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Fundamentos da Neurofisiologia Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Dr. Adriano Aparecido Bezerra Chaves Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Formação do Pensamento • Quais são as Áreas Cerebrais Relacionadas ao Pensamento? • O Que é o Pensamento para a Neurologia? • Como o Pensamento Afeta o Desenvolvimento? • Compreender como pensamento é construído no cérebro; • Entender como a falta de estímulos e as alterações neurológicas podem afetar a aprendizagem; • Como as alterações do pensamento e das funções neurológicas podem afetar o desenvolvimento e a aprendizagem. OBJETIVOS DE APRENDIZADO Formação do Pensamento Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você tam- bém encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Formação do Pensamento Quais são as Áreas Cerebrais Relacionadas ao Pensamento? Na Unidade anterior, você aprendeu como se processam as informações no nosso cérebro e a importância da memória para a aprendizagem. Agora é importante compreendermos que o pensamento, a memória, as sensa- ções e as respostas neuronais é que irão desenvolver a aprendizagem. Quando os estímulos chegam ao nosso cérebro pelas vias aferentes, eles são distribuídos por diversas áreas primárias nas quais são processadas as respostas ba- sais necessárias à vida e depois por outras mais complexas e superiores que irão se conectar gerando uma resposta interpretada por todas as áreas de conexão (Broca, Wernicke, Giro Angular, Área de associação Pré-Frontal etc.). Todos os nossos pensamentos envolvem todas as áreas complexas da porção inferior ou superior do córtex, do tálamo, do sistema límbico e de uma formação do tronco chamada reticular. Lóbulo frontal Lobo parietal Lobo occipital Lobo temporal Cerebelo Tronco cerebral Funções mentais maiores Associação Cheiro Coordenação Funções mentais maiores Movimento dos olhos Função motora voluntária Associação Sensorial Audição Compreensão de linguagem Fala Visão Coordenação Funções mentais maiores Movimento dos olhos Emoção Sensorial Associação somatossensorial Visão Função motora voluntária Coordenação Funções mentais maiores Movimento dos olhos Função motora voluntária Sensorial Associação somatossensorial Compreensão de linguagem Visão Lóbulo frontal Lobo parietal Lobo occipital Lobo temporal Cerebelo Tronco cerebral Figura 1 Fonte: Adaptado de Getty Images É o resultado das conexões entre elas que gera a formação do pensamento complexo. Recorde-se de que o nosso Sistema Nervoso se assemelha a um grande pro- cessador, dividido em várias partes: córtex, diencéfalo, tronco cerebral, núcleos, hipocampo etc. Além disso, para que haja a transformação das informações em aprendizagem, é necessário o armazenamento delas para resgatá-las, que são as memórias de curto, 8 9 médio e longo prazos. Todas essas áreas possuem uma ou mais funções que agora estão conectadas entre si. Portanto, se quisermos desenvolver aprendizagem é necessário que diversas áre- as ao mesmo tempo tenham conexões. Elas precisam realizar muitas passagens de estímulos que irão se consolidando ao longo do tempo e formando percursos neuronais que geram a manutenção dessa informação (memória). Também é importante destacar que a comunicação é um processo fundamental para a formação da aprendizagem e está relacionada diretamente com estímu- los que foram estudados por muitos cientistas da área educacional, como Piaget, Vigotsky e Erickson, entre outros. Bem, isso tudo devido à frequência de estímulos e, nos seus estudos, você já deve ter entendido. Vamos aplicar esse conteúdo ao processo educacional. Os autores citados iden- tificaram por meio da observação científica metodizada os processos de aprendiza- gem ao longo do crescimento e do desenvolvimento. Seja qual for a linha filosófica adotada para análise e construção do processo educacional, todas elas irão explorar as construções de respostas dadas pelas crian- ças diante dos estímulos adotados. Vamos tomar como exemplo a Teoria Histórico Cultural adotada por Vigotsky, para analisar o desenvolvimento da personalidade da criança. Nela, a interação entre o ambiente sociocultural da criança (estímulos) interfere dire- tamente na construção do seu pensamento e na forma com que responde ao seu meio. Se aplicarmos o que aprendemos até o momento, veremos que se trata também de uma adaptação do Sistema Nervoso à intensidade e à frequência de estímulos que serão responsáveis pelo percurso neuronal que formará a memória mais intensa (de médio e longo prazos) e que ela utilizará para gerar reconhecimento do que já passou e, assim, desenvolver uma série de pensamentos que formatarão a sua personalidade. Veja que para essa formação há necessidade de compreensão do que está sendo dito, mostrado e, muitas vezes, feito com a criança, ou seja, estímulos percebidos pelos neurônios periféricos espalhados por todo o corpo. Reflitamos sobre como uma criança, assim que nasce, ao sair de um ambiente líquido e aquecido, passa para um ambiente frio e seco e precisa iniciar seu proces- so de respiração por si mesma e sem a compreensão do que está acontecendo, pois não há registros (além dos genéticos), de como proceder nessas situações. Ela é colocada num berço aquecido ou levada para o colo da mãe. Imediata- mente, ela correlaciona isso à memória pregressa do seu desenvolvimento no útero materno e, assim, identifica, ainda sem saber, uma sensação de prazer e diminui a sensação de estresse provocado por essas novas experiências. De igual forma, uma criança em condição interpretada de abandono (as pri- meiras semanas de adaptação no ambiente escolar) irá apresentar muitas novas 9 UNIDADE Formação do Pensamento interações, por vezes desconhecidas ou que não trazem relação alguma com o que ela tem previamente. Ambientes acolhedores parecidos com estímulos anteriores irão diminuir os im- pactos gerados pelas novas associações; caso contrário, podem trazer a interpre- tação inversa. Como vimos nas Unidades anteriores, as emoções têm intensidade importante no processo de aprendizagem. Todos os estímulos mais prazerosos irão gerar uma motivação maior para aprendizagem, enquanto estímulos estressores também irão gerar aprendizagem,contudo, no formato contrário. Aqui fica claro, então, o papel do educador, aplicando estímulos adequados em cada fase do desenvolvimento infantil. Utilizar técnicas ou estratégias pedagógicas que inibam ou dificultem a aprendizagem da criança, gerando estresse, podem pro- vocar a memorização de longo prazo e, psicologicamente, bloqueios importantes quando, inconscientemente, essa mesma ação for interpretada como nociva. A partir disso, vemos a importância do trabalho do educador, do pedagogo e do responsável pela criança em todo o seu desenvolvimento. Socializar os processos de interação e a convivência no ambiente cultural trará noções importantes na formação da memória, da relação de pertencimento, dos limites e do respeito às diferenças, que podem ser influenciadas desde a infância. Leia a Literatura Complementar de Bissoli disponível para se aprofundar um pouco mais sobre essas questões da formação da personalidade da criança. Outro pensador importante e que tem relação mais profunda com o desenvolvi- mento das relações biológicas e até mesmo genéticas é Piaget. Você, como educador(a), já deve ter estudado as fases do desenvolvimento pro- posta por ele, não é mesmo? Vamos recordar: • Período sensório motor (do nascimento até meados dos 2 anos); • Período pré-operatório (dos 2 aos 7 anos); • Período das operações concretas (dos 7 aos 11 ou 12 anos); • Período das operações formais (dos 11 ou 12 anos em diante). Cada uma delas segue uma relação direta com uma fase do desenvolvimento físico e cognitivo observáveis por meio da interação da criança com seu ambiente interno e externo (lembra-se disso nas Unidades anteriores?). No primeiro período, o conhecimento e a elaboração dos pensamentos se dão, principalmente, pela percepção sensorial de tudo e de todos, e do controle sobre o seu próprio corpo. Vamos associar isso, mais uma vez, ao desenvolvimento do Sistema Nervoso. Para que haja o controle motor, é necessário que um estímulo dado à criança seja 10 11 interpretado na sua região cortical, que está em desenvolvimento. Quero dizer, não havia experiência prévia para haver uma aprendizagem eficaz. Por isso, há necessidade de repetição contínua de muitas ações como jogar ob- jetos, imitar gestos, procurar sons e imagens progredindo com o controle motor fino e grosso. Segurar objetos mais delicados com mais ou menos força, virar a cabeça, obter o controle de tronco para se sentar ou se virar para começar a adquirir a habilidade de explorar novos ambientes ao engatinhar. Junto a isso, ela está ouvindo novos sons e gerando significados a eles junto às imagens que estão próximas inicialmente a ele e depois à distância, quando o seu córtex visual e a acuidade visual já ganha- ram maturidade. Perceba o quanto é importante que, nesse período, o desenvolvimento das áreas de associação exploradas nas Unidades anteriores, são essenciais para a compre- ensão das coisas, das sensações e dos sentidos do que se vivencia. No período pré-operatório, a criança tem um aumento de sua capacidade de comunicação, ou seja, existem diversas associações cerebrais, inclusive motoras, que permitem a expressão de sentimentos e pensamentos vindos da área límbica, pré-frontal e parietal para articular palavras, sons e de forma mais importante, ge- rando significado de interação. Nessa fase, o cérebro está elaborando pensamentos mais complexos e gerando mui- tas sinapses, com maior frequência e intensidade, que irão marcar de forma importante áreas como o hipocampo, gerando uma memória definitiva para muitas coisas. É por isso que crianças nessa faixa etária têm muita facilidade para aprender novos idiomas, tocar instrumentos e memorizar os estímulos sonoros e visuais aos quais estão expostas. Agora, você entendeu a importância de se falar corretamente com as crianças, habituá-las a escutar música, falar, principalmente, os idiomas associados com figu- ras e fonemas para que mantenham conexões duradouras para a sua adolescência. Bem, você deve estar pensando: e crianças que não tiveram esses estímulos ou possuem problemas auditivos e visuais, o que acontece com elas? Se você se esforçar um pouco mais, poderá raciocinar e chegar à resposta. Se a criança tem deficiência auditiva ou alterações de associação entre os estí- mulos desde essa idade, pode ter diversos tipos de dificuldade de aprendizagem e da formação de sua cognição. Para que compreenda algo, terá de integrar as áreas do córtex da formação da ima- gem, do som, do significado afetivo ou cognitivo. Caso isso não ocorra, não se estabe- lece a aprendizagem tal qual esperamos, mas como o Sistema Nervoso dele irá realizar. No período das operações concretas, o pensamento mais lógico predomina na criança e, assim, ela precisa ter atividades mais operacionais para fortalecer o seu pensamento. 11 UNIDADE Formação do Pensamento Ela consegue elaborar um julgamento mais simples e empatia pelo outro, o que identifica a utilização de áreas emocionais do cérebro, o intercâmbio de informa- ções dos dois hemisférios de forma consistente e conter impulsos da área límbica, com predomínio das regiões corticais racionais mais superioras. O controle hipotalâmico hormonal colabora para os estirões de crescimento, que também terão repercussões na aprendizagem do autocontrole motor do seu próprio corpo. Além disso, as modificações associadas à estética do corpo pelo predomí- nio de hormônios sexuais também controladas pela região hipotálamo hipofisária, como vimos nas Unidades anteriores, pode gerar alterações de comportamento e de pensamento pelo efeito que esses hormônios têm na região límbica e cortical, influenciando, muitas vezes, a emoção e o comportamento, diante das mudanças vindas com a puberdade. No último período identificado por Piaget (operações formais), a adolescência tem seu pico de desenvolvimento físico associado à puberdade (conjunto de modifi- cações físicas, principalmente, de caráter sexual). Está atrelada ao desenvolvimento do controle mental mais elaborado, que sai da percepção e da elaboração meramente concreta para abstrações im- portantes para a interação social como a ética, a liberdade, a justiça etc., uma capacidade de abstração importante, que será essencial para o seu ajustamen- to social e a construção de sua personalidade. É o pico do desenvolvimento neurológico elaborado. O córtex está realizando todas as funcionalidades de forma intensa, utilizando associações de diversas áreas, há memórias de curto, médio e longo prazos com potencial intenso; os controles hormonais, bioquímicos e metabólicos do corpo atingiram o seu ápice e, assim, ele tem a plena capacidade de compreensão de conceitos muito mais complexos e abstratos, pois todas as áreas cerebrais já estão amadurecidas e formatadas. Recomendo que você leia o Texto Complementar de Ferreira, para se aprofun- dar na discussão sobre o desenvolvimento físico e genético proposto por Piaget em contrapartida à visão de Merleau-Ponty do corpo e de suas representações. Leitura interessante e esclarecedora para educadores que irão trabalhar com o desenvolvimento biológico e do corpo, assim como as dificuldades de aprendiza- gem e desenvolvimento. O que é o Pensamento para a Neurologia? A Teoria Holística do pensamento diz que ele é “o resultado de um padrão de estimulação de diversas partes do Sistema Nervoso ao mesmo tempo, provavel- mente, envolvendo de forma mais importante o córtex, tálamo, límbico e formação reticular” (GUYTON, 2006). 12 13 Figura 2 Fonte: Getty Images Isso quer dizer que o pensamento é o resultado de uma série de eventos bioquí- micos e celulares de diversas áreas cerebrais se considerarmos apenas a questão biológica, que é o foco desta Unidade. Há muitas teorias que irão abordar o pensamento e a razão de diversas formas por meio de outras linhas de pensamento, como na Filosofia e na Psicologia. Recorde-se de que quando abordamos a questão do desenvolvimento, teremosde pensar multidisciplinarmente. Apenas abordar o assunto com a linha biológica não será o melhor caminho para trabalharmos os problemas de aprendizagem. Figura 3 Fonte: Getty Images 13 UNIDADE Formação do Pensamento Outra coisa importante é que a consciência pode ser definida como um “fluxo contínuo de alerta, tanto dos nossos arredores quanto de nossos pensamentos se- quenciais” (GUYTON, 2006). Isso nos leva a entender que pensamento, memória e consciência estão juntos para a formação da aprendizagem. Todos os três elementos dependem de uma série de fatores indispensáveis ao seu bom funcionamento, que são os estímulos adequados na intensidade e forma correta em cada momento da vida do indivíduo. Considerando, agora, esses três elementos, podemos tentar refletir um pouco mais sobre como as alterações de qualquer um deles, ou mais de um, podem afetar diretamente a aprendizagem. Figura 4 Fonte: Getty Images Como o Pensamento Afeta o Desenvolvimento? Você acabou de compreender que o pensamento é o resultado de uma série de fatores que estão associados. No aspecto biológico, existem três elementos impor- tantes para a aprendizagem: o pensamento, a memória e a consciência. Vimos, também, nas Unidades anteriores, que o aprendizado gera um compor- tamento neuronal importante, que é diretamente dependente dos estímulos e do funcionamento do Sistema Nervoso para que ele ocorra. Estudamos que os diversos estímulos no Sistema Nervoso geram respostas junto à região hipotalâmica e podem alterar as respostas endócrinas (de hormônios) em todo o corpo do indivíduo. Bem, quando somos crianças, o nosso cérebro está em franco desenvolvimento. Ainda não se consolidaram todas as áreas cerebrais que vimos anteriormente e 14 15 que, aos poucos, vão mantendo um mesmo padrão de respostas, de acordo com os estímulos que recebem. Vamos imaginar que, desde pequenos, recebemos estímulos sensoriais externos e internos. Assim que nascemos, começamos a sentir calor e frio, precisamos res- pirar, eliminamos os resíduos do nosso corpo, começamos a sentir a necessidade de nos alimentarmos e, para cada uma dessas funções, precisamos começar a interagir com o meio externo e com os outros indivíduos. Uma criança para expressar que tem fome, chora. O mesmo ocorre para ex- pressar dor, desconforto por gases abdominais, que evacuou ou que tem urina na fralda. De acordo com a resposta que foi sendo dada pelos adultos que cuidam dela, ela foi condicionando o seu padrão de resposta e, portanto, seu pensamento para essas ações. Com o passar do tempo e de seu desenvolvimento, ela foi relacionando sons, imagens, sensações a diversas situações e respostas que obteve ao longo do tem- po e foi criando um circuito que acessou novamente, sempre que a situação se repetia (memória). Além disso, o fato de estar atenta (consciente) realizando essas associações a ajudou a desenvolver a sua aprendizagem. Por outro lado, dentro do seu cérebro, a criança realizou as associações pelas di- versas áreas que já estudamos, e gerou um padrão também de percepção individual do que ela mesma interpretou de estímulos que lhes são próprios. Duas crianças têm comportamentos diferentes a partir do mesmo estímulo, pois têm uma série de características individuais que, em parte, são um padrão de heran- ça genética de seus pais e, em parte, são fruto de sua própria construção mental. Figura 5 Fonte: Getty Images 15 UNIDADE Formação do Pensamento Aqui, entraremos no limite entre o que é biológico e o que é psicológico e filosófico. O que denominamos como mente, é muito mais que apenas o pensamento ou a união de memória e consciência. Ela pode ter uma ampliação importante da sua defini- ção para essas duas outras áreas, que são essenciais para o desenvolvimento humano. Antes, achava-se que as crianças nasciam como “tábuas rasas” e que os estímu- los dados a elas é que formariam o seu ser. Com o avanço da neurociência e da genética, hoje se sabe que as crianças possuem uma série de características (fenó- tipo) na formação de seu Sistema Nervoso, que determinam uma série de compor- tamentos que podem ou não ser modificados por elas, dependendo dos estímulos internos e externos e de sua interpretação. Temos, então, um evento importante, que já mencionamos em outras Unidades, a Neuroplastia, que é um fenômeno em que ocorre uma modificação das conexões entre os neurônios das diversas áreas cerebrais a fim de se adaptarem às novas condições e estímulos a que foram submetidos. Sendo assim, o pensamento pode ser compreendido como uma complexa for- mação neuropsíquica, pois contempla componentes biológicos e não biológicos. Devido a isso, quando temos alterações do pensamento, como em transtornos psiquiátricos ou psicológicos, as crianças podem ter dificuldade de atenção e con- centração e, portanto, não formarem um padrão de memória, e um de consciência equivocado, o que pode gerar dificuldades de aprendizagem. Então, vejamos: uma criança que possui danos cerebrais por um problema no parto tem dificuldade de aprendizagem por uma questão biológica, essencialmente. Cabe ao educador buscar qual o melhor estímulo captado por ela para melhorar a sua aprendizagem. Outra criança, que tem diagnóstico de ansie- dade, de depressão, de esquizofrenia ou de trans- torno obsessivo compulsivo, também terá outras dificuldades de aprendizagem por uma desor- ganização do pensamento na vigência da crise da doença ou uma fixação do pensamento não permitindo que ela possa compreender melhor o que está estudando ou realizando. Cabe mais uma vez ao educador encontrar, por meio de diversos testes com atividades va- riadas, qual a melhor estratégia de desenvolver a sua aprendizagem. Como cada criança cresceu desenvolvendo uma forma diferente de resposta para os estí- mulos que lhes foram dados, é esperado que ela tenha um percurso e respostas diferentes para o mesmo estímulo dado. Figura 6 Fonte: Getty Iamges 16 17 Numa sala de aula, a mesma atividade pode ter como objetivo estimular a coordenação motora fina, como pintar desenhos mais delicados e realizar ativi- dades manuais. A maioria das crianças irá concluir a tarefa, mas algumas delas terão mais facili- dades e outras menos, pois a sua resposta individual é distinta das demais devido a seu padrão estabelecido ao longo de seu crescimento e dos estímulos dos seus pais, dos responsáveis, da própria Escola e dos professores. Então, iremos mais uma vez verificar que é um papel fundamental dos educa- dores e dos responsáveis pelas crianças empregar os estímulos corretos para as crianças em sua individualidade. Portanto, numa sala de aula, em casa, ou em qualquer grupo social, as crianças, em sua individualidade, precisam ser avaliadas dentro de suas necessidades especí- ficas, o que torna a tarefa muito mais meticulosa. Os diversos estudos e questionários aplicados para avaliação do desenvolvimen- to das crianças podem gerar parâmetros importantes do seu momento de desenvol- vimento, mas os aplicadores, sejam profissionais da saúde ou não, precisam estar atentos às condições singulares de cada criança. Figura 7 Fonte: Getty Images Também é interessante perceber que o seu papel como educador é essencial nesse processo. Junto à equipe multiprofissional, você pode perceber o comporta- mento e as reações psíquicas, emocionais e físicas das crianças e, assim, identificar as respostas aos estímulos dados. Diante disso, se procurarmos ajudar as crianças a aumentarem a sua capacidade de organização do pensamento, adequando os estímulos corretos para que elas 17 UNIDADE Formação do Pensamento possam desenvolver melhor a sua percepção, é possível ajudá-las com suas dificul- dades de desenvolvimento pessoal e social. Para isso, é significativa a ação educativa multidisciplinar também dos educado- res escolares, assim como a família e o círculo social no qual a criança está envolvi- da para melhorar a capacidade de aprendizagem da criançaem questão. Figura 8 Fonte: Getty Images Sabendo que o corpo da criança também reage ao pensamento e aos estímulos a partir do seu Sistema Nervoso e Endócrino, podemos concluir que a melhora da organização do pensamento e dos estímulos dados a ela podem influenciar direta- mente em seu desenvolvimento e saúde global, física, mental, social e afetiva. Figura 9 Fonte: Getty Images 18 19 Importante! Estímulos que chegam ao nosso cérebro são distribuídos por diversas áreas e processadas respostas depois de conectadas a diversas outras áreas de associação (Broca, Wernicke etc.). É o resultado das conexões entre essas áreas que gera o pensamento. O Sistema Nervoso é o nosso processador e está dividido em várias partes: córtex, dien- céfalo, tronco cerebral, núcleos, hipocampo etc. Além dele, para transformação das infor- mações em aprendizagem, são necessárias as memórias de curto, médio e longo prazos. O córtex possui diversas áreas com responsabilidades diferentes (visual, consciência, au- dição, movimentos etc.), todas interligadas na Rede Cortical, por centros de associação que são essenciais para a aprendizagem. O tálamo conecta os hemisférios cerebrais e transmite informações vindas de ambos. As áreas primárias e as áreas secundárias integram e geram significados dos estímu- los recebidos. Áreas associativas analisam os estímulos vindos das diversas regiões do cérebro. Na região de associação pré-frontal ocorrem movimentos de comunicação das áreas oc- cipitais até a frontal, processa pensamentos ligados à razão essenciais aos pensamentos e à memória de curto prazo. A área de Broca é essencial para a formação das palavras e a área límbica regula o com- portamento, as emoções, a motivação na aprendizagem e gera impulsos emocionais para outras áreas. A área de Wernicke reúne estímulos das áreas somáticas, visual e auditiva para aprendi- zagem (essencial para compreensão de palavras). O Giro Angular associa estímulos da área occipital relacionados à compreensão e à codi- ficação das imagens. Para aprendizagem, é preciso que diversas áreas tenham conexões ao mesmo tempo. Além disso, a comunicação é fundamental e está relacionada a estímulos que foram estudados por muitos cientistas da Área Educacional, como Piaget, Vigotsky e Erickson, entre outros. O resultado do padrão de diversos estímulos de várias regiões simultâneas cerebrais po- demos chamar de pensamento. Há outras Teorias na Filosofia e na Psicologia que também abordam o pensamento e a razão. Elas são importantes porque os melhores resultados para auxiliar as crianças com dificuldades de aprendizagem ou outros problemas são sempre atingidos por meio da atuação de uma Equipe Multidisciplinar. Pensamento, memória e consciência estão juntos para a formação da aprendizagem e são indispensáveis para a construção do desenvolvimento do indivíduo. Recorde-se de que os estímulos no Sistema Nervoso geram respostas junto à região hipotalâmica e podem alterar as respostas endócrinas (de hormônios) em todo o corpo do indivíduo. Crianças estão em franco desenvolvimento, não consolidaram todas as áreas cerebrais e vão mantendo um mesmo padrão de respostas de acordo com os estímulos que recebe. Assim, elas precisam começar a interagir com o meio externo e com os outros indivíduos para desenvolver esses estímulos neuronais. Ela irá condicionando o seu padrão de res- posta e, portanto, seu pensamento para esses estímulos. Em Síntese 19 UNIDADE Formação do Pensamento Ela também irá criar um circuito que acessa esse evento novamente sempre que a situação se repita (memória). Ela também irá realizar associações de diversas áreas e gerar um padrão de percepção individual do que ela mesma interpretou. Crianças desenvolvem comportamentos diferentes a partir do mesmo estímulo devido a suas características individuais, a um padrão de herança genética de seus pais e em parte, fruto de sua própria construção mental. A mente é muito mais que apenas o pensamento ou a união de memória e de consciência. Ela pode ter uma ampliação importante da sua definição para as áreas psíquica e filosófica que são essenciais para o desenvolvimento humano. As crianças não são “tábuas rasas”, elas possuem características (fenótipo) na formação de seu Sistema Nervoso que podem determinar comportamentos e modificá-los dependen- do dos estímulos internos e externos e a sua interpretação. Isso acontece devido à Neuro- plastia, que ocorre numa modificação das conexões entre os neurônios das diversas áreas cerebrais a fim de se adaptarem às novas condições e estímulos que foram submetidos. O pensamento contempla componentes biológicos e não biológicos; portanto, alterações do pensamento de origem psiquiátrica ou psicológica podem gerar nas crianças dificul- dade de atenção e concentração, não formar memória, e formar consciência equivocada, dificultando sua aprendizagem. É papel do educador buscar o melhor estímulo para me- lhorar a aprendizagem da criança. Criança diferentes geram respostas diferentes para o mesmo estímulo dado, pois sua res- posta individual é distinta devido ao seu padrão estabelecido ao longo de seu crescimento e dos estímulos dos seus pais, dos responsáveis, da própria escola e dos professores. Por isso, estímulos corretos desenvolvem melhor a percepção das crianças e promove seu de- senvolvimento pessoal e social. Sendo assim, ações educativas multidisciplinares junto à família e ao círculo social no qual a criança está melhoram a sua capacidade de aprendizagem. 20 21 Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Desafios da aprendizagem: como as neurociências podem ajudar pais e professores MACEDO, L. Desafios da aprendizagem: como as neurociências podem ajudar pais e professores. Campinas: Papirus, 2017. Neuropsicologia e as interfaces com a neurociências MIOTTO, E. L.; DE LUCIA, M. S. C.; SCAFF, M. Neuropsicologia e as interfaces com a neurociências. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2010. Sobre ter certeza: como a neurociência explica a convicção BURTON, R. A. Sobre ter certeza: como a neurociência explica a convicção. São Paulo: Blucher, 2018. Leitura Desenvolvimento da Personalidade da Criança: o papel da Educação Infantil BISSOLI, Michelle de Freitas. Desenvolvimento da Personalidade da Criança: o papel da Educação Infantil. Psicol. estud., Maringá, v. 19, n. 4, p. 587-597, dez. 2014. http://bit.ly/2LmTTpC O corpo segundo Merleau-Ponty e Piaget FERREIRA M. E. M. P. O corpo segundo Merleau-Ponty e Piaget. Ciências e Cognição, São Paulo, v. 15, n. 30, p. 47-61, 2010. http://bit.ly/2LmUuHS 21 UNIDADE Formação do Pensamento Referências FOX, S. I. Fisiologia humana. Barueri: Manole, 2007. GUYTON, A. C.; HALL, J. E. Tratado de Fisiologia Médica. 11. Ed, Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. LIMA, A. G. Fisiologia humana. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2015. SILVETHORN, D. U. Fisiologia humana: uma abordagem integrada. 7.ed, Porto Alegre: Artmed, 2017. STANFIELD, C. L. Fisiologia humana. São Paulo: Pearson Education do Brasil, 2013. WARD, J. P. T.; LINDEN, R. W. A. Fisiologia básica: guia ilustrado de conceitos fundamentais. Barueri: Manole, 2014. 22