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ATIVIDADE INTEGRADORA COMUM I: HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA PROFESSOR Dr. Carlos Herold Junior ATIVIDADE 2 Coordenador(a) de Conteúdo Mara Cecilia Rafael Lopes, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração Humberto Garcia da Silva, Designer Educacional Ana Claudia Salvadego, Qualidade Textual Hellyery Agda, Revisão Textual Danielle Loddi, Pedro Afons Barth Ilustração Bruno Pardinho, Fotos Shutterstock. C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; JUNIOR, Carlos Herold. Atividade Integradora Comum I: História da Educação Física. Carlos Herold Junior. Maringá - PR.:Unicesumar, 2023. 192 p. “Graduação em Educação Física - EaD”. 1. Educação Física. 2. Corpo na História. 3. Práticas Corporais. 4.EaD. I. Título. CDD - 22ª Ed. 701.1 CIP - NBR 12899 - AACR/2 NEAD Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 Jd. Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Chrystiano Mincoff, James Prestes, Tiago Stachon Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Cursos Híbridos Fabricio Ricardo Lazilha Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Diretoria de Design Educacional Paula R. dos Santos Ferreira Head de Graduação Marcia de Souza Head de Metodologias Ativas Thuinie M.Vilela Daros Head de Recursos Digitais e Multimídia Fernanda S. de Oliveira Mello Gerência de Planejamento Jislaine C. da Silva Gerência de Design Educacional Guilherme G. Leal Clauman Gerência de Tecnologia Educacional Marcio A. Wecker Gerência de Produção Digital e Recursos Educacionais Digitais Diogo R. Garcia Supervisora de Produção Digital Daniele Correia Supervisora de Design Educacional e Curadoria Indiara Beltrame Viver e trabalhar em uma sociedade global é um grande desafio para todos os cidadãos. A busca por tecnologia, informação, conhecimento de qualidade, novas habilidades para liderança e solução de problemas com eficiência tornou-se uma questão de sobrevivência no mundo do trabalho. Cada um de nós tem uma grande responsabilidade: as escolhas que fizermos por nós e pelos nossos fará grande diferença no futuro. Com essa visão, o Centro Universitário Cesumar assume o compromisso de democratizar o conhecimento por meio de alta tecnologia e contribuir para o futuro dos brasileiros. No cumprimento de sua missão – “promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária” –, o Centro Universitário Cesumar busca a integração do ensino-pesquisa-extensão com as demandas institucionais e sociais; a realização de uma prática acadêmica que contribua para o desenvolvimento da consciência social e política e, por fim, a democratização do conhecimento acadêmico com a articulação e a integração com a sociedade. Diante disso, o Centro Universitário Cesumar almeja ser reconhecida como uma instituição universitária de referência regional e nacional pela qualidade e compromisso do corpo docente; aquisição de competências institucionais para o desenvolvimento de linhas de pesquisa; consolidação da extensão universitária; qualidade da oferta dos ensinos presencial e a distância; bem-estar e satisfação da comunidade interna; qualidade da gestão acadêmica e administrativa; compromisso social de inclusão; processos de cooperação e parceria com o mundo do trabalho, como também pelo compromisso e relacionamento permanente com os egressos, incentivando a educação continuada. Wilson Matos da Silva Reitor da Unicesumar boas-vindas Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comunidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram a informação e a produção do conhecimento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Então, priorizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Willian V. K. de Matos Silva Pró-Reitor da Unicesumar EaD Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o AVA – Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. boas-vindas Débora do Nascimento Leite Diretoria de Design Educacional Janes Fidélis Tomelin Pró-Reitor de Ensino de EAD Kátia Solange Coelho Diretoria de Graduação e Pós-graduação Leonardo Spaine Diretoria de Permanência Professor Doutor Carlos Herold Junior Pós-Doutoradoem Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/2011). Pós-Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR/2009). Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR/2006). Mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM/2000). Graduação em Educação Física pela Universidade Estadual de Maringá (UEM/1995). Profissionalmente, atua como professor universitário desde o ano de 1999, quando ingressou no Departamento de Pedagogia da Universidade Estadual do Centro-Oeste (UNICENTRO, Guarapuava). Em 2013, passou a trabalhar no Departamento de Educação Física da Uni- versidade Estadual de Maringá (UEM) e hoje leciona as disciplinas de Didática em Educação Física, Lutas e Análise dos Dados Qualitativos em Educação Física. Para informações mais detalhadas sobre sua atuação profissional, pesquisas e publicações, acesse seu currículo, disponível no endereço a seguir: <http://lattes.cnpq.br/9723444517016722>. apresentação do material Atividade Integradora Comum I: História da Educação Física Carlos Herold Junior Caro(a) aluno(a), ao escolhermos determinada profissão tomamos uma importante decisão. Tal decisão gera muitas consequências, dizendo muito do que já somos e, sobretudo, muito daquilo que seremos em muitas dimensões de nossa vida, para além da dimensão profissional. Ao folhear este livro sobre a “História da Educação Física”, você indica a escolha por conhecer de um modo mais aprofundado um universo ligado ao ensino das variadas práticas corporais e de seu ensino. Digo mais aprofundado pois, para muitos de nós, não faltam recordações nem “conhecimentos” sobre a natureza do envolvimento com essas práticas: nas escolas e fora delas, nós brincamos, joga- mos, treinamos. Adultos, preocupamo-nos com nossa saúde, com nossa aparência ou apenas nos divertimos com essas atividades. Enfim, é muito improvável que alguém, na condição de iniciar qualquer curso universitário, não possua algum conhecimento sobre as atividades associadas ao universo das práticas corporais. É a história delas que estudaremos. Antes de entrarmos na reflexão sobre essa história, é importante você ter claro que as diferentes disciplinas do curso proporcionam variados olhares sobre o conjunto de atividades citadas anteriormente e as perspectivas de trabalho com elas. Sabemos que quando olhamos algo de um lugar, vemos algumas coisas mais claramente, enquanto outras são totalmente negligenciadas ou têm sua visão atrapalhada por alguma coisa que se interpõe entre nosso olhar e aquilo que queremos ver. Quando optamos por estudar o universo das práticas corporais e sua presença na escola por meio de um viés histórico, é importante reconhecer que isso nos trará a condição de olhar a es- cola, as práticas corporais, os professores e os alunos nas aulas de aula de educação física de um modo mais complexo. Enxergaremos coisas que não eram percebidas antes. Com este estudo, espero que você passe a verificar que, nas milhares de aulas de educação física - nas quais professores e alunos se relacionam, todos os dias, país afora, em uma sucessão de fatos, problemas e expectativas do dia a dia escolar - há uma história a ser estudada, conhecida e produzida. Uma história percebida como lupa, como um telescópio, a capacitar seu olhar para enxergar, atentamente, tanto as nuances quanto os horizontes mais amplos. Com essas lentes, que você saiba da existência de um caminho percorrido por professores e alunos de outras épocas, que levou até o contexto em que vivemos, o qual merece ser alvo da atenção daqueles que darão vida a essa história, daqui para frente. Demonstrar as vantagens de se conhecer a histó- ria da educação física não deve secundarizar o re- conhecimento de que esse olhar não consegue ver tudo, e muito do que se vê na reconstrução desse caminho não tem a clareza que gostaríamos. Talvez você experimente, durante a rica gama de disciplinas que serão oferecidas em seu curso, que conhecer as coisas de uma forma mais clara também produz “escuridões”. No caso da história da educação física, será mostrado que, embora ela tenha ajudado todo um campo do conhecimento a se conhecer melhor e propor alternativas a alguns de seus problemas, ela, constantemente, tem suas observações refeitas, da mesma maneira que tem a importância de seu olhar questionada. Espero mostrar que o valor do estudo da história da educação física também acontece por evidenciar que as competências, as experiências e a sabedoria acumuladas com o passar do tempo de- vem ser, sempre, regradas, limitadas, continuamente postas em dúvida. Dúvidas que aumentam na mesma proporção de uma curiosa avidez, e, certamente, cul- tivá-las nos dará a capacidade de encontrar não ape- nas soluções, mas novos problemas, novos desafios e limites. Sem esse cultivo intelectual, as aulas educação física continuarão apenas a ser aquilo que são para quem não estuda tal campo: crianças e jovens indo para a quadra e voltando para a sala de aula depois de “jogarem bola” ou “suarem a camisa”. Admirar belezas e se espantar com absurdos, insuspeitos para muitos olhos, é a condição à qual aspira este livro sobre a História da Educação Física. Essa intenção de estudar a história da educação física será composta de cinco unidades. Na primeira, explico algumas características da análise histórica e busco aprofundar as considerações sobre a importância desse estudo no curso. Na segunda unidade veremos que, em diferentes períodos, homens e mulheres entendiam e sentiam diferentemente seu corpo e o corpo dos outros. Na unidade III o foco é práticas corporais. A próxima unidade evidencia diferentes modos como muitas das práticas corporais ainda hoje existentes surgiram e eram avaliadas, sendo estudada, também, sua importância no lazer, na cultura e na educação. Na quarta unidade veremos que, embora a educação, o corpo e as práti- cas corporais tenham raízes profundas na história da humanidade, a escola e a disciplina de educação física são invenções mais recentes, e são elas, no processo de sua construção, que iremos entender. Focaremos esse processo também no contexto brasileiro, na última uni- dade. Acredito que, com o apoio dessa trajetória, você perceberá e entenderá muito daquilo que experimentou como aluno da educação básica e aquilo que poderá fazer como professor(a) de educação física. Ótimos estudos! apresentação do material sumário UNIDADE I O CONHECIMENTO HISTÓRICO E O PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA 16 Tem história em um curso de educação física? 19 A importância do conhecimento histórico para o professor de educação física 28 O que se estuda na história da educação física? 33 Como se produz o conhecimento histórico sobre a educação física? 38 A história da educação física também tem uma história 43 Considerações Finais 46 Referências 49 Gabarito UNIDADE II PENSANDO O CORPO NA HISTÓRIA 54 O corpo não é apenas sua anatomia 61 A filosofia começa e continua...no corpo 67 Eu tenho um corpo ou sou um corpo? Os muitos eus e os muitos corpos que existiram na história 73 Os ódios e os amores devotados ao corpo na história 78 Prazeres e deveres no cuidado com o corpo 82 Considerações Finais 87 Referências 88 Gabarito sumário UNIDADE III OLHANDO HISTORICAMENTE AS PRÁTICAS CORPORAIS 94 As muitas práticas corporais 98 A ginástica 102 Os jogos 106 O esporte 110 As lutas e as artes marciais 115 Considerações Finais 119 Referências 121 Gabarito UNIDADE IV EDUCAR É EDUCAR O CORPO: A ESCOLA E A EDUCAÇÃO FÍSICA 126 Educação corporal e educação física escolar 131 Educar o corpo na escola, para quê? 135 A educação física escolar tornar-se... escolar 139 As ciências da educação, o corpo e a educação física: o longo século XX 142 O corpo tem lugar na escola? 146 Considerações Finais 150 Referências 151 Gabarito sumário UNIDADE V A EDUCAÇÃO FÍSICA NA HISTÓRIA DA ESCOLA BRASILEIRA 156 Escola e educação física na passagem ao séculoXX: muitos pensamen- tos e uma realidade 162 Discutindo a presença das práticas corporais na escola brasileira: plurali- dade de modelos 168 Formando professores de educação física: o que fica dessa história? 175 Os caminhos até nós: como a educação física escolar se tornou o que é? 179 Educação física e escola: pensando futuros ao pensarmos passados 184 Considerações Finais 189 Referências 191 Gabarito Professor Dr. Carlos Herold Junior Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Tem história em um curso de educação física? • A importância do conhecimento histórico para o professor de educação física • O que se estuda na história da educação física? • Como se produz o conhecimento histórico sobre a educação física? • A história da educação física também tem uma história Objetivos de Aprendizagem • Sublinhar que a formação profissional em educação física possui uma história. • Evidenciar a importância de se estudar história em um curso de educação física. • Estudar os principais assuntos abordados quando se estuda a história da educação física. • Ponderar as possibilidades e as dificuldades na produção do conhecimento histórico em educação física. • Analisar a história da produção do conhecimento histórico em educação física. O CONHECIMENTO HISTÓRICO E O PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA I unidade INTRODUÇÃO Assim como conhecemos pela prática muitas das atividades corporais e muito de seu ensino na escola por termos sido alunos, também temos alguma familiaridade com o ato de começar estudando algum assunto abordando sua história. O hábito tem o seu valor, afinal, como ocorre em todos os hábitos que possuímos, ele caracteriza-se por ser um automatismo que nos liberta para pensarmos em coisas mais interessantes. O que faremos nesta unidade, todavia, é nos preocuparmos menos com o que compraremos no mercado e mais com a caminhada que até lá nos leva. Ou seja, o alvo das reflexões nos próximos tópicos é a “caminhada” histórica que realizaremos nas próximas unidades, pensando na sucessão de seus pas- sos, na velocidade desses passos e nos cuidados que devemos ter para chegar onde queremos, sem muitos tropeços e desvios no caminho. Nosso destino final é “enchermos a nossa sacola” com tudo aquilo que precisamos para pensar nas práticas corporais e na educação física escolar historicamente. Realizar essa postura intelectual de pensar os passos de um tipo de reflexão antes de se abordar o conteúdo da própria reflexão é algo bastan- te importante, embora demande algum zelo e esforço. Do mesmo modo que a caminhada fica um pouco mais lenta quando deliberamos a su- cessão dos gestos que nos levam à frente, analisar a “análise histórica” demandará algumas voltas, alguns passos para trás, algumas paradas que podem gerar impaciência aos mais apressados. Entretanto, depois de fei- ta a reflexão sobre o até então “automático” gesto de “saber o aconteceu”, iniciaremos o estudo da história em melhores condições para se apreciar a beleza, os detalhes e as lacunas da história que será analisada, coisas que não víamos devido à pressa com que caminhávamos. Realizar a promessa de pensar as características de uma determinada forma e de encarar os assuntos educacionais passa pela busca de algumas respostas: quais as ra- zões e as maneiras de se estudar história em um curso de educação física? Bons estudos! ATIVIDADE 16 Caro(a) aluno(a), quando vemos as diferentes ins- tituições de ensino superior divulgarem seus cur- sos de educação física, comumente essa divulgação é associada a imagens de acadêmicos jogando ou praticando algum tipo de atividade corporal sob a supervisão de um professor. É compreensível que assim seja, pois, de fato, durante um curso de educação física, são momentos bastante relevantes aqueles em que executamos e passamos a conhe- cer diferentes formas de movimentação corporal. Mesmo que não seja essa a intenção desses atos pu- blicitários, é corriqueiro o espanto de alguns aca- dêmicos quando se deparam com outra rotina. Em alguns, gera-se alguma surpresa o fato de que, ao lado da tão divulgada e apreciada prática de ativi- dades, os cursos de educação física possuam, tam- bém, uma grande quantidade de disciplinas cujo empenho manifesta-se na forma de leitura e reda- ção de textos, na participação de aulas expositivas e discussões sobre variados temas. Para alguns acadêmicos, todavia, isso não é uma surpresa. Afinal, muitos procuram os cursos de edu- cação física devido à grande experiência prática que possuem nos variados campos das atividades cor- porais e, por isso, ansiosamente aguardam e, cor- retamente, cobram um curso com uma boa carga horária de conteúdos científicos e culturais que in- crementem sua formação. Na atualidade, de forma geral, os cursos atendem a essa demanda, colocando em suas matrizes curriculares disciplinas de dife- rentes áreas do conhecimento. Entretanto, apesar da variedade de áreas de conhecimento presentes nas matrizes curriculares dos cursos de educação físi- ca, é comum se caracterizarem por uma maior vi- sibilidade e presença de disciplinas cuja vinculação acadêmica encontra-se nas ciências biológicas e da TEM HISTÓRIA EM UM CURSO DE EDUCAÇÃO FÍSICA? EDUCAÇÃO FÍSICA 17 saúde. Fisiologia, anatomia, bioquímica, nutrição, biomecânica, entre outros, são importantes campos de estudo que, historicamente, têm marcado o ramo de educação física. Há boas e justas razões para isso, e elas poderão ser entendidas mais a frente nes- te livro. Por ora, essa constatação deve apenas nos ajudar a marcar que, ladeando essas disciplinas de cunho biológico, as disciplinas vinculadas aos cam- pos da pedagogia e das ciências humanas e sociais, da filosofia e da história também se fazem presentes, embora não sejam por elas que um curso de educa- ção física seja reconhecido. Sublinho que a presença dessas últimas disciplinas nas matrizes curriculares não é algo que passou a acontecer apenas nos últi- mos anos. Desde o início dos processos sistemáticos de formação profissional no campo da educação fí- sica no Brasil, a partir de 1920, é possível verificar a presença de disciplinas que abordavam a história. Porém a história “ocupava um lugar menor e gozava de um prestígio intermediário, já que embora fosse teórica era não-médica” (MELO, 1999, p. 22). Temos, então uma situação bastante curiosa: ao ingressarmos em um curso de educação física tomamos contato com algumas tradições. Mencio- nei duas: a que o reduz às práticas corporais e uma outra que enxerga o curso de educação física como relacionado ao campo das ciências biológicas. Digo curiosa, pois, nenhuma dessas tradições é equivo- cada por elas mesmas. Elas têm sua importância na formação dos professores de educação física e não precisam ser assumidas como erradas ou até men- tirosas. A tentativa daqueles que têm pesquisado a formação profissional de educação física e daqueles que nela ingressam é refletir sobre as razões dessa realidade se manifestar com tais tradições, visando encontrar espaços para que essa formação se apri- more, incorporando outras matrizes disciplinares para serem estudadas e conhecidas por todos. Essa tentativa vem sendo feita de modo mais in- tenso nos últimos 30 ou 40 anos no campo da educa- ção física e, entre outras coisas, redundou na publi- cação de um documento que direciona ou que guia as instituições de ensino superior quando elas criam cursos de educação física. Trata-se da Resolução n.º 07 do Conselho Nacional de Educação, de 2004. Ela institui as diretrizes curriculares nacionais para os cursos de educação física (BRASIL, 2004). Impor- tante para a reflexão desse tópico é o que lemos no artigo 4 do documento e que nos ajuda a entender o fato de você estar folheando as primeiras páginas de um livro sobre história da educação física: O curso de graduação em Educação Física de- verá assegurar uma formação generalista, hu- manista e crítica,qualificadora da intervenção acadêmico-profissional, fundamentada no ri- gor científico, na reflexão filosófica e na condu- ta ética (BRASIL, 2004, p. 1). Tão importante quanto o parágrafo que acabo de citar é o primeiro inciso desse mesmo parágrafo. Nele, se endossa a necessidade das duas tradições menciona- das anteriormente se conjugarem a um outro conjun- to de reflexões, pautadas em conhecimentos advindos das ciência humanas, da filosofia e da história: O graduado em Educação Física deverá estar qualificado para analisar criticamente a reali- dade social, para nela intervir acadêmica e pro- fissionalmente por meio das diferentes mani- festações e expressões do movimento humano, visando a formação, a ampliação e o enrique- cimento cultural das pessoas, para aumentar as possibilidades de adoção de um estilo de vida fi- sicamente ativo e saudável (BRASIL, 2004, p. 1). ATIVIDADE 18 Interessante verificarmos que esse “dever ser” de um curso de educação física, ao lado de enfatizar o rigor científico, prioriza, também, uma formação “gene- ralista, humanista e crítica”, sustentada na “reflexão filosófica e na conduta ética” (BRASIL, 2004, p. 1). Caminhando para o mesmo sentido, vemos no ar- tigo 6 das mesmas diretrizes serem mencionadas “com- petências de natureza político-social” e “ético-moral” em igual pé de igualdade com as “competências técnico- -profissionais e científicas”. Nessa análise, elas formam a “concepção nuclear do projeto pedagógico de formação do graduado em educação física” (BRASIL, 2004, p. 2). Tudo isso deve ser mantido a sua frente, sobre- tudo, se for considerado que você está iniciando sua informação. Durante sua trajetória no curso, é im- portante não perder de vista que o rigor científico é um dos componentes que se materializam no veio fortemente biologizante das matrizes curriculares dos cursos de educação física. Sendo ele um traço muito valioso desses cursos, o fomento de uma formação crítica, que capacite aos acadêmicos refletirem filo- soficamente e eticamente suas problemáticas forma- tivas, também o é. Isso demanda a presença de outras formas de reflexão. Nesse caso, as que se vinculam às ciências humanas, sociais e históricas. No documen- to que está servindo de base a estas reflexões, essas outras formas de reflexão realizam-se na matriz cur- ricular quando ela aborda a “dimensão do conheci- mento” que trata a “relação ser-humano e sociedade” (BRASIL, 2004, p. 3). Essas considerações evidenciam que você escolheu um campo profissional que está se submetendo a um processo de ampliação de suas práticas formativas. Apesar de algumas antigas práti- cas ainda estarem presentes, muitas delas por terem, ainda, seu valor, a elas agregam-se outras concepções. Por meio delas realiza-se a defesa de que os futuros professores de educação física devem ser formados com um olhar mais matizado e mais competente para visualizar coisas que antes não eram tomadas como importantes. Um olhar que dê condições de pensar a relação ser-humano e sociedade para além das for- mas usuais ou cotidianas que temos feito por estar- mos vivos e sermos inteligentes, e que continuarão a ser feitas quando pensarmos em outras dimensões da vida social para a qual não somos, sistematicamente, formados. Por esse motivo o estudo atento, também em um curso de educação física, de disciplinas que possuam relação com a sociologia, antropologia, filo- sofia e história. Por esse motivo, a resposta à pergunta que intitula este item é: sim, tem história no curso de educação física! E você aprenderá um pouco mais so- bre as características deste estudo nos itens seguintes. EDUCAÇÃO FÍSICA 19 Na atualidade, o vocábulo “conhecimento” tem sido alvo de grande atenção. Quando falamos “conheci- mento”, dificilmente a ele associamos ideias negati- vas, problemas ou perda de tempo. É o contrário que ocorre: é muito corrente o raciocínio que atribui ao conhecimento a possibilidade de solução de todos os nossos problemas sociais. Essa crença, geralmen- te, associa, unilateralmente, o conhecimento a “co- nhecimento científico” Do mesmo modo como ocorre com muitos as- suntos, não podemos, simplesmente, descartar a as- sertiva, atribuindo a ela o resultado de um delírio. O que há algum tempo se concorda é a necessidade de relativizarmos o peso dessa defesa da ciência como condição única de superação de muitas limitações sociais, verificando outras variáveis - as políticas e as éticas, por exemplo -, igualmente importantes para a análise e superação de desafios sociais, econômicos e morais. A quem defende esse tipo de posicionamen- to, uma justificativa para tanto é o fato de que uma postura menos ufanista em relação à produção e di- fusão do conhecimento científico possibilitaria uma postura intelectual mais atenta à complexidade não apenas sobre os assuntos que se quer conhecidos, mas sobre a nossa capacidade e limites de conhecer essas mesmas coisas. A IMPORTÂNCIA DO CONHECIMENTO HISTÓRICO PARA O PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA ATIVIDADE 20 A quem se dedica à produção e difusão do conhe- cimento histórico, essas questões são de fundamental importância. Em primeiro lugar, atribuir à produção e à difusão do conhecimento científico a possibilida- de de uma evolução social caracteriza como impor- tante apenas o conhecimento diretamente útil. Em segundo lugar, essa utilidade é, constantemente, en- tendida como mensurável, captada matematicamen- te, deixando de lado contradições valorativas, sociais e políticas, tomadas, assim, como subjetivas, não relevantes e até geradoras de dificuldades ao conhe- cimento exato daquilo que nos aflige. Aos historia- dores e aos estudiosos da história da educação física, tratam-se de posicionamentos que geram muita difi- culdade, sobretudo pelo fato de essa ótica deixar bas- tante difícil a resposta às seguintes indagações: para que serve a história? Qual a utilidade da história para o enfrentamento dos problemas atuais? Qual o valor da história para quem trabalhará como professor de educação física? Historiadores de um modo geral e pesquisadores e professores de história da educação física têm se ocupado dessas questões. Vamos, então, analisar algumas tentativas de respondê-las. Para pensarmos de forma mais atenta na ques- tão da utilidade e da objetividade do conhecimento histórico, um caminho interessante é voltar nossa atenção para uma obra de grande valor no campo da história: “Apologia da História”, de March Bloch (2001). Quando fazemos uma apologia, fazemos não apenas a defesa ou o elogio de algo, mas fazemos isso de uma forma apaixonada, intensa. March Bloch fez isso enquanto estava preso pelo exército alemão, no contexto da II Guerra Mundial. O livro se inicia de um modo bastante ilustrativo para o começo de um curso de graduação que tem sua atenção voltada para um campo de atuação relativamente distante das inquietações de um historiador. Inicia Bloch: ‘Papai, então me explica para que serve a his- tória’. Assim um garoto, de quem gosto muito, interrogava há poucos anos um pai historiador. [...] Alguns, provavelmente, julgarão sua formu- lação ingênua. Parece-me, ao contrário, mais que pertinente. O problema que ela coloca, com a incisiva objetividade dessa idade implacável, não é nada menos do que a da legitimidade da história. Eis portanto o historiador chamado a prestar contas (BLOCH, 2001, p. 41). Bloch, então, passa a construir algumas reflexões, iniciando-as pela constatação de que a história exer- ce uma atração muito forte nas pessoas. Com efeito, para além dos esforços acadêmicos feitos nas uni- versidades, mas muito relacionadas ao que nelas é produzido, há uma enormidade de livros sobre fa- tos, personalidades, curiosidades extraídas dos mais diferentes tempos. Mas o historiador francês não perde a paciência e reconhece que “uma ciência nos parecerá sempre ter algo de incompleto se não nos ajudar, cedo ou tarde, a viver melhor” (BLOCH, 2001,p. 45). Essa ajuda é proporcionada pelo conhe- cimento produzido pelo historiador, considerando- -o como uma possibilidade, como um “esforço para conhecer melhor” (BLOCH, 2001, p. 46). Nesse esforço, porém, Bloch não desconsidera que a história é uma “ciência na infância” (BLOCH, 2001, p. 47). Essa advertência não deve ser tomada como um reconhecimento de que quando a vida adulta chegar, ela poderá conhecer todas as problemáticas que hoje (ou ainda nos anos em que escreveu Bloch) são “desespe- radamente refratárias a um conhecimento racional” (BLOCH, 2001, p. 47). Dito de outro modo, é impor- tante reconhecer que a possibilidade de pensarmos melhor a nós mesmos e, por isso, assumir a utilidade da história, não leva à necessidade de os historiadores tomarem seu conhecimento como um conhecimento menor ou menos “científico”. Afinal, se “toda ciência, to- EDUCAÇÃO FÍSICA 21 mada isoladamente, não significa senão um fragmento do universal rumo ao conhecimento” (BLOCH, 2001, p. 50), o conhecimento histórico é importante, é útil, justa- mente por produzir um conhecimento que, assim como a criança, questiona todos os assuntos concernentes aos seres humanos em sociedade, com a mesma postura “implacável”, com a mesma “curiosidade de um rapazo- la” (BLOCH, 2001, p. 43). Por isso, Bloch faz sua Apolo- gia, que pode ser sintetizada na passagem a seguir: Não sentimos mais a obrigação de buscar impor a todos os objetos do conhecimento um mode- lo intelectual uniforme, inspirado nas ciências da natureza física, uma vez que até nelas esse gabarito deixou de ser integralmente aplicado. Não sabemos ainda muito bem o que um dia serão as ciências do homem. Sabemos que para existirem - mesmo continuando, evidentemen- te, a obedecer às regras fundamentais da razão - não precisarão renunciar à sua originalidade, nem ter vergonha dela (BLOCH, 2001, p. 49). Vamos nos atentar para a relevância dessa afirmação para se pensar nas possibilidades do conhecimento histórico em um curso de educação física. Em primei- ro lugar, Bloch (2001) nos evidencia que, aos estudar- mos dimensões da vida societária, a precisão comu- mente associada à ciência não é nem possível e nem desejável. Ele afirma, inclusive, que nem nos limites das ciências que se aproximam do tradicional cânone das ciências exatas e das ciências biológicas, isso já não vinha acontecendo em sua época. Ao observar isso para o campo da história e com isso justificar sua importância intelectual para se evitar o “horror das responsabilidades” (BLOCH, 2001, p. 46), ou seja, para se querer impactar positivamente a vida que se vive, Bloch gera outro impacto para quem pensa na formação em educação física: mais um estímulo para se reconhecer que as já citadas tradições formativas no campo da educação física, aproximadas às tais ciências exatas e biológicas, podem ser entendidas e superadas naquilo em que elas são limitadas. Trazer para a educação física os “perpétuos arrependimen- tos” do conhecimento histórico e dos historiadores será um passo gigantesco para todos aqueles, cien- tistas, historiadores e professores de educação física, possam de “maneira mais segura”, “orientar racional- mente seus esforços” (BLOCH, 2001, p. 49). Perpetuamente arrepender-se do conhecimento que produz, ou seja, justificar, renovadamente, a rele- vância e o limite da reflexão histórica, é uma postura muito rica, necessária e recorrente nos pesquisadores da história da educação física. Em muitas oportuni- dades eles se voltam a essa questão, estimulando-nos e, com certeza, buscando estímulos para eles mesmos, na tarefa de “orientar racionalmente seus esforços” (BLOCH, 2001, p. 49). Melo (1999), ao introduzir um livro ao qual recorreremos com frequência no desen- volvimento de nossas reflexões, endossa o valor da reflexão sobre a importância da história, quando pen- sada em curso de formação inicial em educação física: Por que temos que estudar história em um cur- so de graduação em Educação Física? É possível que esta pergunta já tenha sido diversas vezes pronunciada entre alguns estudantes e profes- sores dos diversos cursos superiores ligados à formação do professor de Educação Física es- palhados pelo Brasil. Afinal, em que o estudo da história estaria a contribuir na formação do futuro professor? Haveria realmente espaço e necessidade de uma disciplina específica para estudos dessa natureza? (MELO, 1999, p. 19). Treze anos depois que foram publicadas essas dú- vidas, outra pesquisadora que será bastante citada neste livro, Goellner (2012) redigiu um texto com a mesma característica: argumentar a importância ATIVIDADE 22 sobre a história da educação física na formação dos futuros professores deste campo. Compreensível é que o mesmo tom problematizador que lemos no texto de Melo (1999) também marque o artigo de Goellner (2012) já no seu início: Por que estudar História no curso de formação em Educação Física? Que aplicabilidade o co- nhecimento histórico tem na atuação cotidiana dos seus professores e professoras? Com tantas informações disponibilizadas pelas novas tec- nologias de informação, porque é necessário ler autores clássicos da área? Se a Educação Física é uma área voltada para a saúde, a performance e a educação corporal de crianças, jovens e adul- tos, o que interessa o conhecimento histórico? (GOELLNER, 2012, p. 37) A estratégia que adoto para evidenciar a importân- cia de estudarmos história da educação física nas páginas que se seguem é inspirada nesses pesquisa- dores. Ao compreendermos a razão das perguntas que os alunos, na sua implacável objetividade, nos colocam, damos a ela sua importância. As perguntas são repetidas, é posto em evidência que elas são jus- tas, mas, igualmente, a dúvida colocada explicita um desconhecimento a ser encarado, qual seja: as carac- terísticas e a importância de estudarmos história. Em primeiro lugar, vale sinalizar essas hesita- ções de todos aqueles que começam a estudar a “his- tória de alguma coisa” quando têm mais interesse no “alguma coisa” e não no “história”, explica-se pela persistência de uma concepção de história bastante simplificada. Essa simplificação, na maioria dos ca- sos, persiste no avanço dos anos escolares e, talvez, justamente por esse avanço, essa concepção simplis- ta tenha lançado raízes tão profundas no entendi- mento de muitos. Lee (2006), ao estudar a maneira como alunos da educação básica e do ensino médio entendem o passado, enxerga algumas característi- cas que, acredito, nos ajudam a entender a recorrên- cia dos questionamentos apresentados anteriormen- te pelos pesquisadores da história da educação física. Em primeiro lugar, Lee (2006) nota que é comum a compreensão de que “o passado é como uma pai- sagem distante, atrás de nós, simplesmente fora do alcance, fixa e eterna” (LEE, 2000, p. 137). Por isso, o único conhecimento possível desse tempo distante só se alcança via testemunhas. Isso acaba por levar à concepção de que estudar e aprender história redu- zir-se-ia à absorção de testemunhos fidedignos, tra- zidos pelo professor e pelos livros utilizados por ele. Muitos estudantes, então, operam com um con- junto de ideias que funcionam bem na vida co- tidiana, mas que tornam a história impossível. Porque há um passado permanente, somente uma consideração verdadeira pode ser feita. O passado consiste de eventos testemunháveis, então as afirmações dos historiadores sobre “o que aconteceu” são como depoimentos de tes- temunhos de segunda mão (LEE, 2006, p. 139). Contrariamente a essas concepções, Lee (2006) evi- dencia que o passado não é imutável. Na realidade, as visões sobre ele são constantemente alteradas, ge- rando um processo contínuo de revisão, de questio- namento de verdades e reelaboração de explicações. Nesse sentido, o conhecimento histórico não deve- ria ser assumido como cópia do passado, como algo resolvido de uma vez por todas. Hobsbawn (2007) nos ajuda a entender comoisso é possível. Mesmo que não possamos deixar de verificar que muitas das coisas hoje são como são devido ao passado que ti- veram, o raciocínio oposto também é verdadeiro: o conhecimento que temos do passado é dependente dos problemas e das condições que temos no pre- sente. Isso é dito pelo historiador da seguinte forma: EDUCAÇÃO FÍSICA 23 O “homem” era a chave para a anatomia do ma- caco. Claro que não se trata de um procedimen- to anti-histórico. Implica que o passado não pode ser entendido exclusiva ou primordial- mente em seus próprios termos: não só porque ele é parte de um processo histórico, mas tam- bém porque somente esse processo histórico nos capacitou a analisar e compreender coisas relativas a esse processo e ao passado (HOBS- BAWN, 2007, p. 173). Essas considerações evidenciam de modo bastante interessante que, ao estudarmos história, a todo mo- mento o modo como esse conhecimento é produzido é trazido à baila. Lee (2006), ao fazer o diagnóstico que apresentei anteriormente, também verifica que, naquelas concepções de passado que inviabilizam uma concepção de “literacia histórica”, “a pergun- ta ‘como sabemos?’ simplesmente não surge (LEE, 2006, p. 137). Ora, voltamos à característica que dá à história, no entender de Bloch (2001), ao mesmo tempo, seu limite e seu potencial. Não por acaso, essa relação entre conhecimento histórico e como esse conhecimento histórico é produzido é algo que também aparece nas justificativas dadas por Melo (1999) e Goellner (2012), quando justificam a his- tória da educação física como reflexão valiosa aos futuros professores. Para Melo (1999, p. 26), o estudo da história da educação possibilita a quem pensa no assunto a “possibilidade de aprender a compreender histo- ricamente um problema”. Mas o que isso significa? Significa muitas coisas, algumas delas enfatizadas de modo persuasivo pelo autor. Em primeiro lugar, ao estudarmos o passado de algum fenômeno, assunto ou campo profissional, podemos pensar no fato de aquelas pessoas terem feito escolhas - algumas difí- ceis - entre as possibilidades que para eles existiam. Além disso, podemos entender que muitas das pos- sibilidades a serem escolhidas existiam por serem resultantes, por serem consequências de escolhas anteriormente feitas. Dito de outro modo, compre- endemos que “o que temos atualmente foi construí- do e não fruto exclusivo do acaso, tampouco estava escrito em um ‘livro dos destinos’” (MELO, 1999, p. 24). Exemplificando essa “utilidade” da história da educação física, imagine pensar na seguinte proble- mática: a partir de quando as aulas de educação fí- sica na escola passaram a ser tão relacionadas com as quatro modalidades desportivas, como muitos de nós conhecemos? Pensar historicamente nessa ques- tão remete-nos a olhar para momentos em que isso não acontecia, para momentos em que as “obvie- dades” e os “erros” eram outros, com o objetivo de captar uma realidade deixando de existir em nome de outra. Nessa transformação, não apenas as esco- lhas dos professores são importantes, mas o valores sociais que passaram a vigorar, configurações polí- tico-ideológicas que ganharam espaço, incrementos tecnológicos, surgimento de novas práticas que fo- ram abraçadas por muitas pessoas. Para resumir, “pensar historicamente” é a ca- pacidade de pensar os assuntos que nos interessam como construções humanas no tempo. É a capacida- de de verificar que as pessoas que existiram antes de nós e que trabalharam com questões semelhantes às nossas encontraram soluções para os mesmos pro- blemas, viram problemas onde hoje vemos soluções. Ou que viram problemas onde hoje não vemos nada que indique a existência de algo que, inacreditavel- mente, deu muita dor de cabeça em outros momen- tos. De algum modo, estudar história se torna uma espécie de laboratório onde se ponderam as possi- bilidades e os limites humanos em fazer seus gestos e pensamentos produzirem os resultados esperados. “Como eles lidaram com isso?”, “Como eu lido com ATIVIDADE 24 isso?”, “Por que eles se ocupavam com aquilo?”, ou “Por que eles não perdiam tempo com que algo que nos ocupa?”, tratam-se de questões que fazemos a todo tempo quando estudamos história. Goellner (2012, p. 37) segue um caminho se- melhante quando afirma que “[...] a História contri- bui para conhecer o presente e a nós mesmos”. Ela aprofunda alguns dos pontos que elenquei quando apresentei as justificativas de Melo (1999) sobre as razões de estudarmos a história da educação física. Goellner (2012) lista uma série de questionamentos que você não dever perder de vista ao ler esta e as unidades subsequentes: Como, então, formar profissionais sem sensibi- lizá-los para a percepção de que tudo tem his- tória, inclusive o corpo e sua movimentação? Como qualificá-los a atuar no campo da saúde, do esporte, da educação e do lazer sem que te- nham condições de entender que os discursos e as práticas que circulam no entorno desses campos não foram sempre os mesmos e que são constantemente modificados e ressignificados? (GOELLNER, 2012, p. 37). Nas próprias perguntas já temos importantes in- dícios para que possamos “sensibilizar os alunos dos cursos de graduação a estudar história” (GO- ELLNER, 2012, p. 37), oferecendo respostas e, portanto, justificativas a esse estudo. A autora vai ao encontro do posicionamento de Melo (1999) quando defende que a grande “utilidade” e tam- bém a grande “beleza” de estudarmos história é o fato de abordarmos as intenções, os problemas e as ações das pessoas que viveram em outros tem- pos. Também concordam entre si os autores que, quando fazemos isso, ao mesmo tempo em que co- nhecemos um “outro contexto” damos um passo importantíssimo para conhecermos o contexto em que vivemos, e isso por outra razão que não ape- nas pelo fato de agirmos e pensarmos em circuns- tâncias, com valores e raciocínios que herdamos, como tradição, daqueles que nos antecederam. Conhecemos melhor o nosso contexto quando estudamos história, pois só a estudamos quando nos colocamos questões a serem respondidas. Es- sas questões surgem devido aos desafios que en- frentamos em nosso cotidiano. Elas surgem, pois percebemos nossa hesitação no modo de abordar problemas importantes que atrapalham as ações que tínhamos planejado, levando-nos ao esforço de entender melhor a situação. Esse melhor entendimento, é necessário su- blinhar, não se refere apenas ao entendimento que devemos ter na hora de tomarmos nossas decisões profissionais na escola, por exemplo. Pensar histori- camente impacta o entendimento da nossa própria forma de pensar nossas problemáticas, gerando con- sequências muito valiosas ao campo da pesquisa que existe, prioritariamente no Brasil, na universidade. Taborda de Oliveira (2015), ao criticar a forma im- ponente com que a tradição do olhar biologizante existe na educação física e moldar um modo corren- te e único de se pensar em nossas questões, aponta a reflexão histórica como fundamental para superar esse limite. Vamos ler uma das passagens onde o au- tor faz isso, veementemente: Parece claro que reconhecer a dimensão histó- rica desse processo poderia significar um abalo nas estruturas autorreferentes que sustentam a partilha do conhecimento do campo da educa- ção física, o que redundaria no reconhecimento da legitimidade dos outros para auferir recur- sos, poder e lugares de profissionalização. Ou seja, abriria-se uma fratura na corporação, que seria obrigada a admitir a multiplicidade de EDUCAÇÃO FÍSICA 25 possibilidades de produção do conhecimento, os múltiplos regimes de verdade que convivem na ambiência acadêmica e a necessidade de es- tabelecimento de uma atitude dialógica menos prepotente e mais colaborativa no plano das investigações em e sobre a educação física no Brasil. Ora, as regularidades históricas, venham de onde vier, não são atemporais e invariáveis e são pautadas em disputas por status, recursos epoder profissional, algo subliminarmente, mas nunca publicamente, reconhecido (TABORDA DE OLIVEIRA, 2015, p. 213). Desejo que você note, caro(a) aluno(a), que estu- dar os assuntos da educação física historicamente impacta, ao mesmo tempo em que resulta, na ne- cessidade de entendermos nossos hábitos intelec- tuais. Muitos desses hábitos podem seguir em fren- te. Outros deverão ser deixados para trás. Temos aqui um exemplo da situação mais comum quando estudamos história: aprende-se que as coisas nem sempre foram do jeito que são. Elas foram constru- ídas e, por isso, podem ser mudadas, aperfeiçoadas ou abandonadas. Se essa percepção do modo como o estudo do passado traz resultados ao presente é fundamental, igualmente importante é o raciocínio inverso: che- gamos a um ponto em que poderíamos afirmar que é o presente que explica o passado. Se a afirmação não inviabiliza o entendimento mais corriqueiro, mas ainda válido, de que estudamos história para conhe- cer os caminhos que nos trouxeram até aquilo que hoje somos, a assertiva acrescenta, mais uma vez, a problemática da produção do conhecimento históri- co em nosso estudo: muito do que vemos no passado explica-se por aquilo que vivemos no presente. Nesse ponto, três exemplos ajudarão você a en- tender melhor tal ideia. Nos dias de hoje, um cam- po de estudo histórico muito interessante e impor- tante é o campo que se detém na investigação sobre a história das mulheres. Interessante notar que esse campo de estudos desenvolve-se de modo parale- lo às mudanças sociais, econômicas e políticas que deram existência ao processo e à luta das mulheres pela vida em um mundo mais igualitário em todos os aspectos. Até então, eram comuns os estudos históricos que afirmavam que, em muitas dimen- sões da vida social, ou em quase todas, a presença feminina tinha sido desprezível, ou que muitos dos valores e práticas atribuídos a homens e a mulheres eram uma herança longínqua da história. O incô- modo gerado pelas lutas, a necessidade de melhor se aparelhar a elas, entendendo contra o que se lu- tava e como poder-se-ia, afinal, ser construído um mundo em que as mulheres, por exemplo, pudes- sem sentir mais ambição pela carreira profissional e menos pelo destino da maternidade, fez com que muitas análises históricas surgissem, mostrando que muitas das coisas que assumimos como natu- rais no que diz respeito aos lugares até então ocu- pados pelas mulheres, longe de serem uma obra do acaso ou da natureza, foram uma construção histó- rica. Emblemático dessa consequência é o livro de Elisabeth Badinter, cujo título já explicita o modo como uma determinada parte do passado da his- tória feminina passou a ser vista de outro modo: “Um amor conquistado: o mito do amor materno” (BADINTER, 1985). Um segundo exemplo pode ser encontrado quando pensamos no surgimento de toda uma es- pecialidade do estudo histórico voltada à educação. A história da educação passou a agregar uma maior quantidade de pessoas interessadas nela, justamente no momento em que a sociedade, durante o século XIX e início do século XX, assistiu ao fenômeno co- nhecido como “escolarização da sociedade”. Ou seja, ATIVIDADE 26 por motivos que você entenderá mais a frente, na- quele período a escola passou a ser o espaço educa- cional preponderante em termos sociais e culturais. De início, trata-se aí de algo bastante complicado de entender, haja vista que, para nós, é difícil imaginar um momento em que a escola não fosse obrigatória, que não fosse pensada para todos os membros da sociedade e que até mesmo não fosse voltada igual- mente aos meninos e às meninas. Todavia, o que nos interessa agora é verificar que os esforços para fazer a escola ser frequentada por todas as crianças en- contraram muitos problemas e muitas resistências. Não foi fácil, igualmente, gerar um ambiente peda- gógico propício ao aprendizado em um contexto em que muitas crianças da mesma idade estivessem reu- nidas em torno de um único professor. Justamente quando esses problemas afligiam as sociedades na realização de seus planejamentos educacionais, mui- tas pessoas buscaram entender o contexto educa- cional historicamente. Compreenda que, apesar de ser algo contraintuitivo, buscar entender o passado quando o presente se mostra pleno em desafios não é tergiversar o que deve ser feito. Ou seja, se se tra- tar de um problema que nos garanta algum tempo, nessa ótica um bom modo de atacá-lo seria olhá-lo indiretamente, voltando os olhos para outro lugar, mas mantendo o pensamento e o coração naquilo que devo e quero fazer, imediatamente. O terceiro exemplo ilustra de forma bastante clara o modo como problemas imediatos estão na cabeça do historiador. A década de 1980 foi o período em que o cam- po da educação física iniciou uma reflexão sobre sua estrutura acadêmica e, sobretudo, sobre as justifica- tivas que explicavam sua presença na escola. Em um processo conhecido na área como “Crise da Educa- ção Física” (MEDINA, 1983), professores de educa- ção física e pesquisadores buscaram entender e pro- por novos objetivos para guiar a ação pedagógica do professor de educação física na escola. A efervescência foi grande, materializada na pu- blicação de livros e de artigos, bem como no surgi- mento de numerosos eventos em que se discutiam a questão. De um modo geral, havia um sentimento de grande insatisfação por parte de muitos professo- res de educação física ao constatarem que, na esco- la, a disciplina tinha se transformado no ensino e na prática de esportes, sobretudo as já citadas quatro modalidades coletivas. A insatisfação sustentava-se na incapacidade deste cenário em fornecer justifica- tivas pedagógicas afinadas à estrutura escolar, para que a sociedade passasse a perceber de forma clara que a educação física, assim como os outros compo- nentes curriculares, tinha “autonomia pedagógica” (BRACHT, 1992). Valter Bracht (1992) foi um dos principais interlocutores nesse debate. Essa impor- tância podemos perceber na veemência com que ele se expressava ao diagnosticar um dos fundamentos da “crise da educação física”: Mais uma vez a Educação Física assume os códigos de uma outra instituição, e de tal for- ma que temos então, não o esporte da esco- la e sim o esporte na escola, o que indica sua subordinação aos códigos/sentido da institui- ção esportiva. O esporte na escola é um braço prolongado da própria instituição esportiva. Os códigos da instituição esportiva podem ser resumidos em: princípio do rendimento atlético-desportivo, competição, comparação de rendimentos e recordes, regulamentação rígida, sucesso esportivo e sinônimo de vitó- ria, racionalização de meios e técnicas. O que pode ser observado é a transplantação reflexa destes códigos do esporte para a Educação Fí- sica (BRACHT, 1992, p. 22). EDUCAÇÃO FÍSICA 27 A citação, em sua integralidade, é muito importante para tudo o que aconteceu no campo da educação física escolar desde então. Mas para a discussão que estamos fazendo sobre a importância da história da educação física, sugiro que você preste especial aten- ção às palavras “Mais uma vez…”. Note que elas in- dicam um processo de continuidade, de repetição de algo que já vinha acontecendo há um bom tempo. A expressão denota que o autor está clamando a neces- sidade de uma mudança, de uma ruptura com uma situação avaliada como indesejável, a ser superada. Essas primeiras palavras são sinais bastante eviden- tes da forma como aqueles professores pensavam as urgências que enfrentavam na hora de explicar a importância da educação física escolar: eles busca- vam no passado, na história da ação pedagógica dos professores de educação física que tinham vivido as décadas anteriores, fundamentos para se explicar o conjunto de problemas contra os quais lutavam. No texto de Bracht (1992) que estamos analisando, em muitas passagens explicita-se essa postura de des- crever um presente a ser mudado por aquiloque ele carrega das tradições herdadas. Na citação a seguir, quando o autor fala sobre a educação física na histó- ria, salta aos olhos o fato de ele buscar exprimir uma realidade que se empenhava em mudar: Mas não somente os métodos ginásticos de ins- piração militar foram, principalmente nas qua- tro primeiras décadas de nosso século, levados à escola, como também os próprios instrutores ou ‘aplicadores’ dos métodos. Ora, a prepara- ção militar inclui historicamente a exercitação corporal com o objetivo do desenvolvimento da aptidão física e do que se convencionou cha- mar de ‘formação do caráter’ – auto-disciplina, hábitos higiênicos, capacidade de suportar a dor, coragem, respeito à hierarquia (BRACHT, 1992, p. 20). Dizendo de outra maneira, é muito interessante para as reflexões deste livro que, justamente em um momento em que se buscava respostas a de- safios do tempo em que se vivia, os professores de educação física lançaram seus olhares ao passado, buscando condições privilegiadas para pensarem em suas questões. Tratava-se, com certeza, de uma estratégia intelectual que não visava, apenas, bus- car algo a ser refutado no presente, tomada como plena de vícios e erros. Buscava-se com essa postu- ra perspectivar uma presença acadêmica e escolar que possibilitasse a condição de evidenciar que a ação profissional e pedagógica dos professores de educação física era consciente de suas possibilida- des e de suas limitações. De forma resumida, esse esforço, ao mesmo tempo, foi causa e resultado do importante conjunto de estudos históricos no campo da educação física, do esporte e do lazer que começaram a surgir. Esses estudos foram tão importantes que vamos nos debruçar sobre eles daqui a algumas páginas. Graças a esse conjunto de estudos, você lê este livro sobre a história da educação física. Entendida a importância de se estudar a história de forma geral e da educação física de modo par- ticular, sugiro que pensemos em uma questão pri- mordial nisso tudo: o que estudamos, quando estu- damos história da educação física? ATIVIDADE 28 Se os professores de história, a exemplo de Bloch (2001), sentem-se um pouco embaraçados na hora responderem “Para que serve a história?”, uma questão cuja mistura de obviedade de complexi- dade causa algum espanto nos estudantes, quando começam a construir uma reflexão de matiz histó- rico: “O que estudar quando estudamos história?” ou, no caso deste livro, “O que se estuda na história da educação física?” Assim como foi feito no item anterior, antes de responder a questão em sua totalidade, sugiro que olhemos para o modo como os historiadores pen- sam nessa problemática a partir dos desafios que enfrentam na hora de responderem dúvidas tão importantes como esta. Do mesmo modo, também, Bloch (2001) nos apoiará nessa reflexão. Para res- pondermos a pergunta sobre o conteúdo que se es- tuda/aprende nos cursos de história, leiamos alguns O QUE SE ESTUDA NA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA? EDUCAÇÃO FÍSICA 29 momentos de “Apologia da História” em que o his- toriador francês nos mostra o “objeto da história”: [...] o objeto da história é, por natureza, o homem. Digamos melhor: os homens. Mais que o singu- lar, favorável à abstração, o plural, que é modo gramatical da relatividade, convém a uma ciên- cia da diversidade. Por trás do grandes vestígios sensíveis da paisagem, (artefatos ou máquinas), por trás dos escritos aparentemente mais insípi- dos e as instituições aparentemente mais desliga- das daqueles que a criaram, são os homens que a história quer capturar. Quem não conseguir isso será apenas, no máximo, um serviçal da erudi- ção. Já o bom historiador se parece com o ogro da lenda. Onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça (BLOCH, 2001, p. 54). Não satisfeito com essa definição, mais à frente o au- tor complementa a definição, afirmando que a histó- ria se trata de uma “ciência dos homens, no tempo” (BLOCH, 2001, p. 55). ATIVIDADE 30 Há algumas coisas a serem bem entendidas na reflexão anterior. Acredito que você tenha notado que Bloch (2001) usa o plural de homem, “homens”, pois ele afirma que estudar história é, necessidade, estudar a diversidade. Quando ele nos mostra que o olhar do historiador quer ver “por trás” dos objetos, dos escritos, das instituições, enfim, para onde se di- rige o olhar, entende-se a presença humana nesses “artefatos”. Além disso, Bloch (2001) cuida de adver- tir que essa busca pelas intenções, realizações, pro- blemas, hesitações e belezas da humanidade dos ho- mens se dá atrelada à ideia de que tudo isso existe no tempo, ou seja, foram artefatos construídos em um determinado momento e que em outros momentos foram transformados, extintos ou abandonados. Ao pensar em um gesto, nobre ou maléfico, importante ou banal para o historiador, ele só “julgará ter pres- tado conta disso depois de ter fixado, com precisão, seu momento na curva dos destinos tanto do homem que foi seu herói como da civilização que teve como atmosfera” (BLOCH, 2001, p. 55). Se assim como o “ogro” o historiador vai atrás da “carne humana” que lhe interessa, diferentemente do assombroso animal, ele tenta avaliar as razões que levaram as “vítimas” a estarem onde estão. Sem buscar esse conhecimento relativo aos motivos que podem explicar a presen- ça ou a ausência humana nessa “floresta do tempo”, aquele que se aventura a estudar história torna-se, apenas, um “serviçal da erudição” (BLOCH, 2001, p. 54), um “útil antiquário” (BLOCH, 2001, p. 66). Em- bora mantenha alguma utilidade, esse serviçal, esse antiquário apaixonado por datas e eventos come- morativos, esquece que “o frêmito da vida humana, que exige um duríssimo esforço de imaginação para ser restituído aos velhos textos, é (aqui) diretamente perceptível a nossos sentidos (BLOCH, 2001, p. 66). Ao virar as costas para o “frêmito da vida humana”, agir-se-á mais “sensatamente renunciando ao de his- toriador” (BLOCH, 2011, p. 66). Vou sublinhar o ponto que vejo como central neste momento: embora estejamos acostumados a encarar o estudo da história como sinônimo de da- tas, descrição de sequência de eventos, nomes de líderes políticos e religiosos, embora essas informa- ções sejam importantes para muitas coisas quando estudamos um determinado tempo, elas são ape- nas uma pequena parte daquilo que podemos saber quando nos debruçamos e consumimos esforços e tempo para estudar um determinado período. Bloch (2001) nos ajuda a entender que o objeto do estudo da história é a busca pela compreensão dos esforços envidados pela humanidade ao se fazer, com pode- res e fraquezas, na mesma medida com que eles nos constituem. Ou seja, são homens e mulheres que- rendo conhecer homens e mulheres, igualmente hu- manos, mas que manifestavam essa humanidade de formas diferentes por viverem em “outras florestas”, ou em outros tempos. E ainda mais importante que isso é o modo como essa questão de valor intelectual relaciona-se com o “aqui e agora” não apenas da so- ciedade na qual nos inserimos, mas no que você e eu somos, hoje. A beleza e a clareza com as quais Bloch (2001) registra esse pensamento é algo remarcável: Na verdade, conscientemente ou não, é sem- pre as nossas experiências cotidianas que, para nuançá-las onde se deve, atribuímos matizes novos, em última análise os elementos, que nos servem para reconstituir o passado: os pró- prios nomes que usamos a fim de caracterizar os estados de alma desaparecidos, as formas evanescidas, que sentido teriam para nós se não houvéssemos antes visto homens viverem? Vale mais (cem vezes) substituir essa impregna- ção instintiva por uma observação voluntária e controlada (BLOCH, 2001, p. 66). EDUCAÇÃO FÍSICA 31 É importante repetir que tanto a redação deste li- vro quando a sua leitura é uma tentativa de cola- borar na valorização dessa impregnação instintiva que nos leva a querer conhecer o passado desde que nos percebemos comoseres humanos. Toda- via, trata-se de se buscar uma maneira que nos capacite a fazê-lo por meio de uma observação voluntária e controlada, ou seja, lendo e pesqui- sando sistematicamente historiadores que versam sobre dimensões da tal “humanidade do homem” que nos interessam. Em nosso caso, sabemos que o interesse está calcado em investigarmos a educação física, histo- ricamente. Então, conforme o que foi discutido an- teriormente, é importante que você tenha claro que, na imensidão de assuntos a serem estudados pelos historiadores, este livro e os estudos de história da educação física abarcam uma parcela bem específica da vida social e cultural. Antes de seguir em frente, uma lembrança deve ser feita. O título deste livro, história da edu- cação física, foi dado em razão de ser esse o título da disciplina na qual você irá estudá-lo. Porém, é crucial que não se perca de vista o termo “educa- ção física” tem uma acepção larga para englobar práticas que recebem outras denominações. Para ilustrarmos os assuntos que são estudados sobre a denominação “história da educação física”, lanço mão da existência de um evento específico, dedi- cado a esse estudo. Trata-se do Congresso Brasileiro de História do Esporte, Lazer e Educação Física. No ano de 2016, sua décima quarta edição aconteceu em Campinas e teve como tema central “Esporte e a Educação na História”. Quando os eventos aca- dêmicos acontecem, eles reúnem pesquisadores de uma determinada área do conhecimento para debaterem temas, ao mesmo tempo, específicos, mas que possam interessar a todos os especialistas de algum modo. No caso da história da educação física, o tema “Esporte e Educação na História” norteia a preferência por determinados tipos de trabalhos e estudos que se aproximem daquilo que é o alvo da discussão do congresso. Para que a co- munidade de pesquisadores, professores e alunos tenha ciência do eixo reflexivo das discussões, é redigida uma apresentação, que oferece uma des- crição e explicação do assunto e de sua relevância para o avanço da pesquisa. Convido você a ler um trecho dessa apresentação para que possamos dis- cuti-la nos parágrafos seguintes: O tema eleito concebe a Educação como um conjunto de processos culturais amplos que implicam conhecimento e prática dos usos e costumes de uma sociedade, tendo como fi- nalidade introduzir indivíduos e grupos em distintas esferas da vida pública. Não se trata, aqui, exclusivamente, da educação realizada no interior da instituição escolar, com seus programas, atividades e procedimentos pró- prios; ritmos e tempos; arquiteturas, mobiliá- rio e tudo o que compõe sua rica cultura ma- terial, mesmo que tudo isso possa ser também objeto da delimitação temática deste evento. Trata-se aqui de problematizar e historicizar o lugar do Esporte, da Educação Física e do Lazer na configuração, constituição e efeti- va realização de distintos, amplos e extensos processos educativos (escolares ou não) que constituem as modernas sociedades. Nesta perspectiva poderíamos afirmar que o espor- te, a educação física e o lazer educam, pois, ao criarem regras e comportamentos comuns, usos comuns do corpo, induzindo indivíduos a cuidarem de si, e, nesse movimento, a prote- gerem-se de suas próprias forças e impulsos, contribuem para a assegurar a vida em socie- dade e as trocas entre as gerações (XVI CHE- LEF, 2016, on-line)1. ATIVIDADE 32 Em primeiro lugar, observe que, ao proporem o tema “Esporte e Educação na História”, os organi- zadores veem essa temática como algo valioso tan- to na atualidade quando em diferentes momentos do passado. Nesse caso, espera-se receber estudos que focalizem essa relação em outros períodos que não o nosso, em diferentes lugares e com a atenção voltada a diferentes aspectos. Quais deles, segundo a apresentação do evento? É sublinhado que “edu- cação” não será entendida como algo que acontece apenas na escola, embora a educação que lá ocorre- ra não seja posta de lado. Essa advertência é impor- tante. Afinal, boa parte do estímulo que se oferece à prática dos esportes não se sustenta nos benefí- cios formativos que eles providenciam às crianças e aos jovens? Quais eram esses benefícios, em outras épocas? Quem divulgava esses benefícios e como essa divulgação ocorria? Quais consequências que essa busca gerava na forma como as pessoas se rela- cionavam com seu corpo e com o corpo dos outros? Nessa relação, nessa prática educativa e recreativa, quais eram os objetos, as roupas e lugares em que os grupos se reuniam para realizar essas atividades? De que modo os diferentes governos em diferentes níveis (federal, estadual e municipal) estimularam determinadas práticas e barraram outras tantas? No final das contas, poderíamos perguntar: de que forma pensar e praticar o esporte educacionalmen- te possibilitou condições fundamentais para que as diferentes sociedades, nas quais esses pensamentos e práticas existiram, reproduzam-se ou se transfor- mem? Acredito que esse rol de questões, constru- ído a partir de um importante evento na área de educação física, possa ter deixado alguma clareza sobre a grande variedade e importância dos temas que podem ser discutidos em um curso de história da educação física. Você verá que a estrutura das unidades seguintes a esta primeira foi construída com muitos desses questionamentos postos, como se fossem mapas para os caminhos que percorro. Se estudar aspectos históricos relativos aos esportes e ao lazer é um dos momentos marcantes no curso de formação inicial em educação física, o mesmo vale dizer para a educação física na educação básica. Em todas as regulamentações e diretrizes curriculares do componente curricular educação física, ensinar os alunos a pensarem historicamente os esportes, a ginástica, os jogos, as lutas, a dança e o lazer é defendido como uma das principais colaborações dos professores de educação física à educação das crianças e jovens. Esse é um aspecto muito interessante dos cursos de formação de professores: ao mesmo tempo em que você amplia seus ho- rizontes conhecendo dimensões da realidade até então desapercebidas, é necessário não esquecer que essa ampliação cultural deverá capacitar os licenciandos para processarem esse conhecimento, transformando-o em temas de ensino para o seu trabalho como professor nas escolas. Fonte: o autor, baseado em Unesp (DARIDO, [2016], on-line)2. SAIBA MAIS EDUCAÇÃO FÍSICA 33 Caro(a) aluno(a), se temos muitos questionamen- tos, é justo almejar que se inicie a construção de res- postas para eles. Tudo aquilo que você lerá e pensará neste livro sobre a história da educação física é o re- sultado de pesquisas realizadas há algumas décadas. Essas pesquisas produziram e produzem a gama de conhecimentos e de novos questionamentos que, como vimos anteriormente, são responsáveis por nos proporcionar olhares renovados não apenas so- bre o passado de um campo profissional, mas para os desafios que ele enfrenta em sua atualidade. O que faremos neste tópico é refletir sobre al- gumas questões básicas relativas à produção do conhecimento histórico. Para mantermos o hábito analítico que adotei neste livro, inicialmente va- mos verificar como essa produção do conhecimento ocorre no campo mais amplo da história, pois é par- tir dele que boa parte da pesquisa histórica que hoje existe vem se pautando. Feito isso, volta-se a estudar a educação física e o conhecimento histórico que hoje é produzido nesse campo. COMO SE PRODUZ CONHECIMENTO HISTÓRICO SOBRE A EDUCAÇÃO FÍSICA? ATIVIDADE 34 Vimos, há alguns parágrafos, que os historia- dores reconhecem que a beleza e a importância do conhecimento que produzem são justificadas pelo fato de se reportarem à ação dos homens no tempo. Essa vinculação a uma determinada temporalidade lança como desafio as condições existentes para que um conjunto de ações, pensamentos ou eventos seja narrado de um modo a produzirum conhecimen- to que possibilite aos consumidores desse conheci- mento alguma segurança sobre aquilo que leem e ensinam, no caso dos professores. Paul Veyne é au- tor de um livro chamado “Como se escreve a histó- ria” (VEYNE, 1998). Embora ele fale que a história é uma “narrativa verídica”, é importante ter claro que entre essa narrativa e a experiência que se teve de um determinado ato ou evento há uma grande distância. Ou seja, a esperança de se ter uma nar- rativa totalmente fidedigna ao objeto da narração é algo já assumido como horizonte inalcançável por parte de quem escreve história. Veyne (1998) toma como exemplo a Batalha de Waterloo, para mostrar que no bojo desse evento as percepções sobre os in- contáveis gestos, sobre os momentos mais decisivos e relacionados ao desfecho da derrota ou da vitória, há um abismo compreensível entre a experiência e a reflexão sobre a experiência vivida por todos os envolvidos. Explicando esse ponto de outro modo, a experiência dos diferentes atores que deram vida à batalha em questão é dificilmente alcançada, em sua plenitude, por qualquer reflexão a ser feita so- bre ela, mesmo que essa reflexão ocorresse imedia- tamente após a batalha ter acontecido. Um soldado raso, um general, um civil, alguém que teve um ente querido morto ou um familiar que vê seu parente retornando para casa depois dos confrontos, cada uma dessas pessoas teria uma percepção, uma sen- sação diferente. Isso nos faz perceber que a “história pode ser narrada em primeira ou na terceira pessoa” (VEYNE, 1998, p. 18). Dito de outro modo, as expe- riências são diferentes e, obviamente, a reflexão so- bre elas será muito diversa, gerando assim narrativas díspares. Ainda assim, essa miríade de olhares é fun- damental para que possamos conceber a Batalha de Waterloo, ou qualquer outra coisa na história, como existente e cognoscível. Ora, ainda assim fica a dúvida: disso deve-se concluir que produzir uma “narrativa verídica” é algo impossível, levando-nos a ver nesses esforços de pesquisa dos historiadores um mero mosaico de opiniões? Mesmo que essa compreensão seja recor- rente, o que leva muitos a criticarem ainda mais a história como campo do conhecimento, produzir co- nhecimento histórico é um ato intelectual diferente da criação literária, embora seja a ela relacionada. A literatura, que assim como a história consegue fazer com que “um século caiba em uma página” (VEY- NE, 1998, p. 18), também lida com a dificuldade de retratar, interessantemente, um determinado tempo. Todavia, se na literatura a “defasagem que sempre separa a experiência vivida da reflexão sobre a narra- tiva” gera “experiências estéticas interessantes”; para o historiador a clareza desse distanciamento gera a salutar “descoberta de um limite” (VEYNE, 1998, p. 18). Em uma passagem bastante esclarecedora sobre o fato desse limite não ser um desqualificador desse conhecimento, lemos: O campo da história é, pois, inteiramente inde- terminado, com uma única exceção: é preciso que tudo o que nele se inclua tenha, realmente, acontecido. Quanto ao resto, que a textura do campo seja cerrada ou rala, completa ou lacu- nar, não importa; uma página da Revolução Francesa tem uma trama suficientemente cer- rada para que a lógica dos acontecimentos seja, quase completamente, compreensível e para EDUCAÇÃO FÍSICA 35 que um Maquiavel ou Trotsky tivesse podido tirar dela toda uma arte da política; no entan- to, uma página de história do Antigo Oriente, que se reduz a uns poucos dados cronológicos e contém tudo o que se sabe de um ou dois impé- rios, dos quais só restou o nome, ainda assim é história (VEYNE, 1998, p. 25). Essa insegurança, essa lida cotidiana com um pen- samento exposto ao seu “limite”, impede que o his- toriador conheça o passado diretamente, mas o co- nheça apenas por pequenas partes que lhe chegam do tempo estudado que ele tem acesso. Para narrar o passado o historiador depende de documentos produzidos no contexto estudado, a fornecer-lhe in- dícios que o permitam exercer sua reflexão apoiado na concretude disso que se chama de “fontes pri- márias”: “A história é, em essência, conhecimento por meio de documentos” (VEYNE, 1998, p. 18). Todavia, é importante que a produção desse conhe- cimento não trate apenas de encontrar uma grande quantidade de documentos sobre um determinado assunto: é necessário o historiador colocar esses do- cumentos para dialogarem entre si, exercendo sua capacidade de questioná-los, dando-lhes condições de tornar uma temática compreensível ao leitor. Você deve prestar atenção ao fato de que pro- duzir conhecimento histórico é um diálogo entre a capacidade do historiador em formular perguntas perspicazes e buscar documentos para construir respostas a partir dos documentos que encontrar. É essa capacidade que gera uma “superfície tranquili- zadora da narrativa” (VEYNE, 1998, p. 26), levando os leitores e verem nesse conhecimento de “natureza lacunar” um “verdadeiro reflexo”. No campo dos estudos históricos produzidos na educação física, Melo (1999, p. 42) identifica a ne- cessidade dos pesquisadores pautarem-se em pres- supostos que afastem as narrativas históricas “dos es- tudos excessivamente descritivos [...] e [da] carência de evidências documentais”. Como resultado, os ana- listas da história da educação física se preocuparam com o fato de muitos dos estudos produzidos até a década 1980 serem escritos de um modo distanciado dos procedimentos e cuidados metodológicos. Esses cuidados podem ser sumarizados nas ponderações feitas a partir da reflexão de Veyne (1998). Assume-se que advertências como as feitas por Melo (1999) levaram os estudos históricos do campo da educação física a experimentarem uma “renovação historiográfica” (TABORDA DE OLI- VEIRA, 2007, p. 117). Porém, Taborda de Oliveira (2007) não poupa críticas a esse movimento, notan- do que mesmo existindo em um contexto atento e com um olhar mais voltado à renovação dos modos de se abordar a história bem como de seus objetos de estudo, existe paralelamente “permanência dos marcos políticos, econômicos ou intelectuais da da- tação” (TABORDA DE OLIVEIRA, 2007, p. 123). De qualquer modo, em que pese essas advertên- cias e críticas, sempre necessárias a todos que pro- duzem conhecimento, é importante reconhecer que hoje há uma produção historiográfica interessante, rica e variada no campo da educação física, supe- rando os tradicionais escritos que primavam apenas pela listagem de nomes, datas, eventos e/ou sua re- lação com os marcos políticos (império, república etc.) do mundo sócio-histórico que circunda os fe- nômenos estudados. Para termos uma ideia da riqueza da reflexão his- tórica atinente à educação física e às práticas corpo- rais, proponho que olhemos mais proximamente o conteúdo e o funcionamento dos Centros de Memó- ria voltados ao esporte e à educação física, existentes no país. Tratam-se de instituições que recebem, or- ATIVIDADE 36 ganizam, classificam e disponibilizam o acesso a do- cumentos relacionados a um determinado tema para pesquisadores. Nesse caso, tratam-se de documentos importantes para a construção de análises históricas sobre questões valiosas à educação física. Em 2013, o Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e do Lazer (CEMEF) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), organizou uma coletânea (LINHA- LES; NASCIMENTO, 2013) onde se pode ter uma ideia dos tipos de documentos que lá estão e, conse- quentemente, do teor das pesquisas, tendo por base o conjunto documental sob a guarda da instituição. Os arquivos pessoais doados por professores que trabalharam na Escola de Educação Física da UFMG e também por ex-alunos da instituição é um con- junto documental bastante variado. Em primeiro lu- gar, registra-se que são documentos doados, muitas vezes, por familiares dos professores. Os itens que compõem esse acervo são variados: tratam-se de li- vros, correspondências,planos de aula, fotografias, certificados, etc. Além da curiosidade gerada por tais documentos, há o impacto de eles terem sido ge- rados no fomento de problemáticas a serem investi- gadas. Linhales, Cunha e Fonseca (2013) sublinham o que pode ser analisado nesses vestígios, ponderan- do questões suscitadas aos pesquisadores durante o procedimento de organização do acervo: [...] os arquivos pessoais constituem também significações reveladoras de laços e vínculos sociais, redes de pertencimento e formação das quais os indivíduos fizeram parte. Ou seja, o modo como cada uma marca seu percurso próprio e, ao mesmo tempo, desvenda ele- mentos que compõem uma história social da Educação Física [...] (LINHALES; CUNHA; FONSECA, 2013, p. 73). Quando falamos em documentos, dificilmente imaginaríamos que os objetos também são assumi- dos como tais. Associamos documentos à escrita, ao texto. O acervo de objetos do CEMEF-UFMG é composto, em sua maioria, por instrumentos científicos de toda natureza, relacionados à medi- ção de variadas grandezas associadas ao esporte e ao exercício. Ao nos confrontarmos com esse tipo documental, a dúvida que surge é relativa ao que fazer com ele em termos analíticos, perspectivando os modos com os quais se pode construir análises históricas. Para tanto, o seguinte esclarecimento é importante: [...] é necessário pensar no alargamento do rol documental, refletindo sobre a constru- ção mais equilibrada de fontes. A análise fei- ta aqui permitiu fazer a relação entre o ins- trumento e a constituição de conhecimentos relacionados à Antropologia, Medicina, His- tória Natural e Educação Física. Aqui, não se trata de dar preponderância ou não ao docu- mento escrito, mas entender a cultura mate- rial tridimensional como um manancial que pode nos dar informações não acessíveis por fontes escritas, e concebê-las dentro de um intercâmbio recíproco entre as duas possibi- lidade de obtenção de informação (GOMES; BRAGHINI, 2013, p. 97). Igualmente importantes na hora de acessarmos outras temporalidades que não a nossa, são as fo- tografias. No CEMEF-UFMG há 1622 fotografias disponíveis para consulta (MORENO, SEGAN- TINI, 2013, p. 112). Contrariando um determi- nado senso comum que enxerga nas fotografias um “retrato fiel” de um outro tempo, os historia- dores que pesquisam temas relacionados à educa- ção física, ao esporte e ao lazer buscam verificar EDUCAÇÃO FÍSICA 37 nas fotos não apenas aquilo que eles diretamente mostram, mas outros detalhes, como o enquadra- mento escolhido pelo fotógrafo, o arranjo dos fo- tografados, as razões que levaram à fotografia em questão, bem como os diferentes modos com que as pessoas executavam esse ato de legar à poste- ridade um registro de um fato, de um evento ou de uma pessoa. As autoras explicitam o potencial analítico gerado pelas fotografias quando, ao con- cluírem suas reflexões, ponderam o valor desse “documento”: Fotografias ampliam nosso olhar para facetas dos processos educacionais recaídos sobre o corpo, percebidos nas maneiras de vestir, nos gestos, nas práticas autorizadas, no que fica de fora da imagem. Através da fotografia po- dem-se captar as maneiras como o corpo se apresenta nos espaços destinados às práticas corporais, os modos autorizados do corpo estar presente nas instituições de ensino da Educação Física. O potencial das fotografias está também em decifrar os discursos subli- minares às imagens: eugênicos, civilizadores, modernos, cívicos, higiênicos (MORENO; SEGANTINI, 2013, p. 114). Seguindo esse trajeto de ampliação daquilo que ser- ve de apoio documental aos estudiosos da história da educação física, os registros de filmagens apre- sentam-se como outra possibilidade importante. De modo comparável ao que ocorre com a fotografia, na análise desse material o pesquisador deverá se ater ao contexto em que foi produzido o material, o público a quem estava voltado, bem como as potencialidades técnicas existentes e efetivamente usadas na produ- ção das imagens. Por conta dessa razão, “o filme pode tornar-se um documento para a pesquisa histórica, na medida em que articula ao contexto histórico e social que o produziu um conjunto de elementos intrínsecos à própria expressão cinematográfica” (KURNIS apud FREITAS; LINHALES, 2013, p. 117). Outras formas de documentos têm sido uti- lizadas pelos pesquisadores. Jornais, cinema e entrevistas com pessoas que viveram no contex- to que se quer estudar são exemplos da varieda- de documental encontrada pelos historiadores e que alimentam suas pesquisas. Desse ponto de vista, quem vai estudar história da educa- ção física, do lazer e do esporte, ao interessar-se pela multifacetada capacidade humana de criar, transformar e dar significado às práticas corpo- rais, aos prazeres corporais e ao cuidado com o corpo, necessita de meios que permitam que essa reflexão aconteça. Essa noção ampliada de documento (FARIA FILHO; VIDAL; PAULILO, 2004) é algo já reco- nhecido como fundamental aos historiadores de todos os campos, e, igualmente, pelos historiado- res que voltam sua atenção às problemáticas da educação física. Entretanto, esse ampliação nem sempre foi assumida como necessária ou possível. Isso porque hoje o que se pratica como procedi- mento incontornável de produção do conheci- mento é o resultado do questionamento de uma determinada tradição construída por gerações de professores de educação física interessados e re- datores e livros da educação física. Para finalizar este tópico, convido você a conhecer um pouco dessa tradição. Afinal, você já percebeu que dar um passo para trás é uma atitude sábia para quem pretende ir para frente. ATIVIDADE 38 Ao propor a importância de entendermos nossos desafios historicamente, somos, então, levados ao estudo de um conhecimento que já vem sendo elaborado por pessoas que viveram e pensaram antes que estivéssemos em condições de o fazer. No caso do conteúdo deste livro sobre a história da educação física, muitas das informações e das reflexões que estão aqui e que você lê e lerá nas próximas páginas são resultado de um acúmulo e, também, de sucessivas mudanças na forma como o conhecimento histórico foi elaborado e divul- gado no interior de nosso campo. Resumindo o ponto com o qual encerro esta unidade, a histó- ria da educação física também é uma história que desde o início do século XX até a atualidade mu- dou o modo com o qual o conhecimento históri- co foi produzido e divulgado sobre o campo da educação física, dos esportes e do lazer, e tem ex- perimentado mudanças em seus procedimentos e concepções. Ter conhecimento sobre esse pro- cesso de mudança, o que esse conhecimento era e deixou de ser, é o grande objetivo deste momento. Com ele, compreenderemos que “pensar histo- ricamente” implica aplicar esse pensamento aos esforços investigativos na hora em que eles pro- duzem sua “narrativa verídica” (VEYNE, 1998). A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO FÍSICA TAMBÉM TEM UMA HISTÓRIA EDUCAÇÃO FÍSICA 39 Faremos essa reflexão buscando, mais uma vez, o apoio das análises feitas por Melo (1999). Nessas análises, a história da educação pode ser vista a partir de características intelectuais agru- padas em quatro fases. A primeira fase compreende as primeiras dé- cadas do século XX. Não havia naquele momento uma produção bibliográfica sistemática em torno da questão. O grande ímpeto que levou aos poucos li- vros existentes sobre esse olhar histórico em relação à educação física foi o de trazer informações relati- vas ao seu passado, sem a preocupação em fazer essa retomada com a busca por documentos ou por qual- quer outro procedimento sistematizado de pesquisa. Melo (1999), embora cite outros livros relacionados à história do esporte, sublinha que característicos desse primeiro momento foram os livros de Lauren- tino Lopes Bonorino, intitulado “Histórico da Edu- cação Física”, e também as análises espalhadas nos escritos de Fernandode Azevedo. De acordo com Melo (1999, p. 35), é possível verificar nesse conjun- to de reflexões da primeira fase “perspectivas histo- riográficas de seu tempo”, a saber, o fato de aquelas reflexões se apoiarem em marcos cronológicos ex- ternos à educação física, em que, por exemplo, esta era pensada a partir do regime político vigente (im- pério, república, etc.). Soma-se a esse traço a ênfase na positividade das informações, com um objetivo memorialista de reunir nomes e datas “marcantes” no que tange às práticas corporais e a educação por elas obtida. Sobre essa fase, afirma Melo (1999): Os autores, no entanto, não pareciam querer defender ou provar nada, mas simplesmente guardar fatos e datas para que não se perdes- sem no tempo. [...] De fato, este tipo de obra, ligada à história dos esportes, escrita por não acadêmicos e sem outra preocupação do que o resguardo de informações, até hoje pode ser encontrada, inclusive com características seme- lhantes às de então (MELO, 1999, p. 35). Para ilustrar a forma como a história era abordada nessa fase, vale a pena nos determos à obra “A poesia do corpo ou a gymnastica escolar: sua história e seu valor”, publicada em 1915 e escrita por Fernando de Azevedo. Verifica-se que no título a história recebe uma grande atenção, embora no livro os aponta- mentos efetivamente históricos resumam-se a sete páginas, das 215 que possui a obra. Nas páginas em que fala da “gymnastica através do tempo”, Azeve- do (1915, p. 24) inicia uma exposição com a história egípcia, passando pela China, Grécia, Roma, Idade Média e Renascimento. O autor estuda o desenvol- vimento de métodos ginásticos no século XVIII e XIX para afirmar que, no momento em que ele vi- via, a “gymnastica (era) na prática uma das maiores aspirações, como na teoria um dos problemas mais estudados na idade contemporânea” (AZEVEDO, 1915, p. 30). É fundamental que seja compreendido que a ida a “outras civilizações” serviu para endossar aquilo que Azevedo via como verdade em sua época, deixando-nos a vívida impressão que o uso da histó- ria teve o objetivo de endossar algo que ele queria ar- gumentar como incontestável: o valor da ginástica. O marco utilizado para definir a existência de uma segunda fase na produção historiográfica da educação física é a obra de Inezil Penna Marinho (1915-1985). A quantidade de livros, textos, artigos produzida por Marinho, bem como a qualidade teó- rica de suas reflexões, o colocam não apenas como o “maior estudioso da história da educação física e do esporte no Brasil” (MELO, 1999, p. 35), mas como um de seus “maiores intelectuais (DALBEN, 2011, p. 59). Nos últimos anos, a trajetória de Inezil Penna Marinho tem recebido bastante atenção de pesqui- ATIVIDADE 40 sadores interessados no desenvolvimento histórico da educação física, em virtude da sua prolífica atua- ção como professor, escritor e pesquisador com foco dirigido à cultura física. No que diz respeito à análise histórica realizada por Marinho, Melo (1999) nota que pela primeira vez a pesquisa em história sobre a educação física assumiu a característica de não ser mera compila- dora de reflexões ou opiniões de terceiros. Marinho empreendeu uma rotina de levantamento de docu- mentos, rotina essa bastante aproximada ao que se presumia ser a produção do conhecimento histórico sustentada “no levantamento de fatos, datas, nomes, sem a preocupação de análise crítica do material encontrado” (MELO, 1999, p. 36). A existência de uma reflexão historiográfica bastante aprimorada em Inezil Penna Marinho podemos verificar em um discurso por ele pronunciado, publicado em 1958, onde o professor preocupa-se com a relação entre ensino e pesquisa na formação dos professores de educação física: O importante do estudo da história não é a memorização dos fatos e datas, não é a fixação daquilo que os compêndios, formalizaram e, al- gumas vezes, até padronizaram. Como profes- sor de história desejo suscitar em meus alunos o interesse que os leve à investigação dos fatos, ao aproveitamento das experiências por outros po- vos, a interpretação dos dados oferecidos à sua razão (MARINHO apud MELO, 1999, p. 38). Perceba que os objetivos desta primeira unidade são ecos daquilo que dizia Marinho na década de 1950. Afinal, o que ele está pensando na citação anterior? Ele estava bastante preocupado com a importância da história na formação dos alunos. Para isso, ao mesmo tempo em que é ponderada a preocupação com o ensino dessa especialidade, ele manifesta uma concepção de história e de conhecimento que sus- tentava os levantamentos e as pesquisa que fazia. A terceira fase demarcada por Melo (1999) é a que passou a existir na década de 1980 e que teve grande representatividade no livro “Educação Física no Brasil: a história que não se conta”, escrito por Lino Castellani Filho e publicado em 1988. O pró- prio título do livro deixa entrever um dos objetivos de Castellani Filho (1988): discutir problemáticas que não foram discutidas até aquele momento, nos estudos históricos sobre a educação física. O interes- se maior do autor era demonstrar o modo como a história da educação física brasileira esteve alinhada aos interesses econômicos e políticos das classes do- minantes, em uma abordagem que se caracterizava como marxista e repudiava a tentativa de se fazer uma análise que não assumisse a luta política como norte da ação dos professores de educação física. Não há como deixar de reconhecer que esse livro exerceu grande influência no momento em que foi publicado e nas décadas seguintes, o que foi ajuda- do por ter sido publicado em momento de grande intensidade das discussões que buscavam pensar o EDUCAÇÃO FÍSICA 41 papel da educação física na sociedade e, sobretudo, na escola. Isso coloca em evidência, mais uma vez, o modo como a busca pela história não é uma atitude desinteressada, inócua a quem deve tomar decisões, imediatamente. Melo (1999), muito embora reconheça esse va- lor, não deixa de criticar a obra de Castellani Filho (1988). Em que pese Castellani Filho (1988) ter “significado uma importante mudança de enfoque” (MELO, 1999, p. 39), ao se estudar o modo como o livro composto, em termos, de metodologia do trabalho de pesquisa histórica, verificou-se que a adoção de uma perspectiva marxista não significou uma ruptura com o modo tradicional de produzir história no campo da educação física. Melo (1999) é contundente quando elabora sua crítica, afirmando: A periodização continua a se submeter a especi- ficidades exteriores ao objeto, além de referen- darem uma impressão de continuidade e line- aridade sempre tão presente em todas as fases anteriores; a história é entendida como respon- sável por explicar linearmente o presente, fato agravado por uma compreensão que parte do presente com hipóteses traçadas já basicamente confirmadas, o que praticamente faz forjar no passado os elementos necessários para provar a hipótese inicial; a exasperação da crítica ao ca- ráter documental-factual das obras anteriores findou por muitas vezes no dispensar de dados, fatos e nomes, tão importantes em qualquer es- tudo historiográfico (MELO, 1999, p. 39). Essas críticas feitas à terceira fase já sinalizam as características da produção historiográfica existen- te no campo da educação física desde então. Melo (1999) não fala em uma quarta fase, mas penso que poderíamos enxergar no conjunto de estudos pro- duzidos na atualidade uma tentativa de superar os problemas metodológicos observados. Trata-se de um desafio ainda em curso, que tem contado com a aproximação dos pesquisadores de nosso campo aos debates existentes no campo da história. De al- gum modo, a tentativa que fiz nas reflexões desen- volvidas nesta unidade existem por conta de meus esforços em acompanhar essas mudanças. Trata-se de um empenho que avalio ser pleno de resultados interessantes para colaborar na continuidade das pesquisas que objetivam entenderas práticas cor- porais e a educação que nelas se baseia, a partir de uma ótica histórica. A Educação Física tem sido utilizada politica- mente como uma arma a serviço de projetos que nem sempre apontam na direção das conquistas de melhores condições existen- ciais para todos, de verdadeira democracia política, social e econômica. (João Paulo S. Medina) REFLITA 42 considerações finais Prezado(a) aluno(a), nesta primeira unidade propus uma caminhada mais lenta para pensarmos, mais detidamente, nas características da reflexão histórica voltada à educação física e aos esportes. Eliminar os automatismos desse gesto de querer saber o passado das coisas, tão corriqueiro e, por isso mesmo desconhecido, dá a ele um potencial que antes não era notado. Embora o curso de educação física para alguns se relacione à prática de atividades corporais ou ao estudo de anatomia e fisiologia, nele também se coloca como necessidade estudarmos a história dos desafios científicos e profis- sionais enfrentados por professores que viveram e atuaram antes de nós. Nessa simples atitude de voltar nossa atenção para outras épocas, há cui- dados e reflexões que buscam justificar a relevância de o conhecimento histó- rico continuar a ser produzido e ensinado. Produzido por pesquisadores que são formados para tanto, ensinado por professores que também recebem uma formação específica para isso, todos lidando com uma forma de pensamen- to plena de fragilidades, mesmo assim, e justamente por essa possibilidade de gerar vários olhares sobre o mesmo objeto, muito significativo para o enten- dimento não apenas do passado, mas de nós mesmos. O desafio de lidar com a característica lacunar do conhecimento histórico, levou ao desenvolvimento de procedimentos de pesquisa histórica que hoje são adotados também por professores de educação física. Você viu que o estudo da história da educação física também tem uma história, sendo uma atitude intelectual que vem nos acompanhando com o passar do anos e submetendo-se a mudanças importan- tes. Perceba que mudança e transformação são palavras-chave em um campo intelectual normalmente despreciado por se acreditar que ele lide com algo pronto, acabado, morto, enterrado, de uma vez por todas. Não é isso, não é? Por essa razão há bastante coisa a ser estudada nessa história. 43 atividades de estudo 1. A partir das reflexões desenvolvidas nesta unidade, como justificar a im- portância de se estudar história em um curso de educação física? 2. Pondere algumas características do conhecimento histórico. 3. Qual a importância dos documentos para a pesquisa histórica? 4. Diferencie as quatro fases da produção historiográfica no campo da edu- cação física. 5. A partir da leitura da apresentação redigida por Medina ao livro “Educação Física no Brasil: a história que não se conta”, especifique o modo como a história é vista por Castellani Filho (1988). 44 LEITURA COMPLEMENTAR Discussões sobre o documento na produção historio- gráfica são tema de muitas publicações, de trabalhos apresentados em eventos científicos, num esforço claro de compreensão sobre a pluralidade dos documentos disponíveis para a pesquisa histórica, suas característi- cas, possibilidades de exploração, acessibilidade, entre outros aspectos. [...] Utilizemos a clássica estratégia da consulta aos dicionários. Segundo o Dicionário Aurélio, documento significa “qualquer base de conhecimento, fi- xada materialmente e disposta de maneira que se possa utilizar para consulta, estudo, prova etc.”, sendo também “escritura destinada a comprovar um fato”. Já fonte apre- senta vários significados: “aquilo que origina ou produz; origem, causa”. Também “procedência, proveniência, ori- gem”. E ainda “que fornece informação sobre determina- do tema”. Quanto a testemunho, significa “depoimento”, “prova, testemunha”, mas também “indício, vestígio”. [...] Embora haja pontos em comum em todas essas de- finições, pode-se ver como elas não têm exatamente o mesmo significado, estando, contudo, profundamente relacionadas ao uso que delas - e das coisas que indi- cam - os historiadores. [...] Cada vez mais nitidamente, a produção historiográfica fundamenta-se pesadamen- te nos documentos, nas fontes que fornecem informa- ção. Menos na busca da prova e mais da construção de sentidos a partir dos indícios; e, de maneira desejável, ancorada em algum instrumento de análises de caráter mais conceitual. [...] Mas algo preocupa num cenário que costumo chamar de “entusiasmo pelos documentos”. A clareza cada vez maior acerca dos procedimentos da pesquisa histórica; o relativo vigor com que se exige a atenção a esses procedimentos, sobretudo na formação acadêmica dos pesquisadores; a crescente organização dos arquivos e a disponibilização cada vez mais ampla de documentos conforme o avanço das tecnologias são elementos que ajudam a alçar essa “matéria-prima” qua- se que à condição do conhecimento histórico propria- mente dito. [...] temos visto uma grande concentração de esforços sobre os documentos que nem sempre se faz acompanhar de equivalente análise e de construções explicativas e relacionais. Fonte: Lima e Fonseca (2013, p.19-22). 45 material complementar Educação Física + humanas Marco Paulo Stigger Editora: Autores Associados Ano: 2015 Sinopse: trata-se de uma coletânea em que pesquisadores do campo da educação física brasileira evidenciam a importância das ciências humanas tanto na formação inicial de professores quanto na pesquisa de diferentes temas relacionados às práticas corporais e à educação física escolar. Comentário: ao ler os capítulos do livro, além da importância de se es- tudar filosofia, sociologia, antropologia e história nos curso de educação física, você perceberá que a existência desses estudos lida com a luta por maior espaço acadêmico nas instituições de ensino superior. Narradores de Javé Ano: 2004 Sinopse: um pequeno vilarejo tem seu sossegado dia a dia revolucionado quando os moradores recebem a notícia que deverão se mudar pois o lugar em que vivem será inundado para a construção de uma represa. Para evitar esse desfecho, a única alternativa era mostrar a importância histórica da vila. Em torno da construção dessa situação, o enredo do filme se desenrola. Comentário: embora não trata, especificamente, sobre um tema da histó- ria da educação física, ao assistir o filme você poderá pensar na importân- cia e nas dificuldades enfrentadas no momento em que se quer escrever uma narrativa histórica. O Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte realiza o Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte a cada dois anos. Acesse o link a seguir e conheça os anais dos eventos organizados a partir de 2005. Em cada um dos eventos há os trabalhos do Grupo Temático de Trabalho (GTT’s) Memórias da Educação Física do Esporte, em que há um bom número de trabalhos e pesquisas de variados temas da história concernente aos assuntos deste livro. Link: <http://www.cbce.org.br/anais.php>. 46 referências AZEVEDO, F. de. A poesia do corpo ou a gymnastica escolar: sua história e seu valor. Belo Horizonte: Imprensa Official do Estado de Minas, 1915. BADINTER, E. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. BLOCH, M. Apologia da história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001 BRACHT, V. Educação Física: a busca da autonomia pedagógica. In: Educação Física e aprendizagem social. Porto Alegre: Magister, 1992. p. 15-32. BRASIL. Resolução n.º 07, de 31 de março de 2004. Conselho Nacional de Edu- cação. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Educação Física, em nível superior de graduação plena. Câmara de Educação Superior. Brasília-DF: Câmara de Educação Superior, 2004. CASTELLANI FILHO, L. Educação física no Brasil: a história que não se conta. Campinas-SP: Papirus, 1988. DALBEN, A. Inezil Penna Marinho: formação de um intelectual da educaçãofísica. Movimento, Porto Alegre, v. 17, n. 1, p. 59-76, jan./mar 2011. FARIA FILHO, L. M. de; VIDAL, D.; PAULILO, A. 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Nesse sentido, a pesquisa histórica consiste na busca e na análise crítica dos diferentes tipos de documentos que nos per- mitem costurar reflexões sobre diferentes aspectos da vida social e cultu- ral de outros tempos que não o nosso. 4. A partir da análise de Melo (1999), a história da educação física é compos- ta por quatro momentos. No primeiro, tratou-se de redigir apontamentos históricos a partir de comentários extraídos de livros de filosofia, sobre- tudo. No segundo, caracterizado pela ação de Inezil Penna Marinho, pas- sou-se a acumular informações buscadas em fontes primárias, reunidas linearmente em uma linha do tempo. A terceira marcou-se pela influência do marxismo, em uma leitura da realidade de característica marxista que segundarizou o levantamento documental na construção das reflexões. Por fim, a última fase é caracterizada pela aproximação dos historiadores da educação às discussões teórico-metodológicas existentes no campo da história. 5. Considerando a apresentação de Medina no livro de Castellani Filho (1988), vemos que este busca na história a demonstração de que por trás de cada aula de educação física realiza-se um amplo processo de reprodução das desigualdades sociais e injustiças políticas, características incontornáveis do capitalismo. Professor Dr. Carlos Herold Junior Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • O corpo não é apenas sua anatomia • A filosofia começa e continua...no corpo • Eu tenho um corpo ou sou um corpo? Os muitos eus e os muitos corpos que existiram na história • Os ódios e os amores devotados ao corpo na história • Prazeres e deveres no cuidado com o corpo Objetivos de Aprendizagem • Pensar na atribuição de valores culturais ao corpo. • Sublinhar a importância do corpo em muitas questões filosóficas. • Analisar diferentes modos de perceber o próprio corpo na história. • Estudar variadas visões dirigidas ao corpo em diferentes períodos históricos. • Avaliar percepções conflitantes em relação à corporeidade em outras épocas. PENSANDO O CORPO NA HISTÓRIA II unidade INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), não há muitas dificuldades em perceber que cursos de educação física dão bastante atenção ao cor-po. Afinal, se fizermos o esforço de lembrar de alguns anún-cios sobre os outros cursos, em muitas deles são mostrados pessoas conversando, sentadas à frente de um computador, desenhando, misturando substâncias, lendo livros em bibliotecas, cuidando de plantas, etc. Obviamente, em todas essas imagens, vemos corpos. Quero, apenas, sublinhar a diferença no que diz respeito ao “envolvimento corporal”: nessa diferença, entendemos em algumas imagens que certas pessoas es- tão pensando enquanto outras estão, apenas, movimentando-se. Isso pode ser ainda mais facilmente percebido na escola. Nela, os lu- gares, os tempos e os modos, alternadamente, voltam a atenção ora ao pensamento, ora ao corpo, conforme boa parte das rotinas que carac- terizam essa instituição. Sabemos que o corpo ocupa um lugar, mere- ce atenção, ou seja, tem alguma importância. Todavia, esse valor deve ser pensado, pois ele se realiza na alternância entre momentos corporais e momentos mentais. Olhemos, historicamente, o corpo. A percepção atenta ao corpo é tão arraigada em nosso cotidiano que, aparentemente, ela não deveria gerar o trabalho de entendê-la, para além de vivê-la. Nesta unidade, ao estudar o corpo na história, pretendo convencer você a pensar o contrário. Teremos como ponto de partida um duplo en- tendimento: em primeiro lugar, esse valor atribuído ao corpo no mundo contemporâneo não está isento de contradições e limites no que tange à consideração da dimensão corpórea dos homens e das mulheres. Em se- gundo lugar, a partir do conjunto dessas contradições que hoje vivemos em relação a nossa condição corporal, pode-se verificar na história que, em muitos aspectos, o corpo recebeu diferentes olhares e mobilizou va- riadas práticas, com modos e intensidade também dessemelhantes. Bons estudos! ATIVIDADE 54 O CORPONÃO É APENAS SUA ANATOMIA EDUCAÇÃO FÍSICA 55 Faço a você uma advertência: a afirmação de haver muitas outras coisas no corpo além de sua própria anatomia pode soar um tanto quanto estranha. E isso não apenas pelo fato de percebermos o corpo dos outros e o nosso próprio pela forma geral que eles têm. Percepção essa que também se constrói em olhares que buscam detalhes ou partes, que tiramos da integralidade corporal para uma gama variada de interesses. Do mesmo modo que digo ser alguém bonito ou bonita, consigo dizer que alguém tem uma pele bonita, belas mãos, um cabelo deslumbrante ou qualquer outra parte não tão atraente. Será percebida alguma estranheza na crença de o corpo ser mais que sua anatomia, sobretudo quando você começar a estudá-lo, sistematicamente, no de- correr de seu curso. Lembre-se que esse estudo é um dos pontos mais característicos dos cursos de edu- cação física não apenas hoje, mas também em sua história. Com certeza, a sensação que muitos aca- dêmicos tinham e ainda têm quando mergulham no fascinante mundo dos estudos anatômicos é a de um espanto com a quantidade de detalhes passíveis de reflexão e de denominação presentes em qualquer parte do corpo que venha a ser estudada. Para piorar ou deixar a surpresa ainda mais arrebatadora, sem- pre nos chega aos ouvidos que, em outros cursos da área de saúde, a carga horária e o detalhamento dos estudos nesse campo são ainda maiores. Se falamos em anatomia, é inevitável não pen- sarmos na importância e na energia que consumi- mos para entender o funcionamento do conjunto de nossos órgãos. Folhear os atlas de anatomia mais detalhados só não proporciona mais momen- tos de reconhecimento de nossa ignorância do que aqueles que experimentamos quando entramos nos meandros da fisiologia humana. A imensidão do território intelectual a ser conquistado, confor- me vamos pensando na integração dos diferentes sistemas que compõem nosso organismo, aumenta proporcionalmente o prazer que sentimos ao per- ceber que os esforços dos nossos estudos vão nos capacitando a entender cada vez mais sobre cada gesto que executamos. Reitero o que já pensamos: mesmo os limi- tes anatômicos do corpo já fizeram muita tinta ser consumida em milhares e milhares de páginas. Se deixarmos nossas aulas de anatomia e fisiologia das universidades e entrarmos em consultórios médicos, fisioterápicos, nos consultórios de nutricionistas e fonoaudiológicos, veremos em cada uma dessas es- pecialidades, bem como em suas subespecialidades, que o volume de informação fica cada vez maior. Se assumirmos que cada uma dessas áreas e de suas ramificações elabora procedimentos para lidar com diferentes aspectos e problemas que dizem respeito a nossa anatomia e nossa fisiologia, de fato, conclui- remos que entender o corpo humano como célula, tecidos, órgãos e o arranjo desses elementos a gerar algum “funcionamento” já é algo bastante razoável, para dizer o mínimo. Essa sucessão de espantos causados pela gigan- tesca quantidade de informações pauta-se na ideia de que o corpo é algo natural, dotado de forças e li- mites naturais. Por serem mecanismos estáveis e in- variáveis nos humanos, excetuando-se em casos atí- picos, eles tornam concreta a ideia de uma natureza humana, cuja anatomia é a mais visível das provas. Não é a únicas, pois há aquelas provas que não ve- mos. Afinal, mesmo aquilo que chamamos de “ins- tinto” é também assumido como natural. Eles não são detectáveis nas formas dos corpos, mas em mui- tas coisas que fazemos com ele: ao lado de nossas necessidades vitais - como comer, beber, não sentir frio ou calor, a reprodução -, há o medo, a raiva, a ATIVIDADE 56 tristeza, a dor, enfim, uma gama de sensações assu- midas como universais e incontornáveis, bastando estar vivo para fazê-las ou senti-las. Em que pese todas essas considerações apontem para elementos que já dão ao corpo a condição de ser um assunto intrigante e extenso em sua própria natureza, sabe- mos que há algum tempo nem mesmo essa natureza é assumida como imutável, expandindo ainda mais os limites anatômicos. Kuper (1996) pergunta se hoje somos todos darwinianos, referindo-se à importância da teoria elaborada por Charles Darwin. A pergunta denota que, apesar do caráter controverso na teoria para muitos, ela pode ser considerada uma das maiores realizações intelectuais da humanidade. Dos nu- merosos impactos gerados pelas ideias de Darwin, um dos principais é a concepção de que a “nature- za humana” não nasceu pronta por ser resultante de um processo evolutivo. Da teoria da evolução das espécies depreende-se uma determinada pers- pectiva histórica de que até a variedade de espécies surge como resultado de um processo aleatório de construção. Interessante notar que, ao apoiar essa impactante constatação, Darwin reconhece que “Man still bears in his bodily frame the indelible stamp of his lowly origin” (DARWIN apud KUPER, 1996, p. 4). Com isso, Darwin não afirma uma dis- solução da ideia de uma natureza anatômica. Pelo contrário, ele a fortalece por afirmar que essa nossa anatomia e as das demais espécies não possuem li- mites tão claros. Mesmo no âmbito dos limites cor- porais, as consequências para o nosso entendimen- to corporal e daquilo que nos faz seres humanos é grande, conforme afirma um importante estudioso da história de nossa espécie: Evidenciar que os seres humanos têm sua vida e adaptações prefiguradas e paralelas a dos animais - está na base da dúvida sobre a re- alidade do limite moral que nos separam das feras. A grande questão é saber se tememos ou aceitamos a dissolução dessa fronteira (KING- DON, 2003, p. 33). Você percebeu que já estamos dando um olhar mais histórico àquilo que assumíamos como imutável: o nosso corpo. Há muitas controvérsias e debates sobre isso. Um aprofundamento em tal assunto es- capa ao objetivo deste livro. A utilidade de mencio- ná-lo é outra: evidenciar que a abordagem históri- ca que fazemos no âmbito dos cursos de educação física é mais aproximada do estudo das maneiras como esses “limites anatômicos” são vistos, utili- zados, entendidos e percebidos pelas pessoas em diferentes épocas. EDUCAÇÃO FÍSICA 57 Essa delimitação é importante para separarmos a nossa abordagem histórica da importante abordagem evolucionista. Mesmo reconhecendo que esses nos- sos atuais limites têm “apenas” 35.000 anos e que ain- da estejam em um lento, silencioso, mas incontrolável processo de adaptação e/ou evolução, não são eles que nos ocuparão. Para nós, é mais importante verificar que uma “história do corpo” é uma história que busca entender no passado o modo como nossa “natureza” gerou reflexões, acusações e práticas, em alguns casos muito diferentes das nossas. Dito de outra maneira, nós temos a mesma estrutura corporal que tiveram os antigos gregos, os medievais, os homens modernos e os nossos avós. Entretanto, em cada uma dessas épo- cas, do ponto de vista dos sentimentos gerados e per- cebidos por essa estrutura, bem como do valor social dado para ela, poderíamos dizer que houve muitos outros corpos e muitos outros olhares para ele. Para ilustrarmos que muitos dos olhares que hoje damos ao corpo não existiram desde sempre, vale a pena voltarmos nossa atenção para o proces- so de construção de um modo de conceber o corpo, que possibilitou a gigantesca quantidade de infor- mações que hoje temos sobre ele: estudar anatomia, ensinar anatomia, produzir o conhecimento relativo a nossa anatomia, apesar de sua óbvia importância para a história da medicina, para a atualidade e, conforme já vimos, para os cursos de formação em educação física, são práticas que têm apenas quatro ou cinco séculos. Parece muito, mas lembre-se dos já citados 35.000 anos de vida do homo sapiens, além das muitas outras sociedades e épocas que simples- mente ignoraram esse tipo de abordagem anatômica do corpo. Podemos começar a entender que um dos fatos mais marcantespara percebermos que o corpo tem mais do que sua anatomia é, justamente, enten- der como surge o estudo dessas “formas”. É possível perceber em nosso cotidiano alguns dos elementos que marcaram o processo de surgi- mento e desenvolvimento dos estudos sobre a ana- tomia nos séculos XVI e XVII. Para muitos acadê- micos que iniciam seus estudos em cursos da área de ciências da saúde, as primeiras aulas de anatomia não são momentos de grande tranquilidade ou de um despertar do conhecimento científico. Frequen- temente testemunha-se o desajeito, o medo, o nojo e a resistência dos acadêmicos não apenas ao cheiro dos laboratórios, mas à presença dos cadáveres e ao seu manuseio. Não pretendo explicar ou justificar essas sensações, mas elas são importantes para a nossa reflexão em dois pontos: grosso modo, fre- quentemente esses acadêmicos e essas acadêmicas sentem algum desconforto com as aulas de anato- mia ou pela abjeção gerada pelo corpo sem vida, pela textura das diferentes partes expostas; ou, en- tão, a resistência tem uma característica mais reli- giosa ou sentimental, um constrangimento por se mexer naqueles corpos humanos postos em condi- ção de objetos manipuláveis, situação essa sentida como oposta à humanidade. Mesmo para quem tem menos sensibilidade, é difícil não se pegar dando azo a reflexões como essas. Todavia não se questiona, nos dia de hoje, a re- levância desses espaços formativos que são os la- boratórios de anatomia. É inconcebível qualquer profissional sair de sua formação inicial em nível superior sem conhecimentos importantes sobre as diferentes estruturas corporais. Se somarmos a isso as regulamentações existentes para possibilitar que cadáveres estejam disponíveis para esse estudo, ATIVIDADE 58 verificamos que os estudos de anatomia são parte constituinte de nosso cotidiano. Convido-lhe a pensar o processo histórico que levou a essa “naturalidade”, a essa quase necessidade que temos de conhecer o corpo de forma detalhada. A ideia é verificarmos que não apenas a possibilida- de de profissionais acessarem, visualmente, o inte- rior corporal, mas o fato de muitas tecnologias de imagem com as quais médicos e pacientes podem visualizar o que acontece lá dentro, são resultan- tes de um imenso conjunto de esforços que tocam o surgimento de um panorama cultural e científico nos séculos XV e XVI. O que eu proponho a você é prestar atenção às modificações socioculturais que existiram nesse momento que tornaram possível, realizável e necessário o gesto de olhar o corpo em seus detalhes. Insisto: essas modificações podem ser tomadas como o indício de que uma outra forma de entender o corpo humano estava nascendo e que ela teve impactos profundos não apenas nos desdobra- mentos médico-científicos dos séculos seguintes, mas, do mesmo modo, na maneira como os homens e as mulheres passaram a ver sua humanidade. Durante esse período da história ocidental, a sociedade europeia vivia um intenso momento de transição. Em vários pontos de vista, muitos setores da sociedade questionavam opiniões, instituições; outros setores defendiam estruturas sociais, polí- ticas e religiosas tradicionais, gerando, assim, um grande debate em torno dos rumos da sociedade. Se isso não é muito diferente do que ocorre em todos os outros momentos da história, é algo reconhecido a grande intensidade e velocidade com que essa dis- cussão passou a existir no processo conhecido como transição da sociedade feudal à sociedade capitalis- ta. Tratam-se de transformações gestadas e nascidas no curso de cinco ou seis séculos, mas que conhece- ram suas consequências mais marcantes a partir dos séculos XV e XVI, consolidando-se no XVII e XVIII. As mudanças econômicas e políticas que foram se processando na estrutura feudal da sociedade eu- ropeia e o surgimento de uma nova forma de orga- nização social, ao mesmo tempo, estimularam e fo- ram estimuladas por uma nova concepção relativa à humanidade dos homens e das mulheres. Essa nova concepção reposicionou a percepção humana sobre si mesma em muitos aspectos. O primeiro deles que vale a pena ser considera- do é que, paulatinamente, foi tomando força e vo- lume uma grande atenção às capacidades humanas de pensar e entender a si mesmo e o mundo a sua volta. A herança intelectual típica da idade média, pautada na desconfiança dessas capacidades e na sua subjugação em relação à autoridade da Igreja Cató- lica, foi se tornando alvo de críticas. Interessante ve- rificarmos que uma mudança tão radical possa ter ocorrido. Com efeito, a postura intelectual de pensar mais e mais aprofundadamente sobre todos os as- pectos da vida, além de ter desabrochado, foi algo que aconteceu com uma qualidade bem diferente da EDUCAÇÃO FÍSICA 59 que então existia: tratou-se de revisitar a tradição in- telectual existente e dominante nos últimos dez sé- culos em nome de uma outra postura. Essa postura advogava o grande potencial existente em cada ser humano para entender e perguntar, potencial com o qual homens e mulheres tinham sido agraciados por Deus. Note você que, de uma postura intelec- tual menos ativa justificada na autoridade de Deus, a sociedade a partir dos séculos XIII e XIV vai se tornando mais simpática a uma postura oposta, jus- tificando as capacidades para tanto como presentes que nos foram dados por Deus. Embora esse pro- cesso não tenha ocorrido de um modo tranquilo ou rápido, foi se consolidando de uma maneira a rela- cionar a vida humana não à aceitação passiva de um pensamento consolidado pela tradição, mas a um pensamento que deveria ser justificado pela razão e por sua adequação aos fatos. Muito relacionado a esse despontar de uma postura intelectual que busca eliminar as autori- dades religiosas e o teocentrismo a elas ligado, é importante ter claro que igualmente fundamen- tal foi o despontar de um processo de individu- alização, em que as pessoas passaram a discernir limites mais claros entre sua individualidade e as demais pessoas e instituições com as quais se re- lacionavam. Para nós, é algo bizarro imaginar que em alguns momentos essa percepção possa não ter existido, mas conforme a sociedade avançava rumo ao mundo moderno do capitalismo, assistiu-se ao florescimento de um sentimento mais claro sobre si mesmo, em que “minhas características” são toma- das como aquilo que “me” tornam único e especial perante todo o resto do mundo. Digno de nota é o modo como essas duas gran- des novidades se alimentam. Se de um lado percebo e enalteço a capacidade humana de pensar os pro- blemas e as belezas do mundo de um modo autô- nomo e cada vez mais aprofundado, paralelamente a consideração dessa capacidade vai reforçando o apreço que tenho por mim mesmo. É compreensí- vel, pois de algum modo os limites do mundo são resultantes desse olhar e desse pensamento que nada deixam intocados. O inverso também é verdadeiro: a admiração que cada indivíduo passa a ter por si mesmo e a defesa de que essa admiração é um tra- ço tipicamente humano, torna a busca por conheci- mento algo relacionado a própria felicidade, a pro- dução de uma vida mais plena, assim percebida no gozo dessas capacidades. O caminho que levou esse conjunto de transfor- mações culturais a uma nova percepção corporal não foi reto, livre de debates, idas e vindas. Todavia chegou onde hoje estamos: nosso corpo é visto, escrutinado, comparado, dissecado em seus mínimos detalhes. Um teórico dos estudos sobre corpo, David Le Breton (2003a) nos explica que o processo que levou ao “homem anatomizado” foi de grande importância em um duplo aspecto: levar à riqueza e amplitude do conhecimento corporal as quais fiz menção anterior- ATIVIDADE 60 mente, além de ter contribuído para uma das postu- ras filosóficas mais relevantes para o desenvolvimen- to da ciência, a saber: a “distinção feita entre o corpo e a pessoa humana” (LE BRETON, 2003a, p. 46). Isso também foi fundamental para que o conhecimentoanatômico se aprofundasse em ritmo aceleradíssimo. Para entender essa relação, é necessário conside- rar que, no início da idade moderna, essa separação entre “pessoa e corpo” não havia. Essa inexistência gerava muito constrangimento na possibilidade de considerar que, no corpo morto, a “pessoa” não esta- va mais “lá”. Ou seja, os limites demarcados pela pele não seriam, nessa ótica, rompidos sem proporcio- nar grandes choques morais e religiosos. Le Breton (2003a) é claro quando afirma: “Com os anatomis- tas, o corpo deixa de se esgotar na significação da presença humana. O corpo é posto entre parênte- ses, dissociado do homem, ele é estudado ele mes- mo, como uma realidade autônoma” (LE BRETON, 2003a, p. 48). Por essa razão, os primeiros anato- mistas foram considerados “iconoclastas”. Afinal, o choque dos dogmas cristãos produzido pela lâmina do bisturi chegava ao ponto religioso central: abrir o que agora passa a ser considerado um cadáver, algo sem vida, condenado a desaparecer, inviabilizava um dos pontos de apoio da ideia de ressurreição: “Deixar o corpo em pedaços é destruir a integridade humana, é arriscar-se a comprometer a perspectiva da ressureição” (LE BRETON, 2003a, p. 48). Outra passagem das reflexões de Le Breton vale a pena ser lida para você dimensionar a revolução cultural a que estava sendo submetido o corpo humano com o desenvolvimento do “olhar anatômico”: Os anatomistas partem para a conquista do segredo da carne, indiferentes às tradições, às proibições, relativamente livres no que con- cerne à religião, eles penetram no microcosmo com a mesma independência de espírito que Galileu ao invocar um traço matemática no espaço milenar da Revelação (LE BRETON, 2003a, p. 53). Dito de outra maneira, o lugar do homem no uni- verso estava sendo reformulado pelos avanços no conhecimento do “muito grande”, sobre o planeta, o universo etc. O mesmo espírito científico invadia o espaço do “muito pequeno”, penetrando cada vez mais fundo nos nossos tecidos corporais para conhe- cê-los, oferecendo-os à vista de todos. O “milagre de Deus” passou a ser abordado pelos anatomistas em um processo que colocou a materialidade corporal exposta, ato possível pelas mudanças socioculturais então experimentadas. Mudanças que fizeram o cor- po receber outra atenção e desempenhar papéis so- cietários antes inexistentes. Por essa razão, a análise histórica, com a perspicácia da análise anatômica, demonstra que atribuímos aos olhares que damos ao corpo muitos significados. EDUCAÇÃO FÍSICA 61 A FILOSOFIA COMEÇA… E CONTINUA NO CORPO ATIVIDADE 62 Superada um pouco da surpresa de se estudar histó- ria em um curso de educação física, podemos mer- gulhar de uma forma mais plena na reflexão sobre o processo histórico que, de alguma forma, sustenta aquele sentimento inicial de espanto. Ou seja, por que facilmente entendemos que há uma separação entre movimentar-se corporalmente e o pensamen- to que fazemos sobre esses movimentos? Você lembra que fiz menção às propagandas so- bre cursos de educação física no início da primeira unidade. Foi visto, também, que é até concebível para muitos entender cientificamente diversos aspectos das práticas corporais e do trato profissional com elas. O espectro de especialidades científicas que lançam luzes à fisiologia humana no momento em que executamos diversas atividades é amplo. Além disso, pesquisadores dessas áreas aprofundam cada vez mais o conhecimento que se tem da quase tota- lidade corpórea do homem. Muitas pesquisas foram feitas desde os primeiros anatomistas nos séculos XV e XVI. Diversas áreas biomédicas floresceram, estu- dos bioquímicos levaram a drogas mais precisas e eficientes na ação de numerosos problemas de saúde que nos afligem. Ou seja, compreendemos que, se há uma dimensão intelectual com presença marcante no campo da educação física, essa é a dimensão que ex- plica o funcionamento corporal. O que nos interessa agora é pensarmos que essa “reflexão científica” sobre o corpo e seus movimentos assenta-se na necessidade de assumir que há uma reflexão sobre o corpo que o entende como objeto, como algo a ser conhecido. Uma reflexão que o trata como um assunto do pen- samento por ser muito diferente desse mesmo pensa- mento. Trata-se de uma obviedade? Talvez não. Nos itens anteriores tem sido feita a tentativa de evidenciar que outros campos intelectuais são in- contornáveis na formação profissional em educação física. Pensar historicamente é a ação que demarca um desses campos. Além disso, vimos que ela é uma reflexão que evidencia a historicidade de pratica- mente tudo que, normalmente, é assumido como não possuidor de história. Ou, para ficarmos no âm- bito do corpo, algo possuidor de uma história redu- zida ao processo de evolução de uma natureza, tal como nos explica Charles Darwin. Ao se assumir que o corpo também tem uma história ligada aos modo como ele é percebido, uma das primeiras questões que deve nos chamar a atenção é a seguinte: a clara separação entre movi- mentar-se e pensar que se manifesta no modo como concebemos o que vem a ser pensamento, corpo e suas relações, ocupou pensadores em outras épocas e ainda inquieta muitos estudiosos. Para olharmos essa questão mais proximamente, vamos adotar o procedimento que sustenta este livro: vamos pensá- -la historicamente. Se a problemática é a relação entre o corpo e o pensamento, acredito valer a pena estudarmos o processo de surgimento da filosofia que ocorreu na sociedade grega em volta dos séculos V e IV a.C. Normalmente, assumimos os estudos em filosofia como algo demasiadamente distante dos proble- mas práticos e concretos. Não é incomum termos uma imagem negativa dos filósofos, como pessoas alheias à realidade em que vivem, apegadas que são ao “mundo das ideias”. Essa (des)consideração da filosofia deve ser questionada, caso você queira en- tender os assuntos concernentes à educação física. EDUCAÇÃO FÍSICA 63 Em primeiro lugar, é importante você ter claro que o surgimento da filosofia na Grécia Clássica não deve nos fazer esquecer que a sociedade grega re- cebia influências de muitas outras culturas que, ao seu modo, pensavam em suas problemáticas a partir de suas próprias condições. Fundamental nesse pro- cesso de surgimento de uma nova forma de pensar, racional por excelência, e que dá à Grécia o tão ci- tado status de “Berço da Civilização Ocidental”, foi o fato de a filosofia ser uma nova postura perante a vida individual e social gestada a partir de transfor- mações históricas tocantes à sociedade, à economia, à percepção que os gregos tinham deles mesmos e, sobretudo, à política. Esse último aspecto deve ser mantido muito pró- ximo na hora de você pensar as razões que levaram ao surgimento da reflexão filosófica. A consideração do aspecto político da questão não deve ser subes- timado. O desenvolvimento da pólis como forma social da sociedade que cria a filosofia colocou em questão a necessidade de se pensar no aspecto fun- damental de toda sociedade política: o uso do diá- logo para deliberação dos rumos da “cidade”. Parece algo trivial, mas não é. Em sociedades não políticas, esse elemento discutido das decisões não se faz sen- tir. Na política, as decisões são pensadas e tomadas a partir da capacidade argumentativa dos cidadãos. Interessante verificar o modo como essa necessidade atinente à condução dos assuntos concretos da vida comunitária colocou como necessidade e possibili- dade uma reflexão que levasse a sociedade a tomar boas decisões, livremente adotadas depois da delibe- ração dos partícipes. Para atingir essa necessidade de bem pensar os rumos da cidade, foi imprescindível a nascente fi- losofia ponderar a relação dos cidadãos com as leis, com a formação dos futuros cidadãos, as possibili- dades de comportamentos corretos e do sentido a ser dado à vida por esses comportamentos. Nessa avaliação, entender o modo como diferentes senti-mentos e capacidades humanas se relacionavam e se opunham foi um passo incontornável. Nesse ponto o processo de nascimento da filosofia traz elementos bastante interessantes para pensarmos o corpo e seu relacionamento com as demais capacidades huma- nas, sobretudo o pensamento racional. Como nos ensinam Braunstein e Pépin (1999, p. 13), a maneira como os gregos pensaram o corpo “depende estrei- tamente do seu sistema de pensamento, fundado na noção de racionalidade e harmonia”. Para o alcance dessa racionalidade, o corpo é visto apenas como um instrumento. Ele é o que deve ser superado para que a alma alcance a verdade que se busca nos deba- tes filosóficos e políticos. Se o corpo constitui um problema para os fi- lósofos gregos, é porque lhes apareceu como a soma de uma longa e difícil luta entre dois prin- cípios: um, em relação com a racionalidade, o inteligível porque material; o outro, em relação com o sensível, por estar ligado ao mundo além. O corpo definiu-se como uma dualidade, cor- po-alma, do mesmo modo que a humanidade se divide em filósofo e não filósofo, o homem vive pelo espírito e o que vive pelos sentidos. [...] Só a alma retém a sua atenção, detentora do conhecimento único, só ela pode levar à verdade, ao não esquecimento (BRAUSTEIN; PÉPIN, 1999, p. 21). ATIVIDADE 64 Essa nascente dualidade, por sua vez, não deve ser concebida como uma simples relação de desprezo em relação ao corpo, algo que foi muito marcante nos séculos que se sucederam à construção do do- mínio da Igreja Católica e que se consolidou a partir do século IV d.C.. É interessante observar que, di- ferentemente do que ocorrera durante a Idade Mé- dia, a Antiguidade Clássica sustentou-se em uma “complementaridade, mais do que sobre a oposição do inteligível e do sensível” (BRAUSTEIN; PÉPIN, 1999, p. 23). Com efeito, entendemos que o lugar do corpo e sua relação com o pensamento não é fácil. Platão, em um de seus diálogos, afirma que o corpo é o “túmulo” da alma. Mesmo assim, há elementos na história grega que nos permitem afir- mar um relacionamento entre elementos estéticos, eróticos e intelectuais. A verdadeira sabedoria, traduzida pela beleza, residia mais uma vez no equilíbrio da persona- lidade. A maneira como os gregos percebiam esse equilíbrio transparece na importância que davam ao Eros, cujo sentido de “amor” se estende bem para lá do desejo físico, para in- cluir, também a paixão intelectual e espiritual (BRAUSTEIN; PÉPIN, 1999, p. 25). Para apreendermos a importância do pensamento que lemos na citação, lembremo-nos da profusão de corpos belos que nos vêm à mente quando pensa- mos na estatuária feita pelos gregos e na importân- cia que possuía o corpo nu para a sociedade grega. Nudez cuja exibição era privilégio dos cidadãos, que tinham seus corpos treinados no ginásio por meio de práticas que estudaremos na próxima unidade. De qualquer modo, perceba que o dito “berço” da civilização traz em si elementos que nos fazem pensar na relevância da dimensão intelectiva e cor- pórea do homem. A dificuldade é entender como essas dimensões são consideradas em diferentes mo- mentos, sem esquecer que em uma mesma realidade pode haver modos diferenciados de avaliar o corpo. Há alguns anos isso me fez analisar a presença do corpo na história grega, enxergando nela uma con- traposição entre a necessidade do cultivo intelectu- al imprescindível ao mundo político e o elogio da força e da aparência física como traços constituintes de uma sociedade agonística e guerreira. Ao reali- zar tal análise, marquei essa contraposição, deixan- do superlativas duas partes corporais: de um lado a “língua grande”, de quem fala, argumenta e elabora seu argumento por meio da retórica; e de outro o “ombro largo”, que simboliza a força dos atletas e dos guerreiros como figuras elogiadas na estrutura so- ciocultural grega. Xenófanes, vivendo no período de 540 a 470 a.C., explicita um registro elucidativo da desconfiança que a valorização do corpo gerava em parte dos gregos: Não é justo preferir a força à verdadeira sabedo- ria. Se há na cidade um bom pugilista ou um bom atleta distinguido no Pentatlon, na luta ou na cor- rida - que é a mais importante das provas atléticas nas competições entre os homens - nem por isto estará, por ele, melhor governada (XENÓFANES apud HEROLD JUNIOR, 2007, p. 100). EDUCAÇÃO FÍSICA 65 A intenção é fazer que fique claro para você, queri- do(a) aluno(a), que o nascimento de uma sociedade política baseada na reflexão e argumentação racio- nal dos problemas da pólis colocou em evidência a dimensão corporal do homem. Esse destaque se deu pela negação dessa dimensão em nome da in- teligência e do discurso, do mesmo modo que levou muitos a defenderem como incontornável e neces- sária a reflexão sobre o corpo para se aprimorar a capacidade de se conhecer a verdade e tomar boas decisões conectadas a aspectos estéticos e eróticos da vida. Desse ponto de vista, a sociedade grega clás- sica é um alvo de reflexões muito importante para pensarmos na história do corpo e das práticas edu- cacionais a ele associadas. No momento em que as bases intelectuais ocidentais se formavam, podemos ver nesse mesmo processo de formação que o corpo fornecia muitos dos motivos que levaram à emprei- tada filosófica e política. Mais uma vez, Braustein e Pépin (1999) nos explicam o valor que possuía o corpo para os gregos: Daí decorre o conceito do corpo humano onde a própria ideia de desmesura está exclu- ída, porque, mais do que qualquer defeito, ela se opunha ao ideal de harmonia matemática e de disciplina do indivíduo. Os gregos con- denavam-na no plano moral tanto como a temiam no plano. A desmesura chocava-os política, moral e esteticamente. [...] Assim, ter um corpo belo, um corpo são, depende antes de mais nada de uma profunda serenidade em perfeita correspondência com a harmonia do universo. [...] Sem dúvida que é porque o cos- mos se apresenta como um conjunto de cor- pos, produto de uma actividade humana ou da natureza, que a ordem e a organização devem trazer estabilidade e coesão. O corpo humano é a reprodução orgânica desse conjunto. Por extensão, podemos dizer que o corpo políti- co são é aquele cujos corpos constituintes se completam, funcionam e se reúnem perfei- tamente, sem nenhuma disfunção (BRAUS- TEIN; PÉPIN, 1999, p. 18). Essa longa citação ajuda você a compreender o fato de que, na construção do imenso e belo edi- fício artístico, filosófico e político da sociedade grega, o corpo humano ofereceu motivos relevan- tes para o entendimento da concatenação e das rupturas existentes entre o homem, a natureza e a sociedade. Como integrar esses três âmbitos foi o que levou ao nascimento da filosofia. É a partir do corpo que ela nasce. Sem as dúvidas provocadas pelas mudanças corporais, pelas vontades que por elas sentimos, pela percepção do mundo que temos por intermédio de suas estruturas, o pensamento não teria ampliado os horizontes do modo como ocorreu a partir do século V a.C. Como poderiam dizer Braunstein e Pépin (1999), esses horizontes extrapolaram, em muito, os limites do corpo hu- mano. Mas a força e o ímpeto para esse rompimen- to enraizam-se no corpo. Por isso, as belas obras do pensamento começam e terminam nos contornos corporais que, sabemos, constroem-se não apenas em sua anatomia, mas nos modos como os perce- bemos. Entender esses modos é o que podemos considerar como meio do estudo da história. ATIVIDADE 66 Estudar historicamente o corpo é uma pos- tura que não deixa intocada, nem mesmo, uma de nossas mais certas percepções: as diferenças anatômicas que nos capacitam a afirmar a existências dos sexos. Thomas Laqueur (2001) ao falar sobre a invenção do sexo, explica que até o século XVIII não havia a concepção que afirmava haver uma diferença entre homens e mulheres. Até então, assumia-se que as mulheres seriam aquelas que teriam ficado no meio do ca- minhodo processo de desenvolvimento que levava ao desenvolvimento total do ser humano, materializado na conformação anatômica masculina. Nesse ponto tam- bém, o desenvolvimento da anatomia, da medicina e da obstetrícia foi fundamental para afirmar que homens e mulheres são diferentes. Há que se reconhecer a posi- tividade dessa constatação. Todavia, não deve ser posto de lado que ela fortaleceu muitos discursos pseudo-científicos a atri- buir às mulheres uma “condição natural” ligada à maternidade. Tudo isso endossa a constatação de que o entendimento que se tem sobre o corpo é histórico e não pode ser reduzido ao aspecto científico. Afinal, nesse aspecto também, penetram muitas compreensões culturais e políticas que ca- racterizam uma determinada sociedade que vê e avalia o corpo humano a partir dessas compreensões. Fonte: o autor, baseado em Laqueur (2001). SAIBA MAIS EDUCAÇÃO FÍSICA 67 EU TENHO UM CORPO OU SOU UM CORPO? OS MUITOS EUS E OS MUITOS CORPOS QUE EXISTIRAM NA HISTÓRIA ATIVIDADE 68 Caro(a) aluno(a), nos itens anteriores foram abordados alguns pontos para nos ajudar a en- tender diferentes modos com os quais o corpo foi visto, avaliado e percebido em outros momentos da história. Tão acostumados que estamos a lidar com o nosso corpo que assumi a necessidade de fazer um esforço para tentar entender essa obvie- dade, deixando de enxergar nela algo inevitável ou existente desde sempre. O primeiro passo foi percebermos que nem mesmo a natureza corporal está imune à passagem do tempo, afinal, até essa “natureza” é resultante de um processo de adaptação e transformação disso que hoje somos em termos corpóreos. O segundo passo, dado quase simultaneamente ao primeiro, foi percebermos que, ao olharmos corpos, perce- bemos coisas que não se reduzem ao dado visto, apesar de nele se apoiarem. Ou seja, o modo como avaliamos, sentimos desejo ou repulsa por deter- minados corpos, objetos e atitudes, é dependente dos valores sociais, culturais e políticos vigentes em um mesmo momento e compartilhados por todos que dão vida ao convívio social, palco onde a aten- ção ao corpo ocorre. Além dessas constatações, foi abordada outra obviedade, evidenciando que, historicamente, os li- mites assumidos como inquestionáveis podem ser problematizados: ao estudarmos um pouco da so- ciedade grega, vimos que o reconhecimento normal- mente atribuído às conquistas culturais, artísticas e intelectuais, não deve ser visto como o resultado de uma negação à dimensão corpórea dos homens e das mulheres. O contrário é que foi defendido, com o intuito de entender que a oposição entre as ideias e o corpo, entre o ideal e o real, entre o abstrato e o concreto, longe de ser uma diminuição da relevância do corpo em relação à mente, é resultante de uma complexa sinergia. Complexa, pois ela é um dos pontos que ainda vêm exigindo grande atenção de muitos cientistas e filósofos, embora cotidianamen- te a mencionada conexão não seja assumida como existente ou importante. Nesse item continuaremos a aprofundar nossa reflexão sobre o corpo na história, pensando outra obviedade, buscando entendê-la em seu processo de construção. Muito relacionada à separação entre o mundo das ideias e do corpo é a separação entre o “eu” e o corpo. É esta separação que nos permite dizer que temos um corpo, ou “eu gosto do meu corpo”. Mais uma vez vale a advertência: tratam- -se de usos cristalizados no cotidiano e com quais resolvemos muitos problemas do dia a dia. O que se quer é entender isso que tanto fazemos, ou essas expressões que tanto dizemos, pondo em destaque que elas foram construídas em outros momentos históricos e que foram importantes para a supera- ção de muitas posturas filosóficas e culturais não mais condizentes com o mundo que, então, nascia. Nos próximos parágrafos vamos ver como o cor- po passou a ser objeto de uma determinada forma de pensamento a partir dos séculos XV e XVI, que marcam o início da idade moderna. De algum modo, já comentamos sobre esse pe- ríodo da história quando falamos do florescimento da anatomia. Com efeito, o fato de uma determina- da sociedade passar a enxergar como necessário e normal dissecar cadáveres é um indício importante para nos ajudar a entender a separação entre o “eu”, a subjetividade, a sensação de ser uma pessoa, de um lado; e a materialidade corporal, do outro. Quando estudamos história, acostumamo- -nos a entender as sociedades em constante pro- cesso de mudança e transformação. Mudanças que ocorrem ora mais rapidamente, ora mais len- EDUCAÇÃO FÍSICA 69 tamente, mas perceptíveis em todas as épocas e lugares. Entretanto, é tranquilamente aceito que o processo de transição do feudalismo ao capitalis- mo aconteceu em um ritmo e uma profundidade que fizeram muitos aspectos da vida societária tornarem-se muito diferentes do que eram nos séculos precedentes. Nos séculos XV, XVI e XVII surgiram novas ma- neiras de se entender praticamente tudo. Passou-se a advogar uma nova forma de se pensar a nature- za, a política, a religião, a educação e, obviamente, a composição do próprio homem. Na conjunção des- sas novas posturas perante a vida que marcaram o surgimento da modernidade, uma nova maneira de se entender o corpo surgiu. Vimos que na Grécia a tensão entre corpo e pen- samento existia, mas o mencionado tensionamento considerava uma certa estética da vida, em que essa separação era dificilmente vivenciada. Estudamos que essa consideração da sinergia das dimensões humanas não era tranquila ou inquestionável, mas marcou aquele momento histórico. De um modo diferente em muitos aspectos, al- guma inseparabilidade entre corpo e reflexão tam- bém pode ser vista no homem medieval. A impor- tância do corpo, visto como fonte dos pecados e a tentativa de diminuí-lo, reprimi-lo e subjugá-lo à fé cristã, não deixava de lado a importância dessa di- mensão corpórea do homem nos ritos eclesiásticos. Afinal, assumia-se que era por meio do corpo con- trolado que a fé poderia se manifestar e se ampliar, explicitando uma assunção de que o cristão não se separava de seu corpo no seu longo e difícil cami- nho que levava até a religação com Deus. Para o me- dieval religar-se a Deus passava pelo esforço diário de desligar-se dos pecados causados pelas vontades, pela tentação associada à carne. Sublinho a grande diferença que existiu no modo como os gregos da Antiguidade Clássica e os medievais experimentaram seus corpos. Mas es- culpir estátuas de belos corpos, admirar com olhar cheio de desejo um corpo nu ou castigar o próprio corpo, ou queimar transgressores em espetáculos, sob um determinado ponto de vista, é a mesma coi- sa: enxergar no corpo o locus de realização daquilo que os outros e nós somos. Eles eram seus corpos. Os corpos eram eles. Com a crise dos valores típicos do mundo feudal, assistimos a transformações sócio-históricas que le- varam ao capitalismo. Forjou-se um outro conjunto de posturas, de mentalidades e de visões de mundo que começaram por construir nossa capacidade de nos pensarmos como diferentes, ou como proprie- tários de um objeto: o corpo. Com essa capacidade, o corpo deixa de caracterizar a particularidade de cada indivíduo, bem como sua vinculação à huma- nidade, caracterização essa que passou a ser privilé- gio do pensamento e da razão. Vamos pensar e entender como essa separação se tornou possível, como ela se relacionou com ou- tros aspectos da vida sociocultural dos séculos XVI e XVII, bem como o impacto que ela gerou nas ques- tões culturais e educacionais tanto interessam futu- ros professores de educação física. Um elemento importante para nos ajudar a en- tender as transformações que nos interessam nesse momento foi pautado nas críticas à autoridade da Igreja, sobretudo quando esta tentava explicar as grandes questões atinentes à natureza e ao homem e sua relação com Deus. Essa autoridade, que estava sendo cada vez mais criticada,fazia suas afirmações, defendia suas verdades a partir de uma determina- da tradição, tomada como inquestionável, como não suscetível de crítica. Isso, evidentemente, inviabili- ATIVIDADE 70 zava qualquer possibilidade de se construir expli- cações diferentes, mais satisfatórias a quem não se contentava com a maneira de se explicar a natureza e o lugar do homem nela. No interior da afirmação dessa antiga autorida- de, foi se fortalecendo a defesa de outros modos de se conhecer e pensar as problemáticas a serem conhe- cidas. Essa novidade apoiava-se na crença de que as afirmações eram feitas por meio de uma autoridade, carência de evidências empíricas observáveis. Além disso, passou-se a advogar que o conhecimento não deveria se adequar a qualquer tipo de tradição, mas que deveria espelhar a natureza, independentemen- te das preferências de quem elaborava as explica- ções. De fato, uma das principais críticas feitas ao modo de conhecer que existiu antes do advento da ciência moderna foi sua parcialidade, sua incapaci- dade de gerar afirmações inquestionáveis, exatas e produtoras de consequências benéficas justamente pela imprecisão com que eram feitas. Perceba o nascimento da ciência, entendida como uma forma de conhecimento que produziu numerosas consequências, justamente pelo modo como passou a ser produzida: baseada na experi- mentação e no método. Fundamentais nessa cons- trução foram os pensamentos de Francis Bacon (1984) e René Descartes (1979). Na construção da ciência moderna, foi necessário fazer-se frente àque- les que diziam ser o suficiente um bom argumento. Bacon (1984) contrapunha essa posição, afirmando: O intelecto, deixado a si mesmo, na mente sóbria, paciente e grave, sobretudo se não está impedida pelas doutrinas recebidas, tenta algo na outra via, na verdadeira, mas com escasso proveito. Porque o intelecto não regulado e sem apoio é irregular e de todo inábil para superar a obscuridade das coisas (BACON, 1984 [1620], p. 17). Essa desconfiança do intelecto humano levou à bus- ca de instrumentos que potencializassem a capaci- dade humana de ver e entender aquilo que queria. A citação seguinte é bastante conhecida no campo da filosofia, por ilustrar a forma como o caminho que levou ao método científico foi se pavimentando: E, se nos acusam de arrogantes, cumpre-nos observar que isso seria verdadeiro de alguém que pretendesse traçar uma linha reta ou um círculo, melhor que algum outro, servindo-se apenas da segurança das mãos e do bom gol- pe de vista. No caso, haveria uma comparação de capacidade. Mas se alguém afirma poder traçar uma linha mais reta e um círculo mais perfeito servindo-se da régua e do compasso, em comparação a alguém que faça uso apenas das mãos e da vista, esse com certeza não seria um jactancioso. O que ora dizemos não se re- fere somente aos nossos primeiros esforços e tentativas, mas também aos dos que se segui- ram com os mesmos propósitos. Pois o nosso método de descoberta das ciências quase que iguala os engenhos e não deixa muita margem à excelência individual, pois tudo submete a regras rígidas e demonstrações (BACON, 1984 [1620], p. 83). É possível notar que o traço distintivo da ciência como forma de conhecimento era o fato de ela ser produzida por meio de instrumentos, por meio de métodos que diminuíam as influências das fra- gilidades humanas que impediam a elaboração de conclusões, “claras e distintas”, como defendia Descartes (1979). Este, aliás, redigiu o “Discurso do Método”, para demonstrar que havia encontra- do um procedimento que o dava a segurança “de usar em tudo minha razão, se não perfeitamente, ao menos o melhor que eu pudesse…” (DESCAR- TES, 1979 [1637], p. 40). Nesse raciocínio, a perfei- EDUCAÇÃO FÍSICA 71 ção no uso da razão não existia, pois, como afirma o próprio Descartes em outro trabalho de grande importância na história da filosofia ocidental, a razão existe unida a um corpo que não deixa de atrapalhá-la no momento em que ela realiza opera- ções para descobrir o que deseja. Por esse motivo, o nascimento do método científico colocou o corpo em um lugar de bastante suspeição, conforme nos ajudar a pensar Valter Bracht: Nas teorias do conhecimento da modernidade, que têm sua expressão máxima no chamado método científico (a ciência moderna), o cor- po ou a dimensão corpórea do homem aparece como um elemento perturbador que precisa ser controlado pelo estabelecimento de um proce- dimento rigoroso (BRACHT, 1999, p. 71). Para que a reflexão evidencie a forma como um novo entendimento se faz sobre nosso corpo, note que está em jogo a capacidade de bem conhecer- mos as coisas. Esse esforço não é novidade no sé- culo XVI, mas o modo como o problema fora re- solvido é o que nos interessa. Descartes (1979), nas “Meditações”, reconhece que o problema tocava em uma tradicional maneira de se entender o que são os homens e o que eles poderiam conhecer: “é quase impossível desfazer-se tão prontamente de uma antiga opinião” (DESCARTES, 1979 [1641], p. 98). Mas qual seria a “nova opinião” a ser abra- çada por Descartes? [...] só concebemos os corpos pela faculdade de entender em nós existente e não pela imagina- ção e nem pelos sentidos, e que não os conhe- cemos de os ver ou de tocá-los, mas somente por concebê-los pelo pensamento, reconheço que nada há mais fácil de conhecer do que meu espírito (DESCARTES, 1979 [1641], p. 98). Para o filósofo, é essa capacidade racional que dife- rencia o homem de qualquer outra coisa existente, além de ser ela a portadora daquilo que me diferen- cia dos outros homens, de um modo significativo. Afinal, quando olho para as outras pessoas, perce- bo diferenças entre nossos corpos, mas esses, sem a faculdade de entender, são “res extensa” (DESCAR- TES, 1979), são objetos, como são as pedras, as ár- vores e os outros animais. Esse modo de entender a presença corporal do homem levará à concepção do “corpo-máquina” que será desenvolvida nos sé- culos posteriores, mas encontra em Descartes e no processo de florescimento da ciência moderna seu momento fundador. Temos, assim, uma sociedade que nascia, que propunha uma nova forma de conhecimento que pretende instrumentalizar o entendimento humano com um método que diminui a influência do “cor- po-máquina” no momento em que faço aquilo que me distingue como ser humano: pensar. Compre- ende-se por esse raciocínio a razão da dissecação anatômica por nós abordada há algumas páginas, expandir-se nesse mesmo momento: o cadáver, não mais possuidor daquilo que nos faz humanos, o en- tendimento, a razão, pode ser dissecado, fracionado, aberto, exposto, tocado, sem qualquer constrangi- mento. Aquilo fez parte de uma pessoa, e, em cima da bancada para ser estudado, tem o mesmo estatuto de uma planta ou de qualquer outro objeto a ser co- nhecido pela experimentação científica. Os impactos disso para a ciência foram sabida- mente gigantescos. O mesmo ocorreu para as práti- cas educacionais: falar em uma “educação física”, ao lado de uma “educação intelectual” tornou-se algo mais fácil. Além disso, conforme o conhecimento anatômico se expandia, a parte corporal da educação foi recebendo defensores na mesma medida em que ATIVIDADE 72 se entendeu de forma científica os diferentes pro- cessos existentes e necessários para a manutenção da vida. Manipular essas variáveis, seja por meio de corridas ou por meio de cirurgias, tornou-se possí- vel em um momento em que as sociedades foram as- sumindo como importante que os indivíduos, entre outras coisas, deveriam cuidar de seus corpos. E essa decisão foi, racionalmente, tomada por um “novo eu”, a partir de dados científicos que foram se acu- mulando. A forma como nos percebemos, donos de nossos corpos, foi primordial para que tenhamos nas escolas um momento dedicado à “educação física”. Essa percepção dualista sobre o homem, desde o século XVII tem sido objeto de numerosos e in- tensos debatesentre filósofos e cientistas. A posição cartesiana de que nosso corpo é apenas uma máqui- na, e como tal deve ser conhecida, recebeu muitas críticas e ainda tem sido refutada de muitas formas. De qualquer modo, observa-se que essa concepção do “corpo-máquina” e de que podemos conhecer apenas seu “funcionamento” deu ao campo da edu- cação física muitas de suas características, sobretu- do na construção das matrizes disciplinares prefe- rencialmente estudadas nos variados processos de formação. Por esse motivo, focalizar o corpo sob um ponto de vista histórico proporciona condições para entender muito daquilo que você encontrará no cur- so e no exercício da profissão. EDUCAÇÃO FÍSICA 73 Ao desnaturalizar a forma como concebemos o cor- po humano, percebemos muitas questões e proble- mas, além dos meramente biológicos, anatômicos e fisiológicos. Conforme ficou claro nos itens ante- riores, embora esses problemas atinentes à natureza do corpo já ofereçam desafios complexos a todos aqueles que querem estudá-lo, essa complexidade não nos deve levar a esquecer que, a tal materialida- de formada por células e tecidos, agregam-se modos muito variados de entendê-la. Entender esses modos é um dos objetivos mais interessantes a serem alcan- çados por uma reflexão que tematize a história da educação física. A necessidade de fazermos esse esforço analí- tico para vermos no corpo coisas que extrapolem sua anatomia já é compreendida por você. Afinal, desde o florescimento da ciência moderna e seus princípios metodológicos pautados na experimen- tação e no reconhecimento da diferença entre o pensamento e a extensão, entre a razão e o corpo, a forma preponderante de conhecermos o corpo é a avaliação cuidadosa dessa “máquina”. Como toda “máquina”, o corpo deve ser desmontado em suas menores partes, as quais devem ser vistas, medidas, isoladas em seu funcionamento. Enfim, a ciência anatômica proporcionou uma fonte mui- OS ÓDIOS E OS AMORES DEVOTADOS AO CORPO NA HISTÓRIA ATIVIDADE 74 to rica de conhecimento que, sabidamente, levou a muitas possibilidades médicas impensáveis em sociedades nas quais o corpo e a razão eram inse- paráveis. Por isso, ao analisar a matriz curricular de seu curso, a importante ênfase biologizante dos cursos de educação será compreendida por você enquanto uma construção histórica que traz para os dias de hoje o processo de construção da pró- pria ciência e seu olhar matematizante ao corpo e à educação que dele se ocupa. Se a alternância entre momentos históricos nos quais o “eu” e o corpo não se diferenciavam, com momentos em que se pode afirmar que “tenho um corpo”, trouxe consequências científicas e filosóficas de primeira ordem, há uma outra maneira de olhar- mos o corpo para além da sua anatomia, que também foi e ainda é muito relevante, em termos históricos. Seja como elemento constituinte da humanidade ou como objeto a ser conhecido pela razão que escruti- na um objeto, em diferentes sociedades, de diferen- tes épocas, ora alternaram-se, ora combinaram-se ódios e amores dispensados ao corpo. Por ódios e amores, refiro-me a variadas maneiras de enxergar em nossa materialidade corporal ou algo a ser cui- dado ou algo a ser desprezado. Antes de analisarmos a questão historica- mente, sublinho a necessidade de pensarmos na combinação entre diferentes formas de valorizar o corpo na história. O modo mais usual é enten- dermos sentimentos opostos sobre o corpo como pertencentes a momentos diferentes. Nesse racio- cínio, a uma época que tivesse devotado grande devoção ao corpo, sucederia outra em que o cor- po teria sido, apenas, odiado ou desqualificado. As análises que fizemos nos itens anteriores, aliás, de alguma maneira, deixam entrever a necessida- de de evitarmos tal postura. A Grécia Clássica, por exemplo, é vista por alguns estudiosos como o momento em que a razão filosófica teria feito sua aparição pela anulação da dimensão corpórea. Para outros, teria sido aquela sociedade o tempo que possuiu um horizonte ainda não alcançado no que diz respeito à educação física. Essa ambiguidade pode ser vista, também, em um período da história normalmente associado à depreciação corporal: a Idade Média. Le Goff e Truong (2010), ao estudarem o corpo nesse mo- mento da história da humanidade, fazem-nos per- ceber a maneira contraditória com o que o corpo era percebido. E isso sem esquecermos que esta- mos falando de um momento em que as questões religiosas tinham grande relevância na organiza- ção da sociedade. No seio dessas questões, aborda- das a partir de uma perspectiva cristã-católica, o corpo era tomado como fonte dos pecados, contra os quais deveria lutar o devoto em seu caminho rumo à correta adoração de seu Deus. Todavia, mostram os historiadores, não podemos tomar os discursos religiosos como as únicas fontes de com- preensão de um determinado “ódio” ao corpo. Eles nos mostram que durante toda a Idade Média, ao lado de discursos e práticas que denegriam a nos- sa “carne”, havia uma vida cotidiana em que essa mesma “carne” era desfrutada pelos cristãos de um modo mais intenso do que aquele que presumiría- mos ser, se nos ativéssemos apenas aos pensamen- tos que atribuíam energias pecaminosas às vonta- des que surgem do corpo. O mesmo pode ser dito em relação ao avanço da ciência moderna e dos desdobramentos da ciên- cia anatômica. A atenção dedicada ao cadáver, dis- secado zelosa e habilmente pelo anatomista, é um indicativo de uma diminuição ou de uma elevação do lugar do corpo na vida social? Tanto para os gre- EDUCAÇÃO FÍSICA 75 gos quando para os modernos, a resposta é ambígua. Sobre a problemática do corpo no início da época moderna, Herold Junior (2004) afirma: Momento de “liberação” ou “valorização”! Essa assertiva [...] ser vista com suspeita, permitindo verificar que, nos albores da idade moderna, o corpo foi alvo, também, de uma “vigilância”, de um “esquadrinhamento”, de um “controle” não vivenciados pelos medievos (HEROLD JU- NIOR, 2004, p. 222). A ambiguidade em relação ao corpo que leva a ava- liações e considerações contrastantes a ele é uma questão que tem ocupado muitos filósofos há um bom tempo. Se tenho me esforçado em demonstrar que na história do pensamento filosófico o lugar do corpo é ambíguo, não podemos esquecer que con- tra ele levantaram-se muitas vozes, ocasionando em muitas suspeitas contra o corpo. Emblemático, nesse sentido, foi o que discutimos sobre o desen- volvimento da ciência moderna. Bracht (1999) nos ajudou a perceber que, ênfase da nascente ciência no concreto, no mensurável, ela se construiu com uma desconfiança muito grande sobre aquilo que perce- bemos pelo “nosso corpo”. Essa percepção, por sua vez, levou a numerosas e importantes defesas sobre o papel do corpo na cons- trução de todas as nossas conquistas culturais, in- telectuais e artísticas. Nesse sentido, alguns autores e ideias elaboradas no século XIX são importantes para pensarmos na existência de uma reflexão que dê ao corpo uma importância diferente daquela que é dada pelo olhar anatômico. Um dos pensadores mais controversos da histó- ria filosófica foi Karl Marx. Entre muitas questões tocadas por sua reflexão, está a valorizada feita por Marx no que tange ao trabalho. Para ele, era essa “atividade”, esse “fazer”, o ponto mais importante para entendermos muitos impasses filosóficos que há séculos incomodavam os pensadores e políticos. Ao explicar a sociedade capitalista pela luta de clas- ses que se desenrola no campo produtivo da riqueza necessária à sobrevivência da sociedade, Marx de- fende que é o trabalho o ato caracterizador da hu- manidade do homem. Desse ponto de vista, filoso- fia, política, artes, educação, momentos dedicados ao “mundo das ideias”, são práticas sociais depen- dentes da inescapável necessidade de atender ao que ele chama de “primeiro ato histórico”. ATIVIDADE 76 Para viver, precisa-se, antes de tudo, de comida,bebida, moradia, vestimenta e algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, pois, a reprodu- ção dos meios para a satisfação dessas necessida- des, a produção da própria vida material, e este é, sem dúvida, um ato histórico, uma condição fun- damental de toda a história, que ainda hoje, assim como há milênios, tem de ser cumprida diaria- mente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos (MARX; ENGELS, 2007, p, 33). Note que há nessa reflexão construída por Marx um componente muito próximo e consequente do desenvolvimento científico moderno. A saber, uma tentativa de dar aos fatos, e não às ideias, ou ao que pensamos sobre os fatos, elementos primordiais para entendermos o mundo social construído, socialmen- te, por homens e mulheres. E nesse sentido, a atenção que hoje damos ao corpo é uma resultante dessa ten- tativa. É o que tento deixar claro, quando afirmo que: Os autores do Manifesto do Partido Comunis- ta estão mostrando que a prática, o concreto, o corporal, a reprodução da existência, enfim, to- das as coisas vistas como baixas ou irrelevantes para o mundo “celestial” da reflexão filosófica e do pensamento em geral, devem ser conside- radas para explicar variadas dimensões da vida social. Sem esquecer diferenças metodológicas e temáticas existentes, não haveria semelhanças de grande calibre entre essas intenções do mar- xismo e o esforço dos estudiosos do corpo em mostrar sua importância para vida hodierna e histórica das diferentes sociedades? (HEROLD JUNIOR, 2009, p. 219). Outra ponderação filosófica importante para pen- sarmos nos lugares ocupados pelo corpo humano na história encontramos em Friedrich Nietzsche. Ela- borando um dos pensamentos mais inquietantes da filosofia ocidental, esse filósofo colocou o corpo em um lugar central no conjunto de suas ideias. Afinal, ao fazer a crítica a todas as pretensões metafísicas que passaram a existir desde a antiguidade grega, Nietzsche (2012) viu no conjunto dessas pretensões o ódio a que tenho me referido ao falar sobre o cor- po na história. Em um de seus livros mais lidos, “As- sim falava Zaratustra”, há um capítulo, cujo título é “Dos que desprezam o corpo”. Nietzsche tece suas críticas à filosofia, evidenciando a importância do corpo, da seguinte forma: Aos que desprezam o corpo quero dizer a mi- nha opinião. O que devem fazer não é mudar de preceito, mas simplesmente despedirem-se do seu próprio corpo, e por conseguinte, fica- rem mudos. “Eu sou corpo e alma” - assim fala a criança. - E por que se não há de falar como as crianças? Mas o que está desperto e aten- to diz: - “Tudo é corpo e nada mais; a alma é apenas nome de qualquer coisa do corpo”. O corpo é uma razão em ponto grande, uma multiplicidade com um só sentido, uma guer- ra e uma paz, um rebanho e um pastor (NIET- ZSCHE, 2012, p. 43). Trata-se de uma afirmação contundente que pre- tende ter o efeito de colocar em destaque algo visto EDUCAÇÃO FÍSICA 77 como, habitualmente, posto em segundo ou até ter- ceiro lugar. Entretanto, essa luta entre posicionar algo em posição primária ou secundária, na pior das hipóteses, é um endosso daquilo que se procura esconder. Por essa razão, em meados do século XX, Adorno e Horkheimer (1985, p. 215) afirmaram: “Sob a história conhecida da Europa corre, subter- rânea, uma outra história”. Eles diagnosticam na história da civilização o lugar dos “instintos e pai- xões humanas” que manifesta-se no “interesse pelo corpo”, que eles caracterizam pela díade “amor-ó- dio”. Foi essa caracterização que levou à estrutura da reflexão deste item. Afinal, ela tem uma impor- tância inegável na hora de entendermos o corpo tanto em sua história quanto na atualidade na qual vivemos e pensamos. Os dois filósofos alemães viveram em uma so- ciedade em que o corpo já contava com uma gama de práticas e olhares que assumiram como necessá- rios os cuidados que levaram o século XX a viven- ciar uma “revolução somática” (JENSEN, 2013). Ou seja, Adorno e Horkheimer conseguiram captar que na história os diferentes modos com que se pensa e se percebe o corpo são ambíguos. Essa ambiguidade é também perceptível em contextos muito preocu- pados com o corpo e suas práticas, tal como é nosso próprio contexto. Em ponderações que nos ajudam a pensar nossas atuais dificuldades de entender- mos o lugar do corpo em diferentes esferas sociais, Adorno e Horkheimer (1985, p. 217) reconhecem: “Na civilização ocidental e provavelmente em toda a civilização, o corpo é tabu, objeto de atração e re- pulsão”. Nessa reflexão, o já mencionado “interesse pelo corpo” é resultado do “auto-rebaixamento do homem ao corpus”, ao cadáver, tornando-o “obje- to de dominação, de matéria bruta” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 217), algo que já vimos como paralelo à ampliação da capacidade científica de entender o corpo. A sociedade na qual vivemos ainda é passível de ser pensada por essa tensão entre amor e ódio, no que diz respeito ao corpo. Conseguiríamos, depois dessas análises, afirmar que a mencionada “revolu- ção somática” na qual passamos a viver no século XX é uma expressão de interesse pelo corpo, final- mente liberada a atenção sempre dada a ele pelos “desprezadores do corpo” criticados por Nietzsche. Por outro lado, o cultivo do corpo, tão alardeado em nosso cotidiano, já não seria um indício de que passamos a vê-lo como relevante para a constru- ção de uma vida com mais significado? Reconhecer essa ambiguidade, na ausência de respostas con- tundentes para ela, já é um avanço. Ao lidar com tal ambiguidade, conhecer um pouco da história relacionada ao corpo é um dos procedimentos que nos possibilitam perspectivar uma lida mais clara com os dilemas que emanam do fato de, ao mesmo tempo, termos e sermos corpo. ATIVIDADE 78 Depreende-se da leitura dos quatro tópicos ante- riores a importância que o corpo possuiu e possui em termos individuais e sociais. Mesmo que em alguns momentos o corpo seja avaliado negati- vamente, não se colocou em questão a necessi- dade de nos ocuparmos dele. Aliás, foi um dos pontos que recebeu maior atenção das reflexões anteriores o fato de discursos desqualificadores em relação ao corpo não significarem que ele era irrelevante para a sociedade onde esses discursos foram produzidos. A julgar pelo mundo no qual vivemos, pare- ce ser muito distante a existência de pensamentos e práticas que busquem diminuir o valor do corpo naquilo que somos. A sociedade contemporânea é reconhecida por muitos analistas como uma épo- ca que dá ao corpo, à sua saúde e à sua aparência uma grande atenção. Le Breton (2003b) reconhece que, na atualidade, o corpo se transformou naquilo que eram as ideias, as posições políticas e filosófi- cas: reconhece-se, mais facilmente, a pessoa como portadora e veiculadora de valores e signos sociais muito mais por sua “composição corporal” e menos sobre o que ela fala de si mesma. Se você lembrar que a ciência moderna caracterizou-se por separar o homem de seu corpo, é inevitável a constatação de estarmos, em muitos aspectos, corrigindo o “erro de Descartes” (DAMÁSIO, 2012). PRAZERES E DEVERES NO CUIDADO COM O CORPO EDUCAÇÃO FÍSICA 79 Com efeito, no mundo atual, não apenas os remé- dios, os cremes, as vitaminas e outros artefatos farma- cológicos ou médicos estão à disposição das pessoas. Há todo um conjunto de práticas terapêuticas, massa- gens, meditações, práticas corporais alternativas que buscam realizar, plenamente, todas as possibilidades corpóreas, alcançando algo que Adorno e Horkhei- mer (1985, p. 218) afirmavam não ser possível: “Não se pode mais reconverter o corpo físico (Körper) no corpo vivo (Leib)”. Os dois filósofos alemães, que pensavam na sociedade nas décadas de 1940 e 1950, já adiantam um impasse que nos ajuda a considerar a presença e a importância do corpo no mundo atual. Ao verificarem, acertadamente, o peso da ciência na forma como o corpo é posto em uma espécie de pe-destal nas relações cotidianas, mais uma vez a tensão amor-ódio em relação ao corpo é perceptível e defini- da por eles por uma ânsia mensuradora, que, seguin- do os passos da ciência moderna, quantifica a exis- tência e o modo como experimentamos nosso corpo. Ela [a busca pela saúde] transformou o passeio em movimento e os alimentos em calorias, de maneira análoga à significação da floresta viva na língua inglesa e francesa pelo mesmo nome que significa também ‘madeira’. Com as taxas de mortalidade, a sociedade degrada a vida a um processo químico (ADORNO; HORKHEI- MER, 1985, p. 219). Perceba que nessas críticas, ao modo como o corpo vinha sendo valorizado, está explícita a constatação de que a importância dada ao corpo não significa, necessariamente, o alcance de um estado de supera- ção das históricas subjugações as quais foram postas o corpo, seus movimentos e suas sensações. Por outro lado, a adesão das pessoas a esses cuidados eviden- ciam que essas observações críticas, feitas também por outros analistas depois de Adorno e Horkheimer (1985), não têm impedido que se busquem os pra- zeres oriundos dos cuidados ao corpo. Mesmo que eles se tornem uma espécie de dever, uma obrigação, gerando, por sua vez, muita ansiedade e frustração. Uma sensação muito comum quando nos depa- ramos com algumas das dificuldades que essa cen- tralidade do corpo proporciona é nos esforçarmos para verificar o processo de construção do conjunto de valores, conhecimentos e práticas associadas ao cuidado corporal. Do que vimos até agora, pode-se inferir a facilidade com que encontraríamos outras épocas, bastante recuadas, homens e mulheres bus- cando meios para adequar seus corpos aos padrões de beleza reinantes no mundo em que viviam. No item anterior, fiz menção ao que Jensen (2013) chama de “revolução somática”. Ele estudou, especificamente, a sociedade alemã nas décadas de 1920 e 1930 para perceber que, em muitas dimen- sões sociais daquela sociedade, a valorização do corpo se devia não apenas à expansão de práticas corporais, praticantes e organizações burocráticas que se organizavam, como federações e assemelha- dos. Ele notou, também, o aumento da quantida- de de pessoas interessadas em assistir aos variados eventos desportivos que passaram a acontecer. Ou- tra conclusão muito interessante do livro de Jensen (2013) foi notar que que a expansão de variadas modalidades desportivas e do público consumidor dessas práticas foi possível, ao mesmo tempo em que possibilitou uma nova forma de se relacionar com o corpo. Por isso ele enxerga uma revolução somática, na qual ver corpos bonitos, atléticos, bronzeados, do mesmo modo que ambicionar ter corpo com essas características impulsionou a expansão de um estilo de vida ativo, ligado ao cultivo de valências físicas e da aparência corporal. ATIVIDADE 80 Vale notar um impacto muito relevante propor- cionado pela expansão desse olhar atento ao corpo: ele foi absorvido tanto por homens quando por mu- lheres. Jensen (2013) nos explica que, na sociedade alemã, essa ascensão do corpo a um lugar de destaque subverteu alguns papéis tradicionalmente atribuídos aos homens e às mulheres. Aos homens, que antes se interessavam apenas pelo cultivo da força e da resis- tência, emblematizadas na ética guerreira, agregou- -se a preocupação com a aparência corporal, passível de ser admirada pela harmonia, pelos músculos tra- balhados, sem menção a qualquer utilidade prática para a força, conquistada em horas dedicadas ao trei- namento. Se a ligação masculina com a força é uma continuidade do que já existia do ponto de vista da histórica construção de gênero, perceba que a inquie- tação estética, até então atribuída às mulheres, passou a fazer parte do horizonte cotidiano dos homens. Algo semelhante ocorre com as mulheres. Con- forme uma nova sensibilidade corporal ia sendo cons- truída, aumentou o número de mulheres realizando práticas corporais anteriormente assumidas apenas por homens. Consequentemente, a imagem de uma mulher mais musculosa, mais bronzeada, ativa e pre- ocupada também com sua performance foi, paulati- namente, tornando-se algo menos raro de ser visto. É importante não perdermos de vista que, nessas trans- formações que homens e mulheres iam experimen- tando e realizando, houve discursos que buscavam normatizar o que seria o ideal corporal para homens e mulheres. Essas normativas mantiveram sua impor- tância, mas quando o assunto foi o usufruto que pode ser proporcionado pelo corpo, esses discursos regula- dores tiveram seus poderes limitados e as pessoas en- contravam maneiras de apropriarem-se de seus corpos com o fito de construir sua identidade. E é essa a gran- de questão que vai sendo colocada ao longo do século XX: a identidade das pessoas vai dependendo, cada vez mais, daquilo que sentiam e faziam com seus corpos. O mesmo processo de valorização do corpo e dos cuidados associados a ele também podem ser visto no Brasil, desde as primeiras décadas do século XX. Sevcenko (2012, p. 576), ao estudar desdobramen- tos históricos observáveis no Rio de Janeiro nos anos de 1920, observa a existência de uma “nova ética do corpo em ação”. Chamou a atenção do historiador que uma certa propensão à atividade e à exibição do corpo tivessem passado a compor traços mais carac- terísticos da sociedade carioca. Entre outras razões, essa visibilidade do corpo o levou a ver nos anos em questão a existência de uma “capital radiante”, em que se inaugurava uma nova forma de vida. O cuidado com corpo e a concretização dessa “nova ética” corporal foi muito estimulada pelas mudanças no vestuário. Soares (2011) diagnosti- ca o nascimento de uma nova percepção corporal pelo modo com que as pessoas passaram a valorizar determinadas roupas, em detrimento de outras. Im- portante nesse raciocínio foi a primazia do conforto, elegância e eficiência, pontos que foram muito co- nectados com o nascimento de um estilo desportivo de ser, com roupas, práticas corporais e olhares inte- ressados para tudo isso. Vivia-se anos: [...] bastante férteis na composição de uma nova sensibilidade urbana acolhedora de uma diver- sidade e intensidade de práticas corporais que afirmam e confirmam outros comportamentos, outros gestos, em outras palavras, novas manei- ras de viver (SOARES, 2011, p. 3). Nessa fertilidade de cuidados sobre o corpo e o que nele tocava, o raciocínio médico-higiênico foi im- portante. Fundamental na realização desse raciocí- nio foi a justificativa de que as roupas deveriam ser EDUCAÇÃO FÍSICA 81 mais leves, deixar mais partes do corpo expostas ao sol, tudo com o objetivo de aproximá-lo de uma na- tureza, afastada, também, pelo peso dos antigos ves- tuários. Nesse sentido, é importante reconhecer a existência de uma “educação do corpo e dos compor- tamentos associado ao modo de vestir-se” (SOARES, 2011, p. 22). A defesa do conforto, do bem-estar e da leveza ao se vestir fortalecia, estimulada pela ne- cessidade de dar liberdade aos movimentos, deixar a pele respirar. Em suma, perceba que, no conjunto desses posicionamentos, os cuidados do corpo avo- lumavam-se, impactando desde visões de mundo até nossos pequenos gestos do dia a dia, como se vestir. Vale a pena registrar que, paralelamente ao surgi- mento dessas inquietações concernentes à roupa, houve toda um defesa da importância da água, do sol, da natu- reza, enfim, assumida como fonte de saúde e bem estar corporais. É das primeiras décadas do século XX o de- senvolvimento do hábito de ir à praia, banhar-se no sol, curtir a areia, ou seja, essa ideia de comunhão com uma determinada paisagem cultural, algo ainda hoje muito defendido e percebido por muitos de nós, que dava seus primeiros sinais. O fortalecimento dessas práticas, as- sociadas a novos hábitos vestimentares, forjou no início do século XX a mencionada revolução somática (JEN- SEN, 2013) também na sociedade brasileira. Isso podemos constatar na formacomo diversas práticas de embelezamento foram adotadas por mu- lheres, mas também por homens, desde esse perío- do. Sant´Anna (2014) estudou a história da beleza no Brasil. Trata-se de uma inquietação existente em outras sociedade e outras épocas, mas que ganhou intensidade incomparável no momento que estamos estudando, justamente pela forma como o corpo passou a ser visto, socialmente. Emblemática dessa nova visão é a relevância que passou a ter o “embele- zamento”, como nos explica autora: [...] a transformação do embelezamento em gê- nero de primeira necessidade marcou profun- damente o século. Foi quando ornamentar-se deixou de ser um gesto moralmente suspeito ou típico de uma minoria mundana para se transfor- mar em direito de pobres e ricos, jovens e idosos. Misturado ao milenar sonho de rejuvenescer, o embelezamento virou uma prova de amor por si mesmo e pela vida - não somente um dever, mas um merecido prazer; não simplesmente um tru- que para ser amado, mas uma técnica para se sen- tir adequado, limpo e decente. E, ainda, a história do embelezamento habita zonas do imaginário ligadas à minar vontade de se livrar da doença e escapar da morte. Trata-se, portanto, de um tema revelador das maneiras de lidar com coisas con- sideradas tão supérfluas quanto essenciais, tanto belas, quanto feias (SANT’ANNA, 2014, p. 16). É imperativo atentar-se para o peso de algumas pa- lavras na longa citação anterior. O que passou a ser o corpo a partir do século XX? Um “direito”, um “amor por si mesmo”, um “dever”, um “merecido prazer”. “Supérfluo”? Sim. Mas, “essencial”, também. É difícil deixar de enxergar nessa história do corpo a construção de um longo caminho que chega até nós, até você, e à nossa decisão de estudarmos, mais detalhadamente, os assuntos que nos interessam em um curso de educação física. Para os senhores da Grécia e do feudalismo, a relação com o corpo ainda era determinada pela habilidade e destreza pessoal como con- dição da dominação. O cuidado com o corpo tinha, ingenuamente, uma finalidade social. O kalos kagathos (o belo e bom) só em parte era uma aparência. (Theodor Adorno e Max Horkheimer) REFLITA 82 considerações finais Prezado(a) aluno(a), o corpo é um dos principais objetos de análise quando pen- samos em muitos aspectos da vida cultural, social e política. A intimidade com que nos relacionamos com o nosso próprio corpo e com o corpo dos outros coloca alguns desafios quando ambicionamos pensar esse conjunto de relações. Como pensar algo tão pessoal, tão íntimo, de um modo a conseguir estabelecer um diálogo interessante e produtor de novos entendimen- tos partilhados com vistas a esclarecer assuntos e resolver problemas que afligem uma época? Dito de outro modo, como é possível uma história do corpo? Esse desafio não tem impedido muitos historiadores de se ocuparem da questão. O empenho desses historiadores, como você já sabe, sustenta-se no fato de o corpo ser uma questão de grande importância nos dias de hoje, gerando o ímpeto de pensá-la em outras épocas. Realizar esse ímpeto, ir àqueles que muito escreveram sobre muitas coisas e perceber que o corpo era uma de suas preocupações a ladear outras, é um ato muito interessante para percebermos a historicidade do corpo, superando a re- corrente visão que o associa a uma imutável natureza. Esta unidade pretende ter evidenciado alguns resultados que podemos extrair de tal reflexão. As diferentes maneiras de valorizarmos ou odiarmos o corpo, pensá-lo como inextricavelmente ligado às conquistas espirituais da humanidade, ou posto como obstáculo a essas conquistas, partícipe das variadas formas com que homens e mulheres entende- ram-se a si mesmo em outras sociedades, geradora de práticas voltadas ao seu cuidado, enfim, estudar o corpo sob um ponto de vista histórico é um esforço relevante, sobretudo para quem pretende atuar profissionalmente com aspectos pedagógicos ligados às igualmente numerosas práticas voltadas a esses cuidados. É para algumas dessas práticas que voltaremos nossa atenção na próxima unidade. 83 atividades de estudo 1. Relacione o desenvolvimento da ciência moderna com o modo com que o corpo passou a ser visto. 2. Ao analisar a sociedade grega clássica, como podemos pensar de modo relacional o nascimento da filosofia e a história do corpo? 3. Qual é o incremento intelectual proporcionado pelos estudos históricos sobre o corpo? 4. De que modo o “interesse pelo corpo” que vemos na história é marcado pela tensão entre amor e ódio, como dizem Adorno e Horkheimer (1985)? 5. Como podemos enxergar a tensão anteriormente mencionada nos varia- dos procedimentos voltados ao cuidado com o corpo? 84 LEITURA COMPLEMENTAR A HISTÓRIA E OS MODELOS DE CORPO 1 - As três faces do corpo Inúmeras são as maneiras de se referir ao corpo e de habitá-Io; inúmeras são as ma- neiras de representá-Io e de lhe dar forma; é a dispersão desses indícios possíveis que impressiona inicialmente. Um olhar mais profundo revela como a diversidade dos terri- tórios do corpo é abundante no seio de cada cultura e de cada época: a competência do ortopedista não é comparável à do artista, do mesmo modo que a prática do esportista não é a do mímico ou do ator. Mecânica, energia, expressão e sensibilidade se repartem numa multiplicidade de corpos, cada qual em sua singularidade, com seus saberes, seus imaginários, seus domínios, até mesmo seus objetos. É necessário medir essa abundân- cia de referências corporais, essa variedade que proíbe agrupá-Ias em uma mesma dis- ciplina científica ou mesmo, dar-Ihes uma coerência e uma unidade a priori. Podem-se distinguir pelo menos três grandes faces da existência corporal: todas possuem seus próprios investimentos e singularidades, e, é claro, sua própria história. A primeira é a do princípio da eficácia: recursos técnicos que o corpo retira da mecânica e dos sistemas orgânicos, ou seja, a sua capacidade de ação sobre os objetos. Pode-se pensar aqui nas habilidades dos trabalhadores manuais e nos procedimentos físicos quotidianos, como também nos saberes e nas práticas colocadas em jogo para a manutenção do corpo, o aumento de sua resistência ou de seu poder, saúde, higiene ou mesmo treinamentos corporais variados. A segunda destas faces é a do princípio de propriedade: posse, pelo corpo, de um espaço e, nele, de um território totalmente pessoal, ou seja, apropriação do ser no mais íntimo de si, nos limites de sua dimensão biológica. Imaginem-se, portanto, as representações das fronteiras corporais, daquilo que recobre o corpo - as “muralhas da intimidade” - ou, ainda, os lugares a partir dos quais se definem as violências e os atentados físicos. Esta face mostra-se de suma importância, pois suas variantes históricas revelam deslocamentos de sensibilidade, que se referem não somente à relação com o outro, mas, também, para consigo mesmo. A terceira face é a do princípio de identidade: manifestação, pelo corpo, de uma interiorização ou de um pertencimento que designa o sujeito, ou seja, o recurso de mensagens e de trocas a partir de sinais e de expressões de natureza física. Pode-se pensar aqui os recursos expressivos, a emissão de mensagens, a emergência de um sentido voluntário ou involuntário. Nesta terceira face pode-se pen- sar, ainda, nas manifestações de prazer e de dor reforçando a ancoragem do sujeito. 85 LEITURA COMPLEMENTAR 2 – O corpo e o objeto Estas três faces demonstram o quanto a história do corpo pode revelar-se hetero- gênea, mobilizar objetos muitas vezes diferentes, até mesmo inconciliáveis. É mais em direção à prudência epistemológica e metodológica que ela deveria, então, con- duzir. Esta história, porém, poderia tornar-se mais legítima ao captar um objeto com precisão: objeto que outras abordagens tiveram dificuldade em apreender, objeto que revela aquilo que não existiria, a não ser no momento e no lugar em que é captado. Mostrar, por exemplo,com Le Goff (1967, p. 440), que a “civiliza- ção medieval é a civilização do gesto”, é abrir um campo de reflexão sem limites a respeito dos modos de sociabilidade em via de solidificação e de diferenciação, assinalando ao mesmo tempo os obstáculos e as inovações que implicam o lugar ainda muito marginal da escrita; é dar uma densidade inédita às modalidades in- teiramente corporais dos juramentos e dos contratos, das solenidades remarcáveis ou dos usos muito quotidianos; é ler esta tentativa antiga de inscrever no corpo um código ainda à procura das suas transposições em signos escritos. A partir deste único enunciado, um espaço difuso de práticas e de gestualidades anódinas tor- na-se bruscamente relevante para acentuar a originalidade da sociedade da qual surgem. No limite, a Idade Média existe “diferentemente”, quando se leva em con- sideração estas inscrições corporais que a importância - logo mais central - da es- crita permitirá deslocar. O corpo, dentro deste quadro preciso de um intercâmbio específico e relacional, tornou-se, assim, um objeto suscetível de esclarecer um mundo. Abundantes são os exemplos desses objetos corporais que foram se tor- nando objetos “elucidativos” de uma época e de uma sociedade. O investimento na construção de uma história do corpo consiste tanto em recenseá-los quanto em explorá-los. Contudo, é necessário, às vezes, saber tornar complexas as repre- sentações e desconfiar de nossos próprios esquemas representativos, aqueles de homens e mulheres que pertencem à sociedade de hoje. Fonte: Vigarello (2003, p. 22-23). 86 material complementar Anatomias: uma história cultural do corpo humano Hugh Aldersey-Williams Editora: Record Ano: 2016 Sinopse: a partir de exemplos tirados da literatura, filosofia e his- tória, o autor aborda como as visões sobre o corpo humano são devedoras do tempo em que foram criadas. Na segunda parte, o autor estuda partes e órgãos específicos, cruzando de modo esclarecedor conhecimentos oriundos da anatomia e fisiologia com os conhecimentos das ciências humanas, filosofia e história. Na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos está dis- ponível o acesso a muitas páginas do livro “De corporis humani fabrica” (1543), de Andre Vesálio (1514-1564). A obra é fundante no desenvolvimento do conhecimento anatômico que, como vi- mos, marcou o nascimento de um grande interesse pelo corpo. Ainda assim, observe que nos desenho o corpo aparece em con- texto, ou seja, localizado no espaço, sinalizando que o processo de objetificação científica, ou de isolamento da variável, ainda estava em curso. Acesse, confira! Link: <https://ceb.nlm.nih.gov/proj/ttp/vesaliusgallery.htm>. Gattaca Ano: 1997 Sinopse: trata-se de uma ficção científica em que o poder con- trolador da ciência faz frente às fragilidades corporais humanas. Essa força científica é desafiada, justamente, por essas fragili- dades. Afinal, são elas que deixam entreabertas as portas para aquela sociedade se tornar mais humana. 87 referências ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do es- clarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. BACON, F. Novum organum ou as verdadeiras in- dicações acerca da interpretação da natureza. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. BRACHT, V. A constituição das teorias pedagógi- cas da educação física. Cadernos do CEDES (UNI- CAMP), Campinas-SP, v. 19, n. 48, p. 69-88, 1999. 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Ao romperem com as explicações míticas até então predominantes, os gregos construíram uma reflexão racional que tematizou e se sustentou nos sentimentos enraizados no corpo. 3. Ao estudarmos a história do corpo, podemos perceber que nossa dimen- são corpórea não se reduz a uma natureza anatômica, mas compreende os modos como a percebemos e a pensamos. Esses modos foram diferen- tes em outros períodos da história. Estudá-los é uma maneira de entender o corpo como o percebemos hoje. 4. Adorno e Horkheimer (1985) diagnosticam que na história das civilizações o corpo sempre fora uma questão. Mesmo em períodos nos quais o corpo foi cuidado com grande atenção, é possível verificar o incômodo gerado pelo corpo, que sempre fragiliza nossa intenção de controlá-lo racional- mente. 5. Se tomarmos o século XX como exemplo, o lugar central ocupado pelo cor- po e seu cuidado sinaliza uma tentativa mais intensa de controlar as vonta- des e sentimentos que emanam do corpo. Se isso foi um elemento impor- tante para uma fruição não existente em outros momentos, também se experimenta um certo mal-estar gerado pelo controle sobre o corpo, que se amplia na mesma proporção de novas técnicas, produtos e prescrições. UNIDADEIII Professor Dr. Carlos Herold Junior Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • As muitas práticas corporais • A ginástica • Os jogos • O esporte • As lutas e as artes marciais Objetivos de Aprendizagem • Refletir historicamente sobre a grande variedade de práticas corporais. • Avaliar questões históricas em torno do desenvolvimento da ginástica. • Pensar na importância do lúdico na história da sociedadecontemporânea. • Entender a historicidade da importância do fenômeno desportivo. • Abordar problemáticas relativas à formação das lutas e artes marciais. OLHANDO HISTORICAMENTE AS PRÁTICAS CORPORAIS III unidade INTRODUÇÃO Na trajetória até aqui percorrida, você percebeu, caro(a) alu-no(a), em primeiro lugar, que o conhecimento histórico tem uma relação muito próxima com a realidade atual. Essa constatação foi evidenciada em sua importância, pois ela si- naliza que os esforços analíticos dos historiadores da educação física não são empreitadas de quem não está disposto a resolver os muitos problemas imediatos que nos afligem. Ficou explícito que o contrário é o correto: a nossa área enveredou pelo caminho das abordagens históricas devido às urgências que passaram a incomodar os professores de educação lá no iní- cio da década de 1980 e que, de algum modo, ainda são nossos incômodos. No segundo passo que juntos demos na ampliação de nosso olhar histórico para as problemáticas profissionais da educação física, colocou- -se em destaque que o corpo humano também existe e existiu, historica- mente. Pensamos nos modos como essa mesma natureza e as percepções em relação a ela vão se transformando, com o passar do tempo. Nessa ótica, até a tão comum oposição entre pensamento e corpo pode ser pro- blematizada. Vê-se o valor da história para nos ajudar a entender que tra- ços aparentemente óbvios da vida individual e social nem sempre foram assim considerados. Também no segundo passo coisas que atribuímos como traços do presente foram evidenciadas como igualmente perten- centes a outras épocas. Viver corporalmente é algo que nos acompanha há mais de um século. Sabendo que boa parte da atuação profissional e pedagógica em edu- cação física ocorre em torno da ação pedagógico com esportes, exercí- cios, ginásticas, lutas, jogos e dança, é oportuno voltarmos nossa atenção a essas práticas. Com isso, a pretensão é entendermos como tais práticas passaram a existir e contaram com o empenho de muitas pessoas em praticá-las e de outras tantas em ensiná-las e divulgá-las por conta de variados benefícios a serem conquistados por meio delas. Bons estudos! ATIVIDADE 94 Antes de considerarmos a história de práticas corporais abordadas pelo tra-balho profissional e pedagógico em educação física, é necessário termos alguma clareza sobre o assunto. Além disso, é im- portante sabermos aquilo que não será abordado nesse estudo. Desse ponto de vista, um esforço mui- to recorrente nos empreendimentos científicos de forma geral e naqueles que são feitos no campo da história e da história da educação física é estabelecer limites, os mais definidos possíveis, entre aquilo que compõe o nosso assunto e aquilo que fica de fora ou que extrapola o alcance da nossa atenção. AS MUITAS PRÁTICAS CORPORAIS Interessante verificar que esse esforço em saber aquilo que nos interessa em termos históricos tem uma relação muito próxima com conhecer os nossos interesses no mundo atual. Você se lembra que esse foi um ponto muito enfatizado na primeira unidade: pensar historicamente só é possível por pensarmos o mundo no qual vivemos. Essa ênfase será útil a você na análise que proponho logo a seguir. Para iniciar o estudo de uma história das práticas corporais, pro- ponho uma questão: dentre as muitas práticas cor- porais existentes, o que explica que algumas sejam estudadas em um livro sobre história da educação física e outras não? EDUCAÇÃO FÍSICA 95 A questão é aparentemente ingênua, mas tem sua importância. Sobretudo se você considerar que, na unidade anterior, estudamos que os próprios en- tendimentos sobre o que é corpo, o que é pensa- mento, a relação entre eles mudam com o passar do tempo. O mesmo ocorre com os cuidados que devotamos ao corpo, com as práticas que adotamos para moldá-lo a determinados projetos sociais, cul- turais e religioso, enfim, a natureza corpórea tem sua história marcada por uma tensão entre mudan- ça e permanência. Mudanças e permanências rela- tivas aos modos como aquilo que fazemos com os nossos corpos é visto e avaliado, de modos discre- pantes em um mesmo período histórico. Como re- sultado, ambicionar estudar a história da educação física elegendo conhecer historicamente as práticas corporais deixa de ser algo óbvio. E deixou de ser óbvio porque a complexidade da questão foi perce- bida por professores que têm buscado pensá-la na atualidade. Vamos estudar um pouco dessas tenta- tivas de estabelecer limites. Em um processo que será estudado em outros momentos do curso, a partir de 1980 muitos pro- fessores de educação física passaram a se debater para definir as razões que justificavam sua presen- ça na escola. A intensidade dos questionamentos foi tanta que acabou recebendo a denominação de “crise da educação física”, um modo de se referir à constatação de que não havia muito acordo sobre o que seria o assunto a ser abordado pelos profes- sores de educação física na escola. A resposta até então aceita sem maiores problemas, o esporte, passou a não mais contar com a unanimidade que possuía. Argumentava-se que essa ênfase esportiva era sentida em outros lugares da sociedade e que na escola a presença dessa prática corporal não de- veria se dar sem questionamentos. Nessa reflexão, Bracht (1992) constatou que a educação física não possuía autonomia pedagógica, afinal, o professor de educação física tinha seus saberes, códigos e procedimentos ditados pelas instituições despor- tivas e não pela pedagogia, pela didática, pela edu- cação, em suma. Somando-se ao empenho dos professores em fazerem frente a essa situação, delimitar o conheci- mento caracterizador da relevância pedagógica da educação física aglutinou energias. Um dos resul- tados mais visíveis desses esforços foi pensar esses limites em torno do passou a ser conhecido como “cultura corporal”. Tendo como fonte as práticas produzidas socialmente, nessa óptica defendia-se a existência de uma “seleção de conteúdos da educa- ção física” (SOARES, 1992, p. 63). Resultante da se- leção é a cultura corporal que, ao ser composta por esportes, jogos, ginásticas, danças e lutas, teria a: [...] pretensão de possibilitar ao aluno da escola pública entender a realidade social interpretan- do-a e explicando-a a partir dos seus interes- ses de classe social. Isso quer dizer que cabe à escola promover a apreensão da prática social (SOARES, 1992, p. 63). Nessa discussão, é importante ser percebido que, ao tentarem encontrar justificativas pedagógicas para a presença da educação física na escola, os espor- tes, jogos, ginásticas, danças e lutas passaram a ser considerados “práticas sociais”, “expressão corporal como linguagem” (SOARES, 1992, p. 62). A grande questão dessa luta para se definir o conteúdo a ser abordado pelos professores de edu- cação física, mais uma vez, dava-se na tentativa de superar o paradigma biológico, anatômico, fisioló- ATIVIDADE 96 gico e reduzido à técnica desportiva. Já ficou claro que é difícil essa tensão não ser mencionada nas dis- cussões sobre a história da educação física. Aliás, foi a explicitação desse embate que levou ao estímulo para pesquisá-la historicamente, enxergando-a em realidades que não apenas a nossa. De qualquer maneira, essa busca conceitual em relação ao ser da educação física se mostrou como um luta política e epistemológica, relacionada aos modos como entendemos e ensinamos assuntos concernentes ao corpo, ao movimento corporal existente em alguns contextos. Digo “em alguns contextos” pois nem todos os movimentos corporais foram assumidos como interessantes ou abordáveis pelos professores de educação física. No ano de 2002, aconteceu na cidade de Na- tal o I Colóquio Brasileiro sobre Epistemologia e Educação Física. Ao lado de ser um evento importante por evidenciar a forma como as dis- cussões filosóficas também são empreendidas no campo da educação física, dele resultou um livrointitulado “Epistemologia, saberes e práticas da educação” (NOBREGA, 2006). Obviamente, um debate muito recorrente no evento foi a relação entre os saberes das ciências de matriz biológica e os saberes das ciências de cunho humanístico, histórico e filosófico. E muito dependente desse debate, dois capítulos do livro versam sobre as dificuldades em determinar o objeto de conhe- cimento da educação física. Um deles intitula-se “Educação Física e critérios de organização do conhecimento” (MELO, 2006). Depois de per- guntar-se: “Corporeidade, cultura corporal, cul- tura de movimento ou cultura corporal de movi- mento?” (MELO, 2006, p. 107), o autor endossa a problemática que tenho tratado neste item, escre- vendo o seguinte: Observamos que nas últimas décadas, a Educa- ção Física tem sido alvo de reflexões filosóficas, pedagógicas, sociológicas, conceituais, entre outras, que têm proporcionado grandes avan- ços no sentido de delinear novas intervenções pedagógicas, bem como no fato de situá-las como área acadêmica a partir de definições de seu objeto de estudo (MELO, 2006, p. 107) Chamo sua atenção para palavras importantes na citação, como “delinear novas intervenções peda- gógicas” e também “situá-las como área acadêmica”. Elas evidenciam que socializar conhecimento na es- cola e produzir conhecimento na universidade são processos diferentes, porém interligados. Para Melo (2006), a clareza dessa ligação, a ser providenciada pelas reflexões filosóficas, pedagógicas, sociológicas e históricas, é fundamental para as definições relati- vas ao objeto estudo, perseguido pela pergunta ela- borada por ele, apresentada imediatamente anterior. Bracht (2006) também toma a mesma pergunta como trampolim de suas reflexões. Para o autor, o esforço a ser executado sobre a questão é romper os limites da “conotação biológico-naturalista”, enxer- gando a educação física em sua “necessária vincula- ção com a cultura” (BRACHT, 2006, p. 97). Por essa razão, continua o autor: [...] a melhor forma de nominar e caracterizar o objeto dessa prática social que vimos chaman- do de Educação Física, é tomá-la como uma forma de intervenção pedagógica a partir, e com diferentes práticas corporais de movimen- to (BRACHT, 2006, p. 97). Sabendo que o termo “práticas corporais de movi- mento” ainda deixaria espaços para ambiguidades, Bracht (2006, p. 98) esclarece que se tratam de práti- cas “realizadas no mundo do não trabalho - excluin- EDUCAÇÃO FÍSICA 97 do portanto, aquelas ligadas diretamente ao traba- lho e à reprodução”. O que está em jogo nessa construção político- -conceitual é, de um lado, ampliar o entendimento de prática, corpo e práticas corporais, englobando dimensões sociais, culturais e históricas. Interes- sante que, depois de ampliar esse entendimento, o resultado é especificar, limitar, deixar de fora “prá- ticas corporais de movimento” que não seriam utilizadas na intervenção pedagógica em educa- ção física. Silva e Damiani (2005), ao tomarem as práticas corporais como um item de pesquisa e de intervenção e demonstrarem sua preferência por conceituar o conteúdo da educação física como “prática corporal” em detrimento à “atividade fí- sica”, também demonstram o peso desse processo duplo de ampliação/delimitação do entendimento para pensarmos o fazer pedagógico dos profes- sores de educação física. Ao colocarem suas ex- pectativas formativas, as autoras proporcionam condições interessantes para que possamos pro- ceder à análise histórica de práticas que, em di- ferentes épocas, mesmo sem total consciência de seus participantes e divulgadores, geraram uma experiência educativa. Essa experiência é tomada como característica das práticas corporais a serem estudadas nos próximos itens, pois elas, de algum modo, realizariam mais intensamente perspecti- vas educacionais valiosas para a sociedade. Esse valor se concretizaria na possibilidade dessas prá- ticas de fomentarem significados mais legítimos na vida de quem as executa por meio do desenvol- vimento de uma necessária percepção da alterida- de daqueles com quem se divide, de muitas for- mas, os tempos e os espaços durante a execução dessas mesmas práticas. Dito de outro modo, as práticas corporais entendidas seriam meios im- prescindíveis para nos aproximarmos, ao mesmo tempo, dos outros e de nós mesmos. Ao estudar as práticas corporais que propo- mos nos próximos itens, concretizamos na abor- dagem histórica inquietações que levam profes- sores contemporâneos a olharem para a prática social e caracterizarem a “cultura corporal de movimento” como uma cultura formada por gi- nástica, esporte, jogos, lutas e dança. É com essa compreensão que, entre as muitas práticas cor- porais, priorizamos os elementos anteriores, fo- calizando-os como práticas sociais, como agluti- nadoras de avaliações, percepções e perspectivas educacionais existentes em diferentes épocas. Ao focarmos essas avaliações, percepções e perspectivas, pretende-se romper com um procedimento analítico muito comum quando se fala em história das práticas anteriormente listadas: não serão o foco do estudo o nome de atletas, a mudança de uma técnica esportiva a outra ou listagem de competições e resulta- dos obtidos pelo Brasil. Enfim, ao tomarmos a ginástica, o esporte, a luta, a dança e os jo- gos como objetos de análise histórica, conside- rando-os como “práticas corporais”, o objetivo é proporcionar condições para se entender o modo como essas práticas foram ganhando a importância que hoje possuem na vida de mui- tas pessoas, no valor econômico e cultural que em torno delas se avolumam, e, sobretudo, en- tender a maneira como a prática de cada uma delas, em diferentes épocas, veiculou valores e projetos sociopolíticos que foram importantes à construção das sociedades nas quais existi- ram, bem como são importantes para a exis- tência de possibilidades pedagógicas para a educação física na escola. ATIVIDADE 98 A GINÁSTICA EDUCAÇÃO FÍSICA 99 É compreensível que muitos procurem os cursos de educação física visando se capacitarem para trabalharem nas academias de ginástica. Afinal, em um passeio pelo centro e pelos subúrbios das cidades, grandes, médias e pequenas, é muito di- fícil não passarmos em frente de uma. O mais co- mum é vermos várias. As modalidades de ginástica que nelas encon- tramos são variadas. Com música, apenas com apa- relhos, com pesos, mais agitadas, mais tranquilas, a expansão de academias de ginástica evidenciam o modo como o exercitar o corpo, separando, al- ternadamente, as partes exercitadas, ganhou uma imensa popularidade. Ou seja, a adesão à essas práticas denota parcializar o trabalho muscular, as valências físicas a serem trabalhadas, enfim, pensar o corpo como se ele fosse uma máquina é uma es- pécie de sabedoria que paira o dia a dia das aca- dêmicas. Com isso, não estou secundarizando que muita desinformação, incorreção, abuso de drogas e outras coisas vis não sejam feitas em nome do corpo perfeito. Mas, como vimos na unidade anterior, esse culto ao corpo que acontece nesses “templos” busca concretizar o olhar esquadrinhador e parcializador da ciência em relação ao corpo humano. Nesse sen- tido, tanto as ginásticas que vemos hoje existirem nas academias quanto as variadas modalidades es- portivas ginásticas são práticas que exemplificam de modo muito claro a maneira como o “olhar cien- tífico” em relação ao corpo tem uma importância muito grande no mundo atual. Entretanto, essa quase obviedade nem sempre foi assim percebida. Ela foi construída em um processo bastante interessante de ser estudado. Afinal, ao nos debruçarmos nesse estudo, mais uma vez temos a possibilidade de perceber um fato corriqueiro em sua complexidade, enxergando nos automatismos que simbolizam sua importância o resultado de um movimento histórico que evidenciou a importância do corpo, das práticas corporais e da reflexão sobre elas para a sociedade. Há algumas páginas,você verificou como o nascimento do mundo moderno, em que a ciência floresceu como forma de conhecimento e o capita- lismo como modo de produção, implicou um novo olhar para o corpo. Estudamos que esse novo olhar sobre o corpo não foi um elemento isolado ou se- cundário ao nascimento de uma sociedade que fazia frente ao dogmatismo da sociedade feudal. Tratava-se de uma verdadeira revolução social, em que novos entendimentos sobre sociedade, os seres humanos, as instituições e sobre o corpo estavam nascendo. Esse processo foi descrito como mani- festo no desenvolvimento da prática anatômica, elemento central e ao mesmo tempo resultante do método científico. Interessante verificar que foi muito relevante nessa colocação do corpo humano como um dos pontos de apoio da transformação que acontecia um olhar atento à forma como os gregos da épo- ca clássica concebiam a dimensão corpórea do ho- mem. Eram comuns os escritores dos séculos XVI, XVIII e XVIII defenderem o valor do corpo em vá- rias dimensões da vida societária, justificando que essa importância era reconhecida pelos gregos. É no nascimento do mundo moderno que “educação física” se torna uma expressão a ganhar cada vez mais notoriedade. Para citar um exemplo, um fi- lósofo tão importante no mundo moderno como John Locke (1632-1704), ao escrever uma obra chamada “Alguns pensamentos sobre a educação” (1693 [2012]), inicia sua reflexão falando sobre a saúde, em parágrafos onde as referências ao mundo grego são frequentes. ATIVIDADE 100 O termo “ginástica” vem de um verbo grego que, diferentemente do que aconteceu no mundo mo- derno e do que acontece ainda hoje, não significa “modalidade” ou “modalidades”. O verbo em ques- tão significava algo mais próximo de “treinamento”, “preparação” para um esforço. Preparação essa feita com o corpo nu (gymnos). Essa transformação con- ceitual, aparentemente sem importância, diz muito da força da ginástica do mundo atual, do mesmo modo que nos ajuda a pensar na grande distância entre o mundo moderno e o mundo grego, no que tange ao corpo. Em primeiro lugar, é preciso enfatizar que o termo “educação física” não existia na língua grega. A palavra grega para corpo é “soma”, o que deveria levar esse olhar ao mundo grego por parte dos mo- dernos mais proximamente a uma “educação so- mática”. Physis, de onde veio a conotação moderna de “educação física”, como nos ensina Silva (2001, p. 28), para os gregos significava uma “identida- de, uma irmandade entre todos seres” para quem a vida em comunidade era fundamental. Para ci- mentar essa afinidade comunitária, política e ética à physis, o “treinamento feito com o corpo nu” era fundamental: É com tal perspectiva que é necessário perceber o incentivo à ginástica, pois a prática corporal nunca é realizada apenas com a finalidade de fortalecer o corpo e não aparece em separado da música, assim como da filosofia e da política (SILVA, 2001, p. 30). Muito diferente é a situação do mundo moderno e da sua educação física. Silva (2001, p. 30) pondera: “É necessário diferenciar esta concepção ontológica clássica daquele dualismo que se verá explicitar em Descartes” e que caracteriza o olhar científico que vê no corpo algo a ser escrutinado pelo espírito, pelo olhar científico. Olhar esse que será fundamental no isolamento de variáveis, como o bom funciona- mento da máquina, do organismo, assumidos como importantes para a sociedade e para os indivíduos, mas tomados como diferentes e não constituintes da razão humana que constrói a vida em sociedade, a linguagem, as artes etc. É essa forma de entender o corpo que será fun- damental na criação da ginástica, tal como se passou a entendê-la a partir do século XVIII. Se essa visão cientificista foi ganhando força a partir do século XVI, é importante não desconsiderar que ela não foi se impondo de forma tranquila ou sem enfrentar resistências. Afinal, o desencantamento do mundo foi um processo lento, difícil e que implicava na re- construção de olhares, algo dificilmente executável no espaço temporal de poucas gerações. Isso é parti- cularmente verdadeiro no que diz respeito ao modo como as pessoas percebiam seus corpos e as ativida- des que com ele faziam. A ambição civilizatória que vai sendo fortaleci- da com a expansão desse olhar científico em relação ao corpo é instrumentalizá-lo, conhecendo-o cada vez mais, eliminando qualquer prática ou qualquer representação que impedisse a maximização de suas forças. Soares (2002) define de um modo bastante claro o perfil do mundo que estava se descortinando na modernidade: Para o ideário burguês que se desejou universal, tudo teria utilidade, nada podia ou devia ser desinteressado e a finalidade suprema das ações se concentrava no lucro. Até nas exercitações físicas descobriu-se um valor que se relaciona- va com a produção, quer na indústria, quer na quantidade de filhos para servir ao capital e à pátria (SOARES, 2002, p. 58). EDUCAÇÃO FÍSICA 101 Enquadrar os ritmos existências na forma de vida urbana e industrial encontrou resistência. Do pon- to de vista corporal, fizeram frente à disciplina necessária para a instauração desse novo mundo hábitos e práticas que iam de encontro à serieda- de e ao cálculo, os quais eram submetidos ao coti- diano dos séculos XVII e XVIII. Soares (2002), ao pensar no desenvolvimento da nova ética corporal baseada na ciência, verifica que qualquer prática marcada pelo lúdico, pela inutilidade, pela alegria e pelo excesso contrariava o olhar burguês que se lançava sobre o corpo. O que estava em jogo era a possibilidade de adequar as práticas corporais ao ideal utilitário que se fortalecia. A desqualificação de práticas circenses e acrobáticas operou-se na consideração dessas práticas, expurgando-as, por meio da ciência, de tudo o que pudesse compro- meter a civilização que se colocava: Ora, aquela agilidade demonstrada pelos acro- batas e funâmbulos haveria de ser útil. Era preciso pensá-la fora daquele universo, que ao olhar burguês se mostrava desregrado, ocioso e “quase” imoral, em que nascera. Os acrobatas e funâmbulos eram a má consciência, o irracio- nal dos círculos científicos que elegiam a “gi- nástica científica” como prática corporal capaz de contribuir na formação do corpo civilizado (SOARES, 2002, p. 59). A importância da ginástica justifica-se pela possibi- lidade de ser tomada como prática corporal guiada pela racionalidade da ciência. Foi a ginástica que, durante os séculos XVIII e XIX, concretizou a con- sideração científica sustentada na dicotomia entre res pensante e res extensa. Foi a ginástica a prática que inaugura no mundo moderno a possibilidade de uma educação do físico, distante da educação somática que existiu na Grécia e foi superada pela expansão da ciência. Foi esta, com suas medidas a determinar intensidades, ritmos e amplitudes, que sustentou a expansão das diferentes escolas ginásti- cas que surgem. Ciência e técnica, como formas específicas de saber, determinarão os ângulos corretos de cada alavanca que possui o corpo visto como máquina; indicarão o quanto de força é pre- ciso imprimir para um impulso e um salto; quais as partes do corpo (totalmente esqua- drinhado) são mais resistentes. As atividades corporais então, paulatinamente, são classi- ficadas, analisadas e, meticulosamente, rede- senhadas pelas mãos dos homens de ciência (SOARES, 2002, p. 59). Langlade e Langlade (1970) nos ajudam a en- xergar o modo como esse esquadrinhamento do corpo, que está na gênese e no desenvolvimento da ginástica, manifestou-se em diferentes escolas de ginástica. Elas passaram a ganhar notoriedade a partir do final do século XVIII, dando existên- cia ao movimento ginástico europeu. Eles falam em escola alemã, escola sueca e escola francesa como as mais representativas, aquelas que aglu- tinaram professores e participantes em torno de uma prática corporal que foi, certamente, uma das responsáveispor muito do que hoje vemos sobre a atenção que se dá ao corpo em diferentes aspectos da vida social. ATIVIDADE 102 OS JOGOS Do mesmo modo como ocorreu com as outras prá- ticas corporais estudadas neste livro, ao se apresen- tar uma abordagem histórica dos jogos, serão busca- dos modos variados de conceber ou entender o que eram os jogos e a importância que eles tinham em outros períodos da história. Não seria possível neste livro estudarmos a história dos diferentes objetos e das muitas práticas caracterizadas como lúdicas. Diferentemente do que acontece com termos tais como esporte, lutas ou ginástica, quando estu- damos o jogo, devemos especificar aquilo de que precisamente se trata ou, alternativamente, devemos reconhecer a variedade de coisas que podem ser abordadas pelo tal termo. Tanto um caminho, como o outro, apresenta possibilidades e dificuldades. No campo da educação física escolar, uma das obras que mais impactaram a consideração dos jo- gos como importantes a esse componente curricular foi o livro “Educação de Corpo Inteiro”, publicado por João Batista Freire em 1994. Ele inicia o item EDUCAÇÃO FÍSICA 103 quatro da obra afirmando: “Existe muita confusão a respeito dos termos brinquedo, brincadeira, jogo e esporte. As definições dessas palavras em nossa lín- gua pouco as diferenciam” (FREIRE, 1994, p. 116). Com efeito, você se lembra de que uma das imagens por mim usadas pela introduzir o conteúdo deste li- vro foi a narração de acadêmicos “jogando”. Naquela acepção, “jogo” confunde-se com a situação com- petitiva gerada pela disputa em uma modalidade desportiva. Todavia, como nos esclarece Kishimoto (2015), para pensarmos na importância do jogo na história da infância e da educação é necessário sa- bermos que há diferenças entre brinquedo, jogo e brincadeira. Em primeiro lugar, devemos manter à nossa frente a pluralidade de fatos que podem ser deno- minados de jogos ou estarem ao termo relacionados. Denominam-se jogos, situações como dis- putar uma partida de xadrez, um gato que empurra uma bola de lã, um tabuleiro com piões e uma criança que brinca com boneca. Na partida de xadrez, há regras externas que orientam as ações de cada jogador, tais ações dependem, também, da estratégia do adver- sário. Entretanto, nunca se tem a certeza do lance que será dado em cada passo do jogo. Esse tipo de jogo serve para entreter amigos em momentos de lazer, situação na qual pre- domina o prazer, a vontade de cada um parti- cipar livremente da partida. Em disputa entre profissionais, dois parceiros não jogam pelo prazer ou pela vontade de fazer, mas são obri- gados por circunstâncias como o trabalho ou a competição esportiva. Nesse caso, pode-se chama-lo de jogo? (KISHIMOTO, 2015, p. 1). Para deixar a situação ainda mais complexa e passí- vel de uma reflexão cuidadosa é que, aos confusos limites entre atividades, levando ao emprego de um mesmo termo para diferentes práticas (ou o empre- go de um termo a muitas práticas), há a questão de saber a quem ou a qual faixa etária identificamos a existência do jogo. Voltando, ainda mais uma vez, à imagem dos acadêmicos de educação física que “jogam”, é fundamental não esquecermos que essa tradicional imagem publicitária associada aos cur- sos de educação física, em alguns momentos, causa algum incômodo: essas imagens deixam transpare- cer que no curso não se estuda, não se trabalha, não se faz coisas sérias, apenas “brincamos”, “passamos o tempo”. Nesse olhar, esses acadêmicos seriam menos qualificados que os acadêmicos dos outros cursos, pois, aqui ainda estaríamos a fazer coisas que fazía- mos quando éramos crianças, em uma imagem que atribui uma caráter pueril, ou seja, fácil, descompro- missado, light, aos cursos de educação física. Nesse ponto, algumas reflexões de característica histórica podem nos ajudar a pensar nessa situação de uma forma mais complexa. Em primeiro lugar, essa desconsideração em relação ao lúdico é deve- dora de uma tradição social que se construiu base- ada na valorização do pragmático e do cálculo, em que homens e mulheres são vistos como caracteri- zados pela razão, pelo trabalho e pelo pensamento abstrato. De algum modo, você já acompanhou o processo de construção dessa sociedade quando foi abordado o desenvolvimento da ciência e o im- pacto que ela teve nas formas como a sociedade passou a pensar em si mesma e também na natu- reza. Por outro lado, o século XX, em seus desdo- bramentos históricos (nazismos, bombas atômicas, problemas ecológicos, terrorismo) evidencia que a avaliação racionalizante das capacidades humanas não encontra respaldo na realidade, passível de ser observada na história daquilo que Eric Hobsbawn (1998) chamou de “longo século XX”. ATIVIDADE 104 Em segundo lugar, há todo um conjunto de análises culturais, históricas e filosóficas que bus- cam evidenciar o lugar da dimensão lúdica, do jogo, na construção dos laços sociais que, em últi- ma instância, dão existência à vida em sociedade. Nesse sentido, bastante eloquente é o livro de Johan Huizinga (1872-1945), Homo ludens (HUIZIN- GA, 2010), publicado em 1936. Já no início do seu prefácio, podemos ler: Em época mais otimista que a atual, nossa es- pécie recebeu a designação de homo sapiens. Com o passar do tempo, acabamos por com- preender que afinal de contas não somos tão racionais quanto a ingenuidade e o culto da razão do século XVIII nos fizeram supor, e passou a ser de moda designar nossa espécie como homo faber. Embora faber não seja uma definição do ser humano tão adequada como sapiens, ela é, contudo, ainda menos apropria- da que esta, visto poder servir para designar grande número de animais. Mas existe uma terceira função, que é verificada tanto na vida humana como na animal, e é tão importante como o raciocínio e o fabrico de objetos: o jogo. Creio que, depois de homo faber e talvez ao mesmo nível do homo sapiens, a expressão homo ludens merece um lugar em nossa no- menclatura (HUIZINGA, 2010, p. 1). Peço que você dê mais um pouco de atenção a esse ponto: o livro do qual a passagem foi retirada foi es- crito no final da década de 1930, um dos momentos mais dramáticos da história humana, que desem- bocou na morte de milhões de pessoas. Huizinga (2010) enxerga no jogo, na dimensão lúdica das re- lações, o traço mais marcante da humanidade: mais que pensar (lembremos da ciência e da filosofia), mais que fazer (lembremos do trabalho, da grande indústria e economia que se internacionalizava), é pelo jogo que “a civilização surge e se desenvolve” (HUIZINGA, 2010, p. 1). Como podemos caracteri- zar esse elemento tão importante? Kishimoto (2015), ao estudar o pensamento de Huizinga (2010), define o jogo da seguinte maneira: [...] o prazer demonstrado pelo jogador, o ca- ráter “não-sério” da ação, a liberdade do jogo e sua separação dos fenômenos do cotidiano, a existência de regras, o caráter fictício ou repre- sentativo e a limitação do jogo no tempo e no espaço (KISHIMOTO, 2015, p. 4). Essas considerações nos ajudam a pensar a impor- tância do jogo, enquanto um artefato educacional. Embora não se deva perder de vista que “o brin- quedo tem sempre como referência a criança e não se confunde com a miríade de significado que o termo jogo assume” (KISHIMOTO, 2015, p. 8), é possível verificar que a crescente importância do jogo no meio educacional se deu pelo surgimento da noção de infância e pela valorização das práti- cas corporais como elementos educacionais. Nes- se particular, não é irrelevante o fato de em mui- EDUCAÇÃO FÍSICA 105 tas línguas (inglesa, francesa e alemã...talvez haja outras) o verbo para brincar e jogar ser o mesmo (play, jouer, spielen). Se voltarmos os olhos para o nascimento da so- ciedade moderna, nos séculos XV, XVI e XVII, no- tamos que o prazer do jogador passou a ser algo a ser gerado pelos professores no momento de realizar seus ensinamentos. Para termos um exemplo ilus-trativo desse elogio do prazer no momento em que se ensina-aprende, voltemos os olhos para Coménio (1592-1670), considerado o “pai da didática”, que em 1638 escreveu o seguinte: O processo seguro e excelente de instituir, em todas as comunidades de qualquer reino cris- tão, cidades e aldeias, escolas tais que toda a juventude de um e de outro sexo, sem excetu- ar ninguém em arte alguma, possa ser forma- da nos estudos, educadas nos bons costumes, impregnada de piedade, e, desta maneira, possa ser, nos anos da puberdade, instruída em tudo o que diz respeito à vida presente e à futura, com economia de tempo e de fadiga, com agrado e com solidez (COMÉNIO, 1985, p. 43). Compreende-se, desse modo, que a ideia de ensi- nar com agrado esteve relacionada ao fato de se defender que os professores guiados por uma di- dática deveriam ensinar o que desejassem, captan- do uma determinada natureza infantil que passava a ser avaliada fundamental à educação e inextri- cavelmente ligada ao prazer, ao jogo e ao corpo. Elogios à liberdade de brincar, aos “folguedos in- fantis”, marcaram muitos pensadores que tentaram dar à educação uma característica mais moderna, tentativa essa que culminou na obra “Emílio ou da Educação” de Jean-Jacques Rousseau (1992), pu- blicada em 1758. Lembre-se que é no século XVIII que a ginás- tica ganhou espaço pela racionalização da movi- mentação corporal. Apesar de toda importância que essa racionalização angariou no século XIX, a ela foram feitas muitas críticas, principalmente quando aplicada às crianças. Nos livros de história são comuns fotos de crianças enfileiradas, fazendo movimento sincronizados, com expressões sérias, compenetradas. Mesmo com todas as tentativas de divulgar os ambientes educacionais como organi- zados, essas fotos evidenciam todo um trabalho pedagógico de docilização das crianças. Postura avaliada como educativa por parte de alguns peda- gogos. Mas na virada do século XX, muitas críticas à ginástica e ao seu caráter demasiadamente siste- mático foram se avolumando, até o momento em que estudiosos passaram a endossar o valor de re- conhecer nos espaços educacionais as brincadeiras infantis, do mesmo modo que o esporte, tanto um quanto o outro, carregados de ludicidade já vista como extremamente valiosa na realização de proje- tos educacionais. São essas algumas das razões que nos fazem verificar a posição ocupada pelos jogos no campo da educação física. ATIVIDADE 106 O ESPORTE Abordar historicamente o esporte é uma oportuni- dade interessante para verificarmos a maneira como a validade da história no incremento de nossa capa- cidade de pensar, o que nos interessa hoje, reside na possibilidade de ela nos fazer estranhar algo com o qual estamos inegavelmente acostumados. A presença do esporte em nossa sociedade nos dias de hoje é algo facilmente perceptível. Pensemos na importância que possuem os eventos desportivos. Essa importância tem várias faces que nos fazem en- xergar no esporte um elemento incontornável para entendermos o mundo contemporâneo. Vigarello (2002) diz que o esporte “incarna, caricaturalmen- te, a imagem do tempo atual Por esse motivo, “mais que qualquer outra prática, o esporte revela nossas sociedades” (VIGARELLO, 2002, p. 10). O fascínio gerado por eventos como a Copa do Mundo de Futebol ou os Jogos Olímpicos eviden- ciam que essa prática corporal consegue mobilizar pessoas do mundo inteiro, tocando países possui- dores de variadas estruturas sociais e culturais. So- ares e Vaz (2009) advertem que a importância des- ses eventos manifesta-se no empenho dos países em participarem ou sediarem essas competições. Ao lado da corrupção gerada nas votações em que se escolhem as cidades-sede, os autores sublinham uma espécie de mercado internacional de atletas de alto nível, em que atletas são naturalizados em outra nacionalidade para viabializar a participação desses países nos jogos. Os autores citam o exemplo de jogadores de vôlei de praia brasileiros que “se tornaram” cidadãos da Geórgia para disputarem os jogos por lá, mesmo sem nunca terem ido ao país que “representavam” (SOARES; VAZ, 2009, p. 482). Tenistas chineses, corredores quenianos e jogado- res de futebol brasileiros são outros exemplos que nos permitem perceber a maneira como a partici- pação desses eventos é importantes. O curioso nes- se processo é o caráter globalizado desse mercado, servindo para fortalecer o sentimento nacional dos países que buscam esses novos cidadãos. Soares e Vaz (2009) mostram que as instâncias organiza- cionais desses eventos têm alguma consciência da importância do esporte no fomento de sentimen- EDUCAÇÃO FÍSICA 107 tos nacionalistas, sendo esses sentimentos um dos estímulos à globalização do esporte, por sua vez. Com efeito, quando assistimos às disputas, é muito difícil dissociarmos a paixão que se sente do país que é representado pelo atleta em ação. Se a importância do esporte enquanto um ele- mento forjador de pertencimentos nacionais não é menosprezado, a importância econômica dessa prá- tica transcende os contratos estabelecidos entre pa- íses e atletas que são escolhidos para participarem do jogos. Refiro-me ao mundo econômico que se desenvolve em torno das competições. Esse universo econômico pode ser vislumbrado fa- cilmente no fato de a produção e comercialização de roupas, equipamentos, alimentos e uma quase infinida- de de bens consumidos terem como apelo um certo esti- lo esportivo. É fácil notar a visibilidade que possuem as diferentes marcas de produtos esportivos que disputam entre si o gigantesco mercado que se constrói em torno da performance dos atletas. Esses transformam-se em agentes publicitários de camisetas, calçados, agasalhos, vitaminas, aparelhos eletrônicos, produtos de beleza, gerando uma riqueza que não era existente até o fim do século XIX. O século XX testemunhou o surgimen- to de um grande mercado proporcionado pela atração que o esporte fomentou em escala planetária. Outro modo de enxergamos o quão valioso é o esporte é a relação que se estabelece entre os eventos desportivos e sua transmissão. Em primeiro lugar, devemos perceber o papel que os avanços tecnológi- cos tiveram na popularização do esporte, que, em sua configuração moderna, já nasceu em um momento capaz de capturar imagens e veiculá-las. Um exemplo muito ilustrativo desse fato é a importância de “Olym- pia”, filme dirigido por Leni Riefensthal em 1936 e en- comendado por Hitler. Ao assistirmos ao filme, ficam evidenciados muitos dos enquadramentos que ainda hoje são utilizados pela transmissão de imagens de jo- gos e competições, criando um cânone estético que, indubitavelmente, foi fundamental para que o esporte se tornasse o que é. Por conta de tudo isso, um dos momentos mais importantes dos megaeventos é o di- reito de imagem, o direito de transmitir as contendas e analisá-las nos programas esportivos por meio de re- petições em diferentes velocidades dos lances e joga- das mais importantes para o resultado que se obteve. Soares e Vaz (2009) sintetizam o processo que analisei anteriormente em um questionamento que evidencia o lugar do esporte na sociedade contemporânea: A estrutura tecnológica (satélite, internet, trans- portes aéreos, etc.) possibilitou novas compres- sões de tempo e espaço, formando novas estru- turas de relações virtuais e desterritorializadas que, por sua vez, configuram novas subjetivida- des em nosso tempo. Nessa direção, o esporte moderno ou qualquer outro bem simbólico não poderia deixar de ser afetado por esse processo. Partindo desse princípio, perguntamos: como o esporte moderno, que foi instituído estrutural- mente a partir da configuração dos Estados-na- ção e auxiliou a fixar formas de subjetivação em torno das identidades nacionais, está se adap- tando aos processos de globalização em curso? (SOARES; VAZ, 2009, p. 489). Outro meio de averiguarmos a imponência com a qual o esporte toca a vidadas sociedades contem- porâneas é por meio de seus impactos nos proces- sos de construção de subjetividades. Levar a vida na esportiva tornou-se, há algum tempo, um sinal de sabedoria, colocando o esporte como uma prática formativa em vários sentidos. O mais óbvio é a ma- neira como os atletas se tornaram modelos a serem alcançados pelas crianças e jovens. Comumente, são divulgadas iniciativas educacionais que têm no esporte seu ponto de apoio, vendo nele a condição ATIVIDADE 108 para o desenvolvimento de muitas capacidades in- telectuais, morais e sociais. São frequentes, por isso, narrativas em que a vida de atleta, marcada por de- monstrações de superação, coragem e respeito às regras e aos companheiros ou concorrentes, que embalam as expectativas não apenas das crianças e jovens, mas de pais, educadores e políticos. Não há como separarmos a importância políti- co-econômica do esporte de sua relevância forma- tiva de subjetividades no mundo atual. Todavia, se quisermos entender o processo histórico que levou o esporte a se tornar um dos elementos característicos de nossa sociedade, a separação é necessária. Ao fa- zermos essa separação, constataremos que o esporte deve muito de sua força às expectativas educacio- nais que aglutinou no século XIX e início do XX. Nesse sentido, Mascarenhas (2009) deixa claro que para entendermos a história dos esportes, a princi- pal questão não é a sucessão e ou criação de diferen- tes práticas desportivas, mas é a investigação do que passou a fazer essas práticas serem desportivas, di- ferenciando-as, assim, das práticas então existentes. Essa diferenciação, entre outras coisas, é marcada por características que definem o que Mascarenhas (2009) chama de “campo desportivo”, que pode ser, resumidamente, assim descrito: a) Organiza-se em forma de clubes, federações, confederações e outras entidades locais, nacio- nais e internacionais; b) Possui um calendário próprio, já não mais sendo praticado estrita- mente de acordo com outros tempos sociais. c) Envolve um corpo técnico especializado cada vez maior (treinadores físicos, dirigentes, gesto- res, psicólogos, médicos, entre muitos outros). d) Gera um enorme mercado ao seu redor, que extrapola até mesmo o que a princípio poderia ser considerado específico da prática esportiva (MASCARENHAS, 2009, p. 513). A análise de Mascarenhas (2009) nos ajuda a deline- ar características do tal mundo esportivo, marcado, então, pela mobilização de muitas pessoas em tor- no não apenas do consumo esportivo propriamente dito, mas, também, em torno da sua realização prá- tica. Isso engloba desde o atleta e seu treinador, pas- sando pelos responsáveis técnicos em transmiti-los, comentá-los e ensiná-los, chegando até empresários que lucram fortunas no seu patrocínio e na divulga- ção de seus produtos atrelados à imagem da vitória. Desse modo, pensar historicamente o espor- te significa responder a uma questão colocada por Pierre Bourdieu (2002, p. 173), em 1978: “Como podemos ser esportivos?”. Ao buscar respondê-la, ele pondera ser necessário “primeiramente questio- nar as condições históricas e sociais de possibilidade desse fenômeno social que nós aceitamos bem facil- mente como se ele fosse óbvio, o ‘esporte moderno’” (BOURDIEU, 2002, p. 174). Um movimento analítico muito importante e igualmente difícil aos pesquisadores do campo da história é buscar delimitar no processo de cons- trução de qualquer fenômeno pontos de ruptura e de continuidade na relação entre algo que existia e algo que passou a existir. No caso do esporte, Melo (2010) nos explica que a palavra sport já era usada na Inglaterra desde o século XV, mas com sentidos diferentes aos do esporte moderno. Inicialmente, no idioma francês, o vocábulo se relacionava à diver- são , sendo que apenas no século XVI sport passou a ser correlato de “jogo que envolve atividade física” (MELO, 2010, p. 84), associando-se a uma prerroga- tiva aristocrática apenas no século XVIII. Mas é no século XIX que o sport conhece um mo- mento de grande importância para sua expansão. E isso se dá pela vinculação da ideia de diversão com movimento corporal com a percepção de que ele seria EDUCAÇÃO FÍSICA 109 uma “prática de grande utilidade para educar e for- mar os jovens das elites que ocupariam os espaços de liderança no Império Inglês” (MELO, 2010, p. 91). Ou seja, o esporte moderno se diferenciou das práticas e jogos populares pela explícita vinculação da movi- mentação corporal com projetos formativos sociocul- turais e políticos. Essa afirmação também é devedora das análises de Bourdieu (2002). Ele afirma que : Parece indiscutível que a passagem do jogo ao esporte propriamente dito tenha se efetivado nas grandes escolas reservadas às ‘elites’ da socieda- de burguesa, nas public schools inglesas onde os filhos da aristocracia ou da grande burguesia apropriaram-se de um bom número de jogos populares, ou seja vulgares, e os submeteram a uma mudança, transformando-os em exercícios corporais (BOURDIEU, 2002, p. 177). Com isso, essas práticas tornam-se sport, agora “concebido como uma escola de coragem e de viri- lidade” (BOURDIEU, 2002, p. 179). A importância desse processo é imensa para o assunto que estamos discutindo. Afinal, podemos enxergá-lo em mui- tas realidades, inclusive no Brasil. Em que pese as necessárias advertências contra a consideração que avalia o nascimento do esporte como um fenômeno globalizado (SOARES; VAZ, 2009), não há como ne- gar que esse processo de esportivização da sociedade tocou muitas realidades diferentes entre si em ques- tões culturais e religiosas, mas que viram no esporte uma prática importante em muitos aspectos. Destes aspectos, a análise aqui feita endossa uma predomi- nância das preocupações educacionais. O mesmo ocorre no Brasil. A expansão dos es- portes ocorreu de um modo intenso, sobretudo no fim do século XIX e primeiras décadas do século XX. Linhales (2009, p. 341), ao estudar a história esportiva no início do século XX, constata que a “popularização do esporte e sua extensão às massas puseram em relevo as preocupações com a mocida- de e a infância”. Quais práticas encarnavam esse conjunto de valores? Melo (2010) nos mostra que foram Ru- gby, Boxe, Remo, passando pelo desenvolvimento dos esportes coletivos e culminando no fato de se ter inventado o país do futebol (HELAL; SOARES; LOVISOLO, 2001) que deram início ao que pode- ríamos chamar de esportivização da sociedade. De qualquer modo, no momento em que ser esportivo dava seus primeiros passos, o discurso educacional preponderava sobre o espetáculo. Não é a isso que assistimos atualmente, não é? Se de um lado o nascimento da sociedade e a importância que ela deu à análise científica do corpo foram fatos importantíssimos para o surgimento de discursos e ideias favoráveis à adesão de práticas corporais, é na vira- da do século XX que essas práticas passam a ocupar um lugar de inegável destaque. Competições esportivas tornaram-se mais frequentes, estudos sobre a importância de variadas formas de ginástica buscavam convencer as pessoas a abraçarem uma vida com mais movimento. Fundamental nessa revolução somática (JENSEN, 2013) foi a cons- trução de um olhar mais atento ao que se chamou de natureza: aproximar o homem da natureza e distanciá-lo das artificialidades do mundo urbano fez com que exposições ao sol, banhos de mar, roupas mais curtas e suar a camisa passassem a compor o pano- rama comportamental moderno das grandes cidades no mundo e no Brasil nas primeiras décadas do século XX. Fonte: o autor, baseado em Soares (2016). SAIBA MAIS ATIVIDADE 110 No campo da educação física, há alguns anos, tem sido feita a tentativa para melhor captar a impor- tância cultural, esportiva e pedagógica das artes marciais. Os desafios para o sucesso no alcance desse objetivo são grandes, considerando a imen- sa quantidade de práticas e estilos dentro de uma mesmamodalidade. Além dessa dificuldade, nem um pouco ne- gligenciável, há o fato de muitas dessas práticas serem também esportes e terem uma organização burocrática abrangente e participante em eventos esportivos em escala mundial. Mas não é apenas pela presença em jogos olímpicos que as lutas têm AS LUTAS E AS ARTES MARCIAIS conquistado bastante visibilidade, mas pela pu- jança econômica construída em torno das dispu- tas de Artes Marciais Mistas (MMA), associadas à marca Ultimate Fighting Championship (UFC), massivamente consumidas em escala mundial. Awi (2012) mostra que a UFC se tornou uma marca que agrega mais valor que outras marcas esportivas extremamente relevantes, como a Liga de Futebol Americano (NFL) e a Liga America- na de Basquete (NBA). Os números são impres- sionantes: “Seus eventos chegam pela televisão a seiscentos milhões de lares em 145 países e em 22 idiomas” (AWI, 2012, p. 20). EDUCAÇÃO FÍSICA 111 Foi visto no tópico anterior que percebemos como o desenvolvimento histórico do esporte es- teve ligado à promoção da movimentação corporal com finalidades formativas. Foi nesse processo que a palavra sport deixou de se associar a diversão, pas- sando a ter uma conotação ligada ao fomento de ca- racterísticas morais a serem desenvolvidas por meio de diferentes práticas. Vimos, também, que com o desenvolvimento do esporte em todo o século XX e sua transformação em um espetáculo altamente ren- tável e mobilizador de subjetividades, esse caráter ainda permanece um tanto quanto presente, mas de forma bem menos característica e marcante como a que ocorrera no início, nas primeiras décadas do século XX. Hoje, é razoável um garoto ou uma garo- ta iniciar a prática em determinada modalidade am- bicionando se tornar tão famoso(a) quanto algum de seus ídolos, embora muitos deles tenham muita fama e um longo histórico de problemas pessoais e até criminais. Esse processo também passa a acontecer na atua- lidade das lutas e artes marciais, se pensarmos na po- pularidade dos eventos de MMA. Ainda assim, mes- mo com essa popularidade e essa identificação de pessoas que procuram academias para construírem a condição de se espelharem em seus ídolos midiá- ticos (frequentemente possuidores de inquestionável competência técnica ladeada por questionável índo- le), a associação das artes marciais e das lutas com o cultivo do equilíbrio, da disciplina, do respeito e da tranquilidade é algo notório. Essa notoriedade é facil- mente constatável quando pais, alunos e professores falam sobre a prática que abraçaram, remetendo-a a uma tradição filosófica antiga longínqua, dando uma aura de respeito e profundidade que não consegui- mos encontrar quando se fala do futebol, do voleibol, da natação ou de qualquer outra modalidade. O maior trunfo do MMA está concentrado no que ele tem de mais simples. É o esporte que mais se aproxima de uma briga real. Dois caras dentro de uma jaula sem armas, com o mínimo de equipamentos. Está acima de barreiras cul- turais e linguísticas (AWI, 2012, p. 21). Outro meio que nos fez ter bastante contato com o mundo das lutas e das artes marciais foi o cinema. Sobretudo, com a popularização de filmes de kun- g-fu e de figuras emblemáticas, como Bruce Lee. Desde a década de 1970, as narrativas envolvendo alunos, professores, lutadores e atletas de artes mar- ciais tornaram-se uma dos produtos da cultura pop mais característicos do mundo contemporâneo. Di- ferentemente do que ocorre nos dias de hoje, o vín- culo dessa narrativa não se dava apenas pelo esporte, embora competições de artes marciais e lutas sejam o palco para o desfile do guerreiro e suas qualidades técnicas e, sobretudo, morais. Além disso, mesmo que o tal guerreiro, em muitos filmes, materialize esse espírito em lutas de boxe, outro traço inegável dessas produções era a veiculação de uma certa liga- ção entre artes marciais e o mundo oriental. Nessa vinculação, história, religião e a cultura de diferen- tes povos do oriente foram instrumentais na ligação dessas práticas corporais com a construção da obe- diência, da disciplina, da concentração e da precisão. Minha intenção é que você perceba que, ao abor- darmos a história das lutas e das artes marciais, li- damos com um conjunto imenso de práticas que, assim como o esporte, beneficiou-se da expansão técnica dos meios de comunicação. Além disso, são práticas que também tiveram sua amplitude aumen- tada pela expansão do esporte, confundindo-se com ele em muitos momentos. Por outro lado, há que se reparar em alguns traços que particularizam as lutas e as artes marciais em relação ao esporte. ATIVIDADE 112 E é sobre isso que eu gostaria de chamar sua aten- ção: como podemos entender esse vínculo mais es- treito entre as lutas e as artes marciais com aspectos educativos? Se esse vínculo entre lutas, artes marciais e fomento de variadas virtudes é importante, por quais razões essas práticas estão distantes da escola, se comparadas ao futebol, voleibol, basquetebol e ou- tros esportes que dão às aulas de educação seus prin- cipais (ou, pelo menos, mais recorrentes) conteúdos? Neste momento há muitas pesquisas aconte- cendo para determinar as razões que explicariam o fato de práticas corporais tão aproximadas de aspectos formativos terem dificuldade de serem também práticas escolares. E isso sem nos esque- cermos da forte presença cultural que essas práticas possuem em muitas sociedades desde 1970 em um processo que hoje alcança um patamar de reconhe- cimento que, possivelmente, nunca tenha sido ima- ginado como possível. Para pensarmos historicamente esse conjunto de problemática que cerca a expansão da relevância das lutas e das artes marciais, vamos retomar o pensa- mento de Felipe Awi (2012, p. 21), citado anterior- mente. Ele explica que o sucesso do MMA justifica- -se por ele se aproximar da briga real, desenrolada entre homens “dentro de uma jaula sem armas”. Ou seja, se em todos os esportes a ideia de “embate”, de “luta” é metafórica, ao abordarmos as artes marciais a “luta”, a “briga”, a “contenda” torna-se real. Nesse sentido é interessante observarmos o nome dado a esse conjunto de modalidades em que a luta corporal é momento maior de sua importân- cia - o nome do deus da guerra na mitologia romana. Aliás, Marte diferentemente de Ares - deus da guer- ra na mitologia grega -, era admirado pela nobreza e justiça das guerras que fazia acontecer. Já Ares está mais ligado à guerra bestial, que aconteceria pela expressa vontade de ver o sangue correr, pela satis- fação de quem promovia o ferimento ou a morte de seu inimigo. E isso levanta mais outra questão: como podem, práticas associadas à guerra (mesmo que as justas, inspiradas por Marte), terem conotação edu- cacional e formativa? O relacionamento entre guerra e educação é algo que tem ocupado a reflexão feita em diferentes sociedades. O nosso hábito de pensar nos países do oriente quando ouvimos falar em artes marciais di- ficulta visualizar que no ocidente a “marcialidade” tem sido uma questão. Afirmando-a em sua neces- sidade ou a negando como algo prejudicial e estú- pido, é importante lembrar que a Ilíada de Homero, obra primicial na história da literatura ocidental, é uma narrativa guerreira em que a bravura e justiça dos personagens realizam-se na guerra. Igualmente relevante que apenas alguns decênios à frente do pe- ríodo no qual se acredita que Homero tenha com- posto seus poemas, outra obra muito importante, “O trabalho e os dias de Hesíodo”, tenha refutado a guerra em nome do trabalho. A questão que subjaz esse debate é saber o papel a ser desempenhado pela guerra e pelo guerreiro, no difícil relacionamento entre o trabalho e o trabalhador que produz a rique- za a ser conquistada ou reconquistada pelo braço forte do guerreiro. Ehrenreich (2000), depois de estudar as expli- cações normalmente dadas ao fato dos homens lu- tarem entre si e estudar o século XX, um dos mais sangrentosda história, constata: “No século XX, a guerra - e a disposição para a guerra, tão integrada ao sentimento nacionalista - tinha se tornado a forma unificadora de Estados, oferecendo aos homens um sentimento transcendental” (EHRENREICH, 2000, p. 25). Para nos fazer enxergar a presença da guerra em nossa história e no nosso cotidiano, Ehrenreich EDUCAÇÃO FÍSICA 113 (2000, p. 25) diz: “Hoje, até em tempo de paz o as- pecto religioso da guerra se manifesta em toda parte”. A relevância da guerra em nossa história não deixou intocadas as questões formativas. Afinal, em diferentes períodos existiram elites guerreiras (EHRENREICH, 2000) que forneceram modelos pedagógicos a serem alcançados, sobretudo pelos meninos, levando-os a suportarem ritos de pas- sagem que os fizessem sentir capazes de enfren- tar os perigos. Enxergando-se como uma estir- pe, guerreiros e esforços formativos para formar guerreiros encontraram práticas e justificativas que ajudaram a sacralizar a guerra: o menino tor- nado guerreiro e seus professores “consideraram a guerra como uma empreitada heroica e até reli- giosa” (EHRENREICH, 2000, p. 157). Embora os problemas e os sofrimentos gerados pelos combates; embora o incremento tecnológico a dispensar, de modo crescente, a necessidade de for- mação específica para soldados; embora a potência dos armamentos tornasse a guerra cada vez mais mortífera; a guerra torna-se, na virada do século XX, um grande artefato pedagógico. O raciocínio é relativamente simples: em um mundo que dispensa o esforço físico para a sobrevivência, seja no traba- lho, seja na guerra, é por essa última que as virtu- des serão transmitidas à juventude. William James (2012), em 1910, ao buscar um equivalente moral da guerra, disse o seguinte: Nós devemos fazer com que novas energias e coragem deem continuidade à virilidade a qual a guerra tão fervorosamente se apega. As vir- tudes marciais devem ser um permanente ci- mento; intrepidez, aversão à moleza, abnegação do interesse privado, obediência ao comando, devem continuar a ser a rocha sobre a qual as nações se constróem (JAMES, 2012, s.p.). Essa defesa da moral da guerra vem de um filósofo que via nela um anacronismo cravado no mundo já industrializado e urbano do início do século XX. Não é possível dizer que essa importância da guerra e dos exércitos não tenha causado discor- dâncias e oposições, mas formar o guerreiro se tornou um motivo catalisador de muitos discursos educacionais. Muitos deles aproximados à educa- ção física. Muitos deles fundamentais para o de- senvolvimento das artes marciais modernas e sua expansão mundo. Quando falamos em artes marciais modernas pensamos na transformação operada sobre um con- junto de práticas com finalidades concretas em situ- ações de combate. Essa transformação aproximou o cultivo de diferentes técnicas ao cultivo de diferen- tes caminhos, praticamente, pelo fato de o culto a guerra ser portador de virtudes marciais visíveis e relevante não nos campos de batalha, mas no dia a dia de uma sociedade moderna. Para ilustrar esse processo, o exemplo japonês é um caso esclarecedor. Na última metade do século XIX, a sociedade japonesa passou por mudanças culturais, econômicas e políticas que construíram uma nação aproximada e conectada ao processo de expansão militarista e imperialista das potenciais ca- pitalistas europeias e americanas. Isso fez com que aquela sociedade impusesse seus valores e suas prática corporais a um inten- so processo de revisão. Afinal, muitas delas não eram mais condizentes com o novo mundo que se descortinava à medida que o país se abria às pres- sões econômica, políticas e militares do ocidente. A modernização do exército, que além de tornar irrelevante a presença dos antigos samurais, aliada à modernização do sistema político e econômico, fez com que muitas novas práticas educacionais ATIVIDADE 114 fossem vistas como necessárias. A expansão da es- colarização obrigatória, ao lado de práticas educa- tivas preocupadas com a higiene do corpo, influen- ciaram, fortemente, o surgimento do “budo”, ou seja, o desenvolvimento de um conjunto de valores que viam na guerra uma inspiração para formar o “novo homem japonês”. De meras técnicas (jutsu), surgiram caminhos (dô), em que práticas corporais foram ressignificadas com visões altamente peda- gogizantes. A importância de Jigoro Kano nessa ressignificação é indiscutível, abrindo caminho não apenas para o ingresso do Judô nas escolas japone- sas, mas para sua expansão por todo o mundo já no início do século XX. A importância de Kano para essa expansão das artes marciais reside no fato de ele ter submetido antigas técnicas guerreiras a um processamen- to pedagógico e científico, tornando-as passíveis de serem adjetivadas de educacionais, científicas, provedoras de um desenvolvimento harmônico de suas práticas. Tudo isso somado aos frutos morais a serem colhidos por meio de uma prática siste- mática, metodizada. Ora, estudaremos na próxi- ma unidade que discursos como esse também es- tavam presentes em muitos educadores europeus e americanos que defendiam a importância de determinadas práticas corporais na escola. Des- se ponto de vista, verifique que o nosso hábito de vermos exclusividade oriental o fomento das artes marciais pode ser problematizado: oriente e oci- dente parecem preocupar-se com questões socio- políticas semelhantes, todas elas dando às práticas corporais grande valor. As práticas corporais sempre fazem parte do patrimônio cultural de um povo, [...] sendo importantes ferramentas na construção de identidades: de classe, de gênero, de etnia, ligadas à construção da ideia de “nação”. (Mary Del Priore e Victor Andrade de Melo) REFLITA 115 considerações finais Prezado(a) aluno(a), a grande quantidade de práticas corporais hoje existente, bem como aquelas que existiram em diferentes períodos da história, é um grande desafio analítico quando se pretende conhecer o seu passado. Nesta unidade você verificou que, ao lado dessa dificuldade nem um pouco negligenciável, possibilidades de estudo bem interessantes se abrem, e a movi- mentação corporal típica de cada uma dessas atividades agregam-se modos de ver, perceber e avaliar cada uma dessas práticas. Poderíamos dizer que são esses modos que explicam o fato de determinadas práticas serem abordadas por deter- minados profissionais e não por outros. Nas reflexões desenvolvidas nesta unidade a ideia de que o campo da educa- ção física lida com o que ficou conhecido como cultura corporal foi importante. A relevância desse conceito reside, justamente, na possibilidade que ele abre para estudarmos os esportes, as lutas, as ginásticas, os jogos e a dança como práticas apenas existentes se conectadas aos contextos históricos em que passaram a exis- tir e que, sobretudo, foram praticadas e percebidas por diferentes classes sociais e tempos também variados. Um traço importante na sucessão dessas percepções é o fato de que a essas práticas, frequentemente, atrelaram-se discursos que atri- buíram a elas valores formativos a serem colhidos por quem as pratica. Interessa para nós a dificuldade de verificar, nos momentos em que se pensa essas práticas, reflexões que defendam ou tenham defendido a adesão a elas, simplesmente, pelo prazer que elas proporcionam. É recorrente os praticantes tornarem pública sua adesão a uma modalidade pelas transformações intelectuais e morais que elas proporcionam em quem as abraça. Essa característica impactou, fortemente, um conjunto imenso de discussões sobre a possibilidade dessas práticas acontecerem no contexto escolar. A história do componente curricular de educação física é devedora desse traço. É essa história que estudaremos na próxima unidade. 116 atividades de estudo 1. Pondere os conceitos que nos ajudam a pensar o campo de ação profissio- nal em torno das ações que fazemos corporalmente. 2. Qual a característica histórica queestimulou a expansão do esporte na virada do século XX? 3. Analise a principal característica das diferentes escolas ginásticas que as fizeram ter grande destaque durante o século XIX e início do XX. 4. Qual é o problema da comum oposição entre oriente x ocidente quando pensamos o desenvolvimento e a expansão das artes marciais? 5. O que faz do jogo um elemento valioso para pensarmos a cultura? 117 LEITURA COMPLEMENTAR Se no início do século XIX a sistematização e especialização de certos discursos e práti- cas sobre a educação dos corpos foi um assunto menor e relativamente insignificante, no final desse século o panorama mudou dramaticamente. Nenhum ator social ousou rechaçar a necessidade [...] do exercício físico para os meninos, meninas, jovens, adul- tos e anciões. [...] A criação do “homo gymnasticus” foi caracterizado, delineado escul- pido como um corpo esforçado, eficiente, dócil, obediente, aplicado, ativo, seguro, de- cidido, forte, vigoroso, voluntarioso, energético, aseado, útil, racional, simétrico, destro, patriota e são. Todas essas características não apenas se converteram em qualidades e normas de acção a se alcançar, produzindo um fenômeno (´homo gymnasticus’) [...]. O meio predileto para sua concretização foi o exercício físico, que impunha aos corpos tarefas repetitivas, diferenciadas e graduadas, com o fim de maximizar a economia do movimento, seu ritmo e suas intensidades. [...] Para além de algumas resistências o “homo gymnasticus” dominou a cena corporal e se ergueu como um dos efeitos mo- dernos melhor pensado de uma forma cada vez mais complexa de administrar os cor- pos. Essa invenção moderna, exalou fortes doses de modernidade criando, a partir da autoafirmação de sua suposta “normalidade”, a existência de uma alteridade repre- sentada por corpos indesejáveis e “imperfeitos”, tanto em sua forma e aparência como em seus desejos e comportamentos. Dessa maneira, os corpo indolentes, preguiçosos, ineficientes, desobedientes, indecisos, débeis, doentes, frágeis, passivos, apáticos, te- merosos, covardes, inúteis, improdutivos, pusilânimes, afeminados (para os meninos), mais ou menos masculinizados (para as meninas), irracionais, assimétricos, deformes (corpos mais ou menos altos, mais ou menos baixos, mais ou menos gordos, mais ou menos fracos), antipatriotas, sujos e enfermos foram considerados o limite simbólico e material daquilo que não se podia franquear. Aqueles corpos, que resistiram ao ideal ficcional representado pelo “homo gymnasticus”, tiveram que conviver com o padeci- mento e foram automaticamente convertidos em corpos estigmatizados, rechaçados e considerados como anormais e perigosos. De fato, foram classificados como corpos enfermos, e inclusive, muitas vezes patologizados. Fonte: Scharagrodsky (2011, p. 17-18). 118 material complementar História do Esporte no Brasil Autor: Mary Del Priore e Victor Andrade de Melo Editora: Editora da Unesp Ano: 2009 Sinopse: trata-se de uma coletânea que apresenta 17 capítulos que focalizam o desenvolvimento do esporte no Brasil, abor- dando-o a partir do século XIX até a atualidade. A página do Museu do Futebol é muito valiosa pela variedade de informações, imagens, vídeos e exposições virtuais que lá são organizadas. Conforme lemos na reflexão de Del Priore e Melo (2009), o futebol é a história brasileira, da mesma forma que a história brasileira é o futebol. Acesse e confira! Link: <http://www.museudofutebol.org.br>. Olympia Ano: 1938 Sinopse: documentário dirigido por Leni Riefenstahl (1902- 2003) sobre os Jogos Olímpicos de 1936, sediados em Berlim. O filme se notabilizou por ser o primeiro feito sobre os jogos, criando modos de percepção da transmissão desportiva, hoje comuns. Além disso, fica explícita a ligação do que se assiste ao momento político da Alemanha, já sob a égide de Adolph Hitler. 119 referências AWI, F. Filho teu não foge à luta: como os lutadores brasileiros transformaram o MMA em um fenômeno mundial. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012. BRACHT, V. Aprendizagem social e Educação Física. Porto Alegre: Magister, 1992. ______. Corporeidade, cultura corporal, cultura de movimento ou cultura cor- poral de movimento? In: NOBREGA, T. P. Epistemologia, saberes e práticas da educação física. João Pessoa: Editora Universitária UFPB, 2006. p. 97-106. BOURDIEU, P. Comment peut-on être sportif? In: Questions de sociologie. Pa- ris: Les Éditions de Minuit, 2002. p.173-195. COMÉNIO, J. A. Didactica magna. 3. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gul- benkian, 1985. DEL PRIORE, M.; MELO, V. A. de. (Orgs.). História do Esporte no Brasil. São Paulo: Editora da Unesp, 2009. EHRENREICH, B. Ritos de Sangue: um estudo sobre as origens da guerra. 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Prática corporal é um desses conceitos, na medida em que se delimita o vasto leque de ações humanas, que envolvem a dimensão corpórea, redu- zindo-a aos jogos, esporte, lutas, ginástica e dança. O fato de essas práti- cas não se reduzirem ao elemento gestual, mas englobarem valores e in- tencionalidades, leva-nos a enxergá-lascomo cultura corporal, o segundo conceito fundamental para entendermos a educação física historicamente. 2. Importante na expansão do esporte foi relacioná-lo com perspectivas e projetos educacionais. Desse modo o sport deixou de ser apenas “diverti- mento”, significado original do termo. 3. A ginástica realizou em suas práticas o olhar cientificizante de dividir, quantificar e parcializar a movimentação corporal. Com isso, a ginástica se tornou uma prática corporal representativa da ideia de que se pode con- trolar a natureza corpórea do mesmo modo que a ciência poderia controle a natureza de uma forma geral. 4. Mesmo que não desconsideremos peculiaridades entre a cultura marcial existente em cada região do mundo, a oposição oriente x ocidente secun- dariza que ginástica, esporte e artes marciais, em suas conotações moder- nas, têm origens, motivos e desenvolvimentos semelhantes. 5. Trata-se de sua característica desinteressada, livre e não sistematizada, a cruzar culturas, e fundamental na construção de relações sociais que dão origens a sociedades muito diferentes entre si. Ou seja, nessa ótica o jogo seria uma elemento presente em vários tempos e lugares, ao mesmo tem- po moldado pelas particularidades dos diferentes arranjos sociais existen- tes em outras épocas. Professor Dr. Carlos Herold Junior Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Educação corporal e educação física escolar • Educar o corpo na escola, para quê? • A educação física escolar tornar-se... escolar • As ciências da educação, o corpo e a educação física: o longo século XX • O corpo tem lugar na escola? Objetivos de Aprendizagem • Diferenciar educação corporal e o componente curricular educação física. • Verificar o modo como a educação tem o corpo como o principal meio e fim. • Estudar as transformações históricas que levaram à escolarização das práticas corporais. • Analisar a importância que o corpo passou a ter na ciência educacional durante o século XX. • Ponderar a ausência/presença do corpo nas estruturas educacionais contemporâneas. EDUCAR É EDUCAR O CORPO: A ESCOLA E A EDUCAÇÃO FÍSICA IV unidade INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), chegamos à unidade IV de nosso passeio pela história da educação física. Ela abordará as problemá-ticos que discutimos nas unidades anteriores, estudando-as em sua dimensão explicitamente pedagógica. Digo que tra- taremos as dimensões explicitamente pedagógicas, afinal observe que, em todas as unidades anteriores, mesmo que não tenhamos falado dire- tamente da escola ou da educação, alguma pedagogia esteve presente: na unidade, quando vimos as justificativas para o estudo da história, não é fácil percebermos nos teóricos uma postura que busca nos convencer so- bre a importância desse estudo? Na unidade II, ao abordamos a história sobre as diferentes visões sobre o corpo, não foi corrente a oscilação entre visões que buscam ensinar as virtudes e os defeitos dessa dimensão hu- mana, guiando-nos na forma de agir com os outros e conosco mesmos? Na abordagem de apenas algumas práticas corporais no meio da imensa variedade das que existem, feita na unidade III, não ficou claro que boa parte dessas práticas ganhou importância social e cultural devido aos apelos formativos que a elas foram atribuídos? Essa ligação do universo da cultura corporal com inquietações educa- cionais tem um momento bastante rico no fomento de reflexões quando estudamos os processos que levaram toda essa importância formativa do corpo e das práticas corporais para o interior da escola. Por isso, o objetivo central dessa unidade é refletir sobre esses processos, relacionando as trans- formações históricas ligadas ao corpo e às práticas corporais com transfor- mações que aconteciam nas estruturas educacionais formais. Não é mera coincidência que um momento privilegiado para essa reflexão compreenda o século XVIII, XIX e as primeiras décadas do século XX. Nesses duzentos/ trezentos anos, a escola assumiu um importância que não possuía nos sécu- los anteriores. Mostraremos que, na construção dessa importância, a esco- larização das práticas corporais desempenhou papéis não negligenciáveis. Vamos à escola!! Bons estudos! ATIVIDADE 126 Olhando para a realidade da qual participamos na atualidade, percebemos, sem dificuldades, a presença de várias ações formativas sobre o cor- po. Isso acontece tanto fora da escola quanto no interior dessa instituição. Fora dela, a profusão de discursos e práticas sobre a saúde, sobre a forma como nosso bem-estar relaciona-se à forma como vemos os outros, colocou a dimensão corporal em um lugar bastante valorizado, comparando-se com outros tempos. Da mesma maneira, assumimos com natura- lidade o fato da paisagem escolar ser formada não apenas por livros, salas de aula e os materiais que a formam (cadeiras, quadros, computadores, etc.), mas por quadras, espaços abertos, materiais esporti- vos e crianças se movimentando. Tal naturalidade com esses dois momentos, to- davia, não nos deve fazer esquecer que problemas relacionados a eles também existem. Há críticos que enxergam na atenção dada ao corpo um exagero, um sinal de decadência moral e política da atualidade. Nessa ótica, o individualismo e a irresponsabilidade ética poderiam ser explicados pelo culto ao corpo que, em casos extremos, leva à problemas psicológi- cos bastante visíveis na atualidade. A situação no mundo escolar também não é isenta de problemas. Embora a naturalidade ante- riormente observada aconteça, as críticas à educação física que existe no mundo escolar são igualmente abundantes: critica-se a educação física escolar por ela ser apenas um passa tempo, algo sem importân- cia; por outro lado ela também é negativamente ob- EDUCAÇÃO CORPORAL E EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR EDUCAÇÃO FÍSICA 127 servada por não realizar possibilidades formativas, por não abranger outras práticas que não sejam as modalidades esportivas coletivas. Muitos professores de educação física são vistos como não professores, afinal não ensinariam nada, apenas como rolar bola. Esse rápido panorama do mundo atual tem sua história. Ou seja, ao mesmo tempo em que ele é uma continuidade de ideias e procedimentos criados em outras épocas, é marcado por características que o particularizam. Muitas coisas acontecem nesses dois âmbitos - o da educação corporal e o da educação física escolar -, por vivermos neste mundo, aqui e agora. Por isso, voltamos a um ponto bastante subli- nhado neste livro: tanto para entendermos o que nos liga ao passado quanto aquilo que nos separa dele é fundamental. A análise histórica é fundamental. Para tanto, atente ao fato de que consideramos “educação corporal” e “educação física escolar” como coisas diferentes, mesmo que estejam muito relacionadas tanto na atualidade quanto na história. A educação corporal é toda e qualquer atitude que tomamos em relação ao corpo, visando adequá- -lo, moldá-lo, deixando-o apto para realizar deter- minadas ações ou atender a variadas expectativas. Nem sempre essa educação realiza-se com procedi- mentos pedagógicos explícitos e intencionais, acon- tecendo no bojo de nossas relações sociais, ora de modo imperceptível, ora de modo mais agressivo e traumático. Exemplos que ilustram essa dimensão educacional são numerosos: pensemos no empenho social colocado nos processos que levam as crianças a se tornarem meninos ou meninas. Desde a esco- lha das roupas, do jeito com que conversamos com essas crianças, dos brinquedos com os quais as pre- senteamos, das expectativas que nelas depositamos. Muitas vezes, essa educação não ocorre de forma irrefletida: afinal, já não ouvimos falar de muito so- frimento quando se obriga ou se agride meninos e meninas que agem, que se vestem ou falam de um modo que foge ao rumo dito normal das coisas? Outro exemplo a evidenciar o cotidiano trabalho de educação corporal que acontece com todos nós,ao mesmo tempo em que nós impetramos a quem se relaciona conosco, diz respeito ao modo como usamos o volume da nossa voz e a maneira como nos locomovemos em lugares com muitas pessoas, para citar apenas duas situações. Como aprendemos o modo e a intensidade com a qual conversamos com os outros? Quando fazemos isso, nosso olhar não deve ser de determinadas maneiras, para evitar- mos ou a sensação de sermos desatentos (se olha- mos para outros lugares durante a conversa), ou a percepção de termos segundas intenções se olhamos fixamente nos olhos de nosso interlocutor? Tudo isso acontece em nossa vida cotidiana e, obviamente, adentra a escola. Nessa perspectiva, a educação corporal sempre esteve presente nas dife- rentes estruturas educacionais formais que existiram na história. Todavia, ao lado dessa prática formativa necessariamente corporal, existiram outras práticas ATIVIDADE 128 que, sistemática e detidamente, se ocuparam com os corpos das crianças e dos jovens em instituições es- pecificamente criadas para realizar a educação das novas gerações. Entender esse ponto é incontorná- vel, mas, para isso, alguns cuidados são necessários. São cuidados importantes, pois ao lado de diferentes reconhecimentos que as épocas atribuíram ao cor- po, unem-se expectativas educacionais, instituições a serem criadas para realizar essas expectativas e, so- bretudo, o fato de essas instituições serem pensadas e realizadas para determinadas classes sociais em detrimento de outras. Para entender historicamen- te esse processo, vamos estudar três momentos da educação corporal da vida cotidiana nos quais fo- ram pensadas práticas e instituições formais para se educar o corpo infantil e juvenil. O primeiro desses momentos é a já mencionada atenção dada ao corpo na Antiguidade Grega. A pa- lavra Escola deriva-se de skholé, que em grego rela- ciona-se com o tempo livre do trabalho, necessário para o cultivo das habilidades necessárias ao cida- dão. Fundamentais nessa formação foram ginásios e as palestras, locais específicos nos quais a juventude grega se educava e se exercitava. Andrónikos (2004, p. 42) observa que desde os períodos mais recuados da história grega antiga, chegando até Esparta e Ate- nas: “Para o heleno antigo, o corpo humano tinha uma importância extraordinária e, para atingir o seu desenvolvimento máximo, harmonia e funcio- namento efetivo, ele o treinava obstinada e sistema- ticamente desde a mais tenra infância”. O autor fala em “heleno antigo”, mas deve ser ob- servado que nessa categoria enquadrava-se apenas parcela reduzida daquelas sociedades. Afinal: É preciso salientar também que todo o sistema educacional de Atenas exigia gastos conside- ráveis. Por esse motivo, apenas as classes mais abastadas tinham condições de arcar com a for- mação completa dos jovens (ANDRÓNIKOS, 2004, p. 66). Menos pela característica de ser voltada a uma re- duzida parcela dos helenos, e mais pelas rotinas e lugares em que acontecia, essa educação corporal sistemática que vemos na Grécia Antiga distancia- -se muito da educação física escolar que hoje vemos. Além disso, a derivação de nossa instituição escolar da skholé grega não deve fazer com que esqueçamos que, institucionalmente, a educação grega era muito diferente da que passou a existir nos séculos XIX e XX de nossa era. Antes de abordar o que aconteceu nos sécu- lo XIX e XX, vamos nos deter um pouco em outro momento histórico pleno em desdobramentos para a história da educação corporal institucionalizada: vamos estudar pensamentos, práticas e instituições. Já estudamos um pouco desse momento nas unida- des anteriores. É nesse momento que a ciência mo- derna se desenvolve, dando ao corpo uma grande consideração, pautada no que chamamos de olhar anatômico. Nas páginas anteriores, também foi dito ter sido nesse momento que as crianças passaram a ser vistas de uma maneira diferenciada, em um pro- cesso que impactou enormemente a educação. Não é à toa que, a partir dos séculos XVI e XVII, mui- tos livros sobre educação passaram a ser escritos e publicados, endossando a ideia de que a sociedade que então nascia era assumida como fruto de uma educação racional. EDUCAÇÃO FÍSICA 129 Nesse momento da história, as instituições educacionais com características mais aproximada disso que entendemos por escola passaram a exis- tir. A expansão dos colégios na Europa é um fato marcante. Dentre eles, os Colégios Jesuítas mere- cem destaque. Embora esses colégios representem de algum modo uma modernidade que nascia, não é neles que a educação corporal sistemática tem seu lugar mais visível. É no âmbito familiar, extra- escolar, que muitas práticas e atividades corporais passaram a ser defendidas como fundamentais à educação da juventude. Tomemos como exemplo dessa situação o também já mencionado livro “Al- guns pensamentos sobre a educação”, escrito por John Locke (1632-1704) em 1693 ([2012]). O livro se inicia com um capítulo sobre a saúde, em que são descritos cuidados que vão desde a alimenta- ção, passando pelo uso das roupas e chegando à necessidade de exercícios, natação e procedimen- tos relativos à higiene. Sem eles, avaliava o filósofo, o “jovem cavalheiro” não conseguiria ser formado para um lugar de excelência no mundo. Esse lugar, para Locke (1693 [2012]), relacionava-se muito fortemente com a manutenção e ampliação das ri- quezas que o jovem receberia de sua família. Por isso, essa forma educacional não era pensada para aqueles que não teriam a skholé (tempo livre) ne- cessária para tanto. Ou seja, educar sistematica- mente o corpo era, também nesse momento, uma prerrogativa de classe. Afinal, aos filhos dos traba- lhadores a educação aconteceria no trabalho pro- dutivo junto com os pais. No momento em que o capitalismo nascia, podemos ver nesse traço a rea- lização clara da condição proletária: ser possuidor, apenas, de sua prole. Essa tendência de valorizar a educação corporal sistemática para uma determinada classe social vai se alterar apenas no século XIX e no início do sécu- lo XX. É um momento de muitas mudanças sociais, oriundas, principalmente, do processo de crise e ex- pansão planetária das relações socioeconômicas ca- pitalistas. Do ponto de vista da história educacional, dois fenômenos nos são muito valiosos: em primeiro lugar, o imenso conjunto de debates que acontece- ram em vários países do mundo, sobre a necessidade de uma educação pública, laica, universal e obriga- tória. Ou seja, pela primeira vez na história educa- cional, não sem problemas, retrocessos e resultados diferentes que podemos observar em muitos países, as estruturas educacionais, sobretudo a escola, tor- nam-se passíveis de serem frequentadas também pelos filhos daqueles que não possuíam a skholé, o tempo livre necessário para serem alvos de uma educação sistemática. O segundo fenômeno, muito dependente do primeiro, é o que Faria Filho (2003) chama de escolarização do social, que podemos en- tender da seguinte maneira: “O processo e a paula- tina produção de referências sociais tendo a escola ou a forma escolar de socialização e transmissão do conhecimento, como eixo articulador de seus sen- tidos e significados” (FARIA FILHO, 2003, p. 78). Dito de outro modo, estamos vendo nesse período da história educacional a produção da centralidade que passou a ter o mundo escolar na educação das crianças. Centralidade essa sustentada na ideia de obrigatoriedade educacional, legalmente instituída e voltada a todas as crianças da sociedade. Esse processo, que aqui descrevo em suas ge- neralidades, aconteceu com diferentes ritmos e re- sultados em variados países do mundo em todos os ATIVIDADE 130 continentes. Ao lado do processo que fez com que a escola se tornasse potencialmente acessível a muitas pessoas que antes a ela não tinha acesso, é importan- te verificar que, para a realização dessa imensa tarefa de ampliação, a escola se transformou pedagogica-mente, arquitetonicamente, na composição de seus profissionais, assumindo uma feição bastante pare- cida com a que testemunhamos hoje. Se você se lembrar que boa parte das práticas corporais estavam assistindo a uma expansão no mesmo período, conforme vimos na unidade an- terior, é fácil compreendermos no interior desses dois processos (a expansão da escola e a expansão da cultura physica) que muitos esforços acontece- ram para inserir na escola práticas avaliadas como importantes na realização de ambições educacio- nais. Grosso modo, é isso que nos permite dizer que, no mesmo momento em que as sociedades se escolarizam, a escola também começa a adotar prá- ticas pedagógicas que, com o passar dos anos, aglu- tinaram-se na formação do que hoje conhecemos como educação física escolar. No conjunto de mudanças pedagógicas experimentadas no momento de expansão da escola para todos e da inclusão de práticas corporais como educação física em seu interior, uma mudança na composição do aluno impactou não apenas o funcionamento da escola, mas muita coisa que acontecia fora dela: conforme a escola pública, laica, gratuita e obrigatória ganhava espaço nas sociedades, o dia a dia escolar passou a acontecer com meninos e meninas dividindo o mesmo espaço. Além da novidade daquilo que o século XIX chama de “educação promíscua” (palavra que possuía conotação diferente da conotação atual), há que ser sublinhado que a relevância da educação feminina também conheceu grande impulso. Nessa educação feminina que passava a ser alvo de grande inquietação, o papel das práticas corporais como elemento educativo também foi uma problemática abordada. Não dá para negar que muitas justificativas para essas práticas educacionais ancoravam-se no fortalecimento dos tradicionais papéis sociais que atrelavam a mulher ao âmbito do lar e da maternidade. Todavia, não se duvida que, naquele momento, essa democratização da educação exerceu muitos impactos nos avanços que hoje temos em relação à igualdade efetiva entre homens e mulheres. Fonte: o autor, baseado em Antonovicz e Herold Junior (2012). SAIBA MAIS EDUCAÇÃO FÍSICA 131 As transformações históricas e pedagógicas que aconteceram e que levaram a escola a ser um direi- to de todos foram profundas e intensas. Igualmente importantes foram essas transformações para pos- sibilitarem que, no interior dessa nova instituição, práticas corporais tivessem espaço, tempo e pessoas habilitadas para conduzi-las. Dito de outra manei- ra, existiram bons motivos que podem nos ajudar a entender a energia despendida por vários países em empreender essas mudanças, dando à educação corporal sistemática dentro da escola para a toda sociedade o seu impulso inicial. Impulso esse que, vale a pena repetir, redundou nas aulas de educa- ção física que hoje temos em nossas escolas. Herold EDUCAR O CORPO NA ESCOLA, PARA QUÊ? Junior (2006) aborda essa mesma problemática, afirmando o seguinte: [...] de pensada inicialmente para a educação privada dos filhos das famílias abastadas, a educação do corpo foi amplamente divul- gada e efetivada na escola pública do século XIX. Mas essa mudança de uma educação física doméstica para uma efetivada em um espaço público não se deu de forma evoluti- va. Foi preciso a existência de condições his- tóricas determinadas para que se instaurasse um longo e acirrado debate sobre a extensão das práticas corporais de uma forma universal (HEROLD JUNIOR, 2006, p. 44). ATIVIDADE 132 Deve ficar bastante claro a você, caro(a) aluno(a), que estamos lidando com um momento muito im- portante da história educacional. Conforme vimos nos parágrafos anteriores, nem a educação formal, nem as práticas formativas sistemáticas atinen- tes ao corpo, eram pensadas e voltadas a todos os membros da sociedade. Com o nascimento da sociedade moderna nos séculos XV e XVI, sob a égide do capitalismo, ao mesmo tempo em que o fosso econômico entre classes sociais se ampliou, do ponto de vista político, operaram-se transfor- mações que levaram a várias lutas pela construção de Estados representativos, baseados na igualdade política entre cidadãos. A Revolução Francesa de 1789 é o evento-chave desse processo. Para a concretização desse Estado, a educação a ser ministrada para todos os cidadãos tornou-se um ponto bastante discutido. Foi assumido que a igual- dade política em um mundo de desigualdade econô- mica não seria possível sem uma educação política que possibilitasse as condições intelectuais e morais necessárias para a coesão desse novo estado de coi- sas, difícil de ser mantido pelas tensões sociais que se ampliavam. Interessante verificarmos que, nessa luta por construir as justificativas e as estruturas educacio- nais capazes de absorver, também, os filhos das clas- ses trabalhadoras, o corpo tornou-se um assunto importante e, assim, visto como necessariamente educável nas estruturas institucionais que se expan- diam. Considerar o corpo como objeto de uma edu- cação sistemática pode ser entendido se olharmos o panorama cultural do século XIX e compreen- dermos alguns desdobramentos que explicam esse olhar pedagógico para o corpo. Em primeiro lugar, vale observar que a situ- ação social gerada pelo desenvolvimento do ca- pitalismo industrial criou bastante preocupação. De um lado as revoluções industriais que acon- teceram no fim do século XVIII e início do sé- culo XIX, ao mesmo tempo em que ampliaram a produção de riqueza, levaram a uma degradação corporal da classe trabalhadora. Para uma socie- dade que se construiu ao redor da dignidade do trabalho, a situação de miséria e de aviltamento dos trabalhadores tornou-se uma problemática. Soma-se a essa questão o processo de urbaniza- ção experimentado nos países centrais do capita- lismo, gerando aglomerações que tornaram essas constatações ainda mais gritantes. Sobretudo, se for levado em conta que, em vários países, pres- sões pelo voto universal estavam sendo vencedo- ras, gerando muita insegurança nas classes domi- nantes. Como educar, integralmente, esse novo cidadão, considerado cheio de vícios, doenças e sentimentos que poderiam levar à destruição so- cial? Repare que políticos, burguesia e demais es- tratos sociais participantes das estruturas de po- EDUCAÇÃO FÍSICA 133 der daquele tempo possuíam uma visão bastante negativa de trabalhadores, camponeses e de todos aqueles que ficavam à margem das promessas de fartura do mundo industrial. Ao lado dessas importantes variáveis históri- cas sociopolíticas, devem ser mencionadas ques- tões que tocaram a criação de novas visões sobre o corpo que vinham de desdobramento de desco- bertas científicas que aconteceram no século XIX. Mesmo que não tenha sido a intenção de Darwin, sua teoria sobre a origem e a evolução das espé- cies impactou posições simpáticas à ideia de edu- car corpos sistematicamente. Afinal, se os fracos ficam no meio do caminho, tratava-se de cultivar, fortalecer, aperfeiçoar, criar condições de sobre- vivência que tornassem um povo mais capaz que outro. Esse ideário, conhecido como “darwinismo social”, fundamenta explicações que buscavam ofe- recer entendimentos sobre as diferenças entre clas- ses sociais, entre países, entre culturas, dando ao corpo uma centralidade inegável na hora de justifi- car privilégios socioeconômicos e políticos, assim como as vias legítimas para ascender à possibilida- de de gozá-los. A partir do corpo e por meio dele, chegar-se-ia a uma sociedade mais pacífica no que tange aos conflitos internos e a um país mais pu- jante e capaz de conquistar inimigos, incapazes de fazer frente a um corpo social robusto e educado. Interessante verificarmos que uma das principais obras educacionais escritas nesse momento foi composta por Herbert Spencer (1820-1903), um dos responsáveis pela divulgação do “darwinismo social”. A obra em questão é “Da educação intellec- tual, moral e physica”, de 1863. Depois de criticar que ainda no seutempo muitos ocupavam-se mais da saúde de seus animais do que da própria (ele se referia aos nobres e endinheirados, possuidores de belos animais), o autor afirma que “a primei- ra condição da prosperidade nacional é que a na- ção seja constituída de bons animais” (SPENCER, 1886, p. 205). O trocadilho é interessante, pois ele queria lembrar ao seus contemporâneos que é pela educação physica que desenvolveríamos as forças depositadas em nossa natureza corpórea, em nossa animalidade. Por isso entendemos seu pensamento quando afirma, de um modo que se tornou corren- te aos defensores da educação corporal praticada dentro da escola, o seguinte: Torna-se pois de uma importancia particular o educar as crianças de modo que não só estejam aptas para sustentar a luta intelectual que as espera mas que possam também suportar fisi- camente a excessiva fadiga a que serão subme- tidas (SPENCER, 1886, p. 206). Para Spencer (1886, p. 206), educar fisicamente era colocar a “escola de acordo com as verdades da ci- ência moderna”. Nas partes finais de seu livro, lemos ATIVIDADE 134 outra ponderação que nos faz captar um pouco da atmosfera pedagógica e cultural que estava pavi- mentando o caminho que levou algumas práticas corporais para dentro da escola: Os que, na preocupação exclusiva de desen- volver o espírito, descuram os interesses do corpo, não se lembram de que o bom êxito neste mundo depende mais da energia do que dos conhecimentos adquiridos, e de que arruinar a constituição com o excesso de trabalho intelectual é ir procurar a própria derrota. A vontade forte, a infatigável ativi- dade, devidas ao vigor físico, compensam em grande latitude até as importantes lacunas da educação; e, quando se reúnem a esta cultura suficiente que é possível obter sem sacrificar a saúde, asseguram a quem as possui uma vi- tória fácil sobre os concorrentes enfraqueci- dos por um excesso de estudo, muito embora eles fossem prodígios de ciência (SPENCER, 1886, p. 263). Mesmo que o autor apresente suas ideias de um modo a nos fazer perceber que havia uma luta con- tra posicionamentos contrários, ou seja, havia aque- les que pensassem serem as práticas corporais algo inútil, é necessário destacar que posturas semelhan- tes a de Spencer caracterizaram o período que esta- mos analisando: século XIX e início do XX. Quando estudamos história, é importante perce- ber que cada realidade apresenta nuances e particulari- dades que são fundamentais para a construção de um panorama explicativo acurado. Todavia, tão importan- te quanto essa consideração, é fundamental você não perder a visão de totalidade de um processo que acon- teceu em vários países de um modo interessantemente similar. Scharagdrosky (2011), na apresentação de sua obra, verifica que os capítulos que formam a coletânea por ele organizada abordam em 15 países as: [...] práticas, saberes e discursos que possibili- taram a emergência da educação física escolar e das demais formas de educação corporal li- gadas a ela (ginásticas, exercícios físico ativos, jogos, esportes, colônias escolares, excursões, etc. (SCHARAGDROSKY, 2011, p. 15). Dito de outra maneira, você deve se esforçar para perceber que está estudando um período em que muitas realidades culturais e econômicas diferentes entre si estavam muito empenhadas em levar à esco- la rotinas educacionais que tivessem o corpo como foco principal. EDUCAÇÃO FÍSICA 135 Caro(a) aluno(a), já vimos nas páginas anteriores que a expressão “educação física” foi uma novidade se considerarmos a presença das práticas corporais na cultura grega antiga. Se concepções da antiguida- de tivessem permanecido intocadas no decorrer dos séculos, “educação somática” seria algo bem mais aproximada do athleta grego. “Educação física” é uma expressão em que o termo “física” adjetiva ou qualifica a educação. No mundo moderno que passou a existir depois dos séculos XV, XVI e XVII, vimos que o corpo passou a ser identificado como a natureza circun- dante, tornando-se objeto, passível de ser medido, mensurado, então, cognoscível por meio da quan- tificação da realidade (CROSBY, 1999). Diferente do intelecto e da moral - dimensões humanas que foram tomados como não abordáveis pela ciência -, o corpo passou a ser alvo, assim, de uma edu- cação específica - a educação física. Um registro importante da utilização dessa expressão encon- tramos no também já mencionado livro de John Locke sobre a educação. Esses esclarecimentos são importantes, pois es- tamos estudando nesta unidade os processos que le- varam essa educação (a educação física) para dentro da escola. Ou seja, é necessário você saber que, em- bora esteja reconstruindo a trajetória que nos traz até as aulas do componente curricular da educação básica chamado educação física, no século XIX e até as primeiras décadas do século XX essa educação se fazia presente e conhecida pelo denominação da prática que concretizava essa educação. No caso que A EDUCAÇÃO FÍSICA TORNA-SE… ESCOLAR ATIVIDADE 136 estamos focalizando, a ginástica foi a prática que, em diferentes lugares, passou a povoar os currículos da nascente escola de massas. O ingresso da ginástica ao mundo escolar acon- teceu por uma série de motivos que devem ser pon- derados para se verificar que isso não aconteceu de forma óbvia, sem discussão e sem desentendimen- tos. Afinal, se no século XIX já havia um grande número de práticas e maneiras de se relacionar com ela, para efetivar a existência da dita educação física na escola, o esforço foi pedagogizar, ou seja, analisar as práticas disponíveis e verificar quais delas seriam passíveis de aproveitamento no mundo escolar que se transformava e se expandia. Nesse ponto, vou pedir para que abramos um parêntese. Voltarei a falar sobre essa pedagogização das práticas corporais depois de pensar com você as transformações pedagógicas que aconteciam no mundo escolar, mundo esse que recebeu em seu in- terior a educação física. Se havia escolas antes dos séculos XIX e XX, é somente a partir desses séculos que a escola assu- me características que lembram, bastante, a escola que todos nós conhecemos. Em primeiro lugar, com a educação tendo sido alçada à condição de direito e obrigação de todos, a quantidade e a organização das escolas mudaram, imensamente. No que diz respeito à quantidade, é fácil perce- ber que os poucos colégios existentes até então para os filhos daqueles que tinham condição de pagar por uma educação formal, eram insuficientes para receber, também, os filhos da classe trabalhadora. Iniciou-se em vários países nos anos oitocentos e novecentos a construção dos sistemas nacionais de ensino. Cada país que tinha colocado a educação como direito de seus cidadãos e como obrigação do Estado viu-se na necessidade de criar escolas e organizá-las para que as crianças a partir de uma determinada idade passassem a frequentá-las. O au- mento na quantidade de alunos e de escolas colocou a problemática relativa ao número de professores capazes de suprir a demanda por educação que pas- sou a existir no período. Se a necessidade de formar professores estimularam a ampliação das escolas normais, outros processos colaboraram para abor- dar esse problema. Um exemplo muito interessante e capaz de nos fazer perceber um traço muito visível das escolas na atualidade é o que se conhece como feminização do corpo docente, por meio da qual um número cada vez maior de mulheres passou a se ocupar da atividade docente das escolas. Outra mudança que penso ser interessante abor- dar nesse parêntese que abri anteriormente é o de- senvolvimento da seriação escolar. Até os séculos XVIII e XIX, as escolas funcionavam sem a conhe- cida divisão de seus alunos por faixas etárias seme- lhantes, por séries. A adoção desse procedimento casa-se ao contexto de ampliação da demanda por educação escolar, estipulando uma incontornável necessidade de organizar da forma mais racionalpossível o aluno para se promover a necessária efici- ência a uma instituição custeada pelos cofres públi- cos e tornada mais complexa pelo afluxo de crianças oriundas de espaços familiares muito distantes do mundo letrado. A seriação, de fato, possibilitou uma maior orga- nização do cotidiano escolar. Ela leva ao surgimento da ideia de classe, que vai galgando, paulatinamente, níveis mais aprofundados de conhecimento. Mas a seriação e a criação desse ambiente social chamado classe também trouxeram novos problemas. Proble- mas metodológicos, pois a reunião de crianças de EDUCAÇÃO FÍSICA 137 mesma idade possibilitou um ensino simultâneo, em que o professor ensina o mesmo conteúdo a to- das as crianças ao mesmo tempo. Ora, sabemos que nem todos aprendem nos mesmos ritmos e com a mesma intensidade. Além disso, a reunião de crian- ças da mesma idade gerou o desafio de o professor ser mais interessante do que o colega ao lado. Esse conjunto de mudanças levou à necessidade de uma profissionalização docente, se entendermos nessa expressão (muito em voga na atualidade) o fato de os professores passarem a necessitar de um conjunto de conhecimentos para viabilizar o ensino, ao lado do conhecimento do assunto a ser ensinado. Aten- ção: vamos fechar o parêntese neste ponto e voltar a falar sobre o fato de a educação corporal sistemática tornar-se escolar. A escola transformou-se para atender à necessi- dade de escolarizar a todos. No interior dessas trans- formações, o ingresso das práticas corporais com fi- nalidade educacional é um traço marcante. Repare uma coisa importante: a prática de uma educação física nasce no mesmo momento da escola pensada como uma instituição educacional a ser frequentada pelos filhos oriundos de todas as classes sociais. Do mesmo modo que a escola teve que se trans- formar para tornar essa ideia concreta, a educação a ser obtida por meio de práticas corporais no interior da escola foi alvo de muitas reflexões pedagógicas. A necessidade dessas reflexões dava-se, pois, ao longo da história de muitas épocas diferentes. Ve- mos que no cotidiano de muitas classes sociais havia práticas corporais que existiam com os mais varia- dos objetivos. Lazer e divertimentos eram os princi- pais, o que podia ser visto tanto nas classes econo- micamente abastadas quanto nas classes que viviam de seu trabalho. Em cima dessa cultura de práticas corporais se deu a discussão sobre as maneiras com as quais de- veria acontecer a educação corporal no interior da escola de massas. O principal problema para realizar essa intenção era verificar quais dessas práticas eram educativas e quais existiam apenas para o deleite imediato de seus praticantes - por exemplo, aque- las que chamavam a atenção por suas acrobacias e performances. Bruhns (1999) mostra que no século XIX as demonstrações de características circenses tornaram-se muito criticadas. A crítica justificava-se pelo olhar pedagógico, que via nesses usos do corpo feitos pelos acrobatas um desvirtuamento, uma es- pécie de aberração exibicionista que nada agregava à formação física, moral e intelectual de seus pratican- tes. Fundamental nessa análise é o fato de esses exi- bicionistas sustentarem-se, economicamente, dessas demonstrações, ou seja, eram trabalhadores. Outro alvo de crítica por parte daqueles que pen- savam na inclusão das práticas corporais no interior da escola era o chamado atletismo. Essa denomina- ção pejorativa era dada a toda prática de assumir um caráter meramente competitivo, levando pessoas e grupos a reunirem-se para assistirem aos embates para seu mero entretenimento. Note que no século XIX e início do século XIX a imagem do atleta como portador de virtudes ainda não existia. O que esta- va sendo buscado era uma abordagem educativa às práticas corporais, abordagem essa que deveria ser descolada de qualquer utilidade prática imediata. Ou seja, não era uma técnica a ser ensinada pelo ob- jetivo de se fazer algo mais rápido, ou executar um movimento mais difícil ou bonito. A questão a ser respondida era: determinada prática corporal é ca- paz de colaborar na educação dos cidadãos? Estudar essa questão me levou a concluir o seguinte: ATIVIDADE 138 A dimensão corporal da educação deveria ser adjetivada como educação física, diferente das práticas corporais arraigadas que, afeitas a um individualismo e sensualismo desagregadores, eram concebidas como instrução física (HE- ROLD JUNIOR, 2005, p. 244). Estava em jogo a oposição entre “instrução física” x “educação física” sendo essa a preferida por parte de teóricos e pedagogos que pensavam a educação que deveria acontecer dentro das escolas. É muito interessante verificarmos o modo como as práticas corporais passaram a ser alvo da discussão educa- cional. Se verificarmos que no mesmo período, con- forme estudamos na unidade anterior, a ginástica e o esporte estavam se desenvolvendo com conotações aproximadas à ciência e à educação, constata-se um processo em que muitas das práticas corporais e da adesão a elas que hoje assistimos em nosso cotidia- no foram se costurando como um grande projeto educacional que visava a instauração de um projeto de coesão social que via a possibilidade de a escola educar o corpo infantil e educar por meio do corpo infantil. Nesse prisma, o corpo, explicitamente, dei- xa de ser uma preocupação individual para se tornar alvo de inquietação pública, política. Para subsidiar esse pensamento, peço-lhe que leia uma das conclu- sões às quais chego em outro estudo: A crença na educação formativa do cidadão como panacéia social está expressa na impor- tância educativa atribuída por esses educado- res às atividades corporais, tanto na formação desse homem, se aplicada corretamente, ou na destruição social, caso os preceitos a serem adotados não o sejam pelo crivo “educativo”. Longe de uma mera preocupação com o “de- senvolvimento da aptidão física” e com aspec- tos higiênicos e eugênicos, as atividades físicas foram pensadas em sua importância educa- cional. A atividade pela atividade, ou somente para aumento da força e flexibilidade, era, ao contrário, aquilo que deveria ser rechaçado. As práticas corporais foram consideradas e colo- cadas no interior da nascente escola pública pelo reconhecimento cabal da sua relevância na formação do cidadão, do indivíduo respon- sável também em seus comportamentos e pen- samentos. Havia, por parte dos proponentes da Educação Física, um projeto social, tendo em vista os fatos e suas consequências. O corpo e sua educação escolar foram componentes de extrema relevância desse projeto sócio-históri- co (HEROLD JUNIOR, 2004, p. 174). Como resultado dessas considerações de caracte- rística pedagógica feitas pelos envolvidos nos de- bates que então ocorriam, verifica-se que a práti- ca corporal que mais se aproximou dessa ambição de educar fisicamente foi a ginástica. Discutiu-se bastante quais das variadas escolas ginásticas pro- porcionavam a educação mais próxima do que se ambicionava, mas a possibilidade de dividir, con- trolar e medir os movimentos foi fundamental para dar a essa prática o adjetivo de racional, educativa, sendo por meio dela que, inicialmente, a educação física existiu nas escolas. E essa existência materia- lizou-se inclusive na denominação: gymnastica era o modo com que se reconhecia que, em determi- nada instituição, existia uma educação física racio- nalmente colocada para proporcionar a formação integral do cidadão. EDUCAÇÃO FÍSICA 139 Para aqueles que se interessam em conhecer desdo- bramentos históricos do mundo contemporâneo, o historiador inglês Eric Hobsbawm é fundamen- tal. Em sua numerosa e importante obra, há o livro chamado “Era dos Extremos” (HOBSBAWN, 1994). Nela, o historiador avalia o século XX, por ele cha- mado de longo. Longo pela intensidade e profundi- dade das mudanças, pelo drama de suas guerras e, sobretudo, por muitos de nossos problemas e mo- dosde enxergar as realidades sociopolítica e cultural gestadas nesse momento. Para você que está aprendendo a pensar no cam- po pedagógico e profissional da educação física, o século XX também possui uma quantidade imensa de variáveis que devem ser conhecidas nos impactos que elas possuem para muitas situações e contextos profissionais comuns no campo da educação física. Em primeiro lugar, vale observar que, na vira- da do século XX, o processo de escolarização social (FARIA FILHO et al., 2004) se ampliou e, em esca- la planetária, fez com que o acesso à escola se uni- versalizasse. Obviamente, nesse ponto é importante não esquecermos que ainda há países ou localidades para quem os benefícios do mundo escolar estão muito distantes. Ainda assim, é fácil encontrarmos dados mostrando que realizar a ideia de educação como um direito de todos e um dever do Estado é algo concreto. Uma realidade que sinaliza a centra- lidade que a escola passou a ter para os processos formativos do mundo contemporâneo. E não se es- queça: essa centralidade não se deu sem embates, discordâncias e resistências. Para termos uma ideia dessas dificuldades, é valioso considerar que nas primeiras décadas nas quais enviar as crianças para AS CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO, O CORPO E A EDUCAÇÃO FÍSICA: O LONGO SÉCULO XX ATIVIDADE 140 a escola se tornou uma obrigação para pais, muitos recusavam-se a enviar seus filhos para elas. Muitos acreditavam que a educação era prerrogativa priva- da, muitos defendiam que uma escola laica era algo abominável para as concepções cristãs e havia aque- les que pensavam que a educação escolar não deve- ria ser oferecida aos trabalhadores. E isso não era uma consideração apenas das classes dominantes, mas uma posição corrente em muitos lares nos quais os pais empregavam seus filhos no trabalho produti- vo. Dito de outra maneira, o aprendizado necessário para tornar a ida à escola um hábito e uma possi- bilidade concreta foi longo, penoso, com direito a retrocessos e críticas. Mesmo assim, ele aconteceu. Paralelamente a essas dificuldades de caracte- rísticas mais políticas e ideológicas, fundamental para tal situação foi o enfrentamento das dificulda- des pedagógicas geradas pela frequência massiva de crianças. Do ponto de vista pedagógico, vimos que a escola se transforma para tornar o novo dia a dia es- colar possível. Nessa transformação, vale sublinhar a formação e a ampliação de uma reflexão sistemática, de pesquisa científica sobre os problemas e as possi- bilidades da escola popular. Os desafios gerados pela nova realidade educa- cional no mundo construído nos século XIX e XX levou ao florescimento das Ciências da Educação. Tratam-se de especialidades científicas que passaram a se ocupar dos problemas e da inovação do contexto escolar com vistas a realizar uma ambição didática que remonta ao século XVII de Comênio: ensinar mais, melhor, mais rapidamente e com prazer. A necessidade dessa reflexão se fez sentir, pois passadas as primeiras décadas de escolarização obri- gatória, o painel pintado por aqueles que avaliavam o mundo escolar não era animador. As escolas pas- saram a ser vistas como enfadonhas, amedrontado- ras, incompetentes na tarefa de bem ensinar e educar. Seus professores foram questionados sobre a correção e seus procedimentos, e os assuntos ensinados toma- dos como irrelevantes do ponto de vista educacional. Os móveis, os materiais, as instalações nas quais fun- cionava a escola… parece não ter havido dimensão do mundo escolar que tenha ficado sem receber o olhar reprovador. Esse olhar se fazia fortalecer pela recor- rência com que dados foram produzidos, demons- trando dificuldades estruturais experimentadas por muitos países que buscaram universalizar a educação. Estudos em psicologia da educação, filosofia da educação, sociologia da educação, história da edu- cação, didática e biologia educacional, surgiram e ganharam espaços em universidades e em centros de pesquisa, indicando que a questão educacional se tornara algo muito relevante para o enfrentamento e entendimento dos problemas sociais que então exis- tiam ou passaram existir. O público escolar passou a ser alvo de investiga- ções cada mais vez mais detalhadas. O que se busca- va era entender melhor os alunos para fornecer-lhes uma educação que, em seus procedimentos, fosse menos empírica e cientificamente embasada. Exem- plificando o resultado desse empenho, temos os estu- dos de Stanley Hall (1846-1926), explicando o com- portamento adolescente. Jean Piaget (1896-1980) na década de 1930 já iniciava a sua importantíssima obra ao explicar como se desenvolvem, intelectualmente, as crianças em seus diferentes estágios. Pierre Bovet (1878-1965) produzia elementos muitos importantes para constatar que as crianças tinham na competi- ção e nas disputas e lutas entre si não um elementos de indisciplina ou um traço a ser educado, mas uma característica incontornável da natureza infantil a ser aproveitada pela escola para melhor ensiná-las e edu- cá-las de um modo a vencer os complexos desafios EDUCAÇÃO FÍSICA 141 formativos que se impunham no mundo escolar e só por meio dele poderiam ser encarados. Esse conjunto de estudos científicos produzidos direta ou indiretamente ligados ao campo educa- cional levaram à formação de críticas e proposições que visaram dar à escola uma nova característica. A força desse empenho foi tanta que estudiosos o denominam de “movimento renovador”, de “esco- lanovismo”, de “escola nova”. Note que todas essas denominações, claramente laudatórias ou elogiosas, foram produzidas no calor das críticas às estruturas escolares existentes, adjetivadas de “escola tradicio- nal”, aquela que ensinava uma prática destituída de qualquer embasamento científico mais profundo. Embora essa visão possa ser problematizada pelo fato de se sustentar em embates pedagógicos mar- cados pela polarização de visões diferentes do que deveria ser a instituição escolar, foi ela que ganhou notoriedade e impactou modos de entender a edu- cação vista como necessária à nova escola. Fechando o foco na questão específica da edu- cação corporal sistemática existente na escola, esse conjunto de reflexões políticas, pedagógicas e cien- tíficas impactou enormemente a educação física. Com o desenvolvimento de análises psicológicas re- lativas à natureza infantil e aos modos corretos de se relacionar a ela, assiste-se a uma grande valorização de práticas até então pejorativamente adjetivadas de infantis. O jogo e a brincadeira, antes vistos apenas como meros passatempos, ausentes de qualquer in- tencionalidade pedagógica, passaram a ocupar uma inegável centralidade pedagógica não apenas na educação física, mas na pedagogia de forma geral. Na pedagogia de forma geral, pois o ensino passou a ser considerado como mais efetivo se abarcasse o lúdico, a experiência infantil autêntica. A educação, pelo menos nos livros dos estudiosos influenciados pelo escolanovismo, ganhou uma característica mais prática, com as crianças fazendo objetos, manipu- lando-os, colorindo-os, conversando sobre eles. A ambição pedagógica era afastar a escola das rotinas tradicionais em que um professor fazia sua palestra para crianças imobilizadas em suas cadeiras. No campo específico da educação física que acon- tecia nas escolas, essa nova consideração pedagógica levou a uma crítica ao predomínio da ginástica como prática formativa. O caráter medido, ritmado, con- trolado externamente por um professor que apenas impunha formas de movimentação, paulatinamente, recebeu outra avaliação. De exemplo maior do cará- ter educativo que poderia ter a movimentação cor- poral, passou-se a crítica à distância entre essa prá- tica e os anseios dos jovens e das crianças. Em seu lugar, os jogos e esporte. No que diz respeito aos jogos, lembre-se que, quando falamos sobre eles na unidade anterior, fiz menção a Johan Huizinga e ao livro “Homo Ludens”. Ou seja, essavalorização do jogo não vinha apenas do campo pedagógico e es- colar. No que diz respeito ao esporte, é interessante o fato de uma prática ganhar espaço social de forma tão acelerada, passando de uma forma cultural local e socialmente específica de uma classe, ganhando ares de possibilidade educacional. Essa possibilidade, no caso da educação física, marcou-a de modo profun- do, se considerarmos a maneira como ela se tornou quase que sinônimo de aulas de educação física. Aqui tem um ponto muito interessante para verificarmos a importância de estudarmos a história da educação física: note que está se construindo um traço pedagó- gico das aulas de educação física que na atualidade se configura em um dos grandes desafios desse compo- nente curricular. Você aprenderá durante o curso que o esporte não é e não deve ser o único conteúdo das aulas que vier a ministrar nas escolas. ATIVIDADE 142 Conforme os problemas pedagógicos da educação física escolar na atualidade venham a ser estudados por você, será fácil perceber que muitas dificuldades encontradas pelos professores de educação física no desenvolvimento de seu trabalho são explicadas pela posição secundária do corpo e de sua educação, se comparadas à preocupação que temos para ensinar o conteúdo da maioria dos outros componentes, con- ceituais por excelência. É uma explicação intrigante, se considerarmos que ela deixa entrever que a escola não reconhece, plenamente, as práticas corporais na escola, não dando-lhes o espaço que, defendemos, elas deveriam ter. Um exemplo bastante elucidativo desse posicionamento podemos ler em um livro que exerceu (e ainda exerce, em minha avaliação) grande influência no campo da educação física escolar. Tra- ta-se do já mencionado “Educação de corpo inteiro”, de João Batista Freire. No início do livro, ele diz: O CORPO TEM LUGAR NA ESCOLA? EDUCAÇÃO FÍSICA 143 Às vezes falta visão ao sistema escolar, às vezes faltam escrúpulos. É difícil explicar a imobili- dade a que são submetidas as crianças quando entram na escola. Mesmo se fosse possível pro- var (e não é) que uma pessoa aprende melhor quando está imóvel e em silêncio, isso não po- deria ser imposto, desde o primeiro dia de aula, de forma subida e violente. Dá para imaginar o que representa para uma criança, que passou sete anos se movimentando, ser subitamente “amarrada” e “amordaçada” para, como se diz, “aprender” o que é, para ela, uma linguagem, às vezes, totalmente estranha? A linguagem da imobilidade e do silêncio? Seria o mesmo que pegar um professor idoso, que há muito deixou de praticar atividades físicas, a não ser as mais triviais, e obrigá-lo a correr por alguns quilô- metros em ritmo acelerado. A violência seria idêntica. O interessante é que nós, professores, não suportamos a mobilidade da criança, mas queremos que ela suporte nossa imobilidade (FREIRE, 1994, p. 12). É explícita e contundente a crítica feita por Freire (1994) não apenas à escola enquanto uma institui- ção que não conhece aqueles que são o seu principal alvo, mas críticas aos professores e a sua ignorância, que imporiam a violência da imobilidade às crian- ças. Nessa ótica, crianças, corpo e movimento são colocados como sinônimos, reverberando ideias pe- dagógicas que você já verificou serem características da nova escola e defendidas por todo o século XX, posicionando-se contra a escola tradicional. Fica fácil perceber, também, que ainda nos dias de hoje essa nova escola parece não ter se concretizado se considerarmos as palavras de Freire (1994). Antes disso, temos a percepção de que é o ensino tradicio- nal que prevalece se considerarmos as ácidas críticas do excerto lido. Embora a citação anterior deixe entrever uma resposta negativa à questão com a qual finalizo esta unidade, ou seja, o corpo não tem lugar na escola, avalio como interessante pensá-la sob uma perspec- tiva histórica. Esse procedimento relativiza a contun- dência da negatividade apontada com a eloquência do exemplo anterior. Por outro lado, uma resposta positiva será mostrada como um opção duvidosa. Com efeito, mesmo com a necessidade de tomarmos decisões e oferecermos respostas aos problemas que nos afligem, o zelo de quem pensa nas coisas com muito cuidado obriga o analista a esperar, um pouco mais, para pronunciar seus vereditos! Como você pôde perceber nos itens anteriores, a intensidade dos debates sobre a inclusão das práticas corporais na escola nos faz entender que é apenas a partir do século XIX que a educação física ganha um espaço importante nas estruturas escolares. Ex- plorando ainda um pouco mais o que foi dito, sobre- tudo no item anterior, sublinho que as defesas sobre a pedagogização das práticas corporais não foram vozes unânimes no cenário educacional. Havia, de fato, uma grande desconfiança não apenas sobre a valia da escola a ser oferecida para todos os mem- bros da sociedade, mas duvidava-se sobre a neces- sidade de trazer para seu interior o cuidado com a natureza corporal. ATIVIDADE 144 Sabemos que, na época clássica da antiguidade grega, skholé era o tempo livre considerado como valioso para um aprimoramento do cidadão que se sustentava não apenas na relevante capacidade argu- mentativa, mas também na dimensão estética e atlé- tica do corpo treinado. Importante nessa reflexão é o fato de a escola, tomada como um lugar específico de formação da infância e da juventude, a partir da ida- de média ter se transformado em um lugar em que a dimensão intelectual ganhou proeminência. Essa ênfase na educação intelectual continuou a marcar as escolas que existiam na época moderna, apesar da existência de muitos filósofos que advogassem a importância da educação física. Lembremos aqui a já citada ênfase de John Locke na questão. Todavia, a ênfase dada pelo filósofo inglês à educação física era voltada à educação que acontecia no seio fami- liar, e não a que tinha lugar nos colégios nos séculos XVII. Por essa razão, é muito marcante e relevante para nós o que aconteceu no século XIX e XX, tanto em termos pedagógicos que dizem respeito não ape- nas às transformações ocorridas na escola, quanto no que diz respeito às transformações que levaram à institucionalização da educação física por meio da presença da ginástica na escola. A relevância das transformações que levaram à presença da educação física como prática escolar não deve nos levar a pensar que o corpo é abordado na escola apenas por meio disso que hoje chamamos de componente curricular. Por essa razão a minha insistência em construir um entendimento no qual você, querido(a) aluno(a) saiba diferenciar educa- ção corporal de educação física. Se a educação física, entendida como lugar e espaço de práticas voltadas, sistematicamente, ao esporte, passou a ser pensada para todos e todas apenas no século XIX, a educação corporal exis- tiu na educação de todas as outras épocas e socie- dades. Essa afirmação vale, inclusive, para aqueles que defendiam a irrelevância do corpo, o seu cará- ter pecaminoso/libidinal, ou mesmo para aqueles que, ao constatarem que a força e a resistência cor- poral não eram mais necessárias à sobrevivência do homem, cuidavam apenas do desenvolvimento da inteligência. Isso podemos ver claramente não em discursos educacionais, mas em estratégias dis- ciplinadoras que caracterizam a rotina não apenas da escola atual, mas das escolas em outras épocas e da educação que também ocorre fora delas. Desse ponto de vista, a educação corporal é algo sempre presente e muito eficaz para o alcance de muitos resultados educativos. Essas reflexões são importantes para esboçarmos respostas à questão que intitula esta parte da unida- de. Afinal, elas nos sinalizam que o corpo sempre es- teve presente, ou sempre teve espaço e tempos a ele EDUCAÇÃO FÍSICA 145 dedicados. Mas o estudo do que estava acontecendo na escola e a presença que o corpo passou a ter nela a partir do séculoXIX colocou um elemento históri- co novo e revolucionário: ele inaugura um momento em que educação corporal e educação física escolar ladeiam-se, em um tempo em que tanto a escola quanto as práticas corporais ganharam muita aten- ção e esforços sociopolíticos envidados por muitos setores sociais e educacionais para efetivarem sua importância. Efetivação essa que se mostrou plena em dificuldades durante a história do longo século XX. São elas que explicam desconfianças em relação ao poder da escola, quando as práticas corporais das crianças e dos jovens são pensadas pedagogicamen- te. Mesmo que a luta encampada por Freire (1994) deva ser posta em perspectiva história para se com- preender que ela nasce junto com a própria escola popular e foi por ela suas características possibilita- das, devemos reconhecer que a história nos mostra que essa luta por definirmos o espaço das práticas corporais na escola e na educação de forma geral é de inegável valor para que a escola e os demais espa- ços educacionais sejam valorizadas, sobretudo pelos alunos que a frequentam. Deve ser observado que à escola, em nível mun- dial, tem se dirigido muitas críticas que, frequente- mente, dão conta de sua defasagem em relação ao mundo que se descortinou no início do século XXI, em relação à presença massiva de novas tecnologias que subvertem modos rotineiros de se lidar com o conhecimento a ser transmitido. Do mesmo modo, as práticas corporais, o lazer, a saúde e o bem-es- tar individual e social das pessoas têm se costurado como elementos muito dependentes entre si. Enten- der como esses elementos que colocam o corpo no centro da atenção do mundo contemporâneo rela- cionam-se com o futuro e o passado da instituição escolar é uma reflexão da qual não podem fugir os professores de educação física. Nunca é demais re- petir: a coragem para pensá-la tem no estudo da his- tória uma de suas principais fontes. Essa escola, que nasceu e se expandiu nos séculos XVIII e XIX, construiu em seu interior as bases pedagógicas do que hoje conhecemos como educação física escolar. REFLITA 146 considerações finais Prezado(a) aluno(a), chegamos ao final da penúltima unidade deste li-vro, percebendo que corpo, práticas corporais, objetivos educacionais e instituições educacionais possuem uma relação passível de ser in-vestigada e entendida historicamente. Consoante ao ímpeto que me leva a escrevê-lo e você a procurar um curso superior de educação física que lhe possibilitou lê-lo, mais uma vez nossos olhares se voltam para o que a história das práticas corporais, da educação corporal e da educação física escolar realizaram de um modo que tem caracterizado nossas reflexões. Partimos de problemas pedagógicos e culturais enfrentados por nós nos dias de hoje, indo a um determinado tempo distante do nosso, cronologicamente, e percebemos, na tensão entre diferenças e semelhanças entre outros contextos e o nosso, que muitos assuntos aparentemente simples e não enigmáticos mudam de feição. Afinal, se a importância da escola é algo que muitos não questionam e outros afirmam, simplesmente, não existir, as análises evidenciam que devemos verificar que essa importância nem sempre existiu, e, do mesmo modo, afirmar sua inutilidade no tempo é abrir mão de pensá-la atentamente, como fizeram aqueles que a criaram nos séculos XVIII, XIX e início do século XX. O mesmo pode ser dito em respeito à presença das práticas corporais na roti- na escolar: se de um lado, hoje, muitos duvidam do valor e do potencial pedagó- gico das aulas de educação física, vimos que essas dúvidas também existiram no momento em que foram construídas as bases que formam o conjunto de proce- dimentos didáticos, os assuntos e os professores que dão vida a esse componente curricular na escola. A relevância dessa discussão pode ser atestada pelo fato de ela ter existido, praticamente, em todos os países do mundo que encontravam-se em condição sócio-histórica de escolarizar seus cidadãos. Abordada a generalidade desse pro- cesso, caminhamos para o encerramento de nosso passeio histórico pela educa- ção física, focalizando, de um modo mais detalhado, como a construção da edu- cação física escolar foi discutida e quais os desafios que ela enfrentou no contexto brasileiro. 147 atividades de estudo 1. Diferencie educação corporal de educação física escolar. 2. De que maneira as práticas corporais passaram a ser avaliadas no século XIX? 3. Especifique as características que fazem a escola que surgiu nos século XVIII, XIX e XX ser diferente das configurações escolares precedentes. 4. A escolarização da sociedade que ocorreu na virada do século XX teve qual impacto para a história da educação física? 5. Ao falarmos do período em que estudamos, qual o cuidado que devemos ter ao falar de educação física na escola? 148 LEITURA COMPLEMENTAR Parece-nos haver uma dimensão ainda pouco explora- da nos estudos históricos relativos ao processo de es- colarização primária ou elementar. Trata-se daquilo que chamamos de educação do corpo, uma das marcas mais tangíveis da difusão mundial da educação primária entre as décadas finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Para sua realização, contribuíram discursos, dispositivos, práticas e saberes distintos em seu conte- údo e origem. Em trabalhos recentes, diferentes autores têm procurado lançar luzes sobre essa temática, e têm mostrado como os estudos sobre a história da educação do corpo se encontram entrelaçados a outras temáticas ou problemas de pesquisa, tais como: a educação dos sentidos e das sensibilidades, os rituais disciplinares, as prescrições científicas, etc. - desdobramentos que fazem do corpo o lugar que abriga, rejeita, recebe, devolve, si- lencia ou anuncia a abundância de encontros com a na- tureza e com a cultura realizados pelos sujeitos. Para dimensionar o olhar sobre tais peculiaridades, bas- ta nos remetermos às preocupações com a definição de espaços e tempos apropriados ao projeto de escolariza- ção, ao conjunto de formulações que refletiram sobre a higiene, a saúde, o cansaço ou o divertimento dos escola- res, à disposição dos chamados utensis - materiais e equi- pamentos básicos, necessários para o fazer cotidiano nas escolas -, aos debates sobre os efeitos formativos da aplicação de castigos corporais ou sua impropriedade, à retórica da necessidade de disciplinar comportamentos infantis e ao desenvolvimento de diferentes rotinas e rituais. Por certo, todos esses elementos deram ênfase e visibilidade às dimensões de um projeto de formação moral, intelectual, e não só corporal. Nos propósitos deste trabalho, abordamos prioritariamente o lento en- gendramento de algumas disciplinas escolares e outras práticas educativas realizadas na escola e em seu entor- no, algumas com impressionante permanência. Tendo a educação do corpo como escopo básico, essas disci- plinas e práticas delinearam um verdadeiro projeto de intervenção cultural. Se esse projeto cultural comporta permanências, com- porta também deslocamentos. Se ocorreram variações no trato pedagógico com os corpos infantis - tanto nos discursos quanto nas práticas -, houve também a consoli- dação de uma ideia de civilidade que se fortalecia: a insti- tuição de um ordenamento cultural capaz de afirmar que é possível e necessário educar as crianças e seus corpos. Temos aqui regras básicas que continuam a influenciar. Trata-se de algo que funda, baliza e expressa sentidos da história da educação na medida em que se repete e se modifica. São regras que se manifestarão nas proposi- ções pedagógicas que, no Brasil, ganharam relevo no fim do século XIX e na primeira metade do século XX. Fonte: Taborda de Oliveira e Linhales (2011, p. 389). 149 material complementar A educação física e a criação dos sistemas nacionais de ensino Carlos Herold Junior e Zélia Leonel Editora: EDUEM Ano: 2010 Sinopse: trata-sede uma versão de dissertação de mestrado. Muitas das reflexões desenvolvidas nesta unidade são estuda- das no livro de forma mais detalhada. Tarja Branca Ano: 2014 Sinopse: trata-se de um documentário que explora a importân- cia do lúdico na vida de crianças e adultos. Comentário: não fala, diretamente, da escola e da educação física, mas nos ajuda a pensar parte relevante de discursos e práticas que foram divulgados durante todo o século sobre a importância da educação em reconhecer características inatas à infância e à juventude. Nessa natureza, o jogo e o brinquedo, são vistos como essencialmente corporais. Na página do Centro de Referência Mário Covas há muitas infor- mações, vídeos e revistas sobre a educação de um modo geral e, também, sobre a história da educação. Acesse e confira! Link: <http://www.crmariocovas.sp.gov.br/> 150 referências ANDRÓNIKOS, M. O papel do atletismo na edu- cação dos jovens. In: YALOURIS, N. Os jogos olímpicos na Grécia Antiga: Olímpia Antiga e os Jogos Olímpicos. São Paulo: Odysseus, 2004. p. 39-68. ANTONOVICZ, S.; HEROLD JUNIOR, C. O cor- po da docência: a mulher e a constituição do ensino normal em Guarapuava (1930-1960). 1. ed. Curitiba: Edunicentro - Fundação Araucária, 2012. BRUHNS, H. T. O corpo parceiro e o corpo adver- sário. Campinas-SP: Papirus, 1999. CROSBY, A. W. A mensuração da realidade. São Paulo: Editora da Unesp, 1999. FARIA FILHO, L. M. de; et al. A cultura escolar como categoria de análise e como campo de investi- gação na história da educação brasileira. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 1, p. 139-159, jan./abr. 2004. ______. O processo de escolarização em Minas Ge- rais: questões teórico-metodológicas e perspectivas de pesquisa. In: VEIGA, C. G. e FONSECA, T. N. de L. e (Orgs). História e historiografia da educa- ção no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2003. p. 77 - 97. FREIRE, J. B. Educação de corpo de inteiro: teoria e prática da educação física. São Paulo: Scipione, 1994. HEROLD JUNIOR, C. A educação física no pensa- mento educacional moderno no contexto francês do século XVIII. Analecta (UNICENTRO), Guarapua- va-PR, v. 7, p. 43-55, 2006. ______. Da instrução à educação do corpo: o caráter público da educação física e a luta pela moderniza- ção do Brasil no século XIX (1880-1925). Educar em Revista, Curitiba, n. 25, p. 237-255, 2005. ______. A educação física na crise do capitalismo no século XIX. Teoria e Prática da Educação, Maringá- -PR, v. 7 n. 2, p. 163-172, 2004. HOBSBAWM, E. A era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. LOCK, J. Alguns pensamentos sobre a educação. 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A escola que passou a existir nesse momento foi pensada como instituição a ser frequentada por todos os filhos das diferentes classes sociais então existentes. Para isso acontecer, a instituição escolar se reorganizou, pas- sando a funcionar em espaços específicos, seriando seus alunos e deman- dando novas abordagens metodológicas por parte de seus professores. 4. Foi no processo de escolarização da sociedade que as práticas corporais passaram a ter lugar no interior das escolas. Essa presença foi fundamen- tal para o processo de expansão das práticas corporais em geral, voltadas ao lazer, à saúde e à competição esportiva. 5. No período compreendido pelos séculos XVIII, XIX e início do século XX, a presença das práticas corporais na escola não se dava pela denominação educação física e sim, mais comumente, pela denominação de ginástica. Nesse período, o termo educação física referia-se apenas à necessidade de educar o corpo e por meio do corpo. Professor Dr. Carlos Herold Junior Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Escola e educação física na passagem ao século XX: muitos pensamentos e uma realidade • Discutindo a presença das práticas corporais na escola brasileira: pluralidade de modelos • Formando professores de educação física: o que fica dessa história? • Os caminhos até nós: como a educação física escolar se tornou o que é? • Educação física e escola: pensando futuros ao pensarmos passados Objetivos de Aprendizagem • Discutir a importância educacional das práticas corporais na educação brasileira no século XIX e início do século XX. • Verificar as configurações pedagógicas que deram vida à educação física à luz da escolarização ocorrida no Brasil. • Avaliar a história das práticas e instituições voltadas à formação de professores de educação física para atuarem na educação básica. • Estudar as alterações legais e pedagógicas que existiram na educação física brasileira durante o século XX. • Ponderar desafios contemporâneos a serem enfrentados pela educação física escolar brasileira. A EDUCAÇÃO FÍSICA NA HISTÓRIA DA ESCOLA BRASILEIRA V unidade INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), daremos o último dos passos de nossa caminha-da pela história da educação física. A essa altura do trajeto, acre-dito que você já tenha percebido muitos detalhes na paisagem, antes desconhecidos. Afinal, até este momento discutimos a im- portância do conhecimento história e sua riqueza na formação de professo- res de educação. Na unidade II vimos que o nosso corpo é alvo de diferentes olhares, valorizando-o ou diminuindo-o conforme a época que estudamos e a classe social cujas ideias e representações estudamos. O mesmo ocorre com as práticas corporais, para as quais um olhar histórico possibilita a verifica- ção de que sobre elas muitas coisas importantes, em termos sociopolíticos, têm sido pensadas. Foi estudado, igualmente, que tamanho valor fez com que boa parte das instituições educacionais e práticas pedagógicas fossem deve- doras dos modos como a corporeidade infantil e juvenil fora avaliada, ora como condição ora como problema para o alcance de objetivos educacionais. Por tudo isso, este último passo, certamente, será influenciado pelo conhecimento construído na trajetória até aqui caminhada. Apesar da sensação de um esforço despendido deixar o passeio mais pesado na me- dida que se avança, a experiência obtida pelo que passou e a curiosidade por ver o fim deste primeiro caminho percorrido no campo da história da educação física dará energias extras para abordarmos, nesta unidade V, a escolarização das práticas corporais na história educacional brasi- leira. Como o processo que estudamos na unidade IV, analiticamente pautado na generalidade de pensamentos, fatos e instituições passíveis de serem encontradas em boa parte do mundo nos século XIX e XX, materializou-se no Brasil? De que maneira particularidades históricas de nosso país influenciaram ou foram influenciadas pelas discussões educa- cionais que aqui ocorreram no período que estamos analisando? Ajeite, confortavelmente, a bagagem acumulada até aqui, respire fun- do e aperte o passo para conhecermos a importância da educação física escolar na história educacional do Brasil. Bons estudos! ATIVIDADE 156 ESCOLA E EDUCAÇÃO FÍSICA NA PASSAGEM AO SÉCULO XX: MUITOS PENSAMENTOSE UMA REALIDADE EDUCAÇÃO FÍSICA 157 Para construir um entendimento sobre os papéis e os diferentes níveis de importância que teve a educa- ção física na escola brasileira, sugiro que você reflita comigo um pouco da história educacional de nosso país. Penso ser válido esse pequeno desvio, pois, ao voltarmos à nossa rota, teremos condições de per- corrê-la de um modo mais certo, compreendendo boa parte de suas curvas sinuosas, dos trechos mais acidentados e do destino ao qual ela nos leva. Para isso, uma postura muito importante a ser cultivada é a ponderação sobre o valor que possuiu a educação na história brasileira. É muito comum, quando se quer explicar os problemas que hoje exis- tem, atribuir aos políticos, aos pedagogos e demais autoridades ligadas ao mundo educacional do pas- sado a culpa por aquilo contra o que nós, sabiamen- te, lutamos com pleno conhecimento de causa. O tom um tanto quanto irônico dessa afirmação não duvida das nossas dificuldades educacionais hoje existentes, muito menos do denodo com que muitas pessoas tentam superá-las nos seus respectivos cam- pos de atuação. O tom irônico dirige-se a uma visão simplificada da história educacional. Visão essa que, comumente, afirma que a educação não teria rece- bido a importância que deveria, o que, nessa ótica, teria levado ao fato de termos professores desprepa- rados, escolas mal equipadas, políticas educacionais pouco exitosas, etc. Ao olharmos a história da educacional brasi- leira, deparamo-nos com questões bastante impor- tante sendo debatidas, divergências agudas sobre os rumos a serem tomados pela escola; lutas intensas sobre a ampliação do direito educacional e de seu apoio por parte do Estado; do mesmo modo que é possível encontrar aqueles que, sem negar a impor- tância da educação, vão defendê-la como uma prer- rogativa privada das famílias, vendo como prejudi- cial a interferência política no seu interior. Não deve ser esquecida na ponderação sobre a história educacional no Brasil a marcante presença da Igreja Católica como agente educacional, inicia- da com a atuação da Companhia de Jesus e, depois da expulsão dessa ordem em 1759, com a ação de outras congregações e irmandades. Mas foi com a expulsão da companhia que uma determinada ação do Estado pôde ser vista na realidade brasi- leira. Inicialmente, ela foi marcada pela criação das Aulas Régias por parte do Marquês de Pombal. To- davia, foi com a proclamação da Independência do Brasil em 1822 que temos um marco importante para pensarmos na expansão da educação na socie- dade brasileira. ATIVIDADE 158 Avolumam-se ali, efetivamente, um conjunto de discussões e decisões sobre o papel da educação na construção de um país que clamava pela liberdade ao romper o pacto colonial, mas que continuou a con- viver com o trabalho escravo até 1888. De qualquer modo, estava aberta a problemática de construir uma nação, de dar azo a um sentimento nacional que, ape- sar de forte o suficiente para estimular a ruptura com Portugal, ainda não possuía a pujança necessária para fazer frente aos desafios impostos pelo que era neces- sário ao país para se integrar à economia e à política internacional de um modo independente. Em termos educacionais, essa preocupação ma- nifestou-se, em 1827, na criação da primeira regu- lamentação brasileira especificamente educacional, que estipulou ser a educação um direito dos cida- dãos. Vale observar que essa cidadania não era uma prerrogativa de boa parte daqueles que aqui habita- vam no século XIX. Não apenas pelo fato de parce- la relevante desses brasileiros serem escravos, mas também pelo fato de haver critérios econômicos que possibilitassem a condição política de cidadão. Atente-se à complexidade dessa situação! Mesmo que essa condição tenha diminuído, em muito, o alcance de qualquer discussão educacional por limitar o número de possuidores dos tais direi- tos educacionais, as limitações materiais para a ex- pansão da escola impediam que mesmo os cidadãos tivessem escolas em número suficiente para atender às suas necessidades culturais e econômicas. Esses limites materiais da educação brasileira iam sendo constatados na igual medida de preocu- pações sobre o que eram e sobre o que deveriam ser os brasileiros. Paralelamente ao esforço educacio- nal de abordar essa dúvida, a preocupação higiêni- ca foi importante. É isso que nos diz Soares (1994), quando afirma: No Brasil, por volta da segunda década do sé- culo XIX, já em momento posterior à conquis- ta de sua independência, é desencadeado um vigoroso projeto de eugenização da população brasileira. Este projeto se coloca como pos- sibilidade de alteração de um quadro onde a metade da população do Brasil era constituída de escravos negros, índice que permanece até por volta de 1850, quando para uma popula- ção de 5.520.000 pessoas livres, encontram-se 2.500.000 negros (SOARES, 1994, p. 89). Soares (1994) fala de uma pedagogia higiênica exis- tente no Brasil durante o século, enfatizando que essa inquietação, nos anos que se seguiram à Pro- clamação da Independência, reduziram a “família de elite agrária, num primeiro momento, e a família burguesa citadina, num segundo” (SOARES, 1994, p. 91). Essa situação vai se alterar apenas com os desdobramentos da história cultural, política e eco- nômica brasileira que levaram a sociedade a ques- tionar a viabilidade do trabalho escravo e a estrutu- ra política imperial, levando ao fato de “o discurso normativo e disciplinador da higiene” se estender “à toda população, ou seja, quando o trabalho assala- riado se torna preponderante” (SOARES, 1994, p. 91). Podemos pensar na necessidade de ampliação desse discurso disciplinador analisando-o e tendo como anteparo as discussões levadas à cabo sobre a abolição da escravatura. A partir da década de 1860, a problemática ficou cada vez mais evidente, impac- tando a questão educacional de um modo mais dire- to. Ao ser avaliada a situação econômica e educacio- nal do país, passou-se a atribuir à educação a “tarefa de formar o novo tipo de trabalhador para assegurar que a passagem se desse de forma gradual e segura, evitando-se eventuais prejuízos aos proprietários de terras e de escravos que dominavam a economia do país” (SAVIANI, 2007, p. 159). EDUCAÇÃO FÍSICA 159 Explorando ainda um pouco mais o desenho do contexto educacional brasileiro, ao lado dessas ques- tões culturais e econômicas que estimulavam uma atenção à ampliação da oferta educacional, temos também a conjuntura política. O questionamento à ordem imperial, a passagem a uma ordem repu- blicana, a formação de cidadãos brasileiros a partir de ex-escravos e também de imigrantes, sobretudo europeus, fizeram com que as questões educacio- nais tivessem sua relevância aumentada, aglutinan- do ideias, propostas e, também, os desafios a serem superados por contexto econômico dependente dos países capitalistas centrais: Nesse sentido, o papel atribuído à educação es- colar era criar uma unidade nacional em torno da qual cada indivíduo, que havia abandonado sua antiga relação de dependência, seja com a natureza pródiga, ou com o seu senhor, fosse mobilizado a trabalhar mais em nome do pro- gresso da nação. [...] acreditava-se na escola para formar essa alma nacional que levaria ao grau de modernização alcançado pelos países centrais (SCHELBAUER, 1998, p. 137). Esse conjunto de debates e problemáticas erigido no desenvolvimento da história brasileira durante o século XIX deu à questão da educação física uma importância palpável. Tanto para a questão produ- tiva relacionada ao trabalho, passando pela obser- vância higiênica das famílias, chegando à formação da incipiente nacionalidade republicana, é possível perceber que, ao lado da reivindicação de mais es- colas que realizassem a possibilidade de todos terem nela lugar, havia a reivindicação de se educar fisi- camente a população. Ao lermos os artigos, livros, documentos e imagensproduzidas nesse contexto, a percepção de o corpo individual ganhar uma impor- tância sociopolítica no Brasil é algo que nos faz ver o esforço da sociedade brasileira em se escolarizar. E ao fazê-lo, a educação corporal e sua escolariza- ção foram partes inerentes no processo. Nesse ponto é importante voltarmos à discussão que aborda, de um lado, a presença da educação corporal na so- ciedade e na escola, diferenciando-a dos processos específicos que chamaríamos de educação física. Fa- lando em primeiro lugar dos processos mais amplos Fonte: Família e Escravos no Brasil (CHAMBERLAIN, 1822, on-line)2. ATIVIDADE 160 e retomando advertências feitas na unidade anterior, Taborda de Oliveira et al. (2003) fazem uma explica- ção que é importante você considerar para entender de um modo mais aprofundado a crescente presença do corpo nas estruturas escolares que, não sem difi- culdades, ampliava-se: [...] em práticas corporais escolares estamos nos referindo a um conjunto de manifesta- ções intraescolares que indicam ou podem indicar as formas como foi concebida ao lon- go do tempo a escolarização e o seu papel na formação humana. Essas práticas podem bem estar assentadas na organização do tempo e do espaço escolares [...] (por exemplo, na dispo- sição das cadeiras, no mobiliário, na definição de espaços de acordo com funções específi- cas), como na própria manifestação corporal dos agentes escolares (punições, gestualidade etc.) e chegando às manifestações corporais – autônomas ou tuteladas – dos alunos (brinca- deiras, formas de comportamento, atividades, etc.). Portanto, as práticas corporais escolares incluem e superam aquelas práticas ou ativi- dades afeitas apenas à Educação Física (TA- BORDA DE OLIVEIRA et al., 2003, p. 7). Taborda de Oliveira et. al. (2003), ao fazerem essa identificação, oferecem elementos para que pen- semos na relevância do corpo e dos diferentes procedimentos educacionais a ele voltados para o contexto brasileiro de então. Por conta disso, o corpo, sua educação e sua escolarização ocuparam intelectuais e políticos atuantes naquele momen- to. As defesas em relação à educação corporal e sua presença sistemática escolar era apresentada como uma espécie de verdade inquestionável (HE- ROLD JUNIOR, 2005). Rui Barbosa foi um dos intelectuais e políticos com grande envolvimento na questão educacional da juventude e que possuía um vasto leque de informações sobre o que esta- va sendo discutido em várias parte do mundo, em termos pedagógicos. Em uma de suas passagens mais conhecidas, escrita em 1882, ao falar sobre a educação física, pondera: “Não pretendemos for- mar acrobatas nem Hércules, mas desenvolver na criança o quantum necessário ao equilíbrio da vida humana, a felicidade da alma, a preservação da pá- tria e a dignidade da espécie” (BARBOSA apud HEROLD JUNIOR, 2005, p. 245). Fonte: Rui Barbosa (DIAZ, [1923], on-line)3. EDUCAÇÃO FÍSICA 161 Outro modo de enxergarmos a maneira como a questão da educação física foi ganhando espaço nas últimas décadas do século XIX é analisar os anais do Congresso de Instrução, que aconteceria no Rio de Janeiro, em 1883. A reunião acabou por não acontecer, muito embora as teses que seriam apresentadas tenham sido publicadas. Nele, profes- sores, políticos e outros grupos ligados ao mundo educacional reuniriam-se para verificarem o modo como a educação estava sendo encarada e quais as mudanças avaliadas como importantes. Um dos congressistas, ao escrever sobre a educação física, é claro na apresentação de justificativas que a toma- vam como um elemento incontornável do período, em termos pedagógicos: A tendência que esta (a criança) tem para opor-se à quietação, é uma força latente que a natureza faz atuar em seu organismo com o fim de auxiliar o desentorpecimento, o de- sembaraço, o crescimento harmônico e simul- tâneo de todas as suas faculdades physicas e não physicas, e a natureza não consente que se infrinjam impunemente suas leis. Se qui- sermos sopear aquela força, condenando a puerícia à imobilidade, a natureza vinga-se, vinga-se também a meninada (CONGRESSO DE INSTRUCÇÃO apud HEROLD JUNIOR, 2005, p. 251). Ao lermos apenas algumas das numerosas manifes- tações em defesa da educação física na escola a ser frequentada por todos os cidadãos, tem-se a im- pressão de que estamos lidando com um fato am- plamente aceito por parte de toda a sociedade e que teria sido implantado, imediatamente, naquele mo- mento. Porém, não é esse o cenário: mesmo com as defesas da escola e da educação física em seu inte- rior, a concretização plena desse ideário passou a acontecer de um modo mais visível apenas a par- tir de 1930. Até os anos 30, prevaleceram diferen- tes procedimentos sobre a educação física escolar, procedimentos esses criados, individualmente, em cada Estado, imprimindo a essa dimensão educa- cional uma variedade de práticas e rotinas, muito longe, portanto da ambicionada unidade em tor- no de uma verdade inquestionável. Fernando de Azevedo (s.d.), em uma reedição de uma obra ini- cialmente publicada em 1915, teceu um panorama que nos faz pensar nos problemas enfrentados pela educação física escolar: Um dos mais salutares temas de meditação, que se antolham aos poderes públicos e educadores preocupados com os problemas, a cuja solução se ligam os efeitos, benéficos ou prejudiciais, dum sistema educativo, é o estado da cultura física em nossas escolas, em geral, e o modo como no Brasil é administrada a educação fí- sica. Realmente é difícil encontrar um país, em que esteja menos vulgarizada a noção do ver- dadeiro papel que compete à educação física (AZEVEDO, 1971, p. 149). É importante verificar nessa citação o problema da cultura física, não a cultura física em si, mas a pe- dagogização de sua prática na instituição escolar. Para ajudar você a entender essa problemática é importante levar em conta que a questão não re- sidia, apenas, no estado da cultura física, mas na forma como a educação pública, obrigatória, lai- ca e gratuita vinha se construindo no Brasil. No próximo item vamos analisar, mais detidamente, alguns detalhes dessa construção, atentando-nos para o modo como o desenvolvimento histórico- -educacional brasileiro delimitou algumas caracte- rísticas e possibilidades da expansão da educação física escolar. ATIVIDADE 162 Caro(a) aluno(a), quando estudamos os fenôme- nos que nos interessam sob um ponto de vista histórico, um dos desafios é realizar uma ponde- ração precisa sobre a presença das deliberações individuais no âmbito da coletividade em que elas existem, do mesmo modo que se quer saber como uma determinada coletividade ou conjunto de va- lores sociais compartilhados levam os indivíduos a pensarem e a agirem de determinadas maneiras, e não de outras . DISCUTINDO A PRESENÇA DAS PRÁTICAS CORPORAIS NA ESCOLA BRASILEIRA: PLURALIDADE DE MODELOS Fonte: Escola Municipal Ada Sant’ Anna da Silveira (WIKIMEDIA COMMONS, 1927, on-line)4. No caso da história da educação física essa re- flexão tem seu valor, pois, um dos grandes objeti- vos de estudá-la é verificar que o corpo, as práticas corporais e a educação que delas surge são passíveis de serem entendidas por terem acontecido em um determinado momento possuidor de valores socio- culturais, políticos e econômicos diferentes da épo- ca em que vivemos. Todavia, para acessá-los e co- nhecê-los, obtendo, assim, condições para entender melhor o assunto que estudamos, é fundamental nos EDUCAÇÃO FÍSICA 163 do de Azevedo fundou uma tradição explicativa que atribui ao referido ato o fato de o Estado brasileiro ter dificuldades (que ainda existem) em assumir a educação como direito de todos e de providenciar as condições materiais e pedagógicas para realizá-lo. Para ele, o referido ato “foi uma das maiores aber- rações na evolução política imperial” (AZEVEDO, 1971 p. 574). A assim chamada aberração levou à seguinte situação: O Ensino públicoestava condenado a não ter organização, quebradas como foram as suas articulações e paralisado o centro diretor na- cional, donde se devia propagar às instituições escolares dos vários graus uma política de educação, e a que competir coordenar, num sistema, as forças e instituições civilizadoras, esparsas pelo território nacional (AZEVEDO, 1971, p. 574). A força dessas ideias e a penetração retórica de Fernando de Azevedo na abertura de um caminho explicativo para os limites educacionais brasileiros, porém, devem ser consideradas com atenção. Afi- nal, como diz Saviani (2008, p. 129), “não se pode atribuir ao Ato Adicional a responsabilidade pela não realização das aspirações educacionais no sécu- lo XX”. Essa “tendência frequente na historiografia educacional” (SAVIANI, 2008, p. 129) deveria le- var em conta as particularidades sociais, políticas e econômicas do momento em que o ato foi institu- ído, particularidades essas que deixaram de existir nos anos finais do século XIX e início do XX. De qualquer modo, ficou a cargo das Assembleias Pro- vinciais (no Império) e das Assembleias Legislativas (nas primeiras décadas da República) lidar com a crescente constatação dos problemas e das possibili- dades educacionais, pensadas como uma necessida- de de um país independente, economicamente inte- atermos ao pensamento de alguns personagens que desempenharam papel fundamental na história que nos interessa. Esse é o caso de Fernando de Azevedo. Ao lado da grande relevância desse educador paulista para a história educacional brasileira como um todo, para a educação física e sua inserção na escola seu pensamento e sua análise do contexto brasileiro foram fundamentais. A obra que citamos anteriormente foi resultado de um concurso por ele prestado para uma vaga de professor de educação física em Belo Horizonte. Mesmo não tendo sido aprovado, a obra ficou como a primeira e uma das mais contundentes análises empreendidas sobre o assunto no momento em que foi escrita, assim como continua a ser há cem anos, considerando que o concurso mencionado aconteceu em 1915. No item anterior você percebeu que, apesar das defesas em relação à importância da educação físi- ca escolar ser apresentada como uma verdade cien- tífica inquestionável na ordem dos assuntos sociais e políticos do Brasil no fim do século XIX e início do século XX, os analistas da questão, entre eles Rui Barbosa e Fernando de Azevedo, avaliavam que aquelas defesas não teriam produzido os resultados esperados. É importante não perder de vista que, aos problemas relativos a essa questão específica da educação física, somavam-se problemas estruturais da educação brasileira. Ao explicar esse conjunto de desafios e problemas educacionais, um fator foi posto em destaque: uma determinação do ato adi- cional à constituição de 1823, ato esse publicado em 1834 em que “o governo central desobrigou- -se de cuidar das escolas primárias e secundárias transferindo essa incumbência para os governos provinciais” (SAVIANI, 2008, p. 129). Ao avaliar a história educacional brasileira e seus problemas nos anos de 1920 e 1930, Fernan- ATIVIDADE 164 grado ao capitalismo internacional e com aspirações políticas liberais. Foram essas transformações que possibilitaram a sociedade do período a ver na ques- tão educacional um ponto de reflexão necessário, o que podemos observar, mais uma vez, pelo tom da crítica de Fernando de Azevedo: A educação teria de arrastar-se, através de todo o século XIX, inorganizada, anárquica, incessan- temente desagregada. Entre o ensino primário e o secundário não há pontes ou articulações: são dois mundos que se orientam, cada um na sua direção. As escolas de primeiras letras, como as instituições de ensino médio, em geral ancora- das na rotina (AZEVEDO, 1971, p. 576). Com esse pensamento, é necessário provocar ou- tro: em que isso nos ajuda a entender a história da educação física na escola que existiu no final do sé- culo XIX e início do XX? Resposta: mesmo com a constante lamentação de que a educação física não recebia a importância que deveria, ao estudarmos a história da educação das diferentes províncias/Es- tados brasileiros, notamos esforços que evidenciam um processo crescente de escolarização das práticas corporais. Mesmo sem a unidade nacional pretendi- da por Azevedo e sem a força que essa escolarização poderia ter caso tivesse sido uniformizada por uma ação que minimizasse impossibilidades regionais para sua concretização (suposições essas que devem ser questionadas à medida que estudamos um perí- odo histórico, buscando nele suas necessidades, sem projetarmos para outras épocas as nossas próprias necessidades), a problemática da educação física escolar foi sendo abordada de forma cada vez mais regular, produzindo, com isso, uma variedade de modelos e justificativas pedagógicas que acabavam por se unir em um ponto fundamental: cada Estado, a seu modo, reconhecia a importância formativa a ser atribuída à pedagogização das práticas corporais. Para ilustrar esse processo variado de escolari- zação das práticas corporais, sugiro conhecermos alguns desdobramentos desse assunto em alguns Es- tados brasileiros. Tarcísio Mauro Vago (2010) estudou a história da educação e educação física mineira. Ao fazê-lo, ele nota que a decadência do ciclo econômico base- ado na exploração do ouro demandou uma mudan- ça do eixo econômico e cultural, que se deslocou da cidade de Ouro Preto para a capital mineira, Belo Horizonte. Essa mudança provocou muitas outras no cotidiano de um “pacato arraial” que se tornou uma “vitrina para a República” (VAGO, 2010, p. 16). A vida social, política e econômica que acontecia no novo regime fez com que muitos setores sociais pen- sassem a respeito das mudanças necessárias para a realização da, assim vista, incontornável “ambição civilizatória” a ser assumida pela escola. Nessa ótica, ela deveria “receber as crianças pobres e fazer delas cidadãos” (VAGO, 2010, p. 19). Fonte: Modestino Gonçalves (WIKIMEDIA COMMONS, [1906], on-line)5. EDUCAÇÃO FÍSICA 165 No conjunto dessas transformações, em 1906 foi decretada uma reforma do ensino primário que colocou os Grupos Escolares como instituições escolares centrais de um novo contexto que deu à educação a ser oferecida pela escola o eixo central dos variados processos formativos, até então prer- rogativa das famílias. Mas os problemas logo se fizeram sentir: apesar das justificativas para as mu- danças focarem as classes populares como princi- pais beneficiárias, não foram as crianças pobres as principais frequentadoras dessas instituições mo- delares. Perceba que se trata de um problema bas- tante sério, considerando que o discurso político que justificou a passagem ao modelo republicano pautava-se na ideia de ampliação da cidadania e de igualdade. Ou seja, apesar de a nova cultura esco- lar ser vista como construtora dessa igualdade de oportunidades, justamente ela evidenciava em seu dia a dia as contradições de uma igualdade política cimentada em um mundo de grandes disparidades sociais e econômicas. Outro problema observado por Vago (2010) ao lado dessa característica excludente da forma escolar que se impunha, era o fato de ela não ser aceita com tranquilidade por pais, alunos e os próprios profes- sores. Vago (2010) explica, com bastante clareza, os problemas gerados pela obrigatoriedade escolar no contexto mineiro no início do século XX: Ora, se muitos pais não estavam enviando seus filhos à escola, é porque não estavam convencidos da necessidade dela ou, mais especificamente, da necessidade de conheci- mento que ela veiculava para os afazeres mais imediatos das famílias. As famílias tinham dificuldade de liberar os meninos que atua- vam como mão de obra na lavoura, seja em pequenas propriedades da família, seja como empregados em outras propriedades, porque desse trabalho dependia certo equilíbrio em suas despesas. No casodas meninas, era difí- cil não tê-las como ajudantes nas tarefas do- mésticas (VAGO, 2010, p. 26). Perceba que nessa afirmação temos elementos his- tóricos bastante significativos para refletirmos sobre as dificuldades enfrentadas pela expansão do mun- do educacional formal, elementos que vão além da falta de vontade política comumente atribuída aos que viveram em um determinado passado para re- alizar aquilo que nós queríamos que eles fizessem! De qualquer maneira, em que pese essas dificulda- des, a sociedade mineira se escolarizou nesse perí- odo, fazendo com que a escola se tornasse a grande detentora de uma necessária prioridade: mudar há- bitos arraigados, esparramar a ciência para susten- tar a moralidade, algo a ser feito em um cotidiano escolar em que “o corpo dos alunos foi colocado no centro das práticas escolares” com o objetivo de “constituí-lo, ou reconstituí-lo, racionalmente [...]” (VAGO, 2010, p. 28). Com o desenrolar dessas mudanças que deram à escola centralidade, peço-lhe que se atente à im- portância que teve o corpo na expansão do mun- do escolar. Vago (2010) retoma a necessidade de diferenciarmos a educação corporal materializada da necessária educação physica que era vista como importante à escola e que não deveria se restringir a um único momento específico das práticas pe- dagógicas, tal como uma disciplina escolar. Toda- via, o pesquisador mineiro nos adverte que foi na escolarização da sociedade mineira que pudemos enxergar o “nascimento de uma disciplina escolar” (VAGO, 2010, p. 30), o que é analisado por ele da seguinte maneira: ATIVIDADE 166 O aparecimento dessa nova forma escolar foi, de fato, determinante para a constituição pau- latina da Ginástica como disciplina do progra- ma de ensino [...]. A Gymnastica foi produzida como um dispositivo central para a pretendida educação physica das crianças. Sua inserção nas práticas de escolas primárias de Belo Horizon- te fundamentou-se, dentre outras razões, na crença em suas possibilidades de transformar os corpos das crianças, representados como raquíticos, débeis, fracos, em desejados corpos sadios, belos robustos e fortes. Esperava-se dela uma participação decisiva no processo de cons- tituição de corpos infantis (VAGO, 2010, p. 31). Se focalizarmos a escolarização da ginástica como momento fundante de uma disciplina escolar, temos no estado do Paraná um cenário parecido, apesar de suas particularidades. O contexto paranaense enfren- tou, assim como o mineiro, a necessidade de adap- tar-se aos novos rumos políticos e à urgência de inte- grar sua economia à modernização. Nesses embates, a educação foi uma problemática recorrente, fazendo com que o Paraná também envidasse esforços para escolarizar sua sociedade. Como em muitos outros estados, fez isso lutando contra limites materiais com- preensíveis a um contexto marcado por constantes pressões oriundas da ampliação da demanda escolar. Putcha (2007), ao estudar a escolarização da gi- nástica no contexto paranaense do início do século XX, observa que de 1882 a 1921, em documentos legais tocantes ao ensino (regulamentos de instru- ção pública, portarias, códigos de ensino e progra- mas de ensino), apenas 1 de 11 documentos não mencionam a ginástica como elemento a ser pra- ticado nas escolas do Paraná (PUTCHA, 2007, p. 52). Ao concluir seu estudo, oferece mais uma base para percebermos a maneira como o nascimento da escola moderna e as bases da educação física es- colar foram importantes, uma para a outra: A partir das reformas efetuadas na instrução pública primária paranaense localizamos um processo de afirmação da gymnastica, princi- palmente em decorrência da implantação do ensino seriado. Além do tempo, espaço, con- teúdos, métodos e objetivos que foram con- siderados ao longo das reformas anteriores, com a implementação do ensino seriado e como advento dos grupos escolares esta pas- sou a contar com um instrutor exclusivo. A possibilidade de reunir os alunos de diferen- tes séries para que juntos pudessem realizar os exercícios gymnasticos só foi possível com este tipo de organização do ensino primário (PUTCHA, 2007, p. 103). Dos dois exemplos estudados acima (Paraná e Minas Gerais), evidenciam-se o fato de, em dife- rentes estados brasileiros, a forma escolar pautada nos Grupos Escolares caracterizarem a necessida- de de as sociedades se escolarizarem. Além disso, notamos que em todas elas o corpo individual dos alunos tornou-se uma preocupação pública, esti- mulando não apenas práticas de educação corpo- ral que abordaram a corporalidade infantil de for- ma indireta (construção de espaços mais amplos, móveis escolares, uso de uniformes, etc.), mas, principalmente, a criação de um momento espe- cífico de educar o corpo dos alunos: a educação physica passava, lentamente e dependente de par- ticularidades de cada região em que era debatida e criada, a ser entendida, vista e praticada como disciplina escolar. Como tornar a educação e a educação física questões passíveis de serem pensadas sistemicamen- te, gerando uniformidade de planejamento e execu- ção em todo o país? Qual o papel do estado na de- terminação dos direitos e dos deveres educacionais gerais, assim como os atinentes à educação física? EDUCAÇÃO FÍSICA 167 Durante a década de 1920 e 1930 isso foi bastante discutido, paralelamente à expansão da escola or- ganizada no âmbito da realidade de cada um dos estados. Isso mudará e gerará impactos impor- tantes para a educação física escolar. Mas antes de abordar a criação de um sistema nacional de ensi- no que, também, organizaria a educação corporal sistemática a ser realizada pela escola brasileira, vamos abordar outra questão diretamente impac- tada pelo fato de as práticas corporais e sua escola- rização, no período que estamos estudando, darem seus passos Brasil a fora: vamos nos deter na for- ma como a maior exigência de professores levou à construção das primeiras estruturas e instituições formativas desses profissionais. ATIVIDADE 168 Para todos nós, na atualidade, não são necessárias muitas reflexões sobre a importância de buscarmos uma formação acadêmica para atuarmos em pro- fissões ligadas à educação e à saúde. Quando é to- mada a decisão sobre o trabalho em qualquer um desses campos, automaticamente iniciamos a busca por um curso em nível superior. Durante os estudos, são ensinadas não apenas questões técnicas relativas FORMANDO PROFESSORES DE EDUCAÇÃO FÍSICA: O QUE FICA DESSA HISTÓRIA? Fonte: Minerva UFRJ (WIKIMEDIA COMMON, 2010, on-line)6. à profissão escolhida, mas dimensões éticas, sociais e históricas de um determinado grupo profissional. Aliás, é o que estamos fazendo neste momento, des- de o início deste livro. No caso da educação física como campo de atuação, o raciocínio básico que justifica a necessidade de uma formação profissio- nal sistematizada e publicamente reconhecida por meio do recebimento de um diploma, é o fato de se assumir que o trabalho pedagógico, recreativo, es- portivo, assim como o trabalho ligado à busca por mais qualidade de vida por meio das práticas cor- porais, demanda cuidados e procedimentos que não se aprendem apenas repetindo aquilo que é feito por outros atuantes da áreas. Além disso, ao ingressar no ensino superior em educação física, você verá, caso ainda não tenha percebido, que os professores possuem diferentes especialidades, construídas em uma sequência de estudos realizada após sua graduação, em nível de especialização, mestrado e doutorado. Para tanto, além de aprofundarem seu próprio conhecimento absorvendo a bagagem intelectual produzida sobre aquilo que lhes interessa, esses professores, ao obje- tivarem formar novos profissionais, também produ- ziram novos conhecimentos ao concluírem os dife- rentes níveis de sua formação pós-graduada. Esses EDUCAÇÃO FÍSICA 169 realidades culturais diferenciadas entre si, mas que, ao pensarem nas ginásticas, nos jogos, naslutas e nos esportes, atribuíram significados socioculturais e educacionais para endossar e justificar, publica- mente, aquilo que faziam, corporalmente. Defesas sobre a importância do aprimoramento da higiene, sobre o aperfeiçoamento de uma raça, sobre o for- talecimento da virilidade e a redefinição da femi- nilidade, foram alguns dos elementos que fizeram muitas pessoas estudarem e pesquisarem as formas corretas de se praticar aqueles elementos, bem como descrever os resultados a serem obtidos por uma prática racional. Essa racionalidade encontrou na ciência seu grande suporte, enfatizando que os re- sultados benéficos que se esperava alcançar apenas seriam alcançados se praticantes e aqueles que ini- ciavam/ensinavam/coordenavam as seções em que isso ocorria tivessem sólida formação. conhecimentos foram e são avaliados, discutidos e, igualmente, são utilizados por outros cientistas em seus próprios trabalhos de pesquisa. Dizendo tudo isso de um modo mais direto: a educação física, hoje, é um campo profissional e um campo acadê- mico bastante regulamentado, com suas tradições e exigências. Elas devem ser atendidas por aqueles que ambicionam trabalhar ou pesquisar assuntos atinen- tes a ela. Mesmo que existam problemas e debates intensos sobre a solidez das bases dessa formação profissional e da produção de conhecimento elabo- rado pelo conjunto desses professores/pesquisado- res, deve ser notado o avanço que isso significou, tomando como parâmetro o empenho e o caminho percorrido para se construir essa grande e comple- xa estrutura profissional e científica da qual você se aproximou desde que iniciou seu curso de gradua- ção em educação física. Esses esclarecimentos servem para enfatizar a importância do que faremos nas próximas páginas: desenvolveremos uma reflexão sobre a trajetória que trouxe essa condição até nós. Vamos estudar alguns pontos desse caminho, para que sejam percebidos alguns momentos da construção desse edifício pro- fissional e acadêmico que é a área de educação física. Inicialmente, para pensarmos em alguns ele- mentos da história da formação profissional em edu- cação física, deve ser considerado que a necessidade dessa formação se deu em um momento em que se cruzaram três ordens de problemáticas formativas. Em primeiro lugar, já vimos que no século XIX e nas primeiras décadas do século XX houve uma grande expansão de práticas corporais. Vimos, tam- bém, que essas práticas foram absorvidas por muitas Fonte: Brasil - Copa América 1919 (WIKIMEDIA COMMON, 1919, on-line)7. ATIVIDADE 170 Consequentemente, surgiram estudos cien- tíficos sobre o movimento humano, que eram elaborados e publicados em forma de livros. A demanda para o consumo desse tipo de estudo só aumentava no início do século XX. No Bra- sil, Sevcenko (2012) observa no Rio de Janeiro uma ética do corpo e da ação em que as pessoas assumiam a ginástica e, cada vez mais, o espor- te como práticas importantes em seu dia a dia. É compreensível que, em tal contexto, com pesso- as ensinando as modalidades que passavam a ser cada vez mais buscadas, levantou-se a questão de saber quem eram essas pessoas que ensinavam essa nova ética baseada na exercitação corporal. Além disso, inquietante também foi a dúvida so- bre o que elas deveriam saber para lidar com os desafios que seriam tão importantes de serem vencidos, a julgar pelo impacto que eles teriam na formação de uma nação forte. Ao lado do florescimento da importância da cultura physica em boa parte do Brasil nos anos 1920, importante para o desenvolvimento de prá- ticas e instituições formativas relacionadas à edu- cação física foi a expansão do mundo escolar. Foi estudado no tópico anterior que isso acontecia em muitos estados brasileiros, da mesma maneira que foi visto que no interior dessa escola a ginás- tica foi vista como necessária para a realização do novo ideário educativo a ser concretizado não apenas para as famílias da elite, mas, principal- mente, para os filhos das classes trabalhadoras. Essa realidade fez com que os estados brasileiros que expandiam sua rede escolar (o que faziam, na maioria dos casos, com grandes dificuldades e com um ritmo menor do que o desejado) dis- cutissem soluções para suprirem as escolas que surgiam com um professorado capaz de resolver, a contento, os novos desafios que se impunham. Saviani (2008) endossa essa reflexão, afirmando: A partir [...] do século XIX, a necessidade de universalizar a instrução elementar condu- ziu à organização dos sistemas nacionais de ensino. Estes, concebidos como um conjun- to amplo constituído por grande número de escolas organizadas segundo um mesmo pa- drão, viram-se diante do problema de formar professores, também em grande de escala, para atuar nas referidas escolas (SAVIANI, 2008, p. 08). No século XIX e nas primeiras décadas do sécu- lo XX, os primeiros passos dados no sentido de uma formação de professores eram dados, prio-Fonte: Pavilhão (WIKIMEDIA COMMONS, 1907, on-line)8. EDUCAÇÃO FÍSICA 171 ritariamente, nas escolas normais, de nível secun- dário. Conforme os problemas educacionais se ampliaram, infelizmente, em um ritmo maior que a ampliação das escolas existentes, ainda assim, a formação de professores foi se tornando uma problemática cada vez mais discutida. A partir da década de 1930, a formação em nível secundário foi considerada como insuficiente para as novas exigências pedagógicas, levando a um amplo pro- cesso de discussão e medidas que criaram o “es- paço acadêmico dos estudos educacionais” (SA- VIANI, 2008, p. 18), colocando a formação dos professores que atuariam na educação básica para o interior das universidades. A terceira ordem de problemática formativa diz respeito, justamente, às universidades. Dife- rentemente do que ocorreram com os países de colonização espanhola, no Brasil o desenvolvi- mento do ensino superior aconteceu e se acele- rou tardiamente. Apenas na década de 1930 que a base da estrutura universitária se instaura e, em seu interior, a formação de professores, tanto os professores em geral quanto os professores de educação física. No caso dos professores de outras disciplinas escolares, Saviani (2008) demonstra a existência de muitos debates sobre o lugar da edu- cação no ensino superior. As incertezas sobre essa localização dava-se pelas tensões entre defensores de uma formação do professorado mais aproxi- mada às especificidades educacionais, integrando formação teórica e formação profissional voltadas às exigências pedagógicas, em que a produção do conhecimento acontecesse paralelamente e imbri- cadamente com os desafios didáticos e metodoló- gicos da escola; e os defensores de uma formação meramente profissionalizante do professorado, fazendo Saviani (2008) constatar que, neste úl- timo caso, “separa-se o profissional do cientista” (SAVIANI, 2008, p. 39). Para verificarmos as di- ficuldades existentes na história educacional bra- sileira, foi essa última opção a que foi prevalente nos embates político-pedagógicos que existiram na Era Vargas, lançando, com isso, as primeiras bases da formação superior para professores da educação básica, ajudando-nos a entender alguns dos desafios que ainda hoje existem. Vistas as três ordens de problemáticas apre- sentadas para que você compreenda a trajetória da formação profissional em educação física, pas- semos, então, a estudá-la em alguns pontos. Com a expansão das práticas corporais e o conjunto de discursos a justificar a adesão a essa prática, mesmo em um contexto em que não ha- via um profissional disponível, algumas pessoas se incumbiram dessa nova tarefa que surgia. Es- sas pessoas encontravam nas instituições então disponíveis seu estímulo e os modelos a serem seguidos para tornarem real a importância da educação physica. No fim do século XIX e início do século XX, essas instituições que tinham na educação physica um ponto de grande interesse eram o exército e as faculdadesde medicina. Melo (1996, p. 25) afirma que ao lado da ênfase prática dada à formação dos militares, as faculdades de medicina oferecia o “aporte teórico” da “cultura physica” através das teses que eram defendidas no interior sobre a saúde a importância dos exercí- cios corporais em seu fomento. ATIVIDADE 172 Se a produção de discursos sobre a importância das práticas corporais para a saúde e para a mo- ralidade da população era fundamental, por sua vez, ela não era algo feito apenas pelos médicos. Era feita pelos médicos a sustentação científica dos impactos fisiológicos das práticas, porém, a ques- tão educacional e formativa a ser influenciada pela educação physica ocorria por meio da escrita e fala de políticos e pedagogos. De um modo muito visí- vel, a importância higiênica e eugênica das práticas corporais reverberava em toda sociedade e provi- nha de várias origens. Todavia, a condução prática dessas atividades, sua organização e propagação cotidiana foi assu- mida, indiscutivelmente, pelos militares. Castella- ni Filho (1988) lembra-nos que a Academia Real Militar passou a existir no Brasil já em 1810. Em 1860 o método alemão de ginástica foi introduzi- do no país. Melo (1996) observa que, em 1881, é nomeado como primeiro professor de ginástica da Escola Normal do Rio de Janeiro o Capitão Ata- liba Fernandes. Embora desde 1905 se falasse da necessidade de se criar escolas civis de educação física, foram as escolas militares que se instalavam. Em 1909 foi fundada a Escola de Educação Física da Força Policial; na década de 1920, no Rio de Ja- neiro, o Centro Militar de Educação Física (CAS- TELLANI FILHO, 1988). Castellani Filho (1988) mostra que o Centro Mi- litar de Educação Física foi importante. Afinal, ele tinha como objetivo adotar novos métodos de edu- cação física. Foi por intermédio desse centro que, em 1929, em um curso provisório, os primeiros civis receberam formação em educação física, concre- tizando a “presença marcante dos militares na for- mação dos primeiros professores civis de Educação Física, em nosso meio…” (CASTELLANI FILHO, 1988, p. 34). Importante nessa narrativa é você con- siderar que foi desse Centro que se originou a Es- cola de Educação Física do Exército, em 1933, cuja regulamentação permitia a frequência de civis. Ou seja, formar professores de educação física e ser pro- fessor de educação física remetia a um perfil atitudi- nal muito próximo da autoridade de um sargento a comandar seus soldados. Entretanto, os problemas ainda continuavam pela falta de professores qualificados para atender à demanda por educação física que vinha tanto de clu- bes quanto das escolas que, lembre-se, expandiam- -se em número. Em 1938 foi oferecido um curso de emergência para diminuir essa carência, consoli- dando uma atmosfera favorável da Escola Nacional de Educação Física e Desportos, na Universidade do Brasil (que em 1965 tornou-se a Universidade Fede- ral do Rio de Janeiro). Feita essa exposição, vamos tentar costurar uma unidade em todo esse conjunto de fatos e institui- ções, para que tenhamos o cerne da problemática com a qual inicia-se a formação de professores de educação na história educacional brasileira. Para tanto, sublinho algo que já foi menciona- do nas páginas e unidades anteriores: as primeiras décadas do século XX caracterizam-se pela colo- cação da educação obrigatória e da educação física em um lugar de destaque, se considerados períodos históricos anteriores. Além disso, passou a exis- EDUCAÇÃO FÍSICA 173 tir maior demanda tanto de professores em geral quanto de técnicos, especialistas e professores de educação física. O fato de a escola e da educação física serem con- sideradas como desafios importantes para a história educacional brasileira não deve nos fazer esquecer que, no relacionamento entre esses dois campos de ação, embora relacionados em muitos aspectos, ha- via alguns elementos que os afastavam. Ficou explícita a relação entre a expansão da educação física e o exército. Essa relação, todavia, era alvo de alguma desconfiança dos meios educa- cionais que participavam, ativamente, dos debates e das instituições que gerenciam a expansão da edu- cação pública no Brasil. Cito como exemplo o po- sicionamento da Associação Brasileira de Educação (ABE), fundada em 1922, e com grande papel nos debates educacionais de então. Na virada da déca- da de 30, a ABE posicionou-se contra a presença do Exército na determinação de um método de educa- ção física, afirmando ser esse um “problema educa- tivo” (CASTELLANI FILHO, 1988, p. 75) que não seria da alçada dos militares. O fato de a ABE ver na problemática da educação algo importante pode ser percebido em sua iniciativa de organizar um de seus concorridos Congressos Brasileiros de Educação, o de 1935, tendo como tema a educação física. Com efeito, é importante ponderar que havia não apenas no Brasil, mas em muitos lugares do mundo, uma tentativa de separar a escola da caserna. Essa presença militar nos meios educacionais foi alvo de muitas críticas. Se a presença dos militares era, historicamente, importante no mundo educacional, ela era mais incômoda quando consideramos a edu- cação física brasileira. O fato de os professores de educação física serem formados em escolas do exér- cito - além da presença dos militares nas primeiras escolas civis de formação em educação física -, con- tribuiu, entre outras coisas, para que a formação do professorado em geral trilhasse caminhos diferentes da formação dos professores de educação física. Também pesava na construção dessa diferença entre a formação de professores e a formação de pro- fessores de educação física e influência médica na divulgação dos conhecimentos relativos aos avanços da fisiologia e biomecânica a serem aplicados aos futuros professores. A prevalência dos conhecimen- tos de característica biomédica nos currículos dos primeiros cursos apoiava-se em uma consideração científica que dava ao corpo a conotação de má- quina, a ser medida e desmontada, retomando in- fluências sentidas desde o processo de nascimento e consolidação da ciência anatômica. Com isso, os professores de educação física, ao serem formados, recebiam grande carga de conhecimentos dessa ma- triz científica, sendo que a formação em questões pedagógicas era bem mais reduzida, contando com pequenos número de disciplinas e uma carga horá- ria amplamente inferior se comparada com a que era despendida com biologia, bioquímica e fisiologia. Essas considerações têm sua importância, pois elas nos ajudam a pensar, historicamente, uma constante percepção que existe na escola sobre os professores de educação física. Enquanto os outros professores seriam, de fato, professores, por terem algo a ensinar, um conhecimento a transmitir, os ATIVIDADE 174 professores de educação física não seriam profes- sores plenos, nesse tradicional sentido da docência. Os professores de educação física são tomados como conhecedores do corpo humano, responsáveis por colocarem as crianças para se mexerem, mas, não, aprenderem. Do ponto de vista histórico, o processo de for- mação de professores em geral e dos professores de educação física em particular teve alguns dis- tanciamentos. Sobre isso, Melo (1996, p. 31) nos lembra um fato interessante: na década de 1930, a educação física era a única disciplina que possuía uma seção especial no Ministério da Educação e Saúde. O que é algo interessante pelo reconheci- mento que dava a esse nascente campo é o endos- so de uma visão mecanicista de corpo e de saúde, que afastava os professores de educação do traba- lho diretamente pedagógico no também nascente mundo escolar. Afinal, por outro lado, quando foi criada a Faculdade Nacional de Filosofia, apenas a área de educação ficou de fora de seu campo de abrangência, que compreendia todas as outras li- cenciaturas. Dito de outra maneira: em seus pri- meiros momentos, a formação de professoresde educação física passou ao largo dos conhecimen- tos pedagógicos necessários à ação pedagógica. Desse ponto de vista, nosso ingresso no mundo escolar foi menos como professores e mais como uma mistura de sargento-médico a dar ordens e a fazer prescrições de movimento. Ou seja, ao se relacionar com os alunos, essa consideração da educação física escolar como atividade do corpo demandava o conhecimento anátomo-fisiológico do movimento em questão e… autoridade que se manifestava no comando e na contagem do ritmo. Ora, mesmo com os problemas observados por Saviani (2008) na formação dos professores em geral, conhecimentos pedagógicos então existen- tes eram bem mais complexos que esses transmiti- dos aos professores das demais disciplinas. Para concluir este tópico, ao responder a pergun- ta título dele, (o que fica dessa formação?) sublinho que essa ida aos primeiros processos de formação profissional em educação física evidencia um dos desafios que hoje enfrentamos: formar professores de educação física integrados aos saberes, aos proce- dimentos e aos objetivos da educação básica brasilei- ra. E, para tanto, pedagogia, psicologia da educação, didática, políticas públicas educacionais, filosofia da educação e...história da educação (e educação física) são tão importantes quanto os também necessários conhecimentos a serem obtidos com os estudos a se- rem feitos nas disciplinas da área de saúde EDUCAÇÃO FÍSICA 175 OS CAMINHOS ATÉ NÓS: COMO A EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR SE TORNOU O QUE É? Fonte: Revolução de 1930 (JANSSON, 1930, on-line)9. Nos itens anteriores foram estudados dois elemen- tos que avalio fundamentais para conhecermos a história da educação física no Brasil: 1) as ideias e as ações que levaram as práticas corporais para o interior da escola, tanto a educação do corpo presente no dia a dia escolar quanto a disciplina escolar, o componente curricular para utilizarmos uma linguagem da atualidade. Além desse ponto, foi focalizada a 2) base das discussões e das pri- meiras instituições que se ocuparam de pensar e formar os primeiros profissionais para atuarem com a educação física. ATIVIDADE 176 O que busco agora é levar você a refletir sobre al- gumas consequências disso que foi abordado. Sugiro que pensemos nos caminhos que se abriram nas dé- cadas seguintes e que chegaram à realidade na qual vivemos hoje. Os dois pontos estudados anteriormente, a es- colarização da educação física e o início de uma for- mação profissional sistemática em educação física foram impactados pelo mesmo processo: nas déca- das que se seguiram à de 1930, no interior do pro- cesso de complexificação econômica baseada na in- tegração (ou dependência) econômica brasileira ao capital internacional, a educação e a educação física deixaram de ser assuntos regionalizados, tornando- -se alvo de regulamentações nacionais, válidas em todo o país. Chamo sua atenção para essa mudança: mesmo que ela tenha acontecido no âmbito políti- co, gerando a sensação de que, concretamente, nada mudou, essa passagem da reflexão educacional dos estados para a União é fundamental. Ela impacta a possibilidade de direitos serem debatidos e efetiva- dos nos diferentes instrumentos legais que regem a educação, sendo crucial, sobretudo, para os filhos daqueles que não podem pagar escolas particulares. Vamos visualizar esse processo ligado à educa- ção física, verificando como ela foi tratada em um conjunto importante de dispositivos constitucionais e de regulamentações específicas que a abordaram depois de 1930. Castellani Filho (1988) lembra-nos que na Constituição de 1934 não houve uma menção ex- plícita à educação física. Entretanto, a “necessidade de estimular a educação higiênica” (CASTELLANI FILHO, 1988, p. 81) foi citada. Todavia, nas discus- sões sobre o Plano Nacional de Educação, previsto pela Constituição de 1934, a educação física é de- fendida como parte necessária do “sistema escolar” (BELTRAMI, 2006, p. 45). Em 1937 temos o Estado Novo, instaurado por Vargas. No mesmo dia em que ocorre o golpe de Estado, 10 de novembro de 1937, uma nova cons- tituição é outorgada. Na constituição de 1937, em seu artigo 131, define-se a educação física como obrigatória “em todas as escolas primárias, normais e secundárias” (BELTRAMI, 2006, p. 81), o que foi regulamentado pelo Decreto-Lei 2072 de 1940. No artigo 4. o decreto à educação física é colocado como um elemento fundamental no fortalecimen- to da saúde, a ser conseguido por meio de ginástica e esportes adequados às “condições de cada sexo” (BELTRAMI, 2006, p. 91). Com o fim do Estado Novo em 1945, iniciou- -se a discussão para uma nova constituição. Com a promulgação da Constituição de 1946, abriu-se o processo de discussão das Leis de Diretrizes e Bases, aprovada em 1961. Nela, a educação física é men- cionada no artigo 22, que foi regulamentado pelo Decreto 58.130 de 1966. Essa regulamentação deve ser sublinhada, pois é a primeira regulamentação com alcance nacional para determinar os objetivos e como deveriam funcionar as aulas de educação fí- sica. No artigo 1 do referido documento, vemos o alcance do decreto: Art.1. A educação física, prática educati- va tornada obrigatória pelo art. 22 da Lei de Diretrizes e Bases, para os alunos dos cursos primário e médio, até a idade de 18 anos, tem por objetivo aproveitar e dirigir as forças do indivíduo - físicas, morais, intelectuais e so- ciais - de maneira a utilizá-las na sua totali- dade, e neutralizar, na medida do possível, as condições do educando e do meio (BRASIL apud BELTRAMI, 2006, p. 65). EDUCAÇÃO FÍSICA 177 Não deve ser perdido de vista que tal regulamenta- ção tem importância em um cenário histórico em que o estado teve grandes dificuldades de assumir responsabilidades educacionais. Todavia, colocar a educação física escolar como obrigatória, de modo uniforme, a todo o país teve pouca ressonância prática, levando Beltrami (2006) a fazer a seguinte análise, depois de mostrar os esforços havidos na década de 1960 para se instaurar, legalmente, a obri- gatoriedade da educação física: Ainda permaneciam os problemas quanto às condições materiais e quanto aos recursos hu- manos qualificados. De qualquer forma, de acordo com os defensores da educação física no sistema escolar, esse quando ainda não era satisfatório, porque não havia critério para fis- calização e não havia um organismo com po- deres para tal. Os mentores e profissionais da educação física buscavam um espaço de poder e este só poderia acontecer a partir de uma or- ganismo forte, respaldado por um Estado Forte (BELTRAMI, 2006, p. 66). No momento em que essas regulamentações sobre a educação física eram criadas, a sociedade brasileira já vivia no regime de ditadura militar. Em 1969, o Ato Institucional n.º 5 tirou direitos políticos e liber- dades civis, caracterizando a linha dura do regime que existiu até o início da década de 1980. Foi na vigência desse ato que foi publicado o Decreto-Lei n.º 705 de 1969, colocando a educação física como obrigatória em todos os níveis da educação brasi- leira, inclusive no ensino superior. Esse decreto foi regulamento pelo Decreto n.º 69.450 de 1971. De acordo com Beltrami, com esse decreto se “encerra uma etapa significativa da implantação da Educação Física no sistema escolar” (BELTRAMI, 2006, p. 83). No âmbito da formação de professores, em 1969 o Conselho Federal de Educação publica a resolução n.º 69, que instituiu o currículo mí- nimo dos cursos de educação física. Por currí- culo mínimo deve ser compreendida uma lista de disciplinas e suas respectivas cargas horárias que deveriam estar presentes em todos os cursos. Rangel-Betti e Betti (1996) chamam o currículo que passou a prevalecer nesse momento de tra- dicional-esportivo, por eles descrito da seguinte maneira: Há separação entre teoria e prática. Teoria é o conteúdo apresentado na sala de aula (qual- quer que seja ele),