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Erupção dentária (Martins et al., 2005) A erupção dentária é uma das etapas de todo um fenômeno que se estabelece particularmente com o rompimento do pedículo que une o germe dentário à lâmina dentária na fase de campânula (odontogênese) e acompanha por toda a vida do órgão dentário, passando por um processo de migração intraóssea para uma posição funcional na cavidade bucal, até o momento de sua perda. A definição mais recente, é a de que a erupção dentária é "o processo pelo qual o dente se desloca do local onde inicia o seu desenvolvimento - a cripta óssea - até alcançar o plano oclusal funcional". Fases da erupção Compreende três fases distintas: pré-eruptiva, eruptiva ou pré-funcional e pós- eruptiva ou funcional. Uma outra classificação do processo de erupção dentária foi criada com base no fato de que na fase eruptiva há mudanças tanto na velocidade quanto nas estruturas envolvidas no processo. Assim, os autores dividem o processo de erupção em cinco fases: movimentação pré-eruptiva (acomodação dos germes dentários), erupção intraóssea (deslocamento do germe em direção à cavidade bucal, início da formação radicular), penetração na mucosa (a velocidade de erupção se torna mais rápida), erupção pré-oclusal (Forças musculares e hábitos podem interferir nessa fase de erupção) e erupção pós-oclusal (processo lento, que continua durante a vida toda). Fase pré eruptiva Estende-se desde o rompimento do pedículo e início da diferenciação do germe dentário até a formação completa da coroa (fase intraóssea). Durante essa fase, uma série de movimentos e adaptações das estruturas de suporte tem lugar. Inicialmente, existe um grande espaço entre os germes dentários, mas com seu crescimento rápido os dentes passam a ficar aglomerados, especialmente na região de incisivos e caninos, esse apinhamento é aliviado pelo crescimento ósseo. Para manter uma relação constante com os maxilares, os germes dentários se movem para oclusal (para compensar o aumento em altura) e vestibular (para compensar o aumento em largura). Esses movimentos são chamados de movimentos de corpo, em que todo o germe dentário se move por completo. Outro movimento importante nessa fase é o excêntrico no qual parte do germe dentário em desenvolvimento permanece estacionado, enquanto o restante continua a crescer, levando a uma mudança em seu centro. Concomitantemente, ocorrem reabsorções ósseas que alteram a forma da cripta óssea para acomodar o germe dentário que está sofrendo modificação em sua forma. Esse tipo de movimento explica, por exemplo, como os incisivos decíduos mantêm sua posição superficial enquanto a maxila e a mandíbula crescem em altura. Histologicamente, a fase pré-eruptiva é refletida pelo desenvolvimento máximo do órgão do esmalte, pela formação de tecidos duros e pela remodelação da parede da cripta óssea. Os germes dentários estão cercados por tecido conjuntivo frouxo do saco dentário e pela cripta óssea. Os ameloblastos diminuem em altura, ocorre reabsorção osteoclástica sobre a superfície da cripta óssea na frente do dente em desenvolvimento e neoformação óssea na parede posterior, levando ao deslocamento de todo o germe dentário (movimento integral). Na dentição decídua, esse processo ocorre entre a sétima e a 10ª semanas de vida intrauterina. Os molares permanentes também se movem de modo considerável a partir do local de sua diferenciação inicial, sendo que os superiores se desenvolvem na tuberosidade da maxila, em princípio, com suas superfícies oclusais voltadas distalmente e giram apenas quando a maxila cresce de maneira suficiente para fornecer o espaço necessário. Já os molares inferiores desenvolvem-se com suas superfícies oclusais inclinadas mesialmente e ocupam posição vertical quando o espaço se toma disponível. Fase eruptiva Neste período, os dentes estão ainda dentro dos ossos da maxila e mandíbula em fase de crescimento e se movem em direção ao plano oclusal, também ocorre a formação das raízes e do ligamento periodontal. Com a erupção contínua, a gengiva e o sulco gengival migram no sentido da raiz deixando o dente descoberto de epitélio. A migração gengival ocorre até que o dente entre em contato oclusal com o seu antagonista. O ligamento periodontal se desenvolve só após o início da formação da raiz e está em constante remodelação, a fim de permitir o movimento dentário eruptivo. O remodelamento das fibras periodontais é realizado pelos fibroblastos que, de forma simultânea, sintetizam e degradam as fibrilas colágenas quando necessário. Nessa fase, o principal movimento é o excêntrico, e, ainda, pelo próprio desenvolvimento do germe dentário ocorrem movimentos de acomodação com inclinações para vestibular, lingual, mesial e distal, e movimentos de rotação. Fase pós-eruptiva Inicia-se quando o dente entra em oclusão com seus oponentes e termina com a exfoliação do dente decíduo ou de sua remoção quando este permanece retido por longo período na cavidade bucal. Os movimentos dentários pós-eruptivos visam manter a posição do dente, enquanto os ossos basais continuam a crescer ao mesmo tempo que compensam os desgastes oclusais e proximais. O movimento principal ocorre em direção axial para compensar o aumento da maxila e da mandíbula em altura. É realizado pelo depósito ativo de osso na crista alveolar e na base do alvéolo. O ligamento periodontal de um dente em função, como o dente em erupção, tem alta capacidade de remodelação e também possui fibroblastos que simultaneamente sintetizam e degradam o colágeno. Fatores que influenciam na erupção Cada dente começa a se mover em direção oclusal aproximadamente quando a coroa clínica tiver completado a sua calcificação. A erupção dentária parece estar mais associada com o estágio de formação radicular do que com a idade cronológica ou esquelética da criança. Na época da erupção clínica cerca de ¾ da raiz estão formados, sendo que o dente alcança a oclusão antes do desenvolvimento radicular completo. Aproximadamente aos quatro anos todos os dentes decíduos completam sua formação com o fechamento dos ápices radiculares dos segundos molares. Determinantes celulares, moleculares e genéticos da erupção dentária. Sabe-se que ocorre a interação de osteoblastos, osteoclastos e folículo dentário com a participação de genes reguladores que codificam vários fatores de transcrição, protoontogenes e fatores solúveis. Algumas moléculas envolvidas na cascata sinalizadora da erupção, como a CSF-1 e a MCP-1 estão presentes no folículo dentário. Essas moléculas recrutam células mononucleares (precursoras de osteoclastos) no folículo dentário antes do início do processo eruptivo iniciar. Tais células, posteriormente, se fundem sob a ação de fatores de transcrição (c-fos e NFkB) e formam osteoclastos, que reabsorvem osso alveolar, formando uma via de acesso para o dente erupcionar. Algumas moléculas potencializam a expressão gênica da MCP- 1 e CSF-1, como a IL-1alfa e PTHrP. Os osteoblastos também participam do processo eruptivo, sinalizando a formação dos osteoclastos, principalmente no local da erupção. Crianças amarelas apresentam atraso no irrompimento dos dentes anteriores e precocidade dos posteriores em relação às crianças brancas. Outros estudos confirmaram a influência racial. Em crianças pretas, os dentes permanentes irrompem mais cedo do que nas brancas, numa média de um ano a um ano e meio antes. Ao contrário do que ocorre na erupção dos dentes permanentes, a maioria dos autores relata que a erupção dos dentes decíduos ocorre ligeiramente mais cedo nos meninos do que nas meninas. Fatores ambientais: socioeconômicos, nutricionais e de urbanização A nutrição é determinante no desenvolvimento dos tecidos dentários, sendo a base para o estabelecimento da saúde bucal e dental adequada. Os nutrientes da alimentaçãopodem influenciar os tecidos dentários em dois períodos de desenvolvimento: pré-eruptivo e pós-eruptivo. No primeiro período, durante a formação e mineralização da matriz orgânica, e, no segundo, para completar o processo de maturação do esmalte depois que o dente emergiu no meio bucal. Em geral, a desnutrição está relacionada à carência das vitaminas A, C e D. Fatores sistêmicos que afetam a erupção O padrão de erupção dos dentes decíduos é menos vulnerável à maioria dos fatores de ordem sistêmica se comparado à dentição permanente. Disfunções endócrinas, tais como hipopituitarismo, hipotireoidismo, gigantismo, acromegalia juvenil, cretinismo, acondroplasia, mixedemia juvenil, hipogonadismo e outras encontram reflexos nocivos para a erupção dentária, particularmente atrasando a erupção da dentição permanente. As deficiências dos hormônios da tireoide e hipófise devem ser consideradas como uma das possíveis causas do retardo da erupção. A dentição é atrasada em todas as fases, incluindo a erupção e a exfoliação dos dentes decíduos, bem como a erupção dos permanentes. A prematuridade também traz reflexos durante a erupção dos dentes decíduos. Como a erupção está relacionada com certo desenvolvimento físico, crianças com menos idade gestacional ao nascimento e, portanto, com menos peso e mais problemas sistêmicos, tendem a apresentar erupção atrasada dos primeiros dentes decíduos. Crianças com peso superior a 4kg ao nascimento tendem a ter erupção dos dentes adiantada. Fatores locais que afetam a erupção da dentição decídua Durante o processo de erupção, o espaço folicular em torno da coroa do dente pode se encher com fluido tissular e produzir tumefação flutuante na crista alveolar. Essa formação é denominada cisto de erupção. Quando esse cisto é preenchido por sangue (coagulação do sangue decorrente da compressão dos vasos durante a destruição do colágeno), a área elevada toma-se azulada ou púrpura e, nesse caso, passa a ser designado hematoma de erupção. É raro a criança sentir desconforto, mas a presença de cistos pode dificultar a erupção do dente. A anquilose é uma alteração de erupção na qual a continuidade do ligamento periodontal está comprometida. O dente fica abaixo da linha de oclusão e estático, porém, os outros dentes continuam o processo de erupção, causando a impressão que esse dente anquilosado está submerso. A etiologia da anquilose leva a crer que segue um padrão hereditário. A anquilose extensa de um dente decíduo pode alterar sua exfoliação, bem como a erupção do seu sucessor permanente. Outro fator a ser considerado são os dentes inclusos que não irrompem por perda da força eruptiva, algumas vezes, decorrentes de traumatismos na região afetada; já os impactados não o fazem devido à presença de uma barreira mecânica no seu trajeto eruptivo. Se o dente decíduo for removido quando ainda houver grande quantidade de osso sobre o dente permanente., este sofrerá retardo em sua erupção. Se for removido no período de dentição mista e com perda óssea extensa, o permanente terá sua erupção acelerada. Cronologia e sequência de erupção dos dentes O início da calcificação dos dentes decíduos ocorre por volta do quarto mês de vida intrauterina, e no sexto mês de vida fetal aproximadamente todos os dentes decíduos já iniciaram sua calcificação, finalizando-a quando a criança está com cerca de um ano de vida. Já a calcificação dos dentes permanentes tem início ao nascimento da criança, com o primeiro molar. O estágio eruptivo da dentição decídua estende-se, em média, do sexto ao trigésimo mês de vida da criança. Por volta dos seis a oito meses de idade, inicia-se a erupção dos incisivos centrais, seguidos posteriormente pelos incisivos laterais, primeiros molares, caninos e segundos molares, sendo que, de maneira geral, os inferiores antecedem os superiores. Inferior Superior Dente decíduo (meses) Incisivo central 8 10 Incisivo lateral 13 11 Primeiro molar 16 16 Canino 20 19 Segundo molar 27 29 Dente permanente (anos) Incisivo central 6-7 7-9 Incisivo lateral 7-8 8-9 Canino 9-11 11-12 1º pré-molar 9-11 10-11 2º pré-molar 10-12 10-12 1º molar 6-7 6-7 2º molar 11-12 11-12 3º molar 17-30 17-30 Erupção dos dentes decíduos e a sintomatologia decorrente desse processo Existe uma variação muito grande de sintomas gerais supostamente associados com o irrompimento de dentes decíduos, tais como febre, falta de apetite, erupção cutânea, coriza, aumento da salivação, diarreia fraca e outros. Muitas vezes, a criança muda seu comportamento, necessitando de colo mais constantemente e aumentando a reação de medo a estímulos inofensivos. Com relação à febre (se for baixa, em caso de febre alta, outras causas devem ser pesquisadas) como sintoma que pode aparecer no momento em que o dente penetra a mucosa bucal, a liberação de IgE a partir das células do epitélio reduzido do esmalte pouco antes da sua fusão com o epitélio oral pode desencadear uma reação de hipersensibilidade local que, às vezes, provoca febre. A salivação excessiva pode estar relacionada diretamente com a dor e o desconforto experimentados pela criança no período de erupção ou, também, por que ocorrem mudanças na qualidade da saliva, acompanhadas por maturação recente das glândulas salivares, aumentando sua viscosidade e dificultando a deglutição. Outro sintoma comum de ser observado durante a erupção dos dentes decíduos é a diarreia, acompanhada de febre e irritabilidade. Sono agitado, alterações no hábito de despertar à noite ou mesmo sono diurno também são situações frequentemente encontradas. Poucos dias antes do irrompimento do dente na cavidade bucal ocorre, em geral, edema local e eritema gengival. Sintomas como vômito e tosse surgem em baixa porcentagem e quase nunca como sintomas isolados. O corrimento nasal é registrado mais como um distúrbio que aparece devido à baixa resistência a doenças. Em pouquíssimos casos há relato de urina com odor forte, coceira auditiva e dificuldades de movimentos. A presença de irnunoglobinas ao redor dos tecidos adjacentes ao dente em erupção antes da maturação dos ameloblastos, as proteínas da matriz do esmalte em formação determinam uma reação imunológica com acúmulo de células mastócitas ao redor do dente em erupção. A interação de imunoglobina e proteínas da matriz e células mastócitas é capaz de produzir reação de hipersensibilidade. Se permitirmos à criança mastigar um mordedor limpo, o processo de erupção será acelerado, os mordedores devem ser de material apropriado colocados na geladeira (na parte inferior), pois provocam isquemia na gengiva, diminuindo o desconforto. Segundo a Food and Drug Administration (FDA), soluções orais de lidocaína a 2% não devem ser utilizadas para tratamento de bebês com dores associadas à erupção dentária, sob o risco de ocasionar danos graves, podendo levar à óbito. Há relatos de reações adversas em crianças de cinco meses a três anos e meio. Além disso, por esses medicamentos serem vendidos sem necessidade de prescrição médica e por geralmente não haver controle nas quantidades de produto aplicadas, esses podem ser diluídos na saliva e deglutidos pelo bebê, aumentando o risco de reações adversas. Entre as medidas que podem ser adotadas para diminuir o desconforto, os responsáveis podem oferecer objetos frios para a criança morder ou mastigar, massagear as gengivas com os dedos e oferecer alimentos gelados para estimular a mastigação. Mães que amamentam também podem oferecer picolés de leite materno. É comum crianças com quatro meses de idade já iniciando a erupção dentária e crianças com um ano e três meses de vida que ainda não apresentam dentes erupcionados. Estas estão dentro de um padrão de normalidade; não se pode esquecer de que, do ponto de vista psicológico, os dentes erupcionam quando a criança necessita deles. O principalaspecto psicológico da dentição decídua está na mudança da atitude passiva de recebedor, em que a criança não realiza atos voluntariamente por não ter consciência, para o ativo destruidor, passando a agir de acordo com a sua intenção por poder realizar movimentos voluntários, conhecendo seu ambiente imediato. Freud exemplifica essa fase como a independência da mãe, na qual a criança pode liberar sua agressividade com o ato de morder, mastigar e se alimentar sozinha. A partir de um ano e quatro meses de idade deve-se obter radiografias para observar possíveis alterações. Em casos de retenção prolongada do dente, deve-se realizar a ulectomia, deixar livre a sua borda, que este erupcionará rapidamente. Caso isto não ocorra, tal dente deve ser condenado para evitar a anquilose dentoalveolar, que impede a erupção do dente permanente. MARTINS, A. L. C. F. et al. Erupção dentária. Odontopediatria na primeira infância, 2005.