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Patologia das glândulas anexas ARA0976 - Nutrição clínica nas doenças críticas e órgãos anexos Prof. Me. Júlia Canto Nutricionista Pancreatopatias Pâncreas O pâncreas é uma glândula retroperitoneal dividida anatomicamente em três partes: Cabeça (proximal) Corpo Cauda (distal) Pâncreas Glândula mista: endócrina e exócrina FUNÇÃO ENDÓCRINA: Produção e liberação de hormônios nas ilhotas de Langerhans: • Insulina: produzida pelas células beta, responsável pela redução dos níveis de glicose no sangue em resposta à alimentação. • Glucagon: produzido pelas células alfa, responsável pela quebra de glicogênio hepático com liberação de glicose para a corrente sanguínea. • Somatostatina: produzida pelas células delta, responsável pela inibição de insulina e glucagon, da secreção dos hormônios gastrointestinais e pancreáticos. Pâncreas Pâncreas Glândula mista: endócrina e exócrina FUNÇÃO EXÓCRINA: Produção do suco pancreático, formado por: • Água • Enzimas: amilase pancreática, lipase pancreática, tripsinogênio, quimiotripsinogênio, pró-carboxipeptidase, pró-elastase, calicreinogênio, fosfolipase A e B. • Bicarbonato: neutraliza o pH ácido da secreção vinda do estômago, evitando que a lesão do duodeno pela acidez e permitindo a ação das enzimas pancreáticas, que não atuam em meio ácido. pH 8,0 – 8,3 Pâncreas Glândula mista: endócrina e exócrina FUNÇÃO EXÓCRINA: • Inflamação do pâncreas caracterizada por edema, exsudação celular e necrose moderada a grave → autodigestão, necrose e hemorragia do tecido pancreático • Obstrução ou refluxo dos ductos pancreáticos • Manifestação intestinal: diminuição de pH duodenal • Ativação prematura das enzimas dentro do pâncreas → autodigestão das células pancreáticas → extravasamento de enzimas para o sangue Mecanismos fisiopatológicos das doenças pancreáticas Pancreatite • Inflamação pancreática • Pode ser apresentar em duas fases: AGUDA E CRÔNICA • Fase aguda: a glândula é normal antes da crise e pode retornar ao normal depois. • Fase crônica: a glândula é normal antes, mas não voltará ao normal, pois a destruição pancreática é extensa e progressiva, afetando gravemente as funções endócrinas e exócrinas Etiologia da pancreatite • Cálculos biliares: podem obstruir o canal pancreático • Alcoolismo crônico: lesão direta causada pelo álcool ou seus metabólitos • Hiperlipidemia: toxicidade dos AG livres sobre a célula pancreática • Trauma: extravasamento de suco pancreático • Infecciosas e parasitárias: caxumba, hepatite, parasitas etc. • Outras: medicamentos, hipercalcemia, pós operatório de cirurgia abdominal. Marcadores da pancreatite • Após início da inflamação pancreática (primeiras horas): amilase e lipase sérica elevam-se: • Elevação persistente da amilase: indício de complicação; • Lipase: melhor indicador de pancreatite • Bilirrubinas, TGO, TGP, fosfatase alcalina → marcadores associados à cálculos biliares • Aumento de citocinas pró-inflamatórias (IL-1, TNF-α, IL- 6, IL-8) Pancreatite aguda • Processo inflamatório abrupto do pâncreas exócrino • Resposta inflamatória local e sistêmica • Evento inicial: lesão das células acinares (diversas causas) • Resulta em ação de enzimas inadequadamente ativadas ou o seu refluxo de volta ao pâncreas → degradação do próprio pâncreas • PA leve → edema pancreático leve → rápida recuperação completa • PA grave → necrose pancreática, falência de órgãos e morte Pancreatite aguda - sintomas ✓ Náuseas, Vômitos, Anorexia ✓ Distensão abdominal ✓ Dor abdominal aguda, podendo irradiar para as costas ✓ Esteatorreia ✓ Confusão e agitação ✓ Febre ✓ Alterações séricas de enzimas pancreáticas S in tomas podem p io ra r com a i nges tão a l imen ta r ! Pancreatite aguda - etiologia Em até 30% dos casos não é possível identificar a causa (pancreatite idiopática) Pancreatite aguda ÁLCOOL: • O etanol causa uma desordem do controle ácido-base do estomago para o intestino, dificultando a neutralização da acidez no intestino. • Esse desequilíbrio leva a problemas no esfíncter de Oddi → retorno do conteúdo duodenal para o pâncreas → incluindo as enzimas, que agora estão ácidas • Obstruções nos ductos biliar e pancreático → processo inflamatório. Pancreatite aguda grave Quando há escapamento de enzimas pancreáticas para dentro do pâncreas e tecidos circundantes provocando a necrose ou auto-digestão do pâncreas, causando hemorragia ✓ Hipotensão ✓ Oligúria ✓ Dispnéia ✓ Hemorragia ✓ Choque ✓ Morte Tratamento clínico ou cirúrgico pode levar semanas ou meses REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais CHO PTN LIP REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais • Poliméricas: os macronutrientes apresentam-se intactos. Mais fisiológica. Melhor tolerada pelo estômago. • Oligoméricas ou semi elementares: os macronutrientes apresentam-se parcialmente hidrolisados. Melhor tolerada pelo intestino. • Elementares: os macronutrientes apresentam-se totalmente hidrolisados. REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais Classificação das fórmulas segundo valor de osmolalidade da solução Classificação Valor (mOsm/ kg de água) Hipotônica 280 a 300 Isotônica 300 a 350 Levemente Hipertônica 350 a 550 Hipertônica 550 a 750 Acentuadamente hipertônica > 750 Terapia nutricional na pancreatite aguda • Sintomas → ingestão alimentar insuficiente → risco nutricional • PA leve: manter alimentação via oral conforme tolerância • PA grave: jejum até a ressuscitação completa (geralmente 48h) → iniciar alimentação via oral ou sonda enteral • Quando via oral suspensa → iniciar TNE assim que a dor diminuir Terapia nutricional na pancreatite aguda • Via de acesso: NÃO é mais recomendada sonda em posição pós pilórica, exceto em casos de obstrução no TGI superior ou dor • 1ª opção: via nasogástrica • 2ª opção: via nasojejunal (controle de dor) • Via parenteral apenas se o paciente não conseguir atingir suas recomendações por via enteral (< 60% NE por 7 dias) • Tipo de fórmula: NÃO é mais recomendada fórmula hidrolisada como rotina. Ofertar fórmula polimérica conforme tolerância. Terapia nutricional na pancreatite aguda • Evolução gradual do volume e consistência conforme tolerância • Baixo volume, alto fracionamento (6 ref. pequenas a cada 3 a 4h) • Alimentos de fácil digestão • Reintrodução da alimentação: • Dieta líquida restrita, baixo resíduo • AA e TCM na forma elementar ou semi-elementar • Evoluir consistência a cada 3-4 dias ou conforme tolerância • < 30% LIP, preferência por gorduras insaturadas • > 50% CHO (menor estímulo às enzimas pancreáticas). Terapia nutricional na pancreatite aguda grave • Repouso pancreático → jejum • Evitar jejum > 7 dias → catabolismo proteico → subnutrição → piora prognóstico da doença • Estado hipermetabólico e catabólico (80% casos) → aumento no aporte de PTN e calorias • Recomendação de energia: 25 – 35 kcal/kg peso ideal/dia • Recomendação de PTN: 1,2 - 1,5 g/Kg/dia. Terapia nutricional na pancreatite aguda – suplementação • Suplementação de enzimas pancreáticas • Glutamina (0,3-0,5 g/kg/dia) pode ser considerada via TNE ou TNP → regulação da síntese proteica e estimulante do sistema imunológico • BCAA: preferencialmente oxidados pelo músculo esquelético → pode ser considerada na PA grave. • Deficiência de Tiamina (B1) → comuns na PA (especialmente em alcoólatras) → aumento das necessidades. • Fórmulas imunomoduladoras, arginina e probióticos → NÃO recomendados (evidências insuficientes) Pancreatite crônica • Processo inflamatório lento e crônico do pâncreas • Destruição progressiva e irreversível • Alterações estruturais do pâncreas • Presença de fibrose cística (enrijecimento tecidual), fístulas e necrose • Pode haver dor crônica incapacitante • Comprometimento da função endócrinae exócrina Pancreatite crônica - etiologia • Tóxica: alcoólica (mais comum), tabaco, hiperlipidemia, hipercalcemia, insuficiência renal crónica, toxinas e medicação • Idiopática (20%) • Obstrutiva: cálculos e lesão celular com obstrução do fluxo pancreático • Genética • Autoimune • Pancreatite aguda recorrente associada a hipertrigliceridemia (>500 mg/dL) Pancreatite crônica - sintomas • Dor abdominal intensa, contínua, com duração de horas a dias, com irradiação para ombro e costas • Dor pós-prandial (15 a 30 min após alimentação) • Anorexia, Náuseas, Vômitos • Má absorção • Desnutrição • Esteatorreia • Sitofobia (medo em se alimentar) • Alterações portais, colestase e outras complicações • Redução na função endócrina → diabetes. Objetivos da Terapia: ✓ Prevenir dano posterior ao pâncreas ✓ Diminuir número de crises de inflamação aguda ✓ Aliviar dor ✓ Diminuir esteatorreia ✓ Corrigir desnutrição Terapia nutricional na pancreatite crônica Terapia nutricional na pancreatite crônica Desnutrição Energético-Proteica Comum na fase terminal Principais causas: • Diminuição da ingestão alimentar • Aumento da atividade metabólica (maior em 30 a 50%) • Má-absorção de macro e micronutrientes • Dor abdominal pós-prandial • Diabetes • Abuso contínuo do álcool Terapia nutricional na pancreatite crônica DIETA: ✓ Hipercalórica: 25-35 kcal/kg/dia (priorizar glicose) ✓ Hiperproteica (1,0 - 1,5 g/kg) ✓ Hipolipídica (< 20% VET) ➢ Lipídios intravenosos podem ser usados → até 1,5g/kg ➢ TCM para esteatorreia grave (30 a 40g/dia) → máx.15g/refeição ✓ Pequeno volume e Alto fracionamento ✓ Pobre em fibras (motilidade intestinal?). ✓ Suplementação com fórmulas enterais por via oral Terapia nutricional na pancreatite crônica • Se hiperglicemia persistente + queda na produção de insulina → adotar recomendações para diabetes (medicamentosa + alimentar) • Se insuficiência pancreática endógena → usar insulina • Não se deve fazer restrições rigorosas aos CHO, é preferível controlar a hiperglicemia com insulina; • NP → INDICADA nas situações mais graves Terapia nutricional na pancreatite crônica ✓ +80% pacientes: alimentação normal + enzimas pancreáticas ✓ Medicamentos: administração de enzimas pancreáticas (lipase e protease), analgésicos, hipoglicemiantes, bloqueadores da acidez gástrica ✓ Abordagens cirúrgicas: operações de descompressão e drenagem, ressecções pancreáticas e procedimentos de denervação do pâncreas • Doença genética • Produção de muco espesso que dificulta o funcionamento de pulmões e pâncreas Fibrose cística Fibrose cística • Entupimento de ductos pancreático e biliar → impede liberação de enzimas e digestão de nutrientes • Maior necessidade energética e proteica → respiração dificultada e absorção prejudicada • Sudorese aumentada → Perda de eletrólitos • Função endócrina afetada: diabetes e hiperglicemia Terapia nutricional na fibrose cística Objetivos da dietoterapia: ✓ Promoção de crescimento e desenvolvimento adequado ✓ Manutenção de peso corporal e IMC adequados ✓ Aumento da forca muscular ✓ Melhora da qualidade de vida ✓ Aumento da sobrevida ✓ Dieta hipercalórica e hiperproteica ✓ Uso de enzimas digestivas ✓ Dieta hipolipídica nem sempre é possível: suprimento energético importante (35 - 40% VET) → Uso de TCM quando necessário ✓ Cuidado com aporte de CHO: DM frequente em FC ✓ Suplementos orais e TNE devem ser considerados ✓ Modificação para uma dieta rica em gordura pode ser necessária → otimizar o estado nutricional Terapia nutricional na fibrose cística ✓ Dieta fracionada + TNE noturna: estratégia para aumento do aporte nutricional e recuperação do estado nutricional ✓ TNP: última escolha ✓ Avaliar perdas de eletrólitos ✓ Dieta normossódica + suplementação de sódio (se necessário) ✓ Atenção ao consumo de alimentos fontes de Ca e Vit D → densidade mineral baixa é comum na FC ✓ Monitoramento dos níveis de vitaminas e de AG essenciais: deficiência comum → suplementação pode ser necessária Terapia nutricional na fibrose cística Objetivos: ✓ Inibir atividade enzimática e secreções → repouso do órgão e redução de dor ✓ Evitar irritantes pancreáticos (álcool) ✓ Corrigir desidratação, má absorção e desnutrição ✓ Casos crônicos: aliviar esteatorréia e má-digestão secundários ✓ Evitar ou controlar complicações ✓ Evitar atrofia intestinal, crescimento bacteriano, alteração em permeabilidade intestinal e translocação bacteriana (contribuintes para quadro de infecção e pior prognóstico da doença). RESUMO: Terapia nutricional nas doenças pancreáticas Slide 54: Patologia das glândulas anexas Slide 55: Pancreatopatias Slide 56: Pâncreas Slide 57: Pâncreas Slide 58: Pâncreas Slide 59: Pâncreas Slide 60: Pâncreas Slide 61: Mecanismos fisiopatológicos das doenças pancreáticas Slide 62: Pancreatite Slide 63: Etiologia da pancreatite Slide 64: Marcadores da pancreatite Slide 65: Pancreatite aguda Slide 66: Pancreatite aguda - sintomas Slide 67: Pancreatite aguda - etiologia Slide 68: Pancreatite aguda Slide 69: Pancreatite aguda grave Slide 70: REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais Slide 71: REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais Slide 72: REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais Slide 73: REVISÃO: vias de acesso e tipos de fórmulas enterais Slide 74: Terapia nutricional na pancreatite aguda Slide 75: Terapia nutricional na pancreatite aguda Slide 76: Terapia nutricional na pancreatite aguda Slide 77: Terapia nutricional na pancreatite aguda grave Slide 78: Terapia nutricional na pancreatite aguda – suplementação Slide 79: Pancreatite crônica Slide 80: Pancreatite crônica - etiologia Slide 81: Pancreatite crônica - sintomas Slide 82 Slide 83: Terapia nutricional na pancreatite crônica Slide 84: Terapia nutricional na pancreatite crônica Slide 85: Terapia nutricional na pancreatite crônica Slide 86: Terapia nutricional na pancreatite crônica Slide 87 Slide 88 Slide 89 Slide 90 Slide 91 Slide 92