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Natalia Quintino Dias HPV e câncer de colo uterino HPV O HPV (Papiloma Vírus Humano) é a etiologia mais comum do câncer de colo de útero. Há mais de 100 subtipos. Os de alto risco são os considerados oncogênicos, sendo os mais importantes: 16, 18, 31, 33 e 35. Os subtipos oncogênicos mais comuns são o 16 e o 18 (DEzesseis e DEzoito: os DEsgraçados!) É altamente prevalente na população. Os subtipos 6 e 11 são os mais associados ao condiloma acuminado (lesão benigna – “verrugas”). Transmissão A transmissão do HPV se dá por qualquer tipo de atividade sexual e, excepcionalmente, durante o parto, com a formação de lesões cutaneomucosas em recém-nascidos ou papilomatose recorrente de laringe. A transmissão por fômites é rara. Rastreamento para o câncer de colo de útero Realizado por meio do exame citopatológico de colo de útero, também conhecido como colpocitologia oncótica ou exame de Papanicolaou. Por que fazer o rastreamento? As lesões precursoras pré-malignas são geralmente assintomáticas, e o tempo de progressão de uma lesão pré-maligna para o câncer invasivo é de aproximadamente 8 a 10 anos. É nesse intervalo que podemos atuar na prevenção secundária, pois elas são curáveis na quase totalidade dos casos. Recomendado para • Mulheres que já tiveram relação sexual. • Idade – 25 a 64 anos. • Após 2 exames anuais consecutivos normais → Trienal (3 ANOS!!!). • Após os 64 anos, não deve ser mais realizado (mulheres sem história prévia de doença neoplásica pré-invasiva e com 2 exames negativos consecutivos nos últimos 5 anos). Por que não iniciar antes dos 25 anos? A incidência do câncer até essa idade é muito baixa, e o rastreamento é menos eficiente para detectá-lo. Além disso, o início mais precoce aumentaria o diagnóstico de lesões de baixo grau (que apresentam grande probabilidade de regressão espontânea) e resultaria em aumento significativo de colposcopias e na possibilidade de sobretratamento, acarretando maior risco de morbidade obstétrica (já que o tratamento envolveria ressecção de uma porção do colo uterino), se associada a uma futura gestação. Como colher Idealmente, devem ser obtidas amostras da ectocérvice (com Espátula de Ayre) e endocérvice (com escova endocervical). Adequabilidade da amostra Podem estar presentes células representativas dos epitélios do colo do útero: - Células escamosas. - Células glandulares (não inclui o epitélio endometrial). - Células metaplásicas (da zona de transformação o – ZT - é a região de maior atividade mitótica no colo, sendo, portanto, o local de maior incidência de lesões neoplásicas). Gestantes: deve seguir as recomendações de periodicidade e a faixa etária das demais mulheres. Mulheres na pós-menopausa: devem ser rastreadas de acordo com as orientações para as demais mulheres. Pode haver resultados falso- positivos causados pela atrofia secundária ao hipoestrogenismo. Se necessário, proceder à estrogenização previamente à realização da coleta. Histerectomizadas: Mulheres submetidas à histerectomia total por lesões benignas, sem história prévia de diagnóstico e lesões cervicais de alto grau, podem ser excluídas do rastreamento. Imunossuprimidas: HIV, transplante de órgãos sólidos, tratamentos de câncer e usuárias crônicas de corticosteroides. Intervalos semestrais no primeiro ano e, se normais, manter seguimento anual enquanto se mantiver o fator de imunossupressão. Mulheres HIV+ com menos de 200 linfócitos CD4+/ mm3 devem ter priorizada a correção dos níveis de CD4+ e, enquanto isso, devem ter o rastreamento citológico a cada 6 meses. Vacinação – prevenção primária Partículas de vírus produzidas em células de levedura por meio de tecnologia DNA recombinante (mais especificamente, antígenos do capsídeo viral): vacina tipo VLP1. Não administrar em gestantes. Natalia Quintino Dias Ministério da saúde Vacina tetravalente – atua contra os HPVs tipo 6, 11, 16 e 18. População-alvo: - Meninas de 9 a 14 anos (2 doses: 0 e 6 meses). - Meninos de 9 a 14 anos (2 doses: 0 e 6 meses). - HIV+ de 9 a 45 anos (3 doses: 0, 2 e 6 meses). - Pacientes em tratamentos oncológicos em QT/RT ou transplantadas até 45 anos (3 doses: 0, 2 e 6 meses). Em novembro/2020, a OMS lançou a Iniciativa Mundial de Eliminação do Câncer de Colo do Útero com 3 pilares e metas principais a serem instituídos até o ano de 2030: - Vacinação de 90% das meninas até os 15 anos de idade com a vacina contra o HPV. - Garantir que 70% das mulheres realizem pelo menos 1 teste efetivo de rastreio até os 35 anos de idade e outro até os 45 anos. - Garantir que 90% das mulheres identificadas com lesões precursoras ou câncer invasivo recebam tratamento. Alterações do exame citopatológico do colo de útero A maior parte das lesões regride espontaneamente e a minoria progride para câncer. O local mais comum para a displasia cervical é a Zona de Transformação (ZT). - Endocérvice – epitélio glandular colunar. - Ectocérvice – epitélio escamoso estratificado. - Ambos estão em continuidade e se encontram na Junção Escamocolunar (JEC). O epitélio glandular, sob os efeitos de alguns fatores, pode se transformar em epitélio escamoso (metaplasia escamosa) e esse é um processo fisiológico. Essa área é conhecida como Zona de Transformação (ZT). A ZT geralmente é ectocervical, mas tende a ficar endocervical em mulheres pós-menopausadas. Colposcopia Exame para avaliar o colo e a ZT de forma magnificada (6 a 40 vezes). Para ser considerada satisfatória, deve-se visualizar a ZT. Indicada para algumas alterações de CCO. Utiliza-se ácido acético 5% (cora células com núcleo com grande quantidade de proteínas – células jovens em sua maioria com bastante carga viral HPV) e lugol (cora células maduras ricas em glicogênio e não cora células jovens que não tiveram tempo de armazenar glicogênio). Quando há alteração após o ácido acético, chamamos de lesão acetorreagente ou acetobranca. Com lugol, dizemos que é iodo-negativa ou Schiller positiva. O iodo cora glicogênio! Células saudáveis apresentam níveis citoplasmáticos suficientes de glicogênio para permitir visualização do corante à colposcopia, enquanto as células doentes não se coram pelo mesmo motivo. Se o iodo não corou, “iodo-negativo”, o teste de Schiller deu positivo. Progressão da doença A doença intraepitelial cervical não é um processo contínuo, mas sim um sistema de 2 doenças descontínuas: Lesões Intraepiteliais de Baixo Grau (LSIL ou LIEBG) e Lesões Intraepiteliais de Alto Grau (HSIL ou LIEAG). A lesão de baixo grau é de menor risco de progressão para carcinoma invasivo, diferentemente das lesões intraepiteliais de alto grau, causadas por tipos de HPV oncogênicos, tendo comportamento de lesão precursora. Natalia Quintino Dias NIC 1: representa a expressão citomorfológica de uma infecção transitória pelo HPV e tem alta probabilidade de regredir → NÃO é considerada lesão precursora do câncer do colo do útero. Natalia Quintino Dias ASC-US (Atypical Squamous Cells – Undetermined Significance, provavelmente não neoplásica): Representa a atipia citológica mais comum no CCO. Pode ocorrer pela presença de inflamações inespecíficas, como corrimentos genitais, ou mesmo pela atrofia epitelial pós-menopausa. Devemos sempre procurar tratar esses fatores antes da próxima coleta. *Imunossuprimidas/ HIV → Colposcopia. ASC-H (atipias de significado indeterminado em células escamosas não podendo se excluir lesão de alto grau) = Colposcopia. AGC (Atypical Glandular Cells – atipias de células glandulares) = Colposcopia. Como a alteração é glandular, se ≥ 35 anos, deve-se realizar USGTV para avaliar endométrio. LSIL / LIEBG: Segunda atipia citológica mais comum no CCO. LSIL representa a manifestaçãocitológica da infecção causada pelo HPV → potencial de regressão frequente. • ≥ 25 anos → repetir em 6 meses. • < 25 anos → repetir em 3 anos (ou quando completar 25 anos). HSIL = colposcopia, inaceitável repetir CCO. Se na colposcopia houver um achado anormal = VER e TRATAR (tratamento excisional ambulatorial – exérese da zona de transformação – EZT). • < 25 anos → colposcopia com biópsia (sem EZT). • Gestantes – realizar a biópsia e em caso de NIC 2/3 → reavaliar 90 dias pós-parto. Lesão intraepitelial de alto grau não podendo excluir microinvasão ou carcinoma epidermoide invasor: Colposcopia. • Se houver suspeita de invasão na colposcopia → biópsia. • Se não houver suspeita → EZT. A conduta para um 1º achado de NIC 1 é o seguimento clínico! Há grandes chances de clareamento e eliminação da lesão. NIC 2 E NIC 3 NÃO são câncer, mas sim lesões pré-neoplásicas. A conduta padrão para as pacientes com NIC 2/3 e idade maior que 25 anos é preferencialmente a cirurgia. A conização pode ser realizada com bisturi de lâmina fria (cone clássico), CAF (Cirurgia de Alta Frequência) e até o Laser de CO2. Condiloma acuminado As lesões da infecção pelo HPV são polimórficas, sendo as lesões pontiagudas denominadas condilomas acuminados. São as verrugas genitais. O tamanho pode variar de milímetros até centímetros. Costumam ser únicas ou múltiplas, achatadas ou papulosas, mas sempre papilomatosas. Por essa razão, a superfície apresenta-se fosca, aveludada ou semelhante à da COUVE-FLOR. Apresentam-se da cor da pele, eritematosas ou hiperpigmentadas. Em geral, são assintomáticas, mas podem ser pruriginosas, dolorosas, friáveis ou sangrantes. As verrugas anogenitais resultam quase exclusivamente de tipos não oncogênicos de HPV (os mais comuns são o 6 e o 11). ● No homem, as lesões ocorrem mais frequentemente no folheto interno do prepúcio, no sulco balanoprepucial ou na glande. Podem acometer, ainda, a pele do pênis e/ou do escroto. ● Na mulher, costumam ser observadas na vulva, na vagina e/ ou no cérvice. Em ambos, podem ser encontradas nas regiões inguinais ou perianais. Diagnóstico É clínico. Em situações especiais, há indicação de biópsia para estudo histopatológico: -- Dúvida diagnóstica, suspeita de neoplasias ou outras doenças. -- Lesões atípicas ou que não respondam adequadamente aos tratamentos. -- Lesões suspeitas em pessoas com imunodeficiências – incluindo a infecção pelo HIV, cânceres e/ou uso de drogas imunossupressoras – , caso em que esse procedimento deve ser considerado com mais frequência e precocidade. Tratamento O objetivo do tratamento das verrugas anogenitais é a DESTRUIÇÃO das lesões identificáveis. Apesar de haver recomendação de tratamento, não há evidência de que os tratamentos disponíveis modifiquem a história natural da infecção pelo HPV. Natalia Quintino Dias Recidivas são frequentes em tempo bastante variável, podendo ocorrer após meses ou anos. Dividem-se os tratamentos em domiciliares (realizados pelos próprios pacientes) e ambulatoriais (realizados pelos profissionais de saúde). Tratamento domiciliar Imiquimode 50 mg/g creme: é um modulador da resposta imunológica pela indução do interferon alfa e de outras citocinas. O imiquimode não destrói o vírus, mas auxilia na eliminação da verruga. Portanto, novas verrugas podem aparecer durante o tratamento. A exposição da pele à luz solar durante o tratamento deve ser evitada, em razão do aumento da sensibilidade cutânea a queimaduras. A inflamação provocada pelo imiquimode é o seu mecanismo de ação terapêutica; portanto, serão observados irritação e eritema no local do tratamento. É destinado apenas para uso externo. Para as verrugas externas genitais/anais, as aplicações devem ser realizadas em dias alternados (3x/sem). O tratamento com imiquimode deve ser mantido até o desaparecimento das verrugas ou por um período máximo de 16 semanas a cada episódio de verrugas. Podofilotoxina: é a forma purificada da podofilina e possui propriedades antimitóticas. A absorção sistêmica após a aplicação tópica é muito baixa. A aplicação de podofilotoxina deve ser feita 2 vezes ao dia, pela manhã e à noite, por 3 dias consecutivos, seguida por um período de 4 dias sem aplicação (um ciclo de tratamento). Caso haja qualquer verruga remanescente após 7 dias de aplicação, outro ciclo de tratamento pode ser feito. Recomenda-se, no máximo, 4 ciclos de tratamento. Tratamento ambulatorial Ácido tricloroacético (ATA) 80% a 90% em solução: agente cáustico que promove destruição das condilomas pela coagulação química de seu conteúdo proteico. Aplicar uma pequena quantidade com um aplicador de algodão, adequado ao tamanho das lesões. Deve-se evitar o contato com a mucosa normal e permitir que a solução seque – é observado um branqueamento semelhante à porcelana. A frequência e o número de sessões devem variar conforme a resposta, sendo adequado iniciar com aplicações semanais. É um tratamento que pode ser utilizado durante a gestação. Podofilina 10% a 25% (solução): derivada de plantas (Podophylum peltatum ou Podophylum emodi), tem ação antimitótica, podendo trazer dano ao tecido lesado e ao tecido normal. Aplicar a podofilina sobre as verrugas e aguardar a secagem, evitando o contato com o tecido são. A frequência e o número de sessões variam conforme a resposta ao tratamento, sendo adequado iniciar com aplicações semanais. Além de irritação local, a absorção de grande quantidade da substância pode acarretar cardio, neuro e nefrotoxicidade. É contraindicada na gestação. Eletrocauterização: exige equipamento específico e anestesia local. É apropriada para o caso de lesões exofíticas, pedunculadas e volumosas. Como vantagem, permite a destruição de todas as lesões em uma sessão. Os resultados dependem da experiência do operador; o uso inadequado da técnica pode resultar em cicatrizes desfigurantes e, excepcionalmente, estenose ou fístulas em estruturas tubulares, como uretra, canal anal e vaginal. Exérese cirúrgica: requer anestesia local. A exérese tangencial (shaving) com tesoura delicada ou lâmina é um excelente método, uma vez que, além da remoção completa das lesões, permite o estudo histopatológico dos fragmentos. É adequada para lesões volumosas, especialmente as pedunculadas. Em geral, não é necessário realizar sutura ou procedimento para hemostasia, sendo suficiente a compressão do local operado. Crioterapia: o nitrogênio líquido é atualmente a substância mais usada no tratamento ambulatorial das verrugas. Tem seu ponto de ebulição a – 192ºC e promove citólise térmica. Pode ser utilizada por meio de sondas, aplicadores de algodão ou, em sua forma mais prática, em spray, mediante equipamento específico. A crioterapia é atóxica, podendo ser utilizada na gestação. É muito apropriada em caso de lesões isoladas e queratinizadas. Geralmente bem tolerada, pode, excepcionalmente, requerer anestesia. A frequência e o número de sessões variam conforme a resposta ao tratamento, sendo adequado iniciar com aplicações semanais. Natalia Quintino Dias Seguimento Sabendo-se que o tratamento das verrugas anogenitais não leva à erradicação viral, recorrências são frequentes. O paciente e sua(s) parceria(s) sexual(is) devem retornar ao serviço de saúde caso se identifiquem novas lesões. Gestação O HPV não causa infertilidade. Na gestação, as lesões podem apresentar crescimento rápido, atingir grande volume, tornar-se friáveis e sangrantes. O tratamento das gestantes muitas vezes tem pior resultado. A podofilina e o imiquimode não devem ser usados na gestação. O ácido tricloroacético ou o nitrogênio líquido são boas opções. Por vezes, especialmente no caso de lesões volumosas, a eletrocoagulaçãoou a exérese tangencial (shaving) são as melhores opções. Não há indicação de parto cesáreo pela presença das lesões, ainda que haja a possibilidade de transmissão destas ao recém- -nascido. A indicação seria a obstrução do canal de parto ou sangramento (ocorrências excepcionais). Lesões pré-malignas de vagina São lesões associadas ao HPV. Diagnóstico: a partir de biópsia, realizada durante a colposcopia. Essas lesões vão corar com o ácido acético (serão acetorreagentes) e não vão corar com o lugol (serão iodo negativo ou Schiller positivo). O tratamento será guiado pelo grau na lesão. ● NIVA 1 (Neoplasia Intraepitelial Vaginal grau 1): há uma alta chance de eliminação espontânea. Então geralmente orienta-se o acompanhamento semestral da lesão. ● NIVA 2 (Neoplasia Intraepitelial Vaginal grau 2) e NIVA 3 (Neoplasia Intraepitelial Vaginal grau 3): recomenda-se o tratamento, já que há o risco de evolução no longo prazo para o câncer de vagina. Há vários modos de tratamento, como técnicas destrutivas ou por excisão (bisturi elétrico, lâmina fria e até uso do laser de CO2). Lesões pré-malignas de vulva São lesões relacionadas aos vírus de HPV de alto risco (oncogênicos – 16 e 18). Diagnóstico: por biópsia, que pode ser realizada no próprio exame ginecológico “a olho nu” ou durante a vulvoscopia. Essas lesões vão corar com o ácido acético (serão acetorreagentes). Como é uma área bastante sensível, pode-se realizar uso de algum anestésico local antes da biópsia. O tratamento será guiado pelo grau da lesão. ● NIV 1 (Neoplasia Intraepitelial Vulvar grau 1): alta chance de eliminação espontânea → seguimento semestral. ● NIV 2 (Neoplasia Intraepitelial Vulvar grau 2) e NIVA 3 (Neoplasia Intraepitelial Vulvar grau 3): tratamento (pois há risco de evolução a longo prazo para câncer de vulva). Há vários modos de tratamento, como técnicas destrutivas ou por excisão (bisturi elétrico, lâmina fria e até uso do laser de CO2). Câncer de colo uterino É o câncer ginecológico mais comum entre as mulheres e o câncer ginecológico com mais mortes relacionadas mundialmente, sendo de maior prevalência em países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. No Brasil, é esperado o diagnóstico de 16.710 novos casos, com uma incidência média de 16,35/100 mil mulheres; mas há diferenças regionais importantes, chegando a ser o tumor mais incidente após os tumores de pele não melanoma na Região Norte, o 2º no Nordeste e o 5º no Sudeste, demonstrando como o acesso ao Serviço de Saúde Pública e o rastreamento são elementos fundamentais para o diagnóstico precoce, principalmente no momento das lesões pré-invasivas. Fatores de risco Está relacionado com situações de subdesenvolvimento e fatores comportamentais, como: • Infecção pelo HPV (principalmente 16 e 18). • Início precoce da atividade sexual. • Múltiplos parceiros sexuais. • Parceiro sexual de risco. • Atividade sexual sem proteção. • Tabagismo. • Desnutrição. • Imunossupressão. • Multiparidade. • Baixa escolaridade. • Baixo acesso ao Serviço de Saúde. Natalia Quintino Dias Oncogênese O Carcinoma de Células Escamosas (CEC) se desenvolve nas Células da Junção Escamocolunar (JEC) infectadas pelo HPV de alto grau (principalmente 16 e 18), que se integra ao genoma celular, iniciando a replicação descontrolada – oncoproteínas E6 e E7 ligam-se às proteínas supressoras de tumor (p53 e Rb), inativando-as e perpetuando a progressão neoplásica. Disseminação local – as células cancerígenas passam a se desenvolver no colo uterino, podendo causar lesões exofíticas (para ectocérvice, visível ao exame físico) ou endofíticas (para endocérvice, com visualização mais difícil). Disseminação linfática – o colo uterino possui uma ampla rede linfática acompanhando o curso das artérias uterinas, drenando para linfonodos parametriais e paracervicais, em sequência com a evolução do quadro, para linfonodos pélvicos. Extensão local e a distância – a extensão e infiltração da lesão aos paramétrios (ligamentos de sustentação uterina, que passa em contiguidade aos ureteres distais) podem ocasionar hidronefrose; a extensão por contiguidade pode ocorrer também na bexiga e reto, em casos avançados. As lesões à distância (metástases) mais comuns são: pulmonares, ovarianas, hepáticas e ósseas. Tipos histológicos Os tipos mais comuns são: - Carcinoma de Células Escamosas (CEC) – corresponde a 80% dos casos e tem melhor prognóstico. - Adenocarcinoma. O adenocarcinoma se origina das células colunares do endocérvice, podendo muitas vezes se encontrar no fundo das criptas do canal endocervical e de modo multifocal, o que comumente dificulta seu diagnóstico e é a causa de grande parte dos diagnósticos falso-negativos do Papanicolaou e da colposcopia. Dessa forma, tem o seu diagnóstico retardado. Quadro clínico Nos estágios iniciais, costuma ser assintomático. Quando sintomáticos, podem ocorrer principalmente sangramento vaginal e sinusiorragia (sangramento durante ou logo após a relação sexual) ou aparecimento de corrimento líquido serosanguinolento (que as pacientes relatam como “água-de-carne”). Conforme ocorrem a progressão da doença e o avanço da infiltração tumoral, o tumor pode ocasionar hidronefrose e comprometimento renal do tipo pós-renal; hematúria, dor vesical e sensação de esvaziamento incompleto quando acometimento vesical; dor lombar e pélvica importante quando há comprometimento das raízes sacrais; além de edema de membros inferiores quando há comprometimento da drenagem linfática pélvica. Diagnóstico O exame de colpocitologia oncótica é o primeiro instrumento de rastreamento para o câncer de colo uterino. Os casos suspeitos são encaminhados para colposcopia e biópsia. Um exame especular adequado, com boa visualização do colo uterino e colposcopia dele, além do toque vaginal e do toque retal (para avaliação de comprometimento dos paramétrios), é fundamental. A cistoscopia ou retossigmoidoscopia somente deve ser realizada se houver sintomas urinários e intestinais associados a tumor visível ou palpável na topografia uterina (colo ou istmo uterino). Para o diagnóstico dos tumores ginecológicos, a biópsia sempre é mandatória (mesmo com imagem sugestiva), para o devido diagnóstico e determinação de subtipo histológico que pode interferir no melhor tratamento a ser proposto. Pacientes com colposcopia insatisfatória associada à colpocitologia oncótica alterada (ASC-H ou LIEAG) ou com lesões de alto grau em biópsia de colo uterino (NIC3) devem ser encaminhadas para realização de conização a frio para confirmação diagnóstica. Estadiamento Até 2018, o estadiamento do colo uterino era totalmente CLÍNICO. A FIGO acrescentou a avaliação linfonodal através de exames de imagem. Assim, o estadiamento atual é predominantemente clínico (exame físico), mas também radiológico. Natalia Quintino Dias Deve ser realizado exame físico completo, com avaliação ginecológica pélvica e avaliação retal. Adjacentemente, realiza-se a ressonância magnética de pelve para avaliação da localização, do tamanho e da invasão tumoral, e a tomografia computadorizada de tórax e abdome superior para avaliação linfonodal (pélvica e para-aórtica) e presença de metástases (principalmente hepática, pulmonar e óssea). A cistoscopia e a retossigmoidoscopia podem auxiliar caso o exame físico e o exame de imagem não sejam conclusivos para o diagnóstico de invasão de bexiga e reto (atualmente são mais utilizados para confirmação diagnóstica de fístulas vesicouterinas ou vesicovaginais ou fístulas retovaginais). Taxa de sobrevida em 5 anos IA: 95-97,5% IB: 75-89% IIA: 73% IIB: 65% III: 39-41,5% IV: 9-22% Prevenção Método de prevenção primária: vacinaçãocontra o HPV. Prevenção secundária: colpocitologia oncótica (Papanicolaou) e a coleta de PCR DNA-HPV. Tratamento Estadio I: são passíveis de cirurgia. Natalia Quintino Dias Em estágios mais avançados são tratados com RT+QT. Histerectomia radical Nesse tipo de histerectomia, removem-se o colo uterino, o corpo do útero, a parte da vagina proximal e os paramétrios bilateralmente. Essa técnica ainda envolve a dissecção de linfonodos pélvicos. Como os ovários não são fator de risco para o câncer de colo uterino, podem ser preservados (exceto nos casos de adenocarcinoma ou células claras, em que os ovários devem ser removidos, devido ao maior risco de metástase). → Pacientes submetidas a este procedimento devem se manter com sonda vesical de demora por 7 a 14 dias, quando se realiza resíduo pós- miccional; em caso de volume acima de 150 mL, a sonda vesical de demora deve ser mantida por mais 7 a 14 dias. Tal fato ocorre devido à manipulação e ao trauma da inervação sacral e sacral profunda, com lesões temporárias ou, às vezes, permanentes da inervação responsável pelo esvaziamento vesical. Tratamento sistêmico A base do tratamento é a radioterapia propriamente dita, tanto pélvica externa (teleterapia) quanto braquiterapia. A quimioterapia é baseada em cisplatina concomitante à radioterapia e tem como função somente a potencialização do efeito da radioterapia (ter mais ação com menor dose de radiação). As principais complicações são derivadas da ionização da vagina (retite e cistite actínica), fístulas e atrofia vaginal, levando à disfunção sexual. O tratamento sistêmico com intuito curativo é indicado a partir do estágio IB2/ IB3. Nos casos muito avançados (estágio IVB), a quimioterapia passa a ter papel fundamental para controle da doença à distância (realizada como 1ª linha na maioria dos casos: carboplatina + paclitaxel) e a radioterapia pode ser indicada na pelve para controle de sintomas (com intuito de conforto/ paliação). Mesmo nos casos em que houve indicação cirúrgica, pode haver a necessidade de realização de terapia adjuvante com radioterapia, a depender da avaliação dos Critérios de Sedlis. Estes critérios observam o tamanho do tumor, o grau de profundidade da invasão estromal e a presença de invasão angiolinfática; a depender do escore apresentado, pode ser necessária a realização de braquiterapia (risco intermediário) ou QRT (risco alto).