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PRÁTICA DE ENSINO: METODOLOGIA E INSTRUMENTAÇÃO PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS PROFESSORES Me. João Luis Dequi Araújo Me. Marina Mariani Weber Mezzaroba ACESSE AQUI O SEU LIVRO NA VERSÃO DIGITAL! EXPEDIENTE C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância. ARAÚJO, João Luis Dequi; MEZZAROBA, Marina Mariani Weber. Prática de Ensino: Metodologia e Instrumentação para o Ensino de Ciências. João Luis Dequi Araújo. Marina Mariani Weber Mezzaroba. Maringá - PR.: UniCesumar, 2020. 184 p. “Graduação - EaD”. 1. Ensino 2. Prática 3. Ciências. EaD. I. Título. FICHA CATALOGRÁFICA NEAD - Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4Jd. Aclimação - Cep 87050-900 | Maringá - Paraná www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 Coordenador(a) de Conteúdo Arthur Cantareli, Jhonny Coelho e Thayla Guimarães Editoração Bruna Stefane Martins Marconato Ellen Jeane da Silva Design Educacional Ivana Cunha Martins Revisão Textual Cindy Mayumi Okamoto Luca Ilustração Bruno Cesar Pardinho Fotos Shutterstock CDD - 22 ed. 372.3 CIP - NBR 12899 - AACR/2Impresso por: Bibliotecário: João Vivaldo de Souza CRB- 9-1679 Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi DIREÇÃO UNICESUMAR NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Diretoria Executiva Diretoria de Design Educacional Débora Leite Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Head de Curadoria e Inovação Tania Cristiane Yoshie Fukushima Gerência de Processos Acadêmicos Gerência de Curadoria Carolina Abdalla Normann de Freitas Gerência de Contra- tos e Operações Jislaine Cristina da Silva Gerência de Produção de Conteúdo Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey Supervisora de Projetos Especiais O ENSINO DE CIÊNCIAS PLANO DE ESTUDO A seguir, apresentam-se as aulas que você estudará nesta unidade: • O que é ciência? • Para que e como ensinar Ciências • A trajetória do ensino de Ciências • O ensino de Ciências na contemporaneidade. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM Discutir os subsídios teóricos para a compreensão da construção da ciência • Relatar a importância do ensino de Ciências para a sociedade • Conhecer o ensino de Ciências ao longo da história • Estudar as contribuições das diferentes correntes epistemológicas para a didática de Ciências. PROFESSORES Me. João Luis Dequi Araújo Me. Marina Mariani Weber Mezzaroba U N ID A D E 1 10 O QUE É CIÊNCIA? Olá, caro(a) aluno(a)! Nesta disciplina, trabalharemos diversos assuntos concernentes ao universo professor-aluno-conteúdo, dando ênfase à disciplina de Ciências, que é o nosso foco. Sendo assim, primeiramente, trataremos da definição de ciência de maneira mais abrangente e diversa das suas nuances. Vamos lá? A ciência está presente em nosso cotidiano de maneira inerente desde que a huma- nidade começou a se interessar em observar os fenômenos naturais que ocorriam ao seu redor. Talvez, não de maneira sistematizada, mas quando o ser humano começou a se atentar às dinâmicas ocorrentes na natureza e que influenciavam diretamente sua vida cotidiana e bem-estar, ele começou a criar algumas técnicas, teorias, crenças e alguns- valores. Dessa forma, começou a adotar, em seu cotidiano, o exercício do pensamento racional e a compreensão de mundo (PARANÁ, 2006), possibilitando o surgimento dos primórdios da ciência. Atualmente, em nosso cotidiano, a ciência é respeitada pela sociedade e isso se deve, majoritariamente, ao grande sucesso alcançado pelas áreas da física, química e, principal- mente, da biologia, pois, quando é atribuído o adjetivo “científico” a qualquer afirmação, ela passa a ter alto teor de confiabilidade. Por exemplo, ao testar determinado produto cientificamente e ter a sua função comprovada, este item adquire mais credibilidade entre seus usuários e, por consequência, também atribui mais confiança aos seus possíveis consumidores. Isso se deve visto que é de conhecimento de todos que, se tal produto foi testado cientificamente, então, o seu resultado está assegurado pela ciência. U N IC E S U M A R 11 Esta expressiva credibilidade da ciência não está restrita apenas ao cotidiano de nossa sociedade, mas também e, principalmente, ao universo acadêmico, pois é dele que surgem os primeiros estudos, as primeiras hipóteses, os primeiros testes e os primeiros resultados, os quais, concomitantemente ou em sequência, passam para o ramo empresa- rial e industrial, a fim de que se tornem reconhecidos pelas mídias e pela população geral. Diante disso, devemos compreender que a ciência é uma reunião de fatos, teorias e métodos que se desenvolve em estágios de conjuntos de técnicas, para que seja possível articular, aplicar e testar essas teorias das quais ela foi formada (CHALMERS, 1993). Pode-se dizer que a construção do pensamento científico e das ciências é análoga a uma construção arquitetônica que também é delineada em diversas partes sequenciais e subsequenciais bem elaboradas, pois se faz necessária, primeiramente, a construção de uma base sólida, para que, assim, possam ser construídas as novas etapas de prossecução do conhecimento científico. Esse trabalho de construção da ciência e de seu pensamento enquanto conhecimen- to é como um modelo de processo cumulativo em que cada nova descoberta e novo aprendizado se complementam aos anteriores, fazendo que se chegue a um novo estado de conhecimento ao se deparar, cada vez mais, com novas informações. Além disso, é necessário reforçar que o processo cumulativo de conhecimentos construídos ao longo do tempo ocorre em etapas, já que ele necessita de uma base mínima de conhecimento, mas não acontece, necessariamente, de maneira linear e sequencialmente lógica, como em uma receita. Trabalharemos este aspecto adiante, quando abordarmos o conteúdo de uma sequência didática. Ainda em relação à definição da ciência, deparamo-nos com diversos estudos que se iniciaram em meados do século XVII, nos quais vários pesquisadores tentaram delinear métodos para que a ciência fosse conceitualmente formada. Esses estudos foram nomea- dos de Filosofia das Ciências e, com eles, foi possível concluir que a ciência se difunde muito com o que é conhecimento, pois é um campo de investigações e um conjunto de diversos métodos organizados de maneira objetiva, com os quais é possível formar o conhecimento científico. Quando falamos de conhecimento científico, devemos diferenciá-lo dos outros tipos de conhecimentos que existem, pois somente é científico aquele que está claramente vinculado às ciências. Dessa forma, citamos o que chamamos de conhecimento popular, que também é denominado conhecimento de senso comum. Este tipo de conhecimento, muitas vezes, é real, verdadeiro e aplicável em diversas situações, porém, pelo fato de que não possui embasamentos teóricos, estudos e aplicações comprovadas, deve ser U N ID A D E 1 12 compreendido apenas como um conhecimento cotidiano banalizado. Exemplifiquemos de maneira simples. Um agricultor sabe que se faz necessária a irrigação de seu cultivo em épocas de seca bem como sabe que deve ser feita a rotação de culturas plantadas para que o seu solo continue fértil. Esse agricultor possui um conhecimento de senso comum, pois visualiza, em sua plantação, que há a necessidade de irrigação, seja pelo solo seco, seja pelo aspecto de sua plantação. O mesmo acontece com a rotatividade de cultura, uma vez que, apesar de o agricultor, muitas vezes, não ter o conhecimento de que cada plantação necessita de mais de um tipo de determinado nutriente para crescer e se desenvolver, ele percebe que, quando faz a rotatividade de cultura, suasplantas crescem com mais viço. Com esta percepção, também é passado o conhecimento popular para as próximas gerações, mesmo sem verificar o que, de fato, ocorre quando não é feita a rotatividade de cultura. Outro tipo de conhecimento popular que, muitas vezes, recai no senso comum, é a crença popular de que a cobra coral “morde pelo rabo”. Muitos moradores de regiões agrí- colas têm e transmitem esse conhecimento, o qual não é real. Para explicar esta situação, em seu livro, a professora Oliveira (1997) relata que, mesmo após a explanação sobre a anatomia da referida cobra em um curso de formação continuada para professores de Ciências, um de seus alunos era taxativo em dizer que jamais que o seu próprio pai acre- ditaria que a cobra coral, ao perceber o perigo, andava de ré e, assim, aplicava o seu bote. U N IC E S U M A R 13 Sendo assim, compreendemos que aquilo que difere o conhecimento popular do científico não é apenas o conhecimento em si, mas a maneira como é observado e com- preendido determinado fenômeno. Não só, mas também como esse conhecimento será posteriormente utilizado e aplicado, pois: “ a) A ciência não é o único cami- nho de acesso ao conhecimento e à verdade. b) Um mesmo objeto ou fenômeno - uma planta, um mineral, uma comunidade ou as relações entre chefes e subordinados - pode ser matéria de observação tanto para o cientista quanto para o homem comum; o que leva um ao conhecimento científico e outro ao vul- gar ou popular é a forma de observação (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 76). Para tanto, o nosso conhecimento cotidiano pode e deve ser levado em consideração no nosso dia a dia, principalmente durante um processo de ensino-aprendizagem, no qual se faz de extrema importância enquanto conhecimento prévio (trabalharemos este assunto ainda nesta unidade). Contudo não pode ser considerado como absoluto e fiel, já que, assim como sustentam Marconi e Lakatos (2003, p. 77), o conhecimento popular possui algumas características específicas que o fazem não ser completamente fidedigno: Para Ander-Egg (1978, p.13-4), o conhecimento popular caracteriza-se por ser pre- dominantemente: ■ Superficial, isto é, conforma-se com a aparência, com aquilo que se pode com- provar, simplesmente, estando junto das coisas: expressa-se por frases como “porque o vi”, “porque o senti”, “porque o disseram”, “porque todo mundo o diz”. ■ Sensitivo, ou seja, referente a vivências, estados de ânimo e emoções da vida diária. ■ Subjetivo, pois é o próprio sujeito que organiza suas experiências e conheci- mentos, tanto os que adquire por vivência própria quanto os “por ouvi dizer”. ■ Assistemático, pois esta “organização” das experiências não visa a uma sistema- tização das ideias, nem na forma de adquiri-las, nem na tentativa de validá-las. ■ Acrítico, pois, verdadeiros ou não, a pretensão de que esses conhecimentos o sejam não se manifesta sempre de forma crítica. U N ID A D E 1 14 Estas cinco características citadas pelas autoras demarcam que o conhecimento popular de senso comum não é algo sistematizado, pois é apenas apresentado de forma ordi- nária como aquilo que se observa e é aprendido em nossa vida cotidiana, sem estudos ou embasamentos teóricos. Já para poder afirmar que um conhecimento é de cunho científico, é necessário organizá-lo e sistematizá-lo, para que, assim, possa ser estudado, compreendido e aplicado. Além disso, ele deve ser, de acordo com Marconi e Lakatos (2003), um conhecimento: ■ Real (factual), pois denota algo que, de fato, existe, ocorre e se vê. ■ Contingente, visto que pode ser evidenciado ou refutado pela experimentação, e não somente pela simples razão ou argumentação. ■ Sistemático, já que possui uma sequência lógica e conexa. ■ Verificável, uma vez que é verificado por meio de experimentações. ■ Falível, porque apesar de ser testado, novas proposições e/ou técnicas podem surgir e reformular a teoria existente. Diante do exposto, é possível compreender que, para fazer e falar em ciência, é necessário trabalhar com condições verdadeiras (reais) e que tenham meios para que possam ser experimentadas pelas teorias existentes, por intermédio de métodos organizados e de forma sistemática. Apesar de haver uma separação conceitual entre esses dois tipos de conhecimentos, é necessário enfatizar que eles podem coexistir em uma mesma pessoa, até mesmo porque o conhecimento popular de senso comum pode levar a uma observação que desenca- deará um questionamento, o qual, por consequência, desencadeará uma pesquisa que trará, então, resultados de cunho científico. A definição de ciência que ainda pode ser considerada a mais acurada e atual, apesar de ser da década de 70, é a que defende que a “ciência é todo um conjunto de atitudes e atividades racionais, dirigidas ao sistemático conhecimento com objeto limitado, capaz de ser submetido à verificação” (FERRARI, 1974, p. 8 apud MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 80). Além disso, ela possui uma finalidade ou um objetivo para distingui-la e uma função em relação ao ser humano com o mundo. U N IC E S U M A R 15 PARA QUE E COMO ENSINAR CIÊNCIA? Caro(a) aluno(a), nos processos de formação de professores, sejam eles de cunho inicial, como nas graduações, sejam de formação continuada, como nas especializações, cursos de extensão e afins, é observável que nem sempre são muitos claros: i) o motivo pelo qual ensinar Ciências; ii) o que ensinar; e iii) a maneira de ensinar. Entretanto é de comum acordo que a maneira como se ensina é tão importante ou, até mesmo, mais importante do que o conteúdo que, efetivamente, se trabalha em sala de aula. Dessa forma, buscar e desenvolver maneiras para que o conteúdo dê sequência em sala de aula não é algo paralelo ao trabalho do professor, mas intrínseco, e deve ser trabalhado em conjunto com a elaboração do plano de ensino e junto aos conteúdos programáticos previamente estabelecidos. Transposição didática Já sabemos que, para que os conhecimentos das Ciências possam ser assim denomina- dos, deve-se haver um conjunto de métodos bem sistematizados e aplicados, mas esses conhecimentos se diferem muito daquilo que é, efetivamente, ensinado em sala de aula. Neste tocante, é necessário compreender que aquilo que se ensina e se aprende na escola enquanto Ciências se refere a uma disciplina estruturada, com a finalidade de permitir que os alunos tenham acesso ao conhecimento produzido pela sociedade acadêmica e U N ID A D E 1 16 científica. Assim, para que este conhecimento possa chegar até a sala de aula das séries iniciais e finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, faz-se necessário realizar o que chamamos de transposição didática, pois a maneira pela qual o professor transpõe o conhecimento para os seus alunos é de extrema importância para que esses sujei- tos compreendam o contexto no qual a disciplina está inserida e de que forma aquele conteúdo pode ser aplicado em sala de aula e em seu cotidiano. Sendo assim, segundo Chevallard (1991, p. 39): “ Um conteúdo do conhecimento, tendo sido designado como saber a ensinar sofre então um conjunto de transformações adaptativas que vão torná-lo apto a tomar lugar entre os “objetos de ensino”. O “trabalho” que, de um objeto de saber a ensinar faz um objeto de ensino, é chamado de transposição didática. Dessa forma, compreendemos que a transposição didática nada mais é do que uma transformação, realizada pelo professor, do saber científico ou “saber sábio”, assim como é chamado por Chevallard (1991), em um conhecimento que possa ser ensinado aos alunos, levando em consideração diversos fatores, como faixa etária estudantil, série em que os alunos estão inseridos, conhecimentos prévios estudantis e os conhecimentos já ensinados pelos professores e internalizados por estes estudantes. Nesse ínterim, é extrema importância diferenciarmos o saber científico dosaber escolar. O saber científico possui uma estreita conexão com o saber acadêmico, que é desenvolvido por pesquisas realizadas dentro das universidades para cunho de investi- gação e aplicação. Esse é um saber mais denso, com diversos fatores e nuances, as quais são extremamente necessárias para a sua funcionalidade, entendimento e aplicação, mas, muitas vezes, desnecessárias ou extensas para o saber escolar. Considera-se que, no decorrer do processo de transposição desses conhecimentos, o saber científico sofra diversas transformações, deformações, adaptações e modifica- ções realizadas pelo docente e, até mesmo, pelos livros didáticos, os quais também são escritos por professores. Isso se deve porque é observável que essa transformação do saber científico em saber escolar se difere de professor para professor, pois transcorre da relação que o educador possui com o conceito a ser ensinado e da sua relação com o mundo a sua volta (como o conhecimento de metodologias, de técnicas, o acesso a recursos, entre outros, por exemplo). U N IC E S U M A R 17 Sobre a temática, Cruz (2016) apresenta o trabalho deJosse (1992), que realizou um estudo comparativo entre o discurso de dois professores de uma mesma disciplina em relação a um mesmo conteúdo. Este estudo foi capaz de deliberar que, apesar de os planos de ensino desses professores apresentarem o mesmo objetivo final para um mesmo con- teúdo, houve diferenças consideráveis entre aquilo que estava previsto por cada um em seus planos de aulas, entre o desenvolvimento do assunto durante as aulas e em relação à aprendizagem dos alunos sobre o conteúdo apresentado. Diante disso, conclui-se que o saber científico abandona partes de seu formato primário e origina o saber escolar, em que, raramente, o aluno possui acesso ao saber original da mesma forma que surgiu (pelo fato de ser muito mais complexo e menos palpável). O saber escolar é apresentado, portanto, como uma forma didática de conhecimento a fim de que possa ser exposto ao aluno, além de estar estritamente vinculado ao trabalho do professor e ser registrado no plano de ensino. Nesse saber, há a transformação, inclusi- ve, dos próprios objetivos do conhecimento, para que se tenha apenas cunho educacional enquanto uma teoria didática. Pode até causar estranheza, em primeira instância, susten- tar que o saber escolar deve ser de cunho teórico-didático e não aplicável, mas esse fato enfatiza que esse saber não, necessariamente, será aplicado nas mesmas circunstâncias para as quais foi desenvolvido. No entanto isso não exclui alguma aplicabilidade, pois o saber escolar está vinculado ao trabalho do professor, o qual pode realizar uma simulação e gerar uma nova descoberta de saber para os alunos. Ao expormos as simulações que o professor pode e deve fazer durante o processo de ensino-aprendizagem, deparamo-nos com um ponto crucial da transposição didática: a chamada criação didática. Dentro do âmbito escolar, o professor não pode se limitar apenas à simplicidade da linguagem oral: assim, essas criações nada mais são do que artifícios para compor o sistema didático que o professor pensa e cria durante o seu pla- nejamento e utiliza durante as aulas, para que o conteúdo possa ser explanado de maneira mais concreta e compreendido de maneira mais facilitada e menos abstrata pelos alunos. No entanto essas criações não podem ser consideradas meras auxiliares coadjuvantes no processo de ensino, pois interferem, positivamente, na relação professor-ensino-alu- no. Citamos, aqui, os modelos didáticos mais utilizados em aulas de Ciências, como o esqueleto humano (seja real ou de resina), as maquetes e as representações didáticas de células eucariontes, procariontes e suas organelas. U N ID A D E 1 18 Com base no exposto, é possível afirmar que, enquanto professores, ao escrevemos este livro para você, estamos realizando uma transposição didática de diversos segmentos de conhecimentos, a fim de que eles sejam mais palpáveis a você, aluno(a). Para tanto, findamos este tópico compreendendo que a transposição didática é “um mal necessá- rio”, pois, segundo Astolfi et al. (2004), apesar de possuir os seus inconvenientes, ao não tratar o conteúdo de maneira densa e completa, faz-se necessária para a construção da ciência e de conhecimentos. Estes mesmos autores, ao citarem Guy Brousseau, defendem que a sequência didática deve ser colocada “em vigilância”, ou seja, precisa ser utilizada com parcimônia, para que seja capaz de cumprir a sua função de ensinar sem perder as principais características e nuances das quais foi formatada primeiramente. Sequência didática Já temos ciência de que, além de ser pertinente que oprofessor realize a transposição didática do conhecimento científico para o conhecimento escolar, ele também necessita organizar e estruturar as suas ações docentes de maneira clara e coerente, para que os seus alunos compreendam o conteúdo ministrado. Esta estruturação também pode ser chamada de sequência didática, nomenclatura que surgiu na França, em meados dos anos 80, a qual denota o resultado de um processo de planejamento que está “diretamente relacionado à escolha do conteúdo, de procedimentos, atividades, recursos disponíveis, estratégias, instrumentos de avaliação e da metodologia a ser adotada por um determi- nado período de tempo” (WEBER, 2013, p. 26). U N IC E S U M A R 19 É visível que, quando o professor se depara com os conteúdos programáticos neces- sários a serem ministrados à série em questão, ele também se depara com a problemática de como coordenar os tópicos do assunto, pois necessita organizar os diversos conceitos e procedimentos a serem apresentados e discutidos junto aos alunos bem como suas diversas etapas e níveis de desenvolvimento cognitivo (KRASILCHIK, 2008). Para tanto, Zabala (2004), agrupa esses objetivos em conteúdos conceituais que podem ser represen- tados pelos seguintes questionamentos: o que o aluno deve saber? O que o aluno deve sa- ber fazer? Como deve ser feito? Estas são questões norteadoras de extrema importância, dado que facilitam a determinação dos objetivos educacionais e orientam as decisões e os caminhos pedagógicos a serem seguidos. A definição clara, focada e bem estruturada desses objetivos educacionais propostos como cognitivos, atitudinais e de competências se faz necessária desde o planejamento pedagógico e deve ser repensada logo ao início de uma nova disciplina ou um novo conteúdo, tendo em vista aquilo que o professor observa em sua sala de aula. Além disso, é importante que o professor entenda o contexto em que está inserido, quem são seus alunos e como eles aprendem, já que isso também direcionará o processo de ensino. 191919191919191919191919191919191919191919191919191919 U N ID A D E 1 20 Dessa maneira, para uma seleção mais apropriada de estratégias educacionais, o processo de delineação da sequência didática envolve a análise: ■ Da situação proposta. ■ Das condições. ■ Da organização. ■ Da escolha de estratégias baseadas nas análises da instrução dada e dos métodos. ■ Da delimitação do conteúdo específico. ■ Da determinação de critérios e de instrumentos de avaliação. ■ Da elaboração de questões que estejam de acordo com os critérios determinados. Além disso, há a exigência de uma revisão de todo processo em função dessa avaliação. O professor também deve focar na definição de quais instrumentos didáticos e artifícios mais apropriados serão utilizados para ensinar determinado conteúdo bem como se será necessária a utilização dos modelos e criações didáticos, jogos educacionais e afins. Nesse processo, o professor deve ser capaz de observar que, independentemente das condições em que se realiza o ensino, todos os alunos são capazes de aprender (relação ensino-aprendizagem), mas essa condição de aprendizagem se diferencia em relação ao nívelde profundidade e compreensão do conhecimento pelo aluno. Isso se dá, prin- cipalmente, pelo fato de que cada um possui a sua própria bagagem de conhecimento prévio, concepções, vivências e experiências individuais, o que faz que, no momento de lecionar, o professor encontre panoramas estudantis diferentes, conhecimentos e, até mesmo, interpretações de mundo diferentes, os quais estão presentes nas diferentes escolas, salas de aulas e, sobretudo, na individualidade de cada um dos seres presentes no âmbito estudantil. Assim, nós, enquanto professores, devemos compreender que não existe uma pa- dronização específica para aqueles que são alunos, pois cada um é o próprio autor da construção de seu conhecimento, diante de sua história social, seu saber, suas interações, representações pessoais e informações obtidas no contexto em que se vive (OLIVEIRA, 1997). Todavia é de extrema importância que o professor esteja apto a configurar as sequências das atividades, pois, certamente, este é um dos aspectos mais determinantes das características diferenciais da prática educacional. Uma vez que o conhecimento cresce e evolui não por mera acumulação do conteúdo explanado pelo educador, mas pela reformulação do conhecimento prévio realizada pelo estudante, que está em cons- tante adaptação, ao passo que se depara com novas informações, novos conceitos, pen- samentos e ideias. U N IC E S U M A R 21 Diante de uma perspectiva dinâmica, essa prática educacional não deve ser restrin- gida apenas ao momento no qual o professor ministra as aulas e produz os processos educacionais dentro do âmbito escolar. A intervenção pedagógica deve ter uma linea- ridade de organização e não, necessariamente, de conceitos, com começo, meio e final, peças fundamentais em toda prática educacional. Os conteúdos podem, muitas vezes, ser abordados em diferentes sequências do que são apresentados em livros didáticos, por exemplo, se assim o professor considerar mais propício: basta estruturar e organizar esses conteúdos de maneira adequada, atribuindo fluidez e sendo conectados uns com os outros. Para Zabala (2004), os conteúdos de aprendizagem são instrumentos de explicitação das intenções educativas, ou seja, são os meios que o professor utiliza para fazer que os objetivos educacionais de aprendizagem sejam alcançados. Observa-se que, usual- mente, a palavra conteúdo é utilizada apenas para expressar e delimitar aquilo que se deve aprender, mas em relação quase que exclusiva aos conhecimentos das matérias ou disciplinas. No entanto enquanto professores, devemos nos desvincular desta leitura restritiva e de forma isolada do termo, e compreendê-lo como algo mais amplo, como tudo aquilo que se tem que aprender para alcançar determinados objetivos educacionais. Sendo assim, devemos refletir que: se os alunos não possuem o conhecimento de, por exemplo, o que é uma célula animal e uma célula vegetal, como aprenderão a diferen- ciá-las por suas estruturas? Mediante o exposto, podemos compreender que a dinâmica ensino-aprendizagem não é apenas pontual, mas é formada por diversos fatores, como o número de aulas planejadas e analisadas previamente, a fim de observar as situações de aprendizagem envolvendo conceitos previstos na pesquisa didática prévia (que ocorre anteriormente ao planejamento anual e à definição de estratégias de ensino), formando a sequência didática. Zabala (2004) e Weber (2013) sugerem que, para realizar uma sequência didática bem elaborada e efetiva, o professor deve: 1. Verificar os conhecimentos prévios dos alunos em relação ao novo conteúdo a ser ministrado. 2. Definir conteúdos significativos de maneira funcional aos estudantes. 3. Levar em consideração o nível de desenvolvimento de cada aluno perante o assunto ministrado. 4. Propor desafios aos discentes, para que eles se tornem seres ativos durante o seu próprio processo de construção do conhecimento. U N ID A D E 1 22 5. Provocar conflitos cognitivos frente a esses desafios. 6. Estimular o aluno a perceber que a sua participação faz diferença em sala de aula e para a sua própria aprendizagem. 7. Motivar os alunos frente aos novos desafios. 8. Facilitar a autonomia do aluno no processo de ensino-aprendizagem. Com a utilização de todos esses elementos, é possível realizar uma sequência didática de maneira compreensível no âmbito escolar e que propicie o processo de ensino-apren- dizagem de maneira efetiva. No tocante ao ensino, servirá para subsidiar o professor enquanto sequência de estratégias e conteúdos a serem ministrados; no tocante à apren- dizagem, ao ser uma facilitadora aos alunos. É possível concluir, dessa forma, que sem a organização de uma sequência, o professor pode se perder em seus objetivos educacionais e no próprio seguimento lógico e se- quencial das aulas, o que gera confusão aos alunos e a ele próprio. Para tanto, a sequência didática se apresenta, no âmbito escolar, como uma ferramenta primordial de aplicação na elaboração das aulas, pois é orientadora para o professor em relação a quais ações devem ser seguidas, quando devem ser seguidas e como devem ser seguidas. Tudo isso para que esse processo culmine em uma aprendizagem realmente significativa por parte dos alunos. uma incompatibilidade entre as suas ideias, as suas representações e as suas ações. Essa incompatibilidade, percebida como tal, ou, pelo contrário, primeiro, inconsciente, torna-se a fonte de uma tensão que pode desempenhar um papel motor na elaboração de novas cognitivo e nem todas elas conduzem a um progresso intelectual. A teoria da dissonância cognitiva, desenvolvida por Leon Festinger nos anos 50, analisou o processo de mudança de opinião ou de atitude que se produz quando o indivíduo se vê diante de uma contradição entre o seu ponto de vista pessoal e a pressão da realidade social ou objetiva. Perante essa dissonância e o desconforto que ela produz nele (por et al. (2004). explorando Ideias U N IC E S U M A R 23 Para assimilarmos melhor a dinâmica da inserção do ensino de Ciências, devemos com- preender a trajetória que esse ensino percorreu até chegar ao formato que conhecemos hoje. Com o passar dos séculos, foram realizadas diversas transformações em relação aos aspectos mais relevantes na história das ciências naturais, desencadeadas pelas ne- cessidades da sociedade de cada época. Dessa forma, quando nos referimos à história do ensino das Ciências, devemos analisar como é realizada a construção das delas, como foi pensada e qual papel busca suprir dentro da nossa sociedade. Faremos breves recor- tes na história para que possamos compreender a evolução dos aspectos educacionais relacionados às Ciências e continuarmos nossos estudos. A TRAJETÓRIA DO ENSINO das Ciências Coloque-se na posição de professor em sala de aula: você deve realizar o planejamento pedagógico de determinado conceito em aulas de Ciências. Como você realizaria essa sequência didática e quais recursos você utilizaria? Pensando juntos U N ID A D E 1 24 No início desta unidade, quando trabalhamos com a temática “o que é ciência”, afir- mamos ela é inerente ao homem desde os primórdios, quando ele começou a observar, ainterpretar e a se relacionar com a natureza a partir de suas necessidades cotidianas de vida. Entretanto alguns outros acontecimentos da história também foram importantes para este tocante, pois denotam o desenvolvimento do pensamento da humanidade e, consequentemente, o desenvolvimento da ciência. Do século XI ao XIII, como consequência das viagens das cruzadas entre o Oriente e o Ocidente, houve ampla disseminação da cultura e da ciência entre estes povos. Também no século XVI, o surgimento das universidades colaborou para a Revolução Científica e, posteriormente, para a Revolução Industrial, ocorrida entre os séculos XVIII e XIX. Ainda no século XVIII, a Revolução Industrial também interferiumuito nas relações sociais e no pensamento científico, uma vez que os avanços científicos determinaram o desenvolvimento e o crescimento das indústrias que, ao mesmo tempo, necessitaram do avanço das ciências para que técnicas fossem aperfeiçoadas, a fim de desenvolver novas tecnologias para a prospecção das indústrias. No século XIX, a ciência foi consolidada como tal, pois a humanidade passou a compreender a inter-relação entre a tríade sociedade-natureza-ciência, a qual poderia interferir positivamente na criação de melhores condições de vida. Neste período, houve mui- tos avanços na química, com Lavoisier (“Nada se cria, tudo se transforma”), com a criação da tabela periódica por Dimitri Mendeleiev (1834- 1907) e avanços relacionados ao descobrimento e desenvolvimento da eletricidade. Já na história da ciência, Charles Darwin (1809-1882) lançou, em 1859, a obra A origem das espécies, na qual se opunha às ideias criacionistas e propunha ideias evolucionistas e de seleção natural que são utilizadas até hoje. Figura 1 - Charles Darwin (1809-1882) U N IC E S U M A R 25 Figura 2 - Tabela periódica dos elementos químicos Toda a produção dessas descobertas das ciências, no entanto, era restrita, já que, neste momento da história, quando era produzida, a ciência não era de conhecimento de todos, mas apenas da comunidade que a realizava por meio de pesquisas, descobertas e seus entornos. A sociedade, em geral, não tinha acesso e, quando tinha, a ciência se tornava incompreensível, pelo alto teor de complexibilidade e aplicabilidade, já que não se sabia como realizar o compartilhamento desses conteúdos de forma adequada para a sociedade como um todo, mesmo que dentro do âmbito escolar. A partir da década de 20, houve uma reformulação no ensino e a disciplina escolar Ciências surgiu no Brasil, originalmente, sob o nome de Ciências Físicas e Naturais, com a apresentação do ensino das verdades clássicas. Contudo seu intuito era apenas de cunho introdutório às disciplinas de Física, Química e História Natural (FADIGAS; SEPULVEDA, 2011), com conhecimentos que passaram a ser disseminados à sociedade, mas com a concepção de algo acabado, imutável e pronto para ser apenas transmitido, a fim de informar os alunos. Isso foi legitimado por meio dos conteúdos universais e permanentes listados nos manuais de ciências que seriam transmitidos aos alunos por meio de um processo rígido e tradicional de escolarização. U N ID A D E 1 26 Somente com a chamada Reforma Francisco Campos, ocorrida no Brasil por meio do Decreto n. 19.890/31, que as Ciências foram inseridas no currículo escolar como disciplina isolada. Além disso, a partir desse decreto, o Estado organizou o Sistema de Educação Nacional com a proposta do ensino de Ciências Físicas e Naturais nas duas primeiras séries do ensino comum e fundamental e, nas três últimas, as disciplinas de Física, Química e História Natural (PARANÁ, 2006). Nesse momento da história, o ensino era embasado em livros didáticos europeus, os quais eram, prioritariamente, demonstrativos e biográficos, reforçando a mera explana- ção das características positivas da ciência clássica e estável do século XIX, ao citarem os cientistas, suas vidas, seus experimentos e descobertas. Discorria-se, no modelo en- sino tradicional, com um método de ensino plenamente expositivo, memorístico e de repetição, com o intuito apenas de explanação e memorização do conteúdo, além de reforçar a ideia de que o professor era o único detentor do conhecimento. Ao passo que a ciência e a tecnologia foram sendo reconhecidas como essenciais para o desenvolvimento da sociedade, foi atribuída mais importância ao ensinoda primeira. De acordo com Krasilchik (2000), um período crucial para o desenvolvimento do en- sino das ciências ocorreu nos anos 60, durante o período de Guerra Fria, momento em que os Estados Unidos começaram a realizar investimentos educacionais para formar uma elite que seguisse carreira científica, garantindo a predominância norte -americana neste ramo. Nessa mesma época, o Brasil ainda sentia os efeitos que a 2ª Guerra Mundial havia deixado, especialmente nas indústrias, com a falta de matéria-prima e produtos indus- trializados no país, os quais se fazia necessário importar de outros países, com custos elevados. Assim, o Brasil passou a buscar independência e sabia que, para isso, o desen- volvimento de pesquisas por meio das ciências era fundamental, mas isso se daria so- mente por meio da preparação de alunos mais aptos a impulsionar o progresso da ciência e da tecnologia nacionais das quais dependia um país em processo de industrialização. Assim, quando foi instaurada a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), Lei n. 4.024, de 21 de dezembro de 1961, no Brasil, houve a ampliação da participação das ciências no currículo escolar, passando a contemplá-la como disciplina desde o 1º ano do curso ginasial (o que corresponde ao atual Ensino Fundamental). Antes da promul- gação dessa nova legislação para a época, as ciências eram apenas contempladas nas duas últimas séries do antigo curso ginasial e eram baseadas em um ensino tradicionalista. Vale lembrar que, com o advento dessa lei, a carga horária das disciplinas científicas, U N IC E S U M A R 27 correspondentes à Física, Química e Biologia, também foi ampliada nas séries chamadas colegiais (nosso atual Ensino Médio) (KRASILCHIK, 2000). Após esse período, com a imposição da ditadura militar em 1964, houve a aplicação de novas políticas no país e, assim, o papel da escola também foi modificado. Ele passou a ter característica de formação de mão de obra para auxiliar o crescimento econômico brasileiro, o que impulsionou a elaboração de uma nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a Lei n. 5.692, a qual foi promulgada em 1971 e carregava alterações maciças nas disciplinas científicas, conturbando o sistema educacional. O ensino passou a ter caráter profissionalizante, descaracterizando a função das disciplinas científicas no currículo (KRASILCHIK, 2000). Portanto, a educação deveria ser integrada ao traba- lho, com a finalidade de promover competências imprescindíveis às necessidades do desenvolvimento. A nova legislação alterou, majoritariamente, o ensino público, mas no ensino privado, a preparação dos alunos para o ingresso em um curso superior continuou, focando-se, ainda, nas disciplinas, e não somente na profissionalização. Quando esse sistema de en- sino fracassou, posteriormente, o sistema público também se reajustou e reestruturou as suas disciplinas preparatórias para o mercado de trabalho e as suas pretensões, as quais eram, de certa forma, irreais, em formar profissionais ao longo do 1º e 2º graus. De fato, podemos compreender que, a cada troca de governo, vivenciamos, também, uma reforma nos currículos escolares. Estas mudanças são decorrentes de alterações no âmbito político, econômico, social e cultural, tanto a nível nacional quanto internacional e, em grande parte das vezes, trazem benefícios à sociedade, pois fazem com que o ensino e os currículos se adequem às necessidades e demandas sociais do período. Diante disso, agora, trabalharemos a última alteração majoritária que tivemos na Lei de Diretrizes e Bases (LDB), que concerne ao ano de 1996, atrelada ao Plano Decenal de Educação, em consonância com o que determina a Constituição Federal de 1988. U N ID A D E 1 28 Até o presente momento, pudemos compreender as mudanças da sociedade em relação às ciências, a maneira pela qual interagimos com ela na sociedade, além de conhecermos, mesmo que de forma breve, a trajetória da disciplina de Ciências nos currículos escolares no Brasil. Nesse tocante, expomos as criações e as modificações das legislações e dos decretos até se tornarem LDB. Novamente, frente às mudanças das políticas públicas federais a partirdo ano de 1995, com a eleição do então presidente Fernando Henrique Cardoso, o ensino de Ciên- cias teve o seu objeto de estudo redirecionado com última alteração legislativa que ti- vemos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, sob a Lei n. 9.394/96. Após delimitar as influências determinantes para que se mudasse o quadro educacional no Brasil, os conteúdos clássicos, que ainda eram determinantes em sala de aula, deram espaço e abriram caminhos para novas possibilidades. Essa lei sofreu diversas atualizações ao longo dos anos. A última atualização apresentada pelo Governo Federal se deu em junho de 2018, a qual estabelece, em seu Art. 1º, § 2º, que a “educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social” (BRASIL, 1996, on-line). Para tanto, de acordo com as Diretrizes Curriculares de Ciência para a Educação Básica: “ Nestas Diretrizes, o currículo de Ciências deve propiciar aos alunos: – que estabeleçam as relações entre o mundo natural (conteúdo da ciência), o mundo construído pelo homem (tecnologia) e seu cotidiano (sociedade); e – que tenham potencializada a função social da disciplina para se orientarem e, conseqüentemente, tomarem decisões como sujeitos transformadores (PARANÁ, 2006, p. 27). Concomitantemente a esse contexto, já estava em caráter preliminar o processo de ela- boração da primeira versão dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), organiza- dos pelo MEC no período de 1995 a 1996. Participaram dessa formulação docentes de universidades públicas e particulares, técnicos de secretarias municipais e estaduais de educação, especialistas e educadores. Em decorrência da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental - Ciências Naturais e da exigência de temas transversais, desenvolveu-se um novo currículo para o ensino de Ciências. U N IC E S U M A R 29 Um dos motivos que levou à elaboração dos PCNs foi a necessidade de criação de um modelo educacional a ser seguido para que a escola efetivasse os ideais contidos e formulados na Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Assim, as políticas educacionais defini- ram que cabe à escola a responsabilidade dos resultados cobrados sobre a educação, e não mais ao Estado, consolidando as suas metas para alcançar seus objetivos. Os PCNs trouxeram uma nova visão de ensino e, de acordo com a legislação: “ Os Parâmetros Curriculares Nacionais constituem um referencial de qualidade para a educação no Ensino Fundamental em todo o País. Sua função é orientar e garantir a coerência dos investimentos no sistema educacional, socializando discussões, pesquisas e reco- mendações, subsidiando a participação de técnicos e professores brasileiros, principalmente daqueles que se encontram mais isola- dos, com menor contato com a produção pedagógica atual (BRA- SIL, 1997, p. 13). Essas diretrizes seguem orientações de Saviani e Gasparin, que estabelecem o vínculo do planejamento atual da disciplina com a pedagogia histórico-crítica enquanto nor- teador do ensino de Ciências, pois esse ensino necessita estar associado a um processo pedagógico ao qual se vincula à prática social. Dessa forma, compreendemos que, para ensinar, em especial, ciência, é necessário que os conteúdos estejam de acordo com a realidade social do estudante e sejam explanados de maneira significativa, a fim de que o aluno seja capaz de compreendê-lo, internalizá-lo e colocar em prática aquilo que aprendeu em sala de aula. - fessores de hoje estão preparados para implementá-la em seu cotidiano escolar e de que forma podem fazê-lo nos conteúdos da disciplina de Ciências. Pensando juntos U N ID A D E 1 30 No que concerne à Educação Infantil, a LDB n. 9.394/96 estabelece, em seu Art. 26, que: “ Os currículos da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base nacional comum, a ser complemen- tada, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos educandos (BRASIL, 1996, on-line). Dessa forma, a formação básica das séries iniciais do cidadão que se encontra em am- biente escolar exige o domínio da leitura, da escrita e do cálculo, a compreensão do am- biente material e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a sociedade (KRASILCHIK, 2000). Sendo assim, nos PCNs, encontramos os temas transversais (BRASIL, 1997), que tratam o cumprimento social da escola no que concerne aos valores gerais e unificadores das temáticas: ética, saúde, meio ambiente, pluralidade cultural e orientação sexual. Estes temas foram escolhidos por denotarem problemáticas sociais atuais e urgentes, consideradas importantes em nível nacional e, até mesmo, global. Cada uma dessas temáticas possui um documento específico, o qual defi- ne todo o posicionamento, a justificativa e a conceitualização do tratamento transversal para esse tema social específico. Além disso, essas temáticas devem ser trabalhadas em sala de aula concomitantemente aos conteúdos programáticos, em todas as disciplinas de todas as séries, promovendo a interdisciplinaridade. O documento, ao apresentar os temas transversais, discute a amplitude do trabalho escolar em consonância com as problemáticas sociais, explicitando a transversalidade entre temas e áreas curriculares em todo o convívio escolar. Para tanto, explicaremos, brevemente, de acordo com os PCNs (BRASIL, 1997), os elementos abordados em cada um dos eixos temáticos dos temas transversais: ■ Negrito: é encontrada nas disciplinas curriculares, tendo em vista que o co- nhecimento não é neutro, pois também contém juízo de valores. Refere-se às reflexões das condutas humanas em comprometimento com a formação para a cidadania. Embasa-se em uma proposta escolar que auxilie o desenvolvimento da autonomia moral, condição para a reflexão ética, trabalhando os fundamentos da Constituição Brasileira. ■ Pluralidade cultural: a sociedade brasileira é formada por diferentes etnias e por imigrantes de diferentes países, os quais compõem diferentes culturas nas U N IC E S U M A R 31 diversas regiões do território brasileiro. O grande desafio da escola é propiciar diálogo e respeito a esses grupos e culturas, a fim de aprender a conviver, viven- ciando a cultura e respeitando as diferentes formas de expressão cultural. ■ Meio ambiente: o ser humano faz parte do meio ambiente em que as relações sociais, econômicas e culturais são estabelecidas. Portanto, é preciso refletir sobre como essas relações devem ser mantidas para uma tomada de decisão adequada, visando ao crescimento cultural, à qualidade de vida e ao equilíbrio ambiental. ■ Saúde: a educação para a saúde, enquanto tema do currículo, cumpre o seu papel na formação dos cidadãos para uma vida saudável, ao passo que, quanto mais instruídos, maior é o nível de saúde dos indivíduos e grupos populacionais. Seu intuito é o de ensiná-los a valorizar, discernir e participar de decisões relativas à saúde individual e coletiva de valorização à saúde. Além disso, visa à formação do aluno para o exercício da cidadania, compreendendo a motivação e a capa- citação para o autocuidado bem como a compreensão da saúde como direito e responsabilidade pessoal e social. ■ Orientação sexual: a abordagem do corpo enquanto matriz da sexualidade propicia aos alunos conhecimento e respeito do próprio corpo e do próximo, mediante discussões sobre gênero, trabalho de prevenção às doenças sexual- mente transmissíveis e combate à discriminação. Além destes cinco temas transversais, a legislação propõe que a área de Ciências Naturais seja dividida em eixos temáticos para a preservação dos conteúdos e a sua não fragmen- tação, integrando os conhecimentos físicos, químicos, biológicos, tecnológicos, sociais e culturais. Assim, os eixostemáticos propostos são divididos em: vida e ambiente, ser humano e saúde, tecnologia e sociedade, terra e universo. Est organização temática possui o intuito de relacionar diferentes conceitos, atitudes, valores e procedimentos de cada etapa do processo de ensino-aprendizagem, de modo que se enfatize a importância do ato de aprender e de saber usar (aprendizagem significativa) o conhecimento científico. Diante dessa percepção, aliada às demandas de nossa sociedade contemporânea em relação ao desenvolvimento das ciências, seus resultados e suas aplicações tecnológicas, percebe-se que ela demonstra a necessidade de um ensino de Ciências Naturais em que se estabeleça o senso crítico dos alunos, buscando o desenvolvimento destes atores so- ciais em uma percepção de mundo a respeito dos impactos sociais, culturais e ambientais decorrentes dos avanços científicos e tecnológicos. Nesse contexto, a interdisciplinaridade se apresenta como uma aliada do ensino, substituindo um modelo tradicionalista e propondo a ampliação da visão de mundo dos U N ID A D E 1 32 A discussão acerca da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) não pode ser conside- rada apenas contemporânea, visto que a sua construção percorreu um diverso e impor- tante panorama histórico em meio a diferentes contextos políticos e socioeconômicos vivenciados pelo Brasil. Diante do exposto, vale lembrar, discutir e, quiçá, compreender, mesmo que de maneira breve, o panorama que culminou na elaboração da Base Comum Curricular (BNCC) bem como a sua construção no decorrer dos anos. Além disso, é importante estudantes e, até mesmo, dos profissionais da educação, pois ela se insere no contexto educacional objetivando a superação da visão disciplinar fragmentada, ao demonstrar a correlação entre as disciplinas e a sua associação com o mundo em que se vive. Assim, é necessário que cada professor propicie um espaço para a abordagem de temas relevantes, atuais e que partam da vida cotidiana dos alunos, inserindo-os em seu planejamento de ensino e buscando sempre a transversalidade e ainterdisciplinaridade. Tudo isso, uma vez que, além de atender às recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e da nova LDB n. 9.394/96, é uma excelente metodologia para que os alunos desenvolvam novas habilidades e novas competências no saber. O ENSINO DA CIÊNCIA na contemporaneidade U N IC E S U M A R 33 explicitar os principais marcos históricos que resultaram na publicação deste documento, o qual servirá como um dos manuais para a educação brasileira no futuro. O ano de 2014 pode ser considerado o grande início do que conhecemos, hoje, como BNCC. A Lei n.13.005, de 25 de junho de 2014, tem como objetivo regulamentar o Plano Nacional de Educação (PNE), o qual possui a vigência de dez anos. Esse plano possui 20 metas para a melhoria do ensino e, consequentemente, da qualidade educação brasileira, as quais são subdivididas em quatro grandes blocos: o primeiro bloco discorre acerca da garantia do direito à educação básica de qualidade; o segundo bloco aborda a redução das desigualdades e a valorização da diversidade, em busca de melhor equidade social; o terceiro bloco diz respeito à valorização dos profissionais da educação, enquanto o quarto bloco trabalha aspectos de competência dos governos federais e estaduais para a promoção e o constante desenvolvimento do Ensino Superior. Ainda em 2014, mais especificamente entre 19 e 23 de novembro, foi realizada a 2ª Conferência Nacional pela Educação (CONAE), organizada pelo Fórum Nacional de Educação (FNE). Esta conferência teve como resultado um importante documento sobre as propostas e reflexões para a educação brasileira, gerando um importante referencial para o processo de elaboração da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O ano de 2015 é marcado, inicialmente, por um evento que ocorreu entre 17 e 19 de junho, intitulado I Seminário Interinstitucional para Elaboração da Base Nacional Comum (BNC). Este seminário se destacou no processo de elaboração da BNCC, pois conseguiu reunir uma diversidade de assessores e especialistas envolvidos na elaboração da referida base, culminando na resolução da Portaria n. 592, de 17 de junho de 2015, a qual instituiu uma comissão própria de especialistas para a elaboração da proposta da BNCC, e que, no futuro, seriam os responsáveis pela construção e publicação do do- cumento. Assim, o grande destaque do ano foi, sem dúvidas, a publicação da primeira versão da BNCC, na qual o termo “curricular” foi adicionado. Ela foi publicada em 16 de setembro de 2015 e disponibilizada para a primeira consulta pública no período que se estendeu de 2 a 15 de dezembro, momento em que houve forte mobilização das escolas de todo o Brasil para a discussão do documento, em vistas, preliminar. Já em 3 de maio de 2016, foi disponibilizada a segunda versão da BNCC, ainda de maneira preliminar, tendo em vista a possibilidade de uma futura adaptação, a qual aconteceu após 27 seminários estaduais realizados com professores, gestores e especia- listas, a fim de debaterem a versão anterior da BNCC. Estas discussões ocorreram entre 23 de junho e 10 de agosto do mesmo ano e foram promovidas pelo Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime). U N ID A D E 1 34 Em 20 de dezembro de 2017, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) foi ho- mologada por meio da Portaria n. 1.570 e assinada pelo então Ministro da Educação, Mendonça Filho. Contudo, antes mesmo da sua homologação, em abril do mesmo ano, foi entregue a sua versão final ao Conselho Nacional de Educação (CNE). A partir disso, houve o início do processo de formação e capacitação dos profissionais da educação, em especial, dos professores, para a elaboração e possível adequação dos currículos escola- res. Assim, a sua implementação foi definida em 22 de dezembro de 2017, por meio da Resolução CNE/CP n. 2, que institui e orienta a implantação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de forma obrigatória ao longo das etapas e respectivas modalidades no âmbito da educação básica. Diante do exposto, é nítido que a construção de um documento nacional de grande porte demanda tempo, esforço e reflexões acerca do cenário educacional do Brasil. Tudo isso culminou na publicação da Portaria nº 331, em 5 de abril de 2018, oficializando a fundação do Programa de Apoio à Implementação da Base Nacional Comum Curricular (ProBNCC), que estabelece diretrizes, parâmetros, critérios e fiscaliza sua implantação. Além disso, em 2 de agosto de 2018, ocorreu a segunda mobilização das escolas de todo o Brasil, mas de forma singela, para discutir aspectos da BNCC com foco na etapa do Ensino Médio. Acreditamos que você, caro(a) discente, tenha percebido que, até o momento, toda essa discussão tinha sido em torno da elaboração e construção da BNCC na etapa do Ensino Fundamental. Foi somente em 2018 que professores, gestores e técnicos da edu- cação criaram comitês de debate e elaboraram um formulário online, a fim de sugerir melhorias no documento que resultaria na Base Nacional de Currículos Comuns para o Ensino Médio, homologado em 14 de dezembro de 2018, permitindo que o Brasil tenha uma base com as aprendizagens previstas para toda a educação básica. Neste momento, você pode estar se questionando: pude compreender a importância do contexto histórico para a elaboração de um documento como a BNCC, bem como o tempo e as adaptações que nele foram realizadas, mas como ficou a BNCC, de fato? Como eu, futuro professor da disciplina de Ciências, posso ler esse documento e enten- dê-lo? Qual é o impacto da BNCC em minha futura prática docente? É a fim de sanar todas essas possíveis inquietações que os próximos parágrafos, imagens e fluxogramas foram elaborados. Vamos conferir? Segundo a BNCC: “ A Base Nacional Comum Curricular(BNCC) é um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver U N IC E S U M A R 35 ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de aprendizagem e desenvol- vimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE). Este documento normativo aplica-se exclu- sivamente à educação escolar, tal como a define o § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), e está orientado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, como fundamentado nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica (DCN) (BRASIL, 2018, p. 7). Ao longo da educação básica, as aprendizagens fundamentais definidas na BNCC devem primar por assegurar, a todos os estudantes, o desenvolvimento de dez competências gerais, as quais, no âmbito pedagógico, atuam como base dos direitos de aprendizagem e desenvolvimento. Dessa maneira, a BNCC se baseia na aplicação dessas dez compe- tências gerais em todas as etapas de ensino, seja na Educação Infantil (EI), no Ensino Fundamental (EF) e no Ensino Médio (EM), desdobrando-se em campos de experiências para o EI e áreas de conhecimentos para o EF e EM. Figura 3 - Estrutura geral da Base Nacional Comum Curricular / Fonte: Brasil (2018, p. 24). U N ID A D E 1 36 De acordo com o documento, as áreas do conhecimento nada mais são do que a forma como as disciplinas são organizadas, sendo subdividas em cinco grandes áreas. São elas: Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Ensino Religioso. Vale ressaltar que cada uma dessas áreas é composta por com- ponentes curriculares que, assim como sustenta o Parecer CNE/CEB n. 11/2010, favorecem a comunicação entre os conhecimentos e saberes dos diferentes obje- tivos de currículo (conteúdos). ■ Área de Linguagens: é composta pelas disciplinas de Língua Portuguesa, Arte, Educação Física e, no Ensino Fundamental – Anos Finais, Língua Inglesa, todas denominadas componentes curriculares. Esta área tem por finalidade permitir que os discentes pratiquem as mais diversas práticas de linguagem, possibili- tando que eles ampliem as suas capacidades artísticas, corporais e linguísticas bem como seus conhecimentos sobre essas linguagens, em continuidade com as experiências vividas na Educação Infantil. ■ Área da Matemática: no Ensino Fundamental, esta área transpassa diversos campos, desde a Aritmética até a Estatística. Tudo isso na tentativa de garantir que os alunos relacionem observações verdadeiras do mundo, associando-as como uma atividade matemática, ao propor, muitas vezes, induções e conjectu- ras. De maneira geral, nesta área, encontra-se somente a disciplina de Matemá- tica, na esperança de que os alunos possam enxergar nela oportunidades de uti- lização da matemática para resolver problemas, aplicando fórmulas, conceitos, procedimentos e resultados, a fim de obterem soluções cotidianas. ■ Área de Ciências da Natureza: pelo fato de que se trata da área foco desta disciplina, vale ressaltar que ela possui, como compromisso, a formação integral dos alunos, a fim de possibilitar o desenvolvimento do letramento científico, despertando, no discente, a capacidade de interpretar, compreender o mundo natural, social e tecnológico ao qual ele faz parte, com base nos aportes teóricos e processuais das ciências. No Ensino Fundamental, a área se concentra apenas na disciplina de Ciências, mas, no Ensino Médio, desdobra-se em três disciplinas: a Biologia, a Física e a Química. U N IC E S U M A R 37 ■ Área de Ciências Humanas: assim como o próprio nome menciona, esta área destaca os conhecimentos e as atividades que envolvem o ser humano, sua tra- jetória e seu entorno. Ela é responsável pelas disciplinas de História e Geogra- fia, no Ensino Fundamental, e no Ensino Médio, pelas disciplinas de Filosofia, Geografia, História e Sociologia. O foco desta área é desenvolver, no aluno, o raciocínio espaço-temporal, ou seja, a ideia de que o ser humano produz o meio em que vive, tomando-o para si em determinado momento histórico, de modo que o discente compreenda, interprete e avalie as ações realizadas no passado e no presente, as quais resultarão em um futuro. ■ Área do Ensino Religioso: de acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu Art. 210, e a LDB n. 9.394/96, em seu Art. 33, alterado pela Lei n.9.475/97, fica estabelecido que a disciplina de caráter obrigatório, mas de matrícula facultativa, tem, por função educacional, fazer parte da formação básica do cidadão. Assim, é alicerçada por epistemologias e pedagogias, de forma a assegurar o respeito à diversidade cultural e religiosa sem quaisquer tentativas de conversão em de- trimento de uma única religião. Não pense que acabou! Agora que você já conhece cada área do conhecimento per- tencente tanto para o Ensino Fundamental quanto para o Ensino Médio, é necessário reforçar que, para cada uma delas, existe uma competência específica de área cujo desen- volvimento deve ser fomentado ao longo dos nove anos do EF. Provavelmente, você se perguntará: qual é o papel dessas competências específicas? Esta questão é muito simples: as competências específicas possuem a função de explicar como as dez competências gerais serão expressas em cada uma das áreas de conhecimento. Pelo fato de que o foco de nossa disciplina é traçar aspectos da metodologia do ensino de Ciências, vale a pena apresentar quais seriam as competências específicas da Ciências da Natureza para o Ensino Fundamental. U N ID A D E 1 38 COMPETÊNCIAS ESPECÍFICAS DE CIÊNCIAS DA NATUREZA PARA O ENSINO FUNDAMENTAL 1. Compreender as Ciências da Natureza como empreendimento humano, e o 2. Compreender conceitos fundamentais e estruturas explicativas das Ciências da Natureza bem como dominar processos, práticas e procedimentos da investi- tecnológicas, socioambientais e do mundo do trabalho, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. 3. Analisar, compreender e explicar características, fenômenos e processos relati- vos ao mundo natural, social e tecnológico (incluindo o digital), como também as relações que se estabelecem entre eles, exercitando a curiosidade para fazer perguntas, buscar respostas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das Ciências da Natureza. 4. Avaliar aplicações e implicações políticas, socioambientais e culturais da ciência - porâneo, incluindo aqueles relativos ao mundo do trabalho. 5. - veis, negociar e defender ideias e pontos de vista que promovam a consciência socioambiental e o respeito a si próprio e ao outro, acolhendo e valorizando a diversidade de indivíduos e de grupos sociais, sem preconceitos de qualquer natureza. 6. Utilizar diferentes linguagens e tecnologias digitais de informação e comunica- ção para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimen- 7. Conhecer, apreciar e cuidar de si, do seu corpo e bem-estar, compreendendo-se na diversidade humana, fazendo-se respeitar e respeitando o outro, recorrendo aos conhecimentos das Ciências da Natureza e às suas tecnologias. 8. - lidade, resiliência e determinação, recorrendo aos conhecimentos das Ciências socioambientais e a respeito da saúde individual e coletiva, com base em prin- cípios éticos, democráticos, sustentáveis e solidários. Fonte: adaptado deBrasil (2018, p. 324). U N IC E S U M A R 39 É importante frisar, também, que as áreas que possuem mais de um componente cur- ricular, ou seja, mais de uma disciplina, como é o caso das Linguagens e das Ciências Humanas no Ensino Fundamental, carregam as competências específicasdo compo- nente que serão desenvolvidas pelos alunos durante a toda a sua escolarização. Caso tenha ficado confuso, observe a figura a seguir, a qual diz respeito à organização das subseções das áreas: Figura 4 - Estrutura geral da Base Nacional Comum Curricular: subseções Fonte: Brasil (2018, p. 24). Para que seja possível o desenvolvimento das competências específicas, cada compo- nente do currículo traz um conjunto de habilidades. Estas habilidades estão inerentes aos vários objetos de conhecimento, os quais podem ser entendidos como os próprios conteúdos curriculares, metodologia e resultados que, por sua vez, são organizados em unidades temáticas. U N ID A D E 1 40 Achou difícil? Observe a figura a seguir para compreender melhor a organização: Figura 5 - Parte da estrutura geral da Base Nacional Comum Curricular: subseções Fonte: Brasil (2018, p. 24). O que são essas unidades temáticas? Elas são consideradas um conjunto de conteúdos, ou seja, objetos de conhecimento, que serão adotados ao longo do Ensino Fundamental, de maneira que atendam às especificidades dos diferentes componentes curriculares. Você pode se questionar: como eu posso saber a quantidade de conteúdos de cada unidade temática? Esta é uma pergunta plausível, visto que não existe um padrão, pois cada uma das unidades temáticas contempla uma gama maior ou menor de objetos de conhecimento bem como cada objeto de conhecimento apresenta um número maior ou menor de habilidades, assim como é ilustrado a seguir: UNIDADES TEMÁTICAS OBJETOS DE CONHECIMENTO HABILIDADES Vida e evolução Corpo humano Respeito à diversidade (EF01CI02) Localizar, nomear e meio de desenhos), partes do corpo humano e explicar suas funções. U N IC E S U M A R 41 UNIDADES TEMÁTICAS OBJETOS DE CONHECIMENTO HABILIDADES (EF01CI03) Discutir as razões pelas quais os hábitos de higiene do corpo (lavar as mãos antes de comer, escovar os dentes, limpar os olhos, o nariz e as orelhas etc.) são necessários para a ma- nutenção da saúde. (EF01CI04) Comparar caracte- rísticas físicas entre os colegas, reconhecendo a diversidade e a importância da valorização, do acolhimento e do respeito às diferenças. Quadro 1 - Estrutura organizacional da grade curricular, segundo a BNCC, para a disciplina de Ciências do 1º ano do Ensino Fundamental / Fonte: adaptado de Brasil (2018, p. 18). Cada uma das habilidades é estruturada por meio de códigos e é de suma importância entendê-los para que se possa realizar a interpretação necessária e utilizá-los de maneira adequada em seu futuro planejamento escolar ou para justificar a realização de deter- minada atividade em um plano de aula. Assim, cabe explicitar o que significa cada trecho do código de uma habilidade que, por sua vez, é inerente a um objeto do conhecimento que está vinculado a uma unidade temática. 414141414141414141414141414141414141 U N ID A D E 1 42 01 - Diz respeito à habilidade de classificar como homogênea ou heterogênea a mistura de dois (água e sal, água e óleo, água e areia etc.). CI - O nome da disciplina é apresentado por meio das iniciais, neste caso, corresponde à disciplina de Ciências. 06 - Representa a seriação anual, aqui, 06 indica sexto ano. EF - O primeiro par de letras representa a etapa do Ensino Fundamental. Figura 6 - Leitura dos códigos relacionados às habilidades na BNCC Fonte: os autores. De maneira geral, a BNCC tem por intuito promover uma educação de qualidade, com a maior equidade possível, em todos os estados brasileiros, fazendo com que haja uma grade curricular comum em todo o país. Tudo isso de maneira a proporcionar uma educação para crianças e jovens voltada ao desenvolvimento de habilidades essenciais e de competências gerais para uma sociedade do século XXI. Alguns questionamentos, contudo, fazem-se necessários e cabe a você, aluno(a), realizá-los, até mesmo para proporcionar mais criticidade frente ao tema. Seria esse do- cumento uma forma de garantir uma equidade curricular no Brasil? A BNCC possui a melhor estrutura curricular para promover o ensino e a aprendizagem em todas as etapas de ensino brasileiro? Ao focarmos na disciplina de Ciências e nos objetivos de conhe- cimento que a permeiam, você acredita serem suficientes? Ou, até mesmo, totalmente pertinentes? Somente quando pensamos, criticamente, os documentos e analisamos o histórico da educação é que podemos nos tornar professores capazes de impulsionar uma educação de qualidade, permitindo que cada aluno saia da sala de aula apto a concretizar, para além dos muros da escola, aquilo que se aprende em seu interior. 44 na prática 1. Em nosso cotidiano, observamos, constantemente, o que é considerado conheci- mento popular e de senso comum. Esse tipo de conhecimento não possui credibi- lidade em diversas instâncias, pois não é algo comprovado por meio de artefatos a) b) c) d) e) Real, sensitivo, subjetivo, contingente e não falível. 2. A transposição didática é um elemento de suma importância para o cotidiano es- colar. Ela se inicia assim que novos estudos são realizados e os seus resultados e aplicações serão expostos para a sociedade, em especial, a escolar. Além disso, ela está presente desde o livro didático, mas também se faz necessário que o professor realize a transposição daquilo que está presente no livro, para que o conteúdo possa ser ministrado aos seus alunos. I - A transposição didática ocorre no momento em que o professor está realizando o seu planejamento. II - A transposição didática é um artifício da educação que nem sempre precisa ser utilizado. III - A transposição didática é realizada apenas no momento em que o professor ministra a aula. IV - A transposição didática é realizada uma vez para cada conteúdo. a) b) c) d) e) Nenhuma das alternativas está correta. 45 na prática 3. De maneira geral, sabemos que a organização do ensino de Ciências sofreu grandes alterações ao longo dos séculos, diante de diversos movimentos sociais e de rede- mocratização política. Essas mudanças ocorreram, também, nos currículos escolares, fazendo comque eles se adaptassem às necessidades da sociedade da época em questão. Para tanto, leia as assertivas a seguir e as julgue com (V) para Verdadeiras e (F) para as Falsas: ( ) Somente a partir de 1931 que a ciência foi inserida no contexto escolar enquanto disciplina isolada. ( ) Ao longo dos anos 60, os Estados Unidos objetivaram o ensino de Ciências para acadêmica universitária dos estudantes e criar alunos pensantes. ( ) A Revolução Industrial foi de extrema importância para delinear os caminhos da educação, pois, com ela, os currículos foram alterados com o intuito de realizar ( ) Foi na década de 20, com o ensino das verdades clássicas, que as ciências começaram a ser trabalhadas nas escolas do Brasil. Estes ensinamentos tinham caráter apenas informacional. Assinale a sequência correta: a) V, V, F, V. b) V, F, V, V. c) V, F, V, F. d) F, F, F, V. e) V, V, V, F. 4. Quando o professor chega à sala de aula, depara-se com os conteúdos que devem ser trabalhados. Para tanto, o trabalho do professor não seinicia a cada nova aula, mas a cada novo ano, com seu planejamento anual de conteúdos e ações que pro- para organizar e delinear bem os conteúdos a serem aplicados, e de que forma e ao educador. 46 na prática 5. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais, encontramos a abordagem dos temas trans- versais, que tratam do cumprimento social da escola no que concerne aos valores - te, os eixos temáticos: a) Ética, pluralidade cultural, meio ambiente, saúde e orientação sexual. b) Ética, pluralidade sexual, meio ambiente, saúde e orientação cultural. c) Bioética, sexualidade, meio ambiente, saúde básica e cultura. d) Bioética, pluralidade cultural, ambiente, medicina e sexologia. e) Saúde, transversalidade, meio ambiente e genética. 47 aprimore-sePROCESSO PEDAGÓGICO E PRÁTICA SOCIAL Uma das preocupações quanto ao processo pedagógico em Ciências é o modo com- partimentado como seus conteúdos são tratados em muitas propostas curriculares prática social e desarticulados de outros saberes. Assim, o ensino e a aprendizagem de Ciências se distanciam, em vez de se apro- - bre educação registram que “a descrição das organelas celulares, de estruturas ana- contribuído para promover a compreensão das idéias básicas da biologia ou o in- teresse dos estudantes pelo aprendizado das ciências” (CONSTRUINDO, 2004, p. 9). Faz-se necessário, portanto, selecionar e dosar os conteúdos de Ciências a serem tratados, pois, numa abordagem tradicional, eles se apresentam em demasia, o que dá falsa impressão de aprofundamento na abordagem dos conhecimentos físicos, químicos e biológicos. Muitas vezes, o excesso de conceitos e detalhes compromete a aprendizagem de conteúdos basilares que estruturam o processo educativo. A abordagem tradicional do ensino de Ciências, apresentada em muitos livros didáticos, trata os conteúdos Água, Ar e Solo, na 5.ª série; Seres Vivos, na 6.ª série; Corpo Humano, na 7.ª série, e Química e Física, na 8.ª série, sem estabelecer rela- ções, sem integrar, sem contextualizar os conteúdos de uma mesma série e desta com as outras séries do Ensino Fundamental. É certo que integrar conteúdos sob uma abordagem crítica e histórica não é ta- abrangente. Por isso, é importante superar a cultura do livro didático como única possibilidade, sob o posicionamento crítico do professor. 48 aprimore-se Nestas Diretrizes, propõe-se que as escolas organizem um currículo de Ciências - dos nestas ciências de referência, que terão aprofundamento no Ensino Médio, em O tratamento dialógico dos conteúdos das ciências ditas naturais (Física, Química e Biologia) visa integrar o processo de ensino e de aprendizagem e permitir a com- preensão de que os fenômenos naturais não ocorrem isoladamente na natureza e no cotidiano. Por exemplo, ao abrir o chuveiro elétrico em casa, o aluno percebe que a água esquenta e, ao tomar banho, usa sabonete que faz espuma e limpa seu corpo. Dessa simples rotina, compreende-se a inter-relação entre diferentes conhe- • físicos: transformação de energia elétrica em energia térmica, quando o chu- veiro esquenta a água do banho; • químicos: reação química em que o sabonete faz espuma em contato com a água, limpa a “gordura” (secreção oleosa – sebo) depositada sobre a pele; e • biológicos: reconhecimento de que essa “gordura” é produzida por glândulas sebáceas e que a ação do banho envolve conceitos de higiene. Essas relações são algumas das possibilidades de interação entre conhecimentos físicos, químicos e biológicos, entre os conteúdos estruturantes e seus desdobra- mentos e entre a disciplina de Ciências e as outras áreas do conhecimento. Ainda, recomenda-se discutir e analisar, sob a visão dos elementos do Movimento Ciência, Tecnologia e Sociedade, a produção, a distribuição, o consumo e o desperdício de energia; as fontes, o tratamento, a distribuição, o consumo e o desperdício de água; a saúde, o saneamento básico e a prevenção de doenças. Os conteúdos a serem abordados em cada série do Ensino Fundamental reque- rem domínio teórico consistente do professor, sob uma formação continuada, para que reconheça cada vez mais sua função social e atue como agente de transforma- ção. 49 aprimore-se A tônica destas Diretrizes é estabelecer orientações comuns para o currículo de Ciências da Rede Pública Estadual de Educação, consideradas as demandas das ba- ses envolvidas. - ciso clareza da concepção de ciência como construção humana, portanto provisória, falível e vinculada às relações sociais de poder. Fonte: Paraná (2006, p. 35-36). 50 eu recomendo! Autor: Alan F. Chalmers Editora: Brasiliense Sinopse: a ciência deve parte de sua autoestima ao fato de ser vista como a religião moderna, desempenhando, hoje, papel si- milar ao do cristianismo na Europa, em séculos passados. Toda- via como se construiu a base para tal autoridade? Nesta introdu- ção simples e clara às opiniões modernas sobre a natureza da ciência, o inglês Alan F. Chalmers investiga por que o homem contemporâneo dedica uma fé cega livro