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250 páginas semioeasy: Apostila de semiologia médica com resumos de todos os sistemas do corpo. Material completo, referenciado e ilustrado com imagens e esquemas. Anne Caroline Marques, estudante de Medicina, influencer digital e empreendedora. No Instagram, seu perfil é equilibrado em quatro pilares: exercício físico, alimentação saudável, saúde mental e estudos. Lá ela compartilha os seus aprendizados de vida diários, dicas sobre a faculdade, rotina e, principalmente, mostra que a sua a vida vai muito além do seu curso de Medicina. AUTORIA Essa apostila foi feita com muito esforço e dedicação ao longo de 4 semestres da minha formação em Medicina. Peço que, ao adquirir, por favor, não compartilhe com ninguém. CONSIDERAÇÕES Anne Marques A P O S T I L A D E S E M I O L O G I A M É D I C A I. ANAMNESE 1 17 24 29 31 52 60 66 II. EXAME FÍSICO GERAL Exame ocular Exame auditivo Exame nasal Exame bucal 5 IV. EXAME CARDÍACO Insuficiência cardíaca 33 43 V. EXAME PULMONAR Asma x DPOC Síndromes pleuropulmonares VI. EXAME ENDÓCRINO Exame da hipófise Exame da tireoide Exame das adrenais Diabetes mellitus 72 77 84 94 100 S U M Á R IO III. EXAME DE CABEÇA E PESCOÇO VII. EXAME DO ABDOME 106 113 119 127 Exame do estômago Exame do esôfago Síndromes diarreicas A P O S T I L A D E S E M I O L O G I A M É D I C A 133 141 147 153 189 203 206 X. EXAME DO APARELHO LOCOMOTOR Sinais e sintomas reumatológicos Doenças do colágeno XI. EXAME DO APARELHO REPRODUTOR Exame ginecológico Exame da genitália masculina 213 220 S U M Á R IO VIII. EXAME DERMATOLÓGICO Dermatites Micoses superficiais Tumores cutâneos 155 168 173 178 182 IX. EXAME NEUROLÓGICO Sinais e sintomas neurológicos Cefaleias Epilepsia Acidente vascular cerebral XII. EXAME DO APARELHO URINÁRIO 226 230 233 237 244 Infecção do trato urinário Litíase renal Síndromes nefrótica e nefrítica Insuficiência renal aguda e crônica A P O S T I L A D E S E M I O L O G I A M É D I C A 1 Capítulo 1 Anamnese significa trazer de volta à mente todos os fatos relacionados com a doença e o paciente; Tem como objetivo conhecer o paciente e a causa de sua doença através de uma entrevista médica; Se bem feita, culmina em decisões diagnósticas e terapêuticas corretas. Se mal feita, em contrapartida, desencadeia várias consequências negativas; • Estabelecer condições para uma adequada relação médico-paciente; • Conhecer, por meio da identificação, os determinantes epidemiológicos que influenciam o processo saúde-doença de cada paciente; • Fazer a história clínica, registrando, detalhada e cronologicamente, os problemas de saúde do paciente; • Registrar e desenvolver práticas de promoção da saúde; • Avaliar o estado de saúde passado e presente do paciente, conhecendo os fatores pessoais, familiares e ambientais que influenciam seu processo saúde-doença; • Conhecer os hábitos de vida do paciente, bem como suas condições socioeconômicas e culturais; • Avaliar de maneira clara os sintomas de cada sistema corporal. • A anamnese pode ser conduzida de três maneiras: • Deixar o pacientar falar, livre e espontaneamente e, assim, o médico se limita a ouvi-lo, sem que sua presença não exerça influência inibidora ou coercitiva; • Outra maneira, é quando o médico tem um esquema básico e conduz a entrevista. Essa técnica exige rigor técnico do médico e ele deve ter cuidado para que não se deixe levar por ideias preconcebidas; • Outra maneira é o médico deixar que o paciente relate suas queixas para depois conduzir a entrevista. Paciente informado ou expert Com a capacidade do paciente obter informações sobre sintomas, doenças e tratamentos, surge um novo tipo de entrevista chamado de “anamnese dialogada”. Assim, a anamnese é feita através de um diálogo amparado nas informações trazidas pelos pacientes e nos conhecimentos científicos do médico. Espírito preconcebido: É um erro técnico que deve ser evitado, pois pode ser uma tendência natural do examinador. • É no primeiro contato que se encontra a melhor oportunidade para criar uma boa relação médico-paciente; • Cumprimente o paciente, pergunte o nome dele e se apresente; • Não utilize termos como “vovô”, “vozinha” para os seus pacientes idosos; 2 Capítulo 1 • Ouça com atenção o que o paciente tem a dizer e nesse momento procure identificar alguma condição especial como dor, sonolência, ansiedade, hostilidade, tristeza e confusão mental para que assim você conduza a anamnese da maneira adequada; • Cuidado para não sugestionar o paciente com perguntas que surgem de ideias preconcebidas; • Sintomas bem investigados abrem caminho para um exame físico objetivo. Apoio: afirmações de apoio dão segurança ao paciente e o encoraja a prosseguir no relato de sua queixa; Esclarecimento: O médico procura definir de maneira mais clara o que o paciente está relatando; Confrontação: mostrar ao paciente algo acerca das suas próprias palavras e comportamento; um exemplo é quando o paciente diz que está bem, mas seu comportamento, sua expressão dizem o contrário; Resposta empática: é a compreensão e aceitação do médico sobre algo relato pelo paciente através de palavras, gestos ou atitudes, como colocar a mão sobre o braço do paciente, oferecer um lenço ou apenas dizer que compreende seu sofrimento. Mas é necessário ter cuidado, pois tal gesto pode desencadear reações inesperadas ou até contrários por parte do paciente; Silêncio: Há momentos na anamnese, em que o médico deve permanecer calado, O silêncio pode ser o mais adequado quando o paciente se emociona ou chora. Identificação • Data e hora da anamnese; • Nome do paciente: designar o paciente pelo número do leito ou pelo diagnóstico são expressões que jamais devem ser usadas; • Idade: Cada grupo etário tem sua própria doença e, no contexto da anamnese, a relação médico-paciente apresenta peculiaridades de acordo com as diferentes faixas etárias; • Sexo/Gênero: Há enfermidades que só ocorrem em determinado sexo. A questão de gêneros aponta para um processo de adoecimento diferenciado no homem e na mulher; • Cor/etnia: A influência da etnia conta com muitos exemplos como a anemia falciforme em negros, hipertensão arterial que são mais graves em negros e o câncer de pele que é mais comum em brancos; • Estado civil; • Profissão; • Local de trabalho; • Naturalidade, residência e procedência; • Religião; • Escolaridade; • Plano de saúde; • Nome da mãe: Importante para diferenciar os pacientes homônimos; Fonte e confiabilidade: fonte das informações que você está coletando, se é o próprio paciente ou um acompanhante, assim como registrar o grau de confiabilidade do informante; Queixa principal • É o motivo que leva o paciente a procurar o serviço médico; 3 Capítulo 1 • É importante ter cuidado com os “rótulos diagnósticos” e procurar pelos sintomas; • Para se obter a queixa principal, você pode usar as seguintes expressões: - O que te trouxe até aqui? - O que está sentindo? - Como posso te ajudar? Fatores de risco: • Alcoolismo; • Áreas endêmicas; • Asma; • Cardiopatia; • Cintura Quadril; • DPOC; • DST; • Diabetes Mellitus; • Dislipidemia; • Doença Autoimune; • Drogas; • Internamento Recente; • Hepatopatia; • Hipertensão Arterial; • Hipotireoidismo; • Insuficiência Renal; • Neoplasia; • Nulípara / Multípara; • Obesidade; • Sedentarismo; • Sepse; • Tabagismo. História da doença atual • Sintoma guia; • Início, cronologia; - Confirme com o paciente se você entendeu; • Características: • Localização, duração, intensidade, frequência, tipo da dor; • Desencadeantes, fatores de melhora e piora; • Relação com outras queixas; • Evolução; • Tratamentos;• Situação atual; História patológica pregressa: • Doenças na infância; • Alergias; • Trauma; • Internamentos; • Transfusão sanguínea; • Cirurgias; • Vacinas; • Medicamentos em uso; História pessoal e social: • Gestação; • Desenvolvimento; • Vacinas; • Condições socioeconômicas (trabalho, renda habitação); • Qualidade do sono; • Evacuações/micções; • Psicológico, relacionamentos; • Atividade física (tipo, frequência e duração); • Hábitos (tabagismo, alcoolismo, drogas ilícitas); • Atividade sexual (primeira relação, mora sozinho ou com companheiro (a), sexo seguro); • Orientação sexual: - Siglas em que H significa homem, M significa mulher e S significa faz sexo com; - HSM, HSH, HSMH, MSH, MSM, MSHM. Anamnese alimentar • Quantidade, frequência, alimentos preferidos: 4 Capítulo 1 - “Alimentação quantitativa e qualitativamente adequada” - “Reduzida ingesta de fibras” • “Insuficiente consumo de proteínas, com alimentação à base de carboidratos” - “Consumo de calorias acima das necessidades” - “Alimentação com alto teor de gorduras” - “Reduzida ingesta de verduras e frutas” - “Insuficiente consumo de proteínas sem aumento compensador da ingestão de carboidratos” - “Baixa ingestão de líquidos” - “Reduzida ingesta de carboidratos” - “Reduzido consumo de gorduras” - “Alimentação puramente vegetariana” - “Alimentação láctea exclusiva” História familiar: • Estado de saúde dos parentes próximos; • Doenças genéticas, cardíacas, neurológicas; • Mortes. Interrogatório sistemático: • É comum o paciente não relatar um ou outro sintoma durante a elaboração da história da doença atual; • Explique ao paciente, comece com perguntas gerais e depois específicas; • Faça uma revisão de sistemas de acordo com a queixa apresenta, utilizando o seu raciocínio diagnóstico; • Não induza o paciente; Referência: Semiologia Médica, Porto. Capítulo 2 5 í Também chamado de somatoscopia ou ectoscopia, é a obtenção de dados gerais através da observação dos segmentos corporais do paciente; Roteiro sugerido do exame físico geral: 1. Estado geral; 2. Nível de consciência e orientação no tempo e espaço; 3. Fala e linguagem; 4. Estado mental; 5. Estado nutricional / Antropometria; 6. Condições de higiene; 7. Postura e Atitude ou decúbito preferencial; 8. Idade aparente x idade cronológica; 9. Biotipo ou tipo morfológico; 10. Fácies; 11. Avaliação de pele e mucosas (hidratação, palidez, icterícia e cianose); 12. Enchimento capilar (perfusão periférica); 13. Anexos: Cabelos, pelos e unhas (fâneros); 14. Edema/Circulação colateral; 15. Sistema Osteoarticular. O paciente deve ser examinado nas posições de decúbito, sentada, de pé e caminhando; É uma avaliação usada para compreender até que ponto a doença atingiu o organismo, visto como um todo. Serve de alerta para o médico nos casos com escassos sinais ou sintomas indicativos de uma determinada enfermidade; A manutenção de bom estado geral pode estar associada a uma doença grave, isso vai indicar uma boa capacidade de reação do organismo, o que tem, inclusive, valor prognóstico; O estado é classificado em três nomenclaturas: - Bom estado geral (BEG); - Regular estado geral (REG); - Mau estado geral (MEG). Um paciente que está em coma, não significa necessariamente que ele está num mau estado geral. Entre o estado de inteiramente consciente e o estado comatoso é possível distinguir diversas fases intermediárias em uma graduação: Vigília; estado completamente normal de consciência; Obnubilação: quando o nível de consciência é pouco comprometido, permanecendo o paciente em estado de alerta ainda que algo diminuído; Sonolência: o paciente é facilmente despertado, responde mais ou menos apropriadamente, mas logo volta a dormir; Confusão mental: perda de atenção, pensamento não claro, respostas lentas e não há uma percepção temporoespacial normal; Torpor ou estupor: quando a alteração de consciência é mais pronunciada, mas o paciente ainda é capaz de ser despertado por estímulos mais fortes e dolorosos; Capítulo 2 6 Coma: quando o paciente não é despertado por estímulos fortes e não apresenta movimentos espontâneos. Habitualmente é prolongado, do qual o paciente pode ou não emergir. A perceptividade pode ser analisada da seguinte maneira: Resposta a uma ordem simples: “feche os olhos e mostre a língua”; Orientação de tempo: - Que dia é hoje? - Que anos estamos? - Que horas são? Orientação de espaço: - Onde você está agora? - Que cidade/bairro estamos? A reatividade pode ser analisada por: Reação de orientação e de alerta: o examinador provoca um ruído e observa se o paciente o localiza com os olhos, com abertura e movimentação; Reação de piscamento à ameaça de atingir os olhos; Reação à dor – aplicação de estímulos dolorosos leves. Escala de coma de Glasglow: • É o instrumento mais utilizado para determinar alterações de nível de consciência; • Os extremos da escala (15 ou 3 pontos), caracterizam a normalidade (15 pontos) ou o estado de coma grave (3 pontos); Entre os dois extremos, encontram-se vários graus de comprometimento de nível de consciência, sendo que abaixo de 8 pontos, corresponde ao estado de coma; As alterações da fala classificam-se em: Disfonia ou afonia: alteração do timbre da voz causada por alguma alteração no órgão fonador. A voz pode tornar-se rouca, fanhosa ou bitonal; Dislalia: alterações menores da fala, comuns em crianças, como a troca de letra; - Uma forma especial é a disritmolalia, que compreende distúrbios no ritmo da fala, incluindo a gagueira e a taquilalia; Disartria: alterações nos músculos da fonação, incoordenação cerebral (voz arrastada, escandida), hipertonia no parkinsonismo (voz baixa, monótona e lenta) ou perda do controle piramidal (paralisia pseudobulbar); Disfasia: aparece com total normalidade do órgão fonador e dos músculos da fonação e depende de um distúrbio na elaboração cortical da fala. Há Capítulo 2 7 diversos graus de disfasia, desde mínimas alterações até perda total da fala; - A disfasia pode ser de recepção ou sensorial (o paciente não entende o que se diz a ele) ou da expressão ou motora (o paciente entende, mas não consegue se expressar), ou ainda do tipo misto, o que é mais frequente. A disfasia traduz lesão do hemisfério dominante. O estado mental é analisado através de 4 aspectos, são eles: Atenção: pergunte qual o nome do paciente, a sua idade e como é o nome do seu acompanhante; Memória: peça que ele grave três palavras e analise se sua memória está curta ou longa; Conteúdo do pensamento: observe se o seu pensamento é pobre (repetitivo), paranoico, persecutório, hipocondríaco ou se contém alguma ideia obsessiva, Humor: 0bserve se o seu humor é eutímico (tranquilo), disfórico, deprimido e ansioso. As medidas antropométricas incluem peso, altura, envergadura (distância pubovértice e puboplantar), índice de massa corporal (IMC), circunferências da cintura e do abdome, circunferência da panturrilha e perímetro cefálico; O estado nutricional tem a ver com nutrientes presentes no organismo do indivíduo e não necessariamente com o peso. Uma pessoa pode ter um peso adequado ou ser obesa e mesmo assim ser desnutrida; Peso: O paciente deve ser pesado descalço, com a menor quantidade de roupa possível, posicionado no centro da balança, enquanto o avaliador deve ficar à frente da balança e à esquerda do paciente para realizar a leitura; Em pacientes acamados, o peso pode ser aferido em cama-balança ou balança de pesagem para leito. Peso ideal: é calculado a partir de parâmetroscomo idade, biotipo, sexo e altura, podendo variar até 10% a menos ou 10% a mais; O índice de massa corporal (IMC) é o indicador de estado nutricional mais utilizado, no entanto, ele não distingue massa gordurosa de massa magra; Deve-se ainda estar atento ao biotipo do paciente, pois, este parâmetro tem influência na distribuição do tecido adiposo; O IMC considerado ideal para homens é 22 kg/m2 para mulheres, 21 kg/m2. IMC = Peso (kg) / Altura² (m) Capítulo 2 8 Peso ajustado: É o peso estimado a partir do peso atual (PA) e do peso ideal (PI). É utilizado para fazer prescrições de dietas em pacientes ambulatoriais ou para suporte nutricional em pacientes hospitalizados; - As seguintes fórmulas podem ser utilizadas a fim de se estimar o peso ajustado para obesos (IMC > 30 kg/m²) e desnutridos (IMC < 18,5 kg/m²): Obesos: (PA – PI) × 0,25 + PI Desnutridos: (PI – PA) × 0,25 + PA Peso estimado: É o peso obtido a partir de fórmulas ou tabelas. É utilizado quando não há possibilidade de se obter o peso usual ou quando não se pode pesar o indivíduo. Peso seco: É o peso descontado de edema e ascite. O valor a ser descontado depende da localização e da intensidade do edema; Peso corrigido: Deve ser utilizado em pacientes amputados. - Fórmula utilizada para se estimar o peso corrigido: - Peso corrigido = (Peso antes da amputação x 100) / (100% - % da amputação); Circunferência da cintura (CC): A CC reflete o conteúdo de gordura visceral, ou seja, aquela aderida aos órgãos internos, como intestinos e fígado. Essa gordura apresenta associação com a gordura corporal total, sendo o tipo de obesidade mais comumente associada à síndrome metabólica e às doenças cardiovasculares; Em pacientes com IMC > 35 kg/m², justifica-se a utilização da circunferência abdominal (CA), pela dificuldade em medir a CC. - Cheiro característico; - Roupas; - Unhas; - Pelos; - Espaços interdigitais. • Brevilíneo: - Pescoço curto e grosso; - Tórax alargado e volumoso; - Membros curtos em relação ao tronco; - Angulo de Charpy (costal) maior que 90°; - Musculatura desenvolvida e panículo espesso; - Tendência para baixa estatura. • Mediolíneo: - Equilíbrio entre os membros e o tronco; - Desenvolvimento harmônico da musculatura e do panículo adiposo; - Angulo de Charpy (costal) em torno de 90°. • Longilíneo: - Pescoço longo e delgado; - Tórax afilado e chato; - Membros alongados; - Angulo de Charpy (costal) menor que 90°; - Musculatura delgada e panículo adiposo pouco desenvolvido; Cumpre fazer uma ressalva em relação ao peso ideal, pois sua utilização é criticável quando se trata de indivíduos dentro da faixa normal (IMC entre 18,5 e 24,9 kg/m2). Isto porque deve-se respeitar o biotipo e as características individuais do paciente, sem estabelecer metas que podem levar a exageros e transtornos alimentares como bulimia e anorexia. Capítulo 2 9 - Tendência para estatura elevada. A atitude ou posição do paciente deve ser observada não apenas no leito, mas também quando ele se põe de pé, pois uma postura defeituosa pode ser consequência de hábitos posicionais (má postura) ou de afecção da coluna vertebral; A postura é classificada da seguinte maneira: - Boa postura: cabeça ereta ou ligeiramente inclinada para diante, peito erguido, abdome inferior achato ou levemente retraídos e curvas posteriores nos limites normais; - Postura sofrível: cabeça levemente inclinada para diante, peito achatado, abdome passa a ser a parte mais saliente do corpo, curvas posteriores exageradas; - Má postura: cabeça acentuadamente inclinada para diante, peito deprimido, abdome saliente e relaxado, curvas posteriores exageradas. Atitude e decúbito preferido no leito: são posições adotadas pelo paciente no leito ou fora dele, por comodidade, hábito ou com objetivo de conseguir alívio para dores e desconfortos; Algumas posições são voluntárias, enquanto outras independem da vontade do paciente ou são resultantes de estímulos cerebrais. Atitudes voluntárias: Atitude genupeitoral: também chamada de “prece maometana”, é comum em cardiopatias restritivas como derrame pericárdico, pois melhora o retorno venoso (enchimento do coração); Atitude ortopneica: o paciente apoia as mãos no colchão para facilitar a respiração e aliviar a falta de ar decorrente da insuficiência cardíaca, asma brônquica ou ascite volumosa; Posição de cócoras: é observada em crianças com cardiopatia congênita Boa postura (A), postura sofrível (B), má postura (C). Capítulo 2 10 cianótica (Tetralogia de Fallot, por exemplo). Os pacientes descobrem instintivamente que essa posição alivia a hipóxia generalizada em decorrência da diminuição do retorno venoso. Atitude Parkinsoniana: o paciente com doença de Parkinson apresenta semiflexão da cabeça, tronco membros inferiores e, ao caminhar, parece estar correndo atrás do seu próprio eixo de gravidade. Decúbitos: significa “posição de quem está deitado” e decúbito preferido indica como o paciente prefere ficar no leito, desde que o faça conscientemente por hábito ou para obter alívio de algum padecimento. - Decúbito lateral: posição que costuma ser adotada quando há uma dor de origem pleurítica. Por meio dela, o paciente reduz a movimentação dos folhetos pleurais do lado sobre o qual repousa. Ele se deita sobre o lado da dor; - Decúbito dorsal: com pernas fletidas sobre as coxas e estas sobre a bacia, é observado nos processos inflamatórios pelviperitoneais; - Decúbito ventral: comum nos portadores de cólica intestinal. O paciente deita-se de bruços e, às vezes, coloca um travesseiro debaixo do ventre; - Decúbitos com variados graus de flexão da coluna são observados nas lombalgias (posição antálgica). Atitudes involuntárias: Atitude passiva: O paciente fica na posição em que é colocado no leito, sem contratura muscular. É observada nos pacientes inconscientes ou comatosos; Opistótono: decorrente de contratura da musculatura lombar, sendo observada nos casos de tétano e meningite. O corpo passa a se apoiar na cabeça e nos calcanhares, emborcando- se como um arco; Pleurostótono: observado no tétano, na meningite e na raiva. O corpo se curva lateralmente. Posição em gatilho: encontrada na irritação meníngea, é mais comum em crianças e caracteriza-se pela hiperextensão da cabeça, flexão das pernas sobre as coxas e encurvamento do tronco com concavidade para diante. Mão pêndula da paralisia radial: ocorre devido a lesão do nervo radial. Capítulo 2 11 É o conjunto de dados exibidos na face do paciente., resultando de elementos anatômicos associados à expressão fisionômica; Os principais tipos de fácies são: Fácies normal ou atípica: é a expressão individual de cada paciente sem caracterizar algum distúrbio ou alteração patológica. Portanto, não há necessidade de descrevê-la; - No entanto, é importante identificar, no rosto do paciente, sinais indicativos de tristeza, ansiedade, medo, indiferença e apreensão; Fácies hipocrática: caracterizada por olhos fundos, parados e inexpressivos, nariz afilado, lábios entreabertos, delgados e com uma discreta cianose, palidez cutânea, rosto quase sempre coberto de suor e “batimentos das asas do nariz” (movimentação de dilatação da aba nasal durante a inspiração); - Esse tipo de fácies indica doença grave ou estado avançado de várias doenças. Fácies renal: caracterizada por edema predominante ao redor dos olhos que se intensifica pela manhã e palidez cutânea. Ocorre devido a uma redução acentuada de albumina e é observada nas doenças renais, particularmente na síndrome nefrótica e na glomerulonefrite difusa aguda (GNDA); Fácies leonina:caracterizada por pele espessa, nódulos de tamanhos variados e confluentes, supercílios caídos, nariz espessado e alargado, lábios grossos e proeminentes, bochechas e mento deformados pelo aparecimento de nódulos, barba escasseia ou desaparece. Essas alterações são observadas em pacientes com hanseníase. Fácies adenoidiana: caracterizada por nariz pequeno e afilado e boca sempre entreaberta. Aparece nos indivíduos com hipertrofia das adenoides, as quais dificultam a respiração pelo nariz ao obstruírem os orifícios posteriores das fossas nasais. Fácies parkinsoniana: cabeça inclinada para frente e imóvel nesta posição, olhar fixo, supercílios elevados e a fronte enrugada conferem ao paciente uma expressão de espanto. Costuma-se dizer que esses pacientes se parecem com uma figura de máscara. falta de expressividade facial. Essa fácies é observada na síndrome na Doença de Parkinson; Fácies basedowiana: caracterizada por olhos salientes (exoftalmia) e brilhantes, destacando- se no rosto magro, expressão fisionômica de Capítulo 2 12 vivacidade, espanto e ansiedade e bócio. Indica hipertireoidismo (Doença de Graves); Fácies mixedematosa: caracterizada por um rosto arredondado, nariz e lábios grossos, pele seca, espessada e com acentuação de seus sulcos, pálpebras infiltradas e enrugadas, supercílios escassos, cabelos secos e sem brilho, expressão fisionômica indicativa de desânimo e apatia. Esse tipo de fácies aparece no hipotireoidismo ou mixedema; Fácies acromegálica: caracterizada pela saliência das arcadas supraorbitárias, proeminência das maçãs do rosto e maior desenvolvimento do maxilar inferior, além do aumento do tamanho do nariz, lábios, língua e orelhas. Nesse conjunto de estruturas hipertrofiadas, os olhos parecem pequenos. Indica hiperfunção hipofisária; Fácies cushingoide: caracterizada por rosto arredondado (congesto) e levemente cianótico com atenuação dos traços faciais, acompanhado de obesidade do tronco, pescoço e abdome e acne. Este tipo de fácies é observado nos casos de síndrome de Cushing por hiperfunção do córtex suprarrenal. Pode ocorrer também nos pacientes que fazem uso prolongado de corticosteroides. Fácies downiana: caracterizada por uma prega cutânea (epicanto) que torna os olhos oblíquos, bem distantes um do outro, rosto redondo, boca quase sempre entreaberta e uma expressão fisionômica de pouca inteligência. É observada na Síndrome de Down; Fácies do deficiente mental: caracterizada por traços faciais apagados e grosseiros, boca entreaberta, às vezes com salivação, hipertelorismo (má formação congênita caracterizada pelo afastamento excessivo dos olhos), estrabismo, olhar desprovido de objetivo, olhos não se fixam em algo, meio sorriso sem movimentação; Fácies de depressão: caracterizada pela expressividade do rosto, cabisbaixo, olhos pouco brilhantes e fixos em um ponto distante ou voltados para o chão. acentuação do sulco nasolabial e cantos da boca rebaixados. O conjunto fisionômico denota indiferença, tristeza e sofrimento emocional. É observada nos transtornos depressivos; Capítulo 2 13 Fácies de paralisia fácil periférica (Bell): caracterizada pela assimetria da face, impossibilidade de fechar as pálpebras ipsilateral a lesão, desvio da comissura labial/desvio da comissura para o lado são, fissura palpebral alargada, apagamento do sulco nasolabial e queda do ângulo da boca ipsilateral. Indica atrofia muscular progressiva; Fácies miastênica ou fácies de Hutchinson: caracterizada por ptose palpebral bilateral que obriga o paciente a franzir a testa e levantar a cabeça, estrabismo e expressão amímica. Ocorre na miastenia gravis; Fácies etílica: caracterizada por olhos avermelhados e caídos e certa ruborização da face, hálito etílico, voz pastosa e um sorriso meio indefinido; Fácies esclerodérmica: denominada também fácies de múmia e caracterizada pela imobilidade facial devido a alterações da pele, que se torna apergaminhada, endurecida e aderente aos planos profundos, com repuxamento dos lábios, afinamento do nariz e imobilização das pálpebras. A fisionomia é inexpressiva, parada e imutável. Fácies lupóide: caracterizada por eritema na região malar e dorso do nariz, erupções cutâneas, alopecia e lesão fotorreativa. É indicativa de lúpus eritematoso sistêmico (LES); Fácies tetânica: caracterizada por sorriso sardônico, trismo (contratura dolorosa da musculatura da mandíbula/masseteres), deformidades fisionômicas e rigidez muscular. Fácies de sífilis congênita: apresenta fronte desenvolvida, nariz em forma de sela, dentes de Hutchinson. Na neurosífilis, os pacientes podem apresentar o sinal de Argyll Robertson composto por miose + abolição do reflexo fotomotor + conservação do reflexo de acomodação. Na ectoscopia devem ser avaliadas a coloração e a hidratação da pele, incluindo a análise de presença de icterícia e cianose. • Cabelos: deve se analisar a implantação, distribuição, quantidade e coloração. • Cílios e supercílios; Capítulo 2 14 • Unhas: deve se analisar a forma ou configuração, tipos de implantação, espessura, superfície, consistência, brilho e coloração; - A ocorrência de manchas brancas é comum em pessoas sadias e são chamadas leuconíquias. Intoxicação por arsênio, déficit de albumina ou déficit vitaminas, traumas e uso de antibióticos podem alterar a cor das unhas. O estado de hidratação do paciente é avaliado de acordo com os seguintes parâmetros; - Alteração abrupta do peso; - Alterações da pele quanto à umidade, elasticidade e turgor; - Alteração das mucosas quanto à umidade; - Tensão ocular; - Fontanelas em crianças; - Estado geral; Um paciente estará hidratado quando a oferta de líquidos e eletrólitos estiver de acordo com as necessidades do organismo e quando não houver perdas extras (diarreia, vômitos, febre, taquipneia, sudorese excessiva). No estado de hidratação normal, em pessoas de cor branca, a pele é rósea com boa elasticidade e com leve grau de umidade, as mucosas são úmidas, não há alterações oculares nem perda abrupta de peso. No caso de crianças, as fontanelas são planas e normotensas, e o peso mantém curva ascendente. O estado geral é bom, e a criança se apresenta alegre e comunicativa, bem como sorri facilmente. Já a desidratação é a diminuição de água e eletrólitos totais do organismo, caracterizando- se por: - Sede; - Diminuição abrupta do peso; - Pele seca, com elasticidade e turgor diminuídos; - Mucosas secas; - Olhos afundados (enoftalmia) e hipotônicos; - Fontanelas deprimidas no caso de crianças; - Estado geral comprometido; - Excitação psíquica ou abatimento; - Oligúria (produção de urina abaixo do normal). - Normal se for menor que 2 segundos em adultos e entre 5 a 7 segundos em recém- nascidos; - No entanto, possui baixa sensibilidade e especificidade. A investigação semiológica do edema tem início na anamnese, quando se deve obter três informações: tempo de duração, localização, evolução; Capítulo 2 15 No exame físico completa-se a análise, investigando-se os seguintes parâmetros: • Localização e distribuição: - O edema generalizado é também chamado de anasarca e pode estar presente na síndrome nefrótica; - Um exemplo de edema localizado é o sinal de Romaña na Doença de Chagas; • Intensidade em cruzes (Sinal de Cacifo); Edema + corresponde a uma depressão leve (2mm), contorno normal, associado com volume do líquido intersticial; Edema ++ corresponde a uma depressão mais profunda (4mm), contorno quase normal, prolonga mais que edema +1; Edema +++ corresponde a uma depressão profunda(6mm), permanece vários segundos após a pressão, edema de pele óbvio pela inspeção geral; Edema +++ corresponde a uma depressão profunda (8mm), permanece por tempo prolongado após a pressão e inchaço evidente. • Consistência • Elasticidade • Temperatura da pele circunjacente; • Sensibilidade da pele circunjacente; • Outras alterações da pele adjacente. As causas de um edema podem ser: inflamatória, alérgica, medicamentosa, hormonal, postural, nefrótica, gravidez, hepatopatia, insuficiência cardíaca congestiva ou por desnutrição. Presença de circuito venoso anormal visível ao exame da pele; Indica dificuldade ou impedimento do fluxo venoso através dos troncos venosos principais (cava inferior, cava superior, tronco venoso braquicefálico, ilíacas primitivas, veia cava). Por causa desse obstáculo, o sangue se desvia para as colaterais previamente existentes, tornando-se um caminho substituto capaz de contornar o local ocluído, parcial ou totalmente. A circulação colateral deve ser analisada sob os seguintes aspectos: Localização: Tórax, abdome, raiz dos membros superiores e segmento cefálico são as regiões em que se pode encontrar a circulação colateral, cuja avaliação contribui para o raciocínio diagnóstico. Porém, para ser identificada, é necessário reconhecer a direção do fluxo sanguíneo; Direção do fluxo sanguíneo: É determinada com a seguinte técnica: comprime-se com as polpas digitais dos dois indicadores, colocados rentes um ao outro, um segmento da veia a ser analisada; em seguida, os dedos vão se afastando A) B) C) D) Capítulo 2 16 lentamente, mantida constante a pressão, de modo a deslocar a coluna sanguínea daquele segmento venoso; Existência de frêmito e/ou sopro. Tipos e fluxos: A) Circulação colateral tipo cava superior, restrita ao tórax; B) Circulação colateral tipo cava superior, incluindo as veias do tórax e da parede abdominal; C) Circulação colateral tipo porta; D) Circulação colateral tipo cava inferior. No exame físico geral também deve ser avaliado: - Atitude; - Marcha; - Desalinho articular; - Atrofia muscular; - Volume articular; - Nódulos; - Flogose (inflamação); - Número de articulações; - Crepitação ou limitação do movimento; - Simetria; - Predomínio em esqueleto periférico/axial. C) D) A) B) 17 Capítulo 3 ç ç Olhos jamais devem ser examinados como órgãos isolados... Problemas oculares podem manifestar-se me outros locais, bem como doenças sistêmicas podem apresentar complicações oftalmológicas. Algumas afecções oculares ocorrem com mais frequência em determinadas idades e sexos, por isso a identificação é sempre importante no raciocínio diagnóstico; A profissão deve ser sempre valorizada, pois alguns tipos de trabalho favorecem o aparecimento de certas afecções, por exemplo, pessoas que trabalham em ambientes fechados e empoeirados têm maior tendência para apresentar blefarite e conjuntivite; Os hábitos alimentares têm importante papel nas afecções carenciais, como a avitaminose A, que causa olho seco; O uso abusivo de bebidas alcoólicas e o tabagismo podem conduzir à diminuição da acuidade visual por lesão desmielinizante do nervo óptico. • Sensação de corpo estranho; • Queimação ou ardência; • Dor ocular; • Cefaleia: geralmente é localizada na região frontal e se manifesta no fim do dia • Prurido (coceira); • Lacrimejamento; • Xeroftalmia (sensação de olho seco); • Xantopsia (visão amarelada); • Hemeralopia e nictalopia (cegueira diurna e noturna. respectivamente): A hemeralopia resulta de disfunção dos cones, enquanto a nictalopia resulta de uma disfunção dos bastonetes; • Alucinações visuais; • Amaurose (diminuição ou perda da visão); • Diplopia (visão dupla): é importante observar se a diplopia é constante ou intermitente, se ocorre em certas posições do olhar ou a determinadas distâncias ou se é monocular ou binocular; • Fotofobia (sensibilidade ou intolerância à luz); • Nistagmo (movimento involuntário dos olhos); • Escotoma (área de cegueira parcial ou total): Os escotomas podem ser unilaterais ou bilaterais e devem ser investigados quanto a posição, forma, tamanho, intensidade, uniformidade, início e evolução. Apesar do stress emocional ser uma causa frequente de transtornos psicossomáticos, e sendo as alterações visuais uma de suas manifestações... Lembre-se! Este sempre será um diagnóstico de exclusão! Globo ocular: na inspeção deve-se observar a separação entre as duas cavidades orbitárias. Um grande afastamento está presente em diversas 18 Capítulo 3 anomalias genéticas e é denominado hipertelorismo.; • Em relação ao tamanho do globo ocular, pode- se observar microftalmia presente na rubéola congênita; • Na palpação da órbita, investiga-se a reborda óssea, procurando fraturas, espessamento ou presença de crepitação. Exoftalmia: é a protusão do globo ocular decorrente do aumento do volume orbitário, secundário a hipertireoidismo, neoplasia, anormalidade vascular ou inflamação; Aparelho lacrimal: a inspeção serve para detectar aumento do volume da glândula lacrimal, cujas causas principais são as afecções inflamatórias e as neoplasias, assim como tumefação e vermelhidão • Para reconhecer pequenos aumentos de volume, é necessário levantar a pálpebra do paciente pedir a ele que olhe para baixo e para dentro; • Pela palpação, avaliam-se a consistência, a profundidade e a sensibilidade das glândulas lacrimais. Deve-se verificar se há refluxo de secreção mucopurulenta, através da compressão do saco lacrimal. Quando o refluxo ocorre, significa que o conduto nasolacrimal está obstruído. • O lacrimejamento em excesso, denominado epífora, pode ser causado por excessiva formação de lágrimas ou por obstrução das vias de excreção. Pálpebras: Estruturas de proteção do globo ocular. Pela inspeção, investigam-se a cor, textura, posição, movimentos das pálpebras, possível presença de edema, defeitos no desenvolvimento embrionário como os colobomas palpebrais e alterações pigmentares como xantelasma, vitiligo e melanose; - Triquíase: cílios virados para dentro; - Madarose: queda de cílios; - Poliose: cílios se tornam brancos. A paralisia do músculo orbicular aparece na paralisia facial periférica e resulta na impossibilidade de oclusão palpebral (impossibilidade de fechar os olhos), surgindo, então, lagoftalmia e suas possíveis complicações corneanas; A paralisia do músculo elevador da pálpebra superior leva à blefaroptose, que pode ser congênita ou adquirida. A paralisia do músculo de Müller, que é acompanhada de blefaroptose parcial, faz parte da síndrome de paralisia do simpático cervical (síndrome de Claude Bernard Horner); 19 Capítulo 3 A blefaroptose pode fazer parte da miastenia gravis; nestes casos, caracteristicamente, a blefaroptose vai piorando no transcurso do dia, mas melhora com injeção de prostigmina. Síndrome de Claude-Bernard-Horner • A síndrome de Horner é causada pela lesão dos nervos oculomotor e facial no seu componente participante do sistema nervoso autônomo simpático. Tem como causas principais tumores cerebrais, más formações vasculares, infecções, iatrogenia e causas congênitas. • A síndrome é caracterizada pelos sinais clássicos: - Ptose unilateral: devido à perda da inervação simpática dos nervos tarso superior que inerva o músculo de Muller e tarso inferior; - Miose (pupila em estado de contração): devido à paralisia do nervo dilatador da íris; - Anidrose (ausênciade sudorese na face); - Enoftalmia (afundamento do globo ocular); - Dilatação pupilar retardada após retirada do estímulo luminoso. Síndrome de Pancoast: • Consiste em sinais e sintomas decorrentes de um tumor localizado no ápice pulmonar e que compromete o plexo braquial, primeiros corpos vertebrais e costelas; • Os sinais e sintomas incluem miose, anidrose, ptose e, em casos severos, a síndrome de Horner completa. Nos casos progressivos, o plexo braquial também é afetado, causando dor e fraqueza no membro superior, além do nervo frênico também ser afetado, causando a paralisação do diafragma. Conjuntiva e esclera: A conjuntiva é uma membrana mucosa, transparente e fina que reveste a esclera. A esclera normalmente tem cor branco-porcelana, no entanto, essa cor pode se modificar pelo depósito de pigmentos como a bilirrubina e melanina, causando icterícia e melanose ocular, respectivamente. • Edema da conjuntiva (quemose), enfisema com crepitação e hemorragia subconjuntival devem ser pesquisados, podendo fazer parte de lesões perioculares • O exame da conjuntiva palpebral inferior fornece valiosa informação nas anemias, nas quais a cor normal, rosa vivo, transforma-se em rosa pálido ou fica quase branca. Córnea: Com boa iluminação e ajuda de uma lupa, pode-se constatar a presença de opacificação corneana (leucoma), irregularidades epiteliais provocadas por corpo estranho e neovascularização (pannus corneano).; • É importante determinar a sensibilidade corneana, o que é feito mantendo-se a pálpebra aberta e encostando a ponta de um algodão na parte apical da córnea, sempre 20 Capítulo 3 comparativamente, tendo-se o cuidado para não tocar nos cílios. Lesões do nervo trigêmeo frequentemente diminuem a sensibilidade corneana Pupila: As pupilas normais são redondas, localizadas centralmente e, na maioria das pessoas, de igual tamanho. No entanto, pupilas de tamanhos diferentes (anisocoria) são observadas em cerca de 25% da população normal. Reflexo fotomotor: O reflexo pupilar à luz é testado com uma iluminação uniforme sobre a face do paciente, incidindo um feixe luminoso sobre um dos olhos. A pupila normal contrai-se vigorosa e rapidamente, mantendo esta contração (reflexo fotomotor direto). A pupila do outro olho deve contrair-se simultaneamente e com mesma intensidade (reflexo fotomotor indireto ou consensual). Reflexo para perto: aproxima-se do olho um objeto até uma distância de aproximadamente 10 cm. Neste momento, ocorre então miose bilateral, bem como convergência dos olhos e acomodação. Cristalino: o exame é feito com a lâmpada de fenda, estando a pupila em midríase. Porém, na falta desta, uma boa iluminação permite perceber as alterações mais grosseiras. Em relação à posição do cristalino, pode-se encontrá- lo deslocado (luxado), o que ocorre, às vezes, na síndrome de Marfan e nos traumatismos oculares; • Com o oftalmoscópio, pode-se caracterizar a perda de transparência do cristalino (catarata) pelo desaparecimento do clarão pupilar. A observação do campo visual nos permite localizar o nível da lesão da via óptica. A) Cegueira monocular direita: lesão do nervo óptico; B) Hemianopsia bitemporal: lesão do quiasma; C) Hemianopsia lateral homônima direita: lesão do trato óptico; D) Hemianopsia lateral homônima direita: lesão das radiações ópticas; E) Quadronopsia inferior direita: lesão das radiações parietais; F) Quadronopsia superior direita: tesão das radiações temporais; G) Hemianopsia lateral homônima direita: lesão calcarina. A acuidade visual é testada em cada um dos olhos separadamente. Ao se ocluir o olho que não está sendo examinado, deve-se evitar pressioná-lo, O fundo de olho normal: a retina apresenta cor vermelho- alaranjada, homogênea., o disco óptico possui coloração rósea, com bordas bem-definidas, podendo haver leve borramento da borda nasal, a escavação fisiológica corresponde 21 Capítulo 3 pois isto pode provocar distorção na imagem com diminuição da acuidade visual. Se o paciente usar óculos, a acuidade visual deve ser avaliada com a correção óptica; O método mais usado é a Tabela de Snellen, ficando o paciente sentado a 20 pés (6m) de distância dela. A acuidade visual normal por convenção 20/20. Se um paciente consegue ler 20/20 significa que a 20 pés o paciente tem capacidade de enxergar o que um paciente normal deveria enxergar a 20 pés e, desta maneira, 20/60 significaria dizer que o paciente enxerga a 20 pés o que um paciente normal estaria enxergando a 60 pés, portanto, o registro de uma visão pior; A avaliação da acuidade visual indica a função da fóvea, área da retina responsável pela melhor acuidade visual. Também chamado de fundoscopia, tem por finalidade inspecionar a câmera anterior, pupila, cristalino, retina, nervo óptico, mácula, artérias e veias; O fundo de olho normal: a retina apresenta cor vermelho-alaranjada, homogênea., o disco óptico possui coloração rósea, com bordas bem- definidas, podendo haver leve borramento da borda nasal, a escavação fisiológica corresponde à área de penetração do nervo óptico e localiza- se na porção central do disco, sendo de cor branca ou amarelo-pálida e de tamanho variável. Os vasos retinianos projetam-se radialmente a partir do disco óptico, com a veia acompanhando a artéria na maioria das vezes. A visualização direta permite diferenciá-los entre artérias e veias. Lateralmente, no mesmo plano horizontal do disco óptico, identifica-se a mácula de coloração rosa-pálida e com pequena área vermelho-escura central (fóvea). Cristalino: Opacidades lenticulares (catarata) formam manchas negras no reflexo vermelho. A ausência do reflexo vermelho pode ocorrer por posicionamento inadequado do oftalmoscópio, catarata e hemorragia vítrea. Descolamento de retina, retinoblastoma e coriorretinite podem apresentar reflexo branco. Retina: • Exsudatos algodonosos: resultado de edema e espessamento das terminações nervosas por infarto isquêmico. Possuem cor branca à acinzentada, com bordas pouco definidas. • Exsudatos duros: pequenos focos branco- amarelados com bordas bem-definidas. Formam-se a partir do acúmulo de lipídeos após exsudação vascular. • Manchas pigmentadas: secundárias a hemorragias antigas. 22 Capítulo 3 • Manchas brancas/amareladas: depósitos de talco observados em usuários de drogas intravenosas (metilfenidato). • Estrias angioides: linhas pigmentares radiais ao disco óptico. Indicam provavelmente degeneração de tecido elástico da retina. • Hemorragias: • Derrames sub-retinianos: apresentam- se sob a forma de áreas escuras, elevadas, simulando tumor melanótico. • Hemorragias mais superficiais: são lesões focais, de margens borradas e cor vermelha. • Microaneurismas: cor vermelha, bordas bem- definidas, não são reabsorvidos, podendo ocorrer em grupos. • Hemorragias em chama de vela: ocorrem na camada nervosa da retina; cor vermelha, presença de estrias. • Hemorragia pré-retiniana: apresentam formato de meia-lua, com nível líquido na porção superior. • Manchas de Roth: pequenos focos hemorrágicos com área clara central. São encontrados na endocardite bacteriana e na leucemia. Retinopatia hipertensiva Os vasos retinianos, diferentemente do restante do organismo, não possuem inervação autonômica, estando mais suscetíveis ao dano causado pela sobrecarga pressórica. Entre as alterações arteriolares, o estreitamento vascular é um achado precoce. Na fase crônica, a presença de tortuosidade aumentada, estreitamentos focais ou generalizados e aumento do reflexo dorsal são indicativos de arterioloesclerose. Exsudatos algodonosos e transudatos periarteriolares (áreas esbranquiçadas de tamanhovariável) podem estar presentes. Entre cruzamentos patológicos (entre artérias e veias) também são característicos. As lesões extravasculares correspondem às hemorragias em chama de vela, ao edema da retina e aos depósitos lipídicos (exsudatos duros). Retinopatia diabética O grau de descontrole metabólico e o tempo de evolução da doença são fatores importantes no desenvolvimento das complicações oculares do diabete melito (DM). A retinopatia diabética é dividida em retinopatia diabética não proliferativa (RDNP) e retinopatia diabética proliferativa (RDP), sendo a última a de pior prognóstico com maior risco de dano ocular irreversível; • Não proliferativa: presença de microaneurismas, hemorragias retinianas puntiformes, hemorragias em chama de vela, exsudatos duros, exsudatos algodonosos, edema retiniano e veias em rosário. É o primeiro estágio da retinopatia diabética. Quanto mais graves as alterações, maior a chance de evolução para RDP. 23 Capítulo 3 • Proliferativa: estágio avançado da retinopatia diabética, caracteriza-se por proliferação de neovasos retinianos. É um quadro de alto risco para o desenvolvimento de complicações como hemorragia vítrea e descolamento de retina, que podem comprometer irreversivelmente a acuidade visual. Retinopatia nas colagenases • Lúpus Eritematoso Sistêmico: - Ceratite – ceratoconjuntivite seca; - Úlceras – Neovascularização da córnea; - Primária: Fase aguda e sem tratamento; - Secundária: HAS e nefropatia lúpica; - Iatrogênica: Antimaláricos; • Dermatofibromiosite: Eliotropo; • Esclerose sistêmica; • Poliarterite nodosa; • Arterite de células gigantes; • Arterite de Takayasu. Blefarites, hordéolo e calázio • As blefarites podem ser: - Infecciosas (ulcerativas): causada geralmente por estafilococos, observam- se pálpebras vermelhas, áreas ulceradas e queda de cílios; - Seborreicas (não ulcerativas): encontra- se associada à dermatite seborreica do couro cabeludo e apresenta hiperemia, prurido, fotofobia, escamas e crostas amareladas; • Hordéolo: infecção estafilocócica das glândulas palpebrais, caracterizada por dor, hiperemia e edema. Pode ser interno ou externo. Quando externo é conhecido por terçol; • Calázio: inflamação granulomatosa crônica, caracterizado por edema sem sinais inflamatórios; 24 Capítulo 3 • A idade, em recém-nascidos, destaca-se infecções perinatais, uso de medicamentos otóxicos e mutações genéticas. Em crianças há maior prevalência de otite média e em idosos, há relevância a presbiacusia (diminuição auditiva); • Considerando o sexo do paciente, a presbiacusia é mais prevalente em homens, enquanto a otosclerose é mais comum em mulheres; • Considerando a cor a otosclerose é mais frequente em pessoas de cor branca; • Quanto à profissão, deve-se analisar em perda auditiva por exposição a ambientes ruidosos ou agentes tóxicos inaláveis; • Antecedentes pessoais: em crianças deve-se perguntar sobre antecedentes pré-natais como uso de substâncias tóxicas e infecções como toxoplasmose, rubéola, citomegalovírus, HIV/aids. Já em adultos e idosos é necessário avaliar hábitos de vida, antecedentes cirúrgicos, doenças sistêmicas, uso de medicamentos e traumatismos; • Antecedentes familiares: deve-se questionar a existência de familiares que já tiveram perda auditiva. Hipoacusia e anacusia: perda parcial ou total da audição, respectivamente. Deve ser sempre avaliada quanto a: Lateralidade (uni ou bilateral); Início (insidioso, progressivo ou abrupto): Intensidade, duração, constância e sintomas associados; Tontura e vertigem: são sintomas bastantes confundidas, no entanto, tontura significa sensação de flutuação, cabeça vazia, sensação de escurecimento visual ou pré-sincope, enquanto vertigem caracteriza uma sensação rotatória da cabeça; Zumbido: também chamado de acúfeno deve-se avaliar a localização, características, tempo de evolução, fatores de melhora ou piora, grau de incomodo e sintomas associados; Otalgia: dor na orelha; Otorreia: secreção mucosa ou purulenta; Otorragia: sangramento no ouvido que pode estar associado a algum trauma; Prurido; Para avaliar o aparelho auditivo do paciente, utilizam-se inspeção, palpação, ausculta (testes de Weber e Rinne) e testes de função vestibular; Inspeção das orelhas externa e média: deve-se avaliar tamanho e cor do pavilhão auricular, pesquisar no meato acústico externo a presença de edema, secreções, descamações, sangue, cerume, corpo estranho, escoriações ou deformidades; À otoscopia ou à otomiscrocopia, a membrana timpânica normal tem formato arredondado, coloração aperolada e saliência do cabo do martelo terminando no umbigo; 25 Capítulo 3 Membrana timpânica íntegra, transparente, com saliência do cabo do martelo terminando no umbigo. Membrana timpânica com perfuração central. Palpação: é útil para avaliar a presença de tumorações, linfonodos, cistos, abscessos, hematomas, fístulas ou malformações dos arcos branquiais; Ausculta: importante ser feita nas regiões retroauricular, periauricular e cervical em pacientes com zumbido pulsátil; Teste de Weber Esse teste permite a comparação das vias ósseas. O diapasão vibrando é colocado na linha média do crânio do paciente; O paciente deve informar se escutou o som na linha média, na orelha direita ou na orelha esquerda; A) Ilustração de perda condutiva em orelha esquerda, ou seja, paciente com queixa de hipoacusia em orelha esquerda e Weber lateralizando para a esquerda. B) Teste sem lateralização; C) Ilustração de perda neurossensorial em orelha esquerda, ou seja, queixa de hipoacusia em orelha esquerda e teste de Weber lateralizando para orelha direita. Teste de Rinne Permite comparar a audição por via óssea e via aérea. O diapasão é colocado na apófise da mastoide do paciente até o desaparecimento da percepção sonora, em seguida é colocado na região anterior ao trago sem tocá-lo; A) Rinne positivo, ou seja, condução aérea melhor que a condução óssea; B) Rinne positivo na perda neurossensorial, a condução óssea e a condução aérea são igualmente diminuídas; C) Rinne negativo na perda condutiva, condução óssea melhor que a aérea. Teste de Romberg Teste de função vestibular, serve para avaliar p reflexo vestibuloespinal, as conexões do tronco encefálico e o cerebelo; 26 Capítulo 3 Para sua execução, coloque o paciente em pé com os calcanhares juntos e as pontas dos pés separadas a 30º, braços ao longo do corpo ou estendidos na altura do ombro e olhos fechados durante cerca de 1 minuto; • Interpretação do teste: - Teste normal: paciente permanece na posição, sem oscilações que causem queda ou deslocamento do pé; - Queda para frente ou para trás: comprometimento do SNC; - Oscilações ou queda para as laterais: alterações no sistema vestibular. Outros testes vestibulares Marcha: uma marcha insegura sugere lesões unilaterais do sistema vestibular periférico, de forma que de olhos fechados observa-se piora da qualidade da marcha, ocorrendo melhora com o auxílio da função visual; Teste de Fukuda: solicita que o paciente dê 60 passos, elevando o joelho como se estivesse marchando sem sair do lugar com os olhos fechados e os braços estendidos na altura do ombro. O teste é positivo quando se observa desvio lateral progressivo para o lado do déficit vestibular; Nistagmo: pode ser espontâneo ou de posição. O espontâneo observa movimento ocular no paciente sentado com o olhar frontal e no de posição o paciente deve ser inclinado até ultrapassar a borda da maca. Compreende o cerume, corpo estranho, otite externa, otomicose, pericondrite, condrite auriculare herpes zoster; Cerume: cerume é uma substância normalmente presente no meato acústico externo, cuja função é limpá-lo, lubrificá-lo e protegê-lo. No entanto, quando em excesso ou impactado, pode provocar hipoacusia e desconforto; Corpo estranho: a introdução de corpos estranhos é comum principalmente em crianças e pode provocar hipoacusia e zumbidos. No caso de insetos podem causar desconforto, ruídos e infecção. Otite externa Pode ser de dois tipos: Otite externa difusa: inflamação do meato acústico externo, podendo atingir o pavilhão auricular e a membrana timpânica; - Inicia-se com prurido, causado por trauma local (cotonetes ou unhas) ou maceração da pele pela remoção da camada lipídica de proteção, permitindo assim a entrada de bactérias; - Outras causas são: sudorese excessiva, ausência de cerume, meato acústico externo longo ou estreito, pH alcalino, doenças cutâneas (psoríase, seborreia e eczema), cerume impactado, corpos estranhos, uso de prótese auditiva e otorreia; - Caracteriza-se por dor que irradia para região temporal e mandibular, sensibilidade aumentada da dor à palpação, prurido, perda auditiva do tipo condutiva; - Ao exame físico, o meato se apresenta eritematoso e edemaciado, podendo ser 27 Capítulo 3 observadas bolhas, otorreia purulenta, falsas membranas e lesões crostosas. Em infecções mais avançadas, podem estar presentes febre e linfonodomegalia; Otite externa necrosante: a infecção se inicia no meato acústico externo e se estende à base do crânio. A maioria dos casos é observada em pacientes imunossuprimidos, principalmente em diabéticos, insulinodependentes e mal controlados e idosos; - Pode ocorrer também em pacientes com leucemia, hipogamaglobulinemia ou fazendo uso de corticosteroides ou quimioterápicos; - A Pseudomonas aeruginosa, assim como na otite externa difusa, é o agente infeccioso mais comum; - O quadro clínico tem início semelhante ao de otite externa difusa, com otalgia que se irradia para as regiões frontotemporais e parietais com piora à noite, otorreia fétida e purulenta; - Pode ocorrer paralisia facial periférica devido ao comprometimento do forame estilomastoideo ou necrose do VII par. Otomicose - Também chamada de otite externa fúngica, pode ser aguda ou crônica; - Os fatores predisponentes são: infecção bacteriana da orelha, condições climáticas, utilização de gotas otológicas, estenose do meato acústico externo e perda da proteção do cerume; - Os achados clínicos são: prurido intenso, zumbido, otorreia espessa que pode ocluir o meato; - Ao exame físico, meato hiperemiado com discreto edema. Pericondrite e condricte auricular Processos inflamatórios do pericôndrio e da cartilagem da orelha externa, causados pela extensão de processos infecciosos, trauma acidental ou cirúrgico (piercings); A orelha afetada mostra-se hiperemiada e dolorosa, podendo ocasionar oclusão do meato, podendo apresentar secreção purulenta; Otite média Pode ser dos seguintes tipos: Otite média aguda: geralmente sempre tem antecedente de alergia ou infecção que resulta em congestão com edema de mucosa do trato respiratório; - Os fatores de risco são: frequentar creches e berçários, história familiar de otite média aguda de repetição, pais tabagistas, curta duração de aleitamento materno e atopia (hipersensibilidade tipo 1); - A doença se inicia com infecção das vias aéreas superiores e aparecimento súbito de otalgia. Crianças podem ter febre, irritabilidade e dificuldade para se alimentar; - À otoscopia é visualizado abaulamento de membrana timpânica, sinal patognomônico da doença; 28 Capítulo 3 - Ao exame físico, membrana com perda de transparência ou presença de líquido em orelha média. Otite média crônica: inflamação da orelha média com duração superior a 3 meses, caracterizada histopatologicamente como processo inflamatório com alterações teciduais irreversíveis; Pode ser classificada em: - Não colesteatomatosa simples: perfurações timpânicas com otorreia intermitente, em geral associada a infecções de vias aéreas superiores ou história de entrada de água, com dor e diminuição da acuidade auditiva; - Não colesteatomatosa supurativa: perfurações timpânicas de grandes dimensões ou totais e presença de otorreia mucoide ou mucopurulenta de longa duração. - Colesteatomatosa: presença de pele na cavidade timpânica, sendo classificada em congênita e adquirida. A adquirida pode ser consequência de defeitos da membrana timpânica ou devido a uma otite média crônica não tratada. Dentre os sintomas, vertigem e dor são excepcionais. Quando presentes indicam extensão da doença para a orelha interna. Podem ocorrer também zumbidos (tons graves), plenitude auricular e Otorragia. Zumbidos agudos, crise de vertigens, dor, surdez súbita, paralisia facial periférica e meningite indicam complicações graves. Outras doenças Trauma sonoro: Doença ocupacional caracterizada por alteração coclear irreversível devido à exposição a níveis sonoros elevados. Uma vez instalada é irreversível, bilateral, simétrica ou relativamente simétrica, não sendo evolutiva, após cessação definitiva da exposição ao ruído Presbiacusia: diminuição auditiva por alterações degenerativas associadas ao envelhecimento. Costuma iniciar-se a partir dos 55 anos, evoluindo de forma lenta e progressiva; Otosclerose: Hipoacusia causada por crescimento anormal no osso que imobiliza progressivamente o estribo (ossículo mais interno do ouvido médio); Síndrome de Ménière: vertigem de origem periférica caracterizada pelos sintomas: vertigem episódica, perda auditiva progressiva, zumbido e plenitude aural (sensação de som abafado); Mastoidite coalescente: evolução de processo inflamatório que envolve a mastoide. Caracterizada por hiperemia, rubor e calor na região retroauricular, podendo apresentar abscesso purulento. 29 Capítulo 3 • Idade: é relevante pois, em recém-nascidos com alterações respiratórias deve-se suspeitar de malformações congênitas e infecções perinatais e deve ser encarada como urgência, já que o RN é respirador nasal obrigatório; • Sexo: malformações congênitas, como atrésia de coana, são duas vezes mais prevalentes no sexo feminino; • Profissão: locais de trabalho em que poluentes são abundantes, podem ser a causa de rinites ocupacionais; • Antecedentes pessoais: é necessário investigar uso de medicamentos como descongestionante nasal, AAS, estatina, exposição a ambientes com irritantes inalatórios, história de trauma cranioencefálico; • Antecedentes familiares: história familiar de alergia se associa ao aparecimento de rinite. • Obstrução nasal: deve ser investigada quanto a lateralidade; • Rinorreia: deve ser investigada quanto à lateralidade e a sua viscosidade (hialina, espessa, purulenta). Em crianças com rinorreia fétida, deve-se sempre pesquisar presença de corpo estranho; • Rinorragia: sangramento que pode ser oriundo das fossas nasais independente da origem (seios paranasais, rinofaringe, tuba auditiva); • Rinofima: afecção do nariz que se caracteriza por um aspecto inchado, bulboso e grosseiro, causado por uma infiltração granulomatosa • Nariz em sela. • Epistaxe: sangramento oriundo da mucosa das fossas nasais. • Esternutação (espirro); • Alterações do olfato: - Anosmia e hiposmia: perda do olfato e diminuição do olfato, respectivamente; - Hiperosmia: aumento da olfação. Pode estar presente na gravidez hipertireoidismo, psicoses etc.; - Cacosmia: sensação constante ou frequente de odor desagradável, podendo ser subjetiva quando apenas o paciente sente ou objetiva quando o paciente e outras pessoas sentem. Na rinite ozenosa somenteas outras pessoas sentem, pois há lesão de terminações nervosas do paciente e/ou fadiga do nervo em consequência da percepção contínua dos odores fétidos. - Parosmia: interpretação errônea de uma sensação olfatória; Compreende a inspeção e a rinoscopia anterior e posterior; Inspeção: Analisa-se a pirâmide nasal, para detectar dismorfias, distúrbios de desenvolvimento e desvios; sinais sugestivos de processos infecciosos: hiperemia, 30 Capítulo 3 edema e abaulamento. Além de observar a fáceis característica do respirador bucal. Rinoscopia anterior: Com um espéculo nasal apropriado e de tamanho adequado para cada paciente, promove-se a lateralização da asa do nasal para permitir melhor visão do interior da cavidade nasal. - Observar o assoalho da cavidade nasal e se há secreções ou lesões; a concha inferior (coloração da mucosa, hipertrofia, degenerações polipoides), concha média e meato médio (local em que ocorre drenagem das secreções provenientes dos seios frontal, maxilar e etmoidal anterior) ; medialmente, septo nasal (deformidades, perfurações, ulcerações e abaulamentos). Rinoscopia posterior: com a língua apoiada no assoalho da boca e assim mantida com auxílio de abaixador de língua, introduz-se o espelho de laringe pequeno, em direção à parede posterior da orofaringe até ultrapassar os limites do palato mole. Avaliar as paredes da rinofaringe, as coanas, a cauda da concha inferior, a porção posterior do septo nasal, o tamanho das tonsilas faríngeas e as tubas auditivas. Rinites Inflamação da mucosa de revestimento do nariz, caracterizada por obstrução nasal, rinorreia, espirros, prurido e hiposmia; Pode ser classificada em infecciosas (viral, bacteriana, fúngica), alérgicas, não alérgicas (induzidas por medicamentos, hormonais, idiopática, neurogênica, eosinofílica não alérgica, atrófica, induzida por refluxo gastresofágico) e outras (ocupacional, mista, alérgica local). Hiperplasia adenoideana Aumento das tonsilas faríngeas que causa obstrução nasal; Em sua forma crônica promove a mudança do padrão respiratório, apresentando uma fácies adenoideana e causando desvios craniofacial e dentário, além de maior frequência de infecções das vias respiratórias e distúrbios de sono; 31 Capítulo 3 Idade: as faringotonsilites virais correspondem a 75% dos casos de infecção das vias aéreas em crianças menores de 2 anos. Já a mononucleose infecciosa ocorre, em geral, na segunda ou terceira década de vida; Profissão: profissionais que têm contato com crianças em idade pré-escolar, escolar e pré- adolescente, a incidência de faringotonsilites é maior; Hábitos de vida: podem tornar os quadros de faringotonsilites mais frequentes, destacando-se ambientes confinados ou não ventilados, convívio com tabagistas, frequentar escolas e/ou berçários cada vez mais cedo. Dor de garganta: encontrada em quase todas as enfermidades da faringe; Dispneia; Disfagia (dificuldade de deglutir); Tosse; Halitose: pode ser causada pela deposição de detritos alimentares nas tonsilas (massas caseosas), má higienização bucal, aparelhos ortodônticos, periodontite, doenças respiratórias (bronquite, rinite, adenoide, pólipos), doenças gastrointestinais, doenças metabólicas (diabetes mellitus) e doenças psicogênicas; Dor: causada por cáries com exposição da dentina, pulpite (inflamação da polpa dentária), abscessos agudos e osteomielite. Geralmente a dor é forte e irradiada para vários pontos da cabeça. Inspeção: avaliar higiene bucal, condição dos dentes (conservação e ausência), presença de lesões (úlceras, aftas e monilíase (“sapinho”), além de avaliar a presença de tártaro; Solicita-se ao paciente manter a língua dentro da boca, de forma relaxada. Deve-se analisar a orofaringe, as tonsilas palatinas, os arcos palatoglossos e os palatofaríngeos. Observa-se primeiramente o tamanho da língua e sua relação com o palato mole. As tonsilas devem ser avaliadas quanto ao tamanho, simetria, presença de exsudato ou caseum, tamanho das criptas, ulcerações, tumores ou abaulamentos. 32 Capítulo 3 Aftas: ulcerações superficiais, dolorosas, localizadas na mucosa não queratinizada; Faringotonsilite: infecções que se desenvolvem na mucosa faríngea. Podem ser divididas em eritematosas, eritematopultáceas, pseudomembranosas e ulcerosas; Mononucleose infecciosa: causada pelo vírus Epstein-Barr, também conhecida como doença do beijo, devido à transmissão ocorrer principalmente pela saliva; Neoplasias de faringe: as mais frequentes são câncer de amigdala, fibroma da nasofaringe. Compreende sua avaliação geral (musculatura, postura, movimentação, simetria, tumores, avaliação da coluna cervical, avaliação da cadeia linfonodal, avaliação da tireoide e vasos cervicais; Avaliação de linfonodos: realizar palpação e inspeção, avaliando tamanho, aderência a planos profundos e superficiais, localização, simetria, consistência, coalescência, sensibilidade e alterações da pele; Com o paciente sentado e examinador posicionado atrás do paciente, palpa-se os linfonodos com a polpa digital e a face ventral dos dedos médio, indicador e anelar; CUIDADO: ao palpar os linfonodos submandibulares, não confundir com as glândulas salivares! Avaliação da tireoide: deve ser analisado o formato, nódulos, dor e a mobilidade da traqueia. O paciente deve estar sentado, com a cabeça estendida e o médico deve solicitar que ele degluta. Ao tentar deglutir, o esperado é que a glândula se desloque para cima. Referências: PORTO, Celmo Celeno. Semiologia médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2009. 1308 p. 33 Capítulo 4 í Idade: nas crianças e jovens predominam as anomalias congênitas. Já a doença de Chagas e a hipertensão arterial são mais frequentes dos 20 aos 50 anos de idade; Sexo: lesões mitrais, como estenose e prolapso da valva mitral ocorrem mais em mulheres jovens, enquanto aterosclerose coronária predomina nos homens até os 45 anos de idade; Cor: a hipertensão arterial é mais frequente nos negros e costuma apresentar uma evolução clínica mais grave; Profissão: existem profissões que exigem grande esforço físico e podem contribuir para insuficiência cardíaca; Naturalidade e procedência: se relacionam com regiões endêmicas de Doença de Chagas; Antecedentes pessoais: infecções estreptocócicas, lesões orovalvares de etiologia reumática, alimentação rica em lipídios e o risco de aterosclerose, lesões renais e o risco de hipertensão arterial, perturbações emocionais e manifestações cardiovasculares de ansiedade e/ou depressão. Hábitos de vida: tabagismo, o alcoolismo e o sedentarismo, relacionados com o aparecimento de aterosclerose e hipertensão arterial. Sinais e sintomas Na anamnese, é necessário avaliar sintomas comuns que causam preocupação, fazendo perguntas, como: Dor torácica: O senhor sente alguma dor ou desconforto no peito? – Caracterizar quanto à localização, duração, intensidade, irradiação, sintomas associados, fatores de melhora ou piora, medicamentos, evolução, situação atual; Edemas: Caracterizar quanto à localização, temperatura, dor; Palpitações: Sente o coração batendo, pulando ou acelerando? As palpitações devem ser analisadas quanto a frequência, ritmo, horário de aparecimento, modo de instalação e desaparecimento, isto é, se têm início e término súbitos. Deve-se indagar, também, quanto ao uso de chá, café, refrigerantes à base de cola, tabaco e drogas, principalmente cocaína e anfetaminas. As palpitações podem ser de três tipos: • Palpitações de esforço; • Alterações do ritmo cardíaco; • Transtornos emocionais. Dispneia: Sente falta dear, fôlego curto, respiração difícil? Geralmente, a dispneia em paciente com uma cardiopatia indica congestão pulmonar e deve ser caracterizada quanto ao esforço e postura e se o paciente chegou a usar inalação; • Dispneia de esforço: pode ser aos grandes, médios e pequenos esforços; • Ortopneia: surge quando o paciente se deita e ocorre devido ao aumento da congestão pulmonar pelo maior afluxo de sangue proveniente dos membros inferiores. Geralmente esse paciente dorme com vários travesseiros, podendo chegar a adotar até a posição semissentada para dormir; 34 Capítulo 4 • Dispneia paroxística noturna: consiste no fato de o paciente acordar com intensa dispneia, sufocação, tosse seca e opressão torácica, sendo obrigado a sentar-se na beira do leito ou levantar-se da cama. Durante a crise dispneica, pode haver broncoespasmo, responsável pelo aparecimento de sibilos, cuja causa provável é a congestão da mucosa brônquica. Nessas condições, costuma ser chamada de asma cardíaca. • Dispneia de Cheyne-Stokes: períodos de apneia, seguidos de movimentos respiratórios, superficiais a princípio, mas que se tornam cada vez mais profundos, até chegar a um máximo. Quando isso acontece, o paciente apresenta-se em estado de torpor, sonolento ou inconsciente, as pupilas se contraem (miose), podendo aparecer cianose ao término da fase de apneia. • Tosse: sintoma frequente na insuficiência ventricular esquerda, costuma ser seca e está associada à congestão pulmonar, por isso sempre é acompanhada de dispneia. Já no edema pulmonar agudo, a tosse acompanha- se de expectoração espumosa de cor rósea. Pressão arterial: É a força exercida pelo sangue sobre as paredes dos vasos que pode sofrer variações de acordo com a posição do indivíduo, das atividades e das situações em que ele se encontra; • Tem como finalidade promover a perfusão dos tecidos e está relacionada com o trabalho do coração e traduz o sistema de pressão vigente na árvore vascular arterial; • A pressão arterial tem sua importância no exame físico, pois através dela podemos avaliar a pressão sistólica máxima necessária para que o ventrículo possa fazer uma boa ejeção do sangue para os tecidos periféricos e avaliar a complacência e a pressão diastólica na aorta; Frequência cardíaca: informa como que está o coração, tanto do ponto de vista patológico, como do ponto de vista fisiológico; Inspeção geral Tipos de tórax: • Normal; • Em tonel ou globoso: aumento exagerado do diâmetro anteroposterior, horizontalização dos arcos costais e abaulamento da coluna dorsal, o que torna o tórax mais curto. Comum em enfisematosos do tipo PP (soprador rosado); • Infundibuliforme (pectus excavatum): depressão na parte inferior do esterno e região epigástrica de natureza congênita; • Cariniforme (pectus carinatum): o esterno é proeminente e as costelas horizontalizadas, resultando em um tórax que se assemelha ao das aves (tórax de pombo). Pode ser de origem congênita ou adquirida devido a raquitismo na infância; • Cifótico: curvatura da coluna dorsal, formando uma gibosidade. Pode ser de origem congênita ou resultar de postura defeituosa, assim como de tuberculose óssea, osteomielite ou neoplasias; • Cifoescoliótico: apresenta além da cifose, um desvio da coluna vertebral para o lado (escolioses); Utilização da musculatura acessória: É necessário avaliar se há batimento de asa de nariz, tiragem intercostal ou respiração subdiafragmática; 35 Capítulo 4 Baqueteamento digital: alteração do ângulo de implantação da unha; Cianose periférica: resulta da perda exagerada de oxigênio ao nível da rede capilar por estase venosa ou diminuição funcional ou orgânica do calibre dos vasos da microcirculação. Sempre é acompanhada de pele fria, podendo aparecer na insuficiência cardíaca congestiva (a estase venosa periférica retarda a circulação nos capilares que se encontram dilatados), no colapso periférico com diminuição do volume minuto, ou pode depender de obstáculo na circulação de retorno, como ocorre na flebite ou na flebotrombose; Palpação dos pulsos: No sistema arterial, é importante conhecer tais pulsos: • Carotídeo: utilizado em suspeita de estenose carotídea; • Braquial: utilizado para aferir a pressão arterial; • Radial; • Ulnar; • Femoral: utilizado em casos de suspeita de pseudoaneurisma relacionado a cateterismo cardíaco; • Poplíteo; • Pedioso; • Tibial posterior; É importante comparar os pulsos nos dois lados. No sistema venoso, existem sinais que devem ser investigados, como: Turgência jugular: para investigar esse sinal, o paciente deve ser colocado em um ângulo de 45º e, dentro da normalidade, a jugular só deve aparecer até 5cm acima do esterno. Quando se verifica uma estase de jugular, isso quer dizer que a pressão do átrio direito está muito grande e há uma dificuldade de retorno venoso; Edema de MMII: Numa patologia do coração (central), geralmente, o edema é bilateral. No entanto, quando é uma patologia circulatória periférica, o edema pode ser unilateral; • A causa básica do edema cardíaco é a insuficiência ventricular direita por aumento da pressão hidrostática associado à retenção de sódio; • Primeiramente, localiza-se nos membros inferiores, pela ação da gravidade, iniciando-se em torno dos maléolos. Além disso, o edema cardíaco intensifica-se com o decorrer do dia, chegando à máxima intensidade no período da tarde; Diminui ou desaparece com o repouso noturno. Com o agravamento da função cardíaca, o edema acomete o corpo todo, inclusive o rosto (anasarca). 36 Capítulo 4 Dermatite ocre: ocorre devido à hipertensão venosa causada pela Insuficiência Venosa. Devido ao mau funcionamento das veias o sangue fica represado na parte inferior da perna aumentando a pressão local. Isso pode levar a um extravasamento de sangue e acúmulo de um pigmento chamado hemossiderina na pele. Inspeção e palpação Inspeção: O exame se inicia com inspeção da região, estando o paciente em decúbito dorsal, com cabeceira elevada a cerca de 30 graus. O examinador deve ficar à direita do paciente e deve observar o tórax do paciente, investigando abaulamentos, análise de ictus cordis, análise de batimentos ou movimentos visíveis ou palpáveis e pesquisa de frêmito cardiovascular; Palpação: inicialmente, toda a face palmar da mão é utilizada sobre o precórdio, procurando por movimentos, choques valvares, frêmitos e já analisando as suas características, tais como intensidade e situação no ciclo cardíaco. Nos casos de mama esquerda volumosa, deve-se afastá-la com sutileza com a mão esquerda. Abaulamento Para facilitar o reconhecimento de abaulamento, a observação deve ser feita em incidência tangencial, (examinador de pé do lado direito do paciente) e incidência frontal (examinador fica junto aos pés do paciente, que permanece deitado). Abaulamento desta região pode indicar a ocorrência de aneurisma da aorta, cardiomegalia, derrame pericárdico e alterações da própria caixa torácica Ictus cordis Também chamado de impulso cardíaco apical ou choque de ponta, é analisado pela inspeção e palpação, investigando-se localização, extensão, mobilidade, intensidade e tipo da impulsão, ritmo e frequência. A localização do ictus varia com o biotipo, mas geralmente se encontra no 5º espaço intercostal esquerdo, na linha médio-clavicular; Técnica: o paciente deve estar em decúbito dorsal com o tórax descoberto. O examinador deve ficar à direita do paciente e estender a mão direita para palpar a região anteroinferior esquerda do tórax com a palma dos dedos, procurando a região do choque de ponta. Ao encontrar, o examinador deve colocar a palma de uma ouduas polpas digitais sobre o ictus, a fim de determinar suas características; 37 Capítulo 4 Em condições normais corresponde a 1 ou duas polpas digitais. Nos casos de hipertrofia ventricular, são necessárias três polpas ou mais. Quando há grande dilatação e hipertrofia, o ictus cordis pode chegar a abarcar toda a palma da mão. Dificuldade na técnica: caso haja alguma dificuldade em encontrar o impulso, solicite ao paciente que realize apneia pós expiração. No entanto, com essa manobra, o ictus pode não ser palpado, sobretudo em pacientes obeso e com DPOC. Nessas situações, solicite que o paciente se sente, o que faz com que o seu coração se aproxime da parede torácica; Outra posição que pode facilitar a palpação, é pedir ao paciente que fique em decúbito semilateral esquerdo com inclinação do tronco, no entanto, pode apresentar alterações características do ictus, simulando uma hipertrofia do ventrículo esquerdo; Frêmito cardiovascular Sensação tátil determinada pelas vibrações produzidas no coração ou nos vasos. Correspondem aos sopros, mais bem avaliados pela ausculta; As características que devem ser investigadas são: • Localização (pontos de referência: focos tradicionais de ausculta cardíaca); • Situação no ciclo cardíaco (se diastólico ou sistólico); • Intensidade (avaliada em cruzes de + a ++++); Achados na inspeção e palpação Hipertrofia ou dilatação do ventrículo esquerdo: como ocorre em estenose aórtica, insuficiência aórtica, insuficiência mitral, hipertensão arterial, miocardiosclerose, miocardiopatias e algumas cardiopatias congênitas; • De maneira simplificada, pode-se dizer que as hipertrofias ventriculares impulsionam as polpas digitais com maior vigor que as dilatações; • O ictus cordis será difuso quando sua área corresponder a três ou mais polpas digitais (cardiopatia dilatante) e ictus cordis propulsivo, quando a mão que o palpa é levantada a cada contração (cardiopatia hipertrófica); • Cumpre assinalar que a hipertrofia do ventrículo direito pouco ou nada repercute sobre o ictus cordis, pois esta cavidade não participa da ponta do coração. Retração sistólica apical: ocorre nos casos de hipertrofia ventricular direita (HVD). O sinal observado é o movimento em báscula: em vez de ocorrer impulso durante a sístole, ocorre retração do ictus cordis, com abaulamento das regiões esternal e paraesternal esquerda; Levantamento em massa do precórdio: quando durante a sístole, grande parte do precórdio é movimentada, denota HVD, pois essa câmara está em contato maior com a parede torácica; Choque valvar palpável: quando as bulhas cardíacas se tornam hiperfonéticas, podendo ser até palpáveis; 38 Capítulo 4 Pulsações epigástricas: podem ser palpadas como visualizadas. São as pulsações da aorta, são mais facilmente percebidas em pacientes magros e apenas raramente são sugestivas de HVD. O pulso hepático também pode ser percebido na região epigástrica, podendo ser decorrente de uma estenoso tricúspide (pulsação pré-sistólica) ou de insuficiência tricúspide (pulsação sistólica); Pulsações na fúrcula esternal: decorrem das pulsações da crossa da aorta e podem ser notadas em pessoas saudáveis. Se forem muito intensas, pode sugerir HAS, aneurisma aórtico ou alguma síndrome hipercinética. Ausculta Focos ou áreas de ausculta A demarcação de focos ou áreas de ausculta não significa que o examinador colocará o receptor do estetoscópio apenas nesses locais. Em uma ausculta cardíaca correta, todo o precórdio e as regiões circunvizinhas, incluindo a região axilar esquerda, o dorso e o pescoço precisam ser auscultados; Os focos servem como pontos de referência pois nessas regiões encontram-se as informações mais pertinentes às respectivas valvas; Foco mitral: situa-se no 5º espaço intercostal esquerdo na linha hemiclavicular e corresponde ao ictus cordis. Em situações de cardiomegalia acentuada, o foco do ictus tende a se desviar para a linha axilar; Foco pulmonar: localiza-se no 2º espaço intercostal esquerdo, junto ao esterno. É nesse foco onde é possível auscultar desdobramentos fisiológicos ou patológicos da 2ª bulha; Foco aórtico: situa-se no 2º espaço intercostal direito ao lado do foco pulmonar. • Foco aórtico acessório: situa-se entre o 3º e 4º espaço intercostal esquerdo e é muitas vezes o melhor local para auscultar fenômenos de origem aórtica. Foco tricúspide: corresponde a base do apêndice xifoide, ligeiramente para esquerda. No entanto, o sopro sistólico indicativo de insuficiência da valva tricúspide costuma ser mais percebido perto da área mitral. Fazem parte da ausculta do coração outras áreas no precórdio e nas adjacências, dentre as quais se destacam as seguintes: • Borda esternal esquerda: região situada entre a área pulmonar e a tricúspide; • Borda esternal direita: vai do foco aórtico ao 5o espaço intercostal direito, justaesternal; • Endoápex ou mesocárdio: área situada entre o foco tricúspide, o foco mitral e o aórtico acessório; • Regiões infra e supraclaviculares, direita e esquerda; 39 Capítulo 4 • Regiões laterais do pescoço: importantes para caracterizar o sopro de estenose aórtica; Semiotécnica: Estetoscópio: O receptor de campânula é mais sensível aos sons de menor frequência. O receptor de diafragma dispõe de uma membrana semirrígida e é mais adequado para a ausculta em geral. Ambiente: deve ser calmo, silencioso e que preserve a privacidade do paciente, pois o tórax deve estar descoberto; Posicionamento: O médico fica do lado direito, de pé ou sentado e, habitualmente, o paciente é auscultado em decúbito dorsal com a cabeça apoiada em um pequeno travesseiro, no entanto, existem outras posições que favorecem certas estruturas, como: • Ruídos dos vasos basais do coração: paciente sentado com o tórax levemente inclinado para frente; • Área mitral: paciente em decúbito lateral esquerdo com a mão esquerda sobre a cabeça para não cobrir a região que será avaliada. É nessa posição que a área mitral se aproxima ainda mais do tórax, tanto que é justamente nessa posição que melhor se percebem os fenômenos auscultatórios do famoso ruflar diastólico da estenose mitral; • Hipofonese das bulhas: solicita-se ao paciente que fique de pé e debruce sobre a mesa de exame, para que o coração se aproxime da parede torácica e torne as bulhas e outros sons mais audíveis. Manobras para exacerbar sons na ausculta: Inspiração forçada: nessa manobra a pressão intratorácica fica muito mais negativa, fazendo com que o retorno venoso pelas veias cava inferior e superior aumente no átrio direito e que o ventrículo direito ejete mais sangue venoso para o pulmão. Dessa forma, há aumento do fluxo da circulação direita ao mesmo tempo que o volume no ventrículo esquerdo diminui, devido ao menor retorno venoso pulmonar, Expiração forçada: por outro lado, nessa manobra a pressão intratorácica fica muito mais positiva, fazendo com que o retorno venoso para o átrio esquerdo aumente e que o ventrículo esquerdo ejete com mais sangue arterial para o corpo. Dessa forma, há aumento do fluxo da circulação direita ao mesmo tempo que o volume no ventrículo direito diminui. As 5 perguntas da ausculta: Numa ausculta do tórax qualificada devem ser respondidas 5 perguntas: • O ritmo e a frequência cardíaca são regulares? • Quantas são as bulhas? • Como estão as bulhas? • Existem outros ruídos? Sopros, atritos, cliques ou estalidos; • Qual é a relação entre as bulhas e os ruídos com o ciclo cardíaco? 40 Capítulo 4 Bulhas: Primeira bulha - B1 (TUM): • Corresponde aos fechamentos das valvas mitral e tricúspide. O seu primeiro corresponde ao fechamento da válvula mitral (M1)e seu segundo componente corresponde ao fechamento da válvula tricúspide (T1); • Coincide com o ictus cordis e o pulso carotídeo, sendo mais intenso em foco mitral; • A duração é pouco maior do que a B2 e o timbre é grave (TUM). Indica o início da sístole ventricular; Segunda bulha - B2 (TÁ): • Coincide com o início da diástole, sendo composta inicialmente pelo fechamento da válvula aórtica (A2) e depois da pulmonar (P2); • É mais intenso em foco aórtico e pulmonar, sendo o timbre mais agudo e seco (TÁ). O componente aórtico é auscultado em toda a região precordial, enquanto o ruído originado na pulmonar é auscultado somente no foco pulmonar. A duração é menor do que B1; • Nas crianças, a 2ª bulha tem maior intensidade no foco pulmonar, já em adultos e pessoas idosas a 2ª bulha é mais intensa no foco aórtico. • Desdobramento fisiológico: pode ocorrer através da inspiração forçada (TUM-TRÁ). Durante a expiração, ambas as valvas se fecham sincronicamente, dando origem a um ruído único. Na inspiração, principalmente porque a sístole do ventrículo direito se prolonga ligeiramente em função do maior afluxo sanguíneo a este lado do coração, o componente pulmonar sofre um retardo que é suficiente para perceber, nitidamente, os dois componentes. Terceira bulha – B3 (TUM-TA-TÁ): • Som que ocorre entre a proto e mesodiástole, sendo gerado pelas vibrações da parede ventricular subitamente distendida pelo sangue durante o enchimento rápido; • É mais auscultada em crianças e adultos jovens, sendo mais audível na área mitral em decúbito lateral esquerdo pela campânula do estetoscópio. Ocorre na insuficiência cardíaca dilatante, sendo um indicador da sua gravidade. Pode ser fisiológico em crianças e adolescentes. B4 (TU-TUM-TÁ): • Ocorre na telediástole (final da diástole) e é gerado pela desaceleração do fluxo de sangue mobilizado pelos átrios na fase de contração atrial contra a massa sanguínea existente no interior do ventrículo esquerdo, no final da diástole; • Representa uma contração atrial contra um ventrículo pouco complacente acarretando rápida desaceleração do sangue ejetado. É um achado comum na doença isquêmica do coração na miocardiopatia hipertrófica. Pode ser fisiológica em crianças. Sopros cardiovasculares São achados semiológicos frequentes, definidos como vibrações auscultatórias produzidas por alterações estruturais e/ou hemodinâmicas na corrente sanguínea; É quando ocorre a mudança de um fluxo que era laminar no seu estado normal e se transformou em turbilhonar; Mecanismos básicos: • Aumento da velocidade do fluxo ou redução da viscosidade do sangue em estruturas normais; 41 Capítulo 4 • Fluxo em câmeras dilatadas; • Fluxo atravessando região estenótica; • Fluxo que passa por irregularidade valvar ou intravascular, sem obstrução; • Fluxo que sai de câmara de maior pressão por uma via anormal; • Fluxo regurgitante através de válvula insuficiente; Ao se constatar um sopro, o mesmo deve ser descrito baseando-se nos seguintes parâmetros: • Localização no ciclo cardíaco: - Sopro na sístole indica insuficiência mitral, insuficiência tricúspide, estenose aórtica ou estenose pulmonar; - Sopro na diástole indica estenose mitral, estenose tricúspide, insuficiência aórtica ou insuficiência pulmonar. • Formato; • Localização; • Irradiação; • Timbre e frequência; • Intensidade; • Efeitos de manobras sobre o sopro. Classificação dos sopros quanto ao timbre: • Sistólicos: - Ejetivos: ocorre na 1ª bulha. Na sístole a valva mitral e tricúspide devem estar fechadas e a válvula aórtica e pulmonar devem estar abertas para fazer a ejeção do sangue. Caso haja estenose da válvula aórtica ou da válvula pulmonar que a impeça de abrir totalmente, isso causará um sopro de intensidade variável; - Regurgitativos: ocorre na 1ª bulha e, da mesma forma, se a válvula aórtica ou pulmonar estiver aberta na sístole e a valva mitral ou tricúspide estiver com alguma insuficiência que a impeça de se fechar totalmente, ocorrerá regurgitação de sangue para o átrio quando o ventrículo fizer a contração, causando um sopro; • Sopros diastólicos: - Ruflar: ocorre principalmente na estenose mitral, sendo muito rara a estenose da tricúspide. Aparentemente demonstra ter várias bulhas; - Aspirativo: ocorre na insuficiência aórtica ou na insuficiência pulmonar quando o ventrículo aspira novamente o sangue que deveria estar na aorta; • Outros timbres: - Diamante; - Piado de gaivota; - Rude (áspero). Classificação dos sopros quanto à intensidade: • Grau I: difícil de auscultar mesmo para examinadores mais experientes em ambiente adequado; • Grau II: audível com facilidade, sem frêmitos; • Grau III: audível com facilidade, com frêmitos; • Grau IV: audível sem ou com o uso de uma fração do estetoscópio; Atrito pericárdico Ruído provocado pelo roçar de folhetos pericárdicos que perderam suas características normais. Estes folhetos são, normalmente, lisos, ligeiramente umedecidos, capazes de deslizar um sobre o outro sem provocar qualquer vibração; A causa mais frequente do atrito pericárdico é a pericardite fibrinosa, quando os folhetos desta serosa se tornam espessos e rugosos. 42 Capítulo 4 O atrito pericárdico não coincide exatamente com nenhuma das fases do ciclo cardíaco, podendo ser ouvido tanto na sístole quanto na diástole; não mantém relação fixa com as bulhas e, às vezes, dá a sensação de ser independente dos ruídos produzidos no coração; habitualmente, é contínuo, com reforço sistólico; em algumas condições, restringe-se à sístole. Descrição do exame normal • Bulhas rítmicas, normofonéticas em dois tempos, sem sopros; • B1 e B2 normais, sem bulhas extras e sem sopros. Ritmo cardíaco regular. Referência: PORTO, Celmo Celeno. Semiologia médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, c2009. 1308 43 Capítulo 4 ê í Determinantes do débito cardíaco: • Pré-carga: representa o volume de trabalho imposto ao coração antes da contração (pressão diastólica final); - O aumento da força de contração que acompanha o aumento no volume diastólico final do ventrículo é chamado de Mecanismo de Frank Starling; • Contratilidade: capacidade do coração para alterar sua força de contração sem alterar o comprimento diastólico; • Frequência cardíaca: regularidade com que o sangue é ejetado do coração. À medida que a frequência cardíaca aumenta, o débito cardíaco tende a aumentar e à medida que a FC aumenta, o tempo gasto na diástole é reduzido e há menos tempo para o enchimento dos ventrículos. DC = VS x FC • Pós-carga: pressão na qual o músculo exerce sua força contráctil de modo a mover o sangue para a aorta. Representa o trabalho do coração após a contração. FEVE: A fração ejetiva do ventrículo esquerdo é uma medida que reflete a contratilidade do ventrículo, mas não indica necessariamente um débito cardíaco efetivo; FEVE: (VDF – VSF/VDF) x 100 VDF – VSF = Volume sistólico (ejetado) Quando o coração tem uma dificuldade de ajustar o seu débito cardíaco para as demandas periféricas de oxigênio e nutrientes isso significa que ele tem uma insuficiência cardíaca; Conceito de insuficiência Síndrome clínica complexa de caráter sistêmico, definida como disfunção cardíaca que ocasiona inadequado suprimento sanguíneo para atender as necessidades metabólicas tissulares, na presença de retorno venoso normal, ou fazê-lo somente com elevadas pressões de enchimento. Insuficiência cardíaca esquerda: a falência na bomba resulta em baixo débito periférico do ventrículo esquerdo e o comprometimento da circulação sistêmica. Com uma fração de ejeção baixa (volume sistólico baixo), ao contrair o coração, uma parte do sangue que deveriaser ejetado fica no ventrículo esquerdo, interferindo na próxima diástole, pois não vai caber o tanto de sangue que fisiologicamente caberia. Dessa forma, esse sangue que deveria ocupar o ventrículo para a próxima sístole, fica no átrio esquerdo. Com o tempo, à medida que isso se repete, vai ocorrendo um aumento do volume residual no ventrículo esquerdo, no átrio esquerdo, nas veias pulmonares e no próprio pulmão, resultando em aumento da pressão das veias pulmonares, provocando congestão pulmonar e edema. Assim como, derrame 44 Capítulo 4 pleural pelo aumento da pressão hidrostática nas vênulas da pleura. Insuficiência cardíaca direita: com a falência do ventrículo direito, ocorre um baixo débito para o pulmão, ou seja, o pulmão irá receber menos sangue, fazer menos hematose, resultando em menor retorno venoso para o ventrículo esquerdo, menor pré-carga do ventrículo esquerdo e congestão dos tecidos periféricos (congestão periférica); • A estase jugular é um achado clínico comum em casos de insuficiência cardíaca que ocorre devido a congestão causada pela insuficiência do ventrículo direito que se encontra com muito volume residual e uma ejeção baixa; É importante lembrar que o ventrículo esquerdo possui uma massa muscular maior e mais propenso à hipertrofia. No entanto, o ventrículo direito não tem essas características, e isso implica que, num aumento de pós carga e trabalho do ventrículo direito, é mais comum ele ir à falência do que sofrer hipertrofia, pois ele não tem costume de lidar com pós-cargas maiores. A causa mais comum de falência do ventrículo direito é falência do ventrículo esquerdo. Dilatada: se dá por um déficit sistólico, seguindo o mesmo caminho do remodelamento dilatante e estando presente em casos de Doença de Chagas, na qual o músculo cardíaco vai perdendo sua massa muscular gradativamente, e, através do mecanismo de controle do débito cardíaco pelo retorno venoso de Frank Starling, a pré-carga é aumentada na tentativa de aumentar o débito cardíaco para superar a pós-carga. Com esse aumento compensatório da pré-carga, o coração vai dilatando; Hipertrófica: geralmente está presente em casos de disfunções genéticas do músculo cardíaco. • Hipertrofia concêntrica: se dá por um déficit diastólico, no qual o coração não consegue encher, pois a cavidade do ventrículo esquerdo diminui e menos sangue ocupa o coração, fazendo com que a fração de ejeção seja muito boa, apesar do volume de ejeção ser baixo e não atender às demandas periféricas; Restritiva: ocorre geralmente em doenças como amiloidose e em doenças pericárdicas, no qual há um déficit diastólico. A cardiopatia isquêmica do infarto agudo do miocárdio é de remodelamento dilatante. Por outro lado, na hipertensão arterial ocorre o aumento da pós carga, hipertrofia do ventrículo e consiste numa cardiopatia diastólica, ou seja, o coração perde a capacidade do relaxamento. Ao 45 Capítulo 4 longo do tempo, essa cardiopatia hipertrófica pode evoluir para uma cardiopatia dilatada. • Hipertensiva; • Isquêmica; • Cardiomiopatia; • Pericardiopatias; • Valvulopatias; • Arritmias; • Defeitos congênitos; • Doenças nutricionais; • Doenças pulmonares (cor pulmonale); • Doenças extracardíacas. Insuficiência cardíaca com FEVE preservada Também chamada de disfunção ventricular diastólica, nela o coração é capaz de contrair normalmente, no entanto, o relaxamento é anormal e há uma redução do preenchimento do ventrículo. Sendo assim, há uma diminuição na pré-carga, no volume sistólico e no débito cardíaco; Características: • FEVE ≥ 50%; • Déficit diastólico; • Baixo débito; • Tendência à hipertrofia; • Ictus impulsivo forte; • VE não dilatado (volume telediastólico < 97 Ml/m2); • Presença da 4ª bulha; • Evidência de pressão de enchimento do VE elevada. Insuficiência cardíaca com FEVE reduzida Também chamada de disfunção ventricular sistólica, é um distúrbio de contratilidade do ventrículo, que leva à redução da fração de ejeção (FE) e do débito cardíaco; • O aumento do volume por dilatação, juntamente com o retorno venoso normal, resulta no aumento da pré-carga no ventrículo, a qual pode conduzir ao acúmulo de sangue nos átrios e no sistema venoso (que desemboca nos átrios, causando edema pulmonar ou edema periférico; Características: • Déficit sistólico; • Aumento da pré-carga; • Tendência à dilatação; • Sopro regurgitativo da mitral; • Presença de 3ª bulha; • Ictus desviado à esquerda; • FEVE < 40%; IC crônica x IC aguda A insuficiência cardíaca aguda é definida como início rápido ou mudança clínica dos sinais e sintomas de IC, resultando na necessidade urgente de terapia. A IC aguda pode ainda ser nova ou devido à piora de uma IC pré-existente estável (IC crônica descompensada); Fatores de agudização: São fatores que levam a uma sobrecarga aguda ou transitória do 46 Capítulo 4 sistema circulatório e descompensam a insuficiência cardíaca crônica; • Inadequação terapêutica; • Tromboembolismo pulmonar; • Hipertensão arterial sistêmica; • Isquemia; • Arritmias; • Evolução natural da doença; • Infecções (pneumonia principalmente); • Drogas lícitas e ilícitas (álcool, cocaína, medicamentos); • Gravidez; • Sobrecarga física, emocional, ambiental ou social; • Outras doenças como anemia, fístula arteriovenosa, doenças endócrinas e renais. Outras classificações • IC direita x IC esquerda x IC global (biventricular): Falência do ventrículo direito, falência do ventrículo esquerdo ou falência global; • Baixo débito x alto débito: a IC de baixo débito é a ICC tradicional, na qual o débito cardíaco está normal ou reduzido e não atende à demanda tecidual. Já a IC de alto débito ocorre em situações de maior metabolismo, no qual nem mesmo o aumento do DC dá conta das necessidades. É o caso do beriberi, hipertireoidismo, fístulas arteriovenosas e gravidez. Na HMA, sinais e sintomas como: • Dor torácica; • Palpitações: podem sinalizar arritmias ou aumento da frequência cardíaca que o coração está fazendo para compensar a sua falência e melhorar o débito; • Astenia e fadiga: geralmente é causada pelo baixo débito e baixa perfusão periférica; • Tonturas: podem ocorrer no quadro de distúrbio da perfusão, mas são mais comumente iatrogênicas, relacionadas com uso de medicamentos para a insuficiência cardíaca; • Lipotímia e síncope: a lipotimia é uma alteração súbita da consciência podendo evoluir até a perda total da consciência (síncope). Geralmente, na doença cardíaca ocorre por alteração na circulação cerebral, causada pelos transtornos do ritmo cardíaco e da condução do estímulo, diminuição do débito, perturbação dos mecanismos vasomotores, diminuição do retorno venoso e redução do volume sanguíneo circulante. ICC do ventrículo esquerdo • Dispneia: geralmente o paciente refere cansaço causado pela falta de ar devido à congestão pulmonar, pois o pulmão está cheio de líquido e não consegue fazer a hematose adequadamente; - Dispneia de esforço: é o tipo mais comum na insuficiência ventricular esquerda. Geralmente, esse paciente passa a ter dificuldade respiratória ao executar uma atividade que anteriormente realizava sem qualquer desconforto; - Dispneia de decúbito (ortopneia); - Dispneia paroxística noturna e ritmo respiratório de Cheyne-Stokes: indicam https://pebmed.com.br/voce-sabe-reconhecer-a-insuficiencia-cardiaca-de-alto-debito/ https://pebmed.com.br/voce-sabe-reconhecer-a-insuficiencia-cardiaca-de-alto-debito/ https://pebmed.com.br/voce-sabe-reconhecer-a-insuficiencia-cardiaca-de-alto-debito/ https://pebmed.com.br/voce-sabe-reconhecer-a-insuficiencia-cardiaca-de-alto-debito/ 47 Capítulo 4 aumento dadescompensação da insuficiência. A dispneia paroxística noturna é uma forma drástica de falta de ar, na qual os pacientes acordam com dispneia intensa que chega às raias do sufocamento. • Tosse: resultado da transdução de líquido para o interior dos espaços aéreos. Costuma ser seca e mais intensa à noite por consequência da congestão pulmonar e brônquica ao se deitar; • Cardiomegalia, taquicardia, presença de terceira bulha cardíaca (B3) e estertores finos na base dos pulmões causados pela abertura dos alvéolos pulmonares edematosos; • À medida que a dilatação ventricular progride, os músculos papilares são deslocados para fora, o que causa regurgitação mitral e sopro sistólico. A subsequente dilatação crônica do átrio esquerdo pode causar fibrilação atrial, que se manifesta como um batimento cardíaco “irregularmente irregular”; • Trombos: O sangue estagnado tende a formar trombos (particularmente no apêndice atrial) que podem liberar êmbolos que, por sua vez, causam acidentes vasculares cerebrais e manifestações de infarto em outros órgãos; • A diminuição do débito cardíaco causa redução da perfusão renal que, por sua vez, ativa o sistema renina-angiotensina- aldosterona, que eleva o volume e as pressões intravasculares; À medida que a pressão pulmonar aumenta como resultado da congestão, pode evoluir para produzir insuficiência cardíaca do lado direito. ICC do ventrículo direito • Ascite: A combinação de congestão hepática (com ou sem redução da síntese de albumina) com hipertensão portal dá origem a transudatos peritoneais; • Edema: O edema de membros inferiores é uma característica inconfundível da insuficiência cardíaca direita. Em casos particularmente graves, pode ocorrer edema maciço generalizado (anasarca); • Hepatomegalia congestiva: padrão conhecido como “fígado em noz-moscada”, no qual o fígado tem um aumento doloroso na cápsula de Glisson; • Cirrose cardíaca: ocorre quando as áreas centrais podem se tornar fibróticas, mas está associada a uma IC direita grave e de longa duração; • Hipertensão portal e esplenomegalia: A insuficiência cardíaca direita também produz elevação da pressão na veia porta e em suas tributárias e a congestão vascular faz com que o baço aumente de tamanho e fique tenso; • A insuficiência cardíaca direita pura normalmente produz poucos sintomas respiratórios. 48 Capítulo 4 Exame físico geral Pressão arterial: a hipertensão pode aumentar a pós-carga do ventrículo esquerdo e resultar na insuficiência cardíaca. Já a hipotensão pode ser gerada, principalmente, pela redução da pressão sistólica e resulta numa pressão convergente na maioria das vezes; Frequência cardíaca: uma FC baixa nos dá a informação que o débito cardíaco está diminuído. Já uma FC elevada nos mostra a necessidade do coração em elevar a FC para manter um débito; Peso: pode nos mostrar uma desnutrição ou uma retenção de líquido aguda; O acúmulo de líquido ou de volume é a marca registrada da insuficiência cardíaca, apresentando os seguintes sinais: • Estertores pulmonares: decorrentes do acúmulo de líquido no interstício e nos alvéolos pulmonares devido às altas pressões atriais esquerdas, são descritos como edema pulmonar cardiogênico agudo (EPCA); • Macicez nas bases dos pulmões: compatível com derrame pleural; • Distensão venosa jugular (DVJ: pode ser observada com uma inclinação de 25°, embora, quando muito elevada, possa ser aparente com o paciente sentado; 49 Capítulo 4 • Edema, ascite e hepatomegalia: o peso corporal costuma ser útil no monitoramento destes pacientes Exame físico cardíaco Palpação: no caso de uma cardiopatia dilatada, o ictus cordis pode desviar à esquerda (6º espaço intercostal na linha axilar). Já no caso de uma cardiopatia hipertrófica, o ictus pode se apresentar impulsivo, forte, ocupando duas polpas digitais; Ausculta cardíaca: Na cardiopatia dilatada, é comum a ausculta de sopro regurgitativo e B3. Já na cardiopatia hipertrófica, é comum a ausculta de sopro ejetivo e presença de B4; Ausculta pulmonar: • Estertores crepitantes: são causados pelos capilares do pulmão que se encontram túrgidos, cheios de sangue, congestos e transudam líquidos para os alvéolos; • Sibilos (asma cardíaca): causados pela congestão brônquica (broncoespasmos); • Ao detectar níveis elevados de volume no pulmão, ocorre uma vasoconstrição arteriolar para aumentar a pré-carga do coração. Esse aumento de pré-carga leva a hipertensão pulmonar; Acúmulo de líquido extravascular no parênquima pulmonar que ocorre quando o movimento de líquido do sangue ao interstício e alvéolos excede o seu retorno e drenagem pelos linfáticos. A membrana alvéolo-capilar separa o espaço alveolar do interstício e é pouco permeável à passagem de fluidos. O edema pulmonar é dividido em estágios: • Estágio 1 - Distensão e recrutamento de pequenos vasos pulmonares: Aumentam as trocas gasosas e difusão de CO2. Ocorre apenas dispneia aos esforços. O exame físico revela discretos estertores inspiratórios por abertura das vias aéreas colabadas e o raio-x mostra uma redistribuição da circulação. • Estágio 2 - Edema intersticial: Ocorre compressão das vias aéreas menores. Pode haver broncoespasmo reflexo. Alteração da ventilação/perfusão leva a hipoxemia proporcional à pressão capilar. Taquipneia por estimulação dos receptores J e de estiramento do interstício e o raio-x mostra borramento para-hilar; • Estágio 3 - Inundação alveolar: Hipoxemia severa e hipocapnia (dióxido de carbo reduzido no sangue). Em casos severos pode haver hipercapnia. Secreção rósea espumosa. Estertores crepitantes em “maré montante” e o raio-x mostra edema alveolar em “asa de borboleta”; Edema agudo de pulmão Características: • Síndrome clínica de instalação catastrófica; • Dispneia intensa e progressiva com agitação; • Insuficiência ventilatória pela inundação dos alvéolos, com expectoração rósea; • Auscultam-se crepitantes profusamente; • Dor precordial sugere infarto do miocárdio; • Hipertensão atrial ou choque cardiogênico. Nas crises mais graves de dispneia paroxística noturna, além da intensa dispneia, há também tosse com expectoração espumosa – branca ou rosada –, cianose, respiração ruidosa pela ocorrência de sibilos e estertores. Este conjunto 50 Capítulo 4 de sintomas e sinais caracteriza o edema agudo do pulmão; Os pacientes que apresentam falência ventricular esquerda aguda, como a causada por um infarto agudo do miocárdio ou estenose mitral são os mais propensos a desenvolver um quadro de edema agudo do pulmão. Isso se dá devido ao aumento da pressão no átrio esquerdo, que ocorre nessas duas afecções, que se transmite às veias pulmonares, tal como em um sistema de vasos comunicantes. O aumento da pressão nos capilares pulmonares ocasiona transudação de líquido para o interstício, que, se ocorrer rapidamente, configura o quadro de edema agudo do pulmão. Critérios de Framingham para ICC O diagnóstico se dá por 2 critérios maiores ou 1 critério maior e 2 menores. Critérios de Boston para ICC O diagnóstico se dá por: • Definitivo: 8 a 12 pontos; • Possível: 5 a 7 pontos; • Improvável: < 4 pontos. Classificação funcional - NYHA Classe I – pacientes com doença cardíaca, porém sem limitação de atividades. A atividade física ordinária não provoca sintomas; Classe II – Estes pacientes sentem-se bem em repouso, mas as atividades físicas comuns provocam sintomas; Classe III – Acentuada limitação nas atividades físicas. Sentem-se bem em repouso, porém pequenos esforços provocam sintomas; Classe IV – Incapacidade de exercer qualquer atividade. Os sintomas existem mesmo em repouso e se acentuam com qualquer atividade. Classificação da SBCClasse A – pacientes sob risco aumentado de ICC. Geralmente apresentam obesidade, 51 Capítulo 4 hipertensão arterial, doença aterosclerótica, síndrome metabólica ou diabetes; Classe B – doença cardíaca estrutural, mas sem sintomas de ICC. Geralmente apresentam hipertrofia ou remodelamento dilatante, mas são assintomáticos; Classe C – doença cardíaca estrutural, com sintomas prévios ou atuais de ICC. Geralmente apresentam falta de ar, fadiga e tolerância reduzida a exercícios físicos. Classe D – ICC refratária, requerendo internação hospitalar. Paciente apresenta sintomas acentuados em repouso, apesar de terapia médica máxima. Classe A: uso de IECA ou BRA e betabloqueadores; Classe B: uso de IECA ou BRA, betabloqueadores e espironolactona; Classe C: uso de IECA ou BRA, betabloqueadores, diuréticos, digitálicos e espironolactona; Classe D: hospitalização, uso de IECA ou BRA, betabloqueadores, diuréticos, digitálicos e espironolactona, inotrópicos IV, vasodilatador IV, ressincronização cardíaca e transplante cardíaco. 52 Capítulo 5 Idade Existem malformações congênitas ligadas ao aparelho respiratório ou com influência sobre ele, como atrésia do esôfago, fístulas que condicionam o aparecimento de pneumonias, cistos pulmonares, pneumotórax, agenesia lobar; Na criança, o sarampo, coqueluche e tuberculose não devem ser esquecidos. A bronquiolite surge nos primeiros meses de vida (6 e 12 meses), os sintomas respiratórios da fibrose cística surgem normalmente depois da fase de lactente; A pneumonia por estafilococos tem certa predileção por crianças; A bronquite crônica, o enfisema e o carcinoma brônquico incidem mais entre os 40 e os 60 anos. Sexo Doenças como lúpus eritematoso sistêmico, artrite reumatoide e sarcoidose são mais comuns em mulheres. Já em homens, devido à maior exposição ocupacional, eles possuem maior risco a desenvolver pneumoconioses (doenças com padrão restritivo associadas à inalação de poeira de metalúrgicas, construtoras, mecânicas ou minas); Cor A tuberculose e sarcoidose predominam entre os negros, estaticamente. Já as colagenoses predominam entre os brancos. Procedência, profissão e ocupação Em países industrializados, as pneumoconioses são mais frequentes; É necessário fazer um levantamento da ocupação atual e das anteriores do paciente, tendo importância saber com qual material ele lida e se ele exerce atividade em ambiente fechado ou ao ar livre; Cabeleireiros podem ser acometidos por doenças broncopulmonares devido ao uso frequente de spray. Antecedentes pessoais e familiares Infecções pulmonares graves e extensas na infância ou juventude podem, no futuro, reduzir as reservas respiratórias em razão da fibrose pulmonar; Antecedentes traumáticos podem causar pneumotórax, hemotórax ou hérnias diafragmáticas; Episódios de perda de consciência, sonoterapia, anestesia, extração dentária e epistaxe condicionam o aparecimento de pneumonias aspirativas; Indivíduos com passado alérgico podem vir a apresentar rinite alérgica, bronquite e asma; Os diabéticos, assim como aqueles que fazem uso de imunossupressores, corticosteroides e antibióticos são muito vulneráveis às infecções Doenças preexistentes e medicamentos Se o indivíduo apresentar quadro de infecção e apresentar AIDS, leucemia, linfoma ou for um transplantado deve-se pensar em agentes oportunistas; 53 Capítulo 5 Os medicamentos em uso devem ser anotados pela possibilidade de a doença atual do indivíduo ser consequência de efeitos colaterais. Dor torácica: padrão ventilatório dependente (dor que piora ao respirar) ou não, que devem ser feitas as seguintes perguntas: • Quando se iniciou e como se iniciou (aguda ou insidiosa)? • Qual o tempo de instalação (súbito ou não)? • Qual a duração da dor? (segundos, minutos, horas, dias); • Qual a intensidade? Indique de 1 a 10; • Qual a localização? Há irradiação? • Qual a característica dor? (em aperto, pulsátil, lancinante); • Quais são os fatores de melhora ou piora? • Como evolui a dor? Há períodos assintomáticos? • A dor é associada a outros sintomas? (febre, vômito, diarreia, náuseas). Rinorreia: coriza que deve ser caracterizada quanto ao aspecto (hialina ou purulenta), cor da secreção (verde, amarela, rósea), tempo de duração, sintomas associados; Soluços: podem fazer parte de síndromes respiratórias, mas vai depender dos sintomas associados; Tosse: pode ser causada por estímulos inflamatórios (hiperemia, edema, secreções e ulcerações), mecânicos (poeira, corpo estranho, mudança da pressão pleural), químicos (gases irritantes) e térmicos (frio ou calor excessivo); • Deve ser caracterizada quanto à frequência, intensidade, tonalidade, presença ou não de expectoração, relação com decúbito e o período do dia de maior intensidade; • Quando acompanhada de secreção, ela pode ser produtiva ou úmida e não deve ser sedada. Pode ser seca também, sendo inútil e causando apenas irritação das vias respiratórias; • Tosse aguda há 7 dias associada à febre, pode estar relacionada à infecção; • Tosse seca que não cede à medicação comum pode ser indicativo de asma; • Nos enfisematosos, a tosse é mais seca. Já nos bronquíticos a tosse é produtiva; • Tosse seca associada a beber/comer está relacionado à doença do esôfago superior. Expectoração: deve ser caracterizado quanto ao volume, cor, odor, transparência e consistência; - O escarro pode ser seroso (rico em água, eletrólitos e proteínas e pobre em células), mucoide (rico em água, mucoproteínas e pobre em células), purulento (rico em piócitos e células) e hemoptoico (composto por “rajas de sangue); Hemoptise: eliminação de sangue pela boca, passando através da glote devido ao sangramento de vias aéreas inferiores, logo após tosse. Pode estar relacionada a hemorragias brônquicas ou alveolares. Deve ser definido o volume (rajas de sangue, moderado volume, grande volume), tempo de duração, sintomas associados; Epistaxe: sangramento nasal que pode estar associado a rinite, sinusite, fragilidade capilar; Vômica: eliminação pela glote de uma quantidade abundante de pus ou líquido de outra natureza, proveniente do abdome ou do tórax. Na maioria das vezes origina-se de abscessos ou cistos; 54 Capítulo 5 Dispneia: será subjetiva quando percebida apenas pelo paciente e objetiva quando evidenciar manifestações ao exame físico. Pode ser classificada em dispneia aos grandes, médios e pequenos esforços e dispneia de repouso; • Ortopneia: dispneia que impede o paciente de ficar deitado e o obriga a sentar-se ou a ficar de pé para obter alívio; • Dispneia paroxística noturna: dispneia que ocorre enquanto o paciente está dormindo e acorda bruscamente com falta de ar; • Platipneia: dispneia em ortostase que melhora com decúbito. Está relacionada a shunts, ou seja, mais sangue é desviado quando o paciente está em pé. Sendo assim, a melhora da oxigenação ocorre quando o paciente se deita. • Trepopneia: dispneia que aparece em determinado decúbito lateral, como acontece nos pacientes com derrame pleural que se deitam sobre o lado são. Sibilância: também chamado de chiado ou chieira, é o ruído predominante na fase expiratória da respiração. Resulta da redução do calibre da árvore brônquica (broncoespasmo) e pode ser o prenúncio de uma crise asmática; • Quando persistente pode indicar neoplasia ou corpo estranho; • As principais causas são: asma, bronquite aguda e crônica, infiltrados eosinofílicos, tuberculose brônquica, neoplasias malignas e benignas, embolias pulmonares, fármacos colinérgicos, bloqueadores betas adrenérgicos, inalantes químicos, vegetais e animais. Disfonia (rouquidão); Cornagem: dificuldade inspiratória por redução do calibre dasvias respiratórias superiores que se manifesta por um ruído (estridor) e tiragem (uso dos músculos intercostais para auxiliar a respiração). • O paciente, para facilitar a entrada de ar, desloca a cabeça para trás em extensão forçada; Para realizar o exame físico do aparelho respiratório, é necessário um ambiente adequado, calmo, com boa iluminação e silencioso; O paciente deve estar com o tórax despido, na posição sentada, preferencialmente. Caso o paciente esteja impossibilitado, o exame pode ser feito em decúbito dorsal. Inspeção estática Compreende o exame físico geral (nível de consciência, biotipo, hidratação, coloração da pele, avaliação da forma do tórax, circulação colateral, hipocratismo digital e alterações da parede torácica (retrações ou abaulamentos); Forma do tórax: é observado com o paciente deitado e sentado; • Normal; • Em tonel ou globoso: aumento exagerado do diâmetro anteroposterior, horizontalização dos arcos costais e abaulamento da coluna dorsal, o que torna o tórax mais curto. Comum em enfisematosos do tipo PP (soprador rosado); • Infundibuliforme (pectus excavatum): depressão na parte inferior do esterno e região epigástrica de natureza congênita; • Cariniforme (pectus carinatum): o esterno é proeminente e as costelas horizontalizadas, resultando em um tórax que se assemelha ao 55 Capítulo 5 das aves (tórax de pombo). Pode ser de origem congênita ou adquirida devido a raquitismo na infância; • Cifótico: curvatura da coluna dorsal, formando uma gibosidade. Pode ser de origem congênita ou resultar de postura defeituosa, assim como de tuberculose óssea, osteomielite ou neoplasias; • Cifoescoliótico: apresenta além da cifose, um desvio da coluna vertebral para o lado (escolioses); Os “sopradores rosados” são pacientes enfisematosos emagrecidos que tem uma tendência a serem rosados por causa do aumento de produção de células sanguíneas. Além disso, ele adotará uma atitude de respiração em que ele fica com os lábios entreabertos soprando para tentar vencer a resistência das vias aéreas; Já os “tossidores azuis” são pacientes enfisematosos com sobrepeso que recebem esse nome pelo quadro de hipoventilação, a qual leva pouco oxigênio para hemoglobina, levando o paciente a uma leve cianose; A) Normal B) Em tonel C) Infundibuliforme D) Cariniforme E) Escoliose F) Cifose G) Gibosidade. 56 Capítulo 5 Outros sinais que devem ser investigados, são: • Circulação colateral no tórax; • Cianose periférica ou central: A cianose central está associada a uma falta de oxigênio do sangue que sai do pulmão e vai para o restante do corpo, pode acontecer em altas altitudes, traumatismo torácico, DPOC e doenças cardíacas. Já a cianose periférica ocorre quando o coração não tem capacidade para mandar sangue suficiente para todo o corpo ou quando a circulação está muito lenta. • Baqueteamento digital: pode ser um sinal de hipóxia crônica; Inspeção dinâmica É necessário observar como se apresenta o paciente; Se ele estiver em ortopneia, preferindo, portanto, ser examinado sentado e recusando se deitar, pode ser um sinal de insuficiência cardíaca; Observar a expansibilidade torácica; Utilização de musculatura acessória: tiragem intercostal, retração diafragmática, retração de fúrcula, batimento de asa de nariz. Indica que o paciente está se esforçando para respirar; Há ruído audível sem estetoscópio? • Estridor: pode significar obstrução grave por corpo estranho, laringoespasmo pós- extubação, laringotraqueíte (risco eminente de vida) Pacientes com DPOC grave, a expiração, além de prolongada, é difícil, obrigando-os a manter os lábios semicerrados durante a expiração; Tipos respiratórios Dispneia suspirosa: caracterizada por uma série de movimentos inspiratórios de amplitude crescente seguidos de expiração breve e rápida. Pode se apresentar também por respiração normal interrompida por suspiros isolados ou agrupados. Geralmente está associado à tensão emocional, como ansiedade e depressão; Biot: geralmente ocorre em lesão neurológica e é caracterizada por duas fases, a primeira de apneia, seguida de movimentos inspiratórios e expiratórios anárquicos quanto ao ritmo e à amplitude. Cheyne-Stokes: ritmo caracterizado por uma fase de apneia seguida de incursões inspiratórias cada vez mais profundas até atingir o máximo e em seguida decrescer até uma nova apneia e assim, sucessivamente. Também pode estar associada a uma lesão neurológica (hipertensão 57 Capítulo 5 craniana, AVC e traumatismos cranioencefálicos) ou por uma ICC muito grave, em que os níveis de H+ e CO2 no sangue variam muito. Cantani: caracterizada por incursões muito profundas e muito rápidas na tentativa de colocar mais CO2 para fora do corpo (alcalose), para amenizar uma acidose metabólica grave. Pode estar presente em casos graves de diabetes descompensada (cetoacidose diabética); Kussmaul: caracterizada por 4 fases, inspirações ruidosas, gradativamente mais amplas, alternadas com inspirações rápidas de pequena amplitude, apneia na inspiração, expirações ruidosas gradativamente mais profundas alternadas com inspirações rápidas e de pequena amplitude e apneia na expiração. Está associado a casos graves de acidose metabólica e sugere um quadro mais grave que Cantani. Palpação • Identificação de regiões de hipersensibilidade; • Avaliação das anormalidades observadas; • Avaliação adicional da expansão torácica: com a palpação é possível identificar pequenas variações da expansibilidade, sendo este um sinal precoce de anormalidade na caixa torácica, pleura e pulmão adjacente; • Avaliação do frêmito toracovocal. Expansibilidade dos ápices e bases pulmonares Com o paciente sentado, de frente e de costas para o examinador, com os braços pendentes. Colocam-se as mãos na base do pescoço do paciente de modo que os polegares estejam em posição simétrica. Solicitam-se inspirações e expirações profundas que provocam deslocamento das mãos, o qual deve ser idêntico em ambos os hemitórax; Frêmito toracovocal Corresponde as vibrações das cordas vocais transmitidas à parede torácica; A palpação é feita com a mão espalmada (região hipotênar) sobre a superfície do tórax e solicitar ao paciente que diga em voz alta “trinta e três”. Deve-se comparar a intensidade das vibrações em regiões homólogas; • De um modo geral, as afecções pleurais são “antipáticas” ao FTV. Isto porque os derrames pleurais líquidos ou gasosos afastam o pulmão 58 Capítulo 5 da parede e dificultam a transmissão das vibrações até a superfície. • Nas condensações pulmonares, desde que os brônquios estejam permeáveis, o FTV torna- se mais nítido, uma vez que a consolidação do parênquima facilita a transmissão da voz. Por isso se diz que as afecções do parênquima são “simpáticas” ao frêmito; • Nos brônquios obstruídos (atelectasias), embora haja condição de ressonância, o som não se propaga. Nesses casos, apesar de a afecção ser parenquimatosa, o FTV está diminuído. Em crianças pequenas deve-se avaliar o frêmito pelo choro ou gemido; Existem outros tipos de frêmito, como o frêmito brônquico, equivalente tátil dos estertores e sensação palpatória de secreções acumuladas nos brônquios e o frêmito pleural, que resulta da sensação tátil do ruído de atrito provocado pelas duas superfícies rugosas dos folhetos pleurais e que pode preceder o derrame. Se inicia pela face posterior do tórax, de cima para baixo, ficando o médico atrás e à esquerda do paciente. Percute-se separadamente cada hemitórax; Em uma segunda etapa, percutir comparativa e simetricamente as várias regiões. A mão esquerda, com os dedos ligeiramenteseparados, deve apoiar-se suavemente sobre a parede, e o dedo médio, sobre o qual se percute, exerce apenas uma leve pressão sobre o tórax; Achados: • Som claro pulmonar: presente nas áreas de projeção dos pulmões; • Som timpânico: presente no espaço de Traube e, quando ausente, é uma das primeiras manifestações das esplenomegalias, as quais manifestam som maciço; • Som maciço: presente na região inferior do esterno (macicez hepática) e na região inframamária direita; • Som submaciço: presente na região precordial. Para sua realização exige-se, além de máximo silêncio, posição cômoda do paciente e do médico. No início, o examinador coloca-se atrás do paciente, o qual deve estar com o tórax despido e respirar pausada e profundamente, com a boca aberta, sem fazer ruído; • A ausculta deve ser feita por, no mínimo, um ciclo respiratório; 59 Capítulo 5 Os sons pleuropulmonares podem ser assim classificados: Ausculta de sons normais Som traqueal: áreas de projeção da traqueia; Som brônquico: áreas de projeção dos brônquios principais; Murmúrio vesicular: periferia dos pulmões. Pode ser diminuído pela presença de ar (pneumotórax), líquido (hidrotórax) ou tecido sólido (espessamento pleural) na cavidade pleural; enfisema pulmonar, dor torácica de qualquer etiologia que impeça ou diminua a movimentação do tórax, obstrução das vias respiratórias superiores, oclusão parcial ou total de brônquios ou bronquíolos. Som broncovesicular: regiões esternal superior e interescápulo-vertebral superior; Ausculta de sons patológicos Roncos: sons graves, indicam secreção nos brônquios; Sibilos: sons agudos, indicam obstrução parcial dos brônquios; • Os roncos e os sibilos se originam do estreitamento das paredes brônquicas (broncoespasmo), como ocorre na asma brônquica, bronquites, bronquiectasias e nas obstruções localizadas. Podem ser achados na inspiração ou na expiração, predominando nessa última. São fugazes e mutáveis, desaparecendo em curto período. Estertores finos ou crepitantes: são agudos, têm curta duração e não se modificam com a tosse. Podem ser comparados ao ruído produzido pelo atrito de um punhado de cabelos junto à orelha. Indicam secreção ou líquido nos alvéolos, como na pneumonia e na congestão pulmonar e estão presentes no final da inspiração; Estertores grossos bolhosos: são menos agudos e duram mais tempo que os finos e sofrem alteração com a tosse. Indicam líquido viscoso e espesso em grande quantidade, como na bronquite crônica e bronquiectasias e estão presentes na inspiração e expiração; Atrito pleural: ocorre nos casos de pleurite, em que os folhetos da pleura estão recobertos de exsudato, passando a emitir um “rangido” mais comum na lateral do tórax, geralmente acompanhado de dor. O derrame pleural determina o desaparecimento desse som; Estridor: som produzido pela semiobstrução da laringe ou da traqueia, podendo ser causado por difteria, laringites agudas, câncer da laringe e estenose da traqueia Descrição do exame normal • Inspeção: Tórax sem alterações de conformação, expansibilidade preservada, ausência de tiragem ou cornagem; • Palpação: sem pontos dolorosos, com expansibilidade preservada, FTV simétrico, sem alterações; • Percussão: som claro pulmonar. Percussão da clavícula e coluna sem alteração; • Ausculta: Murmúrio vesicular presente e bem distribuído, ausência de ruídos adventícios. Referência: PORTO, Celmo Celeno. Semiologia médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, c2009. 1308 p 60 Capítulo 5 Existem algumas patologias respiratórias que são mais comuns e devem ser destacadas, como asma, DPOC e neoplasia de pulmão. Todas essas patologias causam dispneia que pode ser definida como qualquer falta de ar referida, podendo ser causada por disfunções no SNC, de origem psicogênica, de origem musculoesquelética, doenças cardiovasculares e doenças pulmonares; É a inflamação das vias respiratórias, caracterizada pela obstrução e limitação do fluxo expiratório de forma reversível. É uma doença recorrente que pode ocorrer por contato com alérgenos, infecções virais, variações climáticas, exercícios e estresse. Assim, através de crises de repetição, a inflamação aguda pode progredir e gerar inflamação crônica e remodelamento; • Epidemiologia: Tem uma prevalência maior que 300 milhões no mundo e está presente em 10% dos países desenvolvidos. A asma é mais comum em idades menores que 25 anos ou em idades maiores que 40 anos; Ocorre por uma reação a alérgenos de forma exacerbada (atopia) com alta produção de anticorpos IgE, células inflamatórias (linfócitos, eosinófilos, mastócitos e basófilos) e mediadores inflamatórios (citocina, histamina e leucotrienos) que, quando caem na circulação e na região do brônquio, fazem a constrição da musculatura lisa das vias aéreas inferiores (broncoespasmo) e, consequentemente, a falta de ar. Com isso, o paciente tem dificuldade de pôr o ar para fora do pulmão e precisa fazer força para expirar, produzindo o sibilo; A fisiopatologia da asma se divide em três fases: • Inflamação aguda: broncoespasmo, edema, secreção, dispneia e tosse; • Inflamação crônica: através de várias crises de repetição, com o tempo há recrutamento celular, dano epitelial e modificações estruturais precoces, assim como deformidades da árvore respiratória; • Remodelamento das vias aéreas: proliferação celular, aumento da matriz extracelular, espessamento endotelial e tosse crônica; É causada por: • Inflamatórios: - Alérgenos ambientais: ácaros, epitélios de animais como cão e gato, mofo; - Infecções respiratórias: gripes e resfriados; 61 Capítulo 5 - Fatores ocupacionais: fumaças, poluentes químicos, odores intensos; • Irritativos - Exercícios; - Mudanças súbitas de temperatura/ ar frio; - Odores; - Estresse; • Miscelânia: - Tabaco; - Medicamentos: AAS, AINE’s e betabloqueadores; Anamnese Geralmente, o paciente vem com as seguintes queixas: • Dispneia em episódios recorrentes; • Sensação de opressão torácica; • Chiado, força respiratória; • Tosse seca irritativa continuada ou produtiva com expectoração mucoide; • Piora dos sintomas à noite com o sereno, ao acordar ou aos exercícios; Nos antecedentes familiares e pessoais apresenta histórico de atopia, dermatites, rinite, sibilância na infância. Exame físico Exame físico geral e inspeção: Ansiedade, taquicardia, taquipneia, prolongamento do tempo expiratório, uso de musculatura acessória e cianose; Percussão: hipertimpânco na crise, se grave; Ausculta: chiados ou sibilos (principalmente na fase expiratória da respiração e pela manhã), roncos (se houver hipersecreção/infecção) ou tórax silencioso; A ausência de sibilos não exclui o diagnóstico de asma e, na vigência de uma crise, o tórax silencioso pode indicar um caso de gravidade extrema, quando a passagem do ar nas vias respiratórias está quase 100% impedida pelo broncoespasmo. Exames complementares Laboratoriais: elevação de IgE e eosinófilos; Teste de alérgenos cutâneos: barata, ácaro, pólen, poeira; Imagem: o raio-x de tórax geralmente se apresenta normal, no entanto, na asma grave, pode haver hiperinsuflação com depressão diafragmática e campos pulmonares hipertransparentes); Espirometria/prova de função pulmonar (PFP): registra o volume máximo de ar (VEF) que um indivíduo pode movimentar desde a inspiração forcada até a expiração forçada. Tem como objetivo identificar a obstrução de vias aéreas e sua reversibilidade com o uso de broncodilatador. Os indicadores de asma na espirometria, são: • VEF1 (volume expiratório forçado no 1º segundo) < 80%; • VEF1/CVF (capacidade vital forçada) < 75% em adultos ou 85% em crianças• Melhora do fluxo após uso de broncodilatador; • Melhora do VEF1 após tempo ou uso de corticoide > 20%/250ml. 62 Capítulo 5 Uma espirometria normal não exclui o diagnóstico de asma, visto que, devido à natureza intermitente e variável da obstrução, pode ser necessária a repetição do exame, em outro momento, para a caracterização da obstrução. É uma doença inflamatória crônica dos brônquios, bronquíolos e da parede alveolar com declínio do fluxo aéreo expiratório e perda da capacidade funcional pulmonar de forma irreversível, sistêmica e persistente. Pode ser de dois tipos: • Enfisema: destruição das paredes alveolares; • Bronquite crônica: inflamação; Fatores de risco: • Tabagismo (principal causa); • Fumaça de lenha e biocombustíveis (exposição ocupacional); • Infecções respiratórias graves na infância; • Predisposição genética; • Irritantes químicas. Bronquite crônica A agressão crônica às vias respiratórias vai estimular a produção de macrófagos e neutrófilos e a inflamação crônica, estimulando a hipertrofia e hiperplasia de glândulas produtoras de muco e a produção excessiva de muco, consequentemente. Também ocorre destruição parcial da cartilagem brônquica e fibrose, resultando em obstrução das vias aéreas por inflamação. Enfisema A agressão crônica atua sobre os neutrófilos, estimulando a ação de uma enzima protease chamada elastase, a qual vai destruir a parede alveolar e reduzir a retração elástica, impedindo que o alvéolo se encha da forma adequada e se esvazie de forma adequada, perdendo, então, a complacência alveolar. Com isso, ocorre uma redução do fluxo expiratório e obstrução das vias aéreas por alteração da arquitetura pulmonar. A obstrução ao fluxo expiratório impede a saída do ar, e o VEF1 fica reduzido. O ar, então, é aprisionado e hiperinsufla os pulmões, provocando o aumento do volume residual e a redução da capacidade vital forçada (CVF). Portanto, quanto menor o tempo expiratório, pior é a hiperinsuflação, e a frequência respiratória aumentada nos esforços diminui o tempo expiratório e provoca a piora aguda da hiperinsuflação pulmonar. Esse processo denomina-se hiperinsuflação dinâmica e explica a piora da dispneia aos esforços nos pacientes com DPOC. 63 Capítulo 5 Manifestações clínicas e anamnese Bronquite: • Tosse produtiva crônica por mais de 3 meses ou por pelo menos 1 ano ou mais de 2 anos consecutivos; • Dispneia após redução de 50% da função pulmonar; Enfisema: • Dispneia lenta e progressiva; • Limitação progressiva da atividade física; Na anamnese, o simples questionamento sobre o tabagismo ou a exposição a outras fumaças tóxicas pode ser chave para a busca ativa de casos de DPOC. Além disso, é necessário avaliar a existência de comorbidades, como HAS, dislipidemias, síndrome metabólica, depressão, catarata, osteoporose e câncer de pulmão. Exame físico Inspeção e exame físico geral: Taquipneia, uso de musculatura acessória, cianose e aumento da pressão venosa à inspiração (turgência jugular); Os pacientes com DPOC são classificados em dois tipos: enfisematoso (pink puffer ou soprador rosado) e bronquítico crônico (blue bloater ou soprador azul). A maioria dos pacientes apresenta uma combinação desses dois tipos: O paciente com enfisema se apresenta: • Longilíneo, fácies angustiada, magro; • Tórax em tonel; • Dispneia expiratória intensa; • Pouca expectoração; • Utilização do “ponto de ancoragem” – posição ortopneica; • Sem sinais de cor pulmonale ou hipóxia significativa; • Hipoxemia sem hipercapnia; • À ausculta, murmúrios vesiculares diminuídos porque os alvéolos não enchem e nem se esvaziam com facilidade e estertores finos; Já o paciente com bronquite crônica se apresenta: • Brevilíneo, obeso, fácies pletórica (sufusão cianótica ou rósea no pescoço e/ou face devido à estase venosa); • Dispneia discreta; • Respiração ruidosa com presença de muita secreção; • Hipoxemia com hipercapnia; • Cor pulmonale: é uma forma de insuficiência cardíaca, onde há diminuição da capacidade de funcionamento das câmaras direitas do coração, por doença pulmonar; • À ausculta, roncos e sibilos, hiperfonese de B2 no foco pulmonar devido ao aumento da pressão arterial do pulmão (hipertensão pulmonar); 64 Capítulo 5 Exames complementares Espirometria; • A obstrução ao fluxo respiratório é caracterizada pela relação VEF1/CVF abaixo de 0,70 ou do valor normal para idade e altura, após administração de broncodilatador; • A espirometria, além do diagnóstico também indica a gravidade da obstrução ao fluxo respiratório de acordo com valores de VEF1. Oximetria de pulso e gasometria: • A oximetria avalia a saturação de O2 e deve ser realizada em todos os pacientes com DPOC; • Caso a saturação seja inferior a 92% ou o paciente tiver VEF1 inferior a 35% ao previsto, é solicitada a gasometria; • Tendência a reter CO2 (aumento de PC02): mais no DPOC com predomínio de bronquite crônica; • Quando a relação ventilação/perfusão diminui muito, temos uma insuficiência respiratória; - PO2 < 60; - PCO2 > 50. Radiografia de tórax: sinais crônicos bem definidos, como aumento do espaço retroesternal, aumento do espaço retrocardíaco, arcos costais mais retificados, coração em formato de gota (coração mais “em pé”) e, algumas vezes, transparência pulmonar difusa; Na tomografia do enfisematoso, é possível notar as bolhas no pulmão: • A asma está associada a agentes sensibilizantes (alérgenos), os quais provocam inflamação das vias aéreas com linfócitos TCD4+ e eosinófilos, provocando uma lesão completamente reversível; Já a DPOC está associada a agentes nocivos (fumaças, produtos químicos), os quais provocam inflamação das vias aéreas com 65 Capítulo 5 linfócitos TCD8, macrófagos e neutrófilos, provocando uma lesão totalmente irreversível. A semelhança entre essas duas patologias é a limitação do fluxo aéreo por obstrução, dispneia com sibilos e tosse; Epidemiologia: • 3ª causa de câncer, depois de mama e próstata; • 2ª causa de câncer em homens e 4ª causa em mulheres; • 1º lugar em mortalidade por câncer; • É extremamente associado ao tabagismo – relação dose-dependente – estando associado a 90% dos casos de cânceres de pulmão; 99% são tumores de epitélio respiratório (pneumócitos), levando ao carcinoma broncogênico. Eles podem ser de dois tipos: • Pequenas células: CPCP; • Não pequenas células: CPCNP, os quais se subdividem em adenocarcinoma, carcinoma de células escamosas e carcinoma de células grandes; Manifestações clínicas Sintomas locais: Tosse de início recente ou mudança do padrão da tosse, hemoptise, sibilos localizados, pneumonia de repetição, abscesso pulmonar; Sintomas de invasão local: dor torácica, dispneia por derrame pleural, derrame pericárdico, rouquidão (compressão do nervo vago ou laríngeo recorrente), síndrome da veia cava superior (compressão da veia cava), síndrome de Horner e síndrome de Pancoast; • Síndrome de Pancoast: ocorre por uma compressão do tumor, envolvendo o plexo braquial e nervos cervicais e simpáticos, causando a síndrome de Horner (miose, anidrose, ptose palpebral) e dores severas, atrofia de mãos e músculos do braço. Metástases: ossos, fígados, gânglios cervicais e supraclavicular; Síndromes paraneoplásicas: baqueteamento digital, leucemia, trombose venosa; Sintomas sistêmicos: perda de peso, fraqueza, anorexia e febre; Achados radiológicos em pacientes assintomáticos: imagens ovaladas, “raio-x em bala de canhão”. Tratamento O tratamento inicial do câncer vai depender do estadiamento do tumor e das metástases. Quando descoberto precocemente,é indicada a ressecção cirúrgica, complementando com quimioterapia e radioterapia; Referência: Semiologia Médica – Porto. 66 Capítulo 5 í As principais síndromes pleuropulmonares, são: • Síndrome de consolidação ou condensação; • Síndrome de atelectasia; • Síndrome de hiperinsuflação pulmonar; • Síndrome de derrame pleural; • Síndrome de pneumotórax; • Síndrome de cavitação. Geralmente, essas síndromes se sobrepõem nas doenças pleuropulmonares devido à variação de sinais e sintomas. O exame do tórax é realizado em etapas que permitem checar e confirmar os achados observados. Ao finalizar o exame do tórax, o médico deve ser capaz de classificar o conjunto de alterações observadas dentro de um diagnostico sindrômico; Entretanto, não é incomum o encontro de sinais isolados que não permitem a caracterização de uma síndrome pleuropulmonar. É a mais importante por ser mais prevalente, podendo ser caracterizada por comprometimento predominante do espaço aéreo distal (alvéolos, ductos e sacos alveolares) que estão preenchidos por líquido, tecido ou combinação de ambos; A consolidação representa a substituição de ar dos alvéolos por líquido, proteína, células ou outras substâncias; Causas • Pneumonia: mais prevalente; • Infarto pulmonar; • Tuberculose; • Câncer; • Congestão. Manifestações clínicas • Taquipneia e dispneia: devido ao preenchimento espaço aéreo e comprometimento da superfície designada à hematose; • Tosse seca ou produtiva: quando produtiva, deve ser perguntado o aspecto, quantidade e a cor dessa secreção; • Expectoração hemoptoica: ocorre principalmente na tuberculose, associada à hemoptise; • Desconforto retroesternal; • Dor pleurítica: se houver comprometimento da pleura associado. São infecções respiratórias inferiores, gerando um processo inflamatório agudo que compromete os espaços alveolares com 67 Capítulo 5 exsudato (microrganismos, fluidos e células inflamatórias); Os pacientes tipicamente apresentam febre, mal-estar, dores no corpo, tosse (achado mais importante) e frequentemente dor de cabeça; As pneumonias são classificadas em: Pneumonia adquirida na comunidade (PAC): doença adquirida fora do ambiente hospitalar ou de unidades especiais de atenção à saúde, ou ainda que se manifesta em até 48 horas da admissão à unidade assistencial; Pneumonia nosocomial: se instala após 48 horas de internação ou que ocorre até 48 horas após a alta hospitalar; logo, os agentes etiológicos não estavam previamente incubados no momento da admissão. Fisiopatologia: • Inoculação direta; • Inalação de partículas infecciosas; • Aspiração de conteúdo da orofaringe; • Aspiração de conteúdo gástrico; • Via hematogênica; • Invasão da infecção de estruturas contíguas; • Defesa do hospedeiro/virulência do agente; • Reativação. Fatores predisponentes: Relacionados ao hospedeiro: • Condições pré-existentes, como fibrose cística, DPOC, uso de corticoides (imunossupressão), SIDA; • Hábitos como tabagismo, etilismo ou uso de outras drogas; • Desnutrição; • No caso da pediatria, como baixo peso ao nascer ou desmame precoce; - Hipoxemia. Fatores ambientais: • Áreas urbanas poluídas; • Hábitos de fumo por familiares. Fatores socioeconômicos: • Más condições de habitação e as sanitárias; • Dificuldade de acesso aos serviços de saúde; • Insuficiência da cobertura vacinal. Sinais e sintomas: • Tosse: na fase inicial pode ser seca, mas evolui para produtiva do tipo purulenta; - A secreção pode ser hemoptoica; • Dor torácica do tipo pleurítica: localizada, em pontada que piora com a tosse e a inspiração profunda (ventilatória dependente) • Dispneia: ocorre em quadros mais graves; • Febre; Exame físico: Inspeção: • A forma do tórax geralmente não se modifica; • FR aumentada, com ou sem uso de musculatura acessória; - A presença de taquipneia > 30 irpm indica quadro grave e risco de óbito; • Ritmo respiratório normal; • Expansibilidade diminuída do lado acometido. Palpação: • Confirmar a expansibilidade notada na inspeção; • Frêmito toraco-vocal aumentado, pode haver frêmito brônquico ou pleural; 68 Capítulo 5 Percussão: • Macicez ou submacicez das regiões afetadas; Ausculta: • Murmúrio vesicular (MV) diminuído; • Estertores finos; • Pode ser observado atrito pleural. • Pode ser observada respiração brônquica substituindo o MV; • Sopro tubário: transmissão do sopro normal para o parênquima pulmonar condensado; • Broncofonia ou egofonia, pectorilóquia. Exames complementares: Raio-x de tórax: deve ser solicitado sempre; A indicação dos demais exames depende de critérios clínicos de gravidade, como hemograma, glicemia, U/Cr eletrólitos, proteínas totais e frações, coagulograma, gasometria arterial; Em uma doença predominantemente alveolar, o raio-x do tórax apresenta: • Consolidação parenquimatosa; • Opacidades alveolares; • Homogênea; • Obscurece vasos pulmonares; • Pequena ou nenhuma perda de volume; • Contornos mal definidos; • Aerobroncogramas; • Nódulos acinares. Pneumonia aspirativa: um achado típico de broncoaspiração, é consolidação do terço inferior do hemitórax direito, devido ao ângulo do brônquio fonte direito que é mais paralelo e Pneumonia lobar: quando acomete um lobo todo. No caso abaixo, o comprometimento se localiza no lobo superior direito; Broncopneumonia: quando ocorre comprometimento tanto do saco alveolar, como do brônquio; Sintomas • Tosse pode ser seca no início, torna-se produtiva e ocorre por mais de 3 semanas; 69 Capítulo 5 • Escarro hemoptoico; • Dor torácica ventilatória dependente; • Dispneia; • Febre vespertina; • Perda ponderal muito importante; Exame físico e de imagem • Inspeção: paciente desnutrido; • Ausculta: - Crepitação em ápice; - Sopro tubário e/ou cavitário; • Raio-x de tórax: lesão em ápice com cavidade, pois, geralmente, a Mycobacterium tem tropismo por áreas mais oxigenadas como o ápice pulmonar. O infarto pulmonar ocorre por um trombo ejetado do ventrículo direito para algum ponto do pulmão, obstruindo e comprometendo a circulação pulmonar para determinado ponto; Sinais e sintomas • Escarro hemoptoico; • Tosse improdutiva ou produtiva; • Hemoptise; • Dor torácica pleurítica; • Taquipneia e dispneia. Tumor que nasce na árvore brônquica e impede a passagem de ar; Sintomas • Dispneia, tosse seca, perda ponderal; • Hemoptise: devido à neovascularização frequente em neoplasias; • História de tabagismo ativo ou passivo; • Pneumonia de repetição no mesmo segmento pulmonar. Exame físico Inspeção: retração do hemitórax e tiragem. O bloqueio da entrada de ar, faz com que os alvéolos colabem (fechem), causando atelectasia. Além disso, há desvio da traqueia e uma assimetria na expansão torácica; Palpação: expansibilidade diminuída; - Quando avançado, apresenta gânglio supraclavicular. Percussão: submacicez ou macicez; Ausculta: Murmúrio vesicular diminuído ou ausente. TC de um paciente de 63 anos, grande fumante, mostrando lesão espiculada no lobo superior direito, a qual se trata de um adenocarcinoma, tumor com células neoplásicas formando glândulas. Ocorre por uma parada de passagem do ar e desaparecimento de ar dos alvéolos, 70 Capítulo 5 principalmente por processo neoplásico, corpo estranho ou pneumonia com grande consolidação; Os sintomas mais comuns são: dispneia e tosse seca; No exame de imagem: retração da traqueia e do mediastino para o lado da imagem; Exame físico e exame de imagem Inspeção: expansibilidade reduzida se for intensa; Percussão: Submaciço, pois há aumentona distância entre a caixa torácica e o pulmão, no entanto, não tem a presença de ar, apenas paredes colabadas umas nas outras; Palpação: Frêmito toracovocal reduzido ou abolido, devido ao aumento da distância do parênquima ao local de ausculta e por não ter passagem de ar; Ausculta: MV diminuído ou abolido; Acúmulo anormal de líquido no espaço pleural por um desequilíbrio entre seus mecanismos de formação e reabsorção do líquido pleural. Essa síndrome é encontrada nas pleurites, pneumonias, neoplasias, colagenoses, síndrome nefrótica e na insuficiência cardíaca. O líquido acumulado pode ser de dois tipos: • Transudato: líquido sem conteúdo inflamatório (pouca proteína) que está associado ao aumento da pressão hidrostática ou diminuição da pressão oncótica. Presente em casos de ICC, cirrose hepática e IR; • Exsudato: líquido com conteúdo inflamatório associado à hiperprodução de proteínas e células como linfomonos na tuberculose, polimorfonucleares na pneumonia e neoplásicas nas malignidades. Essa hiperprodução celular altera a pressão oncótica do líquido pleural, puxando mais água aumento de permeabilidade); A presença de qualquer um dos três critérios de exsudato é suficiente para sua caracterização e a presença dos três critérios do transudato é necessário para sua caracterização. Sinais e sintomas • Dor torácica ventilatório-dependente devido à estimulação da pleura; • Dispneia; • Febre, astenia, inapetência e perda ponderal; Exame físico e exame de imagem Inspeção: expansibilidade reduzida e taquipneia; Percussão: Submaciço ou maciço; Palpação: Frêmito toracovocal reduzido ou abolido; 71 Capítulo 5 Ausculta: Distanciamento da ausculta com murmúrios vesiculares reduzidos ou abolidos devido ao afastamento do pulmão da caixa torácica pelo líquido pleural. Resulta do aumento anormal dos espaços aéreos distais ao bronquíolo terminal, acompanhadas de modificações das paredes alveolares. Pacientes com doenças crônicas que apresentam dificuldade na expiração com sacos alveolares cheios e hiperextendidos, aumentando o volume da caixa torácica; Causas: DPOC, asma e bronquiolite; Manifestações clínicas: a mais importante é a dispneia, que se agrava lentamente. No início ocorre apenas aos grandes esforços, mas, nas fases avançadas, aparece até em repouso. Analogamente ao derrame pleural, a síndrome de pneumotórax é composta por ar ao invés de líquido, aumentando também, a distância entre a caixa torácica e o pulmão; Causas: pode ser espontâneo, por trauma, ruptura de bolha subpleural ou por doenças subjacentes; Sintomas • Dor torácica aguda: o pneumotórax espontâneo leva a uma dor pleurítica; • Dispneia: o aumento da pressão leva a compressão do parênquima acionante, fazendo com que muitas vezes os sacos alveolares não ventilem da forma adequada, pois a pressão do ar impossibilita; • Tosse seca: agressão ao parênquima pelo aumento da pressão pleural; Exame físico Inspeção: sem alterações; Palpação: expansibilidade reduzida, FTV reduzido ou abolido pelo aumento da distância entre o local da ausculta e o local onde o som é produzido; Percussão: Hipertimpanismo, pois a cavidade pleural estará cheia de ar; Ausculta: MV reduzido ou abolido. Derrame pleural extenso com desvio de traqueia e mediastino 72 Capítulo 6 ó • O sistema endócrino é um conjunto de glândulas; • De modo geral, os distúrbios das glândulas endócrinas se manifestem sob a forma de diminuição/ausência ou aumento da produção glandular; • As glândulas que fazem parte do sistema endócrino são: - Tireoide; - Paratireoides; - Suprarrenais; - Hipófise; - Pâncreas; - Ovário e testículo. • A distribuição dos hormônios em todo o corpo humano resulta em apresentações de doenças endócrinas difusas e variáveis. Muitos pacientes não apresentam queixas específicas, como fadiga ou alterações no peso. A maioria dos pacientes experimenta um número limitado de componentes da síndrome e possivelmente não observe os sintomas que não sejam tipicamente sindrômicos. Sinais e sintomas inespecíficos: • Alterações de peso; • Alterações na altura; • Alterações de apetite; • Hábitos intestinais ou urinários; • Distribuição de pelos; • Alteração na menstruação; • Sudorese; • Cefaleias; • Letargia; • Ansiedade; • Depressão; • Disfunção erétil. Sinais e sintomas patognomônicos de distúrbios endócrinos: • Históricos de hiperpigmentação em pacientes com perda de peso e anorexia apontam para um diagnóstico de insuficiência adrenal primária; • Históricos de expansão acral com aumento progressivo no tamanho dos anéis e dos sapatos em pacientes hipertensos/diabéticos é uma forte sugestão para o diagnóstico de acromegalia; • Históricos de fraqueza muscular proximal adquirida e de adiposidade centrípeta, em combinação com o início recente de hipertensão e diabetes mellitus, sugerem um diagnóstico de hipercortisolismo; • Históricos de oligomenorreia e hirsutismo progressivo na ocasião do primeiro ciclo menstrual apontam para um diagnóstico da síndrome de ovário policístico. Por outro lado, o início abrupto e progressivo de excesso de hormônio androgênico em mulheres (durante um período de semanas ou meses) é uma indicação importante para o diagnóstico de neoplasia secretora de esteroides. Naturalidade: em algumas regiões que possuem déficit de iodo, o paciente pode apresentar bócio endêmico, sugestivo de hipotireoidismo; 73 Capítulo 6 Etnia: os índios pima têm uma prevalência muito maior de diabetes mellitus; Idade: é necessário verificar se o paciente apresenta aparentemente uma idade compatível com a referida, pois em doenças como a síndrome de Hutchinson-Gilford, também conhecida como progéria ou doença de Benjamin Button, na qual crianças envelhecem rapidamente. Queixas clínicas comuns: • Polidipsia, poliúria e polifagia (sinais sugestivos de diabetes); • Perda ou ganho de peso; • Inapetência (falta de apetite); • Alteração do ritmo intestinal (algumas doenças podem diminuir ou aumentar o trânsito intestinal, como hipertireoidismo e hipotireoidismo, respectivamente; • Redução da libido (alterações dos hormônios sexuais); Antecedentes médicos: • Desenvolvimento puberal e cognitivo; • Menarca, menopausa e paridade (pacientes que nunca amamentaram tem maior risco de ter câncer de mama do que as que já amamentaram); • Crescimento (hormônio gH); • Traumas craniofaciais; • Cirurgias e intercorrências cirúrgicas: a Síndrome de Sheeran está associada a um choque hipovolêmico que pode resultar na necrose hipofisária. Essa doença é mais comum após os partos; • Históricos anteriores de doenças endócrinas; • Uso de medicações e suplementos: prescritas por profissionais de saúde ou autoprescritas; • Comorbidades associadas; • Antecedentes familiares de distúrbios endócrinos; • Hábitos de vida; • Interrogatório sistemático. Geral • Peso, altura/estatura e IMC; • Estatura-alvo: • Circunferência abdominal: deve ser medida entre a parte inferior das costelas e ponto mais alto do osso do quadril (crista ilíaca ântero superior), exatamente na direção da cicatriz umbilical. Deve ser calculada, pois é importante para avaliar o fator de risco cardiovascular; • RCQ: cintura/quadril: Uma relação com o valor maior que 0,95 nos homens e maior que 0,85 nas mulheres também sugerem um risco cardiovascular; • Envergadura: caso o paciente tenha uma envergadura que exceda a sua altura em mais de 5cm, ele possui um hábito eunucoide, que pode estar associado a algumas patologias; 74 Capítulo 6 • Pressão arterial; • Frequência cardíaca; • Glicemia capilar; • Distribuição de gordura corporal: o maiscomum é que homens acumulem gordura no abdome (distribuição de gordura androide) e as mulheres acumulem gordura nos quadris (distribuição de gordura ginecoide); • Aparência, voz, atitude e comportamento; • Distribuição de pelos: - Hirsutismo: presença de pelos terminais nas mulheres, com padrão de distribuição de corporal masculino, que inclui áreas anatômicas sensíveis aos androgênios como face, tórax, linha alba, lombar e glúteos; - Hipertricose: crescimento de pelos em qualquer área do corpo, em padrão não sexual; - Virilizacão: associada a outras manifestações de masculinização, como clitoromegalia, atrofia mamária, agravamento da voz. Pode estar associada ao uso de anabolizantes; Escala de Ferriman e Gallwey Um resultado acima de 8 nessa escala já pode considerar hirsutismo. Fácies: • Acromegalia x Gigantismo: Caso o paciente possua o corpo todo grande, provavelmente será gigantismo, pois essa alteração hormonal se deu antes do fechamento das epífises. Se ele tiver somente as extremidades grandes, provavelmente ele terá acromegalia; • Nanismo: existem dois tipos de nanismo, o hipofisário ou por acondroplasia; • Síndrome de Cushing: fáscia de lua cheia por excesso de cortisol. Geralmente é causada por tratamentos prolongados com corticosteroides; • Doença de Addison: insuficiência adrenal, caracterizada por pele hiperpigmentada associada a lesões hiperpigmentadas; • Hipertireoidismo: paciente emagrecido com exoftalmia; • Hipotireoidismo: paciente com aspecto sonolento. A fácies de hipotireoidismo no bebê geralmente é caracterizada por macroglossia (língua aumentada); • Hipogonadismo: deficiência de hormônios sexuais caracterizada por uma fácies envelhecida; • Síndrome de Down: é necessário investigar a presença do hipotireoidismo em pacientes que possuem essa síndrome; • Síndrome de diGeorge: é necessário investigar se há alguma alteração das paratireoides e hipocalcemia nesses pacientes; • Exoftalmia de Graves: é necessário observar se o olho está passando da margem orbital e se essa exoftalmia é associada ao hipertireoidismo ou não. 75 Capítulo 6 Exame de cabeça e pescoço Campo visual: pacientes diabéticos costumam ter alterações visuais (retinopatias); Dentes: verificar a presença de mobilidade dentária, pois pacientes diabéticos geralmente apresentam esse sinal, além de lesões na gengiva; Halitose: em pacientes diabéticos é comum o hálito cetônico, devido à falta de insulina, o nível de açúcar aumenta no sangue e as células sofrem com a falta de energia. Uma alternativa para isso é utilizar os estoques de gordura para gerar energia, no entanto, quando as gorduras são degradadas, formam-se as cetonas; Implantação de orelhas: na síndrome de Down é comum essa alteração; Pescoço alado: é uma característica sugestiva da Síndrome de Turner; Cicatrizes de cirurgia de bócio: caso o paciente tenha tirado a tireoide e não faça a reposição dos hormônios secretados por essa glândula o resultado será um quadro de hipotireoidismo importante; Exame físico do tórax Tórax de desnutrição; Obesidade de tronco com bolsas de gordura cervicais e braços finos são sugestivos de Síndrome de Cushing; Galactorreia: secreção de leite pelo mamilo fora da gravidez que pode estar associada a um tumor benigno glandular da hipófise chamado prolactinoma, o qual produz prolactina; Ginecomastia: crescimento das mamas em pessoas do sexo masculino que podem estar associadas a algum tumor produtor de estrógeno ou à obesidade; Exame físico do abdômen Inspeção do abdome; Avaliar sopros; Buscar presença de massas; Estrias violáceas: sugestivas de Síndrome de Cushing. Exame físico da genitália Orquidômetro de Prader: utilizado pelos pediatras para verificar se o tamanho dos testículos está normal; Exame físico da pele Xantelasmas: podem ser sugestivos de hipercolesterolemia, alteração metabólica; Xantomas eruptivos: erupções de gordura; Tofos: depósitos de ácido úrico que possuem aspecto de nódulos duros; Hiperpigmentação: presente nas mucosas de pacientes com Doença de Addison; Acantose nigricans: hiperqueratose e hiperpigmentação em áreas de dobras que podem estar associadas a estados de resistência à insulina; Exame físico das extremidades É importante avaliar as extremidades, principalmente devido aos casos de diabéticos que possuem neuropatias, lesões de pé, rachaduras e fissuras, úlceras, necrose; Pé de Charcot: outra alteração frequente em diabéticos caracterizada por remodelamentos ósseos por destruição e deslocamento ósseo; Edema: pode ser sugestivo de Síndrome de Cushing e hipotireoidismo; 76 Capítulo 6 Onicólise: levantamento da unha no leito ungueal que pode ser sugestivo de hipertireoidismo, mas pode estar associado à anemia também; Geno varo: pés para dentro que pode estar associado ao raquitismo. O raquitismo pode ser causado pela deficiência de vitamina D ou pela deficiência de fosfato (hipofosfatêmico); - Osteogênese imperfeita: diagnóstico diferencial de raquitismo com presença de deformidades ósseas com fraturas e esclera azul; Sinais clássicos Sinal da prece: é um sinal sugestivo de diabetes que ocorre pela limitação da mobilidade articular das mãos; Sinal Chvostek: indicativo de hipoparatireoidismo. Consiste na presença de espasmos espontâneos dos músculos faciais em resposta à percussão do nervo facial na região zigomática. É um dos sinais de tetania devido ao nervo que está hiperexcitado por causa da hipocalcemia. Sinal de Trousseau: indicativo de hipoparatireoidismo. Consiste na contração dos músculos do antebraço dorsiflexão do punho em resposta à compressão do braço (artéria braquial) por meio de esfigmomanômetro insuflado por três minutos. Ocorre também, devido ao estado de excitação aumentada presente na hipocalcemia; Sinal de Pemberton: consiste em vermelhidão do rosto do paciente ao levantar os membros superiores acima da cabeça. É um indicador importante do aumento da pressão de entrada no tórax (porção superior e avalia bócios que mergulham no espaço retroesternal e causam obstrução da veia cava superior. É importante conhecer a fisiologia de cada glândula e cada hormônio envolvido para chegar ao diagnóstico sindrômico; Os exames diagnósticos dependem da dosagem dos hormônios em excesso ou em falta ou dos seus metabólitos; Exames de imagem complementares podem ser solicitados em casos específicos. 77 Capítulo 6 ó • Se localiza na sela túrcica, cavidade óssea localizada no osso esfenoide na base do crânio; • Possui relações com o quiasma óptico, nervo oculomotor, nervo abducente e nervo troclear; • Recebe o comando do hipotálamo, o qual se conecta com ela através da haste hipofisária; • A irrigação arterial da hipófise provém de ramos da artéria hipofisária superior, originada da carótida interna; • O sistema porta-hipofisário é responsável por levar os hormônios produzidos no hipotálamo até a hipófise, estimulando a produção de hormônios; • A hipófise se divide em: - Adenohipófise: região anterior da hipófise que sintetiza e libera seis hormônios através da regulação do hipotálamo. Os hormônios secretados pelo hipotálamo alcançam pela via sanguínea os órgãos- alvo, onde promovem a liberação de outro hormônio, criando-se um mecanismo de feedback; - Neurohipófise: região posterior da hipófise que libera dois hormônios; No lobo anterior (adenohipófise), temos: • Prolactina: hormônio produzido pelos lactotrofos, responsável pelo desenvolvimento da mama e produção de leite; • ACTH: hormônio produzido pelos corticotrofos, responsável por estimular a suprarrenal a produzir cortisol, aldosterona e andrógenos parao equilíbrio de H20 e Na, inflamação e metabolismo; • TSH: hormônio produzido pelos tireotrofos, responsável pelo crescimento, diferenciação e equilíbrio energético; • GH: hormônio produzido pelos somatotrofos, responsável pelo crescimento dos ossos; • LH e FSH: hormônios produzidos pelos gonadotrofos, responsáveis por estimular as gônadas femininas e masculinas a produzirem outros hormônios responsáveis pelas características sexuais; No lobo posterior (neurohipófise), temos: • Ocitocina: responsável pela contração do útero gravido no final da gestação e auxílio na ejeção do leite pelos seios; • AVP/ADH: também chamado de vasopressina, o hormônio antidiurético é responsável pelo controle da pressão osmótica total dos líquidos do organismo. Eixo hipotálamo-hipófise 78 Capítulo 6 O eixo hipotálamo-hipófise compreende hormônios do hipotálamo que estimulam ou inibem os hormônios produzidos na hipófise anterior. Dentre esses hormônios produzidos pela adenohipófise, o único que não é estimulado, ou seja, o único que é inibido é a prolactina. Portanto, caso aconteça algum bloqueio no eixo hipotálamo- hipófise, todos os hormônios irão diminuir, exceto a prolactina que vai aumentar; A neurohipófise não é estimulada através de hormônios, como a adenohipófise. Sendo assim, a ocitocina é produzida através de estímulos nervosos por meio do reflexo da sucção da mama pelo bebê, enquanto o hormônio antidiurético é produzido através da detecção de estados de hipovolemia no corpo; Podem estar relacionados a hiperprodução hormonal, déficit hormonal ou efeitos de massa (grandes tumorações); A hiperfunção hipofisária compreende: • Hiperprodução de GH: gigantismo ou acromegalia; • Hiperprodução de ACTH: Síndrome de Cushing; • Hiperprodução de prolactina: Síndromes hiperprolactinemicas; • Hiperprodução de LH/FSH: Puberdade precoce; • Hiperprodução de ADH; A hipofunção hipofisária compreende: • Déficit de GH; • Déficit de ACTH: Insuficiência suprarrenal; • Déficit de LH e FSH: Hipogonadismo ou retardo puberal; • Déficit de ADH: Diabetes insipidus; • Déficit de TSH/TRH: Hipotireoidismo central. Acromegalia Quadro clínico resultante de adenoma hipofisário das células somatotrofos, resultando em excesso de produção de GH; A fácies desse paciente é caracterizada por: • Alargamento do nariz; • Aumento dos lábios; • Crescimento exagerado da mandíbula; • Prognatismo; • Proeminência frontal; • Macroglossia (aumento da língua); • Aumento dos arcos zigomáticos. Sintomas: • Crescimento das extremidades e partes moles. Os pacientes devem ser questionados quanto ao aumento da numeração dos sapatos e perda de anéis, dado que confirma o crescimento das extremidades; • Hiperidrose (muito suor): devido ao aumento das glândulas sudoríparas; • Letargia; • Artralgia (dores articulares); • Hipertensão: esses pacientes desenvolvem hipertrofia do ventrículo esquerdo, a qual pode gerar uma cardiomegalia e resultar numa insuficiência cardíaca congestiva; • Complicações cardiovasculares, incluindo cardiopatia hipertrófica, isquemia miocárdica, arritmias e insuficiência cardíaca são as principais causas de mortalidade. Diabetes 79 Capítulo 6 melito, dislipidemia, hipertensão arterial são resultantes do efeito lipolítico, hiperglicemiante e retentor de sódio do GH. • Diabetes: o paciente com acromegalia terá uma resistência insulínica, levando ao aumento da produção hepática de glicose e menor oxidação e captação de glicose pelos tecidos periféricos. Assim, ocorrem hiperinsulinismo, intolerância a glicose e diabetes mellitus; • Apneia do sono: ocorre devido ao processo de hipertrofia das partes moles; • Visceromegalias (aumento de tireoide, coração, glândulas salivares, fígado, baço, rins e próstata podem ocorrer). Neoplasias benignas e malignas do cólon e da tireoide são comuns na acromegalia, devendo ser pesquisadas ativamente nesses pacientes, ao se fazer a investigação diagnóstica. Diagnóstico: • O diagnóstico é comprovado pelos níveis aumentados de IGF1 em relação à idade, além de níveis de GH acima de 1 mcg/ℓ, não supressíveis com 75 g de glicose oral. Após confirmação laboratorial, deve-se realizar a ressonância magnética (RM) ou tomografia computadorizada (TC) da sela túrcica; Síndrome de Cushing • Quadro clínico resultante de adenoma hipofisário das células corticotrofos ou pela ação de glicocorticoides exógenos (uso prolongado de corticoides) resultando em excesso de cortisol; • A SC ACTH dependente compreende três condições clínicas: • Doença de Cushing, causada por tumor hipofisário produtor de ACTH (cerca de 80% dos casos de ACTH-dependentes) ; • Síndrome do ACTH ectópico, resultante da produção excessiva de ACTH por tumores não hipofisários (carcinoides brônquicos, carcinoma pulmonar de pequenas células) ; • Síndrome do hormônio liberador de corticotrofina (CRH) ectópico, resultante da produção excessiva de CRH por tumores não hipofisários, sendo o carcinoide o mais frequente; Diagnóstico: • No diagnóstico diferencial das causas de Síndrome de Cushing ACTH-dependente deve-se, primeiramente, confirmar ou descartar a doença de Cushing, pela sua maior frequência. Cumpre salientar, contudo, que tumores hipofisários menores que 3 cm podem ser sintomáticos, e cerca de 50% dos pacientes com doença de Cushing apresentam sela túrcica normal na RM; 80 Capítulo 6 • A SC ACTH-independente é causada por hiperprodução de cortisol pelas suprarrenais, com supressão concomitante de ACTH por feedback negativo. Hiperprolactinemia • Quadro clínico resultante do estímulo das células lactotrofos, resultando em excesso de prolactina; • O hipotálamo exerce influência inibitória sobre a secreção da prolactina por meio de fatores inibitórios (PIF), que alcançam a hipófise via sistema porta-hipotálamo-hipofisário. O PIF mais importante é a dopamina. Desta forma, o controle inibitório da prolactina é contínuo, e em caso de interrupção da comunicação hipotálamo-hipófise ou redução do aporte de dopamina pode haver hiperprolactinemia • A principal função da PRL é estimular a lactação, com ação direta nas mamas. O aumento da prolactina também leva à inibição da produção de hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) hipotalâmico, com supressão de hormônios foliculoestimulantes (FSH) e luteinizante (LH), contribuindo para amenorreia e anovulação fisiológicas, observadas durante a lactação. Pode ser causada por: • Gestação; • Estimulação constante da mama na relação sexual; • Excesso de atividade física e poucas horas de sono; • Medicações (principal causa não fisiológica); • Adenoma hipofisário: acomete os lactotrofos e é o tipo de adenoma mais comum (principal causa patológica não medicamentosa); • Compressão da haste hipofisária: através dessa compressão, pode ocorrer uma perda do bloqueio trófico da dopamina (hormônio responsável pela inibição da prolactina). Apresentação clínica: Déficit de GH A deficiência de GH está invariavelmente presente quando há duas ou mais deficiências concomitantes (pan-hipopituitarismo); As causas adquiridas mais comuns são tumores hipofisários e as consequências do seu tratamento (76%), tumores extra hipofisários (13%), causas idiopáticas (8%), doenças inflamatórias e infiltrativas (1%) e síndrome de Sheehan (0,5%). O quadro clínico do hipopituitarismo é variável e depende de quais déficits hormonais estejam presentes; Na infância, os sintomas são: baixa estatura, atraso na velocidade de crescimento, hipoglicemia, implantação anômala dos dentes e fáscie de boneca; • A hiperprolactinemia pode determinar galactorreia, com sintomas de hipogonadismo e infertilidade em ambos os sexos; na mulher, amenorreiaou oligomenorreia, diminuição da libido, dispareunia, osteoporose e infertilidade estão entre os sintomas. Já no homem, o quadro clínico caracteriza-se por fraqueza e redução de massa muscular, redução de libido, hipotrofia testicular, ginecomastia, redução do líquido ejaculado, azoospermia e osteoporose. Galactorreia no sexo masculino é altamente sugestiva de prolactinoma. 81 Capítulo 6 Na vida adulta, os sintomas são: aumento da adiposidade visceral, redução da massa magra e desempenho muscular, baixa massa óssea, risco cardiovascular e alterações psicológicas; Síndrome de Sheehan Também chamada de necrose hipofisária pós- parto, é decorrente de hipotensão ou choque, por hemorragia maciça no período periparto; A SSh pode levar a graus variados de hipopituitarismo. Comumente, as pacientes referem parto traumático, transfusões no puerpério imediato ou precoce, hipotensão arterial ou choque; Evolui com agalactia após o parto (incapacidade para amamentar), enquanto os outros sintomas aparecem lentamente, anos depois, com atraso diagnóstico de até 30 anos. Gradualmente instala- se um quadro, com anorexia, adinamia, oligo ou amenorreia, sonolência, pele seca, queda de cabelos e pelos corporais (principalmente pubianos e axilares), diminuição da memória, intolerância ao frio, edema, rouquidão, lentidão da fala, fraturas por fragilidade óssea. Insuficiência suprarrenal secundária A insuficiência suprarrenal primária está associada a uma disfunção da própria suprarrenal e não está atrelada ao funcionamento de hormônios da hipófise. A insuficiência suprarrenal secundária está associada ao déficit de ACTH, o qual resulta na atrofia das glândulas suprarrenais e pode se apresentar de duas formas: Forma aguda (Crise suprarrenal): uma perda aguda do cortisol resulta em hipotensão e choque hipovolêmico, dor abdominal, vômito e febre. - A causa mais comum é o paciente que estava fazendo uso crônico de corticoides e suspendeu abruptamente. A crise ocorre devido ao feedback negativo, pois ao usar medicamentos corticosteroides, a hipófise entende que o corpo está com muito cortisol e que a suprarrenal não precisa produzir mais cortisol. Com a interrupção abrupta do uso do medicamento, o corpo não terá nem cortisol exógeno e nem endógeno. Forma crônica: perda mais lenta do cortisol, resultando em fadiga, astenia, perda ponderal, irritabilidade, fraqueza muscular e sem hiperpigmentação; Hipogonadismo Déficit de LH e FSH; Retardo puberal: Se essa alteração ocorrer antes da puberdade, a criança para em algum estágio da diferenciação sexual e não desenvolve as características sexuais adultas; Caracteriza-se pela ausência de desenvolvimento mamário após os 12 anos ou telarca após 13 anos na menina e de aumento testicular após 14 anos no menino. Os pelos pubianos não são considerados nesta avaliação, pois podem surgir por ação de androgênios suprarrenais. Se essa alteração ocorrer no adulto não vai alterar o desenvolvimento dos órgãos sexuais, pois os caracteres sexuais já estão desenvolvidos. Sendo assim, as alterações na mulher adulta são: perda de libido, infertilidade, atraso menstrual, hipotrofia mamaria, dispareunia osteoporose e amenorreia. Já no homem ocorre fraqueza e redução da massa muscular, hipotrofia testicular, ginecomastia, disfunção erétil, infertilidade e perda de libido. 82 Capítulo 6 O efeito compressivo se dá pela existência de um tumor na região hipofisária, o qual pode desenvolver o hipopituitarismo (redução da atividade de algumas células secretoras de hormônio) ou panpituitarismo (secreção reduzida de todos os hormônios da hipófise anterior); Pacientes com neoplasias hipofisárias podem ter seu diagnóstico suspeitado pelas síndromes de hipersecreção, hipossecreção de hormônios hipofisários ou pelos efeitos de massa em estruturas anatômicas vizinhas. Etiologia: • Macroadenomas hipofisários; • Outros tumores selares: craniofaringioma, hamartoma hipotalâmico e metástases; Sinais e sintomas: • Alterações visuais: caso ocorra compressão do quiasma óptico, o paciente irá apresentar alteração do campo visual (hemianopsias bitemporais); • A perda de campos visuais não é percebida pelo paciente como “visão escura”, mas sim, “visão em túnel”; • Caso ocorra comprometimento dos nervos cranianos oculomotor, troclear, trigêmeo e abducente, o paciente irá apresentar alteração do reflexo pupilar e alteração na motilidade ocular; HMA: Refere que está sem menstruar há 1 ano e notou galactorreia bilateral à expressão e redução de libido; ISDA: Refere ganho de peso e surgimento de acne. Nega cefaleia ou alteração visual. Antecedentes: G1P1A0 (parto há 7 anos). Nega comorbidades. Nega uso de anticoncepcional ou outros medicamentos; Antecedentes familiares: Nega comorbidades; Hábitos de vida: Nega etilismo ou tabagismo. Exame físico: - Peso: 65kg; - Altura: 159 - IMC: 25,71 - PA: 124x78mmHg; - FC: 88 bpm; - Fácies atípica; - Sem macroglossia ou aumento de extremidades; - Galactorreia bilateral à expressão; - Campimetria visual grosseira (teste de confrontação): sem alterações; - Tireoide normopalpável; - AR: MVBD sem RA; - ACV: BRNF em 2T sem sopro; - EXT: bem perfundidas e sem edema. Quais os sinais e sintomas apresentados no caso? Quais exames pedir? Identificação: ASF, 31 anos, sexo feminino, natural e procedente de Salvador, casada. QP: amenorreia há 1 ano; • Galactorreia; • Amenorreia; • Redução de libido; • Ganho de peso; • Acne (estímulo de andrógenos). 83 Capítulo 6 • Exames de imagem: Ressonância magnética (identificar algum prolactinoma); • Exames laboratoriais: Beta HCG, prolactina, cortisol e todos os outros exames de níveis hormonais para verificar o funcionamento da hipófise; Qual suspeita diagnóstica? • Hiperprolactinemia por adenoma hipofisário. Presença de microadenoma hipofisário. Suspeita confirmada. Referências PORTO, Celmo Celeno. Semiologia médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, c2009. 1308 p VILLAR, Lucio. Endocrinologia clínica. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. 1089 p. 84 Capítulo 6 É a maior glândula do corpo e se localiza na altura da quinta à sétima vértebra cervical, na região anterior do pescoço entre dois marcos anatômicos: o pomo de adão e a fúrcula esternal; Se divide em lobos direito e esquerdo, unidos pelo istmo e costuma ser móvel. Possui em cada lobo 2 paratireoides, totalizando 4 paratireoides; É ricamente vascularizada, suprida pelas artérias tireóideas superior (ramo da carótida externa), tireóidea inferior (ramo da artéria subclávia) e média; A drenagem venosa é realizada pelas veias tireoidianas superiores, médias e inferiores; Possui uma íntima relação com a traqueia, com o esôfago e com o nervo laríngeo recorrente, o qual, se lesionado no ato operatório ou infiltrado por neoplasias pode levar à disfonia por paresia ou paralisia da prega vocal homolateral; Histologicamente, é composta de múltiplos folículos. As células foliculares tireoidianas são as unidades funcionas da glândula e são compostas de coloide na porção central, o qual armazena todas as substâncias tireoidianas como tireoglobulinas e iodo. Além disso, existem as células parafoliculares que são responsáveis pela regulação do cálcio. Função tireoidiana A função da tireoide é regulada pelo eixo hipotálamo-hipófise-tireoide e por outros fatores como o nível de iodo; A principal regulação ocorre pela tireotrofina (TRH) ou pelo hormônio estimulador da tireoide (TSH). Com o aumento da liberação de hormônios tireoidianos (T3/T4), ocorre diminuiçãoda liberação de TSH e TRH por feedback negativo; Os fatores capazes de regular a função e a proliferação dos tireócitos são o iodo intracelular e o TSH pela ação de seu receptor específico; Os hormônios da tireoide atuam nos processos de diferenciação, crescimento e metabolismo, bem como no funcionamento de quase todos os tecidos. Promovem aumento da utilização celular de glicose nos tecidos extra-hepáticos; estimulam a neoglicogênese hepática, bem como a síntese, mobilização e a degradação lipídica, aumentam a contratilidade cardíaca, e estimulam a produção de calcitonina na tireoide. Alterações da função tireoidiana Podem estar relacionadas a hiperprodução hormonal (hipertireoidismo), déficit hormonal (hipotireoidismo) e efeitos compressivos por bócio ou doença nodular; 85 Capítulo 6 Existem enzimas/proteínas importantes na tireoide que estão associadas a produção hormonal, como: • TPO (peroxidase tireoidiana): essa enzima é responsável por colocar o iodo na tireoglobulina; • Tireoglobulina: aminoácido de cadeia longa que é composto de tirosina que vai se ligar ao iodo. Essa tireoglobulina irá formar uma parte dos hormônios (MIT e DIT); O hormônio T3 é formado pela junção do MIT e DIT, enquanto o hormônio T4 é formado pela junção de dois DIT’s; A maioria das doenças da tireoide são de origem autoimune. O mecanismo de autoimunidade se dá por meio de autoanticorpos que são contra a enzima TPO, contra a tireoglobulina e um anticorpo chamado Trab que atua contra o receptor do hormônio TSH, estimulando a função tireoidiana. Idade: geralmente, os bócios multinodulares ocorrem após os 40 anos; Sexo: doenças tireoidianas são mais frequentes nas mulheres; Profissão: é necessário verificar se esse paciente trabalha com manipulação de material que contenha iodo, antissépticos iodados ou hormônios tireoidianos. Podem surgir nessas pessoas o chamado hipertireoidismo factício e o hipertireoidismo com captação baixa por contaminação com iodetos; Naturalidade e procedência: a ingestão de iodo é importante para o funcionamento da tireoide e composição dos hormônios tireoidianos. No entanto, existem algumas regiões muito pobres que o iodo não é disponibilizado na água e no sal. Sendo assim, essa falta de iodo na dieta é um fator de risco importante para desenvolvimento dessa doença; Queixa principal: O paciente costuma procurar o médico, queixando-se de “problema da tireoide”, “cansaço”, “nervosismo” ou apresentando dispneia e palpitações. Outras vezes, é por notar o aumento de volume da tireoide, relatando, então, “caroço no pescoço” ou aparecimento de “papo”; Outros fatores de risco • Bócio: pode ocorrer por outras causas sem produzir hormônio tireoidiano; • Doença nodular tireoidiana; • História familiar de doença tireoidiana; • História previa de radioterapia para cabeça e pescoço; • Doença autoimune tireoidiana e extratireoidiana; • Fármacos que interferem no funcionamento do iodo como amiodarona, lítio e interferon; • Doenças genéticas: Síndrome de Down e Síndrome de Turner. As alterações locais da tireoide são importantes tanto em casos de hipofunção como em casos de hiperfunção tireoidiana: Dor: causada pela tireoidite aguda ou subaguda ou pela hemorragia ou necrose de um nódulo tireoidiano. Geralmente, essa dor piora com a deglutição ou com a palpação; irradia para os arcos mandibulares ou ouvidos e é acompanhada do aumento do volume da glândula, sintomas de hipertireoidismo, febre baixa e mal-estar geral; Dispneia: manifestação incomum, causada pela 86 Capítulo 6 compressão da traqueia, principalmente quando o paciente flete a cabeça; Disfonia: provocada pela compressão ou infiltração do nervo laríngeo recorrente; Disfagia: decorre da compressão ou invasão neoplásica do esôfago; Os outros sintomas se dividem em dois grandes grupos: sintomas e sinais de hiperfunção (hipertireoidismo), e os de hipofunção da glândula (hipotireoidismo). Inspeção e palpação Por meio da inspeção e palpação é possível definir a forma e o tamanho da glândula. Se houver aumento, deve-se esclarecer se é global ou localizado; Manobras: • Abordagem posterior: paciente sentado e o examinador de pé atrás dele (abordagem posterior). As mãos e os dedos rodeiam o pescoço, com os polegares fixos na nuca e as pontas dos indicadores e médios quase a se tocarem na linha mediana. O lobo direito é palpado pelos dedos da mão esquerda, enquanto os dedos da outra mão afastam o esternocleidomatóideo. Para o lobo esquerdo, as coisas se invertem; • Abordagem anterior: paciente sentado ou de pé e o examinador sentado ou de pé, postado à sua frente (abordagem anterior). São os polegares que palpam a glândula, enquanto os outros dedos apoiam-se nas regiões supraclaviculares; • Paciente e examinador nas mesmas posições da abordagem anterior, fazendo-se a palpação com uma das mãos, que percorre toda a área correspondente à tireoide. A flexão do pescoço, ou a rotação discreta do pescoço para um lado ou para o outro, provoca relaxamento do músculo esternocleidomastóideo, facilitando a palpação da tireoide; Ao inspecionar e palpar a tireoide, solicita-se ao paciente que realize deglutições “em seco”, o que permite caracterizar melhor o contorno e os limites da tireoide, a qual se eleva durante o ato de deglutir. Movimente os dedos em vários sentidos, procurando definir a forma e os limites da tireoide; Por meio da palpação, determinam-se o volume ou as dimensões da glândula, seus limites, a consistência e as características da sua superfície (temperatura da pele, presença de frêmito e sopro). Além disso, é importante dar atenção especial à hipersensibilidade, à consistência e à presença de nódulos. 87 Capítulo 6 Síndrome clínica decorrente da síntese/secreção insuficiente ou ação inadequada dos hormônios tireoidianos (T3/T4) que resulta na lentificação generalizada do organismo; Sabemos que os hormônios tireoidianos estão diretamente ligados ao metabolismo do corpo. Se há um déficit na síntese ou secreção desses hormônios, o metabolismo do corpo é prejudicado; Classificação: • Hipotireoidismo primário: acometimento da tireoide; • Hipotireoidismo central que pode ser de dois tipos: - Secundário: acometimento da hipófise; - Terciário: acometimento do hipotálamo. Etiologia Diminuição do tecido tireoidiano funcionante; • Tireoidite de Hashimoto; • Tireoidites subagudas (granulomatosa e linfocítica); • Tireoidite pós-parto; • Tireoidite de Riel: fibrose da glândula tireoidiana que impede que a célula exerça sua função normal; • Doença de Graves e tratamento de hipertireoidismo: a longo prazo, o paciente com essa doença pode desenvolver o hipotireoidismo; • Doenças infiltrativas: amiloidose, hemocromatose, cistinose, esclerose sistêmica progressiva e sarcoidose; • Agenesia e ectopia tireoidianas: pacientes que nascem sem a tireoide ou nascem com a tireoide fora do lugar, não terão um funcionamento tireoidiano adequado; • Radioterapia externa de cabeça e pescoço ou do corpo inteiro. Defeitos funcionais na biossíntese e na liberação dos hormônios tireoidianos: • Disormonôgenese congênita; • Deficiência de iodo grave; • Fármacos que possuem excesso de iodo na sua composição. Espectros clínicos Clinicamente, o hipotireoidismo pode se apresentar de três formas: • Hipotireoidismo subclínico: ocorre quando há alteração da glândula tireoide e ela não consegue produzir a quantidade adequada dos hormônios. Com isso, a hipófise detecta esse nível hormonal baixo e, através do TSH, aumenta o estímulo da tireoide para aumentar a produção do hormônio. Com isso, a ação do TSH pode compensar essafalta do hormônio tireoidiano. Geralmente, esse paciente apresenta exames com TSH elevado e com T3/T4 normais; 88 Capítulo 6 • Hipotireoidismo propriamente dito; • Coma mixedematoso: hipotireoidismo em fase já avançada com alterações do sistema nervoso. Manifestações clínicas Se dão por lentificação dos processos metabólicos ou por acúmulo de glicosaminoglicanos no interstício; • Alopecia; • Macroglossia; • Bradipsiquia e perda de memória: aquele paciente que demora de responder; • Edema palpebral; • Intolerância ao frio; • Cardiomegalia e derrame pericárdico: normalmente apresenta bradicardia; • Síndrome do Túnel do Carpo: ocorre pela compressão do nervo mediano da mão pelo depósito de glicosaminoglicanos; • Constipação: as fezes tornam-se secas e endurecidas, podendo evoluir para fecaloma; • Espasticidade e debilidade muscular: paciente se queixa de fadiga aos pequenos esforços; • Metrorragias ou amenorreias: o aumento de TSH pode induzir a alteração de hormônios LH/FSH, ocorrendo distúrbios no funcionamento gonadotrófico da mulher; • Pele seca e áspera: depósito de queratina aumentado; • Aumento de peso; • Esses pacientes apresentam-se calmos e desinteressados, participam pouco da consulta e demonstram dificuldade para se lembrar de fatos e datas. A voz é rouca e arrastada. Seus movimentos são lentos, preguiçosos, levando os a demorar na execução das manobras do exame físico, tais como trocar de roupa, sentar-se e levantar-se.; • Reflexo de aquileu reduzido: sistema nervoso lentificado. Avaliação laboratorial do hipotireoidismo 89 Capítulo 6 • Também chamada de tireotoxicose, é uma síndrome clínica decorrente da síntese/secreção aumentada dos hormônios que resulta na aceleração generalizada do organismo; • Entre os pacientes com hipertireoidismo, a maioria apresenta o quadro clínico da doença de Basedow-Graves. Além do aumento difuso da tireoide, seus outros componentes são a oftalmopatia, o mixedema pré-tibial e a acropatia. Etiologia Causas mais comuns: • Bócio difuso tóxico (doença de Basedow- Graves) que produz hormônio tireoidiano; • Bócio multinodular tóxico; • Bócio nodular tóxico (doença de Plummer); • Tireotoxicose transitória das tireoidites (subaguda ou de Hashimoto): o processo inflamatório lesiona os folículos tireoidianos, causando a liberação de hormônios estocados para a periferia; • Tireotoxicose iatrogênica (hormônio tireoidiano): ocorre por reposição excessiva de hormônios; • Hipertireoidismo induzido por iodo (Jod- Basedow): causado pelo iodo contido em medicamentos ou pela exposição ao iodo não radioativo em pacientes que já apresentam doença nodular da tireoide; • Hipertireoidismo factício: o paciente apresenta todos os sintomas do hipertireoidismo devido à ingestão de medicamentos para emagrecer que contêm os hormônios tireoidianos; Causas centrais (menos comuns); • Neoplasia produtora de TSH; • Secreção inadequada de TSH; • Secreção ectópica de TSH (mola hidatiforme); • Metástase de câncer de tireoide funcionante. Patogênese da Doença de Graves • Doença autoimune que ocorre por autoanticorpos e de anticorpos (Trab) que se ligam aos receptores de TSH; O receptor de TSH é estimulado pelos anticorpos Trab, resultando na secreção de T3/T4 livre. Como não ocorre feedback negativo na hipófise por causa do anticorpo Trab que está ligado ao receptor de TSH, ela não entende que deve parar quando os níveis de hormônios tiroidianos estiverem altos, portanto, é um estímulo constante; Ao mesmo tempo, a secreção de TSH é suprimida pois já tem muito hormônio tireoidiano secretado e o TSH entende que deve parar de ser produzido; O resultado é aumento dos níveis de T3/T4, diminuição dos níveis de TSH e bócio difuso causado pelo aumento da vascularização tireoidiana devido ao estímulo excessivo a longo prazo; Manifestações clínicas • Alopecia mais acentuada; • Nervosismo e agitação; 90 Capítulo 6 • Intolerância ao calor; • Taquicardia, pulso vivo, arritmias supraventriculares e dispneia de esforço; • Hipertensão sistólica; • Vasodilatação das extremidades e tremor; • Aumento da sudorese; • Diarreia (aumento da motilidade intestinal); • Miopatia (fraqueza muscular); • Onicólise (unhas de Plummer): unhas descoladas do leito; • Reabsorção óssea (osteoporose); • Reflexos exaltados; • Metrorragias intensas, oligomenorreia, amenorreia, polimenorreia, impotência e infertilidade; • Diminuição de peso; • Exoftalmia de Graves: prolapso dos olhos associado a vermelhidão, lacrimejamento e retração palpebral, possibilitando ver a esclera acima e abaixo da íris. Pacientes com essa apresentação clínica geralmente não conseguem ocluir o olho por causa da retração da pálpebra e do prolapso da córnea. Por esse motivo, pode ocorrer ceratite (inflamação da córnea), podendo comprometer a visão; O mecanismo fisiopatológico da exoftalmia se dá através de outros autoanticorpos da doença de Graves que irão atingir outras partes do corpo, como o olho e liberar glicosaminoglicanos. Assim, esses autoanticorpos acabam gerando uma inflamação e edema dos músculos extraoculares e, por fim, prolapso do olho; Apesar de ser um sintoma clássico da Doença de Graves, a exoftalmia não dá o diagnóstico do hipertireoidismo de Graves, pois ela pode ocorrer antes do hipertireoidismo se desenvolver, sem nem o hipertireoidismo se desenvolver ou depois que o hipertireoidismo é controlado. No entanto, na maioria das vezes, o paciente com hipertireoidismo de Graves apresenta exoftalmia associada; • Mixedema pré-tibial: edema infiltrado pelo acúmulo de autoanticorpos, inflamação e depósito de glicosaminoglicanos na pele. 91 Capítulo 6 Avaliação laboratorial do hipertireoidismo Pode ser classificado em vários tipos, como: Difuso Glândula tireoide aumentada como um todo; Atóxico: aumento global da tireoide, sem sintomatologia de disfunção e que não produz nenhuma substância. • Ao exame físico, tireoide indolor com superfície lisa; • É causado por deficiência de iodo (bócio endêmico), gravidez, puberdade e ingestão exagerada de substâncias bociogênicas, como: nabo, repolho, couve e soja. Tóxico: produz muito hormônio, como na Doença de Graves e se caracteriza pelo aumento global da tireoide, acompanhado de sintomatologia de hipertireoidismo. Ao exame físico, a tireoide apresenta consistência firme, elástica e superfície lisa. Em geral, percebem-se frêmito e sopro sistólico sobre a glândula, o que evidencia a hipervascularização e a hipercinesia cardiovascular. Nodular Uninodular atóxico: presença de nódulo único, sem sinais e sintomas de disfunção. É importante caracterizar o tamanho do nódulo, estimando seu volume em centímetros, no sentido de se ter um padrão para o acompanhamento evolutivo de bócio; 92 Capítulo 6 A ultrassonografia da tireoide é o principal exame de imagem a ser solicitado na investigação inicial de um nódulo de tireoide. Uninodular tóxico: funcionante como na Doença de Plummer, também é um nódulo único, acompanhado de sintomas e sinais de hipertireoidismo; Multinodular tóxico e atóxico: bócios de longa evolução, com consistência variável. Os limites dos nódulos podem ser imprecisos e, não raramente, mergulham atrás da fúrcula esternal, em direção ao mediastino (bócio mergulhante). • Sinais e sintomas de hipertireoidismo caracterizam o bócio multinodular tóxico. A base fisiopatológica é a mesma do bócio difuso tóxico. Nódulos quentes são nódulos que produzem hormônios e nódulos frios são nódulos que não produzem hormônios; Mulher de 56 anos, sem assistência médica há 30 anos, deu entrada na emergência com quadro progressivo de fadiga e confusãomental. Ao exame físico encontrava-se desorientada, porém conversando. Nos sinais vitais eram notáveis a hipotermia (temperatura de 34º C, frequência cardíaca de 50 batimentos por minuto e frequência respiratória de 12 incursões por minutos. Apresentava edema em face (imagem A), pele seca, cabelos finos, unhas frágeis e edema de extremidades sem cacifo (imagem B). Avaliação bioquímica demonstrava TSH de 258mUi/L (VR: 0,4- 4,2), T4L livre de 0,1ng/dL e sódio sérico de 130mmol/L (VR: 13-146). Estes achados confirmaram a suspeita diagnóstica de mixedema. Nenhuma causa específica para o quadro clínico foi identificada. A paciente foi internada em unidade de terapia intensiva para reposição intravenosa de hormônio tireoidiano. Ao longo dos dias subsequentes seus sinais vitais retornaram à normalidade, e a paciente foi liberada para reabilitação. O coma mixedematoso, ao contrário do que o nome sugere, não necessita de estado comatoso para diagnóstico. A condição é diagnosticada através da combinação de exames de função tireoidiana alterados, exame físico compatível com hipotireoidismo e alteração do estado mental. Bradicardia, hipotermia e hiponatremia estão frequentemente presentes. O tratamento frequentemente requer administração de medicações via intravenosa, uma vez que há edema das paredes do trato digestivo, o que limita a absorção de medicações. Um ano após a reposição de hormônio tireoidiano e normalização da função da glândula a paciente apresentava regressão das alterações de pele (imagens C e D). 93 Capítulo 6 94 Capítulo 6 As glândulas adrenais ou suprarrenais se localizam nos polos superiores dos rins; A glândula suprarrenal direita tem relação com a veia cava inferior, enquanto a suprarrenal esquerda tem relação com a aorta, artéria esplênica e a cauda do pâncreas; O suprimento sanguíneo deriva de diversas pequenas artérias, ramos terminais das artérias frênica e suprarrenal. A veia suprarrenal direita é curta e drena diretamente para a veia cava inferior, enquanto a veia suprarrenal esquerda drena para a veia renal do mesmo lado. As glândulas suprarrenais são divididas em duas unidades funcionais: • Córtex: maior parte da glândula; • Medula. A função dessas glândulas é a produção de catecolaminas e a produção hormonal de esteroides de dois tipos: • Glicocorticoides e mineralocorticoides; • Androgênios; No córtex ocorre a esteroidogênese (formação de hormônios esteroides) adrenal, sendo que: Na zona glomerulosa (porção mais externa), haverá formação de mineralocorticoides (aldosterona); Na zona fasciculada (porção central) haverá a formação de glicocorticoides (cortisol): Na zona reticulada haverá a formação dos androgênios (hormônios sexuais); • O ACTH (hormônio da hipófise) irá estimular principalmente a zona fasciculada e reticulada; • Já a zona glomerulosa produtora de aldosterona será estimulada pela angiotensina II e K+. Dois circuitos endócrinos regem a esteroidogênese: o sistema de feedback ou retroalimentação composto pelo sistema hipotálamo-hipófise-suprarrenal responsável pela produção de glicocorticoides e esteroides sexuais, e o sistema renina-angiotensina- aldosterona (SRA), responsável pela produção de aldosterona. Eixo hipotálamo-hipófise-suprarrenal 95 Capítulo 6 Córtex: • No repouso, o corpo produz uma quantidade de cortisol basal através do feedback negativo do hipotálamo; • O ciclo circadiano do cortisol corresponde ao pico do cortisol que ocorre todos os dias perto do despertar e os níveis mínimos que ocorre na hora de dormir; • Em situações de estresse, como em inflamações, ocorre o estímulo do hipotálamo para produzir CRH e da hipófise para produzir mais ACTH para estimular a zona reticulada e fasciculada a produzir mais cortisol; Zona medular: • Já a zona medular das suprarrenais não é estimulada por hormônios, mas pelo estímulo nervoso simpático, ou seja, em alguma situação que o corpo precise da produção de catecolaminas, o estímulo será feito através dos neurônios pós-sinápticos; • As catecolaminas são: - Noradrenalina; - Adrenalina; • No entanto, a maior parte liberada no sangue é de adrenalina, pois existe uma enzima que faz a conversão de noradrenalina em adrenalina na medula. Alterações da função da adrenal Como em outras disfunções endócrinas, os sinais e sintomas das doenças da suprarrenal estão, na maioria das vezes, relacionados a hiperprodução hormonal ou déficit hormonal; Para sofrer efeitos compressivos, como em outras glândulas, seria necessário o desenvolvimento de tumores muito grandes nessa área, o que no caso é muito raro. Pode ser de dois tipos: • Hiperprodução hormonal cortical: - Síndrome de Cushing: aumento de cortisol; - Hiperaldosteronismo: aumento de aldosterona; - Síndrome virilizante: aumento de andrógenos • Hiperprodução hormonal medular: - Feocromocitoma: tumor produtor de catecolaminas. Síndrome de Cushing Ocorre pelo aumento dos níveis de glicocorticoides; Existe diferença entre: • Síndrome de Cushing: definida como sinais e sintomas decorrentes do excesso de glicocorticoides. Apesar desse termo ser usado para todos os casos de hipercortisolismo, a principal causa dessa síndrome é iatrogênica (exógena), por excesso de glicocorticoides. Já a causa endógena principal é a Doença de Cushing; • Doença de Cushing: hiperplasia suprarrenal bilateral, causada por um tumor na hipófise, 96 Capítulo 6 produtor de ACTH, o qual ficará estimulando a suprarrenal a produzir cortisol. Dessa forma, a síndrome de Cushing pode ser: • Independente de ACTH: - Uso exógeno de glicocorticoides: ocasiona a supressão do ACTH e atrofia adrenocortical bilateral; - Tumor independente de ACTH (carcinoma de adrenal): produz o cortisol sem depender do ACTH (autônomo), ou seja, o ACTH diminui a sua produção porque percebe o aumento de cortisol, no entanto, o tumor é capaz de produzir o cortisol constantemente, desenvolvendo a doença; • Dependente de ACTH: - Doença de Cushing: tumor hipofisário produtor de ACTH, o qual irá estimular muito a adrenal, causando hiperplasia bilateral; O cortisol é conhecido por ser o hormônio do estresse, pois possui a função de controlar esse estado de nervosismo. Além disso, ele atua tentando reduzir inflamações ao suprimir o sistema imune e manter os níveis de açúcar constantes no sangue. No entanto, o excesso do cortisol causa efeitos multissistêmicos, como: • Metabolismo intermediário: age quebrando as proteínas (proteólise) e induzindo a gliconeogênese no fígado com o intuito de aumentar os níveis de açúcar no sangue. Além disso, ele inibe a síntese de proteínas musculares, causando a fraqueza muscular; • Ossos: age diminuindo a massa óssea e inibindo osteoblastos e colágeno, podendo causar osteoporose; • Tecido conjuntivo: por conta da diminuição do colágeno, a pele se torna fina e com estrias violáceas; • Sistema cardiovascular: age aumentando os níveis da pressão arterial, podendo causar hipertensão arterial sistêmica secundária; • Sistema Nervoso Central: age mudando o humor bruscamente do indivíduo acometido. Além de causar irritabilidade e alterações comportamentais; • Sistema imune: age com efeito anti- inflamatório através da imunossupressão; Manifestações clínicas As manifestações são variáveis e dependem da gravide, no entanto, a apresentação clássica inclui: obesidade centrípeta (face e tronco), membros finos, giba dorsal, fácies pletórica e em “lua cheia”, estrias violáceas largas no abdome, nas mamas, nádegas, na raiz das coxas e nos quadris, hirsutismo, acne, hipertensão, hematomas e equimoses com pequenos traumas,oligo ou amenorreia, infertilidade, disfunção erétil, hipotrofia muscular e fraqueza muscular proximal. O hirsutismo acentuado e virilizacão sugerem fortemente carcinoma suprarrenal; Já em crianças, ganho de peso e interrupção do crescimento linear são comuns. A diminuição da 97 Capítulo 6 velocidade de crescimento deve-se à supressão do GH. Exames clínicos A investigação diagnostica deve ser feita após se afastar pela anamnese o uso de glicocorticoides exógenos; Os resultados dos exames laboratoriais podem ter diferença quanto aos níveis de ACTH; • Na Síndrome de Cushing independente de ACTH, os exames mostrarão níveis de ACTH reduzidos e níveis de cortisol elevados. Portanto, é necessário investigar se o paciente está fazendo uso de corticoides ou investigar a presença de um tumor de adrenal através de uma tomografia de abdome; • Já na Síndrome de Cushing dependente de ACTH, os exames mostrarão níveis elevados de ACTH e de cortisol. Nesse caso deve ser investigada a presença de algum tumor hipofisário por meio de uma ressonância de hipófise. Hiperaldosteronismo primário Pode ser desenvolvido por um tumor produtor de aldosterona (autônomo), por hiperplasia bilateral da camada glomerulosa da glândula e, raramente, por uma condição genética conhecida como hiperaldosteronismo supressível por dexametasona; Fisiologicamente, a aldosterona age no túbulo coletor renal, reabsorvendo sódio e eliminando potássio ou hidrogênio com o intuito de reabsorver água e regular a pressão arterial; Sendo assim, a produção inapropriada de aldosterona causa supressão da renina, retenção de sódio e excreção aumentada de potássio. Portanto, o paciente apresentará o seguinte quadro clínico: • Hipertensão arterial de difícil controle (refratária): geralmente tem um início precoce e pode até desenvolver alguma doença cerebrovascular em casos graves; • Astenia e fraqueza muscular devido à queda do potássio. Exames clínicos O resultado dos exames laboratoriais de um paciente com hiperaldosteronismo apresenta níveis elevados de aldosterona, níveis reduzidos de potássio e níveis reduzidos de renina; Como a renina estimula a aldosterona fisiologicamente, então num paciente com aldosterona em excesso, a renina entende que não precisará mais estimulá-la e assim, os seus níveis são reduzidos; Se há suspeita dessa doença, é necessário pedir uma tomografia de abdome, pois a principal causa de excesso de aldosterona é o tumor produtor de aldosterona; Em casos de estenose arterial, é possível que o resultado do exame apresente elevados níveis de aldosterona e renina, pois como o sangue não está sendo perfundido para o rim da forma adequada por causa da estenose, o rim entende que o corpo está hipovolêmico e estimula o sistema renina- angiotensina-aldosterona para poder puxar mais água para regular essa volemia. Síndrome virilizante Causada por excesso de androgênios por meio de um tumor produtor de androgênios (hormônios masculinos) ou hiperplasia adrenal; Caso ela se desenvolva na infância, causará uma puberdade precoce: - Isossexual: ocorre em meninos e não apresenta alterações de características 98 Capítulo 6 sexuais, pois os hormônios são masculinos. No caso, só irá adiantar a puberdade; - Heterossexual: ocorre em meninas e apresenta a alterações de características sexuais nas mulheres (virilizacão). No caso, além de adiantar a puberdade, a doença causa virilizacão das meninas; Adultos: só vão apresentar alterações nas mulheres, causando acnes, hirsutismo, clitoromegalia, voz grossa. Feocromocitoma Tumor de células que compõem a medula adrenal (células cromafins) e que causam excesso de catecolaminas; Fisiologicamente, as catecolaminas estão totalmente ligadas ao estresse, pois em situações de “luta ou fuga”, ocorre uma descarga adrenérgica no corpo; Um tumor que causa excesso de catecolaminas, resultará em descargas adrenérgicas constantes, como se o paciente tive sempre respondendo a “luta ou fuga”. • Estado de alerta; • Piloereção, sudorese, dilatação brônquica; • Taquicardia; • Glicogenólise e lipólise; • Hiperglicemia; • Resistência vascular periférica: HAS. O quadro clínico de um paciente com feocromocitoma apresenta: • Hipertensão arterial; • Cefaleia; • Sudorese; • Taquicardia. As manifestações da hipersecreção de catecolaminas, geralmente, surgem em crises, com sintomas abruptos e de curta duração, conhecidos como paroxismos, embora seja assintomática em muitas ocasiões. Paroxismos com a tríade clássica de sintomas (cefaleia, sudorese e palpitações), acompanhados ou não de picos hipertensivos, levam a alto grau de suspeição de hipersecreção de catecolaminas. Podem ser espontâneos ou desencadeados por mudança postural, medicamentos, ansiedade, exercícios e aumento da pressão intra-abdominal. Exames clínicos Os resultados dos exames apresentarão elevados níveis de catecolaminas e metanefrinas (produto da catecolamina na urina); Para confirmar a suspeita do tumor, é solicitado um TC de abdome para ver como está a adrenal. É causado pela destruição do córtex adrenal e gera um misto de disfunções devido ao acometimento da produção de glicocorticoides, mineralocorticoides e hormônios androgênios. Esse conjunto de disfunções recebe o nome de Insuficiência adrenal primária; Insuficiência suprarrenal Se divide em: Insuficiência suprarrenal primária (Doença de Addison): ocorre quando há destruição do córtex suprarrenal. Uma condição extremamente rara e mais frequente em mulheres e entre os 30 a 50 anos de idade; Atualmente, nos países desenvolvidos a principal causa dessa doença é a adrenalite autoimune, já em países em desenvolvimento, a principal causa é a adrenalite infecciosa como tuberculose; 99 Capítulo 6 Causas de insuficiência adrenal primária Insuficiência suprarrenal secundária: ocorre por alteração na produção/secreção de ACTH e/ou CRH. O quadro clínico vai depender de como essa disfunção se instalou; Forma aguda (crise suprarrenal): hipotensão, taquicardia, choque hipovolêmico, hipoglicemia, dor abdominal, vômito, febre; A causa mais prevalente de ISP é a adrenalite autoimune. Já na ISS, um caso bem comum que apresenta esse quadro, é quando o paciente faz uso elevado de corticoides há muito tempo e suspende de forma abrupta. Isso acontece porque os níveis de cortisol estavam altos e os de ACTH estavam baixos durante o uso dos corticoides. Portanto, quando o uso dessas medicações é interrompido abruptamente, os níveis de cortisol se reduzem de vez, sem dar tempo para que o ACTH seja estimulado; Forma crônica: fadiga, astenia, perda ponderal, irritabilidade, fraqueza muscular e hiperpigmentação. Distúrbios gastrintestinais, como náuseas e vômitos, determinam depleção de líquidos e sais, com desidratação e hipotensão postural, sendo evidentes na ISP e menos frequentes na ISS; A hiperpigmentação da pele e mucosas é um sinal importante da Doença de Addison, sendo mais evidente em áreas de atrito e cicatrizes. Ela é explicada pois o ACTH tem como pró-hormônio a pró-opiomelanocortina, o qual estimula a produção de melanócitos. Na insuficiência adrenal primária, o ACTH está elevado para tentar estimular a adrenal a produzir cortisol. Com esse nível alto de ACTH, é possível que a pró- opiomelanocortina produza os melanócitos e cause a hiperpigmentação; Exames clínicos Os exames laboratoriais irão apresentar níveis reduzidos de cortisol, aldosterona e androgênios e níveis elevados de ACTH (para tentar estimular a produção de cortisol) e níveis elevados de renina (para tentar estimular a produção de aldosterona); Na avaliação bioquímica, podem ser encontrados: hiponatremia/hiperpotassemia, acidose metabólica, hipoglicemia,anemia normocítica leve, linfocitose e eosinofilia. Se houver suspeita de insuficiência adrenal primária, é necessário solicitar uma TC de abdome para investigar se causa da insuficiência adrenal foi por infecção, hemorragia, doença autoimune infiltrativa ou neoplasia; 100 Capítulo 6 Grupo de doenças metabólicas, caracterizado por hiperglicemia que resulta de uma secreção deficiente de insulina pelas células beta do pâncreas ou pela resistência periférica à ação da insulina que resultam em hiperglicemia no sangue e ausência de glicose nas células; Diabetes Mellitus tipo II Características da DM II: • Surge habitualmente após os 40 anos; • Pode estar associado a um aumento em adultos mais jovens, adolescente e até em crianças devido ao aumento na taxa de obesidade nessa faixa etária; • São assintomáticos em sua maioria, sendo diagnosticados em exames de rotina; • A maioria desses pacientes apresentam a síndrome metabólica caracterizada por fatores que implicam risco cardiovascular elevado (dislipidemia, obesidade abdominal, resistência insulínica, tolerância alterada à glicose ou diabetes e hipertensão). • História familiar de diabetes; • A complicação aguda mais frequente é a síndrome hiperosmolar hiperglicêmica, a qual implica elevada mortalidade. Já a cetoacidose diabética (CAD) raramente ocorre espontaneamente no DM2. Patogênese da DM2: Os principais mecanismos fisiopatológicos que levam à hiperglicemia no DM2 são: • Resistência periférica à ação insulínica nos adipócitos e, principalmente, no músculo esquelético; • Secreção deficiente de insulina pelo pâncreas; • Aumento da produção hepática de glicose, resultante da resistência insulínica no fígado; Entretanto, outros componentes desempenham importante papel na patogênese do DM2: o adipócito (lipólise acelerada), o trato gastrintestinal deficiência ou resistência incretínica), as células alfa pancreáticas (hiperglucagonemia), o rim (reabsorção aumentada de glicose pelos túbulos renais) e o cérebro (resistência à insulina). 101 Capítulo 6 Como não é uma doença autoimune, os anticorpos estarão ausentes. Já o peptídeo C estará normal ou elevado, pois quando a insulina é formada o peptídeo C também é. Dessa forma, a presença de peptídeo C indica a produção de insulina; Diabetes Mellitus tipo I Características da DM I: • Predomina em crianças e adolescentes (idade < 25 anos), mas pode ocorrer em qualquer idade; • Geralmente magros e sem história familiar; • Geralmente, já apresenta um quadro grave de cetoacidose diabética (CAD); • Complicação aguda mais frequente: CAD; Patogênese da DM1: • Deficiência absoluta na produção de insulina, decorrente, na grande maioria dos casos, de uma destruição autoimune das ilhotas pancreáticas que deve ser controlada com insulinoterapia pelo resto da vida; • Há uma predisposição genética, sem que haja, necessariamente, caráter hereditário; • A insulite (lesão da célula beta) se inicia devido a algum desencadeante ambiental inespecífico e ao longo do tempo vai desenvolvendo pré-diabetes até o início clínico da diabetes que é quando as células betas não conseguem mais produzir nenhuma insulina; Como é uma doença autoimune, os anticorpos estarão presentes. Já o peptídeo C estará baixo, pois, quando a insulina é formada o peptídeo C também é. Dessa forma, como não há produção de insulina, não há produção de peptídeo C; Principais diferenças entre DMI e DMII: Diabetes 3C Diabetes pancreatogênico; Destruição do pâncreas endócrino e exócrino; Causas: câncer de pâncreas, pancreatite crônica (álcool), pancreatite aguda, pancreatectomia e fibrose cística, sendo a causa mais comum a pancreatite crônica etílica. Diabetes autoimune latente em adultos (LADA) Forma latente autoimune da diabetes tipo I; Em geral, manifesta-se entre os 30 e 50 anos; Os critérios diagnósticos do LADA incluem: • Idade no diagnóstico entre 25 e 65 anos; 102 Capítulo 6 • Ausência de cetoacidose diabética (CAD) ou hiperglicemia acentuada sintomática no diagnóstico ou imediatamente após; • A velocidade de destruição das células beta é mais lenta do que na DMI; • Latente: sem necessidade de insulina por pelo menos 6 a 12 meses (diferenciando- se do DM1 do adulto), pois durante esse tempo que ficou sem insulina, estava compensado do diabetes; • Existência de autoanticorpos, especialmente anti-GAD65 (diferenciando-se do DM2). Diabetes tipo MODY Diabetes familiar de início no jovem que ocorre por um modo de transmissão autossômico dominante (diabetes monogênico), por mutações em um único gene e que está associado a defeitos na secreção de insulina; Autoanticorpos ausentes; Peptídeo C presente; Esse tipo de DM se manifesta na infância ou em adultos jovens e é diagnosticado em indivíduos com idade < 25 anos. Características clínicas: A maioria dos pacientes com MODY tem peso normal, ao contrário das crianças e dos adolescentes com DM2, nos quais predomina a obesidade. Além disso, são comuns nefropatia e retinopatia diabéticas. Diabetes em endocrinopatias Vários hormônios antagonizam a ação da insulina nos tecidos periféricos e no fígado. Por isso, doenças que cursem com produção excessiva desses hormônios podem cursar com diabetes em 20 a 50% dos casos. • Acromegalia: aumento de GH (hormônio catabólico) que contrabalanceia a insulina; • Síndrome de Cushing: aumento de cortisol que aumenta a glicemia; • Tumores neuroendócrinos (Glucagonoma): causa hiperglicemia; Outras causas de diabetes • DM mitocondrial; • DM lipoatrófico; • Mutação no receptor da insulina; • DM após transplante por causa das drogas imunossupressoras; • Síndromes genéticas; • DM tipo 3: resistência à insulina no cérebro causada pela doença de Alzheimer; • DM gestacional; • DM secundário ao uso de medicações. Clínico Os sintomas clássicos do DM (poliúria, polidipsia e polifagia, associadas à perda ponderal) são bem mais característicos do DM1, no qual são quase sempre encontrados. No entanto, a obesidade não descarta esse diagnóstico; No DM2, cerca de 50% dos pacientes desconhecem ter a doença por serem assintomáticos, apresentando mais comumente sintomas inespecíficos, como tonturas, dificuldade visual, astenia e/ou cãibras.; Vulvovaginite de repetição e disfunção erétil podem ser, também, os sintomas iniciais. 103 Capítulo 6 Laboratorial Diabetes: • Glicemia de jejum ≥ 126mg/dL ou • Glicemia de 2h após TOTG ≥ 200 mg/dL ou • Hemoglobina glicada ≥ 6,5% ou • Glicemia ao acaso ≥ 200 mg/dL em pacientes com sintomas clássicos de hiperglicemia + glicemia de jejum ≥ 126 mg/dL. Como o TOTG tem baixa reprodutibilidade, sua indicação está limitada a algumas situações específicas, sobretudo para o diagnóstico do diabetes gestacional e em pacientes com glicemia de jejum alterada. Pré diabetes: • Glicemia de jejum 100 a 125mg/dL; • Glicemia de 2h após TOTG: 140 a 199mg/dL; • Hemoglobina glicada 5,7 a 6,4%; Macrovasculares Doença arterial coronariana: IAM; Doença arterial oclusiva periférica: causa importantíssima de amputação; Doença cerebrovascular: AVC. Microvasculares Retinopatia diabética: principal causa de cegueira no mundo, afeta até 40% dos diabéticos, sendo mais frequente na DM tipo 1. É causada pela hiperglicemia, que causará microangiopatia (lesão endotelial dos vasos retinianos) e oclusão capilar, resultando em hipóxia retiniana e cegueira a longo prazo; Nos estágios iniciais da RD, os pacientes são assintomáticos, mas, à medida que a doença progride, o paciente percebe manchas no campo visual, distorção da imagem e redução da acuidade visual. Os microaneurismas são o sinal mais precoce de RD. Neuropatia diabética: grupo de distúrbiosheterogêneos definidos como “presença de sintomas e/ou sinais de disfunção dos nervos periféricos em indivíduos com diabetes melito (DM); A exposição crônica à hiperglicemia constitui um fator fisiopatológico comum, correlacionado a aumentado estresse oxidativo, inflamação, glicosilação não enzimática tardia, alterações em fluxo vascular perineural, além de mecanismos autoimunes. Sintomas comuns neuropáticos periféricos: • Parestesias: formigamentos, agulhada, dormência; • Disestesias: dor em queimação, pontada, facada, choque, lancinante; • Alodinia: dor a estímulo não doloroso; • Hiperalgesia: resposta intensa a um estímulo doloroso leve; • Câimbras e fraqueza muscular: comprometimento motor; • Disautonomia periférica: sensação de esfriamento e congelamento; 104 Capítulo 6 A apresentação clínica se dá através do surgimento em repouso, exacerbação noturna, melhora com atividades diárias e ao caminhar, direção distal-proximal. Nefropatia diabética: alterações renais secundárias ao diabetes. Existem alguns fatores de risco para o surgimento (*), fatores de risco para a progressão (**) ou fatores de risco para o surgimento e progressão (***) da doença renal do diabetes, como: • Duração do diabetes* • Microalbuminúria* • Fatores genéticos* • Mau controle glicêmico*** • Hipertensão arterial*** • Tabagismo *** • Obesidade*** • Obstrução urinária ** • Infecção urinaria crônica de repetição ** • Uso de fármacos nefrotóxicos** Hipoglicemia Ocorre quando há excesso na dose de insulina, quando o controle glicêmico é rígido, ingestão excessiva de álcool, omissão ou atraso da refeição, entre outros fatores de risco; Os sintomas se dão a partir de uma glicose < 70mg/dL; Sintomas adrenérgicos ou neuroglicopênicos: quando a glicose abaixa muito, os hormônios contrarreguladores da insulina como a epinefrina, cortisol, GH e glucagon são liberados para compensar a falta da glicose. Os sintomas são: - Tremores; - Suor aumentado; - Ansiedade; - Tontura; - Aumento da FC; - Visão embaçada; - Fraqueza; - Irritabilidade e dor de cabeça. Limiares glicêmicos para a liberação dos hormônios contrarreguladores e o surgimento de sintomas hipoglicêmicos: Classificação da hipoglicemia • Hipoglicemia sintomática documentada: evento com sintomas e glicemia < 70 mg/dl; • Hipoglicemia sintomática provável: evento com sintomas sem ter medido a glicemia; • Hipoglicemia assintomática (sem alarme): evento sem sintomas e glicemia < 70 mg/dl; • Hipoglicemia grave: convulsão, alteração de comportamento ou coma e que requer assistência de outra pessoa; • Hipoglicemia relativa: o paciente diabético apresenta sintomas de hipoglicemia, no entanto a glicemia está > 70 mg/dl. Isso é observado quando o controle glicêmico é inadequado e ocorre uma queda acentuada e brusca da glicemia. 105 Capítulo 6 As chamadas “crises hiperglicêmicas” englobam a cetoacidose diabética (CAD) e o estado hiperglicêmico hiperosmolar (EHH), os quais representam as duas complicações agudas mais graves do diabetes melito (DM). Cetoacidose diabética • Ocorre principalmente no Diabetes tipo I, mas pode ocorrer também no Diabetes tipo II. • A deficiência de insulina faz com que o organismo metabolize triglicerídeos e aminoácidos em vez de glicose para produzir energia. Com isso, as cetonas são substâncias químicas produzidas através da lipólise, que são liberadas no sangue e na urina. O quadro se dá através de uma tríade: - Hiperglicemia: > 250 mg/dL: ocorre devido ao aumento da gliconeogênese, glicogenólise aumentada e menor utilização da glicose pelo fígado, músculos e adipócitos; - Acidose metabólica: pH < 7,3 e bicarbonato < 18; - Cetonemia: presença de corpos cetônicos no sangue. Sintomas: • Evolui rapidamente dentro de poucas horas, pois o diabetes descompensa rapidamente por não ter nenhum estoque de insulina; • Sintomas catabólicos: poliúria, polidipsia e perda de peso; • Sinais de desidratação: mucosa bucal seca, olhos fundos, turgor de pele diminuído, taquicardia, hipotensão e choque; • Respiração de Kussmaul: inspirações profundas seguidas de pausas e expirações curtas também seguidas de pausas para tentar eliminar os corpos cetônicos do sangue; • Hálito cetônico; • Náuseas, vômito e dores abdominais. Estado hiperosmolar hiperglicêmico • Mais comum no diabetes tipo II.; • Normalmente > 40 anos; Sintomas: • Diferentemente da CAD, apesar dos pacientes com EHH terem deficiência de insulina, eles ainda apresentam concentrações de insulina (demonstrado pelos níveis basais e estimulados do peptídeo C). Portanto, o EHH tem desenvolvimento insidioso e se manifesta em dias a semanas pois ainda há um “estoque” de insulina para compensar o diabetes; • Poliúria, polidipsia e perda de peso; • Glicemias mais elevadas; • Rebaixamento do nível de consciência; • Profunda desidratação; • Dificuldade de acesso à água. Referência: VILLAR, Lucio. Endocrinologia clínica. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2013. 106 Capítulo 7 • Os principais sintomas das doenças do estômago são: dor, dispepsia (indigestão, náuseas, vômitos e pirose (azia, queimação); • Geralmente, o paciente fica em decúbito dorsal e o examinador do pé, à direita do paciente. Atentar para: Inspeção: contorno, simetria pele, pulsação ou movimento; Ausculta: ruídos hidroaéreos e vasculares; Percussão: percutir todos os quadrantes, margem do fígado e do baço; Palpação: atentar para as massas, regiões dolorosas, deformidades; Herniações: Descrever presença de dispositivos. Aspectos anatômicos Em cada região está localizado: 1. Lobo hepático direito e vesícula biliar; 2. Extremidade pilórica do estômago, duodeno, pâncreas e porção do fígado; 3. Estômago, cauda do pâncreas e flexura esplênica do cólon; 4. Cólon ascendente e porções do duodeno e jejuno; 5. Omento, mesentérico, parte inferior do duodeno, jejuno e íleo; 6. Cólon ascendente e porções do jejuno e íleo; 7. Ceco, apêndice e extremidade inferior do íleo; 8. Íleo; 9. Cólon sigmoide. • Posicionar-se à direita do paciente; • Paciente em decúbito dorsal, com os braços estendidos ao longo do corpo, com exposição do abdome desde a região acima do processo xifoide até a sínfise púbica. Leito a 0º; • O exame semiológico do abdome é dividido em 5 etapas: 1. Inspeção estática e dinâmica; 2. Ausculta; 3. Percussão; 4. Palpação (superficial e profunda); 5. Exames do fígado e do baço. Inspeção estática • Observar: o Forma (normal, globoso, escavado); o Abaulamentos e retrações; o Simetria em relação à cicatriz umbilical; o Distribuição de pelos; o Lesões de pele; o Cicatrizes cirúrgicas; o Circulação colateral; o Movimentos e pulsações; o Movimentação da parede abdominal ao respirar. 107 Capítulo 7 A localização, extensão e forma de uma cicatriz na parede abdominal podem fornecer informações úteis sobre cirurgias anteriores: - Flanco direito: Colecistectomia; - Flanco esquerdo: colectomia; - Fossa ilíaca direita: apendicectomia e herniorrafia; - Hipogástrio: histerectomia; - Linha média: laparotomia; - Região lombar: nefrectomia; - Linha vertebral: laminectomia. Inspeção dinâmica Avaliar abaulamentos e retrações aos esforços; Solicite que o paciente force a saída de ar contra a boca e nariz, que devem estar tampados. Caso ocorra a insinuação herniária, sinal de valsalva positivo, indicando hérnia. Solicite que o paciente realize uma contratura abdominal, através de uma “flexão” abdominal. Se o sinal for positivo, pode indicar diástase, lipoma, hérnias ou tumorações na parede abdominal. Hérnias abdominais: Ausculta Auscultar os quatro quadrantesdurante um minuto e verificar: • Normal: 5 a 34 ruídos por minuto; • Hiperperistalse: > 34 ruídos por minuto – Indica peristalse de luta, diarreia. • Aperistalse/Hipoperistalse: < 5 ruídos por minuto – Indica obstrução intestinal, íleo paralítico. Para confirmar ausência de ruídos, ausculte por mais 5 minutos cada quadrante. • Pesquisa de sopros abdominais: o Aorta abdominal: dois dedos acima da cicatriz umbilical; o Artérias renais: dois dedos acima e dois dedos para os lados da cicatriz umbilical; 108 Capítulo 7 o Artérias ilíacas: dois dedos abaixo e dois dedos para os lados da cicatriz umbilical. Percussão • Apoiar apenas o dedo médio da mão não dominante no local a ser percutido; • Com o dedo médio da mão dominante, percutir a falange média da mão apoiada; • Percutir as 9 regiões do abdome. Tipos de sons Timpanismo: indica presença de ar dentro das vísceras ocas; é percebido em quase todo o abdome, porém é mais nítido no espaço de Traube; Hipertimpanismo: indica aumento de ar, como acontece na gastrectasia, no meteorismo, na obstrução intestinal, no vólvulo e no pneumoperitônio; Macicez: indica ausência de ar nas vísceras como fígado, baço e útero gravídico. Pode aparecer também em casos de ascite, visceromegalias, tumores e cistos; Submacicez: indica diminuição do ar ou superposição de uma víscera maciça sobre uma alça intestinal; Palpação • Antes de iniciar o exame, é necessário perguntar ao paciente se ele está sentindo dor em alguma região do abdome. Caso ele esteja, deixe a palpação desta área por último; • Palpe as nove regiões do abdome em uma divisão de superficial e profunda. • Superficial: Avalia a parede abdominal com a mão dominante espalmada em movimentos circulares. Analise se há continuidade da parede abdominal, dor à palpação, espessura da parede, tensões na parede e herniações. • Profunda: Avalia os planos profundos com a mão não dominante sobreposta a mão dominante, fazendo uma pressão maior que a palpação superficial. Analise os órgãos, massa localizadas mais profundamente e visceromegalias. 1. Realizar percussão a partir do terceiro espaço intercostal na linha hemiclavicular direita no sentido craniocaudal; 2. Efetuar uma marcação no local da transição do som claro-atimpânico para submaciço/maciço. Interromper a percussão; 3. Reiniciar a percussão no sentido cefálico a partir da fossa ilíaca na linha hemiclavicular direita para localizar a borda inferior do lobo hepático direito. 4. No local de transição do som timpânico para maciço realizar uma segunda marcação; 5. Com auxílio de uma fita métrica medir a distância entre os dois pontos; 6. Para o lobo esquerdo deve se realizar a técnica na linha mediana abaixo do processo xifoide; 109 Capítulo 7 Sinal de Jobert: Timpanismo à percussão do limite superior do fígado que corresponde a acúmulo de gás abaixo do diafragma que ocorre na perfuração de víscera oca em peritônio livre. Palpação (Manobra de Lemos-Torres): O examinador coloca sua mão esquerda na região dorsal direita do paciente e faz uma tração anterior desta, a mão direita é colocada sobre o abdome, iniciando-se a palpação com movimentos ondulantes, desde a crista ilíaca direita até a borda inferior hepática direita. Aprofundar a mão direita na expiração e realizar palpação da borda inferior durante a fase inspiratória. Palpação (Manobra de Mathiew): Com as mãos em garra faz-se a busca da borda hepática desde a crista ilíaca direita em direção ao rebordo costal direito, os dedos tentam entrar por baixo do rebordo costal (Imagem 27). Também nesta manobra, procura-se determinar as características da borda hepática citadas anteriormente. Sinal de Courvoisier-Terrier: Vesícula biliar palpável em paciente ictérico é sugestiva de neoplasia pancreática maligna, que, na maioria das vezes, localiza-se na cabeça do pâncreas. Palpação bimanual: O examinador localizado a direita do paciente, posiciona sua mão esquerda na região lombar esquerda do paciente, de modo a promover um rechaço do baço para frente, em direção à parede abdominal e, com a sua mão direita palpa-se da crista ilíaca esquerda até o rebordo costal esquerdo em busca do baço. Sendo este, fisiologicamente impalpável. 110 Capítulo 7 Percussão do espaço de Traube: 1. Delimite a região: 6° espaço intercostal esquerdo, linha axilar anterior e rebordo costal esquerdo; 2. Percuta entre os espaços intercostais e avalie a qualidade do som produzido. Palpação: 1. Com a mão esquerda tracionar o rebordo costal esquerdo anteriormente; 2. Aprofundar a mão direita a partir da cicatriz umbilical, durante a expiração e realizar a palpação do órgão durante a inspiração. Sinal de Cullen: Equimose periumbilical, resultante de hemorragia retroperitoneal. Pode surgir na pancreatite aguda e na ruptura de gravidez ectópica. Sinal de Gray-Turner: Equimose dos flancos que pode ocorrer na pancreatite necro-hemorrágica e indica grave comprometimento da víscera. Sinal de Murphy: Parada da inspiração ao comprimir o ponto cístico. Pede-se ao paciente que faça uma inspiração profunda comprimindo-se o ponto (abaixo do rebordo costal direito), na qual a vesícula descerá impelida pelo diafragma. Se estiver inflamada, a pressão exercida provocará dor aguda, levando o paciente a interromper a inspiração ou relatar dor intensa, sendo indicativo de colecistite aguda. Sinal de Blumberg Dor que ocorre à descompressão brusca do ponto de McBurney. Ao descomprimir, o apêndice é projetado bruscamente de encontro à parede. Caso o apêndice esteja inflamado, provoca dor intensa e indica apendicite aguda. Observação: Para verificar peritonite em todo abdome a manobra é chamada de Manobra de Descompressão Brusca. Quando aplicada especificamente no ponto de McBurney (extremidade dos dois terços da linha que une a espinha ilíaca anterossuperior direita ao umbigo), é utilizada para verificar apendicite aguda e é chamada de Manobra de Blumberg. 111 Capítulo 7 Sinal de Rovsing Consiste em forçar movimento antiperistáltico de camada gasosa dos cólons, desde o sigmóide até a região ileocecal, com a finalidade do ar, sob pressão, distender o ceco, acarretando a dor no apêndice inflamado e sugerindo apendicite aguda. Sinal do psoas Posiciona-se o paciente em decúbito lateral esquerdo, e o examinador deve realizar a hiperextensão passiva de membro inferior direito (ou flexão ativa contra resistência). Em caso de dor a hiperextensão passiva ou a flexão ativa, o sinal é positivo e indica apendicite aguda. Sinal do obturador Com o paciente em decúbito dorsal, faz-se a flexão passiva da perna sobre a coxa e da coxa sobre a pelve, então procede-se com uma rotação interna da coxa. O sinal é positivo quando o paciente refere dor no hipogástrio e indica apendicite aguda. Sinal de Giordano Com o paciente sentado e inclinado para a frente, o examinador realiza uma súbita punho- percussão, com a borda ulnar da mão, na região da fossa lombar do paciente, na altura da loja renal (flancos). Em caso de dor aguda em pontada, o sinal é positivo e indica pielonefrite. Manobra da macicez móvel 1. Posicione o paciente em decúbito dorsal; 2. Percuta o abdome a partir da linha média (mesogástrio) em direção aos flancos (direito ou esquerdo); 3. Marque com o dedo o ponto de transição do som (de timpânico para maciço); 4. Peça para o paciente posicionar-se em decúbito contralateral à direção da percussão, sem retirar o dedo do local de transição; 5. Percuta novamente o local marcado; 6. Se houver líquido na cavidade, ele escoará por ação da gravidade e será possível observar a mudança dosom de maciço para timpânico na mesma topografia. 112 Capítulo 7 Sinal de Piparote 1. Posicione o paciente em decúbito dorsal; 2. Peça para o paciente posicionar a mão na linha xifopubiana: isto dificulta a transmissão das ondas pelo adiposo/subcutâneo tornando a percepção das ondas produzidas pelo líquido mais fácil para o examinador; 3. Posicione a mão esquerda no flanco direito do paciente e percuta o flanco esquerdo com a mão direita; 4. Na presença de ascite haverá a propagação das ondas do movimento do líquido na mão esquerda. O movimento pode ser realizado no sentido contrário. 113 Capítulo 7 ô Se localiza abaixo do diafragma e possui dois orifícios, a cárdia, que corresponde à desembocadura do esôfago e o piloro, que corresponde à comunicação com o duodeno; É dividido em três partes: fundo, corpo e antro; Ocupa o epigástrio e o hipocôndrio esquerdo, se relacionando com o diafragma, o 4º espaço intercostal esquerdo e o lobo esquerdo do fígado; A parede do estômago é composta de quatro camadas de tecido: serosa, muscular, submucosa e mucosa. Já a muscular é composta de outras três camadas: longitudinal externa, circular média e a oblíqua; Palavra grega que significa dificuldade de digestão; Grupo de sintomas persistentes ou recorrentes, localizados no andar superior do abdome, geralmente na região epigástrica; Pode ser definida pela presença de um ou mais dos seguintes sintomas: plenitude pós-prandial, saciedade precoce, epigastralgia e queimação epigástrica; Pode ser de dois tipos: • Dispepsia funcional: associada a sintomas emocionais ou até mesmo quando um alimento não cai muito bem no estômago. Esse tipo não apresenta lesão orgânica; • Dispepsia orgânica: associada a doença digestiva específica com lesão orgânica, como úlcera. Dispepsia funcional Caracterizada por estômago normal ou com alterações inespecíficas à endoscopia e nenhuma evidência objetiva de doença orgânica; Critérios diagnósticos: Consenso Roma IV (2016): 1. Queixas dispépticas durante os últimos 3 meses que se iniciaram, no mínimo, 6 meses antes do diagnóstico; 2. É fundamental a presença de um ou mais dos sintomas: - Empachamento pós prandial; - Saciedade precoce; - Queimação em epigástrio; 3. Ausência de alteração estrutural que justifique os sintomas. Subtipos • Síndrome do desconforto pós-prandial: - Empachamento pós-prandial e saciedade precoce; - Pode ocorrer distensão abdominal, náuseas pós-prandiais, eructações frequentes; 114 Capítulo 7 • Síndrome da dor epigástrica: - Dor epigástrica ou queimação em epigástrio, a qual pode ser induzida por refeições, aliviada com refeições ou em jejum. Não tem padrão de ritmicidade, periodicidade ou dor noturna. Os sintomas ocorrem mais frequentemente em adultos jovens, são recorrentes e não são acompanhados de sinais de alarme, como anemia, sangramento, perda de peso, icterícia Pacientes podem apresentar os subtipos isoladamente ou podem ter todos os sintomas relatados acima; Pacientes podem apresentar associado ao quadro sintomas de DRGE (pirose e regurgitação) ou Síndrome do Intestino irritável (diarreia e constipação); Fisiopatologia Ainda é desconhecida, mas há suspeitas de que os sintomas resultem de anormalidades funcionais do estômago, como hipersecreção ácida, dismotilidade gastroduodenal, hipersensibilidade visceral, alteração da acomodação gástrica, H. pylori; Diagnóstico clínico Anamnese detalhada baseada nos critérios de Roma IV; Investigar sinais e sintomas de alarme para afastar doença orgânica, como: • Perda de peso; • Vômitos recorrentes; • Disfagia progressiva; • Presença de sangramento; • Icterícia; A presença de sinais e sintomas de alarme indicam necessidade de continuar a investigação com exames específicos; No caso de dispepsia funcional, o exame físico detalhado deverá ser normal, caso haja o encontro de visceromegalias ou massas abdominais exclui a possibilidade de dispepsia funcional. Dispepsia orgânica • Existe lesão na mucosa; • Sinais e sintomas característicos de cada patologia; • Exemplos: câncer gástrico, úlcera gástrica, úlcera duodenal. • Bactéria gram negativa que coloniza muco gástrico e é adquirida na infância por transmissão fecal oral; • A maioria das pessoas são portadores assintomáticos; • Caso a bactéria se instaure na mucosa e só provoque dispepsia sem a presença de úlcera, classificamos essa dispepsia em funcional. Mas, caso a bactéria lesione a mucosa, causando úlcera, neoplasia gástrica e 115 Capítulo 7 dispepsia, classificamos essa dispepsia em orgânica; • Chama-se dispepsia associada ao H. pylori quando os sintomas desaparecem após tratamento específico para a bactéria; • A H. pylori invade e destrói a camada protetora de muco, sendo assim, os ácidos gástricos rompem a camada protetora de muco e provocam uma úlcera; • Em relação às úlceras pépticas, a H. pylori representa: - 90% das causas de úlceras duodenais; - 60-70% das causas de úlceras gástricas; - Apenas 10 a 20% dos indivíduos portadores de infecção por H. pylori desenvolvem úlcera péptica. Epidemiologia: • 3ª neoplasia mais frequente em homens e a quinta entre as mulheres no Brasil • 95% são adenocarcinomas; • 3% são linfomas; • Outros: leiomiossarcomas; • 65% dos pacientes possuem mais de 50 anos; • Maior incidência no sexo masculino 2:1. Fatores de risco: • Etilismo e tabagismo; • Infecção pelo H. pylori; • Ingestão de alimentos com conservantes, salgados, defumados; • Fatores genéticos; • Gastrectomias prévias; • Anemia perniciosa; • Obesidade; • Pólipos gástricos hiperplásicos. Manifestações clínicas e anamnese: • As manifestações precoces são inespecíficas e assintomáticas, contribuindo para um diagnóstico tardio, em estágio avançado; • Tumores da cárdia geralmente, causam disfagia; • Tumores distais do antro podem obstruir o piloro e cursam com vômitos com alimentos não digeridos; • Podem cursar com sangramento gastrintestinal: hematêmese e melena; • Sinais clínicos se desenvolvem na fase tardia da doença: sensação de plenitude gástrica, saciedade precoce, perda de peso, astenia, anemia, dor epigástrica. Exame físico: as alterações observadas na doença avançada, são: • Massa palpável em epigástrio • Hepatomegalia endurecida: metástases • Linfonodos palpáveis: - em fossa supraclavicular esquerda: nódulo de Virchow-Troisier; - na região supra-umbilical: nódulo irmã Maria José. 116 Capítulo 7 Diagnóstico: • Baseado na história clínica e exame físico; • Endoscopia digestiva alta com biópsia da lesão (padrão-ouro); • O encontro de lesão ulcerada gástrica tem que ser biopsiada; • Aparência inicial semelhante a úlcera benigna; • Acompanhar cicatrização da lesão após tratamento; • TC de abdome e TC de tórax para estadiamento do tumor. É definida como uma lesão da mucosa com maior profundidade á endoscopia e/ou com evidência de acometimento da submucosa, em áreas banhadas pela secreção cloridropéptica; A úlcera péptica resulta da ruptura do balanço entre a agressão a mucosa gastroduodenal pelo HCl e enzimas digestivas gástricas e os mecanismos de defesa desta mucosa; • Causas: - Infecção pela Helicobacter pylori (Hp), responsável por mais de 95% das úlceras duodenais e 80% das úlceras gástricas; - Anti-inflamatórios não hormonais. • A associação da H. pylori e úlcera duodenal se dá pelo aumento de secreção ácida do estômago em resposta à infecção crônica do antro, aumento da secreção cloridropéptica, podendo levar a metaplasia gástrica do duodeno e a infecção deste pelo HP e úlcera; • Já na lesão pelos AINEs, pode haver tanto lesão direta pelamedicação quanto redução dos mecanismos de defesa pela inibição da COX-1, enzima importante na proteção da mucosa gástrica; Diagnóstico: • Dor epigástrica tipo em queimação, descrita como sensação de fome ou desconforto no estômago; • A dor costuma ocorrer duas a três horas após a refeição (ritmicidade); • Dor noturna (clocking), decorrente do ritmo circadiano da secreção gástrica; • Alívio com alimentos ou antiácidos (alcalinos); • Crises de epigastralgia intercaladas por períodos sem dor (periodicidade); Complicações (30% dos casos não tratados): • Hemorragia digestiva alta (HDA) em 20% dos casos; 117 Capítulo 7 • Perfuração em 6%; • Obstrução piloro-duodenal em 4%; Investigar sinais e sintomas de alarme para afastar doença orgânica, através da: • Endoscopia digestiva alta (EDA); • Pesquisa de HP; • Investigar se o paciente fez uso de AINEs recentemente. Tratamento: Associação de um antissecretório e mais 2 antibióticos para erradicar o HP. Tratamento durante 14 dias com: • Omeprazol 20 mg (inibidor de bomba de prótons) + Claritomicina 500 mg e Amoxacilina 1 g duas vezes ao dia por 14 dias; • Três meses após o tratamento: repetir EDA e pesquisa de HP (avaliar erradicação). São hemorragias originadas do esôfago ao ângulo de Treitz, causadas por lesões do estômago e duodeno; Quadro clínico: • Hematêmese: vômito sanguinolento, vermelho vivo ou escuro (sangue digerido) indica HDA; • Melena: fezes pretas, odor fétido, pastosas. Em 90% das vezes indica HDA. Pode ocorrer em lesões do colón proximal. Etiologias: • HDA não varicosa: - Úlcera péptica; - Síndrome de Mallory Weiss: quando ocorre uma laceração na transição esôfago- gástrica devido ao esforço de vômitos frequentes; - Tumor de estômago. • HDA varicosa: - Varizes de esôfago; - Varizes gástricas; A ruptura de varizes esofágicas é a etiologia mais frequente e pode ser causada por: - Hipertensão portal secundária; - Hepatopatia crônica por álcool, vírus, (70% dos casos); - Hepatoesplenomegalia esquistossomótica. Estimativa de perda volêmica: Caso 1: Paciente feminina, 32 anos, com queixa de azia e dor epigástrica há 3 meses, intermitentes. Por vezes, a azia acorda a paciente à noite e, às vezes, só aparece depois que ela ingere algo. Nega dor epigástrica noturna. Faz uso de antiácidos e, de vez em quando, de buscopan, com melhora do quadro. Tem eructações frequentes e, às vezes, sensação de plenitude epigástrica. Relaciona seu sintoma com momentos de ansiedade. 118 Capítulo 7 Qual a alternativa correta? a. A dor epigástrica apresentada pela paciente é típica de úlcera péptica. b. Dor epigástrica noturna indica dispepsia não ulcerosa. c. Dor epigástrica sem relação com alimentação é mais comum na úlcera duodenal. d. A ausência de ritmicidade reforça a possibilidade de dispepsia. Caso 2: Paciente feminina, 65 anos, com queixa de desconforto abdominal associado à sensação de saciedade precoce há 6 meses. Há 3 meses, vem observando perda progressiva de peso (cerca de 6Kg) e astenia. Ao exame físico, apresenta mucosas descoradas ++/4+. Demais segmentos sem alterações. Qual a alternativa correta? a. A história é compatível com dispepsia funcional devido à ansiedade. b. A saciedade precoce é típica de úlcera duodenal. c. A perda de peso e anemia sugerem processo neoplásico. d. O exame físico normal afasta a possibilidade de neoplasia. Caso 3: Paciente masculino, 42 anos, com história de que há 3 meses vem com episódios de dor em queimação em epigástrio (azia), piorando no final da manhã e no final da tarde, com o jejum, e melhorando após ingesta alimentar. Há 2 semanas, teve dois episódios de dor noturna. Acordou 1h da manhã com azia, tomou 1 copo de leite e melhorou. Os sintomas são diários, até 7 dias/semana, passando períodos assintomáticos de até 10 dias quando, então, retornam os sintomas com as mesmas características. Relaciona a queixa com a alimentação no trabalho, que é muito gordurosa (sic). Não perdeu peso. O exame físico não apresenta alterações. Qual a alternativa correta? a. O acordar à noite (clocking) é devido ao ritmo circadiano da secreção ácida gástrica. b. A alimentação irregular causa úlcera péptica. c. A periodicidade é caracterizada pela dor que piora no final da manhã e no final da tarde. d. A ritmicidade indica que a dor ocorre intermitente e desaparece espontaneamente. Caso 4: Paciente masculino, 38 anos, comparece ao ambulatório com história de que há 1 ano teve diagnóstico de úlcera gástrica, tratada com omeprazol e, desde então, vem evoluindo sem sintomas. Na época, teve um episódio de hematêmese e melena. Retorna com as mesmas queixas. Ao exame: mucosas coradas, anictéricas. Demais segmentos sem alterações Qual a alternativa correta? a. Deverá ser realizada nova endoscopia com pesquisa de H. pylori b. A hematêmese é indicativa de processo neoplásico c. A úlcera gástrica é considerada lesão pré- maligna d. A melena indica hemorragia digestiva baixa 119 Capítulo 7 ô Conduto músculo membranoso de aproximadamente 27 cm, destinado a conduzir os alimentos da faringe ao estômago (principal função motora); Possui uma função de transporte de trânsito entre 5 a 9 segundos para passagem do bolo alimentar. Esse tempo pode ser aumentado em alguma patologia esofágica; Possui 3 regiões anatômicas: • Superior ou cervical: parte inicial localizada no pescoço que está em contato íntimo com a traqueia; • Média ou torácica: porção mais importante, passa por trás do brônquio esquerdo; • Diafragmática ou abdominal (o hiato): região de transição do esôfago para o estômago, repousa sobre o diafragma e pressiona o fígado, formando nele a impressão esofágica; Pode ter constrições, em sua parte torácica. São elas: • Constrição cervical (esfíncter superior do esôfago): em seu início na junção faringoesofágica; causada pela parte cricofaríngea do músculo constritor inferior da faringe; • Constrição broncoaórtica (torácica): uma constrição combinada, no local onde ocorre primeiro o cruzamento do arco da aorta; • Constrição diafragmática: no local onde atravessa o hiato esofágico do diafragma; A anatomia microscópica é formada pelas camadas mucosa, submucosa, muscular, adventícia e serosa; Corpo do esôfago e esfíncteres Esfíncter superior: Mede de 3-4 cm de extensão, possui uma musculatura estriada, se mantém contraído em repouso, impede que o ar na respiração vá para o trato digestório e relaxa na deglutição. Corpo esofágico: o segmento proximal é formado de músculo estriado e o segmento distal é formado de músculo liso. Sua constituição muscular serve para contração em resposta à deglutição. Essa contração constitui as ondas peristálticas, que se dividem em: annec Máquina de escrever Exame do 120 Capítulo 7 • Primárias: iniciam na laringe com a deglutição; • Secundárias: não tem relação com a fase orofaríngea da deglutição, mas possuem função de limpeza da luz do esôfago (clareamento esofágico); • Terciárias: ocorre em pessoas idosas, irregularmente (patológico). Esfíncter inferior: É o anel de músculos que mantém a parte inferior do esôfago fechada para evitar o refluxo de alimentos e ácido gástrico para dentro do esôfago. Quando a pessoa engole, esse esfíncter geralmente relaxa para permitir que os alimentos passem; Controle neural do peristaltismo Composto por dois plexos: • Plexo de Auerbach (mioentérico): Controla quase todos os movimentos gastrointestinais. • Plexo de Meissner (submucoso): Controla basicamente a secreção gastrointestinal e o fluxo sanguíneo local; O peristaltismo é apenas fraco ou não ocorre nas regiões do trato gastrointestinalem que exista ausência congênita do plexo mioentérico. Portanto, o peristaltismo efetivo requer o plexo mioentérico ativo. Disfagia: dificuldade à deglutição. De modo geral, a disfagia que se manifesta somente para sólidos é sugestiva de obstáculo mecânico e a disfagia que se manifesta para sólidos e líquidos indica alteração da motilidade esofágica. Odinofagia: dor que surge com a ingestão de alimentos e está comumente associada à disfagia; Afagia: obstrução esofágica completa que, geralmente, ocorre por impactação do bolo alimentar e representa uma emergência médica; Globus: é a sensação de corpo estranho na fúrcula esternal que desaparece completamente durante a alimentação, reaparecendo em seguida; Pirose: referida por paciente como azia, queimação, é o principal sintoma do refluxo gastroesofágico. Dor esofágica: diferencia-se da odinofagia por não depender do ato de ingerir alimento. Pode ser causada por mudanças do pH intraluminal, atividade motora anormal ou inflamações na parede esofágica; Regurgitação: volta do alimento ou de secreções contidas no esôfago ou estômago à cavidade bucal; Eructação: conhecido popularmente como “arroto”, geralmente não é patológico e ocorre por causa da ingestão de maior quantidade de ar durante as refeições; Sialose: produção excessiva de saliva; Hematêmese: vômito com sangue; Ao colher a história clínica, é importante fazer alguns questionamentos ao paciente, como: • Sente dificuldade para o alimento descer? • Onde sente que o alimento para? 121 Capítulo 7 - Mostre com seu dedo onde o alimento para; • Tem tosse? • O alimento retorna para a boca? • A dificuldade começou só para alimentos sólidos ou só para líquidos? E atualmente é para sólidos e líquidos? Disfagia Tempo de evolução: • Início abrupto? Corpo estranho; • Início agudo? Neoplasia; • Início insidioso? Megaesôfago, estenose péptica; Características: • Intermitente? Distúrbios de motilidade; • Lentamente progressiva? Megaesôfago; • Rapidamente progressiva? Neoplasia; • Para sólidos? Lesão estrutural; • Para sólidos e líquidos? Distúrbios de motilidade (ex: acalasia – megaesôfago); Sinais de alarme: • Perda peso? Neoplasia; • Sangramento? Neoplasia, DRGE complicada; Sintomas associados: Geralmente, a disfagia vem acompanhada de pirose na esofagite péptica, dor torácica em distúrbios motores e rouquidão pode sugerir acometimento do nervo laríngeo recorrente. Disfagia orofaríngea Também chamada de bucofaríngea, alta ou de transferência, ocorre nas duas primeiras fases da deglutição, quando o alimento permanece no todo ou em parte na cavidade bucal após a tentativa de deglutição, podendo haver aspiração brônquica, tosse ou regurgitação nasal; Causas mecânicas: • Processos inflamatórios de boca e faringe; • Compressões extrínsecas (bócio, adenomegalias); • Divertículo de Zenker; • Anel esofagiano superior; Causas miopáticas: • Distrofia muscular; • Dermatomiosite/poliomiosite; • Miastenia Gravis; Causas neurológicas: • AVE; • Parkinson; • Esclerose múltipla; • Esclerose lateral amiotrófica. Disfagia esofágica Também chamada de disfagia baixa ou de transporte, ocorre na terceira fase da deglutição quando o paciente tem a sensação de parada do bolo alimentar no esôfago, embora não consiga localizar o nível de obstrução. Causas obstrutivas: • Neoplasias; • Estenoses: ex péptica (DRGE); cáustica; • Compressões; • Anel esofagiano inferior (Schatzki); Causas motoras (motilidade): • Megaesôfago chagásico/acalasia idiopática; • Espasmo difuso de esôfago; • Esclerodermia/Lúpus; • Distrofia muscular; 122 Capítulo 7 • Diabetes; • Doença de Parkinson; • Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA). Diagnóstico diferencial: disfagia x odinofagia x globus Odinofagia: dor que ocorre no ato da deglutição; • Intensidade variável; • Pode estar associado a sialose: eliminação da saliva em forma de baba (dificuldade de deglutir); • Causas: infecções (herpes, citomegalovírus, candidíase e HIV), medicamentosa (ex AINEs), cáustica, radiação Globus hystericus: sensação de bolo na garganta; • Não tem relação com alimentos; • Ocorre no intervalo das refeições; • Funcional? DRGE como sintoma atípico? Pirose Geralmente, se localiza na região retroesternal, sendo percebida no nível do apêndice xifoide; Ocorre quase sempre após as refeições, podendo ser desencadeada por frituras, bebidas alcoólicas, café, frutas cítricas ou pela posição em decúbito; Às vezes é acompanhada de regurgitação de líquido de sabor azedo ou amargo e, geralmente, é uma manifestação da doença do refluxo gastroesofágico; Apesar de ser muito confundida com azia pelos pacientes, deve-se tomar cuidado, pois a azia se localiza na região epigástrica e não na região retroesternal; Regurgitação Retorno ou sensação do retorno de alimento e/ou secreções à cavidade bucal; • Decúbito, ortostase ou ambos; • Não é percebida por náuseas; • Risco de broncoaspiração; Na anamnese, deve-se fazer os seguintes questionamentos: • Sente o alimento voltar? • Deitado, em pé ou em ambas as posições? • Que tipo de alimento causa o sintoma? • Ocorre no logo no final das refeições ou demora mais? Pode estar relacionada a: • DRGE; • Megaesôfago; • Neoplasia de esôfago; • Impactação alimentar; • Fisiológico no RN (presbiesôfago). Dor torácica retroesternal • Retroesternal, constritiva, com irradiação para regiões laterais do tórax e da garganta; • Semelhante à angina; • Geralmente acomete pacientes sem fatores de risco para doença coronariana; 123 Capítulo 7 • Resulta da distensão e/ou contração das paredes do esôfago; • Pode estar associada à disfagia; • Estima-se que 50% sejam decorrentes de DRGE; • Ocorre no espasmo esofagiano difuso e nas fases iniciais do megaesôfago por acalasia idiopática; • Diferencia da dor torácica cardíaca pela ausência dos sinais de alteração hemodinâmica: sudorese, extremidades frias, hipotensão, tonturas e por se manifestar sem precisar de esforços físicos do paciente; Hematêmese Característico de hemorragia digestiva alta; Na maioria das vezes é causada pela ruptura das varizes esofágicas. Mas pode ser causado também por esofagite erosiva (DRGE) e neoplasia; Diagnóstico diferencial: Síndrome de Mallory- Weiss, a qual consiste na laceração do esôfago após vômitos repetidos. Não há dado específico para o esôfago; Buscar sinais indiretos de repercussão da patologia em questão, como: • Perda peso; • Mucosas descoradas (anemia); • Alterações da pele (ex: escleroderma); • Hipertrofia bilateral de parótidas; • Alteração da voz – refluxo/neoplasias; • Ausculta respiratória: crepitações em situações de broncoaspiração. • Raio-x do tórax PA/perfil: - Megaesôfago: duplo contorno cardíaco; • Estudo radiológico do esôfago ou esofagograma; Na imagem da direita, nota-se um megaesôfago dilatado com retenção de contraste, EIE afilado. Já na segunda imagem nota-se uma neoplasia esofágica. • Convencional; • Alta Resolução (MAR) • pHmetria 24h • Impedância pHmetria • Cápsula Bravo • Cintilografia esofágica com Tc 99 • Videodeglutograma Varizes esofágicas rompidas Síndrome Mallory-Weiss 124 Capítulo 7 • Radiografia contrastada: Na imagem sem setas mostra um esôfago normal, na imagem com setas laranjas mostra uma estenose esofágica e nas imagens com setas azuis mostra um divertículo esofágico. • Endoscopia Digestiva Alta: - Avalia se existem lesões na mucosa, como câncer na fase inicial, esofagite de refluxo, monilíase e varizes esofágicas de pequeno calibre; - Propicia a realização de biópsias - Pode ser usada como terapêutica - erradicação de varizes,dilatações da cárdia (em casos de megaesôfago), introdução de próteses esofágicas (em disfagia relacionada a neoplasias) - Pode fazer inferências sobre o calibre esofágico, mas não é o método adequado para tal (em casos de megaesôfago grau IV, estenoses) A. Esôfago normal. B. Esofagite erosiva. C. Varizes esofágicas. D. Corpo estranho do esôfago E. Candidíase do esôfago. F. Mucosa de Barrett. G. Câncer de esôfago. H. Megaesôfago chagásico. Esôfago normal Espasmo esofagiano difuso Megaesôfago 125 Capítulo 7 Manometria esofágica: é um teste que analisa o funcionamento do esôfago através das contrações musculares rítmicas (peristaltismo). Além disso, ele mede a coordenação e força exercida pelos músculos de seu esôfago. Através de uma sonda com oito receptores que é introduzida para medir a pressão. Nela, há sensores responsáveis pela captação das pressões intraesofágicas e o paciente terá que ingerir pequenas quantidades de água. Avalia a motilidade do esôfago: - Pressão do esfíncter esofágico superior; - Pressão do esfíncter esofágico inferior e relaxamento; - Motilidade do corpo do esôfago. Indicações: - Distúrbios de motilidade- acalasia, EDE, esclerodermia - Avaliação pré-operatória do refluxo - Localização do EEI para posicionamento da sonda da pHmetria • pHmetria de 24h: - Mede o refluxo (pH abaixo de 4,0); - Informa sobre refluxo ortostático e em decúbito; - Correlaciona sintomas com refluxo. Doença do refluxo gastroesofágico Refluxo ou DRGE? • Refluxo: pode ser fisiológico - cerca de 50 episódios/dia, mas normalmente são assintomáticos e o paciente não sente tanto desconforto; • DRGE: sintomas de pirose e regurgitação - 2 a 3x/semana - Forma erosiva (com lesão no esôfago); - Forma não erosiva (sem lesão em 70% dos casos); • Sintomas típicos: - Pirose - Regurgitação • Sintomas atípicos: - ORL: pigarro, odinofagia, rouquidão, dor de garganta - Respiratórios: tosse crônica, piora da asma; - Alteração no sono; • Complicações da DRGE: Esofagite erosiva grau C + Hérnia de hiato, úlceras e estenoses; - Sintomas: pirose, regurgitação; - Pode cursar com disfagia; - Pode cursar com sintomas atípicos. 126 Capítulo 7 Esôfago de Barrett • Transformação do epitélio estratificado em epitélio cilíndrico, com células caliciformes (metaplasia intestinal) • Secundário à exposição persistente às secreções gastroduodenais • O risco de câncer esofágico é 30x maior em pacientes com DRGE; Câncer de esôfago Há 2 subtipos principais: • Carcinoma de células escamosas: também chamado de carcinoma espinocelular, corresponde a 90% dos casos, sendo mais frequente em homens a partir dos 50 anos, acometendo mais os terços médios e inferior do estômago; • Adenocarcinoma: surge na parte distal do esôfago (segmento distal/cárdia) na presença de refluxo gástrico e esôfago de Barrett. Epidemiologia: • Mais frequente no sexo masculino; • Aumenta da incidência com a idade. Sintomas: • Mais frequente: disfagia para sólidos que só se manifesta quando há acentuada redução do lúmen esofágico; • Outros sintomas: leve odinofagia, desconforto retroesternal, sensação de corpo estranho, anorexia, dor epigástrica, regurgitação. Fatores de risco Alcoolismo, tabagismo, lesões prévias no esôfago (megaesôfago, esofagite cáustica, esofagite péptica (?), Barrett) Diagnóstico: endoscopia + biópsia. Câncer vegetante e ulcerado no terço médio do esôfago 127 Capítulo 7 í A frequência normal das evacuações varia de três vezes por dia até três vezes por semana; Como um sintoma, a diarreia consiste no aumento do número habitual de evacuações ou diminuição da consistência das fezes. Como um sinal, é definida pelo aumento do volume da massa fecal (> 200g/dia); • É necessário considerar o ritmo intestinal prévio desse paciente para comparar a quantidade de evacuações habitualmente e a quantidade de evacuações com a diarreia; A diarreia ocorre por um desbalanço entre a absorção e secreção de nutrientes; Escala de Bristol - Aspecto das fezes: Pode ou não vir acompanhada de outros sintomas, como: • Febre • Tenesmo/Urgência fecal • Inapetência/anorexia • Dor abdominal • Flatulência • Náuseas/vômitos • Perda de peso A diarreia pode ser classificada quanto a (ao): • Cronologia: aguda ou crônica; • Local de origem: é classificada em alta, quando ocorre alguma disfunção no intestinal delgado e baixa, quando ocorre alguma disfunção no intestino grossos • Fisiopatologia: osmótica, secretória, inflamatória, motora ou disabsortiva. A diarreia é um processo complexo que raramente envolve apenas um mecanismo fisiopatológico, portanto, na maioria das vezes os tipos de fisiopatologias se sobrepõem; É decorrente, principalmente, de alterações de líquido intestinal e transporte de eletrólitos e menos de alteração muscular. • Ex.: Cólera - grande estímulo à secreção, altera a motilidade e possuem toxinas que alteram a permeabilidade da membrana • Ex.: Doenças inflamatórias intestinais – lesão da mucosa intestinal, produção de secretagogos pelo sistema imunológico e down regulation de canais e bombas. Diarreia osmótica Aumento da pressão osmótica do conteúdo intraluminal; Presença de substâncias osmoticamente ativa e pouco absorvíveis que levam a retenção de água na luz intestinal para manter a osmolaridade 128 Capítulo 7 intraluminal. Sendo assim, acaba retendo muita água das células, causando a diarreia; A presença dessas substâncias causa retardo da absorção de água e eletrólitos ou passagem de líquidos do meio interno para o lúmen intestinal; Geralmente, está associada a um defeito a digestão ou na absorção de nutrientes, como se observa má síndrome da má absorção, na deficiência das enzimas lactase, frutase ou sacarase e na ingesta de nutrientes mal absorvidos como o uso de álcool e medicamentos (sorbitol, manitol). Características: • Melhora com o jejum, pois não vai ter a substância osmoticamente ativa passando pela luz intestinal; • Flatulências e associação/piora dos episódios com a ingesta do alimento suspeito, como por exemplo a lactose; • Ao exame físico, distensão abdominal, hipertimpanismo, hiperemia perianal devido à irritação do canal anal; Diarreia secretora Aumento da secreção de água e eletrólitos pela mucosa intestinal; Decorre da anormalidade do mecanismo de secreção intestinal, induzida por toxinas bacterianas, hormônios, medicamentos; Está associada a dano ao nível do epitélio dos enterócitos por ação de vírus Causas: • Infecções produtoras de enterotoxinas, como a infecção por E. coli enterotoxigênica; é a causa mais comum; • Produção excessiva de hormônios e secretagogos, como no hipertireoidismo ou em casos da secreção de gastrina (gastrinoma), síndrome carcinoide (serotonina, prostaglandinas, calcitonina), vipomas; Características: Diarreia alta, não disentérica, geralmente indolor, com febre, c/s desidratação, que persiste com o jejum, aquosa e com grande volume. Diarreia Motora Aumento da motilidade do intestino delgado; Ocorre quando há uma alteração capaz de modificar o padrão normal do trânsito no intestino delgado; Causas: • Doenças funcionais como a Síndrome do intestino irritável (SII); • Doenças metabólicas; • Doenças endócrinas, como o hipertireoidismo e a diabetes mellitus; • Uso de alguns fármacos. Diarreia inflamatória ou exsudativa Aumento da permeabilidade da mucosa intestinal; Secundária a processos inflamatórios, neoplásicos ou isquêmicos com consequente lesão de mucosa, morte de enterócitos, atrofia das vilosidades, hiperplasia das criptas e aumento da permeabilidade intestinal; Se a lesãofor grave, a lesão vascular imunomediada ou a ulceração permite a perda de sangue e exsudato; 129 Capítulo 7 Causas: • Doença inflamatória intestinal: apresenta manifestações extraintestinais; • Neoplasias, shiguelose, colite pseudomembranosa. Características: • Disenteria: presença de sangue misturado às fezes e muco; • Aumento do ritmo intestinal > 5x/dia (até 20x/dia), com fezes de pequeno volume, que persistem com o jejum; • Tenesmo, urgência e até incontinências fecais. Diarreia Disabsortiva Deficiências digestivas e lesões parietais que impedem a correta digestão ou absorção; Causas: pancreatite crônica com insuficiência pancreática, bariátrica e outras deficiências na absorção intestinal; Características: • Presença de restos alimentares; • Esteatorreia: aumento na quantidade de gordura excretada nas fezes. As dejeções passam a ser volumosas, brilhantes, amareladas, grudam no vaso sanitário ou boiam e com mau odor; • Grande volume fecal e ritmo intestinal < 5x/dia; • Perda de peso. Diarreia aguda: • Duração: geralmente dura < 7 dias, podendo se estender até 4 semanas; • Causas: a maioria é infecciosa (viral ou bacteriana). Quando dura mais que 7 dias, tem a possibilidade de ter sido causada por protozoários. Pode ser causada também pelo uso de medicações como laxantes; • Na maioria das vezes é autolimitante e o tratamento é baseado em hidratação; • Manifestações associadas: náuseas, vômitos, febre, hipoatividade, outros contactantes com quadro similar Diarreia crônica: • Duração: > 4 semanas; • Causas: parasitoses, doenças funcionais, intolerâncias alimentares, DII, infecções crônicas em imunodeprimidos, neoplasias, medicamentos. Outras causas de diarreia crônica: • Diarreia funcional (Síndrome do intestino irritável); • Doença inflamatória intestinal: Retocolite ulcerativa e D. de Crohn; • Enteropatia perdedor de proteína • Síndromes disabsortivas; • Alergia alimentar; • Doença celíaca: relacionada ao glúten. Diarreia alta: • Grande volume; • Poucas evacuações (6); • Ausência de muco, pus ou sangue nas fezes; • Dor em mesogástrio; • Ausência de tenesmo; 130 Capítulo 7 • Presença de restos alimentares; Diarreia baixa: • Pequeno volume; • Muitas evacuações (>10); • Pode cursar com muco, pus ou sangue nas fezes; • Dor em hipogástrio/Fossa ilíaca; • Com tenesmo; • Ausência de restos alimentares. • Avaliar duração do episódio; • Avaliar o possível agente etiológico; • Classificar a diarreia em inflamatória ou não inflamatória; • Diarreia funcional x Diarreia orgânica; • Avaliar gravidade do quadro; • Diarreia no paciente com AIDS. É uma apresentação clínica bastante semelhante, independente do agente causador. História clínica: • Início dos sintomas, ingestão de alimentos suspeitos; • Número de dejeções, aspecto das fezes, presença de muco ou sangue; • Sintomas associados: febre, dor abdominal, náuseas e vômitos, anemia; • Sinais de desidratação. A diarreia inflamatória é causada principalmente por bactérias, é um quadro mais grave, podendo apresentar muco, sangue, dor abdominal, febre e tenesmo; • Avaliar o grau de desidratação: crianças e idosos são os que mais podem sofrer com diarreia; • Níveis pressóricos; • Temperatura; • Nível de consciência; • Estado nutricional; • Palidez; • Icterícia; • Presença de linfonodos ou massas abdominais; • Toque retal: diarreias inflamatórias, neoplasias, avaliar fístulas e abscessos. Exame do abdome Inspeção: o abdome pode apresentar-se: • Escavado: quando houver acentuada desnutrição, como na doença celíaca, linfomas e doença de Crohn; • Globoso: quando houver maior conteúdo líquido e gasoso das alças intestinais, como ocorre na má absorção, ascite e neoplasias; Percussão: • Hipertimpanismo: quando há aumento do volume abdominal por distensão gasosa das alças intestinais; • Macicez ou submacicez: ocorre quando ao acúmulo de gases se junta o aumento do conteúdo líquido, como se vê nos estados de má absorção acentuada ou em segmentos proximais à obstrução, a distensão abdominal. Como diagnóstico diferencial, temos ascite. Palpação: • A palpação superficial permite a constatação de hipotrofia da parede nos casos de desnutrição ou o aumento da tensão nas 131 Capítulo 7 distensões hidroaéreas das alças intestinais e nas ascites de grande volume; • A palpação superficial bimanual pode detectar regiões de maior resistência (defesa abdominal), o que contribui para a identificação do local mais comprometido; • O encontro concomitante de hiperestesia cutânea e de dor à descompressão brusca (sinal de Blumberg) compõe o quadro da irritação peritoneal Ausculta: • O aumento da frequência e da intensidade dos borborigmos, que chegam a ser audíveis a distância, indica movimentação anormal do conteúdo hidroaéreo intraluminal, como ocorre nas doenças de má absorção, nos transtornos da motilidade e, em particular, se houver oclusão intestinal; • Os ruídos hidroaéreos podem estar diminuídos, ou mesmo abolidos, quando a motilidade gastrintestinal cessa, em resposta reflexa à inflamação peritoneal ou à isquemia da parede intestinal. Indicada nas seguintes situações • Diarreia inflamatória; • Sanguinolenta; • Severa depleção de volume; • Pacientes imunocomprometidos, como no caso de pacientes com HIV; • Dor abdominal importante e persistente; • Sinais de irritação peritoneal; • Surto na comunidade; • Sinais de doença sistêmica: perda de peso importante, comprometimento do estado geral do paciente. • Descrição macroscópica das fezes: fezes aquosas, sem muco e sangue, sem febre sugere diarreia secretória por intoxicações alimentares; • Pesquisa de leucócitos nas fezes: utilizada para investigar uma diarreia inflamatória (infecciosa, autoimune); • Pesquisa de sangue oculto nas fezes: utilizada como forma de rastreio para doença neoplásica; • Parasitológico de fezes: pesquisa de verminoses; • Coprocultura: investigação de Salmonella; • Hemograma, VHS, PCR: avaliar o grau de anemia, leucocitose e para afastar doença inflamatória; • Glicemia: afastar diabetes mellitus; • Pesquisa de Clostridium difficille: colite pseudomembranosa, relacionado a uso de antibióticos; • Retossigmoidoscopia e colonoscopia: analisar como está a mucosa intestinal se há a presença de doenças inflamatórias e neoplásicas; • Enteroressonância e Enterotomografia: avaliar o intestino delgado nas doenças inflamatórias e se existem áreas de estenose e dilatação; • Capsula endoscópica: usada para avaliar o intestino delgado e totalmente contraindicada em suspeita de estenose; • Incontinência Fecal: ocorre principalmente em idosos, os quais estão sujeitos a uma diminuição do tônus muscular retal. Geralmente, é solicitado um exame de 132 Capítulo 7 manometria retal, o qual avalia a contração do tônus retal e a presença de incontinência; • Síndrome de Munchausen por procuração: doença factícia psiquiátrica em que um dos pais provoca ou simula sintomas de doenças na criança para chamar atenção para si. No caso, é mais comum que laxantes sejam dados a criança. • Bulimia: paciente que toma remédios que causam diarreia com o objetivo de emagrecimento; Caso 1: Estando de plantão numa UPA, você é chamado para atender um paciente de 15 anos, masculino, que refere náuseas e diarreia aguda. O quadro teve início há 2 horas. O paciente refere 6 dejeções amolecidas, cólicas e 4 episódios de vômitos, sem resíduos alimentares. Queixa-se que há 2 dias vinha sentindo o corpo amolecido sensação de febre. Nega presença de sangue ou muco nas fezes. Ao exame físico, nota-se apenas dor abdominal difusa à palpação profunda. Qual o diagnóstico maisprovável para este paciente? a. Gastroenterite viral b. Amebíase gastrointestinal c. Doença inflamatória intestinal d. Intoxicação por Staphylococcus aureus Caso 2: Na enfermaria de clínica médica do Hospital Geral Roberto Santos, você é chamado para atender uma paciente feminina, 25 anos, que está apresentando cólica intensa e diarreia, caracterizada por mais de 10 dejeções ao dia, com muco e sangue nas fezes. A paciente informa que há vários meses vem apresentando este sintoma. Há 1 semana vem cursando com dor e edema em joelho direito e hiperemia em olhos. Qual o diagnóstico mais provável para este paciente? a. Doença inflamatória intestinal b. Neoplasia de cólon c. Síndrome do intestino irritável d. Síndrome da imunodeficiência adquirida Caso 3: Paciente de 49 anos, masculino, iniciou, abruptamente, diarreia líquida, profusa, sem dor abdominal ou outros sintomas associados. Tem relato de ter participado de uma festa onde comeu muito churrasco e ingeriu bebida alcoólica há 12h do início dos sintomas. Ao exame, encontra-se hidratado, PA normal, com discreta dor abdominal difusa à palpação e aumento dos ruídos hidroaéreos. Numa diarreia aguda como a descrita acima, é CORRETO supor que o principal mecanismo fisiopatológico é: a. Secretor, devido à ativação de AMP cíclico por toxinas e consequentemente secreção de água e cloretos pelo intestino delgado. b. Inflamatório, pois a clínica é compatível com diarreia aguda causada por bactérias invasoras. c. Osmótico, devido à ingestão de produtos hiperosmolares. d. Motor, devido à liberação de serotonina e óxido nítrico, estimulados por ação bacteriana ou viral. 133 Capítulo 8 ó A pele é o maior órgão do corpo, sendo composta por tecidos diferentes. Funções: • Proteção; • Termorregulação; • Percepção; • Excreção de ureia, amônia e ácido úrico; • Metabólica: vitamina D > calcificação óssea; • Imunológica: células de Langerhans que captam e processam antígenos. Três camadas: • Epiderme: camada mais externa, epitélio estratificado, queratinizado e impermeável; • Derme: camada intermediária composta de tecido conjuntivo e rica em polissacarídeos, fibras elásticas e colágeno. Ricamente irrigada pelo sistema venoso, arterial e linfático. Abriga as glândulas sudoríparas e sebáceas; • Hipoderme: camada mais interna composta de tecido adiposo, exercendo a proteção a traumas mecânicos. Aplicação clínica: • Queimaduras de 1º grau: atinge a epiderme; • Queimadura de 2º grau: atinge a epiderme e a derme superficial. Nesse caso há o surgimento de bolhas devido ao rompimento de ligações que existem entre a epiderme e a derme, produzindo líquido que ocupa esse espaço que foi queimado; • Queimadura de 3º grau: atinge derme superficial e profunda; Geral: • Idade, sexo e etnia; • Procedência geográfica; • Estação do ano: a depender da estação, diferentes doenças de pele podem surgir; • Ocupação; • Nível socioeconômico; • Antecedentes patológicos. Anamnese dermatológica: • Morfologia da lesão: características da lesão (monomórfica, polimórfica, pápulas, bolhosas, ulcerosas); • Tempo de evolução; • Início dos sinais e sintomas; • Época do aparecimento; • Distribuição: restrita a uma região ou presente em várias regiões (difusa ou universal); • Organização; • Fatores de piora e melhora; • Desencadeantes; • Sintomas associados. 134 Capítulo 8 Padrões de morfologia: • Anelar: borda bem delineada, lembra a um anel; • Numular: aspecto mais elevado e arredondado e lembra a uma moeda; • Alvo: centro bem definido circundado por um alo; • Placa: não tem formato específico, mas tem alto relevo; • Circinada: aspecto mais arredondado, sem alto relevo, ovalar e aspecto de manchas; • Gutata: aspecto puntiforme característico da psoríase; • Serpiginosa: aspecto irregular como acontece com o bicho geográfico. Distribuição: • Regional ou difusa; Organização: • Aspecto linear, como estrias e cicatrizes de cortes; • Zosteriforme: aspecto em faixa, presente no Herpes zoster; • Herpetiforme: presente em qualquer tipo de Herpes, aspecto de vesículas; 135 Capítulo 8 • Reticular/reticulada: aspecto de raios. O exame deve ser feito com o paciente despido na área do corpo que será examinado naquele momento para não expor o paciente. O local deve estar bem iluminado. O exame deve ser feito em três etapas: • Inspeção da pele e mucosas; • Palpação; • Exame físico geral. E devem ser investigados os elementos: • Coloração; • Continuidade ou integridade; • Umidade; • Textura; • Espessura; • Temperatura; • Elasticidade e mobilidade; • Turgor; • Sensibilidade; • Lesões elementares. Inspeção: Coloração: Palidez: perda da cor rósea da pele que pode ser causada por vasoconstricção como em situações de susto ou crises dolorosas intensas, perda de sangue e anemia. Em negros e pardos, só se consegue avaliar a palidez nas regiões palmoplantares; Avaliação clínica do fluxo sanguíneo Pressione a polpa do polegar de encontro ao esterno durantes alguns segundos; Retirar o dedo rapidamente e observar o local que esteve comprimido; Em condições normais, o tempo necessário para o retorno sanguíneo é inferior a 1s. Já em caso de choque, o retorno sanguíneo é lento, demorando alguns segundos. Hiperemia: também chamada de eritrose, é o aspecto avermelhado que está associado ao aumento da quantidade de sangue na rede vascular cutânea, devido à vasodilatação. Geralmente é causada por algum processo inflamatório. Presente na rosácea; Cianose: aspecto azulado ou arroxeado que é manifestado quando a hemoglobina está baixa (hipóxia). Sugere problemas vasculares, hipoventilação pulmonar, cardiopatias congênitas como a tetralogia de Fallot; Icterícia: aspecto amarelado da pele, mucosas e da esclera, resultante do acúmulo de bilirrubina no sangue. Não deve ser confundida com outras condições em que a pele, mas não as mucosas, adquire cor amarelada, como ingestão excessiva de carotenos (carotenose). É causada principalmente pela hepatite infecciosa e alcóolica, doenças infecciosas como malária e leptospirose e lesões das vias biliares; 136 Capítulo 8 Palpação: • Umidade: por meio das polpas digitais e da palma da mão é possível avaliar a umidade. - Pele seca: é observada em idosos em casos de esclerodermia e ictiose, no mixedema, na avitaminose A e na desidratação. - Pele sudorenta: é observada em casos de febre, ansiedade, hipertireoidismo, menopausa e neoplasias. • Textura: é avaliada deslizando-se as polpas digitais sobre a superfície cutânea. - Normal; - Fina: observada em pessoas idosas, hipertireoidismo e em áreas bastante edemaciadas; - Áspera: observada em indivíduos que trabalham em atividades rudes e em doenças como mixedemas e dermatopatias crônicas; - Enrugada: observada em idosos, após emagrecimento rápido ou quando se elimina o edema. • Espessura: é avaliada através do pinçamento de uma dobra cutânea, usando o polegar e o indicador. - Normal; - Atrófica: quando as camadas da pele se atrofiam e ficam menos espessas como em idosos, crianças prematuras e em algumas dermatoses; - Espessada: observada em indivíduos que trabalham expostos ao sol e em casos de esclerodermia. • Sensibilidade: geralmente é avaliada no exame neurológico; - Dolorosa: a perda dessa sensibilidade é chamada de analgesia e o aumento é hiperestesia. - Tátil: anestesia ou hipoestesia refere-se a perda ou diminuição dessa sensibilidade; - Térmica. • Elasticidade e mobilidade: para avaliar a elasticidade, pinça-se a prega cutâneacom o polegar e o indicador, tracionando-a, até que ela se solte. Para avaliar a mobilidade, pressiona-se a palma da mão sobre a superfície que se quer examinar e movimenta-se a mão para todos os lados, fazendo-a deslizar sobre as estruturas adjacentes; • Turgor: sugere o estado de hidratação da pele e é avaliado, pinçando uma prega de pele que abranja o tecido subcutâneo; - Normal; - Diminuído: sensação de pele murcha e observação de lento desfazimento da prega. Indica desidratação. • Temperatura; São modificações do tegumento cutâneo causadas por processos inflamatórios, degenerativos, circulatórios, neoplásicos, transtornos do metabolismo ou por defeito de formação; Para avaliar essas lesões, utilizam-se a inspeção e a palpação e devem ser analisados: forma, bordas, cor, localização e superfície; As lesões elementares se dividem em: • Primárias: não é precedida de outra alteração cutânea, surge de uma pele sadia; • Secundárias: evolução das lesões primárias de uma pele já lesionada. Lesões elementares primárias Alterações de cor: 137 Capítulo 8 Manchas: são maiores que 1 cm e são alterações planas e impalpáveis, resultado de alteração da coloração da pele: • Pigmentares: alterações do pigmento melânico e se subdividem em: - Acrômica/hipocrômica: diminuição ou ausência de melanina, como no vitiligo, pitiríase alba, hanseníase; - Hipercrômicas: aumento da melanina, como no melasma, pelagra, manchas dos processos de cicatrização; • Vasculares: decorrem de distúrbios da microcirculação da pele e se diferenciam das manchas hemorrágicas por desaparecerem a digitopressão. São subdivididas em: - Eritema: comum em doenças exantemáticas como sarampo, varicela e rubéola, na sífilis, doenças reumáticas e alergias cutâneas; - Telangiectasia (aranha vascular): dilatações dos arteríolas, vênulas e capilares comuns e são denominados de microvarizes. • Hemorrágicas: são chamadas de “sufusões hemorrágicas” e não desaparecem a digitopressão por se tratarem de sangue extravasado. São subdividas de acordo com o tamanho em: - Petéquias: quando puntiformes e com até 1cm de diâmetro; - Vibices: quando formam uma linha; - Equimoses: quando são em placas e maiores que 1cm de diâmetro. • Deposição pigmentar: deposição de bilirrubina, hemossiderina, pigmento carotênico, corpo estranho e pigmento metálico; Formações sólidas • Pápulas: elevações sólidas de até 1cm, superficiais, delimitadas e com bordas definidas. Podem ser puntiformes, planas, acuminadas, isoladas ou coalescentes. Podem ser provocadas por picadas de inseto, leishmaniose, verruga, acne, hanseníase; • Placas: > 1 cm por coalescência de pápulas; • Nódulo: formações sólidas localizadas na hipoderme. Maior que 1 cm, mais profunda e 138 Capítulo 8 mais firme que uma pápula. Podem estar presente em casos de furúnculos, sífilis e cisticercose; • Urtica: lesão eritematoedematosa, hiperemiada, edematosa e com aspecto de alergia; s • Vegetação: lesão sólida, saliente, lobular, elevada, pediculada, aspecto verrucoso e de consistência mole. São exemplos: verrugas, condiloma acuminado, neoplasias, tuberculose; Coleções líquidas ou purulentas • Vesícula: diâmetro de até 1cm e se diferencia da pápula, por ter conteúdo líquido ao invés de sólido. É observada em casos de varicela, herpes-zóster, queimaduras, eczema; • Bolha: se diferencia da vesícula por ter diâmetro > 1 cm. É observada em casos de queimadura, pênfigo foliáceo, alergias medicamentosas e em algumas piodermites; • Pústula: vesícula de conteúdo purulento. Observada na varicela, herpes-zóster, queimaduras e na acne pustulosa; Elevação dermo-hipodérmica: • Abscesso: lesão mais profunda a nível da hipoderme com coleção purulenta; Lesões elementares secundárias Perda de superfície cutânea: • Erosão: perda de epiderme superficial secundária à ruptura de vesículas, bolhas e pústulas. Não sangrante e ao se regenerar, não deixam cicatrizes; • Úlcera: perda delimitada que atinge até a derme. Diferente da erosão, resulta em cicatriz e é uma lesão sangrante; Observada em úlceras crônicas como em diabéticos, lesões malignas da pele e leishmaniose. 139 Capítulo 8 • Fissura: fenda linear na pele que pode ser superficial ou profunda não causada por instrumento cortante. Compromete a epiderme a derme e se situa frequentemente no fundo de dobras cutâneas ou em orifícios naturais; Material sobre a superfície cutânea: • Crosta: resíduo proveniente do ressecamento de alguma secreção serosa, sanguínea ou purulenta. É encontrada muitas vezes em processos de cicatrização, impetigo, pênfigo foliáceo e nos eczemas; Ex: Crosta com escamas presente na dermatite atópica (forma de manifestação alérgica); • Escama: lâmina epidérmica seca e desprendida da superfície cutânea; Ex: Placa com escamas presente em casos de psoríase; • Escara: tecido necrótico resultante de pressão isolada ou combinada com fricção e/ou cisalhamento. Observada em doenças vasculares e pé diabético. Fístula: pertuito da pele pelo qual ocorre drenagem de material proveniente de foco supurativo ou necrótico profundo; Alterações de espessura Liquenificação: espessamento da pele com acentuação das estrias. Observada em eczemas liquenificados ou em qualquer área sujeita a coçaduras constantes; Atrofia: adelgaçamento da pele que se torna fina, lisa, translúcida e pregueada; Cicatriz: reposição de tecido destruído por tecido fibroso. Pode ser: • Atrófica: deprimida; • Hipertrófica: não ultrapassa os limites da ferida; • Queloidiana: ultrapassa os limites da ferida. 140 Capítulo 8 Sinais dermatológicos: Auspitz (sinal do orvalho sangrante): surgimento de pontos com sangramento ao curetar (remover) as escamas. Sugere psoríase. Nikolsky: pele se desprende da lesão com fricção/atrito, removendo a superfície epitelial, produzindo uma vesícula ou úlcera. Sugere pênfigo vulgar. Referência: PORTO, Celmo Celeno. Semiologia médica. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, c2009. 1308 p 141 Capítulo 8 Grupo de dermatoses inflamatórias, pruriginosas com características clínicas e histopatológicas bem definidas; As lesões elementares que definem os eczemas são eritema, edema, vesículas, crostas e descamação; Podem ser de três tipos: • Dermatite de contato – mais comum; • Dermatite atópica; • Dermatite seborreica. • Inflamação causada pelo contato entre a pele e um agente exógeno, que pode ser: - Um alérgeno ou um irritante; • Locais mais frequentes das inflamações: mãos, pés, face e pescoço; • Evolui por surtos, a cada exposição ao contactante; • Pode ser classificada em 4 tipos: - Dermatite de contato por irritação primária; - Dermatite alérgica de contato; - Dermatite de contato fototóxica; - Dermatite de contato fotoalérgica. • Diagnóstico diferencial: dermatite seborreica, atópica e micoses superficiais; Também identificada pela sigla DCIP, decorre dos efeitos tóxicos e pró-inflamatórios de substâncias capazes de ativar a imunidade da pele; É uma doença de caráter ocupacional (pedreiros, químicos, pintores, donas de casa), frequentemente; A ação da substância lesiona os queratinócitos, surgindo, posteriormente, reação inflamatória na derme papilar e o aparecimento imediato da lesão; Os irritantes podem ser de dois tipos: • Irritantes absolutos: ácidos ou bases fortes; - Ação cáustica pode levar ao aparecimento imediato da lesão; - Eritema a necrose e ulcerações; • Irritantes relativos: ácidos oubases fracas; - Exposição repetitiva ao agente leva a lesão em dias, meses ou até anos de exposição; - Eritema, xerose, liquenificação e hiperceratose; - Ex: solventes, sabões, detergentes - eczema do lar; - Urina e fezes - dermatite das fraldas. Características das lesões: eritema, descamação e, por vezes, vesículas e bolhas que surgem horas depois do contato com agentes irritantes mais fortes ou depois de semanas de contato com a agentes mais fracos; Mecanismo imunológico: não há necessidade de sensibilização prévia e não ocorre formação de 142 Capítulo 8 células de memória, portanto qualquer indivíduo pode desenvolver; Diagnóstico: os testes de contato ou epicutâneos (Patch tests) são negativos, porque não há formação de anticorpo, apenas liberação de mediadores inflamatórios; • Pesquisar na anamnese o uso de detergente, uso de luvas, calor, lesão previa na pele, baixa umidade (xerose). • Para excluir uma nova suspeita, é necessário poupar-se da exposição àquela substância para observar se há melhora, com isso uma nova reexposição deve ser feita para observar se a lesão é recidiva; Dermatite das fraldas • Reação inflamatória aguda que acomete as regiões cobertas pelas fraldas em crianças < 2 anos, geralmente; • A patogenia envolve a oclusão constante da pele pela fralda que deixa a epiderme úmida e mais suscetível à fricção pela fralda e aos irritantes presentes na urina, fezes resíduos de sabonetes e outros produtos; • Manifestações clínicas: - Eritema; - Lesões mais intensas nas superfícies convexas e dobras são poupadas; - Em caso de agravamento do quadro, podem surgir edema, pápulas, vesículas, erosões e ulcerações. • Esse tipo de dermatite pode favorecer infecções secundárias por Cândida albicans, Pseudomonas, entre outros fungos. Nesse caso, as manifestações clínicas são: - Eritema; - Dobras são acometidas; - Pele brilhante com descamação fina; - Induto esbranquiçado; - Acomete as dobras; - Lesões satélites papulosas ou vesículopustulosas; Tratamento: • Emolientes espessos: barreira contra urina e fezes; • Óxido de zinco: ação anti-inflamatória; • Nistatina ou cetoconazol: quando houver candidíase associada; • Antibióticos: quando houver infecção bacteriana; Também identificada pela sigla DCA, decorre do contato com alérgeno e pode apresentar-se de três formas, sempre com muito prurido: • Aguda: eritema, vesículas, exsudação e crostas; • Subaguda: eritema, pápulas, escamas e crostas; • Crônica: liquenificação. Mecanismo imunológico: envolve sensibilização e reação de hipersensibilidade tipo IV (imunidade celular) com formação de linfócito T específico contra a substância contactante (antígeno). O processo se dá através das seguintes fases: • Fase de indução ou sensibilização (via aferente): dura cerca de 15 dias para alérgenos com alto poder sensibilizante ou até 143 Capítulo 8 anos para outros antígenos. É a fase que ocorre a apresentação do antígeno ao sistema imunológico com a formação das células de memória; Na anamnese o paciente pode questionar o diagnóstico, visto que sempre usou determinado produto sem nunca ter apresentado aquela manifestação. Em geral, a hipersensibilidade adquirida persiste por toda a vida, embora, eventualmente, ocorra o desenvolvimento de tolerância com a exposição continuada, havendo então a cura. • Fase de elicitação (via eferente): inicia em 24 a 48h, onde ocorre a migração do linfócito previamente sensibilizado para o local onde está acontecendo o contato repetitivo com a substância. Alérgenos comuns: Diagnostico: os testes de contato são úteis na identificação de substâncias às quais o indivíduo é alérgico. No entanto, deve ser interpretado com critério, pois substâncias testadas, ainda que positivas, podem não estar relacionadas com o problema atual, e a substância envolvida pode não ter sido testada; Mesmo mecanismo da DCIP, porém a substância para se tornar irritante precisa ter sua estrutura modificada pela luz solar; Apresentação clínica: eritema, edema, bolhas, hiperpigmentação nas áreas expostas à radiação solar; Ex: fitodermatose por limão, anti-histamínico de uso tópico e perfumes; Mecanismo imunológico: a reação imunológica tipo IV depende do fotoalérgeno e radiação solar; ó É a principal manifestação cutânea da atopia, sendo descrita como uma doença inflamatória crônica da pele de causa multifatorial e de origem genética com evidentes alterações imunológicas, 144 Capítulo 8 fortemente influenciada por fatores ambientais e, eventualmente, emocionais; Caráter hereditário: histórico familiar de atopia frequente; • Evolui em surtos e possui uma tendência a melhorar com o passar dos anos; Tem forte associação com a asma e rinite que também são manifestações de atopia; Marcador da doença: xerose cutânea associado ao prurido; Barreira cutânea disfuncional; Epidemiologia: Acomete 5-20% das crianças em todo mundo 1-3% dos adultos; • Maior incidência em áreas urbanas e países desenvolvidos; • Maior frequência nas últimas décadas; • Pode ocorrer em qualquer idade após o 3º mês de vida; - 85% antes dos 5 anos; - Somente 25% dos casos persistem na idade adulta. Mecanismo imunológico: • Predomínio da resposta Th2 (humoral) na fase aguda e com a evolução se torna Th1; • Elevação de IgE principalmente quando presente manifestações respiratórias; • Depressão da imunidade celular, favorecendo complicações como infecções bacterianas, virais e fúngicas de repetição. - 75 a 90% de colonização por S. aureus; Manifestações clínicas: • Tríade comum: xerose, prurido intenso e eczema; • Piora com a sudorese; • Possui três estágios de acordo com a faixa etária: - Infantil: até 12 anos; - Pré-puberal: 2 – 12 anos; - Adolescência e adultos: >12 anos. Dermatite atópica infantil • Se inicia a partir do 3º mês de vida; • Erupção vesico-crostosa e exsudativa; • Atinge face (região malar – poupa o centro), couro cabeludo, pescoço, punhos, região extensora dos membros e área das fraldas; • Causa irritabilidade e agitação na criança, principalmente devido ao prurido intenso; • A dentição, infecções, distúrbios emocionais e imunizações podem agravá-la ou desencadeá-la, assim como antígenos alimentares como ovo, castanha, leite, peixe e soja podem ter papel importante até o final dessa fase; • Complicação mais frequente: infecção secundária; • Ao término do 2º ano de vida, observa-se resolução espontânea em menos da metade dos casos; na maioria, as lesões tornam-se menos exsudativas, mais papulosas e com tendencia a liquenificação; Dermatite atópica pré-puberal • Pode ser continuação do eczema infantil ou não; • Caracterizada por surtos de agudização; 145 Capítulo 8 • Lesões pápulodescamativas com placas liquenificadas com escoriações e crostas; • As regiões de dobras são as mais acometidas, como fossas poplíteas, cubitais, punhos, tornozelos, dorso das mãos e pés; • Nesse estágio a infecção secundária é incomum. Dermatite atópica do adulto • Placas liquenificadas e descamativas com prurido intenso principalmente em áreas de flexão como cervical, antecubital, poplítea além dos punhos, mãos, mamilos, perioral e periorbital; • Nesse estágio a infecção também é infrequente. Diagnóstico da dermatite atópica: é basicamente clínico, corroborado por uma história pessoal ou familiar de atopia - eosinofilia e IgE circulante podem reforçá-lo; A confirmação diagnóstica deve ser estabelecida através dos critérios de Hanifin e Hajka: Diagnóstico diferencial: • Dermatite seborreica; • Dermatite de contato; • Micoses superficiais; • Psoríase; • Escabiose. Tratamento: Evitar coçadura, xerodermiae afastar os agravantes (sabões, lã, extremos de temperatura, roupas sintéticas e etiquetas, sudorese, banhos quentes e demorados, cortar as unhas e orientar os pais sobre o caráter crônico e recorrente; • Medicações: - Hidratação cutânea; - Tratar infecção bacteriana secundária, se houver com antibióticos; - Corticoides tópicos; - Imunomoduladores tópicos; - Anti-histamínicos orais; - Imunossupressores para casos de difícil controle. Doença inflamatória crônica, associando elementos fisiopatológicos de hiperproliferação epidérmica a participação de fungos do gênero Malassezia spp; Alteração qualitativa do sebo de forma crônica e recorrente; Predileção por áreas ricas em glândulas sebáceas, como o centro da face, couro cabeludo, regiões intermamárias, pavilhão auricular externo e áreas intertriginosas (entre os dedos); Epidemiologia: Mais frequente em homens do que em mulheres; • Incidência bimodal: lactentes e adultos; 146 Capítulo 8 • Lactentes: ocorre nos primeiros três meses, produzida pelo estímulo de andrógenos maternos; - Pode haver infecção secundária por bactérias ou leveduras; - Área das fraldas pode ser acometida. • Adultos: ocorre na 4ª e 6ª década de vida e em casos de portadores de HIV, as lesões são bem extensas. Manifestações clínicas: • Lesões maculopapulosas, eritematosas, descamativas com escamas branco- amareladas, graxentas (aspecto gorduroso) e aderidas; • “Coroa seborreica”: transgressão da orla do couro cabeludo, com comprometimento da pele adjacente; • “Crosta láctea”: escamas aderentes, principalmente no vértice do couro cabeludo em bebês; • Prurido discreto. Fatores agravantes: • Calor e umidade; • Estresse físico e emocional; • Drogas: arsênio, ouro, metildopa, cimetidina, neurolépticos e álcool; • HIV, Doença de Parkinson, diabetes e obesidade; • Alimentos condimentados. Diagnóstico: é clínico e deve se considerar a possibilidade de HIV nos casos mais intensos ou não responsivos ao tratamento. Deve ser solicitado sorologia para HTLV-1; Diagnóstico diferencial: se faz no couro cabeludo, com psoríase, pediculose e tinea capitis; nas flexuras com candidíase, dermatofitose, eritrasma e dermatite de contato. Tratamento: controle da doença; • Lactentes: limpeza e aplicação de emolientes. Cetoconazol 2% e corticoide tópicos para casos mais graves; • Adulto: shampoos e cremes antifúngicos, corticoide tópico e emolientes. Referência: AZULAY, R.D.; AZULAY, D.R. Dermatologia. 6. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015. 147 Capítulo 8 As micoses superficiais são infecções provocada por fungos ou cogumelos que acometem a epiderme e seus os anexos (pelo e unha), podendo invadir a derme, e em raríssimos casos, até mesmo órgãos internos; Podem ser de três tipos: • Superficial propriamente dita: acomete a camada mais externa da pele (camada córnea); • Cutânea: acomete outras camadas da pele; • Cutâneo-mucosa: acomete pele e mucosas. Possuem uma alta prevalência, principalmente, em épocas mais úmidas e acomete todas as faixas etárias; Fatores de risco: • Individuais: - Condições socioeconômicas; - Contato com animais; - Sudorese; - Promiscuidade; - Condições de higiene; - Imunidade; - Atividade ocupacional. • Geográficos: - Intensidade solar; - Índice pluviométrico; - Umidade do ar; - Características do solo e vegetação. As micoses são classificadas em quatro agrupamentos: • Ceratofitoses; • Dermatofitoses; • Dermatomicoses; • Candidíases. Estão associadas aos fungos do gênero Malassezia que acometem a queratina da epiderme e dos pelos, normalmente sem provocar muitos sintomas, como ocorre na ptiríase versicolor; Ptiríase versicolor Popularmente conhecida como “pano branco”, acomete preferencialmente adultos e essa preferência está relacionada à maior atividade hormonal e a maior oleosidade da pele; Mais prevalente em climas quentes e úmidos; Apresentação clínica: • São máculas/manchas eritematosas, hipocrômicas ou hipercrômicas com descamação fina; • São assintomáticas com prurido leve após exposição solar; • As localizações preferenciais são nas áreas de maior concentração de glândulas sebáceas, como no pescoço, metade superior do tórax e braços; Existem sinais para identificar as escamas furfuráceas que são comuns na ptiríase. São eles: 148 Capítulo 8 • Sinal de Zireli: estiramento do local da pele lesionado; • Sinal da unha: atrito da lesão com a unha; Diagnóstico: é basicamente clínico, no entanto, existem exames que podem ser feitos para identificar melhor, como: • Exame direto (raspagem): pseudo-hifas curtas, curvas e elementos leveduriformes arredondados com aspecto de espaguete de almondegas; • Lâmpada de Wood: lesões de cor amarelada ou prateada; Diagnóstico diferencial: • Ptiríase alba: diferencia-se da ptiríase versicolor, através do exame de raspagem, o qual não vai apresentar descamação; • Vitiligo: se diferencia por ser uma lesão acrômica (bem mais branca); • Hipocromia pós- inflamatória: lesão que ocorre depois de uma inflamação como acne, e, com o processo de cicatrização, o local não consegue ser repigmentado; Tratamento: • Evitar fatores predisponentes; • Tópico em creme, loções ou spray: casos mais leves: - Derivados imidazólicos ou morfofílicos, 2x ao dia por 4 semanas; - Sulfeto de selênio ou agentes queratolíticos também são opções; • Sistêmico: casos extensos; - Casos resistentes ou muitos extensos; - Derivados azólicos – itraconazol ou fluconazol; • Após tratamento, é necessário se expor ao sol para repigmentar as lesões. São doenças causadas por fungos da classe da tineas, os quais são queratinofílicos (destroem a camada de queratina da pele); Estão associadas à transmissão pelo contato indireto de compartilhamento de roupas e objetos (fômites) e pelo contato direto interpessoal; São mais prevalentes em regiões de clima quente e úmido; A mesma espécie pode produzir quadro clínicos bem diferentes; Os fungos podem ter tropismo pela fonte humana (antropofílico), pelo solo (geofílico) e pelos animais (zoofílico). São representados, principalmente, pela classe Tinea, e podem ser dos seguintes gêneros: - Trichophyton; - Microsporum; - Epidermophyton. Possuem um crescimento centrífugo da lesão (de dentro para fora) e um aspecto circular; 149 Capítulo 8 Tinea capitis Também conhecida como tinha do couro cabeludo, é quase exclusiva das crianças, regredindo espontaneamente na puberdade. Comprometem os cabelos que são invadidos e lesados; Etiologia: espécies de Tricophyton ou Microsporum; Transmissão: animais contaminados, contato direto interpessoal, contato indireto através de máquinas de cortar cabelo, pentes, escovas (fômites); Diagnóstico diferencial: Dermatite seborreica, alopecia areata, impetigo e foliculite; Apresentações clínicas: • Tinha tonsurante: - Placas eritematodescamativas com fios tonsurados, bem demarcadas; - Única (microspórica) ou múltiplas (tricofítica); - Com o tratamento ou com a involução espontânea, os cabelos voltam ao normal; • Kerion Celsi: - Forma aguda e inflamatória da tinea capitis provocada por um fungo não antropofílico; - Placa elevada, dolorosa, com pústulas e microabscessos. Deixa cicatriz. Tinea corporis É a tinha do corpo e é conhecida popularmente como impinge; Etiologia: espécies do gênero Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton; Transmissão: contato com animais, contato interpessoal ou fômites; Manifestação clínica: acometem usualmente os braços, face e o pescoço; • Forma clássica: - Lesões circulares com forma anular, eritematodescamativas, pruriginosas,bordas circinadas, isoladas ou confluentes e que crescem centrifugamente; • Formas variantes: - Forma vesicular: vesículas que confluem, se rompem, formando lesões exulceradas, crostas e até mesmo pústulas. Crescem centrifugamente; - Em placas: eritematoescamosas, de evolução lenta, com prurido quase sempre presente e sem tendência à cura do centro da lesão; Diagnóstico diferencial 150 Capítulo 8 • Granuloma anular: lesões hiperemiadas anulares, mas são menores; • Ptiríase Rósea de Gilbert; • Hanseníase indeterminada; • Psoríase. Também chamada de Tinha inguinocrural ou marginada. Envolve a prega inguinal (virilha), avançando sobre a coxa, períneo e propaga-se para as nádegas, região pubiana e parede abdominal. É mais comum em homens; Etiologia: Trichophyton e Epidermython; Transmissão: autotransmissão (tinha pedis do próprio paciente pode infectar a área da virilha) ou fômites (toalhas, máquinas de exercício contaminadas); Manifestação clínica: Lesão eritemodescamativa a partir da prega inguinal, circinada, muito pruriginosa e com liquenificação frequente; • Pode acometer períneo, região glútea e parede abdominal; Fatores de risco: obesidade, DM e imunossupressão por corticoides ou quimioterápicos; Diagnóstico diferencial: Candidíase intertriginosa, psoríase invertida, eritrasma e dermatite seborreica; • O não acometimento da pele da bolsa escrotal demonstra a especificidade da ceratinofilia dos dermatófitos e ajuda no diagnóstico diferencial com a candidíase. Tinea pedis Também conhecida como tinha do pé; Etiologia: Trichophyton e Epidermython; Transmissão: pessoa a pessoa ou fômites; É comum a associação com a onicomicose; Formas de apresentação clínica: • Vesiculosa: também chamada de forma aguda, é causada por fungos não antropofílicos. Se apresenta com vesículas eritematosas bastante pruriginosas; • Escamosas: também chamada de forma crônica, é a mais comum. Se apresenta com descamação difusa pouco pruriginosa e que, pode acometer a mão também. A apresentação em “mocassim” é peculiar e rara. • Em placas: anulares com crescimento centrífugo e cura central; 151 Capítulo 8 • Interdigitais: também chamada de forma intertriginosa. Se apresenta com fissuras e maceração interdigital, sendo porta de entrada para bactérias; • Dermatofítides: erupções secundárias em locais distantes (erupção vesicular estéril); - Ex: lesões vesiculosas nas laterais dos dedos da mão, consequentes a tinha do pé vesiculosa; Diagnóstico: é clínico, mas existem exames que podem ser feitos para confirmar a suspeita; • Exame micológico direto do pelo ou da borda da lesão; • Cultura (Ágar-Sabouroud): isolam o fungo e confirmam o diagnóstico; Tratamento da dermatofitoses (tineas) em geral: • Antifúngico tópico: tinhas com lesões isoladas 2x ao dia por 4 semanas ou até melhora da lesão; • Terapêutica sistêmica: lesões extensas e refratárias ao tratamento tópico; • Indicação absoluta de tratamento sistêmico: imunossuprimidos e tinha do couro cabeludo; - Couro cabeludo: antifúngicos a base de griseofulvina ou terbinatina; Tinea unguium Também chamada de onicomicose, é uma infecção típica de idosos causada por fungos que se alimentam da queratina - proteína que forma a maior parte das unhas; Etiologia: dermatófitos do gênero Trichophyton, Epidermython e raramente Microsporum; Apresentação clínica: coloração amarelada, esbranquiçada ou acastanhada. Hiperceratose subungueal (hipertrofia do leito ungueal) e onicólise (descolamento da unha). Pode ser dividida em 3 grupos: • Subungueal distal: forma mais comum, caraterizada por uma unha cada vez mais amarelada, espessada e distrófica; • Ungueal proximal; • Superficial distal branca: invasão direta da superfície dorsal da unha; Onicomicose por Candida albicans: frequente associação com exposição ocupacional à umidade; Nos indivíduos imunocomprometidos pode aumentar o risco de erisipela e celulite; Diagnóstico diferencial: • Psoríase; • Líquen plano; • Trauma. Diagnóstico: exame micológico direto e cultura; Tratamento: taxas de falha e recorrência altas; • Tópico: utilizado numa unha com < 50% do leito acometido e matriz sem lesão ou superficial branca; 152 Capítulo 8 - Uso de esmaltes ciclopirox e amorolfina até a melhorar; • Sistêmico: utilizado numa matriz ungueal acometida, > 50% da unha acometida ou em mais de uma unha; - Terbinafina 250mg/d até melhora: dermatófitos; - Itraconazol 200 mg/d: dermatófitos e leveduras; - Fluconazol: 150mg/sem (menos efetivo). Infecções cutânea, mucosa, ou sistêmica causada por leveduras do gênero Candida; Mais prevalente em certas profissões como empregados domésticos, lavadores de pratos, cozinheiros e enfermeiros; Saprófita: fungo oportunista que está sempre presente no corpo, mas só se expressa em algumas situações, como: • Aumento da colonização (uso de antibiótico prolongado); • Modificações fisiológicas (gravidez e em diabéticos); • Quebra da barreira; • Estados de umidade prolongada (lavadeiras, fraldas dos bebês); • Imunossupressão e endocrinopatias; Tipos: • Cutâneo-mucosa: acometem em pacientes imunocompetentes; • Oral: frequente em recém-nascidos (contágio pelo canal de parto, berçários, amamentação), indivíduos com DM, idosos e imunossuprimidos; - Placas cremosas, esbranquiçadas com eritema difuso sobre a língua e orofaringe; - Queilite angular: lesões fissuradas no ângulo da boca (prótese dentária e chupetas); • Intertriginosa: acomete dobras cutâneas naturais e são desencadeadas pela umidade, má higiene, obesidade, gestação e DM; - Lesões eritematosas, erosivas, úmidas, com delicada descamação periférica e papulo-pústulas satélites com eventual exulceração e fissura; Diagnóstico: exame micológico direto e/ou cultura em ágar Sabouraud; Diagnóstico diferencial: dermatite seborreica e de contato, psoríase inversa e tinea; Tratamento: • Afastar os fatores que favorecem a patogenicidade da levedura; • Tratamento da lesão cutânea: antifúngicos tópicos 2x ao dia até desaparecerem os sintomas; • Tratamento da lesão oral: nistatina suspensão de 6/6 horas por 14 dias, bochechar e engolir; • Tratamento de lesões extensas ou resistentes: antifúngico sistêmico; 153 Capítulo 8 â Tumor maligno cutâneo mais frequente. É constituído de células de formas semelhantes às células da epiderme; Patogênese: está relacionada a exposição às radiações ionizantes de todos os tipos, mas principalmente a radiação ultravioleta B e o consequente dano ao DNA; • Áreas expostas, fototipos mais baixos; Possui risco baixo de metástase, porém é localmente invasivo e destrutivo; Apresentações clínicas: possui várias, mas há dois aspectos em comum: • Telangiectasias; • Papulonodular translúcida, com aspecto perláceo (perolado); Pode também ter as seguintes apresentações: • Lesão ulcerada ou não; • Papulonodular (mais comum); • Plano cicatricial; • Eritematosa; • Pigmentada: lesão papulosa, globosa ou ulcerada com grande quantidade de melanina, caracterizando a lesão com partes escurecidas; • Terebrante: forma ulcerada com invasão rápida que provoca grande destruição da face e infiltração até mesmo na calota craniana; Diagnóstico: realizado através da avaliação da morfologia da lesão, que é de crescimento lento, em geral na face e com aspecto perolado; • A suspeita deve acontecer quando o paciente se queixar de uma lesão que passa a sangrar espontaneamente ou por mínimos traumas; Tratamento cirúrgico: deve ser adotado sempre que possível para retirada do tumor e de parte da pele para impedir que a neoplasia volte a infiltrar (margem cirúrgica);2º tumor maligno cutâneo mais frequente. É originário das células epiteliais do tegumento (pele e mucosa), com certo grau de diferenciação no sentido da ceratinização; Patogênese: A lesão prévia mais frequente é a queratose actínica por exposição solar e múltiplas queimaduras de pele. É o mais frequente dos tumores relacionados com a imunossupressão; 154 Capítulo 8 • Proliferação de queratinócitos epidérmicos citologicamente aberrantes em resposta a exposição prolongada a radiação UVB; • Ao contrário dos carcinomas basocelulares, os espinocelulares localizam-se com frequência nas mucosas e semimucosas (boca, lábio inferior, glande e vulva) e podem metastatizar; Correlações do carcinoma espinocelular: • Oral: tabagismo e etilismo; • Genital: HPV; • Úlcera crônica ou cicatriz: úlcera de Marjolin (degeneração maligna de úlceras crônicas, cicatrizadas ou não), Lúpus eritematoso; Imunossupressão por medicamentos é um importante fator de risco; Apresentações clínicas: • Pápula queratósica com crescimento progressivo, sangramento discreto, nódulo, lesões ulcerovegetantes, vegetações verrucosas (secas) ou condilomatosas (úmidas), infiltrações e, menos frequentemente, nódulos; • Tratamento: também deve ser cirúrgico sempre que possível para não ter possibilidade de uma recidiva da doença naquele local. Tumor maligno originário dos melanócitos, em geral de localização cutânea primaria, podendo surgir em outras áreas como olhos e mucosas. É o câncer cutâneo de maior morbimortalidade; Patogênese: transformação maligna a partir de um nevo, fatores genéticos, exposição solar ou fototipo; Possui alto risco de metástase; Fatores de risco: • Exposição solar; • Múltiplos nevos melanocíticos; • Nevos atípicos (melanócitos atípicos na patologia, porém não melanoma); • História pessoal e familiar prévia de melanoma; Subtipo mais comum: extensivo superficial; • Mas pode ser de outros tipos: nodular, acral, lentigo maligno, amelanocítico; • Diagnóstico: ABCDE do melanoma: - A: assimetria; - B: bordas irregulares; - C: cor variável; - D: diâmetro > 6mm; - E: evolução (tamanho, forma, cor); • Tratamento: também deve ser cirúrgico se possível e, em alguns casos, deve ser feita também a quimioterapia; 155 Capítulo 9 ó Estrutura básica do exame: • Avaliação do estado mental; • Equilíbrio; • Tônus e trofismo; • Motricidade; • Coordenação; • Sensibilidade; • Nervos cranianos; • Sinais meningorradiculares; • Marcha. Nível de consciência Capacidade de ter consciência sobre si e sobre tudo que está em torno. Mede o quão estamos acordados; • Alerta/vígil: estado de maior nível de consciência; • Obnubilado: nível de consciência pouco comprometido, permanecendo o paciente em estado de alerta ainda que algo diminuído; • Sonolento: estado inconsciente no padrão fisiológico. Desperta facilmente quando estimulado, mas em qualquer oportunidade volta a dormir; • Letárgico: dificuldade maior para acordar e mesmo quando estimulado ele volta a dormir; • Torporoso: estado inconsciente mais pronunciado, mas o paciente ainda desperta com estímulos mais fortes e dolorosos; • Comatoso: é o extremo do ponto patológico, o qual não apresenta movimentos espontâneos e não responde a estímulos e a comandos; Conteúdo da consciência Orientação: pode ser de dois tipos (autopsíquica - se orienta quanto a si ou alopsíquica- se orienta quanto ao tempo e espaço) e pode ser avaliada fazendo perguntas simples, como: • Que dial é hoje? • Qual a sua idade? • Onde o senhor mora? • Onde o senhor está agora? Atenção: • Atenção simultânea: é a capacidade de detectar diversos estímulos ao mesmo tempo; • Tenacidade: se mantém concentrado em um único estímulo apesar de outros estímulos estarem acontecendo; • Hiperatenção: se mantém atento a todos os estímulos simultaneamente e não consegue se concentrar em um só estímulo; - Ex: pode ocorrer nos estados de TDAH; Cálculo: • Discalculia: deficiência de aprendizagem específica em matemática. Dificuldade em entender conceitos relacionados a números e a usar símbolos; Linguagem e fala; Memória: • Imediata: também chamada de memória de trabalho. É aquela que a gente utiliza em um rápido momento para realizar uma função pontual. Ela armazena aquele dado por um tempo pequeno e depois a perde; 156 Capítulo 9 • Recente: pode ser utilizada para lembrar o que você comeu há horas ou dias; • Remota: memória de longo prazo, como lembrar qual roupa você vestiu no réveillon; Praxia: capacidade em executar movimentos e gestos precisos que conduziriam a um objetivo, como por exemplo, se vestir. • Portanto, a apraxia é uma desordem que se caracteriza por provocar uma perda da capacidade em exercer esses movimentos e gestos, como ocorre no AVC; Gnosia: Reconhecimento dos objetos por intermédio de um dos sentidos: gnosia visual, auditiva. • Portanto, a agnosia é uma desordem que se caracteriza pela perda de capacidade nesse reconhecimento. Prosopagnosia: incapacidade de reconhecer rostos (também conhecida como cegueira para feições); Abstração: capacidade de compreensão de provérbios populares ou provas de semelhanças e diferenças. Por exemplo, pergunta-se ao paciente qual é a semelhança entre uma laranja e uma maçã. Miniexame do estado mental (MEEM): • É um exame de rastreio para avaliar o estado mental do paciente, mas não é utilizado para diagnóstico; • A pontuação máxima é de 30 pontos, e pontuações inferiores a 24 pontos sugerem comprometimento cognitivo em populações com escolaridade média de 7 anos. • Não substitui uma avaliação cognitiva completa, que poderá ser necessária em situações particulares. Quando persistirem dúvidas, pode haver necessidade de testes específicos, que são realizados por especialistas. 157 Capítulo 9 Prova de Romberg: solicite ao paciente que fique de pé, olhando para frente com os pés juntos (estreitamento da base) por alguns segundos. Depois solicite que ele feche os olhos. O teste é feito para comparar o equilíbrio do paciente com o olho aberto e com o olho fechado; • Prova negativa: ocorre em casos normais com ligeiras oscilações do corpo ou nas lesões cerebelares, nas quais paciente não consegue permanecer de pé, alargando, então, sua base de sustentação pelo afastamento dos pés. Tais manifestações não se modificam quando se interrompe o controle visual; • Prova positiva: - Queda para qualquer lado e imediatamente após interromper a visão, indicando lesão das vias de sensibilidade proprioceptiva; - Queda sempre para o mesmo lado, após transcorrer pequeno período de latência, indica lesão do aparelho vestibular Prova de Romberg sensibilizada: para dificultar ainda mais o estreitamento da base, é solicitado ao paciente que coloque um pé na frente do outro; Marcha: Ao observar como paciente se locomove é possível, suspeitar ou fazer o diagnóstico sindrômico de alguma lesão neurológica; Atáxica/cerebelar/ébrio: é conhecida como “marcha do bêbado”, na qual o paciente anda em ziguezague. Sugere incoordenação de movimentos em decorrência de lesões do cerebelo; Tesoura/espástica: os dois membros inferiores enrijecidos e espásticos permanecem semifletidos, os pés se arrastam e as pernas se cruzam uma na frente da outra quando o paciente tenta caminhar. Sugere manifestações espásticas da paralisia cerebral, como na esclerose múltipla; Ceifante/hemiespástica/hemiparética/helicópode: o paciente mantém o membro superior fletido em 90º no cotovelo e em adução e a mão fechada em leve pronação. O membro inferior do mesmo lado está enrijecido e o joelho não flexiona. Com isso o paciente joga o quadril para andar formando um semicírculo. Sugere hemiplegiaespástica, cuja causa mais comum é AVC; Escarvante: o paciente toca com a ponta do pé o solo e tropeça. Para evitar isso, levanta acentuadamente o membro inferior. Indica paralisia do movimento de flexão dorsal do pé; Parkinsoniana: o paciente anda como um bloco, enrijecido, sem o movimento automático dos braços, com a cabeça inclinada para a frente e os passos são curtos e rápidos, dando a impressão que vai cair para a frente. Indica doença de Parkinson. 158 Capítulo 9 Claudicante: o paciente manca em um dos lados. Pode indicar insuficiência arterial periférica, lesões do aparelho locomotor ou estenose do canal vertebral lombar. Miopática/anserina: o paciente acentua a lordose lombar e vai inclinando o tronco para a direita e para a esquerda, alternadamente, lembrando o andar de um pato. É encontrada em doenças musculares e traduz diminuição da força dos músculos pélvicos e das coxas. Tabética: o paciente mantém o olhar fixo no chão e os membros inferiores são levantados de forma abrupta e explosiva e são recolocados no chão os de modo bem pesado. Com os olhos fechados a marcha tem acentuada piora. Indica perda de sensibilidade proprioceptiva por lesão da medula. Vestibular/estrela: paciente anda pendendo para o lado, como se estivesse sendo empurrado. Se o paciente for colocado em um ambiente amplo e lhe for solicitado ir de frente e voltar de costas, com os olhos fechados, ele descreverá uma figura semelhante a uma estrela. Indica lesão vestibular; Consiste na avaliação do músculo em repouso. É avaliado o estado de tensão constante a que estão submetidos os músculos; O exame é realizado com o paciente deitado e em completo relaxamento muscular; Inspeção: verifica-se a existência ou não de achatamento das massas musculares. É mais evidente nas coxas e só tem valor significativo na acentuada diminuição do tônus; Palpação: averígua-se o grau de consistência muscular, a qual se mostra aumentada nas lesões motoras centrais e diminuída nas periféricas; Avaliação passiva: imprimem-se movimentos naturais de flexão e extensão nos membros e observam-se: • Hipotonia: achatamento das massas muscula- res no plano do leito, consistência muscular diminuída, passividade aumentada, extensibilidade aumentada. É encontrada nas lesões do cerebelo, no coma profundo, no estado de choque do sistema nervoso central, nas lesões das vias da sensibilidade proprioceptiva consciente, das pontas anteriores da medula, dos nervos, na coreia aguda e em algumas encefalopatias; • Hipertonia: consistência muscular aumentada, passividade diminuída e extensibilidade aumentada. Está presente nas lesões das vias motoras piramidal e extrapiramidal; Hipertonia elástica: também conhecida como hipertonia piramidal, está relacionada à espasticidade e é observada na hemiplegia, na ELA e na mielopatia compressiva. Caracteriza-se por rigidez no início do movimento e depois ele cede. É representada pelo AVC e tais alterações determinam a clássica postura de Wernicke Mann (figura ao lado). • Sinal do canivete: resistência inicial no movimento de estender o antebraço sobre o 159 Capítulo 9 braço, seguida por uma diminuição dessa resistência conforme o ângulo-arco do movimento aumenta - tal qual um canivete se abrindo. Hipertonia plástica: também conhecida como hipertonia extrapiramidal, está relacionada à rigidez em todo o movimento. Possui resistência constante à movimentação passiva e é representada pelo Parkinsonismo, o qual pode apresentar dois tipos de rigidez: • Sinal do cano de chumbo: a resistência suave em todo arco do movimento; • Sinal da roda denteada: resistência intermitente em todo arco do movimento; Os atos motores são de três tipos: • Voluntário; • Involuntário; • Reflexo. Avaliação da motricidade voluntária É avaliada por meio de duas técnicas, uma para a análise da motricidade espontânea e outra para a avaliação da força muscular; Motricidade espontânea: solicita-se ao paciente executar uma série de movimentos, especialmente dos membros, tais como: • Abrir e fechar a mão; • Estender e fletir o antebraço; • Abduzir e elevar o braço; • Fletir a coxa; • Fletir e estender a perna e o pé. Durante a execução desses movimentos, é importante observar se eles são realizados em toda a sua amplitude; Nas síndromes piramidais, existe diminuição da velocidade dos movimentos e nas extrapiramidais, como a parkinsoniana, há também diminuição da velocidade dos movimentos, porém, com progressiva diminuição da amplitude dos movimentos com a realização deles. Avaliação da força muscular: O paciente procura fazer os mesmos movimentos mencionados no exame da motricidade espontânea, só que, desta vez, com oposição aplicada pelo examinador; Nos casos de duvidosa deficiência motora dos membros, realizam-se as denominadas provas deficitárias, representadas pelas provas de Barré, Mingazzini e dos braços estendidos 160 Capítulo 9 A força muscular é graduada da forma abaixo: Avaliação da motricidade involuntária: Tremores: são movimentos oscilatórios rítmicos, que podem ser basicamente subdivididos em três grupos: • Tremores de repouso: são mais proeminentes no repouso e desaparecem com o movimento voluntário, como ocorre no Parkinsonismo; • Tremores posturais: aparecem quando a parte afetada está mantendo ativamente uma postura. Ocorre no tremor fino rápido do hipertireoidismo, tremores de ansiedade e fadiga e tremor benigno essencial; • Tremores intencionais: ausentes no repouso e presentes com o movimento e pioram quando o alvo se aproxima. Ocorre nos distúrbios cerebelares, como esclerose múltipla; Movimentos involuntários: • Tiques: movimentos breves, repetitivos, estereotipados e coordenados que ocorrem em intervalos irregulares. Os exemplos incluem piscar de olhos repetitivo, fazer careta e encolher os ombros. As causas incluem síndrome de Tourette e efeitos tardios de fármacos, como fenotiazinas. • Atetose: são mais lentos e mais serpentiformes do que os movimentos coreiformes, além de terem maior amplitude. Envolvem mais comumente a face e as partes distais dos membros. A atetose está frequentemente associada a espasticidade e é causada por paralisia cerebral. • Coreia: breves, rápidos, bruscos, irregulares e imprevisíveis. Ocorrem no repouso ou interrompem os movimentos coordenados normais. Ao contrário dos tiques, raramente repetem-se. A face, a cabeça, os braços e as mãos são comprometidos com frequência. As causas incluem coreia de Sydenham (com febre reumática) e doença de Huntington. Nistagmo: oscilação rítmica dos olhos. Tem várias causas, incluindo comprometimento da visão no início da vida, distúrbios do labirinto e do sistema cerebelar e toxicidade medicamentosa. Ocorre normalmente quando uma pessoa assiste a um objeto em movimento rápido. 161 Capítulo 9 Avaliação dos reflexos: Reflexos superficiais: estímulos sensitivos feitos na pele ou na mucosa externa que geram uma resposta motora, como o reflexo de Babinski; • Cutâneo-plantar: com o paciente em decúbito dorsal, o examinador estimula a região plantar na parte lateral e desliza no sentido posteroanterior, fazendo um semicírculo. A resposta é normal com a flexão dos dedos e anormal com a extensão do hálux, constituindo o Sinal de Babinski; Sinal de Babinski: indica lesão da via piramidal ou corticospinal; Reflexos profundos clônicos: estímulos tendíneos através da percussão com o martelo de reflexos. A) Flexor dos dedos; B) Pronador; C) Supinador; D) Tricipital; E) Bicipital; F) Patelar; G) Aquileu. Os reflexos miotáticos fásicos podem estar: normais,abolidos, diminuídos, vivos ou exaltados. Suas alterações podem ser simétricas ou não e eles podem ser graduados em: Avaliação da coordenação: É a capacidade de realizar um movimento de forma coordenada. Coordenação adequada traduz F G 162 Capítulo 9 o bom funcionamento do cerebelo e da sensibilidade proprioceptiva; Prova índex-nariz: com o membro superior estendido lateralmente, o paciente é solicitado a tocar a ponta do nariz com o indicador. Repete a prova várias vezes com os olhos abertos e, depois, fechados; Prova índex-índex: o paciente deve tocar o dedo do examinador, que muda de posição quando o indivíduo está levando seu dedo ao nariz; Prova calcanhar-joelho: o paciente deve tocar o joelho oposto com o calcanhar do membro a ser examinado e isso deve ser repetido várias vezes, de início com os olhos abertos e, depois, fechados. A prova é sensibilizada mediante o deslizamento do calcanhar pela crista tibial. A prova é positiva quando o paciente não consegue alcançar com precisão o alvo. Diz-se que há dismetria (distúrbio na medida do movimento); Diadococinesia: capacidade de realizar movimentos rápidos e alternados, tais como: abrir e fechar a mão, movimento de supinação e pronação, extensão e flexão dos pés. A capacidade de realizá-los é chamada eudiadococinesia, sua dificuldade é designada disdiadococinesia e a incapacidade de realizá-los recebe o nome de adiadococinesia. Sensibilidade superficial: • Tátil: algodão seco, gaze ou pincel, os quais são roçados de leve em várias partes do corpo; • Dolorosa: alfinete ou agulha de costura (romba), capaz de provocar dor sem ferir o paciente. • Térmica: tubos de ensaio com água quente e fria com que se tocam pontos diversos do corpo, alternando-se os tubos; A diminuição da sensibilidade tátil recebe o nome de hipoestesia; sua abolição, anestesia; e seu aumento, hiperestesia. Sensibilidade profunda: • Palestesia: sensação vibratória com diapasão nas eminências ósseas; • Barestesia: compressão digital ou manual em qualquer parte do corpo, especialmente de massas musculares. • Artrestesia: propriocepção ou sensibilidade cinético-postural. É explorada deslocando-se suavemente qualquer segmento do corpo em várias direções (flexão, extensão). Em dado 163 Capítulo 9 momento, fixa-se o segmento em uma determinada posição, que deverá ser reconhecida pelo paciente. • Sensibilidade dolorosa profunda: compressão moderada de massas musculares e tendões. Se o paciente acusar dor, é sinal de que há neurites e miosites. Estereognosia: capacidade de reconhecer um objeto com a mão sem o auxílio da visão. É função tátil discriminativa ou epicrítica com componente proprioceptivo. Coloca-se um pequeno objeto comum na mão do paciente, o qual, com os olhos fechados, deve reconhecer o objeto apenas pela palpação. A perda dessa função é chamada astereognosia ou agnosia tátil, indicativa de lesão do lobo parietal contralateral. 1º par – Nervo olfatório: • O teste é feito através da percepção olfatória com cheiros conhecidos como café, canela, cravo; • É necessário fazer o exame em cada narina de cada vez, ocluindo a outra e o paciente deve ficar de olhos fechados; • Pergunta-se ao paciente se ele sente algum cheiro, e, caso sinta, pede-se que identifique cada odor. 2º par – Nervo óptico: A avaliação deve ser feita através das seguintes formas: • Avaliação da acuidade visual: pede-se ao paciente que diga o que vê na sala de exame ou que leia alguma coisa. Examina-se cada olho separado; • Avaliação do campo visual: o paciente deve estar sentado e deve fixar um ponto na face do examinador que deve estar a sua frente. O examinador desloca o seu dedo nos sentidos horizontal e vertical e o paciente dirá até que ponto está observando o seu dedo. Cada olho deve ser avaliado separadamente e depois devem ser avaliados em conjunto. Chamamos esse teste de teste de confrontação; • Fundoscopia: o fundo de olho é testado através de um oftalmoscópio para ver possíveis alterações no nervo óptico, vasos e retina, além de sinais de hipertensão intracraniana; Nervo oculomotor (3º par), troclear (4º par) e abducente (6º par): Esses três nervos exclusivamente motores são avaliados em conjunto, pois inervam os vários músculos que são responsáveis pela motricidade dos globos oculares; 1. Nervo troclear – olhar para baixo (m. oblíquo superior); 2. Nervo abducente – olhar para fora (m. reto lateral); 3. Nervo oculomotor: olhar para cima e para dentro (m. oblíquo inferior, reto superior, inferior e medial); 164 Capítulo 9 Avaliação do olhar nas seis direções: o paciente deve ficar com a cabeça imóvel e o examinador deve movimentar os dedos para cima, para baixo, para os lados e para as diagonais. O paciente deve acompanhar esses movimentos apenas com os olhos, sem movimentar a cabeça. O exame é realizado primeiro em cada olho separadamente e depois nos dois olhos simultaneamente. Reflexo pupilar: a pupila deve ser examinada por meio de um feixe luminoso, observando a sua forma, localização, tamanho e convergência ocular, comparando as pupilas dos 2 lados. • Reflexo fotomotor direto: contração da pupila na qual se fez o estímulo; • Reflexo fotomotor consensual: contração da pupila oposta; • Reflexo de acomodação: contração da pupila quando se aproxima dos olhos um objeto; Sinal de Argyll Robertson: consiste em miose bilateral, abolição do reflexo fotomotor direto e consensual e presença do reflexo de acomodação. Pode ser causado principalmente pela sífilis; Síndrome de Horner: miose, anisocoria, enoftalmia e diminuição da fenda palpebral. Decorre de lesão do simpático cervical (traumatismo, neoplasia do ápice pulmonar, pós-cirurgia cervical); 5º par – Nervo trigêmeo: • Nervo misto (sensitivo e motor) que se divide em três ramos: oftálmico, maxilar e mandibular; • Mastigação: a raiz motora é responsável pela mastigação, a qual engloba os músculos temporal, masseter e pterigoideos. Portanto, o examinador deve palpar esses músculos e pedir ao paciente que cerre com firmeza a mandíbula e tente lateralizá-la; - A dificuldade para cerrar a mandíbula ou para movê-la para o lado oposto sugere fraqueza dos músculos masseter e pterigoideo lateral, respectivamente; • Sensibilidade facial: a raiz sensitiva é responsável pela sensibilidade da face, nas regiões da testa, malares e na mandíbula. Para avaliar, basta utilizar as mesmas técnicas 165 Capítulo 9 utilizadas para avaliar a sensibilidade superficial nas seguintes regiões: • Reflexo corneano: solicite ao paciente que olhe para cima e para o lado oposto ao seu e se aproxime pelo lado oposto, fora da linha de visão do paciente. Evitando o contato com os cílios, toque levemente a córnea com um chumaço de algodão. Ao receber esse estímulo, o normal é piscar ambos os olhos. - O ramo sensorial desse reflexo é carreado pelo NC V, e a resposta motora, pelo NC VII em ambos os lados. 7º par - Nervo facial: Nervo misto (sensitivo e motor) responsável pelas ações dos músculos da expressão facial (mímica facial) e 2/3 anteriores da língua (paladar e sensibilidade); • Examine a face, tanto em repouso como durante a conversa com o paciente e observe se existe assimetria nas pregas nasolabiais, tiques ou outros movimentos anormais. Peça ao paciente para: - Elevar as duas sobrancelhas; - Franzir a testa; - Fechar os olhos com força de modo que o examinador não consiga abri-los; - Verifique a força muscular ao tentar abri-los, - Mostrar os dentes superiores e inferiores; - Sorrir; - Encher de ar as bochechas.• A lesão periférica no NC VII, como pode ser observado na paralisia de Bell, afeta tanto a face superior como inferior de um lado da face (B); já uma lesão central afeta principalmente a face inferior de um lado da face (A). • Perda do paladar, hiperacusia e aumento ou redução do fluxo de lágrimas também ocorrem na paralisia de Bell. Na paralisia facial unilateral a boca “cai” do lado paralisado quando o indivíduo sorri ou faz caretas. O paciente com AVC tem uma paralisia na porção inferior do lado contralateral afetado. 8º par - Nervo vestibulococlear Nervo sensitivo constituído de duas raízes: coclear, responsável pela audição e a vestibular, responsável pelo equilíbrio; • Acuidade auditiva: a raiz coclear é avaliada pelas seguintes manobras: - Diminuição gradativa da intensidade da voz natural; - Voz cochichada; - Atrito suave das polpas digitais próximo à orelha; - Provas de Rinne e Weber. 166 Capítulo 9 Prova de Rinne: coloque um diapasão vibrando em frente ao meato auditivo externo e pergunte se o paciente pode escutá-lo. Coloque-o a seguir sobre a mastoide e peça que diga quando o som cessar. Quando isto acontecer, coloque o diapasão novamente em frente ao meato. Normalmente o som ainda será audível. Na surdez de condução, isto não ocorre. Na surdez neurossensorial, tanto a condução óssea quanto a aérea estão reduzidas, mas a aérea permanece melhor que é o que normalmente ocorre no teste. Prova de Weber: o diapasão é colocado no centro da testa e pergunta-se ao paciente se ele escuta o som por toda a cabeça, em ambos os ouvidos ou se predominantemente de um lado. Na surdez neurossensorial, o som será ouvido pelo lado normal, mas na surdez de condução, ele será conduzido para o ouvido afetado. • Equilíbrio: a raiz vestibular é reconhecida pela anamnese, quando as queixas do paciente incluem vertigem, náuseas, vômitos e desequilíbrio. Compreende: - Pesquisa de nistagmo; - Desvio lateral durante a marcha; - Desvio postural; - Sinal de Romberg; Se o paciente estiver de pé com os olhos fechados e os membros superiores estendidos, os braços irão desviar-se para o lado do labirinto lesado, e o corpo tenderá a cair para este mesmo lado. Sinal de Romberg positivo, com desequilíbrio do corpo para o lado lesado 9º e 10º pares - Nervo glossofaríngeo e vago: O nervo glossofaríngeo é responsável pela sensibilidade geral e especial (paladar) do terço posterior da língua, inervação da faringe e da glândula parótida. Já o nervo vago é responsável pela inervação parassimpática das vísceras torácicas e abdominais e dos músculos da laringe (nervo laríngeo recorrente – ramo do vago) e faringe; • É importante escutar com atenção a voz do paciente, se voz dele é rouca (paralisia das cordas vocais) ou anasalada (paralisia do palato), se existe disfagia (fraqueza muscular do palato ou faringe); • Peça ao paciente que diga “A” para avaliar os movimentos do palato mole e da faringe que, normalmente, o palato sobe de modo simétrico, a úvula permanece na linha média e cada lado da parte posterior da faringe se move como se fosse uma cortina. • Reflexo faríngeo: com o auxílio de um abaixador de língua, estimula a parede posterior da faringe e a observa. Se normal, haverá contração gerando o reflexo (reflexo do vômito). O reflexo normal terá elevação do palato mole a fim de fechar a nasofaringe, fechamento da glote e constrição da faringe. A ausência do reflexo pode indicar lesão dos nervos IX e/ou X. 167 Capítulo 9 11º par - Nervo acessório: Nervo motor responsável pela inervação dos músculos trapézio e esternocleidomastoideo; • Avaliação do trapézio: verifique se há atrofia ou fasciculações nos músculos trapézios, e compare os dois lados. Solicite que o paciente encolha os ombros (movimento para cima) contra a resistência imposta pelas suas mãos; Avaliação do esternocleidomastóideo: Peça ao paciente que gire a cabeça para um lado e para o outro contra a resistência imposta pelas suas mãos. Observe a contração do músculo esternocleidomastóideo oposto e a força do movimento contra a mão do examinador. 12º par - Nervo hipoglosso: Nervo exclusivamente motor responsável pela motricidade da língua; Inspeção da língua: solicite que o paciente movimente a língua para todos os lados, forçando-a de modo que vá de encontro à bochecha. O examinador deve palpá-la para avaliar sua consistência. Manobra de Brudzinski: Com o paciente em decúbito dorsal e membros estendidos, o examinador coloca uma das mãos na região occipital do paciente e executa uma flexão forçada da cabeça. Se o movimento for difícil e o paciente fletir os membros inferiores ou apresentar expressão de dor, o sinal é positivo e demonstra rigidez nucal. Está presente em casos de meningite ou hemorragia subaracnóidea. Manobra de Kerning: Consiste na extensão, estando a coxa fletida em ângulo reto sobre a bacia e a perna sobre a coxa. O sinal é positivo quando o paciente sente dor ao longo do trajeto do nervo ciático e tenta impedir o movimento; Essas provas são utilizadas para o diagnóstico de meningite, hemorragia subaracnóidea e radiculopatia ciática • Referências: - Bates; - Porto. 168 Capítulo 9 ó Sintomatologia neurológica: • Perda de força muscular; • Sensibilidade; • Alterações na visão e audição; • Tontura; • Distúrbios do movimento; • Cefaleia; • Convulsões. Paresia: perda parcial da força muscular/fraqueza; • É importante diferenciar fadiga, apatia e tontura da perda de força muscular; Plegia ou paralisia: perda completa da força muscular; Devem ser investigados: • Localização; • Curso (progressão); • Sintomas associados. Localização: Monoparesia: perda da força muscular em um membro único; - Ex: Radiculopatia (disfunção na raiz nervosa como acontece na hérnia de disco – doença que pode comprimir a raiz e lesioná-la), neuropatia ou plexopatia (lesão do plexos nervoso); Hemiparesia: perda da força muscular em metade do corpo; - Doença cerebrovascular, neoplasias, Paralisia de Todd (paralisia que pode acontecer após uma crise epiléptica); Diparesia: perda de força em dois membros Paraparesia: fraqueza dos membros inferiores; - Comum em mielopatias (lesões da medula), traumatismo raquimedular torácico, neuropatia esquissomótica, HTLV-1 ou HTLV-2 (paraparesia tropical); Tetraparesia: fraqueza dos membros inferiores e superiores; - Comum na Síndrome de Guillain Barret, polineuropatias, Esclerose lateral amiotrófica, traumatismo raquimedular cervical, Miastenia gravis e miopatias. Proximal: músculos próximos da cintura escapular ou próximos da cintura pélvica (próximos da medula); - Comum em miopatias e miastenia gravis; Distal: lesão de nervos periféricos longos (mãos e pés); - Comum em neuropatias; Proximal e distal: • Flácida: quadro de lesão do SNP e fase de choque SNC; • Epástica: SNC; Predomínio bráquio-facial; Crural: membros inferiores. Curso: Flutuante: caráter oscilatório; - Ex: Miastenia Gravis; Súbito: - Ex: Acidente vascular encefálico e Ataque isquêmico transitório; 169 Capítulo 9 Subagudo/progressivo: - Guillain Barret; Insidioso/gradual: quadros crônicos; - Ex: Neoplasias da medula espinal, Esclerose lateral amiotrófica; Sintomas associados: Abalos musculares: - Ex: Paralisia de Todd (paralisia pós- convulsão); Distúrbio esfincteriano: - Ex: mielopatias; Febre: - Doenças infecciosas; Alterações cognitivas: - Lesões encefálicas (SNC); Distúrbios da linguagem - Afasias. A linguagem abrange outros elementos da comunicação (capacidade cognitiva), enquanto a voz engloba somente a parte mecânica da fala. Disfasia:distúrbio da linguagem de origem cerebral. A análise clínica compreende: • Distúrbios na expressão verbal: se observa desintegração dos mecanismos que propiciam a palavra falada e/ou escrita; • Distúrbios na recepção verbal (áudio e/ou visual): dificuldade de compreensão das ideias-símbolos; • Distúrbios na atividade gestual: também denominada linguagem corporal, excluindo-se, todavia, os distúrbios mentais patentes. Disartria: distúrbio da articulação da palavra. Está associada a lesões neurológicas centrais, como paralisia pseudobulbar (anasalada e explosiva), parkinsonismo (voz arrastada e lenta), síndrome cerebelar e a lesões neurológicas periféricas, como lesão dos nervos cranianos VII, IX, X e XII (voz fanhosa); Disfonia: distúrbio da fonação e do timbre da voz, a qual pode se tornar anasalada ou rouca. Está associada a lesões do nervo acessório ou lesões das cordas vocais; Dislalia: distúrbio da articulação da palavra falada sem que as causas estejam localizadas no sistema nervoso. • Pode ser fisiológica, como na criança até 4 anos de idade que consiste na troca de silabas ou letras; • Pode ser causada por retardo psicomotor e prolonga-se até os 10 anos de idade; • Pode ser secundária a lesões do palato, língua, dentes, lábios e mandíbula; Disritmolalia: distúrbio do ritmo da fala que pode ser de várias formas; • Taquilalia: fala muito rápida e imprecisa; • Gagueira: interrupção do ritmo da fala; Dislexia: dificuldade de capacitar-se para a leitura convencionalmente ensina. É de natureza genética Disgrafia: distúrbio da escrita, que a torna irregular, fragmentada, a ponto de tonar-se ilegível; Algia: “dor”; Parestesias: sensações espontâneas desagradáveis de agulhadas – “formigamento”; 170 Capítulo 9 Alodínia: sensação de dor ao estímulo não nociceptivo; Hiper/hipoalgesia: aumento/diminuição da sensação da dor; Analgesia: ausência total de sensibilidade; Hiper/hipoestesia: aumento/diminuição da sensibilidade; Disestesia: sensação desagradável (formigamento) provocada por estímulo que normalmente não o faz; Hipopalestesia: diminuição da sensibilidade vibratória; Dor nociceptiva: dor relacionada à liberação de substâncias numa lesão tecidual; Dor neuropática: dor relacionada à lesão num nervo; Dor psicogênica: dor que surge sem nenhuma causa orgânica (perda de alguém – dor do emocional); Náuseas e vômitos; • Vômito em jato (vômito não precedido por náuseas); Disfagia: • Neurológica (principalmente líquidos); • Gastrointestinal (sólida); Escotoma: falha do campo visual que produz manchas pontuais circundadas por visão normal; Ambliopia: redução da acuidade visual decorrente em muitas das vezes de estrabismo de um dos olhos; Amaurose: perda total da visão; Tanto a ambliopia como a amaurose podem ser uni ou bilaterais, definitivas ou transitórias, súbitas ou graduais; Hemianopsias: perda de metade do campo da visão; • Homônima: perda de visão do mesmo lado nos dois olhos devido a uma lesão do quiasma óptico (neoplasias, aracnoidite); Heterônima: perda de visão em lados diferentes causada por uma lesão na via óptica retroquiasmática por neoplasias, distúrbios vasculares, infecções ou doenças desmielinizantes; 171 Capítulo 9 Quadrantanopsia: perda de uma parte do campo visual: Diplopia (visão dupla): sintoma bastante incomodo, no qual a pessoa vê o dobro das imagens. Ocorre nos casos de estrabismo convergente e divergente, uni ou bilateral, refletindo paresia ou paralisia de um mais ou músculos ligados aos nervos que movimentam os olhos. • Diplopia vertical: imagens formadas uma em cima da outra; • Diplopia horizontal: imagens formadas uma do lado da outra; • Monocular: quando fecha um olho melhora; - Causas oftalmológicas, como luxação do cristalino, catarata e colaboma da íris; • Binocular (horizontal ou vertical); - Alteração da motricidade ocular extrínseca (estrutural, músculos e NC); Nistagmo: movimento involuntário dos olhos que pode fazer o olho mover-se rapidamente de um lado para outro, para cima e para baixo ou em um círculo, podendo borrar ligeiramente a visão. Geralmente está associado a lesões do labirinto. Hipoacusia: redução da audição (surdez); Anacusia ou acusia: ausência de audição (surdez total); Paracusia: alteração da qualidade da audição; Hiperacusia: aumento da audição; Autofonia: ouvir a própria voz; Algiacusia: sensação de dor ao ouvir determinados tipos de ruído de alta intensidade; Zumbido (tinido): uni ou bilateral, constante ou não, deve ser encarado como um processo de estimulação anormal do ramo colear do nervo vestibulococlear; Característica: Vertigem (rotatória): sensação de girar em torno do ambiente. Geralmente, se instala de forma aguda, acompanhada de náuseas, vômitos, desequilíbrio, palidez e sudorese; • Está associada a alterações vestibulares, como VPPB, Doença de Meniére (labirintite); • Independe da posição que o paciente está, inclusive, quando está com os olhos fechados; 172 Capítulo 9 Desequilíbrio: está associada a alterações cerebelares causadas comumente pelo consumo de álcool e medicamentos; Escurecimento visual (lipotimia ou pré-sincope): o paciente se torna pálido e transpiração profusaneurocardiogênica; Sensação de cabeça vazia (inespecífica): condição de difícil caracterização pelo paciente que pode estar associada à glicemia baixa, ansiedade ou depressão; Modo de instalação: Súbita: • Espontânea: a primeira suspeita deve ser AVC; • Posição da cabeça: vertigem posicional paroxística benigna (lesão no labirinto); Progressiva: comum em neoplasias. Sintomas associados: Vômitos/náuseas: associados a lesões vestibulares ou cerebelares; Sudorese/palpitação: associado a problemas cardiogênicos; Tremor: movimento oscilatório rítmico de uma parte do corpo que resulta da contração de grupos musculares opostos. Deve ser investigado quanto a à ocorrência desse movimento, se ele ocorre no repouso, se piora com o movimento intencional voluntário ou com posturas persistentes. - Tremores unilaterais: típicos de Parkinson; Referências: BATES. Propedêutica Médica. 12ª ed. Guanabara Koogan, 2018. PORTO, C.C. Semiologia Médica. 8ª ed. Rio de Janeiro. Guanabara, 2019. 173 Capítulo 9 Sensação dolorosa em uma região que vai dos supercílios até a base de implantação dos cabelos na nuca, constituindo uma das mais frequentes queixas da prática médica. Instalação e progressão: • Súbita; • Persistente; • Intermitente (paroxismo de dor – picos de dor); • Progressiva. Caracterização do tipo: • Em peso; • Pressão ou aperto; • Facadas; • Pulsátil; • Queimação; • Pontadas; Localização e irradiação: • Hemicraniana; • Holocraniana; • Seios da face (sinusite); • Salvas; • Tensional; • Enxaqueca. Intensidade: • Fraca; • Moderada; • Forte; • Excruciante ou muito forte. Sintomas associados: • Pródomos (sintomas que precedem o sintoma principal); - Precedem a enxaqueca em horas ou dias; - Irritabilidade, raciocínio lento e sono prejudicado, bocejos (ocorre em 60% das crises); • Aura: sintomas neurológicos atribuídos a córtex ou tronco que, geralmente, precedem a cefaleia um pouco antes dela se manifestar. Se desenvolvem de 5 a 20 minutos, durando até 60 minutos; - Distúrbios visuais (escotomas cintilantes): ✓ Pontos luminosos; ✓ Ziguezagues brilhantes; ✓ Perda ou distorção de uma parte da visão; - Parestesia ou plegia da face ou mão. 174 Capítulo 9 • Náuseas e/ou vômitos; - Ex: enxaqueca (com náuseas) ou meningite (sem náuseas);• Fonofobia/fotofobia: - Ex: enxaqueca; • Sonolência/confusão mental; - Ex: hipertensão intracraniana; • Febre: - Ex: causas infecciosas: meningite, encefalite e abscesso; - A febre e a cefaleia associadas é mais preocupante do que febre, cefaleia e tosse associadas, já que a tosse sugere problema respiratório. Fatores desencadeantes: • Cheiros; • Comidas (queijo, vinho, chocolate, café); • Atividade física. Fatores de melhora ou piora; • Analgésicos; • Sono; • Luz; Classificação das cefaleias: Primária: etiologia demonstrável por exames clínicos quando não há nenhuma outra doença subjacente e nenhuma alteração anatômica nos exames de imagem (ex: migrânea, enxaqueca, tensional e salvas); Secundária: sintoma provocado por doenças (ex: cefaleia atribuída a infecção como sinusite, cefaleia por tumor cerebral, traumas, transtornos psiquiátricos, retirada ou entrada de alguma substância); Também chamada de migrânea, é uma desordem idiopática que se apresenta como crises recorrentes de dor de cabeça de características singulares, associada ou não a aura; • É mais comum em jovens do sexo feminino e pacientes em uso de terapia hormonal; Migrânea sem aura: Critérios de diagnóstico: Pelo menos 5 episódios com os seguintes critérios: • Duração de 4-72 horas (sem tratamento ou com tratamento ineficaz); • Tem pelo menos duas das seguintes características: - Localização unilateral; - Qualidade pulsátil; - Intensidade da dor moderada ou severa; - Exacerbada por atividade física rotineira. • Tem pelo menos um dos seguintes sintomas associados: - Náusea e/ou vômitos; - Fotofobia e fonofobia. • Não está atribuída a outra desordem. Migrânea com aura: Critérios de diagnóstico: • Pelo menos 2 ataques de cefaleia com características de enxaqueca associada à aura, de duração de 5 a 60 minutos, caracterizados por: - Sintomas visuais positivos (moscas volantes, manchas ou linhas); - Sintomas visuais negativos (perda de visão homônima); - Sintomas sensitivos; - Disfasia. É a mais comum das cefaleias primárias. É uma dor de cabeça holocraniana leve ou moderada sem náuseas ou vômitos. 175 Capítulo 9 São mais comuns em mulheres e estão associadas ao estresse mental e físico, falta de sono ou emocional; As dores podem ser episódicas, ocorrendo < 15 dias por mês ou crônicas, ocorrendo > 15 dias por mês; Critérios de diagnóstico: • Pelo menos 10 crises de cefaleia; • Duração de 30 minutos a 7 dias; • Pelo menos duas das seguintes características: - Localização bilateral, podendo ser frontal, occipital ou holocraniana; - Caráter em pressão/aperto (não pulsátil); - Intensidade leve ou moderada; - Não é agravada por atividade física rotineira; • Ausência de náusea ou vomito; • Com fotofobia ou fonofobia, mas não os dois ao mesmo tempo. Cefaleias trigêmino-autonômicas mais frequente, caracterizada por crises intensas de cefaleia associadas a sinais autonômicos ipsilaterais; Dor intensa, estritamente unilateral, com duração de 15-180 minutos; Epidemiologia: • É um tipo de cefaleia incomum com incidência de 0,7 em 100.000 indivíduos; • Mais comum em homens (9:1); • Ocorre entre a 3ª e 4ª décadas de vida; • Comumente associada ao etilismo e tabagismo. O principal fator desencadeante é a ingestão alcoólica (ocorre em até 70% dos indivíduos); Características: • Os episódios acontecem comumente a noite, acordando o paciente; • A localização da dor normalmente é atrás ou acima do olho ou na têmpora, mas outras áreas podem incluir dor na testa, bochecha, dentes ou maxilar; • A dor é descrita como excruciante ou “em punhaladas” que persiste por 15 minutos a 3 horas; • Diferentemente dos pacientes de enxaqueca que tentam repouso, pacientes com cefaleia em salvas andam e são incapazes de sentar- se ou deitar-se. Critérios de diagnóstico: Pelo menos cinco crises preenchendo os critérios seguintes: • Dor severa ou muito severa unilateral, orbitaria, supraorbitária e/ou temporal durando de 15 a 180 minutos, se não tratada; • A cefaleia acompanha-se de, pelo menos, um dos seguintes aspectos: - Hiperemia conjuntival e/ou lacrimejo, ipsilaterais; - Congestão nasal e/ou rinorreia ipsilaterais; - Edema palpebral ipsilateral; - Sudorese frontal e facial ipsilateral; 176 Capítulo 9 - Miose e/ou ptose palpebral ipsilateral; - Sensação de inquietude ou agitação; • As crises têm uma frequência de uma a cada dois dias a oito por dia; • Não atribuída outra alteração neurológica. Crises com características de dor, sintomas e sinais associados semelhantes à cefaleia em salvas; porém, mais frequentes e de duração mais curta, que ocorrem mais frequentemente em mulheres e respondem de maneira absoluta à indometacina; A dor dura, geralmente de 2 a 30 minutos e ocorre unilateralmente ao redor dos olhos, têmpora ou região maxilar, algumas vezes precipitada por movimentos da cabeça; Embora a dor seja insuportável, o ataque é breve, durando geralmente segundos, e a maioria dos pacientes está livre de dor entre os ataques, embora uma dor surda possa estar presente Critérios de diagnóstico: Pelo menos 20 crises preenchendo os critérios seguintes: • Crises de dor severa, unilateral, orbitária, supraorbitária e/ou temporal durando de 2 a 30 minutos; • A cefaleia acompanha-se de pelos menos um dos seguintes: - Hiperemia conjuntival e e/ou lacrimejo, ipsilaterais; - Congestão nasal e/ou rinorreia ipsilaterais; - Edema palpebral ipsilateral; - Sudorese frontal e facial ipsilateral; - Miose e/ou ptose palpebral ipsilateral; • As crises têm uma frequência superior a cinco por dia em mais da metade do tempo, embora possam ocorrer períodos de menor frequência; • As crises são completamente evitadas por doses terapêuticas de indometacina; • Não atribuída a outra alteração neurológica; Como saber se estou diante de uma cefaleia primária ou secundária? Através de sinais de alertas, os quais vão sugerir uma suspeita de cefaleia secundária que deve ser investigada com exames de imagem; São sinais de alerta para cefaleias secundárias: • Características da dor: - Pior dor da vida; - Iniciada de forma abrupta; - Mudança de padrão da cefaleia preexistente; - Início após 50 anos; - Caráter progressivo; - Piora ao sentar-se, ao deitar-se ou à manobra de Valsalva; - Cefaleia que acorda o paciente; - Ao esforço físico e sexual: ruptura de aneurisma cerebral; • Presença de estigmas psiquiátricos: - Discurso incoerente; - Usuário de drogas; - Portador de doenças psiquiátricas prévias; • História de abuso ou abstinência de substâncias. • Sintomas, doenças e condições associadas: - Febre - Estado confusional; - Rebaixamento do nível de consciência; - Papiledema; - Convulsões; - Sinais neurológicos focais; 177 Capítulo 9 - Mialgia; - Sinais de irritação meníngea; - Diplopia; - Sintomas gripais; - Dor retro orbital; - Hipertensão; - Sinusite; - Perda de peso; - Neoplasia; - Gravidez; - Imunocomprometidos; • História de trauma recente; • Uso de anticoncepcionais, reposição hormonal ou anticoagulantes. Referências: • Tratado de Medicina Interna – Cecil; • Como fazer todos os diagnósticos. 178 Capítulo 9 Crise epiléptica/crise convulsiva: ocorrência transitória de sinais e/ou sintomas devido a uma atividade neuronal síncrona e excessiva no cérebro, ou seja, um disparo de sinapse neuronal anormal. Pode ser provocada, quando ocorre um insulto agudo como um AVC ou não provocada (espontânea); Epilepsia: distúrbio associado a eventos recorrentes, súbitos, determinado pelo desequilíbrio das funções excitatóriase inibitórias no córtex cerebral. Ou seja, predisposição a crises convulsivas; • Duas crises não provocadas no intervalo > 24h; • Crises com novas recorrências em mais de 60% das vezes; • Síndrome epiléptica: conjunto de alterações clínicas e achados eletroencefalográficos. Sendo assim, a crise epiléptica é definida como sintoma e a epilepsia é definida como a doença. Existem indivíduos que apresentam apenas um episódio de crise epiléptica em toda a vida sem necessariamente ter a epilepsia. Pode ser: • Adquirida: por lesão axonal através de um TCE ou por alteração dos canais de sódio; • Genéticas: canalopatias; Essas alterações podem instalar-se precocemente, desde o desenvolvimento das camadas corticais, na formação do cérebro, na determinação das propriedades das membranas neuronais como na maioria das epilepsias geneticamente determinadas, nas alterações induzidas do metabolismo ou nos processos inflamatórios e nas encefalopatias, ou ser decorrente de processos patogênicos adquiridos ao longo da vida. As crises epilépticas são traduzidas por manifestações neurológicas variadas e dependentes do local em que estas ocorrem. São classificadas quanto à (ao): Instalação: • Focais: acometem uma área restrita em um único hemisfério; • Focais que evoluem para bilaterais; • Generalizadas: acometem área ampla em ambos os hemisférios desde o início; • Indeterminadas: de início desconhecido Etiologia: • Genética: defeito genético conhecido ou presumido. Nesses casos, as crises são os sintomas fundamentais do distúrbio; • Estrutural/metabólica: infecciosas (abscessos cerebrais, meningite, neurocisticercose), tóxicos-metabólicos (uso de drogas, hipoglicemia, hiponatremia), vasculares (AVC), tumorais e traumáticas; • Causa desconhecida Acometimento: Crises de início focal (crises parciais): acometem um lugar só e podem ser simples quando não há comprometimento da 179 Capítulo 9 consciência (perceptiva) e complexas quando há comprometimento da consciência (disperceptiva); • Motoras: Espasmo epiléptico (espasmos infantis); Crise atônica: perda do tônus muscular; Crise clônica: abalos; Crise mioclônica: abalos breves e rápidos; Automatismos: movimentos estereotipados como mastigação; Crise hipercinética: movimentos rápidos; Crise tônica: hipertonia muscular; • Não motoras: Autonômica: palidez, sudorese; Sensorial: parestesias, hipoestesias; Emocional: medo extremo, ansiedade; Cognitiva: alteração de linguagem, sensações de “dejavu”; Parada comportamental. Crises de início generalizado: acometem o corpo todo e, na maioria das vezes, o indivíduo perde a consciência; • Motoras: Atônica; Tônica; Clônica; Espasmos epilépticos; Mioclônicas; Mioclônico-atônicas; Mioclônico-tônico-clônicas; Tônico-clônicas: é o tipo mais comum. • Não motoras: Ausências: podem ser típicas ou atípicas; Crises de início desconhecido: idiopáticas; Motoras; Não-motoras; Tônico-clônicas; Espasmos epilépticos; Parada comportamental; Crises generalizadas tônico-clônicas O paciente pode apresentar pródromos como cefaleia, irritabilidade, apatia, ansiedade, tonturas ou sensação de cabeça leve. A fase inicial (tônica), perdura alguns segundos, com contração intensa e contínua da musculatura, predominantemente axial, além de midríase. A contração da musculatura toracoabdominal impede movimentos de expansão torácica e resulta em apneia. Extensão tônica do corpo ocorre por alguns segundos. Seguem-se movimentos clônicos (contração-relaxamento repetitivo) de toda a musculatura. A crise termina por uma curta fase tônica, ou pelo progressivo desaparecimento da fase clônica, gerando atonia global. A consciência está comprometida desde o início, culminando em uma fase de coma de duração variável, seguida de sonolência intensa, confusão mental, letargia, mialgia e cefaleia. Anamnese: • Tempo do surgimento; • Número de crises/frequência; • Caracterização: Início; Evolução; Final; • Fatores de risco; • Uso de medicamentos; • Comorbidades; • Antecedentes pessoais (gestações, desenvolvimento neuropsicomotor); • Antecedentes familiares. Exame físico: geralmente os pacientes epilépticos apresentam exame físico neurológico normal; 180 Capítulo 9 Exames complementares: • Neuroimagem (RNM); • Eletroencefalograma (EEG): caracteriza o foco epiléptico; • Laboratório: Glicemia; Rastreio infeccioso amplo; Rastreio metabólico (alterações hidroeletrolíticas); Perfil toxicológico quando necessário. Caso o paciente apresente suspeita de infecção do SNC, como febre e rigidez de nuca, é necessário fazer uma coleta do líquor através de uma punção lombar. Diagnósticos diferenciais: • Síncope; • Ataque isquêmico transitório. • Enxaqueca com aura; • Transtorno conversivo (crise histérica de ansiedade profunda); • Arritmias cardíacas; • Distúrbios metabólicos; • Simulação; • Outros. A grande maioria das crises epilépticas duram entre segundos a minutos. No entanto, há casos que duram mais que trinta minutos, determinando assim o status epilepticus. Dessa forma, o status epilepticus é o termo utilizado quando um paciente apresenta crises epilépticas subentrantes, uma após a outra e sem a recuperação da consciência entre as crises. Taxa de mortalidade: 10 a 33%; Causas mais frequentes: AVC, interrupção da medicação, trauma, hemorragia intracraniana, infecção do SNC (meningite, meningoencefalite, neurocisticercose, neurotoxoplasmose), neoplasias, hipertensão intracraniana, lesões inflamatórias ou estruturais; Subtipos: • Convulsivo: Tônico-clônica generalizada: Duram pelo menos 30 minutos ou um conjunto de crises sem retorno ao basal; Crise motora generalizada única ou conjunto de crises com duração suficiente para causar lesão cerebral, lesão em outros órgãos ou insuficiência cerebral; Parcial: Abalos envolvendo pequenas áreas dos membros, tronco ou face, nistagmo, tremor palatal, asterix; Status parcial complexo: alteração da cognição, automatismo, hiperoralidade, estalidos orais e movimentos anormais dos olhos. • Não convulsivo: Condição em que a atividade epiléptica eletrográfica é prolongada e resulta em sintomas clínicos não convulsivos, que dependem no nível de desenvolvimento e integridade cerebral, encefalopatia, tipo de crise e localização anatômica da atividade; Proteger a cabeça; Lateralizar o corpo em bloco; Folgar roupas apertadas; Não tentar imobilizar o paciente; Não introduzir nada em sua boca; Posicionar-se ao lado do paciente até retorno da consciência; 181 Capítulo 9 Acionar o serviço de atendimento médico pré- hospitalar se houver crise entre 5 e 10 minutos; O nível de consciência, ou seja, o estado de alerta comportamental que nos mantém despertos, depende do Sistema Ativador Reticular Ascendente (SARA), que é localizado na região ponto mesencefálica do tronco encefálico e depende de aferências das vias sensoriais; Alerta/vígil: abertura ocular e nível de consciência sem alteração; Obnubilação/sonolência: alterada capacidade de pensar claramente e perceber os estímulos. Cai no sono se não for estimulado; Confusão: embotamento do sensório, dificuldade de compreensão, desorientação, dificuldade em articular ideias, lentidão de resposta e estímulos mais intensos para gerar resposta; Estupor: ausência ou profunda diminuição de movimentos espontâneos, mutismo, resposta a estímulos dolorosos; Estado vegetativo persistente: tem abertura ocular, mas não responde e nem interage com nenhum estímulo (sem linguagem ou movimentação voluntária). Pode ter um ciclo sono-vigília e incontinência fecal e urinária; Estado minimamenteconsciente: a ativação do SARA está recuperada, porém há um grave distúrbio do conteúdo. É como se fosse um coma leve. Nesse estado, existe algum grau de percepção do ambiente, havendo certa interação pela audição, por movimentos e vocalização primária, mas os pacientes são incapazes de comunicarem-se efetivamente. Estados pseudo-comatosos: Locked In: chamada de síndrome de encarceramento/cativeiro. O paciente tem abertura ocular, tem consciência, mas não tem nenhuma resposta motora a estímulos. Tetraplegia, anartria, paralisia ocular horizontal e olhar vertical e piscamento preservados. Pode ser visto em lesões do bulbo, na qual o paciente não consegue respirar e depende 100% de ventilação mecânica; Catatonia: forma de esquizofrenia que apresenta uma alternância entre períodos de passividade e de negativismo e períodos de súbita excitação. Reações conversivas: reação histérica que pode ser causada por situações demasiadamente estressantes, problemas emocionais ou distúrbios mentais, como ansiedade generalizada ou depressão Mutismo acinético: transtorno da consciência causado por lesões nos giros cingulados anteriores, compartilha características clínicas com o estado minimamente consciente. Botulismo: Coma: abolição completa da consciência. O paciente não responde mesmo aos estímulos externos (dolorosos) ou internos (fome, frio, necessidades fisiológicas); O nível de consciência, ou seja, o estado de alerta comportamental que nos mantém despertos, depende do Sistema Ativador Reticular Ascendente (SARA), que é localizado na região ponto mesencefálica do tronco encefálico e depende de aferências das vias sensoriais; Escala de coma de Glasglow: parte obrigatória do exame neurológico de pacientes com alteração do nível de consciência. Referência: Semiologia Médica, Porto. 182 Capítulo 9 Síndrome neurológica súbita decorrente de uma série de processos patológicos que culminam em uma perfusão tecidual insuficiente; É necessário na anamnese investigar o modo como os sintomas sugestivos de AVC se instalaram (súbito, insidioso, crônico). • É a 2ª principal causa de óbito no Brasil e no mundo; • Principal causa de incapacidade permanente em adultos; • Sequelas motoras, sensitivas e cognitivas; • Alta morbidade e mortalidade; - 8 a 20% no primeiro mês; - 3 a 5 vezes maior. • O AVC isquêmico é o mais comum (85%), enquanto o hemorrágico é menos comum (15%); • Estima-se que a cada 4 minutos uma pessoa tem AVC no mundo. • Isquêmico (AVCI): as causas mais comuns são a aterosclerose em grandes artérias, cardioembolismo e a oclusão de pequenas artérias; • Hemorrágico (AVCH); - Intraparenquimatoso (dentro do parênquima cerebral); - Subaracnóide (espaço subaracnoide); Hemodinâmica cerebrovascular: a variável mais importante, principalmente no AVC isquêmico, é o fluxo sanguíneo cerebral (FSC) que diz respeito a quantidade de sangue que chega para cada 100g de tecido cerebral por minuto; Quando esse fluxo começa a diminuir (< 20 ml por 100g/min), inicia-se o processo de isquemia (alterações da função celular e tecidual decorrente de um baixo fluxo) e os sintomas como paralisia, alteração da fala e da linguagem aparecem; Dessa forma, a isquemia pode ter dois desfechos: • O fluxo retorna ao seu nível normal e, assim não ocorrerá morte celular; • O fluxo continua interrompido muito tempo, causando morte celular (infarto); Portanto, a isquemia deve ser revertida rapidamente, pois, caso não seja revertida, ocorrerá a morte de neurônios; O fluxo sanguíneo cerebral (FSC) é definido pela razão entre a pressão da perfusão cerebral (depende diretamente da pressão arterial) e a resistência cerebrovascular; Sendo assim, o fluxo sanguíneo é diretamente proporcional à pressão de perfusão cerebral e inversamente proporcional à resistência cerebrovascular; 183 Capítulo 9 A pressão arterial no paciente com AVC é consequência do AVC. Age como uma regulação para manter o fluxo sanguíneo nos padrões normais. Portanto, na conduta do AVC isquêmico não se deve abaixar tanto a pressão arterial do paciente, pois ele pode piorar; Do ponto de vista celular, os neurônios por serem células altamente especializadas permitem funções únicas, no entanto, não possuem a capacidade se adaptar a situações mais adversas; Com a diminuição do fluxo sanguíneo, o vaso não vai receber oxigênio, glicose e não vai conseguir produzir ATP, sendo que o tecido nervoso possui um alto gasto energético. Com isso, a célula começa a parar e, dessa forma, ocorre o influxo de sódio e efluxo de potássio por meio da ATPase. Com a entrada de sódio, a água também começa a entrar na célula, causando um edema celular e, consequentemente, o aumento da pressão intracraniana; Caso o trombo seja dissolvido e o fluxo reestabelecido, a célula que estava parada volta a funcionar. Esse evento será chamado de Ataque Isquêmico Transitório. • Ataque Isquêmico Transitório: é quando o paciente melhora do déficit neurológico em menos de 24h e apresenta exames normais, com ausência de morte celular, ou seja, sem perda de tecido nervoso; • Esse evento pode preceder um AVC, portanto, esse paciente deve ser acompanhado. Caso o trombo persista e o fluxo continue baixo, ocorre a morte de neurônios, caracterizando o AVC; Do ponto de vista anatômico, a circulação encefálica é dividida em dois sistemas: • Circulação anterior: sistema carotídeo; • Circulação posterior: sistema vertebro- basilar; Esses dois sistemas chegam ao encéfalo separados e na sua base vão se anastomosar através do Polígono de Willis, o qual vai fazer pontes de conexão entre a circulação anterior e a circulação posterior; Isquemia e penumbra: quando o vaso é obstruído, existem regiões que dependem tão diretamente do fluxo vindo dele, que não terão jeito e vão morrer, existem regiões que ficam mais distantes, são afetadas, mas que ainda podem ser salvas e existem regiões que não serão afetadas. São elas: • Centro isquêmico: área do cérebro que ocorre o AVC e que não tem como de ser salvo; • Penumbra isquêmica: região mais distante do local do AVC, a qual é afetada, mas que ainda não morreu e pode ser salva se tratada rapidamente; • Oligoemia benigna: zona de sofrimento transitório, ou seja, que não é tão afetada pela isquemia, pois é vascularizada por outras artérias e sempre sobrevive. O sangue que está dentro do vaso será extravasado para fora e isso acontece por 184 Capítulo 9 alguma fragilidade vascular que pode ser congênita ou adquirida. Sendo assim, esse vaso frágil vai sofrer uma pressão ao longo de meses e anos, podendo se romper e causar a hemorragia; Etiologias: • Hipertensão arterial sistêmica: crises de pressão alta por anos que vão lesar a parede vascular; • Doença amiloide; • Malformação arteriovenosa; • Trombose venosa cerebral; • Doenças genéticas/hereditárias. Artéria cerebral média: parte mais externa dos lobos frontal e parietal; • O território mais afetado pelo AVC é o da artéria cerebral média porque ela também irriga o maior espaço do cérebro; • Uma lesão em toda a região da artéria cerebral média no lobo esquerdo vai afetar a área de Broca e Wernick, causando afasia; Artéria cerebral anterior: parte mais medial dos lobos frontal e parietal; Artéria cerebral posterior: lobo occipital. Distribuição somatotópica: Um AVC no território da artéria cerebral anterior do lado esquerdo, causará paresia do membro inferior direito (contralateral) devido à distribuição somatotópica; A distribuição somatotópica é bem dividida na periferia dos lobos cerebrais, no entanto, à medida que chega no interior dos lobos ela vai se unindo até o ponto da cápsula interna.Dessa forma, quanto mais perto da cápsula interna o AVC ocorre, mais possibilidade de ser proporcionado os danos, ou seja, danos da mesma proporção em membros inferiores, membros superiores e na fala; Paresia ou plegia: Hemiparesia/plegia: Trato corticoespinhal (piramidal) – contralateral; Ex: • Acomete face (completa): AVC do núcleo do n. facial (ponte) para cima; • Não acomete face (incompleta): AVC do núcleo do n. facial (ponte) para baixo. Proporcionada x Desproporcionada: • Predomínio braquio-facial: artéria cerebral média; • Predomínio crural: artéria cerebral anterior Síndrome do neurônio motor superior: Fraqueza e mais um dos sinais abaixo são necessários para definir uma síndrome do neurônio motor superior. Eventualmente, o paciente não tem fraqueza e, quando isso ocorre, 185 Capítulo 9 são considerados dois dos sinais abaixo para definir a síndrome; Alteração da coordenação: Ataxia: sintoma muito comum do AVC que comumente está associado a outros sintomas, a depender da origem dessa ataxia; • Cerebelar: - Dismetria; - Disdiadococinesia; - Marcha ebriosa. • Vestibular: - Lesão central: pode estar relacionada a lesão do nervo vestibulococlear ou lesão dos núcleos vestibulares; - Lesão periférica: Não é AVC. O paciente não chega a apresentar ataxia, mas uma vertigem com náuseas e vômitos, sintomas característicos de uma labirintopatia. Funções superiores: Funções corticais: • Linguagem; - Afasia: ✓ Motora (expressão); ✓ Sensitiva (compreensão); • Praxia; • Memória; • Gnosia; • Cognição. Síndrome de negligência: quando o paciente passa a desconsiderar um campo visual mesmo com todos os sentidos preservados (tato, audição, visão, paladar e olfação). Pode ser de dois tipos: • Negligência espacial; • Negligência pessoal. Heminegligência: ocorre principalmente em casos de lesão do lobo parietal direito Principais achados: - Olhar preferencial para um dos lados; - Extinção tátil e visual; - Anosognosia (não reconhece o déficit); - Autotopognosia (não reconhece o membro como dele); - Heminegligência (não reconhece todo um lado); • Cardioembólico: comum em casos de fibrilação atrial; • Aterosclerose de grandes vasos; • Aterosclerose de pequenos vasos (AVC lacunar): lesiona uma pequena parte do cérebro. É o mais comum; Outras causas determinadas: • Vasculites; • Paraneoplásicas; • Reumatohematológicas: LES; • SAAF; 186 Capítulo 9 • Hiperhomocisteinemia: ocorre como consequência de uma alimentação rica em proteínas, principalmente da carne vermelha, alterações genéticas, alterações da tireoide, baixa ingesta de alimentos ricos em vitamina b6, b12 ou ácido fólico, doença renal ou medicamentos, provocando assim lesões nas paredes dos vasos sanguíneos; • Anemia falciforme; • Criptogênicos: quando a causa é desconhecida. É feito através da anamnese, exame físico e neuroimagem; NIHSS (Nationol Institute of Health Stroke Scale): • Escala validada: • Recomendada pela American Heart Association; • Pontos para achados encontrados no exame neurológico: A escala vai de 0 a 42 pontos, sendo que 0 é igual a nenhum sintoma e quanto mais aumentada a pontuação, mais sintomas aquele paciente possui; Suspeita diagnóstica: Déficit neurológico súbito: • Isquêmico? • Hemorrágico? Às vezes alguns detalhes da anamnese e do exame físico podem sugerir o subtipo do AVC. No entanto, o diagnóstico só deve ser estabelecido através de exames de imagem, pois só com a história não é possível. A primeira conduta do AVC é estabilizar o paciente, intubar, monitorizar e regular para um serviço que possa fazer uma tomografia; Tomografia de crânio sem contraste: • Objetivo: afastar hemorragia. É muito utilizada para diferenciar o AVC isquêmico do hemorrágico; • Vantagens: mais acessível e mais rápido; • Desvantagens: 31% de sensibilidade nos sinais precoces. Geralmente, só é possível identificar lesão isquêmica após 24h. Tomografia de crânio: A artéria cerebral média no seu padrão fisiológico não é tão clara como está nessa tomografia. Portanto, quando ela está assim, ela está hiperdensa e denota um trombo que está impedindo a passagem do sangue; Essa parte escura é uma área hipodensa, na qual sugere grande isquemia estabelecida e infarto. É necessário analisar a assimetria que existe nessa TC, a qual sugere grande edema que está comprimindo as estruturas do cérebro e aumentando a pressão encefálica, traduzindo uma grande chance de óbito; 187 Capítulo 9 Ao comparar a simetria, vemos que o núcleo lentiforme está apagado no lado direito. Isso denota um sinal precoce de isquemia; Ressonância nuclear magnética • Objetivos: afastar AVC hemorrágicos; • Vantagens: exame de melhor qualidade, sendo possível enxergar com clareza algumas regiões como a fossa posterior (região coberta por osso) e hemorragias crônicas, além de ter uma sensibilidade melhor ao diagnóstico de AVC isquêmico se comparada à tomografia; • Desvantagens: dificuldade ao acesso do exame e tempo de realização longo, dificultando a sua realização num contexto de emergência; Flair Difusão Na ressonância observam-se hiperintensidades confluentes na sequência FLAIR da substância branca e a difusão auxilia na identificação das áreas de isquemia aguda e subaguda; • Na flair lesões antigas e novas aparecem iguais, já na difusão é possível diferenciar. Dessa forma, na difusão, manchas brancas (setas vermelhas na imagem direita) sugerem lesões novas, se fossem velhas elas nem apareceriam. A mancha mais apagada (seta amarela) indica uma lesão mais subaguda; Angiotomografia • A angio TC é utilizada para análise das veias e artérias do crânio; Na imagem ao lado é possível identificar uma obstrução da artéria cerebral média esquerda onde foi aplicado um contraste, o qual foi interrompido no ponto identificado pela seta e círculo vermelho; Sala de emergência: História rápida: • Ictus - última vez visto bem: momento de aparecimento dos sintomas; MOVE: • Monitorizar o paciente: ECG, PA, FC e oximetria; • Oxigênio: somente se a saturação de O2 < 92 – 94%; • Veia: acesso venoso; • Exames: exame físico, laboratorial, exame de imagem; Estabilização: controle de glicemia, temperatura, cabeceira a 30º, controle pressórico; Encaminhar para a neuroimagem. • Controle pressórico: no AVC isquêmico é necessário tolerar a pressão mais alta (hipertensão permissiva) de até PAS < 220 mmHg e PAD < 120 mmHg em até 24 horas. 188 Capítulo 9 Após as 24h é necessário a começar a abaixar a PA do paciente. Já no AVC hemorrágico, a hipertensão permissiva é de até PAS < 160/140. Mas cuidado, existem exceções! No caso de trombólise e pós trombectomia é necessário diminuir a pressão para não correr o risco de sangrar; Terapia de reperfusão no AVC isquêmico: • Janela de trombólise: até 4,5 horas do ictus. • Diretrizes para conduta DE AVC: - Se o paciente chega ao hospital com suspeita de AVC, em até 10 minutos ele precisa ser visto por um médico; - Em até 15 minutos o paciente deve ser avaliado pela equipe de emergência responsável; - Em até 25 minutos da chegada do paciente ao hospital, ele precisa fazer a tomografia; - Em até 45 minutos deve haver um laudo e uma interpretação da tomografia; - Em até 60 minutos deve se iniciar a trombólise (a hora de ouro); • Terapia de reperfusão aguda: - Trombólise intravenosa: alteplase (medicamento trombolítico); - Terapia intrarterial: trombectomia mecânica (retirada de um trombo); • Indicações de trombólise venosa: - PA < 185 x 110 mmHg: para começar a trombolisar; - < 180 x 105 mmHg: durantea infusão e nas próximas 24h pós trombólise. • Contraindicações da trombólise: - Tumor intracraniano; - Acidente recente; • Suspender a trombólise: - Rebaixamento do nível de consciência; - Sangramentos graves; - Piora neurológica (crise convulsiva, piora do déficit); - Aumento persistente da PA (acima dos níveis máximos). Investigação etiológica Depois de ter estabilizado e tratado o paciente o próximo passo é investigar a causa do AVC; • Estudo dos vasos intra e extracranianos; - Doppler de carótidas e vertebrais; - Angiografia (angiotomografia, angio- ressonância); • Avaliação cardíaca: - ECG/Holter; - Ecocardiograma; • Outros (conforme suspeita); • Profilaxia secundária: Controle da pressão no AVC hemorrágico: • Controle dos níveis pressóricos: PAS < 160/140 mmHg; • Correção de coagulopatias – se indicado; - Complexo protrombínico; - Vitamina K; - Plasma fresco; - Inibidor de fator VII; - Fator VIIa recombinante ativado. Na tomografia o sangue é branco (hiperdenso). 189 Capítulo 10 O exame físico do aparelho locomotor é feito através da inspeção, palpação e movimentação; É necessário comparar articulações homólogas, procurando reconhecer atrofia, desalinhamento articular, deformidades, nódulos e fístulas, ou: Alterações de pele e fâneros: • LES: lesões eritematosas ou eritemoescamosas atróficas, principalmente, nas regiões malares; • Dermatomiosite: eritema e edema periorbitário (heliotropo); Nódulos justarticulares: • Nódulos subcutâneos, indolores e localizados na face posterior do cotovelo ocorrem na artrite reumatoide, aparecendo também no LES ou na doença reumática; • Nódulos eritematosos, hipersensíveis, localizados na face anterior das pernas, são típicos de eritema nodoso; • Depósitos de uratos na GOTA crônica podem ser encontrados na face posterior dos cotovelos, tendões de aquiles e no pavilhão da orelha; Alterações da pele nos locais das articulações, aumento de volume; • O aumento de volume de uma articulação pode ser devido a várias causas, como edema de partes moles, derrames intra-articulares, espessamento da membrana sinovial e da cápsula articular, crescimento ósseo localizado (osteófitos, exostoses, periostite), depósitos de uratos (tofos) ou calcificações; Sinais inflamatórios: edema, calor, rubor e impotência funcional indica a existência de artrite; Análise da postura: com o paciente em posição ortostática, é possível reconhecer geno varum, geno valgum, pé plano ou cavo, cifose, escoliose e cifoescoliose; A avaliação dos movimentos das articulações torna possível a verificação de dor e do grau de impotência funcional. Para isso, é fundamental conhecer os movimentos normais de cada articulação para maior facilidade em detectar e avaliar a amplitude dos movimentos ou evidenciar movimentos anormais; Marcha: a modificação da marcha pode sugerir enfermidades vertebrais e osteoarticulares dos Tufos pilosos (defeitos no fechamento do tubo neural) Manchas “café com leite” (presentes na neurofibromatose) Artrite séptica GOTA 190 Capítulo 10 membros inferiores (traumáticas, metabólicas, congênitas, inflamatórias e degenerativas); Deve ser profunda para palpar a parte óssea, muscular e articular; Pela palpação, é possível determinar a causa do aumento do volume articular, a presença de pontos hipersensíveis no nível da linha interarticular e em outras áreas, a presença de tumorações (nódulos, ossificações, neoplasias) e o aumento da temperatura local; Crepitações: • Quando são grosseiras e envolvem articulações, denotam comprometimento da cartilagem articular, significando degeneração articular; • Quando envolvem os ossos, denotam fratura. É necessário pesquisar os movimentos ativo e passivo, comparando articulações homólogas e estar atento às reações do paciente, em especial à demonstração de dor; Sempre que possível, a amplitude dos movimentos precisa ser medida em graus, partindo-se de uma posição neutra que seria o ponto zero; Não sendo possível medir em graus, pode-se falar em limitação total, quando a articulação está impossibilitada de fazer a mínima movimentação, ou em limitação parcial, que pode ser mínima, moderada ou intensa (quase total). Inspeção: Observe a face quanto à simetria e observe a ATM à procura de tumefação ou vermelhidão; • Distúrbios de ATM: pode observar assimetria facial com dor orofacial, geralmente unilateral ao mastigar, espasmo da mandíbula ou rangido dos dentes. Frequentemente está associada ao estresse e acompanhada de cefaleia; Palpação: Coloque a ponta dos dedos indicadores à frente do trago de cada orelha e peça ao paciente para abrir a boca. Dessa forma, as pontas dos dedos devem deslizar para os espaços articulares, quando a boca do paciente abrir. Inspeção estática: • Observe a posição das mãos em movimento uniforme e natural; - Lesões no tendão flexor causa alinhamento anormal dos dedos das mãos; • Desvios ou deformidades nos dedos: é necessário observar se existem deformidades simétricas nas articulações interfalangianas proximais, metacarpo falangianas e nas articulações do punho, pois, geralmente essas articulações são acometidas na artrite reumatoide. Além disso, com a progressão dessa doença, ocorrem subluxação da MCF e desvio ulnar; 191 Capítulo 10 • Presença de nódulos: - Nódulos de Heberden (articulações IFD) e nódulos de Bouchard (articulações IFP) indicam osteoartrite; • Edema articular ou sinais de traumatismo: - O edema difuso é comum na artrite ou na infecção; • Tumefação localizada sugere cisto sinovial; Palpação: Palpação do punho: Palpe no punho as partes distais do rádio e da ulna, nas superfícies lateral e medial e depois palpe o sulco de cada articulação do punho. Verifique se há edema, empastamento ou dor; • Fratura de Colles: fratura extra-articular com dor à palpação na parte distal do rádio após uma queda. Comum em idosos, devido a osteoporose e ocorre em jovens devido a traumas de alta energia. Provoca uma deformidade, conhecida como “dorso de garfo”; Palpação da tabaqueira anatômica: palpe o processo estiloide do rádio e a tabaqueira anatômica. Dor à palpação na “tabaqueira” com o punho em desvio ulnar e dor no tubérculo escafoide representam suspeitas de fratura escafoide oculta; Palpação das articulações metacarpofalangianas e interfalangianas: • Nódulos Heberden/Bouchard: Nódulos de consistência endurecida nas articulações IFD são comuns na osteoartrite; • Artrite psorisíaca: as articulações IFD também são comprometidas nessa doença; Inspeção dinâmica: Punhos: pronação/supinação e flexão/extensão; Dedos: adução/abdução, flexão/extensão e polegar + indicar simulando uma pinça; Artrite reumatoide 192 Capítulo 10 Síndrome do túnel do carpo: Compressão do nervo mediano, na qual o paciente se queixa de dormência noturna nos braços ou nas mãos (parestesias), relata deixar cair objetos, incapacidade de abrir tampas de vidros, dor vaga no punho o até mesmo no antebraço e dormência nos três primeiros dedos; Fatores de risco: Trabalho manual repetitivo vigoroso com flexão do punho, como uso de teclados e de computadores, vibração, ambientes frios, DM, gestação e hipotireoidismo; Testes: • Preensão manual: solicite que o paciente segure seu segundo e terceiro dedos da mão. Isso testa a função das articulações dos punhos, dos flexores dos dedos e dos músculos da mão. A diminuição da força de preensão representa um teste positivo para a fraqueza dos músculos flexores dos dedos e intrínsecos da mão; • Abdução do polegar: