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103 Re vi sã o: A nd ré ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 0 2/ 08 /1 3 Escola, currículo E cultura D) relativizados por serem construídos fora do processo de escolarização. E) esvaziados por sua associação ao fracasso escolar dos alunos. Resolução desta questão na plataforma. 104 Unidade III Re vi sã o: A nd ré ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 0 2/ 08 /1 3 Unidade III REPENSANDO O CURRÍCULO Após a discussão que fizemos acerca das orientações nacionais que orientam e regulamentam o currículo escolar, podemos pensar: qual o sentido de um currículo nacional? Tentando buscar algumas respostas, apoiaremo‑nos em Michael Apple (2002), que nos traz algumas indicações importantes. Segundo esse autor, o currículo nunca é apenas um conjunto neutro de conhecimentos, pelo contrário, é sempre parte de uma seleção de alguém, da visão de algum grupo acerca do que seja conhecimento legítimo. Por isso, “é produto das tensões, conflitos e concessões culturais, políticas e econômicas que organizam e desorganizam um povo” (APPLE, p. 59). Assim, se retomarmos algumas questões que levantamos na Unidade 1, como: o que se ensina na escola? Por que se ensina isso e não aquilo? Quem define o que será ensinado? Todas as escolas ensinam a mesma coisa? Temos condições agora, apoiados em Apple (2002), de compreender que o que conta como conhecimento, as formas como deve ser organizado, enfim, tudo isso, está ligado a uma política do conhecimento oficial, ou seja: Uma política que exprime o conflito em torno daquilo que alguns veem simplesmente como descrições neutras do mundo e outros, como concepções de elite que privilegiam determinados grupos e marginalizam outros (APPLE, 2002, p. 60). A proposta de haver diretrizes e orientações curriculares em nível nacional é, segundo Apple (2002), indispensável para elevar o nível e fazer com que as escolas sejam responsabilizadas pelo sucesso ou fracasso de seus alunos. No entanto, o autor adverte que é preciso ter atenção aos interesses que podem estar embasando esses documentos. Uma análise crítica, tendo em vista sempre que o currículo não é neutro, é fundamental para que não sejamos reprodutores dos interesses particulares de um grupo da sociedade. Nós, como profissionais da educação, precisamos atender todos os grupos, principalmente aqueles que são excluídos ou marginalizados. A igualdade de direitos e o direito às diferenças devem estar embasando a nossa prática profissional. Todos têm o direito de frequentar a escola, de participar da cultura letrada, do conhecimento historicamente acumulado; no entanto, as individualidades, as diferentes culturas, as marcas históricas de cada grupo, devem estar representadas dentro desse contexto escolar; caso contrário, estaremos contribuindo para a continuidade das exclusões. Dessa forma, ainda sobre um currículo nacional, Apple (2002) destaca o papel dos professores e administradores escolares na efetivação desse currículo. Segundo ele, os professores precisam assumir uma postura de constante aperfeiçoamento, no sentido de aprofundar seus conhecimentos das matérias acadêmicas, mudar suas concepções sobre o próprio conhecimento. O ensino e a aprendizagem necessitam ser mais ativos e inventivos, num trabalho mais atencioso, cooperativo e participativo. 105 Re vi sã o: A nd ré ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 0 2/ 08 /1 3 Escola, currículo E cultura Os currículos nacionais, no modelo neoliberal em que vivemos, têm duas funções importantíssimas para o Estado: • ser um estímulo à padronização de metas e conteúdo e de níveis de aproveitamentos das matérias curriculares consideradas as mais importantes; • prover a estrutura que permitirá o funcionamento do sistema nacional de avaliação (APPLE, 2002). Como vimos anteriormente, no neoliberalismo, o papel do Estado é apenas de regulador e fiscalizador; por isso, as diretrizes e as orientações curriculares unificam o que é ensinado no país como um todo, permitindo que avaliações externas à escola, como as realizadas em nível nacional – Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa); Exame Nacional do Ensino Médio (Enem); Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb); Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja); Provinha Brasil; Prova Brasil – e as promovidas pelos estados possam ser realizadas medindo‑se o nível de aprendizagem dos alunos e a qualidade do trabalho desenvolvido nas escolas. Saiba mais Para mais informações sobre o Plano de Desenvolvimento da Educação, acesse: <http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/saeb_matriz2.pdf>. Apple (2002, p. 74‑75) demonstra, com muita propriedade, a relação existente entre o currículo nacional e as avaliações nacionais presentes na educação atual. O currículo nacional possibilita a criação de um procedimento que pode supostamente dar aos consumidores escolas com “selos de qualidade” para que as “forças de livre mercado” possam operar em sua máxima abrangência. Se for para termos um mercado livre na educação, oferecendo ao consumidor um atraente leque de “opções”, então o currículo nacional e, sobretudo, o sistema de avaliação nacional atuarão, em essência, como uma “comissão de vigilância do Estado” para controlar os “excessos” do mercado. O autor destaca, ainda, a função social presente no currículo nacional e nas avaliações externas à escola. O currículo nacional pode ser visto como um instrumento que permita aos pais avaliar as escolas, pois estabelece parâmetros de qualidade. No entanto, as avaliações criam um sistema em que as próprias crianças são classificadas e categorizadas. “Uma de suas funções básicas será atuar como ‘mecanismo para diferenciação mais rigorosa das crianças segundo normas fixas’, função essa cujos significados e origem social não são explicitados” (APPLE, 2002, p. 75). A coesão social que pode ser objetivo do currículo nacional gera justamente o oposto, a exaltação das diferenças, acentuando as desigualdades. Considerar o currículo de uma única maneira é ignorar as diferenças de classe social, etnia/raça e gênero. Como destaca Richard Johnson, citado por Apple (2002, 106 Unidade III Re vi sã o: A nd ré ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 0 2/ 08 /1 3 p. 76), “um currículo unificado numa sociedade heterogênea não é receita para ‘coesão’, e sim para resistências e para novas divisões”. Partindo dessas colocações e das discussões realizadas neste livro‑texto, nas sociedades complexas e multiculturais como a nossa, marcadas por uma distribuição desigual de poder, o único tipo de coesão possível é aquela em que reconheçamos as diferenças e as desigualdades. Sendo assim, o currículo deve permitir o reconhecimento das suas raízes na cultura, na história e nos interesses sociais que lhe deram origem. “Um currículo e uma pedagogia democráticos devem começar pelo reconhecimento dos diferentes posicionamentos sociais e repertórios culturais nas salas de aula, bem como das relações de poder entre eles” (APPLE, 2002, p. 77). Assim, como pudemos estudar na Unidade 2, há, no Brasil, diretrizes e orientações curriculares para toda a educação brasileira, apesar de termos discutido apenas algumas delas. Essas orientações recomendam e regulam o Sistema Nacional de Educação, não havendo possibilidade de negar a existência delas, mas é importante um olhar crítico acerca dos interesses que estão embutidos nessas propostas. Buscando formas diferenciadas de seleção e organização do currículo, no próximo tópico, abordaremos a necessidade de buscarmos os conhecimentos a partir da cultura dos alunos que frequentam a escola. Buscaremos possíveis respostas para a questão: como podemos adequar o currículo nacional às necessidades locais da escola e da comunidade à qual pertence? 7 CONStRUçãO E imPLEmENtAçãO DOS CURRÍCULOS As Diretrizes Curriculares Nacionais e as Orientações Curriculares – Referenciais Curriculares Nacionaispara Educação Infantil e os Parâmetros Curriculares Nacionais –, como propostas curriculares amplas, estabelecem as principais metas que devem ser atingidas a fim de que todos os brasileiros aprendam um mínimo necessário. A construção do currículo nas escolas deve atender às orientações nacionais, mas, também, precisa considerar as necessidades e os interesses da comunidade a qual atende. Giroux e Simon (2002) apresentam uma discussão interessante nesse sentido. Segundo eles, a cultura popular pode ser utilizada nas escolas como um importante instrumento para tornar o ensino mais significativo. Além disso, os autores destacam o poder político que essa perspectiva oferece. Desnecessário dizer que a cultura popular, embora seja em geral ignorada nas escolas, não é uma força insignificante na formação da visão que o aluno tem de si mesmo e de suas relações com diversas formas de pedagogia e de aprendizagem. Na verdade, é precisamente quando pedagogia e cultura popular se relacionam que surge a importante compreensão do significado de tornar o pedagógico mais político e o político mais pedagógico. A cultura popular e a pedagogia representam importantes terrenos de luta cultural que oferecem não apenas discursos subversivos, mas também relevantes elementos teóricos que possibilitam repensar a escolarização como uma viável e valiosa forma de política cultural (GIROUX; SIMON, 2002, p. 97). Vamos entender, então, como esses autores compreendem Pedagogia e cultura popular e a relação entre esses conceitos, no sentido de tornar o currículo escolar mais próximo das necessidades de todos os alunos. 107 Re vi sã o: A nd ré ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 0 2/ 08 /1 3 Escola, currículo E cultura Giroux e Simon (2002, p. 97) estão compreendendo a Pedagogia como “um esforço deliberado para influenciar os tipos e os processos de produção de conhecimentos e identidades em meio a determinados conjuntos de relações sociais e entre eles”. Assim, essa ciência é entendida como um conceito que enfoca os processos pelos quais se produz conhecimento, sem desmerecer outros aspectos que o envolvem, como integração de conteúdo e modelo de organização curricular, estratégias, técnicas, didáticas e métodos de avaliação. Um aspecto importante destacado pelos autores é o poder de decisão em relação ao conhecimento selecionado para ser desenvolvido em sala de aula, ou seja, dentro desse espaço institucional o professor tem a possibilidade de definir qual tipo de conhecimento é mais valoroso e, por isso, merece ser aprendido pelos alunos, para qual direção esse conhecimento deve se voltar, o que significa saber alguma coisa, as representações formuladas de nós mesmos, dos outros e de nosso ambiente físico e social. Isso tudo significa dizer que: “a pedagogia diz respeito, a um só tempo, às práticas em que alunos e professores podem juntos engajar‑se e à política cultural que está por trás delas” (GIROUX; SIMON, 2002, p. 98). Essa ideia dos autores remete‑nos a uma das lições que Paulo Freire deixou, sobre a educação ser um ato político, da impossibilidade de ser neutra, como se não houvesse relação entre educação e sociedade. Segundo Freire (1989), é tão impossível negar a natureza política do processo educativo quanto o caráter educativo do ato político. Tanto no processo educativo quanto no ato político é preciso ter clareza das seguintes questões: a favor de quem e do quê desenvolvemos a educação ou a atividade política. Portanto, pensar a educação é estar atento à questão do poder. Saiba mais O livro de Paulo Freire A importância do ato de ler: em três artigos que se completam, de 1989, está disponível em: <http://www.hdbr. org.br/data/site/uploads/arquivos/Paulo%20Freire%20‑%20A%20 Import%C3%83%C2%A2ncia%20do%20Ato%20de%20Ler.pdf>. Partindo dessa colocação, podemos pensar que, no caso do currículo e dos conhecimentos selecionados para serem ensinados, o professor tem o poder de escolher a favor de quem e do quê ele está trabalhando. É nesse sentido que Giroux e Simon (2002) defendem a necessidade da introdução da cultura popular nos conhecimentos selecionados pelo professor. Para eles, “a educação baseada numa pedagogia crítica procura questionar de que forma podemos trabalhar para a reconstrução da imaginação social em benefício da liberdade humana” (GIROUX; SIMON, 2002, p. 99). É importante que o ensinar e o aprender estejam associados com os objetivos da educação do estudante, no sentido de que consigam compreender por que as coisas são como são e como vieram a se tornar assim, ou seja, buscando tornar o familiar estranho e o estranho familiar, a fim de poderem visualizar um mundo que ainda não está em ordem, para ampliar as possibilidades de melhoria das condições de vida. Para a realização dessa aproximação entre os conhecimentos ensinados na escola, tidos como válidos, e os interesses e necessidades dos estudantes, Giroux e Simon (2002, p. 104) sugerem que os professores, primeiro, se questionem: 108 Unidade III Re vi sã o: A nd ré ia - D ia gr am aç ão : J ef fe rs on - 0 2/ 08 /1 3 [...] que relação os meus alunos veem entre o trabalho que fazemos em classe e as vidas que levam fora da sala de aula? Seria possível incorporar aspectos da sua cultura vivida ao trabalho da escolarização, sem simplesmente confirmar aquilo que eles já sabem? Seria possível fazê‑lo sem banalizar os objetivos e relações que são importantes para os alunos? E seria possível fazê‑lo sem discriminar determinados grupos de alunos como marginais exóticos e “outros” dentro de uma cultura hegemônica? Figura 29 Ao fazer esses questionamentos, o professor precisa considerar a cultura popular como a oportunidade de permitir que cada um possa ter “voz” dentro da experiência pedagógica. Assim, a diferença e a vida cotidiana serão base para pensar a teoria e a prática, possibilitando uma nova Pedagogia, a da possibilidade. Os professores precisam encontrar maneiras de evitar que um único discurso se transforme em local de certeza e aprovação. Eles precisam encontrar meios de criar espaço para um mútuo engajamento das diferenças vividas, impedindo que algumas vozes sejam silenciadas em favor de um único discurso dominante. Giroux e Simon (2002) destacam também que a Pedagogia deve estar ancorada em uma sólida ética que denuncie o racismo, o sexismo e a exploração de classes como ideologias e práticas sociais. Essa é, portanto, uma Pedagogia que rejeita a falta de posicionamento e não silencia em nome de seu próprio fervor ou correção ideológica. Observação Giroux e Simon (2002) entendem a cultura popular como reflexo de práticas culturais. Práticas essas percebidas como processos vividos, como parte das diferentes manifestações das experiências e reações de diferentes grupos diante da vida cotidiana. Assim, a Pedagogia crítica defendida por Giroux e Simon (2002) busca incorporar a experiência do aluno ao conteúdo curricular oficial; no nosso caso, refere‑se às prerrogativas das diretrizes curriculares nacionais e das orientações curriculares nacionais (RCNEI e PCN), de modo a aproximar a cultura popular da escola e possibilitar essas vivências em conhecimentos úteis. É importante destacar que não estamos defendendo