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MANUFATURA ENXUTA AULA 5 Prof. Everton Luiz Vieira 2 CONVERSA INICIAL Seja bem-vindo(a) a esta aula, na qual vamos estudar a gestão visual, técnica muito utilizada na manufatura enxuta para deixar os processos mais visíveis e intuitivos para quem executa as atividades. Também buscaremos entender o que são dispositivos poka yoke, conhecidos como dispositivos à prova de erros. Vamos abordar o conceito de fluxo contínuo do processo, que é um dos princípios da produção enxuta, juntamente com o single minute exchange of dies (SMED), conhecido como setup rápido, utilizado para reduzir o tempo de trocas e aumentar a disponibilidade das máquinas. Por fim, iremos analisar o heijunka, também conhecido como nivelamento da produção, fator extremamente importante para criação do fluxo contínuo. TEMA 1 – GESTÃO VISUAL A comunicação visual é definida por Hall (1987) como uma comunicação sem palavras, sem voz. A gestão visual é uma forma de comunicação que pode ser observada por qualquer pessoa que trabalhe em uma determinada área, por qualquer um que esteja de passagem por essa área e por qualquer um que possa visualizá-la; é a comunicação disponível em linguagem acessível e clara para todos (Mello, 1998). Para Ferro (2013), a gestão visual é uma das ferramentas com maior importância para dar suporte aos líderes de uma manufatura enxuta, pois permite a todos saberem como andam as coisas sem precisarem perguntar a ninguém, ou seja, com todos podendo ver e entender a mesma coisa, o que deixa a situação transparente, auxiliando-os a focalizar nos processos e não nas pessoas, além de a darem prioridade ao que realmente é necessário. De acordo com Werkema (2006), a gestão visual deve fornecer informações que gerem ações no ponto da comunicação e, ainda, deve ser mantida pelos que realmente executam o trabalho, que devem ser os primeiros a perceber as anormalidades porventura existentes em uma rotina. 3 1.1 Tipos de elementos visuais Abad (2019) cita que os elementos visuais podem ser classificados em diferentes grupos: • Sinais visuais: visam explicar o que estamos vendo, por exemplo, indicar uma área de produção, um processo ou uma maquinaria. Os sinais visuais geralmente são marcas no chão usadas para definir determinados espaços, painéis com ferramentas, sinais relacionados com segurança, luz andon de máquina, demonstração do estado atual de um processo ou até mesmo uma documentação relacionada ao trabalho padronizado. Um exemplo de gestão visual por meio de pintura de faixas no piso pode ser observado na Figura 1. Figura 1 – Exemplo de gestão visual com pintura de faixas Crédito: Hiko_Photos/Shutterstock. • Instruções visuais: visam mostrar como se comportar em determinada área. Podem ser procedimentos de trabalho; sistemas de semáforo (verde, amarelo, vermelho), que nos dizem o que fazer de acordo com a cor; linhas com códigos de cores no chão ou placas indicando para onde certos materiais devem ser transportados. Na Figura 2, é possível observar um exemplo de painel andon. 4 Figura 2 – Exemplo de painel andon Crédito: Nopparat/Shutterstock. • Medidas visuais: podem ser painéis mostrando o desempenho atual de um processo em relação ao desempenho esperado. Isso também pode incluir uma matriz de polivalência de colaboradores, informando não somente as habilidades que um colaborador tem, mas também quais deve desenvolver ao longo do tempo. Na Figura 3, podemos observar um painel com indicadores de gestão visual. Figura 3 – Exemplo de painel de desempenho 5 Crédito: Drazen Zigic/Shutterstock. • Representações visuais de processos ou atividades concretas: podem ser mapas de fluxo de valor, em formato A3, quadros de manutenção preventiva, gráficos de Gantt de um projeto etc. Na Figura 4, é possível observar um exemplo de quadro de gestão de projetos. Figura 4 – Painel de gestão de projetos Crédito: M.Stasy/Shutterstock. Ter um sistema que consiga portar para um só lugar todas as informações essenciais sobre o desempenho de um processo irá permitir detectar anomalias rapidamente e iniciará o processo de solução de problemas, buscando sempre satisfazer o cliente, que é o objetivo final do pensamento enxuto. Mestre et al. (1999) listou algumas vantagens da gestão visual: 6 • assimilação: auxilia os operadores a apreender informações por meio de gráficos, símbolos e desenhos; • exposição: todas as informações necessárias para se obter uma boa comunicação são disponibilizadas a todos, facilitando uma integração. A gestão visual torna a comunicação mais simples e eficaz, pois o ser humano tem maior capacidade de captar informações através do sentido visual – a ênfase do ser humano nos sentidos, usualmente, é de: 1% no paladar, 4% no tato, 5% no olfato, 20% na audição, 70% na visão (Heilig, 1992). Logo, a gestão visual é uma ferramenta capaz de transformar o local de trabalho em uma imagem representativa da realidade, uma vez que a gestão visual comunica-se por si mesma (Pinto, 2003). TEMA 2 – DISPOSITIVOS À PROVA DE ERRO: POKA YOKE Dennis (2008) cita que poka significa “erro inadvertido” e yoke, “prevenção”. Poka yoke corresponde, então, a implementar dispositivos simples, de baixo custo, que detectem situações anormais antes que ocorram; ou, uma vez que tenham ocorrido, o poka yoke permite parar a linha ou máquina de produção para prevenir defeitos. Na Figura 5, podemos observar um exemplo. Figura 5 – Dispositivo poka yoke Crédito: Jefferson Schnaider. Para colocar em prática o controle de qualidade com zero defeito (CQZD), a Toyota Motor Company criou, em 1961, os dispositivos de detecção de 7 anormalidades denominados poka yoke. Esses dispositivos tinham como objetivo viabilizar a inspeção 100% na fonte, com resposta rápida e, consequentemente, eliminar a perda decorrente da fabricação de itens defeituosos (Consul, 2015). Para Ghinato (1996), porém, o poka yoke é mais do que apenas um mecanismo de detecção de erros ou defeitos: é um recurso que tem como objetivo apontar ao operador ou à máquina a maneira mais adequada de realizar uma dada operação, sendo uma forma de bloquear as principais interferências (normalmente, falhas humanas) na execução correta de uma operação. Segundo Rodrigues (2014), várias são as naturezas ou tipos de erros em um processo de produção, motivados por ações não adequadas do operador, problemas de montagem, instalação, manutenção e operação, entre os de maior importância. As falhas humanas, além de evitáveis, são significativas e podem ser classificadas em: • Falhas por inadvertência: são aquelas não percebidas quando são cometidas, e que podem ser subclassificadas em intencionais, inconsequentes ou imprevisíveis. • Falhas técnicas: motivadas pela falta de aptidão, habilidade ou conhecimento, e que podem ser subclassificadas em intencionais, específicas, conscientes ou inevitáveis. • Falhas premeditadas: resultantes de questões vinculadas a responsabilidade ou comunicação confusa, e que podem ser subclassificadas em conscientes, intencionais ou persistentes. O poka yoke não é, assim, um sistema de inspeção, mas um método que auxilia nas atividades de inspeção, indicando ao operador ou máquina, como já mencionado, o modo adequado de realizar uma operação. 2.1 Tipos de poka yoke Os poka yokes podem ser divididos de acordo com a sua função de regulagem ou detecção, cada uma com seus métodos específicos, conforme o Quadro 1. Quadro 1 – Funções e métodos dos poka yokes 8 Função Método Regulagem Controle Advertência Detecção Contato Conjunto Etapas Fonte: Elaborado com base em Rodrigues, 2014. A função de regulagem utiliza dois métodos: controle e advertência. No método de controle, a máquina ou processopara quando o poka yoke é ativado, atuando com eficácia e precisão quando um defeito é identificado. Na Figura 6, podemos observar um exemplo de sensor de cortina de luz, muito utilizado em máquinas, em que, quando a barreira de luz é ultrapassada e a máquina está em movimento, imediatamente essa máquina é parada. Figura 6 – Exemplo de poka yoke com sensor de cortina de luz Crédito: Thisisjuri/Shutterstock. 9 No método de advertência, quando o poka yoke é ativado, ele aciona um alarme visual ou sonoro, não interrompendo o processo, somente advertindo o operador de alguma situação que ocorreu no processo. Se o alarme não for percebido, o processo continuará produzindo com defeito. Na Figura 7, podemos observar um exemplo de alerta luminoso, em um equipamento. Figura 7 – Alerta luminoso em um processo Crédito: Fotogrin/Shutterstock. A função de detecção utiliza os métodos de contato, conjunto e etapas. O método de contato busca identificar falhas por meio do contato, ou não, entre dispositivos, peças ou características relacionadas à forma, ao peso ou às dimensões de um produto. O método de conjunto busca verificar se todas as ações que estavam previstas foram executadas, em uma unidade. O método de etapas busca garantir que as ações estão seguindo a sequência prevista nas especificações do projeto. Na Figura 8, temos um exemplo de checklist que pode ser utilizado como dispositivo poka yoke, nos métodos de conjunto e etapas. Figura 8 – Exemplo de checklist 10 Crédito: Boophuket/Shutterstock. Com o uso do checklist, é possível verificar se todas as etapas previstas foram realizadas na sequência correta, facilitando o entendimento da atividade por parte do operador. Outros exemplos de dispositivos poka yoke que utilizamos no dia a dia são mostrados na Figura 9. Figura 9 – Exemplo de cabos para equipamentos de informática e aparelhos de telefone celular Crédito: Nopparat S/Shutterstock. Os cabos universal serial bus (USB) e de carregadores são exemplos de dispositivos poka yoke, pois somente conseguimos encaixá-los nos dispositivos 11 se eles estiverem na posição correta. Esse formato facilita a utilização por parte do usuário e evita erros operacionais. De acordo com Dennis (2008), um bom poka yoke satisfaz as seguintes exigências: • é simples, de longa duração e baixa manutenção; • é altamente confiável; • tem baixo custo; • é projetado para as condições do local de trabalho. Os trabalhadores de chão de fábrica são, em geral, os melhores criadores de poka yoke; por isso, devemos utilizar essas suas capacidades para melhorar processos. TEMA 3 – FLUXO CONTÍNUO No contexto da manufatura enxuta, um aspecto importante para o sucesso das atividades de uma empresa é o conceito de produção em fluxo contínuo, que equivale a produzir e movimentar um item por vez (ou um lote pequeno de itens), ao longo de uma série de etapas de processamento, continuamente, realizando- se somente o que é exigido pela etapa seguinte (Léxico, 2007). Ele contribui de maneira significativa para a redução do lead time de produção, reorganizando e rearranjando o layout da fábrica e criando um ambiente favorável e dinâmico para o fluxo ordenado de produtos e materiais. Para Shingo (2005), a implantação de um fluxo contínuo de produção necessita de um perfeito balanceamento das operações ao longo da célula de fabricação e montagem: o que realmente conduz ao fluxo contínuo é a capacidade de implementação do fluxo unitário (um a um) de produção. Esse fluxo favorece a identificação de problemas que possam aparecer, além de reduzir o tempo de produção, os estoques e custos das operações. Na Figura 10, é possível observar um processamento em fluxo contínuo. Figura 10 – Processamento em fluxo contínuo 12 Crédito: Flávio Oliveira. De acordo com Liker (2007), existem alguns critérios básicos que devem ser seguidos para que o fluxo contínuo seja possível: • disponibilidade de recursos que atendam às necessidades de produção; • garantia de uma capacidade sistemática de produção; • confiabilidade dos processos e equipamentos; • equilíbrio dos tempos de ciclo das operações. Se esses aspectos não forem atendidos, podem comprometer sistematicamente as operações produtivas da empresa, provocando um desalinhamento das atividades e perdas que deveriam ser evitadas. Torna-se necessário um perfeito balanceamento das operações ao longo da linha de produção, para execução de um fluxo contínuo. A criação do fluxo contínuo permite a conexão entre operações que antes estavam desconectadas. Quando essa conexão acontece, há: • maior capacidade de trabalho em equipe; • feedback rápido, quando os primeiros problemas aparecem; • controle sobre o processo; • senso de urgência nas pessoas para resolução de problemas e alcance de melhorias. Ao se criar o fluxo contínuo, durante o processo de mudança de cultura organizacional, os problemas virão à tona, possibilitando que sejam gerados processos corretos para produzir resultados corretos diante deles. Para se realizar um projeto de uma linha ou célula de produção em fluxo contínuo, são utilizados diversos cálculos e técnicas como: 13 • cronoanálise; • mapeamento do fluxo de valor; • cálculo do tempo takt; • processo A3; • gráfico de balanceamento de operações (GBO); • diagrama de trabalho padronizado. Segundo Barbosa e Lima (2008), aplicar conceitos de fluxo contínuo pode oferecer muitas vantagens para a linha de produção, tais como: • redução de produtos em processo; • redução de tempo de movimentação na produção; • criação de habilidades para identificação e tratamento de problemas; • redução de área de unidade de trabalho; • redução de movimentação de pessoas. O fluxo contínuo é um dos principais elementos do pilar just in time (JIT), em conjunto como o tempo takt e o sistema puxado de produção. O seu grande objetivo é realizar a movimentação de um item por vez ao longo de uma série de etapas de processamento, de maneira contínua, para que em cada etapa se realize somente o que é exigido pela etapa seguinte. TEMA 4 – SMED Segundo Satolo e Calarge (2008), a metodologia de troca rápida de ferramentas (TRF) conhecida como SMED foi desenvolvida por Shigeo Shingo (2000) e amplamente divulgada a partir da década de 1970. Shingo (2005), ao estudar as prensas da Toyota, classificou em quatro grupos as atividades desenvolvidas durante um setup – o tempo entre a produção da última peça conforme o molde a ser retirado do equipamento e a produção da primeira peça conforme o novo molde posicionado no equipamento –, conforme a Figura 11. 14 Figura 11 – Distribuição dos tempos de um setup Fonte: Elaborado com base em Shingo, 2005. Nota-se que somente 5% do tempo de setup é gasto na fixação e remoção das matrizes. Com isso, Shingo (2005) percebeu que as etapas restantes poderiam ser reduzidas ou eliminadas. Com base nisso, ele realizou um trabalho em que os setups das prensas da Toyota foram reduzidos de 120 minutos para 3 minutos. Essa melhoria desenvolvida culminou na metodologia SMED, com troca de ferramentas em menos de 10 minutos (Tubino, 2007). Portanto, o SMED trata-se de um método para realizar a TRF por meio da diminuição do tempo de setup, atividade necessária em toda mudança em máquinas e equipamentos, para que se possa produzir outro produto. A TRF pode contemplar qualquer atividade que careça de ajustes. Shingo (2000) esclarece ainda que o termo setup é aplicado também às operações de inspeção, de transporte e de espera relacionadas à preparação do posto de trabalho. A Figura 12 ilustra o conceito de tempo de setup. 15 Figura 12 – Conceito de tempo de setup Fonte: Elaborado com base em Satolo; Calarge, 2008. Analisando-se a Figura 12, observa-se que a perda de produçãoocorrida em função do setup se inicia quando é cessada a manufatura do produto A (lote finalizando a produção) e finaliza quando se obtém uma peça conforme do produto B (lote em início de produção). Num primeiro período, durante a troca e fixação de moldes e matrizes, a máquina encontra-se parada, o que caracteriza um período improdutivo. Quanto essa troca é realizada, ajustes são necessários para que sejam estabelecidas as condições ideais para a produção do próximo lote de um produto. Nesse segundo período, a produção se inicia e a máquina é ajustada até atingir a eficiência programada. Um bom exemplo de TRF, segundo Tubino (2007), é a que ocorre nas corridas de Fórmula 1, em que, se compararmos uma troca de pneu realizada por qualquer um de nós, no nosso dia a dia, que leva em torno de 10 minutos (600 segundos), nos boxes daquela categoria de automobilismo é realizada em 4 segundos. 16 4.1 Tipos e estágios de setup Para que se possa reduzir o tempo dos ajustes, Shingo (2000) explica que as operações de setup são divididas em dois tipos: 1. setup interno (tempo de preparação interno – TPI), o qual se refere às operações que somente podem ser realizadas quando a máquina estiver parada; 2. setup externo (tempo de preparação externo – TPE), que se refere às operações que podem ser realizadas com a máquina em funcionamento. Segundo Fogliatto e Fagundes (2003), os estágios da TRF têm como ênfase e abordagem a distinção entre as atividades de TPI e TPE, conforme segue. • Estágio 0: nesse estágio, não há distinção entre TPE e TPI e ocorre um registro, para avaliação da situação atual, que tem como técnica mais utilizada a filmagem de todo o processo de setup, se iniciando na fabricação da última peça do lote anterior e finalizando quando a primeira peça em conformidade é obtida no lote posterior (Shingo, 1985; Moura, 1996; McIntoshi; Culley; Mileham, 2000). Segundo Shingo (2000), as principais perdas nas operações de setup tradicionais acontecem quando: a. a máquina é desligada para que seja realizado o transporte do lote produzido para o estoque ou para a retirada da matéria-prima do estoque para se produzir o lote seguinte, pois, com a máquina parada, perde-se um tempo valioso; b. alguma peça defeituosa é descoberta apenas após a montagem do produto; c. componentes são disponibilizados somente após o início do setup interno, o que faz com que se tenha que desmontar e montar novamente os componentes; d. são transportados componentes não necessários enquanto a máquina está parada; e. parafusos não são encontrados, arruelas e porcas não são compatíveis ou uma guia não é precisa o suficiente e não foi reparada a tempo; f. gerentes e engenheiros delegam a responsabilidade das tarefas de redução de setup aos trabalhadores, o que, segundo Shingo (2000), 17 explica uma das principais razões pelas quais, até pouco tempo atrás, não havia grandes progressos nas melhorias de setup. • Estágio 1: etapa em que há a separação de TPI e TPE. Diversos autores consideram esse o estágio mais importante de uma TRF, pois nele se determina, por intermédio da averiguação da filmagem, a classificação das operações envolvidas no processo de setup em TPI e TPE (Shingo, 1985; Moura, 1996; Black, 1998; McIntoshi; Culley; Mileham, 2000; Calarge; Calado, 2003; Fogliatto; Fagundes, 2003). • Estágio 2: etapa de conversão de TPI em TPE, na qual são reexaminadas as operações para se garantir que nenhuma reste classificada, na etapa anterior, como TPI. Só então se analisa a possibilidade de converter uma atual TPI em TPE. Inicialmente, não se diminui o tempo de execução com essa conversão, pois a prioridade é diminuir o tempo total de setup verificado (Shingo, 1985; Moura, 1996). • Estágio 3: etapa de racionalização ampliada no processo de setup. A intenção, nesse estágio, é se realizar uma análise detalhada com intuito de reduzir ou eliminar algum elemento da operação. São indicadas para implementação, nesse estágio, técnicas como de padronização das funções, utilização de dispositivos intermediários, adoção de operações em paralelo e mecanização (Shingo, 1985; Moura, 1996; Black, 1998). Portanto, resumindo a metodologia, o estágio zero remete ao registro para análise da situação atual do setup. No primeiro estágio, classificam-se as operações em TPI e TPE. No próximo estágio, verifica-se a possibilidade de transformar operações internas em externas, ou seja, transformar TPI em TPE. Por fim, no terceiro passo, racionalizam-se aspectos da operação de setup, com intuito de eliminar ajustes, padronizar métodos de fixação; para isso, realizam- se pesquisas específicas, de acordo com a necessidade. Vários métodos podem ser utilizados para reduzir os tempos de setup. Segundo Chambers, Johnston e Slack (2002), mudanças mecânicas relativamente simples podem diminuir consideravelmente os tempos de setup, tal qual a adoção de ajustes como: • eliminação do tempo gasto na busca de ferramentas e equipamentos; • pré-preparação das tarefas que retardam as trocas; • constante prática de rotinas de setup; 18 • conversão de setup interno em setup externo. Destacam Chambers, Johnston e Slack (2002) que existem três métodos principais para se conseguir transformar setup interno em setup externo, que requerem: 1. emprego de ferramentas pré-montadas para facilitar a sua fixação na máquina, de forma que os ajustes necessários sejam feitos externamente enquanto a máquina opera e na troca seja montada apenas uma unidade completa em vez de vários componentes, transformando a troca de ferramentas em apenas uma operação de montagem; 2. uso de dispositivo padrão para montagem de diferentes ferramentas ou matrizes, em uma operação simples e padronizada; 3. carga e descarga facilitada de ferramentas e matrizes por meio de dispositivos inteligentes de movimentação de materiais, como esteiras, roletes e mesas com superfície de esferas. Segundo Rodrigues (2014), uma das principais motivações para redução do tempo de setup tem sido a busca de otimização da capacidade instalada ou de introdução de técnicas do lean manufacturing nos processos. TEMA 5 – HEIJUNKA De acordo com Dennis (2008), o heijunka ou nivelamento da produção significa distribuir o volume e o mix de produção de forma equilibrada, no tempo. Esse método é fundamental para se eliminar o desnivelamento (mura), cuja existência não permite que sejam evitadas perdas (muda) e sobrecargas do sistema (muri) (Liker, 2007). Em conjunto com o trabalho padronizado e o kaizen, o heijunka é um dos principais fundamentos do sistema Toyota de produção. Na tentativa de produzir tudo o que o cliente pede e na hora que ele pede, a Toyota compreendeu que nenhum sistema produtivo tem condições de ser continuamente responsivo, ao girar ordens, sem se criarem problemas de sobrecarga de recursos e qualidade. Para melhorar isso, foi iniciada a prática de se calcular a demanda de um determinado produto no longo prazo, girando a produção de forma constante e nivelada, no nível dessa demanda de longo prazo. Desse modo, surgiu o heijunka, na Toyota (Araújo, 2009). 19 O heijunka busca alimentar uniformemente a produção, ao mesmo tempo que atende à demanda dos clientes por vários produtos. Esse método otimiza os recursos necessários para a produção, reduzindo ao máximo a variância das quantidades produzidas. O sistema Toyota de produção utiliza o heijunka para resolver as oscilações causadas pela demanda do cliente, montando vários modelos em cada lote, garantindo assim um estoque de produtos proporcional às mudanças na demanda. Por exemplo, o heijunka pode ser usado para evitar o efeito chicote causado pela instabilidade da demanda. Na Figura 13, podemos observar a comparação de uma demanda variável com uma demanda constante. Figura 13 – Demanda variávele demanda nivelada Fonte: Elaborado com base em Rother; Harris, 2002. Fazendo uma analogia com a história do coelho e da tartaruga, o heijunka busca trabalhar como uma tartaruga, em ritmo constante, garantindo a entrega dos produtos no tempo, quantidade e local certos, diferentemente do coelho, que dispara na frente durante a corrida, porém o faz de forma instável, com manifestação de picos e baixas de velocidade na sua produtividade, o que gera que muitos recursos sejam sobrecarregados, em alguns momentos, e subutilizados, em outros. 20 5.1 Nivelamento da produção O nivelamento da produção ou do volume pressupõe a distribuição de uma carga de trabalho constante em relação à quantidade de produtos produzida em diferentes períodos de trabalho (diário, por turno, semanal etc.). Segundo Niimi (2004), para solucionar o nivelamento de volume é necessário reunir todos os pedidos de um período (dia, semana ou mês), realizando a sua divisão igualitária no tempo, para se conseguir nivelar a produção. Apesar de não se obter uma linha reta de produção, os seus altos e baixos possuem uma menor variação e serão mais previsíveis. Para determinação da quantidade de produtos a ser produzida por dia, a quantidade de produção necessária no período é dividida pelo total de dias desse período. Na Figura 14, podemos observar uma produção sem nivelamento e outra, nivelada. Figura 14 – Comparação entre processos sem nivelamento e com nivelamento O ponto que dificulta a obtenção da produção nivelada é a redução dos tempos de setup, pois, para conseguir a redução do lead time, é necessária a diminuição desses tempos, possibilitando minimizar os tamanhos dos lotes (Monden, 1998). Segundo Araújo (2009), isso representa que, para se manter o volume de produção, é preciso se reduzir os tempos de trocas entre os diferentes produtos para que o mix desses tenha variação ao longo do tempo, alcançando assim o nivelamento de produção e produtos. O nivelamento de produtos é conhecido também como mix de produção, que é uma tentativa de aumentar a frequência de produção de itens, em um determinado período. As mesmas quantidades semanais por item devem ser divididas pela quantidade de dias de produção, para que seja possível se determinar sua demanda diária e todos os itens sejam produzidos todos os dias 21 e não mais em grandes lotes que ocupam tantos recursos com um mesmo produto. Na Figura 15, podemos observar esse comportamento e a diferença entre se trabalhar com linhas exclusivas e linhas únicas. Figura 15 – Exemplo de nivelamento da produção com quatro modelos Essa combinação de itens diferentes utilizando o nivelamento garante, muitas vezes, o fluxo contínuo da produção e a demanda nivelada dos recursos produtivos. Quanto maior o grau de nivelamento, maior a flexibilidade do sistema; com isso, torna-se necessária a redução dos tempos de setup (Ghinato, 2000). O segredo do nivelamento por produto é se encontrar a menor medida de lote possível e necessária para amenizar a produção e aumentar a flexibilidade do sistema. 5.2 Heijunka box O heijunka box, também conhecido como caixa de nivelamento, é uma ferramenta utilizada para nivelar o mix e o volume de produção, distribuindo o kanban (cartão) dentro de um setor ou célula em intervalos fixos (Léxico, 2007). Na Figura 16, temos um exemplo de heijunka box em que cada linha horizontal representa um tipo de produto e cada coluna vertical representa intervalos de tempo idênticos para a retirada ritmada do kanban. 22 Figura 16 – Exemplo de heijunka box Fonte: Léxico, 2007. No exemplo da Figura 16, o turno se inicia às 7 horas e o intervalo das retiradas de kanban é de 20 minutos cada. Essa é a frequência com que o responsável pelo abastecimento retira o kanban da caixa e o distribui para os processos de produção. Cada compartimento representa o tempo de fluxo de material e informação, e o kanban, nos compartimentos, representa um passo de produção, para um determinado tipo de produto. Esse passo é definido por meio do pitch, que é o tempo takt multiplicado pela quantidade de itens numa embalagem. Na Figura 16, podemos observar que, em relação ao produto A, o pitch é de 20 minutos e há 1 kanban, nos compartimentos, para cada intervalo de tempo. No produto B, o passo é de 10 minutos e, nesse caso, há 2 cartões kanban em cada compartimento. No produto C, há um pitch de 40 minutos e, por isso, há 1 cartão kanban intervalado em cada compartimento. Os produtos D e E compartilham um processo de produção com pitch de 20 minutos e uma proporção de demanda para o produto D versus para o produto E equivalente a 2:1. Por isso, há 1 kanban para o produto D nos 2 primeiros intervalos do turno e 1 kanban para o produto E no terceiro intervalo, e assim sucessivamente (Léxico, 2007). É possível observar que o heijunka box nivela, de forma consistente, a demanda em incrementos de tempo curtos (em vez de liberar um turno, dia ou 23 semana de demanda para o processo) e nivela a demanda por mistura (garantindo por exemplo que os produtos D e E sejam produzidos em uma proporção constante, mas com tamanhos de lotes pequenos). De acordo com Silva e Pasqualini (2016), o heijunka box também é chamado de gerenciamento visual, pois com ele podemos obter algumas informações como: • o estoque de cada produto, a qualquer instante; • se a produção está atrasada ou adiantada; • quando fazer um novo pedido de material; • se está se trabalhando com estoque demais ou de menos; • situações de falta de componentes. O heijunka, juntamente com o kanban, são ferramentas indispensáveis para uma produção puxada eficiente. FINALIZANDO Nesta aula, estudamos a gestão visual, que é uma das ferramentas com maior importância para dar suporte aos líderes de uma manufatura enxuta, pois permite a todos saberem como andam as coisas, e de forma visual, facilitando o andamento dos processos. Vimos, também, que os dispositivos poka yoke auxiliam na obtenção da qualidade e padronização dos produtos fabricados. Foi possível perceber que o fluxo contínuo é uma das premissas para se iniciar um projeto de manufatura enxuta, pois com ele é possível enxergar o andamento das atividades e reduzir desperdícios. O SMED foi abordado, também, como uma ferramenta que contribui para a redução do tempo de setup: quanto mais rápido for um setup, mais tempo a máquina estará disponível para um processo. E, por último, analisamos o heijunka, que é uma ferramenta que ajuda a distribuir o volume e o mix de produção de forma equilibrada, no tempo. 24 REFERÊNCIAS ABAD, S. Entendendo as ferramentas lean de gestão visual. 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