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AULA 2 CRIATIVIDADE E GESTÃO DE IDEIAS PARA INOVAÇÃO Profª Sonia Regina Hierro Parolin 02 CONVERSA INICIAL Estamos em nossa segunda aula do curso sobre Criatividade e gestão das ideias para a inovação. A primeira aula abordou o que é criatividade, o que não é criatividade, o funcionamento do potencial criativo próprio do ser humano, o perfil da personalidade criativa, os facilitadores e bloqueadores mentais à criatividade e a mudança do mindset (tensão psíquica). A segunda aula será sobre o processo criativo em si. Como começa um processo criativo? Quais são os componentes desse processo? Como realizar a seleção e a análise das ideias inovadoras? Trataremos, também, de algumas dicas sobre as inspirações e sobre a estrutura mínima de um projeto criativo. CONTEXTUALIZANDO No site da Innoscience1, consultoria em gestão da inovação que publica vários artigos e casos, tem um artigo muito interessante que ilustra bem o tema que abordaremos nesta aula. O artigo, sob o título “O que o Jazz tem a ver com inovação?”, de Rafaela Sanzi, foi publicado em 2016, e comenta que “precisamos de uma nova forma de trabalhar em conjunto, e o Jazz nos dá algumas pistas.” John Kao, em 1997, foi um dos pioneiros ao traçar o paralelo entre jammig (sessão de improviso em jazz sessions2) e a criatividade. Equivale refletirmos: como as pessoas podem trabalhar melhor em conjunto para promover um ambiente de criatividade para a inovação na empresa? Rafaela, a partir dos apontamentos de Jim Kalbach, executivo da ferramenta de Design Thinking online, inicia seu artigo dizendo que “precisamos de uma nova forma de trabalhar em conjunto, o Jazz nos dá algumas pistas”. Começa destacando a colaboração como o segredo de sucesso das companhias, como “um sintoma da cultura organizacional e reflexo da dinâmica das equipes de trabalho”, em que a dinâmica de improvisação do jazz oferece um “modelo para melhoria do trabalho em equipe”. A troca de ideias e a colaboração entre as pessoas contribuem para uma cultura mais inovadora nas empresas. 1 Vide: <http://www.innoscience.com.br>. 2 Para familiarizar-se sobre como ocorre uma sessão de Jazz, acesse no Youtube o video “Small's Jazz Jam Session - With Joel Frahm”; são 10 minutos aproximadamente. Será útil para acompanhar o desenrolar da aula. 03 A colaboração excepcional nas jam sessions é alcançada a partir de três aspectos-chave da improvisação: Escutar mais: cada pessoa do time traz consigo algo único, mas é somente quando as pessoas se encontram é que coisas grandiosas acontecem. Os músicos do Jazz falam sobre a importância de ter ‘grandes ouvidos’, o que significa escutar mais os outros do que a você mesmo. Com isso em mente, ter empatia, respeito e confiança pelos colegas de equipe e pelas regras é crítico para uma cooperação efetiva.” Abraçar a incerteza: músicos de Jazz assumem riscos. Eles vivem o presente o tempo todo. Entram em cada performance com a mente aberta, como uma mente de iniciante, desejando explorar o desconhecido e explorar a oportunidade. No ambiente de negócios de hoje, ninguém tem todas as respostas. Você precisa criar um ambiente seguro para experimentar e explorar.” Seguir o método: explorar o desconhecido e abraçar a incerteza não significa ignorar as todas as regras. Pelo contrário, padrões de comportamento e parâmetros norteadores se tornam mais necessários na improvisação. Trata-se de explorar a oportunidade! A improvisação do Jazz é repleta de estruturas e limites. Uma vez que o método e as regras estejam internalizados por todos, há um campo fértil para explorar o novo. (Stanzi, 2016) Rafaela termina seu rápido e estimulante artigo comentando que esses três fatores acima “são fundamentais e também desafiadores para as empresas” e que o “principal desafio é compreender o suave equilíbrio que há entre a abertura para a incerteza e a segurança do método para inovar”, ou para criar. Apesar de ser um caso na música, as jam sessions são totalmente comparáveis ao processo criativo, desde o surgimento, o método, a colaboração e o clima que deve ser sustentado pelos músicos para a manutenção dos objetivos da sessão. Tentaremos explorá-la ao longo desta aula. TEMA 1 – SURGIMENTO DO PROCESSO CRIATIVO O processo criativo é dinâmico, pode ser divertido pela sensação de liberdade em emitir ideias sem se preocupar com julgamentos precipitados. Mas como ele surge? Qual é a diferença entre “ideia” e “processo criativo”? Vamos, primeiro, buscar as definições no dicionário3: Tabela 1 – Diferença entre ideia e processo criativo Ideia Produto da atividade mental, o que é percebido diretamente. Objeto imediato do pensamento, conceito ou noção que temos sobre algo, que pode ser concreto ou abstrato. Processo Método empregado para se fazer alguma coisa; maneira, procedimento. 3 Vide: <http://michaelis.uol.com.br>. 04 Seguindo as definições do dicionário, é tentador deduzir que, para o surgimento do processo criativo, basta a estruturação de métodos e procedimentos para promover a atividade mental para a emissão de ideias em torno de algo. Essa dedução não está errada, mas não abrange toda a dinâmica. No outro extremo, muitas pessoas associam que o surgimento do processo criativo deve ser relativamente estruturado para não ser contraditório à liberdade criativa que se pretende estimular. Também não está errado, mas também não abrange toda a dinâmica de um processo que tem objetivos. Trabalharemos com a mescla desses dois entendimentos, pois, por um lado, precisamos da certa disciplina para colher resultados e precisamos da liberdade criativa para a profusão de ideias. Nesse ponto, temos a primeira reflexão a partir da jam session. Na sessão de improviso, a liberdade criativa será estimulada, respeitada entre os músicos, sendo que cada um deles poderá se expressar, ao seu tempo, contando com o acompanhamento musical dos parceiros. No entanto, a improvisação no jazz é repleta de estruturas musicais e limites de ação, para que a sessão atinja sua plenitude. O surgimento do processo criativo voltado para a inovação começa com uma intenção, de alguém isoladamente ou da estratégia da organização, expressa em uma provocação para resolver algum problema, para explorar ideias ou oportunidades ou para fazer algo melhor. Em qualquer dessas situações, a intenção deve ser expressa por uma pergunta ou a formulação da situação- problema, uma frase de fácil compreensão pelas pessoas ou um desafio. Vamos aos exemplos. 1.1 Resolver problemas A Escola de Agronomia da Universidade Federal de Goiás lançou há algum tempo o “Desafio Inovação na Borracha (DIB)” como uma competição de inovação aberta, com o objetivo de “apoiar o desenvolvimento de ideias inovadoras que solucionassem os problemas da cadeia produtiva da borracha natural, na região Centro-Oeste”. Contou com apoio de várias entidades e empresas da cadeia produtiva da borracha e envolveu equipes de alunos vinculados a qualquer instituição de ensino superior com trabalhadores envolvidos na cadeia produtiva. Apesar de não especificar com mais detalhes a situação-problema, o desafio 05 deixa claro que existem problemas em toda a cadeia produtiva. Portanto, a intenção do desafio foi coletar ideias que ajudassem a solucionar os problemas. 1.2 Explorar ideias ou oportunidades A rede internacional do Carrefour, líder no varejo alimentar no Brasil, com apoio da Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores), promoveu, em 2017, o “Desafio de Inovação Carrefour Brasil x Hello Tomorrow BR (inovação aberta)”, voltado para startups, com o objetivo de valorizar soluções inovadoras para desenvolver a comida do amanhã para todos. Estabeleceutrês critérios para a submissão das propostas: mais saudável, mais sustentável e sem desperdícios. A intenção da empresa foi explorar as ideias, a partir dos critérios que foram detalhados no regulamento. Dos 100 projetos inscritos, a startup CBA Sementes, que desenvolveu uma tecnologia de cultivo baseada em aeroponia, foi a vencedora do desafio. A startup PW, criadora de um hidroabsorvente biodegradável, ficou em segundo lugar. Ambas receberam prêmios4. Neste item também cabe o exemplo da jam session: os músicos exploram livremente a estrutura musical e seus limites na sessão de improviso visando alcançar uma melodia diferente. 1.3 Desejar fazer algo melhor O desejo de fazer algo melhor também se inclui nas intenções anteriores. O destaque em item separado é um recurso didático para melhor abordar o assunto. O exemplo neste item refere-se ao “Banco de Tempo”: um “sistema de organização de trocas solidárias que promove o encontro entre a oferta e a procura de serviços disponibilizados pelos seus membros”5. Suas fundadoras inspiraram-se, em 1988, em um evento em Barcelona: trocar tempo por tempo. Nesse banco, “todas as horas têm o mesmo valor e quem participa compromete- se a dar e a receber tempo. Por exemplo, tratando-se de um médico, ele pode oferecer uma consulta a quem não tem condições de pagar pelo serviço e, depois, receber um serviço em troca de outro membro”. A primeira Agência do Banco de 4 Mais detalhes sobre o Desafio: <http://revistapegn.globo.com/Startups/noticia/2017/05/startup- que-cultiva-batatas-no-ar-e-finalista-em-competicao-global.html>. 5 Para mais informações, vide: http://nossacausa.com/um-banco-onde-moeda-e-o-tempo/. http://nossacausa.com/um-banco-onde-moeda-e-o-tempo/ 06 Tempo foi criada em 2002, em Portugal, na cidade de Abrantes. Atualmente, já há 28 agências naquele país. Com objetivos e princípios claramente definidos, o “Banco do Tempo” reforça as redes sociais de apoio, diminui a solidão e valoriza o tempo e o cuidado dos outros. A clara intenção de fazer algo melhor pelas pessoas está implícita no propósito do projeto. A ideia de “trocar tempo por tempo” encontrou mentes abertas, predispostas a fazer algo melhor pela sociedade. Inúmeros outros exemplos de ideias com intenção de melhorar a vida das pessoas poderiam ser apresentados neste item. Se desejar pesquisar mais, procure no Google pelos termos “inovação social”, “desenvolvimento social” ou “sustentabilidade social”. Vimos, então, que o surgimento do processo criativo parte de uma clara intenção de alguém ou da organização para resolver um problema, para explorar ideias e oportunidades ou para fazer algo melhor. Em qualquer dessas situações, a intenção deve ser expressa por uma pergunta ou pela formulação da situação- problema, por uma frase de fácil compreensão pelas pessoas ou por um desafio. Formular perguntas criativas e inovadoras é uma arte de que Jairo Siqueira nos dá algumas dicas. O objetivo do processo criativo é levar as pessoas a “pensar diferente, de forma não convencional, e romper com os paradigmas e ideias dominantes”, ou os modelos mentais como abordado na aula 1. Ele sugere que devemos dedicar mais tempo e energia na criação de perguntas criativas, vigorosas e desafiadoras, que nos levem a explorar novos caminhos e oportunidades, explorar a imaginação e buscar respostas não convencionais. Jairo Siqueira nos ensina que perguntas menos vigorosas são aquelas mais fechadas, levando a duas opções: sim ou não. Perguntas mais vigorosas são mais abertas, com uma grande variedade de respostas. Adaptamos alguns exemplos do autor de perguntas com mais e menos vigor na tabela abaixo. Pense em como você responderia a essas questões. Tabela 2 – Perguntas com mais e menos vigor Menos vigor Você está satisfeito com nossos serviços? Quando você teve a maior satisfação com nossos serviços? O que em nossos serviços você considera mais satisfatório? Por que será que nossos serviços têm seus altos e baixos? Mais vigor Como podemos melhorar nossos serviços aos clientes? 07 As perguntas que incluem “por que” ou “como” tendem a ser mais vigorosas e proporcionar uma variedade de ideias e respostas. A questão do engajamento merece um breve destaque. As pessoas somente se envolvem verdadeiramente, engajam-se (abraçam, empenham-se) no processo criativo à medida que se sentem atraídas pelo problema, pelas ideias a serem exploradas ou pelo despertamento para fazer algo melhor. Predebon (1997, p. 32-33) apresenta três tipos de engajamento total das pessoas no exercício criativo: depende de determinação, pode ser inato (é natural) no indivíduo e pode ser produto das circunstâncias. Vejam o que autor nos diz a respeito: “O engajamento pela determinação pode ser exemplificado pela pessoa que descobre de alguma forma o prazer do ato de inovar, com um gratificante sentimento de estar interferindo no mundo, e assim passa a procurar melhor qualificação no campo da criatividade (…).” “O engajamento inato é mais raro e caracteriza-se pela tendência compulsiva de questionar, mudar, inventar novas maneiras de fazer as coisas (…)” “O engajamento resultante de circunstâncias é de longe o mais interessante para ser analisado, por revelar que o chamado homem comum pode tornar-se o homem criativo.” O engajamento pela determinação é estimulado pelas organizações para promover a inovação nas empresas. O engajamento inato pode ser exemplificado pela jazz session, em que os músicos se envolvem apaixonadamente pela arte. O engajamento resultante de circunstâncias pode ser exemplificado pelas startups que venceram o desafio do Carrefour, pois, em função das tecnologias por elas desenvolvidas, estarão envolvidas com a empresa no desenvolvimento dos projetos. Uma nova circunstância em suas vidas. O engajamento também está relacionado à energia criativa. Quanto mais as pessoas se entregam positivamente – se engajam – a essa energia pulsante na vida, mas elas experimentam sua expansão, que traz um sentido profundo de liberdade e de autorrealização. Ainda sobre o engajamento, o Jairo Siqueira também nos diz que o processo criativo deve se fundamentar em três princípios: atenção (concentrar na 08 situação ou problema), fuga (escapar do pensamento convencional) e movimento (dar vazão à imaginação). Concluímos o item ressaltando que, para o surgimento do processo criativo, há a necessidade de uma intenção clara sobre o que se pretende com a criatividade das pessoas: resolver problemas? Explorar ideias e oportunidades? Fazer algo melhor? Com a intenção expressa em problema, situação-problema, ideias ou desafios, deve-se promover o engajamento das pessoas em torno do processo criativo, que deve ser relativamente estruturado para permitir uma liberdade de expressão, sem que isso resulte em perda dos objetivos. Nas organizações o tema é tratado como “atmosfera criativa” – será detalhado na aula 6. TEMA 2 – COMPONENTES DO PROCESSO CRIATIVO Com a intenção sobre o que se pretende com a criatividade das pessoas expressa em problema, situação-problema, ideias ou desafios, afirmamos no item anterior que o processo criativo deve ser relativamente estruturado para permitir a liberdade de expressão. Para que o processo criativo ocorra, os seis componentes mínimos são: 1. Moderador(a): ele ou ela deverá ter domínio das técnicas de criatividade e, na mesma intensidade, domínio das técnicas de dinâmica de grupos. Não é a técnica em si que promove o processo criativo, é a participação das pessoas, seu engajamento é que definirá o andamento do processo. Deverá ter domínio dos objetivos a serem alcançados na sessão de criatividade para que o processo não se degenere por ausência clara do propósito. Durante a sessão, caberá ao moderador(a) encontrar maneiras positivas de envolver as pessoas no exercício, mesmo que timidamente,valorizando a participação de todos. O não julgamento das ideias durante a atividade é “regra de ouro”, tanto pelo(a) moderador(a) quanto pelos demais participantes, pois isso auxilia que as pessoas se soltem para o exercício com espontaneidade e confiança. Cabe ao(a) moderador(a) ficar bem vigilante para que ninguém se antecipe no julgamento; haverá o momento certo (depois) e a técnica certa para isso. Evitar que comentários como “Isto é bom, mas” …, ou “Isto já foi tentado antes”, ou “Isto não dará certo aqui”. São comentários que já trazem o julgamento embutido. Cuidar 09 para que ninguém assuma uma posição dominante em relação aos demais é outra “regra de ouro”. 2. Objetivos a serem alcançados: expressos no problema, situação- problema, oportunidade, ideias ou desafios. Quanto mais informações e dados sobre eles forem antecipados ao grupo de participantes, mais eles terão condições de contribuir com seu melhor. O processo criativo precisa ter uma finalidade ou um propósito. É só perguntar: qual é a finalidade, a intenção ou o propósito da pessoa ou empresa com a solução desse problema ou o desenvolvimento dessa ideia etc.? A resposta trará mais vigor ao grupo e mais engajamento para a busca das soluções. 3. Escolha das técnicas de criatividade: o(a) moderador(a) deverá escolher as técnicas apropriadas e os materiais necessários em quantidade suficiente para todos os participantes, com antecedência (as aulas 3 e 4 apresentarão as técnicas mais usuais). 4. Participantes: a pessoa que cria, as pessoas que vão contribuir com suas ideias na sessão de aplicação da técnica de criatividade ou aquelas que vão participar de um desafio etc. Combinar pessoas com visões, experiências e habilidades distintas, pessoas com pensamento não convencional, pode ajudar muito, desde que todos consigam colaborar. Combine pessoas de pensamento mais analítico com pessoas mais intuitivas. 5. Ambiente e recursos: ambiente físico na organização onde o processo criativo vai ocorrer, considerando a sessão com técnicas de criatividade. O ambiente deverá ser, preferencialmente, fora do espaço físico usual de trabalho, podendo ser uma sala de reuniões ou outro ambiente em que as pessoas possam estar à vontade, mas não dispersas. Se possível, um ambiente arejado, mas onde a temperatura esteja agradável para todos, com cadeiras suficientes para todos, podendo ter algumas diversificações, como banquetas, caixotes ou até almofadas. A ideia de certa mobilidade ajuda a descontrair. Mesas para as pessoas utilizarem, dependendo da técnica a ser aplicada. Poderá ter uma música ambiente, mas desde que ela não roube a atenção dos participantes: a escolha do repertório é bem pessoal. É muito importante que os participantes percebam que o ambiente foi cuidadosamente preparado para eles: iluminação do local, limpeza, cheiro do ambiente (lembre-se que as pessoas deverão sentir-se estimuladas), acesso fácil a banheiros limpos e água filtrada e na 010 temperatura ideal disponível para todos e, se possível, algumas poucas guloseimas também ajudam. 6. Técnicas de avaliação e seleção das ideias: importante realizar a distinção entre os momentos de geração das ideias dos momentos de avaliação e seleção. Até podem ser realizados de forma contínua, mas os participantes necessitam perceber claramente a diferença. Cabe, então, uma pausa, a mudança de materiais, por exemplo e pode, inclusive, convidar outras pessoas para participar da sessão de avaliação das ideias. Pode-se aplicar técnicas de seleção e avaliação das ideias (por votos ou por pitchs, por exemplo). Importante salientar que as ideias selecionadas deverão compor um projeto ou plano de ação. Veremos isso logo adiante. A figura a seguir sintetiza os componentes mínimos para o processo criativo. Figura 1 – Componentes mínimos para o processo criativo Um bom lembrete de Jairo Siqueira sobre a condução do processo criativo: “A criatividade coletiva nasce de uma polinização cruzada de habilidades, conhecimentos, experiências, conceitos e visões individuais.” Apesar de afirmarmos que o processo criativo deve ser relativamente estruturado para permitir a liberdade de expressão, a sensibilidade do(a) moderador(a) deverá direcioná-lo na condução do processo, pois esse é totalmente dependente da maneira como as pessoas interagem, cooperam e se estimulam entre si na geração de ideias. A interação e a colaboração entre os músicos na jam session é o melhor exemplo que podemos enfatizar no momento. 011 TEMA 3 – MAPEANDO O CENÁRIO E A BUSCA POR INSPIRAÇÕES Vimos no item anterior que os objetivos de uma sessão de criatividade são expressos por um problema, situação-problema, oportunidade, ideias ou desafios. Para formulá-los e para solucioná-los, é necessário coletar informações e dados, buscar inspirações por vezes de maneira intensa e especializada. Onde coletar informações e dados? Se for relacionado a alguma empresa, inicialmente pesquisar na própria empresa dados do setor, na cadeia produtiva e de serviços, dados da concorrência, de fornecedores e clientes. Lembre-se dos cuidados com as fontes de informação, pois, atualmente, a profusão de informações não fidedignas (não confiáveis) cresce com a mesma facilidade e velocidade que circulam as informações pelo planeta. Quando se tratam de ideias para inovação tecnológica, segundo Sbragia et al (2006, p. 61-62), as fontes de informação podem ser: Fontes internas à empresa: informações das diversas áreas, departamento de pesquisa e desenvolvimento, área de engenharia e área de marketing. São os relatórios das empresas, notícias e até os assuntos que são tratados em reuniões, eventos, intranet etc. Fontes relacionadas aos mercados de insumos e produtos em que a empresa opera: clientes, fornecedores, concorrentes ou aquisição de novos equipamentos. No contato com clientes e fornecedores é comum obter informações atualizadas. A aquisição de equipamentos muitas vezes é acompanhada de treinamentos, novos procedimentos etc. Fontes de domínio público: artigos científicos publicados, teses, participação em feiras, exposições e congressos. Chama-se dessa forma as informações mais aprofundadas que estão abertas ao público em geral. Fontes variadas: desde contatos e transações com outras empresas, instituições, até em patentes e aquisição de know-how. Existem consultorias especializadas na estruturação da informação tecnológica a partir de uma demanda clara da empresa. Em alguns setores, como no setor calçadista, a interação com clientes é a mais importante fonte de informação, principalmente para a área do design. Mapear o cenário para buscar inspirações para a formulação do problema e para a ideação na busca de soluções é de suma importância e tem variados 012 procedimentos. Lembrando a aula 1, quanto mais o pensamento convergente municiar o pensamento divergente de informações, dados, estatísticas, experiências anteriores (de sucesso e de fracasso), mais opções de soluções serão alcançadas na síntese criativa. Todo o material deverá ficar à disposição dos participantes da sessão de criatividade para pesquisa e uso durante as técnicas. Mas existem momentos em que o pensamento divergente precisa de algo diferente, fora do seu habitual. Precisa de inspirações que não o levam a pensar em mais do mesmo. Roger Von Oech (1987, p. 36-37) nos dá uma brilhante pista, baseado em Robert Wieder, jornalista e comediante: “Qualquer um procura moda em butique e história em museu. O explorador criativo procura história em loja de ferragens e moda em aeroporto”. Temos inúmeros casos de inovações baseadas na reprodução de estruturas e sistemas da natureza. Inclusive, existe um campo de engenharia, denominado de “biônica”, que se dedica ao desenvolvimento de novos equipamentos, produtos etc.,inspirados na natureza. A estrutura da asa da semente de olmo inspirou a melhoria nas estruturas dos moinhos de vento e das asas de helicópteros. A capacidade dos olhos das abelhas de filtrarem luz polarizada inspirou bússolas celestes mais confiáveis. A decolagem vertical natural das moscas inspirou a decolagem vertical das novas aeronaves. E, assim, uma infinidade de elementos da natureza vem inspirando inovações tecnológicas. Os músicos na jam session se inspiram uns com os outros. À medida que um deles cresce no improviso, os outros tendem a empolgar-se ao tocar a música. Esse é o último componente que traremos neste item: a inspiração pode estar na sua empolgação pelo tema, e seu engajamento pode contagiar os demais participantes ao ponto de que se sintam totalmente motivados a tocar com você. TEMA 4 – ANÁLISE INOVADORA Vimos que, para a análise e a seleção das ideias, é importante distinguir o momento da sessão de geração de ideias. Podemos convidar outras pessoas para participar da sessão de avaliação das ideias, pessoas com domínio técnico ou com visão de negócio, por exemplo. 013 A análise das ideias, após o processo criativo, é sempre trabalhosa e requer muita atenção para não desperdiçar nenhuma ideia gerada, por mais singela que ela possa parecer. O ideal é que uma análise prévia preceda o momento da seleção, que será caracterizado como um momento do pensamento convergente. Algumas perguntas ajudam nessa análise prévia: Quais ideias chamam a atenção do grupo? Quais ideias apresentam algo novo? Quais ideias estão apontando para um caminho novo? Entre outras perguntas e análises… Podemos agrupar as ideias, como clusters de ideias, por associação, similaridade, originalidade, contradições… Após organizar os clusters de ideias, podemos analisar como elas se sobrepõem, em que são semelhantes, em que são diferentes… Com as ideias agrupadas, podemos organizá-las como soluções para serem selecionadas. Figura 2 – Organização das ideias A seleção poderá ocorrer de diversas formas. Importante é clarear quais serão os critérios para a seleção. Algumas sugestões de critérios: Teremos orçamento, recursos para a implementação da ideia? A solução proposta se tornará em um novo empreendimento? Qual o prazo que temos para apresentar a solução definitiva? Teremos pessoas com disponibilidade para compor a equipe de execução do projeto? Essas perguntas já fazem parte da criação do projeto inovador, mas é importante que tenhamos alguma noção sobre elas já no processo de seleção. Segundo o Manual de Criatividade Empresarial - CREA Business Idea (s/a, p. 09- 014 10), a etapa “final do processo criativo inclui a aceitação de uma das soluções debatidas e desenvolvidas nos grupos de trabalho a partir de alguma das ideias propostas ou de um conjunto de várias ideias”. A seleção, portanto, não deve optar pela “melhor ou pior proposta de solução”. A seleção deverá buscar as propostas que realmente possam agregar mais valor dentro das condições em que se terá para implantá-las ou empreendê-las em busca de recursos, apoios etc. A seleção das propostas de solução poderá ocorrer por votação, por pitchs (“discursos” curtos em defesa da solução em 3 minutos, por alguém do grupo). Como na jam session: cada músico tem sua vez de fazer o seu improviso, e os demais acompanham ajudando-o com o seu melhor; na seleção de ideias, cada pessoa poderá defender alguma(s) ideia(s) com a colaboração dos demais. Não podemos esquecer que essa etapa é de seleção prévia. As propostas ainda necessitarão de aprofundamento. As ideias selecionadas deverão compor um projeto ou plano de ação. TEMA 5 – CRIAÇÃO DE PROJETOS INOVADORES A Revista Exame.com de fevereiro de 2017 publicou uma matéria de Felipe Sherer sobre As 5 dicas para executar melhor um projeto de inovação6. Na abertura da matéria, Felipe comenta que muita energia vem sendo “dedicada para identificar novas oportunidades, gerar ideias e estimular a criatividade no ambiente de trabalho, mas, na maioria dos casos, pouca atenção tem sido dada para transformar essa criatividade, ideias e oportunidades em resultados efetivos para o negócio”. O autor identifica a existência de motivos para “o culto ao criar em prol do executar” comentando sobre o divertimento no processo criativo, a popularização das técnicas, entre outros. Ele cita que na sede do Facebook existe um cartaz que incentiva as pessoas a agirem de maneira rápida, mas, sobretudo, agirem. Na placa está escrito “feito é melhor que perfeito!”. Pode ser uma máxima importante, mas sempre temos que cuidar com as generalizações. Vamos sempre lembrar que quando calçamos sapatos usados de alguém, mesmo que sejam do nosso número, nossos pés estranham, pois os sapatos se moldam aos pés dos seus donos. A reflexão acima é para ressaltar a importância do planejamento, da implementação, do acompanhamento e da avaliação dos resultados das soluções 6 Vide: <https://exame.com/blog/inovacao-na-pratica/5-dicas-para-executar-melhor-os-projetos-de-inovacao/>. 015 escolhidas, que deverão ser testadas em um protótipo ou plano de ação ou projeto-piloto. O que vem a ser isso? Vamos ao dicionário7: Um protótipo é o primeiro exemplar mais exato, primeiro modelo ou padrão de um produto industrial, feito de maneira artesanal, conforme discriminações de um projeto, que serve de teste, antes de sua produção em série. Um protótipo serve para testar funcionalidades, design, ergonomia, usabilidade etc. Após todos os testes é que o produto se torna um projeto definitivo para ser implementado. Lembrem-se da máquina de amassar o pão da primeira aula: o protótipo precisou de ajustes nas pás de bater a massa do pão na fase de prototipagem. Para criar um projeto inovador, precisamos seguir os mesmos passos da elaboração de um projeto ou plano de ação piloto: objetivo, justificativa, estabelecimento de metas, pessoas responsáveis com distribuição clara de tarefas, recursos necessários em relação ao orçamento disponível, indicadores de resultado, processo de avaliação e aprendizagem e feedback sistemático aos patrocinadores e demais envolvidos. O cronograma de ações deverá incluir a etapa de prototipagem, teste-piloto da solução, com lições aprendidas para devidos ajustes. Os patrocinadores (as pessoas na empresa que decidem sobre os recursos e sobre a decisão pela implementação do projeto) vão avaliar as condições para a implementação definitiva ou a sua priorização em um portfólio de projetos estratégicos (carteira de projetos estratégicos). A figura a seguir ilustra os passos de um projeto inovador. Figura 3 – Passos de um projeto inovador Fonte: Elaborado com base no Manual de Criatividade Empresarial – CREA Business, p. 10. 7 Vide: Dicionário online: <http://michaelis.uol.com.br>. 016 Quando se trata de projeto inovador, as pessoas precisam adotar uma etapa adicional no decorrer do projeto (antes de expô-lo ao público) a qual é trabalhosa, mas extremamente importante: a avaliação da inovação. Quando se trata de uma inovação de produto (inovação tecnológica), os procedimentos são técnicos e requerem a denominada “pesquisa de anterioridade” (pesquisa em bancos de patentes, periódicos científicos etc.) para verificar se existe algo semelhante já desenvolvido. Essa temática está relacionada à propriedade intelectual. A empresa não deve implementar um produto inovador se existir algum pedido de patente já depositado, sob o risco de ação judicial. Existem profissionais especializados nessa área8. Conheça, também, o movimento de combate à pirataria9. Para ser um projeto inovador, precisa gerar mudanças em seu público-alvo (apresentar novidade) e precisa ser sustentável. Por isso a importância do protótipo ou do projeto piloto. Avaliar se uma proposta de solução é mesmo inovadora requer algumas técnicas quepoderão envolver a área de marketing, por exemplo, com as pesquisas de mercado e com adotantes iniciais (usuários iniciais), após a pesquisa de anterioridade. Muitas empresas que geram ideias para inovação desenvolvem projetos para buscar recursos de fomento público e privado como uma maneira de reduzir os custos de desenvolvimento. Geralmente as organizações de fomento têm suas regras e seus regulamentos para seus editais de chamada de projetos, formulários próprios para escrever o projeto, e definem em regulamento as rubricas do orçamento, as áreas de fomento etc. Em algumas fontes de fomento, nacionais e internacionais, os recursos ainda permitem a contratação de institutos de pesquisas para o desenvolvimento do projeto em cooperação com a empresa. Cada vez mais as empresas estão se habilitando para fazer uso dessas alternativas para a inovação. Também existem profissionais especializados nessa área. FINALIZANDO Nesta aula, abordamos o processo criativo em si: o surgimento, seus componentes, como realizar a seleção e a análise das ideias e propostas de solução e, ao final, tratamos sobre as inspirações e sobre a estrutura mínima de 8 Para mais informações, vide site do Instituto Nacional de Propriedade Industrial: <http://www.inpi.gov.br/>. 9 Combate à pirataria: <http://www.justica.gov.br/sua-protecao/combate-a-pirataria>. 017 um projeto criativo e inovador. Utilizamos as jam sessions para exemplificar algumas das sutilezas do processo criativo, especialmente no engajamento ao processo criativo no que se refere a “escutar mais” (ouvidos grandes), a “abraçar a incerteza” (criar e inovar é introduzir algo novo) e “seguir o método” (criar para inovar requer métodos para poder transcender e encontrar o algo novo). Enfatizamos a necessidade da busca de informações e inspirações em variadas fontes, inclusive em áreas inusitadas, opostas ao domínio técnico dos problemas propostos, como na natureza. Por fim, vimos que a implementação de projetos inovadores requer protótipos ou projetos e planos de ação piloto com uma atividade adicional, que é a análise da inovação. As próximas aulas serão sobre as técnicas de criatividade e sobre a criatividade nas empresas. 018 REFERÊNCIAS UALG CRIA – UNIVERSIDADE DO ALGARVE. Disponível em: <www.cria.pt>. Acesso em: 27 set. 2017. OESCH, V. R. Um chute na rotina: os quatro papéis essenciais do processo criativo. São Paulo: Cultura, 1987. SBRAGIA, R. (Coord.).; STAL, E.; ABREU, M.; ANDREASSI, T. Inovação: como vencer esse desafio empresarial. São Paulo: Clio, 2006.