Prévia do material em texto
Apresentando a Orientação à Queixa Escolar In SOUZA, B.P. (Org.) Orientação à Queixa Escolar. São Paulo: Portal de livros abertos da USP, 2020. 1ª. ed. 2007. p.p. 97-117 E-book. A autora inicia o texto rememorando o modelo histórico dialético, no sentido de que oferece uma nova visão de homem e sociedade, de que o homem se relaciona com a natureza e com outros homens, criando as condições para produção e reprodução da humanidade, que está inserido em um contexto histórico que dota a forma e conteúdo de suas relações e dialética no que se refere as contradições que viabilizam o conhecimento da realidade. A autora pontua que na década de 1990, foram realizados estudos que investigassem as demandas de encaminhamentos infanto-juvenil para os serviços de atendimento psicológico e que 65% dos casos envolviam queixas escolares, que segundo ela deveria ser prioridade nas ações de saúde mental e formação profissional. A autora traz que a assessoria aos profissionais que atendiam as queixas escolares, evidenciava muitos problemas que abrangiam, em suma, uma visão parcial e abstrata dos indivíduos, eximindo a escola e os grupos familiares das questões que eram levantadas, direcionado as razões e causas do fracasso escolar aos alunos. De maneira análoga, a autora menciona que os conhecimentos adquiridos com relação a constituição da subjetividade e os impactos desta na identidade dos sujeitos não podem ser desconsideradas nas práticas psicológicas. Desse modo, a autora vê a necessidade do desenvolvimento de uma abordagem a qual nomeou orientação à queixa escolar, que por sua vez parte da ideia de que em seu centro está o processo de escolarização; ou seja. Uma rede de relações que envolvem as crianças/adolescentes, sua escola e sua família. Para a autora, o pensamento crítico é fundamental para a atuação do psicólogo escolar, uma vez que possibilita uma reflexão mais ampla sobre as práticas educacionais e sobre as demandas e necessidades dos alunos e das escolas. Nesse sentido, o pensamento crítico implica em uma postura reflexiva e questionadora por parte do psicólogo, que deve estar atento às questões sociais e políticas que afetam o contexto escolar. O objetivo desta abordagem é uma movimentação dessa rede no sentido de desenvolver todos os participantes rumo a superação da queixa escolar, primariamente através da investigação/intervenção de como a relação desses integrantes se desenvolvem, considerando o período histórico e o problematizando. Segundo a autora, a escola exerce função estruturante da subjetividade, e por esse motivo o psicólogo deve fazer dela um objeto de intervenção. A autora coloca a estruturação desta abordagem como sendo responsável por: colher e problematizar as versões de cada participante da rede; promover a circulação de informações e reflexões pertinentes e integração ou confronto das mesmas dentro desta rede, propiciando releituras e buscando soluções conjuntamente e identificar, mobilizar e fortalecer as potências contidas nesta rede, de modo que ela passe a movimentar-se no sentido da superação da situação produtora da queixa. A autora ainda explica que a abordagem é breve e focal. Breve, pois o objetivo não é passar a integrar a rede, mas promover as condições necessárias para que os integrantes possam dar conta desse movimento sem a nossa presença. Focal, pois para a autora, segundo Winnicott, a existência objetiva do terapeuta é envolta pela subjetividade do paciente, desse modo, esse encontro promoveria mudanças profundas se bem manejado, sendo neste momento que operamos. A autora destaca a importância de uma avaliação cuidadosa e sistemática para identificar as causas da queixa escolar, e apresenta as etapas do processo de orientação à queixa escolar, que envolvem desde a coleta de informações sobre o problema, passando pela elaboração de hipóteses explicativas e intervenção, até a avaliação dos resultados. O primeiro momento em que consistem um conjunto de procedimento, não rígidos, mas que possam embasar a prática dos psicólogos é a triagem de orientação. No caso da procura terapêutica por parte dos pais, o objetivo deste primeiro momento é apresentar a modalidade de atendimento oferecido, colher a versão dos pais acerca da queixa, investigar e pensar a demanda que se apresenta, procurando soluções. A autora coloca que existem várias vicissitudes que podem desvelar os caminhos que esse atendimento vai ou não transcorrer, visto que, segundo ela, essa triagem pode encerrar o atendimento, caso se constate que a escola está aparentemente encontrando melhoras para a queixa. Encaminhamentos para outras áreas ou para psicoterapia individual poderão ser realizados mediante a identificação da real necessidade que se constituirá na singularidade de cada caso. Caso se perceba que as questões escolares na configuração que se apresentou a nós faz com que a intervenção seja necessária e prioritária, o processo de OQE tem continuidade. O segundo momento são os encontros com as crianças ou adolescentes. Os objetivos, neste momento, são contextualizar a criança acerca da queixa que se têm dela, bem como solicitar a sua versão sobre a mesma; propiciar a conquista de sua condição como sujeito de sua própria história, que percebe, pensa e intervém; oferecer acolhimento para seus sofrimentos e dificuldades, etc. Assim como na triagem, os materiais e encontros são planejados considerando as demandas que forem se revelando, bem como respeitando a individualidade de cada atendido. A autora também coloca que a conquista da produção escolar que visa reforçar os aspectos positivos de conhecimentos que pais e professores consideravam inexistentes nos alunos, mas que se revelam como indícios nos encontros favorecem que as crianças percebam suas capacidades. O terceiro momento se constitui nas interlocuções com a escola, que deve considerar a elaboração que relatórios iniciais ou finais, mas que em caso de impossibilidade de fazê-los, o trabalho do psicólogo não deve parar. A autora também menciona que a maioria dos profissionais exprimem dificuldades em dialogar com os educadores que tem se mostrado hostis e irredutíveis. Contudo, para ela, é possível encontrar uma receptividade à medida que buscarmos: uma relação horizontal com os educadores; atentar para a presença de preconceito acerca dos professores operando em nós; ouvir sua versão da queixa, fazer perguntas que ajudem a esclarecê-la, pensa-la; perceber e valorizar seus recursos e esforços e; levar informações e sugestões que possam contribuir para a criação de sentidos e caminhos em seu trabalho. O quarto momento são as entrevistas de fechamento, que podem ser realizadas com a criança e/ou pais em separado. O objetivo é construir uma releitura do que foi trabalhado, desde a discussão acerca da queixa até o final do processo, seus efeitos e repercussões nos pais, criança e escola, possibilitando uma mobilização conjunta sobre o tema. O quinto momento descrito é o acompanhamento que segundo a autora, rompe com as relações mercantilizadas, que tendem a serem descartadas. Desse modo, os acompanhamentos buscam possibilitar se as experiências com a OQE foram reais e positivas, se houveram recorrências de situações anteriormente trabalhadas. Ao final, a autora apresenta que a orientação à queixa escolar como uma prática profissional da psicologia, visa contribuir para o enfrentamento dos problemas relacionados à aprendizagem e ao comportamento escolar, destacando a importância de uma avaliação cuidadosa e sistemática, não classificatória ou punitiva para alunos e/ou professores/familiares, mas um trabalho que envolve técnicas e estratégias utilizadas e o trabalho em equipe na abordagem da queixa escolar.