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Opinião Pública e Público Diversos Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof. Me. Fábio Alessandro Munhoz Revisão Textual: Prof.ª Me. Alessandra Fabiana Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições • Introdução; • Tipos de Comportamentos Coletivos; • A Importância dos Públicos Para as Relações Públicas ; • Conceitos e Classificações de Públicos em Relações Públicas; • Análise de Relacionamentos. · Entender sobre os diferentes conceitos de públicos existentes; · Identificar adequadamente os diversos públicos, proposição de objeti- vos, estratégias de trabalho e relacionamento específicas e coerentes. OBJETIVO DE APRENDIZADO Tipos de Comportamentos Coletivos e suas Defi nições Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições Introdução Nesta unidade iremos falar sobre a razão de existir do trabalho das Relações Públicas: as pessoas. Sendo mais específico, iremos falar sobre o comportamento das pessoas quando estão junto de outras pessoas, ou seja, seu comportamento coletivo. Afinal, boa parte do nosso trabalho está voltado para a construção e a gestão dos relacionamentos com esses diferentes grupos de diferentes pessoas. Num primeiro momento, trataremos sobre os tipos de comportamentos coletivos que as pessoas assumem. Na sequência, ressaltaremos a importância para as Relações Públicas de se trabalhar com um tipo específico desses comportamentos, que é a condição de público. A partir daí apresentaremos alguns modos de se classificar esses públicos em nossa profissão. E por fim, falaremos sobre algumas maneiras de analisar os relacionamentos com esses públicos. Vamos lá? 8 9 Tipos de Comportamentos Coletivos Todos nós, no dia-a-dia de nossas vidas sociais, acabamos assumindo comporta- mentos coletivos que desde há muito tempo interessam aos cientistas e aos pensa- dores sociais. Entre outras razões, esse interesse dos cientistas e dos pensadores, também, existe por que os coletivos de pessoas acabam por constituir estruturas de poder. Todos aqui já devem ter ouvido a expressão popular “a união faz a força”. O que essa expressão quer dizer é que a união de pessoas é mais potente que as pessoas isoladamente, ou seja, o coletivo é mais forte que o indivíduo. É por isso, portanto, que filósofos, sociólogos, cientistas políticos, psicólogos, comu- nicólogos, entre outros vêm dedicando estudos para entender tais comportamentos. Claro que os resultados de cada estudo acabam apontando para as áreas de interesse dos cientistas e dos pensadores, de tal forma que temos muitos e diversos entendimentos sobre esses comportamentos. Desse modo, tentaremos fazer um resumo de tais interpretações, direcionando- -as para aquilo que mais nos interessa neste curso. Nesse sentido, o primeiro passo é buscar entender as diferenças específicas entre cada um dos três comportamentos coletivos existentes: massa, público e multidão. Massa Imaginem a seguinte situação: final do campeonato de futebol, milhões de pessoas espalhadas pelo país assistindo ao jogo decisivo através de televisores. São pessoas de todos os tipos, classes sociais, condições financeiras, níveis de escolaridade, moradores de todos os cantos. A interação entre esses milhões de pessoas é mínima. Não existe qualquer tipo de coordenação ou de liderança. A única coisa que une essas pessoas é sua atenção voltada para a partida de futebol naquele instante. Todas vibrando ou sofrendo a cada lance disputado à sua frente, na tela da TV. Figura 1 Fonte: iStock/Getty Images Acredito que todos nós, mesmo os que detestam futebol, já devem ter vivido ou presenciado uma situação como a descrita acima. 9 UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições Imaginem também um espetáculo reunindo milhares de pessoas nas ruas ou nas praças da cidade. As diferentes pessoas divertindo-se, prestando atenção e reagin- do a cada estímulo dos protagonistas do evento. Figura 2 Fonte: iStock/Getty Images Essa é uma cena que todos nós também já devemos ter visto ou experimentado. O que há em comum entre elas é o fato de serem típicos exemplos de comportamentos coletivos de massa. “A massa, sendo composta por indivíduos pertencentes a uma ampla va- riedade de grupos locais e culturas diferentes, significa que não está presa às características de sociedade ou comunidade. É, assim, um grupo es- pontâneo, formado por indivíduos que estão separados, porém homogê- neos quanto à sua conduta como parte da massa. São, assim, indivíduos anônimos que não estão habilitados a comunicar-se entre si, exceto por meios limitados e imperfeitos. (...) pode-se observar ainda que a massa é frouxamente organizada e não está habilitada a agir com a concordância e a unidade (...).” (ANDRADE, 1993) Assim, há algumas características nesses casos que nos ajudam a identificar a condição de massa: • Coletivo de pessoas muito heterogêneo, ou seja, formado por indivíduos muito diferentes entre si; • Baixa interação e comunicação entre as pessoas participantes, o que resulta em ausência de uma liderança ou uma coordenação surgida do coletivo; • Elemento único que conecta as pessoas e sua atenção ao fato ou ao evento; e este fato ou evento é que de alguma forma conduz o comportamento das pessoas. Nesse sentido, são os protagonistas do espetáculo, do jogo ou do comício que acabam tendo liderança sobre as pessoas que formam sua plateia. Ao pensar sobre essas características fica fácil entender por que a condição de massa interessa tanto àqueles que estudam Política e as relações de poder. Afinal, como podemos perceber, a massa surge como uma condição muito favorável ao processo de manipulação de um grande número de pessoas. 10 11 “A massa, com sua inegável importância no mundo moderno, constitui matéria-prima por excelência dos grupos de interesse que pretendem controlar todas as atividades humanas. Por meio desse meio excepcional que é a propaganda, as massas são conduzidas ingenuamente para a satisfação dos apetites dos poderosos, na certeza de que estão atendendo suas próprias reinvindicações e aspirações.” (ANDRADE, 1993) Figura 3 – Outubro de 1938, o líder nazista AdolfHitler sendo saudado pela população. O nazismo alemão é um dos clássicos exemplos de utilização da propaganda através dos Meios de Comunicação de Massa para manipulação massiva Fonte: Wikimedia Commons É nesse contexto, por exemplo, que surgem os estudos sobre os Meios de Co- municação de Massa, que se voltam para a pesquisa sobre como as tecnologias midiáticas – principalmente o cinema, o rádio e a televisão, no século XX – acabam colaborando para a hegemonia de regimes políticos. Sobre isso, falaremos um pou- co mais adiante, em outra unidade. Público A palavra público é muito utilizada para nomear diferentes situações em que há pessoas reunidas. Por exemplo, é muito comum vermos as pessoas se referindo à plateia de um espetáculo ou de um jogo de futebol como sendo o público desses eventos, ainda que, como vimos anteriormente, essas sejam situações nas quais podemos identificar um comportamento típico de massa. Para caracterizarmos a condição de público da forma como ela nos interessa, podemos pensar em uma reunião ou em um debate ou em uma aula ou ainda em um encontro de consumidores de determinada marca ou produto, por exemplo. 11 UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições Figura 4 Fonte: iStock/Getty Images “A presença de uma controvérsia, a oportunidade de discussão e o apa- recimento de uma decisão ou de opinião coletivas marcam as característi- cas do agrupamento elementar chamado de público. Em outras palavras, público são pessoas ou grupos organizados de pessoas, à base de consi- derações racionais, sem dependência de contatos físicos, encarando uma controvérsia, com ideias divididas quanto à solução ou a medidas a serem tomadas frente a ela; com oportunidade para discuti-la, acompanhando e participando do debate por intermédio dos veículos de comunicação ou da interação social.” (ANDRADE, 1993) Em todas essas situações, podemos identificar elementos que nos ajudam a com- preender o comportamento coletivo típico de um público: • Grupo de pessoas muito mais homogêneo que a massa, ou seja, há muitas características comuns entre os indivíduos. Por exemplo, moradores de um mesmo condomínio, estudantes de uma mesma faculdade, empregados de uma mesma empresa, clientes de uma mesma marca, etc; • Encontro das pessoas é motivado por uma questão ou por um problema comum entre elas. Por exemplo, debater o orçamento do condomínio, aprender sobre Públicos e Opinião Pública, discutir sobre novos procedimentos da empresa, reclamar sobre a qualidade de um determinado produto ou serviço; • Dinâmica desse encontro é um debate de ideias, em que as pessoas argumen- tam e contra argumentam, sempre de forma a valorizar as razões de cada um. E o resultado é um consenso ou uma opinião sobre como agir frente à questão ou ao problema comum. Percebemos, dessa forma, que o diálogo e a troca de ideias são fundamentais para a condição de público; e é por esta razão que nos interessa trabalhar com públicos em Relações Públicas: é o comportamento coletivo em que o diálogo é possível. 12 13 Multidão Assim como acontece com a palavra público, a palavra multidão também é utili- zada em diversos casos em que muitas pessoas se encontram reunidas. E, da mes- ma forma que acontece com a palavra público, nem sempre a expressão multidão se refere exatamente àquilo que melhor a define. Para caracterizar o comportamento de multidão podemos utilizar os mesmos exemplos que utilizamos para caracterizar o comportamento de público: a reunião, o debate, a aula e o encontro. Entretanto, imaginemos que em algum momento dessas situações, algo ou alguém crie uma condição na qual os ânimos se exaltem: o bate-boca substitui o diálogo e as razões são trocadas por sentimentos e por emoções. Neste momento, o público transforma-se em multidão, ou seja, a única diferença entre o comportamento de público e o de multidão é a predominância do diálogo e da razão no público; e da exaltação e emoção na multidão. Assim, ao invés de construir uma opinião, a multidão constrói sentimentos. Figura 5 Fonte: iStock/Getty Images Percebam que isso é muito comum! Tenho certeza de que todos já experimen- tamos essas situações nas quais o debate foi substituído pelo bate-boca e a razão foi superada pelos sentimentos (ou ressentimentos). Aquele encontro da família que termina em confusão, a reunião de condomínio que se transforma em bate- -boca generalizado, os encontros da equipe de trabalho que descambam para as trocas de acusações: todos os exemplos em que começamos com um comporta- mento típico de público e terminamos com um típico de multidão. Para nós, que estudamos e trabalhamos com Relações Públicas, isso é extrema- mente importante, pois uma ação mal elaborada ou mal executada pode resultar no famoso ‘tiro pela culatra’. Dessa forma, pode sair tudo ao contrário do que se esperava: nossos públicos podem se exaltar e substituir o diálogo produtivo pela destemperança que não raramente resulta em crises. Não faltam casos assim. 13 UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições Por fim, é importante destacarmos que quando estamos falando de público, multidão e massa não estamos tratando de conceitos que se apresentam de forma “pura” e “encaixotada”. Estamos tratando de estados transitórios de nossa existência social que se sobrepõem e coexistem nas mais diferentes situações. Portanto, quando apresentamos os exemplos de público, multidão e massa, o fazemos de uma forma simplificada para facilitar seu entendimento, mas sem a pretensão de tomá-los como exemplos “puros” de cada comportamento. Quando utilizamos a partida de futebol para caracterizar a condição de massa, isso significa que nessa situação a massa prevalece, o que não quer dizer que nessa mesma situação não encontremos públicos debatendo a partida ou multidões se entregando às paixões. Entendido? Então vamos falar um pouco mais sobre a importância dos públicos para nosso trabalho?! A Importância dos Públicos para as Relações Públicas Quando vamos buscar diferentes autores que trabalham sobre a definição de Relações Públicas fica fácil perceber que trabalhar com públicos é essencial para nossa atividade. O patrono das Relações Públicas no Brasil, Cândido Teobaldo, é citado pelo Prof. Fábio França ao lembrar que: “Mesmo o ‘guru’ do marketing, Philip Kotler, reconhece a importância das Re- lações Públicas para o trabalho com os diferentes públicos: “(…) um público pode facilitar ou impedir a capacidade de uma empresa para atingir seus objetivos. Relações Públicas têm sido frequentemente tratadas, em marketing, como uma atividade com uma importância secundária ao planejamento mais sério de promoção, mas a empresa sensata toma medidas concretas para administrar relações de sucesso com seus públicos-chave.” (KOTLER, 2000) Caso você ainda não tenha lido, recomendo fortemente que leia o livro indicado abaixo. Ele certamente ajudará você a entender mais e melhor sobre nosso trabalho em Relações Públicas:ANDRADE, Cândido Teobaldo de Souza. Para entender relações públicas. 4. ed. São Paulo: Loyola, 1993. Ex pl or 14 15 Como já dissemos anteriormente, é somente diante do comportamento de público que o diálogo se torna possível. E a partir daí é possível compreender nossos públicos, saber quais são suas expectativas, descobrir quais são as me- lhores formas de construirmos nossos relacionamentos com eles. Dessa forma é que conseguimos fazer uma análise dos públicos que são estraté- gicos para nós, chegar a um diagnóstico sobre o relacionamento com esses públi- cos e, finalmente, propor ações estrategicamente pensadas. Conceitos e Classifi cações de Públicos em Relações Públicas Para facilitar o processo de análise dos públicos e a construção de diagnósticos de relacionamentos, vários pesquisadores e profissionais de Relações Públicas e de outras áreas que também têm os relacionamentos no foco do trabalho vêm desenvolvendo modelos analíticos que nos ajudam nesseprocesso. Independente do modelo utilizado, o ponto de partida é a identificação dos públicos. Identificamos todos, mas não necessariamente trabalhamos com todos: por uma questão de prioridade, que valorize os mais importantes diante do tempo e dos recursos disponíveis, normalmente trabalhamos apenas parte dos chamados públicos estratégicos. A prof.ª Margarida Kunsch afirma: “No contexto do planejamento, faz-se inicialmente um mapeamento de todos os públicos existentes, levando em consideração também o nível e o grau maior ou menor de relacionamento com a organização. De posse desses dados, haverá condições de determinar quais os públicos prioritá- rios para um trabalho imediato de relações públicas, propondo-se, assim, estudá-los e realizar o planejamento.” (KUNSCH, 2003) Públicos estratégicos são aqueles públicos que influenciam e são influenciados por nossos clientes – empresas, organizações, governos, pessoas, etc. para as quais prestamos nossos serviços de RP. Um outro conceito muito utilizado, quando estamos falando de públicos estra- tégicos, é o conceito de stakeholders. Criado por Robert Edward Freeman, em 1984, diz respeito a: “(…) pessoas ou grupos “lincados” a uma organização, porque entre as duas partes há interesses recíprocos e ambos se afetam mutuamente. Os empregados, fornecedores, acionistas, consumidores, poder públi- cos, as empresas competidoras, a mídia, os grupos ambientalistas, in- vestidores, clientes, entre outros, podem ser considerados stakeholders ou públicos estratégicos, porque eles e a organização têm influência mútua. Cada organização necessita e deve sempre identificar e descobrir quais são os seus públicos estratégicos.” (KUNSCH, 2003) 15 UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições Uma vez identificados esses públicos estratégicos, partimos para a aplicação de modelos de classificação e de análise que nos ajudam a chegar ao diagnóstico de relacionamento do nosso cliente com os seus públicos. Talvez o modelo mais conhecido seja aquela tradicional divisão dos públicos em internos e externos. Alguns autores falam em públicos internos, externos e mistos. Apesar de ainda ser bastante utilizada, trata-se de uma forma bastante rudimentar de classificar os públicos e que carrega consigo uma série de contradições que muitas vezes não dão conta de entender a complexidade das relações atuais. Para a Prof.ª Kunsch, trata-se de uma concepção ultrapassada, com divergências sobre a abrangência de cada uma das categorias e “insuficiente para caracterizar o tipo de poder na relação público-organização” (2003, p. 330). Por exemplo, um trabalhador terceirizado deve ser classificado com público interno, externo ou misto? Perceba que qualquer resposta que você dê a essa pergunta pode ser coerentemente justificada, fazendo com que surjam divergências que obviamente atrapalham e enfraquecem as possíveis análises. Dentro do campo das Relações Públicas, alguns pesquisadores propõem modelos de classificação mais específicos para o nosso trabalho. Façam uma pesquisa com o objetivo de descobrir artigos acadêmicos que apresentem os modelos de classificação de públicos desenvolvidos por Lucien Matrat, Marcelo Manucci e Ronald Smith. Leia os artigos e tente identificar os critérios de classificação utilizados em cada um dos modelos. Ex pl or Gostaríamos de destacar dois modelos. O primeiro é o modelo Situacional, de James Grunig e Todd Hunt. Nele, os pes- quisadores consideram que é importante levar em conta qual a atual situação dos públicos identificados em relação ao nosso cliente. Isso significa dizer que um deter- minado público que consideramos estratégico pode, neste exato momento, estar em uma situação na qual ele não se encontra organizado ou ativo. Daí a proposta dos pesquisadores de analisar a situação dos públicos em uma “escala” de 4 degraus: não- -públicos, públicos latentes, públicos informados (ou conscientes) e públicos ativos. “Formam-se públicos ‘quando pessoas, que enfrentam questões similares, reconhecem que um problema existe e se organizam para fazer algo a respeito. Se não há assunto comum para conectar pessoas de alguma forma, tais pessoas não formam um público (são não-público). Quando pessoas enfrentam um tema comum, mas falham em reconhecê-lo, elas são, então, um público latente, um problema potencial em Relações Públicas pode acontecer. Uma vez que se identificam e têm uma questão comum, elas se tornam público informado. Quando se organizam para fazer algo a respeito de um assunto, se tornam públicos ativos’.” (FORTES, 2003) 16 17 Teoria Situacional de Grunig e Hunt é bastante útil para nos fazer pensar em nossas prioridades de trabalho e, também, nos alertar sobre as possibilidades de identificar situações nas quais um grupo de pessoas que ainda é um não-público ou público latente tem potencial para se transformar em público ativo, prevenindo, em muitos casos, situações de crise. O outro modelo que gostaríamos de destacar é o da Conceituação Lógica, do pesquisador brasileiro Prof. Fábio França. Nele, o Prof. França (2012) propõe alguns aspectos fundamentais para construção da análise do relacionamento com os públicos: • Tipo e objetivo da relação; • Grau de dependência, participação e interferência entre público e organização; • Natureza da relação, sua prioridade, temporalidade e expectativas. Na conceituação lógica, a análise da dependência, da participação e da interfe- rência entre públicos e organizações geram 11 tipos diferentes de públicos: • Dependência jurídica ou situacional da organização. » Públicos Essenciais: · Constitutivos, por exemplo, acionistas e instituições governamentais. · Não Constitutivos: » Primários, por exemplo, empregados e clientes; » Secundários, por exemplo, terceirizados. • Participação maior ou menor nos negócios da organização. » Públicos Não Essenciais: · Consultorias e assessorias; · Associações; · Sindicatos; · Comunidades. • Interferência dos públicos sobre a organização e seus negócios. » Redes de Interferência: · Concorrência; · Mídia; · Ativistas; · Redes ideológicas. Essa classificação surge como um primeiro passo na direção de um estudo detalhado sobre as relações que as organizações mantêm com seus públicos. Outras variáveis estudadas podem ser: 17 UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições • Tipo de relacionamento: social, comercial/negócios, legal, político, opera- cional, parceria, etc; • Nível de envolvimento: permanente, frequente, ocasional, inexistente; • Descrição do relacionamento/envolvimento; • Perfil do público; • Objetivos da organização; • Expectativas dos públicos. Vamos tomar como exemplo o público “empregados” de uma determi- nada organização: • Classificação – essencial não constitutivo primário; • Tipo de relação – operacional, social e legal; • Nível de envolvimento – frequente; • Expectativas do público – bons salários e benefícios, respeito às individuali- dades, bom ambiente de trabalho; • Objetivos da organização – alta produtividade, cumprimento das obrigações profissionais, respeito à cultura organizacional. E poderíamos ainda elaborar um perfil minucioso desse público e fazer uma descrição precisa de como funciona esse relacionamento, atualmente, listando in- clusive os principais canais de comunicação que são utilizados. Percebam que ao fazermos isso, para cada um dos públicos identificados, tere- mos uma primeira radiografia bastante detalhada dos públicos e de suas relações com a organização. Para entender em detalhes a Conceituação Lógica e conseguir visualizar como ela pode ser útil para nós, é fundamental que você leia o livro do Prof. Fábio França. Trata-se de uma leitura muito tranquila e repleta de bons exemplos: FRANÇA, Fábio. Públicos: como identificá-los em nova visão estratégica. 3. ed. São Caetano do Sul (SP): Yendis, 2012. Ex pl or Além desses modelos, há diversos outros voltados para análise de stakeholders.Desses, também destacamos dois modelos. O modelo de Mitchell leva em conta as variáveis de poder, de legitimidade e de urgência dos stakeholders, gerando, a partir de seu cruzamento, 7 (sete) diferentes tipos de públicos a serem trabalhados. Cada tipo com características específicas que nos ajudam na análise dos relacionamentos. Já o modelo de Savage é uma matriz em que são cruzados o ‘Potencial dos stakeholders em Colaborar com a organização’ e o ‘Potencial dos stakeholders em ameaçar a organização’, gerando 4 (quatro) tipos possíveis de comportamentos dos públicos. 18 19 Há um artigo chamado “O Papel dos Stakeholders na Sustentabilidade da Empresa: Contribuições para Construção de um Modelo de Análise”, dos autores Mariana Lyra, Ricardo Gomes e Laércio Jacovine. Nele, podemos ver um estudo de caso em que tanto o modelo de Mitchell, quanto o de Savage são aplicados e utilizados na análise dos relacionamentos de uma empresa. Não deixe de ler! Para entender os modelos de Mitchell e de Savage, leiam o artigo “O Papel dos Stakeholders na Sustentabilidade da Empresa: Contribuições para Construção de um Modelo de Análise”, de Mariana Lyra, Ricardo Gomes e Laércio Jacovine. Link para o artigo: https://goo.gl/Mtvc1c. Ex pl or Na prática, dependendo da situação, devemos buscar o modelo mais adequado. Por exemplo, se o meu cliente for uma banda de rock, talvez o melhor modelo para ser utilizado seja o de Savage e, certamente, o modelo da Conceituação Lógica seja o mais inadequado. Cabe a nós conhecer os modelos e sua aplicabilidade e ter sabedoria ao escolhê-los. E aqui só o estudo e a experiência podem nos ajudar! O que não podemos perder de vista é o fato de que esses modelos devem servir para nos ajudar a elaborar a análise dos públicos. Se ao invés de ajudar, eles atra- palham, alguma coisa está errada. Os modelos nos fornecem uma “receita” que deve servir como base, a partir da qual fazemos nossas adaptações para melhor se ajustarem às nossas realidades do momento. E, se for o caso, podemos e devemos pensar em “receitas” ou modelos que sejam exclusivos para atender nossas neces- sidades e especificidades. Análise de Relacionamentos Em boa parte dos modelos, já há a indicação sobre variáveis importantes de serem estudadas e pesquisadas em relação aos nossos públicos estratégicos. Como já vimos, o modelo da Conceituação Lógica, do Prof. Fábio França, por exemplo, aponta para a necessidade de se detalhar e de analisar elementos como: tipo de relação; frequência da relação; objetivo da relação; expectativas do público; entre outros. Mas, também, podemos nos debruçar sobre outros pontos que sejam relevantes para o trabalho que estamos realizando. Algumas variáveis que comumente são estudadas quando fazemos análises de relacionamentos: • Natureza dos fluxos comunicativos: formais ou informais; • Perfil dos públicos; • Mapa das redes de relacionamento; • Ações de comunicação dirigida que são utilizadas para gerir o relacionamento. 19 UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições “É preciso atentar para a identificação dos públicos e para a significação dos interesses em jogo como prioridade no processo de comunicação e de relações públicas. Cumpre ressaltar que a relação deve ser simétrica, isto é, não basta a empresa defender seus interesses em relação aos públicos, ela deve também analisar os interesses dos públicos que interagem com ela, aspecto comumente ignorado. Levar em conta as expectativas dos públicos é tão fundamental quanto classificá-los.” (FRANÇA, 2012) Independente do modelo que utilizemos, os dados e as informações não vão “cair do céu”. É preciso realizar pesquisas para chegarmos às informações que precisamos. Por exemplo, uma pesquisa de opinião associada a uma pesquisa etnográfica, certamente auxiliará a definir as expectativas dos públicos, assim como traçar a descrição do relacionamento existente. Um grupo focal ou as entrevistas com pessoas chave da organização podem ajudar a definir os objetivos da organização junto à determinado público. Pesquisa etnográfica? Grupo focal? Vamos dar uma pesquisada na Wikipedia para descobrir: • Pesquisa etnográfica – https://goo.gl/sJ3d5s • Grupo focal – https://goo.gl/qzcc1y Pesquisa de opinião – calma, vamos falar sobre isso em outra unidade! Ex pl or Uma vez que tenhamos em nossas mãos as informações necessárias, devemos partir para a construção do diagnóstico de relacionamento. Para entender melhor esse momento, podemos fazer uma comparação com a medicina e que todos aqui já devem ter experimentado. Quando você vai ao médico, antes de dizer qual a sua situação – ou seja, dar o seu diagnóstico – ele, o médico, faz um levantamento de informações: faz perguntas (sobre o que dói, quando começou a doer, se fez ou comeu algo que levou a essa dor, se tomou algum medicamento, etc.), examina seu corpo, pede exames – é como nós, fazendo as pesquisas, as entrevistas, a identificação dos públicos, etc. Somente com essas informações em mãos, mais o conhecimento que ele tem, a partir de sua formação médica e de sua experiência acumulada, é que ele vai definir qual o seu diagnóstico: uma infecção, uma intoxicação, etc. E o mesmo acontece com o nosso trabalho, pois é com base nas informações, na nossa formação e na experiência que vamos dizer qual o diagnóstico de relacionamento do nosso cliente. E da mesma forma como o médico receita os remédios e os tratamentos, a partir do seu diagnóstico, nós vamos dizer quais ações precisam ser tomadas pelo cliente, a partir do nosso diagnóstico. E não é preciso dizer que quando um médico não olha para sua cara, não pede exames e mal interage, você obviamente desconfia do seu diagnóstico: “é uma virose, tome um xarope”. Com o nosso trabalho é a mesma coisa, afinal se você mal conhece 20 21 os públicos de seu cliente, como pode gerar um diagnóstico confiável? O diagnóstico é o resultado da qualidade e da profundidade das informações levantadas, somadas com o nosso conhecimento e a nossa experiência. Por fim, para tentar exemplificar, trago um pequeno trecho de um diagnóstico que eu e alguns alunos fizemos para uma organização cultural de São Paulo em 2017. No trecho, tratamos especificamente do relacionamento da organização com seus empregados. Vejam como ficou: “Já no que diz respeito à comunicação interna e administrativa da orga- nização, por meio da análise da pesquisa aplicada com os colaboradores da companhia, constatamos que eles se sentem, em sua maioria, informa- dos e que os gestores costumam repassar informações às suas respectivas equipes. Além disso, foi apontado nas respostas que a maior parte dos colaboradores entende que os canais de informações disponíveis são su- ficientes para suas necessidades. Ademais, quando questionados sobre os canais através dos quais mais obtêm informações no ambiente de trabalho, os colaboradores indicaram as redes sociais, o e-mail e os gestores, respec- tivamente. E, sobre os canais pelos quais os colaboradores mais recebem informações sobre a organização, foram destacados o e-mail, os quadros de avisos e os colegas de trabalho, o que demonstra a efetivação de uma comunicação mais tradicional e clássica internamente. Também identificamos, por meio das respostas dos colaboradores, que os veículos através dos quais eles seriam mais beneficiados para recebimento de informações sobre a organização seriam os próprios e-mails e as publicações de mais informações em áreas de trabalho comuns, como através do quadro de avisos, o que demonstra a possibilidade de aprimoramento das divulgações realizadas através de tais veículos, para que sejam mais atrativas e dinâmicas. Outro ponto a ser citado nesse sentido é que os colaboradores mencionaram que gostariam de receber mais notícias sobre o universo da dança e informações que são divulgadas sobre a organização na mídia, bem como sobre os seus projetos, o que nos levou a constatar que não há uma integraçãototal entre os departamentos, como mencionado pela área de Comunicação e Educativo durante as entrevistas iniciais, e que a comunicação interna não é efetiva, uma vez que informações básicas sobre a organização não são necessariamente compartilhadas e, se são, não transmitem as mensagens de maneira eficiente de forma com que as pessoas absorvam os conteúdos compartilhados.” (MUNHOZ, 2017) Espero que tenham aproveitado o material e que os pontos aqui trabalhados sejam úteis em sua trajetória acadêmica e profissional. Para um melhor entendimento, não deixem de explorar os livros e os artigos indicados e de assistir à videoaula, em que tentei ilustrar com mais detalhes os conceitos e os modelos estudados. Até a próxima! 21 UNIDADE Tipos de Comportamentos Coletivos e Suas Definições Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Leitura Que públicos para as Relações Públicas? https://goo.gl/eoA5Uy Relações Públicas: atividade estratégica de relacionamento e comunicação das organizações com as par- tes interessadas https://goo.gl/YrXaFi O mapeamento de públicos para a comunicação interna https://goo.gl/o9UZgQ 22 23 Referências ANDRADE, Cândido T. de Souza. Para entender Relações Públicas. 4. ed. São Paulo: Ed. Loyola, 1993. FORTES, Waldyr G. RP: processos, funções, tecnologia e estratégias. São Paulo: Summus, 2003. FRANÇA, Fábio. Públicos: como identificá-los em nova visão estratégica. SCS: Yendis Ed., 2012. KOTLER, Philip. Administração de marketing. São Paulo: Prentice Hall, 2000. KUNSCH, Margarida M. K. Planejamento de relações públicas na comunicação integrada. 4. ed. São Paulo: Summus, 2003. MUNHOZ, Fábio. et al. Plano de Relações Públicas para a SPCD. São Paulo: Fapcom, 2017. 23