas novas de dividir os grupos para os jogos ou para os trabalhos; promovendo discussões sobre as representações encontradas nos livros didáticos ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 144ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 144 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 145 ou nos jornais, revistas e filmes consumidos pelas/os estudantes; produzindo novos textos, não-sexistas e não- racistas; investigando os grupos e os sujeitos ausentes nos relatos da História oficial, nos textos literários, nos ‘modelos’ familiares; acolhendo no interior da sala de aula as culturas juvenis, especialmente em suas construções sobre gênero, sexualidade, etnia, etc. Aparentemente circunscritas ou limitadas a práticas escolares particulares, essas ações podem contribuir para perturbar certezas, para ensinar a crítica e a autocrítica (um dos legados mais significativos do feminismo), para desalojar as hierarquias.(LOURO, 2003, p. 124) Aos educadores e educadoras caberá o desafio de fazer com que as diferenças geracionais entre eles e as crianças, adolescentes, matriculados nas instâncias da Educação Básica, e ainda aqueles, jovens que estão matriculados na Educação de Jovens e Adultos, não sejam empecilhos para um diálogo saudável, respeitoso e construtivo, entre as antigas e as contemporâneas formas, entre os diferentes modos de pesar das gerações dos professores e professoras e das novas gerações sobre os significados antigos e as novas construções, mais contemporâneas, trazendo novas concepções sobre gênero, sexualidade e etnia. É relevante lembrar que as crianças e adolescentes com deficiências precisarão ser atendidos em suas diferenças e com intenções e práticas inclusivas, nunca com exclusões. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso às seguintes fontes de consulta e aprofundamento: Artigo: Módulo IV: Relações Étnico-Raciais | Unidade III | Texto I | Escola sem cor, num país de diferentes raças e etnias.Acessível pelo link: https://bit.ly/3f0ODTm. SAIBA MAIS ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 145ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 145 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais146 Figura 3: Congada em Silvanópolis, Minas Gerais Fonte: Wikimedia Commons Você foi capaz de refl etir sobre como desenvolver uma Prática Pedagógica que contemple o Outro e suas Semelhanças e Diferenças, levando em conta e abrigando em sala de aula as diversifi cadas culturas infantis, adolescentes e juvenis, bem como suas novas formas e próprias as suas gerações de signifi car e construirnovas e contemporâneas concepções sobre gênero, sexualidade, etnia Avaliando a necessidade de repensar o papel do educador diante da diversidade cultural Avaliando a necessidade de repensar o papel do educador diante da diversidade cultural, você será capaz de refl etir sobre as mudanças necessárias na fi gura do educador e da educadora para que a educação como uma prática de diversidade cultural aconteça plenamente. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 146ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 146 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 147 O ponto de largada, na reflexão sobre as mudanças necessárias no Papel do Educador, diante da Diversidade Cultural e promovendo-a em sala de aula, passa pela própria formação inicial e pelas formações posteriores da saída deste educador da universidade e de suas vivências em sala de aula. A formação de professores/as para a diversidade não significa a criação de uma ‘consciência da diversidade, antes, ela resulta na propiciação de espaços, discussões e vivências em que se compreenda a estreita relação entre a diversidade étnico-cultural, a subjetividade e a inserção social do professor e da professora, os quais, por sua vez, se prepararão para conhecer essa mesma relação na vida de seus alunos e alunas.(GOMES e GONÇALVES e SILVA,2003, p. 28) Avaliando a necessidade de repensar o papel do educador, diante do seu compromisso necessário com a Diversidade Cultural dentro da escola e em sala de aula, é necessário pensar na formação deste profissional que a legislação afirma como o responsável pelos primeiros anos da chegada das crianças nas escolas, na Educação Infantil e na 1.ª parte do Ensino Fundamental. O que devemos almejar é que a formação dos futuros pedagogos contemple e faça emergir melhores e mais conscientes educadores e que sejam capazes de examinar e refletir sobre suas práticas, desejosos de modificá-las. E possam fazer esforços para conscientizar seus educandos sobre a diversidade cultural presente na sociedade brasileira, além de criar oportunidades para que sejam questionadas as relações de poder entrelaçadas, dentro da construção de tal diversidade. Será muito importante que a formação inicial dos professores já propicie uma sólida formação relativa ao papel do educador, diante do seu compromisso necessário com a Diversidade Cultural. Isso já adiantará o processo e impedirá novos esforços e inovadoras avaliações sobre a Necessidade de Repensar o Papel do Educador diante da Diversidade Cultural. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 147ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 147 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais148 Todos os que fazem a escola precisam compreender, principalmente as professoras e os professores, que as crianças e suas famílias não representam um todo harmônico, chamado povo brasileiro. As histórias e as culturas das diferentes matrizes que formaram o povo brasileiro contestam tal pensamento ingênuo. Tais descendentes destas matrizes chegam às escolas e são nomeados como alunos. Eles estão em busca de alguém para ensiná-los, ou seja, oferecerem signos. Com eles chegam as evidências de que somos todos diversificados culturalmente, etnicamente e somos marcados por nossas reais diferenças de gênero. A escola e seus professores precisarão agir com as melhores práticas pedagógicas política, suficientemente capazes de operar em prol das diferenças, da cidadania de todos, com projetos democratas, republicanos e emancipatórios. Sempre que houver a necessidade de repensar o papel das educadoras e dos educadores, diante da Diversidade Cultural, àqueles e àquelas que já atuam nas escolas, as formações continuadas deverão dar conta, exemplarmente. Cada educador e cada educadora precisam ter clareza da dimensão de seus papéis de agentes da educação em uma sociedade diversificada, multicultural e com todos os desafios. Na Formação Docente e nas suas futuras práticas não poderão faltar temas como a importância das desigualdades étnico-raciais e reflexões sobre uma mentira que parece verdade, aquela falsa e propagada ideia de que o Brasil é o paraíso democracia racial. Sendo necessário discutir as relações raciais, para além de denominarem-nas como problemas particulares de negros e índios. Não são vitimizações exacerbadas como alguns, preconcei- tuosamente, rebatem-nos. Existem e causam danos antigos e socialmente construídos, uma delas é a histórica mania do brasileiro de embranquecer sua história e seus ancestrais. Insistindo em um parente português e branco. Os antepassados negros e indígenas são ocultos ou desconhecidos. Hoje existe um recurso poderoso ofertado pela ciência, que são os testes de DNA. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 148ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 148 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 149 Na Formação Docente e nas suas futuras práticas não poderão carecer temas como as histórias, as culturas, os conflitos, as formas de luta e as resistências do povo negro e dos povos indígenas, importantes matrizes do povo brasileiro. Bem como a inclusão do corte étnico-racial nas leituras, nas análises da realidade e nas experiências concretas. E, ainda, do corte étnico-racial (da presença da discussão étnico-racial) nas releituras e nas reanálises dos materiais didáticos e da literatura utilizados na sua escola. Cada educador precisa ter clareza do impacto do racismo e suas combinações com outras formas de discriminação no currículo escolar, abrindo-se a ouvir o outro caso não seja nem negra ou julgue que não tenha antepassados negros e nem indígena, ou tenha certeza vaga de algum ascendente indígena ou negra. Ele deve estar preparado para criar Estratégias de combate a atitudes preconceituosas e discriminatórias na sociedade e no espaço escolar, tendo clareza de que deve estar preparado para constituir um perfeito e consistente Plano de ação para inclusão do tema étnico-racial no espaço escolar (CEPESC;SPM, 2009, p. 248). Os educadores e as educadoras devem abster-se de negar a oportunidade de ouvir e aprender sobre diversidade cultural, educando-se contra o ódio e a repulsa aos diferentes, aos ‘outros’ tão distintos quanto humanos, tal qual eles são. Todos são humanos, demasiadamente humanos! Sempre haverá algo humano a ouvir, e aprender ou entender, com as pessoas que fazem parte de diversos movimentos, como feministas, movimento LGBT, Movimento Negro e das organizações dos povos indígenas, entre outros. Assim, existirá sempre, novos e importantes saberes que eles poderão ensinar aos professores e professoras, serão encontradas semelhanças e possibilidades de dialogar com as diferenças. Os Professores podem aprender sobre conhecimentos significativos aos seus alunos, diferentes deles e com quem terão que dialogar sobre suas diferenças e suas diversidades culturais, com temas como combate ao machismo, ao homofobismo, ao racismo e ao etnocentrismo, sensibilizar mais pessoas, educadores/as, a fim de que engrossem o bloco dos que lutam ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 149ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 149 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais150 por políticas públicas na medida certa, nas cores, nos desejos, afi nal todos devem lutar para que o mundo seja melhor, mais justo e mais inclusivo, com a diversidade cultural atuando para juntar os diferentes e as diferenças. Avaliando a Necessidade de Repensar o Papel do Educador diante daDiversidade Cultural é necessário entender que serão os professores que operarão as mudanças educativas necessárias em suas práticas, tornando-as inclusivas. É evidente que as mudanças não se fazem apenas através da reação ao que está dado, ao ‘currículo oculto’, mas também pela proposição de novos currículos. Fica a esperança de que juntos/as possamos fazer a escola que sonhamos. Juntos e acreditando! Nada será possível se as velhas e ultrapassadas práticas docentes impedirem os professores e as professoras de ouvirem seus alunos e seus desejos de aprender, dissociados as cores diferentes e reais das suas peles, as verdadeiras histórias e culturas de seus antepassados, comemorando o viver com as suas danças favoritas e diversifi cadas, que devem coexistir na escola, sendo respeitados (mas que tolerados) nas suas distintas religiões de origem africana ou indígena, respeitadas as diversidades de gênero e de sexualidade, nos seus modos impares de amar, sentir, pensar, agir e aprender. Seremos todos mais felizes. Vale muito a aposta! Figura 4 Fonte: Wikimedia Commons ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 150ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 150 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 151 UNIDADE 04 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 151ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 151 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais152 Nas últimas décadas, o tema diversidade tem trazido muitas discussões em torno da educação de modo intenso. Profissionais de ensino e acadêmicos têm se manifestado a favor de uma educação voltada para a promoção dos direitos humanos, vislumbrando um ensino plural e democrático, buscando minimizar as diferenças existentes na nossa sociedade. Diante disso, você estudará na Unidade 4 sobre novas Metodologia de Ensino, Currículo e Práxis Pedagógica, na Educação das Relações Étnico-Raciais, na escola e no Encontro de Diferenças. Preparado? Ao longo deste estudo você vai mergulhar neste universo! INTRODUÇÃO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 152ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 152 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais 153 Olá. Seja muito bem-vindo à Unidade 4. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: OBJETIVOS 1 Reconhecer a Escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças; 2 Desenvolver Metodologia de Ensino em Educação para as Relações Étnico-Raciais; 3 Compreender sobre uma Educação voltada às Relações Étnico-Raciais; 4 Planejar Currículo e Práxis Pedagógicas voltadas a Diversidade Cultural e Étnico-racial. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 153ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 153 03/02/2021 17:27:4803/02/2021 17:27:48 Educação das Relações Étnico-Raciais154 Reconhecendo a escola como espaço privilegiado de encontro das diferenças Ao término deste capítulo você será capaz compreender como desenvolver metodologia de ensino, currículo e práxis pedagógica, para a educação voltada às relações étnico-raciais, no espaço privilegiado de encontro de diferenças, a escola. Inicialmente, você irá reconhecer a escola como espaço privilegiado de encontro das diferenças. Em seguida, você compreenderá como desenvolver metodologia de ensino, em educação para as relações étnico-raciais. Posteriormente, você irá verificar como produzir uma educação voltada às relações étnico-raciais. E, por último, entenderá sobre planejar currículo e práxis pedagógicas voltadas a diversidade cultural e étnico-racial. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então vamos lá. Avante! OBJETIVO Nem sempre as nossas diferenças foram objeto de análise, ao refletir sobre a escola. Escola e as diferenças dos povos africanos e indígenas foram palcos de desencontros, no Brasil. Ao longo do período de colonização portuguesa, as diferenças foram anuladas, desrespeitadas, vigiadas, punidas, apagadas e tomaram um formato de invisibilidade, dentro das escolas, bem como em todos os espaços socialmente compartilhados entre os colonizadores, diferentes povos indígenas e africanos e seus descendentes. Quando resolveu empreender suas reformas, o marquês de Pombal, no século XVIII, prometeu liberdade e igualdade aos povos indígenas e não surgiram grandes novidades com relação aos tratamentos anteriores, desde o século XVI. Eles passaram a ser ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 154ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 154 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 155 vistos como vassalos (súditos do rei de Portugal) por motivação geopolítica e econômica, mas isso não lhes garantia um status muito superior ao dos vadios, vagabundos, ciganos, elementos inferiores e transgressores da sociedade sobre os quais se queira impor controle e vigilância. Assim, eram tempos hostis à diferença. No lugar de serem designados nas suas igualdades eram chamados de miseráveis, como pobres de bens, de capacidade intelectual e de costumes morais, por isso deveriam ter tratamento jurídico diferenciado, não lhe sendo imputada a responsabilidade por seus atos (LOPES, 2005, p.96/97), por compaixão e piedade por serem rudes e pobres, tanto quanto as viúvas e os órfãos. Com igualdades em moldes tão desfavoráveis a eles e impostos pelos colonizadores, o que falar dos direitos às diferenças, no século XVIII? Neste século XVIII, um Diretório dos Índios, localizado no Rio Grande do Norte, no nordeste brasileiro, determinava, vigiava, punia e premiava, como em todo o Brasil, conforme o comportamento adequado ou desviante do que era esperado para súditos do rei. Sem nenhuma tolerância à diferença! Tal pedagogia estava vinculada, como persistem algumas práticas pedagógicas ainda hoje, em vigiar e punir os diferentes para ficarem de acordo com as normas. Já aos bem conformados, coniventes e que aceitavam um modo de vida definido como ‘civilizado’ são recompensados com privilégios e posições honoríficas. Aprendendo com a história, cada professor terá nos tempos atuais, neste século XXI, reconhecer que este modelo colonizador não se assemelha com qualquer proposta de Escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças. É o contrário! Para tal Diretório de índios, do século XVIII, o importante era diferenciar os indígenas em relação uns aos outros, segundo seu comportamento, os ‘bons’ e os ‘maus’; distinguir valores e potencialidades individuais a serem incentivadas e utilizadas para o ‘bem-comum’. Todos eram coagidos a aceitarem e ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 155ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 155 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais156 submeterem ao modelo cultural luso-brasileiro; e definir os limites das diferenças que, afinal os qualifica de anormais e os exclui dos demais vassalos. Hoje, a educação pode ser um Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças. Basta que o professor o entenda assim e o queira! Existem marcos legais que respaldam isso! Neste século XVIII, a ciência decidiu na Europa, que a cor da pele deveria ser acatada como um critério capital e determinante entre as chamadas diferenças entre raças. De lá para cá, nossa espécie,a humana, dividiu-se em três raças estagnas, povoando até hoje a cabeça dos que são racistas, tanto no imaginário coletivo como nas ciências escritas por ideias racistas. As raças seriam branca, negra e amarela. E cor da pele é um critério impreciso. Já que somente 1% de nossos genes estariam relacionados à transmissão da nossa cor da pele, dos nossos olhos e nossos cabelos. Os cientistas naturalistas entre os séculos XVIII até XIX não caminharam a favor de uma classificação voltada as características físicas, e que seria facilmente abandonada com o passar dos tempos. Infelizmente, desde o início, eles se deram o direito de hierarquizar, isto é, de estabelecer uma escala de valores entre as chamadas raças. Com teses deterministas e naturalistas sobre raça, implicando em inferiorizar alguns grupamentos humanos, impondo a superioridade aos europeus. Assim era a classificação racial proposta pelo cientista Lineu no século XVIII, escoltada por uma escala de valores que insinua uma hierarquização errônea e discriminatória entre raças e continentes. Isso tudo acabou! Hoje, século XXI, já não mais se diferenciam as pessoas por raça! Lineu definiu que os povos indígenas da América, os Ameríndios, chamados de americanos, eram moreno, colérico, cabeçudo, amante da liberdade, governado pelo hábito, tem corpo pintado (MUNANGA, 2004, p. 25-26). Uma descrição bastante preconceituosa, errônea e a serviço do racismo. Nada tolerante à ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 156ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 156 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 157 diferença. Anulando todas as diferenças que cada povo indígena da América constituía na época e continua a constituir. Já o povo asiático era amarelo, melancólico, governado pela opinião e pelos preconceitos, usa roupas largas. Quanto ao povo africano composto de muitas etnias, eram e são diferentes povos, distintas culturas e línguas, foram significados assim: [...] negro, flegmático, astucioso, preguiçoso, negligente, governado pela vontade de seus chefes (despotismo), unta o corpo com óleo ou gordura, sua mulher tem vulva pendente e quando amamenta seus seios se tornam moles e alongados. (MUNANGA, 2004, p. 26) Já o colonizador europeu, parte dele e dos que vieram para o Brasil são nitidamente descendentes dos povos árabes, vindo do norte da África seriam bem significados em suas diferenças coma definição a seguir de Europeu como o branco? O colonizador europeu é o europeu: branco, sanguíneo, musculoso, engenhoso, inventivo, governado pelas leis, usa roupas apertadas. Todos estes estereótipos construíram práticas racistas persistentes e que ainda seguem até entre educadores. Evidentemente que estas não são as diferenças nítidas, certas e aceitáveis no século XXI. E nem serão em nome delas que a Escola se fez e continuará tentando se fazer como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças. A produção histórica destes discursos científicos ou dos governos coloniais foram desastrosas para os povos originários dos continentes africanos, asiáticos e americanos, em nome do projeto de poder econômico e político europeu danoso, injusto e cruel. A difusão de teorias racistas e muitos outros fatores produziram, certamente, a decretação da morte simbólica da diferença. O despedaçamento dos pertencimentos simbólicos que os povos africanos e indígenas constituíam no decorrer da ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 157ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 157 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais158 colonização traz a demanda atual de serem vistos como diferentes pejorativamente. As diferenças dos Povos Originários eram claras para eles como os seus rios transparentes, e tais diferenças não agradavam ao projeto colonizador europeu. A escola, ao falar das diferenças, deverá evitar tais refutadas e racistas teorias. Buscando elementos que constituam as culturas das matrizes que formaram o povo brasileiro, evitando estigmatizar os povos indígenas, africanos e afrodescendentes, usando a raça como forma de significá-los. Ao contrário não estará aberta aos diferentes. A escola brasileira surge neste cenário colonizador, racista e contra as diferenças. Elevará o europeu, visto como o branco, ainda que pese na história de Portugal e Espanha a longa presença de povos árabes e vindo no norte africano. Tal projeto perverso colonizador não permitiu nenhuma visão que apontasse alguma igualdade entre o europeu e os povos indígenas e africanos. Tal projeto produziu desigualdades, ausência de direitos, racismo e um distanciamento da Escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças aos povos indígenas e africanos, como aos seus descendentes. E produziu certezas sobre racismo, raças e sobre superioridades, qualificando-as em comparação aos detentores do poder, nem indígenas e nem negros. A crença na existência de raças naturalmente hierarquizadas pela relação intrínseca entre o físico e o moral, o físico e o intelecto, o físico e o cultural. O racista cria a raça no sentido sociológico, ou seja, a raça no imaginário do racista não é exclusivamente um grupo definido pelos traços físicos. A raça na cabeça dele é um grupo social com traços culturais, linguísticos, religiosos, etc. que ele considera naturalmente inferiores ao grupo ao qual ele pertence. De outro modo, o racismo é essa tendência que consiste em considerar que as características intelectuais e morais de um dado grupo são consequências diretas de suas características físicas ou biológicas (MUNANGA, 2004, p. 24) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 158ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 158 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 159 Figura 1: Museu Afro-Brasileiro, Salvador Fonte: wikimedia commons É somente na reta fi nal do século XX, nos tempos favoráveis a redemocratização e a participação popular, que resultou na atual constituição federal, promulgada em 1988, que as diferenças começam a suscitar debates dentro das universidades, nas formações docentes e na literatura da área de educação com maiores repercussões nas leis em geral, nas políticas públicas e no repensar de leis que estivessem relacionadas à educação. Antes disso o cenário aos diferentes, aos inaptos, aos que não apresentavam bons resultados escolares era vê-los como incapazes e portadores de défi cits e problemas de aprendizagem. Ninguém estava tão preocupado nas escolas em estabelecer debates sobre as nossas gritantes desigualdades sociais e educacionais, bem como repensar as atitudes diante das diferenças. Uma iniciativa de pesquisa pioneira, ainda no século XX, foi desenvolvido por Maria Helena de Souza Patto (USP), pesquisadora e questionadora dos abusos, nos usos dentro das escolas em vincular às diferenças, todas as difi culdades de aprendizagem das crianças empobrecidas e tratá-las como prováveis défi cits de inteligência. Nestes atos vinculavam o não aprender à capacidade intelectual, tentando provar que se não aprendiam era por alguma determinação ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 159ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 159 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais160 hereditária e genética. A culpa seria somente da criança moradora da periferia, em cidades dormitórios, próximas de São Paulo, filha de nordestinos semialfabetizados, afrodescendentes? Uma tendência era salvaguardar a escola de qualquer responsabilidade pelo fracasso escolar. E vincular apreocupação com as diferenças individuais e seus determinantes, com a detecção científica dos normais e anormais, dos aptos e inaptos, só poderia ocorrer no âmbito da ideologia de igualdade de oportunidades como característica distintiva das sociedades de classes. Não é a mesma lógica que anima hoje a discussão sobre a diferença, nas décadas seguintes, na virada do século XX e nas decisivas duas primeiras décadas do século XXI. Antes disso era uma utopia reconhecer a Escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças. O que os educadores e pesquisadores sensíveis às classes sociais mais desfavorecidas lamentavam eram as formas rudes de produção do fracasso escolar, resultando em sucessivas reprovações, em cenários de horripilantes cotidianos, dentro das escolas, onde os alunos eram discriminados, tratados com grosseria pelos professores, a avaliação é feita sem os professores conhecerem a subjetividade dos alunos, os pais desprotegidos de capital cultural não entendem porque a reprovação acontece. Eventos apavorantes, da década de 1980. E podemos indagar tudo isso passou? As diferenças são respeitadas? Reconhecendo a Escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças, em pleno século XXI, no Brasil, significa afirmar que as diferenças das crianças não são mais silenciadas? A reflexão deverá incluir a identidade. Já que é necessário entender que identidade e diferença são inseparáveis, dependendo uma da outra, e compõem o eixo das principais discussões da atualidade preocupadas com justiça e igualdade. Isso inverteu completamente o exame das diferenças! Coexistindo juntas e interdependentes, identidade e diferença são produzidas nas tramas da linguagem e da cultura, resultando de atos de fala, de enunciados linguísticos que as instituem. Imaginem a responsabilidade da escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças! ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 160ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 160 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 161 Estamos perto ou ainda teremos muito a caminhar na busca do reconhecimento da Escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças? O cotidiano das práticas pedagógicas precisa refletir mais sobre as diferenças? Quais diferenças? Quais as diferenças suportadas pelos professores? Qual é o limite em que serão aceitos? Qual o ponto em que serão enquadrados a abrir mão de suas diferenças? Quando tempo levará até serem chamados a abandonar suas diferenças? Como transformar este cenário complicado? A realidade é que as instituições escolares estão repletas de rotulados, maltratados, perseguidos, vigiados, punidos e taxados como: [...] jovens sujeitos fora da ordem, que não se adaptam, não obedecem, não estudam, não se comportam adequadamente e não aprendem as lições da escola no local e no tempo designados para isso. Desatentos, desordeiros, agressivos, vândalos, preguiçosos, desinteressados, violentos, belicosos são alguns dos adjetivos empregados para descrevê-los como corpos e almas fora de controle, como alunos-problema, e definir seu estatuto num certo tipo de cartografia das margens (COSTA, 2015, p. 494) Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Vídeo – Seminário Juventude Negra: Preconceito e Morte - Prefº. Dr. Kabengele Munanga, da USP. Fala sobre racismo, construção do preconceito, papel da ciência, na História e o mito da democracia racial. Acessível pelo link https://bit.ly/2MHQCju (Acesso em 09/01/2020). SAIBA MAIS E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 161ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 161 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais162 vimos. Você deve ter aprendido, até este momento, a reconhecer a Escola como Espaço Privilegiado de Encontro das Diferenças, e isso favorecerá as suas reflexões como realmente agir na escola para que prevaleça este lugar de Encontro das Diferenças. Desenvolvendo metodologia de ensino em educação das relações étnico-raciais Você será capaz de compreender sobre como é o desenvolvimento de metodologias de ensino, em educação das relações étnico-raciais, compreendendo as construções de metodologias apropriadas às experiências educativas e que sejam capazes de promover as relações étnico-raciais. Você estudará este tema em dois diferentes momentos, nas questões conceituais sobre metodologia de ensino e a educação das relações étnico-raciais, e, ainda na busca de reflexivas e criativas práticas metodológicas voltadas às relações étnico-raciais. OBJETIVO Desenvolvendo metodologia de ensino em educação das relações étnico-raciais: questões conceituais Desenvolvendo Metodologia de Ensino, em educação das Relações Étnico-Raciais, você será capaz de entender as constru- ções de metodologias apropriadas as experiências educativas que promovem as Relações Étnico-Raciais, inicialmente você refletirá sobre questões conceituais sobre metodologia de ensino e a Educação das Relações Étnico-Raciais. Criar uma metodologia de Ensino, em educação das Relações Étnico-Raciais representa estar apoiados em uma anterior preparação dos educadores para entender temas relativos à nossa diversidade ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 162ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 162 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 163 étnico-racial e as necessárias ações por uma educação antirracista. As metodologias devem ser preparadas para serem vivenciadas, em sala de aula, nos seguintes passos: a prática inicial dos conteúdos, seguida da problematização com tais conteúdos, com uma posterior instrumentalização com os saberes adquiridos, uma movimentação para chegar à catarse e virar uma prática social final. Então estas são as etapas necessárias a seguir! A Prática inicial dos conteúdos é a preparação, uma mobilização do aluno, uma primeira leitura da realidade, um contato inicial com o tema a ser estudado. Isso poderá ser planejado com uma conversa, uma música, a leitura de um conto ou mito, uma notícia publicada em algum jornal, livro, revista, uma discussão sobre um tema, uma frase pronunciada por algum aluno, um jogo ou uma brincadeira, um blog publicado por outros alunos de uma outra escola e outras inúmeras possibilidades. A etapa seguinte será a problematização dos conteúdos com a finalidade de selecionar as principais interrogações levantadas na prática social.Essas questões em consonância com os objetivos de ensino, orientam todo o trabalho a ser desenvolvido pelo professor e pelos alunos. Isso significa um necessário e consistente diálogo para fazer chegar em sala de aula as construções sociais sobre o tema da educação das relações étnica-raciais. E dialogar é lidar com diferenças e identidades dos outros! Já a instrumentalização com os saberes adquiridos é aquele intenso momento em que as crianças tocaram nos conteúdos, aprendendo novos saberes sobre as relações étnica-raciais. É o caminho através do qual o conteúdo sistematizado é posto à disposição dos alunos para que assimilem e o recriem e, ao incorporá-lo, transformem- no em instrumento de construção pessoal e profissional. Aprendendo novas verdades! Neste significativo momento é necessário pensar em escolhas metodológicas que não sejam enfadonhas, movidas por percursos repetitivos, pouco criativos, desanimadas e sem a participação ativa dos alunos. É sempre bom lembrar que os professores não sãonativos digitais, mas seus alunos possuem mais habilidades e competências ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 163ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 163 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais164 com a pesquisa no universo digital, já disponível em smartphones e que possibilitam pesquisas na internet, em consistentes sites. A escolha metodológica poderá ser inspirada em metodologias ativas, que antecipem no aluno a possibilidade de ir atrás de saberes para trazer para este momento de instrumentalização. Uma grande especialista em metodologias ativas, Moran define metodologias como diretrizes que orientam os processos de ensino e aprendizagem, que se concretizam em estratégias, abordagens e técnicas concretas, específicas e diferenciadas (MORAN, 2018, p.4). E as Metodologias Ativas, apropriadas aos tempos da Era Digital que vivem as crianças e os adolescentes, dão ênfase ao papel de protagonista do aluno, ao seu envolvimento direto, participativo e reflexivo em todas as etapas do processo. Isso significa dar protagonismo aos educandos, fazê-los partici-pantes ativos nas conduções metodológicas e não meros ouvintes e decoradores de conteúdo. É importante dialogar com eles e inseri-los em conteúdos digitais salutares para a educação das relações étnico-raciais. Sozinhos poderão perder-se nos emaranhados da rede mundial de computadores e correndo o risco de embrenhar-se em sites suspeitos, racistas, divulgando verdades que parecem mentiras sobre raça, etnia e os povos formadores do nosso Brasil. Tais metodologias ativas podem ser usadas com os Estudos de Casos, ou seja, relatos de situações ocorridas no mundo real, apresentadas aos estudantes com a finalidade de prepará-los para a prática ao mesmo tempo em que se ensina a teoria. E, ainda, com o recurso metodológico da Sala Invertida, em que a professora produz pequenos vídeos disponibilizados na internet para os alunos e que poderão ser vistos em computadores e smartphones (celulares), antes da próxima aula, em casa ou no laboratório de informática da escola. O que normalmente é feito em sala de aula, passa a ser executado em casa e vice-versa. A sala de aula passa a ser um espaço para tirar dúvidas e realizar outras atividades como as de laboratório e resolução de problemas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 164ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 164 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 165 Já a fase da catarse é de síntese, aqueles fabulosos momentos em que o educando exterioriza se os conteúdos planejados pelos educadores e os processos pensados para a construção do conteúdo representaram ou não sentidos. A catarse é aquele exato momento, na condução de uma metodologia de ensino para a educação das relações étnico-raciais em que o aluno demonstra o quanto se aproximou da solução dos problemas anteriormente levantados sobre o tema em questão. São as expressões dos próprios educandos afirmando se realizou a almejada síntese do cotidiano e do científico, do teórico e do prático. E, ainda, a síntese que é a superação do sincretismo inicial da realidade social do conteúdo trabalhado, expressando se conseguiu chegar ou não ao momento em que ele estrutura, em nova forma, seu pensamento. Estruturou-se novas formas de ver as relações étnico- raciais, isso significará que repensaram retrógradas e racistas concepções, sendo que as metodologias pensadas foram muito eficazes. Caso não tenha conseguido, novas e outras metodologias devem ser pensadas para facilitar novos entendimentos. A etapa seguinte, chamada de prática social final, configura o momento da diferença. O educando percebe e poderá expressar que já não é o mesmo com relação aos pré-conceitos socialmente aprendidos, com relação aos povos indígenas e aos africanos e seus descendentes. A criança, o adolescente ou o jovem educando, junto ao seu grupo de colegas e ao seu educador percebe que adquiriu novas modalidades de compreensão da realidade e inovadoras formas de posicionamento, passando a pensar diferente sobre as relações étnico-raciais brasileiras, os acontecimentos históricos e suas importâncias reais em um país tão diversificado do ponto de vista etnicorracial. É chegada o momento da ação consciente, na perspectiva da transformação social, retornando à prática social inicial, agora modificada pela aprendizagem. Assim, inúmeras tarefas podem ser construídas dentro da escola, na comunidade com as novas ideias sobre as relações étnico-raciais, com práticas reflexivas e criativas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 165ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 165 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais166 Desenvolvendo metodologia de ensino em educação das relações étnico-raciais, na busca de reflexivas e criativas práticas Ao pensar em Metodologia de Ensino em educação das Relações Étnico-Raciais, para as escolas brasileiras, pensemos nas crianças que receberam um legado desses antepassados, a cultura que eles receberam de seus ancestrais, valorizando-a. A vida real desta criança não poderá ser desconsiderada, se o assunto passa por uma escolha metodológica de como educar para as relações étnico-raciais, buscando o diálogo entre todos. Neste sentido, cada professor é convocado a refletir sobre a brasi-lidade das crianças, repletas de marcas culturais africanas e indígenas, entre outras: [...] Professores, fazemos parte de uma população culturalmente afro-brasileira, e trabalhamos com ela; portanto, apoiar e valorizar a criança negra não constitui em mero gesto de bondade, mas preocupação com a nossa própria identidade de brasileiros que têm raiz africana. Se insistirmos em desconhecê-la, se não a assumimos, nos mantemos alienados dentro de nossa própria cultura, tentando ser o que nossos antepassados poderão ter sido, mas nós já não somos. Temos que lutar contra os preconceitos que nos levam a desprezar as raízes negras e também as indígenas da cultura brasileira, pois, ao desprezar qualquer uma delas, desprezamos a nós mesmos. Triste é a situação de um povo, triste é a situação de pessoas que não admitem como são, e tentam ser, imitando o que não são.(Gonçalves e Silva, 1996:175) Desenvolvendo Metodologia de Ensino em Educação das Relações Étnico-Raciais, requer que você esteja com disponibilidade para fincar os pés na nossa diversidade cultural e étnico-racial, refletindo sobre como vivenciá-la em sala de aula, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 166ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 166 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 167 de uma forma envolvente, alegre e adequada a cada etapa da Educação Básica em que cada professor esteja atuando. Ao pensar em metodologias em uma perspectiva antirracista, as escolhas devem ser focadas para propiciar ao educando a gestão do ensinar e do aprender, consoante sua identidade e objetivos da modalidade, ou seja, ficado na sua atuação, significando que cada criança poderá articular os saberes sobre as relações étnico-raciais através de atividades e de metodologias que o enxergam assim como eles são, nas suas constituições de diversidade cultural e étnico-racial, na identidade cultural e étnico-racial que construiu, em sua realidade social e nas suas interações. Levando em conta a sua realidade familiar, desmascarando os pre-conceitos étnico-raciais, enfatizando o respeito pela dignidade da pessoa humana, a diversidade cultural, a igualdade de direitos e a corresponsabilidadepela vida social, como elementos que orientam a seleção de conteúdos e a organização de situações de aprendizagem. As escolhas de metodologias deverão promovem não apenas o reconhecimento, mas a incorporação de atitudes que ressaltem as diferenças de forma que sejam tomadas como constituintes de identidade dos sujeitos. A metodologia deverá agir em uma perspectiva de transformação das relações sociais e das excludentes relações étnico-raciais. A escolha metodológica mais apropriada à educação das relações étnico-raciais deve ser uma aposta em práticas antirracistas. E trazer atividades que possam desconstruir olhares aprendidos e que ensinaram que negros, brancos e indígenas são diferentes, as diferenças são introjetadas em nossa forma de ser e ver o outro, na nossa subjetividade, nas relações sociais mais amplas. Aprendemos, na cultura e na sociedade, a perceber as diferenças, a comparar, a classificar. O problemático nesta aprendizagem social é a demasiada hierarquização das classificações sociais, raciais, de gênero, entre outras. O que traz uma demanda na escolha da metodologia a ser usada: não permitir que as crianças continuem a tratar os diferentes como desiguais. Antes da escolha metodológica e das sucessivas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 167ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 167 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais168 escolhas de atividades reflita bastante. Na perspectiva de escolha de uma metodologia em educação das relações étnico-raciais, as atividades precisaram ter objetivos relacionados a esclarecer [...] que algumas diferenças construídas na cultura e nas relações de poder foram, aos poucos, recebendo uma interpretação social e política que as enxerga como inferioridade. A consequência disso é a hierarquização e a naturalização das diferenças, bem como a transformação destas em desigualdades supostamente naturais. (GOMES, 2005, p. 49) A escolha da metodologia deverá estar amparada em uma atitude do educador de realizar vastas pesquisas e compreender mais sobre a história da África e da cultura afro-brasileira e aprender a nos orgulhar da marcante, significante e respeitável ancestralidade africana no Brasil. Assim como precisamos saber sobre a história dos povos originários, nossos povos indígenas, presentes ao continente americano, muitos milênios antes da chegada dos colonizadores europeus. Sendo necessário conhecer as contribuições de todos os povos que vieram viver aqui, de forma fundamentada, com leituras consistentes. Um exemplar material para realizar este caminho é o material da Unesco, traduzido em português, para fundamentar sobre o assunto da história da África, a coleção história geral da África (Disponível no link: https://bit.ly/3cKs7fO), bem como o material organizado pelo Instituto Socioambiental, com detalhadas informações sobre os povos indígenas do Brasil (Disponível no link: https://bit.ly/2zdLfoU). SAIBA MAIS ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 168ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 168 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 169 Este cuidado, em pesquisar sobre as histórias e as culturas dos povos formadores do Povo Brasileiro, é essencial e dará um suporte considerável na hora das escolhas metodológicas, apurando os olhares e a criticidade diante de algumas publicações que veiculam verdades que parecem mentiras. Muitas vezes tais mentiras estão contidas em livros didáticos e as pesquisas dos professores evitarão a propagação de informações falsas, nos livros didáticos sobre os povos africanos, afrodescendentes e indígenas. É bem importante ter este cuidado e saber suficientemente sobre tais povos! Os educadores, na perspectiva da procura de uma metodologia para a educação das relações étnico-raciais deverão ficar atentos aos discursos veiculados nos livros didáticos e paradidáticos, já que transmitem estereótipos sobre tais povos, sendo visto como fonte só de verdades e são escritos por pessoas humanas, podem conter erros, e vale observá-los apuradamente dada as significações que carregam. O livro didático carrega sua autoridade, é inegável sua utilidade constante, sendo necessário entender que é potente para lançar visões distorcidas e cristalizadas da realidade humana e social. A identificação da criança com as mensagens dos textos concorre para a dissociação da sua identidade individual e social. Mesmo que sejam usados devem ser contemporaneidades, com os educandos, nos seus eventuais erros. As escolhas metodológicas devem estar pautadas nas realidades que vemos nas ruas, nas comunidades, nas festas brasileiras, nas nossas danças populares, em múltiplos festejos religiosos ou não que o povo brasileiro cuida muito em preservar e valorizar. E este potente conjunto de manifestações poderão conceder algumas certezas metodológicas experimentadas já a alguns séculos, no Brasil, por tantos brincantes e mestres. Se nossa sociedade é plural, étnica e culturalmente, desde os primórdios de sua invenção pela força colonial, só podemos construí-la democraticamente respeitando a diversidade do nosso povo, ou seja, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 169ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 169 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais170 as matrizes étnico-raciais que deram ao Brasil atual sua feição multicolor composta de índios, negros, orientais, brancos e mestiços (MUNANGA, 2008, 17 O caminho metodológico assentado nas artes em gerais e das artes populares, nas manifestações da cultura tradicional popular brasileira, africana, afrodescendente ou afro-brasileira e indígena, regionais, locais e comunitárias farão excelentes contribuições para a educação das relações étnica-raciais. Ensinar as manifestações artísticas africanas transpõe o caráter técnico, relaciona o conteúdo e a forma, situando-as no contexto, englobando os processos socioculturais e conferindo-lhes uma significação cultural. São inúmeros os vídeos, filmes, documentários e materiais fotográficos produzidos a partir das descobertas arqueológicas na África e no continente americano e que serão fundamentais para conhecer melhor as duas matrizes, negra e indígena. Compreendendo-os nos seus aspectos histórico-culturais, tendo uma relação com outras áreas do conhecimento como a arquitetura, a antropologia, a religião, a história, a etnologia, a crítica de arte, entre outras. Isso trará muitos benefícios, além de ricos momentos para argumentar, refletir, corrigir injustiças e perceber a riqueza da diversidade étnica e as mudanças culturais de um povo. Quando o educador conhecer melhor as verdadeiras histórias e culturas dos povos indígenas e dos africanos e afro-brasileiros, já contidas nestas danças, folguedos e manifestações queridas do povo brasileiro, inúmeras (como o bumba-meu-boi, auto natalinos, festas juninas, carnaval, entre tantas outras), será possível narrar tais histórias e culturas verdadeiras em sala de aula. Serão momentos incríveis de viagens aos tempos anteriores as colonizações e como viviam africanos e povos indígenas, originalmente. Isso motivará a construção de um conjunto de atividades, baseadas em metodologias apropriadas a educação das relações étnico-raciais, como dramatizações de fatos históricos, culturais, míticos destes povos. As metodologias serão movimentadas com atividades como: ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 170ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 170 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das RelaçõesÉtnico-Raciais 171 [...] dramatização dos diferentes grupos étnicos que contribuíram para a formação do povo brasileiro; sensibilização para conhecer as diferentes etnias africanas (maneira de vestir, calçar, pentear; como carregam os filhos; hábitos; costumes; religiosidade, etc.); o aluno conta a história do seu próprio nome, sua origem; o aluno será levado a entender porque os negros perderam a identidade do nome; o aluno será levado a conhecer a história de outros nomes significativos para a comunidade negra; desenhando o próprio nome; trabalhando plástica e gestualmente o próprio nome, etc.; movimentos corporais dos mitos e lendas; brincadeiras e jogos de percepção, levando a que os alunos se conheçam uns aos outros e respeitem suas características fenotípicas.(SILVA, 2008, p. 130) Com relação aos jogos é interessante a pesquisa de tradicionais jogos africanos e indígenas, como o Mancala, jogado em duplas em um tabuleiro de seis orifícios (covas) de cada lado contendo quatro sementes ou pequenas pedras em todos esses, ou seja, cada jogador inicia com 24 sementes. Bem fácil de confeccionar na escola, até com caixas ou estojos de ovos. Neste tabuleiro existe um depósito em cada lado, de cada extremidade, lá as sementes ficam armazenadas, no depósito ou mancala. Será uma interessante maneira de falar da África! Uma significativa fonte bibliográfica, entre tantas existentes é um e-book produzido pelo projeto Ludicidade Africana e Afro- brasileira (LAAB), criado em 2011, publicado pela Universidade Federal do Pará, com o objetivo de capacitar docentes para a educação das relações étnico-raciais, com o uso de metodologias lúdicas. A ludicidade africana e afro-brasileira significa: [...] remeter a vivência lúdica alimentada pelos conteúdos, valores, histórias, ritmos, enfim, pela cultura negra, em suas mais diferentes manifestações. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 171ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 171 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais172 Sejam os fragmentos de cultura dos antigos povos africanos, como seus Mancalas e o Senet, sejam as expressões musicais contemporâneas, como o Hip Hop, que para Ferreira (2004), representa processos criativos de ressignificação da diáspora. Sejam as alegrias dos dançantes da Roda de Jongo, no Rio de Janeiro, sejam os giros e batuques do Samba de Cassete em Cametá, na Amazônia paraense (CUNHA, 2016, p. 16) Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso às seguintes fontes de consulta e aprofundamento: Vídeo: Aprenda a jogar Mancala em árabe NAGAAL que significa ‘mover’. Existem muitas variações do mancala pelo mundo. É chamado Wari no Sudão, Gâmbia, Senegal e Haiti. No Burkina é conhecido como Aware e como Adi, no Benin. Já na Costa do marfim é chamado de Baulé. Na Nigéria é chamado de Ayo Olopon. Acessível pelo link: https://bit.ly/3dLxk8K (Acesso em 09/01/2020). A outra fonte é o E-Book (livro eletrônico) –Brincadeiras Africanas para a educação cultural. Acessível pelo link: https://bit.ly/3dKVkbP (Acesso em 09/01/2020). SAIBA MAIS E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido, até este momento, você conseguiu entender como desenvolver Metodologia de Ensino em educação para as Relações Étnico-Raciais, inicialmente refletindo sobre questões conceituais relativas a este tema e por último refletindo sobre a busca de reflexivas e criativas práticas pedagógicas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 172ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 172 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 173 Figura 2: Mulheres africanas jogando Mancala Fonte: wikimedia Commons Produzindo uma educação voltada às relações étnico-raciais Neste capítulo você refletirá sobre as possibilidades da promoção de uma Educação que incorpore as Relações Étnico-Raciais. Isso deverá configurar um compromisso para aqueles que pensam e produzem a Educação, em qualquer instância, em um país com o Brasil, formado por pujante diversidade cultural e étnico-cultural. OBJETIVO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 173ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 173 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais174 No decorrer dos últimos anos do século XX e nas duas primeiras décadas do século XXI, a educação brasileira foi motivada por muitas legislações, diretrizes curriculares e políticas públicas relacionadas à Produção de uma Educação voltada às Relações Étnico-Raciais, como nunca tinha sido pensada, programada e executada na História da Educação brasileira. Realmente aconteceu um empenho governamental, em trazer para o campo da educação a discussão, em prol de uma convivência social igualitária, nas suas relações Étnico-Racial, contemplando considerável parte do povo brasileiro.Isso foi configurado em muitas iniciativas de ouvir a voz dos silenciados, das matrizes formadoras do Povo Brasileiro, dos movimentos organizados dos povos indígenas e negros, de uma séria intenção governamental em enfrentar a nossa real desigualdade étnico-racial. No Relatório das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educa-ção das Relações Étnico-Raciais, configura o entendimento de que a Educação das relações Étnico-Raciais é interdependente das políticas públicas do Estado Brasileiro (institucionais e pedagógicas), focadas nas aguardadas reparações, além do reconhecimento e da valorização da identidade, da cultura e da história dos negros brasileiros depende necessariamente de condições físicas, materiais, intelectuais e afetivas favoráveis para o ensino e para aprendizagens. Isso significa que produzir uma Educação voltada às Relações Étnico-Raciais configura um trabalho colaborativo e que envolva todos os que fazer a educação escolar acontecer ou ser esquecida. A produção de uma Educação voltada às Relações Étnico-Raciais dependeria e continua a depender da: [..]reeducação das relações entre negros e brancos, o que aqui estamos designando como relações étnico-raciais. Depende, ainda, de trabalho conjunto, de articulação entre processos educativos escolares, políticas públicas, movimentos sociais, visto que as mudanças éticas, culturais, pedagógicas e políticas nas relações étnico- raciais não se limitam à escola.(BRASIL, 2004, p.13) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 174ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 174 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 175 Foi criado um Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Etnicorraciais e para o Ensino de História e Cultura Afrobrasileira e Africana, com o objetivo focado na colaboração com todo o sistema de ensino e as mais diversas instituições educacionais brasileiras, sugerindo reflexões para enfrentar todas as formas de preconceito, racismo e discriminação para garantir o direito de aprender e a equidade educacional a fim de promover uma sociedade mais justa e solidária. O Plano Nacional preconizava a formação docente em História e Cultura dos Povos Africanos e da Cultura Afro- brasileira do papel exercido pela diversidade no Brasil, além da colaboração com os mais distintos sistemas de ensino, com as ações necessárias com vistas à implementação da Lei 10639/03. Outra frente de ação do plano era o desenvolvimento de pesquisas e a produção de materiais didáticos e paradidáticos quevalorizem, nacional e regionalmente, a cultura afrobrasileira e a diversidade brasileira. (BRASIL, 2009, p. 26) A lei 10639/03 é de 2003. Só alguns anos depois é que conquistamos a lei 11645/08 e foram incluídas as histórias e culturas dos povos indígenas. O Este Plano Nacional, de 2009, trata das histórias e culturas dos povos indígenas e africanos. Isso explica o fato de você está estudando a Educação das Relações Étnico-Raciais neste momento, focando nas histórias e culturas dos povos indígenas, africanos e afro-brasileiros. Isso respondeu a demanda de produzir uma Educação voltada às Relações Étnico-Raciais e estabelecer melhores inter- relações étnicas? Certamente que contribuiu dado o ineditismo da situação. O Governo Federal deu um passo ímpar, nunca experimentado antes nas longas histórias dolorosas para negros e indígenas, nas tensas Relações Étnico-Raciais, no Brasil. É relevante entender que a educação voltada às Relações Étnico-Raciais, como qualquer outra forma ou intenção de educação é sempre um ato constante e inacabável. Já na sua especificidade, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 175ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 175 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais176 a educação voltada às Relações Étnico-Raciais passou pela construção da superação e posturas racistas, por um modo de viver antirracista. Ainda é visível e existente nas ruas, nos casos declarados de injúrias raciais e anunciados pelos meios de comunicação, na quantidade intensa de jovens pobres e pretos perseguidos e mortos, em operações policiais. Estamos longe ou os programas foram insuficientes e devem seguir? Significa que a educação voltada às Relações Étnico-Raciais precisa estar presente no cotidiano e nas atividades oferecidas aos alunos, constantemente, em uma luta que já leva mais de 500 anos, de racismo e de discriminação racial. E continuará a fazer seus efeitos. Nas buscas para produzir uma Educação voltada às Relações Étnico-Raciais é importante, no dia-a-dia das inter-relações entre as crianças, observar aqueles codinomes pejorativos, algumas vezes escamoteados de carinhosos ou jocosos, que identificam alunos (as) negros(as), sinalizam que, também na vida escolar, as crianças negras estão ainda sob o jugo de práticas racistas e discriminatórias. E precisam desaparecer! Melhor será produzir uma Educação voltada às Relações Étnico-Raciais que transforme as diferenças étnico-raciais, em marcas de uma cultura que seja apresentada não com o deboche, mas sim com jogos e cantos de origem africana ou indígenas. Perfeito será produzir uma Educação voltada às Relações Étnico- Raciais, que caminhem além das diferenças dos tons de pele ou dos cabelos, focando nas marcas significativas das culturas indígenas e afro-brasileiras, abandonando a zombaria com as diferenças étnico-raciais, planejando uma vivência construtiva com o patrimônio material e imaterial, artístico e cultural, dos povos que construíram a Amazônia antes da chegada dos colonizadores e com as danças e os folguedos criadas pelos africanos, modificadas e reatualizadas pelos afrodescendentes e que todos apreciam. Produzir uma Educação voltada às relações étnico-raciais passa pelo prévio entendimento dos professores de que não existe uma única forma de se estar no mundo,mas múltiplas formas que vão tecendo conforme os desafios propostos por ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 176ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 176 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 177 nós, pelos outros e pela nossa interação com e sobre a natureza. Isso abre o caminho para a produção de uma educação voltada às Relações Étnico-Raciais que possibilitem encontros pedagógicos alegres e reflexivos, conhecendo e se apro-priando das múltiplas formas através da recriação, da reinvenção, redescoberta, e que nos leve a equacionar o nosso ser e estar no mundo em suas múltiplas dimensões. Além disso, essa produção, passa por uma escuta atenta dos sujeitos historicamente excluídos, indígenas e afro-brasileiros, suas culturas e histórias reais e dignas. A sociedade democrática brasileira ainda tende de forma bastante sistemática a colocar/ situar negros e negras num lugar desigual ante os demais grupos étnico-raciais e culturais, construtores da nossa brasilidade. O que deixamos de aprender com preconceitos que desqualificam os povos indígenas como pessoas que produzem uma educação das Relações Étnico-Raciais. E o que podemos aprender com eles e que fazem falta para melhorar nossos conflitos Inter étnicos? Em suas sociedades, os povos indígenas, lutam para que o ensino e a aprendizagem ocorrem no espaço abrangente da comunidade e em qualquer tempo. Todos são responsáveis pela formação das pessoas, sendo que os mais velhos assumem tarefas mais específicas. Assim, novas gerações aprendem com as velhas! Podemos aprender muito com os saberes indígenas. Os grupos que vivem na mesma comunidade em que está localizada a escola são ouvidos? Eles são convidados a participar da produção de uma educação das Relações Étnico-Raciais? Seus grupos artísticos e culturais estão presentes nas comemorações do dia da consciência negra ou no dia do índio? Alguma vez foram convidados a narrar a história de lutas daquele bairro por políticas públicas ou a contar histórias reais. Os poetas do bairro visitam a escola? Um pequeno bloco de carnaval antigo do bairro é chamado a falar de carnaval, nesta época? Até que ponto o educador e sua escola estão abertos e se sente preparado para produzir uma Educação das Relações Étnico- Raciais que leve em conta a revitalização, transmissão e valorização ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 177ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 177 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais178 da cultura e identidade do povo, como fazem os povos indígenas ao discutir os rumos da educação que oferecem as novas gerações? É necessário indagar nas práticas educativas se a comunidade é chamada para produzir uma Educação das Relações Étnico- Raciais, na escola? Existe uma procura pela produção de uma Educação Étnico-Racial que caminhe em direção a um conceito de ser humano que produz história não a partir de grandes sagas e heróis, mas a partir de relações comunitárias vividas e vivenciadas pelos grupamentos humanos. Ao produzir uma educação voltada para a relação Étnico-Racial é necessária a construção de ambiente escolar que favoreça a formação sistemática da comunidade sobre a diversidade étnico-racial, a partir da própria comunidade, considerando a contribuição que esta pode dar ao currículo escolar. Isso demanda um mapeamento das potencialidades artísticas e culturais do bairro, da cidade e da comunidade. Esta produção coletiva de uma educação às relações Étnico- Raciais passa por encarar a existência do racismo, das desigualdades sociais, da histórica exclusão de africanos, de seus descendentes, dos povos originários que viram os colonizadores chegarem e de seus descendentes, refletindo sobre tais deploráveis práticas, com o intuito de vencê-las. Passa, ainda, pela aceitação, convivência e abertura para aprender, dentro da escola, com as cosmovisões destes povos, formadores do povo brasileiro, nas suas semelhanças e nas suas diferenças com aquilo que costumamos chamar de manifestações tradicionais e populares, da nossa festiva e criativa cultura popular tradicional brasileira. Prima pela necessidade de diálogos entre os educadores, seus saberes, os marcos legais que foram construídos no Brasil com o intuito de superar o racismo, o preconceito e todas as dificuldadesno enfrentamento das relações Interétnicas. Produzir uma educação das relações étnica-raciais passa por evocar a questão racial como um potencial conteúdo multidisciplinar, a atravessar várias disciplinas, a trazer elementos significativos aos conteúdos curriculares, juntamente com a valorização de todos os povos formadores dos povos brasileiros (negro, indígena, árabes, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 178ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 178 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 179 europeus, japoneses e tantos outros). Passa pelo questionamento do etnocentrismo. Qual a razão que faz com que o português seja visto como melhor e mais avançado que o Povo Tupy ou Tupiniquim? Conhecendo muito e melhor da história e da cultura dos povos indígenas e africanos para respaldar falas mais verdadeiras e coerentes, isso abolirá falsas imagens do negro e do indígena inconvenientes e que são mentiras que parecem verdades. É necessário examinar e refletir sobre o modelo social em que a escola está imersa, refletindo sobre mudanças necessárias, a partir da análise sobre a realidade. Não podemos falar apenas por falar, sem produzir mudanças. Isso requer que seja observado se coexistem na escola as [...] desigualdades sociais, raciais, culturais econômicas e que determinados grupos sociais ainda estão submetidos na sociedade brasileira. Do mesmo modo, temos nela as possi-bilidades para a superação das formas mais variadas de preconceito e desigualdade. (PASSOS, 2002, p.21) Figura 3: Folguedos Fonte: wikimedia commons ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 179ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 179 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais180 E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido, até este momento sobre como produzir uma Educação das Relações Étnica-Raciais. Refletindo sobre tudo o que foi lido deverá estar mais preparado para futuras inserções e construções de uma educação antirracista e antidiscriminatórias, refletindo sobre o assunto para estar mais qualificado a trabalhá-los situações diversas em sala de aula. Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: vídeo: Educação para Relações Etnicorraciais. Acessível pelo link: https://bit.ly/2XMqeLH (Acesso em 09/01/2020). SAIBA MAIS Planejando currículo e práxis pedagógica voltados a diversidade cultural e etnicorracial: questões iniciais sobre currículo e práxis pedagógica. Neste capítulo, você será capaz de repensar e dinamizar currículos e práxis pedagógicas, voltadas a Diversidade Cultural e Étnico-Racial. Ao repensar ou planejar novos currículos, aos olhos da realidade do povo brasileiro, das matrizes que formaram nossa gente, serão necessários empenhos para que sejam voltados a nossa Diversidade Étnico-Racial, não esquecendo que currículos são produtos de escolhas teóricas e metodológicas, fruto de uma seleção. Os currículos nunca são neutros. Expressam disputas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 180ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 180 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 181 políticas, consensos, aproximações, esquecimentos, estão em permanente reconstrução. Antes de prosseguir com o foco sobre a diversidade cultural e étnico-racial, o que é currículo? para alguns currículos são conteúdos e para outros são experiências de aprendizagem. outros determinam que currículo é um plano, contendo os objetivos educacionais, e para alguns é algo relativo à avaliação, unicamente. Faz-se necessário a articulação dos diferentes elementos enfatizados em cada uma das concepções apresentadas e, ao mesmo tempo, considerar o conhecimento como a matéria prima do currículo. E entendendo então o currículo como um grandioso e potente conjunto de experiências de conhecimento que os professores oferecem aos educandos nas escolas. É fundamentalmente pelo conhecimento que se procura atingir as metas definidas para um curso, para uma escola ou para um sistema educacional. Sendo assim o currículo é muito importante! É interessante refletir que o currículo é um relevante instrumento usado por distintas sociedades tanto para desenvolver os processos de conservação, transformação e renovação dos conhecimentos historicamente acumulados como para socializar as crianças e os jovens segundo valores tidos como desejáveis. No foco da Diversidade Étnico-Racial interessa pensar o currículo como uma sofisticada seleção da cultura, colhendo na cultura entre tantas possibilidades de escolha de conhecimentos, a partir do ponto de vista de que a cultura é o lugar produtor de significados. Assim, é concebido o currículo como uma prática de significação que, expressando-se em meio a conflitos e relações de poder, contribui para a produção de identidades sociais. Quando uma escola faz a escolha de produzir ou repensar seus currículos e Práxis Pedagógica para fazê-los viver a Diversidade Cultural e Etnicorracial, da nossa sociedade brasileira, já está evidenciado que os professores, a equipe de coordenação e direção pedagógica estão apostando em conciliar as diferenças e as identidades das matrizes formadoras do povo ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 181ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 181 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais182 brasileiro, todas elas, sem nenhuma exceção ou silenciamentos, sem nenhum preconceito ou dogmas que qualifiquem que uma diversidade cultural é menos válida que a outra para a população brasileira e para a educação. O currículo é visto como território em que ocorrem disputas culturais, em que se travam lutas entre diferentes significados do indivíduo, do mundo e da sociedade, no processo de formação de identidades. Então Planejando Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial, reunidos e dispostos a construir um espaço para a diferença,você terá que responder sobre as identidades que tal novo currículo deverá produzir. Identidades em sintonia com padrões dominantes ou identidades plurais? Identidades comprometidas com o arranjo social existente ou identidades questionadoras e críticas. E fica a necessidade de responder a outra indagação: O que é Práxis? É a atividade produtora da unidade entre o homem e o mundo em que vive, entre a matéria presente ao mundo e o espírito humano, entre qualquer teoria e sua respectiva prática, entre aquilo que se chama sujeito e aquilo outro que se chama objeto. Práxis é esta intrigante atividade produzida pela humanidade, socialmente, dentro e na realidade em que vivem as pessoas. Práxis é a atividade material do homem que transforma o mundo natural e social para fazer dele um mundo humano. Práxis é a humanização que oferecemos a realidade, ao mundo em que vivemos. Evidentemente que isso está inserido na realidade da educação, nas escolas, nos encontros entre educadores, seus educandos e os conhecimentos discutidos em sala de aula. Assim, os alunos chegam à escola com uma determinada concepção de suas diversidades cultural e étnico-raciais e com o passar do tempo, e as vivências em sala de aula irão ampliando a consciência, superando ingenuidades sobre a diversidade dele e dos outros, assumindo posições mais críticas e transcendentes. A práxis constitui e mantém a humanidade, sendo aatividade concreta pela qual os sujeitos humanos se afirmam no mundo, modificando a realidade objetiva e, para poderem ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 182ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 182 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 183 alterá-la, transformando-se a si mesmos. Na práxis nada ficará imóvel e imutável. Sendo que a práxis é a ação capaz, que exige, aprofundamento, precisa da reflexão, do autoquestionamento, da teoria; e é a teoria que remete à ação, que enfrenta o desafio de verificar seus acertos e desacertos, cotejando-os com a prática. Assim, práxis demanda a reflexão e a mudança. O educador Paulo Freire (Freire, 1987) refletiu muito sobre o discurso pedagógico, a discussão do fazer educativo como uma práxis pedagógica. Seu projeto educativo envolvia a humanização, dialogicidade, problematização, conscientização e emancipação. Freire afirmava que os humanos são os seres da práxis, significando que somos aqueles que realizam, continuamente, atos de reflexão e ação, simultaneamente e de forma verdadeira para transformar nossa realidade. E a realidade que os professores e os alunos enxergam é a inesgotável fonte, repleta de conhecimento reflexivo, de novas criações e das transformações necessárias e operadas por nós, a humanidade, e com a nossa humanidade. Freire (1987) defende que na medida em que a humanidade cria história, vai se constituindo como formada de seres histórico-sociais. Assim, Freire (1987) explica que os temas geradores, escolhidos para suscitar debates na sala de aula, possuem significados sociopolíticos e culturais dos educandos, exigindo uma metodologia conscientizadora de tais significados, que faz os educandos entenderem seus sentidos, inserindo-os em atividades que possibilitem pensar o mundo de um modo crítico. As diversidades Cultural e Étnico-Raciais certamente fazem parte deste mundo. Assim, Freire afirmou que investigar o tema gerador é investigar, repitamos, o pensar dos homens referido à realidade, é investigar seu atuar sobre a realidade, que é sua práxis. Ou seja, Planejando Currículo e Práxis Pedagógicas voltados a Diversidade Cultural e Etnicorracial, o educador deverá significar que um Currículo é planejado, vivenciado na Práxis Pedagógica, ou seja, no modo como professores e alunos atuam sobre a realidade, se o momento já é o da ação, esta se ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 183ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 183 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais184 fará autêntica práxis se o saber dela resultante se faz objeto da reflexão crítica. Não será útil um conhecimento que não ajude os alunos a refletir, repensar e mudar a realidade de Diversidade Cultural e Étnico-racial que vivem. Devem questionar, com o professor, se são silenciados ou possuem visibilidade nas suas manifestações de Diversidade Cultural e Étnico-racial. Pensando se debocham ou valorizam a Diversidade Cultural e Étnico-racial do ‘outro’, do diferente, do divergente. E todos juntos poderão refletir sobre, e ao mesmo tempo celebrar, com as suas diferenças, identidades, diversidades, bem como sobre as lutar contra as desigualdades e refletindo como superá-las. Planejando currículo e práxis pedagógica voltados a diversidade cultural e etnicorracial: recomendações curriculares legais brasileiras. Uma questão significativa é refletir sobre o conjunto de experiências necessárias ao Planejar Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e etnicorracial. Como isso se deu na história da educação brasileira, a partir da promulgação da constituição federal de 1988, sonhada pelos grupos e movimentos engajados, de corpo e alma com este tema. O passo significativo seguinte foi a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, em 1996, passando por necessárias alterações posteriores, para contemplar justamente estes elementos relacionados a Diversidade Cultural e etnicorracial e que respaldaram diretrizes curriculares, focadas em tais diversidades características da formação do povo brasileiro. Já no Artigo 3.º, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação/ LDB, são preconizados os princípios que deverão embasar o ensino. Configurando entre outros princípios, a igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, o relevante ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 184ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 184 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 185 pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, além do respeito à liberdade e apreço à tolerância e, por fim a recomendação da consideração com a diversidade etnicorracial. Já no Artigo 33 é explicitado uma significativa e esclarecedora recomendação aliviadora relativa ao ensino religioso, em que é assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, cabendo esclarecer ainda que em 2017 o Supremo Tribunal Federal decidiu que o ensino religioso nas escolas públicas brasileiras poderá ter natureza confessional, significando que poderá estar vinculado às diversas religiões. A seguir, diante dos últimos ajustes na Base Nacional Comum Curricular, o Conselho Nacional de Educação/CNE deu parecer homo-logado da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) recomendando: Conhecer os aspectos estruturantes das diferentes tradições/movi-mentos religiosos e filosóficos de vida, a partir de pressupostos científicos, filosóficos, estéticos e éticos. Isso é salutar contra descabidas intolerâncias! E, ainda recomenda: Compreender, valorizar e respeitar as mani-festações religiosas e filosofias de vida, suas experiências e saberes, em diferentes tempos, espaços e territórios. Todo este histórico sobre o Ensino religioso, as diversas decisões em diferentes âmbitos, revela que existe um embate sobre o assunto. E traz a reflexão da importante tarefa que os currículos e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial terão ao se debruçar sobre a diversidade religiosa. O fundamental, levando em conta a Diversidade Cultural e Étnico-racial, será preparar debates que incidam na importância do respeito as mais diferentes matrizes do povo brasileiro, relacionadas aos seus ancestrais, como são os casos das Religiões de Matriz Religiosa Africana e as religiosidades dos Povos Indígenas, seus pajés,além de suas cosmologias e cultos aos ancestrais. O Artigo 26 da LDB (BRASIL, 2017a) foi modificado para determinar a obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena (vinculado as duas Leis 10.639/03 ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 185ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 185 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais186 (2003) e 11.645/08 (2008). Esta modificação traz significativas contribuições aos currículos e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial. Definidos assim: [...]O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.(Brasil, 2017, p. 19) Planejando Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial, as escolasdeverão levar em conta, ainda, com relação as modificações neste artigo, com as Leis já citadas, Leis 10.639/03 (2003) e 11.645/08 (2008) que os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras. Seguidas tais recomendações deste artigo da Lei de Diretrizes e Bases da educação Nacional (Brasil, 2017) será possível realizar excelentes e coerentes planejamentos de Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Etnicorracial, respeitadas suas recomendações. E, ainda, referente a Edição de livros e de materiais didáticos, dedicados aos distintos níveis e modalidades de ensino, surgiu como recomendação para cumprir o Artigo 26 da LDB (BRASIL, 2017 a), abordando o tema da pluralidade cultural e da diversidade etnicorracial do povo brasileiro, que fossem observados e corrigidos distorções e equívocos em obras já publicadas sobre a história, a cultura, a identidade dos afrodescendentes, sob o incentivo e supervisão dos programas de difusão de livros educacionais do MEC. Isso proporcionou um intenso trabalho! ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 186ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 186 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 187 Trata-se do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) e Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE), do Ministério da Educação. Isso propiciou um grande incentivo governamental, nos anos seguintes de promulgações de tais leis e das modificações na LDB, com o envio para as escolas públicas brasileiras de material didático apropriado aos planejamentos de Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Etnicorracial, cultura e história afro-brasileira e indígena. Esclarecido que as modificações que a LDB incorporou trouxe elementos que faltavam e contribuem para a hora de planejar Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial, nas escolas, pelo nosso grande e diverso país, você vai voltar sua atenção aos resultados imediatos da promulgação da LDB em 1996, com relação ao tema Diversidade Cultural e Étnico-racial e seus planejamentos na escola. Voltando um pouco atrás, uma significativa iniciativa foi tratar da pluralidade cultural, no fim do século XX, foram os Parâmetros Curriculares Nacionais. Configurando entre os objetivos do ensino fundamental oportunizar aos alunos atividades que os façam ser capazes de valorizar e conhecer a nossa pluralidade, presente no patrimônio sociocultural brasileiro e de outros povos, fora do Brasil,posicionando-se contra qualquer discriminação baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais. No texto dos Parâmetros Curriculares Nacionais/PCN’s é ressal-tado o fato do Brasil ser pensado como composto por diversidade étnica e cultural, plural em sua identidade: é índio, afrodescendente, imigrante, é urbano, sertanejo, caiçara, caipira, mas coexistirem preconceitos, relações de discriminação e exclusão social que impedem muitos brasileiros de ter uma vivência plena de sua cidadania. A proposta dos PCN’s (BRASIL, 1997), recomenda aos professores que trabalhem a temática da pluralidade cultural, com atividades que possam favorecer, tanto o conhecimento, como a valorização das nossas características étnicas e culturais, ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 187ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 187 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais188 presentes nos diferentes grupamentos sociais brasileiros, tratando das desigualdades socioeconômicas e de reflexões críticas às relações sociais discriminatórias e excludentes que permeiam a sociedade brasileira, oferecendo ao aluno a possibilidade de conhecer o Brasil como um país complexo, multifacetado e algumas vezes paradoxal. Um pouco mais de duas décadas depois, ainda estamos a dever aos vários grupamentos étnico- culturais, que os planejamentos de novos Currículos nas escolas, signifiquem realmente que a Práxis Pedagógica seja voltada a Diversidade Cultural e Étnico-racial. Neste momento, as intenções do Ministério da Educação estavam voltadas a oferecer parâmetros, ou seja, diretrizes ordenadas para nortear os educadores, através da indicação de elementos essenciais para cada disciplina e no caso do tema das diversidades estariam apresentadas as indicações, não como uma disciplina, mas como tema transversal para aparecer nas diversas disciplinas (português, matemática, história, etc). A intenção que sustentava o tema transversal Pluralidade cultural era ser um norteador de temas afins à nossa Diversidade Cultural e Étnico-racial, oferecidos aos corpos docentes, as equipes de coordenação pedagógica de demais atores dos planejamentos de currículos nas escolas pelo vasto país, ressaltando a necessária adaptação às particularidades locais. OS PCN’s asseguram que a realidade brasileira é de coexistência da ampla diversidade étnica, linguística e religiosa em solo brasileiro, os brasileiros viviam e continuam vivendo submersos no plural que se constata, seja no convívio direto, seja por outras mediações. E para que tratar da diversidade cultural, nos currículos e nas práxis? Para que reconhecer, valorizar, e pôr fim superar as discriminações dentro das salas? Segundo o texto referente a Pluralidade Cultural, dos PCN’s para atuar sobre um dos mecanismos de exclusão – tarefa necessária, ainda que insuficiente, para caminhar na direção de uma sociedade mais plenamente democrática. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 188ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 188 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 189 A ideia, pós-constituição de 1988, era que as atividades em sala de aula deveriam ser voltadas à cidadania, uma vez que tanto a desvalorização cultural – traço bem característico de país colonizado – quanto a discriminação são entraves à plenitude da cidadania para todos; portanto, para a própria nação. E, ainda, refletir sobre uma proposta curricular voltada para a cidadania deve preocupar-se necessariamente com as diversidades existentes na sociedade, uma das bases concretas em que se praticam os preceitos éticos. Os PCN’s deram um passo inicial importante na redemocratização. Quanto aos conteúdos curriculares, nas suas interconexões com o tema da diversidade cultural, é recomendado lembrar que tantos os aspectos históricos como os geográficos expõem uma diversidade regional marcada pela desigualdade, do ponto de vista do atendimento pleno dos direitos de cidadania, de valorização desigual de práticas culturais. E não seria uma escolha pelas belas e festivas demonstrações diversidade cultural somente. Nada de submergir e esconder as dificuldades vividas pela diversidade, enquanto se dá destaque apenas à sua característica de ser um dos potenciais mais férteis, tipicamente brasileiros, levou por muito tempo a acreditar que o racismo era uma mazela social que o Brasil soube evitar. A discussão extremamente atual de perceber que o mito da igualdade racial é uma mentira, juntamente com a errada difusão da teoria da integração das raças, tradicionalmente divulgada na maioria das escolas de ensino fundamental, deixou pouco ou nenhum espaço para que se encarassem as reais dificuldades das diferentes etnias no contexto social brasileiro. Os Povos Indígenas, diante dos avanços conquistados na Constituição de 1988, constituíram presentes aos temas, nos PCN’s.Indicando a necessária explicitação, da ampla diversidade, de forma a corrigir uma visão deturpada que homogeneíza as sociedades indígenas como se fossem de um único grupo, pela justaposição aleatória de traços retirados de diversas etnias. O texto aponta para a necessidade da valorização dos povos indígenas, através da inclusão nos currículos de conteúdos que informem sobre a riqueza ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 189ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 189 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais190 de suas culturas e a influência delas sobre a sociedade como um todo, quanto pela consolidação das escolas indígenas, levando em conta os termos da Constituição, bem como a pedagogia apropriada às escolas interculturais indígenas. Para combater os reducionismos científicos e seus danos racistas, o texto sobre Pluralidade Cultural dos PCN’s, recomenda levar em conta que a diversidade das sociedades humanas, não deve ser esclarecida pela diferença genética, já que é enorme a variação dos nossos caracteres genéticos internos de qualquer grupo é muito grande, o elemento de real interesse seria a cultura. Os currículos em suas conexões com a diversidade deveriam lembrar que divisão biológica da nossa espécie humana não implica hierarquia, ainda que diferentes visões de mundo expliquem de múltiplas formas a diversidade humana. Do ponto de vista de dignidade, de Direitos Universais, há uma só humanidade. Os currículos deveriam considerar ao planejar conteúdos relacionados as línguas, a valorização de diferentes formas de linguagem oral e escrita, pelo respeito às manifestações regionais, pela possibilidade de contato e integração com a diversidade de línguas e de linguagens presentes. Ainda, ressaltando o bilinguismo dos povos indígenas, relacionado ao fato de existirem mais de 180 línguas indígenas faladas no Brasil, em conjunto com o português. Tudo isso continua muito válido! Entre os objetivos gerais de Pluralidade Cultural para o Ensino Fundamental, voltados à construção da cidadania, em uma sociedade pluriétnica e pluricultural, consta com fins no desenvolvimento de capacidades como o conhecimento da diversidade do nosso patrimônio étnico-cultural, tendo atitude de respeito para com pessoas e grupos que a compõem, reconhecendo a diversidade cultural como um direito dos povos e dos indivíduos e elemento de fortalecimento da democracia. Esta garantia de respeito constitucional não pode ser desprezada. Os professores, na virada para o século XX, deveriam levar em conta como critérios a serem utilizados na seleção dos conteúdos, a relevância sociocultural e política, considerando a necessidade ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 190ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 190 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais 191 e a importância da atuação da escola em fornecer informações básicas que permitam conhecer a ampla diversidade sociocultural brasileira. Isso implicaria na divulgação das contribuições dessas diferentes culturas presentes em território nacional e eliminar conceitos errados, culturalmente disseminados, acerca de povos e grupos humanos que constituem o Brasil. Todos estes aspectos são profundamente contemporâneos e necessários ao pensar em um currículo novo, Planejando Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial. Tratando da singularidade do Brasil, no real de seu feitio, uma população de origem diversificada, portadora de culturas que se preservaram em suas especificidades, ao mesmo tempo em que se amalgamaram em novas configurações. Os PCN’s clamam à valorização das estruturas em comuns para todos, dos entrelaçamentos socioculturais que permitem valorizar aquilo que é próprio da identidade de cada grupo, e aquilo que permite uma construção comum, onde cabe pronunciar o pronome ‘nós’(BRASIL, 1997, p. 48). A Pluralidade Cultural, dentro dos currículos e dos Parâmetros Curriculares Nacionais, trouxe para dentro das discussões sobre currículos e práxis, no interior das escolas brasileiras, o objetivo didático, relacionado à escolha de conteúdos que sejam capazes de suscitar aproximações da noção de igualdade quanto aos direitos, quanto à dignidade e que embasem a valorização da diversidade cultural. Surgiram as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, do Conselho Nacional de Educação, aprovada em 2004, propondo a Consciência Política e Histórica da Diversidade, para conduzir com tal princípio à igualdade básica de toda pessoa humana, visto como sujeito de direitos, ao reconhecimento de que a formação do povo brasileiro deu-se em grupos étnico-raciais distintos, que possuem cultura e história próprias, igualmente valiosas e que em conjunto constroem, na nação brasileira, sua história. Posto isso é necessário o conhecimento e à valorização ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 191ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 191 03/02/2021 17:27:4903/02/2021 17:27:49 Educação das Relações Étnico-Raciais192 da história dos povos africanos e da cultura afro-brasileira na construção histórica e cultural brasileira. Nestes sentidos estas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana contribuem de uma forma muito significativa e devem ser levadas em conta ao planejar Currículo e Práxis Pedagógica voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial, em todas as escolas do Brasil. Nesta perspectiva de Consciência Política e Histórica da Diversidade, estas Diretrizes propõem inovadoras propostas: [...]à superação da indiferença, injustiça e desqualificação com que os negros, os povos indígenas e também as classes populares às quais os negros, no geral, pertencem, são comumente tratados; - à desconstrução, por meio de questionamentos e análises críticas, objetivando eliminar conceitos, ideias, comportamentos veiculados pela ideologia do branqueamento, pelo mito da democracia racial, que tanto mal fazem a negros e brancos; - à busca, da parte de pessoas, em particular de professores não familiarizados com a análise das relações étnico- raciais e sociais com o estudo de história e cultura afro-brasileira e africana, de informações e subsídios que lhes permitam formular concepções não baseadas em preconceitos e construir ações respeitosas; - ao diálogo, via fundamental para entendimento entre diferentes, com a finalidade de negociações, tendo em vista objetivos comuns, visando a uma sociedade justa. (BRASIL, 2004, p. 19) Estas relevantes Diretrizes agem em prol do fortalecimento de Identidades e de Direitos, indo além do que foi possível com os PCN’s, sendo que este princípio, com relação a diversidade, deve orientar para a ampliação do acesso a informações sobre a diversidade da nação brasileira e sobre a recriação das identidades, provocada por relações étnico-raciais. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 192ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 192 03/02/2021 17:27:5003/02/2021 17:27:50 Educação das Relações Étnico-Raciais 193 A partir de toda esta movimentação histórica o que começou a ser demandado com novos currículos era a existência efetiva de uma pedagogia que respeitasse realmente as diferenças. E fosse capaz de lidar com a questão racial como conteúdo inter e multidisciplinar durante todo o ano letivo, estabelecendo um diálogo permanente entre o tema etnicorracial e os demaisconteúdos trabalhados na escola. A RESOLUÇÃO Nº 5, do Conselho Nacional de Educação/ CNE, de Junho de 2012 avançou com relação a nossa diversidade indígena, definiu as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Indígena na Educação Básica (BRASIL, 2012), atendendo as mobilizações antigas, insistentes e justas dos Povos Indígenas do Brasil. E que devem ser levadas a cabo por aqueles que Planejam Currículos e Práxis Pedagógicas voltados a Diversidade Cultural e Etnicorracial e aquelas oferecidas aos povos indígenas pelo país. Tais diretrizes curriculares devem ser consideradas como resultan-tes do que é garantido como direito aos Povos Indígenas brasileiros nos seguintes marcos legais: Constituição Federal de 1988; Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, promulgada no Brasil por meio do Decreto nº 5.051/2004, pela Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU (1948), Declaração das Nações Unidas sobre os direitos dos povos indígenas de 2007 pela nossa atual Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional/LDBEN (Lei 9.394/96). Com 500 anos de atraso é começada uma nova trilha! E o que é assegurado é direito a uma educação escolar diferenciada para os povos indígenas. Estas Diretrizes Curriculares Nacionais estão pautadas pelos princípios da igualdade social, da diferença, da especificidade, do bilinguismo e da interculturalidade, fundamentos da Educação Escolar Indígena. Isso foi um avanço significativo! Quanto aos objetivos da Educação Escolar Indígena consta proporcionar aos indígenas, suas comunidades e povos, tanto a recuperação de suas memórias históricas; a reafirmação de suas ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 193ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 193 03/02/2021 17:27:5003/02/2021 17:27:50 Educação das Relações Étnico-Raciais194 identidades étnicas; a valorização de suas línguas e ciências, quanto o acesso às informações, conhecimentos técnicos, científicos e culturais da sociedade nacional e demais sociedades indígenas e não-indígenas. Isso é relevante e traz reflexões às pessoas que estranham até um indígena usar um celular quanto mais chegar ao ENEM! Novos tempos! Quanto aos currículos da Educação Básica na Educação Escolar Indígena, estas Diretrizes respaldam suas construções em perspectiva intercultural, levando em conta devem valores e interesses etnopolíticos das comunidades indígenas em relação aos seus projetos de sociedade e de escola, definidos nos projetos político-pedagógicos. O currículo precisará ser flexível, ajustado aos contextos socioculturais de cada comunidade indígena, relacionados com os projetos de Educação Escolar Indígena de tal comunidade. São incentivados, em tal currículo a construção de eixos temáticos, projetos de pesquisa, eixos geradores ou matrizes conceituais, em que os conteúdos das diversas disciplinas podem ser trabalhados numa perspectiva interdisciplinar. E deverão ser garantidas condições para que os currículos possam ser aportados com os materiais didáticos específicos, escritos na língua portuguesa, nas línguas indígenas e bilíngues, que reflitam a perspectiva intercultural da educação diferenciada, elaborados pelos professores indígenas e seus estudantes e publicados pelos respectivos sistemas de ensino. Isso garante que o currículo e Práxis Pedagógica sejam voltados a Diversidade Cultural e Étnico-racial indígena, contemplando aspectos comunitários, bilíngues e multilíngues, de interculturalidade e diferenciação, e uma necessária flexibilização ao organizar os tempos e espaços curriculares, possibilitando a inclusão dos importantes saberes e relevantes procedimentos culturais construídos por diversas comunidades indígenas, tais como línguas indígenas, crenças, memórias, saberes ligados à identidade étnica, às suas organizações sociais, às relações humanas, às manifestações artísticas, às práticas desportivas. ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 194ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 194 03/02/2021 17:27:5003/02/2021 17:27:50 Educação das Relações Étnico-Raciais 195 Vale ressaltar que a Meta 7 do Plano Nacional de Educação/PNE (válido para acontecer até 2024), contido na Lei nº 13.005/2014, recomenda o estabelecimento e a implantação, em formato de pacto federativo entre os entes da Federação (Governo Federal, Estados e municípios), as mais apropriadas diretrizes pedagógicas para a educação básica e a uma base nacional comum dos currículos, ressaltados seus direitos e objetivos de aprendizagem, bem como o desenvolvimento dos educandos, entre o ensino fundamental e médio, respeitada a diversidade regional, estadual e local (BRASIL, 2017b, p. 02). A diversidade prossegue focada na realidade. Chegamos a 2.ª década do século XXI com um arcabouço legal que possibilitam planejamento de Currículo e Práxis Pedagógica voltados à verdadeira e esquecida Diversidade Cultural e Étnico-racial brasileira. A Base Nacional Comum Curricular/BNCC preconiza, que entre as dez competências gerais comuns, indicadas às etapas da Educação Básica, que expressam os direitos de aprendizagem dos estudantes, consta a valorização da [...] diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade. (BRASIL, 2017b, p.27) ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 195ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 195 03/02/2021 17:27:5003/02/2021 17:27:50 Educação das Relações Étnico-Raciais196 Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Vídeo: A obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena Como e Porque Trabalhar com a Poesia na Sala de Aula. Disponível no link: https://bit.ly/37gFsvA. (Acesso em 09/01/2020). E, ainda: Vídeo:Escola democrática e diversidade, com a Prof.ª Dr.ª Mônica Amaral, da USP, acessível pelo link: https://bit.ly/2MIAi1T. (Acesso em 09/01/2020). Figura 4 Fonte: wikimedia commons Quer se aprofundar neste tema? Recomendamos o acesso à seguinte fonte de consulta e aprofundamento: Vídeo: A obrigatoriedade do estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena Como e Porque Trabalhar com a Poesia na Sala de Aula. Disponível no link: https://bit.ly/37gFsvA. (Acesso em 09/01/2020). E, ainda: Vídeo:Escola democrática e diversidade, com a Prof.ª Dr.ª Mônica Amaral, da USP, acessível pelo link: https://bit.ly/2MIAi1T. (Acesso em 09/01/2020). RESUMINDO ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 196ebook completo impressão - Educação das Relações Étnico-Raciais - Aberto - SER.indb 196 03/02/2021 17:27:5003/02/2021 17:27:50 Educação das Relações Étnico-Raciais 197 REFERÊNCIAS UNIDADE 01 ABRAMOVICH, Anete; RODRIGUES, Tatiane Cosentino; CRUZ, Ana Cristina Juvenal da. A diferença e a diversidade na educação. Revista Contemporânea. Dossiê Relações Raciais e Ação Afirmativa. N.º 2, p. 85-97, jul-dez. 2011, Universidade Federal de São Carlos. 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