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Sumário APRESENTAÇÃO .......................................................................7 GESTÃO ESTRATÉGICA ORGANIZACIONAL: Aplicação de um Planejamento Estratégico ................................8 Adelar Francisco Baggio GESTÃO ESTRATÉGICA DE PESSOAS: Dois casos de Gestão de Pessoas sob a ótica de seus gestores ... 39 Lizandra Forgiarini GESTÃO ESTRATÉGICA NO MARKETING: Um Estudo sobre Satisfação de Expositores em Feiras Simone Beatriz Nunes Ceretta Lurdes Marlene Seide Froemming GOVERNANÇA CORPORATIVA: caminho estratégico para a perpetuidade organizacional .........95 Daniel Knebel Baggio GESTÃO ESTRATÉGICA NA ÁREA RURAL: O método de Particionamento da gestão das propriedades ...117 Leandro Tiago Sperotto CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................141 7 APRESENTAÇÃO Numa época em que a competitividade está sendo o diferencial entre as organizações, independente de serem públicas ou privadas, rurais ou urbanas, tem se discutido muito, no meio acadêmico, as diferenças que a Gestão Estra- tégica tem feito não só nos ganhos financeiros, mas, também, na perpetuidade das organizações, na melhoria do ambiente de trabalho entre outras questões. Por isso, um grupo de professores da área de gestão, de duas instituições de ensino na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, após discussões sobre o assunto, decidiram contribuir com a sociedade, publicando um livro, no qual, cada um possa dar sua parcela no que se refere à Gestão Estratégica. Primeiramente, serão trabalhadas as questões fundamentais do Planeja- mento Estratégico, quando o professor Adelar Francisco Baggio apresentará, de forma didática, o processo de implantação de um Planejamento Estratégico, inclusive com dicas que dão mais praticidade a este trabalho. Em seguida, a professora Lizandra Forgiarini nos traz a visão dos dire- tores de duas empresas: uma no Brasil e outra na Espanha sobre a gestão em- presarial e a relação com as pessoas dessas instituições. Logo após, temos a visão da Gestão de Marketing feito nas feiras de exposições, muito bem apresentada pelas professoras Simone Beatriz Nunes Ceretta e Lurdes Marlene Seide Froemming, que fazem um estudo sobre a sat- isfação dos expositores em Feira de Negócio bem como estratégias a serem uti- lizadas para melhor proveito do evento e o consequente desenvolvimento local. A próxima contribuição é feita pelo professor Daniel Knebel Baggio, que apresenta uma exposição sobre a Governança Corporativa e sua importância para o processo de sucessão empresarial, discutindo questões de cenários e re- lacionamentos empresariais. Por fim, o professor Leandro Tiago Sperotto apresenta um método de Gestão Estratégica na área rural, por meio de divisão em setores de gestão, o que ele chama de particionamento; este método pode ser aplicado em consulto- rias rurais ou pelos próprios agricultores em pequenas propriedades. Espera-se que estas contribuições ecléticas (não antagônicas), sobre Gestão Estratégica, auxiliem os acadêmicos e empresários em suas tomadas de decisões em busca de melhoria na competitividade. 8 9 GESTÃO ESTRATÉGICA ORGANIZACIONAL: Aplicação de um Planejamento Estratégico –––––– Adelar Francisco Baggio INTRODUÇÃO Este artigo descreve os aspectos fundamentais do planejamento estraté- gico organizacional. Este tipo de planejamento está sendo utilizado pelas organizações in- dustriais, comerciais e de serviços há mais de cinco décadas. Atualmente, está sendo adotado em quase todos os países. Ao longo da história sofreu modificações e aperfeiçoamentos. A abordagem atual trata o planejamento estratégico como uma das seis funções da gestão organizacional e como técnica acoplada à administração es- tratégica e à Governança Corporativa. Ocorre, também, uma estreita articula- ção entre o planejamento estratégico e o Balanced Scorecard – BSC. Este artigo se constitui de sete partes: a primeira disponibiliza informa- ções preliminares relacionadas com a temática; a segunda apresenta a con- ceituação e importância do planejamento estratégico; a terceira apresenta a metodologia de elaboração do planejamento estratégico; a quarta apresenta o processo de construção da estratégia associativo-empresarial; a quinta parte trata da implantação da estratégia associativo-empresarial: mudando para so- breviver e crescer; a sexta parte aborda o controle da execução da estratégia associativo-empresarial; e, a sétima e última parte disponibiliza algumas infor- mações complementares. PRIMEIRA PARTE – INFORMAÇÕES PRELIMINARES O planejamento estratégico é uma técnica administrativa que vem sen- do muito utilizada nos empreendimentos públicos e nos privados. Ao longo dos anos foi aperfeiçoada e, em muitos casos teve expressivas adaptações para ajustá-la à realidade específica de organizações e dos diferentes paradigmas da administração. O planejamento estratégico foi adotado, principalmente, pelas grandes empresas. Seu uso nas pequenas e médias empresas não é muito comum, em- bora nos últimos anos, tenha sido introduzido por um número significativo de médias empresas. São muitas as razões apresentadas pelos empresários para não adotarem esse estilo de planejamento. Para algumas delas: é muito complexo; representa 10 alto custo; vai ”engessar” a gestão da empresa; as assessorias técnicas para sua elaboração cobram valores muito altos e finalmente, sua empresa está funcio- nando bem e não se faz necessário mudar a estratégia utilizada. Algumas de nossas ações necessitam de planejamento, outras não. Reco- menda-se o uso do planejamento quando lidamos com situações complexas, que demandam significativos recursos financeiros e estejam marcadas por ris- cos. O planejamento é um fator importante para racionalizar o processo de gestão na busca do bom desempenho nos negócios. Todos os gestores utilizam o planejamento como ferramenta para o seu trabalho. Alguns utilizam o planejamento informal (intuitivo), outros o planejamento formal. Planejamento informal “(...) geralmente, é obra de uma só pessoa; pode ou não resultar num conjunto de planos por escrito – mas, muitas vezes, não resulta; geralmente tem um horizonte temporal relativamente curto e um tem- po de reação relativamente curto; baseia-se na experiência passada, no “pal- pite”, no julgamento e na reflexão de um administrador”. (STEINER e MINER, 1981, p.100) Planejamento formal é “(...) estabelecer com antecedência as ações a ser- em executadas e definir as correspondentes atribuições de responsabilidade em relação a um período futuro determinado, para que sejam alcançados satisfato- riamente os objetivos por ventura fixados para uma empresa e suas unidades”. (SANVICENTE e SANTOS, 1983, p.16) Planejamento formal é o “conjunto de processos, compostos por téc- nicas e métodos de análise, escolha de objetivos e previsão de futuro em uma dada organização com avaliações periódicas”. (CASTOR e SUGA, 1988 p. 26) “O planejamento formal utiliza métodos e técnicas específicas para análise, escolha de objetivos e previsão de futuro de uma dada organização, tendo avaliações periódicas”. (BAGGIO, 2009, p.11) Os conceitos de planejamento convergem em apontá-lo como ferramen- ta de suporte ao processo decisório das organizações, direcionando, de forma racional, as opções necessárias para proteger a organização das influências des- favoráveis e potencializar as oportunidades e os seus pontos fortes. Pode haver maior ou menor participação dos colaboradores nos proces- sos de elaboração e de execução do planejamento nas organizações. Muitos administradores de organizações acham que uma vez feito o planejamento tudo está resolvido; é um grande engano, pois o planejamento é uma das partes do processo de gestão; é a primeira etapa; as demais são: orga- nização, liderança, execução, acompanhamento e avaliação. Nem todos os executivos são simpáticos ao uso do planejamento no pro- cesso de construção da estratégia organizacional.Existem, fundamentalmente, três modos de construção da estratégia de 11 um empreendimento e em cada um deles o planejamento é tratado de maneira diferente. São eles: modo adaptativo, modo empreendedor e modo do plane- jamento. O modo empreendedor ocorre quando o principal cargo é ocupado por uma pessoa de marcante e inquestionável liderança, com grande capacidade de motivação e de identificar oportunidades no mercado. Não se atém muito aos números e apresenta permanentemente desafios aos gerentes, com vistas a aproveitar oportunidades do mercado e o poten- cial dos colaboradores. Geralmente não utiliza o planejamento formal ou es- tratégias deliberadas para a condução da empresa: tem grande tino comercial; grande facilidade de convencimento dos órgãos superiores da organização; bom e intenso relacionamento com a mídia e é considerada pela população como uma liderança local, e muitas vezes, regional, estadual e nacional. As pessoas que com ela trabalham na empresa, têm grande admiração e não questionam suas iniciativas e decisões. Têm, também, grande esperança nela. Os grandes problemas, nesse caso são: como fazer a sua substituição e quando tomar decisões erradas que resultam em grandes prejuízos para a or- ganização. O modo adaptação é utilizado quando existem dois ou mais sócios que são proprietários com a mesma quantidade de cotas ou ações e não existe as- cendência de um sobre os outros. Isso ocorre, por exemplo, quando dois ou mais irmãos são proprietários de uma mesma empresa e possuem o mesmo número de cotas de capital; têm o mesmo sangue e o mesmo capital. Normalmente, nessas organizações são realizados muitos eventos e re- uniões informais para as pessoas se encontrarem e debaterem assuntos de in- teresse da organização. A união e a atuação conjunta dos sócios ocorrem de forma intensa quan- do existe uma ameaça externa a elas. O modo planejamento ocorre quando a alta administração acredita na análise do ambiente e de cenários, confia nos seus gerentes para proporem e formularem a estratégia, viabilizar a descentralização do processo de tomada de decisões e valorizar o papel das pessoas que são encarregadas do planeja- mento. É o tipo de organização em que se pode utilizar o planejamento estraté- gico para formular e implementar a estratégia. São organizações nas quais a alta administração assume o papel de lider- ança política dos gerentes e demais chefias de liderança executiva. Nessas organizações é viável ter planos plurianuais e seu desdobramento em planos e metas anuais. As características básicas para estabelecer a estratégia, nessas organiza- ções, são: 12 – O analista assume o papel principal no estabelecimento da estratégia; ele ou o planejador trabalha em conjunto com o administrador, disponibili- zando técnicas da administração e de políticas de análise para projetar as estra- tégias de longo prazo; este trabalho pode ser em conjunto com outras pessoas que ocupam cargos estratégicos na organização; – O “modo planejamento” concentra-se em análise sistemática, par- ticularmente no ajustamento de custos e benefícios de alternativas competi- tivas; – O “modo planejamento” é caracterizado, acima de tudo, pela integração existente entre decisões e estratégias. SEGUNDA PARTE – CONCEITUAÇÃO E IMPORTÂNCIA DO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO Há inúmeros conceitos do planejamento estratégico. Apresentamos al- guns deles: O planejamento estratégico participativo é o processo que permite a participação e a colaboração das pessoas da empresa desde a elaboração do diagnóstico até a execução do plano. É um processo com o qual a organização se mobiliza para atingir o suces- so e construir seu futuro, por meio de um comportamento proativo, conside- rando seu ambiente futuro. O planejamento estratégico é uma técnica administrativo-gerencial que dá suporte a entidade no estabelecimento da direção a ser seguida no futuro, de forma contextualizada no ambiente. A seguir, serão apresentados aspectos relevantes que marcam o planeja- mento estratégico. As características do planejamento estratégico são: o planejamento es- tratégico parte do relacionamento da empresa com o ambiente externo; visa ao médio e ao longo prazos; é de difícil reorientação nas suas linhas básicas, pois não pode mudar o negócio seguidamente; necessita de colaboração de todos os diretores e gerentes da empresa para sua implantação; tem impacto sobre toda a empresa, pois tem caráter de globalização e profundidade; e, preocupa-se com a definição dos fins, dos meios para atingir os fins, da forma de execução, do controle e da avaliação. As condições básicas para o bom êxito do planejamento estratégico são: consciência da necessidade e decisão da diretoria para elaborá-lo; ter um clima favorável interno e não um clima de muitas dificuldades financeiras; seguir uma metodologia adequada; e, sistematizar informações sobre o ambiente externo e ambiente interno da empresa. A estrutura do planejamento estratégico é a seguinte: Aspectos mutáveis: são os aspectos que devem mudar sempre que 13 ocorram mudanças nas variáveis externas. São eles: análise do ambiente, objetivos e estratégias. Aspectos permanentes: missão, visão, negócio e princípios. Estes aspec- tos são aperfeiçoados quando é feita a revisão do plano, o que pode ocorrer de dois em dois anos. Quais as razões que tornam o planejamento estratégico importante num empreendimento?: a) Facilita a construção do pensamento estratégico; b) Cria o hábito de pensar a médio e a longo prazos; c) Ajuda a identificação, a razão de ser e a visão prospectiva da organização, no contexto das tendências e do cenário futuro; d) Explicita resultados a serem buscados e define as maneiras para alcançá-los; e) Formaliza o planejamento; f) Cria as condições para im- plantar a gestão estratégica; g) Explicita as formas de medir o desempenho da organização; h) Contextualiza a empresa no ambiente externo, favorecendo a gestão das oportunidades e ameaças; i) Identifica os pontos fortes e os pontos fracos internos da empresa; j) Cria motivação e favorecimento emocional pelo sentimento de longevidade da organização; k) Cria as condições para exercer a gestão de forma racionalizada, participativa e comprometida; l) Cria a neces- sidade de ter registro e sistematização de informações. TERCEIRA PARTE – METODOLOGIA DE ELABORAÇÃO DO PLANEJAMENTOE ESTRATÉGICO Existe metodologia consagrada para a elaboração do planejamento es- tratégico empresarial e, também, metodologia específica para a elaboração do planejamento estratégico de entidades públicas e filantrópicas. Nos últimos anos muitas organizações filantrópicas passaram a adotar a metodologia em- presarial. As etapas básicas da metodologia do planejamento empresarial são: 1.ª etapa – Decisão da alta administração do empreendimento pela adoção do planejamento e criação das condições adequadas para sua elabora- ção e implantação; 2.ª etapa – Elaboração do diagnóstico da situação atual da organização buscando caracterizar a “entidade que temos”; 3.ª etapa – Construção da estratégia associativo-empresarial buscando projetar a “entidade que queremos”; 4.ª etapa – Implantação (execução) da estratégia associativo-empresarial; 5.ª etapa – Implantação dos sistemas de acompanhamento (monitora- mento) e avaliação do plano. Objetivando disponibilizar subsídios metodológicos para a elaboração do plano construímos a Figura 1, a seguir: 14 Figura 1 – Metodologia de elaboração do planejamento estratégico. Fonte: Baggio, 2009, p.21 e 22 QUARTA PARTE – PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA ESTRATÉGIA ASSOCIATIVO-EMPRESARIAL Nesta parte, abordaremos aspectos relevantes relacionados com o diag- nóstico estratégico, referenciais estratégicos, direcionamento estratégico, ar- quitetura organizacional e orçamento. 4.1 Diagnóstico estratégico ou análise da situação existente (a organização que temos) O diagnóstico estratégico é a análise do ambiente externo e do ambi- ente interno da organização.O foco central do diagnóstico do ambiente externo são as ameaças e as oportunidades: Ameaças: São situações externas desfavoráveis e não controladas pela organização que tendem a influenciar negativamente o desempenho da orga- nização. Poderão ser evitadas ou transformadas em oportunidades desde que conhecidas em tempo hábil. Oportunidades: São situações externas favoráveis e não controláveis pela organização que tendem a influenciar positivamente o desempenho da organização. Outro aspecto importante é identificar aspectos existentes em outras entidades que poderão ser úteis para a organização: 15 Análise do ambiente interno A análise do ambiente interno da organização é feita pela identificação dos pontos fracos, dos pontos fortes e das iniciativas promissoras existentes na organização. Pontos fracos: São situações inadequadas da organização que lhe proporcionam desvantagens operacionais; aspectos que a organização encon- tra em situação pior do que a dos concorrentes. Pontos fortes: São características internas e ativas da organização que lhe dão vantagens competitivas sobre a concorrência; aspectos que a organização está melhor do que a de seus concorrentes. Sugerimos que sejam identificadas, também, as iniciativas relevantes promissoras introduzidas nos últimos anos na empresa e, as mudanças do es- tilo e filosofia da gestão que devem ocorrer para o sucesso futuro. Em casos especiais, as organizações podem utilizar outras técnicas que complementam o diagnóstico estratégico, tais como: ciclo de vida das orga- nizações, modelo do Michel Porter, etc. A Figura 2, que apresenta a matriz de estratégias, é um excelente meio para identificar o estágio em que se encontra a empresa diagnosticada e apon- tar os posicionamentos que ela deve adotar no processo e gestão. Figura 2 – Matriz de estratégias. Fonte: Rebouças de Oliveira (2004 p. 139) A organização diagnosticada se enquadra num dos quatro quadrantes. Para cada quadrante a matriz sugere as respectivas estratégias a serem adotadas: 16 a) Estratégia de Sobrevivência A estratégia de sobrevivência deve ser adotada quando não existe al- ternativa para a empresa, pois o administrador deve centrar seus esforços na redução dos custos. Os tipos que se enquadram na situação de estratégia de sobrevivência são: Redução de custos: é a estratégia mais utilizada em período de recessão. Consiste na redução de todos os custos possíveis para que a empresa possa sobreviver. Pode ser de redução de pessoal e de estoque, racionalizar compras, melhorar a produtividade, diminuir os custos de promoção e outros. Desinvestimento: é comum às empresas que se encontram em conflito de linhas de produtos e serviços, uma vez que alguns deixam de ser interessantes. Nesse momento é importante desinvestir nos negócios menos lucrativos. Liquidação do negócio: é uma estratégia usada em último caso, quando não existe outra saída a não ser fechar o negócio. b) Estratégia de Manutenção A empresa identifica um ambiente com predominância de ameaças, en- tretanto ela possui uma série de pontos fortes acumulados ao longo do tempo e que possibilitam ao administrador, além de continuar sobrevivendo, também manter sua posição conquistada até o momento. A estratégia de manutenção pode apresentar-se de três formas: Estratégia de estabilidade: esta estratégia procura, principalmente, a ma- nutenção de um estado de equilíbrio ameaçado ou, ainda, no caso de haver desequilíbrio, buscar outro ponto que recupere a estabilidade. Estratégia de nicho: neste caso, a empresa procura dominar um segmento de mercado em que atua, concentrando seus esforços e recursos para preservar algumas vantagens competitivas. A empresa dedica-se a um único produto, ou único mercado, ou única tecnologia, ou único negócio, e não há interesse em desviar seus recursos para outras atenções. Estratégia de especialização: neste caso, a empresa procura conquistar ou manter a liderança no mercado por meio da concentração dos esforços de ex- pansão numa única ou em poucas atividades da relação produtos versus mer- cados. A principal vantagem da especialização é a redução dos custos unitários pelo processamento em massa. A principal desvantagem é a vulnerabilidade pela alta dependência de poucas modalidades de fornecimento de produção e vendas. c) Estratégia de Crescimento Nesta situação, embora a empresa apresente predominância de pontos fracos, o ambiente externo está proporcionando situações favoráveis que po- dem transformar-se em oportunidades. 17 O administrador procura, nesta situação, lançar novos produtos e ser- viços, aumentar o volume de vendas, etc. Algumas das estratégias inerentes à postura de crescimento são: Estratégia de inovação: a empresa está, sempre, procurando antecipar-se a seus concorrentes mediante frequentes desenvolvimentos e lançamentos de novos produtos e serviços. Estratégia de internacionalização: a empresa estende suas atividades para fora do país de origem, de forma lenta e com muito risco. Estratégia de joint venture: trata-se de uma estratégia adotada para entrar em um novo mercado, pela qual, duas empresas associam-se para produzir um produto. Estratégia de expansão: a expansão de empresas deve ser bem planejada, senão poderão ser absorvidas por outras organizações nacionais e internacio- nais. Normalmente as empresas preferem investir na expansão em vez de inve- stir na diversificação. A empresa deve fazer suas expansões de forma que não coincida com o crescimento de outras empresas do setor. d) Estratégia de Desenvolvimento Neste caso, a predominância é de pontos fortes e oportunidades e o admi- nistrador deve procurar desenvolver a empresa. O desenvolvimento de uma empresa se faz em duas direções: podem-se procurar novos mercados e clientes, diferentes dos conhecidos atualmente, ou novas tecnologias, diferentes daquelas que a empresa domina ou haver uma combinação entre as duas. O desenvolvimento pode assumir uma ou mais das seguintes conotações: Desenvolvimento de mercados: ocorre quando a empresa procura maio- res vendas, levando seus produtos e serviços a novos mercados. Desenvolvimento de produtos ou serviços: ocorre quando a empresa busca maiores vendas mediante o desenvolvimento de melhores produtos e/ou serviços para seus mercados atuais. Desenvolvimento financeiro: ocorre quando existem duas empresas de um mesmo grupo, autônomas ou concorrentes, que se unem para formar uma terceira empresa, aproveitando as oportunidades de uma e os recursos finan- ceiros de outra. Desenvolvimento de capacidades: ocorre quando a associação é realizada entre uma empresa com ponto fraco em tecnologia e alto índice de oportuni- dades usufruídas e/ou potenciais, e outra empresa com ponto forte em tecnolo- gia, mas com baixo nível de oportunidades no ambiente. Desenvolvimento de estabilidade: corresponde a uma associação ou fusão de empresas que procuram tornar suas evoluções uniformes, principalmente quanto ao aspecto mercadológico. 18 e) Estratégias de Diversificação Horizontal e Diversificação Vertical Diversificação Horizontal: Adotando esta estratégia, a empresa aumenta seu capital pela compra ou associação com empresas similares. Diversificação Vertical: Ocorre quando a empresa passa a produzir novo produto ou serviço, que se encontra entre seu mercado de matérias-primas e o mercado do consumidor final de produtos que já fabrica. 4.2. Construção da estratégia associativo-empresarial 4.2.1 Referenciais estratégicos Os referenciais estratégicos das organizações são: negócio, missão e princípios (valores). Negócio O negócio se relaciona com o escopo econômico da missão e pode-se dizer que é a contribuição concreta que a organização presta para a sociedade. Muitas vezes se confunde com o ramo de atuação ou área de atividade da or- ganização. As oportunidades e pressões externas podem levar a uma constante re- definição do negócio da organização. As organizações podem ter negóciosem expansão, negócios em retração e negócios sendo desenvolvidos ou lançados. Existe a visão míope e a visão estratégica do negócio. A visão míope de- screve o negócio como produto ou serviço, e a visão estratégica vê o negócio sob a ótica de benefício para o consumidor. Citamos, abaixo, alguns exemplos: Figura 3 – Exemplos de visão míope e estratégia de negócios. Organização Negócio Avon Visão Míope (Produto ou serviço) Visão estratégica (Benefício) Cosmético Beleza Arisco Tempero Alimentos Cooperativa Cereais Alimentos Fonte: Pagnoncelli, 1992, p. 82 Missão Todas as organizações possuem sua missão, explicitada ou não. Missão consiste em explicitar a principal razão da existência da organiza- ção, que tipo de benefício ela pode dar e o grau de adequação em face das oportunidades e pressões externas. 19 Citamos exemplos de missão de três organizações: – “desenvolver ações de cooperação no ‘agronegócio’, com qualidade, profissionalismo e rentabilidade, buscando a satisfação dos associados, clientes e colaboradores e o desenvolvimento sustentado”; – “servir alimentos de qualidade, com rapidez e simpatia, num ambiente limpo e agradável”; – “oferecer móveis de qualidade para o mercado globalizado, com rent- abilidade e competitividade, através de gestão profissional e participativa, visando a superar as expectativas dos clientes e parceiros, com garantia de per- petuação da organização”. Valores Os valores (princípios, credo ou filosofia) são as crenças nas quais a orga- nização acredita; que ela pratica ou quer colocar em ação em face dos eventos presentes e futuros relacionados à implantação do planejamento. São os balizamentos, as regras fundamentais, a doutrina e as pressu- posições pelos quais se espera que a administração e os funcionários ajam. São costumes e pensamentos que determinam as atitudes e os comporta- mentos das pessoas em uma organização. Exemplos de valores/princípios da IBM e de uma cooperativa: IBM: a) respeito pelo indivíduo; b) o melhor atendimento do mundo ao cliente; c) busca da excelência. Cooperativa: a) honestidade; b) transparência; c) fidelidade; d) coopera- ção; e) valorização das pessoas; f) empreendedorismo. 4.2.2 Direcionamento Estratégico Expectativas futuras do(s) proprietário(s) com relação à organização É importante que o(s) empresário(s) projete(m) o tipo de organização que deseja(m) ter no futuro, pois estas projeções constituem-se nos referencias básicos para a definição dos caminhos que a organização irá percorrer nos anos vindouros. A estratégia organizacional indica o caminho a ser seguido para a opera- cionalização do plano estratégico. Constitui-se da visão, dos objetivos, estraté- gias gerais do organograma e do orçamento. Visão: a visão representa um estado futuro desejável da organização. Conceitua-se como projeção, em forma de desafio motivacional, do novo perfil desejado da organização no final do período do planejamento ou da gestão, evidenciando o diferencial ou o novo posicionamento no ranking dos concor- rentes. Representa a imagem daquilo a que o pessoal da organização aspira que ela seja ou se torne. Existem várias maneiras para definição da visão. Vamos citar algumas: 20 ser líder em..........no setor; ser referência em..........na região..........; avançar no ranking das organizações do setor; a maior meta do presidente da organização; ou, crescer..........% até o ano tal. Tendo por base as possibilidades acima, apresentamos vários exemplos de visão: a) “sermos reconhecidos como a melhor organização na entrega de correspondências e pacotes”; b) “farmácia líder em atendimento, confiança e variedade”; c) “crescer 40% até o ano 2018, com base no ano de 2014”; d) “pas- sar de 20.º para 15.º no ranking das organizações do setor”. Objetivos gerais: São resultados a serem alcançados e indicações que determinam o rumo a ser seguido. Os principais temas e formas para a elaboração dos objetivos são: a) aumentar o faturamento em x% até..........; b) atingir a rentabilidade de y% até..........; c) atingir a participação de z% do mer- cado até..........; d) aumentar a produtividade em k% até..........; e) atingir o nível q de qualidade até..........; f) atingir o lucro de.........; g) diminuir os custos em.......... Lembre-se que os objetivos possuem três aspectos: item, valor e prazo. Estratégias gerais: representam os caminhos a serem seguidos para se alcançar objetivos previamente estabelecidos. As estratégias lidam basicamente com a combinação dos recursos humanos, materiais, financeiros, tecnológicos e tempo para o alcance dos objetivos. As estratégias sempre estão relacionadas com os objetivos, pois, pode-se dizer que os objetivos representam o que queremos e as estratégias como alca- nçaremos os objetivos. Estratégia de cooperação e de competição Segundo Oliveira (2004, p.78) “estratégia é a ação ou o caminho mais adequado a ser executado para alcançar o objetivo, o desafio e a meta”. O debate sobre a estratégia de cooperação e de competitividade da orga- nização oportuniza, por um lado, o melhor entendimento do tipo de relaciona- mento e da postura que a organização deve ter com os parceiros e, por outro, o que deve ser feito pelos empreendedores para sobreviverem e crescerem no mercado. Estratégia de cooperação É a postura, o compromisso e as atividades da organização com relação às questões relacionadas com os parceiros e com os seus colaboradores e participação nas iniciativas de caráter coletivo do respectivo setor da sociedade. Hoje em dia é comum encontrar casos de ações cooperativas entre em- presas concorrentes; estamos na era da parceria. 21 Estratégia de competição É a escolha das maneiras como a organização vai sobreviver e crescer no meio da concorrência do mercado. As maneiras mais utilizadas pelas organizações são: custos baixos, diferenciação de produtos, atendimento, ponto, recursos estratégicos, qualidade, marca, etc. Uma excelente maneira de tornar a organização competitiva é adotar um sistema de gestão pela qualidade e produtividade, visando a institucionalizar a estratégia de melhorias contínuas. Isto pode ser feito com a adoção do Pro- grama Brasileiro de Qualidade e Produtividade – PBQP, ou das Normas Téc- nicas da Gestão Qualidade International Organization Standardization – ISO, definidas pela Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT, ou das Nor- mas Técnicas do respectivo setor. Em muitos Estados da Federação estão funcionando, com as parcerias público-privadas, Programas Estaduais de Gestão pela Qualidade e Produtivi- dade. No caso do Rio Grande do Sul, funciona muito bem o Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade – PgQP. Informações sobre o PgQP podem ser buscadas no site www.portalqualidade.com/pgqp. As melhorias contínuas somente serão viabilizadas se a organização ado- tar processos que oportunizem o acompanhamento permanente, sistêmico e continuado da gestão. 4.2.3 Estrutura organizacional Segundo Mintzberg (2003, p. 12), “A estrutura de uma organização pode ser definida simplesmente como a soma total das maneiras pelas quais o tra- balho é divido em tarefas distintas e, depois, como a coordenação é realizada entre essas tarefas.” Hitt e outros (2005, p. 444) assim definem estrutura organizacional: “es- trutura organizacional é a configuração do papel formal, procedimentos, me- canismos de direção e controle e processos de autoridade e tomada de decisão de uma empresa”. Oliveira (2006 p.145): “estrutura organizacional é o delineamento intera- tivo das responsabilidades, autoridades, comunicações e decisões dos executi- vos e profissionais em cada unidade organizacional, com suas funções e a rela- ção de cada parte para as demais e a organização inteira”. De forma mais simplificada, pode-se dizer que é o ordenamento e a vi- talização das responsabilidades, autoridades, comunicações e decisões das uni- dades de uma organização e suas inter-relações. A estrutura organizacional é expressaem forma de organograma. Na or- ganização existem a estrutura formal e a estrutura informal. Esta representa o relacionamento social baseado nas amizades ou interesses compartilhados 22 entre as pessoas da organização. Quando se implanta as estratégias da orga- nização é importante levar-se em consideração os dois tipos de estruturas. Existem dezenas de tipos de estruturas organizacionais. Apresentamos, a seguir, um exemplo tendo como referência a estrutura organizacional fun- cional. Figura 4 – Exemplo de organograma. Fonte: Elaborada pelos autores 4.2.4 Orçamento O orçamento deve ser elaborado pelo encarregado da área financeira da empresa para posterior aprovação pela Diretoria. Sugere-se que por ocasião da elaboração do plano estratégico ocorra a construção de um orçamento sim- plificado plurianual e com projeção para todo o período do plano. Posterior- mente, por ocasião da implantação do plano, deve ocorrer a elaboração do or- çamento anual e de forma detalhada. QUINTA PARTE – IMPLANTAÇÃO DA ESTRATÉGIA ASSOCIATIVO-EMPRESARIAL: MUDANDO PARA SOBREVIVER E CRESCER A implantação constitui-se das seguintes partes: – Aprovação do plano pelo órgão competente – Publicação do plano – Lançamento do plano internamente na organização – Internalização do plano pelos colaboradores da entidade – Definição das diretrizes anuais da direção – Elaboração dos planos anuais gerenciais (táticos) – Elaboração dos planos operacionais (setoriais) 5.1 Aprovação e internalização do plano Após a aprovação interna do plano, recomenda-se seja publicado visando 23 a sua internalização por todos os colaboradores da organização. 5.2 Elaboração dos planos anuais O planejamento estratégico sempre tem o caráter plurianual. A sua im- plantação ocorre em forma de elaboração e operacionalização de planos di- retivo-gerenciais anuais que serão construídos com base nas diretrizes anuais definidas pela diretoria da organização. As referidas diretrizes derivam dos ob- jetivos, estratégias e iniciativas do plano estratégico. Em outras palavras, pode-se afirmar que o plano anual é um “pedaço ou uma parte” do plano estratégico. Os planos anuais assumem sempre o caráter diretivo-gerencial quando na estrutura da organização existem diretores e gerentes ou o caráter gerencial nos casos em que os gerentes estão diretamente ligados à diretoria da organização. 5.3 Técnicas para elaboração dos planos anuais As principais técnicas para a elaboração dos planos anuais são: o modelo tradicional dos planos tático-operacionais, o modelo 5W1H e o modelo Bal- anced Scorecard – BSC. 5.3.1 Modelo Tradicional dos Planos Táticos e Operacionais A) Planos Táticos Planos táticos são aqueles dos ocupantes dos cargos de nível intermediário (gerentes, chefes de departamentos, etc.) da organização. São elaborados com base no plano estratégico e nas diretrizes anuais da diretoria e preparam as condições para a elaboração dos planos operacionais; enquanto o planejamento estratégico é para médio e longo prazos, os planos táticos são para curto prazo e sua duração é de um ano. Existem vários roteiros para se elaborar os planos táticos, conforme será demonstrado na Figura 5: a) O roteiro acima preenche condições e necessidades dos planos tático- operacionais das grandes organizações. Entidades de porte médio também poderão utilizá-lo. O detalhamento dos planos de cada área podem ser o seguinte: a) Diag- nóstico da situação atual da área; b) Metas de cada área, tendo como ponto de partida as diretrizes anuais da diretoria; c) Estratégias para alcançar as metas; d) Recursos necessários; e) Interação com as outras áreas e a diretoria; f) For- mas de acompanhamento e avaliação do plano da área. 24 Figura 5 – Níveis de planejamento empresarial. Fonte: Vasconcellos Filho, 1978 b) Roteiro para elaboração dos planos gerenciais para organizações que têm mais de uma gerência por ocasião de construção da primeira versão do plano estratégico: Diretrizes da diretoria: .................................................................................... Área Administrativa:...........................Gerente:........................... Data:............ O plano constitui-se da descrição dos seguintes aspectos: a) Funções da área; b) Diagnóstico da área; c) Fornecedores e clientes da área; d) Metas da área; e) Estratégias; f) Interação com as outras gerencias; g) Intera- ção com a diretoria; h) Recursos necessários para alcançar as metas (materiais, humanos, financeiros, tecnológicos); i) Acompanhamento e avaliação. O processo prevê a preparação da versão preliminar do plano, interação com a Diretoria e com as outras Gerências para depois elaborar o plano defini- tivo. Este roteiro deve ser utilizado pelos gerentes. Após seu preenchimento pelos gerentes ocorrem reuniões entre eles e com a presença da Diretoria para 25 conhecimento mútuo e ajustes de cada plano, pois existem informações que perpassam várias gerências, tais como finanças, marketing, produção, etc. O detalhamento de cada aspecto do roteiro será apresentado a seguir: A diretriz da diretoria diz respeito às orientações que a diretoria passa aos seus gerentes em termos de objetivos anuais da organização. O diagnóstico da área diz respeito aos terrenos, instalações, pessoas, produtos, equipamentos, tecnologias existentes, recursos, etc. Inclui-se, tam- bém, a identificação dos pontos fortes e pontos fracos da respectiva gerência, bem como as relações com as outras gerências. Os fornecedores e clientes da área são aqueles internos na organização que se relacionam com a gerência, como fornecedores e clientes. Assim, por ex- emplo: a tesouraria é fornecedor da contabilidade e o setor de informática é cli- ente da contabilidade. Algumas gerências têm fornecedores e clientes externos. As metas da área se referem aos desafios futuros da gerência que decorrem das diretrizes da diretoria. São os compromissos das gerências para fazer com que a organização alcance os objetivos anuais definidos pela diretoria. As estratégias constituem-se na explicitação dos caminhos a serem se- guidos para a execução das metas. A interação com as outras gerências e com a diretoria definem o tipo e a intensidade de relações com os demais gerentes e com a diretoria da organiza- ção. Atualmente, com a internet as relações e contatos ficam muito facilitados. Nos recursos materiais, humanos e financeiros incluem-se todas as in- stalações, equipamentos, veículos, pessoas e orçamento necessários, etc. para alcançarem as metas definidas no plano. No acompanhamento e na avaliação estão explicitadas as técnicas que serão utilizadas para fazer o controle e avaliação da dinâmica de trabalho e dos resultados da gerência no decorrer do ano. Recomenda-se que as chefias de setores participem da elaboração do pla- no da respectiva gerência, pois isto gera comprometimento e facilitará a elabo- ração dos planos operacionais. c) Roteiro para elaboração do Plano Gerencial para organizações com apenas um gerente (proprietário ou gerente-geral) e setores: – O gerente-geral fará plano gerencial para a diretoria, nos casos de não ser o proprietário da organização; – O gerente coordenará o processo de elaboração dos planos setoriais, nos casos em que a organização tenha setores. Sugere-se o uso do modelo simplificado, abaixo, para a elaboração do plano tático: 26 Figura 6 – Modelo simplificado de elaborado do plano tático. Fonte: Elaborado pelos autores As metas dizem respeito aos resultados buscados, as estratégias infor- mam os caminhos para se atingir as metas e, o acompanhamento diz respeito às técnicas de controle que serão utilizadas na comparação entre o planejado e o executado. B) Planos operacionais ou planos de ação Os planos operacionais, também chamados de plano de ação, são os pla- nos dos setores que visam a detalhar os planos táticos em forma de atividades que serão realizadas nos setores, com vistas a executar os planos táticos, pois é nos setoresque as metas se transformam em ação e resultado. A elaboração dos planos operacionais é de responsabilidade das respec- tivas chefias de setores, com supervisão da gerência. Normalmente, os planos operacionais têm duração de um semestre ou até menos. 5.3.2 Técnica 5W1H A técnica 5W1H apresentada no quadro a seguir, pode ser utilizada tanto para a elaboração dos planos gerenciais quanto dos planos operacionais. 27 Figura 7 – Planos operacionais ou planos de ação – 5W1H. O ideal é que na coluna “o quê”, estratégias do plano tático dos respec- tivos gerentes sejam colocadas, já que as estratégias preveem como alcançar as metas das gerências. A seguir, apresentamos um exemplo para melhor compreensão do pro- cesso de elaboração do planejamento de uma atividade de nível operacional: O quê: treinamento de vendedores; Por quê: para aumentar as receitas da organização; Como: por meio de curso técnico e reuniões de permuta de experiências; Quem: a responsabilidade de organização e execução é do setor de RH, que buscará a participação de todos os vendedores da organização e a contrata- ção de instrutores: Onde: na sala de capacitação da organização; Quando: nos dias 18 e 20 do mês “x” e 20 e 25 do mês “y” do corrente ano. Uma vez elaborado o plano, deve ser apreciado pelo gerente da área. É possível acrescentar mais uma coluna (How Much), àquela que trata do “quanto” custa a execução de cada atividade prevista na coluna “o quê”, daí a sigla passa a ser 5W2H. 5.3.3 Implantação da estratégia associativo-empresarial por meio do Bal- anced Scorecard – BSC O Balanced Scorecard é uma ferramenta de gestão organizacional que viabiliza a tradução da visão, da missão e das diretrizes gerais em objetivos, indicadores, metas e iniciativas que se fazem necessárias para a execução da estratégia. O BSC foi criado nos Estados Unidos pelos Senhores Robert S. Kaplan e David P. Norton no início da década de noventa. Atualmente, está dissemi- 28 nando na maioria dos países, tendo, inclusive, consultorias especializadas que atuam regionalmente, mas com anuência do Kaplan e do Norton. O modelo proposto pelo BSC inclui quatro perspectivas que oportuni- zam o desdobramento da visão, missão e diretrizes organizacionais. São elas: finanças, clientes, processos (processos internos) e pessoas (aprendizagem e crescimento). O BSC traduz a missão e a estratégia das empresas num conjunto abran- gente de medidas de desempenho que serve de base para um sistema de medição e gestão estratégica. As medidas representam o equilíbrio entre indicadores externos voltados para acionistas e clientes, e as medidas internas dos processos críticos de negó- cios, inovações, aprendizado e crescimento. O processo do BSC inicia com um trabalho da alta administração para traduzir a estratégia em objetivos estratégicos específicos. Nas metas financei- ras deve priorizar a receita e o crescimento de mercado, a lucratividade ou a geração do fluxo de caixa. A perspectiva do cliente deve ser clara quanto aos segmentos dos clientes e mercados pelos quais estará competindo. O BSC destaca os processos internos mais críticos para a obtenção de um desempenho superior para os clientes e acionistas. As metas de aprendizado e crescimento mostram os motivos para inves- timentos (em pessoal, sistemas e procedimentos) significativos na capacitação de funcionários, nas tecnologias e nos sistemas de informações e na melhoria dos procedimentos organizacionais. As principais vantagens do BSC são: estabelece relação de equilíbrio entre as quatro perspectivas (financeira, clientes, processos e aprendizado e cresci- mento); utiliza a relação de causa e efeito (como hipóteses) entre resultados buscados e recursos utilizados; estabelece sistema de mensuração como base das decisões; facilita entendimento da estratégia e da adoção de mudanças du- rante a implementação da estratégia; ajuda na compreensão do sentido do tra- balho das pessoas. Apresentamos, a seguir, o que representa cada uma das quatro perspec- tivas e as respectivas temáticas e indicadores que se deve dar prioridade quando da elaboração do quadro de objetivos, indicadores, metas e iniciativas, segundo Kaplan e Norton (1997, p.49 a 152), Finanças: – Envolve os objetivos e medidas de ordem contábil e financeira; – Representa a agregação de valor para os acionistas-proprietários. Clientes: – Representa a proposição de valor aos clientes visando a aumentar a satisfação dos acionistas-proprietários; analisa as ações da organização rela- 29 cionadas aos clientes e usuários dos serviços e produtos; inclui indicadores e medidas como satisfação dos serviços, participação no mercado, retenção de clientes e busca de novos clientes potenciais. Processos: – Representa melhoria de processos internos para proposição de valor aos clientes a fim de agregar valor para os acionistas-proprietários; analisa a or- ganização a partir da sua dinâmica funcional, estrutural e operacional interna; inclui os processos ligados aos sistemas administrativos e aos fluxos de comu- nicação, logística interna, qualidade dos serviços e relações entre os setores; – Os processos podem ser classificados em processos de gestão opera- cional, processos de gestão de clientes, processos de inovação e processos regu- latórios e sociais. Pessoas (aprendizagem e crescimento): – Referem-se a capacitar as pessoas e instrumentalizar a organização para dispor das competências e condições necessárias que oportunizem mel- horias de processos, a fim de propor valor ao cliente para, em última instância, agregar valor aos acionistas-proprietários; analisa as atividades ligadas às re- lações de trabalho, à administração e desenvolvimento de talentos humanos, clima e cultura organizacional, liderança, alinhamento organizacional, infor- mações, sistemas, trabalho em equipe, sistema de desempenho e remuneração; inclui medidas relacionadas à administração e ao desenvolvimento de talentos humanos, eficiência dos recursos, clima organizacional, liderança e sistemas. “O BSC do nível estratégico é o ponto de partida para a implementação do sistema, pois a partir do BSC estratégico é que serão construídos os BSCs dos planos das unidades, dos planos anuais e setoriais.” (LOBATO et al. 2003:107) O BSC funciona tendo como hipótese relação de causa e efeito. Pessoas ade- quadamente qualificadas aperfeiçoam os processos, que por sua vez, oportunizam mais vendas para os clientes e, em última instância, agregam valor aos acionistas. Kaplan e Norton (2004, p. 5) afirmam que “a organização deve medir os poucos parâmetros críticos que representam sua estratégia para a criação de valor a longo prazo”. O BSC utiliza diversos modelos de mapas visando a construir visão global de cada chefia da organização, conforme é apresentado no livro “Mapas Estra- tégicos” do Kaplan e Norton. Para facilitar a implantação da metodologia BSC, pode ser utilizado um formulário específico, elaborado em forma de matriz, contendo, por um lado, as quatro perspectivas do BSC e seu detalhamento em temáticas e, por outro, os parâmetros clássicos dos BSC: objetivos, indicadores, metas e iniciativas/ estratégias. Para cada perspectiva do BSC devem ser definidas temáticas que representam aspectos críticos relevantes da organização. 30 A explicitação dos conceitos apresentados a seguir e o contato com um exemplo concreto facilitam o processo de elaboração do plano: – Objetivo: resultado a ser buscado ou direção a ser seguida até a data estabelecida para alcançar o objetivo; – Indicador: é a referência (medida) que oportuniza medir o objetivo. Em outras palavras, é aquilo que se quer medir; – Meta: percentual ou parcela quantificada do objetivo a ser alcançado num determinado tempo; – Iniciativas/estratégias: representam as atividades e ações que devem ser executadas para alcançar os objetivos e as metas. O exemplo a seguir serve como referência: Quadro 1 – Exemplo de objetivo, indicador,meta, iniciativas/estratégias e prazo. Objetivo Indicador Meta Iniciativas/Estratégias Aumentar o número de associados nos próxi- mos anos. Número de asso- ciados. 8% a.a Preparar material so- bre empresa; Visitar organizações potenciais; Desenvolver negocia- ção; Instituir Parcerias. Fonte: Elaborado pelos autores O formulário a seguir serve de roteiro para o processo de construção do BSC Corporativo das Unidades da organização. 31 Quadro 2 – Matriz Básica do BSC. PERSPECTIVAS DO BSC O BJ ET IV O S IN D IC A D O RE S M ET A S AT IV ID A D ES / IN IC IA TI VA S/ ES TR AT ÉG IA S 1. FINANÇAS: 1.1. Satisfação do(s) proprietário(s) da empresa 1.2. Estratégia de crescimento da empresa 1.3. Aumento da produtividade 2. CLIENTES: 2.1. Satisfação dos clientes da empresa 2.2. Ampliação do mercado 2.3. Retenção de clientes 2.4. Estratégia de competitivi- dade da empresa 3. PROCESSOS: 3.1. Inovações e melhorias inter- nas na empresa 3.2. Melhorias na gestão da empresa 3.3. Integração das gerências e dos setores 3.4. Busca da excelência nos produtos e serviços 3.5. Gestão das compras 3.6. Gestão das vendas e da distribuição 3.7. Novos produtos e serviços 3.8. Informatização da empresa 4. PESSOAS: 4.1. Capacitação dos gestores e colaboradores 32 4.2. Comunicação interna e externa 4.3. Cultura de comprometi- mento e responsabilidade 4.4. Clima interno 4.5. Liderança e intraempreend- edorismo 4.6. Informações 4.7. Parcerias e alianças Fonte: Elaborado pelos autores Recomenda-se que a implantação do Plano Estratégico com uso do BSC ocorra em dois momentos distintos. No primeiro momento seja elaborado o BSC Corporativo Plurianual que vai servir de base para os planos anuais das unidades de todo o período. SEXTA PARTE – CONTROLE DA EXECUÇÃO DA ESTRATÉGIA ASSOCIATIVO-EMPRESARIAL O controle estratégico constitui-se no acompanhamento (monitora- mento), avaliação e revisão do plano. O acompanhamento e a avaliação em termos gerais significam moni- torar, avaliar e melhorar os processos da organização com vistas a alcançar as metas estabelecidas. Controle, segundo Oliveira (2004, p.265), [...] pode ser definido como uma função do processo administrativo que, mediante a comparação com pa- drões previamente estabelecidos, procura medir e aval- iar o desempenho e o resultado das ações, com a finali- dade de realimentar os tomadores de decisões, de forma que possam corrigir ou reforçar esse desempenho ou interferir em funções do processo administrativo, para assegurar que os resultados satisfaçam às metas, aos de- safios e aos objetivos estabelecidos. As finalidades dos processos de acompanhamento e de avaliação se- gundo Oliveira (1997, p. 141 e 142), são: Identificar problemas, falhas e erros que se transformam em desvios do planejado, com a finalidade de corrigi-los e de evitar sua reincidência; fazer com que os resultados obtidos com a realização das operações estejam tanto 33 quanto possível próximos dos resultados esperados e possibilitem o alcance dos desafios e consecuções dos objetivos; verificar se as estratégias e políticas estão pro- porcionando os resultados esperados dentro das situa- ções existentes e previstas; verificar se a estruturação da empresa está delineada de forma interagente com seus objetivos, desafios e metas; criar condições para que o processo diretivo seja otimizado; consolidar uma situa- ção de adequadas relações interpessoais; e proporcionar informações gerenciais periódicas, para que seja rápida a intervenção no desempenho do processo. A partir das suas finalidades, o controle estratégico pode ser utilizado, conforme Oliveira (2004, p. 267), para corrigir ou reforçar o desempenho apre- sentado; informar sobre a necessidade de alterações nas funções administra- tivas de planejamento, organização e direção; proteger os ativos da empresa (financeiros, tecnológicos, humanos, etc.) contra furtos, roubos, desperdícios, etc.; garantir a manutenção ou aumento de eficiência e eficácia na consecução dos objetivos, desafios e metas da empresa; informar se os programas, projetos e planos de ação estão sendo desenvolvidos de acordo com o estabelecido e apresentando os resultados desejados; e, informar se os recursos estão sendo utilizados da melhor maneira possível. As etapas do processo de controle são: estabelecer padrões, medir o des- empenho, comparar o desempenho com padrões e tomar atitudes de correção. O desempenho pode ser medido por métodos quantitativos e qualita- tivos. Exemplos de Mercado Quantitativos: Produção por tempo; Custo de produção; Nível de eficiência da produção; Nível de crescimento das vendas; Lucro líquido; Nível de dividendos pagos; Retorno sobre investimentos; Par- ticipação no mercado; Nível de receitas geradas pela participação no mercado; Nível de rotatividade de empregados e absenteísmo. As medições devem ser comparadas com objetivos e padrões de mercado ou definidas pela empresa. A seguir, apresentamos alguns tipos de padrões de lucratividade; de posicionamento no mercado; de produtividade; de liderança do produto; de desenvolvimento do pessoal; de atividades dos empregados; de re- sponsabilidade social; de equilíbrio entre os objetivos de curto e de longo prazos. Para haver controle estratégico eficaz é necessário que sejam utilizadas informações atualizadas, confiáveis e válidas. Os principais fatores apontados por Oliveira (2004, p. 268), que podem prejudicar a eficiência e a eficácia da empresa, são: “lentidão e deficiência das informações; insuficiência de informações; sistemas de avaliação e acompanhamento complicados; planos mal elaborados e mal implantados; frequência das informações; qualidade das informações; e, fontes das informações”. 34 Os indicadores de desempenho e de avaliação dos resultados, segundo Oliveira (2006, p 255), “devem ser estabelecidos de maneira estruturada, para que possam ser entendidos e aceitos por todos os envolvidos”. Outra maneira de avaliar o desempenho é pelo Balanced Scorecard (BSC), que toma em consideração as seguintes perspectivas: finanças, aprendizagem e crescimento, processos internos e clientes, conforme foi apresentado anterior- mente. O conhecimento da performance organizacional é fundamental para acompanhar a situação real da organização. Portanto, o empresário deve estar continuamente atento aos seguintes aspectos para manter seu empreendimento com alta performance, apontados por Pereira (2005, p. 56): “liderança e con- stância de propósitos; visão de futuro; foco no cliente e no mercado; respon- sabilidade social e ética; decisões baseadas em fatos; valorização das pessoas; abordagem por processos; foco nos resultados; inovação; agilidade; aprendiza- do organizacional; e visão sistêmica”. Sugere-se que e revisão do plano estratégico seja feita de dois em dois anos. Sempre que ocorrerem variações significativas nas variáveis externas da organização, devem-se fazer ajustes do plano, no que diz respeito à parte mu- tável. SETIMA PARTE – INFORMAÇÕES COMPLEMENTARES 7.1 Do planejamento estratégico para a gestão estratégica Os métodos, as técnicas e os sistemas de administração têm sucessivas invenções e aperfeiçoamentos. Isto resulta na sua evolução ao longo da história. É o que está ocorrendo com o planejamento estratégico. As diversas partes do planejamento estratégico estão sendo incorporadas pelo processo de gestão estratégica. A gestão estratégica tem alcance mais amplo do que o planejamento, con- forme podemos observar nas duas definições abaixo: Luiz Gaj (1987, p. 23), em seu livro Administração estratégica apresenta as seguintes diferenças entre planejamento estratégico e gestão estratégica: Planejamento estratégico – Estabelece uma postura em relação ao ambiente – Lida com fatos, ideias, probabilidades – Termina com um plano estratégico – Sistema de planejamento Administração estratégica – Acresce capacitação estratégica 35 – Acresce aspiraçõesem gente, com mudanças rápidas da organização – Resulta num novo comportamento – Sistema de ação Segundo Igor Ansoff (1991, p. 243), em seu livro Nova Estratégia Empre- sarial as diferenças são: a) Planejamento estratégico se preocupa com a tomada de decisões es- tratégicas, enquanto a administração estratégica se preocupa com a produção de resultados estratégicos: novos mercados, novos produtos e/ou novas tecnologias; parafraseando Peter Drucker, podemos dizer que o planejamento estratégico é a gestão por planos, enquanto a ad- ministração estratégica é a gestão por resultados; b) O planejamento estratégico é um processo analítico, enquanto a admin- istração estratégica é um processo de ação organizacional. 7.2. Tendências Apresentamos, a seguir, algumas tendências relacionadas com o planeja- mento estratégico: 1.ª) Substituir o uso do modelo de elaboração de planos tático-operacional pelo BSC ou outras técnicas; 2.ª) Incorporação pela administração estratégica e pela Governança Cor- porativa dos principais referenciais usados tradicionalmente no plane- jamento estratégico. 3.ª) Adoção pelas instituições dos conceitos da estratégia organizacional ou empresarial como guarda-chuva da construção do seu caminho futuro; 4.ª) Continuidade do uso do planejamento estratégico estabelecendo sua articulação com o BSC. A técnica do planejamento estratégico é utilizada para diagnosticar a situação das organizações e construir os seus referenciais estratégicos: negócio, missão, valores e visão; o BSC fornece os elementos técnicos para a implantação da estratégia. REFERÊNCIA ANSOFF, H. Igor; MCDONNELL, Edward. Implantando a administração es- tratégica. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1993. ANSOFF, H. Igor. A nova estratégia empresarial. São Paulo: Atlas, 1991. . Estratégia empresarial. São Paulo: McGraw-Hill, 1997. BAGGIO, Adelar Francisco. Planejamento Empresarial e estratégias de com- petição. Ijuí: Ed. Unijuí, 2009. 94 p. (Coleção educação a distância. Série livro- texto.) 36 . Planejamento Organizacional. Ijuí: Ed. Unijuí, 2010. 126 p. (Coleção educação a distância. Série livro-texto.) CASTOR e SUGA. Planejamento e ação planejada: o difícil binômio. ERA. RJ: FGV, 22(1): p. 102-122, mar.1988. GAJ, Luiz. Administração Estratégica. Ed. Ática: 1987. HITT, Michael A. e outros. Administração Estratégica: competitividade e glo- balização. SP: Pioneira Thomson Learning, 2005. KAPLAN, Robert S.; NORTON, David P. A estratégia em ação: Balanced Scorecard. Rio de Janeiro: Campus, 1997. . Balanced Scorecard: convertendo ativos intangíveis em resultados tangíveis. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004. LOBATO, David Menezes. e outros. Estratégia de empresas. 2. ed. Ver. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003, 144p. MINTZBER, Henry; QUINN, James Brian. O processo da estratégia. 3. ed. Porto Alegre: Bookmann, 2001. . Criando organizações eficazes: estruturas em cinco configurações. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2003. OLIVEIRA, Djalma de Pinho Rebouças de. Excelência na administração es- tratégica: a competitividade para administrar o futuro das empresas – com depoimentos de executivos. São Paulo: Atlas, 1997. . Manual de gestão das cooperativas: uma abordagem prática. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2006. . Planejamento estratégico: conceitos, metodologia e práticas. São Paulo: Atlas, 2004. . Planejamento estratégico: conceitos, metodologia e práticas. 26. ed. São Paulo: Atlas, 2009. PAGNONCELLI, Dernizo; VASCONCELLOS FILHO, Paulo. Sucesso empre- sarial planejado. Rio de Janeiro: Qualitymark Ed., 1992. PEREIRA, Giancarlo da Silva Rego. Gestão estratégica: revelando alta perfor- mance às empresas. São Paulo: Saraiva, 2005. PORTER, Michael E. Estratégia Competitiva. Rio de Janeiro: Editora Campus Ltda., 1986. SANVICENTE, Antônio Zoratto; SANTOS, Celso da Costa. Orçamento na Administração de Empresas. Atlas. 1983. 37 STEINER, George A.; MINER, Jonh B. Política e Estratégia Administrativa. São Paulo: Ed. Interciência, 1981. VASCONCELLOS FILHO, Paulo de. Afinal, o que é planejamento estratégico? Revista de Administração de Empresas FGV, vol. 18, n. 2. p. 11, abr./jun. 1978. VASCONCELLOS FILHO, Paulo de; PAGNONCELLI, Dernizo. Construindo estratégias para competir no século XXI. Rio de Janeiro: Campus, 2001. WOITCHUNAS, Lucinéia Felipin, organizadora. Planejamento Estratégico em Redes de Cooperação e Empreendimentos Associados: para além da in- tuição. Ijuí: Ed. Unijuí, 2010. 336 p. 39 GESTÃO ESTRATÉGICA DE PESSOAS: Dois casos de Gestão de Pessoas sob a ótica de seus gestores –––––– Lizandra Forgiarini INTRODUÇÃO Todos sabem, muitos sentem e a mídia reforça diariamente a ideia de que o Brasil está passando por um momento de desenvolvimento socioeconômico ímpar em sua história recente e no cenário mundial. Democracia estabelecida, cidadania em consolidação, reservas cambiais em alta, referência política entre as potências emergentes (BRIC), setor da construção civil (leia-se habitação) aquecido, moeda relativamente estável, descobertas de petróleo no pré-sal, re- cordes na produção agrícola, avanços (embora ainda tímidos) nos indicadores socioeconômicos, expectativa de investimentos com a realização da próxima Copa do Mundo em 2014 e da Olimpíada em 2016, volume de crédito, mercado interno e externo em franca expansão, carência generalizada de mão de obra – tudo isso é uma pequena amostra da situação favorável que caracteriza este país nesta década. Em situação bem diferente da brasileira podemos observar a Espanha que se caracteriza por uma crise financeira na zona do euro, originada funda- mentalmente por problemas fiscais. Alguns países gastaram mais dinheiro do conseguiram arrecadar nos últimos anos. Para se financiar, passaram a acu- mular dívidas, que resultaram em greves, índices de desemprego atingindo níveis recordes, déficit público aumentando, descrença da sociedade civil na capacidade de articulação política para superar a crise de liquidez com o euro, migração da força produtiva para outros países, queda do PIB (Produto Interno Bruto), enfraquecimento das exportações, protestos e paralisações contra o ar- rocho fiscal, dos salários e dos gastos públicos implantados para combater o déficit público e a todos os outros motivos que levaram à crise da Espanha; estas são algumas características que assolam esse país nos últimos anos. Mas, Brasil e Espanha também têm algumas coisas em comum, entre as quais, um fato que se pretende destacar aqui: embora fortemente influenciados pelo mercado globalizado e também pela política econômica e social adotada, em ambos os países as empresas e organizações continuam tomando decisões e definindo estratégias e ações que visam a garantir sua sobrevivência e com- petitividade nos respectivos mercados em que atuam. Os dois cenários são 40 nitidamente distintos. Mas como se comportam e quais as características das estratégias empresariais nesses contextos? Evidentemente não será possível analisar todo gênero de estratégias em- presariais desses dois países em situação socioeconômica distinta no contexto de uma dissertação de mestrado. Todavia, é possível, sim, se propor a fazer análise de uma pequena amostra dessa problemática que se desenha tomando por base dois casos. Assim, com a proposição desta investigação, pretende-se analisar que estratégias são adotadas na gestão dos recursos humanos em duas empresas (uma espanhola e outra brasileira) que atuam no mesmo setor de atividade, considerando as diferentes situações socioeconômicas que se verificam atual- mente nesses países. Parte-se do pressuposto que o desenvolvimento e a ma- nutenção de capital humano com capacidades estratégicas são fatores capazes de potencializar a vantagem competitiva das organizações e seu entorno op- eracional. Porém, algumas questões que se apresentam são: O contexto em que estas duas empresas estão inseridas atualmente,influencia significativamente na gestão dos recursos humanos? As estratégias adotadas em cada caso são diferentes? Evidentemente é necessário considerar que neste contexto a cultura organizacional também desempenha papel significativo. Enfim, com a realização desta pesquisa foi feito um estudo comparativo sobre as estratégias adotadas na gestão de pessoas em duas empresas do setor alimentício que atuam no Brasil e na Espanha, duas economias em situações bastante distintas. Os sujeitos envolvidos na pesquisa foram os gestores dos departamentos de recursos humanos, devido ao foco do trabalho ser sob uma visão gerencial. Além dessas fontes de informação também foram buscados subsídios em docu- mentos fornecidos pelas organizações bem como no site das empresas. 1. PROCEDIMENTOS METODOLóGICOS DA PESQUISA Em relação ao conjunto de métodos, técnica e procedimentos de que se lançou mão, para configurar a base teórica de argumentação e capturar os el- ementos de análise considerados essenciais, junto com os objetos pesquisados, cabem mencionar os seguintes aspectos: A pesquisa, no que concerne a sua natureza, se classifica como aplicada, isto é, visa a gerar conhecimentos, para aplicação prática, voltados à solução de problemas específicos da realidade. Considera-se que esta pesquisa é, principalmente, descritiva porque a análise de dados que será feita em documentos e procedimentos servirá para sugerir estratégias e interpretação de dados, de forma gerencial, que poderão proporcionar melhor uso de seus diferenciais competitivos. E também é ex- ploratória, pois envolve levantamento bibliográfico e entrevistas que serão re- 41 alizadas com pessoas que tiveram experiências práticas com o problema pes- quisado, como diretores e gerentes. No que diz respeito aos principais procedimentos técnicos utilizados no transcorrer desta investigação, cabe mencionar, inicialmente, o levantamento bibliográfico que auxiliou no alcance dos objetivos propostos na pesquisa re- alizada em material publicado em livros e artigos sobre o assunto em estudo. Também se lançou mão de uma pesquisa de campo, uma vez que foram realizadas entrevistas semiestruturadas, na qual o entrevistador segue um ro- teiro previamente estabelecido, com perguntas abertas, em encontro entre duas pessoas, a fim de que o pesquisador obtenha informações a respeito de de- terminado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional; além de fazer uso do método observacional que, conforme Gil (2010), neste estudo apenas se observa algo que acontece. O observador toma contato com a comu- nidade, grupo ou realidade estudada, mas sem integrar-se a ela, permanece de fora, caracterizando-a como não participante. Por fim, ainda cabe mencionar a utilização do método comparati- vo, já que a pesquisa foi realizada em duas organizações de diferentes países a fim de comparar sua gestão estratégica de pessoas. Os casos abordados na pesquisa são duas empresas (uma espanhola, outra brasileira), ambas do mesmo ramo de atividades e adiante explicitadas. Os sujeitos envolvidos na pesquisa foram os gestores dos departamentos de recursos humanos que, para o bom desempenho da pesquisa, exigiu-se que atendessem a requisitos mínimos preestabelecidos como tempo de emprego e conhecimento da trajetória da empresa, a fim de coletar todas as informações necessárias para a realização deste estudo, a partir de uma visão gerencial. 1.1 Competitividade, competências e aprendizagem no contexto da gestão de pessoas 1.1.2 Vantagens Competitivas como Estratégia de Gestão Tendo em vista que a estratégia serve para proteger a vantagem com- petitiva, identifica-se um problema-chave da direção estratégica da empresa que consiste em determinar como a empresa pode criar e manter vantagem competitiva que a diferencie da concorrência e a permita obter rentabilidade sustentável ao longo do tempo. A competição em dado setor é caracterizada por cinco forças básicas: a rivalidade entre concorrentes; ameaça de novos entrantes; o poder de nego- ciação dos fornecedores; o poder de barganha dos compradores; e os produ- tos substitutos, que determinam as perspectivas de lucro do setor; na visão de Porter (1999), estas cinco forças estão inter-relacionadas, isto é, atuam umas sobre as outras de forma ininterrupta, desafiando constantemente os gestores das empresas. 42 O autor enfatiza que o objetivo do estrategista é encontrar a melhor for- ma da empresa utilizar essas forças a seu favor, ou ainda, delas defender-se. No que diz respeito à ameaça de novos entrantes, esses trazem consigo o desejo de ganhar participação no mercado, o que dependerá das barreiras existentes colocadas pelos concorrentes. Se os entrantes estiverem preparados para o en- frentamento, as barreiras poderão ser altas e mesmo assim não significarão sérias ameaças para as empresas que já atuam há mais tempo no setor. O poder de negociação dos fornecedores, nesse contexto, diz respeito à elevação dos preços ou da redução da qualidade dos produtos e/ou serviços. Por outro lado, o poder dos compradores faz o papel inverso, ou seja, os clientes forçam a baixa dos preços e o aumento da qualidade e disponibilidade deles no mercado. E, por fim, os produtos substitutos que representam ameaças aos con- correntes, uma vez que seus preços são reduzidos provocando impacto direto no crescimento das empresas que concorrem no mesmo mercado, bem como na sua lucratividade. Existem, quatro conceitos básicos sobre estratégia. São eles: racional, fatalista, pragmático e relativista, que expressam implicações radicalmente diferentes no que diz respeito a “realizar estratégia”. Desses quatro conceitos básicos emergem quatro abordagens genéricas de estratégia, conforme demon- strado no Quadro 3. Quadro 1: Abordagens genéricas de estratégia. Abordagem Clássica Conta com métodos de planejamento racional. Abordagem Evolucionária Apoia-se na metáfora fatalista da evolução biológica, mas substitui a disci- plina do mercado pela lei da selva. Os Processualistas Dão ênfase à natureza imperfeita da vida humana e acomodam pragmaticamente a estratégia ao processo falível tanto das organizações quanto dos mercados. Abordagem Sistêmica É relativista, considera os fins e os meios da estratégia como ligados e acredita na cultura e nos poderes dos sistemas sociais dos locais onde ela se desenvolve. Fonte: Elaborado pela autora deste trabalho com base em Whittington, 2002 As quatro abordagens se diferenciam por duas dimensões: os resultados da estratégia e os processos pelos quais ela é levada a termo, ou ainda, para que serve a estratégia e como ela é desenvolvida. Na abordagem clássica, a estraté- gia é o processo racional de cálculos e análises deliberadas, com o objetivo de 43 maximizar a vantagem a longo prazo, vital para garantir o futuro; para os clássi- cos dominarem os ambientes internos e externos exige um bom planejamento. Whittington (2002) cita o enfoque proposto pelos evolucionistas Han- nan, Milton Freeman e Oliver Williamson, que afirmam que a estratégia no sentido clássico de planejamento racional orientado para o futuro é frequent- emente irrelevante, pois do ponto de vista evolucionário, é o mercado e não os gerentes que fazem as escolhas mais importantes. Tudo que os gerentes podem fazer é garantir que suas empresas se ajustem o mais eficazmente possível às exigências do ambiente no qual atuam, ou seja, consideram que a melhor estra- tégia é concentrar-se na maximização das chances de sobrevivência hoje. Já os processualistas concordam que o planejamento de longo prazo é fútil; mas são menos pessimistas sobre o destino das empresas que não otim- izam o ajuste ao ambiente. Para eles, os processos das organizações e dos mer- cados raras vezes são suficientemente perfeitos tanto para o planejamento es- tratégico defendido pelos clássicos quanto para o princípio da sobrevivência da abordagem evolucionária. Como menciona (MINTZBERG, apudWHIT- TINGTON, 2002 p. 4) “[...] na prática, a estratégia emerge mais de um processo pragmático de aprendizado e comprometimento, do que de uma série racional de grandes saltos para frente”. Do ponto de vista da abordagem sistêmica, Whittington (2002, p. 5) ex- plica que “[...] a estratégia reflete os sistemas sociais específicos dos quais ela participa, definindo os interesses segundo os quais ela age e as regras de so- brevivência. A classe social e o país fazem a diferença no que toca à estraté- gia”. O mesmo autor explica ainda “[...] que a estratégia é importante em um sentido diferente. Como as estratégias refletem nos sistemas sociais nos quais são desenvolvidas, empresas com diferentes sistemas apresentarão diferentes abordagens características no que diz respeito à estratégia, levando a possíveis consequências quanto ao desempenho econômico nacional”. Essas abordagens do autor citado procuram tornar explícitos os pressu- postos que fundamentam as quatro teorias básicas sobre estratégia, pois cada uma delas apresenta ponto de vista completamente diferente sobre a capacid- ade humana de pensar racionalmente e agir com eficácia. 1.2 Capital Humano e os Processos de Aprendizagem 1.2.1 A importância do capital humano nas organizações É essencial que as empresas tratem seus funcionários da mesma forma como tratam seus consumidores finais. Investir em treinamentos e programas de construção de capacidade é importante para o desempenho do colaborador; é preciso deixar claro, o retorno que se espera deles em relação ao trabalho e que os considera parte-chave no esforço para satisfazer seus clientes, enfatiza Kotler (2000). 44 Há intensa relação entre a satisfação do funcionário e a satisfação do cli- ente. Isso se dá em detrimento de técnicas adotadas pela empresa para com o funcionário, cujo resultado refletirá no seu desempenho profissional; se coer- ente, o colaborador se sentirá motivado e consequentemente deixará os clien- tes satisfeitos, porém, se as práticas de recursos humanos se derem de forma negativa, o inverso ocorrerá, havendo grandes chances do cliente não retornar. Implantar práticas de motivação nas empresas é um desafio; conseguir o comprometimento dos funcionários requer habilidade de seus gestores. Mas é preciso tomar cuidado quanto a práticas negativas caso não consigam cumprir alguma meta, como ameaçar reduzir as bonificações, por exemplo. É importante que a organização estabeleça acordos antes de colocar como regra qualquer atrativo extra a seus funcionários; devido a muitas vezes o planejado não sair conforme previsto, pode haver um fraco desempenho vindo de algum colaborador e este precisará ser aconselhado, retreinado ou até mesmo dispen- sado, trazendo de certa forma prejuízo à empresa. O conhecimento, as habilidades e as atitudes da equipe de trabalho são um dos motivos que tornam as empresas vencedoras ou malsucedidas. Se o segredo para a criação da prosperidade fosse pela contagem do número de fun- cionários, então a pessoa com nível intelectual baixo teria a mesma relevância que o funcionário mais brilhante da organização. Na realidade o que estabelece o potencial valor é a pessoa que sabe compartilhar as informações, possuindo habilidade e boa vontade para tal. Contribuindo com essa visão, Davenport e Prusak (1998) acreditam que o conhecimento se produz em mentes que trabalham, ou seja, sua origem está aplicada na mente dos conhecedores, mas também em um segundo momento, está embutido em documentos, rotinas, processos, práticas e normas de uma organização. Davenport e Prusak (1998) compartilham a ideia de quando as empresas contratam especialistas, elas estão comprando insights baseados na experiência. Elas apostam no conhecimento como consequência da experiência e por causa disso estão dispostas a pagar um preço alto com o propósito de obter retorno em forma de conhecimento. Os autores partem do pressuposto que todas as pessoas necessitam ser valorizadas, apoiadas e ajudadas para conseguirem obter o desenvolvimento e apostam que as pessoas fazem a diferença pela maneira como empregam diferentes formas de capital, pois na prática o resultado é o valor agregado do capital humano. As empresas além de treinar, fornecer processo de apoio e desenvolver os funcionários, devem principalmente trabalhar para reter as pessoas certas, pois é o capital humano que detém maior potencial para ajudar a empresa a crescer, considerando ainda que ela pode obter prejuízo e desperdício de tempo em promover todo processo seletivo novamente. 45 Conforme Fitz-Enz (2001) existem seis tarefas envolvidas na gestão da organização, quando se trata do capital humano; são elas: avaliação do gerenciamento do capital humano, planejamento, incorporação, manutenção, desenvolvimento e retenção. A avaliação do gerenciamento do capital humano está integrada às out- ras cinco tarefas, porém seu intuito é de avaliar a eficiência em gerir o capital humano; enquanto o planejamento se detém no propósito de projetar as neces- sidades do capital humano, fazendo o planejamento e o desenvolvimento da força de trabalho, traçando uma projeção tanto de curto como de longo prazo. Já na tarefa de incorporação, a preocupação está na contratação de fun- cionários, sejam eles temporários ou sob contrato, para que a empresa consiga suprir a escassez de talentos e realizar as previsões do planejamento estratégico. Visto que o precioso ativo humano se encontra dentro da empresa, ele precisa ser mantido. Surge então a necessidade da manutenção deste capital que muitas vezes se dá pelo sistema de remuneração. Tendo incorporado e mantido uma força de trabalho viável, a próxima etapa é a de desenvolvê-la até seu potencial máximo, pois ele é um dos poucos ativos que é capaz de ser desenvolvido. E, por fim, é necessário considerar o desafio da retenção de talentos; além da remuneração existem vários outros fatores que contribuem para que os fun- cionários queiram continuar na organização por um longo período de tempo. O clima organizacional é um dos mais relevantes, pois torna o ambiente de trabalho satisfatório. A retenção dos talentos faz com que a empresa reduza di- versos custos, como: redução nos custos de recrutamento, treinamento, menor tempo requerido de supervisão, dentre outros. Para Silva (2002), as pessoas que oferecem resultados são ativos impor- tantes, devido a isso, as empresas preocupam-se em implementar programas de atração e retenção de seus empregados, porém, muitas vezes, se esquecem do foco estratégico nas necessidades demandadas pelo negócio e do benefício que elas podem oferecer quando incorporadas ao planejamento estratégico. O Capital Humano transforma sua capacidade, conhecimento, habili- dade, criatividade e experiências individuais em produtos e serviços que são o motivo pelo qual os clientes procuram a empresa. Logo, este capital, nas orga- nizações, é, em muitos casos, o mais importante, tornando-se fator primordial para o sucesso das organizações. As organizações também podem agregar valor ao seu capital humano, proporcionando treinamento com o intuito de que pos- sam trazer retorno como a vantagem competitiva perante os concorrentes. 46 1.2.2 Processos de Aprendizagem Para Senge (2002) é fato que o trabalho em equipe está diretamente rela- cionado aos processos de aprendizagem, pois segundo o autor, as pessoas pre- cisam umas das outras para agir. Sobre esse contexto, Fleury (2001) acredita que se tornou comum afirmar que o recurso mais valioso que se encontra em uma organização são as pessoas. “Capital humano”, “Capital intelectual”, “Inteligência competitiva”, “Gestão do conhecimento” tornaram-se parte das expressões utilizadas no dia a dia das empresas. Mas para que possam continuar existindo tais expressões é ne- cessário que se entenda e se dê continuidade à aprendizagem que ocorre dentro do indivíduo que aprende. A partir de tal concepção, há duas vertentes teóricas em que os modelosde aprendizagem basicamente se sustentam, o modelo Be- haviorista que tem seu foco principal no comportamento, que pode ser obser- vado e medido; neste caso, planejar o processo de aprendizagem implica estru- turar um processo passível de observação, mensuração e réplica científica; e o modelo Cognitivo que foca tanto aspectos objetivos e comportamentais quanto aspectos subjetivos, levando em consideração as crenças e as percepções dos indivíduos que influenciam seu processo de apreensão da realidade. Para desenvolver as competências em uma organização é necessário percorrer o caminho que vai da aprendizagem individual à aprendizagem em grupo, para então se chegar à aprendizagem organizacional. A aprendizagem é um processo neutral complexo, que leva à construção de memórias; a pessoa é o que lembra, se não se lembra de nada, logo não é ninguém, na concepção de Fleury e Fleury (2004). Os autores mencionados acima enfatizam que a aprendizagem pode ser pensada como um processo de mudança, provocada por estímulos diversos, mediado por emoções, que pode vir ou não a manifestar-se em mudança no comportamento da pessoa. Esse processo permeia por diversos níveis: • Nível do indivíduo: o processo de aprendizagem ocorre primeiro no nível do indivíduo, carregado de emoções positivas ou negativas, por meio de caminhos diversos; • Nível do grupo: a aprendizagem pode vir a constituir-se em um pro- cesso social e coletivo; para compreendê-lo, é preciso observar como o grupo aprende, como combina os conhecimentos e as crenças in- dividuais, interpretando-as e integrando-as em esquemas coletivos partilhados; estes, por sua vez, podem constituir-se em orientações para ações; o desejo de pertencer ao grupo pode constituir um el- emento motivacional ao processo de aprendizagem; • Nível da organização: o processo de aprendizagem individual, de compreensão e de interpretação partilhado pelo grupo, torna-se in- 47 stitucionalizado e expresso em diversos artefatos organizacionais: es- trutura, regras, procedimentos e elementos simbólicos; as organiza- ções desenvolvem memórias que retêm e recuperam informações. (FLEURY e FLEURY 2004, p. 41) Dentro desse cenário, o enfoque proposto por Senge (2002), para os pro- cessos de aprendizagem, se dá pelo desenvolvimento de cinco “disciplinas”. As disciplinas são como caminhos a serem estudados e colocados em prática, sendo que cada uma das disciplinas tem seu importante papel para o sucesso das demais. Elas se relacionam a fim de formar organizações de aprendizagem e com isso objetiva que os colaboradores aprendam a cooperar de modo que visualizem os objetivos comuns. • Domínio pessoal: a aprendizagem individual não garante a apren- dizagem organizacional, entretanto, sem ela, a aprendizagem orga- nizacional não ocorre. O desenvolvimento da empresa só ocorre por meio de pessoas, e pessoas têm vontade própria, mente própria e uma forma de pensar própria, ou seja, se os funcionários não estiver- em motivados a questionar as metas para o atingimento do desen- volvimento organizacional, simplesmente não haverá crescimento, muito menos ganho de produtividade. • Modelos mentais: muitas vezes as pessoas não chegam a colocar em prática uma ideia brilhante pelo simples fato de que eles conflitam com imagens internas arraigadas sobre o funcionamento do mundo, imagens que limitam a forma de pensar e agir. “Ninguém mantém uma organização – ou uma família ou uma comunidade – na mente. O que temos em nossas mentes são imagens, premissas e histórias”. (SENGE, 2002 p. 201) • Visão compartilhada: poucas forças nas questões humanas são tão poderosas quanto uma visão compartilhada. Isso acontece devido às pessoas desenvolverem um senso de comunidade que permeia a or- ganização facilitando as atividades, isto é, quando duas pessoas têm a mesma imagem e assumem comprometimento mútuo de manter essa visão em conjunto, criando-se conexão por aspiração comum. • Aprendizagem em equipe: quando há um alinhamento entre a equi- pe, surge uma unicidade de direção e as energias dos funcionários se harmonizam, desenvolvendo capacidade para a ação coordenada. • Pensamento sistêmico: esta é a quinta disciplina e a que integra todas as outras, visa a melhorar os processos de aprendizagem como um todo e não como peças isoladas, além de apontar futuras direções para aperfeiçoamento. Assim como Senge, Morgan (1996) também utiliza metáforas em suas 48 afirmações para explicar modelos de gestão. Dentre elas encontra-se uma que apresenta as organizações entendidas como cérebros, isto é, como mecanismos totalmente direcionados para a aprendizagem. É uma metáfora que traça para- lelos entre aprendizagem e desenvolvimento, tanto humano quanto das orga- nizações em si. Essa metáfora promove o aprender a aprender, a aceitação às mudanças, à autonomia individual, ao surgimento do processo de informações, à cibernética e à aprendizagem em circuito duplo, com o qual se tem a capa- cidade de olhar-se duplamente determinada situação, questionando-a sobre a relevância das normas de funcionamento. Sob o mesmo enfoque, Argyris (2000) argumenta que existem duas vertentes oriundas do processo de aprendizado: “circuito simples” e “circuito duplo”. A autora faz uma analogia para explicar a aprendizagem como “cir- cuito simples”: “[...] um termostato, que automaticamente ligue o sistema de aquecimento sempre que a temperatura ambiente em uma sala caia abaixo de 20 graus”. É um bom exemplo para ilustrar um circuito apenas de ida. Por outro lado, se fosse perguntado “Por que estou calibrando para 20 graus?” e então ex- plorar se alguma outra temperatura pudesse atingir o objetivo de aquecimento de outra forma que fosse mais econômica, essa situação ilustraria então, um aprendizado de “circuito duplo”. O dilema da aprendizagem pode ser compreendido pelas empresas, desde que estejam dispostas a encarar as mudanças que esse processo pode gerar na organização. Atualmente, algumas empresas ainda apresentam certa resistên- cia à mudança. Isso faz com que criem barreiras no desenvolvimento humano, pois nesse caso não há aprendizagem, uma vez que a autoridade máxima de- tém o conhecimento. Esta situação advém do receio do conflito e ruptura com o sistema anterior e a consolidação de um sistema novo, ou seja, o indivíduo teria que sair da zona de conforto, o que gera em muitas empresas, restrição a esse modelo. Para tanto, aprender a aprender seria, sem dúvida, o melhor camin- ho, levando em consideração que as mudanças de atitudes e valores requerem tempo para serem alcançadas, por isso, é preciso ter paciência para que se ob- tenham bons resultados. 1.3 Gestão Estratégica de Pessoas 1.3.1 Ações Estratégicas voltadas para o Desenvolvimento do Capital Humano Quando se observa a velocidade das mudanças no mercado de trabalho, é possível perceber que para as organizações se manterem competitivas é preciso adquirir competências que permitam enfrentar os desafios da nova realidade. Neste contexto, é preciso que se preste atenção nas tendências de mercado para garantir resultados, com isso, as empresas devem planejar e implementar pro- gramas internos para garantir sua vantagem competitiva. 49 Dentro desse cenário, é possível destacar que ao longo dos anos a gestão de pessoas veio sofrendo alterações, as quais resultaram em melhorias para as organizações como o modelo de gestão por competências. A migração de um modelo de gestão para outro conduz a mudanças baseada em três aspectos; Fleury e Fleury (2004) citam-nos: O primeiro diz respeito à importância dada às pessoas para o êxito das estratégias, desta forma, a empresa passa a considerar fundamental a partici- pação do responsável pela gestão de pessoas na definição das estratégias e na tomada de decisão. O segundo aspecto envolve as políticas adotadas pela empresa para atrair, reter e desenvolver competências necessárias ao sucesso das estratégias traça- das. Essas políticas levarãoa empresa a se preocupar com o sistema de remu- neração que vai adotar, com a estratégia de participação que será oferecida aos colaboradores e com o seu índice de rotatividade. O terceiro aspecto está relacionado à formação de competências, visando a investimentos em treinamento e desenvolvimento. Com base nessas premissas e corroborando Marras (2000), considera que a administração estratégica de recursos humanos compreende a gestão que privilegia, como objetivo fundamental, pelas suas intervenções, a otimização dos resultados finais da empresa e da qualidade dos talentos que a compõe. Em outras palavras, o planejamento estratégico de gestão de pessoas ten- do foco nos objetivos da empresa, contribui para o alcance de melhores resul- tados, além de otimizar e canalizar corretamente os recursos para as estratégias adotadas pela organização. Sob o ponto de vista de Klein (1998), a gestão estratégica do capital hu- mano envolve repensar como a organização cria valor a partir de uma perspec- tiva centrada em conhecimento, bem como o papel dos ativos intelectuais na estratégia e nas operações da empresa. 1.3.2 Políticas e Diretrizes de RH Normas, políticas, diretrizes ou até mesmo guia de conduta, todos esses nomes ilustram um documento utilizado nas empresas para descrever certos padrões de comportamento que as empresas acreditam ser de ideias para que se consolide uma integração de propósitos entre os diversos agentes envolvi- dos. Para Barini Filho (2002, p. 154) “[...] o processo de normatização em um sistema organizado é uma atividade estratégica, perfeitamente ligada à sobre- vivência, ao desenvolvimento e à perpetuidade do conjunto”. Para o autor os princípios reguladores devem cumprir sua tarefa estratégica, ou seja, garantir que as ações dos diferentes indivíduos que fazem parte da organização não comprometam a integridade do sistema. Entretanto, apenas desejos e intenções não bastam; é preciso que as nor- mas estejam documentadas; pela experiência que a empresa possui é possível 50 fazer o reconhecimento das melhores práticas, sempre obedecendo a certa hi- erarquização metodológica: dos valores da organização, para as políticas, dir- etrizes e procedimentos operacionais. Ao elaborar as políticas da organização e colocá-las no papel, muitas vezes não há um senso crítico sobre elas, tanto dos especialistas de RH como dos próprios dirigentes da empresa. Com isso, as atividades funcionais perdem consistência e deixam de contribuir com as estratégias organizacionais. Pro- gramas de treinamento e desenvolvimento, por exemplo, são postos em prática sem que se faça avaliação da real necessidade e, após fazê-los, não são medidos, ou seja, os resultados ficam à solta e não se faz uso correto dos benefícios que esses programas poderiam trazer para o desenvolvimento dos colaboradores e para o alcance dos objetivos empresariais. Após implementadas as políticas de RH, todas as pessoas que fazem parte da organização devem ser responsáveis pelo seu cumprimento, desde os geren- tes que ocupam posições visíveis até o escalão mais baixo. É fundamental que as posições de liderança deem o exemplo seguindo as políticas, disseminando seu propósito e fazendo com que as equipes entendam e se comprometam segui- las. 1.4 Gestão de pessoas em diferentes contextos: análise dos resultados Para melhor compreender as análises dos resultados, a primeira etapa de- sta pesquisa buscou caracterizar brevemente ambas as empresas; em seguida foi aplicado um roteiro de entrevistas semiestruturadas a fim de atingir os objetivos propostos. As perguntas e respostas das entrevistas foram agrupadas por semel- hança de assunto, atribuindo nomes para cada grupo, transformando-os em tópicos; são eles: As Políticas de Recursos Humanos das Organizações; Regras e Condutas dos Colaboradores nas Organizações; Processos de Aprendizagem e os Programas de Treinamentos; A Evolução dos Colaboradores nas Empresas pelo Estímulo do Pensamento Estratégico; Incentivo à Qualificação Externa dos Colaboradores; Avaliação de Desempenho; Gestão Estratégica de Pessoas. 1.4.1 Caracterização da Cooperativa Brasileira A fundação da cooperativa deu-se em 1955, mais precisamente no dia 13 de novembro, em Teutônia, por 174 agricultores. Iniciou suas atividades em 1.º de junho de 1956. Os principais produtos são leite e derivados, frango, embu- tidos, suínos e rações. Possui 26 unidades distribuídas entre produção e trans- formação de alimentos, supermercados, ferragem e forragem. Para que toda essa estrutura organizacional se mantenha em ascensão a cooperativa conta com o trabalho de 2.050 colaboradores que atuam tanto em território brasileiro quanto no comércio internacional. 51 1.4.2 Caracterização da empresa Espanhola Em 1969, Tomás Pascual toma posse de uma pequena empresa láctea na Espanha, data que marcou o início de suas atividades. Atualmente, seus prin- cipais produtos são: leite e derivados, iogurtes, sucos, refrigerantes, cereais matinais, ovo líquido pasteurizado e tortilhas, água mineral e bebidas de soja. A empresa é composta pela matriz e mais 20 filiais distribuídas entre unidades industriais e representantes comerciais, tanto na Espanha quanto em outros países, além de receber o apoio de 2.500 colaboradores. 1.4.3 Análise Comparativa da Gestão Estratégica de Pessoas nas Em- presas Este capítulo tem por objetivo fazer uma análise comparativa da gestão estratégica de pessoas nas empresas mencionadas, cujos dados foram obtidos pela pesquisa teórico-empírica realizada em uma empresa espanhola e outra brasileira. 1.4.4 As Políticas de Recursos Humanos das Organizações Este tópico compreende, primeiramente, entender quais são as políticas de recursos humanos de cada empresa e verificar de que forma elas contribuem para o desenvolvimento de competências estratégicas dos funcionários. Após, foi realizada a análise comparativa dos principais elementos obtidos durante as entrevistas. A empresa espanhola tem suas políticas de recursos humanos, documen- tadas e estruturadas, conforme as necessidades da organização; abaixo, segue o modelo criado pela alta direção. A política de pessoas da empresa espanhola é definida pela sua ambição de ter pessoas comprometidas com o projeto da empresa, para partilhar a sua missão e valores; são devidamente treinadas e têm orgulho de pertencerem à Companhia. São seis os objetivos das políticas de recursos humanos: 1) Obter o maior envolvimento das pessoas com a empresa. 2) Atingir os mais elevados padrões de competência e desenvolvimento profissional de cada pessoa. 3) Ter uma re- lação direta com os colaboradores e os seus órgãos representativos, como mod- elo de relações de trabalho. 4) Ter dirigentes responsáveis pela boa execução da Unidade de Política da Empresa. 5) Proporcionar um ambiente de trabalho adequado, seguro e saudável para todos os funcionários. 6) A manutenção de uma cultura sólida com base nos valores do Grupo. As diretrizes são compreendidas pela legalidade e relações de trabalho coletivo, descritas abaixo: Legalidade: a empresa garantirá em todos os momentos o cumprimento das normas, tanto no local de trabalho, como na área de segurança e saúde no trabalho, sejam elas normas legais, convencionais ou normas internas. 52 Relações de Trabalho Coletivo: Para estabelecer uma relação adequada entre a Companhia e as entidades representativas de trabalhadores, se estabel- ecem os seguintes compromissos por parte dos órgãos de gestão e de governo: Respeitar as iniciativas de representação coletiva; Incentivar a participação ativa nas decisões que afetam seu alcance de atuação e conhecimento; Fornecer informações e recursos para que possam desempenhar adequadamente o seu papel de representação; Manter um diálogo sistemático e regular. A empresa espanhola atua principalmente em seis políticas: Igualdade de oportunidades (conciliação entre trabalho e vida familiar, promover a diversi- dade e os grupos desfavorecidos);Saúde e segurança; Liderança; Desenvolvim- ento pessoal; Sistema de remuneração; Processo de saída da Empresa. Existe um modelo de gestão de pessoas, que está dividido entre partes: um é modelo de competências que define as habilidades e os conhecimentos requeridos nos distintos cargos de trabalho; o outro elemento é um modelo de va- lores que gira em torno dos sete valores da empresa; os valores estão vinculados com condutas e comportamentos que se trabalham nas seleções, nos treinamentos e em to- dos os processos de gestão de pessoas. Terceiro modelo de gestão de pessoas é o modelo de lideranças, definido com base em um modelo internacional; este modelo, cobre cinco aspectos: credibilidade, respeito às pessoas, trata- mento justo, orgulho de pertencer à empresa, bom ambi- ente de trabalho. Em cima disso, é que construímos todas as políticas, processos e ferramentas de gestão de pessoas. (Diretor de Recursos Humanos do Grupo) Começa-se, então, a análise da Cooperativa brasileira para após iniciar a análise comparativa entre ambas as empresas. A cooperativa brasileira possui algumas políticas definidas e outras que se aplicam, mas não estão documentadas; dentre elas é possível citar: 1) A política do incentivo à educa- ção, com as regras de concessão de bolsas de estudos; 2) Programa de sugestões; 3) Trabalho em equipe, enfatizado no dia a dia dos colaboradores e também pelo projeto “Comece seu Dia Bem”, que são reuniões mensais, realizadas dire- tamente nas unidades da Cooperativa onde os resultados esperados são: Satis- fação e motivação dos funcionários; Melhoria nos relacionamentos internos e externos; Desenvolvimento de um “espírito de equipe” entre os funcionários. 53 Figura 1: Modelo de Gestão de Pessoas utilizado pela empresa. Fonte: Empresa espanhola Assuntos abordados nas reuniões do programa “Comece seu Dia Bem”: Filosofia empresarial (Missão, Visão, Princípios e Valores da Coolan); Resulta- dos das Avaliações do Programa 5S; Premiação das sugestões do Programa de Sugestões; Resultados e metas do PPR – Programa de Participação nos Resulta- dos; Resultados das Atividades dos Exercícios apresentados em assembleia aos associados e repassados aos funcionários pela direção; Resultados da Pesquisa de Clima; Resultados da participação no Sistema de Avaliação do Programa Gaúcho de Qualidade e Produtividade; Treinamentos sobre Saúde e Segurança no Trabalho; Palestras sobre a realidade das pessoas com deficiência; Apresen- tação dos setores da empresa, por meio de slides e filmagens realizadas pelos coordenadores com os facilitadores das unidades, com o objetivo de levar aos demais colegas, dados, números e atividades operacionais realizadas nessas unidades, para maior integração e conhecimento de toda a empresa. 4) A quarta política é o grupo de facilitadores da qualidade, que são representantes de todas as unidades que facilitam os trabalhos no âmbito da qualidade, pelo programas 5S que tem por finalidade regulamentar a política de realização das Auditorias do Programa 5S na Cooperativa, objetivando a manutenção do programa. 5) Plano de Carreira e Remuneração que tem por objetivos: a) possibilitar o crescimento dos funcionários na empresa; b) praticar uma remuneração condizente com o mercado e com o cargo. 6) A Gestão por competências que está sendo desenhada e levará alguns meses para ser imple- mentada, também influenciará na política de plano de carreira e remuneração. 54 Barini Filho (2002) destaca que as políticas de recursos humanos resul- tam em benefícios na estruturação dos processos da empresa, auxiliam na for- mação da cultura organizacional e, principalmente, na contribuição do desen- volvimento de competências estratégicas dos colaboradores. Nessa perspectiva, tanto a empresa do Brasil quanto a empresa da Es- panha mostram que a gestão pela competência é um modelo importante para a organização. A empresa espanhola possui esse modelo implantado dando bons resultados. Tanto a definição das políticas como o modelo de gestão de pessoas contribui, de forma significativa, na capacita- ção, alinhamento e comprometimento das pessoas. (Dire- tor de Recursos Humanos do Grupo espanhol) Nota-se pelas entrevistas e práticas documentadas, que isso se dá devido ao estímulo que os líderes empregam às questões voltadas ao desenvolvimento profissional de cada membro, buscando atingir elevados padrões de competên- cia. Para que isso aconteça, a empresa conta com processo de seleção pela com- petência, requisito básico para que o candidato seja selecionado, programas de aprendizagem que promovem a melhoria do conhecimento e das habilidades das pessoas, além de favorecer e incentivar a participação dos colaboradores em seu ambiente de trabalho. A empresa também utiliza o recrutamento in- terno como meio de desenvolvimento das pessoas. De outro lado, a Cooperativa brasileira almeja alcançar metas pare- cidas, isto porque, neste momento, se encontra no processo de planejamento da gestão pela competência, para, após, ser implantada e começar a colher os benefícios desse novo modelo de gestão. A mudança na área da gestão de pessoas da Cooperativa é notória desde o ano de 2003, após passar por uma crise econômico-financeira decidiram re- modelar seus processos e apostar no capital humano como forma de aumentar sua competitividade no mercado em que atuam. [...] toda essa reestruturação, o olhar voltado para o desenvolvimento das pessoas, para o ser humano, nos trouxe um grande resultado; gerou o fortalecimento da cooperativa; com certeza, os resultados que estamos ten- do hoje, após vir de uma situação totalmente complica- da, se deve a esse trabalho de valorização das pessoas, fazer com que elas se sintam integrantes da empresa; após esse novo direcionamento nós só crescemos. O nosso faturamento aumenta a cada dia, a cooperativa está in- vestindo constantemente, crescendo muito; nós tínhamos naquela época 894 funcionários, hoje temos 2.050. Se a gente não tivesse tomado esse caminho não sei se a 55 cooperativa ainda estaria aqui; o desenvolvimento das pessoas para nós é ponto primordial; eu acredito muito nesse trabalho [...]. (Diretora de Recursos Humanos da cooperativa brasileira) Observando, com base na instabilidade que os colaboradores sentiam quanto ao seu trabalho, a cooperativa criou o projeto “Comece seu Dia Bem” que na época de crise serviu inicialmente para informar as pessoas do que es- tava acontecendo na cooperativa, de modo a tranquilizá-las, assim foi possível manter uma comunicação ativa. Após esse momento de crise, esses encontros continuaram, mas com outro enfoque; o ponto principal dessas reuniões é, atu- almente, estimular o desenvolvimento de competências estratégicas com pales- tras, treinamentos, trabalhos em equipe, afirmando a filosofia da organização e também apresentando os resultados tanto econômicos quanto de cada setor, como, por exemplo: resultados e metas atingidas com o programa de partici- pação nos resultados (PPR); resultados obtidos na pesquisa de clima organiza- cional; resultados das avaliações do programa 5S; premiação das sugestões do programa de sugestões; resultado do Programa Gaúcho de Qualidade e Produ- tividade (PGQP), entre outros. 1.4.5 Regras e Conduta dos Colaboradores nas Organizações Neste tópico serão abordados aspectos sobre as regras e conduta das em- presas para com os colaboradores, se estas estão documentadas e se são repas- sadas para compreensão de todas as partes envolvidas. Na Cooperativa brasileira não há um manual de regras e conduta doc- umentado, segundo a diretora de recursos humanos há algumas regras, sim, que são conhecidas e seguidas por todos, mas que não chegam a integrar um manual. A única ferramenta que contempla um conjunto de normas e que está documentado é o manual de integração dos colaboradores, que serve como prática de ambientação e tem o intuito de acolher, oferecer informações iniciais e integrar as pessoas nos processos básicosda organização, como: histórico da empresa; filosofia empresarial; localização das diversas unidades; avaliação do período de experiência; horário de trabalho; advertências; férias; remuneração; programa de benefícios; regulamento interno; programa de sugestões e pro- grama de organização e limpeza 5S, entretanto, ele se encontra desatualizado, mas em fase de reformulação. Ao analisar esta questão na empresa espanhola foi constatado que ela possui um manual formalizado conforme seus valores, e que está dividido em três princípios: Conduta Ética; Profissionalismo; Confidencialidade. O que se percebe, é que a empresa investiu tempo para planejar e docu- mentar as regras de conduta ética a serem seguidas pelos colaboradores, com o intuito de moldar um padrão de disciplina, subdividido em tópicos e sendo 56 explicado minimamente, tendo em vista não tolerar que se adotem condutas de perseguição ou represálias contra quem denunciar, de boa-fé, possíveis faltas contra a ética profissional ou contra as normas estabelecidas no código pelos canais oferecidos para isso, bem como respeitar quem ordenar ou autorizar possíveis infrações. 1.4.6. Processos de Aprendizagem e os Programas de Treinamentos Este tópico aborda questões sobre as escolhas dos treinamentos ofereci- dos aos colaboradores, critérios pelos quais são definidas as pessoas que irão participar, se os resultados desses treinamentos são medidos e o que é feito com esses resultados, bem como se os resultados mostram, se o desenvolvimento das competências dos colaboradores contribui para a realização dos objetivos organizacionais e ainda se existem outras formas de capacitação dos colabora- dores fora os treinamentos. Na empresa espanhola os treinamentos, que são chamados de plano de formação, ocorrem durante todo o ano de acordo com um planejamento prévio. A fim de desenvolver os planos de formação, têm-se em conta as neces- sidades de desenvolvimento identificadas nos planos de desenvolvimento indi- viduais decorrentes da avaliação de desempenho de cada pessoa, que também leva em consideração as necessidades e prioridades decorrentes das estratégias de negócios e gestão. Não há critérios para definição de quem participa; os treinamentos con- templam todas as pessoas da organização. Os resultados obtidos com esses treinamentos são medidos pela pesquisa de clima organizacional, cuja finali- dade é medir a satisfação das pessoas, que vem sendo realizada anualmente desde 2008. O diretor de recursos humanos da empresa explica que: [...] essa pesquisa tem 58 perguntas sobre liderança, 14 perguntas sobre valores e 7 sobre aspectos que têm a ver com o programa de conciliação de vida responsável, isso integra aspectos de igualdade e oportunidade, conciliação da vida profissional e pessoal. Essa pesquisa é aplicada aos 2.500 funcionários. E o resultado, tem sido crescente em todos os anos. Também vem havendo uma redução de absentismo e de rotação voluntária. Com essa avaliação, buscamos evoluir a eficácia da formação e da melhora dos níveis das competências das pessoas. (Diretor de Re- cursos Humanos do Grupo espanhol) Quanto a outros processos de aprendizagem, é de responsabilidade dos supervisores identificarem as necessidades e comunicarem o setor de recursos humanos. O modelo de gestão de desempenho contempla a elaboração dos 57 planos de desenvolvimento individual, que na maior parte das atividades, estão orientados a serem realizados na atividade diária ou por meio de ações super- visionadas pelo superior. Para isso, temos elaborado um kit de desenvolvimento de competências corporativas com quase 150 atividades de desenvolvimento para executar através do controle de gestão. (Diretor de Recursos Humanos do Grupo espan- hol) Assim, como na empresa espanhola, na Cooperativa brasileira também não há critérios quanto à escolha de quais os colaboradores participarão dos treinamentos ofertados. Apenas treinamentos exigidos pela legislação, como os de segurança no trabalho, são obrigatórios para algumas áreas específicas, os demais são oferecidos conforme necessidade identificada pela pesquisa de clima organizacional. Porém, em algumas unidades há, desenhada por função, uma relação de cursos que seria ideal o colaborador realizar; a meta é que seja implementada essa prática em toda a Cooperativa. A capacitação, em que a Cooperativa acredita dar mais resultados, é a de Liderança, que acontece geralmente de dois em dois anos, podendo ter exceções, pois esse curso é oferecido por uma universidade da região, se ela mesma abrir inscrições antes de fechar dois anos do último treinamento e hou- ver colaboradores interessados; esses poderão inscrever-se, desde que tenham disponibilidade de tempo, devido o curso ter duração de três meses. A diretora de recursos humanos da cooperativa relata que todas as pes- soas participam de algum tipo de treinamento, na área de produção; por ex- emplo, todos os colaboradores realizam treinamentos de boas práticas de fab- ricação, que são realizados, no mínimo, duas vezes no ano. Os colaboradores que passaram no processo de seleção, antes de começar as atividades, passam pelo treinamento de integração, e após estar há algum tempo na organização realizam a atualização. Além disso, a cooperativa conta com uma equipe que é formada por dois médicos, um engenheiro de segurança, um ergonomista e oito técnicos em segurança no trabalho, para monitorarem a saúde, segurança, qualidade de vida no trabalho, justamente para reduzir as doenças ocupacio- nais. [...] hoje, o Ministério do Trabalho indica principalmente o frigorífico de aves da empresa para as demais empresas do Rio Grande do Sul, pelas ações que nós fizemos; são ações simples que a nossa manutenção faz, para melhorar a qualidade de vida no trabalho, pois hoje o trabalho em frigorífico é muito visado pelo Ministério do Trabalho, porque são atividades repetitivas, que podem vir a trazer doenças no futuro; então a gente tem um trabalho muito 58 grande em relação a isso e hoje nós somos exemplo para os demais abatedouros de aves do RS [...]. (Diretora de Recursos Humanos da Cooperativa brasileira) O único método pelo qual a Cooperativa mede os resultados dos treinamentos, de liderança, por exemplo, é pela pesquisa de clima organizacio- nal realizada anualmente. Não há outro indicador mais preciso. [...] o que a gente percebe é que a cooperativa está se tor- nando mais eficiente nos seus indicadores de produção; nos indicadores de eficiência, a gente faz benchmarking e percebemos que nossos índices estão melhores, então a gente percebe que alguma coisa os treinamentos estão fazendo, mas eu não tenho um indicador que diga que tal treinamento resultou em tal resultado. (Diretora de Recursos Humanos da Cooperativa brasileira) Entretanto, as capacitações exigidas por lei, as quais foram citadas anteri- ormente, recebem acompanhamento. Há um controle de todas as entradas no ambulatório, a causa do acidente, os medicamentos utilizados e de quais são as maiores queixas; nesse caso há vários indicadores. Durante a entrevista, percebeu-se que a cooperativa tem a intenção de trabalhar efetivamente as competências dos colaboradores para que eles com- preendam a importância do seu trabalho e contribuam para o alcance dos ob- jetivos organizacionais, para que isso ocorra, estão começando com um projeto piloto da gestão por competências, na unidade de laticínios. Já foram definidas as competências organizacionais conforme os valores da organização, como também foram traçadas as competências comportamentais e as técnicas, bem como a descrição e avaliação das competências de cada cargo. O projeto “Comece seu Dia Bem” é o mecanismo pelo qual se realizam outras capacitações, como palestras sobre assuntos profissionalizantes, realiza- ção da semana de prevenção de acidentes, entre outros temas. De posse dessas informações e a fim de saber se os processos de apre- ndizagem são estruturadose desenvolvidos de forma que tenham resultados medidos e acompanhados, foi possível identificar um ponto em comum entre as duas organizações, que mostram ter única ferramenta para a medição dos resultados: a pesquisa de clima organizacional. Mas notou-se certa dificuldade em expressar o que se fez com esses resultados e se eles contribuíram para o alcance das estratégias organizacionais visando à competitividade. Quando não se possui essas respostas claramente, há um risco da prática ter sido em vão, pois “[...] o que não é medido não é gerenciado” (KAPLAN e NORTON, 1997 p. 21) ou ainda, como afirma Deming (1992): não se gerencia o que não se mede, não se mede o que não se define, não se define o que não se entende, não há sucesso no que não se gerencia. 59 1.4.7 Percepção dos Gestores sobre o Estímulo ao Pensamento Estra- tégico dos Colaboradores Neste tópico, será abordada a questão do estímulo ao pensamento estra- tégico, se este é realizado com todos os colaboradores ou apenas para alguns cargos e de que forma isso é feito. Muitas vezes, para que o colaborador consiga evoluir dentro da organiza- ção, é preciso que além do seu esforço próprio a empresa possa lhe propor- cionar condições para desenvolver e estimular um pensamento estratégico em suas atividades e decisões. O modelo de gestão de pessoas do Grupo espanhol contribui para a re- alização da estratégia corporativa, desenvolvendo e implementando ferramen- tas e processos para ter equipes comprometidas, alinhadas e capacitadas. Esse modelo está estruturado em três pilares: um estilo de gestão que promove a figura do “Excelente líder”, o desenvolvimento de um modelo de competências e internalização por todos os empregados de valores corporativos. Eles são im- plantados a partir de todos os processos gestão de pessoas. É uma abordagem fortemente humanística, pois incorpora todas as políticas e iniciativas em curso como o compromisso sobre a igualdade de reconciliação, oportunidades e in- tegração de deficiência. O Grupo espanhol estrutura os processos referentes às pessoas com base no seu modelo formalmente documentado. Temos um programa para os funcionários que tem du- ração de duas semanas e permite que conheçam os produtos, a empresa, sua cultura... é um programa muito relevante. Temos, também, outros programas de alto im- pacto e que alcança muitas pessoas que estão orientadas a desenvolver aspectos importantes para a empresa. Por exemplo, um deles se chama Liderança: lidera e desen- volve um modelo de liderança do grupo nas pessoas. É um programa mais específico para desenvolver as estratégias da empresa. (Diretor de Recursos Humanos do Grupo espanhol) Além disso, é preciso delegar certas responsabilidades para os colabora- dores, de forma que se sintam parte tanto das vitórias quanto das derrotas, fato que os leva a repensar suas atitudes e aumentar o comprometimento. Tendo em vista essa percepção, a cooperativa brasileira aposta no desen- volvimento do pensamento estratégico de seus funcionários; segundo a gestora de recursos humanos da empresa – a qual possui essa prática documentada –, é pelas regras do PPR (Programa de Participação nos Resultados) e do projeto “Comece seu Dia Bem”. Nós divulgamos onde queremos chegar, ou seja, em al- guns dos “Comece seu Dia Bem” nós falamos sobre a 60 nossa filosofia; geralmente no mês de março ou abril, a direção vai junto para falar aos funcionários sobre a cooperativa, sobre os resultados, nossos planos e como pretendemos fazer isso. Temos, também, o PPR que tem uma meta global que é a meta de custo operacional; pegamos pelo balancete todas as contas que tenha influência do funcionário, ou seja, água, luz, telefone, conta salário, material de consumo interno, etc. O percentual é sempre sobre o faturamento bruto e se atingida essa meta os funcionários têm direi- to a 50% do PPR, os outros 50% são referentes às metas das unidades, ex: tem meta de produtividade, de abate, de vendas, de quebra de estoque, depende da unidade, aí depois de fechar essas metas e tendo direito ao PPR, vêm as metas individuais dos funcionários, ex: faltas, atesta- dos, atrasos, funcionário que falta sem justificativa, sem avisar, perde o PPR. É uma maneira de fazer com que as pessoas se comprometam com os resultados da empresa. (Diretora de Recursos Humanos da cooperativa) Pelas entrevistas foi possível perceber que ambas as organizações se pre- ocupam com o resultado que o investimento em preparar pessoas para car- gos estratégicos possa trazer, uma vez que por meio dessa prática é possível identificar aspectos de liderança em alguns dos colaboradores; é viável que se aposte no desenvolvimento dessas pessoas proporcionando-lhes treinamentos específicos para que se tornem aptos para um possível cargo estratégico na empresa. 1.4.8 Incentivo à Qualificação Externa dos Colaboradores Este item diz respeito ao incentivo proposto pelas organizações para que os colaboradores não parem de buscar qualificações externas, sejam cursos téc- nicos, graduação, especialização, mestrado, enfim, desde que se aprimorem, toda e qualquer forma de adquirir conhecimento é válida. A cooperativa brasileira se mostra extremamente engajada na questão da educação e qualificação de seus colaboradores, oferecendo-lhes bolsas de estudo tanto em nível técnico como de graduação. O requisito para que os colaboradores ganhem este benefício é de estar na empresa há pelo menos dois anos, no caso de cursos de graduação. Nível técnico, essa regra não se faz tão presente; se for identificado que a pessoa precisa obter maior conhecimento em determinada área dentro da empresa, ela poderá solicitar a bolsa para algum curso cuja área seja equivalente à necessidade que a organização identificou como carência de conhecimento. 61 [...] hoje, temos 70 alunos na graduação. A bolsa é de 40%, o colaborador assina um contrato e todo mês ele assina uma nota promissória do valor que a cooperativa pagou (mensalidade) e vai acumulando ao longo de todo o curso. [...] ele tem o compromisso de dois anos após a sua formação para devolver em conhecimento o que ele aprendeu no curso, se ele optar em sair da empresa an- tes desse período, ele deve quitar as notas promissórias; fica devendo as notas que faltaram para a empresa, mas desde 2004 até hoje tivemos apenas dois casos assim. (Di- retora de Recursos Humanos da cooperativa) O diretor de recursos humanos da empresa espanhola alega que os pro- gramas de formação estão definidos e estruturados para que as pessoas enten- dam que a sua qualificação é muito importante para a sua empregabilidade, mas, hoje, a empresa não contribui financeiramente para que os colaboradores busquem cursos externos. Não há um incentivo econômico para fazerem cursos, mas criamos uma cultura onde as pessoas possam entender que seu desenvolvimento profissional é importante. (Di- retor de Recursos Humanos do Grupo espanhol) Neste item, podemos identificar algumas diferenças na gestão de ambas as organizações. A cooperativa brasileira incentiva e apoia financeiramente a qualificação externa de seus colaboradores, enquanto a empresa espanhola oferece um incentivo moral, mas não econômico. Como fator relevante para a análise dos resultados desta pesquisa, cita-se a crise financeira atual da Es- panha que pode estar sendo levada em consideração nesta questão, por ser uma empresa privada e contar com muitos colaboradores, ela pode não achar viável, neste momento, fazer este tipo de investimento, uma vez que a situação econômica do país pode acabar afetando as atividades de diversas empresas; a precaução se torna importante neste momento. Em contraponto, a cooperativa brasileira recebe parte deste investimento do sistema que rege as cooperativas para qual a empresa contribui com um percentual calculado em cima da folha de pagamento, que resultou para este ano um montante de 157 mil reais para investimentos em bolsas de estudos. Não se esquecendode mencionar que além desse benefício a própria coop- erativa também proporciona algumas bolsas de estudo advindo de recursos próprios. É possível analisar esse comprometimento da organização para com os colaboradores do ponto de vista estratégico, pois o cenário que encontramos atualmente no Brasil, e principalmente na região em que a cooperativa atua, é de carência de mão de obra qualificada. Os poucos que estão aptos a exercer funções mais específicas, ainda são disputados pelas centenas de empresas con- 62 correntes, pois é uma região de muitas indústrias, sendo assim incentivar a qualificação, ou melhor, pagar parte dela, é uma forma de retenção e atração de recursos humanos. Fato é que contribuindo financeiramente ou não para o desenvolvimento dos colaboradores, as duas organizações enfatizam a importância da busca pelo conhecimento, para obtenção do crescimento profissional dentro da empresa. 1.4.9. Avaliação de Desempenho Buscou-se verificar se as empresas possuem algum programa de avaliação de desempenho documentado e de que forma ele é realizado. Ao realizar os questionamentos sobre avaliação de desempenho na coop- erativa brasileira, obteve-se a seguinte resposta: Hoje, nós não temos avaliação de desempenho formal. O que nós temos é uma política salarial, onde o funcionário pode crescer tanto no nível técnico como no gerencial; ele vai em Y, nós temos 3 níveis (operacio- nal, tático e estratégico), então dentro de cada nível nós temos as funções e as faixas salariais, e com base na pes- quisa salarial que fizemos a gente formula as planilhas com as faixas salariais, e dentro de cada função o fun- cionário pode crescer em termos de salário. A avaliação é feita informalmente pelo seu encarregado, juntamente com o gerente e é passado para o RH e direção que avalia o percentual de reajuste da folha de pagamento daquela unidade, o aumento está dentro do previsto? Não está?... para que ele possa crescer, mas o processo é informal, hoje ainda é informal. (Diretora de Recursos Humanos da cooperativa) Há empresas que optam em implantar a avaliação de desempenho de ma- neira formal para não abrir precedentes de reclamações, desmotivações ou até causas judiciais, como é o caso da empresa espanhola que se preocupa em pro- porcionar aos seus colaboradores um “tratamento justo” (termo utilizado pela empresa), o qual faz parte do seu estilo de direção, já citado anteriormente em suas políticas de recursos humanos. Chamamos de Sistema de Gestão de Desempenho. São definidos os objetivos dos colaboradores e da alta di- reção e identificados as competências e os valores que o colaborador desenvolveu no ano; há um plano de desenvolvimento, com o qual é realizada uma primeira conversa sobre os objetivos e o plano de desenvolvimento [...]. Há dois segmentos intermediários durante o ano que se formalizam em uma data para ver os objetivos e o 63 plano de desenvolvimento e quando se finaliza o ano em janeiro, há uma entrevista quando se faz um balanço do comprimento dos objetivos e se realiza uma relação das competências e dos valores desse colaborador. (Diretor de Recursos Humanos do Grupo espanhol) Observa-se que na cooperativa brasileira, apesar do esforço, mesmo que informal, em avaliar seus colaboradores de forma justa, estão muito focados na questão da remuneração, visto que esse fator é apenas um dos tantos outros possíveis de serem analisados na avaliação de desempenho, como, por exemplo: problemas de supervisão de pessoal, de integração do empregado à organiza- ção ou o cargo que ocupa, dissonâncias, de desaproveitamento de empregados com potencial mais elevado do que aquele que é exigido pelo cargo, de motiva- ção, avaliação também dos cargos superiores, ou seja, dos gerentes, etc. Visto que a implementação desta ferramenta é um tanto complexa, apa- rentemente existe receio da cooperativa em torná-la formal, pois além de de- mandar o engajamento de todos, é preciso tempo para planejamento, estrutura para se chegar ao final de todas as etapas para que não se perca no meio do caminho, preparar as pessoas para receber uma avaliação, preparar as lider- anças para avaliar e aceitarem ser avaliados. Outro aspecto notório é a cultura tanto organizacional como a cultura inerente de cada indivíduo, além de ex- istirem várias dependências produtivas da cooperativa, como também o es- critório central, onde fica a parte administrativa e estratégica da cooperativa, que advém de uma cultura que demonstra resistência a mudanças. Como as outras unidades da cooperativa estão presentes em várias outras cidades, ainda há o empecilho de saber lidar com outras culturas resultantes de cada região. 1.4.10 Gestão Estratégica de Pessoas Nesta etapa objetivou-se saber se as empresas possuem as estratégias re- lacionadas às pessoas documentadas no planejamento estratégico, solicitou-se, nas entrevistas, que mencionassem algumas delas, bem como procurar saber se o planejamento estratégico é revisado e com que frequência. Também, buscou- se saber de que maneira as estratégias direcionadas à gestão de pessoas atuam como diferencial competitivo perante aos demais concorrentes e que tipo de retorno esse diferencial tem trazido. Na empresa espanhola, o planejamento estratégico tem abrangência quinquenal, sendo revisado durante cada ano, sempre com a participação do diretor de recursos humanos. Uma das estratégias que envolvem as pessoas é chamada de “agentes de mudança”, que visa a ajudar a direção transformar a empresa e sua cultura, porque [...] estamos em um meio muito competitivo e queremos avançar muito em material de gestão de pessoas, então 64 estamos trabalhando muito. (Diretor de Recursos Hu- manos do Grupo espanhol) A empresa também está trabalhando muito para melhorar o compro- metimento das pessoas com a organização, tendo em vista que isso resulta no atingimento de diversas outras metas, como trabalhar para que consigam o processo de internacionalização da empresa. O Grupo espanhol é uma em- presa espanhola que exporta para outros países, mas fisicamente só existe na Espanha. Estão pensando seriamente e já iniciaram as pesquisas de mercado para entrar no Brasil. Ao perguntar ao diretor de recursos humanos do grupo espanhol, de que maneira as estratégias direcionadas à gestão de pessoas atuam como diferencial competitivo perante aos demais concorrentes e que retorno esse diferencial tem trazido, respondeu: Queremos que as políticas de recursos humanos sirvam para manter um diferencial competitivo, pois hoje em dia é muito fácil de copiar os produtos, a tecnologia se copia, mas é mais difícil de copiar equipes comprometidas, bem dirigidas e bem capacitadas. Tivemos uma melhora da satisfação das pessoas, não temos tido conflito social e no geral o resultado financeiro, econômico e a satisfação dos clientes vem melhorando. (Diretor de Recursos Huma- nos do Grupo espanhol) Por outro lado, o setor de recursos humanos da cooperativa brasileira, adota a análise S.W.O.T ou também matriz F.O.F.A (forças, oportunidades, fraquezas e ameaças), como ferramenta essencial para a formulação das es- tratégias, que são revisadas uma vez por ano, sendo que os indicadores que contribuem para o alcance dos objetivos organizacionais são revisados trimes- tralmente. Uma das estratégias relacionada às pessoas é a de atrair e reter colab- oradores, devido a concorrência de diversas outras indústrias estabelecidas na mesma região. Muitas vezes contratam-se pessoas de até 100 km de distância para trabalhar na organização. [...] ao mesmo tempo em que incentivamos o desenvolvi- mento, que as pessoas busquem conhecimento, busquem estudar, se aprimorar a gente também tem que dar opor- tunidade de crescimento para estas pessoas, à medida que elas se vão desenvolvendo em algum momento terão que assumir outra função de maior responsabilidade; os operacionais são as pessoas mais difíceis de conseguir e ficar no cargo, pois cada vezestão buscando mais conhe- cimento e não se sujeitam mais a trabalhar em qualquer 65 tipo de atividade [...]. (Diretora de Recursos Humanos da cooperativa) Devido a este cenário é que a cooperativa aposta em estratégias de atração e retenção de pessoas, por meio dos seus programas de benefícios, remunera- ção e demais atrativos. Outras estratégias estão ligadas à questão da qualidade de vida, à segurança no trabalho e aos treinamentos como de liderança e de segurança do trabalho que são documentados no planejamento; outros trein- amentos são realizados conforme necessidades identificadas ao longo do ano. Por ser cooperativa e não uma empresa privada é preciso motivar a todos para que consigam manter-se competitivos no mercado e acreditem que essas estratégias resultem em um diferencial competitivo, pois preparam as pessoas para crescerem dentro da organização e com isso ela mesma também se de- senvolve; a direção trabalha para que as pessoas tenham consciência de que fazem parte de uma cooperativa e que há muitas pessoas envolvidas em todo o processo; acreditam ser uma família. É fato que o Brasil enfrenta uma escassez de qualificação de mão de obra. Pessoas com pouca ou nenhuma experiência, com baixo nível de escolaridade, se encontram muito facilmente no mercado de trabalho, e talvez sejam as que trocam de empresa com mais facilidade atraídas por diferença mínima de sa- lário; por possuírem baixa renda e precisar dessa pequena diferença salarial, então, detecta-se um dos motivos do turnover das grandes indústrias terem altos índices, nos chamados, “chão de fábrica”. Mas, é notório que o déficit de profissionais se dá tanto em funções operacionais quanto, também, no nível estratégico da organização se tornando um grande obstáculo para sua com- petitividade. Essa realidade que o país enfrenta faz com que as empresas incluam em seu planejamento estratégico, estratégias para tentar combater esse problema, como é o caso da cooperativa brasileira. Diferente da Espanha, que atualmente encontra-se em momento trágico na sua economia, as empresas estão tendo que demitir seus colaboradores, muitas vezes qualificados, mas que por falta de recursos ou mesmo por estra- tégia de continuar ativos no mercado tomam a decisão de diminuir seu quadro funcional. Momento este que fortalece o cumprimento das estratégias para o atingimento das metas, talvez, por serem poucas as empresas a sobreviver no meio competitivo frente a essa situação de crise. 1.5 Síntese da Gestão Estratégica de Pessoas das Empresas O Quadro 2, mostra as características, semelhanças e diferenças dos prin- cipais aspectos abordados durante as entrevistas entre a empresa do Brasil e da Espanha. Com práticas adotadas em cada organização é possível perceber a im- portância estratégica atribuída à área de gestão de pessoas pelos seus gestores, 66 bem como a estrutura que cada uma possui quanto às práticas serem documen- tadas, revisadas, atualizadas ou, pelo contrário, serem informais. Quadro 2: Síntese da Gestão Estratégica de Pessoas. Aspectos Abordados Cooperativa brasileira Grupo espanhol Políticas de recursos humanos. Algumas documentadas out- ras não, dentre elas: política de incentivo à educação; pro- grama de sugestões; projeto “Comece seu Dia Bem”; proje- to facilitadores da qualidade; plano de carreira e remunera- ção; gestão por competências. Documentada e dividida em três partes: modelo de com- petências; valores; lideranças. Regras e conduta. É informal, as regras e conduta existem, mas não integram um manual. É formal e está dividida em três princípios: conduta ética; profissionalismo; confiden- cialidade. Processos de aprendizagem e os programas de treinamentos. A escolha dos treinamen- tos bem, como a medição dos resultados, são baseados na pesquisa de clima organizacional, mas está sendo implantado um desenho por função no qual há uma lista de cursos que consideram ideias para cada cargo. Escolhidos conforme necessi- dade identificada no plano de desenvolvimento individual que contempla todas as pes- soas. Os resultados são me- didos pela pesquisa de clima organizacional. Outra forma de aprendizagem é um kit de desenvolvimento de com- petências corporativas com quase 150 atividades. A evolução dos colaboradores pelo estímulo do pensamento estratégico. Regras do programa de par- ticipação nos resultados e do projeto “Comece seu Dia Bem”. Modelo que está estruturado em três pilares: um estilo de gestão que promove a figura do “Excelente líder”, o desen- volvimento de um modelo de competências e internalização por todos os empregados de valores corporativos. Incentivo à qualificação externa dos colaboradores. Política de incentivo à edu- cação documentada. Oferece auxílio financeiro. Incentivo apenas moral. Não oferecem auxílio financeiro. 67 Avaliação de desempenho. É informal. É formal, documentada. Gestão estratégica de pessoas. Tem planejamento estratégico documentado e revisado uma vez por ano, sendo que os indicadores que contribuem para o alcance dos objetivos organizacionais são revisa- dos trimestralmente. Uma das estratégias relacionada às pessoas é a de atrair e reter colaboradores; qualidade de vida; segurança no trabalho; e treinamentos. Tem planejamento estraté- gico documentado e revisado. Uma das estratégias que en- volvem as pessoas é chamada de “agentes de mudança”. Re- sultados obtidos: financeiro, econômico e satisfação dos clientes. Fonte: Elaborado pela autora O Quadro 3 abaixo, expressa resumidamente às competências do setor de recursos humanos, identificadas durante as entrevistas, bem como os processos utilizados por empresa para o alcance dos objetivos organizacionais. Quadro 3: Síntese do segundo objetivo específico. Competências de RH Cooperativa brasileira Grupo espanhol Habilidade de atrair e reter pessoas. Programa de carreira e remu- neração; programa de benefí- cios; projetos de qualidade de vida; oportunidade de cresci- mento; e motivação. Gestão por competências bem estruturada; programa de benefícios; projetos de qualidade de vida; oportuni- dade de crescimento; e moti- vação. Capacidade de de- senvolver pessoas. Recrutamento interno; trein- amentos internos; cursos ex- ternos e palestras. Recrutamento interno; plano de desenvolvimento individ- ual; plano diretor de forma- ção; e treinamentos. Conhecimento e habilidades para relacionar metas aos planos de remune- ração. Programa de participa- ção nos resultados (PPR); e política salarial. Gestão por competências. Incentivar a busca pela capacitação. Incentivo financeiro (bolsa de estudos). Incentivo moral (não finan- ceiro). 68 Promover e acom- panhar a avaliação de desempenho. Informal. Gestão por competências. Desenvolvimento de lideranças. Curso de liderança. Treinamentos e Programa “Excelente Líder”. Traçar estratégias relacionadas às pes- soas. Análise S.W.O.T realizada pelo gerente de cada setor. Gestor de recursos humanos. Proporcionar bom ambiente de trab- alho. Trabalho em equipe. Pesquisa de clima orga- nizacional; projeto “Comece seu Dia Bem”. Pesquisa de clima orga- nizacional; políticas de gestão de pessoas. Disseminar a cultura da qualidade. Programa Gaúcho de Quali- dade e Produtividade; e pro- grama “facilitadores da quali- dade”. Departamento de qualidade. Fonte: Elaborado pela autora Portanto, não basta apenas ter funcionários talentosos, é preciso que as estratégias da empresa sejam viabilizadas a partir do uso adequado desses co- laboradores, com a utilização de recursos tecnológicos dentro de um modelo de gestão alinhado aos objetivos estratégicos da empresa. É possível cada com- petência gerar um grau de vantagem competitiva diferente, isso dependerá da eficácia do método utilizado para que essas competências auxiliem no alcance das metas. O Quadro 4 representa os resultados obtidos nas entrevistas em relaçãoaos processos de aprendizagem visando à capacitação do capital humano em ambas as organizações. Quadro 4: Síntese do terceiro objetivo específico. Estruturação dos processos de apren- dizagem Cooperativa brasileira Grupo espanhol Identificação das necessidades. Pesquisa de clima orga- nizacional. Plano de desenvolvimento individual decorrente da avaliação de desempenho. Abrangência. Todos participam. Todos participam. Periodicidade. Durante todo ano. Durante todo ano. 69 Treinamentos. Não documentado no plane- jamento estratégico. Documentado no planeja- mento estratégico. Outros processos de aprendizagem. Através do projeto “Comece seu Dia Bem” (palestras e outros). Kit de desenvolvimento de competências gerenciado pelo supervisor de cada setor. Medição dos resul- tados. Pesquisa de clima orga- nizacional. Pesquisa de clima orga- nizacional. Tratamento dos resultados. Não há prática documentada. Não há prática documentada. Fonte: Elaborado pela autora 1.6 Conclusões e recomendações Com o referido estudo procurou-se identificar quais são as diferenças e semelhanças existentes em termos de políticas de recursos humanos em empresas do Brasil e da Espanha. Um dos pontos principais identificados ao longo deste trabalho é o da gestão por competências, como modelo escolhido por ambas as organizações pesquisadas, sendo que uma delas, a cooperativa brasileira, ainda não está com todo o processo implantado, mas já se percebe que mesmo no início desta caminhada já há uma gestão com novas visões. Além deste fator, outro que contribui para o desenvolvimento de competên- cias estratégicas dos colaboradores são as políticas, dentre elas a do incentivo à educação, que, como consequência, auxilia na detecção de novas lideranças. O que é possível sugerir à Cooperativa em questão é que formalize todas, e não apenas algumas políticas documentando-as com a finalidade de obter um pa- drão organizacional, assim cumprindo com a sua tarefa estratégica de garantir que as ações das pessoas não comprometam os resultados da organização. Essa medida é apropriada também para as regras e condutas da cooperativa que hoje não integram um manual. Enquanto o Grupo espanhol, atualmente, já desfruta dos resultados obtidos com a gestão por competências, uma vez que, implementada há al- guns anos, se mostra consolidada e aceita pelos seus colaboradores. Isso se deve ao fato de que as políticas do grupo se encontram bem definidas, e um dos principais objetivos que se tem é a ambição pelo comprometimento das pes- soas para com os projetos da empresa, bem como atingir elevados padrões de competência e desenvolvimento profissional de cada uma delas, tornando-as, assim, fator-chave para a competitividade organizacional. Destaca-se, aqui, a importância da gestão por competências para a aval- iação de desempenho; no caso do grupo espanhol poderia ter um melhor aproveitamento já que se encontra implantada há alguns anos. Por outro lado, a cooperativa brasileira poderá fazer uso desta ferramenta assim que terminar o processo de formulação e implantação, já que não possui um método docu- 70 mentado de avaliação de desempenho, e a maneira que hoje procura realizar é bastante subjetiva, pois, se leva em consideração apenas a questão salarial, portanto, não há uma efetiva medição de desempenho. Ao analisar como são estruturados e desenvolvidos os processos de apre- ndizagem visando à capacitação do capital humano em ambas as organizações, pode-se perceber que no Grupo espanhol tanto os treinamentos internos quan- to o incentivo na qualificação externa são constantes, porém esse incentivo é de cunho moral e não financeiro, sendo assim, o que se sugere é um plano de incentivo financeiro à educação, desde que a qualificação esteja relacionada com a área que o colaborador atua dentro da empresa. Visto que ela mesma possui muitos colaboradores, esse plano poderia abranger um percentual do custo mensal e não total, servindo também como mais um atrativo para re- tenção, principalmente dos colaboradores que ocupam cargos potenciais, ou ainda para aqueles cujo treinamento apresentou características de liderança, ou seja, que atualmente estejam em cargo operacional, mas que mostrem po- tencial de crescimento; além do retorno benéfico que o grupo teria com esse investimento, em forma de conhecimento que seria aplicado pelo colaborador nos processos organizacionais. Ao realizar esta análise na Cooperativa, observou-se que existem diver- sos treinamentos realizados internamente, bem como qualificações externas custeadas pela Cooperativa com o intuito de tornar os colaboradores em fer- ramenta estratégica. Porém, os resultados desses treinamentos internos não são totalmente aproveitados, pois a única forma de medição é pela pesquisa de clima organizacional realizada no final de cada ano. Se caso houver um trein- amento em janeiro, os possíveis resultados só aparecerão, isso se aparecerem, em dezembro, quando o setor de recursos humanos realizar a pesquisa nova- mente; pelo vasto espaço de tempo entre o treinamento e a pesquisa, provavel- mente, muitas informações se perderão, que poderiam ter sido coletadas após o término do treinamento. Além disso, com os dados obtidos na pesquisa, não há como identificar, precisamente, quando ocorreu a melhora, fruto dos resul- tados do treinamento. Corre-se o risco dos esforços e dos investimentos terem sido em vão; dessa forma o ideal seria medir os resultados pelos indicadores de cada setor, durante e após a qualificação, facilitando compreender o custo- benefício de cada treinamento. Outra sugestão à cooperativa brasileira é identificar a necessidade de treinamento com antecedência e descrever, no planejamento estratégico, os programas de capacitações previstos para o ano seguinte, com o intuito de tra- çar metas de aprendizagem, além de obter uma estimativa de custos antecipa- damente. Ao perguntar, durante as entrevistas, de que maneira as estratégias dire- cionadas à gestão de pessoas atuam como diferencial competitivo perante aos demais concorrentes e que tipo de retorno esse diferencial tem trazido, ambas 71 as empresas não foram precisas nas respostas, provavelmente, faltem dados concretos para responder as perguntas devido à falta de medição dos resultados de treinamentos e das avaliações de desempenho, ou até mesmo não relacio- nam os resultados dos treinamentos e das avaliações de desempenho com os resultados das macroestratégias (metas gerais da organização). Para tanto, as sugestões relacionadas a esses aspectos já foram apresentadas anteriormente. Por esta pesquisa foi possível, também, identificar as características, semelhanças e diferenças entre Brasil e Espanha em relação à importância estratégica atribuída à área de gestão de pessoas (Quadro 4). Notou-se uma equivalência nas falas dos gestores entrevistados quanto a preocupação nos processos que envolvem os colaboradores. Algumas práticas são semelhantes, enquanto outras podem ser melhoradas, ora por uma empresa ora pela outra, como já comentado anteriormente na análise. Por se tratar de um estudo comparativo, torna-se importante destacar que, de modo geral, a empresa espanhola apresenta certa vantagem em compa- ração com a empresa brasileira, já que se encontra com seus processos melhores estruturados. Salienta-se, também, que a empresa espanhola possui a gestão por competências implementada e dando bons resultados, assim facilitando a gestão estratégica de pessoas. É possível que um dos motivos da empresa espanhola apresentar mel- hores resultados do que a cooperativa brasileira seja pelo fato de ser uma em- presa privada, a qual vem ao longo de muitos anos implementando políticas e sistemas de gestão. Por outro lado, a organização brasileira, por ser uma coop- erativa, não tinha uma preocupação inicial sobre políticas de recursos huma- nos, a organização só percebeu a importância dos colaboradores como fator competitivo após passar porséria crise financeira, ou seja, todos os procedi- mentos que atualmente estão implantando ou que implantaram recentemente, iniciou-se apenas em 2003. REFERÊNCIAS ARGYRIS, Chris. Ensinando Pessoas Inteligentes a Aprender. In: Robert How- ard. Aprendizado Organizacional: gestão de pessoas para a inovação con- tínua. Rio de Janeiro: Campus, 2000. BARINI, Ulrico Filho. Políticas e Diretrizes de RH In: Gustavo e Magdalena Boog. Manual de Gestão de Pessoas e Equipe. São Paulo: Editora Gente, 2002. DAVENPORT, T. 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Mudanças frené- ticas e avassaladoras como crises financeiras que geram pobreza e desemprego, transformações climáticas e aumento da poluição, países ricos apresentando lentas taxas de crescimento, a tecnologia mudando o mundo mecânico para o mundo digital, internet, computadores, celulares e redes sociais. Tudo isso, im- pacta profundamente no comportamento de empresas e consumidores. (KOT- LER; HERMAWAN; SETIAWAN, 2010) Todos esses desafios impostos aos gestores fazem com que o marketing seja repensado e utilizado em novas dimensões, visando a objetivos não apenas gerenciais, mas sim, sociais, vindo a promover não só empresas como também lugares, afetando a qualidade de vida de toda uma sociedade. O Marketing de Lugares consiste em utilizar ferramentas do marketing para enfrentar o desafio do crescimento no âmbito de lugares atraindo inves- timentos, moradores e visitantes, demonstrando como as comunidades e as regiões podem competir na economia global e desenvolver-se. Assim, os even- tos promovidos por uma localidade podem ser utilizados como ferramenta pro- pulsora do Marketing de Lugares, vindo a promover e desenvolver as cidades e, consequentemente, sua população. Desse modo, uma localidade, poderá utili- zar-se desta ferramenta como forma de promoção e desenvolvimento regional. Os eventos devem ser atrativos para os diferentes públicos visados: ex- positores, visitantes, prestadores de serviços, empresários, dentre eles. Esta pes- quisa tem por objetivo apresentar, a avaliação dos expositores da EXOFESA. A EXPOFESA – Exposição Feira Regional de Santo Augusto é considera- da o principal evento da região Celeiro, à qual pertence; avaliar a satisfação dos expositores, identificar aspectos a serem melhorados e novas oportunidades a serem exploradas são essenciais tendo em vista as expectativas do público. Ao longo das 12 edições já realizadas, é crescente o número de visitantes e exposi- tores, de modo que esse evento constitui-se, atualmente, uma das principais estratégias de promoção e desenvolvimento econômico do município. 74 Gostaríamos de agradecer, especialmente, a colaboração dos alunos Ana Laura Eckhardt de Lima, Andressa Machado, Lucas Zimmermann e Isadora Dellalibera, que contribuíram na coleta e tabulação de dados apresentados no presente estudo. 1. REFERENCIAL TEÓRICO 1.1 Marketing de Lugares e seus reflexos no Processo de Desenvolvimento O Marketing ao longo das décadas vem conquistando cada vez mais es- paço dentro do ambiente organizacional. Entretanto, nos últimos anos surgem novas abordagens nesta área e sua abrangência passa a atingir também as ci- dades, ou localidades, refletindo direta e/ou indiretamente no processo de de- senvolvimento da sociedade como um todo. Kotler e Armstrong (1999, p. 3) definem marketing como o “processo so- cial e gerencial através do qual, indivíduos e grupos obtêm aquilo que desejam e de que necessitam, criando e trocando produtos e valores uns com os outros”. Essa dimensão social mostra o papel desempenhado pelo marketing na socie- dade, no sentido de proporcionar um padrão de vida superior (COBRA, 2009). Quando se menciona a questão dos benefícios à sociedade, melhorias em sua qualidade de vida emerge a ideia do Marketing de Lugares, afinal qualquer região necessita melhorar a comercialização de seus produtos locais, promover os valores e a imagem formando uma gama de vantagens de diferenciação. O Marketing de Lugares para Kotler et al. (2006) consiste em utilizar fer- ramentas do marketing para enfrentar o desafio do crescimento no âmbito de lugares atraindo investimentos, moradores e visitantes, demonstrando como as comunidades e as regiões podem competir e desenvolver-se na economia global Assim, os administradores devem estabelecer uma estratégia clara que possa direcionar os seus esforços no sentido de criar uma oferta de valor que seja relevante para seus públicos-alvo. A definição dos públicos-alvo é crucial para o sucesso do planejamento. Essa dimensão do marketing tem sido discutida por vários autores (KE- ARNS; PHILO, 1993; CIDRAIS, 1998; KOTLER et al. 2006; VAN DEN BER; BRAUN, 2002) e recebe diversas denominações como: Place Marketing, City marketing, Marketing Territorial, Marketing Urbano, Marketing de Lugares e Marketing de Cidades. As abordagens envolvem duas perspectivas: uma, na visão de Kearns e Philo (1993) considera parte de uma nova economia política para as cidades e regiões, e os demais autores, consideram-no como estratégias mais práticas que transportam o marketing tipicamente empresarial para a ci- dade. Entretanto, é possível agregar as duas visões, presente na recente trans- 75 formação na Governança urbana e no envolvimento da esfera empresarial e de mercado nos processos de desenvolvimento local, pela promoção do lugar. O Marketing de Lugares emerge, então, como um dos elementos ful- crais do planejamento estratégico das cidades e regiões, partindo de suas singu- laridades e especificidades, integrando-as e projetando-as em um contexto de competitividade global, visando a identificar sua vocação e visão, promovendo- as e afirmando-as. Kotler et al. (2006) defendem que o objetivo do Marketing de Lugares é o de desenhar uma comunidade que satisfaça as necessidades dos diversos grupos de utilizadores (visitantes, residentes e trabalhadores), as empresas e os mercados exportadores desse mesmo local. Antunes (2002) aponta a validade do conceito não somente às grandes cidades, mas tambémpara as pequenas localidades que podem reforçar a sua competitividade e a economia local, pela identificação e exploração de suas vantagens distintivas. São estas vantagens que resultam da soma dos fatores que a tornam única em um contexto de com- petitividade. O marketing voltado às cidades tem como intuito a promoção da pros- peridade da comunidade urbana, utilizando-se da inovação, do conhecimento e da formação para direcionar estratégias de valorização e promoção de uma cidade (VAN DEN BERG; BRAUN, 1999). Assim, estratégias podem ser di- recionadas a diferenciar cidades atraindo investimentos, empresas e conheci- mento passando a cidade a se tornar mais competitiva. O Marketing de Lugares abrange quatro principais atividades, na aborda- gem de Kotler et al. (2006): • O desenvolvimento de um posicionamento e de uma imagem forte e atraente; • O estabelecimento de incentivos atraentes para os atuais e os pos- síveis compradores e usuários de seus bens e serviços; • O fornecimento de produtos e serviços locais de maneira eficiente; • A promoção de valores e a imagem do local de maneira que os pos- síveis usuários conscientizem-se realmente de suas vantagens dife- renciadas. As comunidades, comumente se concentram apenas em uma ou outra atividade mercadológica, geralmente as promocionais. Portanto, apesar da tendência tradicional do marketing estar voltada para o produto, ele tem sido utilizado como ferramenta de promoção econômica de cidades, na realização de grandes eventos, em reestruturações urbanas profundas e para a promoção turística dos territórios, das empresas e das pessoas. São considerados como públicos-alvo no Marketing de Lugares: visitan- tes; moradores e trabalhadores; investidores comerciais e industriais e mer- 76 cados de exportação. Para atrair estes públicos, Kotler et al. (2006) propõem quatro amplas estratégias que são: Marketing de Imagem, Marketing de Atra- ções, Marketing de Infraestrutura e Marketing de Pessoas. Marketing de Imagem: sem uma imagem original e diferenciada, um lugar potencialmente atraente pode passar despercebido em meio ao vasto mercado de lugares disponíveis. Dessa forma, uma das metas do Marketing de Atrações é criar um slogan criativo que contenha uma ideia de fundamento. Marketing de Atrações: existem lugares com atrações naturais, out- ros com notável patrimônio histórico, lugares que abrigam edifícios famosos mundialmente, lugares que desfrutam o benefício de ter ginásios esportivos valorosos, lugares com centro de convenções e exposições gigantesco ou, com calçadões. Marketing de Infraestrutura: nem a imagem, nem as atrações conseg- uem oferecer a resposta completa para o desenvolvimento de um lugar; sendo necessária uma infraestrutura eficaz na base. São apontados como melhorias neste quesito: ruas e rodovias, aeroportos e redes de telecomunicações, portos e investimentos em Tecnologia de Comunicação (como por exemplo, melhorar o acesso de banda larga no lugar). Marketing de Pessoas: pode ser feito por cinco grupos de pessoas: famo- sas, líderes entusiasmados (empresariais e políticos habilidosos), pessoas com- petentes, pessoas com perfil empreendedor e pessoas que se mudaram para o lugar. Como participantes do Marketing de Lugares, Kotler et al. (2006) menc- ionam: participantes do setor público, do setor privado, participantes regionais, nacionais e internacionais. Conceito muito próximo da proposição da tríplice hélice desenvolvida por Etzkowitz (2002), que envolve nas políticas de desen- volvimento, o papel do Governo, Empresas, Universidades e na denominada 4.ª hélice prevê a incorporação da sociedade civil organizada. Para tornar os lugares conhecidos é essencial que eles sejam promovidos; feiras e eventos são veículos tradicionalmente utilizados pelas cidades. 1.2 Eventos e Feiras como propulsores do Marketing de Lugares Apesar da tendência tradicional do marketing estar voltada para o produ- to, ele tem sido utilizado como ferramenta de promoção econômica de cidades, na realização de grandes eventos, em reestruturações urbanas profundas e para a promoção turística dos territórios, das empresas e das pessoas. Os eventos especificamente, alvo deste estudo, são caracterizados por Melo Neto (1999, p. 21) como: Um instrumento institucional e promocional utilizado na comunicação dirigida, com a finalidade de criar con- ceito e estabelecer imagem de organizações, produtos, 77 serviços, ideias e pessoas por meio de um acontecimen- to previamente planejado e a ocorrer em um único es- paço de tempo com aproximação entre os participantes, quer seja física, quer seja por meios de recursos de tec- nologia. Os eventos há muito tempo não são mais vistos como sinônimo de festa e comemoração. É um elemento importante de comunicação capaz de alavancar negócios, constituindo-se como uma ferramenta estratégica de marketing, que consolida uma marca no mercado. (RIVA et al. 2013) Cesca (1997) considera evento um fato que desperta a atenção podendo ser notícia e, assim, divulgar seu promotor. É a execução de um projeto devi- damente planejado de um acontecimento, com o objetivo de manter, elevar ou recuperar o conceito de uma organização junto ao seu público-alvo. Giácomo (1993), Britto e Fontes (2002) agregam em sua definição de evento o intuito de engajar as pessoas em uma ideia ou ação. Trata-se de um momento único, que sempre ocorre em um determinado espaço e tempo e acaba aproximando pes- soas, produtos e serviços, promovendo a perfeita interação entre eles. Em relação ao Marketing de Lugares, os eventos podem constituir-se em oportunidades de desenvolvimento desde que tenham uma proposta coesa com as características verdadeiras do lugar. Se bem conduzidos, a promoção de eventos pode alavancar marcas, características dos lugares. “Evento pode ser definido como um ‘acontecimento criado com a finalidade específica de alterar a história da relação organização-público, em face das necessidades ob- servadas’.” (SIMÕES, 1995, p. 170) Tum, Norton e Wright (2007) argumentam que os festivais, eventos cul- turais e festas temáticas são atividades que possuem uma representatividade muito grande para a comunidade, pois, além de promover o envolvimento dos residentes, proporcionam a oportunidade de receber visitantes, promover a localidade e impulsionar a economia local e, em consequência promover o desenvolvimento. Para garantir êxito de um evento, é fundamental o desenvolvimento de um projeto bem organizado e estruturado em consonância com os objetivos que se deseja alcançar por meio deles, ou seja, é preciso planejar. O planeja- mento estratégico de eventos inicia-se pela conscientização dos envolvidos e abrange pesquisa, planejamento, organização, coordenação, controle e implan- tação de um projeto, visando a atingir o seu público-alvo com medidas concre- tas e resultados projetados. Em relação ao Marketing de Lugares, Simões (1995) afirma que os eventos podem constituir-se em oportunidades de desenvolvim- ento desde que tenham uma proposta coerente com as características reais do lugar. A participação em eventos pode promover marcas e características dos lugares quando bem conduzida. 78 Hall (1997) destaca que a função da gestão de eventos é manter contato com os participantes e visitantes do evento (consumidores), descobrir suas necessidades e motivações, desenvolver produtos que satisfaçam suas neces- sidades e construir programas de comunicação adequados que expresse os ob- jetivos propostos para o evento. 1.1.1 As Feiras de Negócios Uma tipologia específica de evento são as feiras, que se mostram um seg- mento favorável na geração de negócios em todo o país (RIVA et al. 2013). Feira é uma exibição pública com o objetivo de venda direta ou indireta formada por vários estandes montados em espaços especiais em que se colocam produtos e serviços (MATIAS, 2010). Skrabe (2003, p. 3) define feiras como “[...] um espaço do mercado em que se promove a convergênciada oferta e da demanda de uma ou mais categorias de produtos em um mesmo instante e lugar”. As feiras ainda são definidas como espaços privilegiados, criados para expor produtos e serviços a ser comercializados, nos quais se reúnem pessoas interessadas em comprar e vender. É essencial o planejamento criterioso de uma feira, tanto do ponto de vista do organizador, quanto do ponto de vista do expositor e do visitante, para que se tenha uma relação otimizada de custo versus benefício, a qual, dificilmente, é encontrada em qualquer outro tipo de evento. (SENAC s.d) A realização de feiras de negócios emerge como oportunidade ímpar para as empresas lançarem novos produtos e serviços; estes podem ser demonstra- dos e as perguntas dos clientes respondidas no momento em que estão solici- tando informações. Ao exporem seu negócio em eventos desta natureza, os em- presários passam a ter maior facilidade em formar uma base de dados que é de grande utilidade para as informações de vendas e direcionamento dos esforços de propaganda subsequentes, resultando na geração de melhorias no produto ou mudanças no programa de marketing. (SHIMP, 2002) As feiras comerciais combinam uma diversidade de elementos de comunicação. O stand de um expositor, por exemplo, cria um cenário de serviço pequeno em si mesmo (...), e existem folhetos que podem ser apanha- dos, vídeos para assistir e pessoal de vendas para con- tatar pessoalmente. (LOVELOCK; WRIGHT, 2001, p. 313) A participação em feiras mostra-se benéfica aos expositores, permitindo que estes tenham crescimento no mercado, independente do tamanho de seu empreendimento. Para as pequenas empresas, a participação em feiras é uma fonte de informações de mercado, por meio dela o empreendedor tem acesso às tendências, às novas tecnologias e inovações de seu setor sejam em produ- 79 tos ou processos. Pode, também, ser uma fonte de ideias, além de promover o networking, permitindo o conhecimento de concorrentes e fornecedores que possam ser futuros parceiros de negócios (KHAUAJA, 2011). A empresa que desejar participar de uma feira de negócios cabe buscar informações prévias sobre ela, seu público e planejar cuidadosamente sua estratégia mercadológica, o que irá vender, como irá se apresentar (organização do stand) e como fará sua comunicação institucional, bem como os custos envolvidos. (RIVA et al. 2013) 1.2 Satisfação dos consumidores Toda e qualquer instituição deve ter como um de seus objetivos centrais a satisfação do público que se propõe a atingir. O sucesso de qualquer empreen- dimento perpassa pelo atendimento das expectativas e dos anseios do consum- idor, daí a relevância de trabalhar com foco ao cliente, buscando conhecer o nível de satisfação ou insatisfação gerado por seus produtos/serviços/marca ou empresa de modo geral. Nesse contexto, pode-se destacar que a relevância da satisfação encontra sua base na essência do conceito de Marketing, caracter- izado como o processo de atender às necessidades e aos desejos dos consumi- dores, satisfazendo-os. (KOTLER; ARMSTRONG, 1999) “A satisfação do cliente depende do desempenho do produto percebido com relação ao valor relativo às expectativas do comprador. Se o desempenho faz jus às expectativas, o comprador fica satisfeito. Se excede as expectativas, ele fica encantado”. (KOTLER; ARMSTRONG, 1999, p. 6) Para Oliver (1997) trata-se do julgamento feito pelo consumidor de que as características do produto ou serviços proporcionou um nível prazeroso de desempenho do consumo em questão, incluindo níveis de sub ou superdesem- penho. Para a maioria dos autores, o grau de satisfação decorre de uma compa- ração efetuada pelo consumidor, comparação esta que confronta o resultado da transação com uma referência anteriormente existente (SPRENG; MACK- ENZIE; OLSHAVSKY, 1996). O resultado desse processo comparativo pode ser positivo, negativo ou neutro, gerando assim satisfação ou insatisfação. A importância da questão é notória: trata-se de identificar e prever as ações do consumidor insatisfeito. Kotler (1999) divide as formas possíveis de ação por parte do consumidor insatisfeito em duas categorias: as “públicas” (queixas à empresa envolvida, aos órgãos fiscalizadores públicos ou privados, ações legais para obter ressarcimento, etc.); e as “privadas” (boicote individual ao fabricante ou revendedor, divulgação boca a boca da experiência negativa, etc.). Geralmente em eventos, a ação do consumidor insatisfeito é privada, uma vez que ele dissemina sua opinião negativa às pessoas de seu círculo de con- vívio. Froemming (2002) considera a satisfação do consumidor uma impor- tante fonte de estratégia competitiva das organizações, surgindo a necessidade 80 de se mensurar essa satisfação. Uma maneira de analisar a satisfação é por meio de um questionário. A empresa deve adaptar as perguntas conforme a necessi- dade da satisfação, a aplicação do questionário deve ser feita de forma periódi- ca no qual o assunto abordado pode ser bastante variável. (LAS CASAS, 1997) Para Las Casas (1997), as empresas adotaram a prática de satisfazer seus clientes devido à concorrência acirrada encontrada em certos mercados e, tam- bém, o crescimento de consumidores mais exigentes e que procuram maior atenção por parte dos comerciantes. Porém, se percebe que muitas empresas dizem estar disponibilizando atenção aos seus clientes, mas na prática sabe- se que são poucas que realmente aplicam uma orientação verdadeira. “Muitos alegam que a dificuldade de implantação desta filosofia é que o elemento hu- mano, o lado pessoal de qualquer técnica administrativa, esbarra-se em fatores culturais.” (LAS CASAS, 1997, p. 153) A satisfação do consumidor possui uma série de consequências sobre o comportamento do consumidor com relação às empresas nas quais ele compra, como compra e com que frequência compra. Se o consumidor começar a com- prar com certa regularidade os mesmos produtos, ele estará se tornando fiel a estes produtos. Muitas vezes, este cliente compra o seu produto preferido de forma sistemática e exclusiva. O cliente fiel é o que proporciona maiores lucros às empresas, razão pela qual, muitas organizações têm tomado atitudes para evitar perdas de clientes, o que se denomina de “retenção” (TRINQUECOSTE, 1996). No caso particular deste estudo, tendo os eventos como produtos, a fi- delização está presente na continuidade do público expositor em retornar a locar espaços para seus negócios em nova edição da feira. Existem algumas preocupações para analisar a satisfação do cliente, de acordo com Kotler (1999), as empresas precisam entender que as expectativas de cada consumidor é diferente umas das outras, cada pessoa possui suas próprias idiossincrasias e com isso é necessário entender os seus clientes, e compreender que eles podem estar satisfeitos ou não no momento em que preenchem o ques- tionário, mas em outras situações serem totalmente diferentes. Dentre os diversos públicos de uma feira destaca-se o grupo de exposi- tores que veem a oportunidade de apresentar seus produtos a seu público. Esta pesquisa focaliza a satisfação desse segmento. 2. METODOLOGIA Trata-se de um estudo exploratório e descritivo, que utilizou como coleta de dados, o método survey, que para Malhotra (2001), utiliza-se de um ques- tionário estruturado aplicado à amostra de uma população e que se destina a obter informações específicas dos entrevistados. Os questionários utilizados continham questões abertas e fechadas espe- cíficas ao público da amostra, organizadas de forma estruturada. Esses foram 81 destinados à amostra de conveniência e adesão composta por 54 expositores, abordados no decorrer dos três dias de evento em horários alternados. Em- pregou-se a escala de Lickert, com cinco opções de escolha, desde “muito insat- isfeito”, com peso 1,0 até “muito satisfeito” com peso 5,0. Os resultados são apresentados por meio de gráficos de distribuição de frequência e da sistematizaçãodas respostas advindas das questões abertas. Caracteriza-se, portanto, como um estudo de caráter quantitativo-qualitativo, mesclando a abordagem teórica construída com as informações coletadas com os sujeitos do estudo. 3. RESULTADOS 3.1 Caracterização da EXPOFESA – Exposição Feira Regional de Santo Augusto A EXPOFESA – Exposição Feira Regional de Santo Augusto é um evento marcante para a comunidade local e regional no âmbito dos negócios e do de- senvolvimento do município. A Feira objetiva proporcionar condições de mer- cado, cultura e intercâmbios por meio de ações locais e regionais, facilitando o acesso às novas tecnologias e às inovações para o desenvolvimento integrado e sustentável dos setores estratégicos do agronegócio, da indústria, do comércio e de serviços, além de integrar ações para o desenvolvimento e apresentar as potencialidades, promovendo a inovação e o crescimento de Santo Augusto e Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. A EXPOFESA teve seu início no ano de 1995 como uma feira local, en- tretanto, pela sua abrangência e magnitude, no ano de 2002 tornou-se uma feira de caráter regional. Em 2014 ocorreu a 12.ª edição no período de 29 de maio a 1.º de junho na Estância de Rodeios Nerci Liberato, tendo como insti- tuições parceiras a Associação Comercial, Industrial, Serviços e Agropecuária de Santo Augusto – ACISA, o Sindicato Rural, a Prefeitura Municipal e os no- vos integrantes, que passaram a somar esforços na edição deste ano, que são a EMATER/RS – ASCAR e o Instituto Federal Farroupilha. A estrutura da Estância de Rodeios, onde é realizada, possui amplo es- paço para estacionamento de veículos, banheiros, restaurantes, dois pavilhões para expositores internos com cerca de 60 stands para exposição e no setor externo com 50 stands. Aos expositores, em seus stands é oportunizada a divul- gação dos produtos e serviços e a geração de negócios, estimulando-se o em- preendedorismo, resgatando-se a motivação e o estímulo para o crescimento empresarial em nível local e regional. Além disso, a EXPOFESA visa, ainda, a apresentar e a acompanhar o pro- cesso de incremento tecnológico com vistas à qualidade, produtividade e com- petitividade em todos os setores produtivos; fortalecer os processos de diversi- 82 ficação da produção; valorizar as empresas e produtos desenvolvidos em Santo Augusto e região; e, por fim, proporcionar momentos culturais, potencializan- do expoentes musicais e oferecendo entretenimento à comunidade visitante. A cada edição é criada uma nova comissão para organização da Feira, composta por pessoas distintas, pertencentes a instituições parceiras. Não ex- iste, portanto, uma comissão permanente trabalhando no planejamento do evento, o que diversas vezes, dificulta a correção de erros identificados em ed- ições anteriores. Também não são apurados e registrados dados como volume de negócios e número exato de visitantes.1 3.2 Nível de Satisfação dos Expositores Os expositores da 12.ª EXPOFESA atuam em diversos segmentos do mercado, comercializando produtos e serviços diversos, desde vestimentas, calçados, produtos alimentícios e agrícolas. A pesquisa realizada evi- dencia resultados referentes à percepção desses expositores com relação a vári- os aspectos pertinentes que compõem a organização e a execução de um evento de êxito. Mensurar a satisfação é um processo de diagnosticar o sentimento de uma pessoa, resultante de uma comparação com suas expectativas iniciais em relação ao evento. É possível verificar que de modo geral eles mostram-se satisfeitos com os produtos e serviços que ofertam e que são ofertados também por outros empreendedores regionais, analisando-se em termos de diversificação e qualidade. Questionados sobre os eventos centrais da Feira, que incluem as atrações, shows e o parque de diversões, 31,6% manifestam sua satisfação, en- quanto que 18,9% ficaram insatisfeitos e, 3,7% muito insatisfeitos. Os expositores mencionam que as atrações deveriam ser mais diversifica- das atingindo todos os tipos de públicos, passando a incluir bandas e grupos musicais da região, além de grupos de dança e teatro para apresentações. Seria uma forma de oferecer visibilidade para pessoas da comunidade, minimizar custo e incentivar maior número de visitantes, uma vez que, cada grupo en- volve os familiares e amigos para assistir. Desperta a atenção o índice de 18,5% que não souberam opinar, possivel- mente por não terem tido conhecimento das atrações, o que mostra a falha em termos de divulgação interna. Ou, então, pelo fato de estarem envolvidos com seu trabalho de comercialização sem ter tempo para apreciar os eventos que ocorriam. Os resultados são expressos nos Gráficos 1 e 2. 1 Informações extraídas de fôlder e site de divulgação do evento. 83 Gráfico 1: Satisfação dos Expositores quanto aos produtos e serviços ofertados para a venda Fonte: Pesquisa de campo Gráfico 2: Satisfação Geral dos Expositores quanto aos Eventos centrais e atrações permanentes Fonte: Pesquisa de campo Os expositores também foram questionados acerca do seu nível de sat- isfação com relação aos serviços e à organização da Feira como um todo, a partir de diversas variáveis. Considerando o sistema de comunicação existente, 29,6% consideram-se satisfeitos e, 27,8% muito satisfeitos (Gráfico 3). Como 84 afirma Hall (1997), a gestão de eventos deve manter contato com os partici- pantes buscando a melhoria do fluxo das comunicações e a identificação de seus interesses, evidenciando a necessidade de melhorias nesse quesito, uma vez que mais de 20% apresentaram níveis de insatisfação. Gráfico 3: Satisfação dos Expositores quanto ao Sistema de Comunicações. Fonte: Pesquisa de campo Com relação ao atendimento e à recepção no evento, constata-se 37,04% de satisfação e, 24,07% de expositores muito satisfeitos, enquanto 11,1% estão muito insatisfeitos e, 7,4% insatisfeitos. O atendimento depende basicamente da empatia, cortesia e disponibilidade do atendente em auxiliar os expositores. Assim, os níveis apresentados no Gráfico 4, demonstram que as pessoas care- cem de maior treinamento para recepcionar com excelência seu público não apenas visitante, mas também, aqueles que fazem o evento acontecer. Grönroos (2003) adverte que o treinamento dos funcionários é muito importante, pois um atendente bem treinado, orientado para desenvolver sua função com êxito, busca fazê-la com perfeição sempre, deixando a marca do bom atendimento. Se a empresa não investir nisto, ela fica em desvantagem frente à concorrência. 85 Gráfico 4: Satisfação dos Expositores quanto ao Atendimento/Recepção. Fonte: Pesquisa de campo Tratando-se do horário de visitação do púbico, dos expositores 44,4% estão muito satisfeitos e, 29,6% satisfeitos no geral (Gráfico 5). Cabe destacar que, a reclamação maior não é em relação ao horário, mas, sim, à data em que o evento ocorre. Os respondentes sugerem alteração no mês de realização da feira, já que é realizada em período de muitas chuvas e frio na região, prejudi- cando significativamente o número de visitantes e o sucesso do evento. Gráfico 5: Satisfação dos Expositores quanto ao Horário de visitação. Fonte: Pesquisa de campo 86 O estacionamento disponibilizado aos expositores tem sido fator im- portante nos níveis de insatisfação: 14,8% estão insatisfeitos e outros 14,8% demonstram muita insatisfação. Mencionam que deveria ser pavimentado ou conter cascalhos, além de possuir melhor iluminação para garantir a segurança local. Os demais 29,6% estão satisfeitos e, outros 18,5% consideram-se muito satisfeitos, dados expressos no Gráfico 6. Gráfico 6: Satisfação dos Expositores quanto ao Estacionamento disponível aos expositores. Fonte: Pesquisa de campo Tratando-se da segurança, têm-se bons níveis de satisfação: 33,3% satis- feitos e 38,8% muito satisfeitos (Gráfico 7). A segurança no local é uma variável fundamental em eventos, uma vez que as pessoas podem deixar defrequentar caso considerem que correm algum risco, seja este de furto, de violência ou de outro sinistro. 87 Gráfico 7: Satisfação dos Expositores quanto a Segurança no Parque. Fonte: Pesquisa de campo A divulgação do evento possui um papel relevante no seu sucesso. Quan- do mal executada, traz reduzido número de visitantes afetando negativamente os negócios e o intuito principal de uma feira, que é prospectar público, divul- gando a localidade e seus atrativos. Nesse sentido, a pesquisa revela que existe satisfação por parte da maioria dos expositores (27,8% satisfeitos e 35,2% muito satisfeitos) e que apenas 11,1% acreditam que poderia haver outras estratégias (Gráfico 8). Nesta 12.ª edição da EXPOFESA, houve maior esforço de divulgação por parte da comissão organizadora, utilizando-se de fôlderes, anúncios de jornal, rádio e televisão de âmbito regional, outdoors, divulgação pela internet e, pela primeira vez, realizou-se concurso das soberanas do evento, as quais fizeram, com a comissão, visitas de divulgação em vários municípios vizinhos. 88 Gráfico 8: Satisfação dos Expositores quanto as Formas de Divulgação da 12.ª EXPOFESA. Fonte: Pesquisa de campo Mesmo sendo o intuito principal da participação em feiras, a divulgação de sua marca, de seus produtos e serviços e seu posicionamento de mercado, a expectativa dos expositores por grande volume de negócios é elevada. Talvez por isso, vários se sentem frustrados e insatisfeitos, como demonstra os dados do Gráfico 9. É perceptível o baixo nível de satisfação e um considerável nível de insatisfeitos (20,3% insatisfeitos e 18,5% muito insatisfeitos) com as vendas concretizadas no decorrer da 12.ª EXPOFESA. Um fator preponderante mencionado como razão dos poucos negócios foi o reduzido número de visitantes do evento, devido ao grande volume de chuvas que ocorreram durante o período de sua realização. 89 Gráfico 9: Satisfação dos Expositores quanto ao Volume de negócios realizados. Fonte: Pesquisa de campo Destaca-se que, como aponta o estudo, poucos expositores sabem ex- plorar a sua participação em feiras. Talvez pela falta de conhecimento na gestão, consideram apenas o lucro financeiro como o parâmetro avaliativo para o sucesso ou não, de sua estratégia. Deixam de utilizar a feira como uma forma estratégica de prospectar novos clientes, de formar uma base de dados, coletar informações e encaminhar negócios futuros, o que é essencial. (SHIMP, 2002; KHAUAJA, 2011) Grande parte das vendas não ocorre durante as feiras propriamente ditas e, sim, depois, mas é nesse momento em que a relação inicia e torna os negócios possíveis. A pesquisa revela que 25,9% dos expositores ficaram satisfeitos; 3,7% muito satisfeitos, enquanto que, 14,8% insatisfeitos; e 11,1% muito insatisfeitos quanto a possibilidade de contato com novos clientes (Gráfico 10). Ou seja, é preciso saber aproveitar os benefícios da participação em feiras, planejar a participação, pensar em estratégias que propiciem e favoreçam as negociações, sejam elas no momento ou futuras. Como “a satisfação do cliente depende do desempenho do produto em relação a suas expectativas” (KOTLER; ARMSTRONG, 1999, p. 6), infere-se que também as expectativas dos expositores devem ser claramente definidas no preparo destes e na definição de quais objetivos eles visam a atender com a participação na feira. 90 Gráfico 10: Satisfação dos Expositores quanto a Contato com futuros clientes. Fonte: Pesquisa de campo Considerando o nível de satisfação geral dos expositores com a 12.ª EXPOFESA, os dados apontam 37% respondentes satisfeitos e, 14,8% muito satisfeitos, percentuais positivos, porém, que podem ser melhorados mediante estratégias que solucionem aspectos negativos apontados e maximizem fatores positivos. O nível de insatisfação (7,4% insatisfeitos e, 3,7% muito insatisfeitos) é considerado razoável, entretanto, o que surpreende é o elevado índice de ent- revistados que mencionam indiferença (33,3%) quando questionados (Gráfico 11). Essa indiferença pode ter ocorrido pela falta de conhecimento por parte dos respondentes da importância de um instrumento de pesquisa, na busca por melhorias a partir dos resultados apresentados. Outro dado importante identi- ficado é que dos entrevistados, 33 expositores pretendem voltar a participar da EXPOFESA; os demais, 2 não almejam retornar a expor, em função de todas as questões mencionadas anteriormente. 91 Gráfico 11: Satisfação dos Expositores com a 12.ª EXPOFESA. Fonte: Pesquisa de campo CONCLUSÃO Toda e qualquer instituição deve ter como um de seus objetivos centrais a satisfação do público que se propõe a atingir. O sucesso de qualquer empreen- dimento perpassa pelo atendimento das expectativas e dos anseios do consum- idor, daí a relevância de trabalhar com foco no cliente, buscando conhecer o nível de satisfação ou insatisfação gerado por seus produtos/serviços/marca ou empresa de modo geral. “A satisfação do cliente depende do desempenho do produto percebido com relação ao valor relativo às expectativas do comprador. Se o desempenho faz jus às expectativas, o comprador fica satisfeito. Se excede as expectativas, ele fica encantado” (KOTLER; ARMSTRONG, 1999, p. 6). Para Oliver (1997) tra- ta-se do julgamento feito pelo consumidor de que as características do produto ou serviços proporcionaram um nível prazeroso de desempenho do consumo em questão, incluindo níveis de sub ou superdesempenho. Froemming (2002) considera a satisfação do consumidor importante fonte de estratégia competitiva das organizações, surgindo a necessidade de se mensurar essa satisfação. Neste contexto, a avaliação de satisfação do pú- blico também em eventos, pode propulsionar o Marketing de Lugares auxil- iando municípios a atrair investidores, moradores e visitantes a fim de pro- mover o seu desenvolvimento. Dessa forma, a presente pesquisa teve como objetivo analisar a possibilidade de desenvolvimento de uma cidade, no caso o município de Santo Augusto/RS, por meio de um evento específico: a 12.ª EXPOFESA – visando, em um primeiro momento da pesquisa, a avaliar a sat- 92 isfação do público expositor a fim de identificar aspectos a serem melhorados, permitindo-se a promoção da localidade tanto internamente como na região, assim como propõe a temática do Marketing de Lugares. Quanto ao nível de satisfação geral dos expositores, a maioria (37%) demonstra satisfação com a Feira em sua totalidade, entretanto, é um índice considerado baixo e precisa ser trabalhado com base nas principais reclama- ções e sugestões. Essa foi a primeira experiência de mensurar a satisfação dos expositores, sugere-se, então, aos gestores do evento, que analisem os pontos fortes para potencializar os pontos positivos e, que se invista principalmente, para sanar os atributos de insatisfação. Sabe-se que, a cada ano modifica-se a equipe gestora do evento, entretan- to, é importante o trabalho de continuidade para que os resultados de melhoria realmente apareçam, caso contrário, estará se iniciando “do zero” a cada nova edição do evento. A Feira precisa ser vista como uma forma de promover e desenvolver o município e suas organizações e, para isso, deve ter como foco principal satisfazer e encantar o seu público (expositores e visitantes) só assim, poderá ser considerada uma forma propulsora do Marketing de Lugares. A elevada incidência na avaliação de indiferença indica a necessidade da conscientização e a importância do papel dos expositores para o aprimoramen- to do evento que é o espaço em que se mostram a seus consumidores. O evento, um produto de desenvolvimento da região, requer envolvimento do grupo das quatro hélices e planejamento estratégico adequado. A contínua avaliação, por meio de pesquisas como esta apresentada, é excelente auxiliar para a projeção de melhorias, pois é capaz de trazer benefícios como forma de realimentar e impulsionar os esforços da comissão organizadora da Feirana busca por inova- ções e desenvolvimento regional. Faz-se mister que as entidades promotoras evidenciem a oportunidade representada pela Feira, e que para alavancar seu objetivo deve propiciar a con- gregação de todos os atores envolvidos no processo. REFERÊNCIAS ANTUNES, J. E. As cidades também precisam de marketing. Marketeer, maio, 2002, p. 86-87. BRITTO, Janaína; FONTES, Nena. 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Urban Studies, 36 (5-6), p. 987-999. 95 GOVERNANÇA CORPORATIVA: caminho estratégico para a perpetuidade or- ganizacional ––– Daniel Knebel Baggio INTRODUÇÃO Toda organização possui a sua história de vida, algumas com uma tra- jetória mais longa e outras que não conseguiram nem mesmo comemorar o seu primeiro aniversário. Elas nascem para suprir uma determinada demanda da sociedade em uma localidade e podem, ao logo da sua caminhada, mudar de ramo de atuação, atividade, localização, produtos e grupos de gestores/contro- ladores/proprietários, para assim continuar escrevendo as suas histórias. Existem, por exemplo, empresas que permanecem ativas no mercado du- rante séculos, como o caso da Kongo Gumi, empresa Japonesa do ramo da construção, fundada no ano de 578, conforme Ricca e Saad (2012). Para isto, faz-se necessário que as organizações estejam preparadas e planejem o seu pro- cesso de sucessão da gestão empresarial, seja a partir de uma sucessão familiar, profissional ou de maneira congregada. Neste sentido, planejar a sucessão da gestão empresarial corresponde a um fator decisivo das organizações e é por meio disto que elas poderão se perpetuar no mercado. Um componente estratégico da sucessão empresarial corresponde à Gov- ernança Corporativa. Ela pode ser descrita como os mecanismos ou princípios que governam o processo decisório dentro de uma empresa (CARVALHO, 2001). Refere-se a um conjunto de regras que visam a minimizar os problemas de agência nas organizações, baseando-se em quatro pilares: fairness (senso de justiça e equidade no tratamento dos acionistas); disclosure (transparência nas informações); accountability (prestação responsável de contas); e compliance (conformidade no cumprimento de normas reguladoras, expressas nos estatu- tos sociais e regimentos internos das instituições e do país). O este capítulo tem como objetivo realizar uma exposição sobre a Gov- ernança Corporativa e a sua importância para o processo de sucessão empre- sarial. Inicialmente será abordado o processo de sucessão das organizações e, em seguida, aprofundado no tema da Governança Corporativa. 96 O PROCESSO SUCESSóRIO EMPRESARIAL O processo de sucessão pode ser compreendido como a mudança do con- trole dos bens, de um indivíduo que faleceu, para seus herdeiros, sendo eles legais ou estabelecidos por testamento (LEONE, 1992; SCHEFFER, 1993; KIG- NEL, 1993). A sucessão poderá ocorrer com ou sem a presença do sucedido, isto é, em vida ou não. A maioria das organizações que consegue ultrapassar a terceira geração de proprietários/gestores, o sucessor (herdeiro) é normal- mente preparado pelo sucedido para assumir as atividades de gestão da em- presa, a partir de treinamentos específicos e histórico de trabalho prévio na organização. Leone (1992, p.85) aborda a sucessão como um “rito de transferência do poder e do capital entre a atual geração dirigente e a que virá a dirigir”, a qual poderá ocorrer em duas possibilidades: 1) Gradativa e planejada; 2) Pelo pro- cesso inesperado ou repentino de mudança de direção, quando ocorre a morte, acidente ou doença, afastando o dirigente do cargo. Tondo (1998) ressalta que a temática da sucessão é um estudo muito utilizado em pesquisas nas empresas familiares, no qual se estuda de forma isolada ou como parte integrante dos estágios da família e da empresa. Para Lodi (1998, p.41), antes de iniciar o processo sucessório deve-se considerar sete componentes de análise: 1) Os valores da família, ou seja, o código não escrito em torno do qual se desenvolveu a vida do fundador e que deveria unir as gerações maduras e vindouras; 2) As relações de poder, ou seja, quem manda, quem segue e quem disputa a liderança; 3) A ética interpessoal, ou o que é próprio e impróprio na relação com o patrimônio coletivo, com as pessoas, com as retiradas, com os negócios paralelos e com os conflitos de interesses; 4) O dado comportamental, o qual determina o padrão de intera- ções psicológicas, as decisões, a motivação e a satisfação tanto pessoal quanto coletiva; 5) Os interesses patrimoniais, as preferências quanto à distribuição de resultados, a posses de ativos, a previsão de inventário e a doação de ações; 6) O acesso à competência profissional, que abre caminho para a autossuficiência econômica e para a projeção profissional ou negocial na sociedade; 7) E, a in- strumentação jurídica. Existe uma série de barreiras que podem dificultar o processo sucessório organizacional: conflitos entre sócios; número expressivo de sucessores; aus- ência de um líder natural ou bem cotado para assumir a frente dos negócios; desinteresse por parte dossucessores no empreendimento (herdeiros); diferen- ça acentuada na cota capital dos acionais em comparação aos sucessores; atritos familiares; falta de segurança por parte dos funcionários quanto à condução e ao futuro da empresa; falta de preparo do sucessor para assumir a função; o processo de profissionalização da empresa, fazendo com que a empresa perca a sua identificação como empresa familiar; ausência de um sucessor capac- 97 itado ou carência por uma definição de quem viria a ser esta pessoa; conflitos entre parentes que podem conduzir a desorientação da equipe; entre outros. (LODI,1998; BERNHOEFT, 1989) Diante dessas barreiras que poderão impedir a implementação do pro- cesso sucessório é que se percebe a importância da figura do líder. O comporta- mento do líder, suas habilidades profissionais como a visão de futuro da empre- sa, resolução de problemas e perspectivas de novos empreendimentos, atitudes e qualificação para essa transição, são vitais para que o processo sucessório seja conduzido da melhor maneira (MELLO, 1995). Portanto, saber liderar o pro- cesso de sucessão empresarial para que ele ocorra com sucesso, isto sim poderá representar um novo começo para a empresa. (BARNES; HERSHON, 1976) Para que a sucessão ocorra de maneira eficaz, atitudes de prevenção para esse processo deverão ser implantadas pelos que serão sucedidos, seja por meio de políticas de treinamento e desenvolvimento ou através da vivência empre- sarial do sucessor (CAMARGO, 2015). Poucas são as empresas que conquistam êxito sem alguma modalidade de planejamento e prevenção, tendo em vista que este processo apresenta um alto grau de complexidade e entraves. Logo, se faz necessário um trabalho de conscientização e comprometimento por parte dos proprietários/família para a profissionalização da empresa na busca por minimizar os conflitos e os assuntos inerentes à atividade empresarial com a finalidade da sequência dos negócios. (FERRAZZA, 2010) O planejamento preventivo é processo por meio do qual a família e a or- ganização organizam o seu futuro. Este plano apresenta três etapas principais: 1) Interação da família proprietária/gestora da empresa; 2) Estudo estratégico para o grupo familiar e a empresa, tendo em vista o desenvolvimento de líderes entre os sucessores, para com o futuro da firma com relação ao proprietário (garantindo a segurança vitalícia); 3) Plano para os sucedidos, um projeto de desvinculação gradativa do líder das atividades da empresa. (MELLO, 1995; ESCUDER, 2007) Para Longenecker (1997), os estágios do processo sucessório são os se- guintes: • Estágio I ou pré-empresarial: não há planejamento formal na preparação da criança nesse período, quando ela pode ter apenas quatro ou cinco anos de idade, sendo um preparo para a próxima etapa; • Estágio II ou introdutório: difere do estágio I, no sentido de que os membros da família apresentam deliberadamente a criança para certas pessoas, associadas direta ou indiretamente à empresa, e lhe mostram outros aspectos relacionados aos negócios; • Estágio III ou funcional introdutório: o filho começa a trabalhar como empregado em tempo parcial. Isso ocorre frequentemente du- rante períodos de férias, ou diariamente, depois das aulas; nessa fase, 98 o filho passa a conhecer alguns indivíduos-chave empregados na em- presa; o estágio funcional introdutório inclui a preparação educacio- nal e a experiência que o filho ganha em outras organizações; • Estágio IV ou funcional: começa quando o sucessor assume o em- prego em tempo integral, após concluir sua formação educacional; antes de passar a um posto gerencial, o sucessor pode trabalhar como contador, vendedor ou funcionário do estoque e possivelmente ad- quirir experiência em diversas outras funções; • Estágio V ou funcional avançado: ocorre quando o sucessor assume tarefas de supervisão, envolvendo a direção do trabalho dos empre- gados, mas não a administração-geral da empresa; • Estágio VI ou de sucessão: nesse estágio o filho é nomeado presiden- te ou gerente geral dos negócios; nesse ponto, ele exerce, presumivel- mente, a direção-geral dos negócios, mas o pai ainda está lhe dando apoio; o sucessor não dominou, necessariamente, as complexidades da presidência, e o predecessor (sucedido) pode estar relutante em abrir mão de todas as decisões; • Estágio VII ou maduro de sucessão: é atingido quando o processo de transição se completou, e o sucessor é tanto líder de fato quanto nominalmente; em alguns casos, isso não ocorre até que o predeces- sor morra. Diante do exposto é possível perceber que o processo sucessório deverá ser muito bem organizado e planejado, caso contrário ele poderá ocorrer de maneira ineficiente, podendo levar até a organização a morte. Nesse cenário a Governança Corporativa passa a ser uma peça estratégica no processo, fazendo com que os novos gestores levem em consideração os diversos interesses existes na empresa, com transparência, agindo com ética e responsabilidade em busca da perpetuidade organizacional no mercado. No próximo capitulo será comentado mais detalhadamente sobre a Gov- ernança Corporativa e a sua importância no processo sucessório e na perpetu- ação das organizações no mercado GOVERNANÇA CORPORATIVA Conceitos e compreensões A Governança Corporativa pode ser entendida como importante estra- tégia de ação para estabelecer os canais de comunicação entre a família e a empresa, minimizando conflitos que se fixam a partir das interseções entre a família, a gestão e a propriedade. 99 Embora no Brasil os estudos sobre a Governança Corporativa (GC) se- jam considerados recentes, podem ser encontrados diversos conceitos sobre a temática em discussão neste capítulo. Silveira (2006) entende como sendo um grupo de mecanismos de in- centivo e controle, tanto interno quanto externo que buscam reduzir os custos originários do problema de agência. A CVM – Comissão de Valores Mobiliários (2002) a define como ”um conjunto de práticas que tem por finalidade otimizar o desempenho de uma companhia ao proteger todas as partes interessadas, tais como investidores, empregados e credores, facilitando o acesso ao capital”. Nelson Siffert Filho (1998) a define sinteticamente como a forma que os controladores instituem mecanismos de monitoramento e controle em rela- ção aos administradores e fazem com que estes ajam de acordo com o interesse dos controladores (numa visão mais ampla, stakeholders). Goyos Jr. (2003) compreende o esforço contínuo e organizado de acionis- tas e executivos, no sentido do melhor alinhamento de interesses possível. Já o IBGC – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (2009) con- ceitua como o sistema pelo qual as organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo as práticas e os relacionamentos entre proprietários, conselho de administração, diretoria e órgãos de controle. As boas práticas de Governança Corporativa convertem princípios em recomendações objetivas, alinhando interesses com a finalidade de preservar e otimizar o valor da orga- nização, facilitando seu acesso ao capital e contribuindo para a sua longevidade. Outros conceitos que merecem destaque podem ser visualizados na Ta- bela 1. Portanto, compreende-se que a Governança Corporativa está relacionada à gestão de uma organização, sua relação com os acionistas (shareholders) e demais partes interessadas (stakeholders): clientes, funcionários, fornecedores, comunidade, entre outros (BORGES E SERRÃO, 2005), em busca da perpetui- dade organizacional no mercado. Tabela 1– Conceituação de Governança Corporativa Conceituação Autores/Ano Relacionamento dos acionistas, direção e outras partes interessadas para a garantia do retorno sobre o investimento. Lodi (1998). Estrutura de relacionamento e cor- respondentes responsabilidades de acionistas/cotistas. Williamson (1996); Blair (1999); OCDE (2004); Ricca e Saad (2012). 100 Processo pelo qual as organizações sãoadministradas, monitoradas e gerencia- doras de conflitos. Lameira (2011). Fonte: Camargo (2015) A Figura 1 tem como objetivo apresentar sucintamente as finalidades da Governança Corporativa. Figura 1– Finalidades da Governança Corporativa. Fonte: Adaptado de Oliveira (2011, p. 21) Origens da Governança Corporativa A origem dos debates sobre Governança Corporativa, conforme o IBGC (2015) remete a conflitos inerentes à propriedade dispersa e à divergência entre os interesses dos sócios, executivos e o melhor interesse da empresa. A vertente mais aceita indica que a Governança Corporativa surgiu para superar o “conflito de agência” clássico. Nesta situação, o proprietário (acioni- sta) delega a um agente especializado (administrador) o poder de decisão sobre a empresa (nos termos da lei), situação em que podem surgir divergências no entendimento de cada um dos grupos daquilo que consideram ser o melhor para a empresa e que as práticas de Governança Corporativa buscam superar. Este tipo de conflito é mais comum em sociedades como a dos Estados Unidos e da Inglaterra, onde a propriedade das companhias é ainda mais pulverizada. (IBGC, 2015) No Brasil, em que a propriedade concentrada predomina, os conflitos se intensificam à medida que a empresa cresce e novos sócios, sejam investidores ou herdeiros, passam a fazer parte da sociedade. Neste cenário, a Governança também busca equacionar as questões em benefício da empresa. 101 Conforme o IBGC (2015) a preocupação da Governança Corporativa é, portanto, criar um conjunto eficiente de mecanismos, tanto de incentivos quanto de monitoramento, a fim de assegurar que o comportamento dos admi- nistradores esteja sempre alinhado com o melhor interesse da empresa. Os modelos de Governança Corporativa Os países tendem a apresentar modelos diferentes para a abordagem da Governança Corporativa, contudo o modelo anglo-saxão (mais encontrado nos Estados Unidos e Reino Unido) e o nipo-germânico (predomina no Japão, Alemanha e países da parte continental europeia), são as referências no as- sunto. (SILVEIRA, 2006) Estes modelos diferem-se quanto ao tratamento das formas de controle e de propriedade, as práticas de vigilância empregadas pelos donos e as visões com as quais desenvolvem os objetivos da organização. (CAMARGO, 2015) No que tange a propriedade, o modelo anglo-saxão tende a eliminá-la (outsider system) ao passo que as ações são regidas pelas oscilações da bolsa de valores, reduzindo assim os riscos para com os acionistas. O foco deste modelo é a geração de valor para com o acionista (shareholders) ao exigir níveis altos de transparências nas informações divulgadas. (SILVEIRA, 2006) Borges e Serrão (2005) ainda esclarecem que as participações acionárias são relativamente pulverizadas e as bolsas de valores, desenvolvidas, o que ga- rante a liquidez dessas participações e diminui o risco dos acionistas. Isso im- plica menos necessidade de monitoramento direto, pois o mercado, por meio da variação do preço, sinaliza a aprovação ou não em relação aos administra- dores. Mas, por outro lado, o sistema exige um grau elevado de transparência e a divulgação periódica de informações, impondo-se controles rígidos sobre o uso de informações privilegiadas. No o segundo modelo, o nipo-germânico, ele apresenta maior preocupa- ção com a propriedade (insider system), os resultados acionários são de longo prazo, buscando uma estabilização dos interesses dos grupos (stakeholders), o nível de cobrança para com a divulgação dos dados de forma pública é menor comparado ao modelo anterior. (SILVEIRA, 2006) Portanto, no modelo anglo-saxão, o objetivo primordial das empresas tem sido tradicionalmente a criação de valor para os acionistas, enquanto nos países cujo modelo se aproxima do modelo nipo-germânico, as empresas de- vem equilibrar os interesses dos acionistas com aqueles de outros grupos que são impactados pelas suas atividades, como empregados, fornecedores, clientes e comunidade. (BORGES e SERRÃO, 2005) É possível distinguir dois tipos extremos de controle corporativo: share- holder, no qual a obrigação primordial do administrador é agir em nome dos interesses dos acionistas; e stakeholder, na qual, além dos acionistas, um con- junto mais amplo de interesses deve ser contemplado. 102 Apesar de o modelo anglo-saxão ter sofrido críticas ao longo dos últimos anos, nos seus países de origem, é possível detectar a tendência de as mais im- portantes empresas da Alemanha e do Japão se aproximarem preferencialmente do modelo anglo-saxão no que diz respeito às práticas de Governança Cor- porativa. Embora seja temerário apontar para a hegemonia do modelo anglo- saxão, cabe reconhecer a importância do mercado financeiro norte-americano como fonte de recursos para empresas do mundo inteiro e a atuação de seus investidores institucionais, pela pressão exercida por determinadas normas e práticas de Governança Corporativa. (BORGES e SERRÃO, 2005) Para resumir as diferenças entre os modelos de Governança Corporativa, Andrade (2014) propõe um quadro comparativo, como pode ser observado na Figura 2. Figura 2 – Modelos de Governança Corporativa. Fonte: Andrade (2014) Rubach e Sebora (1998) comentam ainda sobre o modelo de Governança adotado nos EUA, Japão e Alemanha: • Nos EUA, a Governança enfatiza a transparência das informações pela necessidade dos investidores de monitorar o desempenho das empresas, tornando o mercado mais eficiente. A medida de eficiên- cia normalmente utilizada é o retorno do capital financeiro. Obser- vou-se tendência para mudanças como a redução das restrições so- bre a influência dos acionistas, aumento das relações de longo prazo e reconhecimento dos demais stakeholders; • O sistema de Governança Corporativa de países como Japão e Ale- manha é baseado nas relações entre proprietários e administradores, 103 de forma a obter benefícios com longo prazo para ambos; essa carac- terística reduz os problemas de agência; • No Japão, a rede de negócios assume uma importância maior; entre 50% e 70% das ações de empresas listadas em bolsas são detidas por outras empresas, no sistema de participações acionárias cruzadas que une os membros de keiretsus; os bancos, em geral, e outros in- vestidores institucionais pouco atuam na Governança Corporativa, agindo apenas como monitores, sendo mais efetivos apenas em casos de baixa performance; • Na Alemanha, os bancos desempenham papel de destaque (e uti- lizam participações acionárias para fortalecer relações comerciais com clientes) e existe a particularidade da participação dos fun- cionários no Conselho de Administração. Deve-se ressaltar, comentam Borges e Serrão (2005), que a liberalização e internacionalização das aplicações dos recursos têm imposto mudanças nos sistemas de Governança nos países. Portanto, constatações passadas dos siste- mas de Governança de determinados países podem ter sofrido alterações. O Modelo de Governança brasileiro As boas práticas (Governança Corporativa) passaram a receber uma maior atenção no Brasil a partir das privatizações e a da abertura do mercado nacional nos anos 1990. Em 1995, ocorreu a criação do Instituto Brasileiro de Conselheiros de Administração (IBCA), que a partir de 1999 passou a ser conhecido por Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), alme- jando influenciar os protagonistas da sociedade brasileira na adoção de práticas transparentes, responsáveis e equânimes na administração das organizações. Ainda em 1999, o IBGC lançou seu primeiro Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa (IBGC, 2015); atualmente encontra-se na sua quarta edição, lançada em 2009. As discussões internacionais foram fortalecidas pelas iniciativas da Or- ganização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) que criaram um fórum para tratar especificamente sobre o tema, o Business Sector Advisory Group on Corporate Governance. Diretrizes e princípios internacio-nais passaram a ser considerados na adequação de leis, na atuação de órgãos regulatórios e na elaboração de recomendações. (IBGC, 2015) Com o passar do tempo, verificou-se que os investidores estavam disp- ostos a pagar um valor maior por empresas que adotassem boas práticas de Governança Corporativa (até 23% a mais, conforme Oliveira [2011]) e que tais práticas não apenas favoreciam os interesses dos proprietários, mas dos em- pregados, gestores e sociedade. Na primeira década do século 21, o tema da Governança Corporativa tornou-se ainda mais relevante no Brasil, a partir de escândalos corporativos 104 envolvendo empresas norte-americanas como a Enron, a World Com e a Tyco, desencadeando discussões sobre a divulgação de demonstrações financeiras e o papel das empresas de auditoria. O Congresso norte-americano, em resposta às fraudes ocorridas, aprovou a Lei Sarbanes-Oxley (SOx), com importantes definições sobre práticas de Governança Corporativa. (IBGC, 2015) Figura 3 – Níveis de Governança Corporativa no Brasil. Fonte: BM&FBovespa (2014) No Brasil, podem-se destacar alguns fatores que motivaram o aprimo- ramento da Governança Corporativa: Lei das Sociedades por Ações; o IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa); as recomendações da CVM (Comissão de Valores Mobiliários); a militância do Banco Nacional de Desen- volvimento Econômico e Social (BNDES) e o grande crescimento e o olhar dos fundos de pensão para o Brasil. Destaca-se, ainda, que no ano de 2000, a BM&FBovespa instituiu níveis distintos de GC (Figura 3) com a finalidade de aprimorar os padrões de Gover- nança nas organizações brasileiras. No primeiro e segundo níveis encontram- -se empresas no mercado tradicional que optaram pela diferenciação por meio 105 do cumprimento de determinados critérios exigidos de Governança; já o novo mercado é direcionado para organizações que cumpram todos os parâmetros exigidos pela BM&FBovespa. Estas regras expressam não somente a respeito das determinações previs- tas na Lei das Sociedades por Ações, mas também proporcionam o julgamento das organizações conforme os níveis estabelecidos e critérios que deverão se- guir. Apesar dos avanços obtidos, o Brasil ainda possui um mercado muito concentrado, quanto à propriedade, no qual o maior acionista possui, em mé- dia, 41% do capital social, enquanto os cinco maiores acionistas detêm 61%. Essa concentração ocorre por meio de ações com direito a voto; cerca das 62% das empresas apresentam um único acionista que possui mais de 50% das ações ordinárias. (BORGES e SERRÃO, 2005) Esses dados foram levantados por Valadares e Leal (2000) e não levam em consideração outras formas societárias. Ao considerar que a sociedade limitada corresponde ao tipo societário mais utilizado no país, pode-se perceber que, apesar das recentes alterações, a concentração do poder ainda é muito grande. Outra característica relevante do país é o ainda incipiente envolvimento dos bancos (como acionistas) na exigência de práticas de Governança Corporativa. (BORGES e SERRÃO, 2005) Apesar de todos os avanços alcançados no tema da Governança Corpora- tiva no Brasil, atualmente se cometem dezenas de irregularidades que acabam prejudicando o alinhamento de interesses entre os stakeholders das empresas. Entre essas irregularidades, Borges e Serrão (2005, p.121) destacam as seguintes: criação de condições artificiais de demanda; pareceres de audito- ria irregulares; utilização de informação privilegiada na negociação de ações; alienação de controle sem a realização de oferta pública para a compra de ações ordinárias (tag-along); abuso de poder do acionista controlador pela concessão de empréstimos a empresas coligadas sem a cobrança de encargos financeiros; descumprimento dos prazos para a publicação de demonstrações financeiras e para a realização de assembleias-gerais; infringência do dever de informar dos administradores em operações com base em informação privilegiada, não disponível ao público investidor. Para finalizar, destaca-se o caso da empresa brasileira de capital aberto Petrobras. No ano de 2014, foram detectadas irregularidades nas suas con- tas (contabilidade criativa nos balanços da Companhia), fato este que gerou grandes rumores no mercado e perda considerável de valor de mercado da companhia. Como a Petrobras está classificada como empresa no nível tradi- cional da BM&FBovespa, isto é, o menor nível de Governança Corporativo (como pode ser visto na Figura 3), isto poderia ter sido diferente caso ela es- tivesse classificada e seguindo as normas do Novo Mercado. 106 Princípios e valores da Governança Corporativa A Governança Corporativa está imersa em valores que sustentam a real- ização de atividades pelas organizações; conforme Andrade e Rossetti (2012) são eles: • Fairness: Senso de Justiça e equidade. • Disclosure: Transparência. • Accountability: Prestação responsável de contas. • Compliace: Conformidade. O Fairness corresponde ao senso de justiça, equidade no tratamento dos acionistas. Respeito aos direitos dos minoritários, por participação equânime com a dos majoritários, tanto no aumento da riqueza corporativa, quanto nos resultados das operações, quanto ainda na presença ativa nas assembleias-ge- rais. O Disclosure representa a transparência das informações, especialmente das de alta relevância, que impactam os negócios e que envolvem resultados, oportunidades e riscos. O terceiro valor, Accountability, expressa a prestação responsável das con- tas, fundamentada nas melhores práticas contábeis de auditoria. E, por fim, o Compliance, corresponde à conformidade no cumprimento das normas regu- ladoras, expressas nos estatutos sociais, nos regimentos internos e nas institui- ções legais do país. Esses valores estão presentes, explícita ou implicitamente, nos conceitos usuais de Governança Corporativa. Mais do que nos conceitos, esses valores estão expressos nos códigos de boas práticas, que estabelecem critérios funda- mentados na conduta ética que deve estar presente no exercício das funções e das responsabilidades dos órgãos que exercem a Governança das companhias. (ANDRADE e ROSSETTI, 2012) A partir da Figura 4 é possível observar as relações existentes entre os quatro valores da Governança Corporativa com diferentes conceitos. 107 Figura 4 – A Governança Corporativa em diferentes agrupamentos conceituais: a amarração a quatro valores fundamentais. Fonte: Adaptado de Andrade e Rossetti (2012, p.142) Além dos quatro valores, torna-se relevante comentar sobre os oito princípios (8 Ps) propostos por Andrade e Rossetti (2012): 1) Propriedade: Tipologia, isto é, como a organização está estruturada (empresa familiar, consorciada, estatal ou anônima). Refere-se a uma empresa de capital fechado ou aberto? O poder está concentrado em um proprietário ou pulverizado em vários proprietários? 2) Princípios: Representa os códigos de conduta da organização. Os le- gados éticos dos fundadores. Baseia-se nos quatro valores universais da Gover- nança Corporativa: Fairness; Disclousure; Accountability; e Compliance. 3) Propósitos: Expressa-se pela razão da organização em existir. Sua Mis- são (propósito orientador) e Visão (propósito empresarial). Seu alinhamento estratégico. Na conciliação dos interesses dos Shareholders e Stakeholders. 4) Papéis: Clareza na separação dos papéis na organização. O que com- pete aos acionistas, aos conselheiros e aos gestores. Alçadas e responsabilidades bem definidas. 108 5) Poder: Estrutura de poder claramente definido, visível e aceito por todos os integrantes. Planejamento claro da sucessão empresarial. 6) Práticas: Não acumulação dos cargos de presidência do Conselho de Administração e da Diretoria Executiva pela mesma pessoa. Constituição, definições e atuação eficiente do Conselho de Administração. Gestão eficiente dos conflitos de interesse na organização. 7) Pessoas: Gestão estratégias das Pessoas. Clima organizacionalavaliado com regularidade e com altos índices de favorabilidade. Meritocracia. Progra- mas de Premiação por Resultados (PPRs) bem definidos e bem executados. Planejamento e execução eficiente do processo sucessório para as funções-cha- ve na companhia 8) Perpetuidade: Objetivo último das organizações, isto é, presente em todas as empresas, principalmente nas familiares. Portanto, é possível resumir os (8 Ps) na figura abaixo proposta por An- drade e Rossetti (2012): Figura 5 – Uma síntese conceitual: os (8 Ps) da Governança Corporativa. Fonte: Adaptado de Andrade e Rossetti (2012, p.144) Elementos chave da Governança Corporativa Neste momento, apresentam-se os elementos chave do sistema de Gover- nança Corporativa, os quais podem ser observados na Figura 6. 109 Figura 6 – Elementos chave da estrutura de Governança Corporativa. Fonte: Adaptado de Oliveira, 2011 Sobre a Assembleia-Geral pode-se comentar o seguinte: • Representa o órgão máximo da empresa; • Cabe a ela aumentar ou reduzir o Capital Social, bem como outras alterações no Estatuto Social da empresa; • Eleger ou destituir, em qualquer momento, conselheiros de adminis- tração e conselheiros fiscais; • Analisar, anualmente, as contas apresentadas pela Diretoria Execu- tiva e deliberar sobre as demonstrações financeiras; • Deliberar sobre transformação, fusão, incorporações, cisão, dis- solução e liquidação da sociedade; • Definir sobre quanto à forma de convocação e pauta: facilidade de acesso aos acionistas (datas e horários) e pautas para acionistas mi- noritários; • Prazo de Convocação de reuniões: 30 a 40 dias (conforme CVM); • Acesso a todos os acordos com acionistas; • Relação de acionistas: informações de todos os acionistas, quando estes tiverem mais de 0,5%, precisarão também de endereços (CVM); • Deliberar sobre o Processo de Votação. Quanto ao Conselho Fiscal, pode-se comentar que ele: • Representa um órgão muito importante para sustentação da Gover- nança Corporativa; • Mesmo que ele não seja obrigatório, cabe a ele fiscalizar atos da Ad- ministração, opinar sobre determinadas questões previamente defin- idas, agregando valor à empresa; • Os membros são escolhidos pelos acionistas em reunião da Assem- bleia- Geral Ordinária; 110 • A atuação do conselho exige elevado nível de conhecimento especí- fico, o que nem sempre é realidade por parte dos conselheiros; • Não é um órgão administrativo de elevada atratividade profissional, como o Conselho de Administração e Diretoria Executiva; • Deverá ter, cada vez mais, atuação e responsabilidades mais amplas: fiscalizar questões contábeis e financeiras; fiscalizar os administra- dores, executivos, funcionários, bem como o cumprimento de de- veres legais e estatutários; • Opinar sobre propostas do Conselho de Administração para a As- sembleia; • Quando sustentado por Regimento Interno da empresa, deverá acompanhar os trabalhos dos Auditores Internos e Externos e, se ex- istir, também o Comitê de Auditoria; • Ajudar a minimizar os conflitos entre Auditores e Conselheiros Fis- cais (sobreposições de funções); • Composto entre 3 e 5 membros (CVM); • Os acionistas (Preferenciais e Ordinários) têm direito de escolher o mesmo número de membros que o dos controladores; o de desem- pate deverá ser escolhido em assembleia-geral (CVM); • Segundo os princípios da Boa Governança, a maioria do Conselho Fiscal não deverá ser eleita pelo acionista-controlador; • Deve possuir um regimento de funcionamento; • Pode e deve se reunir quantas vezes quiser e ainda quando for re- querido por um acionista ou representante; • Cabe ao Conselho de Administração promover meios adequados para o bom funcionamento do Conselho Fiscal. Já as auditorias têm como papel principal a análise dos diversos elementos contábeis e processuais verificando a exatidão e fidelidade dos procedimentos, demonstrações e relatórios, de acordo com os princípios estabelecidos por lei pela empresa. Além disto, apresentam-se as seguintes características: • Pode ser Interna ou Externa: também conhecida como Auditoria In- dependente; • Elevada contribuição para o Conselho de Administração das empre- sas; • Quanto mais alinhadas as Auditorias e o Conselhos Fiscal, maior a confiabilidade nos pareceres e nos resultados empresariais; • A Auditoria Externa avalia a Auditoria Interna e ainda pode solicitar contribuição da Interna; • Realização da auditoria de gestão: atividade estruturada de verifica- ção se os instrumentos de gestão (processos, metodologias e técnicas 111 administrativas) estão de acordo com os princípios estabelecidos por lei e pela empresa; • Para atuar de modo eficiente os auditores devem preservar sua inde- pendência e objetividade; • O Diretor da Auditoria Interna deverá se reportar ao Diretor-Presi- dente da organização e da Auditoria Externa ao Presidente do Con- selho de Administração; • Contribuir para o Comitê de Auditoria; • Informar o Conselho de Administração quanto à responsabilidade dos auditores sobre os padrões de auditoria geralmente aceitos; mu- danças na contabilidade das empresas; julgamento administrativo, e estimativas contábeis; desacordos com a administração; consultas a outros auditores e contadores; dificuldades de execução da auditoria; criação de comitê de auditoria (membros do conselho, represent- antes dos acionistas minoritários); • Os Auditores Independentes deverão avaliar atos da Diretoria Ex- ecutiva e da Auditoria Interna; • O Conselho de Administração deverá proibir/restringir a contrata- ção do Auditor da empresa para outros fins; • O documento de recomendação dos auditores deve ser revisado pelo Conselho de Administração e Conselho Fiscal. Quanto ao Conselho de Administração: • É o principal órgão da Governança Corporativa; • Missão de proteger o patrimônio e maximizar o retorno do investi- mento dos acionistas agregando valor ao empreendimento; • Deverá zelar pela observância dos valores, crenças e propósitos dos acionistas; • Ele é gerido pelo artigo 142 da Lei das Sociedades por Ações (Lei n.º 6.404/76), o qual determina as competências do Conselho de Ad- ministração; • Ele determinará as estratégias organizacionais, a eleição e destituição de diretores, a fiscalização da gestão dos diretores e a eleição e desti- tuição dos auditores; • Possuir um Regimento Interno próprio; • Ele não deverá se focar em atividades operacionais e sim em estra- tégicas; • Composto entre 5 e 11 membros (IBGC, 2009), sendo que 20% con- selheiros independentes (BM&FBOVESPA/CVM); • A cada ano deverá ser realizada uma avaliação das atuações dos Con- selhos de Administração; 112 • Duração do mandato de 2 anos (IBGC, 2009) a 3 anos (LEI S.A.); • Os conselheiros serão remunerados com base no mesmo valor hora do executivo principal (Diretor Executivo); • A maioria do conselho deverá ser formada por conselheiros inde- pendentes (IBGC, 2009); • Poderá e deverá ser composto pelos conselheiros independentes (ex- ternos) e internos; • O Diretor Executivo não poderá ser o Presidente do Conselho de Administração (BM&FBOVESPA/CVM); • Buscar a separação dos cargos e se possível o Diretor-Presidente não fazer parte do Conselho de Administração. Podem-se enumerar as principais funções do Conselho de Administração: 1. Estipular objetivos de desempenho; 2. Escolher, remunerar, fiscalizar e substituir os executivos principais; 3. Rever a remuneração da alta administração e dos conselheiros; 4. Aprovar as principais políticas; 5. Acompanhar a operação e o desempenho da empresa; 6. Aprovar orçamentos; 7. Aprovar os planos de negócio; 8. Escolher a Auditoria Independente; 9. Aprovar a indicação de novos conselheiros de maneira formal e transparente; 10. Nomear representantes da empresa; 11. Discutir e decidir assuntos ligados aos acionistas; 12. Analisar grandes dispêndios de capital, aquisições e alienações; 13. Rever e reorientar a estratégia corporativa; 14. Fiscalizare administrar conflitos potenciais de interesse da direto- ria, dos conselheiros e dos acionistas; 15. Assegurar a integridade dos sistemas contábil e financeiro da com- panhia, inclusive a Auditoria Independente, e a existência de siste- mas adequados de controle; 16. Verificar a eficácia das práticas de Governança adotada e promover modificações quando necessárias; 17. Supervisionar o processo de divulgação e comunicações; 18. Assegurar o cumprimento da legislação em vigor e considerar os interesses dos acionistas; 19. Tratar todos os acionistas com igualdade; 20. Atuar com informações confiáveis, fundamentadas, agir de boa-fé, com critério, resguardar as devidas preocupações, fazer prevalecer o interesse da empresa e dos acionistas. 113 Quanto à Diretoria Executiva: • Realiza o meio campo entre as atribuições da Governança Corpora- tiva e as unidades organizacionais da empresa; • Consolida o otimizado processo decisório da empresa; • Formado por vários diretores de setores; • Mesmo que atue de modo colegiado, cada Diretor pode tomar as suas decisões; • Define o seu modelo de gestão organizacional; • Elabora planos de ação e metas; • Contribui no planejamento estratégico; • Realiza o planejamento, controle e execução das metas. Quanto aos conselhos/comitês, pode-se comentar que se referem a uma reunião estruturada de várias pessoas para emitir, por meio de discussão or- ganizada, uma opinião a respeito de um assunto previamente estabelecido, e que, nascida de debates, seja a mais adequada em um contexto específico da empresa, bem como facilmente incorporada e adequadamente implementada. Os seguintes conselhos/comitês podem ser mais facilmente encontrados nas grandes companhias: comitê de estratégias, auditoria, ética, Governança Cor- porativa, fiscal, remuneração, investimento, executivo, recursos humanos, sus- tentabilidade, gestão de riscos e jurídico. Um conselho/comitê muito importante refere-se ao Conselho de Família. Ele corresponde a um órgão independente ao Conselho de Administração e tem como objetivo levar para o Conselho de Administração a visão da família sobre o futuro da empresa ou de determinada opinião sobre algum assunto relevante em discussão. Além disto, o Conselho de Família se torna muito importante para o pro- cesso sucessório organizacional, representando um espaço legitimado para as famílias (que possuem a propriedade e seus futuros herdeiros) discutirem o futuro da empresa. A partir da compreensão dos elementos que compõem o sistema de Gov- ernança Corporativa, pode-se finalizar o presente capítulo apresentando a re- lação existente entre os três principais elementos: Proprietários, Conselho de Administração e Diretoria Executiva, na Figura 7. Compreende-se que tanto os proprietários, quantos os conselheiros e os diretores são peças chave para o alcance dos resultados organizacionais e para a perpetuidade organizacional no mercado. 114 Figura 7 – Triângulo Básico da Governança Corporativa. Fonte: Adaptado de Silva, 2010 CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CAPÍTULO O presente capítulo buscou analisar a Governança Corporativa como fer- ramenta estratégica do processo sucessório empresarial, com vistas à perpetui- dade organizacional no mercado. Inicialmente, se estudou o processo de sucessão empresarial e em seguida se dedicou ao estudo da Governança Corporativa, sua origem, princípios, va- lores e os elementos que compõem o sistema. Compreende-se que o processo de sucessão passa a ser visto com mais at- enção pelos proprietários, principalmente das organizações familiares. Planejar o processo sucessório, isto é, inserir o sucessor e fazer com que ele tenha vivên- cia da empresa e da sua responsabilidade futura são fatores relevantes para a continuidade das atividades empresariais. Neste cenário, a Governança Corporativa passar a ser um fator estraté- gico no processo de sucessão e na perpetuidade organizacional. Ela contribuirá na definição de todos os atores, as suas funções, responsabilidades e controles. Para tanto, a organização deverá definir as suas normas de conduta, levando em consideração os interesses de todos. REFERÊNCIAS ANDRADE, A.; ROSSETTI, J. P. Governança Corporativa: fundamentos, de- senvolvimento e tendências. São Paulo: Atlas, 2012. 115 BARNES, L. B.; HERSOHON, S.A. Transferindo o poder em empresas fa- miliares. São Paulo: Biblioteca Harvard, 1976. BERNHOEFT, R. Empresas Familiares: sucessão profissionalizada ou sobre- vivência comprometida. São Paulo: Nobel, 1989. BLAIR, Margaret M. Employeesandcorporategovernance. Washington D. C. BrookingsIntitution.1999. BM&FBOVESPA. Disponível em <http://www.bmfbovespa.com.br>, Acesso em 6 de jun. 2014. BORGES, Luiz Ferreira Xavier; SERRÃO, Carlos Fernando de Barros. Aspectos de Governança Corporativa moderna no Brasil. Revista do BNDES, Rio de Janeiro, v.12, n. 24, p. 111-148, 2005. CAMARGO, Bruna Faccin. 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Neste capítulo, faremos uma abordagem da teoria e de como pode ser aplicada na prática; também, será sugerido um método de gestão estratégica, que pode facilitar o gerenciamento das pequenas propriedades, mesmo que por pessoas com baixa escolaridade. O método de Gestão Particionada pode ser de grande valia, se usado de forma sistêmica e perseverante. A intenção é diminuir o trabalho braçal dos agricultores, substituindo por trabalho mental de Pensamento Estratégico. A TEORIA DOS SISTEMAS APLICADA à GESTÃO Charles Darwin (2003) foi o primeiro a buscar provar cientificamente o que muitos já sabiam pelo empirismo: “De que na natureza há uma interligação muito forte entre tudo o que acontece.” Mais do que isso, ele mostrou por sua teoria do processo evolutivo de que o meio selecionava os organismos mais aptos, eliminando os menos aptos, operando assim, uma forma de “seleção natural”. Esta teoria publicada em 1814 A origem das Espécies por via da seleção natural, esta até hoje sendo interpretada da mesma forma que a Bíblia Sagrada, pois conforme a conjuntura e a linha de pensamento do leitor podem-se chegar a várias conclusões, sendo que todas convergem para o mesmo fim: a origem de tudo está interligado. 118 Há muitas teorias formadas a partir desta pesquisa que por meio do empir- ismo, foram sendo disseminadas e alteradas e, após, contadas como verdades ab- solutas, tanto que é normal, atualmente, ouvir estudantes afirmarem expressões de Darwin que ele nunca falou; como é o caso da frase: “só os fortes sobrevivem”. Não há, na obra de Charles Darwin, a expressão: fortes, mas, sim, aptos, ou seja, muitas vezes, o mais fraco, pode sobreviver a alguma mudança conjuntural em que o mais forte pode não suportar. Pode-se dar o exemplo dos insetos que so- breviveram ao tempo que os grandes dinossauros não conseguiram. Também há uma afirmação de certa forma equivocada feita de que “o homem é originado do macaco” e que para isso, não seria necessário a presença de Deus na história. Porém, ao se observar a obra de Darwin, vê-se que há apenas uma sugestão de Darwin sobre o processo evolutivo e ele não descarta a ideia de Deus ser o grande gerente deste processo. Após a obra de 1871, A Origem do Homem o pesquisador sofreu o que hoje chamaríamos de bullyng, pelos religiosos que não conseguiram fazer uma ligação entre a criação divina e a pesquisa apresentada por Darwin. Acredita-se até que ele teve teorias mais céticas, mas deixou de publicar por não ter certeza das hipóteses. Independente das interpretações paralelas às teorias prosseguiu, na história, uma tese central de Darwin, de que há um processo sistêmico e inte- grado entre variáveis de análise e que esta integração é o segredo do sucesso. Seguindo uma análise evolutiva desta tese, podemos ver conforme Crema (2003), que no início do século XX, cientistas da área de Psicologia da Univer- sidade de Frankfurt, criaram uma linha de pesquisa que usava a teoria cristã para combater a avalanche científica pró-ateísmo, que se baseava em Darwin. A Teoria da Gestalt foi instituída como uma entidade concreta que possui entre seus vários atributos, a forma. Diante da subjetividade das expressões em que se relacionava a tese, a palavra Gestalt (a forma) não foi traduzida para o português, ficando com o nome original batizado por Max Wertheimer e Kurt Lewin. A base teórica desta teoria estava sobre a Bíblia Sagrada (1988), mais precisamente no capítulo de Hebreus 4:13 onde está registrado que “Nada, em toda a criação, está oculto aos olhos de Deus, tudo está descoberto e exposto di- ante dos olhos daquele a quem havemos de prestar contas”. Sendo assim, a Ge- stalt é uma busca por trazer de volta ao mundo científico a existência de Deus. Já a palavra Holismo foi instituída por Jan Smuts, que em 1926, definiu esta expressão como sendo de que o todo é menor do que as soma das partes e que, portanto, a soma das partes é maior do que o todo. Esta teoria trouxe a discussão a sinergia (energia positiva) e a entropia (energia negativa), como fatores preponderantes no relacionamento humano em organizações. Não se acredita que seja por acaso que houve um alinhamento destas três teorias, com as ideias de Aristóteles que pela metafísica faz a argumentação de que o todo é mais do que soma das partes e de que o todo determina as par- tes e não o inverso, para justificar a sistematização como processo de análise. 119 Em tempos mais modernos, já na década de 1950, e ainda evoluindo a ideia inicial de Darwin, percebe-se que Bertalanffy (2008) a “desnaturalizou”, trans- formando esta teoria em algo voltado para a gestão e a aplicou para as ciências sociais, criando um método de análise a ser feito de forma sistêmica e lógica, para processos gerenciais. Surge aí a Teoria Geral dos Sistemas em Organizações. Este método oferece ao gestor uma visão integrada das organizações e do processo administrativo, além de ser uma ferramenta para organizar sistemas que produzem resultados. Pode-se, ainda, verificar que a abordagem sistêmica é integrativa. O siste- ma é um grupo de elementos inter-relacionados e integrados de forma a obter o resultado desejado. A empresa é uma organização criada pelo homem, que mantém uma interação dinâmica com seu meio ambiente: clientes, competi- dores, organizações de trabalho, fornecedores, etc. Segundo Araújo (2008), de posse de todas estas teorias sobre sistemas e mais algumas ideias paralelas, John Davis e Ray Goldberg lançam, em 1957, a expressão Agribusiness, como sendo um conjunto global das operações e trans- ações comerciais envolvidas desde a produção de insumos até o consumo de produtos, sejam in natura ou industrializados. Rapidamente foi traduzido para o português como Agronegócio. Seguindo esta lógica de análise, Décio Zylberstajn (2000), “abrasileirou” as teorias e as sintetizou na visão do agronegócio, apresentando para a comuni- dade acadêmica o SAG’s – Sistema Agroindustrial, na qual de discute a neces- sidade de ser feita uma análise sistêmica do agronegócio, partindo do pressu- posto de que há cadeias produtivas inter-relacionadas e que todas juntas fazem parte de um todo e que a soma delas é maior do que o todo. Figura 1 – Sistema Agroindustrial. Fonte: Adaptado de Zylberstajn, 2000 120 Mais um brasileiro, Mário Batalha (2001), publica o livro Gestão Agroin- dustrial no qual defende a ideia da visão sistêmica, sendo que ele apresenta a expressão criada por Goldbergdenominada Commodity System Approach ou Enfoque Sistêmico do Produto, que tem como ponto principal a orientação sistêmica, estabelecida pela inter-relação entre as atividades de produção, pro- cessamento e distribuição de alimentos. Cada vez mais se concretiza a linha de pensamento de que, um sistema é compreendido pela união de seus elementos por uma rede de relações fun- cionais, que se resumem na interdependência entre as partes, influenciando e sendo influenciado pelo ambiente externo, comportando-se de forma a atingir um objetivo determinado. Nesse contexto, o enfoque sistêmico de uma organização examina a forma como as atividades de produção e distribuição de uma commodity se organizam numa economia e questiona a maneira de elevar a produtividade de tais atividades por meio de melhores tecnologias, instituições ou políticas de coordenação. VISÃO SISTÊMICA NA GESTÃO Até o final do século XX, a agricultura tinha como base a geração de capital e de mão de obra, mas à medida que o setor foi se desenvolvendo, as propriedades rurais adotaram novas tecnologias de produção e de gestão ad- ministrativa, que permitiram uma nova postura diante das exigências do mer- cado. Estas transformações ocorreram principalmente nos países de primeiro mundo. No Brasil, essa situação é característica em regiões mais desenvolvidas e com propriedades de grande porte. Entre as décadas de 60 e 80, quando o crédito rural era farto e muitas vez- es não era necessário devolver o dinheiro era mais fácil gerenciar propriedades rurais, assim, os agricultores se concentravam mais em trabalhar na produção do que na gestão, pois dinheiro não faltava para a área rural. O próprio conhecimento de técnicas agropecuárias era, em tempos pas- sados, suficiente para manter a produtividade num nível aceitável, proporcio- nando uma lucratividade atraente ao produtor. Caso faltassem recursos finan- ceiros, o Banco do Brasil estava sempre disposto a cobrir as despesas. Após os anos 90, com a abertura da economia para o comércio exterior e o acirramento da concorrência interna a realidade ficou bem diferente. Já não bastava só produzir, é necessário saber o que, como e quando produzir e prin- cipalmente, como e quando vender. Nesse cenário, discute-se sobre a mentalidade administrativa necessária para a transição da propriedade rural tradicional para empresa rural. Isto é, as transformações devem iniciar-se pela mudança de postura e mentalidade do produtor rural. Suas atitudes e comportamentos é que irão determinar a 121 passagem de um sistema de produção tradicional para um sistema moderno, operando de forma estratégica. Além dos aspectos de mercado, também há a demanda pela sustent- abilidade e restrições impostas pela natureza. Esta dependência em relação à natureza apresenta dois elementos relevantes à oferta agrícola: as condições climáticas e o período de maturação dos investimentos. Estas características são próprias da atividade agropecuária e a diferem da indústria e do comér- cio tradicionais. Estes motivos reforçam a necessidade das atividades agrícolas terem uma gestão estratégica. Até o início do século XX, o processo de produção das propriedades ru- rais era feito exclusivamente dentro delas. Para Batalha (2001), o desenvolvi- mento tecnológico fez com que as atividades se desmembrassem, passando a serem encaradas como segmentos particulares. Na moderna visão de cadeias de produção estas atividades permanecem interligadas. Segundo o autor, uma cadeia agroindustrial pode ser segmentada em três macrossegmentos: a) Comercialização – Representa as empresas que viabilizam o consumo e o comércio dos produtos finais. Ex.: varejo. b) Industrialização – Representa as firmas responsáveis pela transforma- ção das matérias-primas em produtos finais. Ex.: agroindústrias. c) Produção de matérias-primas – Representa as firmas que fornecem as matérias-primas iniciais. Ex.: agropecuária. Com a expressão “dentro e fora da porteira”, usado pelo autor, não se con- segue identificar facilmente os limites desta divisão, que podem variar con- forme o produto e o objetivo da análise. Para Zylbersztajn (2000), a propriedade rural é parte integrante dos siste- mas agroindustriais, localizando-se entre os oligopólios. De um lado tem-se o mercado de insumos e do outro o de processamento, distribuição e comer- cialização. Todos os segmentos desta cadeia produtiva visam ao consumidor final. Todavia, o produtor rural está distante deste consumidor. A relação da produção rural com o consumo depende de sinais transmitidos pelos demais agentes deste sistema. Uecker (2005) comenta que para analisar o grau de complexidade das propriedades, basta perceber as particularidades das diversas atividades no meio rural. Depende-se muito da natureza, onde estão vários dos seus recursos produtivos. O planejamento da produção é realizado com meses e até anos de antecedência em relação à entrega dos produtos, o que diminui a precisão entre o objetivo e o alcançado. O administrador rural não deve tomar decisões sem planejar o tipo de produto. A escolha correta evita problemas na comercial- ização, devido ao elevado grau de perecibilidade dos produtos. Há, também, 122 problemas de formulação de planilhas e cálculo do custo real, em função da variedade da produção que compartilham os mesmos recursos produtivos, dificultando ratear os custos fixos. Ele ainda ressalta que na gestão da produção de uma commodity, há uma prática de discriminação de preços, ficando o produtor sujeito às suas oscila- ções: Nestas oscilações está contida a concorrência desleal por produtos im- portados, altamente subsidiados. A GESTÃO DOS NEGóCIOS AGROPECUÁRIOS – AGRONEGóCIOS Os negócios agropecuários estão em uma constante mutação e isso, ne- cessita de uma quebra de paradigmas e da acomodação natural entre os agentes desta atividade. Nessa conjuntura surge a gestão estratégica, que representa a forma de gerência que se preocupa com a adequação da empresa ao seu ambiente e de que forma elas conseguirão agir, construindo o futuro da organização rural. Quando se está tentando fazer um diagnóstico de uma propriedade agro- pecuária, geralmente as indagações giram ao redor de várias perguntas: como o quê, quanto e como produzir, passando por perguntas mais abrangentes como qual a vocação da propriedade, entre outras perguntas sobre produção e produ- tividade; mas deixam-se de lado os assuntos que causam constrangimento en- tre o entrevistador e o entrevistado, que são as referentes a questões legais e financeiras, conhecimento de mercado entre outras questões. Assim, é feito diagnósticos semelhantes às histórias infantis, quando tudo é possível em um mundo cheio de oportunidades de mercado. Para haver resultados efetivos sobre gestão rural, é fundamental entender o contexto no qual os produtores estão trabalhando, quais são os potenciais e os limites da infraestrutura, porém se a gestão for baseada apenas em questões agronômicas, fatalmente terá uma volta ao passado, quando a grande preocu- pação era a produção e não para quem vender. Entre os fatores que influenciam o desempenho econômico das proprie- dades rurais, os mais significativos são os fatores externos ou incontroláveis. O Agronegócio, pelas suas peculiaridades, sempre está exposto a influências fora do alcance da técnica. Neste aspecto, a gestão estratégica assume importância significativa nos empreendimentos rurais. Segundo Uecker (2005), a gestão estratégica está diretamente relacionada com o futuro da organização, definindo os rumos que a empresa deve seguir com todas as suas variações, limitações e consequências. O empresário precisa preocupar-se com o futuro, que se define pela ação conjunta das organizações, empresas e sociedade. É mais cômodo deixar as coisas acontecerem do que fazer acontecer. Omitir a definição do futuro pode significar deixar que outras 123 instituições, como governo, bancos, fornecedores, compradorese outros, defi- nam o futuro das empresas. Os empreendimentos rurais para poderem fazer parte do agronegócio precisam, com urgência, criar e consolidar uma estrutura produtiva moderna. O agronegócio brasileiro está marginalizado desde o descobrimento do país, pois está sempre como válvula de escape da Europa e outros países mais desenvolvidos. Com isso, muitas mudanças sociais, políticas e financeiras que vêm acontecendo são estabelecidas em um quadro de incertezas. O sucesso de um negócio está baseado na criação de valor e de riqueza para as pessoas, o que significa assumir riscos e inovar constantemente. Esta é a tarefa a ser realizada pelo setor gerencial. Para que o agronegócio brasileiro possa sair dessa marginalidade, é pre- ciso regenerar as estratégias e reinventar canais, processos de produção, clien- tes, critérios de promoção de gerentes e medidas para avaliar o sucesso. Será necessário fazer a reengenharia de processos na propriedade e principalmente uma mudança cultural entre todos da família envolvida. Há a necessidade de transformação tanto da parte organizacional como também do setor como um todo. É necessária uma estrutura consistente para competir em um mercado em constante transformação. É preciso fazer uma previsão futura do setor, que auxiliará os gestores a definirem quais benefícios que os clientes exigirão e assim modelar a empresa para oferecer tais benefícios. A previsão futura do setor precisa detalhar as tendências dos estilos de vida, tecnologia, demografia e geopolítica. Por este motivo, os agricultores devem desenvolver uma estratégia coletiva, exigindo uma postura mais cooperativa e menos competitiva; a competição deverá acon- tecer mais entre setores e menos entre as organizações. Quando se trata de análise dos negócios agropecuários, mais especifica- mente na gestão rural, há diversas questões estratégicas a serem discutidas, mas acredita-se que a maior delas é descobrir se realmente o agricultor quer con- tinuar a viver e trabalhar na área rural, pois isto vai determinar um plano es- tratégico de melhorias na área rural ou apenas um plano para venda e o êxodo da família. O MÉTODO DE GESTÃO PARTICIONADA Após muitos trabalhos realizados com pequenos agricultores, com os mais diversos formatos de abordagem, pode-se apresentar o método da Gestão Particionada, como sendo um bom método de gestão para este tipo de orga- nização administrativa. Este método é indicado para uso de consultores que têm intenção de mu- dar os paradigmas da família rural e alterar o rumo do futuro da propriedade a ser atendida. 124 O método está estruturado sobre seis grandes pilares de sustentação (chamado de setores) de uma organização rural (aqui chamada de proprie- dade). Estes seis setores são desvendados, por meio de um DIAGNÓSTICO, semiestruturado, sobre um check-list (em anexo), quando o consultor deve par- ticionar a propriedade, separando-a conforme cada setor de forma cirúrgica e com pensamento sistêmico. Após o diagnóstico feito e apresentado em forma de relatório, é elaborado um PROGNÓSTICO, com sugestões pontuais de modificações a serem feitas, caso o agricultor quiser, na propriedade, com vistas a mudar o rumo dos negó- cios agropecuários da família. DIAGNóSTICO O processo de diagnóstico trata de análise das condições, problemas e potencialidades de uma propriedade rural. Ao fazermos este levantamento é como se tirássemos uma fotografia do empreendimento; neste caso, trata-se da situação atual, quando é descoberto, com perguntas estratégicas, as condições em que a propriedade está no momento (situação neutra), os problemas que ela está enfrentando (situação negativa) e as potencialidades possíveis (situação positiva). É muito importante neste diagnóstico, desenvolver um relacionamento de amizade entre o consultor e a família toda, por isso, a primeira ação estra- tégica a ser feita é o dia da visita. Para que este evento aconteça de forma mais produtiva possível, o consultor deve, primeiramente, ligar para o agricultor e marcar o dia para fazer uma visita rápida (uma hora) para a família em horários convenientes. Os melhores dias para visitas são de terça a sexta. O domingo é geral- mente um dia de descanso, a segunda-feira é um dia assoberbado, quando há muito trabalho acumulado; por outro lado, sábado é geralmente o dia em que a família vai à cidade para fazer compras e outras atividades. Os melhores horários são entre às 10h e 15 horas, pois antes das 10h é o horário em que a família destina para dar início ao dia de trabalho, com alimentação dos animais, a limpeza, a ordenha, o pastoreio, entre outras ativi- dades correlatas. Já a partir das 15 horas é o horário de ir buscar as vacas, pre- parar a propriedade para a noite e iniciar o manejo da ordenha. Observados esses dias e horários, a conversa com a família deve ser rápi- da, apenas explicando como será feito o trabalho, o comprometimento, dedica- ção e sigilo do consultor e a necessidade de que todos estejam motivados para participar do evento. Após esta convenção, deve-se marcar um dia para a visita que vai demorar entre 3 e 5 horas. Neste período, já está contado o tempo para aquelas conversas de rotina como: questões climáticas, o parentesco do consul- tor, comentários sobre o governo, algumas questões de saúde como dores nas 125 costas, entre outras conversas que para o agricultor são indispensáveis antes de iniciar qualquer conversa. O check-list está em anexo com uma relação de perguntas estratégicas a serem feitas. Esta relação pode ser aumentada ou diminuída de acordo com a característica da propriedade, porém o mais importante é estar sempre imbuí- do de uma visão sistêmica e da inter-relação dos setores. O check-list trata-se de um subsídio para que o consultor não se esqueça de alguma questão a ser feita. A primeira questão e talvez a mais demorada é: Conte-nos a história de- sta propriedade e da família envolvida? Nesta questão será possível descobrir o grau de empreendedorismo do agricultor e dos entes da família, bem como se a família é agricultora por vocação, ou está ali por falta de opção após receber de herança a propriedade. Esta questão gerará uma redação longa, quando o consultor deve anotar tópicos para depois construir um texto agradável e in- formativo. Após a questão introdutória, deve se iniciar as questões por setores, uma a uma de maneira informal, como se fosse uma conversa entre amigos. A seguir, reflexões sobre algumas necessidades dos agricultores, de que a maioria precisa fazer com o consultor, com o intuito de amadurecer as questões e dar início as implantações de melhorias. GESTÃO ORGANIZACIONAL Na Gestão Organizacional – GO são discutidas e trabalhadas as questões referentes à organização da propriedade. Parte-se do princípio de que se um agricultor não tem sua propriedade organizada, é por causa da falta de um método de Gestão Organizacional. Em princípio, sugere-se que toda propriedade (independente do tamanho), deva ter um escritório. Não necessariamente, precisa ser uma sala específica para isso, mas é fundamental que haja uma mesa ou escrivaninha com gavetas e este local deve ser destinado para o planejamento da propriedade. Aconselha-se, ainda, que seja junto à moradia, pois já se constataram casos em que montaram o “escritório” junto ao depósito de ração ou ao lado do chiqueiro, e nestes casos os resultados não foram animadores. Este escritório deve ser em um local limpo e arejado, bem iluminado, com uma boa cadeira e reservado, pois sendo este o local onde o agricultor vai fazer a Gestão Estratégica da propriedade é grande a possibilidade dele passar horas neste espaço. A implantação do Escritório de Gestão, não se trata apenas de um lo- cal físico, é uma mudança cultural, de hábitos das pessoas da família. É muito difícil convencer um agricultor de que se ele postergar algumas tarefas de ro- tina, para planejá-las primeiro, terá uma diminuição do esforço físico e terámais tempo durante do dia. Parece um antagonismo, deixar de fazer as coisas 126 para ir sentar-se e planejar... que as coisas não ficarão prontas. Mas as análises feitas até agora, nas propriedades que implantaram o escritório para a Gestão Organizacional, mostraram, em médio prazo, bons resultados na tomada de decisões e na produtividade. Tem-se visto com muito sucesso, a participação da mulher neste setor, uma vez que ela tem grande capacidade de visão sistêmica no processo de gestão. Por isso, caso uma das mulheres da casa estejam com disposição para ajudar neste processo com o líder, com certeza será de muito valor. As ativi- dades vão desde as questões burocráticas até os pensamentos sistêmicos. Há de se ressaltar que as mulheres têm grande capacidade de desenvolverem pensam- entos sistêmicos e isso é muito útil na elaboração de um Planejamento Estraté- gico e na tomada de decisão. O Planejamento estratégico compilado por Chiavenato (2010) pode ser apresentado como o processo pelo qual se faz a elaboração da estratégia para se definir a relação entre a organização e o ambiente interno e externo da proprie- dade rural, bem como os seus objetivos e metas as serem alcançados. O Plane- jamento Estratégico prevê de forma crível e possível o futuro da propriedade rural em relação ao médio e longo prazo, pois é elaborado com a comunhão de todos os atores envolvidos no processo produtivo da propriedade rural. Além disso, no escritório da propriedade, deve haver um armário para que sejam arquivadas as escrituras, notas fiscais, declarações de impostos, pagamentos de tributos entre outras burocracias necessárias para o bom func- ionamento da propriedade. Há na área rural principalmente uma cultura de que a burocratização é desnecessária e ainda dificulta o bom funcionamento do trabalho, porém, ob- serva-se nas propriedades atendidas que, em primeiro momento, realmente há certa dificuldade e morosidade em se desenvolverem processos burocráticos, mas com o passar do tempo (e certa disciplina), vê-se melhora no trabalho, a partir do momento em que os envolvidos encontram facilmente onde estão os documentos e também começam a usar as informações registradas para a tomada de decisão. O termo burocracia, aqui apresentado, vai além de como é apresentado por Max Weber, pois, tem-se a intenção de tirar as expressões pejorativas de- ixando a sua essência que é organização, disciplina e controles como subsídios para as tomadas de decisões estratégicas. Há muito mais estratégias a serem refletivas e desenvolvidas neste setor; aqui foram sugeridas algumas que podem ser fundamentais, mas depende de cada caso a ser analisado. O importante é ter em mente que cada propriedade tem idiossincrasias que devem ser observadas sempre, tendo como estratégia a utilização do método particionado de gestão rural, de que tudo está interligado. Ou seja, cada ação feita neste setor vai dar reflexo nos outros cinco setores. É o sistema de gestão em ação. 127 VENDAS E MERCADO No setor de Vendas e Mercado – VM são discutidas as questões de análise de mercado interno e externo, entendimento sobre as estrutura de mercado (oligopólios e oligopsônios) e os nichos de mercado consumidor (orgânicos e agroecológicos). Neste setor, encontra-se grande antagonismo entre os agricultores, pois se de um lado eles produzem porque querem vender, por outro lado não se preocupam em entender o mercado e a estrutura de venda, ficando, assim à deriva no processo de mercado e da lei da oferta e demanda. Segundo esta popular lei apresentada por Alfred Marshall em 1890, quanto maior for a quantidade de um produto oferecido no mercado, menor será o valor deste produto, e quanto menor for a quantidade maior será o valor, ou seja, aumento ou diminuição do valor de um produto depende da sua neces- sidade pelos consumidores. Observa-se que o simples fato do agricultor entender como funciona a Lei da oferta e demanda, já dá a ele condições de tomar decisões sobre estoca- gem, época de negociar contratos e planejamento de vendas. Acredita-se que é neste setor da propriedade rural que há a grande sepa- ração entre os que fazem da atividade rural um sucesso ou um fracasso. É claro que é muito mais fácil, colocar a culpa em diversos outros fatores como o gov- erno, o vizinho, a dificuldade logística, e até o tempo para obter informações, mas o que fica muito claro nas propriedades visitadas é de que há um grande desconhecimento sobre o funcionamento do mercado, principalmente no que tange a análise de mercado de oferta e demanda. Inúmeras vezes observam-se irmãos que ganham a mesma quantia de hectares de terra de herança, mas em médio prazo, são distanciadas as posses deles, quando um fica rico e o outro precisa vender a herança e ir morar na cidade pois não consegue gerar nem o próprio sustento. Neste caso, entre out- ras variáveis, acredita-se que a mais contundente é a de que um deles ignorou saber como funcionava o mercado porque achava que tinha que trabalhar até a exaustão, enquanto o outro foi em busca de informações sobre o mercado e políticas agrícolas que definem o valor dos produtos. Outro fator importante a ser discutido, neste setor, é a questão do market- ing, que muitas vezes é confundido com propaganda, sendo que na verdade o marketing tem um conceito muito mais complexo, pois está incluso nele toda a questão dos 4 P’s: Preços Os preços dos produtos e serviços a serem negociados, quando bem anal- isado pelo agricultor, podem definir sua viabilidade ou não. Uma das grandes dificuldades do agricultor é definir seu preço, uma vez que as commodities estão 128 sob o efeito dos oligopólios, que por sua vez, determinam o valor de mercado. Porém, é necessário que seja feita a formação do preço de venda, para conhecer os custos e despesas a serem envolvidos na construção do valor do produto. Neste caso, quase que a totalidade dos agricultores não inclui o valor da sua mão de obra e a da família envolvida. Com isso, ele sempre pensa que está tendo grande lucro e não entende quando vai para cidade fazer compras e sem- pre falta dinheiro. Entra-se, então, em um paradoxo: se os produtos dão lucro, como falta dinheiro? É preciso lembrar que as pessoas da família não vivem só para comer, elas precisam de qualidade de vida e de muitas coisas que proporcionam isso, é necessário comprar. Existem vários métodos de se auferir o valor de um produto/serviço, mas o que mais se usa com menor margem de erro é o método de Custeio por Absorção (SÁ, 2009) que engloba os custos totais (fixos, variáveis, diretos e/ou indiretos). Neste método, necessita-se de critério de rateios, no caso de apropriação dos custos indiretos (gastos gerais de produção) quando houver dois ou mais produtos ou serviços. O Método de Custeio por Absorção é um dos mais utilizados no Brasil, mesmo tendo a possibilidade de deixar de fora algumas variáveis. Ainda tratando de preços dos produtos, pode se afirmar que uma carac- terística da produção rural muito contundente é a sua descontinuidade conhe- cida como sazonalidade. A sazonalidade é decorrente das diferentes fases das plantas cumprirem o seu ciclo produtivo em épocas ou estações que ofereçam condições climáticas propícias ao seu desenvolvimento e, estas condições não se repetem dentro do mesmo ano agrícola, sendo impossível plantar com igual sucesso todos os meses, a produção e as atividades rurais tornam-se descon- tínuas e concentradas em épocas específicas. A sazonalidade é acarretada por variáveis, mas a mais importante no caso dos negócios agropecuários é o clima. Assim, os agricultores precisam se preocupar, ao mesmo tempo, com as sementes e outros fatores de produção, controlar trabalhadores, pois estas variáveis, podem fazer com que os custos aumentem, obrigando o uso de recursos economizados de safras anteriores ou a busca por recursos externos, levando-os às dívidas. Por outro lado, a descontinuidade do fluxo de produção leva àociosidade temporária de terras, armazéns, tratores, colheitadeiras, mão de obra entre out- ros, cuja aquisição exige somas de recursos. Como a demanda de bens e de matérias-primas de origem rural são, ger- almente, inelásticas ao preço, ou seja, o aumento da oferta na época da safra diminui o preço recebido, a renda do produtor na época da safra cai, fazendo com que ele, caso não tenha conhecimento desta regra econômica, tenha que vender o produto estocado da outra safra para poder cobrir os custos de col- heita e assim perder dinheiro sucessivamente. 129 Figura 2 – Comportamento dos preços dos produtos de acordo com os períodos do ano agrícola. Produtos As quantidades e qualidades dos produtos e serviços a serem ofertados trazem consigo toda a carga de competitividade do mercado agropecuário, uma vez que, como na maioria se trata de commodities, o que pode definir a preferência do consumidor é a qualidade do produto e a quantidade a ser ofertada. Neste sentido, no ramo da pecuária, as questões de genética, nutrição e manejo dos animais são fundamentais para definir a competitividade da produção. É fundamental a participação de pessoal habilitado (técnico, agro- pecuário ou veterinário), no desenvolvimento dessas atividades. Já no caso do ramo da agricultura, as questões de técnicas agronômicas, genética de plantas e tecnologias de pré e pós-colheita, devem ser observadas de forma muito criteriosa, em busca de melhorias constantes na produtividade. Nestes dois casos acima, é preciso atentar para os custos da participação desses profissionais. Porém, sabe-se que há muitas formas de se obter atendi- mento técnico especializado com baixo custo, seja pelos Sindicatos, EMATER e empresas de comercialização de defensivos, além das empresas que têm políti- cas de parcerias e cooperativas entre outras alternativas. Praça Definir a praça ou local de absorção de seus produtos e serviços pode definir o perfil do consumidor. Questões como idade, sexo, situação de domicí- lio, renda, etnia entre outras variáveis de análise, podem definir a possibilidade de um nicho de mercado e uma produção artesanal, ou a produção em série no caso de produtos a serem feitos em larga escala. No caso da idade, por exemplo, não se aconselha produzir queijo tipo co- lonial para uma população de crianças e adolescentes que preferem o queijo tipo prato fatiado, ou ainda, produzir doce de frutas e compotas em grandes potes, para vender na área urbana, onde as pessoas não têm como guardar. Entre out- ras situações, quando se deve observar quem será o consumidor em potencial. 130 Promoção Diferente do que se pensa a promoção de um produto/serviço não sig- nifica baixar o preço, pois isto seria uma liquidação. A promoção de um produ- to ou serviço passa por estratégias de embelezamento, que vai desde expor os produtos/serviços, passando por embalagens a serem utilizadas até a cor ideal para atingir a sedução do mercado para o que se está oferecendo. Mesmo com a produção de commodities, se o agricultor conseguir ter um produto de qualidade que tenha boa apresentação, conseguirá atingir uma parcela de mercado importante. Já existem vários casos como a soja orgânica, o leite tipo A, entre outras produções que conseguem atingir nichos de mercados interessantes e que trazem grande ganhos aos produtores pelo simples fato de ser “o mais do mesmo”, ou seja, ser uma commodity e mesmo assim, obter a alavancagem na lucratividade. No caso das vendas e mercado são muito amplos os temas estratégicos a serem tratados e isto será determinado pela capacidade da propriedade pro- duzir produtos para nichos de mercado ou commodities. O importante é ter em mente a utilização do método particionado de gestão rural, de que tudo está interligado. Ou seja, cada ação feita neste setor vai dar reflexo nos outros cinco setores. JURÍDICO E LEGAL No Setor Jurídico Legal – JL são discutidas as questões referentes a reg- istros legais e impostos, bem como a situação de registros como produtores rurais dos familiares. Este setor é um dos mais desconhecidos por todos, quando se trata de gestão estratégica na área rural e tem trazido muitos problemas, principalmente a partir da implantação da tecnologia de GPS (Global Positioning System) ou Sistema de Posicionamento Global, que dá a posição exata da localização dos limites das propriedades e também dimensiona o real tamanho da propriedade que até então era feito de forma rudimentar com a utilização de técnicas eu- clidianas de geometria plana para definir as áreas de terras. Também, observam-se inúmeros casos de “novos herdeiros”, comprova- dos a partir de testes de DNA, que na partilha de bens, têm trazido dificuldades de gestão, pois têm o direito, porém não estavam nos planos da família. Além destes dois fatores, há outros que são condições elementares para o bom funcionamento da propriedade, como é o caso do inventário, plano de sucessão familiar entre outros registros legais que são fundamentais para a har- monia administrativa das propriedades. A partilha dos bens deve ser planejada pelo patriarca/matriarca da família já em vida, em conjunto com seus herdeiros. Sabe-se que é um assunto difícil de ser discutido, porém necessário, pois garante a viabilidade do empreendi- 131 mento. Questões como forma de organização e partilha, observando quem fica com a sede, quem fica com o acesso à água, quem fica com o melhor e pior aces- so à logística e às áreas cultiváveis, devem ser bem negociadas e depois, neces- sariamente, ser registrada em documentos no cartório; para isto é necessária a contratação de um advogado. Isto garante a permanência da família no campo e evita brigas e desarmonias no futuro, principalmente quando os filhos e as filhas casam-se e chegam à família novos indivíduos. Neste caso, são poucas as questões a serem trabalhadas, porém, têm grande importância para o futuro dos familiares envolvidos; geralmente com a herança, os familiares recebem grandes problemas burocráticos a serem re- solvidos, que foram ignorados pelo patriarca em vida. É importante ressaltar que cada propriedade tem suas questões pessoais sobre legalizações e impostos e cada ação tomada (ou não), dará reflexo nos outros cinco setores. PRODUÇÃO E MANEJO No setor de Produção e Manejo – PM são discutidas questões sobre produ- tividade agrícola, bem como o manejo e nutrição dos animais da propriedade. Em pequenas propriedades – foco deste capítulo – quando se trata de produção e manejo, entra-se em uma questão mais técnica, se o assunto é grãos, hortifruticultura e outras produções agrícolas, a necessidade de observar-se mais a produtividade do que a produção, pois como as áreas são pequenas, o foco é a verticalização da produção, ou seja, produzir mais em menos espaço. Tanto na área agrícola como na área da pecuária, há a necessidade de contratação de profissionais para auxiliarem nessas atividades, porém, o agri- cultor, precisa ter uma visão mais sistêmica acima das orientações técnicas, que devem balizar as tomadas de decisões e tragam mais lucratividade e diminuam a quantidade de trabalho diário. Sugerem-se, neste capítulo, algumas destas de- cisões sistêmicas: Na área agrícola, é preciso ajuda de um profissional da área que desen- volva um projeto de melhoria na produtividade, implantando bons cultivares, usando práticas de cultivo que facilitem o trabalho dos familiares e que não gerem grandes custos de produção. O uso de novas tecnologias deve ser muito observado, tendo em vista que elas trazem facilidades no trabalho. Como pode se aprender nos dicionários, tecnologia é a ciência da técnica, ou seja, é uma forma de fazer alguma coisa. Portanto, estas tecnologias não se restringem às máquinas e aos equipamentos, mas também em tecnologias de genética de plantas, transgenias, defensivos agroecológicos e de baixa contaminação, entre outras variáveis fundamentais para este tipo de atividade. Quando se trata da área da pecuária,o binômio manejo e nutrição são os grandes diferenciais. Com um profissional da área, é possível organizar a 132 montagem de uma estrutura produtiva que observe os períodos de prenhez e lactação dos animais, bem como época de melhor aproveitamento de ganho de peso em carcaça e produtividade. No que tange a pecuária leiteira, sabe-se que uma vaca, tem um ciclo de produção de no máximo 10 meses; neste sentido, o que se recomenda é que o plantel seja organizado em lotes, de forma que possa ser estimulada (ou retardada) a prenhez (com auxílio de hormônios) com vistas a homogeneizar os lotes, com isso, pode-se planejar um plantel que, enquanto um lote está em lactação o outro está em prenhez e outro em período de seca. Assim, a proprie- dade fica o ano todo com a mesma produção leiteira e com isso, pode ter uma renda fixa anual, para garantir os ganhos básicos da família. Outra estratégia a ser sugerida, diz respeito à nutrição animal de vacas leiteiras, quando se deve observar o ciclo natural de produção; nos cinco pri- meiros meses a nutrição deve ser rica em açúcar e lipídios, para estimular ainda mais a produção. Já entre o sexto e décimo mês pode-se substituir por uma nutrição mais barata, tendo em vista que a vaca não vai aumentar a produção por questões naturais, então não há porque gastar mais em nutrição mais cara. Ainda há a questão de vacas com genética de baixa qualidade, que ficam co- mendo a mesma quantidade que as outras e têm uma produção medíocre; neste caso, o descarte é recomendado. Em um primeiro momento parece ser um pouco perverso, mas se obser- varmos que no mundo do trabalho humano, quem produz mais ganha mais e quem produz menos ganha menos e quem não produz deve ser substituído; é uma estratégia válida para o mundo animal também. Figura 3 – Ciclo de produção de uma vaca em lactação. Fonte: Elaborado pelo autor O 133 Há, ainda, muitas outras estratégias que podem ser feitas; como rede- senho do layout da propriedade, melhorando o fluxo de trabalho; implantação de piquetes para pastoreio itinerante e outras ações que promovam um manejo saudável aos animais; que traz melhoria na qualidade de vida deles e, em con- sequência, melhoria de produtividade. É importante ressaltar que estas ações sistêmicas, quando há reflexos na melhoria da propriedade, devem preferencialmente partir do agricultor e sua esposa ou do filho que mais ajuda, pois são estes que vão entender por que foram feitas estas modificações e como isto vai modificar a produtividade da propriedade agrícola. Também que há muitas outras mudanças tecnológicas a serem feitas, dependendo das demandas do setor. Este setor é o mais atendido por veterinários, agrônomos e técnicos em agropecuária, porém, dificilmente esses profissionais têm em mente a visão es- tratégica e sistêmica como deveriam ter os extensionistas rurais. Assim, cabe ao agricultor ter uma conscientização da necessidade dele ser a pessoa a ter uma visão sistêmica, que veja a propriedade como um todo, onde a produção e o manejo não é o setor mais importante e sim, apenas, um dos cinco partici- pantes do sistema de gestão particionado. Também deve ter cuidado para não valorizar demais este setor, incentivado por profissionais de vendas de insumos que têm como objetivo apenas vender produtos e cumprir as metas da empresa que representa, ao invés de garantir a sustentabilidade da propriedade rural. GESTÃO DE PESSOAS No setor de Gestão de Pessoas – GP são discutidas as questões referentes à equipe de trabalho, suas competências e habilidades, comprometimento e ca- pacidade de trabalho de cada indivíduo envolvido. No setor de gestão de pessoas de uma propriedade rural, é necessário observar que há poucas pessoas para muito trabalho e ainda trata-se de ativi- dades diferenciadas nas quais a especialização é mais difícil de ser alcançada. Neste sentido, a estratégia é observar entre os indivíduos à disposição qual a potencialidade de cada um. Para isso, a melhor forma é testar todos em todas as atividades (inclusive o líder do grupo), assim, será possível destinar as respon- sabilidade e descentralizar o trabalho. A descentralização traz ao agricultor a possibilidade de melhorar a produtividade com o aumento de responsabilidades de cada um. Também, descobrem-se, na descentralização, grandes valores individuais que, até então, estavam obscuros para a própria pessoa. Não é incomum descobrir líderes entre o filho mais jovem, a mãe ou a filha com grande capacidade de gerenciar as contas da casa, ao invés do marido como se pensava; essas e outras descobe- rtas a descentralização pode proporcionar. Porém, para que isso seja possível, é preciso que o agricultor tenha 134 espírito de liderança, que saiba as diferenças entre as seguintes variáveis: a) um agricultor que tem poder tem a forma de gestão em que pela força (física ou verbal) consegue coagir as pessoas a fazerem aquilo que ele quer mesmo que as pessoas preferissem não fazer; b) um agricultor que tem autoridade é aquele que tem habilidade de con- vencer as pessoas a fazer aquilo que ele quer por causa da sua influência pessoal e de suas atitudes positivas e capacidade de inter-relacionamento com todos; ele não é autoritário, ele tem autoridade; c) um agricultor com capacidade de gerência é aquele que consegue gerenciar as pessoas e as atividades, mas não as suas emoções. Já o agricultor que tem capacidade de liderança consegue influenciar as pessoas para trabalhar de forma entusiasmada, quando todos buscam o bem comum e têm os objetivos bem definidos. A liderança deve ser embasada na autoridade e não no poder, pois o poder só dá resultados no curto prazo; no longo prazo é a autoridade que se estabelece. Além dessas questões, como descentralização e liderança – princípios fundamentais de gestão estratégica de pessoas –, na área rural também é ne- cessário; organizar a equipe, mesmo sendo esta muito pequena. Para isto, sug- ere-se a organização por estruturas funcionais. Neste caso, a estrutura E-T-O (estratégico, tático e operacional), comumente apresentado por Chiavenatto (2010), quando se pode separar o grupo em forma de pirâmide: Figura 4 – Estrutura organizacional da equipe de trabalho. Fonte: Elaborado pelo autor Após a definição das habilidades de cada um, é preciso que seja definido o que cada um faz e quais suas responsabilidades. Isso dará mais profissionalismo à propriedade rural e à capacidade de gestão mais leve ao agricultor. A Gestão de Pessoas é um setor composto geralmente por poucas pessoas na propriedade, porém, deve lembrar-se, que uma equipe coesa e unida, ga- 135 rante – com os outros cinco setores – os resultados esperados pela família e que, por isso, deve ser dedicado, a este setor, atenção muito especial, e trabalhadas outras questões além destas apresentadas como exemplos. FINANÇAS E CONTROLES No setor de Finanças e Controles – FC são discutidas as questões referen- tes a gastos para a produção, lucratividade e viabilidade do empreendimento. Este setor, talvez o que mais preocupa os agricultores, tem este estigma de ser uma esfinge, justamente porque eles têm dificuldades de entender a pro- priedade de forma sistêmica na qual cada um dos setores deve ser trabalhado de forma interligada. Os controles financeiros O primeiro obstáculo observado no setor de finanças e controles é a dificuldade em ter informações críveis para serem trabalhadas. Geralmente em uma conversa com o agricultor sobre o assunto, a palavra “acho” aparece deze- nas de vezes e talvez até mais que a expressão “mais ou menos”. Desta forma não se tendo credibilidade nas informações não se tem noção exata de como estão as finanças da propriedade e por isso, não se pode projetar o futuro finan- ceiro dela. A primeira ação a ser implantada é um controle simples de Entradas X Saídas, em que se pede seja anotado em um caderno ou em uma planilha ele- trônica do computador, todos os valores que entram e saem no decorrerde um período (geralmente três meses). O Controle pode ser visualizado a seguir: Figura 5 – Planilha de controles de entradas e saídas. DISCRIMINAÇÃO ENTRADAS (R$) SAÍDAS (R$) Leite 5.000,00 Compra de ração 1.500,00 E assim sucessivamente... (...) (...) SOMA Fonte: Elaborado pelo autor A intenção deste controle a ser implantado é pedagógica, pois pode se perceber qual a capacidade do agricultor de realizar uma tarefa que necessita de organização e disciplina. Também, em um período de três meses de anotações, já é possível observar algumas tendências sobre as entradas e saídas de recur- sos, e ao mostrar para o agricultor a soma dos resultados ele já vai começar a perceber, aparecerem valores que ele tinha esquecido. Após seis meses de an- otações já é possível apresentar um relatório semestral com gráficos mostrando 136 a evolução dos valores e em um ano de anotações após o relatório anual já se pode prever, com certa exatidão, os valores a serem desembolsados e recebidos no próximo período. A valoração dos gastos Paralelamente às anotações de entradas e saídas, sugere-se a implanta- ção de uma caixa ou gaveta, onde devem ser colocadas todas as notas fiscais ou recibos do que foi comprado no período. Caso não haja notas ou recibos, pode ser escrito em pequenos papéis recortados de folhas de ofício, nas quais serão escritas a origem da despesa, data e valor e lançadas na caixa ou gaveta reservada. Ao final de cada mês, se faz a “contabilidade” das notas para ter uma valoração das despesas feitas no período. Estas atividades devem ser feitas de forma periódica e permanente. Após os controles estarem em andamento, podem-se iniciar os trabalhos com a análise de gastos de produção. Como não é obrigatória a necessidade de contabilidade nas propriedades, não se tem como fazer a gestão de gastos; para isso, deve-se então iniciar com o esclarecimento das diferenças que existem en- tre cada item dos gastos: a) custo: aqueles desembolsos que não trarão retorno ao agricultor; b) despesas: aqueles desembolsos que poderão trazer desembol- sos ao agricultor; c) investimentos: aqueles desembolsos feitos para comprar algo que gere patrimônio ao agricultor e d) gastos: a soma de custos + despesas + investimentos. O negócio agropecuário tem muitas dificuldades de aumentar o lucro com aumento de preços, por isso, a melhor forma de melhorar os ganhos é pela diminuição dos gastos, principalmente dos custos. De posse dos registros dos gastos com a propriedade, é possível analisar o que pode ser cortado, como também analisar séries históricas, com as épocas do ano que há maiores gastos e como fazer uma reserva de caixa para esse período. Assim, diminuirá a neces- sidade de endividamento das propriedades. O ano agropecuário Diferente do que muitos pensam o ano agrícola não termina em 31/12. O ano agrícola de uma propriedade encerra quando encerra o ciclo produtivo: exemplos: No caso da atividade da SOJA, o ano agrícola termina após a colheita e venda da produção, isto significa menos de um ano. Em casos de empresas que não vendem o produto e o armazenam, pode-se concluir logo após a colheita (lançando a soja armazenada, como estoque [ativo]); No caso da atividade de Pecuária, para empresas que planejam o nasci- mento dos bezerros, o ano encerra quando nascem todos os bezerros planejados; outro caso pode ser utilizado o mês que é vendido os animais para o frigorífico. 137 A análise do período As análises dos dados financeiros dão ao agricultor um cenário real da propriedade, trazendo a possibilidade de tomadas de decisões mais acertadas. Questões como melhorias nos processos produtivos, custos com registros le- gais, qualificação da equipe entre outras variáveis dependem de necessidade de capital, e este setor deve ser o financiador destas demandas, se houve possibili- dades de caixa no momento ou no futuro em forma de auto- financiamento. Há muitas outras questões a serem trabalhadas neste setor, dependendo de cada caso a ser atendido. São impressionantes as mudanças que ocorrem na propriedade após serem implantados os controles mínimos necessários para a gestão financeira. Como é um setor que causa desconforto de ser desenvolvido, precisa de uma dedicação muito especial do consultor, fiscalizando as anotações e fazendo cru- zamentos de dados periódicos. Os outros cinco setores dependem muito de que as finanças e controles estejam bem organizados e que a visão sistêmica esteja contemplada de forma integral. A depreciação dos bens Outra questão importante a ser ressaltada diz respeito à deprecia- ção dos bens da propriedade. A depreciação na atividade rural é a apropria- ção ao resultado, da perda de eficiência ou da capacidade de produção de bens tangíveis, componentes do Ativo Permanente que servem à produção de vários ciclos de produção e não se destinam à venda. É o caso das culturas permanen- tes, máquinas e equipamentos, tratores, gados reprodutores, animais de trab- alho e outros bens que são de propriedade da empresa. Para se estipular o percentual mensal ou anual desta perda, leva-se em consideração o tempo de vida útil do bem. O método mais simples de calcular a depreciação de um bem é o chamado método empírico linear. • Vi = é o valor inicial do bem; ou seja, o valor pelo qual ele foi adquirido, ou até mesmo o seu valor atual, caso tenha recebido como doação. • Vf = é valor final ou valor de sucata do bem; ou seja, ao término da vida útil, qual o seu valor. Tratando-se de uma máquina (trator, por exemplo), seria o valor pago pelo ferro-velho. Esse valor, pago pelo ferro-velho, seria o valor de sucata. 138 • n = é o número de períodos de vida útil estimada do bem. Caso te- nha se considerado o valor atual, deverão ser considerados como vida útil os anos restantes (vida total, menos os anos já utilizados). A necessidade do cálculo da depreciação é mostrar para o agricultor o real valor dos seus bens, para que ele tenha noção de seu patrimônio e possa avaliar sua potencialidade de produção. O PROGNóSTICO O prognóstico a ser elaborado para a família deve seguir a forma como é feito um diagnóstico médico, ou seja, quando uma pessoa vai ao médico, ela já tem certa ideia de qual o problema que aflige sua saúde, porém, ela procura um profissional da área que possa confirmar a hipótese dela e ainda dar uma “cura” para esta doença. Ao chegar no consultório, o paciente é indagado pelo profissional, sobre suas questões diárias e rotineiras da vida, questões de heranças genéticas entre outras variáveis. Neste momento está sendo feita uma pesquisa empírica, ou seja, sobre questões práticas. Logo após o médico, “visita” o corpo do paciente em busca de algumas pistas para o problema. Em seguida, solicita exames labo- ratoriais quando serão feitas coletas de dados e gerado relatórios técnicos com informações científicas sobre o paciente. Só então o médico afirma com algum grau de certeza o diagnóstico de qual é a doença. Em muitos casos, até o momento citado no parágrafo anterior, não há nada de espetacular neste diagnóstico, mas é o terceiro ato do profissional es- pecialista no assunto, que o torna tão valioso, digno de receber o pagamento: O prognóstico, ou seja, a solução para a cura. Se observarmos bem, a lista de remédios receitados com suas respectivas doses e horários a serem tomados, não passam de uma sugestão, pois o paciente é livre para tomar todos ou apenas alguns e talvez até nenhum dos remédios sugeridos pelo médico. Este livre-arbítrio de tomar ou não o que o médico receita, não responsabiliza o profissional, pois caso der algum problema no fu- turo, pode se investigar se o paciente fez o tratamento exatamente como foi sugerido ou não. O médico continuará sendo médico com resultado positivo ou negativo, já a sorte do paciente vai depender dele. Esta analogia foi apresentada, justamente para entendermos que ao final do diagnóstico, o consultor deve, obrigatoriamente, sugerir Implantações de Melhoriasas serem feitas, com datas, horários e atividades a serem feitas e fis- calizar se as sugestões estão sendo feitas. Para a implantação das melhorias, sugere-se o método 5W2H, visto em Meira (2003), uma ferramenta simples que poderá controlar as modificações a serem feitas conforme o cronograma preestabelecido. 139 Figura 6 – Sugestão de planilha com método 5W2H. Problema a ser resolvido: What O quê? Que ação será executada? Who Quem? Quem irá executar a ação? Where Onde? Onde será feita a ação? When Quando? Quando a ação será feita? Why Por quê? Por que a ação será feita? How Como? Como será feita a ação? How much Quanto Custa? Quanto custa para fazer a ação? Fonte: Elaborado pelo autor, baseado em Meira (2003) Porém, o agricultor é o dono da propriedade e tem o livre-arbítrio de fazer algumas, todas ou nenhuma das sugestões de melhorias. Isto é de respon- sabilidade do agricultor e os reflexos das ações tomadas (ou não), irão refletir nos resultados operacionais dos negócios agropecuários. Mas, diferentemente da maioria dos médicos, o consultor de propriedades rurais fará um acompan- hamento periódico e ajudará nas implantações de melhorias, fazendo minir- relatórios periódicos a cada período. CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CAPÍTULO No ambiente rural, há certas características peculiares a serem observadas, porém, acreditamos que este método de Gestão Particionada traz um diferen- cial para as consultorias feitas até o momento. Se avaliarmos atentamente, po- deremos perceber que este método leva até a propriedade rural um processo de amadurecimento de todos os envolvidos e também uma profissionalização do empreendimento rural em busca da sua viabilização com qualidade de vida para todos. Esperamos poder ter contribuído com este método para ajudar a melho- rar a vida dos pequenos agricultores, diminuindo o trabalho braçal e substitu- indo-o pelo trabalho mental. Temos certeza que, com este método, em médio prazo de tempo (6 meses), já haverá resultados concretos e principalmente os agricultores verão que não precisa de tanto esforço para manter uma proprie- dade rural. Devemos testar o célebre ditado popular: “quem trabalha não tem tempo para ganhar dinheiro”, ou seja, quem trabalha demais no pesado, não consegue sentar e pensar em uma Gestão Estratégica que diminua o esforço e aumente a produtividade e lucratividade. 140 REFERÊNCIAS A Bíblia Sagrada. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1988. ARAÚJO, M.J. Fundamentos de Agronegócio. São Paulo: Atlas, 2003. BATALHA, M. O. Gestão Agroindustrial. vol. 1. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2001. BERTALANFFY, Ludwig von. Teoria geral dos sistemas: fundamentos, desen- volvimento e aplicações. Petropolis: Vozes [e-book], 2008. CHIAVENATO, Idalberto. Planejamento Estratégico. São Paulo: Elsevier Bra- sil, 2010. CREMA, Roberto. Introdução à visão holística. São Paulo: Summus Editorial 5. ed. 2003. DARWIN, Charles. A origem das espécies. Hemus, [e-book], 2003. MEIRA, R. C. As ferramentas para a melhoria da qualidade. Porto Alegre: Sebrae, 200 UECKER, Gelson Luiz et al. A gestão dos pequenos empreendimentos rurais num ambiente competitivo global e de grandes estratégias. In: CONGRES- SO DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E SOCIOLOGIA RURAL. 2005. SÁ, Carlos Alexandre. Contabilidade para não contadores. São Paulo: SENAC, 2009. ZYLBERSTAJN, Decio (Org). Economia e Gestão dos Negócios Agroali- mentares. São Paulo: Pioneira, 2000. 141 CONSIDERAÇÕES FINAIS Um dos grandes desafios enfrentados pelas organizações é o desenvolvi- mento de gestão eficiente em meio a tantas turbulências e transformações, se- jam estas econômicas ou socioambientais. Enfrentar e realizar mudanças, de- senvolver e adotar estratégias diante da dinamicidade de seus ambientes, cada vez mais imprevisíveis, faz com que as organizações contemporâneas estejam em luta contínua pela sobrevivência e inovação no mercado. Com isso, redefinem-se os fatores determinantes da competitividade, fazendo emergir novas empresas de sucesso e tornando obsoletas aquelas in- capazes de evoluir e adaptar-se ao ambiente conturbado que se apresenta. É preciso reinventar a organização, planejar, repensar, ter foco no mercado; daí a relevância de uma gestão estratégia, aplicada tanto em empresas públicas, privadas, rurais ou urbanas. É um desafio que exige dos gestores uma visão holística direcionada a todos os stakeholders envolvidos com o negócio. Exige a compreensão de que a tomada de decisão depende não apenas de aspectos quantitativos, mas essen- cialmente da percepção do gestor, da sua capacidade em buscar conhecimentos e trabalhar em um ambiente mutável. Não existe modelo de estratégia ideal; é preciso criar nossos próprios modelos; temos que propor novas estratégias, o que só é possível se com- preendermos essa nova concepção de mundo; afinal, estamos em tempos flui- dos e efêmeros de profunda reconfiguração, sendo a adaptação um fator crucial que determinará o êxito organizacional. A gestão estratégica engloba todas as áreas de uma organização, seja ela pública ou privada, na área urbana ou rural, em estrutura familiar ou profis- sionalizada. Cabe ao gestor analisar o ambiente, identificar ameaças, oportuni- dades, forças e fraquezas, formular objetivos de curto, médio e longo prazo, traçar estratégias para alcançá-los e controlar contínua e sistematicamente todo esse processo. Entretanto, em cada uma dessas etapas é preciso atuar de forma diferenciada, inovar, para que se possa efetivamente galgar uma posição de de- staque frente à concorrência. Acreditamos que a Gestão Estratégica é, no século XXI, o grande diferen- cial de competitividade das organizações, principalmente em um país como o Brasil, onde há oportunidades de negócios em todas as esferas e locais. Sejamos Estratégicos em tudo!