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m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ PRINCÍPIOS DE ANESTESIOLOGIA P R O F . M A U R I C I O D A H E R m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED Prof. Mauricio Daher | Princípios de anestesiologia 2CIRURGIA PROF. MAURICIO DAHER APRESENTAÇÃO: Prezado(a) colega, meu nome é Mauricio Daher. É com muita alegria que eu apresento a você o livro do Curso Extensivo Estratégia MED - Princípios de anestesiologia. A descoberta da anestesia, há 175 anos, possibilitou um enorme desenvolvimento na técnica cirúrgica, inaugurando a era moderna da cirurgia. Devido a isso, é considerada por muitos como uma das maiores evoluções de toda a história da Medicina. Na prática atual, diferentes técnicas anestésicas são empregadas para promover as melhores condições operatórias para os cirurgiões, oferecendo, ao mesmo tempo, segurança e conforto para os pacientes. O trabalho do anestesiologista moderno evoluiu para não ficar limitado apenas ao intraoperatório. Hoje, o cuidado inicia na avaliação pré-anestésica, cujo objetivo é coletar informações para que um planejamento anestésico personalizado seja formulado. Além disso, o anestesiologista tornou-se um perito no manejo da dor pós-operatória, contribuindo enormemente para a recuperação dos pacientes. Para nosso estudo, selecionei os principais temas da anestesiologia, focando naqueles que mais são cobrados nas provas de Residência. Meu objetivo é ajudá-lo a superar mais essa entre muitas etapas que você já venceu ao longo da sua formação médica. Sei que o presente desafio é grande e que boa parte da trajetória da sua vida nos próximos anos será influenciada pelo seu desempenho nas provas que estão por vir. Eu já estive onde você está e lembro bem as incertezas e as dúvidas que tive. Minha carreira na medicina não teve uma linha reta e logo no início ela já deu uma guinada importante. Minha cidade natal é Belo Horizonte e o vestibular em que passei em Medicina foi o da UFMG. Por questões familiares, antes mesmo da minha primeira aula de anatomia acabei me mudando para Brasília e transferindo o curso para a UnB. A mudança não estava nos meus planos e m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED Prof. Mauricio Daher | Princípios de anestesiologia 3CIRURGIA @prof.mauriciodaher@estrategiamed /estrategiamed Estratégia MED t.me/estrategiamed a adaptação em Brasília, nos primeiros anos, não foi fácil. Mas, o tempo passou e hoje não me vejo morando em outra cidade que não seja Brasília. Durante o curso de Medicina da UnB, pude conhecer minha esposa e juntos construímos uma família e tivemos dois filhos. Próximo ao final do curso, eu estava certo de que iria fazer Cardiologia. Consegui aprovação na Residência de Clínica Médica da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e o plano da Cardiologia parecia bem encaminhado! Porém, o que estava tão certo na teoria não correspondeu à realidade e não me adaptei bem ao dia a dia da Residência de Clínica Médica. Em meio a minha insatisfação, acabei solicitando meu desligamento do programa e, por alguns meses, fiquei sem rumo e cheio de dúvidas sobre meu futuro. Durante esse período confuso, comecei a trabalhar com atendimento pré-hospitalar e, aos poucos, fui percebendo que o atendimento de emergências e o fato de colocar a mão na massa e ver imediatamente o resultado das minhas ações eram aspectos que me atraíam muito no trabalho. Foi assim que vi a luz do laringoscópio e decidi que meu futuro estava na Anestesiologia. Minha formação como anestesiologista começou no Hospital Universitário de Brasília, onde pude aprender com grandes médicos e médicas a ciência e a arte do cuidado durante uma cirurgia, que, sem dúvida, é um dos momentos mais críticos da vida de qualquer pessoa. Além da Anestesiologia, descobri outra paixão durante meu tempo no HUB: o ensino médico. Percebi como é gratificante poder dividir a experiência de cuidar das pessoas. Assim que terminei a Residência, comecei a trabalhar como anestesiologista e iniciei minha formação como educador. Em pouco tempo, eu estava assumindo um cargo de professor substituto na UnB e ingressava na pós-graduação dessa mesma instituição. De lá para cá, foram muitos congressos, pesquisas, estágios, cursos e palestras, mas o entusiasmo com a educação médica continua o mesmo. Eu tive muitos desafios e dúvidas ao longo da minha carreira, mas foi seguindo minhas paixões com dedicação e disciplina que os caminhos foram se abrindo. Mantenha o foco e dedique-se! Pode acreditar que as coisas vão acontecer! E conte comigo na sua trajetória! "O que você sabe não tem valor. O valor está no que você faz com o que sabe." BRUCE LEE Anestésicos venosos Monitorização Anestésicos locais Anestesia do neuroeixo Avaliação pré-anestésica Bloqueadores neuromusculares Cuidados pós-anestésicos TEMAS MAIS PREVALENTES NAS PROVAS QUE SERÃO ABORDADOS m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://www.instagram.com/prof.mauriciodaher https://www.instagram.com/estrategiamed/ https://www.facebook.com/estrategiamed1 https://www.youtube.com/channel/UCyNuIBnEwzsgA05XK1P6Dmw?sub_confirmation=1 https://t.me/estrategiamed m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 4 SUMÁRIO 1.0 AVALIAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA 6 1.1 HISTÓRIA E EXAME FÍSICO 7 1.1.1 EXAME DAS VIAS AÉREAS 8 1.2 EXAMES COMPLEMENTARES 11 1.3 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO E PLANEJAMENTO 12 1.4 ORIENTAÇÕES PRÉ-ANESTÉSICAS 16 1.5 PLANEJAMENTO DA ANESTESIA AMBULATORIAL 18 2.0 AGENTES ANESTÉSICOS 21 2.1 ANESTÉSICOS INALATÓRIOS 23 2.1.1 EFEITOS SISTÊMICOS 26 2.1.1.1 HIPERTERMIA MALIGNA 27 2.1.2 AGENTES ESPECÍFICOS 29 2.2 AGENTES INTRAVENOSOS 31 2.2.1 OPIOIDES 32 2.2.1.1 MECANISMO DE EFEITO 32 2.2.1.2 OPIOIDES ESPECÍFICOS 34 2.2.2 ANESTÉSICOS VENOSOS NÃO OPIOIDES 35 2.2.2.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 36 3.0 BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES 42 3.1 BLOQUEADOR DESPOLARIZANTE (SUCCINILCOLINA) 43 3.2 BLOQUEADORES ADESPOLARIZANTES 43 3.3 REVERSÃO DO BLOQUEIO ADESPOLARIZANTE 45 4.0 ANESTÉSICOS LOCAIS 47 4.1 MECANISMO DE AÇÃO 48 4.2 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 50 4.3 TOXICIDADE 52 m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 5 5.0 ANESTESIA DO NEUROEIXO 55 5.1 RAQUIANESTESIA 55 5.2 PERIDURAL 58 5.3 EFEITOS FISIOLÓGICOS 59 5.4 COMPLICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES 61 6.0 BLOQUEIO DE NERVOS PERIFÉRICOS 64 6.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 64 6.2 COMPLICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES 65 7.0 MONITORIZAÇÃO ANESTÉSICA 66 7.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 66 8.0 DOR AGUDA PÓS-OPERATÓRIA 70 8.1 FISIOPATOLOGIA DA DOR 71 8.2 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 72 9.0 RECUPERAÇÃO PÓS-ANESTÉSICA 76 9.1 HIPOTERMIA 76 9.2 NÁUSEAS E VÔMITOS 77 10.0 PONTOS CHAVE 80 11.0 LISTA DE QUESTÕES 82 12.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 83 13.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS 84 m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 6 CAPÍTULO 1.0 AVALIAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA O ato anestésico não se inicia quando o paciente começa a receber as drogas anestésicas, mas sim quando é realizada a avaliação pré-anestésica (APA), um componente fundamental do cuidado a alguém que será submetido a algum tipo de procedimento com suporte anestésico. Durante essa avaliação, são colhidas informações, tanto sobre o paciente quantosobre o procedimento, e um plano anestésico específico é desenvolvido. Idealmente, a APA é realizada dias antes da data planejada para o procedimento e, assim, investigações e terapias adicionais podem ser implementadas, objetivando a redução do risco cirúrgico-anestésico e melhores desfechos para o paciente. Os procedimentos realizados em caráter de urgência ou emergência, entretanto, não permitem ampla margem de tempo e, muitas vezes, os pacientes são avaliados imediatamente antes do início da anestesia. Apesar disso, informações cruciais – como o histórico de alergias ou dados que possam sugerir uma via aérea difícil – podem ser rapidamente obtidas, se adequadamente investigadas. Fonte: Shutterstock. A APA bem conduzida é capaz de diminuir a incidência de complicações. Doenças descompensadas e outras não diagnosticadas previamente podem ser identificadas pelo anestesiologista, que focará em condições que, quando tratadas, podem diminuir o risco cirúrgico- anestésico. Um exemplo dessa ação é a administração de ferro para um paciente anêmico com objetivo de elevar o valor da hemoglobina antes de uma cirurgia. A realização de uma APA adequada diminui a ansiedade e aumenta a satisfação do paciente relacionadas ao ato anestésico. Esse será um momento para que o paciente e seus familiares tirem todas as dúvidas a respeito do planejamento da anestesia e do controle da dor no pós-operatório, podendo, inclusive, participar das decisões que envolvem esse processo junto com o anestesiologista. Além das vantagens que a APA traz para o paciente, o sistema de saúde também é beneficiado, visto que um planejamento apropriado permite a otimização de recursos dos estabelecimentos de saúde. A preparação e a orientação prévias dos pacientes resultam na diminuição no número de procedimentos cancelados, seja em função de um jejum inadequado ou devido a níveis glicêmicos muito elevados, por exemplo. O planejamento anestésico também permite a indicação precisa de equipamentos e cuidados para os pacientes que mais irão se beneficiar com sua utilização. Assim, um paciente com histórico de delirium pode receber um monitor da oximetria cerebral durante a anestesia, enquanto outro com doença pulmonar mal compensada será encaminhado para a UTI ao final do procedimento, ao invés da sala de recuperação pós-anestésica (SRPA).m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 7 1.1 HISTÓRIA E EXAME FÍSICO Como qualquer consulta médica, a avaliação pré-anestésica começa com a obtenção da história clínica, cujo objetivo é a identificação de condições que possam influenciar o risco dos procedimentos cirúrgico e anestésico e guiar a abordagem anestésica. HISTÓRIA CLÍNICA O primeiro passo é entender o motivo pelo qual o paciente realizará um procedimento com suporte anestésico e, a seguir, entender o procedimento que será realizado. A presença de comorbidades é avaliada, sendo importante determinar se estão compensadas ou não. A presença de doenças cardiovasculares ou pulmonares é particularmente relevante, pois essas condições estão associadas a complicações cirúrgicas importantes, como o infarto do miocárdio pós-operatório. Todos os medicamentos de que o paciente faz uso, inclusive os fitoterápicos, precisam ser documentados. Avaliação pré-anestésica Condições passíveis de otimização � Encaminhar para especialistas � Ajuste de medicamentos � Novos exames � Terapia para diminuição de riscos Paciente otimizado � Orientações pré-anestésicas Prosseguir com procedimentos Vantagens � Diminuição de complicações � Maior satisfação do paciente � Melhor utilização de recursos � Diminuição dos custos O histórico de cirurgias e anestesias prévias é abordado, focando na ocorrência de complicações, como dificuldade de intubação ou incidência de náuseas e vômitos no pós-operatório. Uma revisão sobre o passado de alergias, uso de álcool, tabagismo e drogas ilícitas deve ser obtida. Adicionalmente, é relevante a avaliação da prática de exercícios e do nível de capacidade funcional do paciente. O exame físico, além de complementar os dados da história clínica, também é importante para o diagnóstico de condições específicas relacionadas ao ato anestésico, como a ausência de veias periféricas visíveis (indicando possível acesso venoso difícil) ou a presença de deformidades na coluna (sinalizando dificuldade na realização de bloqueios de neuroeixo). Fonte: Shutterstock. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 8 1.1.1 EXAME DAS VIAS AÉREAS Um aspecto fundamental do exame físico da APA é a avaliação das vias aéreas, focando na identificação de sinais de dificuldade de ventilação e intubação por laringoscopia. Os sinais que indicam dificuldade de ventilação sob máscara são: ausência de dentes, presença de barba e aumento de tecidos moles da face (p. ex.: obesidade, acromegalia, síndrome de Cushing). O diagnóstico ou a presença de sintomas da síndrome de apneia do sono também são indicativos de dificuldade de ventilação. Em relação aos sinais que predizem dificuldade de intubação por laringoscopia (tabela 1.1), são pesquisados: limitação da abertura bucal, dentes proeminentes, limitação da extensão do pescoço, endurecimento dos tecidos do mento e do pescoço e a presença de alterações mandibulares (retrognatismo ou prognatismo). A classificação de Mallampati é uma parte importante da avaliação das vias aéreas, sendo que as classes III e IV estão associadas à dificuldade de visualização das cordas vocais na laringoscopia (figura 1.1). Parâmetros Sinais de via aérea difícil Comprimento dos incisivos superiores Incisivos muito proeminentes Protrusão voluntária da mandíbula Dentes inferiores não ultrapassam a linha dos superiores Distância entre incisivos < 3 cm Classificação de Mallampati Classes III e IV Distância tireomento < 5 cm ou < 3 polpas digitais Complacência submandibular Rigidez aumentada Comprimento do pescoço Avaliação subjetiva Largura do pescoço Avaliação subjetiva Mobilidade atlanto-occiptal Extensão da cabeça < 80° Tabela 1.1 – Sinais clínicos de dificuldade de visualização das cordas vocais por laringoscopia. Figura 1.1 - Classificação de Mallampati. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 9 CLASSIFICAÇÃO DE CORMACK-LEHANE No momento da laringoscopia, a visualização da anatomia das vias aéreas permitirá definir a classificação de Cormack-Lehane do paciente. Essa é uma classificação utilizada no diagnóstico de via aérea difícil, sendo que os graus III e IV estão associados à dificuldade de intubação por laringoscopia (figura 1.2). A identificação de anatomia desfavorável pode sugerir que métodos alternativos de intubação sejam empregados, como o uso de um videolaringoscópio, por exemplo. Figura 1.2 – Classificação de Cormack-Lehane. No grau 1, é visualizada praticamente toda a glote (abertura entre as cordas vocais); no grau 2, apenas a parte posterior da glote é vista; no grau 3, a glote não é visualizada, mas a epiglote sim; no grau 4, nem mesmo a epiglote é vista. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 10 Estrategista, a avaliação das vias aéreas é um tema importante e que pode cair nas provas! A seguir, coloquei duas questões para praticarmos.CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - UFG - 2020) Paciente de 45 anos, do sexo feminino, pesando 75 kg e com 1,55 m de altura será submetida à colecistectomia videolaparoscópica. Na avaliação pré-anestésica, o exame físico da via aérea foi descrito da seguinte forma: presença de dentes bem conservados com incisivos superiores relativamente longos, sendo a distância interincisivos 2,5 cm, pescoço alongado com boa mobilidade cervical, distância tireomentoniana maior que 6 cm, reduzida complacência do espaço submandibular. Palato arqueado e ao teste de Mallampati foram visualizados o palato mole e a base da úvula. No caso da paciente, a classificação de Mallampati e o risco de dificuldade para a intubação são assim especificados: A) Mallampati I e provável dificuldade para intubação. B) Mallampati II e a intubação será sem dificuldade. C) Mallampati III e provável dificuldade para intubação. D) Malampati IV e, provavelmente, a intubação será sem dificuldade. COMENTÁRIO: Estrategista, vamos colocar em prática os conhecimentos sobre a avaliação de vias aéreas! O enunciado apresenta uma paciente que será submetida à anestesia geral e que apresenta alguns sinais sugestivos de uma via aérea difícil. De acordo com a tabela 1.1, os sinais de via aérea difícil que a paciente apresenta são: incisivos proeminentes, distância interincisivos < 3 cm, pescoço longo e reduzida complacência submandibular. Além disso, pela classificação de Mallampati, a paciente seria classificada como classe III (visualização de palato duro, palato mole e base da úvula), o que também sugere risco de via aérea difícil. Vejamos as alternativas: Incorreta a alternativa A. A classificação de Mallampati está incorreta, pois na classe I são visualizados: palato duro, palato mole, úvula completa, pilares amigdalianos e parede posterior da faringe. Incorreta a alternativa B. A classificação de Mallampati também está incorreta, pois na classe II são visualizados: palato duro, palato mole, parte da úvula e parte da parede posterior da faringe. Correta a alternativa C. Como descrito na figura 1.1 acima, essa é a classificação de Mallampati correta da paciente. A presença dos vários sinais descritos no enunciado realmente sugere que a abordagem da via aérea não será fácil. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 11 Incorreta a alternativa D. Novamente, a classificação Mallampati está incorreta. Na classe IV, somente é visualizado o palato duro. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO MATO GROSSO - UFMT - 2020) A classificação de Cormack-Lehane tipo III, durante a laringoscopia direta para intubação orotraqueal com laringoscópio convencional, corresponde à visualização A) apenas da epiglote. B) apenas da base da língua e palato mole. C) das aritenoides e da porção posterior das cordas vocais. D) total das estruturas da glote. COMENTÁRIO: Essa questão avalia de forma direta quais são as estruturas visualizadas na laringoscopia de um paciente classificado como tipo III na classificação de Cormack-Lehane. Se você der uma olhada na figura 1.2, vai ficar fácil de responder! Vamos às alternativas: Correta a alternativa A. A visualização apenas da epiglote corresponde ao tipo III na classificação de Cormack-Lehane. Esse tipo, assim como o tipo IV, está associado à dificuldade de intubação. Incorreta a alternativa B. A classificação de Cormack-Lehane avalia a anatomia da glote durante a laringoscopia. A alternativa, no entanto, apresenta estruturas da orofaringe que são avaliadas na classificação de Mallampati. Incorreta a alternativa C. A abertura glótica é circundada por estruturas cartilaginosas: anteriormente pela epiglote; lateralmente pelas cordas vocais; posteriormente pelas cartilagens aritenoides. A visualização apenas da parte posterior da glote corresponde à classificação de Cormack-Lehane tipo II. Incorreta a alternativa D. A visualização de todas as estruturas da glote corresponde ao tipo I na classificação de Cormack-Lehane. 1.2 EXAMES COMPLEMENTARES A solicitação de exames complementares é baseada em características do paciente e do procedimento proposto. Os objetivos são esclarecer as suspeitas diagnósticas que apenas a história e o exame físico não foram capazes de definir e ajudar a guiar e otimizar o cuidado perioperatório. Não existem, entretanto, evidências científicas que determinem que exames devem ser solicitados e a rotina de uma instituição não será necessariamente a mesma de outra. Estrategista, acho que aqui cabe um comentário: não existe uma definição dada pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia sobre os exames que precisam ser solicitados antes da realização de uma anestesia. Do ponto de vista prático, para as provas de Residência, utilize as recomendações dos livros de referência da banca examinadora para responder às questões sobre exames pré-operatórios. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 12 De forma geral, pacientes sem doenças sistêmicas que realizarão cirurgias de baixo risco não necessitam de nenhum exame complementar. Os exames para pacientes com doenças sistêmicas devem avaliar a função dos órgãos comprometidos apenas se um resultado alterado exigir a mudança no plano cirúrgico-anestésico (p. ex.: avaliação da função hepática de um paciente com história de hepatite C). A validade de 6 meses é geralmente considerada adequada para exames pré-operatórios, desde que a condição do paciente não tenha mudado de maneira importante durante esse período. Fonte: Shutterstock. 1.3 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO E PLANEJAMENTO A partir das informações colhidas na história clínica, no exame físico e nos exames complementares, é feita a estratificação de risco cirúrgico-anestésico do paciente. Os principais objetivos desse processo são: orientar o planejamento anestésico, programar a utilização de recursos e informar ao paciente e seus familiares sobre os riscos envolvidos. Diferentes ferramentas foram desenvolvidas para auxiliar na classificação de risco. A mais utilizada (e a que mais é cobrada nas provas!) é classificação de estado físico da Sociedade Americana de Anestesiologistas (American Society of Anesthesiologists – ASA). A classificação ASA leva em consideração a presença e a gravidade de doenças sistêmicas do paciente e se o procedimento possui caráter de emergência ou não. Caro(a) Estrategista, neste momento peço que você se esforce para aprender a classificação de estado físico da ASA, que está descrita na próxima tabela. A chance de caírem questões que envolvem esse assunto é grande! No caso de cirurgias com risco de sangramento aumentado (> 500 mL), é importante que seja solicitada tipagem sanguínea do paciente e que sejam reservadas bolsas de hemocomponentes em quantidade compatível com o potencial de sangramento. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 13 Classificação Definição Comentários e exemplos ASA I Paciente sem doenças sistêmicas, não tabagista e mínimo consumo de álcool Indivíduo saudável ASA II Presença de doença sistêmica leve Doença compensada que não causa limitação funcional (p. ex.: hipertensão compensada, gestação normal, obesidade IMC > 30 e < 40 kg/m2) ASA III Presença de doença sistêmica grave Limitação funcional presente (p. ex.: insuficiência renal em diálise, obesidade mórbida com IMC > 40 kg/m2) ASA IV Presença de doença sistêmica grave que apresenta uma ameaça constante à vida do paciente Geralmente o pacientejá está hospitalizado pela doença (p. ex.: angina instável, insuficiência cardíaca descompensada) ASA V Paciente moribundo, sem expectativa de vida caso a cirurgia não seja realizada Paciente em estado crítico (p. ex.: politraumatizado apresentando choque hemorrágico) ASA VI Indivíduo com morte encefálica Cirurgia para retirada de órgãos E Cirurgia em caráter de emergência Letra E é acrescentada após o numeral da classificação (p. ex.: ASA IV E) Tabela 1.2 – Classificação de risco pela ASA. Além do que está descrito na tabela, existem alguns pontos que merecem comentário adicional, pois podem ser usados pelas bancas examinadoras para criarem questões com “pegadinhas”. A classificação ASA I corresponde ao indivíduo saudável, que não fuma, não é obeso e não bebe (ou bebe minimamente). Basicamente, esse é o indivíduo que, antes de operar, só frequenta a academia e a igreja. A classificação ASA II inclui indivíduos com obesidade (IMC > 30 e < 40 kg/m2), tabagistas e etilistas sociais. Devido às alterações fisiológicas da gestação, as grávidas saudáveis também são classificadas como ASA II. É importante notar que grávidas com doenças leves, como aquelas com hipertensão gestacional controlada, também são classificadas como ASA II. A classificação ASA III inclui indivíduos com obesidade mórbida (IMC > 40 kg/m2) e etilistas pesados. Os pacientes com histórico distante (> 3 meses) de síndromes coronarianas agudas, acidente vascular cerebral (AVC), ataque isquêmico transitório (AIT) e procedimentos endovasculares com colocação de stents também são classificados como ASA III. A classificação ASA IV inclui pacientes com histórico recente (< 3 meses) de síndromes coronarianas agudas, AVC, AIT e procedimentos endovasculares com colocação de stents. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 14 Estrategista, as bancas podem tentar confundi-lo, sugerindo que o paciente idoso recebe uma classificação da ASA mais alta. Mas, perceba que a idade, de forma isolada, não é um critério que define o risco cirúrgico-anestésico e não determina a classificação ASA. Não caia nessa! Uma importante limitação da classificação da ASA é que o risco relacionado ao procedimento cirúrgico não é avaliado. Outras ferramentas, como a calculadora de risco cirúrgico NSQIP (National Surgical Quality Improvement Project) do Colégio Americano de Cirurgiões (American College of Surgeons), levam em consideração os riscos envolvidos em diversos tipos de procedimentos e estão sendo cada vez mais utilizadas na prática. Depois que a avaliação de risco cirúrgico-anestésico é concluída, o anestesiologista desenha o plano anestésico, cujos elementos principais são: Antes da realização da anestesia, o plano ainda é discutido com o paciente e com o cirurgião para que ajustes finais sejam feitos, visando o maior grau de segurança e satisfação possível. Estrategista, que tal exercitarmos um pouco esses conhecimentos resolvendo duas questões? Técnica anestésica Manejo das vias aéreas Monitorização Analgesia pós-operatória Encaminhamento m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 15 CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE - UFS - 2020) Com relação à classificação de estado físico pela Sociedade Americana de Anestesiologia (ASA), assinale a alternativa CORRETA: A) Paciente, 57 anos, masculino, com HAS controlada e colecistite aguda calculosa – ASA I. B) Paciente, 62 anos, masculino, cirrótico, Child C, com perfuração de cólon após paracentese abdominal – ASA III. C) Paciente, 72 anos, masculino, com enfisema pulmonar e hipertensão pulmonar moderada, com oclusão arterial aguda em membro inferior esquerdo – ASA III. D) Paciente, 16 anos, feminino, hígida, com diagnóstico de hérnia umbilical pequena redutível – ASA II. COMENTÁRIO: Vejamos a classificação dos quatro pacientes apresentados: Incorreta a alternativa A. Esse paciente possui uma doença sistêmica leve (hipertensão), que se encontra compensada; dessa forma, sua classificação é ASA II. Incorreta a alternativa B. O paciente possui uma doença sistêmica grave (cirrose) que produz limitação funcional (insuficiência hepática) e se encontra descompensada (estágio Child C), ameaçando a vida do paciente. A partir desses dados, verificamos que a classificação é ASA IV. Correta a alternativa C. O paciente possui duas doenças que causam limitação funcional, mas que, estando compensadas, não apresentam uma ameaça à vida; assim, sua classificação é ASA III. É interessante mencionar que, por se tratar de um procedimento de emergência, a classificação deveria receber um E após o numeral. O mais correto, portanto, seria a classificação ASA III E. Incorreta a alternativa D. A classificação que os pacientes saudáveis recebem é ASA I. (HOSPITAL ISRAELITA ALBERT EINSTEIN - HIAE - 2017) Considere os seguintes pacientes a seguir: 1- Paciente hipertenso, em uso de losartana, mantendo bom controle dos níveis pressóricos e diabetes mellitus, em uso de hipoglicemiantes orais, apresentando hemoglobina glicosilada dentro dos limites normais; 2- Paciente com morte cerebral declarada, cujos órgãos serão removidos para doação. Na avaliação de riscos perioperatórios, de acordo com a classificação da Sociedade Americana de Anestesiologia (ASA) os pacientes 1 e 2 são classificados, respectivamente, como: A) ASA I / ASA III. B) ASA II / ASA VI. C) ASA III / ASA V. D) ASA I / ASA 0. E) ASA II / ASA V. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 16 COMENTÁRIO: O enunciado apresenta dois pacientes para serem classificados quanto ao estado físico, segundo a ASA. O primeiro paciente apresenta duas doenças sistêmicas que se encontram bem compensadas e não causam limitação funcional. Dessa forma, a classificação desse paciente é ASA II. O segundo paciente corresponde ao doador de órgãos, que é a única situação que recebe a classificação ASA VI. Sendo assim, a alternativa que apresenta as duas classificações corretas é a B. Correta a alternativa B. 1.4 ORIENTAÇÕES PRÉ-ANESTÉSICAS Ao final da avaliação pré-anestésica, o paciente recebe orientações sobre ações para modificação de risco (p. ex.: parar de fumar), ajuste de medicamentos de uso crônico e jejum pré-anestésico. Podem ser prescritos medicamentos pré- anestésicos, cujos objetivos incluem: diminuição da ansiedade (p. ex.: midazolam); melhora da analgesia pós-operatória (p. ex.: gabapentina) e diminuição do risco de broncoaspiração (p. ex.: ranitidina). Como regra geral, os medicamentos de uso crônico devem ser continuados no período perioperatório. Entretanto, certas drogas podem aumentar o risco de complicações, como anticoagulantes (risco de sangramento), anti-hipertensivos (risco de hipotensão) e hipoglicemiantes (risco de hipoglicemia). Nesses casos, o paciente é orientado a ajustar o uso do medicamento, podendo diminuir a dose ou até suspender o uso por um período específico. O objetivo do jejum pré-anestésico é permitir que o estômago esteja vazio no momento da indução anestésica, prevenindo assim a regurgitação e a broncoaspiração de conteúdo gástrico. Embora essa seja uma complicação rara, pode evoluir com pneumonite química grave e insuficiência respiratória (síndrome de Mendelson) e precisa ser levada em consideração. A recomendação do tempo de jejum leva em consideração o tipo de alimento ingerido, segundo descrito na tabela a seguir: Alimento Tempode jejum Água e líquidos sem resíduos (“líquidos claros”) 2 horas Leite materno 4 horas Leite não humano ou fórmula infantil 6 horas Refeição leve 6 horas Refeição completa 8 horas Tabela 1.3 – Recomendações de jejum pré-anestésico. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 17 Parceiro(a), atente para a tabela 1.3, pois questões sobre o tempo de jejum são comuns nas provas! Veja que são todos valores pares de 2 a 8, começando com 2 h para os líquidos que requerem o mínimo de digestão (água, chá, café); em seguida, 4 h apenas para leite materno (todos outros leites são 6 horas); depois, 6 h para alimentos leves (bolachinhas com café) e, por fim, 8 h para uma alimentação completa (uma “pratada” de almoço). Os líquidos sem resíduos são aqueles que não contêm partículas, como: água de coco, isotônicos, chá e café. Esses líquidos não devem incluir álcool. O termo “líquido claro” também pode ser utilizado para descrever os líquidos sem resíduos (inclusive em questões de prova!). Uma refeição leve consiste em uma pequena quantidade de alimento à base de farinha (1 torrada ou 2 biscoitos) acompanhada de um líquido sem resíduos. Certas situações estão associadas a risco aumentado de regurgitação do conteúdo gástrico (tabela 1.4). Nesses casos, o paciente será tratado como se estivesse com o estômago cheio, independentemente de ter feito jejum ou não. Atraso do esvaziamento gástrico Disfunção esofágica Aumento da pressão abdominal Gastroparesia diabética Obstrução intestinal Íleo paralítico Hérnia de hiato Acalásia Megaesôfago chagásico Gravidez próxima ao termo Obesidade Ascite volumosa Tabela 1.4 – Exemplos de condições que aumentam o risco de regurgitação do conteúdo gástrico durante a intubação. Fonte: Shutterstock. CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO - UNIFESP - 2020) Em relação aos cuidados perioperatórios em cirurgia ginecológica pode-se afirmar que: A) A ingesta de 200 ml de líquidos claros sem resíduos é permitida até duas horas antes do procedimento cirúrgico em pacientes sem contraindicação. B) O jejum pré-operatório, nas cirurgias ginecológicas, deve ser de 8 horas para sólidos e líquidos para evitar a Síndrome de Mendelson. C) Durante o jejum pré-operatório deve-se realizar a reposição rotineira e liberal de fluidos para evitar a desidratação e a hipoglicemia. D) A antibioticoprofilaxia deve ser realizada em todas as cirurgias ginecológicas uma hora antes do procedimento. E) A profilaxia de náuseas e vômitos pós-operatórios não precisa ser realizada nas cirurgias ginecológicas pois o acesso pélvico não é fator de risco. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 18 COMENTÁRIO: Selecionei essa questão para mostrar como as orientações sobre o jejum pré-operatório podem aparecer nas provas. O enunciado pergunta sobre diferentes condutas que previnem complicações pós-operatórias. Vejamos as alternativas: Correta a alternativa A. Como vimos nas orientações sobre o jejum pré-operatório, a ingesta de líquidos “claros”, sem resíduos (água, água de coco, isotônico, chá), é permitida até 2 horas antes do início da anestesia. Incorreta a alternativa B. Após uma refeição completa (alimentos sólidos), o tempo de jejum recomendado é de 8 horas. No entanto, a recomendação para líquidos é de apenas 2 horas (líquidos sem resíduos). Incorreta a alternativa C. Apesar de ser importante evitar a desidratação e a hipoglicemia, existem restrições para o consumo de líquidos no pré-operatório. Incorreta a alternativa D. A antibioticoprofilaxia é uma importante medida para diminuir a incidência de infecções pós-operatórias. Essa terapia é recomendada para cirurgias consideradas potencialmente contaminadas e para as contaminadas. No caso de cirurgias ginecológicas consideradas limpas, a profilaxia com antibiótico não é recomendada, no entanto. Incorreta a alternativa E. Diversos fatores estão ligados à incidência de náuseas e vômitos no pós-operatório, que podem estar relacionados a características do paciente, da cirurgia e da anestesia (vide capítulo 9). Dependendo do somatório desses fatores, a profilaxia para náuseas e vômitos no pós-operatório será recomendada, ou não, em uma cirurgia ginecológica. 1.5 PLANEJAMENTO DA ANESTESIA AMBULATORIAL O planejamento anestésico de procedimentos que são realizados em regime ambulatorial requer algumas considerações específicas, pois nesse tipo de atendimento os pacientes recebem alta das unidades de saúde no mesmo dia da realização do procedimento. Essa peculiaridade requer adaptações no preparo e seleção dos pacientes, visto que nem todos os pacientes e procedimentos são candidatos ao fluxo ambulatorial. No Brasil, a resolução N° 1.886/2008, do CFM, estabelece as “Normas mínimas para o funcionamento de consultórios médicos e dos complexos cirúrgicos para procedimentos com internação de curta permanência”. Baseado nessa resolução, para que um procedimento possa ser realizado em regime ambulatorial, certos critérios devem ser preenchidos, como descrito a seguir: • Classificação de estado físico ASA I ou II. O regime ambulatorial está indicado apenas para os pacientes classificados como ASA I ou ASA II. A razão para esse critério é que pacientes com estado físico ≥ ASA III apresentam um risco de complicações mais elevado, sendo então recomendado um tempo maior de observação após a realização do procedimento. • Extensão e localização do procedimento a ser realizado permitem o tratamento com internação de curta permanência. Procedimentos adequados para regime ambulatorial são aqueles de pequeno e médio portes, em que não ocorrem perdas expressivas de sangue, dor intensa ou limitação funcional importante no pós-operatório. Um exemplo seria uma cirurgia ortopédica da mão. • Não há necessidade de procedimentos especializados e controles estritos no pós-operatório. Como os pacientes recebem alta após o procedimento, aqueles que requerem recursos hospitalares não são candidatos ao fluxo ambulatorial. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 19 • O paciente deve estar acompanhado de pessoa adulta, lúcida e responsável. Após um período de recuperação da anestesia (geralmente 1 hora), o paciente recebe alta para seu domicílio. Na maioria dos casos, o paciente ainda apresenta efeitos residuais das drogas anestésicas no momento da alta e, dessa forma, não pode exercer certas atividades (p. ex.: dirigir), enquanto outras podem ser realizadas apenas sob supervisão de um adulto responsável (p. ex.: atravessar uma rua). • O paciente deve aceitar o tratamento proposto. Assim como para quaisquer tratamentos propostos, o consentimento informado pelo paciente é fundamental. A resolução ainda classifica os estabelecimentos de saúde que realizam procedimentos de curta permanência em quatro níveis de complexidade, de acordo com os equipamentos e os recursos humanos disponíveis em cada um desses níveis. Baseado nessa classificação, os estabelecimentos recebem a denominação de unidades do tipo I, II, III ou IV. As unidades do tipo I correspondem a consultórios médicos em que são realizados procedimentos de pequeno porte, apenas sob anestesia local sem sedação. Em unidades dos tipos II e III é permitida a realização de procedimentos de pequeno e médio portes sob sedação, porém apenas nas unidades do tipo III é permitida a realização de anestesias do neuroeixo (raquianestesia ou peridural) e de anestesia geral.As unidades do tipo IV correspondem ao anexo de um hospital, o que possibilita a realização de todos os tipos de anestesia para procedimentos ambulatoriais (tabela 1.5). Unidades Tipo I Tipo II Tipo III Tipo IV Descrição Consultórios médicos adaptados Unidades ambulatoriais (centros de saúde) Centro cirúrgico ambulatorial Unidade dentro de um complexo hospitalar Tipos de anestesia permitidos Apenas local (sem sedação) Local, sedação Local, sedação, anestesia geral e anestesia do neuroeixo Local, sedação, anestesia geral e anestesia do neuroeixo Tipos de procedimentos Cirurgias de pequeno porte Exames e cirurgias de pequeno porte Exames, cirurgias de pequeno e médio portes Exames, cirurgias de pequeno e médio portes Exemplo de procedimento Tratamento cirúrgico de unha encravada Colonoscopia Implante de prótese mamária Ablação percutânea de nódulo hepático Tabela 1.5 – Unidades para realização de procedimentos ambulatoriais com suporte anestésico. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 20 CAI NA PROVA (PROCESSO SELETIVO UNIFICADO - PSU MG - 2021) Paciente de 76 anos, sexo masculino, hipertenso, em uso de losartana, e diabético, em uso de metformina, vem apresentando bom controle clínico das comorbidades. Será submetido, em regime ambulatorial, à ressecção de lesão no membro inferior esquerdo sugestiva de melanoma. Considerando as informações acima, assinale a alternativa CORRETA. A) A idade do paciente deveria contraindicar a realização deste procedimento em regime ambulatorial. B) A anestesia geral não poderá ser realizada pois trata-se de cirurgia em regime ambulatorial. C) A associação de hipertensão e diabetes deveria contraindicar a realização desta cirurgia em regime ambulatorial. D) A raquianestesia poderá ser realizada desde que não haja contraindicações específicas. COMENTÁRIO: Estrategista, escolhi essa questão para praticarmos os conhecimentos sobre a avaliação e planejamento anestésico no contexto de procedimentos ambulatoriais. O enunciado descreve um paciente idoso (idade > 75 anos), porém sem comorbidades que resultam em limitação funcional. Ele apresenta bom controle clínico da hipertensão arterial e do diabetes mellitus e será submetido a um procedimento provavelmente de pequeno porte. Vamos às alternativas: Incorreta a alternativa A. Um conceito muito importante para ser fixado sobre avaliação de risco é que, apesar de se correlacionar com diminuição da função orgânica, a idade de forma isolada não é um critério que define o risco cirúrgico-anestésico e não determina a classificação ASA. Sendo assim, a idade do indivíduo não define se ele pode ou não ser submetido a procedimentos em regime ambulatorial. Incorreta a alternativa B. Desde que o estabelecimento possua os equipamentos, os recursos humanos e cumpra os requisitos estabelecidos na resolução 1.886/2008 do CFM e outras regulações cabíveis, não existe impeditivo para realização da técnica de anestesia geral para procedimentos em regime ambulatorial. Entretanto, essa técnica pode ser realizada apenas em unidades tipos III e IV. Incorreta a alternativa C. Pela descrição do quadro do paciente, percebemos que ele possui doenças sistêmicas que, a princípio, não causam restrição funcional e estão bem controladas. Baseado nessas informações, o paciente possui classificação de estado físico ASA II, o que possibilita a realização de procedimentos em regime ambulatorial. Correta a alternativa D. Assim como a anestesia geral, não existem contraindicações para realização de bloqueios de neuroeixo (raquianestesia e peridural) em procedimentos ambulatoriais. De maneira semelhante à anestesia geral, entretanto, os bloqueios de neuroeixo só podem ser realizados em unidades classificadas como tipos III e IV. Dessa forma, desde que o paciente não possua contraindicações individuais para a realização da raquianestesia, ela pode ser realizada em regime ambulatorial em uma unidade preparada para tal. Estrategista, você acabou de aprender vários conceitos importantes em relação aos preparativos para a anestesia. Agora você estudará as diferentes classes de agentes anestésicos, um tema muito importante também. Considere tomar um líquido sem resíduos e vamos em frente! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 21 CAPÍTULO 2.0 AGENTES ANESTÉSICOS O objetivo da administração dos diferentes tipos de fármacos anestésicos é induzir uma alteração da condição basal do paciente com o intuito de facilitar a realização de procedimentos diagnósticos ou terapêuticos. Para realização dos mais diversos tipos de procedimentos, diferentes técnicas anestésicas foram desenvolvidas, que podem ser empregadas de forma isolada ou combinada. Figura 2.1 – Técnicas anestésicas mais usadas na atualidade. Fonte: adaptado de Shutterstock. As técnicas de anestesia local, regional e do neuroeixo são semelhantes, uma vez que todas envolvem a administração de anestésicos locais para bloqueio neuronal em diferentes pontos das vias de sinalização. A anestesia local é a técnica mais simples, sendo normalmente empregada em procedimentos de pequeno porte, e consiste na infusão de anestésicos locais diretamente na região em que a cirurgia será feita. As modalidades de anestesia regional e de neuroeixo envolvem o bloqueio de nervos individuais, plexos nervosos ou mesmo toda uma região da medula espinhal e serão descritas em capítulos específicos. SEDAÇÃO E ANESTESIA GERAL A sedação e a anestesia geral são caracterizadas pela administração de drogas com efeito sistêmico que induzem, de forma gradativa, a diminuição do nível de consciência, variando desde uma leve sonolência até o silenciamento completo da atividade neuronal do cérebro. De maneira geral, os esforços do anestesiologista são para que os procedimentos transcorram de forma confortável e segura, com a administração da menor quantidade possível de drogas. Entretanto, certos tipos de procedimentos exigem a realização de uma anestesia geral, seja pela necessidade de controle ventilatório (como em procedimentos laparoscópicos), pela impossibilidade de prover analgesia adequada de outra forma (como em cirurgias do abdome superior) ou pela necessidade de completa imobilização (como em neurocirurgias). Anestesia local Anestesia regional Sedação Anestesia do neuroeixo Anestesia geral m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 22 O estado anestésico é caracterizado por quatro componentes – hipnose, analgesia, bloqueio neuromuscular e inibição dos reflexos autonômicos. A hipnose é alcançada pela inibição de estruturas do sistema nervoso central que mantêm a consciência. A analgesia é obtida pela inativação dos circuitos de sinalização da dor, o que também resulta em diminuição das respostas autonômicas ao estímulo doloroso. O bloqueio neuromuscular é alcançado pela interrupção da transmissão dos sinais dos nervos para os músculos, facilitando a intubação e o controle ventilatório. Figura 2.2 - Componentes da técnica de anestesia geral. O transcurso da anestesia geral pode ser dividido em três fases: indução, manutenção e recuperação (ou reversão). A indução é caracterizada pela transição do estado de vigília para o estado anestesiado, sendo, na maioria dos casos, realizada pela administração de agentes venosos. A indução utilizando anestésicos inalatórios é uma modalidade muito empregada para a anestesia de crianças,pois permite que um acesso venoso seja puncionado após o início da anestesia, evitando agitação adicional das crianças, que já são pouco colaborativas. Durante a fase de manutenção, são feitos ajustes na dose de anestésicos de acordo com as necessidades do procedimento que está sendo realizado, assim como os sinais vitais do paciente, que são constantemente monitorados. Ao final do procedimento, a dose dos anestésicos que estão mantendo o paciente anestesiado começa a ser diminuída e, à medida que o efeito dos anestésicos vai desaparecendo, o paciente começa o processo de recuperação. Nessa fase de reversão da anestesia, o paciente desperta e é encaminhado à sala de recuperação pós-anestésica (SRPA). A fase de recuperação encerra-se somente quando não existem mais efeitos residuais das drogas anestésicas, o que geralmente só ocorre horas após a alta da SRPA. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 23 Fonte: adaptado de Shutterstock. Indução Transição do estado de vigília para o anestesiado Manutenção Anestesia mantida e ajustada de acordo com a necessidade do procedimento e os sinais vitais do paciente Recuperação Supervisão do estado do paciente enquanto o efeito das drogas desaparece O estado de anestesia geral pode ser alcançado pela administração de drogas inalatórias (anestesia inalatória), pela administração de drogas venosas (anestesia venosa total) ou pela combinação de agentes inalatórios e venosos (anestesia balanceada). 2.1 ANESTÉSICOS INALATÓRIOS O termo "anestésico inalatório" pode referir-se tanto a um grupo de compostos líquidos e voláteis (também chamados de halogenados, em função de sua estrutura química) quanto ao óxido nitroso, um gás de uso medicinal. Os primeiros procedimentos realizados sob anestesia geral empregavam fármacos desse tipo e, durante várias décadas, essa era a única forma de produzir esse grau de profundidade anestésica. Apesar de normalmente serem utilizados em conjunto com outros tipos de anestésicos, os anestésicos halogenados são capazes de produzir, em maior ou menor grau, todos os principais componentes de uma anestesia geral. FARMACOLOGIA A absorção dos anestésicos inalatórios ocorre através do epitélio respiratório e, em função da grande superfície de contato da árvore respiratória, o acesso desses agentes à corrente sanguínea ocorre de forma praticamente instantânea. De maneira semelhante, o processo de eliminação ocorre principalmente pela via respiratória, por exalação do anestésico. Dessa forma, podemos compreender o motivo pelo qual os efeitos farmacológicos dos anestésicos inalatórios dependem diretamente da concentração alveolar desses agentes. No momento em que a administração de um anestésico inalatório se inicia, as concentrações do agente no circuito ventilatório, nos alvéolos, nos tecidos periféricos e no sítio de efeito (o cérebro) começam a entrar em equilíbrio, na medida em que ocorre a absorção e a distribuição do fármaco nesses compartimentos. Quanto maior o tempo para atingir o equilíbrio, mais tempo levará para que a concentração no sítio de efeito se eleve, ou seja, para que os efeitos clínicos iniciem. Com base nessas características, os principais determinantes da dose do anestésico inalatório que será necessária para que sejam obtidos os efeitos clínicos, assim como para definir as velocidades de início e término dos efeitos, são: m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 24 • Solubilidade sanguínea e tecidual do agente. Quanto maior a solubilidade de um agente anestésico, mais potente ele será e menor será a dose necessária para se obter os efeitos clínicos. Por outro lado, um agente muito solúvel é rapidamente absorvido do alvéolo e depositado em tecidos periféricos, o que torna mais longo o tempo para que as concentrações atinjam um equilíbrio. Da mesma forma, um agente que sofreu grande deposição em função de elevada solubilidade levará mais tempo para ser eliminado, prolongando a duração dos efeitos. • Ventilação alveolar e composição da mistura de gases. Visto que a absorção dos agentes inalatórios ocorre através da árvore respiratória, as velocidades de início e término dos efeitos, na medida em que o fármaco é iniciado ou interrompido, será diretamente influenciada pela ventilação. A concentração do anestésico no circuito ventilatório é diretamente ajustada pelo anestesista, que utiliza vaporizadores específicos para essa função. • Relação ventilação e perfusão. Apesar de parecer contrasenso, o aumento da perfusão do tecido pulmonar torna mais lento o início dos efeitos dos anestésicos inalatórios. A explicação é que um fluxo pulmonar aumentado resulta em maior absorção do anestésico dos alvéolos e deposição nos tecidos periféricos; assim, o tempo para que as concentrações nos diferentes compartimentos atinjam um equilíbrio será mais longo. A concentração alveolar mínima (CAM) é uma propriedade farmacológica peculiar dos anestésicos inalatórios, sendo bastante relevante durante a utilização clínica desses fármacos. A definição de CAM é a concentração alveolar de um agente anestésico que produz imobilidade em 50% dos indivíduos de uma população exposta a um estímulo doloroso (p. ex.: incisão cirúrgica). Dessa forma, a comparação da CAM entre os diferentes anestésicos inalatórios indica a potência relativa desses agentes, sendo inversa a relação entre a CAM e a potência anestésica. Anestésico halogenado CAM (%)† Lipossolubilidade* Óxido nitroso 104 1,4 Halotano 0,75 224 Enflurano 1,7 98 Isoflurano 1,4 98 Sevoflurano 2 51 Desflurano 6 19 Tabela 2.1 – Propriedades farmacológicas dos anestésicos halogenados. †Apresentado como percentual dos gases que são oferecidos ao paciente. *A solubilidade dos anestésicos inalatórios é estudada utilizando o conceito de coeficientes de partição. Esses coeficientes dizem respeito à distribuição relativa do anestésico quando presente em dois meios, sendo aqui representado o coeficiente óleo/gás. Quanto maior o valor, mais lipossolúvel é o agente. Você deve estar pensando: “Professor! Isso não é muito específico? Isso cai nas provas?” A resposta é SIM para as duas perguntas, mas felizmente é um assunto que não cai muito. Preparei um resumo para ajudá-lo(a) e uma questão para praticarmos. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 25 Lipossolubilidade alta � Potência alta � CAM baixa � Início e término de efeitos lentos � Ex: halotano Lipossolubilidade baixa � Potência baixa � CAM alta � Início e término de efeitos lentos � Ex: sevoflurano CAI NA PROVA (SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE GOIÁS - SES GO - 2017) Os anestésicos inalatórios têm propriedades de distribuição e absorção que os tornam mais ou menos potentes e com tempos de latência mais curtos ou mais longos, dependendo dos coeficientes de distribuição. O que se sabe dessas ações é que: A) O isoflurano e o enflurano são um pouco mais potentes do que o halotano porque têm um menor coeficiente (óleo/gás), mas, o equilíbrio é mais rápido porque têm menor coeficiente (sangue/gás). B) O óxido nitroso tem um coeficiente (sangue/gás) muito baixo e, por isso, o equilíbrio é muito rápido. No entanto, seu baixo coeficiente (óleo/gás) provoca uma CAM muito baixa. C) O halotano tem um alto coeficiente (óleo/gás), propiciando alta potência e, portanto, baixa CAM. No entanto, sua eliminação torna-se mais lenta, levando a um tempo maior na recuperaçãopós-anestésica. D) O desflurano e o sevoflurano são anestésicos novos que, deliberadamente, têm baixo coeficiente (sangue/ gás), propiciando alta potência e, portanto, baixa CAM. COMENTÁRIO: Estrategista, essa não é uma questão fácil, mas vai ajudar a sedimentar alguns conceitos sobre a farmacologia dos anestésicos inalatórios. Como vimos, um dos principais determinantes das características farmacológicas dos agentes inalatórios é sua lipossolubilidade. A lipossolubilidade correlaciona-se diretamente com os coeficientes de distribuição óleo/gás e sangue/gás. Quanto mais lipossolúvel o agente, mais potente ele será; entretanto, maior será o tempo para atingir o equilíbrio de distribuição (início e término de ação mais lentos). Vamos analisar as alternativas: Incorreta a alternativa A. Na verdade, o halotano é mais potente quando comparado ao isoflurano (e o enflurano), possuindo uma CAM mais baixa (como pode ser percebido na tabela 2.1). Quanto à velocidade para atingir o equilíbrio de distribuição, é verdade que o isoflurano (e o enflurano) atinge o equilíbrio mais rapidamente, por ser menos solúvel em sangue quando comparado ao halotano. Incorreta alternativa B. O óxido nitroso apresenta lipossolubilidade muito baixa, apresentando, consequentemente, um coeficiente sangue/gás baixo. Essa característica faz com que o óxido nitroso atinja rapidamente o equilíbrio e tenha rápidos início e término de efeito. A baixa lipossolubilidade, no entanto, determina uma CAM bastante elevada. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 26 Correta alternativa C. Pela análise dos dados da tabela 2.1, percebemos que as afirmativas apresentadas são verdadeiras. O halotano é o anestésico halogenado mais lipossolúvel, como pode ser percebido por seu elevado coeficiente óleo/gás. Essa característica faz com que ele seja o mais potente, apresentando CAM baixa (apenas 0,75%). Pela mesma razão, ocorre ampla distribuição do halotano nos tecidos e na gordura, fazendo com que tanto o início quanto o término de sua ação sejam lentos. Incorreta alternativa D. Os novos anestésicos apresentam um baixo coeficiente de distribuição sangue/gás (são menos lipossolúveis). Como vimos, o resultado é baixa potência, CAM mais elevada e maior velocidade de início e término dos efeitos. 2.1.1 EFEITOS SISTÊMICOS Além de seus efeitos anestésicos, os agentes inalatórios produzem uma série de alterações importantes no funcionamento dos diversos sistemas fisiológicos do corpo. SISTEMA CARDIOVASCULAR Com exceção do óxido nitroso, os agentes inalatórios causam diminuição dose dependente da pressão arterial média. Esse efeito se deve, principalmente, à diminuição da resistência vascular periférica (vasodilatação), sendo pequeno o efeito sobre contratilidade miocárdica. A exceção é o halotano, cujo efeito hipotensor ocorre, primariamente, por inibição do inotropismo cardíaco. Os efeitos hipotensores dos anestésicos inalatórios podem ser particularmente pronunciados em pacientes idosos, hipovolêmicos ou criticamente enfermos. SISTEMA RESPIRATÓRIO Todos os agentes produzem aumento da frequência respiratória e diminuição do volume corrente. Apesar da ventilação (volume minuto) não cair consideravelmente, a diminuição do volume corrente leva a um aumento relativo do espaço morto e piora da troca gasosa. Como resultado, ocorre elevação progressiva da concentração plasmática de CO2 à medida que doses mais altas de anestésico são administradas. SISTEMA NERVOSO Com exceção do óxido nitroso, os anestésicos inalatórios produzem diminuição da taxa metabólica cerebral e, por esse motivo, também seria esperado que diminuíssem o fluxo sanguíneo cerebral, pois esses parâmetros fisiológicos apresentam uma relação direta. Entretanto, esses anestésicos produzem inibição da autorregulação da vasculatura cerebral e, como resultado, ocorrem vasodilatação cerebral, aumento do fluxo sanguíneo cerebral (FSC) e aumento da pressão intracraniana. Esses efeitos ocorrem de forma dose dependente. FUNÇÃO HEPÁTICA Os anestésicos inalatórios causam diminuição do fluxo sanguíneo hepático, sendo esse efeito mais pronunciado com o halotano. A utilização desse agente pode resultar em lesão hepática com alteração dos exames de função hepática. FUNÇÃO RENAL Todos os agentes halogenados causam diminuição do fluxo sanguíneo renal, da taxa de filtração glomerular e do débito urinário, sendo esses efeitos secundários à diminuição da pressão arterial. A administração desses fármacos para pacientes com hipovolemia aumenta o risco de lesão renal aguda. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 27 SISTEMA MUSCULAR Exceto pelo óxido nitroso (que induz rigidez muscular), os anestésicos inalatórios causam relaxamento dose dependente dos músculos esqueléticos, potencializando a ação de bloqueadores neuromusculares. Adicionalmente, os agentes halogenados podem desencadear um estado de hipermetabolismo do tecido muscular conhecido como hipertermia maligna. Apesar de rara, essa condição pode resultar em graves consequências para o paciente e será descrita em mais detalhes a seguir. 2.1.1.1 HIPERTERMIA MALIGNA A hipertermia maligna (HM) é uma condição patológica genética rara, com padrão de herança autossômico dominante, associada à administração de certas drogas utilizadas em anestesia – anestésicos inalatórios halogenados e succinilcolina. Embora todos os anestésicos halogenados tenham o potencial de desencadear a HM, pesquisas sugerem que o risco dos agentes mais novos (desflurano, sevoflurano e isoflurano) parece ser menor quando comparado ao risco associado ao halotano. A exposição de células musculares ao fármaco em um indivíduo susceptível desencadeia a liberação excessiva de cálcio do retículo sarcoplasmático, causando contração muscular intensa e prolongada. Como resultado, observa-se hipermetabolismo celular dos músculos e disfunção em múltiplos sistemas orgânicos. O hipermetabolismo produz aumento do consumo de glicose, de oxigênio e grande produção de calor. Ocorrem anormalidades eletrolíticas, sendo as mais frequentes a hipercalemia e a acidose. Se o quadro não for adequadamente tratado, podem ocorrer: arritmias cardíacas, coagulação intravascular disseminada, rabdomiólise, edema cerebral, disfunção de múltiplos órgãos e morte. Predisposição genética Mutação do canal de cálcio (RYR1) Exposição ao agente gatilho Halogenados e succinilcolina Abertura sustentada do canal Elevação do cálcio intracelular Intensa e prolongada contração muscular Hipermetabolismo Complicações � Acidose metabólica � Hipertermia � Hipercalemia � Hipercapnia � Rabdomiólise Fonte: adaptado de Shutterstock. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 28 O quadro é caracterizado por taquicardia, rigidez muscular, arritmias, hipercarbia (elevação do CO2), sudorese e hipertermia. A HM deve sempre ser suspeitada em um paciente que desenvolve inexplicável hipercarbia e taquicardia. O diagnóstico é clínico no momento do evento, sendo posteriormente confirmado por análise laboratorial. Figura 2.3 – Exemplo dos sinais vitais que um paciente apresentando hipertermia maligna poderia apresentar. Note como o valor do CO2 expirado (etCO2) sem encontra elevado (valores normais de 35 a 45 mmHg). Tperi – temperatura periférica; HR – frequência cardíaca; NBP – pressão arterial não invasiva; awRR – frequência respiratória. Fonte: acervo pessoal.O tratamento consiste na interrupção imediata do agente de gatilho, medidas de suporte (p. ex.: correção de eletrólitos, resfriamento) e administração de dantroleno (também chamado de dantrolene) o mais rapidamente possível. Sempre que possível, o procedimento deve ser suspenso até a completa recuperação do paciente. O dantrolene é um tipo de relaxante muscular que age limitando a entrada de cálcio na célula muscular. É o agente de escolha para tratamento de HM, devendo ser administrado pela via venosa em bolus na dose de 2 a 3 mg/kg, a cada 5 minutos, até resolução do quadro (dose máxima de 10 mg/kg). Vamos ver como a hipertermia maligna pode aparecer nas provas? CAI NA PROVA (HOSPITAL ESTADUAL DR JAYME DOS SANTOS NEVES - HEJSN - 2021) Paciente de 32 anos apresenta quadro clínico de apendicite aguda e é submetido à apendicectomia videolaparoscópica. Durante o ato anestésico, apresenta taquicardia, labilidade pressórica, sudorese, rigidez de membros inferiores e hipertemia progressiva. O diagnóstico deste paciente foi de hipertemia maligna. Qual medicação deve ser administrada? A) Atropina. B) Dantrolene. C) Flumazenil. D) Naloxona. E) Midazolan. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 29 COMENTÁRIO: O enunciado pergunta qual é o tratamento em um caso de hipertermia maligna no intraoperatório de um paciente jovem que está sendo submetido a um procedimento de moderada complexidade. Vamos às alternativas: Incorreta a alternativa A. A atropina não está indicada no tratamento da HM, podendo, inclusive, prejudicar o quadro ao exacerbar a taquicardia que o paciente já está apresentando. Correta a alternativa B. Como vimos, o dantroleno é o agente de escolha para tratamento de HM, devendo ser administrado o mais rapidamente possível após o diagnóstico. Incorreta a alternativa C. O flumazenil é um antagonista da ação de benzodiazepínicos e seu uso é indicado para reverter a sedação induzida por essas drogas. O uso de flumazenil não está indicado para o tratamento da HM. Incorreta a alternativa D. A naloxona é um opioide com ação antagonista que se liga com alta afinidade ao receptor opioide µ. Essa droga é utilizada como um “antídoto” de opioides em quadros de sobredose e depressão respiratória. A naloxona também não é indicada para o tratamento da HM. Incorreta alternativa E. Os benzodiazepínicos (como o midazolam e o diazepam) são utilizados para produzir níveis variáveis de sedação. Seu uso em um paciente com HM até pode ser indicado caso o paciente esteja apresentando convulsões, que não é o caso do paciente da questão. Adicionalmente, seus efeitos não são capazes de interromper o processo que está desencadeando a HM. 2.1.2 AGENTES ESPECÍFICOS ÓXIDO NITROSO Agente inalatório menos potente, sendo utilizado apenas como adjuvante durante a administração da anestesia. Possui rápidos início e término de efeitos. Apresenta solubilidade no sangue 34 vezes maior quando comparado ao nitrogênio e essa diferença resulta na difusão do óxido nitroso para cavidades com ar dentro do corpo, provocando aumento do volume e da pressão dessas cavidades. O uso do óxido nitroso está associado a risco aumentado de náuseas e vômitos, anemia megaloblástica e aumento da resistência vascular pulmonar. Devido ao efeito de dilatar cavidades aeradas, sua utilização é contraindicada em cirurgias de ouvido e na presença de obstrução intestinal. Fonte: Shutterstock. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 30 ISOFLURANO Anestésico barato e versátil, podendo ser usado em diversos tipos de procedimentos. Suas velocidades de início e término de ação, entretanto, são lentas e seu uso tem sido gradativamente substituído por agentes menos solúveis, como o sevoflurano e o desflurano. Como os outros anestésicos halogenados, o uso do isoflurano produz queda na resistência vascular sistêmica devido à vasodilatação. O barorreflexo, entretanto, não sofre grande influência desse anestésico e, como resultado, geralmente ocorre taquicardia reflexa. SEVOFLURANO Apresenta rápidas velocidades de início e término de efeitos. Entre os agentes halogenados, é o que apresenta menor efeito sobre o sistema cardiovascular. Por não ser irritativo para as vias aéreas e possuir um odor agradável, é um agente indicado para induções inalatórias, sendo essa técnica muito utilizada para anestesia de crianças, pois possibilita que o acesso venoso seja obtido após a criança perder a consciência. Em crianças, pode resultar em agitação no momento do despertar da anestesia. DESFLURANO É o agente halogenado menos lipossolúvel e o que apresenta mais rápidas velocidades de início e término de ação. Apresenta o maior custo entre os anestésicos inalatórios, necessitando de um sistema de vaporização específico para seu uso. Também pode causar agitação no momento do despertar da anestesia em crianças. HALOTANO É o mais lipossolúvel entre todos os anestésicos inalatórios, apresentando velocidades lentas de início e término de efeitos. Assim como o sevoflurano, é um agente adequado para induções inalatórias. Apesar de barato, tem sido cada vez menos utilizado por ser o agente mais associado a reações adversas, como depressão miocárdica, arritmias e hepatotoxicidade. Características Óxido nitroso Halotano Isoflurano Desflurano Sevoflurano Lipossolubilidade Muito baixa Alta Intermediária Baixa Baixa Velocidades de início e término Muito elevadas Lentas Intermediárias Elevadas Elevadas Potência Muito baixa Alta Intermediária Baixa Muito baixa Indução inalatória Não Sim Não Não Sim Complicações Náuseas, dilatação de cavidades Depressão miocárdica, arritmias, hepatotoxicidade Taquicardia Agitação em crianças Agitação em crianças Tabela 2.2 – Resumo das propriedades dos anestésicos inalatórios. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 31 Ufa! Que tal um café antes de começarmos a parte de anestésicos venosos? Esses agentes são os mais cobrados nas provas, então é bom você estar energizado para melhorar seu aprendizado! 2.2 AGENTES INTRAVENOSOS ANESTESIA VENOSA Até um passado recente, a técnica padrão para produzir um estado de anestesia geral era baseada no uso de anestésicos inalatórios. Nos últimos anos, entretanto, essa abordagem vem sendo gradativamente substituída pela técnica de anestesia venosa total, em que todos os componentes do estado anestésico são obtidos pela administração de uma combinação de drogas venosas. A técnica padrão para a anestesia venosa requer a utilização de bombas de infusão para que um ajuste preciso das concentrações plasmáticas das drogas anestésicas seja obtido. Quando comparada à anestesia baseada em agentes inalatórios, a anestesia venosa apresenta como vantagens menos reação ao tubo traqueal, o que Fonte: Shutterstock. torna a indução e o despertar mais suaves, assim como menor incidência de náuseas e vômitos no pós-operatório. De maneira geral, a fase de recuperação da anestesia é mais rápida e com menos efeitos colaterais, permitindo alta mais precoce da sala de recuperação. A principal desvantagem da anestesia venosa é o custo mais elevado, em função das drogas utilizadas e da necessidade equipamentos específicos. ANESTESIA VENOSA Vantagens � Efeito antiemético � Despertar suave � Recuperação rápida Desvantagens � Requer equipamentos específicos � Custo elevado ANESTESIA INALATÓRIA Vantagens � Permite punção venosa após indução � Rápidatitulação da dose Desvantagens � Risco de agitação e náuseas e vômitos � Recuperação lenta VS Além de sua utilização na anestesia venosa total, os anestésicos venosos também são usados na técnica de anestesia balanceada, em que ocorre uma combinação de agentes inalatórios e venosos, e também nas sedações venosas. A indução anestésica, na maioria dos casos, é realizada utilizando drogas de administração venosa. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 32 Os anestésicos venosos pertencem a diferentes classes farmacológicas, podendo ser classificados em relação a suas estruturas moleculares, os receptores nos quais agem e os efeitos produzidos por sua ação. De maneira geral, esses agentes são divididos em fármacos opioides e não opioides. 2.2.1 OPIOIDES A denominação "opioide" é dada aos fármacos que se ligam aos receptores opioides endógenos, produzindo ações como agonistas ou antagonistas. Opioides intravenosos são comumente usados para fornecer o componente de analgesia durante uma anestesia geral ou sedação e são os agentes mais amplamente usados para o tratamento da dor aguda no período pós-operatório imediato. Os opioides podem ser classificados de diferentes maneiras, entre elas: • Síntese química. Os opioides naturais são aqueles que podem ser extraídos a partir de derivados do ópio, como a morfina e a codeína. Os opioides semissintéticos são o resultado de modificações na estrutura da morfina, sendo um exemplo a diacetilmorfina (heroína). Já os opioides sintéticos são drogas que foram desenvolvidas em laboratório com objetivo de otimizar certos aspectos farmacocinéticos ou farmacodinâmicos. Os opioides mais frequentemente utilizados na prática anestésica (fentanil, sufentanil e remifentanil) são exemplos de opioides sintéticos. • Potência. Essa é uma divisão baseada na potência analgésica, sendo os opioides divididos em fortes (morfina, fentanil) e fracos (tramadol, codeína). A potência analgésica é determinada, principalmente, pela afinidade e efetividade da droga ao ligar-se e ativar o receptor opioide µ. • Duração dos efeitos. A classificação pela duração dos efeitos é relevante do ponto de vista prático, pois ajuda a determinar que opioide será escolhido em determinadas situações. Opioides de curta duração, como o remifentanil, são escolhidos para situações cujo estímulo doloroso é curto (p. ex.: durante um procedimento cirúrgico). Por outro lado, o controle da dor pós-operatória requer opioides com efeitos de maior duração, já que esse tipo de dor é mais intenso por alguns dias após a cirurgia. 2.2.1.1 MECANISMO DE EFEITO Os opioides ligam-se a receptores específicos localizados em todo o sistema nervoso central, além de também serem encontrados em outros tecidos. Quatro tipos principais de receptores opioides foram descritos: mu (μ), kappa (κ), delta (δ) e sigma (σ). O principal receptor associado aos efeitos analgésicos é o mu, cuja ativação também resulta em sedação, euforia e depressão respiratória. A ativação dos receptores kappa e delta também desempenha um papel no efeito analgésico dos opioides. A ação analgésica dos opioides decorre tanto da inibição direta da transmissão dos impulsos de nociceptores (receptores de estímulos dolorosos) na coluna dorsal da medula quanto da ativação de circuitos inibitórios para as vias da dor (figura 2.4). INIBIÇÃO DO CIRCUITO DE SINALIZAÇÃO ASCENDENTE DA DOR ATIVAÇÃO DO SISTEMA MODULADOR DESCENDENTE DA DOR Figura 2.4 – Ações dos opioides sobre a transmissão de estímulos dolorosos. Fonte: adaptado de Shutterstock. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 33 Além de analgesia, os opioides causam diversos efeitos sistêmicos, sendo alguns deles associados a complicações por vezes importantes (tabela 2.3). O efeito colateral mais temido dos opioides é a depressão ventilatória, devido à ação nos centros respiratórios do tronco cerebral. Como resultado, ocorre diminuição importante da frequência respiratória e elevação da PaCO2. Caso o paciente já apresente algum outro fator que diminua a eficiência respiratória (p. ex.: uso de benzodiazepínico, ingestão de álcool ou diminuição do nível de consciência), o efeito do opioide pode resultar em hipoxemia grave, que pode levar o paciente ao óbito, se não for tratada rapidamente. Em relação ao sistema cardiovascular, os opioides são considerados drogas hemodinamicamente estáveis, causando poucos efeitos sobre a contratilidade miocárdica. Entretanto, quando doses elevadas são utilizadas, pode ocorrer diminuição do tônus simpático e, consequentemente, diminuição da frequência cardíaca, da resistência vascular sistêmica e da pressão arterial. Opioides que liberam histamina (p. ex.: morfina e meperidina) podem causar vasodilatação e queda da pressão arterial devido a esse efeito. Outros efeitos sistêmicos relevantes dos opioides são: indução de prurido, diminuição da motilidade gastrointestinal, indução de náuseas e vômitos, retenção urinária e rigidez muscular. Efeitos Observações Sistema cardiovascular Frequência cardíaca SE ou (doses elevadas) Efeito secundários a tônus simpático ou vasodilatação por liberação de histamina (morfina) Contratilidade SE Pressão arterial SE ou Sistema respiratório Frequência respiratória O efeito depressor da respiração pode atingir o pico após o pico do efeito analgésico PaCO2 Resposta à hipercarbia Sistema nervoso Taxa metabólica cerebral (discreta) PIC pode subir devido à hipercarbia Pressão intracraniana Sistema digestivo Motilidade Risco de íleo paralítico aumentado Náuseas e vômitos Sistema urinário Retenção urinária Risco de bexigoma aumentado Tabela 2.3 – Efeitos sistêmicos dos opioides. SE - sem efeito. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 34 2.2.1.2 OPIOIDES ESPECÍFICOS MORFINA É um opioide natural com ação agonista de alta potência. Em pH fisiológico, a maior porcentagem das moléculas de morfina encontra-se na forma ionizada (aproximadamente 79%), o que torna lenta a difusão pela barreira hematoencefálica (lento início de efeito). O metabolismo é primariamente hepático e a via de excreção é predominantemente renal. Um dos metabólitos da morfina (morfina-6-glicuronídeo) é capaz de produzir, ainda, analgesia e depressão respiratória e sua eliminação é dependente da função renal. Dessa forma, pacientes com insuficiência renal apresentam aumento da duração dos efeitos da morfina, estando sob maior risco de depressão respiratória. A administração de morfina está associada à liberação de histamina, podendo resultar em rash cutâneo. FENTANIL Trata-se de um opioide muito lipossolúvel, apresentando rápidos início e término de efeitos. Apresenta potência 50 a 100 vezes maior em relação à morfina. O desaparecimento dos efeitos ocorre principalmente pela rápida deposição no tecido gorduroso, portanto a administração de doses múltiplas pode resultar em efeitos prolongados. O metabolismo é predominantemente hepático e a excreção é renal. O fentanil é uma droga frequentemente utilizada no procedimento de indução anestésica e intubação orotraqueal. SUFENTANIL Dentre os opioides usados em anestesia, o sufentanil é o que apresenta maior ligação a proteínas plasmáticas, o que limita o volume de distribuição efetivo dessa droga, permitindo seu uso em infusão contínua. Sua potência é aproximadamente 1.000 vezes maior do que a da morfina. Confere excelenteestabilidade hemodinâmica, apesar de poder cursar com bradicardia. ALFENTANIL Apresenta rápidos início e término de efeitos após administração em bolus, porém, em função de importante deposição tecidual, seu uso não é adequado para infusões contínuas. A rápida administração pode resultar em rigidez muscular e dificuldade na ventilação com pressão positiva. Fonte: acervo pessoal. REMIFENTANIL Também apresenta rápidos início e término dos efeitos, porém não se acumula nos tecidos, sendo rapidamente metabolizado por enzimas plasmáticas. Em decorrência dessas características, o remifentanil é hoje o opioide de escolha para administração como infusão contínua, sendo frequentemente utilizado na técnica de anestesia venosa total. Apresenta potência em torno de 300 vezes maior do que a morfina.m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 35 NALOXONA Possui ação antagonista, ligando-se com alta afinidade ao receptor opioide µ. É utilizada como antídoto em quadros de sobredose e depressão respiratória associados ao uso de opioides. CAI NA PROVA (SECRETARIA DE ESTADO DA SAÚDE DE GOIÁS - SES GO - 2021) Qual dos opioides apresentados a seguir possui maior potência analgésica? A) Morfina. B) Fentanil. C) Sufentanil. D) Remifentanil. COMENTÁRIO: Como vimos, a potência analgésica é diretamente relacionada à afinidade da droga pelo receptor opioide µ. Incorreta a alternativa A. Entre os opioides apresentados, a morfina é o menos potente. Incorreta a alternativa B. O fentanil é 50 a 100 vezes mais potente em relação à morfina. Correta a alternativa C. A potência do sufentanil é 1.000 vezes superior à da morfina. Incorreta a alternativa D. O remifentanil apresenta potência em torno de 300 vezes maior do que a da morfina. 2.2.2 ANESTÉSICOS VENOSOS NÃO OPIOIDES Esse grupo de anestésicos é composto pelos barbitúricos, os benzodiazepínicos, o etomidato, a cetamina e o propofol. Todos esses fármacos produzem sedação e hipnose, ou seja, diminuem o nível de consciência de forma dose dependente quando administrados. Devido a esse efeito, esses agentes também são chamados de hipnóticos. O mecanismo de ação dos agentes hipnóticos envolve a ativação de vias inibitórias do SNC, cuja sinalização ocorre por meio do neurotransmissor GABA (ácido gama aminobutírico). O resultado dessa ação é a depressão do principal componente do SNC responsável pela ativação da consciência, o sistema reticular ativador ascendente. A exceção à regra é a cetamina, cujo efeito decorre de uma ação antagonista em receptores NMDA, da via de sinalização do neurotransmissor glutamato. O efeito da cetamina é produzir um estado de hipnose caracterizado por dissociação dos sinais sensoriais e a interpretação cerebral.m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 36 2.2.2.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS PROPOFOL Droga muito utilizada em anestesia em função de sua curta latência e rápida distribuição tecidual, o que promove rápida reversão de seus efeitos. Devido a essas características farmacocinéticas, é frequentemente utilizado em infusão contínua, seja para sedação ou como um dos componentes da anestesia geral venosa total. Possui ação hipnótica e causa amnésia, porém praticamente não possui efeito analgésico e seu uso é geralmente acompanhado da administração de um opioide. O metabolismo do propofol é pouco afetado pela disfunção hepática ou renal. O propofol apresenta como vantagens a promoção de um despertar suave, sensação de bem-estar e diminuição da incidência de náuseas e vômitos. Todos esses fatores contribuem para Fonte: Shutterstock. uma rápida recuperação pós-anestésica. O principal efeito adverso é induzir hipotensão devido a sua ação vasodilatadora e depressora da contratilidade miocárdica e seu uso para pacientes que apresentam instabilidade hemodinâmica deve ser cauteloso e, por vezes, contraindicado. Os efeitos do propofol no SNC são caracterizados por diminuição da atividade neuronal e da taxa metabólica cerebral. De forma secundária, também ocorre queda do fluxo sanguíneo cerebral, visto que existe relação direta entre o metabolismo e a perfusão cerebrais. A queda do fluxo sanguíneo cerebral contribui para diminuição da pressão intracraniana. O somatório desses efeitos faz com que o propofol seja uma boa escolha para a manutenção da anestesia em procedimentos de neurocirurgia. BENZODIAZEPÍNICOS Em doses baixas, possuem ação ansiolítica e causam amnésia, motivos pelos quais são frequentemente utilizados como medicamentos pré-anestésicos para pacientes ansiosos. Podem causar depressão respiratória, especialmente se combinados com opioides. Seus efeitos cardiovasculares são menos pronunciados do que o propofol, mas ainda assim podem cursar com hipotensão quando doses mais altas são administradas. Os agentes mais frequentemente utilizados são o diazepam e o midazolam. Dependem da função hepática para metabolismo. O flumazenil é um benzodiazepínico com ação antagonista e seu uso é indicado para reverter a sedação induzida por drogas dessa classe. O principal efeito colateral do flumazenil é a possibilidade de induzir convulsões em pacientes que fazem uso crônico de benzodiazepínicos. BARBITÚRICOS No passado, eram muito usados em anestesia, porém foram gradativamente sendo substituídos pelo propofol e o etomidato. São muito lipossolúveis e esse acúmulo na gordura pode fazer com que sua eliminação seja lenta, atrasando o despertar e causando efeitos adversos no pós-operatório, como náuseas e vômitos. O tiopental é um exemplo dessa classe de fármacos. O uso dessa droga é caracterizado por depressão da contratilidade miocárdica, vasodilatação, hipotensão arterial, liberação de histamina e diminuições na atividade, no metabolismo e no fluxo sanguíneo cerebrais. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 37 ETOMIDATO Apresenta rápidos início e término de ação, sendo o agente hipnótico que oferece maior estabilidade hemodinâmica. Em função disso, é frequentemente escolhido como agente hipnótico em situações de urgência e na indução de pacientes com instabilidade hemodinâmica. Seu efeito adverso mais relevante é a supressão da produção de cortisol pela glândula adrenal. Pode induzir o aparecimento de mioclonias. CETAMINA Possui rápido início de efeitos e, diferentemente dos outros hipnóticos, apresenta ação analgésica potente. Sua administração causa liberação de catecolaminas, produzindo aumentos da frequência cardíaca, da pressão arterial e da resistência vascular periférica. A ventilação é pouco afetada pela cetamina, que inclusive causa broncodilatação, tornando seu uso interessante em pacientes asmáticos. Nas provas, a cetamina também pode aparecer com as grafias: quetamina ou ketamina. Ao contrário dos outros hipnóticos, causa aumento do metabolismo do SNC, do fluxo sanguíneo cerebral e da pressão intracraniana. Dessa forma, seu uso não é recomendado em situações de aumento da pressão intracraniana (p. ex.: trauma cranioencefálico) e risco aumentado de sangramento intracraniano (p. ex.: aneurisma cerebral). Uma complicação frequente da cetamina é a indução de sonhos vívidos, alucinações e agitação no despertar (principalmente em crianças). Esses efeitos podem ser mitigados pela administração de benzodiazepínicos ou propofol. Os efeitos sistêmicos dos agentes hipnóticos estão resumidos na tabela a seguir: Propofol Etomidato Cetamina Midazolam Tiopental Frequênciacardíaca SE ou SE SE Contratilidade miocárdica SE SE Pressão arterial SE ou SE ou Ventilação SE Metabolismo cerebral Fluxo sanguíneo cerebral Pressão intracraniana SE ou SE Náuseas e vômitos SE Tabela 2.4 – Efeitos sistêmicos dos anestésicos venosos. SE - Sem efeito. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 38 “Professor! É muita coisa! O que é mais importante???” Estrategista, geralmente o que é mais cobrado é o uso dos agentes venosos na indução para intubação em sequência rápida. Vamos revisar esse procedimento e depois praticar com algumas questões. No final do capítulo, preparei uma tabela resumo com os pontos mais importantes. Bora lá! INDUÇÃO EM SEQUÊNCIA RÁPIDA A intubação de pacientes com estômago cheio está associada a risco aumentado de regurgitação e aspiração do conteúdo gástrico. Apesar de ser uma complicação rara, pode evoluir com pneumonite química grave e insuficiência respiratória (síndrome de Mendelson). Na tentativa de prevenir a aspiração do conteúdo gástrico, a intubação orotraqueal deve ser realizada por meio da técnica de intubação em sequência rápida. A técnica consiste na administração de medicamentos capazes de oferecer ótimas condições de intubação no menor tempo possível. Adicionalmente, o paciente é colocado em cefaloaclive e, geralmente, é feita pressão na cartilagem cricóide (manobra de Sellick). As drogas selecionadas para possibilitar a intubação são geralmente um hipnótico, um opioide e um bloqueador neuromuscular. Entre os agentes hipnóticos, podem ser usados o propofol, o midazolam, a cetamina e o etomidato. Entre os opioides, o mais frequentemente usado é o fentanil. O bloqueador neuromuscular de escolha é a succinilcolina que, na presença de alguma contraindicação para seu uso, pode ser substituída por rocurônio. CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL - UFRGS - 2019) Paciente de 63 anos, com 65 kg, foi trazido à emergência com ferimento por arma de fogo no abdome. Foi indicada a laparotomia exploradora. Os sinais vitais revelaram pressão arterial de 80 x 46 mmHg e frequência cardíaca de 142 bpm. O agente de indução anestésica mais indicado é: A) Propofol. B) Tiopental. C) Etomidato. D) Lorazepam. E) Dexmedetomidina. COMENTÁRIO Como vimos, o objetivo da indução em sequência rápida é diminuir o risco de broncoaspiração de conteúdo gástrico. Outra preocupação em uma indução de emergência é manter a estabilidade hemodinâmica, especialmente nos casos em que o paciente já se apresenta hipotenso (como o paciente do enunciado). Assim, a questão está perguntando qual, entre as drogas, é capaz de causar hipnose com o mínimo de efeitos negativos sobre a hemodinâmica. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 39 Vejamos as alternativas: Incorreta a alternativa A. O propofol oferece hipnose profunda e rápida, porém também causa vasodilatação, diminuição da contratilidade miocárdica e hipotensão. Sendo assim, seu uso é contraindicado nesse paciente. Incorreta a alternativa B. Assim como o propofol, o uso do barbitúrico tiopental resulta em vasodilatação, diminuição da contratilidade miocárdica e hipotensão. Ele não deve ser usado em pacientes hipotensos. Correta a alternativa C. O etomidato é o hipnótico de escolha para indução de pacientes com comprometimento hemodinâmico, pois sua administração praticamente não influencia na função cardiovascular. Incorreta a alternativa D. O lorazepam é um benzodiazepínico de longa duração que normalmente não é utilizado para indução de hipnose. Incorreta a alternativa E. A dexmedetomidina é um antagonista do receptor alfa-2-adrenérgico. Possui efeito sedativo e analgésico, porém não promove perda completa da consciência e não é considerado um hipnótico. Pode causar bradicardia e hipotensão. (FACULDADE DE MEDICINA DE SÃO JOSÉ DO RIO PRETO - FAMERP - 2019) Paciente de 68 anos, gênero masculino, admitido em unidade de emergência por dispneia intensa iniciada há 2 horas. Ao exame físico evidenciam-se sibilos difusos na ausculta pulmonar, FC = 120 bpm; PA = 100 x 60 mmHg, FR = 36 irpm. Segundo esposa ele foi diagnosticado com DPOC há 1 ano, mas não tem feito uso de suas medicações regularmente. Após realização de 3 inalações com formoterol associado à brometo de ipatrópio paciente evolui em insuficiência respiratória e foi indicada intubação orotraqueal. Levando-se em conta as condições clínicas do paciente, qual das opções abaixo seria mais indicada como sedativo a ser utilizado antes de proceder a IOT? A) Midazolam. B) Etomidato. C) Fentanil. D) Quetamina. COMENTÁRIO: O enunciado apresenta um paciente com insuficiência respiratória devido à DPOC e questiona qual é a droga mais indicada para sedação antes da intubação. Vejamos as opções: Incorreta a alternativa A. O midazolam causa hipotensão arterial e depressão respiratória e não tem efeito sobre a reatividade das vias aéreas. Entre as drogas apresentadas, não é a melhor escolha como sedativo para o paciente apresentado. Incorreta a alternativa B. O etomidato poderia ser indicado como hipnótico caso o paciente apresentasse maior grau de instabilidade hemodinâmica. Adicionalmente, o etomidato não tem efeito sobre as vias aéreas. Incorreta a alternativa C. O fentanil resulta em depressão ventilatória e não tem efeito considerável nas vias aéreas. Correta a alternativa D. A cetamina (ou quetamina), devido a seu efeito broncodilatador, pode ser utilizada como sedativo e hipnótico em pacientes com aumento da reatividade das vias aéreas, como pacientes com asma e DPOC. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 40 (FACULDADE DE MEDICINA DE PETRÓPOLIS - FMP - 2019) Paciente de 42 anos, sem comorbidades prévias conhecidas, é admitida na sala vermelha do pronto atendimento de urgência com quadro de disúria, polaciúria e desconforto hipogástrico há 7 dias, tendo evoluído com dor lombar, febre alta, náuseas e vômitos há 48 horas. No momento apresenta-se torporosa, PA 84 x 52 mmHg, FC 106 bpm, SpO2 74% com O2 suplementar sob máscara com reservatório. Seu preceptor opta pela sequência rápida de intubação e escolhe o melhor fármaco dentre as opções disponíveis abaixo para a sedação. Qual foi o escolhido? A) Quetamina. B) Midazolam. C) Propofol. D) Dexmedetomidina. COMENTÁRIO: Estrategista, o enunciado descreve uma paciente sem comorbidades prévias apresentando quadro sugestivo de choque séptico. O que chama a atenção é a instabilidade hemodinâmica que a paciente apresenta. Correta a alternativa A. A cetamina (ou quetamina) seria o agente hipnótico de escolha nesse caso, pois provoca liberação de catecolaminas resultando em menor comprometimento da função cardiovascular. Incorreta a alternativa B. O midazolam poderia resultar em hipotensão e piora do estado da paciente. Incorreta a alternativa C. Assim como o midazolam, o propofol poderia piorar a hemodinâmica da paciente e não deveria ser utilizado. Incorreta a alternativa D. A dexmedetomidina causa diminuição do tônus simpático, podendo resultar em bradicardia e hipotensão. Sendo assim, seu uso também não seria adequado para a paciente do enunciado. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologiaProf. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 41 Agentes Vantagens Efeitos adversos Quando usar Quando evitar Propofol Broncodilatação Antiemético Diminuição da PIC Queda do débito cardíaco Hipotensão Asmáticos Risco de náuseas e vômitos elevado Neurocirurgia Instabilidade hemodinâmica Cetamina Broncodilatação Ativação simpática Analgesia Aumento do consumo de O2 no miocárdio Elevação da PIC Alucinações Asmáticos Instabilidade hemodinâmica TCE/neurocirurgia Psiquiátricos Síndromes coronarianas Etomidato Estabilidade hemodinâmica Supressão de cortisol Instabilidade hemodinâmica Insuficiência adrenal Fentanil Analgesia Supressão de reflexos autonômicos Bradicardia (doses altas) Rigidez torácica Frequentemente usado na indução em sequência rápida Bradicardia Succinilcolina Rápido e profundo bloqueio neuromuscular Elevação do K+ Hipertermia maligna (raro) Agente de escolha na indução em sequência rápida Hipercalemia Queimados Acamados Rocurônio Adequado bloqueio neuromuscular Reação alérgica (raro) Presença de contraindicação para succinilcolina Histórico de alergia a rocurônio Tabela 2.5 – Resumo das drogas usadas no procedimento de intubação.m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 42 CAPÍTULO 3.0 BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES O relaxamento da musculatura esquelética durante a anestesia facilita muito o procedimento de intubação orotraqueal, além de possibilitar o adequado manejo e exposição cirúrgica. A administração de drogas com ação bloqueadora da junção neuromuscular é capaz de produzir esses efeitos. Para melhor entendermos os tipos e as ações dos bloqueadores neuromusculares (BNM), vamos relembrar alguns conceitos da transmissão do sinal que resulta na contração muscular (figura 3.1). Figura 3.1 – Mecanismo da junção neuromuscular (descrição no texto). O sinal neurológico que comanda a contração muscular é transmitido por neurônios motores que conduzem o potencial de ação até suas terminações nos músculos. A região de interface entre o neurônio e o miócito é chamada junção neuromuscular, uma estrutura especializada na transdução do sinal para o músculo. Quando o potencial de ação chega à terminação neuronal, ocorre liberação de acetilcolina pelo neurônio que, então, se liga a seu receptor específico na membrana muscular. O receptor de acetilcolina age como um canal iônico que, quando ativado, se abre, permitindo o influxo de Na+ e efluxo de K+ nas células musculares. O resultado é a despolarização da membrana do miócito e subsequentes aumento da concentração intracelular de cálcio, ativação do complexo actina-miosina e contração muscular. Por fim, a ativação do receptor é interrompida pela degradação da acetilcolina pela enzima acetilcolinesterase, que se encontra presente na fenda sináptica. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 43 O bloqueio farmacológico da junção neuromuscular pode ocorrer por meio de dois mecanismos: • Bloqueio despolarizante. O fármaco apresenta ação bifásica caracterizada inicialmente por ligação ao receptor de acetilcolina e ativação de sua ação despolarizante. O resultado é a contração da célula muscular. Diferentemente da acetilcolina, no entanto, o fármaco não sofre degradação pela acetilcolinesterase e permanece ligado ao receptor, impedindo novas despolarizações. O resultado final é o relaxamento muscular. A succinilcolina é o único BNM em uso clínico que apresenta esse mecanismo de ação. • Bloqueio adespolarizante. O fármaco compete com a acetilcolina pela ligação ao receptor, possuindo grande afinidade pelo mesmo. Sua ligação, entretanto, não gera ativação do receptor e a célula muscular permanece relaxada. O bloqueio durará enquanto a quantidade de fármaco presente na junção neuromuscular for capaz de inibir a ação da acetilcolina. Existem duas classes de fármacos que produzem esse tipo de bloqueio: os benzilisoquinoleínicos (atracúrio e cisatracúrio) e os aminoesteroides (pancurônio, vecurônio e rocurônio). 3.1 BLOQUEADOR DESPOLARIZANTE (SUCCINILCOLINA) A succinilcolina é o BNM que apresenta o início de efeito mais rápido, oferecendo condições ótimas de relaxamento muscular após 60 segundos de infusão. A reversão ocorre de forma espontânea, por ação de colinesterases plasmáticas, após aproximadamente 10 minutos. Por essas características, é a droga de escolha para a indução em sequência rápida, quando existe um risco aumentado de aspiração de conteúdo gástrico. Diferentemente dos bloqueadores adespolarizantes, não existem drogas capazes de reverter a ação da succinilcolina. A administração de succinilcolina está associada a importantes efeitos adversos, como a hipercalemia e a hipertermia maligna. O risco de hipercalemia grave encontra-se aumentado em situações que levam a aumento da quantidade de receptores de acetilcolina na membrana da célula muscular, como ocorre em pacientes traumatizados, queimados e paraplégicos. Nesses casos, o uso da succinilcolina é contraindicado, assim como nos casos em que os pacientes apresentam história pessoal ou familiar de hipertermia maligna. Outros efeitos adversos que podem ser observados após administração de succinilcolina são: aumento da pressão intraocular, bradicardia e mialgia. 3.2 BLOQUEADORES ADESPOLARIZANTES ATRACÚRIO Possui início e duração de efeitos intermediários. Seu metabolismo ocorre no plasma de forma independente da função hepática ou renal. Sua administração resulta em liberação de histamina de forma dose dependente, podendo resultar em hipotensão, broncoespasmo e rash cutâneo. É contraindicado em pacientes com história de reações de hipersensibilidade. CISATRACÚRIO Corresponde a um isômero do atracúrio, possuindo propriedades farmacológicas semelhantes a esse. O cisatracúrio, entretanto, não produz liberação de histamina e pode ser administrado com segurança em pacientes que apresentam história de reações de hipersensibilidade. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 44 PANCURÔNIO É o BNM em uso clínico com maior duração de efeito (acima de 60 minutos). A duração é ainda mais prolongada em pacientes que apresentam disfunção hepática ou renal. Possui efeito vagolítico, causando elevações da frequência cardíaca, da pressão arterial e do débito cardíaco. VECURÔNIO É um BNM com duração intermediária. Sua administração não resulta em alterações do sistema cardiovascular, assim como não libera histamina. A duração dos efeitos do vecurônio encontra-se aumentada em pacientes com disfunção hepática. ROCURÔNIO Trata-se do BNM adespolarizante, que produz o mais rápido relaxamento muscular, possibilitando o uso na indução em sequência rápida como substituto da succinilcolina. Os efeitos cardiovasculares são mínimos e não resultam em liberação de histamina. As principais propriedades farmacológicas dos BNM estão resumidas na tabela a seguir: Dose de intubação (mg/kg) Início do efeito (min) Duração (min) Eliminação Bloqueador despolarizante Succinilcolina 0,5 - 1 0,5 - 1 10 - 12 Enzimas plasmáticas Bloqueadores adespolarizantes Atracúrio 0,5 3 - 4 55 - 80 Degradação plasmática Cisatracúrio 0,15 2 - 3 60 - 90 Degradação plasmática Pancurônio 0,1 3 - 4 130 - 220 Renal (85%) Hepática (15%) Vecurônio 0,1 3 - 4 50 - 80 Renal (40 - 50%) Hepática (50 - 60%) Rocurônio 0,6 - 1,2 1 - 2 55 - 80 Renal (10 - 25%) Hepática (> 70%) Tabela 3.1 –Propriedades farmacológicas dos bloqueadores neuromusculares. CAI NA PROVA (FACULDADE DE MEDICINA DO ABC SP - 2020) Dentre os fármacos abaixo, assinale a alternativa que contenha um bloqueador neuromuscular despolarizante: A) Pancurônio B) Atracúrio C) Succinilcolina D) Neostigmina m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 45 COMENTÁRIO Depois do que você já leu neste capítulo, essa questão ficou muito fácil! Como vimos, o único BNM despolarizante em uso clínico é a succinilcolina. Entre as alternativas ainda temos dois bloqueadores adespolarizantes (pancurônio e atracúrio) e a neostigmina, que é usada para reverter a ação dos bloqueadores adespolarizantes, como descrito a seguir. Correta a alternativa C. 3.3 REVERSÃO DO BLOQUEIO ADESPOLARIZANTE Quando um BNM adespolarizante é utilizado, é importante que a função neuromuscular seja restabelecida ao final da anestesia, sendo esse um dos preparativos para que o despertar e a recuperação transcorram sem intercorrências. A ocorrência de bloqueio neuromuscular residual está associada à piora da função respiratória, hipercarbia e hipóxia, o que pode trazer sérias consequências para o paciente. Uma vez identificado bloqueio neuromuscular residual ao final da anestesia (por avaliação clínica ou pelo uso de um estimulador de nervo periférico), são administradas drogas para a reversão dos efeitos dos BNM. A reversão pode ser feita por meio de dois mecanismos: pelo aumento da quantidade de acetilcolina na junção neuromuscular ou pela captura do bloqueador neuromuscular, impedindo sua ação. ANTICOLINESTERÁSICOS Até há pouco tempo, o uso de drogas anticolinesterásicas era a única forma de reversão dos BNM disponível para uso clínico. A ação desses fármacos resulta em aumento da quantidade de acetilcolina nas junções neuromusculares, tanto por estimularem sua liberação na terminação neuronal quanto por inibirem a enzima responsável pela degradação da acetilcolina (acetilcolinesterase). A neostigmina é o agente mais frequentemente utilizado, sendo o edrofônio e a piridoestigmina outros membros dessa classe farmacológica. Além de sua ação na junção neuromuscular, os anticolinesterásicos exacerbam a ação da acetilcolina de forma sistêmica, inclusive nos receptores de acetilcolina muscarínicos (os receptores dos músculos são do tipo nicotínico) encontrados em órgão-alvo do sistema nervoso parassimpático. Assim, para que não ocorram broncoconstrição e bradicardias importantes (além de outros efeitos parassimpáticos), é importante a administração conjunta de um antagonista muscarínico. A atropina é geralmente utilizada para esse fim. SUGAMMADEX O sugammadex é uma droga recentemente desenvolvida, que age se ligando e rapidamente inativando os BNM do grupo de aminoesteroides. Apresenta afinidade particularmente elevada com o rocurônio. Não desencadeia efeitos sistêmicos indesejados, como ocorre com os anticolinesterásicos, e a principal complicação é o aparecimento de reações alérgicas, que são de rara ocorrência. A principal restrição para seu uso é o custo elevado. Estrategista, assim como no assunto de anestésicos venosos, trouxe uma questão para treinarmos o uso de drogas na indução para intubação em sequência rápida. Esse é um assunto que você precisa dominar! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 46 CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS - UNICAMP - 2021) O bloqueador neuromuscular indicado para intubação em sequência rápida em paciente com estômago cheio é: A) Succinilcolina. B) Vecurônio. C) Pancurônio. D) Atracúrio. COMENTÁRIO: Correta a alternativa A. A succinilcolina é o BNM que oferece condições de intubação mais rapidamente, produzindo relaxamento muscular em 0,5 a 1 minuto. É o BNM de escolha em intubações em sequência rápida, sendo o rocurônio a segunda escolha. A dose geralmente usada é de 1 mg/kg. Incorreta a alternativa B. O início de ação do vecurônio ocorre em torno de 3 a 4 minutos, não sendo adequado para intubação de sequência rápida. Incorreta a alternativa C. O pancurônio não é um agente adequado para indução em sequência rápida, pois oferece condições de intubação apenas 3 a 4 minutos após sua administração (longa latência). Incorreta a alternativa D. O atracúrio possui início e duração de efeitos intermediários, também não sendo indicado para intubação em sequência rápida. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 47 CAPÍTULO 4.0 ANESTÉSICOS LOCAIS Os anestésicos locais (AL) são fármacos cuja ação interrompe temporariamente a transmissão neuronal, causando perda de sensibilidade na região inervada pelos nervos bloqueados. Do ponto de vista químico, os AL são constituídos por um anel aromático, uma cadeia intermediária e um grupo amina. Os AL podem ser classificados em dois grupos, baseado na composição da cadeia intermediária – grupo amida ou grupo éster. Figura 4.1 – Estrutura genérica de anestésicos locais. GRUPO AMIDA São os AL mais utilizados na prática clínica. O metabolismo desses fármacos é hepático, por meio de enzimas do complexo do citocromo p450. A eliminação dos metabólitos ocorre pela via renal. Em função do metabolismo depender do fígado, situações associadas ao comprometimento da função ou da perfusão hepática – como choque, cirrose e insuficiência cardíaca – resultarão em maior risco de acúmulo e toxicidade do AL. Entre os membros do grupo amida figuram: a lidocaína, a prilocaína, a bupivacaína e a ropivacaína. GRUPO ÉSTER Os AL ésteres são compostos menos estáveis (em comparação aos AL amidas), sendo prontamente hidrolisados por esterases plasmáticas. Entre os metabólitos produzidos pela degradação de AL ésteres inclui-se o ácido para-aminobenzoico (PABA), um composto com importante potencial alergênico. Entre os membros desse grupo figuram: a cocaína, a procaína e a tetracaína. Caro(a) Estrategista, caso apareça alguma questão que compara os dois grupos de anestésicos locais (amidas e ésteres), provavelmente aparecerá algo relacionado ao risco de alergias. Nesse caso, lembre-se de que o risco de alergia é aumentado em AL do grupo éster! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 48 4.1 MECANISMO DE AÇÃO Os AL causam uma inibição reversível da condução do potencial de ação, ligando-se ao canal de Na+ e diminuindo a permeabilidade da membrana nervosa ao sódio. Inicialmente, o anestésico atravessa a membrana em sua forma não polar lipofílica. Em seguida, a molécula do AL conjuga-se a um próton, sendo convertida na forma polar hidrofílica. Essa forma do AL se liga ao canal de sódio em sua porção intracelular, prolongando o estado de inativação do canal de sódio (figura 4.2). Figura 4.2 – Mecanismo de ação dos anestésicos locais. (A) O AL bloqueia a geração e a condução dos potenciais de ação nos neurônios periféricos. (B) Local de ação dos AL na porção intracelular do canal. (C) A forma não ionizada do anestésico local (R-NH2) penetra na membrana e é, então, convertido para a forma ionizada (R-NH3+). A forma ionizada liga-se ao canal de sódio no estado aberto, prolongando o estado de inativação do canal de sódio. A potência dos AL é determinada principalmente pela lipossolubilidade da estrutura do fármaco, uma vez que, para exercerseus efeitos, é necessário que o AL atravesse a membrana lipídica da célula nervosa. Os compostos mais lipossolúveis penetram mais facilmente a membrana celular e menores quantidades da droga são capazes de produzir o efeito. De forma semelhante, os AL que possuem maior fração não ionizada em pH fisiológico também atravessarão mais facilmente a membrana. Essa característica explica o menor tempo de latência da lidocaína, quando comparada à bupivacaína (vide quadro a seguir). m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 49 PKA E AÇÃO DOS ANESTÉSICOS LOCAIS Os anestésicos locais são bases fracas e podem apresentar-se nas formas ionizada e não ionizada. O pKa dos AL determina a proporção de formas ionizadas e não ionizadas que são encontradas em um determinado pH. Como cada droga possui um pKa diferente, a proporção das formas iônicas de diferentes drogas também será diferente. Essa característica dos AL influencia diretamente a velocidade de instalação dos efeitos (latência) de cada droga da seguinte forma: pKa Concentração de formas não ionizadas Permeabilidade na membrana Tempo para ínicio dos efeitos A dependência das formas não ionizadas para o efeito dos AL torna-se particularmente evidente quando avaliamos o comportamento desses fármacos em meios ácidos. Como possuem propriedades de compostos básicos, os AL apresentam elevada ionização quando depositados em meios ácidos. Esse é o motivo pelo qual os bloqueios anestésicos geralmente não são eficazes quando feitos próximos a abcessos ou outras coleções purulentas. O diâmetro e a mielinização da fibra nervosa também influenciam a ação dos AL. Fibras mielinizadas de menor diâmetro e fibras não mielinizadas são as mais facilmente bloqueadas. Assim, as fibras amielínicas do tipo C e as levemente mielinizadas do tipo A-delta, ambas responsáveis pela transmissão de estímulos dolorosos, são mais facilmente anestesiadas quando comparadas às fibras de tato (tipo A-beta) ou às motoras (tipo A-alfa), ambas mielinizadas. Os nervos autonômicos e sensoriais também são bloqueados com maior facilidade do que os nervos de tato ou motores (tabela 4.1). Fibras A-alfa A-beta A-gama A-delta B C Mielina Sim Sim Sim Sim Sim Não Diâmetro (µm) 12 - 20 5 - 12 3 - 6 2 - 5 < 3 0,4 - 1,2 Velocidade (m/seg) 70 - 120 30 - 70 15 - 30 12 - 30 3 - 15 0,5 - 2 Modalidade neurológica Função motora Tato discriminativo Reflexos motores Dor aguda e temperatura Fibras autonômicas Dor profunda Tabela 4.1 – Propriedades das diferentes fibras nervosas. O bloqueio das fibras nervosas ocorre gradualmente, iniciando com a perda de sensibilidade à dor; em seguida, à temperatura, ao toque, à propriocepção e, finalmente, com a perda do tônus muscular. A recuperação ocorre na ordem inversa. A duração do bloqueio anestésico apresenta relação direta com a solubilidade lipídica e com o grau de ligação proteica do AL. Esse efeito ocorre devido aos AL mais lipossolúveis e que mais se ligam a proteínas, difundindo-se mais lentamente para a corrente sanguínea. Adicionalmente, a duração também é influenciada pela vascularização do tecido em que o AL é injetado, sendo que em tecidos mais vascularizados a duração é menor. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 50 ATENÇÃO, PORQUE CAI NA PROVA! É importante que você se lembre da sequência de bloqueio pelos AL: Sensação dolorosa Sensação térmica Sensação de toque Fibras motoras Criei um mnemônico para ajudá-lo(a): Não DOrme (dor) e TEnha (temperatura) TOda (toque) a MOtivação (motor) CAI NA PROVA (INSTITUTO DE ASSISTÊNCIA MÉDICA AO SERVIDOR PÚBLICO ESTADUAL - IAMSPE - 2020) A sequência de bloqueio das fibras nervosas, pelo anestésico local, é: A) Frio - calor - dor - motor - tato. B) Calor - frio - dor - tato - motor. C) Dor - calor - frio - motor - tato. D) Dor - frio - calor - tato - motor. E) Dor - tato - frio - calor - motor. COMENTÁRIO Baseado no que vimos anteriormente, podemos ver que a alternativa que apresenta a sequência correta é a D. Correta a alternativa D. 4.2 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS Os anestésicos locais mais utilizados na prática da anestesia atualmente são: lidocaína, bupivacaína e ropivacaína. Na tabela 4.2 a seguir estão listadas algumas características importantes desses fármacos. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 51 Anestésico local pKa Aplicação clínica Latência Ligação proteica (%) Duração (h) Dose tóxica Lidocaína 7.9 Bloq. Perif. Raqui. Peridural Rápida Rápida Rápida 65 1 – 3 0,5 – 1 1 – 2 4,5 mg/kg 7 mg/kg (c/epi) Bupivacaína 8.1 Bloq. Perif. Raqui. Peridural Lenta Rápida Moderada 95 4 – 12 1 – 4 2 – 5 2,5 mg/kg 3 mg/kg (c/epi) Ropivacaína 8.1 Bloq. Perif. Peridural Lenta Moderada 90 - 95 5 – 8 2 – 6 3 mg/kg Tabela 4.2 – Características farmacológicas de anestésicos locais. DROGAS COADJUVANTES Diferentes drogas podem ser usadas como coadjuvantes de AL com o objetivo de modificar alguma característica do bloqueio anestésico, como a duração do bloqueio ou a velocidade de início dos efeitos. A droga mais frequentemente associada aos AL é a adrenalina e seu efeito é causar vasoconstrição dos vasos que circundam a região em que o AL foi administrado. O resultado é a diminuição da absorção sistêmica do AL, que então permanecerá mais tempo no local onde foi injetado e a duração do bloqueio será aumentada. Por diminuir a absorção sistêmica e a concentração plasmática dos AL, a adrenalina também diminui o risco de toxicidade e permite que doses mais elevadas de AL sejam utilizadas. Apesar dessas vantagens, a adrenalina não deve ser utilizada em circulações terminais, como em bloqueios de dedos ou de pênis, pelo risco de induzir isquemia tecidual. O bicarbonato de sódio também pode ser associado aos AL e promove alcalinização da solução do AL. Uma vez que os AL são compostos básicos, a elevação do pH resulta em aumento da proporção de formas não ionizadas da molécula do AL, que é a forma que consegue atravessar a membrana neuronal para inativar o canal de Na+. O resultado é o aumento na velocidade de início do bloqueio anestésico (diminuição da latência). Os opioides e a clonidina também são usados como adjuvantes dos AL, principalmente em bloqueios de neuroeixo. Os efeitos dessas drogas são aumentar a duração do bloqueio anestésico, tornar o bloqueio mais profundo com menor dose de AL e promover analgesia residual após reversão do bloqueio. A tabela 4.3 a seguir resume as características das drogas coadjuvantes de AL: Droga adjuvante Efeitos sobre o AL Observações Epinefrina absorção e toxicidade, duração e qualidade do bloqueio Associação muito frequente Bicarbonato de sódio fração não ionizada de AL, latência Alcaliniza a solução de AL Opioides duração e qualidade do bloqueio Promove analgesia após o bloqueio Clonidina duração e qualidade do bloqueio Promove analgesia após o bloqueio Tabela 4.3 – Características de drogas adjuvantes dos anestésicos locais. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 52 4.3 TOXICIDADE A toxicidade dos AL ocorre pelo aumento da concentração plasmática da droga, que então agirá em territórios indesejados, bloqueandocanais de sódio e prejudicando a transmissão de potenciais de ação. Esses efeitos adversos terão maiores repercussões clínicas no sistema nervoso central e no sistema cardiovascular, como descrito a seguir. A ação dos anestésicos locais sobre os canais de sódio depende da fração livre da droga. Dessa forma, a presença de condições que diminuam a ligação dos AL às proteínas plasmáticas predispõe ao surgimento dos efeitos tóxicos. A hipóxia, a hipercarbia e a acidemia aumentam a toxicidade dos AL por esse mecanismo. SISTEMA NERVOSO CENTRAL Os AL ultrapassam facilmente a barreira hematoencefálica e os sintomas neurológicos centrais são precoces na intoxicação. Os primeiros que surgem são discretas alterações sensoriais. Em seguida, surgem sintomas excitatórios (convulsões) devido ao bloqueio de vias inibitórias do SNC. Por fim, surgem os sintomas depressores, que podem levar o paciente a um estado de coma. SISTEMA CARDIOVASCULAR Inicialmente, pode ocorrer elevação transitória da frequência cardíaca e da pressão arterial em função dos efeitos excitatórios do SNC. Posteriormente, ocorre depressão miocárdica dose dependente, hipotensão e arritmias que podem progredir para colapso cardiovascular e parada cardíaca. Estrategista, um assunto bastante cobrado nas provas são os anestésicos locais, especialmente quanto à toxicidade relacionada a seu uso. Estude com atenção a figura a seguir e vamos praticar um pouco com algumas questões. Figura 4.3 – Sintomas observados na toxicidade cardiovascular e neurológica dos AL. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 53 CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO - UNIFESP - 2019) Paciente com 70 kg está sendo submetido a drenagem de abscesso no cotovelo, sob anestesia local com lidocaína a 1% com vasoconstritor. Após usar 20 ml da solução, o paciente continua apresentando sensibilidade dolorosa na região. Qual das alternativas explicaria o quadro? A) O vasoconstritor não deveria ser usado nesse tipo de situação. B) A sensibilidade dolorosa persistente constitui sinal precoce de toxicidade. C) O anestésico local continua em sua forma solúvel (ionizada). D) A bupivacaína a 0,25% com vasoconstritor deveria ter sido usada no lugar da lidocaína. E) A dose de anestésico utilizada foi insuficiente. COMENTÁRIO: Essa questão ilustra a importância da compreensão dos mecanismos de ação dos anestésicos locais e como suas características químicas influenciam seus efeitos. Vamos às alternativas: Incorreta a alternativa A. O uso de vasoconstritores como adjuntos dos AL em bloqueios não é recomendado em circulações terminais, como em extremidades, pelo risco de isquemia. A administração de vasoconstritores no cotovelo não é contraindicada. Incorreta a alternativa B. Alterações sensoriais (gosto metálico, parestesia perioral) são sinais precoces de toxicidade por AL. A persistência da sensação dolorosa não é um sinal de toxicidade. Correta a alternativa C. Para que os AL produzam seu efeito, é preciso que atravessem a membrana lipídica da célula neuronal. Dessa forma, quanto mais lipofílico e menos ionizado for o AL, mais facilmente ele exercerá seus efeitos. Os AL são bases fracas que se ionizam em ambientes ácidos, como é caso das coleções encontradas dentro de abscessos. Assim, quando AL são administrados em abcessos, terão efeito reduzido, pois estarão mais ionizados e terão maior dificuldade de atravessar a membrana neuronal. Incorreta a alternativa D. O pH do abcesso causaria o mesmo efeito de diminuição de efetividade do bloqueio, caso a lidocaína fosse substituída por bupivacaína. Incorreta a alternativa E. O motivo da falha do bloqueio não foi a dose insuficiente, mas a administração de AL em meio ácido. Apesar disso, mais anestésico ainda poderia ser administrado, pois a dose tóxica da lidocaína com epinefrina para esse paciente é de 490 mg (7 mg/kg) e foram administrados apenas 200 mg (20 mL de solução a 1%). m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 54 (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE - UFS - 2019) A toxicidade ao sistema nervoso central pela administração de anestésicos locais é: A) Reduzida devido à diminuição da ligação dessas drogas às proteínas plasmáticas. B) Relacionada a efeitos excitatórios resultantes, frequentemente, das baixas concentrações plasmáticas dessas drogas. C) Caracterizada por efeitos excitatórios se as drogas forem lipofílicas e estiverem em altas concentrações plasmáticas. D) Manifestada, por exemplo, por convulsão, sendo que o limiar convulsivo pode ser aumentado pela administração de benzodiazepínicos. COMENTÁRIO: Incorreta a alternativa A. Condições que causam diminuição da ligação proteica dos AL (hipóxia, hipercarbia e acidemia) causam aumento do risco de toxicidade. Incorreta a alternativa B. O risco de toxicidade é aumentado em função de elevadas concentrações plasmáticas da droga e não baixas concentrações. Incorreta a alternativa C. Não existe relação entre o surgimento de sintomas excitatórios (convulsões) e a lipossolubilidade da droga. Correta a alternativa D. A convulsão é considerada um sintoma excitatório da toxicidade dos AL e ocorre devido à inibição de circuitos inibitórios do SNC. Os benzodiazepínicos aumentam o limiar convulsivo e podem ser usados no tratamento das convulsões devido à toxicidade por AL. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 55 CAPÍTULO 5.0 ANESTESIA DO NEUROEIXO Os bloqueios do neuroeixo são técnicas muito praticadas e, apesar de não possuírem indicações absolutas, podem ser a melhor abordagem anestésica em certas situações. Os dois tipos de bloqueios de neuroeixo realizados são o bloqueio subaracnóideo, comumente chamado de raquianestesia, e o bloqueio peridural. Apesar das similaridades entre essas duas técnicas, cada uma apresenta características próprias, por isso possuem indicações específicas. 5.1 RAQUIANESTESIA A raquianestesia consiste na deposição de anestésico local entre a aracnoide e a pia-máter, no espaço meníngeo preenchido por líquido cefalorraquidiano (liquor) – o espaço subaracnóideo. Dessa forma, observamos que, na raquianestesia, a injeção do fármaco ocorre diretamente dentro do sistema nervoso central. Figura 5.1 – Representação das meninges. Na raquianestesia, a agulha atravessa a dura-máter e a aracnoide (perceba que são fundidas) e o anestésico é depositado no espaço preenchido por liquor, entre a aracnoide e a pia-máter (espaço subaracnóideo). Nesse espaço também se encontram vasos e trabéculas aracnóideas (trama em azul). Levando isso em consideração, o local em que a punção do espaço subaracnóideo geralmente é realizada é a coluna lombar, nos espaços intervertebrais de L 3 -L4 ou L4-L5 . Nessa região, a medula espinhal já terminou na cauda equina e, consequentemente, o risco de lesão nervosa direta pela agulha é menor. Também é interessante notar que os calibres das agulhas de raquianestesia atualmente utilizados são bastante finos. A técnica de execução da raquianestesia consiste em: • Posicionamento adequado do paciente. O paciente deve estar monitorizado e os materiais de emergência disponíveis. A punção pode ser feita tanto na posição sentada quanto em decúbito lateral. O paciente deve flexionar o tronco ao máximo para abrir os espaços intervertebrais. • Preparo dos materiais e medicamentos. As seringas e agulhas são escolhidas e os fármacos aspirados. Como ocorrerá manipulaçãodo SNC, é fundamental que o procedimento seja feito com técnica asséptica. • Identificação do local da punção. Os espaços intervertebrais L 3 -L4 e L4-L5 são identificados por achados anatômicos e palpação. • Punção subaracnóidea e administração do anestésico. A agulha de raquianestesia é progredida até transfixar a aracnoide, sendo a correta localização identificada pela drenagem de liquor através da agulha. O procedimento acaba com a administração do anestésico (figura 5.1). m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 56 Figura 5.2 – Representação da punção do espaço subaracnóideo. ATENÇÃO, PORQUE CAI NA PROVA! É importante que você se lembre da sequência de planos que a agulha atravessa: Pele Subcutâneo Ligamento supraespinhoso Ligamento interespinhoso Ligamento amarelo Espaço peridural Dura-máter e aracnoide Espaço subaracnoide Vamos praticar com uma questão! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 57 CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS - UFG - 2016) Na punção para realização de raquianestesia, a agulha utilizada: A) Deve restringir a perfuração até a pia-máter. B) Deve limitar-se a perfurar o ligamento interespinhoso. C) Deve atravessar os ligamentos amarelo e supraespinhoso. D) Pode deixar de perfurar a dura-máter. COMENTÁRIO: Essa questão avalia o conhecimento sobre os planos que a agulha de raquianestesia perfura até atingir o ponto correto da injeção do anestésico local. Vamos avaliar as alternativas: Incorreta a alternativa A. Como vimos, a agulha deve avançar até perfurar a aracnoide e o anestésico deve ser injetado no espaço subaracnóideo. No caso de a agulha perfurar a pia-máter, ocorrerá traumatismo de estruturas nervosas, pois essa meninge recobre diretamente o sistema nervoso. Incorreta a alternativa B. Após atravessar o ligamento interespinhoso, a agulha estará no ligamento amarelo. Correta a alternativa C. Essas estruturas são atravessadas pela agulha no trajeto para realização da raquianestesia. Incorreta a alternativa D. A agulha precisa atravessar a dura-máter para chegar ao espaço subaracnóideo. Após a administração do anestésico, o bloqueio da transmissão neuronal começa a instalar-se rapidamente, afetando a inervação de todas as regiões do corpo abaixo do local em que o anestésico foi depositado. A duração da raquianestesia é determinada pelo tipo e pela dose do AL que foi utilizado, assim como pela adição de drogas adjuvantes. Apesar de muitos anestésicos já terem sido descritos para uso em raquianestesia, hoje em dia os bloqueios são feitos basicamente com a bupivacaína e, em menor grau, com a lidocaína. As drogas adjuvantes mais frequentemente utilizadas na raquianestesia são o fentanil, o sufentanil, a morfina e a clonidina. Como descrito no capítulo de anestésicos locais, todas essas drogas farão com que o bloqueio seja mais profundo e duradouro para uma mesma quantidade de AL. Adicionalmente, esses agentes conferem efeito analgésico mesmo após reversão do bloqueio. Apesar das baixas doses utilizadas, ainda existe risco de depressão respiratória quando opioides são usados na raquianestesia. A raquianestesia fornece excelentes condições cirúrgicas para procedimentos abaixo do umbigo, sendo bastante utilizada em procedimentos urológicos, ginecológicos, vasculares e ortopédicos dos membros inferiores. No caso do parto cesariano, é considerada a técnica de escolha. Uma óbvia vantagem da raquianestesia é evitar a manipulação das vias aéreas, uma característica bastante relevante nos casos em que o paciente possui doenças pulmonares ou risco de dificuldade de intubação. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 58 5.2 PERIDURAL Na anestesia peridural, o anestésico local é depositado no espaço peridural e entra em contato com as raízes nervosas quando estas saem da medula. O espaço peridural circunda a dura- máter ao longo de todas as porções da coluna, sendo na verdade um espaço virtual, por estar preenchido de gordura e vasos sanguíneos. As agulhas utilizadas para a punção peridural diferem de maneira importante das agulhas de raquianestesia. As agulhas de peridural possuem pontas menos cortantes, para evitar lacerações da dura-máter. São também mais calibrosas, permitindo a introdução de um cateter através de seu lúmen. O posicionamento de um cateter no espaço peridural permite a administração de múltiplas doses ou até mesmo de uma infusão contínua de anestésico. O cateter pode permanecer no espaço peridural por dias após a cirurgia, facilitando muito o controle da dor pós-operatória. Outra grande vantagem da anestesia peridural é poder ser realizada na coluna torácica, fornecendo os benefícios da anestesia de neuroeixo para procedimentos realizados no tórax ou na região abdominal alta. Entre os fármacos adjuvantes mais utilizados na anestesia peridural podemos citar a epinefrina, a morfina, o fentanil e a clonidina. A utilização de adjuvantes é feita com os mesmos objetivos daqueles descritos para a raquianestesia. Calma, parceiro(a)! Para que você não confunda as características da raquianestesia e da peridural, preparei uma tabela com algumas diferenças entre as duas técnicas que mais provavelmente podem aparecer nas provas. Características Raquianestesia Anestesia peridural Tipo de agulha Fina Calibrosa Latência Rápida Lenta Volume de AL Pequeno (3 a 5 mL) Elevado (15 a 20 mL) Intensidade do bloqueio Pronunciada Menos pronunciada Uso de cateter Raro Frequente Tabela 5.1 – Diferenças entre a raquianestesia e a anestesia peridural. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 59 Figura 5.3 – Comparação das técnicas de anestesia do neuroeixo. 5.3 EFEITOS FISIOLÓGICOS A instalação do bloqueio de neuroeixo é acompanhada de uma série de efeitos nos sistemas fisiológicos do corpo. Essas mudanças surgem por efeito primário do bloqueio neuronal ou secundário, em função da resposta orgânica adaptativa. Devido às diferenças entre a raquianestesia e a anestesia peridural, também observamos que as respostam irão diferir em maior ou menor grau. Os principais sistemas afetados são: • Sistema cardiovascular. A anestesia do neuroeixo produz bloqueio da inervação simpática dos segmentos anestesiados, resultando em vasodilatação, diminuição do retorno venoso, hipotensão e taquicardia reflexa. Esses efeitos são mais pronunciados na raquianestesia em relação à anestesia peridural. A realização da peridural torácica alta (acima de T5) resulta em bloqueio de fibras simpáticas que inervam o coração, levando à bradicardia, diminuição da força contrátil e queda do débito cardíaco. • Sistema respiratório. A função respiratória é pouco afetada, mas bloqueios altos podem causar perda da contração da musculatura ventilatória acessória. Se opioides forem usados como adjuvantes, diminuição da frequência respiratória e depressão respiratória podem ser observadas. • Função neuroendócrina. O trauma cirúrgico está associado à ativação de sinais inflamatórios e liberação de substâncias de estresse como catecolaminas e cortisol. A anestesia do neuroeixo é capaz de diminuir a resposta inflamatória associada ao trauma cirúrgico. • Sistema urinário. A anestesia do neuroeixo, quando resulta em bloqueiode fibras sacrais, causa atonia vesical, um efeito que pode perdurar várias horas e pode resultar no aparecimento de bexigoma. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 60 Aqui, vale mencionar que é bastante frequente aparecerem questões com casos de bexigoma induzido por raquianestesia. Coloquei a seguir uma questão com esse tema para praticarmos. CAI NA PROVA (HOSPITAL DA AERONÁUTICA DE SÃO PAULO - HASP - 2019) Homem de 21 anos, previamente hígido, está no pós-operatório imediato de hernioplastia inguinal bilateral, com realização de anestesia peridural. Refere nos últimos 40 minutos dor crescente em hipogástrio, com leve aumento de volume local. Está ansioso e agitado. Pulso: 110 bpm, PA: 120/90 mmHg, FR= 19 irpm, oximetria de pulso (ar ambiente) 98% Palpa-se massa dolorosa em hipogástrio. Descompressão brusca encontra-se negativa. A ferida cirúrgica tem bom aspecto. Diante do exposto, a conduta é: A) Passagem de sonda vesical. B) Abertura e revisão da incisão. C) Tomografia com contraste endovenoso. D) Ultrassom de abdômen. COMENTÁRIO: Atenção, pois questões como essa aparecem com certa frequência! Geralmente, apresentam um caso cirúrgico realizado sob bloqueio de neuroeixo (raquianestesia ou peridural) e no pós-operatório o paciente evolui com uma massa dolorosa em hipogástrio, sem outros comemorativos importantes. Vamos às alternativas: Correta a alternativa A. Uma complicação frequente de bloqueios do neuroeixo é a retenção urinária, frequentemente acompanhada de bexigoma. A probabilidade é ainda mais elevada quando opioides são usados como adjuvantes no bloqueio. A explicação é que o bloqueio anestésico causa disfunção da musculatura miccional e relaxamento da bexiga. Esses efeitos podem durar por horas, mesmo após regressão do bloqueio da musculatura dos membros inferiores. Os sinais e sintomas do bexigoma são sensação de volume e dor na região de hipogástrio, além de taquicardia e hipertensão por ativação simpática. Dessa forma, o diagnóstico do caso é um bexigoma e o tratamento é a sondagem vesical. Incorreta a alternativa B. É importante notar que a ferida apresenta bom aspecto, contraindicando essa conduta. Incorreta a alternativa C. A possibilidade de uma condição intra-abdominal para ser estudada com uma tomografia é bastante remota devido ao baixo grau de complexidade cirúrgica e pelo fato de o paciente não apresentar outras comorbidades significativas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 61 Incorreta a alternativa D. Apesar de ser um exame não invasivo, o uso do ultrassom seria inútil nesse caso e poderia atrasar o tratamento da dor do paciente pela sondagem vesical. 5.4 COMPLICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES As técnicas de anestesia do neuroeixo são seguras, porém o procedimento para sua realização é delicado e envolve a manipulação de estruturas nobres (medula espinhal e raízes nervosas). As principais complicações associadas à anestesia do neuroeixo são: HIPOTENSÃO ARTERIAL Como descrito anteriormente, é frequente a ocorrência de hipotensão após anestesia do neuroeixo. Como essa é uma complicação normalmente esperada, geralmente é tratada precocemente e de forma eficaz. Entretanto, certas situações podem cursar com colapso cardiovascular, como em pacientes cardiopatas ou que estão hipovolêmicos no momento de instalação do bloqueio. CEFALEIA APÓS PUNÇÃO DURAL Fonte: Shutterstock. Trata-se de uma complicação relativamente comum e benigna da raquianestesia. Ocorre mais frequentemente em mulheres jovens, sendo particularmente frequente após raquianestesia para cesariana. Apesar de normalmente ser chamada cefaleia “pós-raqui”, essa condição também pode aparecer na anestesia peridural, devido à perfuração acidental da dura-máter. O quadro clínico é caracterizado por cefaleia que surge 1 a 3 dias após a punção, com duração de 1 a 2 semanas. É normalmente intensa, frontal ou occipital, sendo exacerbada por movimentos súbitos, como levantar e sentar. Pode ser acompanhada de alterações visuais e auditivas, náuseas e vômitos. A causa da dor é o extravasamento de liquor através do orifício na dura-máter, criado pela agulha usada no bloqueio do neuroeixo, o que acaba resultando em diminuição da pressão liquórica e tração de estruturas do sistema nervoso. Normalmente, é bem controlada com analgésicos e manutenção da hidratação; entretanto, casos refratários podem ser tratados com um tampão sanguíneo (blood patch), em que um volume de 20 mL de sangue do paciente é injetado no espaço peridural, no mesmo local em que a punção prévia foi feita. HEMATOMA PERIDURAL Ocorre devido à perfuração de um vaso no espaço peridural. A formação de um hematoma nessa região pode causar compressão medular ou de raízes nervosas, produzindo sintomas de disfunção neurológica. Dependendo da gravidade, o quadro pode necessitar de uma cirurgia de emergência para evitar sequelas. O risco de hematoma peridural está aumentado em pacientes com problemas na coagulação ou que estejam tomando medicamentos anticoagulantes. RAQUIANESTESIA TOTAL A administração indevida do volume de AL usado em uma peridural no espaço subaracnoide vai resultar em bloqueio de toda (ou praticamente toda) a medula espinhal. O resultado é uma vasodilatação em todo o corpo, levando à profunda hipotensão. Caso o AL também atinja o cérebro, pode ocorrer parada respiratória e perda de consciência. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 62 INTOXICAÇÃO POR AL Apesar de raro, é possível que um vaso seja puncionado durante o procedimento da anestesia peridural. Se o volume de AL for administrado diretamente no vaso, sintomas de intoxicação podem surgir. LESÃO NEUROLÓGICA Lesões neurológicas também são raras, mas podem ocorrer devido ao trauma direto pela agulha ou por injeção intraneural de AL. São percebidas por dor e alterações agudas da sensibilidade no momento da execução do bloqueio. A anestesia do neuroeixo é contraindicada quando o paciente apresenta alergia a AL, quando existe infecção no local da punção ou na presença de alguma situação que predisponha ao surgimento de complicações graves, como descrito na tabela abaixo: Contraindicação Complicação associada Coagulopatia ou uso de anticoagulantes Hematoma peridural Cardiopatia grave ou instabilidade hemodinâmica Hipotensão arterial grave Presença de deformidades ou cirurgias prévias da coluna Lesão de estruturas Tabela 5.2 – Contraindicações dos bloqueios de neuroeixo. CAI NA PROVA (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE - SUS SP - 2015) Um paciente de 40 anos de idade está no quarto pós-operatório de hernioplastia inguinal direita à Lichtenstein, feita sob raquianestesia. Queixa-se de muita cefaleia e de vômitos frequentes. Está descorado e desidratado. A ferida operatória tem discreta hiperemia. Nega dor abdominal. Conduta mais apropriada: A) Blood patch. B) Benzodiazepínicos e analgésicos. C) Analgésicos e antibioticoterapia tópica. D) Antibioticoterapia oral. E) Suspensão de opioides prescritos e reforço com analgésicos simples, mais frequentes. COMENTÁRIO: O enunciado apresenta um paciente que, após a raquianestesia, apresenta cefaleia e vômitos sem outras complicações. Sendo o diagnóstico mais provável a cefaleia pós-raquianestesia, o enunciado pergunta qual é a conduta mais adequada. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ EstratégiaMED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 63 Vamos checar as alternativas: Correta a alternativa A. O tampão sanguíneo, ou blood patch, é o tratamento de escolha para os quadros refratários ou muito intensos de cefaleia pós-raqui. Como o paciente do enunciado se apresenta desidratado e referindo muita cefaleia, esse seria o tratamento adequado. Incorreta a alternativa B. O uso de benzodiazepínicos não é recomendado para o tratamento da cefaleia pós-raqui. Incorreta a alternativa C. A ferida apresenta apenas hiperemia discreta, um achado normal no pós-operatório e que não indica a presença de infecção de ferida operatória. Sendo assim, o uso do antibiótico não é recomendado. Incorreta a alternativa D. Mesma explicação da alternativa C. Incorreta a alternativa E. Como o paciente está apresentando desidratação e vômitos frequentes, o uso de analgésicos orais provavelmente não será eficaz. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 64 CAPÍTULO 6.0 BLOQUEIO DE NERVOS PERIFÉRICOS Estrategista, o tema deste capítulo não é frequentemente cobrado nas provas. Mantive-o aqui porque se trata de uma importante técnica anestésica e pela possibilidade de uma questão trazer um bloqueio de nervo periférico como contexto para perguntar sobre outro assunto. Você não será prejudicado se pular para o próximo tema. O bloqueio de nervos periféricos é capaz de promover excelente anestesia e duradoura analgesia, permitindo a realização de diversos tipos de cirurgias, apesar de serem o “carro chefe” de procedimentos ortopédicos. A administração dos anestésicos é feita em local próximo à incisão cirúrgica, limitando os efeitos sistêmicos da anestesia. Essa característica dos bloqueios periféricos aumenta a segurança do procedimento e diminui o tempo de recuperação e de internação do paciente. Por esse motivo, esses bloqueios são particularmente úteis em procedimentos ambulatoriais. No passado, a localização dos nervos era feita por parâmetros anatômicos e indução de parestesia, literalmente “cutucando” o nervo com a agulha. Atualmente, pelo aparelho de ultrassom, é possível a visualização direta dos nervos, da agulha e da dispersão do AL (figura 6.1). Figura 6.1 – Imagem de bloqueio de nervo periférico guiado por ultrassom. Fonte: acervo pessoal. A possibilidade da introdução de um cateter próximo ao nervo que foi bloqueado para realização da cirurgia foi outra grande vantagem que o uso da ultrassonografia trouxe para a prática da anestesia. Dessa forma, doses adicionais de anestésico podem ser administradas, promovendo excelente analgesia até por vários dias após o procedimento. 6.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS Os bloqueios de face e pescoço são bastante utilizados para procedimentos de cirurgia plástica (p. ex.: rinoplastia, otoplastia) e cirurgia vascular (p. ex.: endarterectomia de carótida). Os bloqueios de membros superiores são frequentemente utilizados em procedimentos ortopédicos (p. ex.: artroscopia de ombro) e de cirurgia vascular (p. ex.: confecção de fístula arteriovenosa). O bloqueio mais frequentemente realizado é o bloqueio do plexo braquial. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 65 Figura 6.2 – Imagem representando o bloqueio de plexo braquial. Assim como nos membros superiores, os procedimentos mais frequentemente realizados sob bloqueios de membros inferiores são ortopédicos (p. ex.: artroscopia de joelho) e de cirurgia vascular (p. ex.: amputação de dedos do pé). Os bloqueios mais relevantes são o do nervo ciático, do nervo femoral e de tornozelo (pentabloqueio). O uso do ultrassom possibilitou a realização de bloqueios em planos musculares nos quais nervos das regiões torácica e abdominal estão localizados. Dessa forma, a anestesia de áreas específicas do tronco tornou-se possível. Podem ser realizadas cirurgias de reparo da parede (p. ex.: herniorrafia inguinal, herniorrafia umbilical) e cirurgias de mama (p. ex.: mamoplastia) empregando essa técnica. 6.2 COMPLICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES Os procedimentos de bloqueio de nervos periféricos são considerados bastante seguros, principalmente quando realizados com auxílio da ultrassonografia. A complicação mais grave é a intoxicação por anestésicos locais, que pode ser evitada pela certificação de que a agulha não se encontra dentro de um vaso (aspiração negativa para sangue) e pela administração de uma quantidade de AL que não ultrapasse a dose tóxica do mesmo. Outras possíveis complicações são: lesão de nervos, formação de hematoma e infecção local. Os bloqueios periféricos têm poucas contraindicações, podendo ser feitos mesmo em pacientes bastante frágeis. Basicamente, a única contraindicação é o relato feito pelo paciente de alergia ao anestésico local.m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 66 CAPÍTULO 7.0 MONITORIZAÇÃO ANESTÉSICA O objetivo da monitorização é traduzir o funcionamento dos sistemas orgânicos do paciente durante o ato anestésico. Segundo a resolução N° 2.174/2017 do CFM, que dispõe sobre a prática do ato anestésico, os parâmetros mínimos de monitorização durante a anestesia são: • Oximetria de pulso, frequência cardíaca, pressão arterial e ritmo cardíaco por eletrocardiografia, que devem ser avaliados em todos os procedimentos. • A temperatura deve ser avaliada em procedimentos com duração superior a 60 minutos ou quando o risco de alterações da temperatura é elevado, como no caso de prematuros, recém-nascidos, pacientes Fonte: Shutterstock. 7.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS O oxímetro de pulso avalia, de forma contínua, a fração de hemoglobina ligada ao oxigênio em relação à hemoglobina não conjugada. O processo envolve a emissão e subsequente captação de luz para determinação das frações de hemoglobina a partir do princípio de absorção de luz (espectrofotometria). O valor da oximetria de pulso traduz a eficiência do sistema respiratório em oxigenar o sangue. A pressão arterial é normalmente medida de forma seriada, automática e não invasiva. O monitor apresenta os valores das pressões sistólica (PAS), diastólica (PAD) e média (PAM). A diferença entre as pressões sistólica e diastólica é chamada de pressão de pulso (PP) e sua avaliação permite-nos fazer inferências sobre variações no volume sistólico. A monitorização da PA também pode ser feita de forma contínua pela introdução de um cateter arterial. Essa é a chamada pressão arterial invasiva (PAI). A monitorização contínua pela PAI é indicada em situações em que podem ocorrer oscilações bruscas e repentinas na PA, como em pacientes apresentando instabilidade hemodinâmica, cardiopatas ou em cirurgias cardiovasculares. com história anterior ou risco de hipertermia maligna e síndromes neurolépticas. • A avaliação da ventilação, inclusive com capnografia, deve ser feita em todos os procedimentos com uma via aérea artificial (p. ex.: intubação traqueal), com ventilação artificial ou quando ocorre exposição a agentes que podem causar hipertermia maligna. O CFM propõe ainda o uso, em casos específicos, de: monitorização do bloqueio neuromuscular, monitorização da profundidade da anestesia, monitorização hemodinâmica avançada, monitor de gases anestésicos e ecocardiografia intraoperatória. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípiosde anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 67 Um parâmetro bastante útil para guiar o manejo hemodinâmico intraoperatório é a variação da pressão de pulso, que pode ser obtida quando a PAI é utilizada. A análise da variação da pressão de pulso ao longo do ciclo ventilatório (em pacientes sob ventilação mecânica controlada) permite prever se o paciente é responsivo ou não à administração de fluidos. Indivíduos que apresentam elevação da variação da pressão de pulso apresentam baixas pressões de enchimento do coração e podem ser considerados hipovolêmicos. Figura 7.1 – Representação gráfica da pressão de pulso. utilizadas são a D2, para avaliação do ritmo e frequência, e a V5, para detecção de alterações isquêmicas. O capnógrafo é um instrumento que mede, de forma contínua, o CO2 expirado, apresentando esse parâmetro tanto em forma de gráfico quanto com valores numéricos. Ele permite a detecção precoce de problemas ventilatórios como: falha de intubação, desconexão do circuito ventilatório e broncoespasmo (figura 7.2). Além de avaliar a ventilação, o capnógrafo também é capaz de traduzir alterações hemodinâmicas, pois, quando ocorre diminuição da perfusão pulmonar, menos CO2 será expirado, sendo observada uma queda na curva de capnografia. Devido a essa propriedade, o uso do capnógrafo é recomendado durante o tratamento da parada cardiopulmonar, pois é capaz de informar sobre a eficácia da massagem cardíaca (valor de CO2 expirado acima de 10 mmHg corresponde à massagem eficaz) e sobre o retorno da circulação espontânea (súbita elevação da curva de capnografia e do valor do CO2 expirado). O eletrocardiograma intraoperatório exibe, de forma contínua, tanto o traçado elétrico do ritmo cardíaco quanto a frequência cardíaca. A presença de arritmias e os sinais elétricos da isquemia miocárdica podem ser precocemente detectados por avaliação desse monitor. As derivações mais frequentemente Atenção, Estrategista! Aprenda os padrões da curva de capnografia apresentados a seguir, pois foram tema de questões em provas recentes! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 68 Figura 7.2 – Diferentes padrões de curva de capnografia. O eletroencefalograma (EEG) é um exame que registra diferenças de potencial elétrico cerebral a partir de múltiplos sensores posicionados na calota craniana. As drogas anestésicas causam depressão dose dependente da função cerebral, efeito esse que pode ser avaliado por mudanças nos padrões de onda do EEG, possibilitando melhor controle da anestesia. Diferentes monitores foram desenvolvidos para avaliação do nível de consciência de pacientes sob anestesia geral. A base para o desenvolvimento desses monitores são os dados do EEG, que são então processados e correlacionados com diferentes níveis de consciência. Entre esses monitores de EEG processado, um dos mais utilizados é o BIS, que infere o nível de consciência do paciente a partir de um valor numérico chamado índice bispectral. O algoritmo do BIS processa o sinal do EEG e apresenta um valor de índice que varia entre 0 e 100. O valor superior corresponde ao paciente completamente acordado e zero corresponde a um profundo estado de inconsciência ou coma, com o traçado eletroencefalográfico planificado, isoelétrico. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 69 Outro parâmetro importante que o monitor de BIS apresenta é a taxa de supressão, que corresponde à percentagem de tempo, nos últimos 60 segundos, em que a atividade do EEG foi suprimida. A elevação da taxa de supressão deve fazer com que o anestesista avalie se a anestesia está excessivamente profunda ou se existe alguma outra condição que produz diminuição da taxa metabólica cerebral, como a queda do débito cardíaco, por exemplo. Para a maioria das drogas anestésicas, a faixa entre 40 e 60 do valor do BIS é usada como alvo para manutenção do estado de anestesia geral. O uso do BIS é especialmente recomendado nos casos de pacientes que apresentam alto risco de consciência intraoperatória e para aqueles que estão recebendo a anestesia venosa total. CAI NA PROVA (SELEÇÃO UNIFICADA PARA RESIDÊNCIA MÉDICA DO ESTADO DO CEARÁ - SURCE - 2021) Uma paciente foi submetida a uma gastrectomia parcial sob anestesia geral e relata aos familiares e médico que "lembra" de eventos ocorridos no transoperatório. A consciência operatória poderia ser minimizada através de qual das seguintes ações? A) Manutenção venosa com morfina. B) Manutenção do BIS em torno de 50-60. C) Reaplicação de pancurônio ao final da cirurgia. D) Manutenção da PAM em torno de 60-70 mmHg. COMENTÁRIO Estrategista, vamos praticar um pouco os conhecimentos sobre a monitorização intraoperatória, mais especificamente sobre a monitorização da profundidade anestésica. Vamos às alternativas: Incorreta a alternativa A. A morfina não é normalmente utilizada como droga para manutenção do estado anestésico, sendo principalmente utilizada para controle da dor pós-operatória. Dito isso, os opioides apresentam um efeito sinérgico com agentes hipnóticos, diminuindo a quantidade desses agentes para induzir a inconsciência. Correta a alternativa B. Por tratar-se de um monitor da profundidade anestésica, a utilização do monitor de BIS (mantendo o valor do índice abaixo de 60), provavelmente, teria contribuído para que a paciente não apresentasse lembranças do intraoperatório. Incorreta a alternativa C. O pancurônio é um bloqueador neuromuscular adespolarizante de longa duração. Seu uso ao final da cirurgia poderia prejudicar a recuperação da paciente, aumentando o risco de bloqueio neuromuscular residual e causando dificuldade de extubação. O uso de bloqueadores neuromusculares não apresenta efeito sobre o nível de consciência. Incorreta alternativa D - A elevação do nível de consciência (despertar) no intraoperatório geralmente está associada a elevações da frequência cardíaca e da pressão arterial. Essas alterações hemodinâmicas, entretanto, são muito inespecíficas para predizer consciência intraoperatória e não devem pautar uma estratégia que busca minimizar o risco dessa complicação. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 70 8.0 DOR AGUDA PÓS-OPERATÓRIA CAPÍTULO A dor intensa é uma ocorrência frequente no pós-operatório e, além de causar sofrimento para o paciente, também está associada à piora da recuperação, aumento do risco de complicações pós- operatórias e, consequentemente, piores resultados cirúrgicos. A dor relacionada a procedimentos abdominais e torácicos compromete a mecânica respiratória, em função de diminuição da função diafragmática e aumento do tônus dos músculos abdominais. O resultado é diminuição do volume corrente, da capacidade residual funcional e complacência pulmonar. A capacidade do paciente respirar profundamente e tossir fica comprometida, aumentando o risco de hipoxemia, hipercapnia, acúmulo de secreções, atelectasia e pneumonia. Fonte: Shutterstock. Adicionalmente, o paciente com dor tem dificuldade de caminhar, ficando mais restrito ao leito. Esse atraso na deambulação está associado a aumento do risco de trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar. Em relação ao aparelho cardiovascular, a dor resulta em ativação do sistema nervoso simpático, produzindo taquicardia, hipertensão, aumento do volume sistólico e aumento do consumo de oxigênio pelo miocárdio. Esses efeitos colocamos pacientes com doença coronariana sob risco de isquemia e infarto, além de aumentarem o risco de arritmias. O metabolismo sofre mudanças devido ao efeito de mediadores de estresse (catecolaminas, cortisol, glucagon) liberados em função da dor. O resultado é aumento do catabolismo proteico, hiperglicemia e retenção de água e sódio. Em relação ao trato gastrointestinal, a dor diminui a motilidade e aumenta o risco de íleo paralítico, náuseas e vômitos. Também pode ocorrer diminuição da motilidade da bexiga e uretra, resultando em retenção urinária. Adicionalmente, a dor aguda mal controlada também causa modificações na sinalização sensorial, diminuindo o limiar para percepção dolorosa e predispondo ao aparecimento de síndromes dolorosas crônicas. Parceiro(a), como você pode perceber, a dor pode causar uma série de complicações no pós-operatório. Como esse é um assunto frequentemente cobrado nas provas, recomendo que você dê um carinho especial a ele! Para ajudá-lo(a), preparei a tabela a seguir, revisando as complicações associadas à dor aguda pós-operatória. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 71 Efeito da dor Complicação associada Sistema cardiovascular Taquicardia, hipertensão, aumento do consumo de O2 Arritmias, isquemia e infarto Sistema respiratório Diminuição da ventilação e da complacência pulmonar Atraso na deambulação Atelectasia, pneumonia Trombose venosa profunda e tromboembolismo pulmonar Metabolismo Liberação de mediadores de estresse Hiperglicemia, catabolismo proteico Sistema digestivo Hipomotilidade Íleo paralítico, náuseas e vômitos Sistema urinário Hipomotilidade Retenção urinária Tabela 8.1 – Complicações sistêmicas da dor aguda. 8.1 FISIOPATOLOGIA DA DOR Dependendo de seu mecanismo, a dor aguda pode ser classificada como neuropática ou nociceptiva. A dor neuropática ocorre em razão de uma lesão ou inflamação do sistema nervoso, podendo surgir no pós-operatório de procedimentos em que ocorreu manipulação de estruturas neuronais. No entanto, a dor nociceptiva é o tipo mais frequentemente observado no período pós-operatório. Esse tipo de dor está associado à ativação de nociceptores por estímulos mecânicos, químicos ou térmicos, como os que ocorrem em função do trauma tecidual cirúrgico e a inflamação associada. O processamento da dor nociceptiva compreende quatro etapas: transdução, transmissão, modulação e percepção. O entendimento dessas etapas auxilia no planejamento da terapia, uma vez que as drogas analgésicas apresentam ação em diferentes etapas da via de sinalização e processamento da dor. A transdução ocorre nos receptores especializados da sensação dolorosa (nociceptores) e são gerados potenciais de ação em decorrência de estímulos nocivos de diferentes naturezas (químicos, térmicos, mecânicos). A ação de anestésicos locais, opioides e anti-inflamatórios interfere na etapa de transdução (figura 8.1). A transmissão é caracterizada pela condução do potencial de ação até o córtex cerebral, a partir da ativação sequencial de neurônios em diferentes níveis. As fibras associadas à transmissão do estímulo doloroso são as do tipo A-delta (dor aguda bem localizada; trato espinotalâmico lateral) e do tipo C (dor profunda e difusa; trato espinorreticular). Essas fibras fazem conexão com neurônios da coluna posterior da medula que transmitem o sinal para núcleos superiores do SNC. A transmissão pode ser bloqueada pela ação de anestésicos locais em nervos periféricos ou no neuroeixo. Os opioides também atuam nessa etapa, diminuindo a transmissão dos sinais nociceptivos. A modulação corresponde ao processamento do estímulo ao longo das vias aferentes da dor, podendo levar à inibição ou elevação do sinal. Um conjunto de fibras descendentes atua de forma importante no processo fisiológico de modulação da dor (sistema modulador descendente). Diversas substâncias moduladoras já foram descritas atuando nessa etapa, como a endorfina e a noradrenalina. A cetamina, os agonistas alfa-2- adrenérgicos e os opioides atuam no sistema de modulação da dor, diminuindo a intensidade dos sinais nociceptivos. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 72 Na etapa de percepção, o indivíduo toma consciência do estímulo nociceptivo por ativação de diferentes regiões no cérebro. A discriminação espacial da dor ocorre no córtex somatossensorial. A percepção da dor é influenciada pelo estado emocional, expectativas e experiências prévias do indivíduo, com atuação importante do sistema límbico. A estimulação do tálamo desencadeará os efeitos autonômicos da sinalização nociceptiva, como taquicardia e elevação da pressão arterial. Os analgésicos (paracetamol e dipirona), os opioides e os agonistas alfa-2-adrenérgicos agem nessa etapa, diminuindo a percepção dolorosa. Figura 8.1 – Processamento da dor e analgésicos que atuam em cada etapa desse processo. Fonte: adaptado de Shutterstock. 8.2 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO O controle analgésico adequado oferece conforto para o paciente, inibe a resposta ao estresse, melhora o padrão respiratório e a movimentação do paciente. Em função disso, o paciente consegue andar precocemente, realiza fisioterapia de forma eficaz e alimenta-se mais rapidamente, o que contribui para que receba alta mais precocemente. O manejo da dor inicia-se antes da cirurgia, com a coleta de dados do paciente e estabelecimento de um plano analgésico traçado pelo cirurgião e o anestesiologista. A presença de dor e o uso de analgésicos antes da cirurgia são informações cruciais para auxiliar nessa etapa. O planejamento da analgesia deve incluir o uso de diferentes agentes farmacológicos e técnicas analgésicas (como bloqueio de nervos periféricos), buscando o sinergismo entre esses diferentes componentes. Essa abordagem recebe a denominação de analgesia multimodal, que é amplamente recomendada nos dias de hoje. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 73 Outra estratégia que vem recebendo destaque é a analgesia preemptiva. Ela é caracterizada pela administração de analgésicos ou pela realização de bloqueios anestésicos antes da ocorrência de estímulos dolorosos. Vários estudos já demonstraram que essa abordagem diminui a intensidade da dor pós-operatória, facilitando seu controle. A avaliação da dor é normalmente feita utilizando escalas padronizadas, sendo as escalas visual analógica e verbal numérica as mais difundidas atualmente. Essas ferramentas consideram a intensidade referida pelo paciente, que dá uma nota em uma escala de 0 a 10, sendo 0 a ausência de dor e 10 a pior dor que ele pode imaginar (figura 8.2). Sem dorSem dor Leve Moderada Intensa Crítica Figura 8.2 – Escala visual analógica combinada com escalas qualitativa (leve, moderada, intensa e crítica) e de faces. Fonte: Shutterstock. Pela abordagem de analgesia multimodal, o tratamento da dor é feito de forma escalonada, de acordo com a intensidade da dor referida pelo paciente, por uma combinação de terapias analgésicas. Os objetivos são promover controle adequado da dor e, ao mesmo tempo, diminuir o uso de opioides. As dores de leve intensidade são tratadas com uma combinação de analgésicos e anti-inflamatórios não esteroidais (AINES). No caso de dores de moderada intensidade, são incluídos opioides fracos à terapêutica com analgésicos e AINES. Dores intensas são tratadas primariamente com opioides fortes combinadosaos analgésicos e AINES. Os quadros de dor intensa refratária ou recorrente podem ser abordados pela realização de procedimentos intervencionistas para interromper o estímulo doloroso. Para esse objetivo, podem ser indicados desde bloqueios de nervos periféricos até bloqueios de neuroeixo, que geralmente apresentam grande eficácia no controle da dor. Dor refratária - Procedimentos intervencionistas + Analgésicos + AINES Dor intensa - Opioides fortes + Analgésicos + AINES Dor moderada - Opioides fracos + Analgésicos + AINES Dor leve - Analgésicos + AINES Drogas adjuvantes Figura 8.3 – Terapia multimodal da dor aguda pós-operatória. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 74 Outra abordagem possível para os casos complexos é a utilização da analgesia controlada pelo paciente (patient controlled analgesia – PCA), que envolve o uso de bombas específicas que permitem uma programação em que o paciente consegue administrar doses de analgésicos quando sente a necessidade, fazendo isso de forma segura. A abordagem multimodal também recomenda a inclusão de drogas com ação adjuvante no plano analgésico e um número de medicamentos já foram empregados para esse fim, como: corticoesteroides; antidepressivos; anticonvulsivantes; magnésio; agonistas do receptor α-2 adrenérgico e cetamina. ANALGÉSICOS Entre os analgésicos, são utilizados a dipirona e o paracetamol, sendo que ambos também possuem ação antitérmica. Essas drogas potencializam a analgesia de AINES e diminuem a necessidade de opioides. O uso de paracetamol está associado à disfunção hepática. ANTI-INFLAMATÓRIOS NÃO ESTEROIDES Reduzem a síntese de prostaglandinas, diminuindo a inflamação e promovendo analgesia. Podemos citar como exemplos o diclofenaco, o ibuprofeno e o tenoxicam. Os AINES diminuem a utilização de opioides, reduzindo também a incidência de náuseas e vômitos no pós- operatório. Os efeitos colaterais mais importantes são gastrointestinais, renais e hematológicos, que precisam ser considerados antes de sua prescrição. Ocorre aumento do risco de sangramento no pós-operatório (especialmente gastrointestinal) por inibição da agregação plaquetária. Os efeitos renais incluem vasoconstrição renal e diminuição da taxa de filtração glomerular, que podem evoluir para lesão renal aguda. Pacientes idosos, nefropatas e hipovolêmicos apresentam um risco particularmente alto de complicações renais quando tomam AINES e seu uso, nessas situações, deve ser cauteloso. OPIOIDES FRACOS Nessa categoria estão incluídos a codeína e o tramadol. São drogas menos potentes e, por esse motivo, também são menos associadas às complicações mais graves dos opioides, como a depressão respiratória. A codeína apresenta potência de aproximadamente 10% da morfina. Já o tramadol, além de agir no receptor opioide µ, também possui ação analgésica via receptores de serotonina e noradrenalina. O uso de tramadol está associado a náuseas e vômitos, além de poder predispor a convulsões. OPIOIDES FORTES Correspondem ao principal tratamento de dores intensas no pós-operatório, apesar de todos os efeitos adversos relacionados a seu uso (descritos na seção sobre opioides venosos). Os agentes mais utilizados para o controle da dor aguda pós-operatória são, normalmente, o fentanil e a morfina. Adicionalmente, também podem ser utilizadas a metadona e a meperidina. A metadona possui potência analgésica equivalente à morfina, apresentando longa meia-vida (15 a 50 horas) e excreção que independe da função renal. O uso de meperidina é indicado especialmente em casos de dor associada à hipotermia e tremores, porém está associada a um risco aumentado de delirium e convulsões. Estrategista, como você bem sabe, o tratamento da dor é um tema importante para ser estudado e não se aplica somente à anestesiologia, mas a diversas áreas da medicina. Garanto que o que você aprendeu aqui vai ajudá-lo(a) em questões de outros assuntos também! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 75 CAI NA PROVA (UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE - UFS - 2020) Com relação à dor pós-operatória, podemos afirmar: A) Com relação ao sistema respiratório, a dor pode ocasionar redução da capacidade vital, do volume corrente, do volume residual e da capacidade residual funcional. Isso resulta em redução da complacência pulmonar, inabilidade em respirar profundamente ou tossir. B) A presença de dor no pós-operatório leva a desconforto do paciente, mas não altera a taxa de outras complicações. C) O estímulo da dor, originado na lesão tecidual no trauma, é conduzido através de fibras mielinizadas para o corno anterior da medula ou para núcleos mistos dos nervos cranianos. D) O controle da dor deve ser feito rigorosamente, sendo necessária nas grandes cirurgias a administração de opioides durante toda a internação do paciente. COMENTÁRIO Essa questão aborda diversos aspectos da fisiologia e tratamento da dor que vimos anteriormente. Vejamos as alternativas: Correta a alternativa A. As dores relacionadas às cirurgias abdominais e torácicas causam piora da função diafragmática e resultam em contração da musculatura abdominal. O resultado é piora da mecânica ventilatória e diminuição da complacência pulmonar. Essas alterações aumentam o risco de complicações respiratórias pós-operatórias, como atelectasia e pneumonia. Incorreta a alternativa B. Além do sofrimento que causa, a dor está associada a múltiplas disfunções orgânicas que aumentam o risco de diversas complicações. Para lembrar-se dessas complicações, revise a tabela 8.1. Incorreta a alternativa C. O estímulo gerado nos nociceptores é transmitido para o sistema nervoso central por fibras mielinizadas (tipo A-delta) e amielínicas (tipo C) que se conectam com neurônios no corno POSTERIOR da medula. A figura 8.1 mostra bem essas conexões. Dê uma olhada lá! Incorreta a alternativa D. O controle da dor deve ser rigoroso, entretanto isso não significa que opioides devem sempre ser usados. Na terapia da dor, múltiplas abordagens são indicadas (analgesia multimodal) com objetivo de diminuir a prescrição de opioides, que devem ficar reservados para casos de dores moderadas e intensas. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 76 CAPÍTULO 9.0 RECUPERAÇÃO PÓS-ANESTÉSICA Fonte: Shutterstock. A recuperação pós-anestésica corresponde à fase final da anestesia, que dura desde o momento em que as drogas anestésicas são interrompidas até quando não existem mais efeitos residuais desses agentes. Logo após a saída da sala em que o procedimento foi realizado, o paciente é normalmente encaminhado para a sala de recuperação pós-anestésica (SRPA), onde permanece sob monitorização e recebe tratamentos para condições que podem surgir em decorrência do procedimento ou da anestesia que foram realizados. Durante a permanência na SRPA, os sinais vitais, a presença de sangramento, dor, náuseas e vômitos são continuamente avaliados, sendo anotados a cada 15 minutos pela equipe responsável. Usualmente, no momento em que o paciente recebe alta da SRPA, a recuperação anestésica ainda não está completa, mas ele encontra-se estável o bastante para terminar o processo de recuperação em um ambiente que não requer atenção constante, como o quarto do hospital ou mesmo seu domicílio. Na maioria dos casos, a recuperação anestésica transcorre de forma tranquila, entretanto importantes complicações podem ocorrer, podendo, inclusive, levaro paciente ao óbito. A condição clínica prévia, o porte e o tipo de cirurgia, a técnica e a duração da anestesia são todos fatores que podem influenciar a incidência e a gravidade das complicações no período pós-operatório imediato. As complicações mais graves geralmente são relacionadas aos sistemas respiratório (depressão respiratória) ou cardiovascular (choque), porém, felizmente, são de rara ocorrência. Duas complicações frequentemente observadas na SRPA são hipotermia e náuseas e vômitos pós-operatórios. 9.1 HIPOTERMIA A hipotermia é uma complicação frequentemente observada no pós-operatório e está associada a aumento de complicações e piora da experiência do paciente. A hipotermia é definida por uma temperatura central – a temperatura dos órgãos internos – abaixo de 36 °C. A incidência é aumentada nos extremos de idade, em procedimentos abdominais com grande exposição de vísceras e em procedimentos de longa duração. A hipotermia diminui a taxa metabólica celular e pode oferecer proteção em situações de isquemia cerebral ou cardíaca. Entretanto, a queda da temperatura corporal causa disfunção de diversos sistemas orgânicos, sendo bastante deletéria para o paciente cirúrgico (tabela 9.1). A eficácia da cascata de coagulação é dependente da temperatura e a hipotermia causa coagulopatia e aumento da perda de sangue durante a cirurgia. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 77 Sistemas afetados Hipotermia leve Hipotermia intensa Cardiovascular Taquicardia e hipertensão (tremores) Bradicardia, queda do débito cardíaco, arritmias Respiratório Taquipneia (tremores) Depressão ventilatória Nervoso Aumento do efeito sedativo de drogas anestésicas Queda do nível de consciência Outros Aumento do sangramento Risco aumentado de infecção Hiperglicemia Coagulação intravascular disseminada Acidose metabólica Oligúria Tabela 9.1 – Complicações da hipotermia perioperatória. No pós-operatório, os tremores associados à hipotermia podem aumentar em até cinco vezes o consumo de oxigênio, aumentando o risco de complicações cardiovasculares e infarto do miocárdio. Adicionalmente, diversas pesquisas já demonstraram a associação entre hipotermia e aumento do risco de infecção do sítio cirúrgico. Os mecanismos responsáveis pelo aumento do risco de infecção pela hipotermia são: diminuição da perfusão do tecido traumatizado pela cirurgia (diminuindo assim a migração de células imunológicas); redução da motilidade de células de defesa e prejuízo da cicatrização, aumentando o risco de deiscência e contaminação da ferida. A transferência de calor durante uma cirurgia ocorre por meio dos mecanismos de radiação, condução, convecção e evaporação, sendo a principal causa de perda de calor a radiação. O sistema fisiológico de termorregulação é controlado na região do hipotálamo, com importante participação do sistema nervoso autonômico (controlando sudorese e vasoconstrição) e normalmente mantém a temperatura corporal dentro de uma faixa estreita, próxima de 37 °C. A anestesia geral e a anestesia do neuroeixo causam importante desregulação dos mecanismos de termorregulação, aumentando o risco de hipotermia associada à cirurgia. Ao invés de tratada, o melhor é que a hipotermia perioperatória seja prevenida, idealmente pela utilização de mantas de aquecimento ativo, que utilizam ar ou água aquecidos. Outros métodos para evitar a perda de calor, porém com menor eficácia, são o aquecimento de fluidos intravenosos, o aumento da temperatura ambiente da sala de operação e a cobertura do corpo do paciente. Os tremores pós-operatórios podem ser tratados com a administração endovenosa de meperidina. 9.2 NÁUSEAS E VÔMITOS As náuseas e vômitos são complicações frequentes no pós-operatório. Além de serem sintomas desagradáveis para os pacientes, também podem resultar em outras complicações, como deiscência de suturas, broncoaspiração e elevação da pressão intracraniana. O reflexo do vômito pode ser induzido por diversos fatores fisiológicos e patológicos, assim como por drogas ou toxinas. Os principais componentes do SNC responsáveis pelo vômito são o centro do vômito e a zona quimiorreceptora de gatilho, ambos localizados no tronco cerebral. Essas estruturas integram diferentes sinais aferentes a partir de quimiorreceptores, receptores de pressão (trato gastrintestinal e SNC), nociceptores, sistema vestibular, núcleos cerebelares e córtex cerebral (percepções de dor, medo e ansiedade). m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 78 Os neurotransmissores implicados no sistema de controle do vômito incluem a acetilcolina, a dopamina, a serotonina e a histamina. Dessa forma, a terapia antiemética é frequentemente baseada no uso de antagonistas de um ou mais desses neurotransmissores. Os fatores de risco para náuseas e vômitos pós-operatórios (NVPO) podem estar relacionados ao paciente, à cirurgia e à anestesia (tabela 9.2). Atualmente, é recomendado que os pacientes que apresentam risco elevado para NVPO recebam terapia profilática no intraoperatório com, pelo menos, dois tipos de agentes. As drogas mais frequentemente utilizadas para esse fim são a dexametasona Fonte: Shutterstock. e um antagonista serotoninérgico (p. ex.: ondansetrona). Outros fármacos que também podem ser utilizados para a profilaxia e o tratamento de NVPO são: metoclopramida; droperidol; anti-histamínicos; benzodiazepínicos e propofol. Paciente Cirurgia Anestesia Sexo feminino Adultos jovens Ansiedade Obesidade Gravidez Não ser fumante Doenças gastrintestinais Doenças metabólicas Histórico de cinetose Cirurgia abdominal laparoscópica Neurocirurgia Cirurgia do ouvido interno Correção de estrabismo Procedimento longo Cirurgias de nariz e laringe Opioides Anestésicos halogenados Etomidato Cetamina Neostigmina Óxido nitroso Dor Tabela 9.2 – Fatores de risco para náuseas e vômitos pós-operatórios. O tratamento dos pacientes que estão apresentando NVPO compreende a remoção da condição desencadeante (sempre que possível) e a administração de fármacos com ação antiemética, dando preferência aos agentes cujo mecanismo de ação seja diferente daquele das drogas já administradas para a profilaxia no intraoperatório. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 79 CAI NA PROVA (FUNDAÇÃO HOSPITAL ESTADUAL DO ACRE - FUNDHACRE - 2020) Aumenta a incidência de náuseas e vômitos em anestesias para cirurgia ambulatorial de adultos: A) Ingestão de água até 2 horas antes da indução de anestesia B) Tabagismo C) Propofol D) Sexo feminino entre o 1º e o 7º dia do ciclo menstrual COMENTÁRIO Incorreta alternativa A - A água, se ingerida até 2 horas antes da indução anestésica, normalmente não estará mais presente no estômago. Dessa forma, por não estar associada à distensão gástrica, o risco de vômito não está aumentado. Incorreta alternativa B - O tabagismo apresenta um efeito protetor em relação à incidência de vômitos pós-operatórios. Incorreta alternativa C - O propofol apresenta efeito antiemético, podendo ser usado tanto na prevenção de vômitos pós-operatórios, por sua utilização na manutenção da anestesia venosa, quanto no tratamento dos pacientes que estão apresentando náuseas, pela administração de pequenas doses. Correta alternativa D - As mulheres jovens são o grupo etário sob maior risco do desenvolvimento de náuseas e vômitos pós- operatórios. Durante essa fasedo ciclo menstrual, ocorre maior liberação de prostaglandinas, o que predispõe ao aparecimento de vômitos, aumentando o risco dessa complicação no pós-operatório. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 80 CAPÍTULO 10.0 PONTOS CHAVE Estrategista, se você estiver sem tempo e quer revisar apenas o mais essencial, selecionei alguns pontos-chave para você. Procure resolver algumas questões da lista que selecionei para complementar o estudo. Classificação Definição Comentários e exemplos ASA I Paciente sem doenças sistêmicas, não tabagista e mínimo consumo de álcool Indivíduo saudável ASA II Presença de doença sistêmica leve Doença compensada que não causa limitação funcional (p. ex.: hipertensão compensada, gestação normal, obesidade IMC > 30 e < 40 kg/m2) ASA III Presença de doença sistêmica grave Limitação funcional presente (p. ex.: insuficiência renal em diálise, obesidade mórbida com IMC > 40 kg/m2) ASA IV Presença de doença sistêmica grave que apresenta uma ameaça constante à vida do paciente Geralmente, o paciente já está hospitalizado pela doença (p. ex.: angina instável, insuficiência cardíaca descompensada) ASA V Paciente moribundo, sem expectativa de vida caso a cirurgia não seja realizada Paciente em estado crítico (p. ex.: politraumatizado apresentando choque hemorrágico) ASA VI Indivíduo com morte encefálica Cirurgia para retirada de órgãos E Cirurgia em caráter de emergência Letra E é acrescentada após o numeral da classificação (p. ex.: ASA IV E) Tabela 10.1 – Classificação da ASA. pKa Quando menor o pKa, mais rápido o bloqueio inicia Ligação proteica Quanto mais ligado, maior é a duração do bloqueio Ionização Quanto mais ionizado, mais tempo leva para instalação do bloqueio Lipossolubilidade Quanto mais lipossolúvel, maior a potência Propriedades de anestésicos locais. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 81 Agentes Vantagens Efeitos adversos Quando usar Quando evitar Propofol Broncodilatação Antiemético Diminuição da PIC Queda do débito cardíaco Hipotensão Asmáticos Risco de náuseas e vômitos elevado Neurocirurgia Instabilidade hemodinâmica Cetamina Broncodilatação Ativação simpática Analgesia Aumento do consumo de O2 no miocárdio Elevação da PIC Alucinações Asmáticos Instabilidade hemodinâmica TCE/neurocirurgia Psiquiátricos Síndromes coronarianas Etomidato Estabilidade hemodinâmica Supressão de cortisol Instabilidade hemodinâmica Insuficiência adrenal Fentanil Analgesia Supressão de reflexos autonômicos Bradicardia (doses altas) Rigidez torácica Frequentemente usado na indução em sequência rápida Bradicardia Succinilcolina Rápido e profundo bloqueio neuromuscular Elevação do K+ Hipertermia maligna (raro) Agente de escolha na indução em sequência rápida Hipercalemia Queimados Acamados Rocurônio Adequado bloqueio neuromuscular Reação alérgica (raro) Presença de contraindicação para succinilcolina Histórico de alergia a rocurônio Tabela 10.2 – Drogas usadas na indução anestésica. Figura 10.3 – Terapia multimodal da dor aguda pós-operatória. Dor refratária - Procedimentos intervencionistas + Analgésicos + AINES Dor intensa - Opioides fortes + Analgésicos + AINES Dor moderada - Opioides fracos + Analgésicos + AINES Dor leve - Analgésicos + AINES Drogas adjuvantes m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 82 Baixe na Google Play Baixe na App Store Aponte a câmera do seu celular para o QR Code ou busque na sua loja de apps. Baixe o app Estratégia MED Preparei uma lista exclusiva de questões com os temas dessa aula! Acesse nosso banco de questões e resolva uma lista elaborada por mim, pensada para a sua aprovação. Lembrando que você pode estudar online ou imprimir as listas sempre que quiser. Resolva questões pelo computador Copie o link abaixo e cole no seu navegador para acessar o site Resolva questões pelo app Aponte a câmera do seu celular para o QR Code abaixo e acesse o app https://estr.at/eD4a m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://estr.at/eD4a m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 83 CAPÍTULO 12.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 1. Bagatini, A. et al. Bases do Ensino da Anestesiologia. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Anestesiologia/SBA, 2016. 2. Azevedo, M.P.; Mattos, S.L.L.; Nunes, R.R. Anestesiologia, Dor e Medicina Paliativa: Um Enfoque para a Graduação. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Anestesiologia/SBA, 2018. 3. Butterworth, J.F.; Mackey, D.C.; Wasnick, J.D. Morgan & Mikhail’s Clinical Anesthesiology. 5th Ed. McGraw-Hill Education, 2013. 4. Alexander, J.C.; Casserly, E. Perioperative uses of intravenous opioids: Specific agents. UpToDate. [online] Disponível em: < https://www. uptodate.com/contents/perioperative-uses-of-intravenous-opioids-specific-agents > [Acessado 14 de abril de 2021]. 5. Mariano, E. Management of acute perioperative pain. UpToDate. [online] Disponível em: < https://www.uptodate.com/contents/ management-of-acute-perioperative-pain > [Acessado 15 de abril de 2021]. 6. Urman, R.D.; Ehrenfeld, J.M. Pocket Anesthesia. 3rd Ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2017. m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ Estratégia MED CIRURGIA Princípios de anestesiologia Prof. Mauricio Daher | Curso Extensivo | Maio 2022 84 CAPÍTULO 13.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS Estrategista Neste momento, eu gostaria de parabenizá-lo(a) por concluir mais uma etapa da sua jornada rumo à aprovação. Sei que foram muitas informações, mas agora é importante que você pratique o que aprendeu, para consolidar seu conhecimento. Preparei uma lista de 50 questões para você treinar. Elas abrangem os principais assuntos de Anestesiologia cobrados nas provas. Após ler o presente livro e treinar com as 50 questões, acredito que você estará bem preparado(a) para encarar os temas de anestesiologia cobrados pelas bancas examinadoras. Caso queira aprofundar ainda mais seus conhecimentos, você também pode entrar no banco de questões na plataforma do Estratégia MED e selecionar o subtema de Cirurgia - Princípios de Anestesiologia. A produção de novos conteúdos é constante no Estratégia MED e você pode ficar informado das novidades por meio de nossas redes sociais, no Instagram e no YouTube. Você poderá me encontrar nas sessões Live de resolução de questões, aulas sobre os assuntos de anestesiologia e no Instagram (@prof.mauriciodaher). Precisando, é só chamar! Conte comigo e um grande abraço! m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ m e d v i d e o s . c o m Có pi a nã o é ro ub o ♥ https://med.estrategia.com/ 1.0 AVALIAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA 1.1 HISTÓRIA E EXAME FÍSICO 1.1.1 EXAME DAS VIAS AÉREAS 1.2 EXAMES COMPLEMENTARES 1.3 CLASSIFICAÇÃO DE RISCO E PLANEJAMENTO 1.4 ORIENTAÇÕES PRÉ-ANESTÉSICAS 1.5 PLANEJAMENTO DA ANESTESIA AMBULATORIAL 2.0 AGENTES ANESTÉSICOS 2.1 ANESTÉSICOS INALATÓRIOS 2.1.1 EFEITOS SISTÊMICOS 2.1.1.1 HIPERTERMIA MALIGNA 2.1.2 AGENTES ESPECÍFICOS 2.2 AGENTES INTRAVENOSOS 2.2.1 OPIOIDES 2.2.1.1 MECANISMO DE EFEITO 2.2.1.2 OPIOIDES ESPECÍFICOS 2.2.2 ANESTÉSICOSVENOSOS NÃO OPIOIDES 2.2.2.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 3.0 BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES 3.1 BLOQUEADOR DESPOLARIZANTE (SUCCINILCOLINA) 3.2 BLOQUEADORES ADESPOLARIZANTES 3.3 REVERSÃO DO BLOQUEIO ADESPOLARIZANTE 4.0 ANESTÉSICOS LOCAIS 4.1 MECANISMO DE AÇÃO 4.2 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 4.3 TOXICIDADE 5.0 ANESTESIA DO NEUROEIXO 5.1 RAQUIANESTESIA 5.2 PERIDURAL 5.3 EFEITOS FISIOLÓGICOS 5.4 COMPLICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES 6.0 BLOQUEIO DE NERVOS PERIFÉRICOS 6.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 6.2 COMPLICAÇÕES E CONTRAINDICAÇÕES 7.0 MONITORIZAÇÃO ANESTÉSICA 7.1 CONSIDERAÇÕES ESPECÍFICAS 8.0 DOR AGUDA PÓS-OPERATÓRIA 8.1 FISIOPATOLOGIA DA DOR 8.2 AVALIAÇÃO E TRATAMENTO 9.0 RECUPERAÇÃO PÓS-ANESTÉSICA 9.1 HIPOTERMIA 9.2 NÁUSEAS E VÔMITOS 10.0 PONTOS CHAVE 11.0 LISTA DE QUESTÕES 12.0 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 13.0 CONSIDERAÇÕES FINAIS