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LEITURA E ESCRITA MUSICAL AULA 6 Prof. Alysson Siqueira 2 CONVERSA INICIAL Prezado(a) leitor(a), o desenvolvimento da leitura musical é um processo que demanda treino contínuo e, por isso mesmo, sua prática é essencial para a apreensão do conteúdo. Muitas vezes, esse treino acontecerá na prática, em ensaios de corais ou grupos instrumentais, por exemplo. Mas o treino dirigido tende sempre a apresentar resultados efetivos e em prazo menor. Por essa razão, nossa última etapa será essencialmente prática, e nós iremos realizar esses exercícios juntos, para que você possa também definir suas próprias práticas de leitura. Então, olho nas partituras contidas no texto, ouvidos afiados e vamos solfejar juntos! TEMA 1 – PRESSUPOSTOS PARA UMA LEITURA MUSICAL EFICIENTE Os processos neurológicos envolvidos na leitura musical são objeto de estudo da área de cognição musical. Nesta etapa, abordaremos objetivamente alguns desses conceitos, com a finalidade de otimizar nossas práticas da leitura musical. Começaremos pelo pesquisador norte-americano Edwin Gordon. Para ele, o aprendizado de leitura e escrita musical pode acontecer por meio de dois sistemas distintos: Em síntese, podemos admitir que Gordon contempla dois sistemas ou maneiras de se aprender música, que devem ser trabalhados a partir de uma estrutura sequencial e progressiva de conteúdos programáticos: o sistema por discriminação (onde os alunos imitam e comparam) e o sistema por inferência (onde os alunos descobrem soluções próprias para atividades musicais) (grifos do autor). (Risarto; Lima, 2010) O sistema por discriminação se divide em cinco níveis. O primeiro, aural/oral, distingue os padrões rítmicos e melódicos verificados na primeira audição e confirmados na repetição. Já no segundo, acontece a representação auditiva, por meio de sílabas ou também por meio do nome de notas. Chamado de síntese parcial, no terceiro nível acontece o discernimento oral das tonalidades e a identificação dos compassos — se binários, ternários ou quaternários. A associação simbólica é o quarto nível, quando se inicia o processo de leitura e escrita. E, finalmente, no quinto nível, acontece a síntese composta, quando é então possível perceber a audiação. “Audiação é a tradução de audiation, termo criado por Edwin Gordon em 1980, que consiste na 3 capacidade de ouvir e compreender musicalmente o som, quando ele não está fisicamente presente” (Caspurro, 2007, p. 6). Em outras palavras, ao visualizar determinado padrão melódico ou rítmico em partitura, a audiação compreende em já se saber como aqueles símbolos irão soar musicalmente. Muitas vezes, o aprendizado de leitura e escrita musical se dá por dedução. Essa situação ocorre quando o músico primeiro domina as técnicas do instrumento e, quando finalmente tem acesso aos aspectos teóricos, consegue compreendê-los e aplicá-los à prática musical. Para agilizar e antecipar o entendimento do texto musical, é essencial reconhecer determinados padrões rítmicos e melódicos. Esse reconhecimento e previsionamento de uma estrutura mínima é chamado de chuncking: no caso da música, não se leem notas, mas pequenos motivos: esses motivos vão formando as frases musicais que poderiam ser consideradas uma unidade para o leitor. O termo frequentemente utilizado para isso em inglês é “chuncking”. Estas unidades em música podem ser uma escala, um acorde, ou blocos harmônicos, reconhecidos como padrões musicais. (Risarto; Lima, 2010) A natureza do material musical é outro elemento fundamental no processo de leitura, já que a forma como a partitura é apresentada, geralmente ligada às características do instrumento, interfere no comportamento ocular. Considera-se que uma música com progressões harmônicas e melodia simples utiliza menos pontos de fixação do que outra com menor previsibilidade do ponto de vista melódico-harmônico. O sistema de notação atual permite representações musicalmente simples, mas espacialmente ou visualmente complexas. Há quatro possibilidades em ordem crescente de dificuldade. São elas: musical e visualmente simples; musicalmente simples e visualmente complexa; musicalmente complexa e visualmente simples; musical e visualmente complexa. Todas elas são demonstradas na figura. Figura 1 – Complexidade musical e visual 4 A percepção de maior ou menor complexidade também varia conforme o nível de experiência do musicista. A memória também é um desses elementos fundamentais. Em resumo, a memória sensorial é responsável pela percepção inicial e pela decodificação das informações por meio de estímulos, que podem ser auditivos, visuais, entre outros. Já a memória de curto prazo, ou de trabalho, é aquela que armazena temporariamente a informação captada de uma atenção seletiva, que escolheu parte do estímulo. No futuro, a informação será descartada ou armazenada na memória de longo prazo, que também tem longo, porém limitado tempo de armazenamento. Existe ainda a memória episódica, relacionada a acontecimentos, eventos e datas; a semântica, que armazena a base conceitual do indivíduo; e a processual, que ajuda o indivíduo a arquivar informações sobre o modo de se fazer e que guarda as técnicas musicais de tocar e cantar. É possível detectar alguns desses processos mnemônicos na leitura musical. A memória de curto prazo é acionada para tocar os motivos que se repetem na execução de uma peça. Já a memória de longo prazo recupera a informação sobre os símbolos musicais e a técnica de execução Durante a execução de uma peça, utilizamos a memória de curto prazo para os elementos, como os motivos, que se repetem ao longo dela. Ao mesmo tempo, os símbolos musicais e sua técnica de execução são recuperados da memória de longo prazo e repetidos pela memória de curto prazo. Por sua vez, as novas combinações entre os signos e suas repetições são codificadas e armazenadas em forma de chunking na memória de longo prazo. TEMA 2 – EXERCÍCIOS DE LEITURA NA ESCALA MAIOR Para atingirmos a desejada audiação, ato de ouvir mentalmente a música representada por símbolos de escrita, é fundamental a prática musical reiterada. Uma das maneiras de se fazer isso é o solfejo. Solfejar significa cantar as notas musicais, falando seus nomes e associando-os às respectivas alturas. Inicia-se o solfejo abordando apenas as alturas sonoras, no próximo passo se insere o ritmo e, em seguida, associa-se ritmo e melodia. A prática do solfejo envolve entoar o nome da nota e sua altura sonora, portanto, se você tem dificuldade com afinação, é importante utilizar o apoio de 5 um instrumento musical, ao menos no princípio, para conferir as alturas das notas. Tratando-se de organização, é comum entre os métodos de solfejo apresentar os exercícios em séries, possibilitando um estudo gradual, pois só se avança à próxima série depois de dominar a atual. Em nosso método de solfejo, destinado a iniciantes, as alturas serão representadas por semibreves, mas, na prática, não será necessário cantar os quatro pulsos. Sustente apenas um pulso por nota, com um andamento mais lento. Quando a semibreve for substituída por um x, omita a nota e cante-a mentalmente. Observe que as alturas estão representadas em duas pautas, utilizando as claves de sol e de fá com uma oitava de diferença. Se você for mulher ou homem com voz aguda, siga a clave de sol. Homens com voz grave devem seguir a clave de fá. Todavia, se você toca um instrumento que utiliza a clave de fá, procure solfejar as notas da pauta inferior. Depois dessas considerações necessárias, vamos agora aos três primeiros exercícios de leitura em escalas maiores. Figura 2 – Exercício de leitura em Escalas Maiores – série 1 Essa primeira série possibilita o treinamento da leitura das alturas até o terceirograu da escala maior. Ela inicia com graus conjuntos e a partir do segundo compasso visa exercitar o salto de terça, primeiro omitindo a nota ré e, em seguida, eliminando-a. 6 Figura 3 – Exercício de leitura em Escalas Maiores – série 2 Nossa segunda série apresenta estratégia parecida com a anterior, porém, com as frases ascendentes e descendentes em posições trocadas. Figura 4 – Exercício de leitura em Escalas Maiores – série 3 Aqui apresentamos o quarto grau da escala. Ele aparece no primeiro compasso, alcançado de maneira ascendente, e no segundo compasso, já no primeiro tempo de uma sequência descendente. No terceiro compasso, as duas concepções se unem. Figura 5 – Exercício de leitura em Escalas Maiores – série 4 Aqui temos o surgimento de um elemento chamado bordadura, caracterizada pela produção de um nota, seguida por outra em grau conjunto e o retorno à primeira nota. Trata-se de uma construção melódica gerada por variação de altura de grau conjunto abaixo, dobradura inferior, ou acima, bordadura superior, da nota principal. 7 Figura 6 – Exercício de leitura em Escalas Maiores – série 5 Na série 5, já é apresentado o quinto grau da escala, da mesma maneira que se apresentou o quarto grau. Figura 7 – Exercício de leitura em Escalas Maiores – série 6 Na série 6, é inserido o sexto grau da escala, primeiro por graus conjuntos ascendentes e depois como primeira nota de uma sequência descendente. Figura 8 – Exercício de leitura em Escalas Maiores – série 7 Na série 7, propomos um treino de um salto de terça maior. O primeiro compasso elimina a nota Sol da escala por graus conjuntos. Na sequência, no segundo compasso, o salto ressurge, mas na forma descendente. Em todas essas séries, observamos padrões que podem ser utilizados para a criação de novos exercícios de solfejo. Tente você também criar os seus a partir dos princípios aqui trazidos. 8 TEMA 3 – EXERCÍCIOS DE LEITURA EM ESCALAS MENORES Depois de sermos introduzidos ao solfejo de alturas baseado na escala maior, agora replicaremos o estudo à escala menor natural. Seguem valendo todas as recomendações da Tema 2. Figura 9 – Exercício de leitura em Escalas Menores – série 1 Começamos, já na primeira série, com a presença do sexto grau da escala menor. Porém, se você sentir dificuldade com esse início, sugerimos que reescreva as primeiras séries do Tema 2, só que a partir da nota lá, praticando esses exercícios posteriormente. A sonoridade nas escalas menores é bem particular e distinta da escala maior, mas, com o auxílio de um instrumento, ficará mais fácil assimilar os sons desse tipo de escala. Figura 10 – Exercício de leitura em Escalas Menores – série 2 A ideia da bordadura inferior entre o quinto e o sexto graus serve para fixar a sonoridade da 6m, que é uma das características da escala menor. Figura 11 – Exercício de leitura em Escalas Menores – série 3 9 O salto de terça dessa série foi criado por meio da supressão da nota Mi. A terça menor que surge entre o quarto e o sexto grau se repete em três dos quatro compassos. Figura 12 – Exercício de leitura em Escalas Menores – série 4 A série 4 utiliza uma estratégia diferente, pois ela se concentra nas 5 notas mais agudas das outras séries, omitindo o primeiro grau. Figura 13 – Exercício de leitura em Escalas Menores – série 5 Na série 5, temos saltos de terça, começando com o arpejo da tríade de Bº. Já o último compasso, segue a regra de formação de terça descendente sucedida por segunda ascendente. Figura 14 – Exercício de leitura em Escalas Menores – série 6 Figura 15 – Exercício de leitura em Escalas Menores – série 7 10 Nessas duas últimas séries, acrescentamos o sétimo grau, sendo que a primeira apresenta e confirma a nota nova, enquanto a série 7 se concentra na região mais aguda da escala para exercitar o sexto e o sétimo graus. TEMA 4 – EXERCÍCIOS DE LEITURA RÍTMICA Neste momento, faremos uma introdução ao treino de ritmos. A maneira mais comum de praticá-lo é com o auxílio da marcação do pulso de percussiva, por exemplo, batendo a mão ou um objeto sobre a mesa. Independentemente de como o som do pulso seja produzido, é importante que o primeiro tempo de cada compasso seja marcado com mais força, por se tratar do acento natural da música. Os pulsos também podem ser marcados por meio de gestos de regência. Normalmente, utiliza-se a voz para ler valores rítmicos, pois ela permite entoar sons com duração variada. Usa-se bastante as sílabas “ta” ou “pa”, pois a consoante ajuda a estabelecer o momento exato do ataque da nota, enquanto a vogal sustenta o som. Vamos ao treino. Figura 16 – Exercício de leitura rítmica – série 1 Na parte 1 da série, é apresentada a divisão das durações nos primeiros compassos. Na segunda metade, a ideia é parecida, mas nos compassos ímpares se divide apenas uma das mínimas, criando compassos preenchidos com figuras distintas e em diferentes posições. 11 Na primeira metade da parte 2, inverte a ordem dos compassos em relação à segunda metade da parte 1. Na metade da parte 2, há um compasso diferente, em que a mínima fica entre duas semínimas. A parte 3 reúne todas as possibilidades de associação entre uma mínima e duas semínimas para o preenchimento do compasso. Na parte 4, algumas figuras foram substituídas por pausas correspondentes. Sempre que houver uma pausa, lembre-se de extinguir o som anterior quase no momento exato em que a pausa deveria soar. Em aulas de percepção, é comum se usar o termo cantar a pausa quando se refere à precisão do “corte” do som anterior a ela. No próximo exercício de leitura rítmica, exploraremos as colcheias, além das semibreves, mínimas e semínimas. Figura 17 – Exercício de leitura rítmica – série 2 A primeira linha dessa série mostra possibilidades de divisão das semínimas pelas colcheias. A segunda linha insere as pausas de semínima. As últimas linhas mostram situação parecida, mas com maior recorrência de semínimas e colcheias com mínimas. 12 Figura 18 – Exercício de leitura rítmica – série 3 A série 3 introduz as semicolcheias no estudo, além da mudança na fórmula do compasso. Destaque para o número 2, em que as colcheias do número 1 se subdividem em semicolcheias e a nota do segundo compasso fica mais curta, com a adição de uma pausa de semicolcheia, tornando-se assim um ponto em que devemos ter um cuidado redobrado com a duração do som. TEMA 5 – EXERCÍCIOS DE LEITURA RÍTMICO-MELÓDICA Vimos, neste estudo, que a melodia também possui aspectos rítmicos. Nesta etapa, vamos combinar o treino de leitura melódica com o ritmo. Figura 19 – Exercício de leitura melódica – série 1 A série 1 apresenta as notas da escala de dó maior, com duração apenas de semínima. Não há complexidade rítmica, a não ser pela presença das pausas. 13 Figura 20 – Exercício de leitura melódica – série 4 A série 4 é dividida em quatro partes distintas, em ordem crescente de dificuldade. Na parte 2, temos a adição das colcheias e alguns saltos de terça, além do salto de quinta descendente no último compasso. A parte 3 apresenta mais saltos de terça e pausas, além do sexto grau da melodia. Por fim, a parte 4 apresenta elementos rítmicos de ligaduras e figuras de combinação, inclusive um arpejo descendente do acorde de dó maior. NA PRÁTICA Vimos, e fizemos juntos, alguns exercícios de leitura musical em escala maior e menor natural. Com relação à escala maior, avançamos de maneira mais gradual do que fizemos quando solfejamos a menor. O desafio prático dessa etapa é reescrever as mesmas séries de dó maior em lá menor, treinando sua leitura na sequência. Com isso, esperamos que ajude a desenvolversua leitura musical além das suas habilidades de escrita. FINALIZANDO As práticas de solfejo estudadas pretendem ser um ponto de partida para seus treinos de leitura. É fundamental se aprofundar, e para isso indicamos, primeiramente, autores consagrados na área do solfejo, como Pozzoli, Bona, Hindemith e Gramani. Além disso, uma prática musical guiada por partitura vai 14 auxiliar muito no desenvolvimento da sua leitura musical. Corais e grupos instrumentais são uma ótima escolha nesse sentido, porque trazem outros valores agregados, como o convívio social e a alegria de fazer música em conjunto. Então, não perca tempo, continue aperfeiçoando sua leitura através das práticas musicais. 15 REFERÊNCIAS CASPURRO, H. Audição e audiação: o contributo epistemológico de Edwin Gordon para a história da pedagogia da escuta. Revista da APEM: Associação Portuguesa de Educação Musical, n. 127, 2007. FIREMAN, M. C. Leitura musical à primeira vista no violão: a influência da organização material de estudo. Tese (Doutorado em Música) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2010. RISARTO, M. E.; LIMA, S. R. A. de. Capacidades cognitivas e habilidades envolvidas no processo de leitura à primeira vista ao piano. Música em Perspectiva: revista do Programa de Pós-Graduação em Música da UFPR, Curitiba, v. 3, n. 2, p. 87-110, 2010.