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TEXTO IV BORKO, H. Information Science: what is it? American Documentation, [s. l.], Jan. 1968. “Now that the American Documentation Institute has voted to change its name to the American Society for Information Science, many of us have been forced to try to explain to friends and colleagues what information science is, what an information scientist does, and how all of this relates to librarianship and documentation.” (p. 1). Interessante notar que essa “dificuldade” em explicar para a sociedade em geral e, mesmo para o meio acadêmico, o que é a Ciência da Informação e o que fazem os profissionais com ela envolvidos, não é um fenômeno novo, mas que já existia desde as primeiras décadas do surgimento da disciplina. Essa dificuldade habita em vários motivos. Um deles é que a própria CI ainda debruça-se sobre a definição de seu objeto de estudo, por ser uma ciência relativamente nova. Assim, se temos dificuldade em definir informação ou mediação da informação, por exemplo, o teremos em definir a própria CI. Um dos outros motivos é o desconhecimento das pessoas acerca da própria Biblioteconomia, área com a qual a CI está intimamente relacionada, estudando vários de seus fenômenos. O trabalho dos bibliotecários, quando não é desconhecido por boa parte das pessoas, é reduzido à guarda de livros. Não é incomum a surpresa ao “descobrir-se” que a Biblioteconomia é um curso superior; sobram expressões jocosas e irônicas quando essa informação é recebida. Também pode ser apontado como motivo o fato de que outras disciplinas também lidam com o objeto “informação”. Assim, circunscrever a CI a um determinado tipo de estudo da informação é um desafio ainda não completado. Causa-nos alívio perceber que, se o próprio Borko, um dos precursores da Ciência da Informação, viu-se envolvido com o dilema de defini-la, nós, exploradores iniciantes desse universo, ainda nos veremos envoltos nessa situação muitas vezes, seja para a nossa família, para os nossos amigos ou para os colegas do meio acadêmico. “Information science is that discipline that investigates the properties and behavior of information, the forces governing the flow of information, and the means of processing information for optimum accessibility and usability.” (p. 1). Essa frase de Borko é uma das queridinhas das bancas de concursos públicos e está, quase sempre, presente nos materiais de estudo dos concurseiros, talvez por sintetizar tão bem o que faz a Ciência da Informação e por se tratar de uma definição dada por um dos precursores do campo. Ao eleger a informação como seu objeto de estudo, a CI deparou-se com a dificuldade em defini-la. Essa dificuldade estende-se aos termos com os quais a informação é estudada em conjunto, por exemplo, a mediação da informação. Muitas são as possibilidades advindas dos estudos da informação, pois ela é um fenômeno basilar na constituição da sociedade, desde os seus primórdios. Não importa a língua, o nível de desenvolvimento, os hábitos culturais: a informação está mais ou menos presente em todas as relações traçadas entre o homem e o mundo que o cerca e, principalmente, entre ele e seus semelhantes. Muitas são as forças que governam o fluxo da informação. Tal governo, feito de forma consciente ou inconsciente, tem o potencial de direcionar a informação para a consecução de diferentes objetivos e para servir a inúmeros interesses, dos mais aos menos nobres. Não à toa ela é o principal ativo da sociedade capitalista atual; o principal recurso para as organizações que pretendem atuar de forma diferencial, transformadora e inovadora. Esse protagonismo dado pela CI à informação impactou diretamente a Biblioteconomia, especialmente pelo movimento feito pelos bibliotecários ao saírem do paradigma custodial em direção ao paradigma do acesso. Entender os sujeitos que procuram a informação, o modo como a acessam, as aplicações que farão em suas vidas a partir do seu uso tornou-se preocupação diária dos bibliotecários. Ainda que resistam resquícios de uma biblioteconomia voltada para a guarda e pouco afeta às pessoas, qualquer ambiente informacional em que o bibliotecário atue e que não considere os indivíduos em suas várias necessidades e a informação em seus vários aspectos e propriedades, está agindo de forma anacrônica e em descompasso com as intensas transformações pelas quais o mundo passa. “It is an interdisciplinary science derived from and related to such fields as mathematics, logic, linguistics, psychology, computer technology, operations research, the graphic arts, communications, library science, management, and other similar fields. (p. 1). Conforme apontado anteriormente, uma das dificuldades da Ciência da Informação em definir seu objeto de estudo a contento reside, justamente, nessas inúmeras conexões com outras disciplinas, cada qual definindo informação de acordo com a suas diferentes formas de investigação da realidade. A matemática e a lógica exerceram grande influência no momento primeiro de constituição da CI. Os pesquisadores buscavam formas de delimitar o campo como ciência e, para tal, precisaram dar à informação um aspecto de tangibilidade mínima, que permitisse o seu reconhecimento enquanto objeto de estudo concreto. Surge aí a famosa Teoria Matemática da Comunicação, de Shannon e Weaver, uma das bases de constituição da Ciência da Informação, preocupada com a transmissão de sinais entre um emissor e um receptor. Tal influência constituiu um universo para a CI envolto no paradigma físico. Décadas depois, esse paradigma vai dando lugar de protagonismo ao paradigma cognitivo, no qual a mente do sujeito é comparada a uma máquina processadora de informações. Aqui, vemos forte influência da Psicologia e da Ciência da Computação. Já a Biblioteconomia está intrinsecamente relacionada com a Ciência da Informação. Há diferentes visões sobre essa relação: de dependência da primeira em relação à segunda; de independência de ambas, porém com conexões constantes; de continuidade da segunda em relação à primeira. É inegável a contribuição da CI para a reflexão contínua do papel do bibliotecário, sobretudo na sociedade contemporânea, em que as transformações acontecem a todo instante e seus produtos têm tanta volatilidade graças, entre outros aspectos, à influência da tecnologia. Por outro lado, é paradoxal perceber que, ao mesmo tempo em que possui relações com várias áreas do conhecimento, a Ciência da Informação ainda seja tão desconhecida por elas. Esse problema pode ser encarado sob diversas ópticas. Talvez a principal delas sejam as gaiolas epistemológicas, como cunhou D’Ambrosio, nas quais os pesquisadores das diferentes áreas do conhecimento se trancam, incluindo os da CI, não se permitindo voar em direção a outros ares para conhecê-los. Esse isolamento e falta de interação entre disciplinas do saber científico é perceptível em instituições de ensino, onde departamentos convivem lado a lado, porém com pouca ou nenhuma interação. “As a result of these pressures, the existing methods for exchanging information have been found wanting. Information science has not kept pace with other scientific developments, and now there is a need to concentrate efforts in this field and to catch up.” (p. 2). A Ciência da Informação surge nesse contexto de intensas produções e trocas informacionais originadas na Segunda Guerra Mundial, caracterizando a conhecida explosão informacional ou explosão documental. Como fazer um campo novo acompanhar o ritmo de ciências cujos objetos de estudo já estavam bem definidos há séculos, como a matemática e a física? Como dizer do que a Ciência da Informação se ocupa, sem saber exatamente o que é a informação e o que, nela, há de característico para a CI, diferenciando-se da sua abordagem em outras áreas que também lidavam com a informação? Para dar respostas a essas perguntas e para constituir a CI como um campo formal e reconhecido, foi que seus precursores envidaram seus esforços nos anos iniciais de constituição da disciplina. A CI, caracterizada como Ciência Sociale intimamente relacionada com as Ciências Humanas, herdou delas as desconfianças direcionadas de outras áreas do conhecimento, a caracterização como pré-paradigmática e os esforços recorrentes em demonstrar que a realidade tal qual estudada por essas disciplinas acompanha um ritmo diferente do estabelecido pelo paradigma dominante da ciência, fechado no racionalismo. As pressões sobre as ciências humanas e sociais exercem-se fortemente nos dias atuais, especialmente com a ascensão e propagação de discursos que reduzem o conhecimento e seus modos de produção e aplicação a aspectos práticos, utilitaristas e reducionistas. Tais pressões não devem desmotivar CI e suas áreas correlatas, mas motivá-las e inspirá-las para mostrar à sociedade em geral a sua importância na compreensão dos sujeitos e dos sujeitos informacionais em duas diversas dimensões. “Within information science there is room for both the theoretician and the practitioner, and clearly both are needed. Theory and practice are inexorably related; each feeds on the work of the other.” (p. 2). Não é incomum nos depararmos com definições ou relatos que coloquem teoria e prática como atividades opostas, diferentes ou não relacionadas. Teoria e prática são, pelo contrário, elementos complementares constituintes das ciências, dos diferentes campos de estudo e de suas atividades. A teoria implica a reflexão constante, o questionamento, os esforços para entender não só o funcionamento de algo, mas os atores as motivações por trás desse algo, os interesses, as forças que o regem bem como a sua destinação, os sujeitos que serão afetados e o modo como utilizarão esse “algo” em suas vidas. Por meio da teoria estabelecem-se marcos epistemológicos, inclinações de estudos e conexões entre pesquisadores. Ela cria condições para que as atividades práticas sejam conduzidas de forma consciente, crítica e sistemática, levando em consideração todas as nuances envolvidas em um processo. A prática propicia situações sobre as quais as teorias irão debruçar-se e estabelecer suas investigações e apontar caminhos para a solução de problemas. Um exemplo de como teorias e práticas podem ressignificar os papéis dos entes nela envolvidos é a própria influência mútua entre Biblioteconomia e Ciência da Informação. Durante muitos séculos predominou nas bibliotecas o pensamento custodial, do trancafiamento das obras, do conhecimento acessível para poucos e sob regras que fizeram esses espaços classicamente concebidos como espaço de silêncio. Conforme a Documentação surge e, posteriormente, a Ciência da Informação, as bibliotecas se deparam com um processo de ressignificação intenso, principalmente por conta das discussões envolvendo seu papel na chegada da sociedade da informação e do conhecimento, a qual requer espaços que promovam a democratização da informação. Assim, bibliotecas, bibliotecários e usuários da informação têm seus lugares no mundo atualizados e redirecionados, muito por conta dos estudos desenvolvidos nas pesquisas em Ciência da Informação. Teoria e prática são, pois, instâncias que se beneficiam mutuamente. Para cada aplicação é necessária uma fundamentação teórica mínima por trás, ainda que de maneira inconsciente. Para cada teoria, é necessária uma situação do mundo concreto à nossa volta, a qual será analisada em suas diversas propriedades e refletida para encontrar soluções para os problemas que a cercam. “There is a constant interplay between research and application, between theory and practice. As is most every scientifically based discipline, the researchers form a small but vocal minority.” (p. 2). Conforme discorremos no tópico anterior, teoria e prática estão em interação constante, conforme afirma Borko. Tal interação produz conhecimentos e produtos desses conhecimentos que, em primeira instância, destinam-se à melhoria da vida de todas as pessoas. Acreditamos que a minoria que os pesquisadores constituem pode encontrar explicações em vários aspectos da realidade, mais evidentes ainda quando falamos da realidade brasileira. Primeiro, nossos sistemas educacionais de base não preparam os estudantes adequadamente para entender o que é pesquisa, sua constituição, seus modos de realização As pesquisas que realizamos nas escolas, enquanto estudantes, comumente se confundem com ir atrás de uma informação e replicá-la, muitas vezes, sem a devida reflexão ou, até mesmo, sem o devido crédito. Assim, no momento em que escolhemos, na vida adulta, por quais áreas iremos enveredar, nossa visão limitada da pesquisa nos afasta de enxergá-la como uma possibilidade real para nossas vidas. Segundo, a desigualdade socioeconômica à qual a maioria da população está submetida conduz, vai conduzindo as pessoas para o exercício de atividades mais práticas, mais concretas, de produtos e serviços mais perceptíveis e tangíveis e que possam ser apropriados e trocados por bens materiais no menor tempo possível. Nesse universo capitalista e desigual, especialmente nos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, os pesquisadores se deparam com inúmeros problemas de financiamento de suas atividades, especialmente aqueles das ciências humanas e sociais: cortes no orçamento e sucateamento dos espaços são constantes, principalmente nos órgãos públicos. Fazer pesquisa nessas condições é um ato quase heroico. A ciência dessa realidade pode fazer com que muitos optem por não enveredar por esse caminho. Há ainda o distanciamento da atividade científica da sociedade em geral, o que faz com que esta desconheça ou mesmo interprete erroneamente como se desenvolve a atividade do pesquisador, acabando por desvalorizá-lo. São inúmeras as nuances envolvidas nas interações entre teoria e prática. Conhecê-las possibilita o entendimento de que ambas são necessárias para a construção do conhecimento e para sua aplicabilidade.