Prévia do material em texto
1 Júlia Morbeck – @med.morbeck Objetivos 1- Descrever as principais características da diarreia e constipação na infância e adolescência. 2- Reconhecer os sinais e classificar a desidratação na criança. 3- Discutir sobre as orientações para uso e relevância da TRO. 4- Realizar diagnóstico diferencial e tratamento nas parasitoses na infância. 5- Discutir as afecções cirúrgicas como diagnósticos diferenciais nos casos de constipação e diarreia. Diarreia As doenças diarreicas correspondem a uma das cinco principais causas de ÓBITO no mundo. Desfecho desfavorável é uma preocupação maior na população pediátrica e geriátrica (ESTRATÉGIAMED, 2022). OBS.: Forma de apresentação (sintoma/sinal) de inúmeras doenças diferentes, extremamente polimorfa, podendo ser grave o suficiente para colocar em risco a vida do paciente (ZATERKA; EISIG, 2016). ↠ A frequência normal de defecação varia de 3 vezes/semana a 3 vezes/dia. Como manifestação clínica, a diarreia pode ser descrita como diminuição da consistência das fezes (aumento da fluidez), fezes que causam urgência ou desconforto abdominal ou aumento na frequência de defecação (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). A consistência é definida como a razão entre a água fecal e a capacidade de retenção de água dos sólidos insolúveis fecais, que são compostos de massa bacteriana e fibra alimentar. Como é difícil determinar a consistência das fezes e as fezes são predominantemente (60 a 85%) água, o peso das fezes torna-se um substituto razoável da consistência (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). A diarreia é definida pelo peso ou volume das fezes determinados ao longo de um período de 24 a 72 horas. O peso diário das fezes de crianças e adultos é inferior a 200 g e pesos maiores das fezes são uma definição objetiva de diarreia; no entanto, essa definição omite 20% dos sintomas diarreicos em pacientes que eliminam fezes pastosas com peso inferior a esse peso diário (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). ATENÇÃO: A diarreia é causada principalmente por alterações do transporte de líquido e eletrólitos intestinais e menos por função do músculo liso. A cada 24 horas, 8 a 10 ℓ de líquido entram no duodeno. A dieta fornece 2 ℓ desse líquido; o restante vem das secreções salivares, gástricas, hepáticas, pancreáticas e intestinais. O intestino delgado normalmente absorve 8 a 9 ℓ (80%) desse líquido e apresenta 1,5 ℓ ao cólon para absorção. Do líquido remanescente, o cólon absorve quase 100 mℓ. A diarreia pode resultar do aumento da secreção pelo intestino delgado ou cólon se a capacidade máxima de absorção diária do cólon (4 ℓ) for excedida. Se, por outro lado, houver comprometimento do cólon e não forem absorção nem mesmo dos 1.500 mℓ normalmente apresentados a ele pelo intestino delgado, o resultado será diarreia (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). ATENÇÃO: Quando a DIARREIA é acompanhada de SANGUE E MUCO, recebe o nome de DISENTERIA ou DIARREIA INVASIVA (ESTRATÉGIAMED, 2022). CLASSIFICAÇÃO ↠ Outro importante conceito que envolve as doenças diarreicas diz respeito a classificá-las em aguda, persistente ou de crônica, acordo com o tempo de duração do episódio (ESTRATÉGIAMED, 2022). As diarreias agudas persistem por menos de 2 a 3 semanas ou, raramente, de 6 a 8 semanas. A causa mais comum de diarreia aguda é infecção. As doenças diarreicas crônicas persistem pelo menos 4 semanas e, mais tipicamente, 6 a 8 semanas ou mais (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). ↠ Quanto à etiologia, a diarreia também pode ser classificada em DIARREIA INFECCIOSA ou NÃO INFECCIOSA. As diarreias infecciosas são a principal causa de diarreia aguda (ESTRATÉGIAMED, 2022). Mundialmente, as causas infecciosas apresentam prevalência e impacto maiores na saúde das crianças, principalmente nas menores de 5 anos. Alergias, intolerâncias e erros alimentares, além de alguns medicamentos, estão entre as causas não infecciosas mais frequentes. As diarreias agudas de origem infecciosa têm como principais agentes os vírus, as bactérias e os protozoários (JÚNIOR et al., 2021). ↠ Uma outra forma de classificar a doença diarreica, é quanto a seu MECANISMO FISIOPATOLÓGICO predominante. Essa classificação é válida tanto para diarreias agudas quanto crônicas (ESTRATÉGIAMED, 2022). Diarreia e constipação MARC 14 – “NÃO TÃO SOLTO, NEM TÃO PRESO” 2 Júlia Morbeck – @med.morbeck Diarreia secretora MECANISMO: distúrbio do transporte hidroeletrolítico na mucosa intestinal CLÍNICA: fezes aquosas, volumosas; Ausência de dor; Persiste com o jejum; Osmolalidade fecal preservada; Desidratação. grave e precoce. EXEMPLOS: algumas bactérias, laxativos estimulantes (óleo de rícino, bisacodil), consumo crônico de álcool, olmesartana, diarreia dos ácidos biliares, hormônios (alguns tumores neuroendócrinos funcionantes, carcinoma medular da tireoide). ↠ Ocorre devido à secreção excessiva de fluidos (eletrólitos e água) pela mucosa intestinal, secundários a distúrbio do transporte hidroeletrolítico. Tais fluidos são lançados no lúmen intestinal em quantidade maior do que a que poderia ser reabsorvida, gerando diarreia (ESTRATÉGIAMED, 2022). Essa secreção excessiva de fluidos pela mucosa vai determinar a clínica da diarreia: AQUOSA, VOLUMOSA, NÃO SANGUINOLENTA E PERSISTE COM O JEJUM (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠Trata-se do mecanismo responsável pelas diarreias agudas infecciosas causadas por enterotoxinas. No intestino, a adenosina monofosfato cíclico (AMPc), a guanosina monofosfato cíclico (GMPc) e o cálcio, em condições normais, regulam a saída de água da célula. Alguns microrganismos causam aumento desses mediadores e, consequentemente, há saída ativa de água e eletrólitos para a luz intestinal, culminando nos episódios diarreicos com desidratação precoce e grave. Os principais agentes são a E. coli enterotoxigênica e o Vibrio cholerae (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Dentre as diarreias crônicas, destacam-se o uso de fármacos como causa mais comum de diarreia crônica secretória. A lista de medicamentos que pode causar esse distúrbio é enorme: 5-aminossalicilatos, antibiótico biguanidas (metformina), carbamazepina, colchicina, digoxina, antiinflamatórios não esteroides, sinvastatina, bisacodil, antraquinona, etc (ESTRATÉGIAMED, 2022). OBS.: Algumas substâncias são sabidamente promotoras de aumento da secreção intestinal, como o peptídeo intestinal vasoativo (VIP), histamina, calcitonina, prostaglandinas, serotonina, etc. Assim, alguns tumores que cursam com aumento da produção dessas substâncias podem cursar com clínica de diarreia. É o caso do carcinoma medular da tireoide (calcitonina e prostaglandinas), do carcinoide brônquico primário e de alguns tumores neuroendócrinos funcionantes, como o VIPoma (ESTRATÉGIAMED, 2022). O consumo crônico de álcool promove lesão nos enterócitos, o que compromete a absorção de sódio e água, gerando uma diarreia também do tipo secretória (ESTRATÉGIAMED, 2022). Diarreia osmótica MECANISMO: presença de solutos osmoticamente ativos e pouco absorvíveis, atraindo fluidos para o lúmen intestinal CLÍNICA: diarreia aquosa; Cessa com o jejum. EXEMPLOS: algumas bactérias, vírus, laxativos osmóticos (sais de magnésio), deficiência de lactase, intolerância ao glúten não celíaca. ↠ A diarreia osmótica ocorre pela presença de solutos osmoticamente ativos e pouco absorvíveis no lúmen intestinal. Tais solutos levam à retenção osmótica de água no lúmen, repercutindo em episódios diarreicos. Algumas substâncias, quando ingeridas, apresentam o efeito osmótico sob o lúmen intestinal. É o caso de laxativos, como o hidróxido de magnésio, o sulfato de magnésio e o fosfato de sódio, e de substâncias, como o sorbitol, manitol, xilitol e lactulose. Além disso, na deficiência de lactase, o consumo de alimentos ricos em lactose (leites e derivados) também propicia diarreia osmótica. Isso porque, com adeficiência da lactase, há um prejuízo na degradação e consequente absorção da lactose, gerando resíduo de elevada osmolaridade na luz colônica que impede a absorção da água (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Na diarreia infecciosa osmótica, os microrganismos infectam e destroem as vilosidades intestinais, local onde encontramos as dissacaridases, que são enzimas que digerem os açúcares. Eles, então, acumulam-se na luz intestinal, aumentando a pressão osmótica. Com isso, há aumento da passagem de água e eletrólitos para a luz intestinal. O excesso de açúcar fermentado transforma-se em radicais ácidos, portanto as fezes são aquosas, ácidas e explosivas, podendo causar dermatite perineal. Os principais agentes são os vírus e a E. coli enteropatogênica (ESTRATÉGIAMED, 2022). 3 Júlia Morbeck – @med.morbeck Diarreia esteatorreica MECANISMO: lipídeos não absorvidos no lúmen intestinal apresentam efeito osmótico, levando à diarreia. CLÍNICA: fezes com odor fétido, gordurosas; Perda de peso; Deficit de nutrientes. EXEMPLO: insuficiência pancreática exócrina, pancreatite crônica, fibrose cística, somatostatinoma, doença celíaca, espru tropical, doença de Whipple. ↠ A diarreia esteatorreica ocorre pela má absorção de lipídios (gorduras). Os ácidos graxos não absorvidos no lúmen intestinal apresentam efeito osmótico, principalmente após sofrerem hidroxilação bacteriana, gerando diarreia com fezes oleosas de odor fétido (ESTRATÉGIAMED, 2022). Exemplo clássico desse mecanismo é a diarreia por INSUFICIÊNCIA EXÓCRINA PANCREÁTICA. Quando mais de 90% da função secretora do pâncreas é perdida, o deficit de lipase leva a um prejuízo na lipólise. Com isso, os triglicérides não são adequadamente absorvidos, gerando uma diarreia com perda fecal de gordura. Mecanismo semelhante ocorre na fibrose cística e na pancreatite crônica, a depender do grau de comprometimento pancreático (ESTRATÉGIAMED, 2022). Diarreia inflamatória MECANISMO: inflamação gera exsudação e pode levar a deficit na absorção de gorduras e/ou eletrólitos, hipersecreção ou hipermotilidade pelo estímulo por meio das citocinas inflamatórias CLÍNICA: diarreia com sangue e muco; Febre. EXEMPLOS: doença inflamatória intestinal, enteropatia pós-irradiação, doença enxerto versus hospedeiro, gastroenterite eosinofílica, algumas bactérias. ↠ Nesses casos, citocinas e mediadores inflamatórios promovem hipersecreção e hipermotilidade intestinal, além de poder haver deficit na absorção de lipídios, água e eletrólitos, a depender da porção intestinal afetada. Também podemos ter invasão da mucosa e doença sistêmica secundária (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Nas diarreias inflamatórias, há perda de sangue e muco nas fezes. Além disso, observamos aumento dos leucócitos fecais, bem como níveis elevados de calprotectina e lactoferrina nas fezes (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Os principais agentes da diarreia infecciosa inflamatória invasiva são: Shigella, Salmonella, E. coli enteroinvasiva, Campylobacter, E. coli enterohemorrágica, Entamoeba histolytica e Yersinia (ESTRATÉGIAMED, 2022). OBS.: Na presença de crise convulsiva, pensar em Shigella spp (ESTRATÉGIAMED, 2022). Diarreia motora MECANISMO: trânsito intestinal rápido. CLÍNICA: diarreia sem sangue. EXEMPLOS: hipertireoidismo, fármacos procinéticos, diarreia diabética, síndrome do intestino irritável. ↠ A diarreia motora, conforme sugerido pelo próprio nome, ocorre por uma alteração na motricidade do trânsito gastrointestinal que, ao se apresentar acelerado, leva a um prejuízo na sua capacidade absortiva. É como se “não desse tempo de absorver adequadamente o conteúdo luminal”, gerando perda fecal na forma de diarreia (ESTRATÉGIAMED, 2022). Esse tipo de distúrbio ocorre em pacientes que apresentam síndrome do intestino irritável na forma diarreica, hipertireoidismo e no consumo de fármacos procinéticos, uma vez que todos esses envolvem um aceleramento no trânsito intestinal (ESTRATÉGIAMED, 2022). Pacientes com diabetes podem apresentar neuropatia autonômicas periféricas e generalizadas, cursando com distúrbios da motilidade intestinal (ESTRATÉGIAMED, 2022). 4 Júlia Morbeck – @med.morbeck Diarreia factícia MECANISMOS: distúrbios psiquiátricos que simulam ou provocam diarreia. CLÍNICA: mulheres, história de doença psiquiátrica, hipotensão e hipopotassemia. EXEMPLOS: síndrome de Munchausen, uso dissimulado de laxativos. ↠ O termo “factício” refere-se a “desenvolvido de modo artificial/ não natural” e é utilizado para designar quadros diarreicos que são simulados ou provocados pelo próprio paciente. Na síndrome de Munchausen, o indivíduo finge ou simula o distúrbio para obter ganhos secundários (ESTRATÉGIAMED, 2022). Diarreia iatrogênica ↠ Ocorre após procedimentos cirúrgicos, como ressecção intestinal parcial, gastrectomia ou colecistectomia. Cerca de 5% a 12% dos pacientes submetidos a colecistectomia apresentam diarreia que se resolve em semanas a meses (ESTRATÉGIAMED, 2022). DIARREIA AGUDA ↠ A diarreia aguda geralmente manifesta-se como quadro de instalação súbita em resposta a estímulos variáveis (DANI; PASSOS, 2011). ↠ Uma diarreia é considerada aguda por uma questão temporal, quando os episódios diarreicos duram menos de 14 dias. As diarreias agudas são, geralmente, autolimitadas e causadas, em mais de 90% dos casos, por agentes infecciosos. Também podem ser causadas por medicamentos, intoxicação exógena, alimentos, distúrbios vasculares intestinais, entre outros (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Segundo a Organização Mundial de Saúde, embora as doenças diarreicas agudas (DDAs) sejam evitáveis e tratáveis, elas representam a segunda principal causa de morte no mundo entre crianças menores de cinco anos (ESTRATÉGIAMED, 2022). Rotavírus, norovírus (calicivírus), astrovírus, coronavírus e adenovírus entérico são os mais prevalentes. Os vírus são altamente infectantes e necessitam de baixa carga viral para causar doença. Os rotavírus têm ocorrência universal, sendo os principais responsáveis por episódios de diarreia aguda tanto nos países desenvolvidos quanto naqueles em desenvolvimento. Os norovírus são os principais agentes de surtos epidêmicos de gastroenterites virais transmitidos por água ou alimentos, ocorrendo em todas as faixas etárias. Também podem ser encontrados em quadros esporádicos, e 30% dos casos são assintomáticos (JÚNIOR et al., 2021). As diarreias agudas de causa bacteriana e parasitária são mais prevalentes nos países em desenvolvimento e têm pico de incidência nas estações chuvosas e quentes (JÚNIOR et al., 2021). Os agentes parasitários mais frequentemente envolvidos na etiologia da diarreia aguda são: Cryptosporidium parvum, Giardia intestinalis, Entamoeba histolytica e Cyclospora cayetanensis. A transmissão da maioria dos patógenos que causam diarreia é fecal-oral ou pessoa a pessoa (JÚNIOR et al., 2021). Diarreia aguda não infecciosa MEDICAMENTOS: Alguns medicamentos podem causar diarreia como efeito terapêutico (laxativos) ou como efeito colateral. O mecanismo varia desde dificuldade na absorção da gordura até predisposição à ocorrência de colite pseudomembranosa. A lista de medicamentos que podem cursar com redução da consistência fecal é enorme e citaremos os principais: (ESTRATÉGIAMED, 2022). • Fármacos que causam diarreia em 20% ou mais dos usuários: inibidores da alfaglicosidase (acarbose), biguanidas (metformina) colchicina, etc. • Fármacos que causam diarreia em 10% ou mais dos usuários: antibióticos, quimioterápicos, orlistate, laxativos osmóticos, inibidores seletivos da receptação da serotonina, digoxina, etc. • Drogas que causam diarreia esporadicamente: 5- aminossalicilatos, inibidores da acetilcolinesterase, anticolinérgicos, calcitonina, colestiramina, carbamazepina,estatinas, antiácidos à base de magnésio, anti-inflamatórios não esteroidais, octreotide, inibidores da bomba de prótons, etc. A colite pseudomembranosa caracteriza-se por inflamação intestinal causada por toxinas produzidas pela bactéria Clostridium difficile. Geralmente, associa-se ao uso de antibióticos e consequente alteração da flora intestinal, propiciando a multiplicação da supracitada bactéria. Por esse motivo, a doença afeta principalmente indivíduos idosos, debilitados, após um longo curso de antibioticoterapia. O diagnóstico é feito por meio da pesquisa das toxinas A e B nas fezes. O tratamento da colite pseudomembranosa envolve a suspensão da antibioticoterapia causadora e introdução de antibioticoterapia específica, que pode ser o metronidazol ou a vancomicina ORAIS (ESTRATÉGIAMED, 2022). DIARREIA HOSPITALAR: A diarreia é a doença hospitalar mais comum em pacientes internados em unidades de saúde e em residentes em instituições de longa permanência. As causas comuns incluem diarreia associada a antibióticos, infecção por C. difficile, medicamentos, impactação fecal, nutrição enteral e doenças subjacentes. Laxantes contendo magnésio, antiácidos e lactulose causam diarreias osmóticas. Bisacodil (laxante) causa diarreia secretora. As formulações líquidas de medicamentos causam diarreia (diarreia do elixir) decorrente do alto teor de sorbitol ou de outros açúcares 5 Júlia Morbeck – @med.morbeck não absorvíveis (p. ex., manitol) usados para adoçar o elixir; os pacientes que recebem medicamentos líquidos por meio de tubos de alimentação recebem mais de 20 g/dia de sorbitol. Uma causa importante, mas mal compreendida, de diarreia é a alimentação enteral, particularmente em pacientes em estado grave, que frequentemente desenvolvem diarreia. Dismotilidade, aumento da permeabilidade intestinal e baixo teor de sódio nas fórmulas enterais podem ser fatores contribuintes (GOLDMAN; SCHAFER, 2022). INTOXICAÇÃO EXÓGENA: A ingestão inadvertida de inseticidas organofosforados, carbamatos, arsênico, toxinas pré-formadas em alguns peixes e cogumelos pode gerar um quadro de diarreia aguda, associada a outros sintomas sistêmicos (ESTRATÉGIAMED, 2022). A diarreia associada aos organofosforados e carbamatos é justificada pelo fato de esses compostos serem inibidores da colinesterase, cursando com sintomas colinérgicos, como diarreia, salivação excessiva, broncoespasmo, etc (ESTRATÉGIAMED, 2022). PSEUDODIARREIA: Os lactentes amamentados exclusivamente ao seio materno apresentam fezes amareladas a esverdeadas, semilíquidas e um reflexo chamado de gastrocólico, isso é, aumentam sua motilidade intestinal ao serem alimentados. Em algumas crianças, esse reflexo é exacerbado e elas podem evacuar mais de 8 vezes ao dia fezes explosivas. Não é uma diarreia verdadeira, pois não há mudança na característica das fezes, e a conduta é apenas orientação dos responsáveis (ESTRATÉGIAMED, 2022). ALERGIA ALIMENTAR – ALERGIA À PROTEÍNA DO LEITE DE VACA: Ocorre diarreia por mecanismos imunomediados após exposição ao alérgeno alimentar. Ela ocorre, geralmente, em lactentes jovens, alimentados ao seio materno e pode cursar com raias de sangue, irritabilidade, aumento de gases, perda pôndero-estatural e sintomas sistêmicos de alergia, como anafilaxia, broncoespasmo, urticária e angioedema. O tratamento é a exclusão do alimento da dieta (ESTRATÉGIAMED, 2022). GALACTOSEMIA: É uma doença genética em que o organismo não consegue metabolizar o açúcar, provocando diarreia osmótica, vômito, icterícia e dificuldade de ganho ponderal. A investigação é feita por meio do teste de triagem neonatal e a pesquisa de substâncias redutoras na urina. O tratamento é a restrição da galactose e da lactose da dieta (ESTRATÉGIAMED, 2022). Diarreia aguda infecciosa ↠ A grande maioria das diarreias agudas é de etiologia infecciosa, e uma enorme quantidade de patógenos engrossa a lista dos possíveis agentes etiológicos, entre VÍRUS, BACTÉRIAS, PROTOZOÁRIOS e HELMINTOS. A maioria é transmitida pela via fecal-oral, por meio da ingestão de água e alimentos contaminados. Outros sintomas podem estar associados, como VÔMITOS, FEBRE e DOR ABDOMINAL. Além disso, alguns patógenos podem cursar com DISENTERIA (ESTRATÉGIAMED, 2022). GRUPO DE ALTO RISCO PARA DIARREIA INFECCIOSA VIAJANTES: a “diarreia dos viajantes” é entidade clínica bem conhecida que envolve cerca de 40% dos indivíduos que viajam para América Latina, África e Ásia. Causada principalmente pela Escherichia coli enterotoxigênica, costuma cursar com diarreia após 12 a 72 horas do consumo de água/alimento contaminado. Norovírus é importante causa de diarreia em viajantes de CRUZEIROS (“N” de navio, “N” de Norovírus) CRIANÇAS QUE FREQUENTAM CRECHES E SEUS FAMILIARES: destacamos a infecção por Shigella, Cryptosporidium, Giardia, entre outros agentes. INDIVÍDUOS INSTITUCIONALIZADOS: pacientes com internação hospitalar prolongada, idosos que moram em instituições de longa permanência também têm risco aumentado para diarreia infecciosa. HÁBITOS ALIMENTARES ESPECÍFICOS: consumidores de frutos do mar, principalmente crus, ou indivíduos que frequentam restaurantes, festas, piqueniques, banquetes. Sempre verificar história de outros amigos/familiares com sintomas semelhantes. IMUNODEFICIENTES: portadores de imunodeficiência primária ou secundária como síndrome de imunodeficiência adquirida (SIDA), idosos, pacientes oncológicos em quimioterapia, transplantados e usuários de imunossupressores têm maior risco de evoluir com diarreia infecciosa. Nesse grupo, destacam-se as infecções oportunistas por Mycobacterium, citomegalovírus, herpes simples, Cryptosporidium, Isospora belli, etc. OBS.: Os vírus merecem destaque por serem os principais causadores, entretanto, quando consideramos as diarreias mais graves, as bactérias passam a ser responsáveis pela maioria dos casos (ESTRATÉGIAMED, 2022). 6 Júlia Morbeck – @med.morbeck Para que um desses patógenos possa provocar diarreia, entretanto é necessário que ele “vença” uma série de barreiras de defesa apresentadas pelo hospedeiro. São elas: (ESTRATÉGIAMED, 2022). • Microbiota intestinal: você lembra que o nosso intestino é habitado por várias diferentes espécies de bactérias, não é mesmo?! Essa flora bacteriana rica impede a colonização por patógenos entéricos. O pH ácido e os ácidos graxos produzidos pelas bactérias endógenas são fundamentais no papel de evitar colonização por agentes nocivos. • Motilidade intestinal: os movimentos peristálticos normais do intestino atuam eliminando as bactérias no sentido distal do trato gastrointestinal. Por esse motivo, devem ser evitados os fármacos que “desaceleram” o trânsito intestinal na suspeita de diarreia infecciosa (por exemplo, a loperamida). • Camada de muco intestinal: células secretoras atuam produzindo uma camada de muco única que recobre estômago, intestino delgado, grosso e reto. Essa camada funciona como uma barreira mecânica, além de ser composta por várias moléculas antimicrobianas e imunoglobulinas essenciais na defesa contra potenciais patógenos intestinais ingeridos. • Imunidade: o próprio sistema imune do indivíduo é um importante aliado no combate aos patógenos entéricos, motivo pelo qual os imunodeprimidos são mais facilmente acometidos por diarreia infecciosa. • Ácido clorídrico: o estômago apresenta um pH ácido que é nocivo aos patógenos gastrointestinais. O uso de inibidores de bomba de prótons, ao aumentar esse pH, aumenta o risco de colonização intestinal e o supercrescimento bacteriano. • Genética: os genes influenciam na codificação de mediadores inflamatórios e, portanto, na defesa contra organismos patogênicos capazes de culminar com diarreia infecciosa. Para lutar contra essas várias formas de defesa, os patógenos entéricosdesenvolveram vários mecanismos que propiciam sua patogenicidade, ou seja, permitem que ele provoque a doença aguda mesmo com todo o arsenal que nosso organismo dispõe para evitá-la (ESTRATÉGIAMED, 2022). • Adesividade/aderência: alguns patógenos aderem à mucosa gastrointestinal por meio de proteínas específicas (adesinas, por exemplo), com isso competem com a flora habitual e colonizam o intestino Exemplos: Vibrio cholerae, Escherichia coli enterotoxigênica, Escherichia coli enteropatogênica. • Produção de toxinas: alguns patógenos agem produzindo toxinas causadoras de diarreia aguda. São elas: enterotoxinas que estimulam os mecanismos secretores na mucosa intestinal (aumentam secreção de cloro e reduzem a absorção de sódio), citotoxinas capazes de destruir a mucosa e gerar diarreia inflamatória (disenteria) e neurotoxinas que atuam no sistema nervoso central e periférico, produzindo vômitos. Exemplos: Vibrio cholerae (enterotoxina), Escherichia coli enterotoxigênica, Shigella (citotoxina), Bacillus cereus (neurotoxinas). • Invasão: alguns patógenos podem invadir a mucosa intestinal e destruir as células ali existentes, gerando um quadro de diarreia inflamatória com disenteria e muitos sintomas sistêmicos. Exemplos: Shigella, Escherichia coli enteroinvasiva, Salmonella typhi, Yersinia enterocolitica 7 Júlia Morbeck – @med.morbeck INTOXICAÇÃO ALIMENTAR?! A intoxicação alimentar é decorrente da proliferação de agentes infecciosos produtores de enterotoxinas, antes mesmo do consumo do alimento (toxinas pré-formadas). Devemos suspeitar da chamada INTOXICAÇÃO ALIMENTAR sempre que o período de incubação entre o consumo do alimento suspeito e o desenvolvimento dos sintomas for curto (diarreia, pois dessa forma evita-se a desidratação; não utilizar refrigerantes e de preferência não adoçar chás ou sucos; • Manutenção da alimentação habitual; continuidade do aleitamento materno; • Retorno do paciente ao serviço, caso não melhore em dois dias ou apresente piora da diarreia, vômitos repetidos, muita sede, recusa de alimentos, sangue nas fezes ou diminuição da diurese; • Orientação sistemática do paciente/responsável/ acompanhante para reconhecer os sinais de desidratação; preparar adequadamente e administrar a SRO e praticar ações de higiene pessoal e domiciliar 9 Júlia Morbeck – @med.morbeck (lavagem adequada das mãos, tratamento da água e higienização dos alimentos); • Administração de zinco uma vez ao dia, durante 10 a 14 dias (até os 6 meses de idade 10mg/dia e em maiores de 6 meses até os 5 anos de idade 20mg/dia). Segundo a OMS é importante orientar que se houver aparecimento dos sinais de alerta apresentados no quadro 4 o paciente deve ser reavaliado na unidade de saúde (FERREIRA et al., 2023). PLANO B ↠ Consiste em três etapas direcionadas ao paciente com desidratação, porém sem gravidade, com capacidade de ingerir líquidos, que deve ser tratado com SRO na Unidade de Saúde, onde permanecerá até a reidratação completa (FERREIRA et al., 2023). • Ingestão de solução de SRO, inicialmente em pequenos volumes e aumento da oferta e da frequência aos poucos. A quantidade a ser ingerida dependerá da sede do paciente, mas deve ser administrada continuamente até que desapareçam os sinais da desidratação; • Reavaliação do paciente constantemente, pois o Plano B termina quando desaparecem os sinais de desidratação, a partir de quando se deve adotar ou retornar ao Plano A; • Orientação do paciente/responsável/acompanhante para reconhecer os sinais de desidratação; preparar adequadamente e administrar a solução de SRO e praticar ações de higiene pessoal e domiciliar (lavagem adequada das mãos, tratamento da água e higienização dos alimentos). Se o paciente desidratado, durante o tratamento com o PLANO B, apresentar vômitos persistentes, deve-se administrar uma dose de antiemético ondansetrona. Existe alerta ANVISA para não usar em gestantes. Avaliar cautelosamente uso em lactentes (FERREIRA et al., 2023). Caso após seis horas de tratamento, não houver melhora da desidratação, encaminhar ao hospital de referência para internação, mas na prática considera-se prudente encaminhar se não ocorrer melhora após três a quatro horas (FERREIRA et al., 2023). No PLANO B estima-se que sejam necessários 50 a 100 mL/kg de SRO em quatro a seis horas. O aleitamento materno pode ser mantido, se for tolerado. A alimentação habitual deve ser reiniciada após a fase de reidratação. Pacientes que evoluem com piora ou não resposta ou ainda apresentam doenças graves associadas, principalmente com alteração do sensório, devem receber hidratação venosa de imediato (FERREIRA et al., 2023). É importante avaliar a necessidade de adequações nutricionais para os pacientes desnutridos moderados e graves. Se existir dúvida quanto à classificação do paciente entre PLANO B ou PLANO C, deve-se considerar o pior cenário, estando indicado o PLANO C (FERREIRA et al., 2023). Se o paciente continuar desidratado com pouca tolerância à reidratação oral, a sonda nasogástrica (gastróclise) pode ser utilizada. Se o paciente evoluir para desidratação grave, deve-se seguir para o Plano C (FERREIRA et al., 2023). 10 Júlia Morbeck – @med.morbeck PLANO C ↠ Está indicado nos quadros de desidratação grave, com perda de peso maior que 10%. O diagnóstico é realizado pela presença de pelo menos dois dos seguintes sinais, sendo ao menos um destacado com asterisco: (FERREIRA et al., 2023). • sinais de coma*; • hipotonia*; • letargia* ou inconsciência*; • olhos fundos; • incapacidade de ingerir líquidos; • lágrimas ausentes; • boca muito seca; • sinal da prega abdominal desaparece muito lentamente (mais que dois segundos); • pulsos periféricos fracos ou ausentes*. Sinais de choque hipovolêmico como perfusão lentificada e taquicardia importante são aparentes nessa fase. A acidose metabólica e outros distúrbios hidroeletrolíticos podem acompanhar os episódios de desidratação grave (FERREIRA et al., 2023). ↠ Plano C consiste em duas fases de reidratação endovenosa destinada ao paciente com desidratação grave. Nessa situação o paciente deverá ser transferido o mais rapidamente possível. Os primeiros cuidados na unidade de saúde são importantíssimos e já devem ser efetuados à medida que o paciente seja encaminhado ao serviço hospitalar de saúde (FERREIRA et al., 2023). • Realizar reidratação endovenosa no serviço saúde (fases rápida e de manutenção); • O paciente deve ser reavaliado após duas horas, se persistirem os sinais de choque, repetir a prescrição; caso contrário, iniciar balanço hídrico com as mesmas soluções preconizadas; • Administrar por via oral a solução de SRO em doses pequenas e frequentes, tão logo o paciente aceite. Isso acelera a sua recuperação e reduz drasticamente o risco de complicações; • Suspender a hidratação endovenosa quando o paciente estiver hidratado, com boa tolerância à solução de SRO e sem vômitos. POR QUE USAMOS O SORO FISIOLÓGICO 0,9%? O Soro fisiológico a 0,9% é a solução de escolha para expansão venosa, pois tem osmolaridade semelhante a do plasma sanguíneo, sendo assim, isosmolar ou isotônico (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Após a desidratação ser corrigida, a fase de manutenção pode ser orientada de acordo com o quadro 7 abaixo (FERREIRA et al., 2023). A reidratação por via oral com SRO deve ser iniciada quando o paciente for capaz de ingerir líquidos, geralmente duas a três horas após o início da reidratação endovenosa, concomitantemente ao soro venoso. A reidratação por via endovenosa deve ser interrompida quando o paciente for capaz de ingerir o SRO em quantidade suficiente para se manter hidratado. O volume e consistência das fezes deve ser avaliado e o paciente observado por pelo menos seis horas, com reavaliações quanto ao estado de hidratação (FERREIRA et al., 2023). A alimentação e o aleitamento podem ser reintroduzidos quando houver melhora da desidratação com o paciente hemodinamicamente estável (FERREIRA et al., 2023). Dieta ↠ A dieta deverá ser mantida nos indivíduos com diarreia aguda, bem como o aleitamento materno nos lactentes. Alimentos gordurosos costumam ser mais dificilmente absorvidos no contexto da diarreia aguda, devendo ser evitados. Biscoitos de “água e sal” (cream-cracker), sopas, banana, legumes cozidos, arroz, cereais e refeições leves costumam apresentar maior aceitação por parte do doente (ESTRATÉGIAMED, 2022). Sintomáticos ANTIDIARREICOS: Devem ser prescritos com cautela nas diarreias secretórias, sendo contraindicados na presença de diarreia inflamatória/disenteria, uma vez que podem precipitar quadros de MEGACÓLON TÓXICO, PERFURAÇÃO INTESTINAL e SÍNDROME HEMOLÍTICO- URÊMICA. Exemplos: loperamida, salicilato de bismuto, racecadotril, etc (ESTRATÉGIAMED, 2022). Na pediatria, são contraindicados pela Sociedade Brasileira de Pediatria em qualquer tipo de diarreia aguda infecciosa, apesar de serem liberados em bula (ESTRATÉGIAMED, 2022). 11 Júlia Morbeck – @med.morbeck PROBIÓTICOS: são microrganismos vivos que, quando ingeridos, trariam benefícios ao ser humano. Eles podem ser utilizados no contexto da diarreia aguda com a função de manter ou recolonizar o intestino com flora não patogênica, porém não são de uso obrigatório. Exemplos: probióticos à base de lactobacillus, bifidobacteriu e saccharomyces boulardii (ESTRATÉGIAMED, 2022). Atualmente, não são indicados pela Organização Mundial de Saúde nem pelo Ministério da Saúde(ESTRATÉGIAMED, 2022). ANTIEMÉTICOS: Os antieméticos não são recomendados, pois podem causar sonolência e sedação e, com isso, dificultar a avaliação do estado geral do paciente, além de atrapalhar a terapia de reidratação oral. A única exceção é a ondansetrona, que não tem a sonolência como efeito colateral (ESTRATÉGIAMED, 2022). ZINCO: O zinco tem importante papel na estrutura das enzimas, atua no crescimento celular e no sistema imunológico. Seu uso pode reduzir a duração do quadro diarreico, assim como prevenir a ocorrência de novos episódios por até 3 meses, e é indicado na diarreia infecciosa (ESTRATÉGIAMED, 2022). Antibioticoterapia ↠ A maioria das diarreias agudas infecciosas é causada por vírus, de maneira que a instituição de ANTIBIOTICOTERAPIA nesses pacientes não deve ser rotina. Quando temos um paciente com diarreia aguda, primeiro conduzimos a desidratação, para depois pensarmos se há necessidade de medicamentos (ESTRATÉGIAMED, 2022). Obs.: O Ministério da Saúde preconiza o uso de antibioticoterapia com base na presença de sangue nas fezes (disenteria), em caso de comprometimento do estado geral ou em casos de cólera grave (ESTRATÉGIAMED, 2022). Qual antibiótico deverá ser utilizado? AZITROMICINA ou FLUOROQUINOLONAS (ciprofloxacino ou levofloxacino) têm sido citados pelos principais guidelines internacionais. O Ministério da Saúde preconiza o uso do ciprofloxacino como primeira escolha (ESTRATÉGIAMED, 2022). Vitamina A ↠ Reduz mortalidade e internações em populações com alto risco de deficiência, por exemplo desnutridos. A dose é variável de acordo com o quadro nutricional do paciente, mas em geral é de 50.000 UI em lactentes menores de seis meses de idade; 100.000 UI em lactentes de seis a 12 meses; 200.000 U em crianças maiores (FERREIRA et al., 2023). Prevenção ↠ A higiene, tanto pessoal quanto na manipulação dos alimentos, e o saneamento básico são os principais fatores de prevenção das diarreias. Países pobres, deficientes em água potável e sistema de esgotos têm 12 Júlia Morbeck – @med.morbeck maior prevalência de doenças diarreicas infecciosas (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ O único agente que possui vacina é o rotavírus. Ela está presente no calendário vacinal das crianças do Programa Nacional de Imunizações e é aplicada aos 2 e 4 meses, com intervalo mínimo de 60 dias entre as doses, idade limite de 3 meses e 15 dias para a primeira dose, e 7 meses e 29 dias para a segunda dose. A imunização alcançou uma redução importante na infecção pelo vírus em crianças, mas pode ter hematoquezia como reação adversa até 42 dias após a aplicação (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ O aleitamento materno é fator de proteção por meio da secreção de anticorpos IgA, leucócitos, lisozimas e lactoferrina que eliminam microrganismos e protegem contra enterotoxinas de agentes infecciosos (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Por fim, pacientes infectados precisam manter precaução para impedir a disseminação do microrganismo, de contato especialmente se hospailtizados (ESTRATÉGIAMED, 2022). DIARREIA CRÔNICA ↠ A diarreia crônica ocorre com expressiva frequência mesmo nos países industrializados (DANI; PASSOS, 2011). OBS.: Ao contrário da diarreia aguda, a permanência dos sintomas por tanto tempo poderá exigir investigação cuidadosa de forma a identificar o agente etiológico, permitindo, assim, abordagem terapêutica específica (ZATERKA; EISIG, 2016). Etiologia ↠ São, portanto, distúrbios que podem cursar com DIARREIA CRÔNICA os seguintes: (ESTRATÉGIAMED, 2022). Distúrbios funcionais: desordens funcionais são importantes causas de diarreia crônica em mulheres jovens e nos países desenvolvidos. Aqui, vamos chamar atenção para a síndrome do intestino irritável (SII) na sua forma diarreica. Nessa síndrome, o paciente apresenta dor abdominal em cólica que frequentemente melhora após a evacuação. É comum que os sintomas sejam influenciados por estresse ou fatores emocionais e incomum que despertem o indivíduo durante o sono. A diarreia pode apresentar muco, mas não apresenta sangue. Doenças inflamatórias intestinais: Retocolite ulcerativa e a doença de Crohn são doenças inflamatórias intestinais que afetam sobretudo adultos jovens. Podem cursar com diarreia inflamatória, com sangue e muco, além de perda ponderal e anemia. Colite microscópica: a colite microscópica apresenta dois subtipos: colite linfocítica e colite colagenosa. Como o próprio nome já demonstra, tal colite apresenta alterações ao exame anatomopatológico, porém com exames endoscópicos aparentemente normais. Acomete indivíduos de meia idade e idosos, manifestando-se como diarreia aquosa intermitente. Distúrbios disabsortivos: as síndromes disabsortivas, como intolerância à lactose, doença celíaca síndrome de supercrescimento bacteriano, cursam com diarreia associada a déficit nutricional, podendo haver também distensão abdominal e flatulência. Desordens infecciosas: alguns patógenos intestinais podem gerar quadro de infecção intestinal crônica, portanto cursando com diarreia que dura mais de 4 semanas. É especialmente importante em indivíduos imunocomprometidos. Destacamos a diarreia por Giardia, doença de Whipple, Clostridium difficile, entre outros. Diagnóstico ↠ A anamnese do paciente com diarreia crônica terá muitos aspectos semelhantes ao que já estudamos para a doença aguda, uma vez que apresentam possíveis diagnósticos em comum. Entretanto, na avaliação inicial de um paciente com diarreia crônica, é muito importante tentar identificar características que favoreçam a existência de um distúrbio orgânico ou de um distúrbio funcional (ESTRATÉGIAMED, 2022). 13 Júlia Morbeck – @med.morbeck Quando desconfiaremos de doença orgânica? Na presença de hipotrofia muscular, febre, sangue nas fezes, perda ponderal, massa abdominal palpável, adenomegalias, sinais e sintomas carenciais, anemia, alterações cutâneas específicas (dermatite herpetiforme, eritema nodoso, pioderma gangrenoso) (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Cerca de 2/3 dos casos de diarreia crônica permanecem incertos após a consulta inicial, sendo necessários exames adicionais para melhor avaliação do doente (ESTRATÉGIAMED, 2022). • Hemograma completo: eosinofilia faz-nos pensar em parasitose; anemia faz-nos pensar em doença celíaca, doença inflamatória intestinal, outras doenças disabsortivas ou neoplásicas. • TSH e T4 livre: para avaliação de hipertireoidismo • Anti-transglutaminase IgA: triagem para doença celíaca • Eletrólitos. • Sangue oculto nas fezes: caso positivo, faz-nos pensar em doença inflamatória intestinal, infecção crônica ou neoplasias. • Proteína C reativa (PCR): também utilizado para auxiliar na suspeita de diarreia inflamatória, é de utilidade limitada e deve ser solicitado quando houver indisponibilidade das pesquisas de calprotectina e lactoferrina fecal. • Exames endoscópicos: colonoscopia com biópsia está indicada para pacientes com diarreia crônica e anemia por carência de ferro, na suspeita de doença inflamatória intestinal; para pacientes com indicação de avaliação de câncer colorretal; e pode ser realizada na suspeita de colite pseudomembranosa. • Exames de imagem: tomografia computadorizada ou ressonância magnética são indicadas para avaliação da doença pancreática Tratamento ↠ Em paciente jovem com diarreia aquosa crônica, que melhora com o jejum e piora com consumo de leites e derivados, pode ser tentada prova terapêutica com restrição do consumo de leite (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Em pacientes com histórico de supercrescimento bacteriano e fatores de risco presentes, podemos tentar antibioticoterapia empírica (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Em pacientes com diarreia após colecistectomia ou ressecção ileal, pela possibilidade de diarreia dosácidos biliares, podemos tentar terapêutica com quelante de ácidos biliares (colestiramina) (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Em pacientes com histórico de viagem para área com epidemiologia favorável associada à diarreia e distensão abdominal, podemos pensar em giardíase e tentar prova terapêutica com metronidazol (ESTRATÉGIAMED, 2022). ANTAGONISTAS DE RECEPTOR 5-HT3: alosetrona e ondansetrona podem ser utilizados no alívio da diarreia e na urgência em pacientes com síndrome do intestino irritável (ESTRATÉGIAMED, 2022). Constipação O hábito intestinal normal na criança é muito variável, mas o número de evacuações tende a reduzir com a idade, ocorrendo em média quatro vezes ao dia em lactentes; duas vezes ao dia em crianças de até dois anos e uma vez ao dia após os quatro anos de idade (FERREIRA et al., 2024). MECANISMOS: O processo de evacuação inicia com a dilatação da ampola retal, após a chegada do material fecal, relaxando o esfíncter anal interno e gerando a vontade de evacuar. No momento adequado para evacuar, ocorre aumento da pressão intrarretal, relaxamento da musculatura puborretal, relaxamento do esfíncter externo e saída do conteúdo. A continência fecal depende da percepção, tanto neuromuscular quanto do sistema nervoso central, da necessidade de evacuar e da capacidade de retenção do conteúdo em momento inapropriado para evacuar (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ Na prática, constipação intestinal na criança e no adolescente pode ser definida como a eliminação de fezes endurecidas com dor, dificuldade ou esforço acompanhada ou não por comportamento de retenção para evitar a evacuação, aumento no intervalo entre as evacuações (menos que três evacuações por semana) e incontinência fecal involuntária secundária à retenção de fezes (fecaloma). Podem ocorrer também diminuição do apetite, dor abdominal crônica e laivos de sangue na superfície das fezes, em consequência de fissura anal (JÚNIOR et al., 2021). ATENÇÃO: A constipação intestinal deve ser considerada um sintoma, e não um diagnóstico (ESTRATÉGIAMED, 2022). Estima-se que cerca de 90 a 95% dos casos de constipação intestinal crônica são de natureza funcional. Inclui-se, portanto, nos distúrbios funcionais gastrointestinais que podem ocorrer em qualquer faixa etária (JÚNIOR et al., 2021). Em virtude da falta de uniformidade no diagnóstico dos distúrbios funcionais gastrointestinais, foram desenvolvidos os critérios de Roma, que valorizam as manifestações clínicas para o estabelecimento do diagnóstico, evitando a realização de muitos testes para descartar 14 Júlia Morbeck – @med.morbeck outras doenças. É evidente que, ao avaliar um paciente com um distúrbio funcional, é fundamental estar atento para a presença de indícios sugestivos de doenças que envolvam anormalidades anatômicas, inflamação, infecção ou processos neoplásicos. Na presença desses indícios, o critério de Roma não deve prevalecer até que sejam realizadas as necessárias investigações diagnósticas que permitam descartar o diagnóstico da doença orgânica em questão, a qual pode exigir outro tipo de tratamento (JÚNIOR et al., 2021). ↠ A definição de constipação intestinal funcional na infância mais aceita foi proposta pelos critérios de Roma, com atualização publicada em 2016 (Roma IV) (FERREIRA et al., 2024). CAUSAS MALFORMAÇÕES CONGÊNITAS • Ânus imperfurado • Estenose anal • Ânus anteriorizado • Síndrome de Prune Belly: ausência de musculatura abdominal, criptorquidismo bilateral e malformações do trato geniturinário. • Gastrosquise: malformação da parede abdominal com eventração intestina através do coto umbilical. USO DE MEDICAMENTOS QUE DIMINUEM A MOTILIDADE INTESTINAL • Opioides • Fenobarbital • Antiácido DISTÚRBIOS MUSCULARES OU NERVOSOS DO SISTEMA DIGESTÓRIO • Doença de Hirschsprung (megacólon congênito) • Miopatias ou neuropatias viscerais • Displasia neuronal intestinal DOENÇAS DO SISTEMA DIGESTÓRIO • Doença celíaca • Fibrose cística • Alergia à proteína do leite de vaca e outras alergias alimentares DOENÇA SISTÊMICAS • Diabetes • Hipotireoidismo DISTÚRBIOS METABÓLICOS • Hipercalcemia • Hipocalemia DISTÚRBIOS NEUROLÓGICOS • Encefalopatias crônicas • Mielomeningocele DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS/PSICOSSOCIAIS • Transtorno do espectro autista • Recusa ir em banheiros públicos SEM CAUSA APARENTE • Funcional CLASSIFICAÇÃO ↠ Pode-se classificar a constipação intestinal em aguda ou crônica e em orgânica ou funcional (FERREIRA et al., 2024). ↠ A constipação intestinal aguda pode ocorrer em crianças que apresentem intercorrências clínicas (p.ex. doença infecciosa) por diminuição da ingestão de alimentos e de líquidos, causando redução no volume e ressecamento das fezes. Nesses casos, a normalidade é restabelecida na maioria das vezes com a recuperação do quadro clínico desencadeante, mas pode eventualmente progredir para o início de quadro de constipação intestinal funcional (FERREIRA et al., 2024). ↠ Quando a constipação intestinal é causada por doença orgânica, a natureza real do problema geralmente é evidente na primeira infância e identificada na avaliação clínica. Em crianças maiores, mesmo que possível, raramente há associação com doença orgânica (constipação intestinal funcional) (FERREIRA et al., 2024). CONSTIPAÇÃO FUNCIONAL: É a causa mais comum de constipação na infância, representando entre 90 a 95% dos casos. É um diagnóstico de exclusão, pois as crianças não apresentam qualquer causa orgânica. Geralmente, as 15 Júlia Morbeck – @med.morbeck crianças são "velhas", acima de um ano (ESTRATÉGIAMED, 2022). ATENÇÃO: A constipação funcional deve seguir o ciclo vicioso e não ter sinais de alerta que nos fariam pensar em doenças orgânicas (ESTRATÉGIAMED, 2022). O exame físico clássico é composto de fecaloma palpável no abdome + ampola retal cheia. Podemos ter também distensão e desconforto abdominal (ESTRATÉGIAMED, 2022). DOENÇA DE HIRSCHSPRUNG – AGANGLIONOSE COLÔNICA OU MEGACÓLON AGANGLIÔNICO: A principal causa orgânica e o principal diagnóstico diferencial. Nela, temos um distúrbio congênito do cólon decorrente da ausência de células ganglionares nos plexos mioentérico e submucoso. Com isso, a zona aganglionar é aperistáltica, espástica e, portanto, constitui um obstáculo ao trânsito intestinal. Os segmentos inervados, proximais à área de aperistalse, tornam-se dilatados e há progressiva hipertrofia muscular, tornando a parede intestinal espessada. (ESTRATÉGIAMED, 2022). As crianças, ao contrário das acometidas na funcional, são "jovens", podendo ser neonatos ou lactentes. Isso porque a doença é congênita e não demora a dar sintomas (ESTRATÉGIAMED, 2022). O exame físico clássico é o de um fecaloma palpável abdominal com ausência de fezes na ampola retal. Isso porque as fezes têm dificuldade para chegar até o reto. Além disso, podemos ter a presença de fezes em fita (pois passam pelo segmento estreito) e eliminação explosiva de fezes após estímulo (ESTRATÉGIAMED, 2022). A investigação diagnóstica da DH frequentemente inicia-se com radiografia simples do abdome, porém, com esse exame, apenas conseguimos ver alças dilatadas. Pode ser feito também um enema contrastado. Ele mostra a separação dos segmentos. A biópsia retal é o exame padrão-ouro para o diagnóstico, ela mostra ausência das células ganglionares e hipertrofia de troncos nervosos nos plexos submucoso e mioentérico (ESTRATÉGIAMED, 2022). O tratamento da doença de Hirschsprung é cirúrgico e consiste na ressecção do segmento aganglionar e reconstrução do trânsito intestinal por meio do abaixamento do cólon (ESTRATÉGIAMED, 2022). DIAGNÓSTICO ATENÇÃO: O mais importante, aqui, é definir se a constipação é orgânica ou funcional (ESTRATÉGIAMED, 2022). ↠ O primeiro passo é semprea anamnese detalhada. Precisamos pesquisar quando foi o início do quadro, o padrão das fezes, sua consistência, se elas entopem o vaso sanitário, se há comportamento de retenção e se há incontinência de fezes (ESTRATÉGIAMED, 2022). É necessário conhecer a história clínica do paciente, seus hábitos alimentares, bem como os aspectos sociais e psicológicos da criança e da família (ESTRATÉGIAMED, 2022). 16 Júlia Morbeck – @med.morbeck A escala de Bristol pode contribuir na definição das características das fezes como um complemento à anamnese detalhada que é imprescindível para aplicar os critérios de Roma IV (FERREIRA et al., 2024). ↠ No exame físico, o foco deve ser o abdome, mas sem esquecer a procura por sinais sistêmicos. Malformações, massas, peso, estatura, desenvolvimento neuropsicomotor são alguns exemplos do que devemos pesquisar (ESTRATÉGIAMED, 2022). Na presença de sinais e sintomas de alarme para causas orgânicas, deve ser realizada investigação complementar direcionada (FERREIRA et al., 2024). ATENÇÃO: Exames complementares não são necessários, na maioria das vezes, e devem ser reservados aos pacientes refratários ao tratamento e àqueles que apresentem sinais ou sintomas de alarme (FERREIRA et al., 2024). DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ↠ Alguns dos diagnósticos diferenciais que devem ser considerados em crianças com constipação intestinal (FERREIRA et al., 2024). • Pseudoconstipação intestinal na vigência de aleitamento natural: corresponde ao aumento no intervalo entre as evacuações, no entanto, com fezes amolecidas e eliminadas sem dor ou dificuldade. Pode gerar preocupação para os pais e pediatras e não necessita intervenção terapêutica. Estima-se que prevalência de pseudoconstipação intestinal seja de 5,1% no primeiro semestre de vida (FERREIRA et al., 2024). • Disquesia do lactente: o lactente espreme-se, chora e parece ter dificuldade de evacuar, mas as fezes saem amolecidas, o que é normal para a idade. Ocorre por uma incoordenação entre a vontade de evacuar e o relaxamento da musculatura pélvica e do esfíncter. É uma condição benigna, autolimitada e que não necessita de tratamento (ESTRATÉGIAMED, 2022). • Constipação intestinal funcional (90%-95%). • Constipação intestinal secundária a lesões anais. TRATAMENTO Constipação funcional ↠ É baseada em um tripé: (ESTRATÉGIAMED, 2022). Mudança de hábitos alimentares: A criança deverá modificar a dieta, incrementando o consumo de vegetais e fibras, aumentando a ingesta hídrica e diminuindo a de leite. Treinamento de toalete: O treinamento de toalete é feito colocando a criança no vaso sanitário após as refeições, mesmo que ela não tenha vontade de evacuar, a fim de que ela crie o hábito de aproveitar o reflexo gastrocólico. Entretanto, esse momento deve ser prazeroso, não forçado. Medicamentos: O uso de medicamentos é feito em dois tempos. • Desimpactação: no primeiro momento, o fecaloma precisa ser quebrado em pequenos pedaços para ser eliminado. Esse processo pode durar de 3 a 5 dias. Pode ser utilizado enema com solução fosfatada ou minienemas com sorbitol, por via retal; ou polietilenoglicol (PEG) na dose de 1 a 1,5 g/kg/dia, por via oral. • Manutenção: o segundo passo consiste em utilizar medicamentos para manutenção por via oral. Como resultado, as fezes amolecem e a criança perde o medo de evacuar, assim quebra-se o ciclo vicioso. ↠ O tratamento medicamentoso de manutenção deve ser recomendado por ao menos dois meses e, todos os sintomas de constipação intestinal devem estar ausentes por ao menos um mês, antes de a redução gradual da dosagem da medicação ser considerada (FERREIRA et al., 2024). O polietilenoglicol (PEG) é o medicamento de primeira escolha no tratamento da constipação intestinal funcional em crianças. O PEG é um polímero biologicamente inerte e solúvel em água que é minimamente absorvido no trato gastrointestinal (FERREIRA et al., 2024). 17 Júlia Morbeck – @med.morbeck O PEG interage com as moléculas de água formando ligações de hidrogênio, em uma proporção de 100 moléculas de água por 1 molécula de PEG, o que leva a um aumento adicional na água no conteúdo do cólon (FERREIRA et al., 2024). As preparações estão disponíveis em diferentes formulações e dosagens, que variam entre os fabricantes incluindo o PEG 3350 e o PEG 4000 (os números indicam o peso molecular do produto). O PEG com peso molecular alto e intermediário é considerado atóxico, pois é minimamente absorvido após ingestão oral. Algumas formulações contêm eletrólitos adicionados, como cloreto de sódio, cloreto de potássio, bicarbonato de sódio e sulfato de sódio. A forma farmacêutica em solução pode oferecer mais comodidade posológica e a ausência de eletrólitos melhora a palatabilidade e pode beneficiar a adesão ao tratamento. O PEG pode também ser obtido em farmácias de manipulação (FERREIRA et al., 2024). Sua eficácia é dose dependente, o que significa que doses mais altas levam à evacuação de fezes cada vez mais amolecidas. Após a ingestão oral, leva-se aproximadamente 24 a 48 horas para que seja observado efeito na consistência das fezes (FERREIRA et al., 2024). A dose nesta primeira fase de tratamento é de 1 a 1,5 g/kg/dia por três dias ou até que se perceba que houve esvaziamento das fezes retidas. É possível utilizar enema com solução salina 0,9% (5 a 10 ml/Kg à noite) em menores de um ano e 6 ml/Kg em maiores de um ano) ou enema de fosfato de sódio em pacientes acima de um ano (2,5 ml/Kg). No entanto, esta estratégia tende a ser mais desconfortável e invasiva para o paciente, devendo ser reservada para os casos em que o tratamento com PEG por via oral não seja possível. Pelo fato de existir algum risco de hiperfosfatemia, o enema de fosfato de sódio deve ser evitado (FERREIRA et al., 2024). Para a fase de manutenção, o PEG é superior a outros laxantes orais, sendo recomendado como tratamento de manutenção de primeira linha para constipação intestinal. A dose recomendada é de 0,2 a 0,8 g/kg/dia, podendo ser aumentada ou reduzi da de acordo com a consistência das fezes. O PEG é seguro para uso em longo prazo em qualquer faixa etária, tem poucos e toleráveis efeitos colaterais e sua aceitação via oral é boa (FERREIRA et al., 2024). A lactulose é um dissacarídeo sintético composto de galactose e frutose, não absorvível que aumenta o conteúdo de água nas fezes por efeito osmótico, sendo bem tolerada para o uso prolongado e podendo ser recomendada como segunda opção terapêutica quando o PEG não está disponível, na dose de 1 a 3 mL/kg/dia. Como se trata de um açúcar, este produto pode sofrer fermentação pelas bactérias do cólon, levando a flatulência e cólicas (FERREIRA et al., 2024). O uso de óleo mineral, leite de magnésia e laxantes estimulantes pode ser considerado como tratamento adicional ou de segunda linha. O óleo mineral age como lubrificante e deve ser evitado em pacientes menores de dois anos ou com distúrbios de deglutição associados, e nunca deve ser administrado à força às crianças, pelo risco de aspiração (FERREIRA et al., 2024). ATENÇÃO: Caso não seja tratada, a constipação pode evoluir para um megacólon funcional, em que o intestino permanece dilatado mesmo na ausência das fezes (ESTRATÉGIAMED, 2022). PREVENÇÃO ↠ As diretrizes internacionais não discutem fatores que possam diminuir o risco de constipação intestinal. Com base em evidências epidemiológicas, pode-se dizer que o uso de dieta rica em fibra alimentar e o consumo satisfatório de líquidos, aliados a bom nível de atividade física, são importantes para a promoção da saúde em geral e podem proporcionar menor probabilidade de constipação intestinal (JÚNIOR et al., 2021). ↠ Nos primeiros meses de vida o aleitamento natural exclusivo é um importante fator de proteção. Além das suasinúmeras funções, ao que tudo indica, os oligossacarídios do leite humano estão envolvidos nesse mecanismo de proteção. Nas crianças que não recebem aleitamento natural, a adição de prebióticos (frutoligossacarídios, galactoligossacarídios e polidextrose) nas fórmulas infantis se acompanha da eliminação de fezes com menor consistência e em maior frequência (JÚNIOR et al., 2021). ↠ A época da introdução de alimentos complementares no lactente associa-se com maior probabilidade de início de constipação intestinal. Cuidados com a alimentação complementar são muito importantes para a prevenção de constipação intestinal. O primeiro ano de vida é a época da vida em que tem início cerca da metade dos casos de constipação intestinal grave atendidos em serviços especializados (JÚNIOR et al., 2021). CONSTIPAÇÃO INTESTINAL REFRATÁRIA ↠ Em 2014, constipação intestinal intratável foi definida pelas Sociedades Europeia e Americana de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição para os 18 Júlia Morbeck – @med.morbeck pacientes que não respondem ao tratamento ótimo no período de três meses. Entretanto, o termo refratário vem sendo utilizado com maior frequência e propriedade. Na prática, observa-se que a principal causa de fracasso terapêutico é a falta de tratamento adequado por baixa adesão ou mesmo devido à prescrição de doses baixas administradas de forma não contínua (FERREIRA et al., 2024). ↠ É frequente, também, a falta de plena desimpactação na fase inicial, o que inviabiliza o êxito do tratamento de manutenção. Em geral, no contexto da constipação intestinal refratária discute-se a utilização de outros laxantes ou novas moléculas como lubiprostona, linaclotida e prucaloprida que apesar de apresentarem resultados promissores em adultos, ainda não devem ser utilizadas em crianças e adolescentes (FERREIRA et al., 2024). Referências GOLDMAN, Lee; SCHAFER, Andrew I. Goldman-Cecil Medicina. Grupo GEN, 2022. ZATERKA; EISIG. Tratado de Gatroenterologia da graduação à pós-graduação, 2ª edição. Atheneu, 2016. JÚNIOR, Dioclécio C.; BURNS, Dennis Alexander R.; LOPEZ, Fábio A. Tratado de pediatria. v.1. Editora Manole, 2021. DANI, Renato; PASSOS, Maria do Carmo F. Gastroenterologia Essencial, 4ª edição. Grupo GEN, 2011. FERREIRA et al. Diarreia Aguda Infecciosa. Sociedade Brasileira de Pediatria, 2023. FERREIRA et al. Constipação intestinal. Sociedade Brasileira de Pediatria, 2024.