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1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Objetivos 1- Estudar a epidemiologia, fatores de risco, etiologia, fisiopatologia, diagnóstico e tratamento da diarreia aguda e crônica. Diarreia aguda e crônica ↠ Diarreia consiste em alteração do hábito intestinal por diminuição de consistência das fezes e aumento da frequência e do volume das evacuações (DANI; PASSOS, 2011). Um terceiro componente, o peso (mais de 200 g/dia), pode ser considerado, porém, é de difícil avaliação na clínica diária (ZATERKA; EISIG, 2016). Forma de apresentação (sintoma/sinal) de inúmeras doenças diferentes, extremamente polimorfa, podendo ser grave o suficiente para colocar em risco a vida do paciente (ZATERKA; EISIG, 2016). FISIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA ↠ O intestino tem a função de secretar substâncias que auxiliam no processo digestivo e de absorver líquidos, eletrólitos e nutrientes. Fisiologicamente, a absorção de nutrientes e líquidos excede a secreção, e o intestino delgado é predominante nessa atividade (DANI; PASSOS, 2011). ABSORÇÃO DE LÍQUIDOS ↠ O intestino delgado recebe, aproximadamente, 10 l de líquidos por dia (ingesta, secreções de saliva, gástrica, biliar, pancreática e intestinal), absorve cerca de 6 l no jejuno e 2,5 l no íleo. O cólon recebe do delgado em torno de 1,5 l, e apenas 100 ml são eliminados nas fezes. A capacidade absortiva total do cólon é de 4 a 5 l/24 h e, quando essa quantidade é ultrapassada, surge a diarreia (DANI; PASSOS, 2011). Uma redução de apenas 1% na capacidade de absorção será suficiente para causar diarreia (ZATERKA; EISIG, 2016). OSMOLARIDADE DA LUZ INTESTINAL ↠ O principal mecanismo pelo qual a água é absorvida e secretada se faz segundo o gradiente osmótico criado pelo transporte ativo do sódio. O sódio é absorvido associado ao cloro ou a alguns nutrientes. A absorção de Na+/Cl- pelas vilosidades leva a água passivamente através da mucosa. Isso se dá pela menor concentração de sódio no interior do enterócito em relação à luz intestinal. Essa via é inibida pelo cAMP e GMPc, que sofrem estimulação da adenilciclase e guanilciclase do enterócito (DANI; PASSOS, 2011). Acontece sempre daquele de menor osmolaridade para o de maior osmolaridade, de forma a manter o equilíbrio entre os dois ambientes. Esse mecanismo fica evidente nos casos de diarreia provocados pela ingestão de açúcares não absorvíveis, como manitol, lactulose etc (ZATERKA; EISIG, 2016). Essas enzimas podem ser ativadas pelas toxinas bacterianas. A absorção acoplada de Na+ com glicose, galactose e aminoácidos é ativa e não sofre influência dos agentes infecciosos, por isso é utilizado para restaurar as perdas nas diarreias infecciosas (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A secreção entérica depende da secreção ativa de Cl–, que se acompanha da eliminação de Na+ e H2O para o lúmen intestinal pelas células das criptas. Assim, a água acompanha o movimento do Na+, e a absorção se faz pelas células do ápice das vilosidades intestinais, enquanto a secreção é realizada pelas células das criptas (DANI; PASSOS, 2011). Diversos agentes estimulam a secreção ou inibem a absorção, como as prostaglandinas, o peptídeo vasoativo intestinal (VIP) e o peptídeo calmodulina, enquanto as encefalinas atuam no sentido de estimular a absorção de água e eletrólitos (DANI; PASSOS, 2011). APG 07 – “QUE FRAQUEZA!” Mecanismos de transporte intestinal de água e eletrólitos. A. O sódio é absorvido por processos de transporte dependentes e independentes de nutrientes no intestino delgado e por um canal de sódio (ENaC) no cólon. Os permutadores Na+/H+ (NHE) e Cl−/HCO3– (DRA) são inibidos por agentes que elevam o monofosfato de adenosina cíclico intracelular (cAMP), monofosfato de guanosina cíclico (GMPc) ou cálcio. B. Secreção de cloreto pelas células da cripta intestinal. O cloreto pode ser secretado ativamente por todo o intestino delgado e cólon. Os mediadores intracelulares de secreção (cAMP, GMPc, Ca2+) abrem canais de Cl− apicais (regulador de condutância transmembrana de fibrose cística [CFTR], canal de cloreto ativado por cálcio [TMEM16]) e canais basolaterais de K+. O cloreto se move das células da cripta para o lúmen intestinal, favorecendo o movimento do Cl− do sangue para as células pelo cotransportador Na+/K+/2Cl− (NKCC1). O bicarbonato (HCO3–) também pode ser secretado pelo canal CFTR. C. Absorção intestinal de sódio. O sódio é absorvido ativamente nas células das vilosidades do intestino delgado e nas células da superfície do cólon. A adenosina trifosfatase de sódio- potássio (Na+,K+-ATPase) existente na membrana basolateral da célula mantém baixa concentração intracelular de Na+ e interior da célula eletronegativo que favorece o movimento do Na+ através da membrana apical do lúmen para a célula. No intestino delgado, a glicose e a galactose são absorvidas com sódio e água na membrana apical pelo transportador do ligante sódio-glicose (SGLT1). Vários transportadores diferentes de aminoácidos dependentes de sódio, alguns com especificidades de substrato sobrepostas, transportam aminoácidos catiônicos, aniônicos e neutros para as células das vilosidades. Dipeptídios e tripeptídios são transportados por um transportador de oligopeptídio acoplado a hidrogênio, PepT1, que é conduzido por íons hidrogênio luminais gerados pelo permutador epitelial Na+/H+. A frutose é captada pelo transportador facilitador de glicose (GLUT5). D. Regulação do transporte intestinal de água e eletrólitos. Normalmente, o intestino está em um estado geral de absorção sob o controle dos nervos adrenérgicos extrínsecos do sistema nervoso simpático. A guanilina, o ligante natural do receptor de toxina estável de Escherichia coli (guanilil ciclase ligada à membrana [GC-C]), é importante na regulação da secreção local de cloreto. O tônus normal do intestino é modificado pelo sistema nervoso entérico, células endócrinas e inflamatórias na mucosa intestinal e hormônios circulantes. O sistema nervoso entérico libera vários neurotransmissores, alguns estimuladores da secreção de cloreto (p. ex., peptídio intestinal vasoativo [VIP], acetilcolina) e outros que promovem a absorção de sódio (p. ex., encefalinas, neuropeptídio Y). Os hormônios produzidos localmente a partir de células enterocromafins (ECC) no epitélio intestinal e mediadores inflamatórios liberados por células imunes afetam diretamente os enterócitos e os nervos próximos. Os hormônios circulantes (p. ex., aldosterona, glicocorticoides) aumentam a absorção de sódio no intestino. Os glicocorticoides também inibem a liberação de ácido araquidônico e a produção de prostaglandina pelas células inflamatórias. DRA (SLC26) = infrarregulação no gene de adenoma; NHE (SLC9) = permutador sódio-hidrogênio. 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ No cólon, há vários mecanismos de transporte de sódio, através dos quais ocorre a absorção de água. A absorção e a secreção acontecem concomitantemente com predomínio do conteúdo absorvido. A diminuição da absorção ou aumento da secreção ou a alteração de ambas produzem diarreia (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Muitos microrganismos alteram o equilíbrio de absorção e secreção no intestino delgado e são capazes de provocar diarreia. Alguns produzem enterotoxinas que ativam o mecanismo secretor e outros, por alterarem as vilosidades, prejudicam a absorção (DANI; PASSOS, 2011). MUCOSA INTESTINAL Desde o esfíncter inferior do esôfago até o ânus, o trato gastrointestinal é revestido por uma única camada contínua de células que servem como limite entre os meios externo e interno do corpo humano. Sua função de barreira é imprescindível para a manutenção da saúde, uma vez que está em contato permanente com microrganismos próprios da microbiota intestinal e com inúmeros agentes ambientais ingeridos. Sua integridade funcional é fundamental paraevitar que esses agentes atravessem a barreira epitelial, evitando o início ou a perpetuação de processos inflamatórios mucosos (ZATERKA; EISIG, 2016). ↠ No íleo distal e cólon, a diarreia é causada principalmente por invasão e destruição do epitélio, que resulta em ulceração, infiltração da submucosa com eliminação de soro e sangue. Além disso, podem estimular resposta inflamatória local, que resulta na produção de vários secretagogos, como as prostaglandinas e interleucinas, e contribuem para a perda de líquidos para o lúmen intestinal (DANI; PASSOS, 2011). SISTEMA NERVOSO ENTÉRICO Esta quase autônoma porção do sistema nervoso é composta pelo plexo mientérico e pelas camadas neuronais da mucosa e submucosa. Sua função é mediada por neurotransmissores como peptídio intestinal vasoativo (VIP), somatostatina, norepinefrina, neuropeptídio Y, serotonina, acetilcolina e outros, regulando a função do músculo liso, o transporte de íons através da mucosa e os processos absortivo e secretor, além de funções endócrinas, da modulação do sistema imune e do controle do fluxo sanguíneo local (ZATERKA; EISIG, 2016). ↠ Portanto, alterações na sua estrutura anatômica, assim como deficiência ou hipersecreção de substâncias exócrinas ou endócrinas, inibidoras ou estimuladoras de suas funções, poderão provocar sintomas diarreicos (ZATERKA; EISIG, 2016). FLORA INTESTINAL O intestino humano é o habitat de uma variada flora bacteriana, composta por mais de 500 espécies. O número de células bacterianas na luz intestinal corresponde a aproximadamente 10 vezes o total de células eucarióticas presentes no corpo humano (ZATERKA; EISIG, 2016). Habitualmente, há uma relação de simbiose, importante tanto para a saúde da mucosa como para a modulação do sistema imune. A troca de material genético entre microrganismos, assim como alterações na camada protetora de muco que reveste a mucosa intestinal, podem transformar bactérias comensais em patógenos, desencadeando quadros de enterites de intensidade variável (ZATERKA; EISIG, 2016). O uso de antibióticos pode afetar bactérias comensais e poupar possíveis bactérias patogênicas resistentes, também causando grandes transtornos. É possível, ainda, que modificações nos mecanismos de defesa do trato alimentar proximal ao intestino possam propiciar sua colonização por bactérias patogênicas, alterando a flora intestinal de forma desfavorável ao organismo humano. Exemplo disso é a elevação do pH gástrico, tanto por atrofia da mucosa gástrica como pelo uso de medicamentos que bloqueiam a secreção ácida, notadamente os inibidores da bomba de prótons (ZATERKA; EISIG, 2016). ↠ Essa modificação no microambiente gástrico, considerado fator importante na eliminação de grande parte dos inúmeros microrganismos que ingerimos, favorecerá a colonização da cavidade gástrica e o supercrescimento bacteriano no intestino, desde o duodeno (ZATERKA; EISIG, 2016). Motilidade intestinal ↠ Apesar da crença disseminada de que os episódios de diarreia são consequência da aceleração do trânsito intestinal, isso não é comprovado cientificamente na maioria dos quadros diarreicos. Apenas em algumas situações específicas, como na diarreia funcional, nas diarreias causadas por doenças endócrinas (hipertiroidismo, síndrome carcinoide, vipoma) e na síndrome do intestino irritável com diarreia, a aceleração do peristaltismo intestinal tem papel proeminente na fisiopatologia dos quadros diarreicos (ZATERKA; EISIG, 2016). O organismo saudável possui mecanismos de defesa que permitem resistir aos agentes lesivos e que incluem: (DANI; PASSOS, 2011). • o suco gástrico, que é letal a muitos organismos pelo baixo pH; • a motilidade intestinal, que dificulta a aderência dos microrganismos à parede do intestino; • os sistemas linfático e imune, que promovem a defesa celular e humoral contra os agentes nocivos. A falha desses mecanismos e/ou a alta agressividade do estímulo agressor do intestino causam a diarreia (DANI; PASSOS, 2011). MECANISMOS BÁSICOS ↠ A fisiopatologia da diarreia envolve cinco mecanismos básicos, sendo possível a concomitância de mais de um 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck deles no desencadeamento de determinado tipo de diarreia: (DANI; PASSOS, 2011). • Diarreia Secretora: resulta da hipersecreção de água e eletrólitos pelo enterócito, como ocorre pela ação das enterotoxinas bacterianas. Pode também resultar da produção excessiva de hormônios e outros secretagogos, como no gastrinoma (gastrina), na síndrome carcinoide (serotonina, prostaglandinas, calcitonina), na cólera pancreática (VIPomas), no adenoma viloso, na insuficiência adrenal e no hipoparatireoidismo. • Diarreia Osmótica: o processo da digestão determina fisiologicamente a transformação do conteúdo intestinal em material isosmótico. Distúrbios da digestão presentes nas deficiências de dissacaridases, que mantém um conteúdo hiperosmolar, determinam a passagem de líquidos parietais para o lúmen intestinal e, consequentemente, diarreia. O mesmo pode acontecer pela ingestão de agentes osmoticamente ativos como a lactulose, o manitol, o sorbitol e os sais de magnésio. • Diarreia Motora: resulta de alterações motoras com trânsito intestinal acelerado, como ocorre nas enterocolopatias funcionais ou doenças metabólicas e endócrinas. Surge, também, por redução da área absortiva consequente de ressecções intestinais ou de fístulas enteroentéricas. • Diarreia Exsudativa/Inflamatória: decorre de enfermidades causadas por lesões da mucosa resultantes de processos inflamatórios ou infiltrativos, que podem levar a perdas de sangue, muco e pus, com aumento do volume e da fluidez das fezes. É encontrada nas doenças inflamatórias intestinais, neoplasias, shigelose, colite pseudomembranosa, linfangiectasia intestinal. • Diarreia Disabsortiva: resulta de deficiências digestivas e lesões parietais do intestino delgado que impedem a correta digestão ou absorção. Este processo pode causar diarreia com esteatorreia e resíduos alimentares. CLASSIFICAÇÃO As diarreias podem ser classificadas, basicamente, de duas maneiras: quanto ao tempo de evolução, em agudas e crônicas, e quanto à etiologia, em infecciosas e não infecciosas (ZATERKA; EISIG, 2016). ↠ Existem várias formas de se classificarem as diarreias. A definição que apresenta maior relevância clínica é a que distingue tipos de diarreia de acordo com seu tempo de evolução (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Assim, define-se como aguda a diarreia que tem duração máxima de 30 dias, habitualmente ficando restrita a 2 semanas. A diarreia é considerada crônica quando tem duração superior a 1 mês. Essa distinção auxilia na conduta médica desde a avaliação de etiologias mais frequentes até as necessidades de terapêuticas empíricas iniciais (DANI; PASSOS, 2011). Diarreias agudas aquelas com duração de até 15 dias, e diarreias crônicas quando os sintomas duram mais de 30 dias. O intervalo entre 15 e 30 dias é considerado, por alguns, diarreia persistente, enquanto outros preferem classificar a diarreia que dura mais de 15 dias como crônica (ZATERKA; EISIG, 2016). Uma vez que o tempo é fator determinante das diarreias agudas e crônicas, toda diarreia crônica começa como um quadro de diarreia aguda, insidiosa ou exuberante, e, dependendo da regressão espontânea ou da resposta a medidas terapêuticas utilizadas, poderá se prolongar até caracterizar uma diarreia crônica (ZATERKA; EISIG, 2016). As diarreias agudas devem ser consideradas como urgência médica devido aos riscos inerentes especialmente relacionados com a desidratação habitual nesses casos. A principal etiologia é a infecciosa. Contudo, são processos autolimitados, na maioria das vezes, e a conduta primordial é a manutenção da homeostase com o equilíbrio hidroeletrolítico (DANI; PASSOS,2011). As diarreias crônicas apresentam condições etiopatogênicas muito mais complexas, porém raramente necessitam de abordagem emergencial. Com isso, a necessidade de tratamento empírico inicial é 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck reduzida e o médico tem condições de conduzir investigação adequada (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Outra forma também muito utilizada na prática clínica de classificar diarreia é em relação ao local do trato gastrintestinal de sua origem. Denomina-se diarreia alta a originada no intestino delgado e baixa a relacionada com o intestino grosso. A importância dessa classificação está na diferenciação de causas mais frequentes em cada local, dirigindo melhor conduta médica investigativa e terapêutica iniciais (DANI; PASSOS, 2011). DIARREIA AGUDA ↠ A diarreia aguda geralmente manifesta-se como quadro de instalação súbita em resposta a estímulos variáveis, sendo os principais associados a agentes infecciosos com evolução autolimitada (DANI; PASSOS, 2011). ETIOLOGIA Como o processo é autolimitado, a definição etiológica nem sempre altera a conduta médica na diarreia aguda. Entretanto, em casos mais graves ou em situações especiais, medidas específicas podem ser necessárias (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O mecanismo de geração da diarreia aguda na maioria das vezes está associado à agressão por microrganismo. Porém, outras causas como sobrecarga de solutos hiperosmolares por abusos alimentares ou fármacos (diarreia osmótica) e estímulos de peristalse exacerbados como os induzidos por estresse emocional nas síndromes funcionais (diarreia motora) também podem acarretar quadros agudos (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Os agentes infecciosos mais comumente envolvidos nos quadros de diarreia aguda são: (DANI; PASSOS, 2011). Nas populações mais pobres, predomina a etiologia bacteriana e, nas de melhor nível social, prevalece a viral (DANI; PASSOS, 2011). Os mecanismos fisiopatológicos das diarreias infecciosas são o secretório ou o inflamatório. Alguns microrganismos estão mais associados ao estímulo secretório e outros, ao inflamatório (DANI; PASSOS, 2011). PRINCIPAIS PATÓGENOS Vírus: São transmitidos por água contaminada ou de uma pessoa para outra, estando associados a surtos epidêmicos. A fisiopatologia das alterações intestinais ainda é mal compreendida, porém, sugere-se um possível efeito de proteína viral como enterotoxina (ZATERKA; EISIG, 2016). Bactérias: são a segunda causa mais frequente das diarreias agudas, após os vírus (ZATERKA; EISIG, 2016). • Clostridium difficile: bactéria Gram positiva, responsável por 15 a 20% dos casos de diarreia secundária ao uso de antibióticos e de praticamente todos os casos de colite pseudomembranosa. Produz toxinas (A e B) que provocam aumento da permeabilidade intestinal e destruição das células epiteliais colônicas. • Escherichia coli: bastonete Gram-negativo, não formador de esporos, flagelado. Atuam por meio da produção de enterotoxinas, que estimulam a secreção de cloro e reduzem a absorção de sódio, e de citotoxinas, que agridem o epitélio intestinal, alterando sua estrutura. • Salmonella: bastonete Gram-negativo, transmitido por ovos, aves domésticas, leite e outros alimentos contaminados. Produz enterotoxinas que estimulam secreção de cloro, e invadem a mucosa, ativando eventos inflamatórios. Manifesta-se inicialmente por diarreia aquosa, seguida de diarreia sanguinolenta. • Staphylococcus: coco Gram-positivo. A diarreia causada por esse microrganismo está relacionada à contaminação de alimentos e produção de toxina termoestável, cuja ingestão causa diarreia e vômitos. Os sintomas surgem 2 a 8 horas após a ingestão e tendem a regredir espontaneamente em até 48 horas. As fezes apresentam aspecto aquoso. EPIDEMIOLOGIA ↠ A diarreia ainda é uma das manifestações patológicas mais prevalentes em todo o mundo, constituindo a segunda causa de morte em crianças menores que 5 anos. Nessa faixa etária morrem, a cada ano, 760 mil crianças (ZATERKA; EISIG, 2016). ↠ Calcula-se que, nos países em desenvolvimento, cada criança de até 3 anos de idade apresente três episódios de diarreia por ano (ZATERKA; EISIG, 2016). 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck ↠ Em uma perspectiva global, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), ocorrem cerca de 2 bilhões de casos de doenças diarreicas em todo o mundo, sendo 1,9 milhão de óbitos em crianças menores de 5 anos nos países em desenvolvimento (COSTA et. al., 2021). ↠ A diarreia aguda configura-se como a segunda maior causa de morte nessa faixa etária e é responsável por um terço das internações. Esse agravo compromete a saúde e o desenvolvimento infantil, uma vez que desencadeia situações de desnutrição e desidratação (COSTA et. al., 2021). ↠ Em 2002 criou-se o Sistema Informatizado de Vigilância Epidemiológica de Doenças Diarreicas Agudas (SIVEP-DDA), que funciona semanalmente com o registro de informações referentes aos casos de doenças diarreicas. Em consequência disso, permite-se avaliar com mais precisão as possíveis alterações e a procedência dos casos, além de elaborar medidas de controle, prevenção e tratamento, de forma qualitativa (COSTA et. al., 2021). ↠ Dados do DATASUS mostram que o Nordeste, em 2018, foi a região que ocorreram os maiores índices de internações e óbitos de crianças menores de 1 ano de idade por diarreia, o que evidencia a vulnerabilidade de crianças que habitam locais precários, na qual há fatores que favorecem a proliferação de doenças de veiculação hídrica (COSTA et. al., 2021). ↠ Os dados coletados mostram que a frequência média de mortalidade é alta em crianças menores de 1 ano de idade, tendo como causa a diarreia. Isto se dá devido ao processo de desenvolvimento do sistema imunológico em que o recém-nascido está passando. Isto é, ao nascer, o bebê ainda não está imunologicamente apto para combater, de maneira eficaz, os patógenos extrauterinos, resultando em uma maior suscetibilidade a agravos de doenças. Ademais, tais crianças possuem maior taxa de água corporal total (ACT) em comparação com as demais faixas etárias, ou seja, estão mais propensas à desidratação e a desnutrição (COSTA et. al., 2021). ↠ Quanto à alta frequência média de mortalidade em idosos (50 anos ou mais) por diarreia, tem-se por motivo o comprometimento das funções sensoriais do sistema nervoso responsáveis pelo controle do balanço hídrico no corpo, resultando em uma queda na sensação de sede e um aumento na perda de água e eletrólitos. Além disso, podem-se considerar, também, outras condições que tornam esta faixa etária mais propensa à desidratação: perda de massa muscular, demência, síndrome da fragilidade, uso de diuréticos e queda na função renal (COSTA et. al., 2021). DIAGNÓSTICO HISTÓRIA CLÍNICA ↠ Como em todo exercício diagnóstico em medicina, os primeiros passos serão uma boa história clínica e o exame físico (ZATERKA; EISIG, 2016). • Tempo de evolução; Diarreias tóxicas: surgem entre 4 e 24 horas após a ingestão do alimento contaminado por toxinas de bactérias como Staphylococcus aureus, Clostridium perfringens e Bacillus cereus, e tendem a regredir logo após a eliminação da toxina, entre 1 e 2 dias após seu início. Diarreia infecciosas: ocorrem 48 horas ou mais após a contaminação. • Características físicas das evacuações; • Presença de outros sintomas; • Dados epidemiológicos. ↠ Na história do paciente, devem-se investigar o local e as condições em que a diarreia foi adquirida. Deve-se investigar a ingestão recente de água, frutas ou verduras potencialmente contaminadas, alimentos suspeitos, viagens recentes, presença de pessoas próximas também acometidas, uso recente de antibióticos e outros fármacos, história sexual, banho emlocais públicos e contatos com animais (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Na avaliação da origem da diarreia, há que se considerar o período de incubação no caso de infecções intestinais que podem levar de horas a 2 semanas (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A apresentação clínica da diarreia aguda é bastante semelhante, independente do agente causador. Entretanto, algumas diferenças podem ocorrer de acordo com a fisiopatogênese envolvida (DANI; PASSOS, 2011). 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck A diarreia inflamatória apresenta espectro clínico mais grave e exige tratamento mais criterioso. É causada por bactérias invasivas, parasitos e bactérias produtoras de citotoxinas que afetam preferentemente o íleo e o cólon. Promove ruptura do revestimento mucoso e perda de soro, hemácias e leucócitos para o lúmen. Manifesta-se por diarreia, em geral de pequeno volume, com muco, pus ou sangue, febre, dor abdominal predominante no quadrante inferior esquerdo, tenesmo, dor retal. Algumas vezes, apresenta, no início da evolução, diarreia aquosa, que só mais tarde se converte em típica diarreia inflamatória, quando os microrganismos ou suas toxinas lesam a mucosa colônica (DANI; PASSOS, 2011). A diarreia não inflamatória é, em geral, moderada, mas pode provocar grandes perdas de volume. É causada habitualmente por vírus ou por bactérias produtoras de enterotoxinas e afeta preferentemente o intestino delgado. Os microrganismos aderem ao epitélio intestinal sem destruí-lo, determinando diarreia secretora, com fezes aquosas, de grande volume e sem sangue; pode estar associada a náuseas e vômitos. As cólicas, quando presentes, são discretas, precedendo as exonerações intestinais. Na avaliação clínica, além de definir o padrão da diarreia aguda, devem-se também avaliar possíveis complicações, especialmente a desidratação (DANI; PASSOS, 2011). Relato de boca seca e sede, diurese concentrada, oligúria, associados a achados ao exame físico de pele e mucosas desidratadas e hipotensão postural com taquicardia, demonstram desidratação e sua gravidade. Sinais de toxemia indicam quadro mais grave e necessidade de maior cuidado clínico. Desta forma, presença de febre alta, taquipneia, vasodilatação periférica com hipotensão e pulsos rápidos e finos são sinais de alerta (DANI; PASSOS, 2011). EXAME FÍSICO ↠ Exame físico do paciente com diarreia é útil, principalmente para avaliar a severidade dos sintomas. A avaliação do nível de desidratação através do turgor da pele, da frequência cardíaca e da mensuração da pressão arterial em decúbito e sentado é o mais importante dado a ser colhido, uma vez que ditará a necessidade, ou não, da hidratação venosa (ZATERKA; EISIG, 2016). ↠ O exame físico do abdome normalmente exibe dor leve difusa à palpação, com possibilidade de descompressão brusca levemente dolorosa em situações de maior distensão de alças e dor mais intensa. Os ruídos hidroaéreos estão frequentemente aumentados. Dor localizada, sinais de irritação peritoneal intensa, massas ou visceromegalias, distensão abdominal importante e ausência de ruídos são achados que devem direcionar para avaliação cuidadosa pela possibilidade de outras afecções abdominais (DANI; PASSOS, 2011). Na maioria dos casos, a avaliação clínica é suficiente para definição diagnóstica e para determinar a gravidade do quadro (DANI; PASSOS, 2011). O paciente com diarreia aguda deve, portanto, ser abordado inicialmente com tratamento sintomático e seguimento cuidadoso da evolução dos sintomas. Poderão ser solicitados alguns exames complementares no caso de manifestações mais severas, do agravamento progressivo, apesar das medidas adotadas, ou naqueles com mais de 48 horas de duração dos sintomas, sem sinais de arrefecimento, para avaliar o quadro hematológico: hemograma, níveis do sódio e potássio séricos, ureia e creatinina. Podem-se considerar exceção os casos de diarreia sanguinolenta, que poderão merecer investigação etiológica precoce (ZATERKA; EISIG, 2016). EXAMES COMPLEMENTARES Exames laboratoriais • Hemograma: Em pacientes que evoluem com formas mais graves da diarreia aguda, podem-se encontrar anemia e hemoconcentração. Nas diarreias por vírus, linfocitose pode estar presente. Leucocitose com neutrofilia e desvio à esquerda é frequente nas infecções bacterianas mais invasivas com diarreia inflamatória (DANI; PASSOS, 2011). • Função renal e eletrólitos: A desidratação causa hipovolemia que altera a perfusão renal, fazendo com que haja elevação da creatinina e, principalmente, da ureia em depleções volêmicas mais importantes. Essa complicação da diarreia deve ser prontamente diagnosticada principalmente em pacientes idosos. O distúrbio eletrolítico tem relação com perdas entéricas e deve ser corrigido quando presente (DANI; PASSOS, 2011). Estudo das fezes • Leucócitos fecais: É o teste mais utilizado na avaliação de diarreia aguda e identifica processos inflamatórios mais intensos. Entretanto, a simples presença dos polimorfonucleares nas fezes não caracteriza diarreia infecciosa, pois estes são encontrados também em outras afecções do intestino grosso. Do mesmo modo, em alguns casos de diarreia inflamatória, a pesquisa pode ser negativa no início do quadro (DANI; PASSOS, 2011). • Coprocultura: A realização da coprocultura deve ser reservada para casos suspeitos de diarreia infecciosa por bactérias invasivas, na presença de sangue oculto e leucócitos fecais ou para os casos de interesse epidemiológico. Quando a coprocultura é solicitada, o laboratório deve ser informado sobre o agente etiológico suspeito, a fim de adequar o meio de cultura. Alguns parasitos intestinais devem ser lembrados e pesquisados, embora, algumas vezes, possam 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck ter evolução típica de diarreia crônica (DANI; PASSOS, 2011). • Pesquisa de toxinas e antígenos de patógenos: Pesquisa de toxinas no diagnóstico de algumas bactérias pode ser mais útil do que a tentativa de sua cultura. O principal exemplo são as cepas patogênicas do Clostridium difficile que produzem as toxinas A e B. Essas toxinas podem ser identificadas nas fezes por teste por ELISA que comprova a presença de infecção pelo microrganismo. Na infecção viral pelo rotavírus, a pesquisa de antígenos virais nas fezes por ELISA é a melhor forma de confirmar presença do microrganismo. O uso da PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) é outra metodologia para pesquisa de antígenos nas fezes para diagnóstico de inúmeros microrganismos. Entretanto, sua aplicabilidade clínica ainda é muito restrita pela pouca disponibilidade da tecnologia e pelo seu alto custo (DANI; PASSOS, 2011). Exames de imagem ↠ Radiografia simples do abdome, nos casos mais graves, é útil para avaliar complicações como íleo paralítico e megacólon tóxico (DANI; PASSOS, 2011). Endoscopia ↠ A retossigmoidoscopia flexível deve ser feita nos pacientes com clínica de proctite (tenesmo, dor retal) e, também, se há suspeita de colite pseudomembranosa. Nesses casos, a biopsia é importante para excluir doença inflamatória intestinal (DANI; PASSOS, 2011). TRATAMENTO ↠ A imunidade do hospedeiro, na maioria das vezes, é capaz de eliminar infecção gastrintestinal, sem necessidade de terapêutica específica. Assim, o objetivo terapêutico está relacionado com a reposição das perdas hidroeletrolíticas (DANI; PASSOS, 2011). Reidratação ↠ Na maioria dos casos, a reidratação oral é suficiente. A solução deve conter glicose, para favorecer a absorção do sódio. Quando as perdas forem mais importantes, a reposição deve ser feita com soluções contendo eletrólitos (Na+, K+, HCO– e Cl–) em concentrações aproximadas daquelas perdidas na diarreia. Para tal, os produtos existentes no comércio são satisfatórios. As soluções isotônicas, usadas para repor a transpiraçãode atletas, podem ser utilizadas, sobretudo em pacientes sem sinais de desidratação, como prevenção. Para os pacientes hipovolêmicos, deve-se fazer hidratação venosa com soluções isotônicas contendo glicose e eletrólitos (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Por isso, apenas após a avaliação clínica do paciente, o tratamento adequado deve ser estabelecido, conforme os planos A, B e C descritos abaixo (SANAR). 8 Júlia Morbeck – @med.morbeck Dieta ↠ O paciente deve ser orientado para continuar alimentando-se durante o episódio de diarreia. Aqueles que têm náuseas e vômitos devem dar preferência aos líquidos em pequenas quantidades de cada vez, para garantir a reposição das perdas. Os alimentos visam à reposição calórica, compensando assim o estado catabólico produzido pela diarreia, e, ao contrário do que se acreditava, não agravam o quadro diarreico, nem pioram a sua evolução (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Alguns alimentos devem ser evitados temporariamente por causa de seus efeitos sobre a dinâmica intestinal, como, por exemplo, aqueles que contêm cafeína, capazes de inibir a fosfodiesterase e, assim, elevar os níveis intracelulares de cAMP. O mesmo ocorre com alimentos que contêm lactose, já que pode haver deficiência transitória de lactase. Alimentos com maior teor de gordura e as frituras também podem ter sua absorção reduzida e agravar a diarreia (DANI; PASSOS, 2011). Agentes antidiarreicos ↠ Em alguns casos, é recomendável reduzir o número das evacuações, especialmente nas diarreias infecciosas, notadamente naquelas não inflamatórias. Os adsorventes caulim e pectina, embora aumentem a consistência das fezes, têm pequeno efeito sobre o seu volume (DANI; PASSOS, 2011). ↠ As fibras solúveis medicinais como o Psyllium (uma medida até 3 vezes/dia) e absorventes de água como a policarbofila de cálcio (1 a 2 comprimidos até 4 vezes/dia) também podem ser usados para reter água e aumentar a consistência das fezes, diminuindo os episódios diarreicos. Porém, também têm efeito limitado nesses casos (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O subsalicilato de bismuto tem efeito variado, é bactericida e antissecretor por bloquear o efeito das enterotoxinas, além de estimular a reabsorção intestinal de sódio e água. Devido a seu baixo custo, eficácia e segurança, representa boa opção para o tratamento sintomático da diarreia aguda infecciosa. Administrado para adultos na dose de 30 ml, ou 2 comprimidos de 30 em 30 min até completar 8 doses, costuma ser eficaz em muitos casos de diarreia não inflamatória (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Os derivados sintéticos do ópio (loperamida e difenoxilato) inibem a motilidade intestinal, aumentam o tempo de contato para a absorção de água e eletrólitos, e com isso diminuem o número das evacuações intestinais e as cólicas. Esses medicamentos devem ser evitados nos casos de disenterias e nos pacientes com febre alta e toxemia, pois poderiam agravar a evolução da doença e precipitar o aparecimento de megacólon tóxico. Além disso, podem facilitar o desenvolvimento da síndrome hemolítico-urêmica nos pacientes infectados com a Escherichia coli êntero-hemorrágica. Os pacientes devem ser alertados de que essas drogas mascaram as perdas hídricas e de que eles devem fazer reposição de líquidos adequada durante a terapêutica (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O racecadotril é agente antissecretor que funciona através da inibição da encefalinase, enzima responsável pela inativação do neurotransmissor encefalina. Essa ação seletiva protege as encefalinas endógenas, que são fisiologicamente ativas, e reduz a hipersecreção de água e eletrólitos causada pelas toxinas bacterianas. Por isso, é recomendado associado às soluções reidratantes orais, principalmente em crianças. A dose habitual para adultos é de 100 mg, 3 vezes/dia durante 2 a 3 dias (DANI; PASSOS, 2011). Terapêutica antimicrobiana ↠ Como a maioria das diarreias infecciosas tem evolução autolimitada, o uso de antibióticos deve ser restrito a condições específicas. O emprego rotineiro deve ser evitado porque eles podem prolongar a eliminação de fezes com bactérias patogênicas e contaminar o meio ambiente. Além disso, expõe os pacientes aos efeitos adversos dos antibióticos e promove o desenvolvimento de resistência bacteriana com seleção de bactérias como o Clostridium difficile (DANI; PASSOS, 2011). O uso empírico, por exemplo, do sulfametoxazol-trimetoprima (TMP-SMZ) ou de quinolona, pode ser efetuado em pacientes com quadros clínicos importantes de disenteria e possível bacteremia, até que se obtenha o resultado da coprocultura (DANI; PASSOS, 2011). 9 Júlia Morbeck – @med.morbeck SITUAÇÕES ESPECÍFICAS • Intoxicação alimentar: A intoxicação alimentar resulta da ingestão de alimentos contaminados por bactérias, fungos, vírus, parasitos ou substâncias químicas, tendo como destaque o envolvimento de uma coletividade que fez uso do mesmo alimento. A intoxicação surge, principalmente, em decorrência de substâncias químicas ou de toxinas pré-formadas por agentes infecciosos (DANI; PASSOS, 2011). • Diarreia por rotavírus: O rotavírus foi o primeiro agente identificado como importante causa de gastrenterite viral, principalmente em crianças entre 6 meses e 2 anos de idade, mas os adultos também podem ser atingidos. É o agente viral mais comum como causa de gastrenterite endêmica. A infecção viral tem normalmente evolução autolimitada e deve ser tratada com medidas para o alívio dos sintomas e terapêutica de suporte, como reidratação oral ou intravenosa, de acordo com a repercussão do quadro clínico (DANI; PASSOS, 2011). • Diarreia dos viajantes: É definida como diarreia infecciosa aguda que acomete indivíduos que viajam de área industrializada e com boas condições de higiene para outra com piores condições sanitárias (DANI; PASSOS, 2011). • Diarreia pela Shigella: A shigelose é a causa mais comum de diarreia bacteriana em todo o mundo. Essa bactéria é resistente à ação do ácido clorídrico; por isso, mesmo em pequeno número, passa pelo estômago e tem acesso ao intestino delgado onde se multiplica e chega ao cólon onde exerce sua ação patogênica. Assim, não necessita de sua replicação, nos alimentos contaminados ou na água, para tornar-se infecciosa. A transmissão ocorre por propagação de pessoa a pessoa, bem como através de alimentos e água (DANI; PASSOS, 2011). • Diarreia pelo Clostridium difficile: O Clostridium difficile é uma bactéria gram-positiva, anaeróbia, considerada a principal responsável pela enterocolite pseudomembranosa. O C. difficile é responsável por 50 a 70% das diarreias nosocomiais associadas ao uso de antibióticos e que ocorrem até 6 semanas após sua administração (DANI; PASSOS, 2011). DIARREIA CRÔNICA ↠ A diarreia crônica ocorre com expressiva frequência mesmo nos países industrializados (DANI; PASSOS, 2011). Ao contrário da diarreia aguda, a permanência dos sintomas por tanto tempo poderá exigir investigação cuidadosa de forma a identificar o agente etiológico, permitindo, assim, abordagem terapêutica específica (ZATERKA; EISIG, 2016). ETIOLOGIA ↠ As principais causas de diarreia crônica são síndrome do intestino irritável (SII), doença inflamatória intestinal (DII), síndrome de má absorção e infecção crônica. Esta última, mais relevante em regiões de condições sanitárias inadequadas, com possibilidade de infecções bacterianas, por protozoários ou helmintos (DANI; PASSOS, 2011). Portadores de imunodeficiências apresentam frequentemente diarreia associada a infecções oportunistas crônicas (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O câncer colorretal pode apresentar-se com diarreia crônica, habitualmente com sinais de perda de sangue. O uso de medicamentos também deve ser investigado. Algumas drogas têm efeito secretóriodireto no intestino delgado e no colón, principalmente a fenolftaleína e os derivados antraquinônicos como o sene (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O uso excessivo de dissacarídios não absorvíveis, como o sorbitol, em dietas com restrição de açúcar pode 10 Júlia Morbeck – @med.morbeck causar diarreia osmótica à semelhança de laxativos, como o manitol e o sulfato de magnésio (DANI; PASSOS, 2011). Tumores neuroendócrinos produtores de neurotransmissores com ação secretagoga, como o VIP (peptídio vasoativo intestinal) nos VIPomas e a serotonina na síndrome carcinoide, estão associados à diarreia crônica e intensa. Apesar de constituírem enfermidades mais raras, devem ser lembrados nessas situações (DANI; PASSOS, 2011). EPIDEMIOLOGIA ↠ A diarreia crônica caracteriza-se pela presença diária de três ou mais dejeções pastosas ou aquosas durante pelo menos quatro semanas. É uma afecção relativamente comum que afeta cerca de 5% da população em países desenvolvidos e, apesar da causa mais comum nesses países ser a síndrome de Intestino Irritável (SII), o seu diagnóstico diferencial ainda representa um desafio (CASTRO et. al., 2019). ↠ Em países em desenvolvimento, a diarreia crônica é frequentemente causada por infecções crônicas bacterianas, micobacterianas ou parasitárias, na qual se inclui a amebíase intestinal (CASTRO et. al., 2019). DIAGNÓSTICO HISTÓRIA CLÍNICA ↠ A definição diagnóstica exclusivamente pelo quadro clínico é mais difícil na diarreia crônica devido a suas possíveis etiologias de grande complexidade. Entretanto, a avaliação clínica acurada pode direcionar a investigação complementar, minimizando custos e exposição do paciente (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A caracterização da diarreia como alta (intestino delgado) ou baixa (colón), é uma das formas de classificar e guiar a sequência de propedêutica complementar (DANI; PASSOS, 2011). Na qualificação da diarreia, devemos ter atenção para portadores de incontinência anal. Esses indivíduos apresentam o que denominamos pseudodiarreia. Existe aumento na frequência das evacuações por incapacidade de conter as fezes na ampola retal. Nesta condição, não há aumento da quantidade de água nas fezes nem de seu volume global; portanto, não há diarreia (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O aspecto das fezes, por exemplo, poderá servir como guia na formulação das hipóteses diagnósticas: (ZATERKA; EISIG, 2016). • Diarreia crônica sanguinolenta: apesar de poder ser secundária a infecções bacterianas por Shigella, Salmonella, C. difficile, E. coli e outras, essa forma de apresentação está, mais provavelmente, relacionada à doença intestinal inflamatória. • Diarreia crônica não sanguinolenta: pequena probabilidade de infecções bacterianas mais comuns. A investigação deve ser direcionada para G. lamblia e C. difficile. ↠ Ausência de perda ponderal e de sinais de desnutrição, presença de sintomas predominantemente diurnos, alternância do hábito intestinal com períodos de constipação intestinal, além de crise de dor associada à distensão abdominal e aliviada pela evacuação são sugestivas de síndrome do intestino irritável (SII) (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O início dos sintomas, habitualmente, ocorre em períodos de instabilidade emocional e predomina em adultos jovens. Nestas condições, deve-se evitar investigação invasiva (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Alguns fatores de risco para doenças específicas podem ser encontrados na história. O médico deve pesquisar: (DANI; PASSOS, 2011). • viagens a áreas endêmicas para parasitoses; • sintomas precipitados ou agravados por uso de determinado alimento, como a lactose (intolerância à lactose) ou o glúten (doença celíaca); • comorbidades como o diabetes de longa data e hipertireoidismo que podem cursar com diarreia; • história familiar de doença inflamatória intestinal (DII) ou doença celíaca que apresentam risco de herança genética; • exposição a fatores de risco para contaminação pelo HIV; 11 Júlia Morbeck – @med.morbeck • uso de álcool em doses potencialmente lesivas ao pâncreas; abuso de produtos dietéticos com sacarídeos não absorvíveis; • história medicamentosa EXAME FÍSICO ↠ Ao exame físico, podemos encontrar sinais extraintestinais de determinadas doenças. Na DII, além de massas inflamatórias abdominais, podem ocorrer lesões perianais, lesões cutâneas, aftas orais, olho vermelho e artropatias. Nas síndromes de má absorção e no câncer de colón, devemos procurar sinais de desnutrição, como edema e anemia (DANI; PASSOS, 2011). ↠ O exame físico é importante para determinar a gravidade da doença. Alguns achados podem sugerir o diagnóstico, como: hiperpigmentação cutânea (doença de Addison), flushing, sibilos, sopros cardíacos e hepatomegalia (tumores carcinoides), dermatite herpetiforme (doença celíaca), úlceras orais, episclerite, fissuras, fístulas (DII), linfadenopatia (tuberculose, linfoma, infecção por HIV), diminuição do tônus e contratilidade do esfíncter anal (incontinência anal), sinais de doença vascular periférica (isquemia mesentérica) (ZATERKA; EISIG, 2016). EXAMES COMPLEMENTARES ↠ A orientação do diagnóstico necessita seguir parâmetros clínicos objetivos, em função da complexidade da propedêutica específica. Quando necessária, a solicitação de exames complementares deve guiar-se inicialmente pelas características do quadro diarreico (DANI; PASSOS, 2011). Devem-se avaliar as alterações de caráter funcional na SII. Em casos de dúvida, exames gerais que demonstrem ausência de acometimento sistêmico como hemograma completo sem anemia, leucocitose ou plaquetose e provas de atividade inflamatória (p. ex., proteína C reativa e VHS) normais reforçam o diagnóstico de diarreia funcional (DANI; PASSOS, 2011). Exames laboratoriais Hemograma ↠ Todas as séries hematológicas podem fornecer informações valiosas na pesquisa de diarreia crônica. Na série vermelha, presença de anemia pode estar relacionada com disabsorção ou com perdas. Em enfermidades que promovem perda sanguínea, encontraremos sinais de deficiência de ferro com microcitose e hipocromia (DANI; PASSOS, 2011). Nas síndromes de má absorção, o local do trato gastrintestinal (TGI) acometido determina a deficiência de nutrientes específicos. Assim, doenças que acometem o delgado proximal causam dificuldade de absorção de ferro e ácido fólico com formação de hemácias disfórmicas (poiquilocitose) com micro e macrocitose concomitantes (DANI; PASSOS, 2011). Doenças que lesam o íleo ou que causam insuficiência pancreática dificultam a absorção de vitamina B12 com consequente macrocitose (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Alterações da série branca sugerem diarreia de origem inflamatória. Quando há predomínio de eosinofilia, parasitose intestinal é o diagnóstico mais provável. Porém, devemos considerar a possibilidade de síndrome eosinofílica acometendo o TGI com diarreia crônica, especialmente quando há histórico relevante de atopia (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A plaquetose é marcador inespecífico de processo inflamatório crônico e pode ser encontrada em portadores de DII (DANI; PASSOS, 2011). Provas de atividade inflamatória ↠ Proteína C reativa (PCR), velocidade de hemossedimentação (VHS) e α-1 glicoproteína ácida são bons marcadores de atividade inflamatória. Apesar de inespecíficos, no contexto de diarreia crônica são importantes preditores de DII (DANI; PASSOS, 2011). Perfil nutricional/metabólico ↠ A albumina é nutriente nobre e de meia-vida longa. Sua deficiência está associada a condições com perda nutricional significativa. O perfil lipídico também se altera na desnutrição e na disabsorção. Em diarreias mais intensas, alterações hidroeletrolíticas e disfunção renal são 12 Júlia Morbeck – @med.morbeck frequentes e devem ser pesquisadas(DANI; PASSOS, 2011). Marcadores específicos ↠ O anticorpo anti-endomísio IgA e o anti- transglutaminase tecidual IgA têm alta sensibilidade e especificidade para o diagnóstico de doença celíaca. O anti-transglutaminase, apesar de discretamente superior ao anti-endomísio, é menos disponível e mais caro. O anti- endomísio tem especificidade e sensibilidade em torno de 95% e é útil na triagem de suspeitos de doença celíaca antes da realização de endoscopia para biopsia de delgado proximal (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Anticorpo anti-Saccharomyces cerevisiae (ASCA) e anti- corpo anticitoplasma de neutrófilo perinuclear (pANCA) podem auxiliar no diagnóstico diferencial de retocolite ulcerativa (RCUI) e doença de Crohn. Entretanto, não devem ser usados na avaliação diagnóstica inicial dessas doenças devido à baixa especificidade e sensibilidade. O ASCA tem sensibilidade de 40 a 76% para doença de Crohn e o pANCA, de 60 a 65% para RCUI (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Os hormônios tireoidianos (T3, T4 e T4 livre) e o tireoestimulante (TSH) nos casos de suspeita de diarreia secundária ao hipertireoidismo definem o diagnóstico (DANI; PASSOS, 2011). Estudo das fezes Pesquisa de agentes infecciosos ↠ A maioria das parasitoses intestinais é assintomática nos adultos. A Entamoeba hystolitica e a Giardia lamblia são os agentes infecciosos mais frequentes como causadores de diarreia crônica. O exame parasitológico das fezes tem baixa sensibilidade para estas infecções. A coleta de múltiplas amostras e a análise rápida ao microscópio aumentam a sensibilidade, mas esta não ultrapassa 60% (DANI; PASSOS, 2011). ↠ A pesquisa de antígenos de Giardia por ELISA tem sensibilidade de até 90% com grande valor nos casos suspeitos (DANI; PASSOS, 2011). Sangue oculto ↠ A expressiva frequência de exames falso-positivos e falso-negativos coloca em dúvida sua segurança no sentido de indicar a presença de lesão orgânica como causa da diarreia. Entretanto, os achados conjuntos de sangue oculto e de leucócitos fecais reforçam o diagnóstico de diarreia inflamatória. Além das colites, neoplasias malignas também devem ser consideradas (DANI; PASSOS, 2011). Com o desenvolvimento da imunocromatografia de captura a pesquisa de sangue oculto tornou-se mais sensível e específica. Essa técnica possibilita a detecção de sangue em níveis tão baixos quanto 6 μg de hemoglobina/g de fezes em apenas 5 min. Nesta reação imunológica, não há possibilidade de falso-positivos por fatores da dieta (DANI; PASSOS, 2011). Leucócitos ↠ O método-padrão para sua pesquisa nas fezes (coloração pelo Wright e microscopia) tem sua acurácia dependente da experiência do examinador. A pesquisa de leucócitos fecais é considerada positiva quando há três ou mais polimorfonucleares por campo (DANI; PASSOS, 2011). Gordura ↠ A análise qualitativa se baseia na pesquisa microscópica de gordura corada pelo Sudan III. Uma alternativa é o método semiquantitativo, o esteatócrito, usado principalmente em pediatria, com resultados que se correlacionam melhor com o método quantitativo de Van de Kamer (DANI; PASSOS, 2011). Na análise quantitativa, o paciente deve receber orientação e recursos técnicos que permitam a coleta das fezes em segurança e sem contaminação por urina. Deve ingerir de 70 a 100 g de gordura por dia durante o período de coleta das fezes, de 2 a 3 dias. A excreção normal corresponde a cerca de 9% da gordura ingerida, ficando em torno de 7 g/dia. Valores superiores a esse são considerados anormais e significam esteatorreia. Entretanto, valores entre 7 e 14 g/dia de gordura fecal têm baixa especificidade para diagnosticar defeito primário de digestão ou absorção. Valores acima de 14 g/dia são mais específicos para comprovar má absorção (DANI; PASSOS, 2011). Eletrólitos ↠ As concentrações de eletrólitos são medidas nas fezes após sua homogeneização (por meio manual ou mecânico) e centrifugação da amostra para obter um sobrenadante para a análise (DANI; PASSOS, 2011). Endoscopia Endoscopia digestiva alta ↠ Nos quadros clínicos compatíveis com diarreia alta, a endoscopia digestiva alta pode auxiliar no diagnóstico através da visualização da mucosa do intestino delgado proximal ou de sua análise por biopsia. Entre essas etiologias, estão doença celíaca, parasitoses, doença de Whipple, entre outras (DANI; PASSOS, 2011). 13 Júlia Morbeck – @med.morbeck Colonoscopia ↠ Exame de grande importância no diagnóstico de diarreias crônicas baixas. Além do cólon, o exame se completa com avaliação adicional do íleo distal, região também associada a diarreias inflamatórias baixas. Por ser procedimento mais invasivo, deve ser realizado após triagem clínica e laboratorial adequada que indique forte suspeita de acometimento ileocolônico (DANI; PASSOS, 2011). Cápsula endoscópica ↠ É ferramenta de grande valia na investigação de doenças de grande parte do delgado, inacessível aos métodos endoscópicos habituais. A visualização da mucosa pode definir diagnóstico de enterites em geral. Como desvantagem em relação aos demais métodos endoscópicos, a impossibilidade de coleta de material para análise restringe sua acurácia em determinadas situações (DANI; PASSOS, 2011). Imagem Tomografia computadorizada ↠ A tomografia com contraste oral também auxilia na avaliação do trânsito pelo intestino delgado. Tem bom desempenho especialmente para lesões tumorais dessa área. É menos sensível do que o trânsito intestinal para lesões de mucosas (DANI; PASSOS, 2011). TRATAMENTO ↠ Independentemente do agente causador, a adequada hidratação do paciente, assim como a correção dos distúrbios eletrolíticos, deve ser a etapa inicial e constitui parte indispensável da terapêutica, principalmente em pacientes idosos e com comorbidades associadas (GUILICI et. al., 2019). ↠ Quando a causa é bem definida, o controle clínico dependerá do êxito da terapêutica específica instituída ou da exclusão de agentes causadores da diarreia. Para os pacientes que estão em investigação diagnóstica, deve- se prescrever inicialmente dieta pobre em resíduos, restrição de leite e derivados, utilizando-se medicamentos sintomáticos para a diarreia (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Os agentes antimotilidade, derivados do ópio, também atuam sobre receptores específicos na membrana celular, inibindo a atividade da adenilciclase, diminuindo a concentração intracelular de cAMP, tendo assim atividade antissecretora e inibidora da motilidade intestinal. Embora os derivados sintéticos do ópio (loperamida e difenoxilato) sejam mais utilizados, a morfina e a codeína, por terem ação central e periférica, são mais potentes e mais eficazes em diarreias persistentes de aidético (DANI; PASSOS, 2011). Referências DANI, Renato; PASSOS, Maria do Carmo F. Gastroenterologia Essencial, 4ª edição. Grupo GEN, 2011 QUILICI, Flávio A.; SANTANA, Nelma Pereira de; GALVÃO-ALVES, José. A gastroenterologia no século XXI: manual do residente da Federação Brasileira de Gastroenterologia. Editora Manole, 2019. ZATERKA; EISIG. Tratado de Gatroenterologia da graduação à pós-graduação, 2ª edição. Atheneu, 2016. COSTA et. al. Perfil epidemiológico da diarreia em crianças de 1 a 4 anos no estado de Alagoas. Revista de Atenção à Saúde, v. 19, n. 68, 2021. CASTRO et. al. Entamoeba histolytica como causa de diarreia crônica. Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, v. 14, n. 41, 2019.