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1 Disciplina: Literatura infantojuvenil Autores: M.e Rita de Cássia Moser Alcaraz Revisão de Conteúdos: Esp. Murillo Hochuli Castex Revisão Ortográfica: Esp. Juliano de Paula Neitzki Ano: 2019 Copyright © - É expressamente proibida a reprodução do conteúdo deste material integral ou de suas páginas em qualquer meio de comunicação sem autorização escrita da equipe da Assessoria de Marketing da Faculdade São Braz (FSB). O não cumprimento destas solicitações poderá acarretar em cobrança de direitos autorais. 2 Rita de Cássia Moser Alcaraz Literatura infantojuvenil 1ª Edição 2019 Curitiba, PR Editora São Braz 3 Editora São Braz Rua Cláudio Chatagnier, 112 Curitiba – Paraná – 82520-590 Fone: (41) 3123-9000 Coordenador Técnico Editorial Marcelo Alvino da Silva Revisão de Conteúdos Murillo Hochuli Castex Revisão Ortográfica Juliano de Paula Neitzki Desenvolvimento Iconográfico Juliana Emy Akiyoshi Eleutério FICHA CATALOGRÁFICA ALCARAZ, Rita de Cássia Moser. Literatura infantojuvenil / Rita de Cássia Moser Alcaraz. – Curitiba: Editora São Braz, 2019. 44 p. ISBN: 978-85-5475-352-8 1.Infâncias. 2. Livros infantis. 3. Fruição. Material didático da disciplina de Literatura infantojuvenil – Faculdade São Braz (FSB), 2019. Natália Figueiredo Martins – CRB 9/1870 4 PALAVRA DA INSTITUIÇÃO Caro(a) aluno(a), Seja bem-vindo(a) à Faculdade São Braz! Nossa faculdade está localizada em Curitiba, na Rua Cláudio Chatagnier, nº 112, no Bairro Bacacheri, criada e credenciada pela Portaria nº 299 de 27 de dezembro 2012, oferece cursos de Graduação, Pós-Graduação e Extensão Universitária. A Faculdade assume o compromisso com seus alunos, professores e comunidade de estar sempre sintonizada no objetivo de participar do desenvolvimento do País e de formar não somente bons profissionais, mas também brasileiros conscientes de sua cidadania. Nossos cursos são desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar comprometida com a qualidade do conteúdo oferecido, assim como com as ferramentas de aprendizagem: interatividades pedagógicas, avaliações, plantão de dúvidas via telefone, atendimento via internet, emprego de redes sociais e grupos de estudos, o que proporciona excelente integração entre professores e estudantes. Bons estudos e conte sempre conosco! Faculdade São Braz 5 Sumário Prefácio ................................................................................................................ 06 Aula 1 – Literatura infantojuvenil: introdução ......................................................... 07 Apresentação da Aula 1 ........................................................................................ 07 1.1 – A literatura infantojuvenil: definições ..................................................... 07 1.2 – A literatura infantojuvenil e as infâncias ................................................. 10 1.3 – A literatura infantojuvenil e a formação de leitores ................................. 12 Conclusão da Aula 1 ............................................................................................. 14 Aula 2 – Literatura infantojuvenil: cânones e sugestão de leitura ......................... 15 Apresentação da Aula 2 ........................................................................................ 15 2.1 – O cânone na literatura infantojuvenil .................................................... 16 2.2 – O cânone e a literatura infantil ............................................................... 17 Conclusão da Aula 2 ............................................................................................. 22 Aula 3 – (En)cantar histórias ................................................................................ 23 Apresentação da Aula 3 ........................................................................................ 23 3.1 – A importância de se pensar em critérios para os livros infantojuvenis 23 3.2 – A diversidade na literatura infantojuvenil: uma reflexão ........................ 25 3.3 – Organização e leitura ............................................................................ 28 Conclusão da aula 3 .............................................................................................. 30 Aula 4 – Os livros, a literatura e as crianças........................................................... 31 Apresentação da Aula 4 ........................................................................................ 31 4.1 – Literatura infantil: uma perspectiva teórico-crítica .................................. 33 4.2 – Três obras a serem lidas também pelos adultos ................................... 35 Conclusão da Aula 4 ............................................................................................. 40 Índice Remissivo ................................................................................................... 42 Referências .......................................................................................................... 43 6 Prefácio Olá, prezados alunos! Nesta disciplina serão abordados aspectos diversos da literatura infantojuvenil, segundo uma visão ampla e moderna, observando-se atentamente a tendência atual em relação a como este tema deve ser tratado. É importante ressaltar que, inserida em uma concepção inovadora, a literatura infantojuvenil deve contemplar, em sua produção, não a infância, e sim “as infâncias”, dada a multiplicidade de aspectos e suas especificidades, além dos conceitos abertos de que a literatura não pode prescindir. Trataremos, ainda, de outros temas tangenciais, como a adoção de políticas públicas voltadas a um “ideal” de literatura infantojuvenil, que seja norteado por um projeto que tenha abrangência nacional e que leve em conta a necessidade de se fazer deste segmento um importante componente do processo educacional, no seu sentido mais amplo. Vale acrescentar que é de suma importância que haja a possibilidade de se pensar que a literatura tem uma intrínseca ligação com a leitura, ou com as leituras, as quais podem fazer grande diferença, se trabalhadas da melhor forma, desde o primeiro contato das crianças com um livro. Bons estudos! 7 Aula 1 – Literatura infantojuvenil: introdução Apresentação da aula 1 Olá, prezados estudantes! Muitos são os conceitos que buscam definir a literatura infantojuvenil. Compreendemos que, em sua maioria, procuram adequar as palavras e as imagens, considerando as diretrizes educacionais dispostas pelas políticas públicas na área educacional. Segundo Terry Eagleton (2001, p. 2): “Talvez a literatura seja definível não pelo ato de ser ficcional ou “imaginativa”, mas porque emprega a linguagem de forma peculiar”. Isso vai além das definições que perpassam diferentes correntes literárias. Por isso, considerar a questão temporal da obra literária enunciada por Italo Calvino, quando formula Seis propostas para o próximo milênio (1990), permite-nos refletir sobre as qualidades da literatura, dentre as quais está a sua durabilidade como experiência por meio da linguagem. Nesse sentido, as qualidades que o autor destaca são: a leveza, a rapidez, a exatidão, a visibilidade e a multiplicidade. Vamos estudar sobre algumas considerações históricas e de definição da literatura infantojuvenil. 1.1 A literatura infantojuvenil: definições Sobre o tempo, o poeta Mário Quintana escreveu: Seiscentos e Sessenta e Seis A vida é unsdeveres que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são 6 horas: há tempo… Quando se vê, já é 6ª-feira… Quando se vê, passaram 60 anos… Agora, é tarde demais para ser reprovado… E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio seguia sempre, sempre em frente… E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas. (QUINTANA, 2005, p. 479) 8 O tempo retratado neste poema é o da passagem rápida, da vida do eu poético. O tempo na linguagem é uma brincadeira com a própria linguagem. A linguagem é uma das possibilidades de se elencarem diferentes registros em diferentes espaços sociais, historicizados, e que produzem sentidos por meio de gêneros que se alteram em diferentes suportes e também na relação entre a literatura e as hipermídias. Mário Quintana (1906 – 1994) foi um poeta, tradutor e jornalista brasileiro, nascido em Alegrete, no Rio Grande do Sul. Considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX, sua obra é marcada pela ironia, pela profundidade e pelo rigor técnico. Aclamado por público e crítica, em 1980, recebeu o Prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras pelo conjunto da obra e, em 1981, foi agraciado com o Prêmio Jabuti. Dentre todas as linguagens, a literatura dedicada às infâncias é um dos espaços de multiplicidade e conta com interações ampliadas e que se relacionam de forma complexa na interação com os leitores. Ao mesmo tempo que rompe, ela mimetiza aspectos da realidade em construções inesperadas, simbólicas, em diferentes semioses. Observe abaixo o prefácio do livro de Júlio Verne, Viagem ao centro da terra, escrito por Marisa Lajolo e observe, também, os elementos elencados como o narrador, o leitor, a narração, o tempo, o espaço e a articulação destes elementos em um processo construído próximo ao leitor, dialogando com ele, provocando-o a reagir, a interagir, a participar. Mídias Recomendamos o pequeno curta sobre o surgimento da literatura, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4uqbMXAoRus. Nesse pequeno documentário sem utilização de palavras, apresenta-se como surgem as histórias, inclusive aquelas voltadas para as crianças. https://www.youtube.com/watch?v=4uqbMXAoRus 9 Fonte: elaborado pelo autor, 2019. Apesar de a permanência da obra ser um processo complexo, os livros persistem ao tempo e seus autores também. Basta observar que a literatura infantil passa, desde a década de 20 até 40, por um aprofundamento no critério de qualidade por meio das políticas educacionais dos anos subsequentes, com ênfase nos anos de 2010. Políticas como o suspenso Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) e o Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) especializaram-se, ao longo dos anos, nos materiais a serem enviados para as escolas e centros de educação infantil. Atenta-se às políticas públicas na escolha de livros endereçados para as escolas públicas no Brasil como uma possibilidade que mantém muitas obras abertas à leitura. Então, os planos de políticas públicas para a leitura também organizam as estratégias e ampliam possibilidades para inserir as crianças em vivências culturais múltiplas. A implicação de tal consideração é expressa por Manuel Sarmento e Marchi (2008) ao falar sobre as culturas infantis e indicar as produções voltadas para as crianças. Em diálogo com tal pressuposto, indica-se que as crianças pequenas 10 se interessam pelos livros, por histórias. A literatura alimenta o imaginário infantil em diferentes lugares e épocas e dialoga com a complexidade de experiências pautadas nas relações com o outro. Contudo, arriscamos afirmar que as especificidades da linguagem literária, ao deslocar o leitor das reações habituais, do cotidiano e intensificando experiências, imprime a história à sua imanência. Pois, se de fato literatura não pode ser definida de maneira objetiva, reiteramos o diálogo com os leitores que articulam experiências ao que é lido, já que: Alguns textos nascem literários, outros atingem a condição de literários, e a outros tal condição é imposta. Sob esse aspecto, a produção do texto é muito mais importante do que seu nascimento. O que importa pode não ser a origem do texto, mas o modo pelo qual as pessoas o consideram (EAGLETON, 2001, p.12). Considerar as particularidades da literatura infantojuvenil com acentuada relação para o desenvolvimento pedagógico é importante, principalmente porque a qualificação profissional e de materiais pedagógicos surge com a ideia de escolas e creches. Nesse diálogo com a área educacional, começam a se elaborar critérios para a literatura infantojuvenil. 1.2 A literatura infantojuvenil e as infâncias Quando se fala de literatura infantojuvenil, modernamente precisamos ter em mente que se fala de uma obra de arte, que, em muitos sentidos, pressupõe autonomia. Mas autonomia parece ser um pouco abstrato para definir uma obra dedicada às crianças. Por isso, Ligia Cademartori(1986) afirma que a literatura infantojuvenil não deveria estar a serviço de conteúdos moralizantes ou pedagógicos; ela deveria ser para uma fruição do gosto literário, do desenvolvimento de leitores. Mas o que significa tal questão? A literatura infantojuvenil possui critérios para que uma literatura dedicada ao público infantil considere a própria criança. 11 Desenvolvimento de leitores Fonte: https://www.alternet.org/wp-content/uploads/2019/01/Elementary-school- students-reading-from-a-book-Shutterstock-800x430.jpg Importante Segundo Peter Hunt (2010), o universo infantil não deixa de ser uma contracultura inserida em um modo de ver diferente, questionadora da ordem do mundo. A importância da infância e a expressão de sua voz deveriam ser percebidas com maior frequência não só por estudiosos da área, mas por acadêmicos de outras áreas e pela sociedade de um modo geral. Perceber essa importância é também perceber o percurso da criança, pois não há um só tipo de livro infantil porque não há um só tipo de infância. Ao considerar a história dos livros para crianças, o tipo de infância para a qual se destinavam, ou seja, o tipo de infância por eles definido, varia consideravelmente. Os livros infantis para a criança da classe trabalhadora em muitas sociedades do passado parecem ser bem mais autoritários e severos que os livros infantis para as classes médias protegidas. De fato, mal chegam a parecer livros infantis. E, uma vez que o tipo de vida que os jovens experimentavam não era de infância como conhecemos, não há nada de estranho nisso ( HUNT, 2010 p. 94). Para Hunt, a crítica literária para a infância não deve desconsiderar o receptor dessa literatura e sua especificidade. A crítica para a literatura infantil deve se valer de todas as outras disciplinas e instrumentos teóricos, mas não pode diminuir a força desse contato da criança com o objeto-livro, que no 12 contexto da literatura infantojuvenil tem um papel predominante. O objeto-livro, para Hunt (2010), tem cor, texturas do papel, logotipos e outro elementos que podem ser preteridos na literatura adulta. 1.3 A literatura infantojuvenil e a formação de leitores Uma literatura voltada para crianças não deve ser compreendida apenas à luz dos cânones ou por meio da academia, mas devemos considerar o leitor influenciado socialmente (HUNT, 2010). Tornar-se e ser-leitor não envolve apenas o domínio e mestria de uma técnica, mas envolve também uma forma de posicionamento face ao escrito e às práticas de apropriação dos sentidos textuais. Este posicionamento, constitutivo da história pessoal de cada sujeito, é uma função de um processo social mais vasto que prescreve um conjunto de convenções sobre a possibilidade e impossibilidades inerentes às ações individuais e sociais da leitura (DIONÍSIO, 2000, p.393). As competênciasespecíficas de leitura para um público inexperiente, as crianças, foi uma maneira de se organizar a aprendizagem formal. Tal noção inicial influenciou as especificidades na análise da literatura infantil. Nos últimos vinte anos, ignorou-se, em parte, a interação da criança com o livro. Não basta a literatura existir no mundo; devemos considerar como ela interfere nas reações das pessoas, uma vez que: “Tal como a teoria e a crítica agora se preocupam com todos os aspectos do texto, da reação pessoal e do pano de fundo político à linguagem e à estrutura social” [...] (HUNT, 2010, p.27). A literatura para os pequenos obedece a uma estrutura de progresso e informação distintos; assim, a qualidade varia de acordo com as exigências, inclusive as governamentais. Os livros para a primeira infância foram favorecidos pela escolarização e a criação massiva de escolas infantis e jardins de infância. De forma concomitante, a profissionalização para o atendimento nas escolas exige formação, como a que ocorre com os mediadores de leitura para as crianças. De forma cada vez mais crescente, os escritores e ilustradores estipulam critérios para a qualidade da obra literária (COLOMER, 2001). Refletir sobre os livros escolhidos para as crianças, por intermédio de programas governamentais, entre outras indicações possíveis, é compreender o direito das crianças à cidadania. 13 Na maioria das vezes, podemos compreender que as crianças terão respostas diferentes em relação aos temas sugeridos na literatura. “E, como a brincadeira é um elemento natural de seu perfil, verão a linguagem como outra área de exploração lúdica ” (HUNT, 2010, p.92). Reflita Os livros também funcionam para se refletir sobre emoções que não são boas? A resposta é afirmativa, pois os livros vão em direção ao outro em um processo de interação. O leitor se emociona com situações não vividas por ele.Algumas situações não precisam ser experienciadas, mas podem ser compreendidas por um desajustamento, e a literatura é uma arte possível de despertar isso em todas as etapas. Disponível em: https://lunetas.com.br/livros-infantis-sobre-raiva-e-outras- emocoes/ Hunt (2010) destaca a importância de pensar sobre como as pessoas trabalham com os livros e a crítica da teoria da literatura sobre o livro. Há uma intersecção entre esses grupos que arrolam experiências importantes aos leitores e ela percorre sincrônica e diacronicamente a cultura. É necessário observar que personagens brancas, durante muito tempo, foram o modelo predominante representado na literatura e, se invariavelmente encontramos ainda nas bibliotecas um grupo de livros com essa característica, acaba se tornando o padrão a ser seguido, de universalidade, de identificação e de matriz. As crianças vão reconhecer em suas leituras as meninas e os meninos brancos em sala de aula e, com o passar dos anos, eles se tornarão modelares, pois ocuparão simbolicamente um espaço sistematizado de poder nos símbolos observados na sociedade. As obras de literatura infantil modernamente possuem ilustrações que revelam mais do que as palavras. A sensibilidade das narrativas e as imagens contam histórias de forma muito cuidadosa e têm um papel essencial nesse tipo de literatura, que não possui nenhuma restrição à leitura dos adultos. É fundamental a compreensão de que a literatura infantil se especializou e exige formação e qualificação no trabalho voltado a diferentes faixas etárias, atendendo a educação, aos interesses no desenvolvimento da leitura e a formação de leitores. 14 Dessa forma, procuramos refletir sobre a literatura infantojuvenil que considere em um primeiro momento uma discussão organizada em relação a algumas influências históricas, sociais, culturais, para delinear as mudanças e as alterações nos indivíduos sociais. Com essa percepção, falamos sobre alguns gêneros orientados historicamente e importantes na construção da história da literatura. Nesse diálogo, observamos os elementos formais de algumas obras que marcam a época, seja no cenário mundial, seja no brasileiro, organizando- os por meio das situações discursivas históricas, sociais e artísticas. O caminho da leitura se faz por meio da leitura com algumas escolhas importantes para o desenvolvimento da dimensão formativa capaz de mudar a geografia espacial e de leitura, não apenas pela gama de livros literários, mas também por novas experiências e narrativas capazes de modificar a percepção e a possibilidade de narrar outras histórias com base em outras formas de pensar o mundo por meio do espaço literário. Como o poeta enuncia: As coisas desimportantes, os inutensílios, são muito importantes porque servem para poesia (...) Um caneco furado que não carrega água é muito mais importante do que um tanque de água. Isso, claro, pela inutilidade do caneco furado. As coisas desprezadas pela civilização são objetos de poesia. Digo, aliás, que os desobjetos só prestam para a poesia. E isso não é uma brincadeira retórica. É uma brincadeira a sério (BARROS in: MÜLLER, 2010, p.110). A inserção reflexiva e inclusiva passa essencialmente pelo reconhecimento das diferenças e passa sempre por escolhas, reflexão, na construção de possibilidades ampliadas para o futuro. Conclusão da aula 1 Chegamos ao final da primeira aula e enfatizamos que a literatura não está atrelada a juízos de valores pessoais, mas recebe influências de seu tempo. As circunstâncias subjetivas, locais, nacionais, de forma específica, se relacionam com a produção das obras. A literatura e a permanência de determinadas obras rompem barreiras paradigmáticas de possíveis definições e escolhas, antes dialogam com valores, classes sociais, políticas de leitura e os leitores mirins. 15 Atividade de Aprendizagem Busque dois livros infantojuvenis que sejam desconhecidos para você, mas possíveis de serem lidos com e pelos estudantes. Faça um pequeno resumo das obras e justifique as suas escolhas. Para tanto, utilize o texto abaixo como base: “Devemos, ainda, e sempre, refletir sobre o que fazemos e como o fazemos. Como podemos deixar uma criança escolher seu livro? Em que ritmo lhe é permitido ler? Como se lê com ela? Sabemos não ler? Como os pais são envolvidos? Quem compra os livros? Onde?... Não há padronização possível. Cada lugar é único. Cada criança é única. Cada profissional é único, em sua relação tanto com essa criança quanto com o livro. Cada “leitor” é único. E nós devemos continuar a refletir juntos, profissionais do livro e da infância, sobre o que fazemos e como o fazemos. Pois, afinal de contas, o que importa é a iniciativa tomada. O objetivo não é “aprender a ler”, mas compartilhar leituras para cultivar uma forma de “leitura” que está presente em cada bebê que vem ao mundo... Em um livro de imagens tudo conta: as palavras impressas, as imagens, a matéria das imagens, a formatação, a tipografia, o formato, as cores. Qualquer que seja a história contada, a noção em si de álbum impõe a questão do enquadramento, dos limites e do jogo com os limites. Os artistas brincam constantemente com o enquadramento. Além do conteúdo da história, eles criam um universo no interior de um objeto que tem um formato, um número de páginas... e contam, às vezes apenas com imagens, às vezes com palavras e imagens, e propõem assim dois modos de narrativa que se cruzam e, contradizentes, ampliam-se...” (Dominique Rateau- Ler com crianças pequenas. Disponível em: http://www.ceale.fae.ufmg.br/app/webroot/files/uploads/LEPI/Lit-EI-acervos- espacos-mediacoes.pdf) Aula 2 – Literatura infantojuvenil: cânones e sugestão de leitura Apresentação da aula 2 Caros estudantes, nesta aula, vamos estudar sobre o cânone na literatura infantojuvenil para refletir sobre a importância de uma literatura de qualidade para as crianças e jovens. Bons estudos!16 2.1 O cânone na literatura infantojuvenil Esta aula versará sobre a conceituação de literatura infantojuvenil e sobre outros questionamentos, como a sua inserção ou não nos cânones ocidentais. A partir de teóricos como Peter Hunt (2010), situaremos a literatura infantojuvenil como arte não canônica e ainda incompreendida pela maioria da crítica acadêmica, pois ela fala em clássicos da literatura infantil, mas não a insere em nenhum tipo de cânone. A literatura infantojuvenil pode, por meio das palavras, fundar outras realidades, ir em direção ao outro e criar ambiguidades possíveis que internalizam estruturas emocionais, sociais e culturais por meio do acesso e do diálogo com o outro. Existem muitos modos de definir a literatura infantojuvenil, e algumas dessa definições podem soar como limitadoras ou injustas no que diz respeito à amplitude e à importância deste gênero literário. Podemos começar nossa conversa afirmando que não há só um tipo de literatura, porque há muitos tipos de infâncias. Para Penter Hunt (2010, p.34 ), a “definição de infância muda, mesmo no âmbito de uma cultura aparentemente homogênea, tal como muda o entendimento de infâncias do passado” O conceito de infância é uma construção histórica, e os cuidados que a criança obtém no presente valem como um acompanhamento social, por meio das políticas públicas. Sim, não há como falar em literatura infantojuvenil, plural e com respeito à infância, se não falarmos em políticas públicas educacionais e em escolas democráticas, pois é somente por meio da boa literatura infantojuvenil que, não só uma infância, mas todas as infâncias podem ser representadas. Enquanto que para os estudos acadêmicos e crítica literária a literatura infantojuvenil é uma espécie de primo pobre ( ROSEMBERG, 1984), é na escola que ela encontra seu prestígio, um espaço privilegiado para sua manifestação. Isso ocorre especialmente em nosso país, que há algumas décadas adota políticas de aquisição e distribuição de livros infantojuvenis. A literatura é uma aliada na aquisição de linguagem, no letramento, e também auxillia na melhoria do repertório existencial e cidadão. Por isso, nos dizeres de Rosemberg (1984), não só uma infância precisa ser representada 17 nos livros infantojuvenis, mas todas as infâncias. Por meio de suas pesquisas acerca dos livros literários didáticos adquiridos pela escola, a criança negra não é representada. A maioria desses livros apresenta, de forma hegemônica, crianças brancas, excluindo negros e indígenas. Podemos perguntar antes: o que é literatura nos dias que correm?, qual é a sua importância em um mundo cada vez mais governado por imagens? Um universo em que a vida não é mais contada em grande narrativa, mas representada de forma fragmentada nas chamadas redes sociais. O cotidiano cada vez mais se espetaculariza, o tempo e o espaço onde um pai ou uma mãe sentam em um quarto silencioso para contar uma história torna-se cada vez mais raro ou, pelos menos, infrequente. Por isso, o espaço escolar torna-se ainda mais importante para organizar no ambiente educacional o “como contar histórias” e os espaços de mediação de literatura, como as bibliotecas escolares, pensadas com respeito ao público infantojuvenil. Saiba mais Recomendamos a leitura sobre a importância da literatura infantojuvenil. Disponível em: http://cultura.culturamix.com/literatura/a-importancia-da- literatura-infantil. O texto comenta sobre a importância da literatura infantil para as crianças e jovens. 2.2 O cânone e a literatura infantil Segundo Peter Hunt( 2010), um dos maiores especialistas em literatura infantojuvenil, os leitores, de certo modo, apreciam os cânones literários. Eles funcionam como uma espécie de guia em uma noite escura. Diante de milhares de livros dispostos em prateleira, o que escolher, como decidir o que comprar, a partir de um modesto orçamento? Um cânone serve para isto: para nos dizer o que é bom e o que é ruim. É algo formado ao longo do tempo por pessoas que ocupam algum espaço de poder, como professsores universitários e jornalistas, mas é acima de tudo confirmado pelos leitores que não o refutaram e fruíram suas obras. http://cultura.culturamix.com/literatura/a-importancia-da-literatura-infantil http://cultura.culturamix.com/literatura/a-importancia-da-literatura-infantil 18 Conhecemos, mesmo sem ter lido, pelo menos um autor de cada gênero. Esse nome, de forma “injusta”, reforça a obra. Quando idolatramos a força de um nome como Eva Furnari, Ziraldo, Clarice Lispector, Carolina de Jesus, Ana Maria Machado, entre outros, sem nos aproximar de sua obra, não deixa de ser uma forma de utilizarmos o senso comum de nomes consagrados sem consolidar o porquê de sua importância. A literatura não existe só pela força dos textos, mas pela vivacidade e constante interação com os leitores, e há muitas obras de literatuta infantojuvenil que fazem parte do direito a bons livros das crianças. Pois como afirma Benjamin: “A criança mistura-se com as personagens de maneira muito mais íntima que o adulto ” (BENJAMIN, 2014 p.105). Entendemos que as crianças pequenas se interessam pelos livros e que elas leem neles aquilo que os adultos não leem. A literatura pode ser entendida como um caminho de apreciação da obra de arte e podem enriquecer as expressões linguísticas, em um espaço de sensibilidade e sensibilização. Tais atribuições são postas, pois não desejamos que o livro seja uma causa, com receitas, não obstante ele também é um artefato ideológico, no qual a representação de protagonistas brancos/brancas, em suas maiorias, podem ordenar, implicitamente, espaços simbólicos e materiais como superiores, segundo a análise de conteúdo. A literatura e as outras artes, quando abertas a todos os temas da vida, podem auxiliar na capacidade ética da criança, potencializando afetos adormecidos na sociedade. Não é incomum encontrarmos um adulto sem alteridade, incólume ao sofrimento do outro, sua miséria, doença ou solidão nas páginas do livro, mas essa percepção que pode desajustar o leitor é uma das funções da literatura: viver diferentes maneiras de sentir. Partindo de uma literatura muito hábil, com um projeto visual muito impactante, o escritor alemão Ingo Shulze escreve a trajetória do Senhor Augustin (2009), um idoso solitário e ranzinza, sem muita capacidade de contato com seu próximo. O Senhor Augustin se coloca em uma relação de permanente tensão com as crianças do seu bairro, não por vontade própria, mas pela situação de precariedade da própria idade avançada. Confunde em certos momentos o cabo da vassoura com o guarda-chuva e sai com um pé de sapato diferente do outro. 19 A narrativa sugere uma dúvida: o idoso sempre foi ranzinza, quase irascível, ou o isolamento e o preconceito da sociedade com a velhice o tornaram assim? Afinal, a maior questão levantada pelo livro é ética; o aprendizado da alteridade, tratar o outro como ele é, e não como gostaríamos que ele fosse. É um olhar ao mesmo tempo terno e questionador sobre as limitações e agruras da velhice, e como o isolamento e a falta de solidaridade podem aumentar tais dificuldades. Ingo Schulze(2009) é um dos principais nomes da nova literatura alemã. Recebeu os prêmios Alfred Döblin (1995), o Thüringer Literaturpreis (2007) e o Prêmio da Feira de Livros de Leipzig (2007). Sua literatura é questionadora e sagaz, levantando questões importantes sobre a sociedade atual, com a dificuldade dos relacionamentos e a solidão. O Senhor Augustin não deixa de ser uma continuidade do seu projeto literário, moderno e questionador. Indicamos também como exemplo de leitura um livro apenas com imagens. O livro a seguir (O Jornal), com imagens, permite que a mesma história seja contada e recontada diferentes vezes pelas e paraas crianças. O livro de imagens não é linear, pois não possui uma história fechada. Como possível proposta, o trabalho com as crianças pode ser realizado de diferentes maneiras, utilizando o jornal na construção de barquinhos, aviões e outros brinquedos possíveis, mas também para se explorar a estrutura em forma de projeto e construção de diferentes gêneros a serem explorados nas aulas do ensino fundamental. O jornal Fonte: acervo do autor (2019). 20 Quero enfatizar, portanto, que a literatura infantil é diferente de outra literatura, e devia ter um tipo diferente de crítica e teoria, que ainda está em construção. A literatura infantil tem: um público diferente, que tem habilidades e atitudes diferentes, que resultam em leituras diferentes de textos e uma diferente relação escritor-leitor (baseada em um desequilíbrio de poder). Tudo isso resulta em: temas diferentes; estruturas diferentes; diferentes modos/ vozes de tratamento na literatura (HUNT, 2010, p.269). Dessa forma, os programas de leitura na infância, frente à questão acima, podem considerar as infâncias, considerando a participação delas como, por exemplo, em um momento poético, na elaboração de um jornal, em um mural, enfim, em transposições didáticas e linguísticas possíveis de serem representados em diferentes gêneros. Os livros indicam o interesse das crianças, mas a organização de acervos passa pelas relações sociais e culturais e são afirmadas, por vezes, pelos adultos, os responsáveis pela compra. Este é um desafio na escolha de literatura infantil: ouvir os interesses das crianças e conhecer os livros disponíveis para tal trabalho é fundamental na organização do acervo, inclusive para se terem poemas como referencial de leitura. Abaixo apresentamos, para conhecimento, um poema de Vinícius de Moraes: As borboletas Brancas Azuis E pretas Brincam na luz As belas borboletas. Borboletas brancas São alegres e francas. Borboletas azuis Gostam muito de luz. As amarelinhas São tão bonitinhas! E as pretas, então... Oh, que escuridão! (MORAES, 1991) 21 A literatura infantojuvenil possui uma ritmicidade e poesias próprias, entretanto o trabalho com o gênero e a compreensão da estrutura própria da poesia e dos autores também é importante no desenvolvimento do leitor. Saiba mais O professor como mediador de leituras literárias Ana Arlinda de Oliveira O leitor, à medida que se desenvolve, pode escolher textos a partir de seus interesses: ou artísticos como a música, a pintura, a literatura, a escultura; ou escolhe textos por outros interesses, como o de disciplinar a sociedade, de manter a saúde, o de transmitir conhecimentos científicos. Mas para o leitor que acredita na criação, na fantasia, a escolha recairá em aspectos como a apreciação, a admiração, a comoção diante de algo que lhe pareça muito bonito, diferente e instigante. Depois disso, outros interesses podem surgir e ocupá-lo, pois eles sempre estiveram e estão associados à experiência artística (PAULINO, 1999, p. 55). Portanto, uma relação com a literatura que se obriga a ser apenas pedagógica dificulta o potencial da criança para se tornar um leitor literário. A literatura não tem obrigação com o conhecimento, mas promove conhecimento, pois ensina, não porque inculca conceitos morais ou quais atitudes desejáveis, mas porque amplia a capacidade de conhecimento do leitor, facilitando o acesso a novas experiências que poderão auxiliá-lo na elaboração de novas informações, ou ainda na reformulação do que já possui. (MICHELETTI, 1990, p. 17). Ao contrário disso, há o aspecto exemplar instaurado na escola, ao apresentar à criança textos insossos que não permitem a ela sensibilizar-se com as linguagens (verbais e icônicas) presentes no livro literário infantil. Não é necessário confundir literatura com textos que apresentem uma roupagem de literatura, mas que são próprios para o ensino de algum conteúdo escolar. Sem dúvida, há textos literários e não literários. O primeiro emociona, trata das paixões humanas; o segundo ensina conteúdos, atitudes e posturas do dever ser infantil. Uns e outros circulam pela sala de aula, no entanto, por meio de uma mediação consciente, o professor precisa saber discernir qual é o momento para cada um. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias =7841-2011-literatura-infantil-capa-pdf&category_slug=abril-2011- pdf&Itemid=30192 22 Conclusão da aula 2 As relações que existem entre as diferentes linguagens literárias são construídas por meio das orientações das políticas educacionais e impactam as literaturas. Caminham em torno da construção cultural e social sobre o ensino- aprendizagem no ambiente escolarizado. Na compreensão dos sentidos múltiplos, o ensino da literatura pode ser ampliado ao se organizar currículos que integrem o que se aprende e como se interpretam as construções visuais e verbais, como instrumentos integrativos na formação leitora de nossos estudantes. Atividade de Aprendizagem Leia o poema abaixo, de Cecília Meireles, e apresente hipóteses de atividades para a realização de sua leitura mediada em sala de aula: A bailarina Esta menina tão pequenina quer ser bailarina. Não conhece nem dó nem ré mas sabe ficar na ponta do pé. Não conhece nem mi nem fá Mas inclina o corpo para cá e para lá Não conhece nem lá nem si, mas fecha os olhos e sorri. Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar e não fica tonta nem sai do lugar. Põe no cabelo uma estrela e um véu e diz que caiu do céu. Esta menina tão pequenina quer ser bailarina. Mas depois esquece todas as danças, e também quer dormir como as outras crianças. (MEIRELES, 1996) 23 Aula 3 – (En)cantar histórias Apresentação da aula 3 A literatura indicada para as crianças obedece a uma estrutura temática, design e ilustração distintos do que a literatura dita propriamente para os adultos. A qualidade literária dos livros destinados às crianças foi se especializando e teve muita influência dos planos nacionais na aquisição de livros infantis, como o suspenso PNBE. Assim, é necessário pensar em critérios que possam permitir que os livros e os espaços tenham qualidade. Como referência nesta exemplificação, utilizaram-se os documentos da Secretaria Municipal de Curitiba. Tal formulação sobre os critérios a serem utilizados podem variar de município para município, contudo todos tomam como base os DCNEIs. 3.1 A importância de se pensar em critérios para os livros infantojuvenis A importância em se ter documentos para se pensar em critérios para a literatura para crianças e jovens é sinalizada pela compreensão que deriva do direito a uma educação de qualidade. Assim, apresentamos em diálogo, ao que foi exposto até o momento, alguns critérios do município de Curitiba com a compreensão de que a organização dos espaços para os livros pode variar entre a sala de aula e, se possível, uma biblioteca. Seguem os critérios e a descrição deles com a perspectiva de que, quanto menores são as crianças, mais curiosas são na investigação do mundo e também elaboram muitas hipóteses por meio das brincadeiras, da relação com os pares. A escola, nesse contexto, torna-se referência, pois é um ambiente no qual as relações com os colegas imprimem a possibilidade de organizar e ampliar individualidades, discursos e a cidadania. CRITÉRIOS DESCRIÇÃO Segurança Livros com materiais resistentes ao manuseio e à experimentação. Materiais atóxicos e seguros. Livros brinquedos disponibilizados por um adulto. Quantidade É disponibilizado um livro diferente por criança em cada turma. 24 Os acervos são atualizados semestralmente com a orientação do Núcleo Regional da Educação (NRE). O CMEI expõe os livros do acervo, quando necessário. QualidadeHistórias adequadas ao interesse das crianças em diferentes faixas etárias. Apresentação de textos e ilustrações de qualidade e com coerência textual. Os livros não devem apresentar linguagem preconceituosa e modelos fixados pela mídia. Os livros oferecidos às crianças estão conservados. Encartes e propagandas não constituem acervo de literatura infantil. Diversidade O CMEI disponibiliza às crianças diversos gêneros textuais: histórias, contos, poesias, parlendas, trava-línguas, adivinhas, fábulas, entre outros. O CMEI disponibiliza diferentes versões de uma mesma história para a criança ter contato com a variedade de narrativas, estilos e ilustrações. São disponibilizados livros de diferentes formatos, materiais e tamanhos de acordo com a faixa etária. O CMEI disponibiliza livros de texto, de imagens e de texto e imagens. Acessibilidade As salas de atividade têm um canto permanente para leitura, com livros organizados ao alcance das crianças, que escolhem livros de sua preferência para ler. Os espaços para leitura e contação de histórias são organizados previamente, de modo que as crianças estejam acomodadas confortavelmente. Leitura realizada diariamente pelo educador para as crianças. As crianças participam semanalmente de momentos de contação de histórias. Crianças e adultos participam semanalmente de momentos de leitura, em que cada um lê o livro de sua preferência. As crianças têm oportunidade de expressar suas ideias, sentimentos, experiências e preferências em relação às leituras. A partir do maternal III, as crianças emprestam semanalmente livros de sua preferência para serem lidos em casa com os familiares. As crianças têm oportunidades de conhecer diversos autores e suas principais obras. As crianças são levadas a conhecer bibliotecas e outros espaços de leitura. Critérios e indicadores para a qualidade do Livro Infantil Fonte: adaptado de Parâmetros Indicadores de Qualidade para os Centros Municipais de Educação Infantil, (BRASIL, 2009, p.54-55). Dentre os aspectos elaborados para se pensar em estratégias para a literatura na educação infantil, basicamente todos eles podem ser adaptados, se 25 necessário, ao ensino fundamental. A proposta de se ter gêneros literários variados por meio de diferentes documentos apresenta o apurado trato com a literatura, e ainda para não possuir uma ação pedagogizante e didatizante, reiteramos o importante papel de mediação trabalhado constantemente por meio da formação de professores no trabalho com a literatura. Dessa maneira, cada critério indica uma relação, seja com o livro, seja na mediação das histórias. Os livros destinados aos bebês e às crianças pequenas supõem um equilíbrio entre o cuidado e o contar das histórias. Destina-se às crianças aquilo que os adultos escolhem como seguro, provável e bom. Isso significa afirmar que a influência entre o cuidado e o acolhimento na leitura impactam diretamente as culturas simbólicas das infâncias. Enquanto elas significam as histórias, descontroem, reinventam em esforços e complexidades que nenhum método estatístico pode fracionar. “Os gramáticos da narrativa que se cuidem. As orações terminam com pontos finais. As histórias não” (HUNT, 2010, p.149). Por isso, é fundamental garantir uma pluralidade nas representações mais ampla como referências nos acervos. Não precisamos controlar a literatura, mas sugerir outros diálogos com as estruturas que a determinam, na qual a representação de protagonistas, sejam negros, indígenas, asiáticos e europeus, possuam uma proporção igual. 3.2 A diversidade na literatura infantojuvenil: uma reflexão A diversidade implica diferentes representações sociais, desde os espaços de construção de Bibliotecas até os cantinhos organizados nos Centros de Educação Infantil com acervos amplos e criativos para a leitura. Uma das formas de relação entre o adulto e a criança ocorre por meio dos espaços culturais operacionalizados pelas políticas existentes na sociedade; nesse caso, como uma ação interposta na relação com a escolha dos livros. As crianças na escolha de livros o fazem em relação aos espaços sociais estruturados, podendo apresentar tendências ao escolherem livros conforme as formas como os espaços sociais estão dispostos. Uma proporcionalidade editorial brasileira nas representações de personagens não brancas ainda não chegou a um equilíbrio nas prateleiras das bibliotecas em comparação com as brancas. E, mesmo quando chegar, ainda 26 deve ser garantido o direito de representarem as infâncias sem discursos e didatismos ou estereotipias e moralismos. Outro desafio é a pluralidade na representação das personagens nos livros literários. A transposição simbólica de personagens brancas como maioria forja a experiência literária com tendências à branquitude como padrão. O combate ao racismo é uma ação ampla em diferentes esferas institucionalizadas, sociais e culturais e, assim como os protagonistas brancos na literatura apenas ocupam espaços corriqueiros, brincando, com suas famílias, valorizando características físicas como o nariz, o cabelo, por vezes, liso, os olhos, por vezes, claros, da mesma forma o protagonismo de personagens não brancas pode ocupar tais espaços por meio da valorização de traços que enfatizem a beleza de meninas e meninos não brancos em vários contextos sociais, culturais e de interação discursiva. O direito à diferença, à emancipação e ao reconhecimento são fundamentos epistêmicos imprescindíveis para que as crianças tenham a garantia do exercício de escolha, e possam ser protagonistas nas searas políticas, epistemológicas, sociais e educacionais quando adultas. Uma proposta é que a formação e a leitura das DCNEI’s (Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil) para a Educação das Relações étnico-raciais sejam formativas para os curiosos e profissionais. Essa é uma das proposições para, pelo menos, provocar o debate, nos quais os maiores beneficiados serão, com certeza, as crianças, com o direito à fruição por meio das histórias literárias em que se sintam representados discursivamente e fenotipicamente, de forma afirmativa, na promoção da igualdade racial. Podemos avançar ainda na participação infantil para se pensar nos contextos educacionais para a criança, a princípio o ethos adulto e branco influencia as infâncias, principalmente porque várias vozes são invisibilizadas, como crianças de comunidades remanescentes quilombolas e indígenas. Essas culturas e a forma de representação de ser e estar no mundo não são materializadas no espaço escolar, e sim sujeitadas por uma epistemologia única, com currículos amplos e generalizantes. O impacto dos programas de leitura na infância frente a isso pode considerar saberes em diálogos nas fronteiras da pluralidade, significando para as crianças outras formas de aprender, propondo outras representações e 27 relações entre as culturas simbólicas expressas nos artefatos materiais. “Por cultura simbólica da infância queremos apontar várias representações ou símbolos expressivos de crenças, preocupações e valores infantis (Griswold, 1994, p.3)”. Isso impactaria profundamente a forma de se pensar e organizar as políticas voltadas para a compra de livros de literatura para as crianças. Assim, a escolha de livros literários passa também por relações que estão ligadas à memória, ao afeto e às crianças, escolher um livro é abrir um mundo de ideias e possibilidades junto com os estudantes. Saiba mais A fim de ampliar as reflexões sobre a literatura em sala de aula, recomenda-se a leitura do trecho a seguir: A leitura de textos literários em sala de aula: é conversando que a gente se entende… Ana Caroline P. Brandão Ester Calland de Souza e Rosa (...) O recurso às memórias pode ser uma referência interessante para refletir sobre aqualidade da conversa associada à leitura, como ilustra o depoimento de uma professora quando questionada sobre a forma como se lia na escola, durante seu processo de escolarização: “Era ler o livro, saber só o título, o autor, detalhe, informações muito sem sentido, a cor da roupa de fulaninho, pra saber se o menino tinha lido o livro” (ROSA, 2003, p. 119). Em contraste, outras professoras lembram-se de um contexto familiar em que a leitura e a conversa aparecem com fronteiras pouco delineadas e como parte de uma trama afetiva: Tive uma avó que era contadora de histórias. Eu ficava maravilhada com o seu jeito de conduzir as palavras. As histórias não tinham hora para acontecer: no almoço, à noite, antes de dormir, andando pela rua… Lembro que, mesmo sem que eu soubesse ler, me mostrava seu caderno de receitas, e eu ficava tentando imitá-la. Ela me mostrava livros velhos com muitas figuras de animais, pessoas em diversas situações ou mesmo desenhava. (ROSA, 2005, p. 39). O repertório de lembranças pessoais pode servir, portanto, como referência para identificar bons modelos de mediação de leitura por parte de adultos ou, em contraposição, como forma de se colocar no lugar da criança, evitando que ela passe por situações de leitura como aquelas que marcaram negativamente a primeira professora. O segundo critério de escolha sugerido é seguir a recomendação já colocada por Cecília Meireles (1984), poeta muito querida por pequenos leitores: ouvir as próprias crianças. Para tanto, é fundamental atentar para as oportunidades de escolha de leituras propostas na escola. 28 Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias =7841-2011-literatura-infantil-capa-pdf&category_slug=abril-2011- pdf&Itemid=30192 3.3 Organização e leitura Com base nos pressupostos acima, apresentar-se-ão algumas possibilidades de leitura no trabalho com as crianças pequenas. Os recursos na contação de histórias são variados. Eles se vinculam com a organização da sala, com os cantinhos de leitura, com as escolhas do acervo. Contar histórias também é um ato educacional com muita afetividade. Contam- se histórias para refletir, para brincar, para apresentar um determinado tema. Nesse sentido, elas podem estar em diálogo com a pluralidade da sociedade. Assim, contar histórias é uma estratégia educacional utilizada de maneira significativa. A escuta da história estimula as crianças em diferentes etapas do desenvolvimento, instrui e permite uma dinâmica interativa e integradora que potencializa a atividade infantil e de autoexpressão. A ludicidade em contar histórias está em convidar as crianças ao jogo de escuta e interação com brincadeiras, músicas e danças para elas elaborarem outros conhecimentos de mundo. Com base na literatura, elas poderão ter inicialmente a descrição de determinados objetos, o reconhecimento de letras, a construção textual e o conhecimento semântico e do léxico. As histórias têm uma sucessão de acontecimentos. Os materiais devem ser dispostos para todos participarem, assim é preciso ter livros para a manipulação, experimentação de todas as crianças. Os recursos na contação de histórias são variados. Eles se vinculam com a organização da sala, com os cantinhos de leitura, com as escolhas do acervo. Contar histórias também é um ato educacional com muita afetividade. Contam- se histórias para refletir, para brincar, para apresentar um determinado tema. Nesse sentido, elas podem estar em diálogo com a pluralidade da sociedade. 29 Contação de histórias Fonte: https://www.ywcanwil.org/wp-content/uploads/2016/03/Color-Provider-reading- to-kids-1.jpg Assim, contar histórias é uma estratégia educacional utilizada de maneira significativa. A escuta da história estimula as crianças em diferentes etapas do desenvolvimento, instrui e permite uma dinâmica interativa e integradora que potencializa a atividade infantil e de autoexpressão. A ludicidade em contar histórias está em convidar as crianças ao jogo de escuta e interação com brincadeiras, músicas e danças para elas elaborarem outros conhecimentos de mundo. Com base na literatura, elas poderão ter inicialmente a descrição de determinados objetos, o reconhecimento de letras, a construção textual e o conhecimento semântico e do léxico. As histórias têm uma sucessão de acontecimentos. Os materiais devem ser dispostos para todos participarem, assim é preciso ter livros para a manipulação, experimentação de todas as crianças. Com o estímulo certo em sala de aula, em casa as crianças vão criar atividades experienciadas por meio de brincadeiras e jogos. As crianças podem ser desafiadas e acompanhar o ritmo da turma, as atividades de leitura e/ ou mediação da literatura, ainda com ritmos, fantoches, dedoches são práticas de movimentos possíveis na interpretação de uma história e podem ser estimulantes para a leitura desde a educação infantil. 30 Mídias Indicamos o programa “Em Questão”, que fala da importância da literatura na formação literária desde a infância. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5_nrXEPqPfs (54:19). Conclusão da aula 3 Na indicação dessas três obras, compreendemos a importância de igualarmos representações antes invisibilizadas. Essa é uma maneira de corrigirmos o curso de subtrações históricas e, na compreensão disso, a diversidade pode ser contemplada. A leitura é um processo contínuo, no qual os estudantes são convidados, estimulados a escolher livros, a ler, a (re)contar, a explorar possibilidades de interação fundamentais no refinamento de seu gosto literário. O professor é um mediador, um provocador na inserção literária de crianças e jovens. Lembrem- se: o convite à literatura depende, também, das relações estabelecidas no cotidiano escolar. Atividades de Aprendizagem Leia o texto abaixo: “ (...) Hoje, é possível dizer que o mundo inteiro é um “espaço em crise”. Uma crise se estabelece de fato quando transformações de caráter brutal – mesmo se preparadas há tempos -, ou ainda uma violência permanente e generalizada, tornam extensamente inoperantes os modos de regulamentação, sociais e psíquicos, que até então estavam sendo praticados. Ora, a aceleração das transformações, o crescimento das desigualdades, das disparidades, as extensões das migrações alteraram ou fizeram desaparecer os parâmetros nos quais a vida se desenvolvia, vulnerabilizando homens, mulheres e crianças, de maneira obviamente bastante distinta, de acordo com os recursos materiais, culturais, afetivos de que dispõem e segundo o lugar onde vivem. Para boa parte deles, no entanto, tais crises se manifestam em transtornos semelhantes. Vividas como rupturas, ainda mais quando são acompanhadas da separação dos próximos, da perda da casa ou das paisagens familiares, as crises os confinam em um tempo imediato - sem projeto, sem futuro -, em um espaço sem linha de fuga. Despertam feridas antigas, reativam o medo do abandono, abalam o sentimento de continuidade de si e a autoestima. Provocam, às vezes, uma https://www.youtube.com/watch?v=5_nrXEPqPfs 31 perda total de sentido, mas podem igualmente estimular a criatividade e a inventividade, contribuindo para que outros equilíbrios sejam forjados, pois em nosso psiquismo, como disse René Kaës, uma “crise libera, ao mesmo tempo, forças de morte e forças de regeneração”. “O desastre ou a crise são também, e sobretudo, oportunidades”, escreveram Chamoiseau e Glissant, após a passagem de um ciclone. “Quando tudo desmorona ou se vê transformado, são também os rigores ou as impossibilidades que se veem transformados. São os improváveis que, de repente, se veem esculpidos por novas luzes”. A leitura pode garantir essas forças de vida? O que esperar dela – sem vãs ilusões – em lugares onde a crise é particularmente intensa, seja em contextos de guerra ou derepetidas violências, de deslocamentos de populações mais ou menos forçados, ou de vertiginosas recessões econômicas? Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos poderiam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vida, em suma.” (Michèle Petit, A arte de ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: ed. 34, 2009.) Com base na leitura acima, busque responder à seguinte pergunta: por que a literatura auxilia na reconstrução de si mesmo? Procure, ainda, escolher um livro para a leitura, pois, para formarmos leitores, precisamos também ser leitores. Boa pesquisa! Aula 4 – Os livros, a literatura e as crianças Apresentação da aula 4 Nesta aula, vamos, entre outras coisas, conhecer a história de 3 obras concebidas para contemplar o público infantojuvenil em sua plenitude. São obras produzidas seguindo critérios quanto à qualidade textual, à qualidade gráfica e à qualidade temática. Ainda que sejam voltados para o nosso público-alvo, o infantojuvenil são livros que podem ser indicados, também, para adultos, o que configura um considerável avanço na busca por uma literatura plural, múltipla, e não limitadora. A literatura indicada para as crianças obedece a uma estrutura temática, design e ilustração distintos do que a literatura propriamente para os adultos. A qualidade literária dos livros destinados à infância foi se especializando e teve muita influência dos planos nacionais de aquisição de livros infantis. Dentre todos, o programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), quando estava a 32 operar, influenciou por meio das exigências dos editais a especialização da literatura infantil. Durante anos, ele teve como objetivo atender as escolas de ensino público federal, estadual, municipal e do Distrito Federal em todos os âmbitos da educação básica, como também materiais de apoio e referenciais para os profissionais, desde que cadastradas no INEP. Nos anos pares, eram atendidas creches e pré-escolas e anos iniciais do ensino fundamental como a educação de jovens e adultos. Nos anos ímpares, eram contempladas as escolas de ensino fundamental, anos finais, e ensino médio. O programa, nos vários momentos, foi destinado à composição e distribuição dos acervos às bibliotecas de escolas brasileiras, incluindo os segmentos da Educação Básica – Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio e Educação de Jovens e Adultos (EJA). Como uma das propostas, antes de sua suspensão pelo governo federal no ano de 2016, o acervo procurou contemplar os vários gêneros literários, como poesia, prosa, conto, crônica, obras clássicas da literatura universal (traduzidas ou adaptadas), diário, memória, relato de viagem, histórias em quadrinhos, livros de imagens, novela, peças teatrais brasileiras e estrangeiras e obras ou antologias de textos de tradição popular brasileira (PAIVA, 2015). O movimento crescente de autores e ilustradores seguindo os critérios do PNBE sobre a qualidade textual, a qualidade gráfica e a qualidade temática impactaram a concepção da produção literária no Brasil ao longo dos anos, formando muitos leitores e auxiliando a se pensar em critérios na seleção da obra literária. Indiscutivelmente, os livros para as crianças foram favorecidos pela escolarização e a criação massiva de escolas infantis e jardins de infância. De forma concomitante, a profissionalização para o atendimento nas escolas de mediares de literatura levou a uma qualificação dos profissionais nessa área (COLOMER, 2001). Assim, os livros aprovados nesses editais também começaram a ser adquiridos pelos planos de leitura em municípios e também em instituições privadas. Essa difusão da literatura infantil como valor cultural impactou a qualidade e a forma de concepção da literatura, pois livro para criança não precisa ser bobo. Fúlvia Rosemberg (1984), desde os anos 1970, pesquisava sobre os espaços de poder entre adultos e crianças na confecção dos livros de literatura infantil. Segundo ela: “O livro, nesta perspectiva, é visto como um dos inúmeros 33 agentes do processo de socialização e a mensagem que contém assume a função de ensinamento real ou virtual 9ROSEMBERG, 1984, p.18)”. A reflexão crítica da autora ainda nos remete à crítica aos estereótipos, ao racismo e às representações de uma maioria de personagens brancas como norma de humanidade. A pesquisa dela contribui para indagarmos se os livros também são um artefato metodológico escolhido pelos adultos para as crianças. Ainda com base na pesquisa dela, a nossa hipótese é de que há um processo de colonialidade epistemológica de saberes que influenciam os adultos quanto ao que deve ser lido para as crianças. O objetivo, então, neste artigo, é de refletir com base na teoria crítica e na análise do discurso, seguindo o teórico Teun Van Dijk (2015), sobre três obras escolhidas pelo PNBE: O Cabelo de Lelê (escrito por Valéria Belém e ilustrado por Adriana Mendonça, 2007), Obax (escrito e ilustrado por André Neves, 2010) e Cadê? (escrito e ilustrado por Graça Lima, 2009). Consideramos a importância de os adultos lerem as histórias infantis como um processo de descolonização de saberes. Neste contexto, utilizaremos os termos descolonização e colonialidade do poder, seguindo o teórico Mignolo (2007). O filósofo e literato indica uma administração colonial na formação de nacionalidades periféricas que permanecem nas bases epistemológicas dos saberes que silenciaram representações fundamentais historicamente, como a dos negros e a dos indígenas. 4.1 Literatura infantil: uma perspectiva teórico-crítica Hunt (2010) destaca a importância de pensar sobre como as pessoas trabalham com os livros e a crítica da teoria literária sobre o livro infantil. Há uma intersecção entre esses grupos que arrolam experiências importantes aos leitores e ela percorre sincronicamente e diacronicamente a cultura. Invariavelmente, se ainda nas Bibliotecas encontrarmos um grupo de livros com a maioria de personagens brancas, com histórias pedagogizantes e com a representação de uma sociedade normativa, é porque a estrutura social influenciou os livros. Essa relação pode ser simbólica, entretanto é nos discursos e nas ilustrações que a exclusão de um grupo de pessoas não brancas é observada (ROSEMBERG, 2014). Esta relação reflete a estrutura social 34 desigual, que buscou silenciar um grupo de pessoas que também compõe a sociedade. A tentativa de invisibilizar grupos como os LGBTI, os negros, as mulheres, os indígenas e ainda pessoas com alguma necessidade especial, é uma estratégia política de padronizar e normatizar a sociedade em espaços simbólicos excludentes. O que isso acarreta de forma prática fica explícito em dados sobre os mapas de violência publicados, como o do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada de 2014 (IPEA), o qual nos mostra que todo ano em torno de 23.100 jovens negros, na idade entre 15 a 29 anos, são assassinados. Segundo a estatística, isso representa que a cada 23 minutos uma pessoa é morta. Consideramos importantes, também, as estatísticas sobre a violência contra os grupos de mulheres e contra os grupos LGBTI, apesar de não referenciarmos neste artigo. Percebemos que a sociedade ainda mantém discursos racistas, machistas e misóginos em sua estrutura, mas como isso se relaciona a uma biblioteca ou ao livro que adquiro para uma criança ler? Essa relação se dá, em um primeiro momento, com uma base simbólica explicada por Teun Van Dijk (2015). Segundo o autor, “há uma compreensão geral das maneiras como o conhecimento, o preconceito e as ideologias são adquiridas através do discurso ” (DIJK, 2015, p.33). E essa relação está nos livros produzidos para o consumo da sociedade, seja em ambientes escolares,seja em não escolares. A estrutura de discriminação e de exclusão pode ser identificada por profissionais engajados e que participam de formações sobre leitura e suas mediações. No entanto, isso pode parecer complexo demais para profissionais que não são da área. Assim, indicamos, de forma simples, como fazer um levantamento em sua biblioteca de literatura infantil. Procure identificar as obras que possui em casa, ou na biblioteca que costumeiramente frequenta. Existem obras com personagens de diferentes gêneros, cores e gêneros textuais diversos. Caso realize essa observação simples e apenas encontre personagens brancas, precisamos refletir sobre a branquitude. Rosemberg (1984) afirmava que essa estrutura de privilégios da branquidade ainda é algo compreendido como padrão universal e norma de humanidade. Henry Giroux (1999), em seus estudos, afirma que a origem da palavra branquidade vem do critical whitenesses studies e se relaciona à 35 colonialidadade e às relações de poder. Assim compreendemos a importância do uso do termo, e consideramos que a tradução também comporta como possibilidade do uso do termo branquitude, As crianças vão reconhecer em suas leituras, de maneira ampla, meninas e meninos brancos nas bibliotecas escolares e não escolares e, com o passar dos anos, estes exemplos se tornarão as personagens de referência no imaginário delas, pois ocuparão um espaço sistematizado de poder nos símbolos observados na sociedade. A estima da criança branca vai sendo fortalecida e influenciará estruturalmente as brincadeiras, os brinquedos e as relações com os pares. Em poucos anos, padronizaremos um jeito de ser, um modelo de cor, brincadeiras e, por fim, criaremos dicotomias que influenciarão um processo de desumanização e de exclusão de outras formas de pensar, vestir, ser e as normatizaremos socialmente, protegendo e privilegiando as pessoas brancas. O espaço de branquitude como reguladora social exclui culturas, subordina e hierarquiza as relações sociais, assim como o machismo o faz, além de outras formas de opressão instituídas. O outro impacto aparecerá em larga escala nos índices de violência apesentados parcialmente no início deste artigo, mas que impactam tantos outros sujeitos de maneira inexorável. 4.2 Três obras a serem lidas também pelos adultos A escolha dos livros seguiu os critérios do PNBE, quanto à qualidade textual, à qualidade gráfica e à qualidade temática e, por isso, foram escolhidos em editais diferentes. A perspectiva de adultas leitoras e pesquisadoras sobre a Educação das Relações Étnico-Raciais (ERER) na escrita deste artigo influenciou, também, esta escolha. Com o objetivo de descolonização dos saberes e de padrões normativos eurocentrados, buscamos três livros. Em conformidade com as questões apresentadas, os autores e autoras deviam ser brasileiros, os livros referenciariam em suas ilustrações personagens não brancas e poderiam ser indicados, também, para os adultos. A seleção final foi de: I) Um livro com uma linguagem poética; II) Um livro-imagem; 36 III) Um livro com uma narrativa em terceira pessoa. Um livro com uma linguagem poética: todo adulto precisa se reencontrar com a poesia produzida por uma obra dedicada à literatura infantil como a encontrada em Obax. Essa obra valoriza a infância por meio da linguagem e das situações exploradas pela criança. A delicadeza desta narrativa aprovada pelo PNBE em 2011 é um encontro com a poesia em um imaginário fluído de descrições que afirmam o onírico e nos levam em uma aventura no continente africano. Quando o sol acorda no céu das savanas, uma luz fina se espalha sobre a vegetação escura e rasteira. O dia aquece, enquanto os homens lavram a terra e as mulheres cuidam dos afazeres domésticos e das crianças. Ao anoitecer, tudo volta a se encher de vazio, e o silêncio negro se transforma num ótimo companheiro para compartilhar boas histórias (NEVES, 2010, p.7). A menina Obax, que significa flor, mora em um lugar onde a chuva é rara. Um dia ela afirma que presenciou uma chuva de flores, entretanto ninguém acredita nela. Assim, ela viaja em cima de um pequeno elefante, Nafisa, que significa pedra preciosa, para confirmar a veracidade dos fatos, entretanto, quando ela vai apresentá-lo para os adultos no local em que vive, encontra apenas uma pedra. Desapontada, ela enterra o amigo e pouco tempo depois nasce um Baobá e chove flores em todos. O ritmo e a sonoridade da narrativa juntamente com as imagens são como bordadas e guardam pequenos detalhes quase invisíveis aos olhos. O cenário é semelhante ao de sonhos, repletos de significados que a personagem desvenda ao leitor. Essa obra é recomendada também para adultos que gostam de imaginar ou já esqueceram como fazê-lo, tratando-se de um convite para brincar e conhecer as paisagens por meio da aventura de uma menina com o seu melhor amigo. 37 Obax Fonte: (NEVES, 2010). Outro livro-imagem: aprovado no PNBE de 2010, o livro Cadê?, de Graça Lima (2009), harmoniza a narrativa e a imagem: o menino que se esconde da mãe em espaços de casa e uma aventura em meio a grandes animais. A ação da brincadeira nas cenas do livro instaura um jogo. Assim a pergunta que se repete pela mãe “Cadê?” seguida de adjetivos carinhosos é o signo para iniciar a brincadeira, desde o título inicial na capa do livro. Com efeito, W. Benjamin apontava que, “[...] a grande lei que, acima de todas as regras e ritmos particulares, rege a totalidade do mundo dos jogos [é] a lei da repetição. Sabemos que para a criança ela é a alma do jogo; que nada a torna mais feliz do que o “mais uma vez” (BENJAMIN, 2009, p. 101). Cadê? Fonte: (LIMA, 2009). 38 Dessa maneira, em cada esconderijo a personagem brinca com os leitores adultos, em um verdadeiro jogo de esconde-esconde. Este livro é indicado principalmente para quem gosta de aventuras, pois como um álbum reaviva a curiosidade para a próxima aventura da personagem, e nos lembra que crianças brincantes veem o mundo com expectativas diferentes da maioria dos adultos. O cabelo de Lelê Fonte: (BELÉM, 2007). Um livro com uma narrativa em terceira pessoa: “O cabelo de Lelê”, escrito por Valéria Belém e ilustrado por Ana Mendonça (2007), é uma narrativa que trata de uma personagem negra que inicialmente não gosta do seu cabelo. Essa é uma ação que questiona os ditames culturais propagados comercialmente pelas mídias. Um dos motivos é a valorização de traços fenotípicos em comerciais e contos de fada geralmente por meio de cabelos lisos, loiros, pele e olhos claros. Há, ainda, modelos eleitos e reproduzidos interminavelmente como ‘beleza’ para a toda a sociedade, por meios de informações diversas, que acabam ditando uma aparência idealizada e acabam normatizando padrões de belezas únicos. 39 Essa relação também é compreendida pela criança, por aquilo que ela consome e assimila na estrutura social. A literatura pode ser questionadora entre fronteiras: o belo idealizado comercialmente e o belo experienciado como natureza fenotípica comum. Por isso, ao fim da história, lê-se: “Lelê gosta do que vê! / Vai à vida, vai ao vento/ Brinca e solta o sentimento/ Descobre a beleza de ser como é/ Herança trocada no ventre da raça/ Do pai, do avô, de além-mar até” (BELÉM, 2007, p.12). O cabelo de Lelê Fonte: https://encrypted- tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcSfsgT6JV5KHdeIdSdTJzhxnO8- DoAUb38QhZhuFfXimcfCHeu_2A A mudança do olhar da personagem ocorre ao se descobrir bela com cabelos cacheados. O senso estético se aprofunda pelo entendimento construído ao se apropriar da cultura afro-brasileira. A identidade é uma afirmação coletiva que se enraíza na história, nos cachos, na pele e mostra a beleza de se descobrir. A leitura desse livro aprovadono PNBE de 2008 é indicada para adultos por um reencontro com uma literatura que afirma identidades negras e descoloniza o imaginário normatizado pela branquitude. Saiba mais Para aprofundar os seus conhecimentos a respeito do universo da literatura infantojuvenil, indicamos a leitura da entrevista com a professora e pesquisadora Regina Zilberman. Disponível em: http://www.ceale.fae.ufmg.br/entrevista-com- regina-zilberman. 40 Mídias Assista à palestra O Perigo de uma História Única com Chimamanda Adichie, que traz reflexões importantes sobre o universo das histórias e da literatura. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EC-bh1YARsc&t=155s. Conclusão da aula 4 As obras de literatura infantil selecionadas possuem ilustrações que revelam mais que as palavras. A sensibilidade das narrativas e as imagens recontam de forma muito cuidadosa histórias de personagens infantis, além de serem livros indicados para crianças, que não restringem, de forma alguma, a leitura dos adultos. É fundamental a compreensão de que a literatura infantil se especializou, como afirmamos anteriormente, e por isso é importante observar que ela tem uma linguagem diferenciada, ilustrações específicas em estruturas e suportes diferentes, indicada também para adultos leitores. Assim, a leitura das obras por adultos ainda pode influenciar a percepção literária deles, desde que, consideremos que mesmo com especificidades distintas, a literatura infantil brasileira pode descolonizar padrões e inserir novas maneiras de representar as relações sociais nas histórias. Essa representação discursiva de personagens não brancas não é uma forma de pedagogizar o conhecimento, mas sim de apresentar uma parcela de crianças sendo crianças nas histórias infantis, descobrindo-se, brincando em um imaginário ficcional ampliado. O legado dessas personagens abre portas para outras representações em um processo de descolonização dos imaginários e por isso é indicada também para os adultos interessados na literatura infantil. O direito à diferença, à emancipação e ao reconhecimento são fundamentos epistêmicos imprescindíveis para que os sujeitos tenham a garantia no exercício de escolha e possam ser protagonistas nas searas políticas, epistemológicas, sociais e educacionais. Por isso, propomos um giro decolonial como uma proposição para, pelo menos, provocar o debate, nos quais os maiores beneficiados serão, com https://www.youtube.com/watch?v=EC-bh1YARsc&t=155s 41 certeza, as crianças, com o direito à fruição por meio das histórias literárias em que se sintam representados discursivamente, fenotipicamente e de forma afirmativa. Atividades de Aprendizagem Busque um livro que possua diferentes representações em suas personagens, podem ser asiáticos, indígenas, ciganos, negros e tente observar como tais personagens são tratadas na narrativa: se elas possuem família, se elas possuem amigos, tais representações a que chamamos de simbólicas e influenciam identidades. Quando em uma dessas relações as personagens constantemente aparecem sendo humilhadas, inferiorizadas afirmamos que tais livros servem de maneira ideológica para influenciar formas de pensar de determinados grupos. Assim, faça tal comparação nos livros escolhidos e busque identificar como as infâncias são representadas. 42 Índice Remissivo A diversidade na literatura infantojuvenil: uma reflexão .......................................... (Epistemologia; espaços sociais; pluralidade) 25 A importância de se pensar em critérios para os livros infantojuvenis ...................... (Critérios; diálogos, mediação) 23 A literatura infantojuvenil e a formação de leitores .................................................. (Brincadeira; interação; novas experiências) 12 A literatura infantojuvenil e as infâncias .................................................................. (Fruição; livros infantis; objeto-livro) 10 A literatura infantojuvenil: definições ....................................................................... (Imaginário infantil; linguagem; vivências culturais) 07 (En)cantar histórias ................................................................................................. (Critérios; estrutura temática; qualidade literária) 23 Literatura infantil: uma perspectiva teórico-crítica ................................................... (Crítica; estrutura de discriminação; teoria literária) 33 Literatura infantojuvenil: cânones e sugestão de leitura .......................................... (Crianças; jovens; qualidade) 15 Literatura infantojuvenil: introdução ........................................................................ (Considerações históricas; diretrizes educacionais; durabilidade da literatura) 07 O cânone e a literatura infantil .................................................................................. (Caminho de apreciação; interesse das crianças; leitores) 17 O cânone na literatura infantojuvenil ........................................................................ (Aquisição de linguagem; clássicos da literatura infantil; políticas públicas) 16 Organização e leitura ............................................................................................... (Afetividade; cantinhos de leitura; contação de histórias) 28 Os livros, a literatura e as crianças ........................................................................... (Acervos; estrutura temática; ilustração) 31 Três obras a serem lidas também pelos adultos ..................................................... (Linguagem poética; livro-imagem; narrativa em 3ª.pessoa) 35 43 Referências ALCARAZ, Rita de Cássia Moser; DE SIQUEIRA MARQUES, Eugenia Portela. A literatuta infanto-juvenil como possibilidades de afirmação da identidade negra. Revista da Anpoll, v. 1, n. 41, p. 50-63, 2016. BELÉM, Valeria. O cabelo de Lelê. São Paulo: IBEP, 2007. BRANDÃO, Ana Carolina Perrusi; ROSA, EC de S. A leitura de textos literários na sala de aula: é conversando que a gente se entende. 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