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~ E aí pessoal, tudo bem? Vamos às considerações sobre o Resumo de Farmacologia: 1. Diferentemente das outras disciplinas do 5º período que têm vários professores (como Microbio, Imuno, Parasito, etc.), a Farmaco não divide os módulos entre os professores de maneira cronológica. Com isso, os professores não esperam que o outro dê todo o seu conteúdo para que o próximo comece o seu, de modo que muitas vezes vocês terão aulas de diferentes professores sobre diferentes assuntos na mesma semana (ex.: ao invés de a Karina dar todo o módulo dela para que depois outro professor comece, pode ser que em uma mesma semana vocês tenham uma aula da Karina sobre SNA na Segunda-feira, uma do Válter sobre abuso de drogas na Terça-feira, e uma da Patrícia sobre Sedativos e Hipnóticos na Quarta-feira). Considerando isso, achei melhor dividir o resumo em 4 partes, sendo que cada parte corresponde às aulas ministradas por cada professor. Acho que dessa forma pode facilitar para vocês encontrarem cada uma das aulas. 2. Como o resumo está dividido de acordo com as aulas que cada professor costuma dar, se eles resolverem inverter algum tema, pode ser que as aulas de um estejam na parte de outro. Se atentem em relação a isso. 3. Todas as aulas foram feitas de maneira bastante fiel às aulas. Entretanto, eu não consegui acompanhar muito bem as aulas do Válter a partir da aula 3, e por isso os resumos 3-8 da parte dele foram feitos baseados nas aulas do Sanarflix e no Katzung (e devido a isso, muitas vezes não estão semelhantes às aulas). Um beijo e bons estudos para vocês ♥ Medusa Sumário AULAS DA PROFESSORA KARINA .............................................. 1 FARMACOLOGIA GERAL ............................................................................................................ 2 ABSORÇÃO............................................................................................................................... 12 FARMACOCINÉTICA – ELIMINAÇÃO ........................................................................................ 25 ELIMINAÇÃO RENAL ................................................................................................................ 38 FARMACODINÂMICA ............................................................................................................... 45 SNA – REVISÃO FISIOLOGIA ..................................................................................................... 65 FARMACOLOGIA COLINÉRGICA ............................................................................................... 78 AGONISTAS COLINÉRGICOS OU COLINOMIMÉTICOS .............................................................. 83 ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS OU ANTICOLINÉRGICOS ....................................................... 94 FARMACOLOGIA ADRENÉRGICA ........................................................................................... 104 AGONISTAS ADRENÉRGICOS OU SIMPATICOMIMÉTICOS..................................................... 117 ANTAGONISTAS ADRENÉRGICOS OU SIMPATICOLÍTICOS ..................................................... 128 FARMACOLOGIA DO SISTEMA DIGESTÓRIO .......................................................................... 133 PRINCIPAIS MECANISMOS DE FÁRMACOS DO TGI ............................................................... 141 INTRODUÇÃO - DISLIPIDEMIA ............................................................................................... 153 CLASSIFICAÇÃO DAS DISLIPIDEMIAS ..................................................................................... 164 FÁRMACOS UTILIZADOS NAS DISLIPIDEMIAS - CONTINUAÇÃO ............................................ 176 INTRODUÇÃO – HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA ........................................................... 187 TRATAMENTO DA HAS .......................................................................................................... 196 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA ..................................................................................................... 217 AULAS DO PROFESSOR VALTER ............................................ 233 VIAS DE ADMINISTRAÇÃO ..................................................................................................... 234 PRESCRIÇÃO MÉDICA ............................................................................................................ 241 ABUSO DE DROGAS – USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS ................................................. 251 ÁLCOOL ETÍLICO .................................................................................................................... 278 TERAPIAS ANTITROMBÓTICAS .............................................................................................. 286 ANESTÉSICOS ......................................................................................................................... 311 GLICOCORTICOIDES ............................................................................................................... 327 DIURÉTICOS ........................................................................................................................... 336 AULAS DA PROFESSORA PATRÍCIA ........................................ 347 FORMAS FARMACÊUTICAS E DESENVOLVIMENTO DE FÁRMACOS ...................................... 348 INTRODUÇÃO À FARMACOLOGIA DO SISTEMA NERVOSO ................................................... 358 file:///C:/Users/josej/Downloads/Medusão%20de%20Farmacologia%20(GRANDE).docx%23_Toc78212478 file:///C:/Users/josej/Downloads/Medusão%20de%20Farmacologia%20(GRANDE).docx%23_Toc78212499 file:///C:/Users/josej/Downloads/Medusão%20de%20Farmacologia%20(GRANDE).docx%23_Toc78212508 SEDATIVOS-HIPNÓTICOS ....................................................................................................... 375 DEPRESSÃO E ANTIDEPRESSIVOS .......................................................................................... 380 DOENÇA DE PARKINSON ....................................................................................................... 399 ANTIPSICÓTICOS .................................................................................................................... 417 AULAS DA PROFESSORA RAÍSSA ........................................... 434 FARMACOLOGIA DA INFLAMAÇÃO – RESPOSTA INFLAMATÓRIA LOCAL ............................. 435 ANTI-HISTAMÍNICOS ............................................................................................................. 451 INFLAMAÇÃO SISTÊMICA ...................................................................................................... 467 AINEs ..................................................................................................................................... 489 ARTRITE REUMATOIDE E GOTA ............................................................................................. 503 ASMA ..................................................................................................................................... 514 IMUNOSSUPRESSÃO.............................................................................................................. 534 MEDIADORES LIPÍDICOS PRÓ-RESOLUÇÃO ........................................................................... 550 FARMACOLOGIA E TERAPÊUTICA DAS VITAMINAS ............................................................... 561 FARMACOLOGIA DO SISTEMA ENDÓCRINO – DIABETES MELLITUS E INSULINAS ................ 587 ANTIDIABÉTICOS ORAIS/ ANTI-HIPERGLICEMIANTES ........................................................... 608 DIABETES INSIPIDUS .............................................................................................................. 630 PRINCÍPIOS BÁSICOS DA ANTIBIOTICOTERAPIA .................................................................... 645 INIBIDORESDE PAREDE CELULAR ......................................................................................... 664 INIBIDORES DE REPLICAÇÃO E DE TRADUÇÃO ...................................................................... 680 file:///C:/Users/josej/Downloads/Medusão%20de%20Farmacologia%20(GRANDE).docx%23_Toc78212515 1 AULAS DA PROFESSORA KARINA 2 FARMACOLOGIA GERAL Medusa – 86 A fármaco(droga)logia(estudo) consiste no estudo de substâncias químicas que interagem com organismos vivos e provocam alterações no organismo. A toxicologia é uma ciência que estuda as drogas que causam efeitos tóxicos (não farmacológicos) no organismo. Droga: Toda substância externa que provoca alterações fisiológicas. Pode ser terapêutica ou induzir a uma doença (ex.: uso exacerbado de anfetaminas pode causar depressão em períodos de abstinência). Fármaco: É uma substância utilizada para fins terapêuticos, curativos, preventivos ou de diagnóstico. Medicamento: Produto farmacêutico acabado com uma ou mais substâncias químicas (princípios ativos), utilizado com uma finalidade definida. Remédio: Tudo o que é utilizado para cura ou tratamento de uma doença (ex.: acupuntura, massagem, conversas, etc.). Dose: Quantidade de fármaco por kg corpóreo OBS: Medicina Alternativa – Plantas Medicinais • Medicamento fitoterápico: possui tantos testes quanto os medicamentos tradicionais (medicina alopática). A indústria garante a eficácia do produto. • Produto tradicional fitoterápico: a sua produção não possui tantos testes quanto os medicamentos tradicionais, mas já é usado há mais de 30 anos pela população com uma determinada finalidade. A única obrigação da indústria, neste caso, é garantir que está presente uma determinada concentração do composto no remédio. • Chá: Não há dosagem da substância 3 FARMACOCINÉTICA A farmacocinética é definida como a atividade que o organismo exerce sobre a droga, em quanto tempo age e em que quantidade. Enquanto isso, a farmacodinâmica consiste na atividade que o fármaco exerce sobre o organismo. A dose administrada deve ir para a corrente sanguínea, sendo então distribuída e chegando ao sítio de ação. Depois, deve retornar à corrente sanguínea para ser excretada (estas etapas da movimentação do fármaco correspondem à farmacocinética). Após chegar em seu sítio de ação, o fármaco passará a exercer seu efeito e provocar uma resposta clínica (sendo esta ação ativa do fármaco, a farmacodinâmica) 4 O estudo da farmacologia é importante para: • Se saber qual a posologia adequada do remédio, para saber-se quanto da droga chegará no alvo de ação e quanto tempo a droga permanecerá no organismo antes de ser excretada • Realizar reajuste posológico em situações especiais em função da resposta clínica (ex.: saber adaptar a posologia para um paciente com uma insuficiência renal) • Realizar pesquisas de novos medicamentos • Aumentar o sucesso terapêutico e diminuir o risco de efeitos adversos A farmacocinética é dividida em etapas concomitantes (ADME): Absorção, Distribuição, Metabolização e Eliminação. 5 ABSORÇÃO Consiste na passagem do fármaco do local de administração para a corrente sanguínea. Como a administração de um medicamento pode ocorrer por diferentes vias (1ª aula do Valter), a absorção de um fármaco pode possuir variações. As diferentes velocidades de absorção são influenciadas pela via de administração: influencia na velocidade, na % de absorção do fármaco e na biodisponibilidade. É também influenciada pelo local de absorção. Os vários locais de absorção do fármaco também proporcionam diferentes velocidades de absorção. Quanto mais rápida a absorção, mais facilmente se alcança a concentração necessária do fármaco no sítio de ação. Dentre os principais locais onde o medicamento pode ser absorvido, estão: • Trato respiratório • TGI • Trato geniturinário • Pele • Regiões subcutânea (SC) e intramuscular (IM) • Medula óssea • Peritônio • Mucosa conjuntival Para que ocorra a absorção, é necessário que o fármaco passe pelas membranas celulares. A membrana celular é constituída por uma bicamada lipídica com proteínas inseridas, sendo que, por estas, são transportados fármacos, neurotransmissores, íons, além de servirem para ação de alguns determinados fármacos. Substâncias lipossolúveis atravessam facilmente a bicamada lipídica, bem como pequenas moléculas (gases, pequenas substâncias hidrofóbicas, pequenas moléculas apolares e pequenas moléculas polares). Todavia, moléculas grandes (mesmo as apolares) ou com carga iônica possuem uma maior dificuldade de passagem pela bicamada, necessitando de transportadores. A maioria dos fármacos é absorvida por difusão (transporte passivo). 6 Pequenas moléculas hidrofílicas podem passar por canais aquosos. Todavia, grandes moléculas hidrofílicas entram no interior da célula por meio da difusão facilitada. Neste processo, a proteína da membrana envolve a substância de interesse, criando um complexo lipossolúvel com esta e atravessando a membrana. Para que isto ocorra, é necessário que: • A substância a ser transportada possua afinidade com a proteína • Não ocorra a saturação do transportador (o que causaria uma limitação na velocidade de absorção) Existe a possibilidade de diferentes fármacos competirem pela mesma proteína. Neste caso, será transportado o fármaco que possuir maior afinidade com a proteína. Os fármacos também podem ser transportados contra o gradiente de concentração, por meio do transporte ativo. No transporte ativo, também pode ocorrer saturação do transportador e a proteína transportadora também escolhe transportar o fármaco com que mais tem afinidade (em caso de haver mais do que um presente). Nos casos de grandes moléculas, o fármaco pode ser endocitado e trazido para o interior da célula. Pode também ocorrer a pinocitose (com pequenas partículas), e na maioria destes casos grande parte do fármaco está solubilizado. A endocitose e exocitose são processos importantes na liberação de neurotransmissores e na endocitose de receptores de fármacos. 7 Para ser facilmente absorvido, o fármaco deve estar em sua forma não ionizada. Grande parte dos fármacos fica em sua forma ionizada no organismo, o que auxilia com que o fármaco atue em um local específico (não seja absorvido até chegar no seu destino). Principais fatores interferentes na velocidade de absorção: Químicos: 1. Natureza química (forma farmacêutica) A forma farmacêutica é a forma que o medicamento está ao ser administrado (ex.: sólida, líquida, semissólida, etc.). A diferença entre um comprimido e uma cápsula está na forma de liberar o fármaco da forma farmacêutica: enquanto o comprimido consiste em um pó comprimido (que, quanto mais comprimido, mais lentamente libera o fármaco no organismo), a cápsula consiste em um revestimento que se dissolve no estômago e libera o princípio ativo em forma de pó contido em seu interior. O comprimido desintegra-se em grânulos, os quais são desintegrados em pequenas partículas. As pequenas partículas podem ser melhor dissolvidas, deixando o fármaco em solução e, assim, ele pode ser absorvido. Amassar comprimidos antes de ingeri-los nem sempre é algo que auxiliará em um efeito mais rápido. Por vezes, amassar o fármaco pode fazer com que ele seja absorvido mais rapidamente e, com isso, atinja o pico de toxicidade rapidamente. Além disso, se o comprimido possuir um revestimento gastroresistente, ele perde esta capacidade ao ser triturado. Por vezes, realizar a medicação na forma de comprimidos garante que o fármaco seja absorvido mais lentamente e eliminado mais lentamente do que nas outras vias, fazendo com que o efeito no organismo seja prolongado. Tablet revestido é uma forma farmacêutica gastroresistente que possui umacobertura que será dissolvida apenas no intestino. Os fármacos também 8 podem ser administrado na forma de solução, a qual não possui a necessidade de ser desintegrada, apenas dissolvida. OBS: não confundir forma farmacêutica (comprimido, capsula, tablet revestido, etc) com via de administração (oral, subcutânea, intravenosa, etc.) A absorção de medicamentos administrados por via oral normalmente ocorre em nível intestinal, visto que o intestino possui maior variação de pH, maior tempo de permanência do alimento e maior área de absorção 2. Peso molecular (tamanho da molécula) Caso a molécula seja muito grande, o seu transporte para dentro da célula é realizado por proteínas que possuam afinidade com o fármaco. 3. Grau de solubilidade Nem todo fármaco é solúvel e estável. Devido a isso, por vezes ele pode ser alterado pela indústria farmacêutica para que alcance esse objetivo. O princípio ativo do medicamento pode estar ou não na forma de sal, podendo haver também aglutinantes, espessantes, açúcares, corantes, etc. Todos estes são excipientes que não possuem efeito no organismo (são inertes, mas estão ali para auxiliar que o princípio ativo tenha efeito). 9 Também deve-se atentar se as enzimas digestivas não vão digerir o princípio ativo do medicamento. Para isso, pode ser necessária a presença de uma película gastro-resistente. 4. pH e grau de ionização Os fármacos são geralmente ácidos fracos ou bases fracas (os quais se dissociam parcialmente; ácidos e bases fortes são aqueles que se dissociam 100%). O pKA consiste em uma constante de dissociação da molécula. É o pH no qual onde 50% do fármaco está em sua forma ionizada (I) e 50% na forma não ionizada (NI). A forma que atravessa as membranas plasmáticas é a forma não ionizada. Durante o TGI, há proporções diferentes entre a forma I e a NI, o que ocorre devido à variação de pH que ocorre no tubo digestório e também porque o medicamento vai sendo progressivamente absorvido (reduzindo a forma NI) Se o fármaco está fora de seu pKA, prevalece uma das formas (I ou NI): • Se o fármaco é um ácido fraco: se está em um pH inferior a seu pKA, o ácido HA fica predominante em sua forma não ionizada HA (não precisa liberar seu H+ pois já há muitos circulantes) • Se o fármaco é uma base fraca: se está em um pH superior a seu pKA, a base B fica predominantemente em sua forma não ionizada B (e não BH+, visto que há poucos H+ para receber os do meio) A ingestão de antiácidos pode causar uma maior ou menor excreção de algum medicamento. Se for objetivada uma maior excreção, deve-se manter o medicamento em sua forma ionizada (para que assim ele não consiga ser absorvido, já que a forma absorvida é a não ionizada). Devido a isso, para se realizar uma maior excreção de um medicamento ácido, deve-se alcalinizar a urina do paciente com bicarbonato de sódio (para que assim a forma predominante seja a ionizada – linha azul). O contrário acontece ao se comparar a ingestão de aspirina (pKA ácido) e de aspirina C (com vitamina C): a vitamina C (ácido ascórbico) acidifica a urina, fazendo com que o fármaco ácido (pKA) 10 fique em sua forma não ionizada, sendo assim reabsorvido e permanecendo mais tempo no organismo. Os diferentes pHs encontrados no sistema digestório fazem com que os diferentes fármacos sejam absorvidos em locais distintos (sendo o intestino o sítio de maior absorção). Há também a influência da solubilidade, do tempo de contato do órgão com o fármaco e também da quantidade da irrigação do local: Apesar de ter influencia na absorção do medicamento, o pH não deve ser modulado visando uma melhor absorção. Para isso, deve-se escolher uma via que possibilite uma maior % de absorção do fármaco. A via de administração está relacionada com a área e com a velocidade de absorção do medicamento. Fisiológicos: 1. Motilidade gástrica e intestinal Se o trânsito do esvaziamento gástrico for mais acelerado, o medicamento chega mais rapidamente no intestino e é melhor absorvido. Há alguns fármacos que aceleram e outros que desaceleram o esvaziamento gástrico. Alimentos líquidos exercem uma maior pressão na parede do estômago, favorecendo o esvaziamento gástrico. Enquanto isso, alimentos sólidos e gordurosos dificultam o esvaziamento gástrico. Como a grande maioria dos medicamentos é absorvida no intestino delgado, um menor trânsito intestinal faz com que o alimento permaneça durante mais tempo no intestino, ocasionando uma maior absorção. Um trânsito intestinal aumentado, portanto, causa uma menor absorção (que é o que ocorre, por exemplo, durante uma diarreia). 2. Presença de alimento no estômago Enquanto os alimentos líquidos favorecem o esvaziamento gástrico (e com isso favorecem a absorção, já que o fármaco chegará mais facilmente ao intestino), alimentos sólidos e gordurosos retardam o esvaziamento. 11 3. Fluxo sanguíneo Quanto maior o fluxo sanguíneo, maior a absorção (o fármaco passa mais rápido do meio mais concentrado (luz intestinal) para o menos concentrado (sangue)). Massagens aumentam o fluxo sanguíneo, podendo ajudar a absorção. 4. pH no sítio de absorção Determinados fármacos são projetados para que sejam absorvidos em um local ou em outro, dependendo do pH da região. Há medicamentos para determinada finalidade (ex.: alguns para retocolite ulcerativa) que são parcialmente degradados por bactérias do cólon para agir especificamente lá (elas quebram uma ligação do fármaco e assim ele é absorvido). Efeito Local x Efeito Sistêmico Efeito Local: Não é absorvido e não entra na corrente sanguínea, agindo apenas no local (ex.: antiácido para queimação estomacal – o paciente engole o medicamento, que não é absorvido e então é eliminado nas fezes). Efeito Sistêmico: É absorvido, caindo na corrente sanguínea e afetando então diversos tecidos 12 ABSORÇÃO Medusa – 86 (continuação da aula anterior) Os fatores interferentes podem interferir na velocidade e na quantidade de absorção do fármaco. Pacientes que possuem doenças que ocasionem alteração do fluxo sanguíneo (acamados, choque, IC) possuem defasagens na absorção. Efeito de primeira passagem É a perda do fármaco antes da chegada na circulação sistêmica. Neste processo, o fígado é um órgão importante. Como a via oral é a mais comumente utilizada, o fígado normalmente faz parte do trajeto do fármaco: do intestino, o fármaco vai para a circulação portal, indo ao fígado e depois para a circulação sistêmica. Além disso, pode haver perda da droga ativa sem ser via sistema hepático: se as enzimas digestivas degradam o medicamento (ex.: omeoprazol, que tem que ser gastroresistente para não ser degradado). Na via endovenosa, não há perdas da droga ativa, visto que ela já está na corrente sanguínea e não precisa ser absorvida. Biodisponibilidade É a quantidade de fármaco que chega intacto na circulação sistêmica, após a degradação local (se houver). O fármaco ingerido pela via oral nunca é 13 100% biodisponível, já que chega primeiro no sistema porta-hepático, sendo parte degradado e parte liberado para seguir na corrente sanguínea. A biodisponibilidade é medida pela relação entre a quantidade de fármaco que estaria presente na corrente sanguínea se fosse administrado pela via endovenosa (quando 100% da droga está na corrente sanguínea) e a disponibilidade dos fármacos ao se administrar por outra via (quantos % chega na corrente sanguínea por esta via). A que mais se aproxima da endovenosa é a sublingual (após passar pela mucosa, já cai na corrente sanguínea, possuindo uma biodisponibilidade próxima de 100%) • A administração por via IM pode doer porque demora para o musculo (que tem muita agua) absorver o medicamento lipossolúvel. 14 • Apesar da transdérmica não ter efeitode primeira passagem, não é 100% por outros motivos. Cálculo da biodisponibilidade: é mensurada por meio de um gráfico da quantidade do fármaco no organismo pelo tempo. Mede-se quanto tempo após a ingestão é necessário para chegar na concentração máxima (tmax e Cmax) e quanto tempo ele leva para ser eliminado. O cálculo da biodisponibilidade acontece através da área sob a curva explicada anteriormente, comparando as suas características na via ministrada e na via intravenosa (na qual se há certeza de que tudo foi biodisponibilizado). Bioequivalência Este cálculo é importante para testar a efetividade de medicamentos genéricos ou similares. Genéricos e similares possuem a mesma concentração e princípio ativo que o medicamento de referência (“originador”, que possui a patente de sua fabricação), mas podem possuir variações. Para se estudar a bioequivalência entre os medicamentos, deve-se levar em consideração três variáveis do gráfico da biodisponibilidade: a área sob a curva, a concentração máxima e o tempo máximo. Além disso, o medicamento deve possuir o mesmo princípio ativo que o de referência. 15 Um medicamento bioequivalente é aquele que possui o mesmo princípio ativo que o de referência, a área sob a curva semelhante em 80 a 125% da área do medicamento de referência, bem como a cmax semelhante e o tmax semelhante em 80 a 125% do medicamento de referência. O medicamento genérico consiste em um medicamento que deve ser bioequivalente ao medicamento de referência. O medicamento similar, entretanto, pode possuir algumas diferenças, não possuindo por vezes o tmax, a cmax ou a área sob a curva semelhantes ao de referência. Há na lista na ANVISA quais medicamentos similares são bioequivalentes e passam pelos mesmos testes que o de referência – mas nem todos os similares passaram por todos os testes como o de referência. Se o medicamento similar estiver na lista da ANVISA, pode-se trocar um de referencia por um similar. É permitida a troca de um de referência por um genérico. Todavia, não se pode trocar de um medicamento genérico para um similar e nem de um similar para outro similar. 16 Faixa de ação terapêutica: É uma faixa presente no gráfico da biodisponibilidade que mostra um intervalo entre uma concentração efetiva mínima e uma concentração máxima tolerada. A concentração plasmática deve estar dentro da faixa para que o fármaco tenha o efeito desejado. Se o medicamento estiver na faixa, tiver a mesma área sob a curva, mas não ter a cmax no tmax como descrito anteriormente, NÃO É BIOEQUIVALENTE – o medicamento fará efeito no paciente (podendo ser similar), mas não será bioequivalente. 17 Todavia, isso depende do fármaco, pois altas doses podem alcançar a concentração de intoxicação. Isto ocorre se a dose for superior à capacidade de eliminação (ultrapassa a cmáx tolerada). Deve-se trabalhar preferencialmente com fármacos que não fiquem tão próximos da cmax tolerada, pois a proximidade dela faz com que, se ocorrer qualquer problema na excreção do fármaco, seja alcançada uma concentração de intoxicação. 18 Ao atingir a cmax tolerada, há efeitos colaterais indesejáveis não toleráveis (ex.: uso de antineoplásicos – ultrapassa, por isso tem efeitos como quedas de plaqueta e imunossupressão, mas a dose acaba sendo necessária para evitar a morte do paciente pelo CA). Os efeitos colaterais que estão abaixo da cmax são os toleráveis (ex.: constipação devido ao uso de buscopan). 19 FARMACOCINÉTICA – DISTRIBUIÇÃO Ao chegar na corrente sanguínea, o fármaco em seguida será distribuído para todo o organismo. Distribuição é o transporte reversível e dinâmico do fármaco absorvido para os diversos compartimentos do organismo. A distribuição vai do sangue para o tecido e do tecido para o sangue (para ser excretada) – por isso é um processo dinâmico e reversível. Do peso total de um ser humano, 60% é água. Desta água, 20% está no liquido extracelular, sendo 14% no interstício, 4% no plasma e 2% nos outros locais. O compartimento central do organismo é o plasma (é ele quem está no centro e distribui substâncias para os outros tecidos do organismo). O compartimento periférico são os outros tecidos do organismo. Há aproximadamente 4 litros de plasma em uma pessoa de 70 kg. 20 Como o sangue do plasma tem que ir para os tecidos novamente, é necessário que sejam tomadas todas as considerações acerca da passagem por membranas. Quando o fármaco chega na corrente sanguínea, parte do fármaco fica livre e parte fica na sua forma ligada à albumina ou à alfa-1-glicoproteína ácida. O fármaco na forma ligada é chamado de fármaco inerte (não consegue sair do vaso porque ficou muito grande – funciona como uma reserva da substância). FATORES INTERFERENTES NA DISTRIBUIÇÃO: 1. Fluxo sanguíneo 2. Taxa de perfusão 3. Permeabilidade através da membrana a. Peso molecular i. Ex.: Ao se ligar com a albumina, não consegue atravessar a parede do vaso b. Coeficiente de partição óleo-água i. É necessário que o fármaco possua hidrossolubilidade para se dissolver no líquido intersticial e características lipossolúveis para atravessar as membranas – se é muito lipo, atravessa a membrana, mas não o interstício (a não ser que tenha um transporte que não a difusão passiva). c. pH e grau de ionização i. O ph intracelular e extracelular são diferentes: isso faz com que a ionização vá variando conforme o fármaco vai passando pelos locais. Pode acontecer o aprisionamento de um fármaco em determinado compartimento (se ele ficar muito ionizado no local, é difícil de sair de lá). 4. Ligação dentro do compartimento (organotropismo) a. Alguns fármacos ficam concentrados em determinados órgãos/tecidos 5. Ligação a proteínas plasmaticas 6. Volume de distribuição 1. FLUXO SANGUÍNEO O fluxo sanguíneo está diretamente relacionado à velocidade de distribuição: se aumenta-se o fluxo, aumenta-se a distribuição (assim como a absorção). Há alguns órgãos que são mais perfundidos (como os rins, fígado, pulmão, coração e cérebro – mas este tem a barreira hematoencefálica). As menores perfusões estão na pele, músculo em repouso e no tecido adiposo. Barreira hematoencefálica: nela, há zonas de oclusão (células estão extremamente unidas), dificultando a passagem do fármaco. É formada pela estrutura capilar: seu endotélio de células muito juntas e sua membrana basal. Um fármaco ionizado não é capaz de passar por ela, um lipossolúvel é capaz e os mediados por transportadores também. Se a proteína responsável pelo transporte do fármaco para fora do capilar se esgotar, ou houver alguma 21 substancia que compete com o fármaco em sua ligação, podem haver falhas no transporte (não transportar ou transportar errado). Como o espaço para passagem é muito pequeno, apenas a forma livre consegue passar (a inerte é muito grande). O mesmo ocorre na membrana placentária (também há seletividade dos fármacos) e na zona de gatilho quimiorreceptora. A zona de gatilho quimiorreceptora é uma região no SNC anterior à chegada ao centro do vômito; ela apresenta uma falha da barreira hematoencefálica – há fármacos que não atravessam a barreira, mas atuam no SNC (nesta zona). Nesta zona, há receptores dopaminérgicos, os quais também estão presentes em outras áreas: área nigroestriatal e área mesolímbica e mesocortical. Devido a isso, se for ministrado um fármaco que se liga a um receptor dopaminérgico, ele se ligará às 3 áreas, agindo nas 3. Ex.: Se é ministrado um fármaco para Parkinson para agir na área nigroestriatal, o medicamento pode causar vômitos também. Isto pode ser controlado ao se ministrar medicamentos antihemeticos que não passam pela barreira hematoencefálica, porque assim vão passar apenas pela falha e agir só na zona de gatilho. Alguns antimicrobianose antifúngicos não atravessam a barreira hematoencefálica em pacientes saudáveis, mas em algumas doenças conseguem atravessar (como em meningites). Durante o processo infeccioso, há a passagem de células de defesa pela parede dos vasos, deixando frestas pelas quais o fármaco passa. No gráfico, é possível observar que a concentração do fármaco em pacientes com meningite é semelhante à encontrada no sangue, mostrando que o medicamento é capaz de atravessar a barreira. Forma livre e forma ligada 22 A quantidade que vai estar na forma ligada depende da característica do fármaco e da afinidade que ele possui com as proteínas plasmáticas. Se for ligado 90% ou mais com a proteína plasmática, é considerado um fármaco de ligação forte. Quando esta ligação é inferior a 90%, se considera que o fármaco se liga fracamente às proteínas plasmáticas. Exemplo (supondo um fármaco com ligação forte): como a parte livre é a parte distribuída, após ela entrar no tecido, os 90% que ficaram ligados e não entraram no tecido agora mudam o equilíbrio para que esteja 10% livre e 90% ligado novamente – por isso a parte ligada é chamada de reserva. Isso é importante pois a parte que será metabolizada no fígado e excretada é a parte livre. Quanto mais fortemente ligada, mais tempo demora para a droga ser distribuída e metabolizada. O ph dos fármacos interfere na afinidade com a albumina. Se houver 2 fármacos com afinidade com a albumina, mas um deles tiver mais afinidade, o outro será “deslocado” e ficará livre, sendo mais facilmente absorvido. Este fator pode causar um efeito tóxico se o fármaco que ficar livre possuir uma pequena janela terapêutica (que é a diferença entre a concentração mínima efetiva e a concentração máxima tolerada) e ele for fortemente ligado às proteínas. Exemplo: Fatores que interferem na relação de o fármaco estar livre ou ligado 23 • Saturação proteica: raramente acontece, pois a quantidade de fármaco tem que ser muito alta para acabar com a albumina. Apenas ocorre em casos de hipoalbuminemia, como na síndrome nefrótica, em intensas proteinúrias, na cirrose, no CA, em queimaduras, em desnutrição, etc. • Concentração de proteínas plasmáticas em situações patológicas (como na síndrome nefrótica mencionada acima) • Interações farmacológicas (ex.: acido acetilsalicílico acetila um aminoácido da albumina, de modo que ela muda sua estrutura e fica mais difícil de outros fármacos ligarem). Volume aparente de distribuição Consiste na quantidade de fármaco que não está presente na corrente sanguínea, mas sim distribuída nos tecidos. Avalia a extensão da distribuição do fármaco além do plasma (nos tecidos) – não é possível saber em que tecido está, mas sim que não está no plasma. Isso é importante para a determinação da dose e da posologia (se ele está muito no tecido, tem muita forma livre – se tem muita forma livre, pode ser muito excretado: o que é importante para o estabelecimento da faixa de ação terapêutica). É entendido como o volume necessário para conter a quantidade total do fármaco no organismo na mesma concentração presente no plasma (o tanto dissolvido nos tecidos tem que ser igual ao do plasma). É calculado se dividindo a dose no tecido (em mg) pelo tanto de fármaco que está no plasma. Exemplo: Se a concentração do plasma é 5 mg/l, e dentro do tecido há 20g, ele tem que estar em 4l (20/5 = 4). Quanto maior o volume de distribuição, mais ele está distribuído (mais entrou no tecido e menos ficou no sangue - mesmo se estiver acumulado em apenas um local, só interessa que não está no plasma). 24 Exemplo 2: Se há 600 mg no tecido e a concentração plasmática é de 120 mg/l, o tanto de volume que deveria ter é 5Litros (600/120 = 5l). O volume de distribuição não é necessariamente o quanto em litros há dentro do corpo, mas é uma informação que diz sobre quão rápida é a distribuição do fármaco (ex.: o do diazepan é 140 L, querendo dizer que rapidamente ele vai pra dentro do tecido – se houver 10g dentro do tecido, quer dizer que há apenas 0,07g/L no plasma, mostrando que quase nada fica no plasma e a maioria é rapidamente absorvida). Para alcançar um alto volume de distribuição aparente, o fármaco deve possuir fraca ligação com proteínas, possuir uma grande fração não ionizada e/ou ser lipossolúvel, estando mais no tecido do que no vaso, possuindo uma distribuição rápida. Para um baixo volume de distribuição aparente, o fármaco deve possuir alta ligação com proteínas, ser hidrossolúvel, ser uma grande molécula (alto peso molecular) e/ou possuir uma grande fração ionizada – nestes casos, está mais no vaso que no tecido, possuindo uma distribuição lenta. Pode haver proteínas nos tecidos que também se ligam com os fármacos (ex.: no tecido adiposo há uma proteína que segura o fármaco nesse compartimento). Neste caso, para voltar para a corrente sanguínea, ele também tem que estar livre. Esse armazenamento pode ocorrer no tecido ósseo, adiposo, etc. Estes locais funcionam como um depósito farmacológico. Se há muito do fármaco no tecido, há pouco no sangue: desta forma, há pouco para ser eliminado – conclui-se que o volume de distribuição interfere no tempo de meia vida do fármaco, pois influencia se ele será mais facilmente ou mais dificilmente eliminado. 25 FARMACOCINÉTICA – ELIMINAÇÃO Medusa - 86 A eliminação abarca dois processos farmacocinéticos: • Biotransformação: Consiste na eliminação da ação do fármaco no organismo (da sua capacidade em provocar alterações fisiológicas – o fármaco é modificado estruturalmente e a sua ação tem fim). Pode acontecer em diversos locais, mas ocorre principalmente no fígado • Excreção: A retirada (saída) do fármaco do organismo. Pode acontecer em diversos locais, mas ocorre principalmente no rim. BIOTRANSFORMAÇÃO A capacidade das moléculas de ser parte hidrossolúvel e parte lipossolúvel também é importante para a excreção. O fármaco deve ser lipossolúvel para sair do tecido (passar pela membrana) e hidrossolúvel (para ser eliminado pelos rins). A conversão das características lipossolúveis da substância para hidrossolúveis ocorre no fígado (devem estar mais hidrofílicas para serem eliminadas). Normalmente, conforme vão ocorrendo estas transformações, os metabólitos são modificados para uma menor atividade farmacológica. Conforme estes processos vão acontecendo, vai havendo perda da atividade do fármaco, ou a atividade vai sendo modificada para uma menor resposta farmacológica. REAÇÕES DE FASE 1 E 2 Estas reações ocorrem com um fármaco lipofílico, para se tornar hidrofílico. As reações de fase 1 são mais simples e acabam expondo/revelando um grupo funcional da molécula do fármaco. São reações enzimáticas (hidrólise, oxidação ou redução) em que a enzima deixa aparente uma hidroxila, um grupamento sulfeto ou um grupamento amina, para que, na reação de fase 2 ocorra a adição de um grupamento a essa nova molécula (processo de conjugação). 26 Certos grupamentos também podem ser conjugados na fase 1, mas geralmente isto ocorre na fase 2. Há fármacos que vão diretamente sofrer a fase 2. Há outros que não passam por nenhuma das fases e são eliminados – este último caso ocorre se o fármaco for de característica hidrossolúvel. Como os fármacos são eliminados pelo rim, se o paciente tiver uma insuficiência renal, deve-se ajustar a dose e a posologia. Estas fases podem ocorrer concomitantemente. Há determinadas enzimas que participam de cada uma das fases: • Fase 1: oxidases da família do citocromo P450 (CYP450), que são enzimas microssomais • Fase 2: há 2 enzimas importantes: a que adiciona o grupamento glicuronideo e a glutationa transferase. Normalmente, o fármaco vai ficando cada vez mais polar para ser eliminado. A formação de um metabólito glicuronideo(conjugação com um ácido glicurônico) normalmente resulta em perda total da atividade do fármaco. Há exceções (ex.: a morfina com ácido glicurônico fica até mais potente). Enzimas da reação de fase 1: Há aproximadamente 12 famílias do citocromo P450 e também as suas subfamílias. As famílias são o nome (ex.: na 2D/6, é a região 2D) e as subfamílias são a região após a barra (ex.: na 2D/6, a região /6). São todas oxidases, sendo que a maioria delas não é tão especifica (metabolizam diversas substâncias). São enzimas microssomais (vêm do retículo endoplasmático e ficam retidas em um microssomo). 27 As principais formas (que metabolizam cerca de 75% dos fármacos) são: • Isoforma 3A4/5: Quase metade dos fármacos disponíveis no mercado são metabolizados por esta enzima. • Isoforma 2D/6 • Isoforma 2C8/9 Se houver alteração no conteúdo enzimático, haverá alteração na metabolização dos fármacos (podendo ser tanto favorecendo o metabolismo – e assim eliminando mais rápido e não atingindo o efeito desejado – ou diminuindo o metabolismo – acumulando-se a droga, fazendo com que seja atingida a cmax tolerada e causando quadro de intoxicação). Além das enzimas microssomais, há as enzimas não microssomais responsáveis pela fase 1 também: • MAO (monoaminoxidase): enzima responsável pela degradação de catecolaminas o Há fármacos que modulam a MAO (ex.: antidepressivos - são inibidores de MAO) • Álcool desidrogenase: realiza metabolismo do álcool • Pseudocolinesterase: degrada acetilcolina; está presente na corrente sanguínea. o Inseticidas interferem na pseudocolinesterase. Medicamentos para o Alzheimer também interferem. Enzimas da reação de fase 2: • Glutationa transferase: É importante na detoxificação • Enzima que faz adição do grupamento do glicuronídeo. A adição de um glicuronideo diminui a atividade do fármaco na maioria das vezes. Ex.: Biotransformação do ácido acetilsalicílico: Já no estômago, há a hidrolise (tornando-se ácido salicílico) (1). Parte dele será absorvido e parte será ligada a proteínas plasmáticas para ser distribuída (2). 90% de sua concentração está na forma ligada. Parte dele já será excretada na urina (10%, dependente de pH) em sua forma inalterada (3). Do ácido salicílico, há a formação de metabólitos glicuronideos (4) e adição do grupamento glicina (4) (que facilita a eliminação do ácido acetilsalicílico). 28 A alimentação pode interferir no pH urinário, interferindo no processo de reabsorção de fármacos nos rins (visto que o pH influencia em que fração estará predominantemente o fármaco, ionizada – não sendo reabsorvida – ou não ionizada – sendo reabsorvida). Ex2: Biotransformação do paracetamol. A dose normal causa a formação do metabólito sulfeto, de um glicuronideo e de um intermediário reativo (1). A glutationa transferase é a principal enzima responsável por realizar a detoxificação (retirada dos intermediários reativos produzidos no metabolismo do oxigênio), de modo que a glutationa transferase desativa este intermediário reativo, eliminando-o nos rins (2). O paracetamol pode causar hepatotoxicidade se tomado excessivamente (dose alta ou constantemente), pois forma em excesso os glicuronideos, o sulfato, e o intermediário reativo. Se houver diminuição da concentração da glutationa ou a sua saturação (3) (todas estas enzimas estarem sendo utilizadas devido a um uso prolongado de paracetamol), demorará mais tempo para que os intermediários reativos sejam eliminados. Acumula-se então um metabolito reativo em excesso (4), não havendo glutationa suficiente para eliminá-lo: culmina em uma hepatotoxicidade (5). 29 A hepatotoxicidade pode ocorrer também devido a um consumo exacerbado de álcool combinado com o paracetamol. Isto ocorre pois no 30 metabolismo de ambas as substâncias está envolvida uma mesma isoforma de uma enzima do citocromo P450: a isoforma 2E1. Com isso, ambas as vias de metabolização vão concorrer pela mesma enzima, fazendo com que seja alcançada uma saturação dela e a depuração do intermediário reativo do paracetamol demore mais para ocorrer, culminando em um efeito hepatotóxico. FATORES QUE AFETAM A BIOTRANSFORMAÇÃO • Idade o Redução do volume hepático o Redução do fluxo sanguíneo hepático (15-45%) o Redução na atividade de algumas enzimas microssomais (CYP450) • Fatores genéticos e características metabolizadoras individuais • Fatores patológicos relacionados ao fígado e desnutrição • Fatores ambientais (exposição a poluentes) • Interação medicamentosa (+ importante) o Indução enzimática o Inibição enzimática Idade Deve-se levar em consideração RNs e pacientes idosos. Idosos vão tendo diminuição do tamanho do fígado, do fluxo sanguíneo (em 15-45%) e da capacidade de produção de enzimas metabolizadoras (é um processo natural do organismo). A TFG também vai sendo diminuída (aos 50 anos – há uma redução de 25%; aos 75 anos – 50%). Em um RN a termo, demora-se aproximadamente 8 semanas para que ocorra o metabolismo semelhante/parecido com o adulto. Com 6 meses, a eliminação do recém nascido é o dobro da do adulto (e depois se altera novamente). Como nestes casos é diminuída a metabolização do medicamento, se ele ficar muito no organismo, pode passar a interferir em outros locais. 31 Ex.: Diazepan: se o paciente utiliza o medicamento há vários anos, é necessário realizar a adaptação da dose conforme a idade vai avançando, pois a metabolização pode estar menor, e com isso o fármaco estar se acumulando no organismo. Quando em excesso, um dos efeitos do diazepan é o acometimento da memória. Fatores genéticos e características metabolizadoras individuais Há isoformas em que há polimorfismos genéticos. Devido a isso, há pacientes classificados como metabolizadores rápidos ou metabolizadores lentos. Como consequência, alguns pacientes podem precisar de uma dose maior ou menor do medicamento (dependendo do polimorfismo da enzima). Ex.: Polimorfismo na 2D6 em um paciente que faz uso de codeína. A codeína precisa ser biotransformada para ter efeito analgésico – no caso em que há o polimorfismo, ela não consegue ser biotransformada, de modo que ela não causa o efeito desejado no paciente. Fatores patológicos relacionados ao fígado e desnutrição Doenças como cirrose, insuficiência hepática e desnutrição (influencia também na distribuição) influenciam na metabolização dos fármacos. Fatores ambientais A fumaça do cigarro e o CO (monóxido de carbono) modificam o metabolismo hepático na quantidade de enzimas produzidas. Interação Medicamentosa Ocorre quando um fármaco A interfere na concentração de uma enzima que metaboliza um fármaco B, aumentando ou diminuindo a concentração desta. • Indução enzimática: Imagine um fármaco ativo A e um B. Um fármaco A induz a maior formação de determinada enzima, a qual metaboliza o fármaco B. Se ingerir o fármaco B, ele será metabolizado mais rápido (porque o A fez ter mais enzimas) e eliminado mais rápido – necessita aumentar a dose ou a sua frequência de administração para que ele tenha efeito (alcance a concentração desejada). Isso só acontece se a enzima que A induziu o aumento seja a que metaboliza B. 32 • Inibição enzimática Pode acontecer por uma competição; por um fármaco que se liga/inibe a enzima de degradar outro; e em situações nas quais o fármaco interfere em fatores ou cofatores enzimáticos. Suponha-se um fármaco A e um fármaco B. O fármaco A, por um dos mecanismos citados acima, realiza a inibição enzimática do fármaco B. A diminuição de enzimas capazes de metabolizarem B faz com que o fármaco B não seja metabolizado e fique mais tempo no organismo (podendo até mesmo alcançar a Cmax tolerada). Neste caso, deve-se diminuir a dose e diminuir a frequência de administração (tomar mais distanteum do outro). O fármaco que vai ser metabolizado mais rapidamente é o que tem maior afinidade pela enzima. Ex.: Ciclosporina é imunossupressor, sendo utilizado, por exemplo, em casos de transplantes (para evitar a rejeição). Com este efeito, o organismo fica susceptível a ter um quadro infeccioso (por fungos, por exemplo). 33 • Ao se tomar um antifúngico (itraconazol), que é um inibidor enzimático da enzima que metaboliza a ciclosporina, há uma diminuição da metabolização da ciclosporina e seu acumulo no organismo, o que pode levar a um quadro indesejável de nefrotoxicidade. • Se for utilizada Erva de São Joao, que é um indutor enzimático da enzima que metaboliza a ciclosporina, aumenta-se o metabolismo da ciclosporina, de modo que ela é rapidamente degradada e eliminada, havendo então uma suspensão do efeito imunossupressor e causando- se uma rejeição ao transplante (que foi o motivo que levou ao uso da ciclosporina). Há alguns anticonvulsivantes que aumentam a sua própria metabolização (exigem reajuste periódico). Nestes casos, o próprio fármaco realiza indução para si mesmo (normalmente isso não acontece, sendo geralmente um fármaco A que interfere na concentração da enzima que metaboliza um fármaco B). • A enzima que A induz o aumento da produção não necessariamente é a que o metaboliza ex.: droga A induz o aumento de 2D6 mas é metabolizada pela enzima 3A4/5. Em nem toda indução ou inibição enzimática haverá a necessidade de adaptação da posologia: se ainda estiver dentro da faixa terapêutica, não há a necessidade de adaptação. 34 PRÓ-FARMACO É uma substancia inativa que, ao ser metabolizada no organismo, dará origem ao fármaco/forma ativa. Dentre os motivos que levam o fármaco a ser ministrado assim, estão as possibilidades de o fármaco não atravessar a barreira hemato-encefálica em sua forma ativa ou não ser solúvel na forma ativa, sendo ministrado então na forma de pró-fármaco. A questão de inibição e indução enzimática será o contrário com o pró- fármaco. A indução levará a um aumento do efeito: causará um aumento da metabolização que causa a transformação da pró-droga em droga ativa (levando a um aumento da concentração plasmática e chegando a um efeito exagerado e tóxico). Nestes casos, é necessário diminuir a dose ou a frequência (é o contrário). No processo de inibição enzimática, não é possível que ocorra a transformação do pró-farmaco na forma ativa, havendo pouca concentração da forma ativa na corrente sanguínea e menor efeito. Para corrigir, deve-se trocar de fármaco utilizado, dando um fármaco ativo ao invés de uma pró-droga. 35 A dopamina não é capaz de atravessar a barreira hematoencefálica. Por isso, é ministrada a pro-droga (levodopa), pois ela consegue atravessar a barreira, sendo convertida em dopamina no SNC (é utilizada em casos de Doença de Parkinson). Se o paciente possuir um problema hepático, é preferível se prescrever um fármaco em forma ativa (para que não seja necessária a sua metabolização hepática e se alcance melhor efeito no organismo). Ex.: Prednisona → Prednisolona (se houvesse insuficiência hepática, prescrever a prednisolona diretamente por ser a droga ativa). CLEARANCE – ELIMINAÇÃO: DEPURAÇÃO DE FÁRMACOS E METABÓLITOS A depuração é o parâmetro farmacocinético fundamental que descreve a eliminação. A eliminação pode ser feita por meio da: • Eliminação biliar e circulação entero-hepática • Excreção fecal • Excreção renal (a principal) • Eliminação pulmonar • Outras formas: saliva, leite materno, suor, lágrimas. CL total = CL hepático + CL renal + CL pulmonar + CL outros (a eliminação total considera as diferentes formas de eliminação de fármaco) A depuração define a taxa de eliminação do fármaco. É calculada por: Depuração = Cp (concentração plasmática) x CL total O clearance é o principal parâmetro na administração de fármacos a longo prazo. É calculado da seguinte forma: O volume de distribuição interfere no tanto que será eliminado (se Vd é maior, tem pouco no sangue, sendo menos eliminado). OBS: a fórmula é invertida, não dá para tratar como grandezas diretamente proporcionais como está mostrando (ex.: se aumenta o Vd, o CL diminui, e não aumenta). 36 Eliminação biliar e circulação entero-hepática Há fármacos que não são metabolizados no fígado e são eliminados pela bile. Primeiramente, o fármaco é ingerido por VO (1), e, ao chegar ao intestino (2), é absorvido e levado para o fígado (metabolismo de 1ª passagem) (3). Por vezes, o fármaco que chega ao fígado é então transformado em uma substância polar para ser excretado pelos rins (7). Todavia, outros são conjugados com ácido glicurônico (3) e parte é eliminada pela bile (4), voltando para o intestino em seguida (5). Ao chegar ao cólon, o fármaco fica novamente apolar (6). Isso ocorre pois algumas enzimas produzidas por bactérias enterais quebram o grupamento glicuronideo, de modo a fazer com que o fármaco volte a ter uma certa atividade e se torne lipofílico. Deste modo, o fármaco é reabsorvido e continua a fazer feito no organismo durante mais tempo. A eliminação biliar geralmente acontece quando o fármaco é muito lipossolúvel – passa pelo fígado, não sendo capaz de ocorrer uma modificação para que ele alcance uma hidrossolubilidade suficiente para ser eliminado na corrente sanguínea, sendo então excretado com a bile. Apenas uma pequena fração fica na forma polar (hidrossolúvel), sendo que o restante fica na forma lipofílica. 37 O fármaco fica nesta circulação e vai sendo eliminado aos poucos, possuindo efeito prolongado no organismo. Excreção renal É dividida em 3 etapas: 1. Filtração glomerular: só é filtrado o fármaco em sua forma livre. Há influencia também do peso molecular (tamanho) – moléculas muito grandes não são filtradas. 2. Secreção ativa do fármaco: no TCP. Há gasto de energia contra um gradiente de concentração – utiliza-se proteínas de transporte (devido a isso, pode haver problemas de competição entre os fármacos). 3. Reabsorção passiva do fármaco: no TCD e no TCP. Vai do local mais concentrado (lúmen em que forma a urina) para o local menos concentrado (sangue). Substâncias lipossolúveis são as que conseguem ser reabsorvidas, assim como o fato de ser ionizada ou não ionizada (o que é influenciado pelo pH da urina). Eliminação do fármaco = metabolismo + excreção Principais fatores interferentes na eliminação renal: próxima aula. OBS: Contraceptivos orais podem passar por este processo. Ao se tomar antibióticos e atacar as bactérias da micorbiota intestinal, não é produzida a enzima para quebrar o glicuronideo, de modo que o contraceptivo não consegue voltar a ser ativo, sendo eliminado ao invés de voltar para a circulação (perde seu efeito). 38 ELIMINAÇÃO RENAL Medusa - 86 Fatores interferentes: 1. Filtração Glomerular a. Fração livre do fármaco • Só é filtrado o que está na forma livre b. Peso molecular • A molécula não pode ser muito grande (senão não consegue ser filtrada) c. Fluxo sanguíneo • Se está diminuído (ex.: em uma ICC), há menor TFG. Se está aumentado, há maior TFG. d. TFG – Clearance de creatinina (variável com a idade). Levar em consideração que: • Começa a diminuir com 20 anos, chegando a 50% da efetividade aos 75 anos. Está aumentada na gestante. • Creatinina: praticamente totalmente filtrada e quase não reabsorvida. Realiza-se a relação entre a creatinina urinária e a plasmática para se obter o clearence da creatinina • Idosos vão possuindo a sua concentração de creatinina diminuída naturalmente • Se alterada a TFG, há alteração na eliminação do fármaco. 2. Secreção Tubular Ativa a. Transportadores (OCT, OAT) – proteínas que possibilitam que substâncias com determinada carga sejam eliminadas. i. OCT: Transportadoresde cátions orgânicos ii. OAT: Transportadores de ânions orgânicos b. Saturação e Competição (fármaco excretado ou reabsorvido) i. Problemas sobre as proteínas transportadoras dos íons: 1. A proteína pode ficar saturada (limitando a eliminação do fármaco) 2. Quando há competição entre substâncias/fármacos que são eliminados pela mesma proteína. a. Ex.: ácido úrico é constantemente eliminado por OAT. Se começa a tomar diurético como Furosemida, ela começa a competir pela mesma proteína (OAT), de modo que o ácido úrico passe a ser retido na corrente sanguínea para que a furosemida seja eliminada. Há urocemia como efeito colateral. 3. Reabsorção tubular passiva a. pH da urina 39 i. Como para ser absorvido o fármaco deve estar na forma NI, para ser eliminada a molécula deve estar ionizada. O pH influencia nessa dinâmica de mudar a quantidade ionizada e não ionizada ii. Ex.: Se o medicamento possui um pKA ácido (como o Fenobarbital mostrado abaixo), ao ser colocado em um pH alcalino, ele ficará mais em sua fração ionizada, possuindo uma maior depuração e eliminação Doenças que interferem na eliminação renal: 1. ICC, choque cardiogênico e choque séptico: devido à diminuição do fluxo sanguíneo, há diminuição na eliminação renal 2. Insuficiência Renal: Importante ser considerada no momento de administrar o fármaco, analisando se ele possui majoritariamente excreção renal. Deve-se levar em consideração a TFG do paciente e se o fármaco possui uma pequena janela terapêutica (se possuir, qualquer pequena alteração na concentração para cima leva a um efeito tóxico). Além disso, se o fármaco for de grande fração polar, há eliminação direta pelo rim (não passa pelas fases 1 e 2 da biotransformação) – se estiver comprometido por uma insuficiência renal, não vai ser eliminado e vai começar a ser acumulado. Deve haver um ajuste da dosagem de acordo com a função renal (observada pelo clearance da creatinina, que diz sobre a TFG). Um exemplo de fármaco que possui eliminação direta pelo rim (em grande parte) é a digoxina. Tempo de meia vida Tempo necessário para que uma grandeza se reduza à metade. É importante para saber quando se vai alcançar a concentração plasmática de equilíbrio e para contar o período de tempo necessário para que o fármaco seja eliminado do organismo. 40 Em 3,3 tempos de meia vida, há 90% do fármaco eliminado do organismo (1 tempo:50%;2 tempos:75%; 3 tempos:87,5%, e assim por diante). Um fármaco geralmente é eliminado totalmente do organismo em média após 4 a 6 meia- vidas. Toda vez que se altera o tempo de ½ vida, altera-se o tempo para ser alcançada a concentração de equilíbrio plasmático (equilíbrio na quantidade entre o fármaco que está entrando e o fármaco que está saindo – mantido dentro da faixa terapêutica) e o tempo para eliminação. Na concentração de equilíbrio plasmático, o gráfico da eliminação é igual ao da absorção (se for invertido). Isso ocorre pois também se leva de 4 a 6 meia vidas para se chegar na concentração de equilíbrio plasmático. Isso ocorre seguindo-se a seguinte lógica do exemplo abaixo: • Dia 1: se ingere 100g do fármaco, mas ao decair a ½ vida, o saldo total é de 50g. • Dia 2: se ingere mais 100g do fármaco, que se somarão aos 50g do dia anterior, resultando em 150g. Ao decair a ½ vida, o saldo total é de 75g. • Dia 3: se ingere mais 100g do fármaco, que se somarão aos 75g do dia anterior, resultando em 175g. Ao decair a ½ vida, o saldo é de 87,25g, e assim por diante. 41 Isso descrito acima só ocorre se for mantida a ingestão do fármaco. Se ela for cessada, o fármaco será eliminado em 4-6 tempos de ½ vida A concentração plasmática de equilíbrio é inversamente proporcional à depuração (se diminui a eliminação do fármaco, a concentração plasmática de equilíbrio aumenta). A depuração é o Clearance total: considera todas as formas de eliminação do fármaco, não só a renal. Fatores que afetam o tempo de meia vida: interferem no tempo para se alcançar a concentração plasmática de equilíbrio. A concentração plasmática de equilíbrio é o que é objetivado nos tratamentos a longo prazo (se for menos do que ela, não tem a ação terapêutica; se for mais do que ela, tem efeito tóxico). 1. Volume de distribuição a. Envelhecimento causando diminuição da massa muscular: distribui menos o fármaco, ficando mais no sangue e sendo eliminado mais rapidamente: diminui a meia-vida. b. Obesidade: há mais tecido adiposo. Se o fármaco for lipossolúvel, ficará mais distribuído e menos no sangue, aumentando o volume de distribuição. Como não está no sangue, não é eliminado: aumenta o tempo de meia vida c. Presença de líquido patológico: Há mais um líquido para que o fármaco seja distribuído: aumenta o volume de distribuição. Se não está no sangue, tem dificuldade para ser eliminado, aumentando o tempo de meia vida 2. Depuração a. Indução do p450: fármaco é metabolizado mais rapidamente, sendo eliminado mais rápido e diminuindo o tempo de ½ vida b. Inibição do p450: contrário do acima, aumenta o tempo de ½ vida c. ICC: Relacionado ao aporte de fluxo sanguíneo: quanto menos sangue estiver chegando ao fígado e aos rins, menos fármaco estará sendo metabolizado – há portanto maior tempo de meia vida d. Insuficiencia hepática e renal: o mesmo do acima Todos estes fatores interferem no ajuste posológico, necessitando alteração da dose e da frequência de acordo com a alteração do tempo de ½ vida. PROCESSO DE DEPURAÇÃO A depuração permite calcular a velocidade de administração necessária para atingir a dose alvo (concentração plasmática de equilíbrio: quando a taxa de entrada do fármaco é igual à taxa de saída). A depuração consiste na retirada de toda ação e de toda concentração de fármaco no organismo. Depuração = (metabolismo + excreção)/fármaco no plasma 42 REGIMES POSOLÓGICOS A – Dosagem ideal: começa a tomar as doses, sendo que apenas a partir da segunda começa a ter o efeito terapêutico. Apenas a partir da terceira começa a estar dentro da faixa terapêutica totalmente. Em média de 4 a 6 meia-vidas (após 4 a 6 doses), é alcançada a concentração de equilíbrio plasmático. C - Dosagem tóxica: A concentração ultrapassa a faixa terapêutica, trazendo efeito tóxico. Pode ocorrer, por exemplo, em pacientes com alguma doença que interfira na eliminação (ex.: insuficiência hepática/renal/cardíaca) D – Dosagem subterapêutica: não se alcança a faixa terapêutica com as dosagens administradas. Pode estar havendo uma indução enzimática B - Dose de ataque: é utilizada em fármacos de tempo de meia vida longo, quando se é desejado que o medicamento possua ação rápida em determinada situação. A dose de ataque é usada para se chegar mais rápido na concentração plasmática de equilíbrio. Após ela, deve-se manter a concentração plasmática de equilíbrio por meio de doses de manutenção. • A velocidade de administração não interfere no tempo de 1/2 vida do fármaco, mas faz com que se chegue mais rapidamente ou mais lentamente à concentração de equilíbrio plasmático. Se for administrada a mesma quantidade, mas em um indivíduo administra lentamente e no outro mais rapidamente: será mudada a concentração plasmática de equilíbrio, e não a meia vida – o que está sendo administrado mais lentamente, está sendo eliminado em uma velocidade semelhante à da administração, o que faz com que ele demore mais para se alcançar a concentração plasmática de equilíbrio. O que está sendo administrado 43 mais rapidamente não consegue ser eliminado na mesma velocidade, chegando na concentração plasmática de equilíbrio mais rapidamente. Dose de ataque = (Vd x Conc plasmática desejada)/biodisponibilidade do fármaco. Após se realizar a dose de ataque e se chegar na faixa terapêutica, há as doses de manutenção (o que é necessáriopara se manter o fármaco na faixa terapêutica – são dadas em menor concentração do que na de ataque). Na dose de ataque, é administrado em maior concentração para não se esperar todo o tempo de meia vida necessário para se chegar na faixa terapêutica. REGIMES POSOLÓGICOS Esquemas específicos: • Semelhantes a infusões contínuas: estratégia em que se visa dar menores doses da medicação em mais do que uma vez ao dia, para evitar grandes oscilações na concentração. o Em vermelho, foi dada uma dose maior, mas apenas 1 vez ao dia: causou uma maior variação, podendo ultrapassar a concentração máxima tolerada e causar efeitos tóxicos. Em azul, foi dada uma menor dose, mas 2 vezes ao dia: houve menor variação, havendo menor chance de se atingir a concentração máxima tolerada. No caso azul, houve uma situação semelhante a uma infusão contínua, causando menores oscilações. o O problema do esquema azul é que menores doses mais vezes ao dia normalmente significam menor adesão ao tratamento. Para solucionar este problema, deve-se ministrar fármacos de liberação 44 prolongada (precisando tomar apenas 2 vezes ao dia, não causando grandes oscilações) • Dose simples fixa: casos em que se toma um medicamento em dose única devido a algum desconforto esporádico, não sendo objetivado que o fármaco permaneça durante um maior período de tempo no organismo. Resulta em um único pico na concentração (linha azul abaixo). É o que acontece com medicamentos que tomamos em apenas uma dose devido a uma dor de cabeça, cólica menstrual, etc. 45 FARMACODINÂMICA Medusa – 86 A farmacodinâmica estuda o mecanismo de ação dos fármacos e seus efeitos no organismo. Trabalha a interação do fármaco com o alvo de ação. Não existem fármacos 100% ideias. O fármaco ideal apresentaria: • Seletividade: se ligaria apenas a um alvo de ação específico. • Eficácia: é a capacidade de produzir um efeito terapêutico. A partir do momento que o fármaco se liga ao seu alvo de ação, deve provocar uma resposta no organismo e produzir o efeito desejado. Como os fármacos não possuem 100% de seletividade, muitas vezes há reações adversas. O ideal seria que estas reações adversas não ocorressem. • Segurança: quanto menos efeitos adversos provocados, maior a segurança do fármaco. • Efeito reversível: o ideal seria que todos os fármacos possuíssem um antídoto para que, caso houvesse um efeito adverso tóxico/prejudicial, houvesse um antídoto para se retornar o organismo à normalidade. • Fácil administração: os pacientes não aderem facilmente a um tratamento se a via de administração for difícil. A VO é uma das vias de maior comodidade para a administração dos fármacos • Baixa interação: com outros fármacos, alimentos, etc. Quando a interação for baixa, haverá maior biodisponibilidade do fármaco também. AFINIDADE E EFICÁCIA • Afinidade: tendência de ligação do fármaco ao seu alvo. Quanto maior a afinidade, mais fácil será a ligação do fármaco ao alvo e mais facilmente ocorrerá uma resposta farmacológica. • Eficácia: capacidade do fármaco, uma vez ligado ao seu alvo farmacológico, de ativar ou inibir uma resposta, ou seja, de produzir o efeito terapêutico desejado. TIPOS DE AÇÃO DOS FÁRMACOS Fármacos de ação inespecífica Não há ligação a um alvo molecular, de modo que o seu efeito depende das propriedades físico-químicas da substância (como solubilidade, grau de ionização, poder de oxirredução e tensão superficial). Ex.: mecanismo de ação de anti-ácidos. Este medicamento simplesmente altera o pH estomacal, mas não se liga a nenhum alvo em específico. 46 Fármacos de ação semi—específica Possuem alvo de ação, mas ele não é tão diferenciado como nos fármacos de ação específica. Ex.: ação sobre íons. Há alguns fármacos que agem sobre alguns íons, mas muitas vezes não especifica o íon em si, e sim apenas a sua valência. Exemplo disso é o quelante de cálcio. Este medicamento possui especificidade por cátions divalentes (com isso, ele não quela apenas o cálcio, mas também o magnésio e qualquer outro cátion divalente). Age sobre íons divalentes, mas não diferencia exatamente qual o íon. Fármacos de ação específica: São os mais estudados e mais comuns. Estes fármacos possuem alta seletividade pelo alvo. A atividade farmacológica depende da interação da substância com o sítio de ligação. ALVOS FARMACOLÓGICOS Há 4 tipos de alvos farmacológicos proteicos para a ação dos fármacos: A. Receptores São os alvos mais importantes. Os fármacos que se ligam a receptores são divididos em agonistas ou antagonistas. • Agonista: fármaco que provoca determinados efeitos intracelulares ao se ligar ao receptor. 47 • Antagonista: fármaco que não provoca efeitos intracelulares ao se ligar ao receptor. Normalmente é administrado para impedir o efeito de um agonista (ocupa o receptor para o agonista não se ligar). o Ex.: Buscopan (principio ativo: escopolamina) B. Canais iônicos Há tanto fármacos que são bloqueadores de canais iônicos, quanto fármacos que modulam a abertura e o fechamento de canais iônicos. C. Enzimas Há fármacos que se ligam a enzimas e fazem com que elas parem as suas atividades (inibem a enzima). Ex.: Aspirina (se liga na ciclo-oxigenase de maneira irreversível e a enzima fica inibida, não conseguindo mais ter a sua ação de transformar ácido araquidônico em prostaglandina, prostaciclina e tromboxano) Há fármacos que funcionam como um falso substrato, de modo que passam a agir como inibidores competitivos da enzima. Assemelha-se a um substrato, mas quando se liga à enzima, inibe-a. Alguns fármacos se ligam a enzimas e a enzima acaba produzindo outro metabólito diferente (que não é utilizado pelo organismo ou que possui outra ação farmacológica). Há também os pró-fármacos: substâncias inativas que, ao serem metabolizadas no organismo, produzirão o fármaco ativo. Ex.: Enalapril vira enalaprilat, que inibe a ECA. D. Transportadores A partir da ligação do fármaco no transportador, ele deixa de transportar o que estava normalmente transportando. Ex.: Diuréticos de alça se ligam à proteína transportadora responsável pela excreção de ácido úrico. Devido a isso, os pacientes que tomam diuréticos de alça acabam tendo a excreção de ácido úrico prejudicada. 48 RECEPTORES Há 4 subtipos de receptores: Tipo 1: Canais iônicos controlados por ligantes Os receptores de tipo 1 são os canais iônicos controlados por ligantes. É um receptor de membrana. A partir do momento em que há a ligação do princípio ativo ou do neurotransmissor, há processos de hiperpolarização ou despolarização, levando aos efeitos celulares. Ex.: Receptor nicotínico e acetilcolina. A transmissão de impulso nervoso rapidamente libera acetilcolina, que se liga ao receptor nicotínico na placa motora e causa despolarização, causando a contração do músculo esquelético. Os canais iônicos possuem mecanismos de ação extremamente rápidos (ocorrendo em cerca de milissegundos). O receptor nicotínico é um receptor pentamérico (formado por 5 subunidades) 49 Os receptores são formados por subunidades (ex.: o receptor nicotínico é formado por 5, sendo então pentamérico). As subunidades podem ser α, β, γ ou ε. A grande maioria dos receptores possui a subunidade alfa e a subunidade beta. Há alguns receptores nicotínicos que apenas apresentam a subunidade alfa. A acetilcolina se liga à subunidade alfa. Se o receptor for formado por duas subunidades alfa, são necessárias 2 acetilcolinas para abri-lo. Quando o canal é aberto, entra sódio e sai potássio. Isto leva a célula a um processo de despolarização, causando uma excitação neuronal. Estes receptores nicotínicos estão presentes na placa motora, nos gânglios, na adrenal e no SNC. Há tanto canais iônicos controladospor ligantes (que são os receptores) quanto os controlados por voltagem (controlados por variações no potencial de membrana – não são receptores). Tipo 2: Receptores acoplados à proteína G (metabotrópicos) Os receptores acoplados à proteína G estão muito presentes no SNA. São também conhecidos como metabotrópicos devido a utilizarem sistemas com a presença de segundos mensageiros. O receptor também está presente na membrana. É heptahelicoidal (passa 7 vezes pela membrana). Próximo ao receptor, há a proteína G. Quando o fármaco se liga ao receptor, este último sofre uma mudança conformacional, ativando a proteína G. Quando ativada, a proteína G pode agir sobre canais iônicos (que alteram a excitabilidade e levam a efeitos celulares) ou sobre enzimas (que vão levar à ativação ou à modulação da atividade do segundo mensageiro, provocando a fosforilação de proteínas, a liberação de cálcio, ou outras atividades, que levam a efeitos celulares). 50 Toda a cascata de reações e segundos mensageiros demora um pouco mais para ocorrer, se comparado aos receptores de tipo 1. Enquanto os do tipo 1 demoram milissegundos para ter o efeito final, os de tipo 2 demoram segundos para alcança-lo. Após ser ativada, a proteína G pode ter ação sobre canais iônicos ou sobre enzimas. Ao agir sobre um canal iônico, ela pode tanto ativar quanto inibir um canal. Ex.: Ativar abertura de canal de K+, causando hiperpolarização/ inibir a abertura de um canal de cálcio. O mecanismo geral da proteína G ocorre da seguinte forma: o receptor está inicialmente em estado de repouso. A partir do momento em que há um agonista se ligando ao receptor, há uma mudança conformacional no receptor, que faz com que ative a proteína G. Esta mudança consiste na troca do GDP pelo GTP. A partir do momento em que ocorre esta mudança, a proteína G passa por um processo de dissociação: ela é composta por 3 subunidades (alfa, beta e gama), e quando ocorre a troca do GDP pelo GTP, ocorre a separação de subunidades. A subunidade alfa se solta e vai então ativar a enzima. Quando 51 ocorre esta ativação, a subunidade alfa provoca a hidrolise do GTP, de modo que ele volte a ser GDP e todo o receptor volte a ficar no estado de repouso. A proteína G é recomposta após a lise do GTP. A subunidade alfa pode tanto ativar quanto inibir a enzima. Subtipos da subunidade alfa: O que define qual é a enzima que será ativada/inibida é o tipo da subunidade alfa (pois é ela que se desloca para ativar a enzima). • Alfa GI: inibe a adenilato ciclase, diminuindo o AMPc e levando a determinadas ações no organismo • Alfa GS: ativa a adenilato ciclase, aumentando AMPc e ativando a proteína cinase de tipo A, levando à fosforilação de proteínas. 52 • Alfa GQ: ativa a fosfolipase C, que quebra o bi-fosfato inositol, gerando o tri-fosfato inositol e o diacilglicerol. O tri-fosfato inositol atua sobre o retículo endoplasmático, abrindo canais de cálcio intracelulares. O diacilglicerol ativa proteína cinase do tipo C ativa (a qual, junto do cálcio, realiza a fosforilação de algumas proteínas). o Cálcio intracelular: leva à contração da musculatura lisa parassimpática. ▪ Acetilcolina, ao se ligar em receptor muscarínico, causa contração da musculatura lisa visceral via esse sistema ▪ Mediadores adrenérgicos, ao se ligarem em receptores alfa- 1 adrenérgicos presentes no sistema simpático, causam vasoconstrição por meio desse mecanismo. 53 Muitas vezes, um mesmo mediador/fármaco causa ações opostas. Exemplo disso é a adrenalina, que causa efeitos diferentes ao se ligar a um receptor alfa-2 e ao se ligar a um receptor beta-1. Ao se ligar no alfa-2, causa inibição da adenilato ciclase, e ao se ligar no receptor beta-1 causa ativação da adenilato ciclase. Muitas vezes, o organismo é controlado por uma ação integrada de receptores que têm efeitos opostos. Tipo 3: Receptores ligados a quinases Este tipo de receptor também está ancorado à membrana. Todavia, ele possui 2 domínios: um domínio extracelular (onde se liga o fármaco), que está conectado a um domínio intracelular (normalmente, é o domínio intracelular que leva ao desenvolvimento de uma cascata de reações bioquímicas que provocam os efeitos celulares). Este tipo de receptor está conectado a uma enzima. Ex.: receptores da insulina, de fatores de crescimento e de citocinas Este mecanismo pode demorar horas para atingir o seu efeito final. 54 O mecanismo geral dos receptores ligados a quinases ocorre da seguinte forma: primeiramente, um fármaco/mediador se liga ao domínio extracelular. Depois disso, ocorre a dimerização do complexo receptor + ligante. A partir do momento em que há a duplicação, ocorre uma auto-fosforilação de resíduos de tirosina. Quando ocorre essa fosforilação, há a ligação de uma proteína aceptora ao domínio intracelular. A partir do momento em que ocorre a ligação do aceptor (que possui domínio SH2) ao resíduo fosforilado, o aceptor passa a ser fosforilado e há o desencadeamento de uma cascata de reações, as quais levam ao processo de transcrição gênica e de síntese de proteínas. Tipo 4: Receptores nucleares Diferentemente dos outros receptores que estão na membrana, este está dentro da célula. Para o fármaco chegar até o receptor, ele deve ter características de lipossolubilidade para atravessar a membrana plasmática. Ex.: receptores relacionados com hormônios da tireoide, com estrogênio e esteróides. Pode demorar horas, dias ou semanas para ter o efeito. O principio ativo precisa possuir característica de lipossolubilidade e não pode ser muito grande, já que ele se difunde através da membrana para encontrar receptor intracelular (o qual pode estar tanto no citoplasma quanto no interior do núcleo). O mecanismo geral dos receptores nucleares ocorre da seguinte forma: a partir do momento em que ocorre a ligação do princípio ativo com o receptor, ocorre uma mudança conformacional no receptor (uma proteína 55 repressora do processo de transcrição gênica se solta dele). Ao se soltar, o receptor agora é capaz de ir para o núcleo, sofrer um processo de dimerização, se conectar ao DNA e conseguir alterar ou positivamente ou negativamente o processo de transcrição gênica. (saindo agora dos tipos de receptores e voltando a outras características dos receptores em si) INTERAÇÃO FÁRMACO-RECEPTOR O gráfico abaixo é de dose-efeito ou dose-resposta. A partir do momento em que o fármaco se liga ao seu receptor, causa um determinado efeito no organismo. Esse efeito pode sofrer influência de outras substâncias. Pode haver uma resposta aumentada se, junto do agonista, estiver sendo ministrado um ativador alostérico. O ativador possui o seu próprio sítio de ligação na molécula. Quando ele se liga, facilita a ligação do agonista. Juntos, eles aumentam ou melhoram a resposta farmacológica no organismo. Todavia, há também os inibidores alostéricos. Ao se ligarem aos receptores, os inibidores alostéricos provocam uma mudança conformacional que diminui a afinidade do agonista pelo receptor. Os inibidores competitivos são substâncias que competem com o agonista pelo mesmo sítio de ligação no receptor, e sua ligação causa uma resposta diferente no organismo. 56 Agonistas e antagonistas O agonista é um ligante (um fármaco) que, ao se ligar ao receptor, é capaz de ativar os mecanismos celulares e produzir um efeito (resposta). O antagonista é um ligante (um fármaco) que, ao se ligar ao receptor, não é capaz de ativar os mecanismos celulares e produzir um efeito (resposta intracelular). Ele reduz a ação do agonista. Quem promove o efeito é o agonista. Quem impede o efeito é o antagonista. 57 Sobre a imagem acima: • No primeiro desenho observa-se a situação fisiológica: um químico natural, intrínsecoao organismo, se liga a um receptor, causando uma atividade celular normal. • No segundo desenho, observa-se a administração de uma droga agonista. Esta droga também se liga ao receptor, provocando um aumento da atividade celular. A droga agonista pode ter sido prescrita, por exemplo, caso a via fisiológica do primeiro desenho estivesse comprometida ou com algum déficit dos químicos naturais intrínsecos. o Agonista = atividade intrínseca (constitutiva) > 0 • No terceiro desenho, observa-se a administração de um antagonista. Diferente do agonista, esta droga se liga ao receptor, mas não desencadeia resposta celular com a sua ligação. Com isso, o antagonista impede a ação do agonista e diminui o funcionamento da via fisiológica em questão. Pode ser prescrito em situações em que o químico intrínseco do indivíduo esteja em uma quantidade aumentada ou apresentando efeito muito exacerbado, visando normalizar a resposta. o Antagonista = atividade intrínseca (constitutiva) = 0. Isso quer dizer que o antagonista em si não causa nenhum efeito na célula, e não que ele vai zerar a atividade intrínseca AGONISTAS Tipos de agonistas: • Agonista total: é aquele que, ao se ligar ao receptor, produz o efeito máximo • Agonista parcial: é aquele que, ao se ligar ao receptor, produz uma resposta submáxima (não é capaz de produzir o efeito máximo) • Agonista inverso: é aquele que, ao se ligar ao receptor, produz uma diminuição no nível de ativação do receptor, diminuindo o efeito celular, e, por consequência, o efeito biológico No gráfico, o antagonista se mantém em uma linha reta pois ele causa nenhuma atividade celular ao se ligar, de modo que o metabolismo celular permanece 58 inalterado após a sua ligação (o gráfico não mostra efeito sistêmico, mas sim efeito celular). A existência dos diferentes tipos de agonistas se deve à presença de 2 tipos de estados de receptores: Receptores no estado inativo e receptores no estado ativo. • O agonista total possui alta afinidade pelo receptor no estado ativo (e por isso ele alcança o efeito máximo). • O agonista parcial possui ação sobre o receptor ativo e sobre o receptor inativo, possuindo uma preferência maior por se ligar ao receptor ativo (e com isso ainda apresenta efeito aumentado, só não é máximo). • O agonista inverso possui uma preferência em se ligar ao receptor em estado inativo (mas ainda se liga um pouco ao ativo, que é o que causa esse pequeno efeito e faz com que ele não zere). O antagonista pode se ligar tanto no ativo quanto no inativo (possui igual afinidade), mas ele não vai provocar alteração no receptor ao se ligar (não vai nem aumentar os mecanismos intracelulares, como o total e o parcial, nem diminuí-los, como o inverso). A parte superior do esquema acima mostra que, o receptor ativo, mesmo sem a presença do fármaco, já possui um pequeno efeito. Mas, quando o fármaco se liga, esse efeito aumenta. 59 Em alguns gráficos, a curva do antagonista pode apresentar uma pequena inclinação, mas sempre fica próximo de uma linha reta. Depende da atividade constitutiva. Eficácia x Potência • Eficácia: capacidade do fármaco em ativar ou inibir uma resposta após a ligação do fármaco ao receptor. Termo que expressa o grau em que diferentes agonistas produzem respostas variadas, mesmo ocupando a mesma proporção de receptores • Potência: está relacionada à dose ou à concentração do fármaco que produz aquele determinado efeito. Termo que expressa a quantidade necessária do fármaco para produzir determinado efeito. o Quanto menor a concentração do fármaco necessária para produzir certa resposta, maior a potência do mesmo. o No gráfico, o fármaco A alcançou o efeito biológico máximo (100% da resposta). O mesmo ocorre com o fármaco B (por isso ambos possuem a mesma eficácia). Tanto o A quanto o B são fármacos eficazes. Eles diferem entre si na potência: o fármaco B precisa de uma quantidade maior para ter a mesma eficácia que o fármaco A. o Ao se analisar a potência, é determinado o CE50. O CE50 é a concentração do fármaco capaz de produzir 50% do efeito máximo (sendo que o efeito máximo varia para cada fármaco, podendo ser 100% como em A ou 50% como em C). o Para o fármaco A produzir 50% do efeito máximo, ele precisa de uma menor concentração do que o fármaco B precisa para produzir 50% de seu efeito máximo. Devido a isso, o fármaco A é mais 60 potente do que o fármaco B, apesar de ambos possuírem a mesma eficácia. o O fármaco C possui menor potência e menor eficácia tanto em relação ao fármaco A quanto em relação ao fármaco B. ANTAGONISTAS De maneira geral, os antagonistas impedem a ação dos agonistas. Há dois tipos de antagonistas: os antagonistas competitivos e os antagonistas não competitivos. • Antagonista competitivo: tanto o agonista quanto o antagonista competem pelo mesmo sítio de ligação. O antagonista se liga no sítio, e como ele fica ocupado, o agonista não consegue se ligar. Os antagonistas competitivos podem ser: o Reversíveis: a partir do momento em que se aumenta a concentração do agonista, é possível se deslocar o antagonista do receptor e reestabelecer a ligação do agonista e, consequentemente, o efeito biológico. o Irreversíveis: mesmo com o aumento da concentração, não é possível se deslocar o antagonista do receptor. Isto ocorre pois o antagonista possui maior afinidade pelo receptor do que o agonista; • Antagonista não competitivo: este tipo de antagonista não compete com o agonista pelo mesmo sítio de ação, se ligando a um sítio diferente. Todavia, esta ligação impede que ocorra uma resposta biológica. Pode acontecer que a ligação do antagonista impeça a mudança conformacional do receptor quando o agonista se liga, ou que o antagonista, ao se ligar, mude a conformação do receptor, de modo a dificultar a ligação do agonista ao seu sítio de ligação. O gráfico dose-resposta de um agonista na presença de um antagonista fica da seguinte forma: 61 No primeiro gráfico, mostra-se o efeito de um antagonista competitivo reversível. A primeira curva é a curva que mostra a ação somente do agonista. A segunda curva é a curva que mostra o efeito do agonista + antagonista. A segunda curva só consegue alcançar a mesma % de resposta do que a primeira curva se for aumentada a concentração do agonista (pois assim ele vai conseguir deslocar o antagonista do receptor e continuar com o efeito biológico). A curva dose-resposta é deslocada para a direita, sem alteração da inclinação ou do efeito máximo. Diminui-se a potência do agonista, sem afetar a eficácia. No segundo gráfico, mostra-se o efeito de um antagonista não competitivo. A primeira curva mostra novamente o efeito do agonista na ausência do antagonista. A segunda curva mostra o efeito do agonista + antagonista não competitivo. Com a presença do antagonista não competitivo, ocorre uma redução da eficácia: não adianta se aumentar a dose do agonista, pois ele não vai ter efeito sobre a ligação do antagonista (já que eles estão ligados a sítios diferentes). Há uma redução da eficácia, mas há a mesma potência (lembrando que o CE50 é sempre calculado em função do efeito máximo que o fármaco produz, e observe que o efeito máximo mudou na segunda curva). O gráfico de um antagonista competitivo irreversível ficaria semelhante ao segundo gráfico, visto que mesmo com o aumento da concentração do agonista, não seria possível se deslocar o antagonista do sítio de ligação e se reestabelecer o efeito. 62 Estes antagonistas mencionados acima são os referentes ao antagonismo de receptores. Todavia, há outros tipos de antagonismo farmacológico. Estes outros tipos não envolvem os receptores, mas pode haver atuação direta sobre o agonista. São eles: A. Antagonismo químico: fármaco que inativa a estrutura doagonista antes mesmo de ele atuar sobre seu alvo de ação. a. Ex.: substâncias quelantes. B. Antagonismo farmacocinético: há interferência em um dos processos farmacocinéticos, levando a uma redução da ação do agonista. Pode ocorrer: a. Redução da velocidade de absorção: se retardar a absorção, dificulta a ação do fármaco b. Aumento no metabolismo hepático: o fármaco vai ser degradado mais rapidamente, diminuindo a sua ação c. Aumento da velocidade de eliminação renal do fármaco: o fármaco ficará em menor concentração, tendo menor efeito biológico C. Antagonismo fisiológico ou funcional: interações entre fármacos que têm ações fisiológicas opostas. a. Ex.: histamina x adrenalina no pulmão. Enquanto a histamina, ao se ligar a um receptor H1, leva à broncoconstrição, a adrenalina, em receptor Beta2-adrenérgico, leva à broncodilatação. b. Ex.: histamina x omeoprazol. A histamina, ao se ligar em receptor H2, causa aumento da secreção gástrica, enquanto o omeoprazol causa uma diminuição da secreção gástrica c. Agem sobre alvos diferentes, mas causam efeitos antagônicos no órgão 63 CONCEITOS: DOSE LETAL, DOSE EFETIVA E ÍNDICE TERAPÊUTICO Dose Letal Mediana (DL50): Dose que mata 50% dos animais em experimento. É um parâmetro utilizado para se determinar a toxicidade de um fármaco. É a dose que causa toxicidade em metade da população. Dose efetiva mediana (DE50): Dose que causa efeito terapêutico em 50% dos animais. É a dose que é eficaz/possui efeito clinicamente desejável em metade da população. Índice terapêutico/ Janela terapêutica É estabelecido pela relação entre a DL50/DE50. É utilizado para determinar a segurança de um fármaco. O fármaco ideal deve ser seguro e produzir o mínimo de efeitos colaterais possível. No gráfico, o índice terapêutico fica localizado na faixa entre a dose letal mediana e a dose efetiva mediana. Quanto maior a diferença entre a dose terapêutica e a dose tóxica, mais seguro é o fármaco (há uma faixa maior de doses que podem ser utilizadas sem ser atingido o efeito tóxico). Fármacos com índice terapêutico muito pequeno também podem ser utilizados. Nestes casos, normalmente os benefícios do uso do medicamento, mesmo com estes riscos, são melhores do que deixar o paciente sem o seu uso. Exemplo de fármacos de pequena janela terapêutica são a digoxina e a varfarina. CONCEITOS: DESSENSIBILIZAÇÃO/TAQUIFILAXIA, TOLERÂNCIA E REFRATARIEDADE Dessensibilização ou taquifilaxia Consiste uma redução espontânea do efeito do fármaco quando administrado continuamente e repetidamente. Pode acontecer em poucos minutos. 64 Tolerância Consiste na perda gradual da responsividade do fármaco, havendo necessidade de aumento de dose para obter efeito terapêutico. A tolerância é um processo mais lento do que a dessensibilização. Refratariedade Perda da eficácia terapêutica. Ocorre quando o paciente não responde a um determinado tratamento (paciente é refratário ao tratamento com determinado fármaco). Há diversos mecanismos que podem levar aos 3 conceitos supracitados. Dentre eles, estão: • Alteração dos receptores o Alteração conformacional de canais iônicos – faz com que seja dificultada a ligação do agonista o Fosforilação de proteínas receptoras que compõem o receptor o Fosforilação de proteínas que participam da cascata de segundos mensageiros (receptores acoplados à proteína G) • Translocação de receptores o Diminuição no número de receptores na superfície – devido à internalização dos receptores por meio de endocitose. Pode ocorrer com alguns receptores de hormônios e beta adrenérgicos • Depleção de mediadores o Ex.: Uso de anfetamina leva à tolerância pois a anfetamina leva ao esgotamento de aminas, as quais não conseguem mais ser liberadas • Aumento da degradação metabólica • Extrusão ativa de drogas o A droga chega a entrar na célula, mas a célula de alguma forma a exocita e o fármaco não exerce o efeito. o Este mecanismo é comumente realizado pelas bactérias, sendo observado nos processos de resistência a antibióticos e a antimicrobianos. O termo “resistência” está relacionado à perda da eficácia, quando se fala de antibióticos. • Adaptação fisiológica o O efeito do fármaco é diminuído em função de uma resposta homeostática do organismo, de modo que ele vai se adaptando. o Ex.: ação de diuréticos tiazídicos. Com o passar do tempo, ela passa a ser limitada devido á ativação do sistema renina- angiotensina como maneira de se manter a homeostasia do organismo. 65 SNA – REVISÃO FISIOLOGIA Medusa – 86 DIVISÃO DO SISTEMA NERVOSO O Sistema Nervoso é dividido em Sistema Nervoso Central (SNC) e em Sistema Nervoso Periférico, sendo este último dividido em Sistema Nervoso Autônomo (SNA) e Sistema Nervoso Somático (SNS). O SNA é dividido em SNA simpático, SNA parassimpático e SNA entérico (parte do entérico será estudada dentro do parassimpático devido à ação da acetilcolina). A acetilcolina está presente tanto no SNA quanto no SNS, mas se liga a diferentes tipos de receptores em cada sistema. O Sistema Nervoso Somático controla as funções motoras, e funciona de forma extremamente rápida. Possui receptores do tipo canal iônico (tipo 1). O Sistema Nervoso Autônomo possui certa autonomia, visto que as fibras do SNA partem do SNC. O SNA controla os processos vitais que são automáticos no nosso organismo, como: digestão, respiração, secreção glandular e batimentos cardíacos. Apesar de parecerem opostos, o SNA simpático e o SNA parassimpático são complementares. Dependendo da situação em que estamos submetidos e dependendo da condição do organismo, ora um está mais ativado, ora o outro está mais ativado. Eles estão sempre em flutuação para que ocorra um equilíbrio ou um ajuste neste equilíbrio (o equilíbrio não precisa ser necessariamente de 50% - ora há um mais ativado, ora há outro mais ativado). Exemplos dos efeitos dos dois sistemas: 66 • Simpático dilata a pupila, parassimpático contrai a pupila • Simpático aumenta a frequência cardíaca, parassimpático diminui a frequência cardíaca • Simpático aumenta a frequência respiratória, parassimpático diminui a frequência respiratória • Simpático diminui peristaltismo, parassimpático aumenta o peristaltismo Nem todos os tecidos possuem a dupla inervação (simpática e parassimpática em um mesmo órgão). Isso implica na aplicação de determinado fármaco. O parassimpático está mais ativado em situações de repouso e digestão. Devido a isso, provoca efeitos como a ativação das glândulas salivares, aumento 67 do peristaltismo, e ativação das glândulas lacrimais. O parassimpático está muito relacionado com o sistema digestório. O simpático está mais ativado em situações de luta, fuga e medo. Devido a isso, causa efeitos como aumento da frequência cardíaca (para mandar maior quantidade de sangue para a musculatura esquelética), aumento da frequência respiratória (para chegar mais oxigênio aos músculos esqueléticos), dilatação das pupilas (para enxergar melhor), aumento da glicogenólise (quebra do glicogênio em glicose para que ela esteja disponível para o músculo). O simpático está muito relacionado com o sistema cardiovascular. A principal função do SNA é manter a homeostasia, que consiste no controle e manutenção de um ambiente interno estável, em resposta a flutuações nas condições internas e a variações induzidas por estímulos externos. Sistema nervoso periférico É subdividido em Sistema Nervoso Somático e em Sistema Nervoso Autônomo Sistema nervoso somático No SN somático, há uma fibra única que comunica o SNC à placa motora (musculatura esquelética). Não há gânglios envolvidos na transmissão do impulso. Sistema nervoso autônomo 68 No SNA, na grande maioria das vezes há um gânglio até chegarao órgão efetor. Um gânglio consiste em um conjunto de corpos celulares neuronais. Na maioria das vezes, há a participação de duas fibras: uma pré- ganglionar (que liga o SNC ao gânglio) e uma pós-ganglionar (que liga o gânglio ao órgão efetor). No SNA simpático, o gânglio está mais próximo do SNC, de modo que a fibra pré-ganglionar é curta. No SNA parassimpático, o gânglio está mais próximo do órgão efetor (estando muitas vezes inserido em seu interior), de modo que a fibra pré-ganglionar é mais longa. Os gânglios do SNA simpático estão próximos ao SNC, formando a coluna paravertebral (= cadeia ganglionar simpática). Estes gânglios formam uma espécie de cadeia paralela à coluna vertebral. O que define se as fibras são simpáticas ou parassimpáticas é a origem da fibra na coluna vertebral. As de origem de vértebras toraco-lombares são simpáticas. As de origem de vértebras crânio-sacrais são parassimpáticas. NEUROTRANSMISSORES 69 Neurotransmissor liberado no gânglio pela fibra pré-ganglionar O neurotransmissor liberado no gânglio pela fibra pré-ganglionar, seja ela simpática ou parassimpática, é sempre a acetilcolina. No gânglio, a acetilcolina se liga a receptores nicotínicos. A passagem no gânglio precisa ser rápida para ativar a fibra pós-ganglionar, e o receptor nicotínico permite essa rapidez, visto que é um receptor do tipo canal iônico (possui rápida ativação). Sempre a fibra que parte do SNC libera acetilcolina, e o receptor que esta acetilcolina encontra é um receptor nicotínico. O receptor nicotínico é um canal iônico que permite a entrada de sódio na célula. A entrada de sódio na célula permite o início do processo de despolarização da fibra pós-ganglionar (faz com que seja atingido um potencial no qual os canais de sódio voltagem-dependentes sejam abertos, causando realmente a despolarização), sendo responsável por conduzir o estímulo nervoso. O receptor nicotínico permite tanto a entrada de sódio quanto a saída de potássio, mas o sódio se difunde em maior quantidade (e por isso é possível que ocorra o início da despolarização). Neurotransmissores liberados pela fibra pós-ganglionar Dependendo do caso, as fibras pós-ganglionares podem liberar acetilcolina, adrenalina, noradrenalina ou dopamina. Fibras que liberam acetilcolina são chamadas de fibras colinérgicas; fibras que liberam noradrenalina são chamadas de fibras noradrenérgicas; fibras que liberam dopamina são chamadas de fibras dopaminérgicas. Parassimpático: Há sempre a liberação de acetilcolina tanto pela fibra pré-ganglionar quanto pela pós-ganglionar. Devido a isso, a acetilcolina é o único neurotransmissor do SNAP. Simpático A fibra pré-ganglionar libera acetilcolina, e a pós ganglionar libera noradrenalina (na maioria das vezes), mas também pode liberar acetilcolina (em glândulas sudoríparas e em alguns vasos da musculatura esquelética), adrenalina ou dopamina. 70 TRANSMISSÃO DO IMPULSO NERVOSO Há a geração de um estímulo (um potencial de ação) no SNC, que provoca a abertura de canais de sódio voltagem-dependentes e a consequente entrada de sódio na célula da fibra pré-ganglionar, provocando o processo de despolarização (o interior da membrana, que antes era negativo, passa a se tornar positivo). Conforme vai sendo transmitido o impulso nervoso, há o reestabelecimento da polaridade da membrana por onde o estímulo já passou. Para que esse reestabelecimento ocorra, são abertos canais de potássio voltagem-dependentes, promovendo a saída de potássio da célula (quando o sódio entra, a célula fica positiva em seu interior – ao se sair potássio, essa positividade é perdida, se reestabelecendo a negatividade no interior da membrana). Com a saída do potássio, ocorre a hiperpolarização. No gânglio, há os receptores nicotínicos, que são receptores do tipo 1 (canal iônico controlado por ligante – este último, no caso, é a acetilcolina). 71 A despolarização provocada pela abertura de canais de Na voltagem- dependentes provoca a abertura de canais de cálcio dependentes de voltagem. O cálcio intracelular é necessário para que ocorra o processo de exocitose e liberação do neurotransmissor (acetilcolina). Após ser liberada na fenda sináptica, a acetilcolina encontra o receptor nicotínico. Como o receptor nicotínico é um canal iônico controlado por ligante, a ligação da acetilcolina promove a sua abertura, de modo que entre sódio na célula e cause a despolarização inicial para que sejam abertos os canais de Na+ voltagem dependentes, dando continuidade ao processo de despolarização e transmissão do impulso nervoso. O impulso continua a ser transmitido até chegar ao fim da fibra pós-ganglionar, fazendo com que os canais de cálcio dependentes de voltagem presentes em seu terminal se abram, para que o cálcio entre na célula e auxilie a liberar os neurotransmissores na fenda sináptica que está em ligação com o órgão. 72 A modulação de canais iônicos e a ação de fármacos sobre canais iônicos também é importante no SNC: em casos de convulsões, o SNC está em um quadro de hiperexcitabilidade. Os fármacos bloqueiam os canais de cálcio para que não ocorra a exocitose desse neurotransmissor. Os fármacos também podem agir inibindo canais de sódio, para não ocorrer a despolarização. Podem agir também sobre canais de K+ para que eles fiquem abertos por mais tempo (para sair mais) ou abrindo canais de cloreto (em ambos os casos, para causar hiperpolarização – quanto mais negativo interior da membrana, mais difícil de abrir o canal de cálcio). TIPOS DE RECEPTORES Receptores colinérgicos: Os receptores colinérgicos são os receptores nicotínicos e os receptores muscarínicos. Nicotínico: Está presente tanto no sistema nervoso simpático quanto no parassimpático. Está presente no sistema nervoso periférico: no gânglio (tanto no simpático quanto no parassimpático, recebendo a acetilcolina proveniente da fibra pré-ganglionar que veio do SNC), na placa motora (no sistema nervoso somático) e na glândula adrenal (que libera adrenalina, a qual atua no SNA simpático). O receptor colinérgico nicotínico sempre realiza uma sinapse excitatória. O receptor nicotínico é pentamérico, está ancorado à membrana e possui 2 subunidades alfa. Para que seja ativado, é necessário que uma molécula de acetilcolina se ligue a cada subunidade alfa. Com a Ach se ligando, há a abertura do receptor (que é um canal), permitindo a entrada de sódio e causando o início da despolarização. 73 Muscarínico: Está presente no órgão efetor (ex.: olhos, glândulas, musculatura lisa visceral, TGI, vasos, etc). Há 5 tipos de receptores muscarínicos, que são separados em receptores estimulatórios e inibitórios. Receptores M1, M3 e M5 Os receptores M1, M3 e M5 são estimulatórios. Funcionam através do sistema que ativa a fosfolipase C, formando o trifosfato inositol. A ligação da acetilcolina a receptores muscarínicos, na musculatura lisa visceral, causa contração (promove peristaltismo intestinal e esvaziamento gástrico): quando ativado, o trifosfato inositol age no reticulo endoplasmático, aumentando a concentração de cálcio intracelular - sendo que este íon é utilizado na contração da musculatura lisa em questão. O cálcio também é importante no processo de secreção de vesículas (exocitose) em órgãos glandulares. Receptores M2 e M4 Os receptores M2 e M4 são inibitórios. O receptor M2 está presente no coração. Quando há uma ativação parassimpática no coração, a acetilcolina se liga ao receptor M2, que está ligado a uma proteína GI (inibitória). A ativação da proteína GI acaba por diminuir a adenilatociclase e o AMPc, levando a uma diminuição da frequência cardíaca. Tirando algumas exceções, o receptor muscarínico normalmente possui ação contrária ao receptor alfa 1 adrenérgico.Receptores adrenérgicos: Os neurotransmissores que se ligam aos receptores adrenérgicos são a adrenalina e a noradrenalina. Estes receptores são acoplados a proteína G. Os receptores adrenérgicos são divididos em receptores alfa e receptores beta. 74 Receptor alfa Existem 2 tipos de receptores alfa: alfa 1 e alfa 2. • Alfa 1: atua via proteína GQ (ativando fosfolipase C). Causa vasoconstrição. Muito relacionado ao controle dos vasos. • Alfa 2: atua via proteína GI (inibe adenilato ciclase, permitindo o fechamento de canais de cálcio e havendo uma menor liberação de neurotransmissores). Na farmacologia, os receptores alfa-2 mais importantes são os pré-sinapticos (são importantes em ações de alguns medicamentos), mas também existem receptores alfa-2 pós-sinápticos. Desta forma, o receptor alfa-2 normalmente é pré-sináptico e inibitório: inibe a liberação de mais neurotransmissores (feedback negativo - principalmente adrenalina e noradrenalina) Receptor beta Existem 3 tipos de receptores beta: beta 1, beta 2 e beta 3. Estes receptores estão associados à proteína GS: é estimulatória (aumenta adenilato ciclase, aumentando AMPc). Causam efeitos como aumento da frequência cardíaca e força de contração, glicogenólise e relaxamento da musculatura lisa. • Beta 1: principalmente associado ao coração • Beta 2: associado principalmente a pulmão (principalmente; causa broncodilatação) e útero (causa relaxamento da musculatura lisa uterina) 75 Não confundir subunidade de receptor nicotínico (alfa e beta) com receptor adrenérgico alfa e beta. A dopamina também pode se ligar aos receptores alfa e beta. Exceções de onde, no sistema autônomo simpático, não há liberação de noradrenalina no final: • Glândulas sudoríparas: a fibra pós-ganglionar libera acetilcolina, que se liga a receptor muscarínico presente na glândula sudorípara. Faz parte do SNA simpático. • Medula suprarrenal: também faz parte do SNA simpático, mas não há um gânglio para a transmissão do impulso: as células cromafins presentes na medula suprarrenal se assemelham a um gânglio rudimentar. Estas células são neurônios pós-ganglionares modificados. o A acetilcolina se liga a receptores nicotínicos presentes na medula da adrenal (da mesma forma que faria no gânglio). A adrenal libera então adrenalina na corrente sanguínea. Através do sangue, a adrenalina chegará aos receptores beta adrenérgicos. o Libera adrenalina (85%) e noradrenalina (15%) 76 Resumindo os receptores explicados: Se é realizado um aumento ou diminuição na concentração de acetilcolina no organismo, há interferência no sistema parassimpático, no sistema simpático 77 e no sistema somático. Devido a isso, para minimizar os efeitos adversos de um fármaco, deve-se atuar nos receptores. Ex.: se o fármaco estiver atuando no sistema digestório, mexe no receptor muscarínico; se estiver atuando no cardiovascular, mexe nos receptores adrenérgicos (beta ou alfa). Cada tecido possui certa predominância de receptor adrenérgico. Com isso, para se regular aquele órgão em específico, modula-se mais em um ou em outro tipo de receptor adrenérgico. EXCEÇÕES À DUPLA INERVAÇÃO: Os locais do nosso corpo que não possuem inervação simpática E parassimpática simultaneamente são: • Locais que possuem somente inervação parassimpática: glândulas lacrimais e musculo ciliar dos olhos • Locais que possuem somente inervação simpática: Glândulas sudoríparas (controladas por acetilcolina), a medula suprarrenal e a grande maioria dos vasos. 78 FARMACOLOGIA COLINÉRGICA Medusa - 86 SINTESE, LIBERAÇÃO E DEGRADAÇÃO DE ACH Dependendo de onde o fármaco atuar, ele funcionará como agonista ou antagonista da acetilcolina. A acetilcolina é originada a partir da junção da colina com a acetil- coenzima A. Esta junção ocorre sob a ação da enzima colina-acetil transferase. Após ser formada, a acetilcolina fica dentro de vesículas. Quando há a presença de um potencial de ação, são abertos canais de sódio que despolarizam a célula e, por consequência, são abertos canais de cálcio dependentes de voltagem, causando o aumento do cálcio intracelular. Com o aumento do cálcio intracelular, há o processo de exocitose da vesícula de Ach. Ao cair na fenda sináptica, parte da acetilcolina se ligará aos receptores lá presentes (pode ser nicotínico ou muscarínico, depende de qual sinapse está sendo analisada). A acetilcolina que cai na fenda sináptica é degrada por uma enzima chamada de acetilcolinesterase. Ela quebra a acetilcolina em acetato e colina. O acetato é utilizado em outras reações bioquímicas, sendo reaproveitado pelo organismo. A colina retorna ao neurônio pré-sinaptico via uma proteína carreadora, sendo utilizada para a geração de mais acetilcolina. 79 Onde a farmacologia pode atuar: A. Sobre os receptores na fenda sináptica: para atuar sobre o receptor, o fármaco precisa ter afinidade pelo receptor. Quando o fármaco tem afinidade e se liga ao receptor, ele pode ativar ou não ativar o receptor. Se ativá-lo, é um agonista; se não o ativar, é um antagonista. B. Impedindo a liberação do neurotransmissor: ao se ligar ao receptor, o neurotransmissor ativa o receptor (é sempre um agonista). Ao ser ministrado um fármaco que impede a liberação do neurotransmissor, provoca uma ação antagônica. a. A toxina botulínica (botox) impede a liberação de acetilcolina na placa motora. Como a acetilcolina não se liga ao receptor nicotínico, a musculatura esquelética não contrai, não formando linhas de expressão. A toxina botulínica, portanto, é um antagonista da acetilcolina. É reversível (tempo médio de ação: 4- 6 meses). Ela interfere em proteínas de ancoragem. C. Sobre a proteína carreadora que transporta a colina para dentro da fibra pré-sináptica: normalmente, quem atua sobre esta proteína são ferramentas farmacológicas (substâncias que não são empregadas terapeuticamente, mas ajudam no estudo de outros fármacos; essas substâncias não são normalmente empregadas por causa de efeitos colaterais, por possuir uma via de administração inviável, posologia inviável (ex.: 6x ao dia), pois há fármacos mais baratos ou com formas mais adequadas de administração no mercado, etc - é um fármaco, mas é preferencialmente não utilizado). Se esta ferramenta terapêutica agir sobre a proteína que leva a colina para dentro da célula, não haverá nova síntese de acetilcolina, diminuindo-se a quantidade de neurotransmissores: causa efeito antagônico. D. Inibindo a acetilcolinesterase: se for inibida a enzima que degrada a acetilcolina, há mais acetilcolina disponível na fenda, favorecendo a ação do neurotransmissor: funciona como agonista. a. Anticolinesterásico: fármaco que inibe a acetilcolinesterase, sendo um agonista colinérgico. b. Anticolinérgico: antagonista da acetilcolina 80 RECEPTORES COLINÉRGICOS Normalmente, a farmacologia atua sobre os receptores muscarínicos. Existem fármacos que atuam sobre os receptores nicotínicos, mas apenas em situações muito específicas de utilização (se o fármaco atua sobre os receptores nicotínicos, atua não só sobre o sistema simpático, mas também sobre o parassimpático (causando assim mais efeitos colaterais)). Os fármacos que atuam sobre receptores nicotínicos normalmente atuam sobre os receptores da placa motora (no sistema nervoso somático). Origem dos nomes: • Receptor nicotínico: é assim chamado pois é o receptor onde a nicotina (substância isolada do tabaco) se liga; • Receptor muscarínico: é assim chamado pois é o receptor onde a muscarina (substância isolada de fungos do gênero Amanita) se liga. Tipos de receptores muscarínicos Há 5 tipos de receptores muscarínicos. Os de número ímpar possuem efeito excitatório, e os de númeropar possuem efeito inibitório. São eles: • M1 – “Neuronal”. É encontrado no SNC, em glândulas gástricas e em glândulas salivares • M2 – “Cardíaco”. É encontrado no coração e na musculatura lisa visceral • M3 – “Glandular”. É encontrado em glândulas gástricas e salivares, e também exerce ação importe sobre a musculatura lisa do TGI 81 • M4 – Age no SNC • M5 – Age no SNC, nas glândulas salivares e na íris/músculo ciliar. Há poucos fármacos que possuem ação específica sobre um tipo de receptor muscarínico (não precisa decorar onde cada tipo de receptor está presente). Tirando poucas exceções, se um fármaco atua sobre um receptor muscarínico, ele atua sobre todos os tipos. Os fármacos adrenérgicos, todavia, possuem maior seletividade pelos subtipos de receptores. Receptor nicotínico - subunidades O receptor nicotínico da junção neuromuscular apresenta 2 subunidades α, uma β, uma γ e uma δ (sendo que alguns divergem deste padrão, apresentando subunidade ε). Os receptores presentes nos gânglios possuem apenas subunidades α e β. No SNC, as subunidades se combinam de diversas formas para formar os receptores nicotínicos. É importante a busca pelo desenvolvimento de medicamentos que tenham ação específica sobre as subunidades dos receptores. Se um dos tipos de subunidade tiver maior concentração em uma área cerebral, ao se ministrar o medicamento específico para esta subunidade, impede-se que ele cause efeitos colaterais em outras áreas. Este efeito adverso é o que ocorre no tratamento tanto da Doença de Parkinson quanto da Esquizofrenia. Ambas as doenças estão envolvidas em circuitos dopaminérgicos, apesar de acometerem locais diferentes: a doença de Parkinson conta com o acometimento (morte de neurônios dopaminérgicos) da região nigro-estriatal, e a Esquizofrenia conta com o acometimento (hiperatividade) da via mesolímbica-mesocortical. Devido ao fato de ambas as vias utilizarem a dopamina, ao se utilizar um agonista dopaminérgico para tratar a Doença de Parkinson, o fármaco pode agir sobre a via mesolímbica-mesocortical, causando sinais de alucinações no paciente (relativos à esquizofrenia). Da mesma forma, ao se tratar um paciente com Esquizofrenia com antagonistas dopaminérgicos, os fármacos também vão agir na região nigro-estriatal, causando quadros de Parksonismo/Pseudo- Parksonismo. Todo este quadro de efeitos colaterais seria evitado se fossem utilizados fármacos específicos para as subunidades dos receptores (ela deu o exemplo de um recemptor dopaminérgico, mas vale para os adrenérgicos a ideia da pesquisa pelos novos fármacos) 82 PRINCIPAIS AÇÕES FISIOLÓGICAS – RECEPTORES MUSCARÍNICOS Quando a acetilcolina se liga a receptor muscarínico, promove: • Miose e acomodação visual à curta distância (M3) • Secreção glandular (de glândulas exócrinas – sudoríparas, mucosas, lacrimais), secreção gástrica, intestinal, pancreática (M1 e M3) o Apesar de a secreção salivar ser promovida tanto pelo simpático (saliva mais espessa) quanto pelo parassimpático (saliva mais fluida), o controle da secreção salivar por meio da farmacologia ocorre apenas sobre receptores colinérgicos (parassimpático) • Bradicardia (M2) • Vasodilatação mediada por NO o Não há inervação parassimpática direta sobre a musculatura do vaso. As células endoteliais liberam NO, que faz a vasodilatação • Estimulação da contração da musculatura lisa nos brônquios, TGI, vesícula biliar, bexiga e ureteres, e motilidade intestinal (M3) • Relaxamento dos esfíncteres do TGI, vesícula biliar e urinário (M2) Ao ser ministrado um agonista muscarínico, essas ações estarão sendo favorecidas no organismo. Ao ser administrado um antagonista muscarínico, essas ações serão diminuídas. • Paciente que possui asma: deve se dar um antagonista de receptor muscarínico (pois ele está em um quadro de broncoconstrição) • Para uma pessoa com cólica intestinal, dar um antagonista muscarínico. o Como efeito colateral, pode ter boca seca, constipação intestinal ou retenção urinária • Paciente com ressecamento dos olhos: ministrar um agonista muscarínico (para estimular a secreção lacrimal) PRINCIPAIS AÇÕES FARMACOLÓGICAS – RECEPTORES NICOTÍNICOS A farmacologia praticamente não age sobre receptores nicotínicos, salvo algumas exceções, como dentro do centro cirúrgico - como em anestesias, que proporcionam o relaxamento da musculatura esquelética do paciente. Para promover o relaxamento dessa musculatura, é necessário se administrar um antagonista (para assim bloquear o receptor nicotínico da placa motora). Apesar de existirem fármacos que agem sobre receptores nicotínicos ganglionares, eles são usados apenas em situações muito específicas e dentro de ambiente hospitalar. Em relação aos anestésicos, deve ser analisado o tempo para se realizar a ação do bloqueio e o tempo necessário para se realizar a manutenção deste bloqueio. 83 AGONISTAS COLINÉRGICOS OU COLINOMIMÉTICOS Medusa - 86 Os agonistas/colinomiméticos imitam a ação da acetilcolina. São ministrados para pacientes que possuem algum problema fisiológico no qual se é necessário se aumentar o efeito da acetilcolina. Dentro os colinomiméticos, há os de: • Ação direta: o fármaco se liga ao receptor colinérgico (normalmente muscarínico), causando efeitos biológicos • Ação indireta: o fármaco não atua diretamente no receptor, e sim na enzima acetilcolinesterase (agem inibindo a enzima – são anticolinesterásicos). Ao agir sobre essa enzima, há um aumento da disponibilidade de acetilcolina na fenda sináptica, de modo que esta última possa atuar sobre os receptores colinérgicos. o Esta ação anticolinesterásica pode ser reversível ou irreversível. As irreversíveis ocorrem normalmente em quadros de intoxicação: há inatividade total da enzima e o organismo só reestabelecerá o funcionamento quando sintetizar novas enzimas. As ações reversíveis são provocadas por fármacos de ação mais curta – até um determinado tempo de ação do medicamento, é possível se reestabelecer a ação da enzima quando os fármacos são eliminados (mas depois de um determinado tempo, a enzima fica envelhecida, sendo perdida e necessitando que o organismo sintetize novas enzimas) AGONISTAS MUSCARÍNICOS DE AÇÃO DIRETA AO RECEPTOR Os 3 agonistas muscarínicos de ação direta ao receptor que serão estudados são Betanecol, Pilocarpina e Cevimelina. Betanecol O Betanecol também é chamado de Liberan. É um fármaco que está em desuso. Realiza relaxamento de esfíncteres e contração da musculatura lisa, proporcionando assim o esvaziamento da bexiga e o aumento da motilidade intestinal. Este medicamento é seletivo para receptores muscarínicos. Era utilizado para a realização de sigmoidoscopia. É um hibrido de carbacol e matacolina. Os fármacos mais utilizados hoje em dia para o aumento da motilidade intestinal agem mais especificamente sobre o lúmen do intestino, sem agir sobre outros receptores muscarínicos. Todos os fármacos utilizados para 84 colonoscopias, por mecanismos diferentes, aumentam a quantidade de água no lúmen intestinal, proporcionando a expulsão das fezes e a limpeza do intestino para a realização do exame. O esvaziamento da bexiga é muitas vezes realizado com sondas (também não se usa mais o Betanecol para isso). Pilocarpina A pilocarpina é uma substância isolada de uma planta (gênero Pilocarpus). Uma das plantas das quais a pilocarpina pode ser extraída é a Pilocarpus jaborandi. Por ser um agonista colinérgico, a pilocarpina se liga a receptores muscarínicos, promovendo efeitos como vasodilatação e aumento da secreção glandular. Os shampoos feitos a base de jaborandi possuem pilocarpina, e apresentam como efeitos a diminuição da queda do cabelo (que fica mais nutrido devido a este maior aporte sanguíneo no couro cabeludo) e demenor ressecamento (devido à estimulação à secreção glandular). Na terapêutica, a pilocarpina é utilizada no tratamento do glaucoma. O glaucoma consiste no aumento da pressão intraocular. Este aumento pode estar acontecendo devido a um aumento na produção de humor aquoso ou devido a uma deficiência na drenagem do humor aquoso. A drenagem do humor aquoso é feita pelo canal de Schelemm, e muitas vezes a musculatura do músculo constrictor da pupila está posicionada de modo a dificultar o acesso do humor aquoso a este canal. A pilocarpina auxilia no tratamento do glaucoma pois atua no músculo constritor da pupila (a acetilcolina atua sobre este músculo, contraindo-o – e como a pilocarpina é um agonista, também tem esse efeito sobre o músculo). Quando este músculo está em um processo de contração, o acesso ao canal de Schelemm é facilitado. Se o músculo constricitor da pupila está contraído, ele fica mais horizontalizado em relação ao canal, facilitando a drenagem; se ele está relaxado, fica mais verticalizado (cerca de 45ºC), bloqueando em parte o acesso ao canal. 85 Outra ação que ajuda no controle dessa pressão intraocular é a ação da pilocarpina sobre o músculo ciliar. Quando o músculo ciliar se contrai, ele diminui a tensão do cristalino, de modo que ele fique mais abaulado (traciona para frente e para trás), diminuindo a pressão intraocular. O músculo ciliar possui inervação exclusiva parassimpática, e é utilizado para a acomodação da visão de perto 86 Se o fármaco atuar no sistema simpático, ele vai alterar apenas midríase e miose, não interferindo na acomodação da visão para perto. Se o fármaco atuar no sistema parassimpático, ele vai alterar midríase e miose e também a acomodação visual para perto. Colirios para dilatar a pupila agem sobre o simpático, e não sobre o parassimpático (senão interfeririam na acomodação visual também). A pilocarpina é utilizada na forma de colírio (apresenta efeito local). Cevimelina: A cevimelina é um fármaco utilizado na Síndrome de Sjogren. Esta síndrome é uma doença auto-imune na qual há uma perda de atividade do sistema nervoso parassimpático, principalmente sobre glândulas lacrimais e glândulas salivares. Esta síndrome apresenta estes efeitos pois anticorpos bloqueiam receptores muscarínicos dessas duas glândulas, além causarem a obstrução do ducto das glândulas em questão (tanto anticorpos quanto outros mediadores causam este último efeito). Com a presença destes anticorpos, a acetilcolina não consegue se ligar ao receptor (visto que o sítio de ligação já está ocupado), de modo a não causar a secreção glandular. Em doenças autoimunes, o paciente normalmente faz uso de imunossupressores (sendo que os mais comumente utilizados são os glicocorticóides). Os imunossupressores são importantes pois, ao diminuirem a quantidade de anticorpos, deixam os receptores livres para que a acetilcolina consiga se ligar, além de permitir que os agonistas (no caso, a cevimelina) se liguem também. 87 AGONISTAS NICOTÍNICOS DE AÇÃO DIRETA AO RECEPTOR Os agonistas nicotínicos normalmente não são utilizados. Alguns exemplos deles são: • Nicotina: utilizada no abandono ao tabagismo. Discos de nicotina transdérmicos são utilizados para se realizar uma redução gradual da necessidade de nicotina pelo organismo • Lobelina: não utilizada na terapêutica • DimetilfenilpIperazínio (DMPP): não utilizado na terapêutica • Epibatidina: substância proveniente da pele de sapos que possui alto poder analgésico. Não utilizada na terapêutica devido à atuação em receptores ganglionares e produção de muitos efeitos colaterais. Vareniclina: Substância que também é utilizada no abandono ao tabagismo. É um agonista, mas na presença da nicotina, se torna um antagonista. Quando a nicotina (proveniente do cigarro) se liga ao receptor nicotínico, libera dopamina (neurotransmissor responsável por trazer a sensação de bem- estar) no núcleo accumbens. A vareniclina também se liga ao receptor nicotínico, provocando a liberação de dopamina (por isso é um agonista). Se o paciente faz uso de vareniclina e fuma, a nicotina não consegue se ligar ao receptor (já que está sendo ocupado pela vareniclina – nesta ocasião, o fármaco se torna um antagonista). Se o paciente que faz uso de vareniclina fumar, o medicamento provocará um gosto muito desagradável na boca (o que estimula o paciente a abandonar o tabagismo). A vareniclina possui grande quantidade de efeitos colaterais. 88 Suxametônio/Succinilcolina: Normalmente, fármacos agonistas da acetilcolina causam contração muscular ao se ligarem ao receptor nicotínico da placa motora. Todavia, o suxametônio causa relaxamento muscular. Ele possui este efeito porque causa um bloqueio por despolarização prolongada (o suxametônio é a única substancia na terapêutica que causa esse efeito). Este fármaco se liga ao receptor, promove uma contração transitória, mas depois de 1-2 minutos, ocorre o bloqueio por despolarização prolongada. A estrutura do suxametônio é semelhante a 2 moleculas de acetilcolina interligadas, e ele é dificilmente degradado pela acetilcolinesterase. Essa semelhança estrutural possibilita a ligação do suxametônio a receptores nicotínicos, gerando um potencial de ação devido à entrada de sódio na célula. Essa pequena alteração no potencial proporcionada pela abertura dos canais nicotínicos faz com que o potencial da membrana passe de -70 mv (quando em repouso) para -55 mv, voltagem que é capaz de abrir os canais de sódio voltagem-dependentes, causando a despolarização da célula. Ao ser alcançado o potencial por volta de +40 mv, os canais de sódio voltagem-dependentes se fecham e os canais de potássio voltagem-dependentes se abrem, visando repolarizar a célula. Todavia, esse efeito de repolarização não é atingido de imediato, visto que, como o suxametônio continua no receptor nicotínico, ele continua a causar a liberação contínua de sódio para o interior da célula, dificultando o processo de repolarização. Com isso, os canais de potássio ficam abertos por mais tempo, causando um aumento da concentração de potássio extracelular. Como a célula não consegue ser repolarizada, ela não pode passar por um novo processo de contração, permanecendo relaxada. O relaxamento dura cerca de 5 minutos, tempo necessário para que a butirilcolinesterase degrade o suxametônio. A despolarização que ocorre no início do processo é capaz de abrir os canais de cálcio e gerar uma contração inicial e passageira das fibras musculares, a chamada fasciculação. Todavia, este cálcio é rapidamente absorvido para o interior do retículo endoplasmático em seguida, o que faz com que a célula não entre em um processo de tetanização. Para que ocorra a tetanização, é necessário que ocorram vários potenciais de ação subsequentes, e não apenas um. Conclui-se portanto que o bloqueio por despolarização prolongada é provocado por um fármaco agonista (visto que se liga no receptor e causa contração), mas ele provoca no organismo um efeito antagônico. O suxametônio é o fármaco utilizado para o relaxamento traqueal necessário para a intubação. O efeito do medicamento dura cerca de 5 minutos (é degradado pela butirilcolinesterase). 89 AGONISTAS INDIRETOS - ANTICOLINESTERÁSICOS Os agonistas indiretos (anticolinesterásicos) são divididos em reversíveis e irreversíveis. Reversíveis Possuem ação mais curta. Neostigmina e Piridostigmina Um dos usos dos agonistas indiretos anticolinesterásicos é no tratamento da miastenia gravis. A miastenia gravis é uma doença autoimune na qual o organismo produz anticorpos contra os receptores nicotínicos da placa motora (não confundir com a Síndrome de Sjogren, que os anticorpos atuam nos receptores muscarínicos). Nesta síndrome, a acetilcolinanão consegue se ligar ao receptor, visto que o anticorpo está presente no sítio de ligação. O paciente pode apresentar sorriso frouxo, ptose e perda gradativa da capacidade de contrair a musculatura esquelética. A presença dos anticorpos na junção neuromuscular leva a um processo inflamatório, causando destruição da junção muscular e prejudicando cada vez mais a contração da musculatura esquelética deste paciente. 90 Para se realizar o tratamento desta doença, é necessário o uso de imunossupressores ou de plasmaferese (retirada de anticorpos circulantes do plasma) e de anticolinesterásicos (que vão atuar sobre a acetilcolinesterase, causando maior disponibilidade de acetilcolina na junção neuro-muscular) Há alguns fármacos anticolinesterásicos que causam efeito não apenas na junção neuromuscular, mas também na ganglionar (aumentando-se a quantidade de acetilcolina em ambos os sítios). A neostigmina e a piridostigmina são fármacos que causam menores efeitos colaterais, pois se ligam mais especificamente à junção neuromuscular. Os principais fármacos utilizados no tratamento da miastenia gravis são: • Edrofônio*: apresenta duração mais curta (tempo de ação de 2-10 minutos). É mais utilizado no diagnóstico da miastenia gravis • Neostigmina*: realiza inversão do bloqueio da junção neuromuscular • Piridostigmina* Os fármacos com terminação “tigmina” possuem tempo de ação de 30 minutos a 6 horas. A Fisostigmina também é um anticolinesterásico reversível, e é utilizado em forma de colírio para o tratamento do glaucoma (possui capacidade de atuar localmente). Casos em que ocorre um aumento excessivo da presença da acetilcolina (devido a interações medicamentosas ou a erros na posologia) podem levar ao aparecimento de quadros de fraqueza muscular nos pacientes com miastenia gravis, os quais ocorrem devido ao fenômeno de despolarização prolongada (só ocorre se estiver sobrando muita acetilcolina na fenda sináptica). 91 *Alguns fármacos conseguem ser estruturalmente modificados pela indústria farmacêutica, dificultando ou facilitando a passagem pela barreira hemato- encefálica. Ao se falar da miastenia, precisa que o fármaco atue sobre o SN periférico, e não no SNC. Para isso, a indústria farmacêutica modifica estruturalmente estes fármacos, adicionando um grupamento de amônio quaternário para dificultar a passagem destes medicamentos pela barreira hemato-encefálica. Outros anticolinesterásicos, todavia, atuam no SNC, como os utilizados na Demência do tipo Alzheimer (DAT). Na DAT, o paciente possui dificuldade de formação de memória recente devido à morte de neurônios colinérgicos no hipocampo. Nesta doença, a farmacologia age tentando reestabelecer a transmissão colinérgica no SNC: mantém a ação da acetilcolina mais tempo na fenda sináptica nos neurônios que ainda são capazes de liberar acetilcolina. Os fármacos para DAT (que agem no SNC) podem causar efeitos colaterais no SNP, como crise colinérgica (aumento da salivação, de cólicas, no lacrimejamento), despolarização prolongada gerando fraqueza muscular (se houver acetilcolina sendo acumulada na fenda sináptica), dessensibilização e paralisia muscular (sendo estes 2 últimos sintomas muito frequentes em quadros de intoxicação por organofosforados). Irreversíveis Organofosforados • Paration e Melation: veneno utilizado para se matar o mosquito da dengue • Diflos • Gás do nervo e Gás Sarin • Ecotiofato • Aldicarbe (chumbinho): é um inibidor irreversível de acetilcolinesterase. Sua ingestão provoca crise colinérgica no organismo, levando a paralisia muscular. Causa intoxicação. Efeitos dose-dependentes Em baixas doses, a acetilcolina causa efeitos mais leves, como a contração da musculatura lisa visceral, provocando desconforto abdominal. Conforme a dosagem vai aumentando, passa a provocar efeitos como diurese e defecação involuntária (devido à contração da musculatura lisa visceral e relaxamento dos esfíncteres), miose e contração da musculatura esquelética. Em altas doses, a acetilcolina leva à parada respiratória: causa um bloqueio por despolarização prolongada no diafragma. O paciente intoxicado por Aldicarbe vem a óbito devido a uma parada respiratória. Esta parada ocorre porque o excesso de acetilcolina causa intensa broncoconstrição e aumento da atividade glandular (causando um aumento da secreção no pulmão), dificultando assim as trocas gasosas. Associado a esta dificuldade em realizar as trocas gasosas, está um quadro de bradicardia. Antes 92 de ocorrer a parada do funcionamento do diafragma, o paciente vem a óbito por dificuldade respiratória e bradicardia. No pulmão e no coração, há receptores M2 e M3. É possível salvar o paciente intoxicado por Aldicarbe com a administração de atropina, um antagonista do receptor muscarínico. Em um quadro inicial de intoxicação, o que ocorre são os efeitos muscarinicios: aumento de secreção glandular, cólicas, broncoconstrição e bradicardia. Em um quadro de intoxicação aguda, os sintomas são bradicardia grave, hipotensão e dificuldade respiratória. Em concentrações mais altas, há espasmos musculares e bloqueio por despolarização prolongada. Estas substâncias tóxicas normalmente são lipossolúveis, o que faz com que elas facilmente acometam o SNC. Trabalhadores rurais que trabalham com organofosforados têm que fazer exames com periodicidade para que seja avaliada a atividade da acetilcolinesterase. Se a atividade desta enzima estiver muito baixa, o profissional deve ser afastado do trabalho por alguns meses para que os níveis sejam reestabelecidos Não se sabe ao certo porque Neostigmina e a Piridostigmina têm ação sobre a acetilcolinesterase da junção neuromuscular. A Fisostigmina e os organofosforados agem mais sobre o SN autônomo. O gás do nervo é uma substância que leva a pessoa a óbito em menos de 5 minutos. É um gás extremamente lipossolúvel, sendo devido a isso capaz de atravessar a pele e chegar rapidamente à corrente sanguínea, levando as Infecção por Gás Sarin: há alguns anos, em um ataque na Síria, diversas pessoas morreram infectadas por Gás Sarin. Durante o ataque, muitas pessoas foram para os abrigos subterrâneos. Todavia, o Gás Sarin é um gás pesado, de modo que ele se acumulou nestes abrigos subterrâneos, levando a uma intoxicação ainda maior dos indivíduos que ali estavam abrigados. Os primeiros indivíduos que foram encontrados em quadros iniciais de intoxicação conseguiram ser salvos (foi administrada atropina; todavia, a grande quantidade de indivíduos acometidos foi excedente para o estoque de atropina disponível, levando muitas pessoas a óbito). As pessoas intoxicadas que foram encontradas ainda com vida apresentavam salivação constante, muitas cólicas, não enxergavam (em função da miose) e fraqueza (muitas já haviam entrado no quadro de despolarização prolongada, de modo que não conseguiam correr nem fugir). No quadro de intoxicação mais severa pelo Gás Sarin, a respiração fica muito comprometida (devido ao aumento exagerado da secreção glandular e à constrição brônquica) e ocorre também intensa bradicardia. Estes dois quadros associados levam o indivíduo a óbito por parada respiratória. 93 pessoas a óbito em poucos minutos. Este gás era utilizado nas câmaras de gás durante o holocausto. Há substâncias que são reativadores da acetilcolinesterase, chamados de PAM e DAM. Em função do envelhecimento rápido da enzima, nem sempre estes reativadores são utilizados (a partir do momento em que a enzima envelhece, ela não consegue mais ser reativada). Devido a isso, a atropina ainda é o fármaco mais utilizado no tratamento de intoxicações por anticolinesterásicos. • Parassimpatomimético: fármaco que imita a ação da acetilcolina, sendo um agonista • Parassimpatolítico: fármaco que causa a lise da acetilcolina,sendo um antagonista 94 ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS OU ANTICOLINÉRGICOS Medusa - 86 Os antagonistas da acetilcolina podem agir de duas formas: bloqueando receptores muscarínicos (que estão no órgão efetor) ou bloqueando receptores nicotínicos. Apenas em algumas situações muito específicas se é realizado o bloqueio de receptores nicotínicos (visto que, se ocorrer o bloqueio de um receptor nicotínico ganglionar, serão acarretados tanto efeitos simpáticos quanto parassimpáticos). BLOQUEADORES DE RECEPTORES MUSCARÍNICOS Os antagonistas muscarínicos são: • Alcalóides naturais: são aminas terciárias que foram isoladas de plantas medicinais. Possuem ação no SNC e no SNP. o Atropina: foi isolada da planta Atropa belladona o Escopolamina: foi isolada das plantas Datura stramonium e figueira do diabo. A escopolamina utilizada na terapêutica no Brasil é modificada estruturalmente, se tornando Butilbrometo de escopolamina (fármaco que possui ação periférica). • Aminas terciárias: também possuem ação no SNC. o Homatropina o Pirenzepina: pouco utilizada atualmente. Este fármaco apresenta seletividade para receptor M1. A chegada dos inibidores de bomba de prótons ao mercado fez com que este fármaco não fosse mais tão utilizado o Dicilomina, Ciclopentolato e Tropicamida: são fármacos utilizados em oftalmologia o Benztropina e Triexifenidil: anticolinérgicos utilizados no tratamento inicial da doença de Parkinson (visto que a falha na via dopaminérgica ocasionada na Doença de Parkinson faz com que uma via colinérgica ser disparada). • Aminas quaternárias: estas moléculas possuíram sua estrutura modificada para se diminuir a passagem destes fármacos pela barreira hematoencefálica. Estas substâncias agem sobre SNA o Ipratrópio 95 (Os antagonistas muscarínicos que devemos decorar: Atropina, Escopolamina, Ipratrópio e Tiotrópio. Estes 4 agem sobre receptores muscarínicos). Os antagonistas muscarínicos bloqueiam receptores muscarínicos. Com isso, as ações fisiológicas da acetilcolina em receptor muscarínico serão bloqueadas. Os efeitos do bloqueio de receptor muscarínico são: efeito espasmolítico (antiespasmódico), boca seca, constipação intestinal, retenção urinária, diminuição da secreção glandular, midríase e paralisia da acomodação visual. Se for objetivado causar midríase e paralisia da acomodação ocular, utiliza-se um antagonista muscarínico; se for objetivado causar midríase, mas não causar paralisia da acomodação ocular, deve ser ministrado um agonista adrenérgico (visto que a acomodação ocular possui inervação apenas parassimpática). Os antagonistas muscarínicos também são utilizados para alivio de cólica biliar e de cólica renal. ATROPINA Os principais usos da atropina são: • Como antiespasmódico • Como antídoto em casos de envenenamento por anti-colinesterásicos • No tratamento da bradicardia, visto que a acetilcolina, ao se ligar a receptor muscarínico M2, provoca bradicardia. A atropina inibe este receptor para que ocorra um aumento da frequência cardíaca • Como adjuvante anestésico para causar a redução de secreção glandular e a broncodilatação (visto que a acetilcolina, em receptor muscarínico, provoca aumento da secreção glandular e broncoconstrição). o Alguns relaxantes musculares podem levar a broncoconstrição decorrente da liberação de histamina e leucotrienos. O uso da atropina para causar broncodilatação não reverte a broncoconstrição mediada por estas duas substâncias. A dose terapêutica utilizada vai de 0,3 a 1,2 mg, de modo que quase não há efeitos desta substância no SNC. A atropina também é utilizada no controle da sialorreia (secreção salivar aumentada). ESCOPOLAMINA Chás de figueira do diabo (uma das plantas das quais a escopolamina é extraída) eram utilizados para tratar problemas respiratórios por povos indígenas. Este efeito era alcançado pois a escopolamina contida no chá bloqueava receptores muscarínicos, causando broncodilatação e diminuição da secreção glandular. 96 A escopolamina causa efeitos no SNC como sonolência, amnésia e diminuição do sono REM (efeitos semelhantes a o que ocorre na doença de Alzheimer, visto que neste quadro há uma diminuição na liberação de acetilcolina no SNC. A escopolamina funciona como um antagonista colinérgico, e por isso causa estes efeitos semelhantes à doença de Alzheimer). Devido a este efeito de provocar amnésia, a escopolamina era utilizada quando não existiam procedimentos anestésicos, para que assim o paciente não se lembrasse do procedimento cirúrgico que ocorreu. Atualmente, a escopolamina é vendida comercialmente na forma de Butilbrometo de escopolamina (fármaco que possui ínfima lipossolubididade, e devido a isso, dificilmente atravessa a barreira hematoencefálica (enquanto a escopolamina isolada das plantas é capaz atravessar a barreira hematoencefálica, sendo devido a isso efetiva no tratamento da cinetose)). O Buscopam é um medicamento que contém em sua formulação o Butilbrometo de escopolamina, sendo utilizado principalmente como antiespasmódico. A cinetose (enjoos e êmese ocasionada por um desequilíbrio no labirinto provocado pelo movimento) pode ser tratada com adesivos transdérmicos de escopolamina (os quais não possuem venda permitida no Brasil). IPRATRÓPIO E TIOTRÓPIO O Ipratrópio e o Tiotrópio são fármacos utilizados no tratamento da asma e da DPOC. O Ipratrópio é o princípio ativo do Atrovent, fármaco bastante utilizado como broncodilatador. O Tiotrópio possui a mesma finalidade terapêutica que o Ipratrópio, mas é um fármaco inalado. O Tiotrópio possui tempo de ação maior no organismo em relação ao Ipratrópio. OUTROS ANTAGONISTAS MUSCARÍNICOS (Não precisa decorar o nome destes fármacos e a função de cada um, só saber que antagonistas muscarínicos podem ser usados nas finalidades a seguir): • Citopentolato e Tropicamida: dilatação da pupila e cicloplegia (paralisia da acomodação visual) • Oxibutinina, Tolterodina e Darifenacina: tratamento da incontinência urinária (o antagonista ajuda no tratamento da incontinência, visto que a acetilcolina causa relaxamento de esfíncteres) • Glicopirrolato: inibe a formação de saliva Efeitos colaterais do uso de antagonistas muscarínicos: boca seca, visão turva, constipação intestinal e retenção urinária 97 OUTROS MECANISMOS DE ANTAGONISTAS COLINÉRGICOS Até então, foram citados fármacos que agem sobre receptores muscarínicos. Todavia, existem outros mecanismos para que seja causado o efeito antagonista dos fármacos colinérgicos: A. INTERFERÊNCIA NA LIBERAÇÃO DE ACH Os fármacos que interferem na liberação de acetilcolina podem agir de duas formas: • Inibindo o sistema de captação de colina (o Hemicolínio, que não é utilizado na terapêutica, possui este efeito) • Bloqueando canais de cálcio (e impedindo assim a exocitose). Não há nenhum fármaco que realize o bloqueio do canal de cálcio: ele ocorre normalmente devido ao uso de alguns antibióticos ou devido à ação de algumas toxinas. B. DESPOLARIZAÇÃO PROLONGADA A Nicotina é capaz de causar despolarização prolongada ao agir sobre receptores nicotínicos C. INTERFERÊNCIA NA AÇÃO PÓS-SINÁPTICA • Trimetafana: era utilizado para reduzir a PA em procedimentos cirúrgicos, objetivando se controlar um quadro de hemorragia. Este fármaco é raramente utilizado na terapêutica, visto que causa um bloqueio de receptores nicotínicos ganglionares. É mais utilizado em pesquisas. • Toxina botulínica: interfere na liberação de acetilcolina. A acetilcolina, ao se ligar ao receptor nicotínico da placa motora, causa contração da musculatura esquelética. A toxina botulínica bloqueia o processo de exocitose, não permitindo a liberação da acetilcolina na fenda. o Para que ocorra a liberação do neurotransmissor,a vesícula deve conseguir se ancorar à membrana da célula pré-sináptica. Para o processo de exocitose acontecer, é necessária a presença de cálcio e de proteínas SNARE (três proteínas que formam um complexo que permite a ancoragem da vesícula na membrana pré- sináptica). A toxina botulínica degrada essas proteínas do complexo SNARE, de forma que não seja possível ocorrer a ancoragem das vesículas e liberar mais neurotransmissores. o Acreditava-se que a toxina botulínica ocasionava apenas um bloqueio da junção neuromuscular, mas atualmente sabe-se que a toxina botulínica pode ser utilizada para outras aplicações clínicas, visto que ela pode atuar também sobre junções neuronais ou sobre junções neuro-glandulares. Alguma das suas aplicações são: tratamento da sudorese excessiva (hiperidrose), correção do 98 estrabismo, correção de ptose, tratamentos estéticos, tratamento do bruxismo, tratamento da incontinência urinária, tratamento de cefaleia e enxaqueca crônica (na enxaqueca, ocorrem descargas colinérgicas; nos quadros de enxaqueca crônica, a pessoa possui mais de 15 dias de enxaqueca no mês – e devido a isso, o fármaco deve ser tomado de forma preventiva). o Com o passar do tempo, o organismo vai progressivamente eliminando a toxina e reestabelecendo as proteínas de ancoragem, devendo ser realizada nova aplicação da toxina botulínica para que os efeitos citados acima sejam mantidos. 99 BLOQUEADORES DE RESCEPTORES NICOTÍNICOS (DA JUNÇÃO NEUROMUSCULAR) Estes fármacos são utilizados como coadjuvantes anestésicos. São classificados em bloqueadores não despolarizantes competitivos e bloqueadores despolarizantes. (Não precisa decorar qual fármaco é de ação intermediária, rápida ou ultra- rápida. Precisa saber a finalidade dos medicamentos e o seu mecanismo de ação). Bloqueadores não despolarizantes competitivos Estes fármacos se ligam ao receptor nicotínico presente na junção neuromuscular, bloqueando-o e impedindo assim a ligação da acetilcolina (mecanismo clássico de antagonistas em receptores). Como resultado, ocorre relaxamento da musculatura esquelética. Estes fármacos são chamados de bloqueadores pois bloqueiam a ligação da acetilcolina e competitivos pois o fármaco e o receptor competem pelo mesmo sítio de ligação. Para se retornar à fisiologia normal após o procedimento cirúrgico, aumenta-se a concentração de acetilcolina na fenda sináptica por meio da administração de um anti-colinesterásico, como a Neostigmina (para que assim a acetilcolina consiga deslocar o bloqueador do receptor). Conjuntamente ao fármaco anti-colinesterásico, é administrada atropina. Isto é feito pois a acetilcolina pode agir no pulmão, causando broncoconstrição e aumento da secreção glandular (a atropina age impedindo estes efeitos da acetilcolina sobre os receptores muscarínicos). Os bloqueadores não despolarizantes competitivos são: • Tubocurarina: é um fármaco proveniente do curare (substância utilizada por povos indígenas em caçadas – ao ser injetado no animal, o curare bloqueia receptores nicotínicos da placa motora, e com isso os animais atingidos não conseguem fugir). Atualmente, a Tubocurarina não é mais 100 utilizada, visto que além de bloquear receptores nicotínicos da placa motora, ela também bloqueia receptores nicotínicos ganglionares (causando hipotensão), além de causar também a liberação de histamina (que causa ainda mais hipotensão e broncoconstrição). • Atracúrio, Doxacúria, Cisatracúrio e Mivacúrio: são derivados da isoquinolina o Atracúrio e Mivacúrio promovem a liberação de histamina, mas os outros derivados da isoquinolina não. O Atracúrio é bastante utilizado, visto que a sua eliminação independe de o paciente apresentar função renal e função hepática preservadas. • Pancurônio, Vecurônio e Rocurônio: são derivados esteróides. Todos estes fármacos citados acima podem ter o seu mecanismo de ação revertido com anticolinesterásicos. Os derivados de esteroides também conseguem ser inativados pelo Sugamadex (o qual não consegue inativar os derivados da tubocurarina). O Sugamadex causa menos efeitos colaterais do que os anticolinesterásicos. É uma substância que consegue encapsular o fármaco (o bloqueador neuromuscular), de modo que ele não consiga mais atuar sobre o receptor e seja possível se reestabelecer a contração muscular. Os efeitos causados belos bloqueadores competitivos não despolarizantes são (em ordem crescente de doses): relaxamento dos olhos, do maxilar e da laringe; relaxamento de membros e tronco; relaxamento do diafragma. Na recuperação após o uso destes fármacos, os efeitos vão sumindo de forma contrária à citada (o primeiro a se recuperar é o diafragma, seguido por membros e tronco, sendo recuperados por fim os olhos, o maxilar e a laringe). Bloqueadores despolarizantes A succinilcolina se liga aos receptores nicotínicos da placa motora possui menor hidrólise pela acetilcolinesterase, do modo que permanece por mais tempo ligada ao receptor nicotínico, levando a um quadro de despolarização prolongada. No primeiro minuto após a administração da succinilcolina, o paciente apresenta contrações musculares (fasciculações – as quais podem transmitir dor para alguns pacientes). Depois de 1-2 minutos, ocorre o bloqueio por despolarização prolongada e a musculatura relaxa. Após isso, a succinilcolina é degradada pela butirilcolinesterase (a colinesterase circulante na corrente sanguínea). É um fármaco bastante utilizado para procedimentos de intubação. Os principais efeitos colaterais relativos ao uso da succinilcolina são: • Bradicardia, que acontece devido à ação sobre receptores muscarínicos. • Arritmia cardíaca devido a uma hipercalemia (este quadro normalmente não ocorre em pacientes saudáveis, mas sim em pacientes com algum tipo de traumatismo ou queimaduras) • Aumento de pressão intraocular 101 • Paralisia prolongada em determinadas situações (quando a atividade da butirilcolinesterase está diminuída, como em pacientes em contato com organosfosforados, pacientes que fazem uso de anticolinesterásicos, em RNs e em pacientes cuja atividade enzimática é diminuída). • Hipertemia maligna (podem ocorrer espasmos intensos da musculatura, causando um aumento de temperatura corporal). Classificação dos bloqueadores da JNM em relação ao tempo (Não precisa decorar qual é qual) • Fármacos de longa duração: Pancurônio e Doxacúrio são fármacos de longa duração, mas que demoram um tempo para ter início de ação. São fármacos extremamente potentes, e a sua demora no início de ação acontece pois as doses ministradas são extremamente baixas. • Fármacos de ação intermediária: Vecurônio e Atracúrio. possuem tempo de ação um pouco mais rápido. • Fármacos de curta duração: Mivacúrio (Rapacurônio também era, mas não é mais) • Fármacos de ação ultra curta: Succinilcolina O Rocurônio é um fármaco de ação intermediária, mas é considerado de ação curta. (?) Os fármacos de ação curta e ultra curta sofrem ação da butirilcolinesterase. Atualmente, muitos procedimentos não usam mais succinilcolina, pois têm começado a utilizar o Rocurônio devido a este provocar menos efeitos colaterais do que a succinilcolina. 102 A imagem abaixo mostra os principais mecanismos que interferem na transmissão de acetilcolina: 103 104 FARMACOLOGIA ADRENÉRGICA Medusa - 86 A farmacologia adrenérgica age principalmente sobre o sistema nervoso simpático. As glândulas sudoríparas são uma exceção, pois apesar de fazerem parte do sistema nervoso simpático, são controladas pela liberação de acetilcolina. Na farmacologia adrenérgica, os fármacos podem atuar aumentando o conteúdo de adrenalina e noradrenalina na fenda sináptica ou se ligando aos receptores adrenérgicos. Outra exceção que faz parte do SNA Simpático,mas não libera adrenalina ou noradrenalina, são as fibras pós-ganglionares que atuam sobre o controle dos vasos renais, as quais liberam dopamina. A dopamina, quando relacionada ao sistema nervoso periférico, está muito envolvida no quadro de Insuficiência Cardíaca e em quadros de sepse. Além disso, este neurotransmissor é bastante importante no SNC. A dopamina normalmente se liga a receptores dopaminérgicos, mas dependendo da dose em que for administrada, ela pode passar a atuar em receptores noradrenérgicos também. Devido a isso, drogas que objetivam fazer com que a dopamina atue no sistema nervoso periférico devem ser administradas em doses adequadas, de modo que possibilite que a dopamina passe a se ligar a receptores alfa e beta adrenérgicos também. 105 SÍNTESE, LIBERAÇÃO E DEGRADAÇÃO DA NORADRENALINA Síntese das catecolaminas Tanto a adrenalina quanto a noradrenalina são catecolaminas, moléculas que apresentam o grupamento catecol em sua estrutura. O catecol consiste um grupamento formado por duas hidroxilas na posição orto. A COMT, uma enzima que degrada as catecolaminas, ataca o grupamento catecol. No organismo humano, há 3 catecolaminas naturais: dopamina, adrenalina e noradrenalina O início da síntese das catecolaminas começa a partir da tirosina, que sofre ação da tirosina hidroxilase, gerando dopa. A dopa, sob a ação da dopa descarboxilase gera dopamina. A dopamina é levada para o interior de uma vesícula (por meio de uma proteína transportadora) e sofre ação da dopamina beta-hidroxilase, gerando noradrenalina. A noradrenalina, sob ação da feniletanoamina N-metil transferase (FENT) gera adrenalina. 106 O motivo que faz com que alguns neurônios sejam dopaminérgicos e outros noradrenérgicos é que alguns neurônios não possuem a dopamina beta-hidroxilase, e por isso liberam dopamina (já que não conseguem sintetizar norepinefrina). Liberação Para que ocorra a liberação, é necessário que ocorra um potencial de ação e a abertura de canais de Ca+2. Com a presença de cálcio intracelular, ocorre a exocitose, liberando o neurotransmissor na fenda sináptica. Ao serem liberados na fenda sináptica, parte dos neurotransmissores se liga aos receptores adrenérgicos, parte é recaptada pelo sistema de captação 1 (uma proteína que leva o neurotransmissor para dentro do neurônio pré- sinaptico) e parte é recaptada pelo sistema de captação 2 (que leva o neurotransmissor para dentro da célula pós-sináptica). O sistema de recaptação 1 é o mais efetivo na retirada dos neurotransmissores da fenda. São estes sistemas que são responsáveis por retirar a noradrenalina da fenda, visto que as enzimas que a degradam ficam presentes no interior das células (tanto pré quanto pós-sinápticas), e não na fenda sináptica em si (como era o caso da acetilcolinesterase) Em relação aos receptores aos quais a noradrenalina pode se ligar, há tanto receptores pós-sinápticos quanto um receptor pré-sináptico. O receptor alfa 2 é um receptor normalmente pré-sináptico e inibitório: quando 107 a noradrenalina se liga a ele, o receptor sinaliza para que o neurônio pré- sináptico iniba a liberação de mais noradrenalina (realiza um feedback negativo). O receptor alfa 2 pré-sinaptico é um receptor como os outros, e não uma proteína transportadora. A noradrenalina é retirada da fenda sináptica pelos sistemas de captação, e não pelo receptor alfa 2. Degradação Há 2 enzimas que degradam as catecolaminas: MAO (monoaminoxidase) e COMT (catecol-orto-metil-transferase). A MAO está localizada no citoplasma neuronal, e a COMT está no citoplasma do tecido extra-neuronal (no citoplasma da célula pós-sináptica) e pode estar ancorada na membrana da célula pós- sináptica. A noradrenalina é degradada no interior de ambas as células (tanto pré quanto pós-sinaptica, e por isso precisa dos sistemas de captação). As enzimas praticamente não ficam na fenda, mas sim no interior das células . O término de ação da noradrenalina e da adrenalina ocorre pela retirada destes neurotransmissores da fenda, e não pela sua degradação pelas enzimas (como ocorre com a acetilcolina). O sistema de captação 1 tem alta capacidade de captação de noradrenalina. O de captação 2 tem maior capacidade de captação de adrenalina. Grande parte da adrenalina é liberada pela adrenal diretamente na corrente sanguínea (indo por meio dela atuar nos receptores adrenérgicos) MECANISMOS QUE INTERFEREM NOS PROCESSOS DE SINTESE E DEGRADAÇÃO – AGONISTAS E ANTAGONISTAS Há cerca de 8-9 mecanismos que interferem no processo de síntese e degradação das catecolaminas. Alguns serão vistos no estudo do SNC (são utilizados para se aumentar o conteúdo dopaminérgico ou adrenérgico devido a algumas doenças que acometem o SNC). 108 Os principais mecanismos que os fármacos podem adotar para interferir nos processos de síntese e degradação das catecolaminas são: 1. Agindo sobre os receptores pós-sinápticos Os fármacos podem atuar como agonistas ou como antagonistas sobre os receptores adrenérgicos. Se o fármaco imita a ação da adrenalina e da noradrenalina ao se ligar aos receptores adrenérgicos, é um agonista. É possível se prescrever os próprios neurotransmissores (noradrenalina, adrenalina e dopamina) para o paciente (diferentemente do que ocorre com a acetilcolina, que não é prescrita devido à presença da acetilcolinesterase circulante). Se o fármaco atua sobre os receptores, se ligando a eles e impedindo a ligação da noradrenalina e da adrenalina, e não desencadeando efeito celular, é um antagonista. 2. Inibindo os sistemas de recaptação Alguns fármacos e algumas drogas inibem os sistemas de recaptação. Ao serem inibidos estes sistemas de recaptação, há um aumento do neurotransmissor na fenda sináptica, de modo que ele possa se ligar mais aos receptores. Desta forma, fármacos que inibem sistemas de recaptação funcionam como agonistas. Anti-depressivos tricíclicos atuam desta forma: interferem na recaptação de noradrenalina, serotonina e dopamina. Os antidepressivos tricíclicos, como Nortriptilina, Amitriptlina e Imipramina, demoram um tempo para manifestar os efeitos de melhora do quadro depressivo (aproximadamente 1 mês). Esta demora no começo do efeito ocorre pois quando os neurotransmissores ficam em excesso na fenda sináptica, eles se ligam tanto aos receptores pós-sinapticos quanto aos pré-sinapticos (que são inibitórios). A ligação aos receptores pré- sinápticos inibitórios faz com que não seja liberada a quantidade adequada do neurotransmissores na fenda sináptica. Depois cerca de 1 mês de uso dos antidepressivos tricíclicos, ocorre a dessensibilização dos receptores pré- sinápticos, sendo possível se obter o efeito desejado. 3. Inibidores da MAO Há fármacos que inibem a MAO. A MAO é uma enzima que fica no interior dos neurônios e que degrada as monoaminas quando elas são recaptadas. Se a MAO está inibida, sobra noradrenalina sem ser degradada no interior do citoplasma neuronal. Esta noradrenalina excedente no citoplasma acaba escapando pela fenda do transportador de recaptação. Desta forma, observa-se 109 que a utilização dos iMAO causa um aumento da disponibilidade de neurotransmissores na fenda, causando um efeito agonista. Há 2 tipos de MAO no organismo: MAO-A e MAO-B. A MAO-A degrada NE e serotonina, enquanto a MAO-B degrada dopamina. No mecardo, há fármacos que não são seletivos sobre qual MAO atuam; há apenas um fármaco no mercado que é seletivo para a MAO-A e apenas um fármaco que é seletivo para a MAO-B Os fármacos que não são seletivos e o fármaco que inibe a MAO-A eram utilizados no tratamento da depressão, mas estão em desuso. Estes fármacos estão em desuso pois causam muitos efeitos colaterais, visto que a MAO tem ação no intestino (principalmente no metabolismo da tiramina).Devido a este efeito intestinal, o paciente que faz uso de iMAO deve passar por uma restrição alimentar de vários alimentos que contenham tiramina ou tirosina. A tiramina, ao ser ingerida e não degradada, desloca a noradrenalina da vesícula, fazendo com que ela se acumule no citoplasma. Como a MAO está inibida, a noradrenalina não é degradada e escapa para a fenda sináptica, passando a se acumular e a causar uma intensificação dos efeitos noradrenérgicos no organismo. Com isso, o paciente que faz uso de iMAO, se ingerir alimentos ricos em tiramina, pode apresentar um quadro de hipertensão fatal. Inibidores da MAO-B (Selegilina) são fármacos utilizados para o tratamento da Doença de Parkinson (a associação de um inibidor de MAO-B com um inibidor de COMT é uma das últimas possibilidades terapêuticas para o paciente que tem Parkinson). 4. Fármacos que inibem a entrada do neurotransmissor na vesícula Há fármacos que inibem a entrada dos neurotransmissores nas vesículas para serem exocitados, de modo que os neurotransmissores fiquem dispersos no citoplasma e sejam degradados pela MAO. Devido a isso, estes fármacos causam efeito antagonista. Também são fármacos em desuso. 5. Inibidores de síntese Há fármacos, como a alfa-metil-dopa, que inibem a síntese dos neurotransmissores. A alfa-metil-dopa, ao ser metabolizada, gera alfa-metil- dopamina, que ao ser metabolizada, gera alfa-metil-noradrenalina. A alfa-metil- noradrenalina é um composto que não consegue se ligar ao receptor alfa 1, beta 1 e beta 2, mas consegue se ligar ao receptor alfa 2 pré-sinaptico, que é inibitório. Ao se ligar a este receptor, este fármaco age como um falso transmissor de que há um excesso de neurotransmissores na fenda, de modo que a produção de noradrenalina seja diminuída (sendo devido a isso chamado de inibidor de síntese). Os inibidores de síntese são, portanto, fármacos antagonistas (visto que diminuem a liberação dos neurotransmissores). 110 6. Inibição da dopa-descarboxilase A dopamina é um fármaco que pode ser utilizado no tratamento da doença de Parkinson, visto que esta doença conta com um déficit de dopamina na região nigro-estriatal. Em estágios iniciais, o tratamento da doença é realizado com anticolinérgicos. Todavia, conforme ela vai progredindo, passam a ser utilizados agonistas dopaminérgicos, e por fim, utiliza-se a associação de levodopa com carbidopa. Se mesmo a administração de levodopa com carbidopa não for efetiva, passam a ser administrados inibidores de MAO ou de COMT. A dopamina não é capaz de atravessar a barreira hemato-encefálica. Devido a isso, é utilizada a levodopa, substância que é capaz de atravessar a barreira e ser convertida em dopamina já no interior do SNC. A administração da levodopa no tratamento da Doença de Parkinson é retardada ao máximo (visto que após um tempo, ela começa a perder a sua eficácia também). Perifericamente, a levodopa é convertida em dopamina pela dopa- descarboxilase. Para que a levodopa não seja degradada perifericamente por essa enzima, administra-se conjuntamente a carbidopa, que é um inibidor de dopa-descarboxilase periférico (se esta enzima for inibida, uma maior quantidade de levodopa fica disponível para atravessar a barreira hematoencefálica e se transformar em dopamina já no interior do SNC). Se a levodopa for administrada sozinha, apenas cerca de 2% da levodopa chega ao SNC para ser transformada em dopamina. Com a administração conjunta de carbidopa, chega ao SNC cerca de 10% da levodopa administrada, podendo assim ser transformada em dopamina no SNC. A carbidopa é um fármaco não atravessa a barreira hematoencefálica. DEGRADAÇÃO METABÓLICA As catecolaminas são metabolizadas tanto pela MAO quanto pela COMT. O metabólito final da dopamina é o ácido homovanílico. O metabólito final da noradrenalina e da adrenalina é o ácido vanilmandélico. Antes de se chegar ao metabólito final da noradrenalina e da adrenalina, há mais 2 metabólitos importantes: metanefrina e normetanefrina. Em algumas doenças ou algumas situações, é realizada a determinação destes metabolitos na urina e no sangue do indivíduo: • Dosagem do ácido homovanílico: utilizada na avaliação do turnover da dopamina no organismo. • Dosagem de metanefrina, normetanefrina e ácido vanilmandélico: utilizada para o diagnóstico de feocromocitoma (tumor da adrenal que libera grandes quantidades de noradrenalina e adrenalina). o Se o paciente estiver tomando inibidores da MAO ou da COMT ou antidepressivos tricíclicos, haverá interferência nesta dosagem. 111 RECEPETORES ADRENÉRGICOS RECEPTORES ALFA • Alfa 1: Importante nos vasos. São receptores pós-sinapticos e excitatórios (possuem proteína Gq acoplada). Suas ações fisiológicas geralmente são o contrário das causadas pelo receptor muscarínico, com exceção da broncoconstrição (que ambos causam). As suas principais ações fisiológicas são: o Contração uterina o Broncoconstrição 112 o Vasoconstrição – aumenta resistência vascular periférica e a PA o Fechamento de esfíncteres do sistema digestório e do sistema genitourinário o Relaxamento da musculatura lisa intestinal o Midríase o Glicogenólise • Alfa 2: Importante nas terminações adrenérgicas (controla a liberação de mais neurotransmissores) e no SNC. São receptores pré-sinápticos e inibitórios (possuem proteína Gi acoplada). Seus principais efeitos fisiológicos são: o Diminuição da secreção de insulina o Agregação plaquetária o Diminuição da liberação de noradrenalina e acetilcolina o Vasoconstrição (lembrando que o receptor mais influente nos vasos é o alfa 1!) o Diminuição da atividade simpática por meio da diminuição da pressão arterial via SNC. Quem realiza isto são receptores alfa 2 pós-sinápticos. Este efeito da diminuição da PA ocorre a longo prazo (visto que a administração crônica de agonistas dos receptores alfa 2 causa a diminuição da liberação de adrenalina e noradrenalina) o O uso crônico de fármacos agonistas do receptor alfa 2 faz com que seja diminuída a liberação dos neurotransmissores noradrenérgicos. Desta forma, um fármaco agonista causa efeito antagônico no organismo (visto que se liga no receptor e desencadeia reação, mas diminui a disponibilidade dos neurotransmissores). A adrenalina e a noradrenalina possuem maior afinidade pelos receptores adrenérgicos do que a isoprenalina. Existe uma divergência entre os livros sobre qual o neurotransmissor se liga com maior afinidade a cada tipo de receptor adrenérgico. Segundo a Karina, a adrenalina possui maior afinidade por receptores beta-adrenérgicos e a noradrenalina possui maior afinidade por 113 receptores alfa 1-adrenérgicos (ambas se ligam em ambos, mas apresentam esta maior afinidade). Pode ser que dois receptores adrenérgicos possuam efeitos antagônicos em um mesmo órgão. Para se considerar qual será o efeito biológico obtido, deve-se saber qual o receptor mais “importante” para o órgão (qual encontra-se em maior quantidade e é mais influente no funcionamento órgão). Exemplo: se o paciente está em um quadro asmático de emergência, administra-se adrenalina, a qual age sobre todos os receptores adrenérgicos. Apesar de agir sobre todos os receptores, o que realmente causa o efeito objetivado de broncodilatação é o beta 2, já que ele é o receptor mais influente no pulmão. Ou seja, apesar de haver tanto receptores alfa 1 (que promovem broncoconstrição) quanto receptores beta 2 (que promovem broncodilatação) no pulmão, há mais receptores beta 2, de modo que a sua ação é predominante no órgão. RECEPTORES BETA São sempre pós-sinapticos e excitatórios. Todos são acoplados a proteínas Gs (ativam adenilato ciclase e aumentam AMPc). • Beta 1: Importante para o coração e para o rim (principalmente no controle da pressão arterial) o Aumenta aforça de contração do coração e a FC o Aumenta a liberação de mais adrenalina pelas terminações nervosas o Aumenta a liberação de renina o Realiza lipólise o Promove a secreção de amilase 114 • Beta 2: Importante para pulmões, musculatura lisa do trato respiratório e musculatura lisa uterina o Relaxamento da musculatura lisa do útero, intestino e dos órgãos do sistema genitourinário o Dilatação dos brônquios o Vasodilatação de vasos que irrigam a musculatura esquelética. ▪ Há receptores beta 2, beta 1 e alfa 1 nos vasos. Todavia, se for ministrada adrenalina para o indivíduo, a resposta que se sobressai é a do alfa 1 (pois há uma quantidade maior destes receptores nos vasos) o Aumento da massa muscular e da velocidade de contração muscular o Glicogenólise o Promove a liberação de histamina por mastócitos Os medicamentos utilizados para o tratamento da asma são agonistas do receptor beta 2, que é o predominante no pulmão. Além disso, se este quadro de broncoconstrição for relacionado a um quadro alérgico, o uso dos agonistas dos receptores beta 2 causará uma diminuição na liberação de histamina. • Beta 3 – é um receptor descoberto há pouco tempo. Está presente no tecido adiposo (estando envolvido no processo de lipólise), na bexiga e está envolvido com o estresse oxidativo. Quase não há medicamentos que atuam sobre este receptor. 115 Algumas considerações clínicas (não relacionadas entre si kkk): Se o paciente está com hipertensão, uma das possíveis terapêuticas é agir sobre receptores adrenérgicos presentes no coração. Como os receptores presentes no coração são receptores alfa 1, alfa 2 e beta 1, poderiam ser administrados antagonistas de alfa 1, agonistas de alfa 2 ou antagonistas de beta 1. A escolha para o tratamento da hipertensão deve ser utilizar antagonistas de receptores beta 1 adrenérgicos, visto que ele é o receptor predominante no coração e também interfere na liberação de renina. A administração de fármacos que atuassem sobre receptores alfa 1 e alfa 2 causaria muito mais efeitos colaterais do que efeitos terapêuticos. A pressão arterial é controlada ou pelo débito cardíaco (Volume sistólico x Frequência cardíaca) ou pela resistência vascular periférica. Os fármacos que agem sobre os receptores adrenérgicos podem possuir diferentes seletividades. Entre eles, estão: • Bloqueadores alfa • Bloqueadores alfa e beta • Bloqueadores alfa 1 e alfa 2 • Bloqueadores seletivos de alfa 1 • Beta-bloqueadores não cardiosseletivos: bloqueiam tanto beta 1 quanto beta 2. São os “beta-bloqueadores de primeira geração” o Os beta-bloqueadores não cardiosseletivos não devem ser utilizados em pacientes hipertensos que sejam asmáticos (visto que agirão sobre receptores beta-2 também). 116 • Beta-bloqueadores cardiosseletivos: bloqueiam apenas beta 1. São os “beta-bloqueadores de segunda geração”. • Beta-bloqueadores que promovem vasodilatação por mecanismos diferenciados (indução de óxido nítrico ou bloqueio do receptor alfa 1). São os “beta-bloqueadores de terceira geração”. São fármacos utilizados no tratamento da Insuficiência cardíaca e da hipertensão arterial. No caso de uma gestante entrando em trabalho de parto prematuro, deve ser administrado um agonista de receptor beta 2, visto que ele promoverá o relaxamento da musculatura lisa uterina. Clembuterol é um agonista de beta-2 recomendado para uso veterinário, sendo utilizado para melhorar a performance de cavalos de corrida. As pessoas inadequadamente fazem uso deste fármaco pois ele é capaz de aumentar a massa muscular, melhorar a capacidade respiratória (causa broncodilatação), proporcionar um maior aporte de sangue na musculatura esquelética (causa vasodilatação destes vasos), aumentar a velocidade de contração muscular e favorecer a glicogenólise (dando energia para a musculatura). Com isso, o indivíduo cria condições muito melhores para se realizar atividades físicas. A efedrina (um dos princípios ativos do Franol) se liga a receptores alfa 1 e beta 1. É utilizada por frequentadores de academia. É um fármaco de ação mista: atua sobre receptores e atua promovendo a liberação de mais neurotransmissores, os quais acabam atuando também sobre receptores beta 2, aumentando a performance atlética. O seu uso promove vasoconstrição, aumento da PA, aumento da FC e lipólise. Se a pessoa tem algum problema cardiovascular e faz uso dessa substância, causa parada cardíaca ou IAM. Quanto mais seletivo um fármaco for para um determinado tipo de receptor, menos efeitos colaterais haverá. 117 AGONISTAS ADRENÉRGICOS OU SIMPATICOMIMÉTICOS Medusa - 86 Os fármacos agonistas ou simpaticomiméticos imitam a ação dos neurotransmissores adrenérgicos, estimulando os efeitos da ativação do sistema nervoso simpático. Relação estrutura-atividade A relação estrutura-afinidade é o que faz com que alguns fármacos tenham maior afinidade por receptor β, outros por receptor α (ou por ambos). A molécula do fármaco também pode conter características que façam com que ele seja degradado pela MAO, degradado pela COMT, e que contenha maior ou menor facilidade em atravessar a barreira hematoencefálica. Portanto, a potência global e a especificidade dos fármacos aos receptores dependem e diversos fatores, como: • Afinidade pelos receptores adrenérgicos e sua eficácia sobre estes receptores o A afinidade dos neurotransmissores pelos receptores varia entre as referências bibliográficas • Interação com sistemas de captação neuronal • Interação com a MAO • Interação com a COMT Estrutura da catecolamina: As catecolaminas são formadas por um grupo catecol e por um grupo amina. Fármacos que apresentam o grupo catecol possuem afinidade tanto pelo receptor α quanto pelo β. A questão de ter um pouco mais de afinidade por α ou por β é influenciada principalmente pelo radical R3 presente no grupamento amina da molécula. 118 Fármacos que possuem grupamento R3 grandes possuem maior afinidade por receptores β-adrenérgicos. Fármacos que possuem o grupamento R3 menor possuem maior afinidade pelos receptores α- adrenérgicos. A COMT (Catecol orto-metil-transferase) atua no grupamento catecólico (duas hidroxilas em azul no esquema acima). A MAO (monoaminoxidase) atua quando na molécula há um hidrogênio no grupamento R2. Os 3 primeiros fármacos do esquema abaixo apresentam grupamento catecol, e devido a isso são degradados pela COMT. Todos os fármacos do esquema, com exceção da Efedrina, possuem um H no grupamento R2, e devido a isso são degradados pela MAO. 119 Na tabela a seguir, os 3 primeiros fármacos são degradados pela MAO e os 3 últimos não são, devido à presença e à ausência de H no grupamento R2, respectivamente. O grupamento R1 define se o fármaco apresenta maior ou menor polaridade e hidrossolubilidade, facilitando ou dificultando que ele atravesse a barreira hematoencefálica. • Quando R1 = H, há ação da catecolamina no SNC (fica mais hidrofóbica, conseguindo atravessar a barreira hematoencefálica) • Quando R1 = OH, não há ação da catecolamina no SNC (fica mais hidrossolúvel, não conseguindo atravessar a barreira hematoencefálica) Os fármacos que atuam nos receptores adrenérgicos apresentam uma visível semelhança estrutural com as catecolaminas. Há fármacos que não possuem nem grupamento catecólico nem H no radical R2 (como a Metoxamina no quadro acima). Com isso, estes fármacos não são degradados nem pela MAO nem pela COMT. Estes fármacos são metabolizados (passam pelo processo de biotransformação) AGONISTAS ADRENÉRGICOS Os agonistas adrenérgicos são separados em 3 ou 2 maneiras: alguns livros dividem-nos em fármacos de ação direta, fármacos de ação indireta e fármacos de ação mista, enquanto outros autores dividem-nos emfármacos de ação direta e fármacos de ação indireta (que englobam também os fármacos de ação mista). 120 • Fármacos de ação direta: atuam diretamente sobre o receptor adrenérgico. o Agonista seletivo de alfa1 ▪ Fenilefrina o Agonista seletivo de alfa 2 ▪ Clonidina, alfa-metildopa (sendo esta um antagonista) o Agonista de alfa 1 e alfa 2 o Agonista seletivo de beta 1 ▪ Dobutamina o Agonista seletivo de beta 2 ▪ Salbutamol e Terbutalina o Agonista de beta 1 e beta 2 o Agonista de alfa1, alfa2, beta 1 e beta2 ▪ Exemplo: adrenalina. Ao ser ministrado no caso de uma parada cardíaca objetiva-se agir sobre beta 1, mas age sobre os demais receptores também (causando efeitos colaterais) • Fármacos de ação indireta: agem principalmente no SNC. Eles podem agir das seguintes maneiras: o Fármacos que aumentam a liberação de NA ▪ Ex.: uso de anfetaminas ▪ Ingestão de tiramina associada a iMAO o Fármacos que diminuem a captação de NA ▪ Ex.: cocaína e antidepressivos tricíclicos • Fármacos de ação mista: possuem tanto ação direta quanto indireta. Atua por meio dos dois mecanismos: tanto sobre receptores, quanto aumentando a liberação de neurotransmissor o Efedrina 121 Os principais agonistas de ação direta a serem estudados encontram-se no quadro abaixo: Dependendo da concentração em que a dopamina é administrada, ela passa a se ligar a receptores alfa e beta, além dos dopaminérgicos. A Isoprenalina está em desuso, e foi substituída por outros agonistas de receptores beta-2. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO DIRETA ADRENALINA A Adrenalina é um fármaco que se liga tanto a receptores alfa quanto a receptores beta. Possui afinidade maior pelo receptor beta adrenérgico, enquanto a NA se liga mais a receptores alfa adrenérgicos. Quando a adrenalina se liga a receptores beta 2 adrenérgicos, causa broncodilatação. Quando se liga a receptor beta 1, aumenta a força de contração do coração e a frequência cardíaca. A adrenalina é utilizada visando estes efeitos em quadros de emergência asmática, choque anafilático e parada cardíaca. Alguns anestésicos vêm associados à adrenalina, para que ela atue em receptor alfa 1 adrenérgico para causar vasoconstrição e o anestésico fazer efeito por mais tempo no local onde foi aplicado. Quando há a vasoconstrição, há diminuição do fluxo sanguíneo e da velocidade de distribuição do fármaco, fazendo com que ele fique durante mais tempo no local. Como efeitos colaterais, quando a adrenalina se liga a receptores beta 2, pode aumentar a velocidade de contração do músculo esquelético e causar tremores finos das mãos. Ao se ligar a receptores alfa 1, pode haver 122 vasoconstrição. Ao se ligar a receptores alfa 2, pode haver diminuição da secreção de insulina. Outros efeitos colaterais que podem ser causados são: taquicardia (se liga a receptor beta 1, aumentando a FC), palidez e extremidades frias (devido à vasoconstrição), hipertensão (PA = DC x RVP, e DC = FC x VS. A RVP é aumentada na vasoconstrição e a FC é aumentada com a ligação aos receptores beta 1), hiperglicemia (devido à diminuição da liberação de insulina e ao processo de glicogenólise) e ansiedade (sintomas físicos da ansiedade) Os vasos são geralmente controlados por receptores alfa 1. Devido a isso, mesmo que a adrenalina aja sobre receptores beta 2 presentes nos vasos, o efeito dominante será o causado por receptores alfa 1 (vasoconstrição). No choque anafilático, é interessante se ministrar adrenalina tanto para ela agir nos pulmões (por meio de receptores beta 2) quanto devido ao efeito de vasoconstrição (ao agir sobre receptores alfa 1 dos vasos), visto que a liberação de histaminas no choque anafilático pode levar a quadros de hipotensão – a vasoconstrição pode levar a um aumento da resistência vascular periférica, contribuindo para equilibrar a PA novamente. NORADRENALINA A NA é utilizada é principalmente em casos de choque hipovolêmico. A aplicação da noradrenalina causa vasoconstrição intensa no local da injeção (podendo levar à necrose neste sítio). A Noradrenalina se liga tanto a receptores alfa quanto a receptores beta, sendo que possui maior afinidade com receptores alfa 1 adrenérgicos. Causa vasoconstrição (ao agir sobre receptores alfa 1 e alfa 2 dos vasos), diminuição da liberação de insulina (ao agir sobre receptores alfa 2 do pâncreas), aumento da frequência cardíaca e da força de contração do coração (ao agir sobre receptores beta 1 do coração) 123 Causa os mesmos efeitos colaterais que o uso da adrenalina. DOBUTAMINA É um fármaco agonista beta 1 adrenérgico (por isso está principalmente relacionada ao coração). Este fármaco é administrado em casos de IC aguda (para se aumentar a força de contração do coração) ou de bradicardia (devido ao aumento da FC). É também utilizado no IAM, em quadros de descompensação cardíaca, em quadros de choque cardiogênico e em quadros de sepse. SALBUTAMOL E TERBUTALINA Ambos os fármacos atuam sobre receptores beta 2 adrenérgicos. Causam broncodilatação (sendo devido a isso utilizados no tratamento da asma) e relaxamento de musculatura uterina (utilizado para prevenir parto prematuro). • Choque cardiogênico: o paciente está em um quadro de hipotensão profunda, de modo que a pressão sistólica seja menor do que 90 mmHg. Neste caso, o paciente tem sintomas de hipoperfusão dos órgãos, mesmo com o volume de sangue intravascular adequado. Ocorre devido a uma falha na bomba cardíaca. • Choque séptico: há falência circulatória aguda relacionada a uma infecção. A infecção leva a uma produção exagerada de citocinas e toxinas, que levam a uma intensa vasodilatação, de modo que o paciente não consegue controlar a PA. Para controlar este quadro, o paciente precisa utilizar alguma substancia vasoativa ou dobutamina. 124 Os efeitos colaterais são taquicardia e arritmia (visto que há também receptores beta 2 no coração), tremor fino das mãos, tolerância (uso crônico via sistêmica) e hiperglicemia (devido ao aumento da glicogenólise). Os agonistas beta 2 são (os que precisa decorar estão em negrito): • Salbutamol • Terbutalina • Metaproterenol • Fenoterol • Albuterol • Formoterol • Salmeterol: é o fármaco que mantém a broncodilatação por mais tempo, apesar de ser o fármaco que demora mais tempo para começar a sua ação. É um fármaco de ação prolongada. • Ritrodina • Clembuterol FENILEFRINA É um agonista de receptor alfa 1 adrenérgico. Funciona como descongestionante nasal. Só deveria ser utilizado por no máximo 5 dias, mas as pessoas acabam utilizando por muito mais tempo. Este fármaco é um potente vasoconstritor: ao causar a vasoconstrição dos vasos da mucosa nasal, faz com que o muco tenha a sua produção diminuída, causando alívio praticamente imediato. Se utilizado continuamente, causa vasoconstrição prolongada, diminuindo a perfusão sanguínea da mucosa e com o tempo leva à necrose tecidual, podendo evoluir para a perda do olfato. Muitas pessoas utilizam descongestionantes nasais para dormir – deveria ser utilizado soro fisiológico, e 125 não fenilefrina. O uso de maior quantidade de fenilefrina como descongestionante nasal pode causar taquicardia. Metaraminol e midodrina são agonistas do receptor alfa 1 utilizados no tratamento do priapismo e para tratamento e prevenção de estados hipotensivos. CLONIDINA É um fármaco agonista, mas que causa efeito antagônico a longo prazo. É um agonista do receptor alfa 2. Quando este fármaco se liga a um receptor pós-sináptico, causa aumento da PA (é uma resposta transitória que ocorre apenas se o fármaco é aplicado EV; na VO, não é visto este efeito) e diminuição da PA (de forma prolongada). Quando ele se liga a um receptor pré- sináptico, causa diminuição da secreção de noradrenalina e consequentediminuição da PA (efeito prolongado). A clonidina é utilizada para o tratamento da hipertensão via SNC (age no núcleo do trato solitário). É um fármaco agonista, mas causa efeito antagonista a longo prazo no organismo. Também é utilizada em outras duas ocasiões: • Tratamento preventivo da enxaqueca: no quadro enxaquecoso, há a liberação de noradrenalina, e esta liberação está relacionada com os distúrbios visuais que acontecem na enxaqueca (como fotofobia). As pessoas que têm enxaqueca possuem pródromos (a pessoa pressente que vai ter enxaqueca no dia), sendo um destes pródromos distúrbios visuais que decorrem de descarga adrenérgica. Como a clonidina diminui a descarga adrenérgica a longo prazo, pode ser utilizada no tratamento da enxaqueca crônica. o A toxina botulínica também é utilizada no tratamento preventivo de cefaleias e enxaquecas (visto que descargas colinérgicas também 126 estão envolvidas com o desencadeamento do quadro enxaquecoso) • Diagnóstico do feocromocitoma: feocromocitoma é um tumor da adrenal que provoca a liberação de grande quantidade de adrenalina e noradrenalina diretamente na corrente sanguínea. O paciente com feocromocitoma apresenta picos intermitentes de hipertensão arterial, associados a quadros de cefaleia e sudorese. A presença deste excesso de NA e adrenalina na corrente sanguínea causa um aumento da presença de metabólitos adrenérgicos (metanefrina, normetanefrina e ácido vanilmandélico) tanto na urina quanto na corrente sanguínea. O diagnóstico diferencial do feocromocitoma utilizando a clonidina é feito da seguinte forma: o paciente vai ao laboratório e realiza a coleta de sangue/urina para a determinação destes metabólitos. Depois de ter sido feita a primeira coleta, administra-se clonidina ao paciente e se espera 3 horas. Se a concentração dos metabólitos reduzir em 50% ou mais depois dessas 3h, o diagnóstico do caso não é feocromocitoma. Os efeitos colaterais do uso da Clonidina são: sonolência, secura na boca, edema, hipotensão ortostática, hipertensão de rebote (este último caso ocorre quando o paciente está em tratamento e o fármaco é retirado de uma vez). AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO INDIRETA Os fármacos de ação indireta ou aumentam a liberação de noradrenalina (como anfetaminas e tiramina) ou bloqueiam a recaptação de noradrenalina (como cocaína, imipramina e amitriptilina) TIRAMINA (associada ao uso de iMAO) Está contida na classificação de substâncias que aumentam a liberação de noradrenalina. A tiramina é uma substância presente em alguns alimentos e pode ser produzida no nosso organismo por meio no metabolismo da tirosina realizado por bactérias. Em um quadro normal, ao se ingerir alimentos ricos em tiramina ou tirosina (que é metabolizada pela descarboxilase das bactérias e vira tiramina), grande parte destas moléculas é degradada pela MAO presente no fígado e no TGI, e apenas parte da tiramina entra no neurônio. Ao entrar no neurônio, a tiramina ocupa a vesícula em que estava a noradrenalina, A noradrenalina que estava no interior da vesícula é então dirigida para o citoplasma, sendo em seguida degradada pela MAO presente neste sítio. Se escapar NA pela fenda do sistema de recaptação, é muito pouco (visto que a MAO degrada a maioria das moléculas de NA que saem das vesículas). Todavia, se o paciente estiver fazendo uso de um inibidor da MAO e ingerir alimentos ricos em tiramina/tirosina, ocorre uma reação adversa, 127 denominada de “reação do queijo”. Com a presença dos iMAO a tiramina não vai ser degradada no fígado e no TGI, de forma que uma grande quantidade desta substância entre na vesícula neuronal e desloque a NA para o citoplasma. Todavia, esta NA não será degradada no citoplasma neuronal, visto que a MAO está inibida. Com isso, um grande conteúdo de NA será jogado na fenda sináptica e se ligará a receptores alfa e beta. levando o paciente a um quadro de hipertensão fatal. Queijos fermentados (amarelos), cerveja, vinho, embutidos, chocolate e shoyu são exemplos de alimentos que possuem tiramina. Estes alimentos não podem ser ingeridos quando o paciente faz uso de iMAO, visto que pode levar ao quadro de hipertensão fatal descrito. Os iMAO atualmente são fármacos em desuso. AGONISTAS ADRENÉRGICOS DE AÇÃO MISTA EFEDRINA É um dos princípios ativos presentes no Franol. A Efedrina atua tanto nos receptores adrenérgicos quanto aumenta a liberação de neurotransmissores (e por isso é um fármaco de ação mista). É um fármaco indevidamente utilizado com finalidade de emagrecimento e aumento da performance atlética, visto que esses medicamentos são perigosos pois aumentam a FC e promovem vasoconstrição – se o paciente tiver algum problema cardiovascular, o uso da efedrina pode levar a óbito. A efedrina possui uso adequado no tratamento da hipotensão (relacionada a anestesias), mas uso inadequado na finalidade de emagrecimento e doping. Causa como efeitos colaterais taquicardia, insônia e midríase. 128 ANTAGONISTAS ADRENÉRGICOS OU SIMPATICOLÍTICOS Medusa - 86 Os antagonistas adrenérgicos são divididos em bloqueadores de receptores adrenérgicos e bloqueadores de neurônios adrenérgicos. Os bloqueadores de neurônios adrenérgicos são utilizados principalmente no tratamento da hipertensão via SNC. Os principais mecanismos utilizados por bloqueadores de neurônios adrenérgicos são: • Inibição da liberação de neurotransmissores • Inibição da síntese dos neurotransmissores • Interferência no armazenamento intravesicular dos neurotransmissores. Os mecanismos utilizados pelos bloqueadores de receptores adrenérgicos são: • Bloqueio de receptores alfa (seletivos ou não seletivos) • Bloqueio de receptores beta (há 3 subdivisões dos beta bloqueadores: beta-bloqueadores de 1ª, 2ª ou 3ª geração) • Bloqueio simultâneo tanto de receptores alfa quanto de receptores beta. BLOQUEADORES DOS RECEPTORES ADRENÉRGICOS Com este mecanismo, o neurotransmissor não consegue se ligar ao receptor, não causando o seu efeito. Fenoxibenzamina É um fármaco de uso exclusivo no tratamento do feocromocitoma (tumor de células cromafins que causa liberação de grandes quantidades de adrenalina e noradrenalina na corrente sanguínea). O principal sintoma causado pelo feocromocitoma é a elevação súbita, intermitente e inexplicada da PA. O único fármaco que é capaz de controlar esta variação de PA súbita e intermitente é a Fenoxibenzamina. A Fenoxibenzamina é um antagonista não seletivo, visto que bloqueia tanto receptores alfa 1 quanto alfa 2. Este medicamento é utilizado pois este fármaco tem uma ligação covalente com o receptor: mesmo que o tumor libere grandes quantidade de noradrenalina e adrenalina, estes neurotransmissores não conseguem deslocar o fármaco do receptor. O paciente faz uso deste medicamento até ocorrer a retirada do tumor. Como apenas os receptores beta ficam disponíveis, a noradrenalina disponível passa a se ligar mais a estes receptores, levando a um quadro de 129 taquicardia no paciente. Devido a isso, pode ser ministrado conjuntamente à Fenoxibenzamina um beta 1 bloqueador. Além de haver o tumor secretando mais adrenalina e noradrenalina, a concentração destas catecolaminas fica bem alta devido ao fato de que a Fenoxibenzamina atua também sobre os receptores alfa 2 pré-sinápticos, fazendo com que não ocorra uma diminuição da produção destes neurotransmissores (que seria proporcionada se a adrenalina e noradrenalina se ligassem ao receptor alfa 2). A partir do momento em que há a remoção do tumor, a PA do paciente tende a voltar à normalidade. Bloqueadores adrenérgicos seletivos do receptor alfa (“-sina”): A. Fármacos bloqueadores seletivos dos receptores alfa 1 Os bloqueadores seletivos de alfa 1 são utilizados como medicamentos anti-hipertensivos(não são fármacos que estão entre a primeira linha de tratamento farmacológico para a hipertensão, visto que podem trazer muitos efeitos colaterais) e no tratamento da hiperplasia prostática benigna. Para o tratamento da hipertensão, estes fármacos objetivam bloquear os receptores alfa 1 dos vasos (causando vasodilatação e diminuindo a RVP). • Prazosina e Terazosina: utilizados para o tratamento da hipertensão. São bloqueadores alfa 1 seletivos. o Efeitos adversos: hipotensão, taquicardia, congestão nasal e rubores • Tansulosina e Alfuzosina: são fármacos urosseletivos, também sendo bloqueadores alfa 1 seletivos. Possuem especificidade por um subtipo de receptor alfa 1 utilizado no tratamento da hiperplasia prostática benigna o Ao se realizar o bloqueio do receptor alfa 1, reduz-se a tensão da musculatura da próstata e da uretra, permitindo o aumento do fluxo urinário o Efeitos adversos: falha na ejaculação, hipotensão e congestão nasal B. Fármacos bloqueadores seletivos do receptor alfa 2 • Ioimbina: não é utilizado na terapêutica. É específico para receptor alfa 2. C. Fármacos bloqueadores de receptores alfa não seletivos • Fentolamina e Tolazolina (não são mais utilizados). Eram utilizados para a disfunção erétil (causavam vasodilatação). São agonistas não seletivos 130 (se ligam a alfa 1 e alfa 2). Atualmente, utiliza-se inibidores da fosfodiesterase para o tratamento da disfunção erétil. Bloqueadores adrenérgicos seletivos do receptor beta (beta-bloqueadores) São fármacos que agem principalmente sobre o sistema cardiovascular. Os beta bloqueadores são divididos em 3 gerações: • Primeira geração: fármacos não seletivos. São fármacos que se ligam bloqueando tanto receptores beta 1 quanto receptores beta 2 o Ex.: Propanolol, Alprenolol e Nadolol • Segunda geração: cardiosseletivos. São fármacos que atuam bloqueando seletivamente apenas o receptor beta 1 adrenérgico o Ex.: Atenolol e Metoprolol • Terceira geração: são fármacos que, além de bloquear o receptor beta, também causam vasodilatação por um bloqueio de receptor alfa 1 (ex.: Carvedilol) ou por um aumento da liberação de NO (ex.: Nebivolol). Uso dos beta-bloqueadores Os beta-bloqueadores são utilizados para: • Tratamento da hipertensão: Como o débito cardíaco influencia na PA (PA = DC x RVP), utiliza-se fármacos que interferem na frequência cardíaca (visto que o débito cardíaco é o volume de sangue ejetado por minuto; DC = FC x VS). • Angina: No quadro de angina, está faltando oxigênio para o tecido cardíaco: ou a demanda está alta demais ou o suprimento está baixo. O beta bloqueador atua diminuindo a demanda, visto que atua sobre a força de contratilidade do coração. • Disfunção sistólica do VE ou quadros iniciais de insuficiência cardíaca: Os beta bloqueadores são utilizados apenas nos quadros iniciais de IC, visto que o seu efeito de diminuir a força de contração do coração pode ser prejudicial quando a doença já está avançada. Eles podem ser utilizados em quadros iniciais da IC pois esta doença causa uma ativação constante do sistema nervoso simpático, e a constante ligação de adrenalina e a noradrenalina nos receptores beta adrenérgicos causa o estresse dos cardiomiócitos, levando à morte destas células. Conforme vai havendo a morte dos cardiomiócitos, vai ocorrendo a substituição por tecido fibroso. Portanto, este fármaco é utilizado na IC em estágios iniciais para se prevenir a morte dos cardiomiócitos (impedindo assim a doença de avançar). • Arritmias e prevenção do IAM: os beta-bloqueadores são utilizados para estas finalidades pois controlam a FC. Se o paciente já tiver tido um IAM e for hipertenso, ele deve fazer o uso de beta-bloqueadores para evitar a ocorrência de um novo infarto. 131 • Controle dos sintomas físicos da ansiedade: O Propanolol é o fármaco utilizado no tratamento dos sintomas físicos da ansiedade. É um fármaco lipossolúvel, e devido a isso consegue atravessar a barreira hemato-encefálica. • Tratamento de tremores finos das mãos: Para tratar os tremores finos das mãos, pode ser utilizado qualquer beta bloqueador não cardiosseletivo. Esta especificação ocorre pois o aumento da velocidade de contração muscular das mãos está relacionado aos receptores beta 2 adrenérgicos. • Tratamento preventivo da enxaqueca: O Propranolol também é utilizado para esta finalidade devido à sua lipossolubilidade, que permite que a sua atuação no SNC. Restrições para o uso de beta-bloqueadores não cardiosseletivos Beta-bloqueadores não cardiosseletivos não podem ser prescritos nas seguintes condições: • Pacientes com asma: como o receptor beta 2 promove broncodilatação, os beta-bloqueadores impediriam este efeito, piorando o quadro do paciente • Pacientes hipertensos negros: pessoas negras possuem maior expressão de receptores beta adrenérgicos e, devido a isso, seria necessária uma dose muito alta destes fármacos para bloquear estes receptores • Pacientes gestantes: os beta bloqueadores não devem ser prescritos para gestantes, visto que o bloqueio dos receptores beta 2 da musculatura uterina pode causar um efeito de contração (já que normalmente eles estão relacionados ao relaxamento da musculatura). Além disso, beta bloqueadores diminuem o crescimento ósseo fetal e interferem na vascularização placentária. Devido a este motivo, estes fármacos apenas podem ser utilizados por gestantes se for feito um grande acompanhamento, realizando ultrassons para se verificar o crescimento ósseo fetal e utilizando doppler para avaliar a vascularização placentária. Devido a isso, são utilizados outros fármacos para o controle da hipertensão em gestantes, os quais causam menos efeitos sobre o feto. A utilização de beta bloqueadores não cardiosseletivos pode levar à presença de cansaço nas pernas – principalmente ao fim da tarde. Isso ocorre pois o bloqueio de receptores beta 2 adrenérgicos presentes na musculatura causa uma vasoconstrição. BLOQUEADORES DE NEURÔNIOS ADRENÉRGICOS Os mecanismos que podem ser utilizados por fármacos que são bloqueadores de neurônios adrenérgicos são: 132 • Inibição da síntese de catecolaminas o Alfa-metil-dopa: é um fármaco que inibe a síntese de catecolaminas. A alfa-metil-dopa, ao ser metabolizada, dá origem à alfa-metil dopamina, que ao ser metabolizada, dá origem à alfa- metil noradrenalina. A alfa-metil noradrenalina é um falso neurotransmissor, visto que ela não se liga adequadamente aos receptores pós-sinápticos. Todavia, ela é capaz de se ligar ao receptor alfa-2 pré-sináptico, que, ao ser ativado, inibe a síntese de catecolaminas. Devido a isso, a alfa-metil-dopa é um inibidor da síntese das catecolaminas. o Este fármaco atua via SNC, interferindo na ação da via simpática e nos níveis de dopamina, adrenalina e noradrenalina • Interferência no armazenamento intravesicular o Reserpina (está totalmente em desuso): este fármaco impede que o neurotransmissor fique dentro da vesícula, de modo que ele fique localizado no citoplasma do neurônio. Ao ficar localizado no citoplasma, o neurotransmissor acaba sendo degradado pela MAO, causando assim uma diminuição na liberação dos neurotransmissores. • Inibição da liberação de noradrenalina o Clonidina: é na verdade um agonista do receptor alfa 2 pré- sináptico, mas ele causa efeito antagonista, visto que promove a diminuição da liberação de NA. Imagem mostrando a ação de diversos fármacos que atuam na farmacologia adrenérgica: 133 FARMACOLOGIA DO SISTEMA DIGESTÓRIO Medusa - 86 A farmacologia pode intervir em 3 ações fisiológicas do TGI: • Secreção gástrica • Êmese (vômito) • Motilidade do intestino e expulsão das fezes SECREÇÃO GÁSTRICA O SN parassimpático controla a secreção de substâncias e a contração da musculatura lisa visceral.A inervação simpática age na vascularização das células secretoras, fazendo com que elas tenham seu funcionamento adequado. Desta forma, acetilcolina, ao se ligar a receptor muscarínicos do estômago, causa secreção gástrica e contração estomacal. Células estomacais e secreções gástricas: • Células da mucosa: secretam muco e bicarbonato. Esta secreção é controlada pela acetilcolina e pelas prostaglandinas. A função deste 134 muco e do bicarbonato é formar um gel protetor, que protege a mucosa da ação do suco gástrico (que possui pH muito ácido). • Células parietais: secretam o HCl. Estas células realizam a secreção do ácido gástrico (HCl) frente aos seguintes estímulos: a acetilcolina se ligando a receptores muscarínicos, a histamina se ligando a receptor H2 e a gastrina se ligando a receptores de gastrina. Há, portanto, 3 vias de ativação das células parietais para realizar a liberação do HCl. A acidez é importante para a ativação do pepsinogênio em pepsina, para a eliminação de muitos micro-organismos que são ingeridos por VO e para a absorção de algumas vitaminas e alguns cofatores. o Indivíduos que utilizam medicamentos para o controle da secreção gástrica em grande quantidade e por tempo prolongado podem possuir estas funções prejudicadas • Célula semelhante a enterocromafim: libera histamina quando estimulada por acetilcolina ou por gastrina. • Célula G: libera gastrina quando estimulada por acetilcolina e quando ela detecta a presença do alimento (pela detecção de peptídeos e aminoácidos). • Células principais: liberam pepsinogênio. São controladas pela acetilcolina e pelo meio ácido liberado pela célula parietal • Células D: liberam somatostatina, que realiza um feedback negativo da secreção gástrica quando há um grande aumento da acidez. A acetilcolina liberada nos receptores muscarínicos do estômago é proveniente do nervo vago. Algumas pessoas têm o costume de tomar leite quando estão com dor estomacal. Essa ação causa uma sensação de alívio a um primeiro momento 135 (pois a presença do leite eleva o pH estomacal), mas depois todas essas vias são ativadas, causando um aumento da secreção ácida e piorando a dor. Controle da secreção ácida gástrica A célula parietal é a célula secretora de ácido gástrico (H+ e Cl-), sendo estimulada por acetilcolina em receptor muscarínico, histamina em receptor H2 e pela gastrina em receptor de gastrina. A secreção do HCl ocorre por meio de 2 transportadores: um que libera H+ para o lúmen e traz K+ para o interior da célula, e outro que libera K+ e Cl- no lúmen. A secreção gástrica é inibida pela via do ácido aracdônico. Nesta via, sob a ação da ciclo-oxigenase, há a produção de prostaglandinas e prostaciclinas que, ao se ligarem a seus respectivos receptores na célula parietal, inibem a liberação de HCl e estimulam a produção de muco e bicarbonato pelas células da mucosa. Os anti-histaminicos que podem ser utilizados no controle da secreção gástrica são os que agem sobre receptor H2. Os que são utilizados como anti- alérgicos e anti-eméticos atuam sobre receptor H1. Citoprotetores gástricos são substâncias que inibem a liberação de HCl e promovem a secreção de muco e bicarbonato. Exemplos de citoprotetores gástricos são prostaglandinas e prostaciclinas. O uso exagerado de anti-inflamatórios não esteroidais (como aspirinas, Ibuprofeno, Paracetamol, Cataflam, Piroxican e ácido mefenámico) podem causar alterações na secreção gástrica. Estes fármacos inibem as ciclo- oxigenases, diminuindo a liberação de prostaglandinas, prostaciclinas e tromboxano. Consequentemente, o efeito de citoproteção estomacal é inibido. Dependendo do anti-inflamatório utilizado, do tempo de uso e da dose 136 deste fármaco, a pessoa passa a ter que fazer uso de um “protetor estomacal” - fármacos que são protetores de mucosa e atuam na via das prostaglandinas. Inibidores da bomba de prótons (como Omeprazol) atuam sobre as bombas de prótons (transportador que leva o H+ para o lúmen estomacal e traz um K+ para dentro da célula estomacal). Anti-histamínicos bloqueadores de H2 (como Ranitidina, Famotidina e Cimetidina) também podem ser utilizados no controle da secreção gástrica. Inibidores de receptores muscarínicos (como a Atropina) não são utilizados com a finalidade de se reduzir a acidez estomacal, visto que eles apresentam muitos efeitos colaterais (os inibidores de bomba de prótons e de receptores H2 são muito mais específicos e causam menos efeitos colaterais). Os bloqueadores da bomba de prótons são os fármacos mais efetivos para se realizar o controle da secreção gástrica. Se for utilizado apenas o anti- histamínico bloqueador de H2, a célula parietal continua a receber estimulos da gastrina e da acetilcolina, e por isso não reduz tanto a secreção gástrica quanto quando se utiliza os inibidores da bomba de prótons (que bloqueiam a secreção de ácido independentemente de quais substâncias ainda estejam estimulando a célula). Anti-inflamatórios não esteroidais inibem as ciclo-oxigenases. Anti- inflamatórios esteroidais (glicocorticóides) inibem a síntese das ciclo- oxigenases. Antigamente, não existiam muitas opções de anti-inflamatórios além do ácido acetilsalicílico (princípio ativo da Aspirina). Em doses baixas, a aspirina possui efeito antiplaquetário; em doses intermediárias (de 500mg-1g), possui efeito analgésico; em doses maiores (4-6g), possui efeitos anti- inflamatórios. Todavia, ao ser utilizada nestas doses altas, o paciente desenvolvia úlceras (pois não havia a produção de prostaglandinas). Devido a isso, os pacientes que faziam o uso da aspirina utilizavam também o Misoprostol, um análogo de prostaglandinas. O Misoprostol é o princípio ativo do Cytotec, fármaco utilizado com finalidade abortiva (apesar de ter sido criado com a finalidade de se repor as prostaglandinas durante o uso da aspirina, ao ser aplicado em altas contrações e localmente, causa intensas contrações da musculatura uterina e a expulsão do feto). DISTÚRBIOS GÁSTRICOS Dispepsia: A dispepsia consiste em uma indisposição estomacal. Neste quadro, a pessoa fica com a sensação de que o alimento não foi digerido e ainda está no estômago. Muitas vezes, isso acontece devido a um desequilíbrio do funcionamento SNA, visto que quem faz a contração da musculatura lisa visceral favorecendo o esvaziamento gástrico é o sistema nervoso parassimpático. O esvaziamento gástrico é lentificado em situações de estresse, alterações no 137 SNC e ingestão de alimentos gordurosos. O quadro de gastrite e a infecção por H. pylori também podem levar à dispepsia. Gastrite: Na gastrite, ocorre a inflamação do terço superior da mucosa gástrica. Pode ser causada pela infecção por H. pylori. Úlcera: A úlcera é uma lesão com escavação que pode comprometer toda a mucosa. Grande parte das úlceras é causada pelo H. pylori, bactéria que sobrevive ao pH ácido do estômago. Esta bactéria se adere à mucosa, passando a desencadear um processo inflamatório. Para que ele consiga se aderir à mucosa, o H. pylori precisa atravessar a camada de muco que recobre o órgão (devido a isso, se esta camada estiver íntegra e mais espessa, é mais difícil de realizar esta colonização). Quando o H. pylori se adere à mucosa, ele começa a liberar urease, enzima que quebra a ureia em amônia, neutralizando o pH do local onde está aderido. Com isso, o H.pylori cria um ambiente favorável para a sua adesão e a sua proliferação. 138 Algumas cepas de H. pylori produzem fatores de virulência como mucinase (enzima que degrada o muco). Com esta degradação do muco, o suco gástrico é capaz de agir sobre as células da mucosa, piorando a lesão. Para o tratamento de úlceras e gastrites causadas por H. pylori, realiza- se o uso de claritromicina + amoxicilina + inibidorde bomba de prótons. Os antibióticos devem ser utilizados por 15 dias e o inibidor da bomba de prótons deve ser utilizado durante 1 mês. Se o paciente for alérgico a um dos 2 antibióticos, pode-se usar o metronidazol e a tetraciclina. Esofagite de refluxo: Há situações em que há retorno do suco gástrico para o esôfago. Este retorno do suco gástrico provoca lesões na parede esofagiana, podendo levar à formação de úlceras ou processos inflamatórios no esôfago. Dentre as causas para a esofagite de refluxo, estão: • Defeito na válvula cardia • Ingestão exagerada de alimentos • Gestantes • Obesidade • Quadros de herniação do estômago Em muitos casos, a intervenção deve ser cirúrgica (como no caso da herniação e do relaxamento da válvula cardia). 139 FARMACOLOGIA ATUANDO SOBRE O SISTEMA DIGESTÓRIO Os antiácidos são fármacos que não possuem alvo de ação específico: apenas alteram o pH, sem se ligar a nenhum alvo de ação. Tabagistas possuem propensão ao desenvolvimento de úlceras pois o seu organismo apresenta uma menor ativação do parassimpático e uma maior ativação do simpático (o que causa vasoconstrição sobre as células estomacais). O mesmo ocorre com pessoas estressadas (o estresse causa ativação simpática e liberação de cortisol, que inibe COX, diminuindo a quantidade de prostaglandinas e prostaciclinas, que são mediadores que fazem citoproteção; além disso, o cortisol pode levar à diminuição da imunidade, ocasionando cistites, candidíase, micoses, etc.) O organismo comprometido 140 imunologicamente não consegue combater satisfatoriamente a infecção por H. pylori. 141 PRINCIPAIS MECANISMOS DE FÁRMACOS DO TGI Medusa – 86 FÁRMACOS QUE ATUAM NO CONTROLE DA SECREÇÃO GÁSTRICA INIBIDORES DE BOMBA DE PRÓTONS São os fármacos mais utilizados e mais conhecidos, sendo que um exemplo deles é o Omeprazol. Os inibidores de bomba de prótons terminam em “prazol”. Estes fármacos atuam inibindo a bomba de prótons que libera o H+ e o Cl-. Os inibidores da bomba de prótons são administrados, passam pelo estômago e são absorvidos apenas no intestino. Após serem absorvidos, chegam então à corrente sanguínea, sendo levados para a célula parietal e se acumulando no canalículo destas células. Estes fármacos possuem um revestimento gastrorresistente, visto que seriam degradados se entrassem em contato com o suco gástrico (são aciduláveis). O processo de desintegração e dissolução ocorre apenas no intestino. Antigamente, os inibidores de bomba de prótons que eram manipulados nem sempre apresentavam um revestimento gastrorresistente (e devido a isso pedia-se que o paciente tomasse o medicamento em jejum), mas hoje em dia quase sempre estes medicamentos apresentam este revestimento (não precisando, portante, ser tomado em jejum). Durante o jejum, as bombas de prótons estão em um estado basal e praticamente não há secreção gástrica. 142 O Omeprazol é um pró-fármaco, e devido a isso, ele precisa ser ativado para se tornar a droga ativa. O que faz com que ele se torne ativo é o contato com o pH ácido dentro dos canaliculos. Após ser absorvido no intestino e cair na corrente sanguínea, este pró-fármaco chega à célula parietal e se acumula no canalículo destas células, onde o pH é ácido. Com isso, a molécula sofre uma mudança conformacional no interior do canalículo, passando a inibir a bomba de prótons e a controlar a secreção gástrica. Apesar de ser acidulável, o Omeprazol precisa deste contato com o meio ácido para se transformar em droga ativa (precisa estar no canalículo para que consiga se transformar – se houver o contato com o ácido gástrico no lúmen estomacal sem estar no canalículo, o omeprazol não consegue ser transformado e é degradado). Os inibidores da bomba de prótons são fármacos eficazes, seguros e inibem a secreção gástrica pela bomba de prótons em 90-100%. Os fármacos inibidores da bomba de prótons são: • Omeprazol • Lansoprazol • Pantoprazol • Rabeprazol • Esomeprazol • Dexlansoprazol: bastante utilizado no tratamento da esofagite de refluxo. A escolha do fármaco vai de acordo com o tempo necessário para a cicatrização da úlcera e da necessidade de se manter o pH mais elevado por mais tempo. Todos estes fármacos têm o mesmo mecanismo de ação e tempo de meia-vida relativamente curto (1-2h), mas fazem efeito por um tempo maior do que a sua meia-vida: ao se tomar 1 comprimido de inibidor de bomba de prótons, as bombas ficam inativas por 14-16 horas (conforme o fármaco vai sendo eliminado, vão sendo produzidas novas bombas). Todavia, ao se realizar um tratamento contínuo por 3-4 dias, causa-se um acúmulo significativo da quantidade de fármacos no canalículo, e as bombas tendem a voltar à normalidade após cerca de 72h. Estes fármacos possuem grande diferença de preço, a qual nem sempre é justificada pelo mecanismo de ação que eles apresentam. A escolha do fármaco ocorre como resultado de um melhor retorno observado pelo médico em relação a fatores como a qualidade e tempo da cicatrização da úlcera, a manutenção de um pH mais elevado, o controle da doença mais rapidamente, etc. Omeprazol x Esomeprazol O Omeprazol é uma mistura racêmica (o fármaco apresenta isômeros L e S em mesma quantidade). O Esomeprazol é o isômero S isolado do Omeprazol 143 (deve ser purificado para ser obtido, e por isso pode ser mais caro do que o Omeprazol). O Esomeprazol atinge uma concentração máxima plasmática maior do que a atingida pelo Omeprazol. A forma R omeprazol é a forma que apresenta menor concentração máxima plasmática quando administrada isoladamente. Devido a isso, o Esomeprazol realiza maior controle da secreção gástrica se comparado ao Omeprazol. Todavia, estes resultados diferentes obtidos por estudos farmacêuticos são na ordem de mmol/L, de modo que não há diferença realmente significativa na eficácia destes fármacos (visto que todos controlam de 90-100% da secreção gástrica) A principal diferença entre o Esomeprazol e o Omeprazol é o tempo que o esomeprazol fica no organismo (principalmente após administrações repetidas). O esomeprazol, ao ser ministrado em doses repetidas, acaba por produzir um metabolito que inibe uma isoforma do CYP450 que degrada ele mesmo (demorando mais tempo para ser eliminado no organismo). O Esomeprazol produz um metabólito que inibe o seu próprio metabolismo. Os inibidores da bomba de prótons deveriam ser tomados durante 4-8 semanas (no tratamento da úlcera) ou durante um tempo um pouco mais prolongado (no tratamento de refluxo). O uso contínuo e crônico destes medicamentos (principalmente por idosos) faz com que a acidez estomacal seja drasticamente diminuída, o que faz com que não ocorra o controle sobre micro- 144 organismos ingeridos, tornando estas pessoas mais propensas ao desenvolvimento de infecções no TGI. Esta diminuição da acidez causa também uma diminuição na absorção da vitamina B12 e de cálcio. Além disso, a acloridria (ausência de HCl no estômago) pode propiciar a hipertrofia das células parietais, a qual pode levar ao desenvolvimento de cânceres. Alguns estudos sugerem que a diminuição de vitamina B12 poderia levar a quadros de demência (não comprovado ainda). A diminuição de cálcio poderia levar a fraturas ósseas. Devido a todos estes fatores, se o paciente faz uso contínuo de inibidores da bomba de prótons, deve ser feito um acompanhamento para sempre se avaliar o desenvolvimento destes possíveis efeitos colaterais. O omeprazol pode alterar as enzimas do CYP450. Devido a isso, o uso deste fármaco pode provocar interação medicamentosa com anticoagulantes (causando inibição ou indução enzimática). Deve-se avaliar qual enzima metaboliza o anticoagulante a ser utilizado, para assim se assegurar que não haverá nenhuma interaçãomedicamentosa com o Omeprazol. ANTI-HISTAMÍNICOS H2 Todos terminam em “tidina”. Os principais fármacos são: • Cimetidina: foi o primeiro anti-histamínico desenvolvido. É um fármaco de potencia 1 (a potencia dos outros fármacos é relativa a ele) • Ranitidina: potência 4-10 vezes maior do que a cimetidina • Famotidina: potência 20-50 vezes maior do que a cimetidina • Nizatidina: potência 4-10 vezes maior do que a cimetidina Quanto mais potente o fármaco, menor a dose necessária para se causar o efeito. Dentre estas drogas, a mais potente é a Famotidina, e a Nizatidina é a mais biodisponível, A mais utilizada é a Ranitidina. A cimetidina realiza inibição enzimática sobre as isoformas do CYP450. Os outros fármacos praticamente não realizam estes efeitos sobre enzimas. Devido a esta possibilidade de interação medicamentosa, a Cimetidina não é o fármaco de escolha para o controle da secreção gástrica. O controle de secreção gástrica por estes fármacos é de 70-90%. Não se sabe o porquê, mas os anti-histamíicos controlam muito bem a secreção basal noturna. Devido a isso, muitas vezes estes fármacos são utilizados no tratamento de quadros de esofagite de refluxo. Para este paciente, quanto mais tempo o alimento está no estômago, maior a sua possibilidade de ter o refluxo. O processo de cicatrização de uma úlcera ao se utilizar anti- histamínicos dura cerca de 6 semanas. 145 ANTI-ÁCIDOS Dentre os antiácidos, estão: • Hidróxido de Mg • Hidróxido de Al • Bicarbonato de sódio • Carbonato de sódio • Carbonato de cálcio: não é tão utilizado por ser pouco solúvel • Trissilicato de magnésio e associação Há antiácidos que são absorvidos e antiácidos que não são absorvidos. Antiácidos não absorvidos: Os antiácidos que não são absorvidos são hidróxido de magnésio, hidróxido de alumínio e trissilicato de magnésio e associação. Como não são absorvidos, estes fármacos são eliminados nas fezes. O hidróxido de magnésio possui ação bastante rápida, visto que rapidamente neutraliza o ácido clorídrico. Ao chegar no intestino, a presença do magnésio no lúmen intestinal causa a migração de água para o lúmen (para que seja mantido o equilíbrio osmótico). Com isso, o paciente que faz uso de hidróxido de magnésio pode apresentar quadro de diarreia. Devido a isso, soluções salinas e hidróxido de magnésio são alternativas utilizadas no controle de um quadro de constipação intestinal. O hidróxido de alumínio atua mais lentamente, e gradativamente provoca o alívio da sensação de queimação. Ao chegar ao intestino, o alumínio é absorvido, de modo que um pouco de água migra do lúmen para o interior das células, causando constipação intestinal. A associação destes dois antiácidos (hidróxido de magnésio + hidróxido de alumínio) garante que não ocorram estes desbalanços na motilidade intestinal. Exemplos desta associação são os medicamentos Maalox (hidróxido de alumínio + hidróxido de magnésio) e Kolantil (hidróxido de alumínio + hidróxido de magnésio + trissilicato de magnésio; este último causa uma manutenção do pH elevado por mais tempo). Os antiácidos não controlam secreção gástrica. Não se deve administrar antiácidos com antibióticos (visto que os antiácidos podem quelar antibióticos, prejudicando a sua absorção). Também não devem ser administrados para pacientes hipertensos, visto que estes medicamentos contêm sódio. Também não devem ser administrados de maneira concomitante (no mesmo horário 146 ou com intervalo muito próximo), com outros medicamentos, visto que o pH é um dos fatores interferentes na absorção. O hidróxido de magnésio, além de alterar o pH, também pode fazer com que o fármaco não fique tempo suficiente no intestino e não seja absorvido adequadamente (devido às diarreias). O uso prolongado de medicamentos à base de alumínio pode levar a um esgotamento de fósforo e cálcio no organismo, o que pode leva à debilidade dos ossos. O hidróxido de alumínio também pode influenciar na concentração de sais de lítio quando o paciente faz tratamento com lítio (como no TAB). Se o paciente utilizar algum outro medicamento, ele deve utilizá-lo 1h antes de utilizar o antiácido ou 2-4h após o seu uso. Antiácidos absorvidos Os antiácidos que são absorvidos são o bicarbonato e carbonato de sódio. Estes fármacos são eliminados na urina, e interferem no pH urinário. Com essa alteração de pH da urina, o uso de antiácidos pode alterar o processo de excreção de outros fármacos (tanto aumentando-a quanto diminuindo-a). Uma das maneiras de se diminuir um quadro de intoxicação por ácido acetilsalicílico é utilizando bicarbonato de sódio, o qual causa uma alcalinização da urina e faz com que o fármaco seja eliminado. Os carbonatos também produzem bastante CO2, causando eructações. Antiácidos são fármacos paliativos: não controlam secreção gástrica e têm tempo de ação curto. Além disso, o uso de antiácidos proporciona grandes chances de ocorrer interação medicamentosa. O Alginato é um fármaco que não é mais tão utilizado, mas era utilizado no tratamento da esofagite. Este fármaco forma uma espuma coloidal sobre o suco gástrico, uma espécie de camada mais espessa que boia sobre o conteúdo gástrico. Quando a pessoa tem o refluxo, o primeiro conteúdo a passar para o esôfago é esta espuma (já que ela estava boiando), e a partir disso ela vai se aderindo à parede do esôfago, protegendo-a da ação do suco gástrico. O Alginato está entrando em desuso pois atualmente os fármacos mais utilizados no tratamento da esofagite de refluxo são inibidores de bomba de prótons e anti- histamínicos. PROTETORES DE MUCOSA Também são fármacos que controlam a secreção gástrica. Protetores de mucosa são fármacos que vão aumentar a produção de prostaglandinas, as quais inibem secreção gástrica e promovem a secreção de muco e bicarbonato. São eles: 147 • Sucralfato: forma uma camada protetora sobre a úlcera, criando um ambiente que protege a mucosa da ação do suco gástrico. • Quelatos de bismuto: um dos mais utilizados é o Subsalicilato de bismuto. o É a segunda opção terapêutica no tratamento de úlcera causada por H. pylori (a primeira é inibidor de bomba de prótons + claritromicina + amoxicilina), sendo utilizada se as bactérias são resistentes a estes dois antibióticos. Além de realizar a proteção da mucosa, o Quelato de Bismuto impede a adesão do H.pylori à membrana mucosa (este fármaco apresenta característica antimicrobiana devido a isso). o O quelato de bismuto deixa a língua e as fezes enegrecidas (as quais podem ser confundidas quadros de melena). • Misoprostol (Cytotec): foi desenvolvido para essa finalidade de controle da secreção gástrica, mas depois descobriu-se o seu efeito abortivo. Este fármaco precisava ser administrado 4 vezes ao dia, o que dificultava a adesão ao tratamento. É um análogo de prostaglandinas 1. TRATAMENTO CONTRA HELICOBACTER PYLORI Há várias opções (não precisa decorar): • Omeprazol + claritromicina + amixicilina = associação clássica. Há alterativas aos 2 antibioticos e alternativa para recidivas da doença • Lanzoprazol + claritromicina + amoxicilina • Omeprazol + amoxicilina + metronizdazol • Tetraciclina + metronidazol + subsalicilato de bismuto • Anti-H2 + tetraciclina + metronidazol + subsalicilato de bismuto ANTI-EMÉTICOS São vários os gatilhos que podem desencadear a êmese, como: • Ingestão excessiva de algum tipo de alimento ou bebida • Fatores emocionais • Sensações dolorosas • Distúrbios de visão • Cheiros • Distúrbios de labirinto (cinetose). • Doenças que produzem prostanoides • Uso de alguns medicamentos Vias de ativação do centro do vômito 148 Os diferentes estímulos que são capazes de causar o vômito possuem diferentes vias para alcançar esta finalidade. A – Uma das formas paraocasionar a êmese é por meio de dor, visões e odores repulsivos, ou por fatores emocionais. Estes diferentes estímulos ativam diferentes vias sensitivas aferentes e vias do SNC, e esta informação segue para centros/regiões superiores que integram esta mensagem. Estes centros integradores realizam a liberação de acetilcolina em receptores muscarínicos no centro do vômito, o qual desencadeia o estimulo para que ocorra a contração visceral que permite a êmese. B - No caso da cinetose, o acometimento do labirinto ativa receptores H1 e receptores muscarínicos presentes nos núcleos vestibulares. Os núcleos vestibulares são ativados e liberam dopamina e serotonina em receptores D2 e 5-HT3 presentes na zona de gatilho quimiorreceptora. Por fim, a zona de gatilho quimiorreceptora libera Ach no centro do vômito. Se o paciente está com náuseas ou vômitos devido a um processo de cinetose, utiliza-se fármacos para impedir essa transmissão já nos núcleos vestibulares (utilizando-se para isso anti-histamínicos ou anticolinérgicos). C – Outros agentes que podem provocar o vômito são toxinas endógenas, fatores emetogênicos liberados por doenças no sangue, bebidas alcoólicas e determinados fármacos que estão no sangue. Todos estes fatores presentes no sangue ativam diretamente os receptores D2 e 5-HT3 da zona de gatilho quimiorreceptora. A zona de gatilho quimiorreceptora, em seguida, ativa o centro do vômito, que provoca a êmese. C.1 – Algumas doenças inflamatórias causam a liberação de prostanóides, substâncias que ativam vias aferentes viscerais, as quais ativam receptores H1 e receptores muscarínicos presentes no núcleo do trato solitário. Em seguida, o NTS libera acetilcolina no centro do vômito, ativando-o. Além disso, as vias 149 aferentes viscerais também são capazes de ativar a zona de gatilho quimiorreceptora, a qual também ativa o centro do vômito. D - Estímulos provenientes da faringe e do estômago ativam vias viscerais que ativam a zona de gatilho quimiorreceptora. A zona de gatilho quimiorreceptora causa então a ativação do centro do vômito, que provoca a êmese. De uma maneira geral, os fármacos atuam sobre os receptores dos núcleos vestibulares ou sobre os receptores da zona de gatilho quimorreceptora. Os anti-histamínicos de primeira geração (que são utilizados para se bloquear os núcleos vestibulares) acabam bloqueando também os receptores muscarínicos contidos nesta região (anti-histamínicos de primeira geração possuem também efeitos anticolinérgicos). Baseando-se nestas vias que induzem à êmese citadas acima, os fármacos que podem ser utilizados no tratamento do vômito são: • Anti-histamínicos de primeira geração • Anticolinérgicos (antimuscarínicos de ação central) • Bloqueadores dopaminérgicos • Bloqueadores serotoninérgicos (de 5-HT3) ANTAGONISTAS DE H1 (ANTI-HISTAMÍNICOS DE PRIMEIRA GERAÇÃO) São os fármacos terminados em “ina” e o dimenidrato 150 • Cinarizina: utilizada no tratamento da labirintite. É um bloqueador de canal de cálcio • Meclizina: é classificada como um anti-histamínico. Todavia, em sua bula, ela é considerada como anticolinérgico • Dimenidrato (Dramin): é o mais utilizado • Prometazina (Fenergan - antialérgico) Alguns dos anti-histaminicos de primeira geração não provocam sono, mas o Dramin e a Prometazina possuem 2 grupamentos na molécula que acabam provocando efeito de sedação e sonolência (devido a característica própria da molécula). Devido a este efeito de sonolência e depressão do SNC, estes medicamentos não devem possuir uso concomitante com álcool (visto que o álcool também é um depressor do SNC, podendo intensificar o efeito dos fármacos). Os anti-histamínicos de segunda geração (ex.: Loratadina e Fenoxefenadina) não possuem efeito anticolinérgico e nem causam sonolência. Os de primeira geração são lipossolúveis, e devido a isso conseguem atravessar a barreira hemato-encefálica e provocar essa depressão do SNC. ANTAGONISTAS SEROTONINÉRGICOS (5-HT3) Estes fármacos atuam na zona de gatilho quimiorreceptora, visto que a serotonina, ao atuar sobre receptores 5-HT3, causa vômito. Estes fármacos eram inicialmente utilizados em pacientes passando por QT (visto que a QT pode causar náuseas e vômitos). Terminam em “setron(a)” • Ondansetron(a) (Vonau) • Dolasetron(a) • Tropisetron(a) • Granisetron(a) Estes fármacos normalmente não causam muitos efeitos colaterais, sendo o principal deles a cefaleia. Alguns destes fármacos podem alterar o conteúdo da ALT e da AST (enzimas hepáticas). Algumas doenças autoimunes são tratadas com quimioterápicos. Os pacientes podem fazer o uso destes medicamentos cerca de 1h30 antes das aplicações de QT (se for um esquema de QT mais espaçado) ou recebem medicações em que já vêm junto os quimioterápicos + os antagonistas serotoninérgicos no mesmo frasco. A serotonina, ao agir sobre receptor 5-HT3, causa vômito; ao agir sobre receptor 5-HT4, possui efeito anti-hemético. ANTAGONISTAS DOPAMINÉRGICOS Estes fármacos são considerados pró-cinéticos: ao se bloquear o receptor dopaminérgico, uma via colinérgica é ativada, provocando contração da 151 musculatura lisa visceral. Os principais antagonistas dopaminérgicos utilizados são: • Metoclopramida (Plasil): utilizada para diminuir náuseas e vômitos provocados pelo quadro enxaquecoso e ajuda no esvaziamento gástrico, fazendo com que o fármaco anti-enxaquecoso chegue mais rapidamente ao intestino e passe a provocar o seu efeito de maneira mais rápida. • Bromoprida (Plamet) • Domperidona (Motilium): causa contração da musculatura lisa. Pode ser associada aos inibidores da bomba de prótons utilizados no tratamento do paciente que tem esofagite de refluxo: ao bloquear os receptores dopaminérgicos, este fármaco promove a contração da musculatura lisa e o consequente aumento da velocidade do esvaziamento gástrico. Para o paciente com esofagite de refluxo, quanto menos tempo o alimento ficar no estômago, melhor (visto que enquanto há alimento no estômago, continua a ser promovida a secreção gástrica). A Domperidona é utilizada no tratamento de náuseas e vômitos de pacientes que realizam tratamento da Doença de Parkinson com agonistas dopaminérgicos. A Domperidona é utilizada porque ela não atravessa a barreira hematoencefálica – atua na falha da barreira hematoencefálica presente na zona de gatilho quimiorreceptora. Com isso, ela atua na zona de gatilho, mas sem afetar outras regiões neuronais que também contêm circuitos dopaminérgicos (como a mesolímbica, a mesocortical e a nigroestriatal – sendo que é nesta última que os agonistas dopaminérgicos utilizados na Doença de Parkinson atuam). A Metoclopramida e a Bromoprida não são prescritas para este uso pois ela atravessam a barreira hematoencefálica e bloqueiam receptores da região nigroestriatal também. As Fenotiazinas são antagonistas dopaminérgicos que podem ser utilizados para o controle de náuseas e vômitos, mas são mais utilizadas no tratamento da esquizofrenia. Podem ser utilizadas por algumas gestantes no controle da êmese. ANTAGONISTAS MUSCARÍNICOS • Escopolamina: é um anticolinérgico que possui efeito anti-hemético pois atua no SNC. A escopolamina atua sobre núcleos vestibulares, NTS e sobre o centro do vomito. o O M-metil-brometo de escopolamina (produto deste fármaco utilizado no tratamento de cólicas) possui ação periférica apenas. ESTERÓIDES • Dexametasona: possui efeito anti-hemético. 152 • Metilprednisolona: também possui efeito anti-hemetíco. Pode ser utilizado por pacientes que fazem tratamento quimioterápico e apresentam náuseas Estes fármacos diminuem prostanóides. Estes corticoides inibem a síntese da COX, levando a uma diminuição de produção de prostanoides, que, quando presentes na corrente sanguínea, podem ativar o NTS e a zonade gatilho quimiorreceptora. 153 INTRODUÇÃO - DISLIPIDEMIA Medusa - 86 As doenças cardiovasculares são a principal causa de mortes no Brasil. A estimativa é de que cerca de 400.000 pessoas morrerão devido a estas doenças em 2021. Uma questão bastante importante em relação ao desenvolvimento da dislipidemia é o padrão alimentar de cada indivíduo. ARTERIOSCLEROSE x ATEROSCLEROSE A arteriosclerose é um processo natural do envelhecimento. Consiste no enrijecimento dos vasos, que vai ocorrendo devido a diversos fatores. Dentre os fatores que levam à arteriosclerose está a aterosclerose. A aterosclerose é uma arteriosclerose, mas nem toda arteriosclerose ocorre devido a aterosclerose. A aterosclerose é uma doença inflamatória que está muito relacionada aos níveis de lipídeos circulantes, principalmente aos níveis de LDL-colesterol. É uma doença inflamatória na qual há acúmulo de gordura no vaso, o que leva ao enrijecimento deste vaso e à diminuição do fluxo sanguíneo na região. A formação da placa aterosclerótica ocorre da seguinte forma: a partir de uma lesão na parede do vaso, ocorre a deposição de colesterol no local (o qual foi trazido pelo LDL-colesterol). Este colesterol passa a ser oxidado, sendo em seguida captado por macrófagos. Por estarem oxidados, o macrófago não é capaz de digerir e degradar adequadamente estes lipídios. A não degradação do colesterol causa a formação de estrias gordurosas na parede do vaso, as quais vão progressivamente evoluindo e formando a placa aterosclerótica A hipertensão é uma das condições que podem provocar lesões na parede dos vasos, levando ao depósito de colesterol e desencadeando a formação da placa aterosclerótica. Após ser formada a placa de gordura, ocorre uma diminuição do fluxo sanguíneo no interior do vaso. Se estes vasos que estiverem sendo obstruídos forem os vasos que irrigam o coração, pode haver o quadro de angina. Progressão das doenças cardiovasculares: a dislipidemia pode levar à angina, a qual pode levar a um IAM. o qual pode levar ao desenvolvimento de uma IC. 154 PLACA INSTÁVEL E PLACA ESTÁVEL • Instável: pode facilmente se romper. Apresenta núcleo lipídico grande, e a capa que o recobre é muito fina. Frente ao rompimento desta placa, tem início um processo de agregação plaquetária, o qual vai obstruindo cada vez mais a luz do vaso, de modo que a irrigação sanguínea vai sendo comprometida. Este comprometimento da irrigação pode levar ao IAM. • Estável: apresenta núcleo lipídico pequeno e capa fibrosa mais espessa, o que dificulta o seu rompimento. Mesmo assim, o fluxo sanguíneo fica obstruído com a presença desta placa. Além disso, o vaso em si pode se romper, podendo causar AVCs hemorrágicos (visto que a camada que envolve o ateroma é mais espessa). 155 ESTRUTURA DAS LIPOPROTEÍNAS As lipoproteínas são: • Quilomicron: é a maior lipoproteína. Apresenta ApoC, ApoE, ApoA e ApoB48 (sendo que esta última só está presente no quilomícron). Se a pessoa não tiver nenhum problema genético relacionado à síntese dos QM e ficar em jejum durante o tempo solicitado pelo laboratório (10-12h) antes de realizar a coleta do seu sangue, ela não apresentará quilomícrons em sua circulação. Se os QMs estiverem presentes, ou o paciente não respeitou o jejum corretamente ou ele apresenta deficiência na produção da lipase lipoproteica. o Em seu interior há uma grande quantidade de triglicerídeos (é a lipoproteína que mais apresenta triglicerídeos em seu interior) • VLDL: assim como o QM, apresenta muitos triglicerídeos em seu interior. Todavia, o VLDL carrega também um pouco de colesterol. Apresenta ApoB100, ApoC e ApoE. É a primeira lipoproteína que participa do metabolismo endógeno das lipoproteínas, visto que é a primeira a sair do fígado (carregando triglicerídeos e colesterol em seu interior). • IDL: carrega principalmente colesterol. Apresenta ApoB100, ApoC2 e ApoE. • LDL: apresenta apenas ApoB100. Carrega em seu interior principalmente colesterol • HDL: apresenta ApoA, ApoC e ApoE. Esta molécula recebe a ApoC e a ApoE do VLDL. O HDL já nasce com a ApoA (sendo chamado de HDL nascente), e quando recebe as outras apoproteínas, é transformado em 156 HDL maduro. Seu principal constituinte são proteínas. É chamado de “colesterol bom”, visto que faz o transporte do colesterol do tecido extra- hepático para dentro do fígado. Pode realizar transporte direto ou via IDL. As apoproteínas são importantes pois funcionam como cofatores enzimáticos no metabolismo lipídico e proque se ligam a receptores envolvidos no metabolismo das lipoproteínas. As apoproteínas podem tanto ativar quanto inibir enzimas. Deve-se sempre relacionar a lipoproteína com o que ela carrega em seu interior: ao se observar o lipidograma de um paciente e notar que os triglicerídeos estão aumentados, deve-se relacionar este resultado com um aumento de VLDL ou com um aumento de quilomícrons. METABOLISMO LIPÍDICO Há a via exógena e a via endógena do metabolismo dos lipídios. Via endógena Ocorre a síntese dos lipídios a partir do fígado. Via exógena Os lipídios presentes nesta via são provenientes da alimentação. Ao se ingerir um alimento, há a liberação de sais biliares. Os sais biliares são formados a partir do colesterol. O colesterol é necessário para várias ações fisiológicas do organismo (não sendo responsável apenas por efeitos danosos). O colesterol participa da síntese de: • Hormônios • Vitaminas • Sais biliares • Constituição da membrana plasmática 157 O organismo constantemente sintetiza colesterol no fígado, além de ingeri-lo a partir da dieta. Após se ingerir um alimento rico em gorduras, os sais biliares são secretados passam a emulsificar as gorduras presentes neste alimento. Em seguida, o quilomícron é formado nos intestinos. O QM é formado a partir de triglicerídeos e pelas apoproteínas ApoE, ApoC (provenientes da degradação do HDL), ApoA e ApoB48. O quilomícron formado passa pelo sistema linfático e cai na corrente sanguínea. A ApoC2 do quilomícron ativa uma enzima chamada de lipase lipoproteica, a qual quebra os triglicerídeos presentes no QM e os transforma em ácido graxo + glicerol. Estes ácidos graxos são levados ao tecido adiposo, ao músculo, etc, sendo utilizado em outras funções. Após sofrer ação da lipase lipoproteica, o QM se transforma em QM remanescente, visto que grande parte do seu conteúdo de triglicerídeos foi degradado. Este QM remanescente (que contém um pouco de colesterol e de triglicerídeos e as apoproteínas) é levado ao fígado por meio da ligação da ApoE a receptores hepáticos. O QM também possui a ApoC3, uma apoproteína que, ao invés de ativar a lipase lipoproteica, inibe-a (fazendo com que o paciente passe a apresentar uma grande quantidade de triglicerídeos circulantes). Ao chegar ao fígado, o QM remanescente é metabolizado, de modo que o seu colesterol passa a formar a molécula de VLDL. Esta síntese de VLDL ocorre normalmente à noite. 158 O VLDL carrega consigo alta quantidade de triglicerídeos, mas também transporta um pouco de colesterol (proveniente do fígado). O VLDL possui Apo- E, ApoC2 e ApoB100. Ao chegar na corrente sanguínea, a ApoC2 ativa a lipase lipoproteica. Com isso, boa parte dos triglicerídeos presentes no VLDL são degradados em ácido graxos + glicerol. Após esta degradação pela lipase lipoproteica, o VLDL é convertido em IDL. IDL é uma molécula intermediária entre VLDL e LDL. O IDL carrega principalmente colesterol em seu interior. A partir da sua síntese, o IDL pode ter dois destinos: • Retornar ao fígado (sendo reconhecido por um receptor B/E) • Ser convertido em LDL e doar sua ApoE e sua ApoC para o HDL, (o que contribui com a transformação do HDL nascente em HDL maduro). Após o LDL ser formado, ou elevolta para o fígado (por meio de um receptor para ApoB) para ser processado e formar novas moléculas de colesterol, ou ele passa a se depositar nos tecidos extra-hepáticos, como nos vasos. Para combater esta deposição de colesterol nos tecidos extra-hepáticos, o HDL possui uma enzima chamada de LCAT (lecitina-colesterol acetiltransferase), a qual esterifica o colesterol depositado em tecido extra- hepático. A partir disso, o HDL passa a carrear este colesterol esterificado, sendo chamado de HDL maduro. Este HDL maduro pode voltar para o fígado (para que assim o colesterol extra-hepático seja processado) ou pode transferir parte do colesterol presente no seu interior para o IDL. O transporte do colesterol do HDL para o IDL é feito pela CETP (proteína transferidora de ester colesteril) Algumas situações: • Se há deficiência de lipase-lipoproteica: há detecção de alto nível de triglicerídeos. O alto nível de triglicerídeos pode levar ao desenvolvimento de pancreatite, diabetes, aumento de ácido úrico e AVCs. • Se há níveis elevados de colesterol: há predisposição para que ocorra aterosclerose. A aterosclerose pode levar à ocorrência de angina, que pode levar a IAM ou AVC. O IAM pode desencadear uma IC. • Deficiência de receptor ApoB: Há aumento de LDL circulante. Isso ocorre na hipercolestererolemia familiar, doença que apresenta formas heterozigota ou homozigota. Na forma heterozigota, o indivíduo produz 50% dos receptores para ApoB, mas na forma homozigota há uma severa deficiência na produção destes receptores. O paciente com a forma homozigota da hipercolesterolemia familiar pode vir a óbito precocemente pois o colesterol presente na circulação não pode ser reprocessado pelo fígado. 159 Alguns mecanismos farmacológicos (alguns já utilizados e outros em estudos): • Inibição da CETP: a CETP é a enzima que transfere o colesterol do HDL para o IDL. Com a inibição desta enzima, todo o HDL é levado diretamente para o fígado. A inibição desta enzima impede que parte do colesterol vá para o IDL (o qual pode gerar LDL, que pode levar ao acúmulo de lipídeos no organismo novamente). • Fármaco que inibem a enzima que degrada o receptor B/E: Quando o colesterol se liga a este receptor, o complexo receptor + colesterol é invaginado, de modo que o colesterol é liberado e reprocessado no interior do hepatócito. Depois disso, o receptor B/E é expresso na membrana do hepatócito novamente – sendo que este processo ocorre cerca de 150 vezes para cada receptor. Há uma enzima que não permite essa reciclagem do receptor, de modo que ela o degrada assim que ele é endocitado. Sem este receptor, a o transporte do colesterol periférico para o interior do fígado fica impossibilitado, o que é maléfico para o organismo e predispõe os fenômenos ateroscleróticos. Frente a isso, há fármacos que atuam inibindo esta enzima, de modo que os receptores não sejam degradados assim que são endocitados e consigam realizar a sua reciclagem diversas vezes. AVALIAÇÃO LABORATORIAL DO PERFIL LIPÍDICO A solicitação do jejum fica a critério do médico que está solicitando o exame. Todavia, é uma obrigatoriedade se fazer o jejum se os triglicerídeos do paciente estiverem acima de 440 mg/dl. 160 Há alguns anos atrás, o LDL era calculado pela seguinte fórmula: colesterol total – HDL – triglicerídeos/5. Esta fórmula não poderia ser utilizada se o valor dos triglicerídeos era superior a 400 mg/dl, visto que com isso o cálculo do LDL acabava tendo um resultado errôneo. Hoje em dia, substituiu-se Triglicerídeos/5 por Triglicerídeos/X na fórmula. Esta fórmula alterada é chamada de Fórmula de Martin (LDL = CT – HDL – TG/x). O X é uma relação entre o que não é HDL (colesterol total – HDL) e os níveis de triglicerídeos, sendo observada na tabela abaixo: Ex.: se o paciente tem 200 de colesterol total e 80 de HDL, o seu colesterol não HDL é 120. Procura-se então onde o não-HDL=120 converge com o valor de triglicerídeos do paciente. Este valor será o valor de X, que deve ser empregado na fórmula de Martin. 161 Antes de se realizar a coleta do sangue para a realização do lipidograma, o paciente deve estar há 72h sem ingerir bebida alcoólicas e pelo menos 24h sem fazer exercício físico. Outros marcadores diagnósticos da dislipidemia: • Relação entre ApoB e ApoA: o aumento da ApoB está sempre relacionado ao aumento dos níveis de triglicerídeos e colesterol (LDL, VLDL e QM), enquanto níveis aumentados da ApoA estão relacionados ao aumento do HDL. • Cálculo da fração não-HDL colesterol (CT-HDL) • Relação entre lipoproteína A e fosfolipídios oxidados: a formação da placa de aterosclerose está relacionada com a oxidação do LDL colesterol. Quanto mais o LDL é oxidado, mais ocorre o acúmulo de gordura e a formação da aterosclerose. • Homocisteína: está relacionada com a proliferação de células musculares vasculares (estando, portanto, relacionada a processos aterogênicos e trombogênicos). • PCR ultra-sensível: a determinação da PCR não ultra-sensível mostra apenas que o paciente tem alguma inflamação (mas não especifica onde). Já a determinação da PCR ultra-sensível mostra que a inflamação está relacionada à presença de placa aterosclerótica. Quando está acima de 2 mg/L, sinaliza para um alto risco de doença cardiovascular. • Espessura das carótidas: pode ser avaliada por meio de ultrassons. Está relacionada com a ocorrência de AVCs. • Quantidade de cálcio coronariano: é dosado a partir de tomografias. Determinação da hipercolesterolemia Pode-se considerar que um paciente está com colesterol acima do normal quando a sua dosagem de colesterol é acima de 190 mg/dL. Todavia, para se dizer que o paciente realmente tem colesterolemia importante, deve-se avaliar os níveis de HDL (que podem aumentar os níveis de colesterol total). 162 O HDL acaba funcionando como um fator de contabilização negativa para o risco cardiovascular. Realiza-se a somatória dos níveis dos demais colesteróis, mas os níveis de HDL são adicionados de forma negativa, visto que abatem os níveis positivos dos outros tipos de colesterol (diminuem a somatória). Os níveis adequados do lipidograma são: • Colesterol total menor de 190 mg/dl • HDL acima de 40 mg/dl (diabéticos e mulheres: acima de 50 mg/dl) • Triglicerídeos menor do que 150 mg/dl (para os pacientes em jejum). Para os pacientes que não fizeram o exame em jejum, muda apenas a quantidade de triglicerídeos (pois o jejum interfere apenas na quantidade de QM circulantes). Os níveis de LDL desejáveis são baseados no risco do paciente em desenvolver doenças cardiovasculares. Se o paciente apresenta: • Risco baixo: o LDL deve ser menor do que 130 mg/dl • Risco intermediário: menor do que 100 mg/dl • Risco alto: menor do que 70 mg/dl • Risco muito alto: menor do que 50 mg/dl As quantidades desejáveis de colesterol sanguíneo vêm diminuindo ao passar dos anos, de modo que tem se tornado cada vez mais difícil de se controlar os níveis destes lipídios no organismo (ainda mais ao se observar o padrão alimentar atual rico em lipídios e sódio). Frente a esta maior dificuldade em se enquadrar os pacientes nos limites desejáveis, o quadro destes indivíduos é normalmente controlado por medicações (mesmo frente a pequenas alterações no lipidograma), e não por mudanças nos hábitos de vida. Os principais fármacos utilizados para se realizar o controle dos níveis de colesteróis são as estatinas. Estes fármacos possuem efeitos colaterais em 30% dos pacientes (mesmo sendo efeitos colaterais leves, como mialgias). A primeira tentativa de se corrigir um quadro de hipercolesterolemia deve ser sempre por meio do tratamento não farmacológico. Quadros em que o colesterol total está maior ou igual a 310 mg/dl podem estar relacionados à hipercolesterolemia familiar. Indivíduoscom hipercolesterolemia familiar possuem 20 vezes mais risco de ter mortes precoces do que os indivíduos que têm os níveis de colesterol dentro dos padrões normais. FATORES DE RISCO • Histórico familiar de doença cardiovascular prematura, principalmente se este parente faleceu prematuramente devido a esta condição o Homens abaixo de 55 anos e mulheres abaixo de 65 anos o Frente a este fator, o paciente é automaticamente classificado como o risco seguinte (ex.: se as minhas características apontam para baixo risco, eu sou classificado como risco intermediário). 163 • Idade (homem 45 anos; mulher 55 anos) • Dislipidemia (relacionada aos níveis de HDL – se for menor do que 40 para homens ou do que 50 para mulheres e diabéticos) • Tabagismo • Sedentarismo • Síndrome metabólica: está relacionada com um aumento da circunferência abdominal (mulheres acima de 80 cm, homens acima de 94cm) mais 2 fatores dos citados abaixo: o Glicemia aumentada (acima de 99) o Hipertensão o HDL diminuído o Triglicerídeos aumentado (acima de 150 mg/dl) • Hipertensão • Diabetes • Aterosclerose • Hipertrofia do VE (devido a um quadro de HAS mal controlado) • Micro ou macroalbuminúria: é adequado que a pessoa tenha até 150 mg de proteínas na urina/24h • PCR acima de 2mg • Evidência de doença aterosclerótica subclínica. É evidenciada através de: o Cálcio coronariano acima de 100 o Espessamento da carótida (detectado por ultrassom) o Índice tornozelo-braquial menor do que 0,9. Este índice é dosado por oscilometria ou pela aferição da PA no tornozelo e no braço. 164 CLASSIFICAÇÃO DAS DISLIPIDEMIAS Medusa - 86 CLASSIFICAÇÃO FENOTIPICA Baseia-se no que o laboratório mostra de resultado ao se solicitar a avaliação do perfil lipídico do paciente: • Hipercolesterolemia isolada: há aumento apenas de LDL colesterol. Para o quadro ser considerado como hipercolesterolemia isolada, os níveis de LDL colesterol devem estar acima de 160 mg/dl • Hipertrigliceridemia isolada: os triglicerídeos encontram-se acima de 150 mg/dl (quando o paciente está em jejum) ou acima de 175 mg/dl • Hiperlipidemia mista: há tanto um aumento dos níveis de LDL quanto um aumento nos níveis de triglicerídeos. Neste caso, os níveis de colesterol não HDL encontram-se acima de 190 mg/dl • Diminuição de HDL: pode ser isolada ou relacionada ao aumento de triglicerídeos e/ou de LDL CLASSIFICAÇÃO GENOTÍPICA São dislipidemias que ocorrem devido a síndromes genéticas. • Monogênicas • Poligênicas CLASSIFICAÇÃO DE FREDERIKSON Possui 6 subtipos, que estão relacionados a diferentes fenótipos: • Fenotipo do tipo 1: apresenta QM aumentado, de modo que os níveis de triglicerídeos encontram-se elevados. Ou o paciente não ficou em jejum para realizar o exame ou tem algum distúrbio genético, como uma deficiência da lipase lipoproteica (que quebra o triglicerídeo em ácido graxo e glicerol) • Fenotipo do tipo 2A: apresenta LDL aumentado, de modo que os níveis de colesterol encontram-se elevados • Fenotipo do tipo 2B: apresenta LDL e VLDL aumentado, de modo que os níveis de colesterol e triglicerídeos encontram-se elevados • Fenotipo do tipo 3: apresenta IDL aumentado, de modo que os níveis de colesterol e triglicerídeos (principalmente) encontram-se elevados • Fenotipo do tipo 4: apresenta VLDL aumentado, de modo que os níveis de triglicerídeos encontram-se elevados • Fenotipo do tipo 5: apresenta VLDL e QM aumentados, de modo que os níveis de triglicerídeos encontram-se muito elevados. 165 É necessário saber o que cada lipoproteína carrega e o que o paciente pode apresentar como consequência deste quadro (ex.: aumento de colesterol leva a aterogenicidade; aumento de triglicerídeos pode levar ao desenvolvimento de pancreatite, diabetes, acúmulo de ácido úrico e AVEs). A terapêutica nas dislipidemias é voltada principalmente para o controle dos níveis de colesterol ou para o controle dos níveis de triglicerídeos. Se o paciente possuir uma hiperlipidemia mista, o que define qual alteração será tratada primeiramente é o nível de triglicerídeos (se for acima de 500 mg/dl, trata- se o aumento de triglicerídeos primeiro; se for abaixo de 500 mg/dl, trata-se o aumento de colesterol primeiramente). O aumento dos níveis de triglicerídeos está muito relacionado à alimentação. CAUSAS GENÉTICAS As disfunções genéticas são mais dificilmente tratadas. Alguns tipos de disfunções genéticas que levam às dislipidemias são: • Deficiência na lipase lipoproteica: aumenta-se a quantidade de QM e de VLDL. Há aumento da quantidade de triglicerídeos. • Superprodução de ApoB (encontrada no VLDL ou no LDL) • Anormalidades na ApoE: a ApoE é importante para que o QM remanescente e o IDL voltem ao fígado • Deficiência/alteração/ausência do receptor de LDL: impossibilita o retorno do LDL ao fígado • Hiper Lipoproteina A: pode estar relacionada ao risco de aterogenicidade para algumas pessoas, mas para outras não. A lipoproteína A é muito semelhante ao LDL, mas tem a ApoA em sua superfície. Não se sabe ao certo a sua função. CAUSAS SECUNDÁRIAS DAS DISLIPIDEMIAS • Devido ao uso de alguns medicamentos: alguns medicamentos podem levar à alteração do perfil lipídico dos pacientes • Devido a algumas doenças o Obesidade 166 o Hipotireoidismo: aumenta as concentrações de colesterol, pode ou não influenciar no HDL e tem pequena influência nos triglicerídeos. • Devido ao estilo de vida o Sedentarismo o Etilismo: se o paciente tem triglicerídeos aumentado, é importante se suspender o uso da bebida alcoólica. ▪ O uso social do álcool (1 dose para mulheres e 2 para homens) pode aumentar os níveis de HDL, sendo benéfico nestes casos o Alimentação inadequada (ingestão excessiva de gorduras) • Devido a condições fisiológicas o Menopausa: aumenta os níveis de colesterol e diminui os níveis de HDL TRATAMENTO E FARMACOLOGIA Deve-se considerar o tratamento não farmacológico em todas as doenças cardiovasculares. Além de ser capaz de resolver a situação do paciente em alguns casos, este tipo de tratamento também auxilia o tratamento farmacológico. A maior causa de mortes no Brasil decorre de doenças cardiovasculares. Este índice está muito relacionado à dieta inadequada dos indivíduos, que normalmente é muito rica em gorduras e sódio. Quando a pessoa apresenta níveis de LDL elevados e apresenta comorbidades, há a indicação de restrição da ingestão de ácidos graxos saturados. No caso dos triglicerídeos, o indivíduo já deve apresentar restrição no consumo dos ácidos graxos saturados mesmo frente aos níveis limítrofes de triglicerídeos (e frente a níveis mais elevados, esta restrição tende a ser maior). Conforme o paciente vai diminuindo a ingestão de ácidos graxos saturados, deve-se aumentar a ingestão de ácidos graxos poli-insaturados, como ômega 3. 167 O IMC ainda é o padrão utilizado na determinação se a pessoa está obesa ou não. As modificações de hábitos alimentares e do estilo de vida que podem ser realizados frente ao quadro de hipertrigliceridemia são: • Redução de peso • Redução da ingestão de bebidas alcóolicas • Redução de ingestão de açúcares simples • Redução da ingestão de carboidratos • Substituição (parcial) dos ácidos graxos saturados por ácidos graxos mono e poli-insaturados • Atividade física regular: também ajuda a aumentar os níveis sérios de HDL. 168 TERAPIA NUTRICIONAL Alguns dos alimentos que ajudam muito no controle dos níveis de lipídios são as fibras (presentes em cereais, grãos integrais, farelos, verduras, etc), sendo que a ingesta de água deve ocorrer juntamente à ingestão destes alimentos para que o efeito de diminuição dos níveis de lipídios ocorra. As fibras acabam sequestrando o colesterol, fazendo com que ele sejaeliminado nas fezes. Alguns dos alimentos ricos em fibras são: • Psyllium: é utilizada no tratamento da constipação intestinal. Ela também ajuda a reduzir de 5 a 20% dos níveis de LDL colesterol e 15% do colesterol total. • Farelo de aveia: causa cerca de 5% de diminuição dos níveis de LDL- colesterol. • Proteína de soja: causa cerca de 11% de diminuição dos níveis de triglicerídeos. FITOSTEROIS/FITOSTANOIS Os fitosteróis/fitostanois são outra classe que pode ser utilizada para se controlar os níveis de LDL-colesterol. Os fitoesteróis/fitostanois podem estar presentes tanto em medicamentos fitoterápicos quanto em alimentos funcionais. Os fitosteróis fazem com que a micela os englobe ao invés de englobar o colesterol no momento da alimentação, de modo que os fitoesteróis sejam trazidos para o interior do organismo e o colesterol não. Ocorre uma competição pela ocupação do interior da micela (ao invés de ter apenas colesterol, passa a ter também fitosteróis, de modo que grande parte do colesterol não consegue ser absorvida e é então eliminada nas fezes). Chegando menos colesterol no organismo, o organismo ou tem que aumentar a produção endógena de colesterol ou tem que tirar o que está na circulação. Frente a isso, normalmente o organismo passa a ter que tirar o colesterol da circulação para suprir as suas necessidades fisiológicas, diminuindo assim os níveis de colesterol circulante. 169 QUITOSANA É uma substância que parece ajudar a controlar os níveis de colesterol também. É normalmente administrada junto às fibras de Psyllium para emagrecimento. É uma substância isolada de crustáceos e que funciona como uma resina (ao ser ingerida com água, incha e dá sensação de saciedade, realizando também o sequestro de colesterol e sais biliares). EXERCÍCIO FÍSICO É extremamente importante, visto que aumenta os níveis de HDL colesterol e ativa algumas enzimas que levam a uma redução de estresse oxidativo no organismo (diminuindo-se assim a oxidação do LDL-colesterol, o que diminui as chances de se desenvolver placas ateroscleróticas). ANTIOXIDANTES E ÁCIDO FÓLICO Além da oxidação do LDL, a oxidação da homocisteína é também um fator agravante na ocorrência da aterosclerose. Quando está em excesso e é oxidada, a homocisteína leva aos fenômenos de trombogênese e aterogênese. Parte do excesso de homocisteína é retirado da circulação através da via do folato. Desta forma, a manutenção de ácido fólico e o uso de alguns antioxidantes ajuda a evitar a presença de um excesso de homocisteína oxidada, diminuindo assim as chances de se desenvolver os processos de aterogênese e trombogênese. Alguns medicamentos que são utilizados no controle dos níveis de colesterol podem reduzir as quantidades de ácido fólico, o que causa um distúrbio no metabolismo da homocisteína e da via do folato. CLASSES FARMACOLÓGICAS UTILIZADAS PARA O TRATAMENTO DAS DISLIPIDEMIAS Há 6 classes farmacológicas utilizadas no tratamento das dislipidemias. Há fármacos que são utilizados para tratar hipercolesterolemia visando a diminuição de LDL, mas que acabam também diminuindo um pouco a quantidade de triglicerídeos. As classes farmacológicas utilizadas no tratamento da hipertensão são: • Estatinas: são os fármacos mais efetivos na redução dos níveis de LDL colesterol e colesterol total • Ezetimiba • Resinas • Ácido nicotínico/Niacina 170 • Fibratos: são os fármacos com maior potencial de reduzir os níveis de triglicerídeos • Ômega 3 Os fitosteróis são utilizados como adjuvantes ou preventivos no tratamento. O Monaless é outro fármaco alternativo que pode substituir as estatinas, não produzindo os efeitos colaterais que elas produzem. As três primeiras classes são utilizadas principalmente para o controle dos níveis de colesterol total, visando principalmente a redução dos níveis de LDL colesterol. As três últimas classes são utilizadas principalmente para a diminuição dos níveis de triglicerídeos. O ácido nicotínico e o fibrato (quando associado ao ácido nicotínico) ajudam também a aumentar os níveis de HDL- colesterol. ESTATINAS São os fármacos com maior potencial de redução dos níveis de LDL- colesterol e colesterol total. As estatinas inibem uma enzima chamada de 3- hidroximetilglutarilcoenzimaA-redutase (HMG-CoA redutase). Esta enzima é uma das enzimas que participa da síntese de colesterol. Com a inibição desta enzima, a síntese de colesterol fica diminuída. Como o organismo precisa de colesterol para as suas necessidades fisiológicas, os hepatócitos passam a aumentar a expressão de receptores para LDL colesterol, de modo que o LDL passa a entrar mais no fígado, sendo então processado. Este mecanismo, portanto, acaba por retirar mais colesterol da circulação. Esta maior expressão de receptores de LDL acontece também frente ao uso de outros medicamentos empregados no controle dos níveis de LDL. 171 Por mecanismos diferentes, o hepatócito passa a estar com o seu nível de colesterol intracelular diminuído, de modo que ele passa a aumentar a expressão dos receptores para colesterol em sua membrana. As estatinas também diminuem a oxidação do LDL colesterol (papel secundário). Com isso, as estatinas também promovem um aumento na estabilidade da placa aterosclerótica, reduzem a inflamação e agregação plaquetária, etc. Desta forma, a estatina acaba por estabilizar as placas instáveis. As estatinas também atuam sobre as células ósseas, aumentando a atividade de osteoblastos e diminuindo a ação de osteoclastos. As estatinas diminuem de 15-55% dos níveis de LDL colesterol. Além disso, diminuem até 28% dos níveis de triglicerídeos, e ajudam a aumentar de 2 a 10% dos níveis de HDL. Com isso, as estatinas acabam melhorando muito o perfil lipídico do paciente, visto que atuam tanto sobre o LDL quanto sobre os triglicerídeos e sobre o HDL. O aumento do HDL é decorrente do aumento de ApoA. As principais estatinas são (“-statina”): • Lovastatina • Sinvastatina • Pravastatina • Fluvastatina • Atorvastatina • Rosuvastatina • Pitavastatina Pró-fármacos e fármacos ativos Lovastatina e Sinvastatina são pró-fármacos, enquanto as demais são fármacos ativos. As estatinas podem provocar várias interações medicamentosas. Se houver indução ou inibição enzimática, pode haver o acumulo destas substâncias no organismo, de modo que o paciente passa a ter maior chance de ter efeitos colaterais (que são normalmente efeitos musculares e hepáticos). Dependendo do resultado da análise laboratorial em relação às funções musculares e hepáticas, o medicamento deverá ser suspenso. Tempo de meia-vida Em relação ao tempo de meia vida, estes fármacos: • Atorvastatina, Rosuvastatina e Pitavastatina: são fármacos com maior meia-vida (10-30h), tendo tempo de ação mais prolongado. Devido a isso, podem ser administrados a qualquer hora do dia. • Lovastatina, Sinvastatina, Pravastatina e Fluvastatina: são fármacos de meia-vida mais curta. Devido a isso, estes fármacos devem ser 172 administrados à noite (visto que a síntese de colesterol no organismo ocorre principalmente à noite). A Sinvastatina é indicada no SUS: deve-se orientar o paciente em relação ao horário de se tomar (à noite). O SUS também recomenda o uso de alcachofra em associação à Sinvastatina para auxiliar no controle dos níveis de colesterol. Potência e eficácia A Atorvastatina e a Rosuvastatina são as mais efetivas, visto que reduzem em cerca de 50% os níveis de LDL-colesterol. A Sinvastatina também possui efeito de reduzir cerca de 50% dos níveis de colesterol se administrada em grandes doses. É necessário o dobro de Sinvastatina para ser causado o mesmo efeito da Atorvastatina Desta forma, observa-se que além da Atorvastatina e da Rosuvastatina serem os fármacos com maior potência, tambémsão os que podem ser administrados em qualquer horário do dia, o que indica o seu uso. .A mais potente das estatinas é a Pitavastatina: 2-4 mg dela já são capazes de causar estes efeitos de redução dos níveis de LDL em 50% (enquanto a Atorvastatina e a Rosuvastatina só causam estes efeitos com a administração de 40-80 mg). A Pitavastatina foi a última estatina a ser colocada no mercado. Ela parece melhorar ou corrigir algumas anomalias metabólicas, principalmente em pacientes pré-diabéticos. Ela não é metabolizada pelo fígado, visto que possui metabolismo biliar. Com isso, a Pitavastatina não causa tantas interações medicamentosas, causando menos efeitos colaterais. Ela apresenta boa biodisponibilidade e é administrada por VO. Também provoca a estabilização da placa aterosclerótica. Apesar destas vantagens, a Pitovastatina não chega na proporção de redução de LDL que a Rosuvastatina e a Atorvastativa chegam. Efeitos colaterais: 173 Os principais efeitos colaterais estão relacionados a alterações no fígado e nos músculos. • Queixas musculares: 10%. o Vão desde mialgias até à rabdomiólise (o fármaco que mais causava a rabdomiólise era a Cerivastatina, o qual não é mais encontrado no mercado atualmente devido a este efeito colateral. A rabdomiólise é caracterizada pela degradação muscular com perda de hemoglobina na urina. Atualmente, apenas 1% dos pacientes chega a desenvolver a rabdomiólise) • Efeitos colaterais leves: 30% • Elevação da creatina quinase • Elevação de ALT e AST (TGP e TGO) • Hepatotoxicidade • Desconfortos intestinais: constipação e náuseas • Insônia Como as estatinas causam alterações hepáticas, antes de começar a tomar estes medicamentos, o paciente deve realizar a dosagem de TGP e TGO e da creatina quinase. Se for observado que após o início do tratamento com as estatinas os níveis destas enzimas aumentarem (creatina quinase: acima de 10x; aminotransferases: acima de 3x), o tratamento deve ser suspenso. Além disso, se o paciente estiver se queixando muito de efeitos colaterais musculares, deve-se avaliar as outras alternativas farmacológicas. Gestantes e pessoas com hepatopatias não devem fazer uso de estatinas. Grande parte das estatinas podem levar ao desenvolvimento de diabetes. Isto ocorre pois estes medicamentos diminuem a fosforilação dos receptores de insulina (que são receptores de tirosina cinase). Se não há esta fosforilação, não há a expressão dos receptores GLUT (responsáveis por reduzir os níveis glicêmicos). As estatinas que não induzem o diabetes são a Pitavastatina e a Pravastatina. Monaless Uma das alternativas farmacológicas para o uso das estatinas é o Monaless, um fitoterápico que atua inibindo a HMG-CoA redutase de maneira muito mais branda. É o único fitoterápico voltado para a redução da hipercolesterolemia. Ele é proveniente do arroz vermelho, um arroz fermentado por um fungo (chamado de Monascus purpureus), o qual produz metabolitos que deixam este arroz avermelhado. Estes metabolitos inibem a HMG-CoA redutase, ajudando a diminuir os níveis de colesterol plasmáticos. Este fármaco apenas é indicado para pacientes com níveis moderados de hipercolesterolemia (200-240 mg/dl). 174 Interações medicamentosas: Se há inibição enzimática, os fármacos ativos demoram mais tempo para serem degradados, ficando mais tempo no organismo, o que pode aumentar a chance de serem desenvolvidos efeitos colaterais musculares e hepáticos. Ao se dobrar a dose das estatinas, dobra-se a chance de serem desenvolvidos efeitos colaterais, mas não se dobra a % de redução de LDL colesterol. Interação com suco de toranja: possui uma substância que causa inibição enzimática. Se o paciente que estiver fazendo uso de estatina também estiver fazendo uso de anticoagulantes, há a necessidade de se realizar o reajuste da dose do anticoagulante. Isto ocorre pois como as estatinas são os fármacos que possuem maior potencial de redução do colesterol, elas acabam por alterar a viscosidade sanguínea. Esta necessidade de ajuste da dose dos anticoagulantes não ocorre com o uso da Ezetimiba (outro fármaco utilizado no controle dos níveis de colesterol). Não se deve realizar a associação de Fibratos com Estatinas, de modo que esta associação apenas deve ser feita em condições específicas e frente ao monitoramento constante da função hepática e muscular. Também não se deve associar o uso do Monaless com o uso das Estatinas (visto que como estes medicamentos atuam na mesma via, podem potencializar os efeitos colaterais de seu uso). EZETIMIBA É um fármaco que inibe um transportador de colesterol, chamado de NPC1L1. Este transportador de colesterol encontra-se na membrana dos enterócitos. Ao se inibir este transportador, a absorção de colesterol é diminuída 175 (de modo que os QMs que passam a chegar ao fígado são QMs pobres em colesterol). Diferentemente das Resinas (outra classe de fármacos utilizada no controle das dislipidemias), que não são absorvidas, o Ezetimiba é absorvido, caindo na corrente sanguínea e depois vindo a se localizar nos enterócitos. Este fármaco é utilizado de maneira isolada (em pacientes com intolerância às estatinas) ou associado à Sinvastatina. Não é notada diferença significativa na diminuição de placas ateroscleróticas ao se comparar a administração de Ezetimiba e Sinvastatina de forma junta ou de forma isolada. A administração conjunta destes fármacos apenas aumenta ainda mais a diminuição da quantidade de colesterol circulante (mas não causa uma maior diminuição das placas já formadas). A Ezetimiba sozinha causa uma redução de 10-25% dos níveis de LDL circulantes, enquanto a Sinvastatina sozinha causa uma redução de 50% destes níveis. Ao serem associadas, esta redução dos níveis plasmáticos de LDL aumenta para cerca de 60% (mas esta associação não leva a um aumento da capacidade de se reduzir placas ateroscleróticas já formadas). A Ezetimiba produz um metabolito glicuronideo que é ativo: mesmo após a sua metabolização hepática, o fármaco não deixa de perder a sua atividade É um fármaco que possui tempo de meia vida considerado longo (28- 30h), podendo ser maior em pacientes idosos. Este fármaco não interfere na absorção de gorduras e de vitaminas. Apesar de ser um fármaco que atua em nível intestinal na membrana do enterócito, ele não interfere na absorção de outras substâncias. 176 FÁRMACOS UTILIZADOS NAS DISLIPIDEMIAS - CONTINUAÇÃO Medusa - 86 RESINAS As resinas também atuam nos intestinos. Diferentemente da Ezetimiba, que é absorvida, as Resinas não são absorvidas. Devido a isso, as resinas são prescritas para pacientes com risco de hepatotoxicidade ou para gestantes (visto que estes pacientes não podem utilizar as estatinas ou a Ezetimiba). As resinas se ligam aos ácidos biliares e causam um aumento da eliminação fecal destes compostos. Como os ácidos biliares são formados a partir do colesterol, quando eles não são reabsorvidos após serem liberados no fígado, é necessário se realizar a síntese de novos ácidos biliares. Para se realizar esta síntese, o fígado passa a expressar mais receptores para colesterol, para que assim consiga retirar mais deste lipídio da corrente sanguínea. Desta forma, as resinas acabam estimulando a retirada de colesterol do sangue, reduzindo assim os níveis séricos deste lipídio. Os três fármacos utilizados para se reduzir os níveis de LDL colesterol agem por mecanismos diferentes, mas todos resultam em um mesmo efeito final: aumentam a expressão de receptores para colesterol na membrana dos hepatócitos. 177 A única resina disponível no mercado é a Colestiramina. A resina apresenta um Cl- em sua estrutura e o sal biliar possui um Na+, de modo que a ligação da resina com o sal biliar se dá a partir da ligação do Na+ com o Cl-.A estrutura formada é tão grande que não consegue ser reabsorvida, sendo eliminada nas fezes. A Colestiramina não possui boa tolerabilidade, visto que a sua forma farmacêutica apresenta certa resistência pelos pacientes. Ela vem na forma de pó e deve ser hidratada por algum liquido para ser ingerida. Recomenda-se que o líquido utilizado seja algum suco, visto que ao ser hidratada, a resina se transforma em um líquido viscoso (espécie de gel), o qual tem a ingestão muito desagradável se misturado com água. Deve ser administrada no momento da refeição (visto que é neste momento que ocorre a liberação dos ácidos biliares). Os esquemas posológicos para a administração da Colestiramina dependem dos níveis séricos de colesterol do paciente. Se os níveis forem muito altos, a dose vai sendo aumentada semanalmente (e com isso o líquido a ser ingerido torna-se cada vez mais viscoso). • 1ª semana – 4g em 150 ml de água 1-2x/dia • 2ª semana – 8g em 150 ml de água 2x/dia • 3ª semana – 12g em 150 ml de água 2x/dia Se o paciente toma algum outro medicamento, ele deve passar a toma- lo cerca de 1h antes ou 2-4h depois da administração da Colestiramina, visto que a resina pode sequestrar o medicamento e interferir na sua absorção. As resinas também podem ser utilizadas no tratamento da intoxicação digitálica. A Colestiramina também pode ser utilizada como co-adjuvante das estatinas, desde que seja administrada em horários diferentes. Pode ser prescrita para crianças ou gestantes. Possui baixa toxicidade sistêmica (visto que não é absorvida). Efeitos colaterais • Distúrbios gastrointestinais • Esteatorreia • Constipação O principal efeito colateral das resinas é o aumento dos triglicerídeos. Frente ao menor retorno dos sais biliares, o fígado passa a ter que sintetizar mais colesterol. Este colesterol sai do hepatócito na forma de VLDL, lipoproteína cujo principal constituinte são triglicerídeos. Devido a isso, a resina corrige os níveis de colesterol (carregados pelo LDL), mas, como efeito colateral, causa um aumento dos níveis de triglicerídeos (devido ao aumento da síntese de 178 VLDL). Se o paciente fizer uso de resina e passar a apresentar aumento de triglicerídeos, pode-se associar as resinas à niacina. Frente ao uso das resinas, pode ocorrer um aumento na excreção de sais biliares em até 10x (como os ácidos biliares não estão retornando aos hepatócitos, o fígado passa a sintetizar mais intensamente estes compostos). A resina interfere na absorção de vitaminas lipossolúveis e de ácido fólico. Este efeito colateral é importante principalmente nas crianças, e devido a isso deve-se monitorar os níveis de vitaminas destes pacientes. Este efeito colateral não está tão presente nas gestantes, visto que elas realizam a suplementação de ácido fólico durante a gestação. O ácido fólico possui função de evitar o excesso de homocisteína. FÁRMACOS REDUTORES DE TRIGLICERIDEOS NIACINA/ÁCIDO NICOTÍNICO A niacina é uma vitamina. Este fármaco interfere na lipase sensível ao hormônio. A lipase sensível ao hormônio é uma enzima que retira ácidos graxos do tecido adiposo e leva para o fígado, para que assim seja realizada a síntese de triglicerídeos. A niacina diminui a atividade da lipase sensível ao hormônio. Desta forma, a este fármaco é capaz de diminuir a mobilização de ácidos graxos para fígado, diminuindo a síntese de triglicerídeos – o que leva a uma diminuição dos níveis plasmáticos de VLDL. O VLDL passa a ser menos formado pois, quando há poucos triglicerídeos disponíveis no fígado, ocorre uma dificuldade de acoplamento da APO-B100 com os triglicerídeos para a formação do VLDL. 179 Como os níveis de VLDL estão diminuídos, há também uma diminuição nos níveis de LDL (visto que o VLDL forma IDL, que se transforma em LDL). A diminuição dos níveis plasmáticos de LDL leva a uma diminuição da deposição de colesterol no tecido extra-hepático. A Niacina também diminui a degradação da ApoA, levando a um aumento de HDL no plasma Portanto, a Niacina possui a função de aumentar HDL e diminuir triglicerídeos, que estão dentro do VLDL. A niacina consegue diminuir de 20- 50% dos níveis de triglicerídeos, e consegue aumentar de 15-35% dos níveis de HDL colesterol. Ao se associar a niacina a um fibrato, há um aumento de aproximadamente 50% dos níveis de HDL colesterol. Estes níveis podem ser aumentados ainda mais por meio da atividade física. Efeitos colaterais da Niacina A Niacina deve ser administrada principalmente no período noturno, visto que ela deixa o paciente com o rosto avermelhado e causa calor. Devido a estes efeitos, recomenda-se ao paciente que 30 minutos antes de fazer o uso da niacina, ele tome AAS ou ibuprofeno (para que assim sejam diminuídas as quantidades de PGs liberadas, as quais são responsáveis pela vasodilatação). Estes efeitos colaterais ocorrem pois a Niacina, ao cair no estômago, se transforma em ácido nicotinúrico, o qual induz a produção de PGs. A niacina deve ser tomada neste horário pois a síntese de colesterol ocorre à noite e porque o paciente toma o medicamento e vai dormir (não sentindo tanto os efeitos colaterais provocados pela liberação das PGs). O Laropipranto é um fármaco que bloqueia os receptores de PGs (podendo ser, desta forma, útil para controlar os efeitos colaterais causados pela niacina). Além disso, o Laropipranto também possui capacidade de inibir uma enzima chamada de escaleno sintase, a qual participa do processo de síntese de colesterol. Desta forma, além de evitar o rubor e o calor, o Laropipranto também ajuda a diminuir a síntese de colesterol no fígado. As niacinas podem provocar: 180 • Erupções cutâneas • Náuseas e desconforto abdominal • Aumento de aminotransferases e fosfatase alcalina • Hepatotoxicidade grave (evento raro) • Aumento de glicose • Aumento de ácido úrico: pode estar relacionado com o aumento de triglicerídeos. Deve-se avaliar a indicação de realmente se prescrever estes fármacos para pacientes com diabetes (devido ao aumento da glicose) ou para pacientes com gota. Formulações da Niacina Há três formulações da niacina: • Niacina de liberação imediata: é a que mais causa efeitos colaterais relacionados à vasodilatação cutânea • Niacina de liberação intermediária • Niacina de liberação lenta: são as que são capazes de provocar hepatotoxicidade FIBRATOS Os fibratos são a principal classe de fármacos utilizada no controle dos níveis de triglicerídeos. Os fibratos aumentam a atividade da lipase lipoproteica, que quebra os triglicerídeos do QM e os do VLDL. Desta forma, chega uma quantidade melhor de triglicerídeos no hepatócito. 181 Além disso, o fibrato atua ativando o receptor PPARα (receptor alfa ativado da proliferação de peroxissomos). Este receptor, ao ser ativado, diminui a síntese de ApoC3, aumentando a atividade e a expressão da lipase nos vasos. Isto ocorre pois a ApoC3 inibe a lipase lipoproteica (e quando o receptor PPARα é ativado, ele inibe a ApoC3 – inibe o inibidor, aumentando a atividade a expressão da lipase lipoporteica). Como a lipase lipoproteica está mais ativada, ocorre uma maior quebra dos triglicerídeos em ácidos graxos+ glicerol, o que causa uma diminuição do nível plasmático de triglicerídeos. Os Fibratos também aumentam HDL, visto que aumentam a síntese ApoA nos hepatócitos. Estes fármacos causam um aumento de 7 a 11% dos níveis de HDL, e reduzem de 30 a 60% os níveis de triglicerídeos (dependendo da dieta; a ingestão de bebida alcóolica influencia muito nos níveis dos triglicerídeos). Ao se realizar a associação da Niacina com Fibratos, observa-se que, por mecanismos diferentes, ambos reduzem os níveis plasmáticos de triglicerídeos e ambos aumentam os níveis de HDL. Principais fármacos Os principais fibratos (“-fibrato”e genfibrozila) são: • Bezafibrato • Ciprofibrato 182 • Genfibrozila: é o fármaco que tem maior potencial na redução dos níveis de triglicerídeos. É também o fármaco que mais apresenta interação medicamentosa com as estatinas (principalmente com a Sinvastatina). Desta forma, estes fármacos não devem ser associados (mas se forem, favorecem a ocorrência de efeitos colaterais relacionados ao fígado e aos músculos). • Fenofibrato: ajuda a diminuir níveis de ácido úrico (que podem ser aumentados pela Niacina). Desta forma, se for necessário se associar o uso de fibratos com o uso da niacina, a melhor opção é se associar a Niacina com o Fenofibrato. • Clofibrato: é o mais relacionado com o desenvolvimento de litíase vesical. • Etofibrato Efeitos colaterais e precauções • Evitar a associação entre Fibratos e Estatinas (principalmente a Sinvastatina) • Se o paciente está fazendo uso de anticoagulantes junto ao uso do Fibrato, deve-se alterar a dose dos anticoagulantes (visto que a redução da circulação dos lipídeos causada pelos fibratos leva a alterações na viscosidade sanguínea) • Distúrbios gastrointestinais, miopatias, arritmias, hipocalemia, aumento das aminotransferases e da fosfatase alcalina (devido a isso, antes de se iniciar o tratamento com os fibratos, deve-se fazer dosagens da CK, das aminotransferases e da fosfatase alcalina). • Deve-se evitar a administração de fibratos para pacientes com disfunção hepática, renal e biliar. • O Clofibrato pode levar a uma maior propensão ao desenvolvimento de cálculos biliares ÔMEGA 3 É utilizado para controle dos triglicerídeos, mas pode aumentar os níveis de LDL. Possui outras propriedades que são benéficas para o paciente com doenças cardiovasculares, como atividade anti-inflamatória e efeito anti- trombótico (diminui agregação plaquetária) – efeitos que são benéficos para pacientes com placas ateroscleróticas. Não reduz triglicerídeos tão eficientemente quanto a Genfibrosila. Todavia, ao se comparar a capacidade de redução dos triglicerídeos causada pelo ômega 3 com a redução provocada pelo Etofibrato e pelo Fenofibrato, esta capacidade de redução é bastante similar. 183 Posologia: • 250 mg/dia: redução em 35% da ocorrência de morte súbita • 500 mg/dia: redução em 39-46% da ocorrência de doença aterocoronariana e doenças cardiovasculares Efeitos anti-inflamatórios e anti-trombóticos Relembrando: PGE2 e PGI2 são substâncias que possuem propriedades vasodilatadoras. Tromboxano A2 é responsável por realizar agregação plaquetária. O ômega 3 leva a um desvio na síntese das PGs e do tromboxano A2. Ao invés de estimular a produção de PGE2 e PGI2, o ômega 3 estimula a produção de PGE3, que mantém a propriedade vasodilatadora. Além disso, o ômega 3 atua também na via das lipoxigenases, estimulando a produção de leucotrieno B5 (e não de leucotrieno B4). Além disso, deixa de formar tromboxano A2, passando a formar tromboxano A3 (o qual não possui atividade plaquetária). Desta forma, o ômega 3 realiza um bloqueio nas vias do ácido araquidônico, o que leva a um efeito anti-inflamatório, manutenção da vasodilatação e inibição da agregação plaquetária (o que leva a um efeito anti-trombótico). 184 NOVOS FÁRMACOS Ainda não são uma realidade no Brasil, visto que são muito caros. São anticorpos monoclonais. ALIROCUMABE E EVOLOCUMABE Após o LDL se ligar ao seu receptor na membrana do hepatócito, este receptor é fagocitado e levado para o interior desta célula. Em seguida, este receptor volta para a membrana do hepatócito, e repete este ciclo aproximadamente 150 vezes. Há uma enzima que degrada parte dos receptores de LDL após serem fagocitados, a qual é chamada de PCSK9. Se esta enzima possui atividade muito alta, há uma grande degradação dos receptores de LDL, de modo que não há receptores para serem expressos na membrana do hepatócito. Com isso, apenas uma pequena quantidade de colesterol consegue ser retirada da circulação, causando um quadro de hipercolesterolemia. Alirocumabe e o Evolocumabe são anticorpos que se ligam a esta enzima, inibindo o seu funcionamento. Isto faz com que os receptores consigam ser reciclados por cerca de 150 vezes, de modo que sempre haverá uma alta quantidade de receptores na membrana, os quais serão capazes de retirar o colesterol do sangue e diminuir os seus níveis plasmáticos. Este medicamento é injetado 1-2x ao mês. Cada caneta (forma que aplica este medicamento) custa cerca de 1.300 reais. Devido a isto, este fármaco somente é indicado para pacientes com risco cardiovascular muito elevadi (como pacientes com hipercolesterolemia familiar). 185 Efeitos colaterais São leves, como nasofaringite, náuseas, fadiga e reações no local da aplicação. LOMITAPIDA Inibe a proteína de transferência de triglicerídeos microssomais. Para que o VLDL seja formado, é necessário se acoplar o triglicerídeo à ApoB. A Lomitapida inibe este acoplamento, fazendo com que o VLDL não seja formado. A Lomitapida apenas é indicada para pacientes com dislipidemia grave. Este fármaco consegue reduzir cerca de 50% dos níveis de LDL. Efeitos adversos Provoca esteatose hepática (visto que os triglicerídeos ficam localizados no interior dos hepatócitos), alterações de transaminases e alterações na absorção de vitamina E. MIPOMERSEN É um oligonucleotideo antissenso (ASO): consiste em uma sequência de nucleotídeos que se liga ao RNAm responsável pela síntese de ApoB100, inibindo esta síntese. Se não é formada a ApoB100, não é possível que seja formado o VLDL nem o LDL, diminuindo-se os níveis destas lipoproteínas circulantes. Este fármaco (sequência de nucleotídeos) é complementar à fita de RNAm que codifica a ApoB100, de modo que se liga a esta fita. Ao ser formada 186 uma dupla fita de RNAm, esta estrutura é eliminada (visto que o organismo apenas reconhece como normais as fitas simples de RNAm). Este medicamento ainda está em desenvolvimento. Causa redução de 25- 37% dos níveis de LDL circulantes. INIBIDORES DA PROTEINA DE TRANSFERENCIA DE ESTER DE COLESTEROL (CETP) A CETP é a enzima responsável por transferir o colesterol que está no interior do HDL (o qual foi esterificado pela LCAT) para o IDL. Ao se inibir esta proteína, não é possível se realizar a transferência do colesterol do HDL para o IDL. Com isso, o HDL leva todo o colesterol diretamente para o fígado, favorecendo o transporte reverso de colesterol pelo HDL via receptor SRB1. Os fármacos desta classe são o Torcetrapib, Dalcetrapib, Evacetrapib e Anacetrapib. Apenas o Anacetrapib está ainda em estudo clínico. 187 INTRODUÇÃO – HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA Medusa - 86 A grande maioria dos fármacos utilizados no tratamento da hipertensão são utilizados também no tratamento de outras doenças cardiovasculares, como na angina e na IC. A hipertensão é uma doença crônica não transmissível, de natureza multifatorial (95% dos casos são de natureza inespecífica, resultando de um conjunto de fatores; em 5% dos casos é possível identificar a causa exata da hipertensão), de adaptação (o organismo se adapta a novas situações, as quais comprometem a irrigação tecidual), assintomática (na grande maioria dos casos) que compromete, fundamentalmente, o equilíbrio do sistema vascular, levando a um aumento da tensão sanguínea nos vasos, capaz de comprometer a irrigação tecidual e provocar danos aos órgãos por eles irrigados. O fato de a hipertensão ser uma doença assintomática faz com que muitas vezes o paciente não tenha adesão ao tratamento. Isto ocorre pois muitas vezes o paciente não apresentava nenhum sintoma antes de passar a tomar os medicamentos, mas após iniciar o tratamento, ele passa a apresentar efeitos colaterais. HIPERTENSÃO PRIMÁRIAA hipertensão primária apresenta causas inespecíficas, visto que não é possível se identificar o motivo que está levando ao desenvolvimento da hipertensão. O quadro de hipertensão primária normalmente resulta de uma somatória de fatores, como: • Estresse: aumenta a liberação de cortisol, de noradrenalina e de adrenalina • Desequilíbrio do SNA: o SN simpático passa a estar mais ativado, de modo que há uma maior liberação de adrenalina, a qual causa vasoconstrição e aumento da FC. • Herança genética: se o indivíduo apresenta pais, irmãos ou tios com HAS, há um aumento da chance de ser desenvolvida a doença • Dieta: alto consumo de gorduras e sódio predispõe o desenvolvimento da HAS (é permitido o consumo de 5g de sódio/dia, e o brasileiro consome cerca de 11,4g/dia) • Obesidade: além da obesidade (que é definida pelo IMC), o aumento da circunferência da cintura também é um fator bastante importante para o desenvolvimento da HAS. O aumento da circunferência da cintura está diretamente associado à presença de infartos, AVEs, distúrbios metabólicos, etc. 188 o Para latino-americanos, a medida da circunferência abdominal deve ser: ▪ Homens: até 94 cm ▪ Mulheres: até 80 cm • Bradicinina: provoca vasodilatação e ativa a via das PGs, que também são substâncias vasodilatadoras. Desta forma, é capaz de atuar na RVP, diminuindo-a. A bradicinina possui tempo de meia-vida muito curto (18 segundos) • Mediadores envolvidos na alteração da RVP – endotelinas e NO: estes mediadores são responsáveis por causar vasoconstrição e vasodilatação, respectivamente. Estes mediadores interferem na resistência vascular periférica: quanto mais contraído o vaso está, mais resistência ele impõe à passagem de sangue. • Raça: pessoas da etnia negra possuem maior tendência de desenvolver a HAS devido a uma menor síntese de NO e devido a uma maior expressão de receptores beta-adrenérgicos HIPERTENSÃO SECUNDÁRIA Neste caso, a hipertensão possui causas específicas. Se for tratado o problema de base que está levando ao desenvolvimento da hipertensão, a PA tende a voltar à normalidade. As causas da hipertensão secundária são: • Apneia do sono: a alteração da quantidade de O2 e CO2 circulante pode levar a alterações na liberação de adrenalina. Além disso, o indivíduo com apneia do sono não dorme adequadamente, o que pode levar a um quadro de estresse. • Aldosterismo primário: a aldosterona é um hormônio que retem água e sódio. Desta forma, um aumento da quantidade de aldosterona causa um aumento do volume de líquido circulante no organismo, o que leva a um aumento da PA. • Doenças renovasculares: também aumentam a quantidade de líquido circulante • Feocromocitoma: tumor de adrenal que libera de maneira intermitente altas quantidades de catecolaminas. Ao se ligar em receptor alfa-1, a adrenalina causa vasoconstrição, e ao se ligar ao receptor beta-1, causa aumento da FC. • Coarctação da aorta: faz com que ocorra diferença na medida da PA em diferentes locais do corpo: aumenta nas artérias cerebrais e nas artérias dos braços e diminui nas artérias das vísceras e das pernas • Doença tireoidiana e paratireoidiana: o Quadro de hipertireoidismo aumenta a FC. o O paratormônio está relacionado ao aumento da liberação de ACTH, o qual causa a liberação de mineralocorticodies. Os 189 mineralocorticoides causam um aumento da retenção hídrica, o aumento de cálcio e o aumento da liberação de renina. • Síndrome de Cushing: o uso de grande quantidade de glicocorticoides é um dos fatores que leva ao desenvolvimento da Síndrome de Cushing. Neste quadro, o paciente acaba desenvolvendo várias modificações fisiológicas e físicas, como rosto em forma de lua cheia, corcova de búfalo (acúmulo de gordura na região dos ombros), acúmulo de gordura na região abdominal, estrias avermelhadas, equimoses, glaucoma, HAS, alterações no metabolismo de proteínas, lipídios e glicídios, etc. o Os glicocorticoides aumentam a liberação de adrenalina e noradrenalina. Além disso, induzem os macrófagos a liberarem lipocortinas, que inibem a fosfolipase A2, inibindo a síntese de PGE2 e PGI2, que são substâncias vasodilatadoras (o que contribui com o aumento da PA) • Uso de algumas drogas: o Uso de anti-inflamatórios (sejam eles esteroidais ou não esteroidais): causa a diminuição de PGs e prostaciclinas, que são substâncias vasodilatadoras. Se um paciente hipertenso precisar tomar um AINE, ele precisará ter um acompanhamento na aferição da PA quando estas duas drogas forem associadas. Se ocorrer um aumento da PA, será necessário se reajustar a dose do anti- hipertensivo. o Fármacos agonistas de receptores alfa 1: como descongestionantes nasais e antigripais (são normalmente compostos por AINE, anti-histamínico (a histamina também provoca vasodilatação) e agonista de receptor alfa 1). o Fármacos agonistas de receptores beta 1: levam ao aumento da FC, predispondo o desenvolvimento da HAS. o Derivados anfetamínicos o Anorexígenos (ex.: sibutramina) 190 o Anticoncepcionais orais: podem levar ao aumento do desenvolvimento de trombose (principalmente nas pessoas que possuem histórico familiar de trombose) CLASSIFICAÇÃO DA HAS Para se classificar um paciente como hipertenso, ele deve apresentar no mínimo a PA de 140/90 mmHg, com a confirmação deste resultado. Há estágios da HAS: • Estágio 1: 140-159/90-99 mmHg • Estágio 2: 160-179/100-109 mmHg • Estágio 3: ≥ 180/110 mmHg A pressão que estiver no estágio maior (seja a diastólica ou a sistólica), é a que é considerada para a classificação (ex.: Se o paciente tiver PA confirmada de 140/100 mmHg, está no estágio 2). A PA de 120/80 mmHg é o limite para que a PA do paciente seja considerada normal. O paciente com pré-hipertensão apresenta PA que varia de 121/81 mmHg até 139/89 mmHg. Para se realizar a confirmação da PA, pode-se realizar a medição ambulatorial ou a medição residencial (sendo que esta última deve ser feita 5 vezes na semana, e as aferições devem ser realizadas durante três períodos diferentes; a confirmação também pode ser obtida a partir da média das aferições realizadas durante 7 dias, sendo aferidas em 2 períodos distintos ao longo do dia). Também pode ser realizado o exame de Holter, que realiza o monitoramento da PA durante um dia todo. Síndrome do jaleco branco: a PA do paciente pode subir frente à aferição realizada no consultório. Neste caso, é indicada a aferição residencial. FATORES DE RISCO MAIORES PARA O DESENVOLVIMENTO DA HAS • Tabagismo: causa ativação prolongada do SN simpático • Sedentarismo 191 • Estresse • Ingestão de bebida alcoólica • Obesidade • Ingestão de alta quantidade de sódio • Herança genética • Envelhecimento: com o passar dos anos, ocorre uma perda da elasticidade vascular • Etnia Apenas 3 fatores não são possíveis de serem controlados: a herança genética, o envelhecimento e a etnia. Deste modo, a grande maioria dos fatores de risco maiores para o desenvolvimento da HAS dependem de ações do paciente. A modificação de estilo de vida para o tratamento das doenças cardiovasculares é tão importante quanto o tratamento medicamentoso. FISIOLOGIA DA HAS Em termos fisiológicos, a PA é definida como o produto do DC pela RVP (PA = DC x RP). Desta forma, se é aumentada a RVP ou o DC, a PA aumenta. O débito cardíaco é definido como o volume de sangue ejetado do coração por minuto. Devido a isso, o DC é calculado pelo produto do VS (volume sistólico) pela FC (DC = VS x FC). Se a FC for aumentada, aumenta-se o DC, aumentando a PA. De forma semelhante, se há um aumento do o volume de liquido circulante no organismo, aumenta-se o DC, aumentando a PA. Desta forma, três fatores importantes devem ser controlados no tratamento da HAS: • FC • VS: relacionado com o volume desangue circulante no organismo • RVP: relacionada com vasoconstrição e vasodilatação Devido a isso, algumas das classes farmacológicas que podem ser utilizadas no tratamento da hipertensão são: • Diuréticos: diminuem o volume sistólico, diminuindo o DC • Beta-bloqueadores: diminuem a FC • Antagonista alfa 1: diminuem a RVP RELAÇÃO ENTRE SN SIMPÁTICO E SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA- ALDOSTERONA Os barorreceptores são estruturas presentes no seio carotídeo que modulam o SNA a partir de oscilações na PA. Frente a qualquer variação de PA, os barorreceptores desencadeiam um arco-reflexo, o qual é responsável por enviar informações para o SNC acerca desta oscilação na pressão. A partir disso, o SNC ativa ou inativa o SNA. 192 Frente a uma diminuição da PA, há a detecção desta queda da pressão pelos barorreceptores, que estimulam o aumento da atividade do SNA simpático. Esta maior ativação no SNA simpático causa a liberação de adrenalina, a qual passa a se ligar a receptores beta-1 e alfa-1 adrenérgicos. A ligação aos receptores beta-1 causa um aumento da FC, e a ligação aos receptores alfa-1 leva à vasoconstricção, o que causa um aumento do retorno venoso e um aumento da resistência vascular periférica. Estes 3 efeitos levam a um aumento da PA. Frente à queda da PA, ocorre também uma diminuição do fluxo sanguíneo que chega aos rins, causando uma menor TFG. A partir desta menor TFG, passa a ocorrer uma maior retenção de sódio e água no organismo, o que leva a um aumento do volume sanguíneo, causando um aumento do VS e consequentemente um aumento do DC. Além disso, a diminuição do fluxo sanguíneo renal causa a liberação de renina. A renina é responsável por transformar o angiotensinogênio em angiotensina 1. Em seguida, a ECA (enzima conversora de angiotensina) transforma a angiotensina 1 em angiotensina 2. Quando a angiotensina 2 se liga a receptores AT1, ela causa vasoconstrição, levando a um aumento da RVP. Além disso, a angiotensina 2 também promove um aumento na liberação de aldosterona, hormônio que atua nos rins causando a retenção de água e sódio – o que leva a um aumento do volume sanguíneo e do DC. Desta forma, a ativação do SRAA causa um aumento da RVP e do DC, o que leva a um aumento da PA. CONTROLE VASCULAR E RVP Tanto a endotelina quanto a angiotensina 2 são substâncias que provocam vasoconstricção ao se ligar a seus respectivos receptores (receptor de endotelina e AT1). Este efeito de vasoconstricção ocorre por meio de um aumento dos níveis de cálcio no interior das células musculares. A endotelina e a angiotensina promovem a abertura de canais de cálcio, e este aumento de 193 cálcio intracelular ativa o sistema cálcio-calmodulina, que ativa a miosina quinase de cadeia leve, proteína responsável por fosforilar a miosina. A miosina fosforilada é capaz de causar vasoconstrição. Além das endotelinas e da angiotensina, agonistas do receptor alfa-1 também são capazes de causar vasoconstrição. Estes agonistas se ligam aos receptores alfa-1 e causam a abertura de canais de cálcio, o que leva à vasoconstrição. O elemento central que leva à vasoconstrição nas vias citadas acima é o aumento do cálcio intracelular. Desta forma, se algum fármaco agir bloqueando os canais de cálcio, esta vasoconstrição será interrompida. Devido a isso, os bloqueadores dos canais de cálcio são uma das classes utilizadas no tratamento da HAS. Além de inibir a vasoconstrição, a farmacologia também pode atuar intensificando a vasodilatação. Alguns dos vasodilatadores causam este efeito por meio do processo de hiperpolarização. Os vasodilatadores hiperpolarizantes promovem a abertura do canal de potássio, que fica aberto por mais tempo, levando a um estado de hiperpolarização, que dificulta ou impede a abertura do canal de cálcio, impedindo a vasoconstrição. Os vasodilatadores hiperpolarizantes são fármacos utilizados apenas frente a crises hipertensivas, não sendo utilizados no tratamento crônico da HAS. Alguns dos elementos que naturalmente levam à vasodilatação são as Prostaciclinas e o NO. O NO atua na guanilato ciclase, aumentando GMPc, que ativa uma proteína cinase, a qual inibe a vasoconstrição. O NO consegue ter os seus níveis aumentados por meio da administração de nitratos (visto que os nitratos são convertidos em NO no organismo). Os nitratos são utilizados apenas frente a crises hipertensivas, não sendo utilizados no tratamento a longo prazo da HAS (visto que a sua posologia exige que o paciente fique por no mínimo 8h 194 sem ingerir o medicamento – isto ocorre pois a conversão de nitrato em NO demanda a ação de grupamentos sulfidrilas, que se esgotam ao longo do dia ao fazer esta conversão. O período sem utilizar o medicamento visa o reestabelecimento dos níveis de grupamentos sulfidrilas). OBS.: Nitratos e angina O nitrato pode ser utilizado de forma crônica por pacientes com angina, visto que, diferentemente dos pacientes com HAS, estes pacientes podem ficar por um período do dia sem o medicamento, já que não necessitam de controle constante como na HAS. Há 3 tipos de angina, e cada uma delas tem um período de maior probabilidade de ocorrência: • Angina clássica/estável/de esforço: ocorre quando o paciente está fazendo esforço. Devido a isso, o paciente pode ficar sem usar os nitratos quando está dormindo. • Angina instável • Angina variante: normalmente ocorre no início da madrugada e no início da manhã. Devido a isso, este paciente deve ingerir o nitrato antes de se deitar, passando a noite e a manhã sob o seu efeito. O período que ele fica sem o medicamento é ao decorrer da tarde. SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA E FÁRMACOS O angiotensinogênio, sob ação da renina, é convertido em angiotensina 1. A angiotensina 1, sob ação da ECA, é convertida em angiotensina 2. Quando a angiotensina 2 se liga ao receptor AT1, ela causa os seguintes efeitos: • Vasoconstrição direta • Aumento da liberação de adrenalina e noradrenalina: estas catecolaminas se ligam a receptores alfa 1, causando vasoconstrição. Estas catecolaminas também se ligam a receptores beta 1, causando aumento da FC e aumento da liberação de renina. • Hipertrofia e hiperplasia de vasos: causa um remodelamento dos vasos • Liberação de aldosterona: aumenta a reabsorção de água e sódio, aumentando o DC e consequentemente elevando a PA. A aldosterona também participa da deposição de fibras colágenas nos vasos e no coração. Desta forma, a angiotensina 2 causa tanto um aumento da resistência vascular periférica quanto um aumento do débito cardíaco. Há fármacos que atuam apenas no controle da RVP, fármacos que atuam apenas no controle do DC e fármacos que atuam tanto no controle da RVP quanto no controle do DC. 195 Os fármacos que atuam diretamente sobre o SRAA são: • Inibidores de renina: diminuem a conversão do angiotensinogênio em angiotensina 1 • Inibidores da ECA: diminuem a conversão de angiotensina 1 em angiotensina 2 • Bloqueadores de receptor AT1: fazem com que a angiotensina 2 não tenha onde se ligar, inibindo os efeitos por ela provocados. • Espironolactona: inibe o receptor ao qual a aldosterona se liga. É um diurético fraco, poupador de potássio. No esquema acima, é possível se visualizar praticamente todos os alvos ou mecanismos de ação sobre os quais os fármacos que atuam no controle da HAS agem: • Diuréticos: causam diminuição dos efeitos de retenção hídrica • Bloqueadores de canal de cálcio (“-dipino”), bloqueadores de receptor alfa-1 adrenérgico (“-sina”), e Nitratos (possuem a terminação “nitro” em alguma parte do nome do medicamento): causam a diminuição da vasoconstrição. • Beta bloqueadores específicos para receptor beta-1 adrenérgicos (“- lol”): causam diminuição do DC • Inibidores de renina (“-quireno”), inibidores de ECA (“-pril”)e bloqueadores de receptor de angiotensina (AT1) (“-sartan(a)”): atuam diminuindo tanto a RVP quanto o DC. 196 TRATAMENTO DA HAS Medusa - 86 TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO Está relacionado a: • Controle de peso: para cada 5% de perda de peso, ocorre de 20-30% de diminuição da PA o Se uma criança de 2 anos de idade está acima do peso, ela tem 15% de chance de se tornar um adulto hipertenso. Se esta criança está obesa aos 5 anos, ela tem 35% de chance. Se está aos 7 anos, tem 50%. Se está aos 10 anos, tem 80% de chance de se tornar um adulto hipertenso. • Padrão alimentar: as dietas DASH, mediterrânea e vegetariana estão relacionadas com a diminuição da HAS o Restrição do consumo de sódio e a moderação no consumo de álcool: são dois pontos importantes que contribuem com o não desenvolvimento da HAS. o Ômega 3: possui propriedades anti-inflamatórias, antiplaquetárias, antitrombóticas e antioxidantes. Alguns dos alimentos ricos em ômega 3 são nozes, alguns cereais, azeite de oliva e peixes. o Ingestão de fibras (tanto solúveis quanto insolúveis): são importantes na diminuição do colesterol. A ingestão de fibras deve ser acompanhada da ingestão de grandes quantidades de água o Uso de laticínios com baixo teor de gordura o Alho: também ajuda no controle da PA. o Café e chá verde em quantidades moderadas: são benéficos devido à ação antioxidante que apresentam nestas doses (e desde que sejam ingeridos assim que preparados) o Vitamina D o Ingestão de chocolate com alta % de cacau (mínimo 70%) 197 • Atividade física e exercício físico: atividade física é todo tipo de ação que coloca o corpo em movimento; exercício físico é a atividade física realizada de forma mais organizada, com duração, intensidade, frequência e ritmo bem definidos. o Benefícios: ▪ Diminuição da atividade simpática ▪ Diminuição da liberação de renina ▪ Eliminação de sódio pela transpiração ▪ Vasodilatação: o exercício físico libera PGs e NO ▪ Liberação de peptídeo natriurético atrial ▪ Liberação de endorfinas e encefalinas: são liberadas após um tempo de realização do exercício físico. Trazem sensação de bem-estar à pessoa, o que leva à diminuição do estresse. ▪ Promove interação entre as pessoas • Controle do estresse • Abandono ao tabagismo: altera o funcionamento do SNA (tanto do sistema nervoso simpático quanto do parassimpático). Existe a certeza de que o abandono ao tabagismo traz benefícios à saúde, mas atualmente questiona-se se este abandono realmente causaria a redução dos níveis da PA do indivíduo. • Respiração lenta: recomenda-se que o paciente realize exercícios de respiração lenta durante 15-20 min/dia. Durante este período de tempo, o paciente deve realizar de 6 a10 inspirações por minuto. Este hábito é capaz de reduzir a PAS em 6 mmHg. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO Quando inserir o tratamento farmacológico O momento adequado para se iniciar o tratamento farmacológico depende do risco do paciente e do estágio de avanço da HAS. Se o paciente se encontra com a PA confirmada em 140/90 mmHg, não tiver nenhuma comorbidade e for um paciente de risco baixo a moderado, é dado um prazo de 3-6 meses para serem realizadas modificações no estilo de vida. Todavia, se o paciente for de alto risco e apresentar a PA confirmada de 140/90 mmHg, o clínico deve iniciar o tratamento farmacológico. Os tratamentos farmacológicos devem ser inseridos quando se notar que as mudanças de estilo de vida não foram suficientes para reduzir a PA. Medidas que aumentam a adesão ao tratamento 198 O medicamento a ser utilizado deve ser eficaz por VO e bem tolerado. Quanto menor o número de doses diárias, maior a adesão do paciente ao tratamento. Os tratamentos devem ser sempre iniciados com a menor dose possível. Caso o medicamento não esteja fazendo efeito, o clínico pode aumentar a dose, associar um segundo fármaco ou trocar a classe farmacológica. A conduta a ser adotada depende se o paciente apresentará efeitos colaterais ou não frente ao aumento de dose ou à associação. O tratamento deve ser realizado por no mínimo 4 semanas, salvo em situações especiais (como frente à necessidade de alteração do tratamento). A diretriz de hipertensão é contra a manipulação dos medicamentos anti-hipertensivos. Isto ocorre pois a manipulação destes fármacos é feita na forma de cápsulas, forma farmacêutica que libera o princípio ativo de forma mais rápida do que um comprimido (ainda mais se o comprimido utilizado for um de liberação prolongada). Se o anti-hipertensivo for manipulado, deve-se realizar o controle da PA do paciente (visto que a rápida liberação do fármaco pode levar a situações de hipotensão logo após a administração e à menor duração do efeito de controle da PA). Um dos anti-hipertensivos que nunca deve ser manipulado é a Indapamida, visto que é um fármaco de liberação prolongada. CLASSES FARMACOLÓGICAS • Fármacos de escolha: são utilizadas como primeira opção no tratamento da HAS o Diuréticos o iECA (“-pril”) o Bloqueadores de receptor AT1 o Bloqueador de canal de cálcio (“-dipino”) o Betabloqueadores (“-lol”): a última diretriz traz a informação de que os betabloqueadores devem ser prescritos como primeira escolha apenas quando o paciente apresentar outras doenças que também empregam o uso de beta bloqueadores (ex.: HAS+ enxaqueca; HAS+ tremores finos das mãos; HAS+ arritmias; HAS+ sintomas físicos de ansiedade). Se o paciente não apresentar estas comorbidades, utiliza-se os outros fármacos mencionados acima. Todavia, se o paciente já faz uso de betabloqueadores mesmo sem estas comorbidades e está bem, não é necessário se alterar esta medicação. • Outros: alfa-1 bloqueadores, vasodilatadores diretos (hiperpolarizantes) e fármacos de ação de central (são bloqueadores de neurônios adrenérgicos, como a Clonidina (inibe a liberação de catecolaminas), Alfa- metildopa (é um inibidor de síntese, visto que produz um falso neurotransmissor) e Reserpina (interfere no armazenamento intra- vesicular de catecolaminas)) e inibidores de renina. 199 o Em relação aos inibidores de renina, não se sabe se o seu uso causa ausência de benefícios ou malefícios no controle da HAS. Até a última diretriz, estes fármacos eram inseridos no grupo de fármacos de 1ª escolha para o tratamento da HAS. Depois, foi verificado que estes fármacos não apresentam tantos benefícios em relação aos demais fármacos. Também houve o questionamento se este medicamento não poderia provocar algum maleficio, principalmente em relação aos pacientes diabéticos. Devido a isso, nesta última diretriz, os inibidores de renina são classificados como “outros fármacos”. ESQUEMA DE TRATAMENTO DA HAS DE ACORDO COM OS RISCOS Se o paciente estiver no estágio 1 da HAS e apresentar risco baixo ou moderado, tenta-se realizar a modificação do estilo de vida. Se estas modificações não forem capazes de normalizar o quadro, realiza-se a associação de modificação do estilo de vida com apenas um fármaco (monoterapia), podendo este fármaco ser um diurético, um iECA, um bloqueador de canal de cálcio, um BRA ou um betabloqueador (em casos específicos). 200 Se o paciente estiver no estágio 1 da HAS e com risco cardiovascular alto, ou nos estágios 2 e 3, realiza-se uma associação do tratamento não medicamentoso com algumas combinações de fármacos. Em ambos os casos, se as metas não forem atingidas ou se os efeitos colaterais forem intoleráveis, pode-se realizar o aumento da dose, associar um novo medicamento ou trocar o fármaco atual. DIURÉTICOS Há 5 classes de diuréticos. Os diuréticos possuem a função de aumentar a excreção de água e sódio no organismo. Dentre as 5 classes de diuréticos, apenas três delas são importantes no tratamento das doenças cardiovasculares:• Diuréticos de alça: inibem o co-transportador Na+2Cl-K+, presente na porção grossa da alça de Henle ascedente • Diuréticos tiazídicos: atuam no túbulo contorcido distal. Inibem um co- transportador de Na+ e Cl- • Diuréticos poupadores de potássio: são considerados diuréticos fracos. Atuam no ducto coletor. Diuréticos de alça (“-ida”) 201 Os principais diuréticos de alça são: • Furosemida • Bumetanida • Piretanida • Torasemida Os diuréticos de alça não são utilizados a longo prazo no tratamento da HAS, sendo utilizados apenas em crises hipertensivas. Existem os quadros de urgência e emergência hipertensiva: • Urgência hipertensiva: o paciente apresenta PA diastólica superior a 120 mmHg, Na urgência, o paciente não apresenta lesão de órgãos alvo. Para se normalizar a pressão deste paciente, é administrado captopril e espera-se 30 minutos. Se a pressão não diminuir, administra-se captopril novamente e espera-se mais um determinado período. Se a pressão não diminuir mesmo assim, deve ser administrada a Clonidina. • Emergência hipertensiva: neste caso, além da pressão diastólica estar acima de 120 mmHg, há lesões de órgãos alvo. Realiza-se a administração de medicamentos por via parenteral (sendo que uma das medicações administradas são os diuréticos de alça) Os diuréticos de alça não são utilizados a longo prazo pois eles possuem tempo de meia-vida mais curto do que os tiazídicos. Devido a isso, os diuréticos utilizados no tratamento da HAS a longo prazo são os tiazídicos. Como estes fármacos possuem maior tempo de meia-vida, demandam um menor número de doses diárias, facilitando a adesão do paciente ao tratamento. Mecanismo de ação dos diuréticos de alça Os diuréticos de alça bloqueiam o co-transportador Na+2Cl-K+, de modo que o sódio, o cloreto e o potássio permanecem na urina, sendo excretados. Em um quadro fisiológico normal (sem o uso destes fármacos), após o Na+, os 2 Cl- e o K+ entrarem na célula por meio deste cotransportador, o K+ volta a ser liberado na urina. A volta deste K+ para a urina causa a formação de um gradiente eletropositivo na urina, o que faz com que ocorra a reabsorção de Ca+2, Mg+2 e Na+ para o interior das células. Ao se utilizar o diurético de alça, permanecem na urina 1 Na+, 2 Cl- e 1 K+, de modo que não é criado um gradiente eletropositivo. A ausência deste gradiente faz com que não ocorra a reabsorção de Ca+2, Mg+2 e Na+, de modo que estes eletrólitos também são eliminados na urina. Devido a isso, além da perda de água, o uso de diuréticos de alça pode levar a quadros de hipocalemia, hipomagnesemia, hipocalcemia, perda de sódio e de cloreto. 202 Efeitos colaterais dos diuréticos de alça Os efeitos colaterais do uso dos diuréticos de alça são: 203 • Hipocalemia • Hipovolemia • Alcalose metabólica • Perda de Mg+2 e Ca+2 na urina (pode levar ao desenvolvimento de arritmias cardíacas) • Efeitos diabetogênicos (devido à perda de potássio) • Hiperuricemia (visto que estes fármacos competem com o transportador que excreta o ácido úrico) • Hipotensão postural • Cãibras (devido à redução dos níveis de K+). Para se minimizar a perda de potássio e magnésio, pode-se ingerir alimentos ricos nestes minerais, como: • Alimentos ricos em magnésio: leguminosas (feijão, lentilha, grão de bico), beterraba, verduras de coloração escura, etc. • Alimentos ricos em potássio: banana, laranja, abacate, tomate, batata, nectarina, damasco, etc. Também pode-se associar o uso dos diuréticos de alça com diuréticos poupadores de potássio para se minimizar os efeitos colaterais. Diuréticos tiazídicos São diuréticos utilizados para o tratamento a longo prazo da HAS. Os principais diuréticos tiazídicos são: • Hidroclorotiazida: é o fármaco mais associado a outros fármacos no controle da HAS • Indapamida • Clortalidona: é o fármaco mais indicado no tratamento a longo prazo da HAS (mas a hidroclorotiazida ainda é a mais prescrita) 204 Mecanismo de ação Inibem o cotransportador de Na+Cl-, de modo que tanto o Na+ quanto o Cl- ficam na urina, sendo excretados. Efeitos colaterais Ocorre a perda de potássio, que pode levar à ocorrência de hipocalemia. Também podem provocar hiperuricemia, diminuição da excreção de cálcio, aumento dos níveis de colesterol, impotência e possuem potencial diabetogênico. Seus efeitos colaterais são muito semelhantes aos causados pelos diuréticos de alça, com exceção da diminuição da excreção de cálcio (os diuréticos de alça causam aumento da excreção de cálcio, e não a diminuição, como os tiazídicos). Como os diuréticos tiazídicos inibem o transporte de sódio para o interior da célula, é necessário que mais sódio passe a entrar no interior da célula a partir da corrente sanguínea para que assim esta célula seja mantida em condição isotônica. Este processo só é possível por meio de um transportador que troca sódio por cálcio. A partir disso, o cálcio é reabsorvido (caindo na corrente sanguínea), enquanto o sódio entra na célula. Diuréticos poupadores de potássio Raramente estes medicamentos são utilizados de maneira isolada: na HAS, normalmente estão associados a outros diuréticos; na IC, normalmente são administrados em associação com iECA e betabloqueadores (esta associação é chamada de “terapia tripla”, sendo utilizada no quadro de IC com fração de ejeção reduzida). 205 Os principais diuréticos poupadores de potássio são: • Amilorida: bloqueador de canais de sódio • Triantereno: bloqueador de canais de sódio • Espironolactona: é um bloqueador de receptor de aldosterona Mecanismo de ação da Espironolactona A aldosterona é responsável pela síntese de uma proteína que reabsorve sódio e excreta potássio. Ao se utilizar a Espironolactona, a aldosterona não se liga ao seu receptor, de modo que esta proteína não é sintetizada. Com isso, o sódio não consegue ser absorvido (sendo excretado na urina) e o potássio não consegue ser excretado na urina (sendo poupado). Este efeito de poupar o potássio devido a uma menor ação da Aldosterona também é provocada pelo ao uso de fármacos que inibem o funcionamento do SRAA (fazendo com que a Aldosterona não seja liberada), como os inibidores de renina, iECA e BRAs. A Espironolactona também possui ação sobre algumas vias hormonais (e devido a isso ela pode provocar atrofia testicular, impotência, distúrbios menstruais e ginecomastia). Espironolactona e IC É um dos fármacos utilizados na IC e que ajudam a reduzir a progressão da doença. Isto ocorre pois pacientes com IC podem ter os níveis de aldosterona aumentados em até 20x, e a aldosterona atua também na deposição de fibras colágenas sobre os vasos e sobre o coração. BLOQUEADORES DE RECEPTORES ADRENÉRGICOS – BLOQUEADORES DE RECEPTOR ALFA-1 206 Não são fármacos de primeira escolha no tratamento da hipertensão, visto que há outros fármacos que também atuam sobre a RVP e produzem menos efeitos colaterais. Estes efeitos colaterais ocorrem pois há outros tecidos além dos vasos que apresentam receptores alfa-1 adrenérgicos. Devido a isto, estes fármacos são fármacos de 4ª-5ª escolha na linha de tratamento da HAS. BLOQUEADORES DE RECEPTORES ADRENÉRGICOS – BETABLOQUEADORES Os betabloqueadores estão entre os fármacos de primeira escolha para o tratamento da HAS, desde que o paciente apresente alguma outra situação ou comorbidade que justifique o uso de betabloqueadores (como IC, arritmias, angina, tremores finos das mãos, quadros de enxaqueca crônica, sintomas físicos de ansiedade, etc). Se não houver nenhuma contraindicação, todo indivíduo hipertenso que já teve um infarto agudo do miocárdio tem indicação de uso de betabloqueadores como droga de escolha. A escolha de qual betabloqueador empregar depende da comorbidade associada. Ex.:se a comorbidade é enxaqueca crônica, o fármaco terá que ser lipossolúvel para atuar no SNC, como o propranolol; se o paciente tem tremores finos das mãos (que estão relacionados com receptores beta 2), deve-se usar um fármaco não cardiosseletivo, etc. Se a comorbidade for relacionada ao coração (ex.: arritmias e IC), recomenda-se o uso de um betabloqueador cardiosseletivo. Contraindicações do uso dos betabloqueadores • Pessoas da etnia negra • Pessoas com asma • Gestantes: controverso. o Atuam sobre o receptor beta-2 da musculatura uterina o Podem levar ao acometimento cardíaco e ósseo fetal o Podem alterar a vascularização da placenta o Fármaco de escolha para o tratamento de HAS em gestantes: alfa- metildopa 207 • Pacientes insulino-dependentes: caso o paciente entre em uma crise hipoglicêmica com queda da PA, o reestabelecimento da pressão depende da ativação do SNA simpático (e o receptor beta-adrenérgico estaria bloqueado). Alguns pacientes sentem cansaço nas pernas com o uso de beta- bloqueadores não cardiosseletivos. Este efeito é decorrente da diminuição da vasodilatação das artérias que irrigam a musculatura das pernas. BLOQUEADORES ADRENÉRGICOS DE AÇÃO CENTRAL – INIBIÇÃO DA SÍNTESE DAS CATECOLAMINAS A alfa-metildopa é um fármaco que é considerado como um bloqueador de neurônios adrenérgicos, visto que interfere na síntese de catecolaminas (adrenalina, noradrenalina e dopamina). É o fármaco de escolha para gestantes com HAS. Mecanismos de ação A alfa-metildopa gera um falso neurotransmissor (alfa- metilnoradrenalina), o qual possui alta afinidade por receptor alfa-2 adrenérgico. Como este receptor é um receptor inibitório, quando ele é estimulado, ocorre a inibição da liberação de mais catecolaminas, o que diminui a ativação do sistema nervoso simpático. Efeitos colaterais 208 Hipotensão ortostática, congestão nasal, boca seca, impotência, depressão (visto que atua via SNC), galactorreia (devido à diminuição dos níveis de dopamina), diarreia, sonolência e ganho de peso. A interrupção abrupta do uso deste medicamento leva aos efeitos colaterais de agitação e sudorese (que ocorrem devido à redução dos níveis de dopamina). BLOQUEADORES ADRENÉRGICOS DE AÇÃO CENTRAL – AGONISTAS DE RECEPTOR ALFA-2 Estes fármacos possuem efeito muito semelhante aos causados pela alfa- metildopa, mas não interferem no funcionamento da dopamina. Estes fármacos atuam se ligando diretamente aos receptores alfa-2, estimulando o feedback negativo da síntese de catecolaminas, o que leva a uma redução da síntese de adrenalina e noradrenalina. Alguns agonistas de alfa-2 são: • Clonidina: pode ser utilizado como fármaco de segunda escolha frente a uma urgência hipertensiva (tenta-se utilizar o captopril, e se a PA não reduzir mesmo assim, utiliza-se a clonidina). Também é utilizado no diagnóstico do feocromocitoma. • Moxonidina • Rilmendina CLASSES QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA – INIBIDORES DE RENINA O único fármaco que faz parte desta classe é o Alisquireno. Até a última diretriz, era um dos fármacos de primeira escolha, mas a última diretriz mostrou que ele não traz tantos benefícios em relação a outros fármacos (e também que ele poderia causar alguns malefícios em pacientes diabéticos). Devido a isso, deixou de fazer parte dos fármacos de primeira linha de tratamento da HAS. Pode provocar tosse seca, diarreia e hipercalemia. CLASSES QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA – INIBIDORES DA ECA (iECA) A ECA atua no SRAA convertendo angiotensina 1 em angiotensina 2, angiotensina 1-9 em angiotensina 1-7, e a angiotensina 1-7 na angiotensina 1-5. Desta forma, ao se utilizar um iECA, todas estas vias ficam inibidas. 209 Todavia, após cerca de 1 mês de uso dos iECA, parte dos níveis de angiotensina 2 retornam à normalidade. Isto ocorre pois a angiotensina 2 passa a ser sintetizada por outras duas vias: • Via das cinases: angiotensina 1 sob efeito de cinases leva à formação de angiotensina 2 • Transformação do angiotensinogênio em angiotensina 2 através da via da tonina e da catepsina G. Esta angiotensina 2 formada por outras vias e a angiotensina 1 que não está sendo mais metabolizada pela ECA se transformam em angiotensina 1-7, a qual passa a ficar acumulada, atuando sobre o receptor MAS. Além disso, parte da angiotensina 1 que deixou de ser convertida pela ECA é transformada em angiotensina 1-9, atuando sobre receptor AT2. Mesmo com o aumento das quantidades de angiotensina 2, a PA continua controlada. Isto ocorre pois tanto o receptor AT2 quando o receptor MAS provocam efeitos que ajudam no controle da progressão da IC e da HAS: provocam vasodilatação, natriurese, efeito anti-fibrótico, efeito anti-apoptótico (na IC há morte de cardiomiócitos por apoptose) e efeito anti-inflamatório. Além disso, os inibidores da ECA também atuam na via das calicreínas. Estes fármacos causam um bloqueio paralelo de uma enzima chamada de cininase, a qual é responsável por degradar a bradicinina. Desta forma, como a degradação da bradicinina é interrompida, passa a ocorrer o acúmulo desta 210 substância no organismo. A bradicinina possui propriedades vasodilatadoras e aumenta a síntese de PGs (que também são substâncias vasodilatadoras). O principal efeito colateral do uso dos iECA é a tosse seca persistente. Isso ocorre pois a bradicinina estimula a produção de muco nasofaríngeo. Todo paciente com IC ou comprometimento da função do VE possui a indicação de fazer uso de um iECA. Os iECA são indicados também para indivíduos com quadro de proteinúria. Os principais iECA (“-pril”) são: • Enalapril • Captorpil • Ramipril • Cilazapril • Perindopril • Quenapril A maioria dos iECA são pró-fármacos (ex.: não é o Enalapril que vai inibir a ECA, mas sim o seu metabólito, o Enalaprilat; não é o Ramipril que inibe a ECA, mas simé o Ramiprilat, etc). Os únicos dois fármacos que são administrados na forma de droga ativa são o Captopril e o Lisinopril. O Captopril deve ser administrado longe das refeições, visto que ele interage com alimentos. Efeitos colaterais dos iECA 211 Podem provocar hipercalemia, não devem ser administrados durante a gestação (podem provocar a má-formação fetal) e podem causar ageusia (alteração ou perda de paladar – principalmente no início do tratamento), hipotensão e tosse seca persistente. Contraindicação: quando o paciente apresenta estenose bilateral renal. CLASSES QUE ATUAM SOBRE O SISTEMA RENINA-ANGIOTENSINA – BLOQUEADORES DE RECEPTOR AT1 (BRA) São utilizados como substitutos dos iECA (preferencialmente se prescreve os iECA, mas se o paciente apresentar muitos efeitos colaterais, troca- se a medicação por um BRA). Apesar desta recomendação, atualmente muitos clínicos já têm preferencialmente prescrito os BRA. Os efeitos colaterais e usos clínicos dos BRA são muito semelhantes aos dos iECA, com exceção de que os BRA não provocam tosse persistente (visto que não atuam na via das calicreínas) e não provocam alteração de paladar. Os principais BRA são: • Losartana: é uricosúrica. Muitas vezes, tanto os BRA quanto os iECA são associados a diuréticos tiazídicos para o tratamento da HAS ou aos diuréticos de alça para o controle de edema ou IC (neste último caso, os diuréticos apenas são prescritos se o paciente apresentar quadros de edema ou retenção hídrica). o Enquanto o diurético provoca hipocalemia, o BRA e o iECA provocam hipercalemia (equilibrando o quadro) o Enquanto os diuréticos retêm ácido úrico, a Losartana promove a liberação do ácido úrico (equilibrando o quadro) • Valsartana • Olmesartana Os BRA, assim como os iECA, são fármacos de primeira escolha no tratamento de pacientes diabéticos. Todos estes fármacos que atuam sobre o SRAA inibem asecreção de aldosterona, levando a quadros de hiperpotassemia. Nenhuma das 3 classes que atuam sobre o SRAA deve ser administradas para gestantes. BLOQUEADORES DO CANAL DE CÁLCIO Estes fármacos são indicados principalmente para pacientes da etnia negra. Os bloqueadores de canal de cálcio são as diidropiridinas (terminam em “-dipino/dipina”), o Verapamil e o Ditiazen. As diidropiridinas são bloquedoras 212 de canais de cálcio específicos dos vasos. O Verapamil e o Ditiazen são fármacos que bloqueiam em maior intensidade os canais de cálcio do coração (sendo que o Verapamil é bastante cardiosseletivo, mas o Ditiazen nem tanto – este último bloqueia tanto canais de cálcio do coração (preferencialemnte) quanto canais de cálcio dos vasos). Os bloqueadores de canal de cálcio utilizados no tratamento da HAS são: • Nifedipina • Amlodipino • Lacidipina • Lercadipina • Manidipina • Verapamil • Ditiazen Muitos destes fármacos são fármacos de liberação lenta, visto que também são utilizados em outras doenças cardiovasculares (ex.: Verapamil e Ditiazen são utilizados nos quadros de arritmia cardíaca). Bloqueadores de canal de cálcio e angina Os bloqueadores de canais de cálcio são utilizados no tratamento da angina, principalmente no tratamento da angina variante. A angina é uma situação caracterizada por dor no peito, a qual é decorrente da falta de aporte de oxigênio para o tecido cardíaco. A falta de O2 ocorre por dois motivos: ou porque o fluxo sanguíneo está comprometido ou porque a demanda de O2 está muito alta. Há três tipos de angina (que podem ou não estar relacionadas à ocorrência de aterosclerose): • Angina clássica/de esforço: normalmente relacionada à aterosclerose. • Angina instável: paciente precisa ser socorrido rapidamente, visto que ela pode levar a um IAM. Pode estar relacionada ao rompimento da placa aterosclerótica • Angina variante: ocorre o desequilíbrio entre substâncias vasoconstritoras e vasodilatadoras. É onde os bloqueadores de canal de cálcio atuam, visto que são capazes de promover efeitos vasodilatadores. Os fármacos que podem ser utilizados no controle da angina são: • Nitratos: apresentam efeito vasodilatador. Podem ser utilizados a longo prazo. Podem ser utilizados nos três tipos de angina, sendo utilizados durante o dia na clássica/de esforço e à noite na variante. • Bloqueadores de canal de cálcio: podem ser utilizados tanto as diidropiridinas quanto o Verapamil e o Ditiazen 213 • Betabloqueadores: são utilizados no casos em que a FC está muito aumentada (de modo que o coração passa a ter uma maior demanda de O2, causando a angina) Efeitos colaterais do uso dos bloqueadores de canal de cálcio Dor de cabeça (latejante), palpitação (devido ao aumento da FC; hoje em dia este efeito colateral é muito minimizado em decorrência do uso de fármacos de liberação prolongada – e devido a isso os BCC não devem ser manipulados), sudorese, tremores, enrubescimento, constipação (Verapamil) e efeitos inotrópicos negativos em pacientes com IC (ocorrem principalmente pelo uso dos BCC que agem sobre o coração) VASODILATADORES Vasodilatadores de ação direta/hiperpolarizantes São fármacos utilizados frente a crises hipertensivas. São fármacos hiperpolarizantes: causam a abertura de canais de potássio nas células musculares dos vasos, levando à hiperpolarização destas células, o que dificulta a abertura de canais de cálcio, de modo que o vaso não consegue se contrair e é mantido relaxado. Os principais vasodilatadores hiperpolarizantes são: • Hidralazina • Diazóxido • Minoxidil Nitratos Também são fármacos utilizados frente a crises hipertensivas. Também são utilizados para o tratamento da angina. Os principais nitratos são: • Nitroglicerina • Propatilnitrato • Nitoprussiato de sódio A associação de nitratos com inibidores de 5-fosfodiesterase (fármacos utilizados para o tratamento da impotência, como Viagra, Levitra e Cialis) causa uma queda brusca da PA, visto que ambos os fármacos atuam na via da guanilato ciclase (mas de maneiras diferentes). Os nitratos ativam a guanilato ciclase, aumentando GMPc, que causa vasodilatação. Os inibidores da fosfodiesterase inibem a 5-fosfodiesterase, enzima responsável por degradar o GMPc. Com essa inibição da degradação, ocorre um acúmulo de GMPc no 214 interior da célula, o que leva a um efeito vasodilatador. O paciente que realiza a associação de nitratos e inibidores da 5-fosfodiesterase pode vir a óbito: a queda brusca da PA provocada pelo uso destes fármacos causa a ativação do SN simpático e do SRAA, que promovem um aumento da FC. Este aumento da FC é capaz de acentuar ainda mais o quadro de angina do paciente, sendo muito perigoso. Devido a este efeito colateral, deve sempre existir um intervalo (de 24h, ou 36h no caso do Cialis) entre a administração destes medicamentos. Quando o paciente chega ao serviço de emergência com quadro de angina instável, o protocolo mais adotado é a utilização de nitratos. Todavia, se o paciente fez uso de inibidor de 5-fosfodiesterase, o nitrato não poderá ser administrado. A alternativa nesta situação é o uso de um beta-bloqueador. ASSOCIAÇÕES MEDICAMENTOSAS QUE PODEM SER FEITAS PARA O CONTROLE DA HAS • Diurético tiazídico: é um fármaco que apresenta muitas possibilidades de associação 215 NÃO devem ser administrados de maneira conjunta: • iECA com BRA: acreditava-se que esta associação era benéfica devido à síntese de angiotensina 2 por outras vias, mas posteriormente foi constatado que esta associação causa uma sobreposição de efeitos colaterais (visto que estes fármacos apresentam efeitos colaterais semelhantes, com exceção da tosse seca e da alteração de paladar) ANTI-HIPERTENSIVOS DISTRIBUÍDOS GRATUITAMENTE NA REDE PÚBLICA • Captopril 25 mg • Maleato de enalapril 10 mg • Cloridrato de propranolol 40 mg (é um beta-bloqueador não cardiosseletivo) • Atenolol 25 mg (é um beta-bloqueador cardiosseletivo) • Hidroclorotiazida 25 mg (é o mais associado a outros fármacos) • Losartana potássica 50 mg Como não há bloqueadores de canais de cálcio distribuídos gratuitamente, o tratamento de pessoas negras é realizado a partir da associação de Hidroclortiazida com Captopril ou com Losartana. 216 INDICAÇÕES TERAPEUTICAS EM FUNÇÃO DE OUTRAS COMORBIDADES QUE O PACIENTE POSSA APRESENTAR • Se o paciente é hipertenso e apresenta IC: iECA • Se o paciente possui IC com fração de ejeção reduzida: iECA + betabloqueador + espironolactona • Se o paciente apresenta IC e não apresenta contraindicações: iECA (a não ser que o paciente precise tomar um INRA) • Se o paciente é hipertenso e teve um IAM: betabloqueadores • Paciente o paciente é diabético e apresenta HAS: iECA ou BRA • Pacientes o paciente é da etnia negra: BCC (bloqueador de canal de cálcio) ou tiazídico + iECA/BRA 217 INSUFICIÊNCIA CARDÍACA Medusa - 86 É uma disfunção clínica progressiva que leva à diminuição da fração de ejeção do coração ou a alterações no enchimento ventricular, o que acaba comprometendo a capacidade de bombeamento do sangue do coração. Causa como consequência uma dificuldade de suprimento de O2 para as necessidades do organismo. É uma doença progressiva: com o passar do tempo, vai ocorrendo um processo de remodelamento do coração. Este remodelamento ocorre devido à morte dos cardiomiócitos e à proliferação de tecido conjuntivo. Os cardiomiócitos que ainda não morreram vão ficando cada vez mais estressados. A IC é uma condição que leva a uma diminuição qualidade de vida do paciente. Devido a isso, é extremamente importante o uso de medicamentos que lentifiquem a progressão desta doença. Alguns dos fármacos utilizados na IC são utilizados para diminuir sintomas, e outros sãoutilizados para diminuir sintomas e para diminuir a velocidade de progressão da doença FISIOPATOLOGIA Na IC, como a fração de ejeção está diminuída, ocorre um prejuízo na irrigação dos tecidos. Com o DC reduzido, os barorreceptores detectam que a PA está reduzida, causando um aumento da ativação do SN simpático. A liberação de adrenalina e noradrenalina leva à vasoconstrição e ao aumento da força de contração cardíaca, ações que tentam aumentar o DC que estava diminuído (tentando reverter este quadro). 218 Na IC ocorre também uma menor perfusão renal, de modo que acaba ocorrendo a ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, causando vasoconstrição e liberação de aldosterona, que retém água e sódio (para conseguir assim elevar a pré-carga). A liberação de aldosterona causa também a produção de edema no paciente. Além de a angiotensina 2 por si só já ser capaz de causar vasoconstrição, ela também promove a liberação de adrenalina e noradrenalina, que causam vasoconstrição e aumento da força de contração cardíaca. Desta forma, conclui-se que na IC há uma maior ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona e do sistema nervoso simpático. Desta forma, alguns dos fármacos utilizados na IC são os que atuam inibindo o sistema renina-angiotensina e fármacos que atuam sobre os receptores adrenérgicos (betabloqueadores – os quais diminuem o estresse dos cardiomiócitos). SINAIS E SINTOMAS DA IC • Falta de ar • Edema de MMII • Cansaço crônico • Dificuldade para dormir devido a problemas respiratórios • Dor abdominal e diminuição de apetite • Confusão e diminuição da memória • Tosse/hemoptise • Aumento da vontade de urinar a noite CLASSIFICAÇÃO FUNCIONAL DA IC Não é mais utilizada atualmente. Esta classificação era utilizada para se classificar em que grau da IC o paciente estava. A classificação utilizada atualmente leva em consideração a morfologia cardíaca. 219 A classificação funcional é muito subjetiva, visto que leva em consideração apenas os sintomas do paciente para se realizar a classificação da IC (não considerando a capacidade de contração cardíaca e as condições morfofuncionais do coração para se realizar esta classificação). • Classe I: assintomático em atividades habituais • Classe II: assintomático em repouso, mas apresenta sintomas leves (falta de ar) diante de grandes esforços • Classe III: apresenta sintomas nas atividades menores que as habituais (tomar banho, escovar os dentes, trocar de roupa, etc). • Classe IV: apresenta sintomas mesmo em repouso. São pacientes graves. Esta classificação também é utilizada na angina, mas os sintomas apresentados são diferentes: enquanto na angina o principal sintoma é a dor torácica, na IC é o cansaço e falta de ar. CLASSIFICAÇÃO DA IC EM RELAÇÃO À FRAÇÃO DE EJEÇÃO A última diretriz alterou a forma de se realizar a classificação da IC em relação à fração de ejeção: na edição anterior, o paciente era classificado em dois grupos: ou apresentava fração de ejeção <40% ou apresentava FE > 40%. Atualmente, a classificação ocorre da seguinte maneira: • Paciente com fração de ejeção preservada: apresenta fração de ejeção > 50% • Paciente com fração de ejeção intermediária: apresenta fração de ejeção entre 40% e 50% • Paciente com fração de ejeção reduzida: apresenta fração de ejeção < 40%. Todos os pacientes (dos 3 grupos) possuem alterações estruturais cardíacas e/ou disfunção diastólica ou sistólica (todos os pacientes com IC apresentam estas condições). PEPTÍDEO NATRIURÉTICO DO TIPO B/CEREBRAL O peptídeo natriurético do tipo B é uma substância vasodilatadora, a qual promove a diurese e natriurese do paciente. É um marcador que auxilia tanto no diagnóstico quanto no prognóstico da IC. Esta substância é produzida por células do coração. Quanto maior o nível deste peptídeo, pior o prognóstico do paciente. Muitas vezes, os sintomas de um quadro de ansiedade podem ser confundidos com sintomas de um quadro de angina ou IC (visto que em todos os casos há intensa falta de ar e dor no peito como principais sintomas). A realização da dosagem do peptídeo natriurético cerebral, a realização de um 220 eletrocardiograma ou de uma radiografia podem ajudar a diferenciar estas condições. Há casos em que o próprio peptídeo natriurético cerebral (obtido por tecnologia de DNA recombinante) é administrado para o paciente – isto ocorre em situações de IC aguda e descompensada. Uma classe de medicamentos (chamados de INRA – inibidor da neprilisina e do receptor da angiotensina) interfere nos níveis do peptídeo natriurético cerebral. Devido a isso, este peptídeo deixa de funcionar como um marcador frente ao uso dos INRAs e frente à sua administração para pacientes em situações de IC aguda e descompensada ESTÁGIOS DA IC EM ADULTOS • A: paciente com risco para o desenvolvimento da IC. Este paciente ainda não apresenta alteração estrutural do coração, mas se ele não controlar a doença de base que possui (HAS, diabetes, coronariopatas, dislipidemias, tabagismo, obesidade, etilismo, etc), acabará desenvolvendo a IC. • B: Paciente com cardiopatia estrutural, mas sem sintomas. As alterações estruturais que podem ocorrer são a hipertrofia do VE, dilatação do VE, fração de ejeção menor do que 40%, dano resultante de quadro isquêmico ou IAM, etc. • C: Paciente com cardiopatia estrutural e com sintomas: apresenta dispneia e cansaço. Se for realizado o tratamento farmacológico, estes pacientes se tornam assintomáticos. Mesmo em tratamento, o paciente pode evoluir para o próximo estágio (IC refratária) • D: quadro de IC refratária. A qualidade de vida deste paciente é muito baixa, visto que ele apresenta hospitalizações frequentes e muitas vezes precisa fazer o tratamento com substâncias inotrópicas dentro do ambiente hospitalar. Dependendo da gravidade do quadro, o paciente apenas apresentará melhoras dos sintomas após um transplante cardíaco 221 Se os sintomas do paciente não forem controlados mesmo com o tratamento farmacológico indicado, inicia-se a administração de digoxina, A digoxina é o único fármaco glicosídeo cardiotônico administrado por VO. A digoxina é um fármaco que não controla a progressão da doença e que apresenta pequena janela terapêutica, de modo que alterações eletrolíticas podem desencadear um quadro de intoxicação digitálica. Dependendo de quais outros medicamentos este paciente está utilizando e se algum eletrólito está em desequilíbrio, o paciente pode apresentar quadros de arritmia cardíaca ou bloqueio atrioventricular. MECANISMOS RESPONSÁVEIS PELA IC Os mecanismos responsáveis pelo desenvolvimento da IC são: • Ativação neuro-hormonal: consiste na ativação do sistema renina- angiotensina e do sistema nervoso simpático. Acontece nos pacientes com disfunção do VE, mas que são assintomáticos; nos pacientes com IC incluída nas classes funcionais de I a IV, e também nos pacientes que apresentam hipoperfusão sistêmica o Utiliza-se iECA ou BRA para controlar esta situação • Retenção de sódio: ocorre devido à liberação de aldosterona. Ocorre nos pacientes com IC incluída nas classes funcionais de I a IV e também nos pacientes que apresentam hipoperfusão sistêmica o Utiliza-se diuréticos para controlar esta situação. ▪ Os diuréticos só são utilizados em pacientes com IC se este paciente apresentar sinais de edema. Se ele não apresentar, não se deve administrar diuréticos. ▪ O uso de diuréticos pode desencadear alterações nas concentrações de eletrólitos. Deve-se estar atento em relação à associação de diuréticos com digoxina, visto que 222 este desequilíbrio de eletrólitos pode causar intoxicações digitálicas. • Vasoconstrição: é um mecanismo compensatório para se realizar o aumento da pré-carga e da pós-carga. Acontece nos pacientescom IC incluída nas classes funcionais de II a IV e também nos pacientes que apresentam hipoperfusão sistêmica o Quando se controla a ativação neuro-hormonal, em parte já se controla a vasoconstrição também. Se o paciente não pode utilizar iECA ou BRA, é administrada uma associação de hidralazina (vasodilatador hiperpolarizante) com nitrato. • Falha de bomba: ocorre nos pacientes com IC incluída na classe funcional IV e também nos pacientes que apresentam hipoperfusão sistêmica o Há a necessidade de uso de fármacos inotrópicos Muitas vezes, os pacientes que se encontram nos quadros de hipoperfusão sistêmica têm necessidade de permanecer hospitalizados aguardando por um transplante. TRATAMENTO DA IC TRATAMENTO NÃO FARMACOLÓGICO É baseado na prática de exercícios físicos, no controle do estresse, na alimentação com menor teor de sódio, na maior ingestão de água, etc. Além disso, deve-se evitar o uso de alguns medicamentos que podem interferir no sistema nervoso simpático. Manter a vacinação em dia também é importante, visto que algumas vacinas evitam o desenvolvimento de doenças pulmonares (se o indivíduo não for vacinado e passar a apresentar alguma destas doenças pulmonares, o seu quadro de IC pode afetar ainda mais a saúde dos pulmões, visto que muitas vezes o quadro de IC pode estar relacionado com congestão pulmonar). Se as atividades de trabalho do paciente demandarem esforços, ele terá que ser afastado dependendo do estágio da IC. TRATAMENTO FARMACOLOGICO DA IC Os principais fármacos utilizados no tratamento da IC são: • iECA • BRA • Betabloqueadores • Diuréticos • Antagonista da aldosterona (Espironolactona) 223 • Digitálicos (Digoxina) • Vasodilatadores (nitratos e hiperpolarizantes, como a hidralazina) • Ivabradina (é utilizado em substituição ao uso dos betabloqueadores) • Inotrópicos: são fármacos que aumentam a força de contração do coração, como iPDE-3, agonistas adrenérgicos e sensibilizadores de cálcio (estes últimos melhoram a ligação do cálcio com a troponina C, aumentando a força de contração cardíaca). Os fármacos que lentificam a progressão da doença são: iECA, BRA, betabloqueadores, antagonistas dos receptores de aldosterona e Ivabradina. Os demais são utilizados para a diminuição dos sintomas: não lentificam a progressão da doença. Os principais objetivos do tratamento da IC são • Controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida do paciente • Controlar a retenção hídrica do paciente • Controlar a ativação neuro-hormonal (relacionada ativação do SRAA e do SNAS): diminui o estresse sobre a parede ventricular, diminui o remodelamento cardíaco, diminui a progressão da doença e diminui também as taxas de morbidade e mortalidade. ESTRATÉGIAS TERAPÊUTICAS NA IC • Paciente com disfunção do VE e assintomático: utiliza-se iECA ou BRA e betabloqueadores (interessante nesta fase pois ajuda a evitar a progressão da doença) 224 • Paciente em classe funcional 1: utiliza-se iECA ou BRA e betabloqueadores (interessante nesta fase pois ajuda a evitar a progressão da doença) • Paciente em classe funcional 2: utiliza-se iECA ou BRA, betabloqueadores (interessante nesta fase pois ajuda a evitar a progressão da doença), diuréticos (apenas se o paciente apresentar edema; tiazídicos) e antagonistas de aldosterona • Paciente em classe funcional 3: utiliza-se iECA ou BRA, betabloqueadores (interessante nesta fase pois apresenta efeito inotrópico negativo e ajuda no remodelamento reverso), diuréticos (apenas se o paciente apresentar edema; diuréticos de alça), antagonistas de aldosterona e digitálicos (se o paciente permanece sintomático frente ao uso dos outros fármacos) • Paciente em classe funcional 4: utiliza-se iECA ou BRA, betabloqueadores (interessante nesta fase pois apresenta efeito inotrópico negativo e ajuda no remodelamento reverso), diuréticos (apenas se o paciente apresentar edemas; diurético de alça) antagonistas de aldosterona e digitálicos (se o paciente permanece sintomático frente aos outros fármacos) Pode ser realizado o uso de Hidralazina + Nitrato nas Classes II e III em substituição aos iECA. Pode-se utilizar a Ivabradina em substituição aos betabloqueadores. Para pacientes negros, realiza-se a associação: Hidralazina + Nitrato + iECA/BRA. TRATAMENTO DA ICFEr (INSUFICIENCIA CARDIACA DE FRAÇÃO DE EJEÇÃO REDUZIDA) A associação de betabloqueadores + iECA + bloqueador de receptor de aldosterona é a primeira escolha para pacientes com ICFEr. É chamada de “terapia tripla”. Os fármacos mais utilizados no tratamento da ICFr são: • iECA • BRA: normalmente são utilizados nos pacientes intolerantes aos iECA • Diuréticos poupadores de potássio (Bloqueadores de receptor de Aldosterona - Espironolactona e Eplerenona): • Betabloqueadores (Carvedilol, Metoprolol ou Bisoprolol): o O Carvedilol é um beta-bloqueador de terceira geração: além de causar o bloqueio de receptor beta-1, também tem propriedades vasodilatadoras (pois bloqueia o receptor alfa-1). O Carvedilol é um fármaco lipofílico, de modo que atua também no SNC. Apresenta também propriedades antioxidantes. Também realiza o bloqueio de receptores beta-2 adrenérgicos. 225 INRAs (inibidor da neprilisina e receptor de angiotensina) O INRA é um fármaco que atua no SRA bloqueando o receptor AT1 e também inibe a neprilisina/vasopeptidase/endopeptidase – enzimas que degradam o peptídeo natriurético do tipo B. Os INRAs consistem em uma mistura do Sacubitril com a Valsartana. O Sacubitril é um inibidor de neprilisina, a enzima que degrada o peptídeo natriurético de tipo B. É interessante que este peptídeo não seja degradado, 226 visto que assim ele fica mais tempo no organismo, promovendo natriurese, diurese e vasodilatação. Recomenda-se o uso dos INRAs em pacientes com ICFEr que continuam com sintomas mesmo com o uso de iECA ou BRA. Nestas situações em que o paciente está sintomático mesmo com o uso dos iECA, administra-se o INRA ou adiciona-se a digoxina à terapia. Ao se adicionar a digoxina, é necessário se suspender o uso dos iECA por 36h antes de ser introduzida a nova medicação. Este medicamento foi inserido há pouco tempo no mercado, de modo que ainda está em farmacovigilância. Há indícios de que o seu uso possa promover a deposição de placas amiloides no SNC, predispondo o desenvolvimento da Doença de Alzheimer. É melhor do que o iECA para a diminuição da mortalidade e das internações. IVABRADINA É um fármaco que interfere na corrente de marcapasso. Deve ser administrado em substituição ao uso de betabloqueadores. Não é tão comumente utilizado. HIDRALAZINA + DINITRATO DE ISOSSORBIDA Esta associação é indicada para pacientes que não podem utilizar iECA ou BRA. Pode ser prescrita para pacientes afrodescendentes e para pacientes nas classes funcionais III e IV. A Hidralazina é um vasodilatador hiperpolarizante e que também atua produzindo o ânion superóxido (uma ROS). Ao se associar o Dinitrato de isossorbida à hidralazina, há uma potenciação do efeito vasodilatador e uma potencialização do efeito oxidante das ROS produzidas pela Hidralazina: este último efeito ocorre pois o NO (proveniente do uso do nitrato) se liga ao ânion superóxido, formando uma substância chamada de peroxinitrito, a qual é extremamente tóxica para as nossas células e leva à peroxidação lipídica (evento importante que influencia na formação de placas ateroscleróticas). Além disso, a formação do peroxinitrito deixa o organismo com baixa disponibilidade de NO, de modo que não há quantidades suficientes de NO para que os efeitos vasodilatadores e anti-agregantes plaquetários ocorram adequadamente. Este efeito da produção de peroxinitrito ressalta a importância da ingestão alimentos anti-oxidantes. Dois nitratos importantesno controle da Angina são o Dinitrato de isossorbida e o Mononitrato de isossorbida. O Mononitrato de isossorbida possui tempo de meia-vida relativamente curto (45 minutos) e o Dinitrato de isossorbida 227 possui tempo de meia-vida mais longo (de 4-6 horas). Além disso, ao ser metabolizado no organismo, o Dinitrato gera o Mononitrato. DIGITÁLICOS O principal representante dos digitálicos é a digoxina. A digoxina foi descoberta a partir da planta dedaleira. A digoxina é um fármaco que inibe bomba de Na+/K+ cardíaca. Por meio desta bomba, 2 K+ entram no carbiomiócito e 3 Na+ saem dele. Como a bomba fica inibida, o sódio não consegue sair da célula, ficando acumulado em seu interior. Em paralelo à Na+K+ ATPase, há outro transportador presente no cardiomiócito, o qual realiza o transporte de um Na+ para dentro da célula e de um Ca+2 para fora da célula. Como com a inibição da NA+K+ ATPase houve um aumento da quantidade de sódio intracelular, este segundo transportador também para de funcionar, de modo que o cálcio passa a se acumular no interior dos cardiomiócitos. Cada novo potencial de ação permite a entrada mais cálcio no interior da célula, o que contribui com o acúmulo de cálcio intracelular. Com este acúmulo do cálcio, ocorre um aumento da força contração cardíaca. A Digoxina é um fármaco prescrito para pacientes que continuam sintomáticos mesmo com o tratamento com iECA, BRA e betabloqueadores. É normalmente utilizada por pacientes que se encontram nas Classes funcionais 3 e 4. Além de apresentar este efeito de aumentar a força de contratilidade do coração, a digoxina é um fármaco com potencial antiarrítmico, podendo ser utilizada em situações de taquicardia (160-200 bpm), flutter (250-350 bpm) ou fibrilação atrial (400-460 bpm). Todavia, ela também pode desencadear arritmias se for administrada frente a situações de diminuição de potássio e magnésio e aumento de cálcio. 228 Farmacocinética da digoxina A digoxina é um fármaco que possui pequena janela terapêutica, visto que a sua concentração plasmática terapêutica vai de 0,5 a 2 ng/ml, e a sua dose tóxica começa a partir de 2 ng/ml. A digoxina pode ser encontrada nas formas farmacêuticas de elixir, cápsula com interior liquido ou comprimidos. Dependendo da forma farmacêutica utilizada, este fármaco é liberado de forma mais rápida ou mais lenta. O elixir e a cápsula são formas que liberam o princípio ativo mais rapidamente, podendo causar quadro de intoxicação digitálica. A dose de digoxina a ser administrada é calculada em função da massa magra do paciente, e também deve-se considerar o funcionamento renal do indivíduo antes de se realizar a prescrição (visto que cerca de 66% da digoxina é excretada de forma inalterada pelos rins). Possui boa biodisponibilidade. Alguns pacientes possuem em sua microbiota intestinal uma bactéria chamada de Eubacterium lentum, a qual degrada a digoxina. Devido a isso, por vezes alguns pacientes começam o tratamento com uma determinada dose de digoxina, mas não sentem os seus efeitos terapêuticos (visto que parte do fármaco está sendo degradada por estas bactérias). Frente a esta situação, é necessário se aumentar a dose do medicamento para estes indivíduos. Todavia, se estes pacientes fizerem uso de antibióticos de amplo espectro, pode ocorrer um quadro de intoxicação digitálica (visto que a bactéria que degrada a digoxina não estará mais presente em grande quantidade, causando um acúmulo do fármaco no organismo). INTOXICAÇÃO DIGITÁLICA: Ocorre devido às seguintes situações: • Erros do paciente: ocorre quando os indivíduos não seguem a posologia adequada • Erros do profissional: ocorre quando o profissional prescreve a forma farmacêutica inadequada ou realiza associações medicamentosas inadequadas • Idade avançada: há diminuição da eliminação renal, o que pode levar a um acúmulo de digoxina no organismo • Hipocalemia • Hipomagnesemia • Hipercalcemia • Interações medicamentosas: podem levar a um quadro de intoxicação digitálica, podendo disparar arritmias cardíacas ou levar ao bloqueio atrioventricular 229 Atividade deflagrada/pós despolarizações Os baixos níveis de potássio e de magnésio e os altos níveis de cálcio podem levar a intoxicações digitálicas. Isto ocorre pois o potássio e o cálcio são íons essenciais na condução do potencial de ação da fibra de Purkinje: • Fase 0: há abertura dos canais de sódio, permitindo o início da despolarização • Fase 1: começa a haver o fechamento dos canais de sódio • Fase 2: ocorre a abertura de canais de cálcio • Fase 3: ocorre o fechamento dos canais de cálcio e a abertura de canais de potássio • Fase 4: há a manutenção da corrente de potássio Se está faltando potássio no organismo (quadro de hipopotassemia), a fase 3 não ocorre adequadamente, de modo que a célula não é repolarizada e pode acontecer um novo potencial de ação (o que gera uma arritmia). Este fenômeno é chamado de atividade deflagrada/pós-despolarização precoce pois não chega a ocorrer o processo de repolarização. Esta atividade deflagrada precoce ocorre tanto frente a quadros de hipopotassemia quanto frente a quadros de hipomagnesemia (o Mg+2 é utilizado como cofator da Na+K+ ATPase cardíaca). Frente a quadros de hipercalcemia, ocorre a atividade deflagrada tardia. Neste caso, é alcançada a fase 4, mas como há um excesso de cálcio no interior da célula, este cálcio é capaz de disparar um novo potencial de ação (causando arritmias). 230 Interações medicamentosas As interações medicamentosas com a Digoxina podem levar ao desenvolvimento de arritmias ou até mesmo a um bloqueio atrioventricular. São divididas em interações positivas e interações negativas: • Interações positivas: são causadas por: o Diminuição dos níveis plasmáticos de K+: promovida por diuréticos. o Ingestão de cálcio além do necessário o Uso de alguns antibióticos (macrolídeos – eritromicina, azitromicina, claritromicina, etc: são fármacos que diminuem o clearance da digoxina) o Uso de antiarrítmicos que interferem na excreção da digoxina, piorando ainda mais o quadro de intoxicação digitálica: ▪ Amiodarona (um dos antiarrítmicos mais utilizados): é um bloqueador de canal de Na+, K+ e Ca+2 ▪ Quinidina: é um bloqueador de canal de Na+ ▪ Verapamil: é um bloqueador de canal de Ca+2 ▪ Os fármacos que realmente devem ser utilizados frente a arritmias causadas por intoxicações digitálicas são a Lidocaína e Procainamida (são bloqueadores de canal de Na+) o Uso de betabloqueadores ou bloqueadores de canais de cálcio frente a intoxicações digitálicas: leva a um bloqueio atrioventricular 231 Manifestações cardíacas das intoxicações digitálicas: • Arritmias • Bloqueios • Exacerbação dos sintomas de ICC Manifestações extra-cardíacas das intoxicações digitálicas: • Náuseas, vômitos e diarreias • Depressão, desorientação e parestesias • Visão borrada e escotomas • Mudanças na percepção de cores • Ginecomastia e galactorreia: efeitos raros Tratamento de intoxicações digitálicas Frente a intoxicações por digitálicos, deve-se realizar os seguintes passos: 1. Suspender o digitálico 2. Verificar se os níveis de potássio, magnésio e cálcio estão dentro da normalidade. Se não estiverem, corrigi-los 3. Tratar as arritmias ou os bloqueios na condução dos impulsos (obrigatória a realização de ECG) 4. Se o paciente tiver administrado digoxina há pouco tempo (e deste modo ainda apresentar digoxina no TGI), deve-se utilizar resinas (Colestiramina) ou carvão ativado para a retirada/inativação deste fármaco. Também podem ser utilizados anticorpos anti-digitálicos, que são administrados por via parenteral. Estes anticorpos se ligam à digoxina e inativam-na. DROGAS INOTRÓPICAS São utilizadas no tratamento de ICsdescompensadas. Alguns destes fármacos são a Dobutamina, Inibidores de fosfodiesterase 3 (Anrirona e Milrirnona - inibem a degradação de AMPc, aumentando a força de contração cardíaca) e Levosimendana (é um sensibilizador de cálcio: deixa-o mais sensível à troponina C, favorecendo a contração do músculo cardíaco; nos vasos promove vasodilatação por meio de um efeito hiperpolarizante – pode provocar hipotensão e arritmias). 232 Progressão das doenças cardiovasculares até à IC: Lembrar que uma mesma classe farmacológica pode tratar mais do que um distúrbio cardiovascular. 233 AULAS DO PROFESSOR VALTER 234 VIAS DE ADMINISTRAÇÃO Medusa – 86 A via escolhida para se administrar um medicamento é chamada de via de administração. Há dois principais tipos de vias: vias enterais e parenterais. Os fármacos administrados pelas vias enterais possuem absorção pelo TGI, principalmente no estômago e nos intestinos. Os medicamentos administrados por estas vias possuem primeira passagem pelo fígado. As vias parenterais são aquelas que não possuem a absorção dos medicamentos realizada pelos intestinos, sendo feita de maneira paralela a eles. Passagem pelo fígado Após serem absorvidos, alguns medicamentos tendem a passar pelo fígado antes de cair na circulação sistêmica (dependendo da via de administração que for utilizada). Esta primeira passagem pelo fígado pode ser total ou parcial. Para os fármacos que apresentam primeira passagem total, 100% do medicamento segue o seguinte caminho: é absorvido no TGI, dirige-se ao Sistema Porta e passa pela primeira fase da metabolização. O efeito de primeira passagem total acontece quando a droga é administrada por via oral ou via intraperitoneal. Há também os fármacos que apresentam primeira passagem parcial, na qual apenas uma % do medicamento vai para o fígado – é o que acontece com os medicamentos administrados por via retal, visto que por esta via 70-80% do medicamento administrado não passa pelo fígado após ser absorvido. Droga ativa x Pró-droga Droga ativa é um fármaco que possui ação farmacológica assim que é administrado, não sendo necessária a sua metabolização para que ele comece a ter efeito no organismo. Ao entrar em contato com o fígado, a droga ativa possui parte da sua 1ª metabolização realizada. Um exemplo de droga ativa é a Prednisolona. Já uma pró-droga é um fármaco que, ao ser administrado, não possui efeito no organismo, sendo necessário que este fármaco seja metabolizado para se tornar uma droga ativa. Desta forma, ao passar pelo fígado pela primeira vez, a pró-droga normalmente recebe um radical e se torna uma droga ativa. Um exemplo de pró-droga é a Prednisona, que ao passar pelo fígado se transforma em Prednisolona. Se o indivíduo possui uma boa condição hepática, é preferível que, ao se administrar um medicamento por via oral, seja uma pró-droga. Ordem de metabolização Metabolização de primeira ordem: Uma porcentagem constante da droga é metabolizada a cada período de tempo. Ex.: antibióticos: a cada 6h, 235 metaboliza-se 50% da concentração administrada. Não há efeito cumulativo significativo, visto que no período de tempo seguinte a concentração já cairá pela metade novamente (não sofre saturação). Metabolização de ordem zero: neste tipo de metabolização, uma quantidade constante da droga é metabolizada a cada período de tempo. A metabolização do álcool etílico é um exemplo de metabolização de ordem zero: não é uma % da dose que foi administrada que decai por cada período de tempo, mas sim uma quantidade constante – há uma velocidade constante de metabolização (no caso do álcool etílico, 7-10g/ hora). Devido a isto, esta metabolização é linear: se o indivíduo ingeriu 10g de álcool etílico, em 1 hora estarão presentes no organismo de 0-3g; se o indivíduo ingeriu 100g, em 1h ainda estarão presentes no organismo de 90-93g, só sendo totalmente depurado após cerca de 9 horas. Este tipo de metabolização pode ser saturada. VIAS ENTERAIS Via oral Possui menor custo, e por isso pode ser considerada a via mais viável. É a via mais segura, visto que é mais fácil de se diminuir a absorção de um fármaco que foi administrado por VO caso ocorra algum erro na administração (utilizando- se para isso antiácidos ou realizando-se lavagens gástricas com carvão ativado (substância que adsorve os medicamentos e que depois é aspirada por uma sonda, levando consigo a medicação)). A VO também é considerada uma via mais fisiológica, visto que o medicamento administrado segue o trajeto natural da alimentação. Devido a este fato, deve-se saber as especificidades do medicamento, visto que alguns fármacos devem ser tomados com o estômago vazio (como medicações para hipotireoidismo), enquanto outros devem ser tomados após uma refeição – e outros são indiferentes neste quesito. A absorção do medicamento no TGI depende também da velocidade de dissolução de cada droga, sendo que esta velocidade está relacionada ao pH do órgão e ao pKa do medicamento. Exemplo: a aspirina (pKa=3), é absorvida no estômago e na primeira porção do duodeno; todavia, ao se analisar um medicamento com pKa alcalino, este fármaco provavelmente será melhor absorvido no restante do intestino. As medicações administradas por via oral podem ser administradas em diversas formas farmacêuticas, como líquida, comprimidos, drágeas, etc. A prescrição pode ser feita a pequenos, médios e grandes volumes (variável). Podem ser administradas substâncias hidro ou lipossolúveis. 236 Via retal É uma via antifisiológica (visto que se insere o medicamento em sentido contrário ao da saída das fezes). Possui absorção parcial, o que faz com que as doses dos fármacos administrados por via retal sejam de 1,5 a 2 vezes maior do que as doses administradas via oral. Utiliza-se uma forma farmacêutica própria e adequada às condições do meio: supositórios a base de lanolina (substância graxa que se dissolve a 37ºC, liberando o princípio ativo). Podem ser administradas substâncias hidro ou lipossolúveis. VIAS PARENTERAIS Via tópica/local Os fármacos utilizados nas aplicações tópicas sempre devem ser drogas ativas, e não pró-drogas. Os medicamentos administrados por via tópica apresentam a menor possibilidade de causar efeitos colaterais. É uma via de uso mais limitado, sendo utilizada principalmente por dermatologistas, oftalmologistas e otorrinolaringologistas. Utiliza-se cremes em feridas úmidas (as quais não devem ser friccionadas) e pomadas em feridas secas (as quais podem ser friccionadas). Os colírios devem ser sempre administrados 1 gota por olho. Podem ser administradas substâncias hidro ou lipossolúveis. Via intradérmica A administração de medicamentos por via intradérmica é feita sempre em pequenos volumes (como em vacinas). Podem ser administradas substâncias hidro ou lipossolúveis. Via subcutânea O único local do corpo humano no qual não há tecido subcutâneo sob a pele é na região das pálpebras. São administrados apenas pequenos volumes, visto que a injeção pode provocar muita dor local. Podem ser administradas substâncias hidro ou lipossolúveis. 237 Via sublingual Nesta via, as medicações podem ser administradas na forma líquida ou de comprimidos. A sua absorção não conta com a passagem pelo fígado diretamente. A medicação deve possuir um sabor neutro, para que assim não seja provocada muita salivação e a pessoa não engula o medicamento (que deve permanecer na mucosa oral até ser absorvido). É necessário que o paciente seja disciplinado para utilizá-la (visto que os fármacos não podem ser engolidos). É uma via de administração que faz com que os fármacos cheguem rapidamente ao coração e ao SNC (com isso, a via sublingual é uma boa opção para o tratamento decasos de angina, mas os fármacos podem causar como efeito colateral intensa cefaleia). Devem ser administrados pequenos volumes. Podem ser administradas substâncias hidro ou lipossolúveis. Via intramuscular Podem ser administradas substâncias hidro ou lipossolúveis, em pequenos ou médios volumes (até 5 ml). As medicações ministradas por essa via possuem tempo de duração variável (ex.: enquanto a benzetacil ainda está presente no organismo em até 21 dias após a injeção, a dexametasona é absorvida em 8 horas). Possui uma absorção uniforme e total, havendo a necessidade de rodízio dos músculos (se forem feitas diversas administrações de medicamentos em um mesmo local, é possível que seja causado um processo inflamatório, o qual pode prejudicar a absorção). Via intra/endovenosa Podem ser administrados volumes variáveis, e as substâncias devem ser hidrossolúveis (a administração de substâncias lipossolúveis pode causar embolias gordurosas e a administração de substâncias gasosas pode causar embolias gasosas). Não existe absorção nesta via, visto que todo o fármaco já é administrado diretamente no interior da veia. É uma via pouco segura, visto que é difícil de se controlar os efeitos indesejados e colaterais (não é possível se retirar o fármaco de dentro do corpo como na via oral, por exemplo, sendo necessária a utilização de um medicamento antagonista para se reverter o efeito destes fármacos). Esta via não deve ser usada corriqueiramente, sendo utilizada apenas em casos de urgência ou emergência (como em um choque anafilático, durante uma reação alérgica, etc.). 238 Via intra-arterial Esta via praticamente não é utilizada para a administração de medicamentos, sendo utilizada principalmente para a realização de exames (ex.: gasometria arterial). Isto ocorre pois a artéria é muito mais reativa do que a veia, causando mais facilmente uma inflamação (arterite) frente ao seu puncionamento. Via transdérmica As substâncias administradas por via transdérmica devem ser preferencialmente lipossolúveis, visto que assim pode ser mantido o contato com a pele por um maior período de tempo. Esta via é utilizada em casos de reposições hormonais, por exemplo. Via intramedular É a via utilizada para se acessar o interior de um osso, sendo utilizada apenas para exames diagnósticos. Via intratecal/intraraquidiana É utilizada para a realização de anestesias locais, sendo a agulha inserida no espaço subaracnóideo. Para a realização desta punção, o paciente deve estar sentado e curvado anteriormente, e a agulha deve ser inserida até o momento em que comece a gotejar um pouco de líquor. Este mesmo procedimento pode ser utilizado tanto com finalidade diagnóstica (analisando-se o líquor que goteja) quanto para a realização de raquianestesias. Ao realizar anestesias, deve-se atentar à possibilidade de movimentação do fármaco pelo líquido raquidiano, de modo que diferentes plexos nervosos podem ser afetados. As fibras mais sensíveis às anestesias são as simpáticas, 239 as quais podem provocar uma hipotensão arterial severa se anestesiadas. Para evitar esta movimentação do fármaco, são utilizadas substâncias hiperosmóticas (chamadas de anestésicos pesados). Além disso, o paciente anestesiado deve permanecer deitado, para que assim estas substâncias não sejam tão disseminadas longitudinalmente. Este tipo de anestesia causa retenção urinária. Via peridural Neste caso, a agulha é inserida no espaço epidural, sendo percebida uma pressão negativa na agulha ao alcançar este sítio. Não há tanta disseminação da medicação administrada como na via intraraquidiana. Este tipo de anestesia também causa retenção urinária. Via inalatória A substância utilizada em questão deve ser volátil ou volatilizada através de oxigênio. Os fármacos administrados por via inalatória possuem absorção muito rápida, já que os alvéolos são muito vascularizados. Se a frequência respiratória aumenta, há uma maior dificuldade em se realizar a absorção (visto que o sangue começa a passar muito rapidamente pelos alvéolos e não é possível se absorver a medicação). Se a amplitude respiratória aumenta, há uma maior facilidade na absorção. Via intraperitoneal Via intravaginal O medicamento pode ser hidro ou lipossolúvel, e o fármaco administrado pode ter efeito tópico (ex.: antibiótico para vaginite) ou sistêmico (ex.: reposição 240 hormonal). A velocidade de absorção desta via é variável, sendo a administração de hormônios um dos modos de absorção mais lentos. Vias oculares – Colírios O uso de medicação na via ocular possui efeito tópico. Algumas das vias são: • Via subconjuntival o Administra-se o medicamento abaixo da conjuntiva bulbar (que está em contato com o bulbo do olho) com uma agulha. Esta via de administração substitui a utilização contínua de colírios, visto que cada vez que a pessoa pisca ela comprime a bolha onde está a medicação, fazendo com que o medicamento saia pelo furo pelo qual a agulha entrou e fique sobre a superfície ocular. • Via peribulbar o Administra-se o fármaco ao redor do globo ocular, como nos casos de correção de catarata. • Via retrobulbar o Administra-se o fármaco atrás do bulbo do olho com uma agulha reta ou curva. • Via intrabulbar/intravítrea o Administra-se o fármaco no interior do bulbo (ex.: medicamentos anti-angiogênicos utilizados por pacientes diabéticos). 241 PRESCRIÇÃO MÉDICA Medusa – 86 Há diferentes tipos de receituários, os quais são utilizados com diferentes finalidades de prescrição. São eles: • Receituário comum: é usado para a maioria dos medicamentos. • Receituário branco em dupla via • Notificações de receituário amarelo • Notificações de receituário azul • Prescrição hospitalar Em relação à necessidade da prescrição médica para a compra, há dois tipos de medicamentos: • OTC – Medicamentos sem receituário (cerca de 50% dos medicamentos). Estes medicamentos não demandam a presença de receita para compra. Não há nenhuma tarja na embalagem destes medicamentos (ex.: vitaminas, antitérmicos, antigripais e analgésicos) • Controlados: são os medicamentos que demandam uma prescrição médica para serem comprados É possível saber através da embalagem dos medicamentos se é necessária a presença de um receituário para a sua compra ou não. Isto é feito por meio da observação da presença de uma tarja na embalagem e a cor desta. As respectivas tarjas são: • Receituário comum: Tarja vermelha • Receituário branco em dupla via/ 2 receituários comuns: Tarja vermelha com os dizeres “Só pode ser prescrito com a retenção da receita” • Receituário amarelo: Tarja branca • Receituário azul: Tarja preta 242 Quando o médico for prescrever o medicamento, ele deve indicar qual o tipo de uso: • Uso interno (uso int.): faz referência apenas à via oral • Uso externo (uso ext.): faz referência às demais vias. Na prescrição, apenas se deve escrever uso int/ uso ext, e não a via específica de administração (oral/retal/vaginal, etc). A prescrição médica é uma ordem médica para que seja aviada a receita. Cada receituário deve idealmente conter de 1-3 medicamentos. Em caso de urgência/emergência, os medicamentos podem ser prescritos em qualquer papel (é um ato legal), mas a prescrição deve conter todos os elementos de uma receita. A receita pode ser manuscrita, datilografada ou impressa. É importante que tanto o médico quanto o paciente participem do processo de prescrição, visto que deve-se saber se o paciente possui alergias, sensibilidades e condições de comprar o fármaco em questão. TIPOS DE MEDICAMENTOS: • Oficinais: fórmulas fixas que constam em textos oficiais (farmacopeias, formulários). São os medicamentos manipulados tradicionais. • Magistrais: fórmulasconfeccionadas pelo médico (o médico cria uma fórmula a partir de seus conhecimentos) • Especialidades farmacêuticas: a indústria farmacêutica vende uma fórmula específica com nomes fantasias/comerciais, seja o medicamento de referência ou o semelhante. • Genéricos: são fármacos que possuem a mesma bioequivalência que o medicamento de referência. O nome dos medicamentos genéricos é sempre o nome do princípio ativo do medicamento. 243 No Brasil, os medicamentos controlados são classificados em: • A1 e A2: Entorpecentes – Receita azul. Tarja preta. • A3, B1 e B2: Psicotrópicos – Receita amarela. • C1, C2, C3 e C5: Comuns (substâncias retinóicas, imunossupressoras e anabolizantes) - Branco em dupla via • C4: Antirretrovirais – Receita amarela especial • D1: Precursores de entorpecentes e psicotrópicos • D2: Insumos químicos utilizados como precursores de entorpecentes e psicotrópicos • E: Plantas que podem originar substâncias (Ex.: canabinóides da Cannabis sativa). • F: Substâncias de uso proscrito no Brasil (ex: cocaína) OBS sobre a prescrição de antibióticos: pode ser realizada tanto no receituário branco em dupla via quanto em 2 vias do receituário comum (sendo que uma destas vias fica retida na farmácia). A prescrição de antibióticos tem validade de 10 dias. RECEITUÁRIO COMUM • Com exceção dos antibióticos, as medicações são prescritas em via única (para os antibióticos, prescreve-se em 2 vias) • Tarja vermelha escrito VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA • A receita prescrita em receituário comum é válida em todo território nacional • A validade destas receitas não é normatizada, valendo de 6 meses-1 ano (as receitas para retirada de medicamentos que são entregues gratuitamente pelo serviço público possuem validade de 3 meses). A validade das prescrições para antibióticos vale 10 dias. 244 245 RECEITUARIO BRANCO EM DUPLA VIA • Os medicamentos que exigem este receituário só podem ser vendidos com retenção de receita o Vem escrito na caixa: VENDA SOB PRESCRIÇÃO MEDICA (Só pode ser vendido com retenção da receita) • C1, C2, C5 • Tarja vermelha • Imunossupressores, retinóides de uso sistêmico e anabolizantes. • Se o médico em questão estiver prescrevendo o medicamento em um serviço público, deve-se sempre prescrever o medicamento genérico • Comprimido D: Dispersível (deve ser diluído em água) • Se o médico for prescrever soluções, deve-se colocar como como observação para o paciente agitar bem o vidro antes de usar • Se não for escrito na receita a observação de “não substituir a medicação por genérico”, pode ser substituído • Colírio: deve-se agitar todas as vezes antes de ser administrado 246 NOTIFICAÇÃO DE RECEITA AMARELO • Utilizada em medicamentos de Tarja branca • O talonário é fornecido pela Vigilância Sanitária Municipal gratuitamente, mediante solicitação através de formulário específico. • Validade da receita: 30 dias após emissão. A validade pode ser prolongada se o diagnóstico do paciente (ou o CID da doença) e a posologia do medicamento justificarem este prolongamento. • É válida em todo território nacional • Fica retida na farmácia • Modelo antigo: • Modelo atual: NOTIFICAÇÃO DE RECEITA AZUL • Tarja preta o Sobre a tarja, está escrito “VENDA SOB PRESCRIÇÃO MÉDICA – O ABUSO DESTE MEDICAMENTO PODE CAUSAR DEPENDÊNCIA” • Pode causar dependência física e/ou psicológica • Não pode haver qualquer tipo de rasura neste tipo de receituário • É numerada pela Vigilância Sanitária • Fica retida na farmácia 247 • Pode-se prescrever no máximo 5 ampolas ou 3 caixas por receituário o Se a prescrição for de 1 comprimido ao dia (ex.: ao se deitar), a prescrição se limita a 2 caixas. Só permite 3 caixas se for mais do que 1 comprimido ao dia • Este receituário vale por 30 dias e apenas na unidade da federação em que ele foi prescrito (se prescreveu em MG, não vai poder ser utilizada em SP) o Se precisar comprar em outro estado, o paciente deve ir à Vigilância Sanitária para que seja trocada a receita • Modelo: • Na receita azul ou amarela, deve-se escrever a dose em numeral e por escrito: tomar 1 (um) comprimido. PRESCRIÇÃO HOSPITALAR No modelo da UFTM, devem constar os seguintes dados: • Nome: Antônio Carlos da Silva • Diagnóstico: Pneumonite • Leito: 121C Primeira coisa a se escrever na prescrição hospitalar é a dieta e suas ressalvas. Se for livre, escrever “Dieta livre” (se a dieta for livre, já se sabe que 248 a via de administração da dieta é a via oral). Em seguida, são escritos os fármacos que estão sendo administrados, a dose, a via e a posologia. Por fim, podem vir algumas observações. Algumas siglas que podem aparecer: • SG – Soro glicosado • SF – Soro fisiológico • EV – Endovenosa • VO – Via oral • AD – Água destilada • SV – Sinais vitais • CG – Cuidados gerais MEDICAMENOS MANIPULADOS O princípio ativo pode ser administrado isoladamente ou com componentes que vão manter a sua estabilidade/efeito/pH por mais tempo. • Coadjuvantes terapêuticos: são duas drogas ativas que possuem efeito potencializador ou aditivo. São associadas para que uma intensifique o efeito da outra. • Coadjuvantes técnicos: consistem em um ou mais ingredientes da fórmula cuja função é estabilizar e/ou conservar o aspecto físico-químico do medicamento. Atuam fisicamente (ex.: tamponando pH, espessando o meio, favorecendo a dispersão da base do medicamento) ou 249 quimicamente (protegendo o princípio ativo de oxigenação, oxidação e contaminação). • Coadjuvante corretivo (edulcorante): Visa corrigir o medicamento em suas propriedades organolépticas. Corrige cor e sabor. Não causa nenhum efeito terapêutico, mas pode causar efeitos colaterais, como alergias devido ao corante. • Veículo ou Excipiente: substância utilizada para suspender, dissolver ou misturar homogeneamente o princípio ativo, afim de facilitar a sua administração e tornar possível a sua confecção. • Veículo: possui função de dar volume/forma ao medicamento, possibilitando o transporte do fármaco. o Excipiente: São ingredientes inertes que misturados ao princípio ativo, servem para dar volume e/ou peso à formula, a fim de que ela possa ser dosada ou confeccionada. ▪ Ex.: Vaselina, fenolftaleína, ágar, etc. EFEITO PLACEBO Se for prescrito um medicamento que não é adequado para um determinado fim, o paciente acometido que toma este medicamento possui 30% de chance de melhorar, mesmo este fármaco não sendo próprio para a sua condição. Isto ocorre devido ao efeito placebo. Se há um princípio ativo no medicamento que o paciente tomou, é chamado de efeito placebo impuro. Se não há nenhum princípio ativo ou efeito farmacológico na medicação, é chamado de efeito placebo puro. EXEMPLOS DE PRESCRIÇÕES DE MEDICAMENTOS MANIPULADOS Exemplo 1: Carbonato de cálcio ------- 1g Para 1 papel. Mande 20 (quer dizer que provavelmente o paciente é alérgico à cápsula, e devido a isso precisa que o medicamento seja feito dentro de envelopes (“papel”). Para tomar o medicamento, o paciente deve diluir o conteúdo de dentro do envelope em um pouco de água e beber. Cada envelope (papel) deve ter 1 grama de carbonato de cálcio, mas a receita está solicitando a manipulação de 20 papéis.) Exemplo 2: Dipirona ----------------------- 5g Para 1 cápsula amilácea. Mande 20 250 (quer dizer que cada cápsula deve conter 5g. Está sendo solicitada a manipulação de 20 cápsulas) Exemplo 3: Para Fulano de Tal Uso externo Hidroquinona -------5% Tretinoina ----------- 0,025% Hidrocortisona ------------ 1% Creme hidratante qsp --------- 30g Mande 1 pote. Usar pela manhã e pela noite (qsp = quantidade suficiente para completar o peso. A porcentagem dos demais fármacos é baseada nos 30g,e o que faltar para completar os 30g, coloca-se de creme hidratante) • Se o medicamento a ser manipulado tiver algum componente controlado (ex.: que precisa de receita azul), deve-se colocar o componente controlado na receita azul e todo o resto (assim como o componente controlado, que deve ser escrito novamente) na receita normal, e entrega- las junto. Quando se for escrever o componente controlado na receita azul, deve-se escrever a dose total que vai ser utilizada em todos os papeis/cápsulas (ex.: Se precisa de 15 mg de Diazepam em 30 cápsulas, deve-se escrever Diazepam 450 mg). • No caso da prescrição hospitalar, se a medicação for dada pela manhã antes de o médico ter feito a passagem pelo leito, a medicação deve ficar registrada na prescrição do dia anterior. Se for feita após o médico ter passado pelo leito, a administração da medicação deve ser anotada no dia atual (ex.: se a medicação era às 6h o médico passou às 7h, deixa no receituário do dia anterior; se o médico passou às 5h, deixa no receituário do dia atual). 251 ABUSO DE DROGAS – USO DE SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS Medusa - 86 Primeiramente, deve-se ter em mente que dependência química é uma doença! A droga é FEITA para ser viciante, e ela é capaz de mudar a percepção do indivíduo sobre a própria vida. Desta forma, deve-se abandonar a visão moralista sobre o problema das drogas e deve-se adotar um tratamento multifatorial para que o vício seja abandonado. Normalmente, o processo que leva um indivíduo a buscar o uso de drogas ilícitas também é um processo multifatorial, o qual envolve questões sociais, o contexto em que o indivíduo vive, questões biológicas individuais, questões morais, o próprio efeito da droga e a via de uso utilizada. NEUROBIOLOGIA DAS DROGAS Todas as drogas, de alguma maneira, agem em alguma região cerebral. As principais regiões afetadas pelo uso das drogas são: • Sistema de recompensa: localizado no núcleo accumbens. É formado pela via mesolímbica e pela via mesocortical. É responsável por trazer as sensações de desejo sexual, prazer e prazer obtido a partir da alimentação. É um circuito dopaminérgico. Toda droga que vicia libera dopamina na via mesolímbica de alguma forma. • Região da motivação no córtex orbitofrontal • Circuito da memória e aprendizagem: localizado na amígdala e no hipocampo • Região de controle e planejamento: localizada no córtex pré-frontal e no giro do cíngulo anterior. Além de agir em uma região principal, as drogas são capazes de agir em outras áreas do cérebro e em outras regiões periféricas. 252 MACONHA A Maconha é a droga ilícita mais consumida no mundo. É uma planta utilizada há milênios pelo ser humano, sendo utilizada tanto para a finalidades recreacionais quanto para fins terapêuticos. Há três diferentes espécies de plantas da qual a maconha pode ser obtida: • Cannabis sativa: é a mais utilizada para o uso recreativo • Cannabis indica • Cannabis ruderalis A maconha não pode ser considerada um produto homogêneo, visto que diferentes espécies podem estar contidas em um mesmo produto vendido. Além disso, a maneira pela qual a maconha é utilizada também influencia nos efeitos que esta droga traz ao organismo (se é fumada, ingerida, inalada, etc). EPIDEMIOLOGIA Há cerca de 180 milhões de usuários de maconha do mundo. 1 a cada 10 homens adultos já experimentou maconha na vida. Os homens usam 3 vezes mais do que as mulheres. Mais de 1% da população masculina brasileira é dependente de maconha. 1 em cada 10 adolescentes que usa maconha é dependente. 17% dos adolescentes que realizaram o uso da maconha no último ano tiveram acesso à droga por meio da escola. CANNABINOIDES O efeito psicoativo da maconha é proveniente de substâncias genericamente chamadas de cannabinoides. São conhecidos mais de 80 cannabinoides diferentes, os quais possuem diferente capacidade de causar os efeitos da maconha. Os dois principais cannabinoides são: • THC (delta-9-tetrahidrocanabinol): causa mais efeitos psicogênicos e alucinógenos. Gera ansiedade, sintomas psicóticos e maior dependência • CDB (canabidiol): é o cannabinoide que possui mais efeitos terapêuticos. Possui efeitos opostos ao THC, causando efeitos ansiolíticos e antipsicóticos. A proporção da quantidade de THC e CDB presente na maconha comercializada vem sido progressivamente alterada com o passar dos anos. Exemplo disso é que enquanto na década de 60-70 a concentração de THC era de 2 a 3%, atualmente esta concentração chega a 22,6% em alguns casos. 253 SISTEMA ENDOCANABINOIDE Existe no organismo humano uma série de canabinóides endógenos, os quais são derivados do ácido araquidônico. Estes canabinoides endógenos agem sobre dois tipos de receptores presentes no nosso organismo, chamados de receptores cannabinoides: • CB1: mais presente no SNC • CB2: mais presente em órgãos periféricos, principalmente em células imunológicas Enquanto o THC é um agonista parcial dos receptores CB1, o CDB é um antagonista dos receptores CB1 e CB2 (o que explica o fato de estes canabinóides terem efeitos opostos no organismo). EFEITOS DA MACONHA Os efeitos proporcionados pelo uso da maconha dependem de diversas variáveis, como: • Ambiente de uso • Estado emocional do indivíduo • Personalidade do usuário • Condições genéticas • Idade • Características da planta Os principais efeitos provocados pelo uso agudo da maconha são: • Emoções: relaxamento e leve euforia • Intensificação de experiências sensoriais • Alterações de memória, cognição e atenção • Alterações de percepção e da avaliação do tempo • Alterações fisiológicas o Taquicardia e aumento da PA o Enrubescimento de conjuntivas 254 o Boca seca e sede intensa o Aumento do apetite: normalmente ocorre quando o efeito da maconha começa a diminuir • Pode gerar crise de ansiedade ou quadros psicóticos transitórios LOCAL DE AÇÃO DA MACONHA Os efeitos causados pelo uso da maconha dependem dos locais nos quais a droga é capaz de agir. Os principais locais do SNC que contêm o receptor CB1 são: • Córtex: explica a alteração da cognição • Amígdala: explica a alteração das emoções • Hipocampo: explica a alteração da memória • Matéria cinzenta periaquedutal: explica a alteração das emoções e analgesias • Cerebelo: explica as alterações no movimento • Núcleos da base: também explica as alterações de movimento • Núcleo accumbens: explica os efeitos hedônicos (relacionados ao prazer) MALEFÍCIOS DO USO Os principais malefícios do uso da maconha são: • Efeito de adicção (causa desenvolvimento de vício): toda substância que age liberando dopamina na via mesolímbica causa adição, inclusive a maconha. • Malefícios do uso crônico: o Pode ser porta de entrada para o uso de outras drogas (não é regra, mas pode acontecer) o Alterações em bocas e dentes: devido à ação da fumaça quente o Alterações pulmonares e cardiovasculares: predispõe o desenvolvimento de inflamações e pode haver a liberação de substâncias cancerígenas, predispondo desta forma o desenvolvimento de DPOC e cânceres. Estes efeitos são estudados, não sendo ainda muito bem esclarecidos e definidos. o Pode predispor quadros de psicose: pode ser um fator de risco e um complicador das psicoses. Em alguns casos, o paciente possui a genética propensa ao desenvolvimento de psicoses, e o uso da maconha é o fator desencadeador do primeiro episódio psicótico. o Pode trazer diversos prejuízos cognitivos em relação à memória, atenção e função executiva (lentificação). 255 Uso na adolescência 62% dos pacientes que usam maconha tiveram o primeiro contato com a droga antes dos 18 anos. Este fato é especialmente preocupante pois durante a adolescência o indivíduo ainda se encontra na fase de neurodesenvolvimento,e o uso da maconha pode prejudicar este desenvolvimento. Além disso, o uso precoce da maconha na adolescência aumenta as chances do desenvolvimento de dependência. TRANSTORNOS PELO USO Há sempre 3 fases do uso de qualquer droga: Intoxicação, Abstinência e Dependência. Estas fases podem ocorrer em períodos alternados em um mesmo paciente. Intoxicação Esta fase tem relação com os efeitos agudos da maconha (os quais muitas vezes motivam o uso da droga). Em alguns pacientes, os sintomas fisiológicos podem ser mais exacerbados (apresentando taquicardia intensa, aumento da PA e sintomas psiquiátricos mais intensos), mas não é possível se alcançar uma overdose de maconha. Estes quadros de sintomas mais exacerbados são chamados de “bad trip”. 256 Tratamento da intoxicação O tratamento dos casos de intoxicação mais exacerbados consiste em um tratamento sintomático: utiliza-se betabloqueadores (para controlar os sintomas de taquicardia, aumento da PA e tremores das mãos) e benzodiazepínicos ou antipsicóticos (para se controlar os sintomas psiquiátricos). Esta conduta de tratamento deve ser adotada se o paciente estiver intoxicado EXCLUSIVAMENTE pelo uso de maconha (se tiver usado cocaína e maconha, não pode usar beta-bloqueador; se tiver utilizado álcool e maconha, não pode usar BZD, etc.). Abstinência A síndrome de abstinência ao uso da maconha é considerada um quadro raro, que normalmente ocorre após um uso muito pesado e/ou prolongado da droga. O paciente com abstinência pode apresentar vários sintomas, como: • Raiva, agressividade, irritabilidade • Nervosismo ou ansiedade • Problemas com sono • Redução do apetite ou perda de peso • Humor deprimido • Sintomas físicos: dor abdominal, sudorese, tremores, febre e cefaleia Estes sintomas podem aparecer de maneira mais leve e podem durar poucos dias. Estas variações no efeito dependem da quantidade e do tipo de maconha que o indivíduo normalmente usava. Tratamento da abstinência O tratamento é sintomático combinado com a observação do paciente. Podem ser utilizados sedativos e hipnóticos para auxiliar no controle da ansiedade e na indução do sono. Nos quadros mais graves, podem ser utilizadas terapias substitutivas com derivados canabinoides, canabinoides sintéticos ou agonistas do receptor CB1. Dependência Os pacientes usuários crônicos de maconha normalmente apresentam pouca crítica em relação ao uso, o que pode dificultar questões de tratamento e abandono do uso da droga. Os padrões de uso patológico são classificados pelas seguintes características (segundo o DSM-5 de 2013): 257 • Critérios de baixo controle: o Se a droga é consumida em maior quantidade ou por um maior período de tempo do que o pretendido o Se há desejo persistente de se realizar o uso ou esforços malsucedidos no sentido de reduzir o uso da maconha o Se o indivíduo gasta muito tempo realizando a aquisição, o uso e a recuperação dos efeitos da droga o Se o paciente apresente fissura, um forte desejo ou necessidade de usar Cannabis • Critérios de prejuízo social: o Se o paciente passa a apresentar fracasso em desempenhar papéis importantes o Se o paciente passa a utilizar a droga apesar de problemas sociais ou interpessoais persistentes ou recorrentes o Se o paciente passa a abandonar atividades sociais, profissionais ou recreacionais devido ao uso da maconha (estreitamento de repertório) • Critérios de uso arriscado: o Se o indivíduo passa a utilizar a maconha mesmo em situações em que o uso representa perigo (ex.: está doente e precisaria ficar sem fumar (ex.: devido a uma infecção no pulmão), mas mesmo assim não consegue ficar sem) o Se o uso é mantido apesar de a consciência de ser um problema para o indivíduo • Critérios farmacológicos: presença de: o Tolerância: o paciente passa a necessitar de quantidades maiores de droga para apresentar os mesmos efeitos o Abstinência: a interrupção do uso passa a apresentar uma série de sintomas ao paciente 258 Se o paciente apresenta 2 destes critérios, ele já pode ser caracterizado como quem apresenta uso patológico leve. Se o paciente apresenta de 4 a 5, classifica-se como uso patológico moderado. Se o paciente apresenta acima de 6 critérios, classifica-se como uso patológico grave (o qual provavelmente demandará um tratamento mais efetivo). O paciente não necessariamente precisa realizar o uso diário da maconha para que o uso seja caracterizado como patológico. Tratamento da dependência O tratamento da dependência é baseado na combinação de mediadas não farmacológicas e medidas farmacológicas. As medidas não farmacológicas são muito mais importantes e muito mais efetivas do que as medidas farmacológicas. • Medidas não farmacológicas: consistem principalmente na conscientização e convencimento do paciente de que ele se encontra em um quadro de uso patológico, e que o uso pode levar a prejuízos em sua saúde, sendo necessária a redução/extinção deste uso. As seguintes estratégias podem ser adotadas: o Manejo de contingências o Terapia cognitivo-comportamental o Entrevista motivacional o Estratégias de redução de danos • Medidas farmacológicas: os estudos relacionados ao tratamento farmacológico da maconha são bem controversos e muitos estão na fase inicial. Alguns dos fármacos que estão em teste são: o Rimonabanto o Sativex ou Dronabinol ou CDB/THC (terapias substitutivas) o Naltrexona o Buspirona o Clonidina o Ácido Valpróico o Lítio o Bupropiona o Atomoxetina o N- acetilcisteína 259 USO MEDICINAL DA MACONHA As substâncias obtidas a partir da maconha podem ser utilizadas no tratamento de diversas doenças ou condições, como: • Esclerose múltipla • Epilepsia • Dor neuropática • Doença de Crohn • Artrite reumatoide • Anorexia associada ao HIV • Alzheimer • Efeito anti-inflamatório • Enjoos e náuseas • Efeito ansiolítico • Efeito antipsicótico O uso da maconha para estas finalidades citadas acima ainda é estudado, sendo controverso em alguns casos. Os quadros de esclerose múltipla e epilepsia (principalmente casos de epilepsia infantil refratária) são os que mais comprovadamente aproveitam-se do efeito medicinal da maconha. LEGALIZAÇÕES O uso de medicamentos a base de maconha era permitido desde 2016, e a partir de 2019 a Anvisa permitiu a compra, a fabricação e a venda destes produtos à base de maconha no Brasil. A venda da erva, do cigarro, de alimentos à base de maconha ou de outros formatos da droga não foram permitidos. O cultivo não foi permitido, de modo que a planta deve ser importada para que os produtos sejam fabricados em território nacional. 260 261 OPIOIDES Não será abordado o uso terapêutico dos opioides para intubação, anestesia e analgesia. Opioides são drogas derivadas do ópio (substância obtida a partir da Papaver somniferum, popularmente conhecida como papoula do Oriente). EPIDEMIOLOGIA A prevalência do uso de opioides no Brasil é muito baixa (0,09 a 0,23%). A dependência de opioides no Brasil é mais significativa em relação às drogas prescritas do que em relação aos opioides ilegais. Nos EUA e em outros países, todavia, a dependência de opioides é um problema grave de saúde pública. Há uma forte relação entre o uso de opioides e a disseminação de doenças, visto que o uso desta droga é realizado principalmente por via endovenosa. Os opioides são drogas que desenvolvem os fenômenos dependência e tolerância de maneira muito rápida. A diferença entre uma dose terapêutica e uma dose tóxica destas drogas é muito sutil. Uso entre os profissionais de saúde No Brasil, a dependência de opioides entre os médicos é de 5% a 22%, ocorrendo principalmente entre os médicos que trabalham em UTIs e entre cirurgiões, devido