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A COMPREENSÃO ORAL NO 
ENSINO DE LÍNGUAS 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Prof.ª Paola Machado 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
Há diferentes tipos de estratégias que podem ser aplicadas no ensino de 
línguas. Nesta aula, iremos nos dedicar a detalhar quais são essas estratégias 
de forma a facilitar esse processo. 
Inicialmente, trataremos da técnica denominada listening for gist. Na 
sequência, apresentaremos a técnica listening for details e a listening for 
inference. Por fim, diferenciaremos as abordagens bottom-up e top-down e 
traremos alguns exercícios sobre os tópicos previamente abordados. 
TEMA 1 – A PRÁTICA DE COMPREENSÃO GERAL DA MENSAGEM ORAL 
Há diferentes maneiras de se ouvir uma mensagem oral, com objetivos 
específicos. De acordo com Goh (2003, p. 4) apud Walesko (2012, p. 54), a 
prática de compreensão geral da mensagem oral ou listening for gist significa 
ouvir com atenção voltada às principais ideias ou ao quadro global. 
Segundo Siegel (2018), listening for gist envolve um entendimento geral 
do tema, sem nenhum foco em detalhes específicos. De acordo com o autor, 
este é um entre muitos tipos de escuta e tem como objetivo responder questões 
primárias relacionadas ao tema central do texto, tópico e propósito. 
Ele afirma que em sua primeira língua, o ouvinte geralmente escuta por 
gist para decidir se quer continuar escutando ou não (Siegel, 2018, p. 1, tradução 
nossa). De certa forma, quando o falante atinge um nível mais avançado na 
língua-alvo, isso também passa a ocorrer. Esse filtro que determina o que nos 
interessa ou não é essencial ao processo auditivo. 
De acordo com Siegel (2018), a prática de escuta para captar a ideia geral 
pode ser utilizada em qualquer tipo de texto oral, como conversas, palestras, 
notícias, relatórios e músicas. Siegel (2018) afirma que listening for gist se 
diferencia dos demais tipos de escuta por seu objetivo amplo. 
Há somente uma relação casual entre o “texto” e o ouvinte, voltada para 
a compreensão geral. Desse modo, os ouvintes não prestam atenção individual 
em todas as palavras que ouvem, mas, sim, em certas palavras-chave, 
marcadores linguísticos e padrões entoacionais que os ajudam a desvendar o 
significado geral (Siegel, 2018, p. 1-2, tradução nossa). 
 
 
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Siegel (2018) afirma que listening for gist é uma habilidade fundamental 
por muitos motivos e que esse tipo de escuta abre margem para decisões 
pessoais que dependem do interesse, atenção seletiva e motivação. 
Uma vez que o objetivo principal de um texto é percebido, o ouvinte pode 
executar uma série de opções: parar de escutar, continuar escutando utilizando 
a técnica gist (ideia geral do texto) ou começar a prestar atenção aos detalhes. 
Sendo assim, a escuta para compreensão geral dá origem a operações 
cognitivas subsequentes, como aumentar ou diminuir/relaxar a atenção do 
ouvinte ao insumo ou input (Siegel, 2018, p. 2, tradução nossa). 
1.1 Processos cognitivos 
Segundo Field (2008) apud Siegel (2018), a compreensão da ideia 
principal de um texto pode ser obtida sem o entendimento completo desse texto. 
Essencialmente, os ouvintes se envolvem em um skimming oral para determinar 
tópicos, propósitos e pontos principais. O que se segue é uma lista com os 
processos cognitivos que contribuem para a escuta por gist: 
● habilidade de reconhecer o acento primário da sentença; 
● habilidade de distinguir palavras lexicais e gramaticais; 
● habilidade de identificar elementos lexicais e componentes principais; 
● habilidade de reconhecer marcadores discursivos e conectores de 
sentenças; 
● habilidade de reconhecer as relações entre as unidades no texto; 
● habilidade de inferir relações (por exemplo, entre falantes ou entre 
informações) (Siegel, 2018, p. 3, tradução nossa). 
Em suma, são muitos os fatores envolvidos no processo cognitivo de 
escuta geral e cada um deles afeta a recepção da mensagem pelo aprendiz. 
1.2 Impacto no ensino-aprendizagem 
Segundo Siegel (2018), é possível selecionar três tipos de categorias de 
exercícios para listen for gist: resposta, que é a mais comum e familiar aos 
aprendizes, consistindo em responder ao que é apresentado; demonstração, que 
focaliza em explicações dadas pelo professor sobre como tirar vantagem dos 
sinais linguísticos que ajudam a identificar as ideias principais; produção, requer 
 
 
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que os aprendizes produzam algum tipo de linguagem para demonstrar sua 
compreensão. 
Siegel (2018) afirma que as atividades de respostas são frequentemente 
encontradas em livros didáticos no formato de perguntas de múltipla-escolha que 
indagam sobre a ideia principal ou o propósito da passagem. A demonstração 
realizada por professores tem por objetivo expandir o conhecimento linguístico e 
demonstrar aos aprendizes como acessar a informação-chave para captar a 
ideia geral do “texto”. 
Por sua vez, as atividades de produção são mais complexas, pois 
requerem que o aprendiz utilize duas ou mais habilidades na língua-alvo (e.g., 
escuta e fala, escuta e escrita). Uma atividade de produção simples seria para 
os alunos ouvirem e, então, recontarem a ideia geral em sua primeira língua (L1) 
(Siegel, 2018, p. 6, tradução nossa). 
Acreditamos ser essencial que o falante de nível iniciante realize 
exercícios como os descritos acima para que ele possa trabalhar seu 
entendimento da língua e se tornar consciente sobre o seu próprio processo de 
compreensão oral, sem o qual muito se perderia na comunicação oral. 
TEMA 2 – A PRÁTICA DE COMPREENSÃO DOS DETALHES DA 
COMPREENSÃO ORAL 
Segundo Goh (2003, p. 4) apud Walesko (2012, p. 58), a compreensão 
oral de detalhes envolve a busca de informações específicas, como palavras-
chave e números. Greenal (1989, p. 6) apud Walesko (2012, p. 58) afirma que 
em língua inglesa as informações menos importantes em um texto não são 
pronunciadas de modo enfático e, talvez por isso, os aprendizes considerem que 
o inglês é uma língua falada muito rápido. Desse modo, é muito importante que 
o aprendiz esteja atento às curvas entoacionais da língua, uma vez que estas 
também influenciam no significado. 
Há algumas estratégias de leitura que o falante pode utilizar para facilitar 
o processo de compreensão oral, mencionadas por Rost (2002) apud Abrantes 
(2020, p. 28-29), a saber: 
● Adivinhação: a pessoa faz inferências sobre o que os falantes poderiam 
ter dito ou seu significado, ainda que as informações bottom up sobre o 
idioma estejam incompletas. 
 
 
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● Seleção: é a concentração em palavras-chave e a tentativa de selecionar 
a informação que seja adequada para completar determinada tarefa. 
● Revisão: é o monitoramento do nível de compreensão de uma pessoa e 
a escolha de perguntas que podem ser feitas para complementar a 
compreensão parcial ou corrigir mal-entendidos e revisar a representação 
de significado da pessoa. 
● Resposta: é a reflexão que leva à formulação de uma opinião, uma 
interação com o falante, personalização do conteúdo, foco no que foi 
entendido, tentativa de se discutir o que foi ouvido de maneira confortável. 
Quanto mais o estudante se apropria desse processo, mais fácil a 
compreensão oral na língua-alvo se torna. Sendo assim, a prática é um 
elemento-chave. 
TEMA 3 – A PRÁTICA DE COMPREENSÃO ORAL POR INFERÊNCIA 
Segundo Goh (2003, p. 4) apud Walesko (2012, p. 62), a prática de 
compreensão oral por inferência trata da habilidade de preencher lacunas ao 
receber informações. De acordo com Kintsch (1998, p. 189) apud Vandergrift et 
al (2006, p. 450), a estratégia de inferência utilizada pelos ouvintes pode ser 
separada em seis itens, que incluem outras técnicas como: 
● usar palavras conhecidas para deduzir o significado de palavras 
desconhecidas; 
● usar a ideia geral do texto para deduzir palavras desconhecidas; 
● usar a sua própria experiência e conhecimento geral de interpretação de 
texto, ajustando a interpretaçãoconforme esta esteja correta ou não; 
● monitorar a precisão da interpretação e comparar a interpretação em 
desenvolvimento com seu conhecimento sobre o assunto; 
Essas técnicas são utilizadas automaticamente e de forma quase 
inconsciente pelos falantes de qualquer idioma. Ocorre que, quando está 
aprendendo uma língua estrangeira, o falante precisa se apropriar dessas 
técnicas e praticá-las. O preenchimento das lacunas mencionado por Goh (2003) 
pode ser exercitado por meio de preenchimento de lacunas de verdade e, desse 
modo, o estudante pode ir se acostumando a fazê-lo na língua-alvo. 
 
 
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TEMA 4 – ESTRATÉGIAS BOTTOM-UP E TOP-DOWN 
De acordo com Abrantes (2020, p. 27), “o ouvinte usa de seu 
conhecimento prévio e do contexto para melhor compreender e interpretar o que 
ouve”. A partir daí, se dá o processo de compreensão oral e este pode ocorrer 
por meio da estratégia bottom-up ou top-down. 
4.1 Bottom-up 
De acordo com Goh (2003, p. 9) apud Walesko (2012, p. 83), as 
estratégias bottom-up são baseadas no texto e o significado é dado pela 
combinação de palavras e sons presentes na mensagem. Segundo Walesko 
(2012, p. 83), “as estratégias bottom-up ou ascendentes incluem: compreensão 
de detalhes; reconhecimento de cognatos e padrões de ordens de palavras”. 
Segundo Vandergrift (2004), no processamento bottom-up, os ouvintes 
constroem significados por acresção, combinando gradualmente unidades 
maiores de significado que variam desde o nível dos fonemas até os elementos 
discursivos (Vandergrift, 2004, p. 4, tradução nossa). 
4.2 Top-down 
De acordo com Walesko (2012, p. 83), as estratégias top-down ou 
descendentes são baseadas no ouvinte, que usa suas experiências e 
conhecimentos prévios para ativar uma série de expectativas que o ajudam a 
interpretar o que é ouvido e antecipar o que virá. As estratégias top-down 
incluem, segundo a autora, a compreensão de ideias gerais, inferências e 
resumo. 
Vandergrift (2004) afirma que os ouvintes utilizam as estratégias top-down 
ou descendentes quando utilizam o contexto e conhecimentos prévios como 
tópico, gênero, cultura e outros esquemas de conhecimentos retidos na memória 
de longa duração, para construir uma estrutura para compreensão. De acordo 
com o autor, o ouvinte precisa aprender a utilizar ambos os processos a 
depender de seu propósito. 
Ele afirma que a velocidade e eficácia com que o ouvinte consegue 
conduzir esses processos depende da medida com a qual ele consegue 
decodificar o que está sendo ouvido. Os falantes nativos fazem isso de forma 
automática, dedicando pouca atenção às palavras individuais, os aprendizes 
 
 
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iniciantes de uma língua, no entanto, têm conhecimento linguístico limitado e, 
portanto, muito pouco do que eles escutam pode ser processado 
automaticamente. 
Eles precisam se concentrar nos detalhes do que ouvem e dadas as 
limitações da memória e velocidade da fala a compreensão sofre. A 
compreensão pode falhar ou os ouvintes podem utilizar estratégias 
compensatórias, fatores contextuais e quaisquer outros tipos de informação 
disponíveis para eles deduzirem o que foi dito (Vandergrift, 2004, p. 4-5, tradução 
nossa). 
Segundo Vandergrift (2004), o ideal é que o aprendiz encontre o equilíbrio 
entre as abordagens bottom-up e top-down. Enquanto a abordagem top-down 
ajuda os ouvintes a desenvolver habilidades de escuta da vida real, não 
desenvolve habilidades de reconhecimento de palavras. 
TEMA 5 – EXERCÍCIOS PARA TRABALHAR OS CONTEÚDOS APRESENTADOS 
Antes de introduzir os exercícios, há algumas considerações a serem 
feitas sobre a melhor maneira de realizá-los e, para tanto, seguiremos os passos 
apresentados por Vandergrift (2004) e adaptados por nós: 
● os estudantes se familiarizam com o tópico e com gênero textual e tentam 
prever quais tipos de informações e palavras irão encontrar; 
● os alunos verificam suas hipóteses, corrigem-nas e anotam informações 
adicionais possíveis; 
● os aprendizes escutam a informação que eles não conseguiram decifrar 
em um primeiro momento. 
Listening for gist, como já explanado, se caracteriza pela escuta visando 
a ideia geral do texto. Listening for detail, por sua vez, tem como principal 
característica a escuta com atenção aos detalhes dos diálogos. Por fim, listening 
for inference pode ser definido como um tipo de escuta na qual se tenta prever 
significados por meio do que é apresentado nos diálogos. Tendo todos os 
elementos supramencionados em mente, responda às questões abaixo com o 
intuito de revisar o conteúdo apresentado: 
1. Defina listening for gist. 
2. Defina listening for detail. 
 
 
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3. Defina listening for inference. 
4. Qual a diferença entre as abordagens bottom-up e top-down? 
5. Selecione 1 (um) minuto de um vídeo para que você possa aplicar cada 
uma das técnicas mencionadas nas perguntas 1, 2 e 3. 
NA PRÁTICA 
Como mencionado anteriormente, esses conteúdos são úteis para 
situações de compreensão oral no dia a dia, mas precisam ser regularmente 
exercitados para que se tornem automáticos. Sendo assim, para um melhor 
aproveitamento em situações do cotidiano e progresso no curso, ressaltamos a 
importância do comprometimento do aluno em realizar as atividades aqui 
propostas. 
FINALIZANDO 
Esta aula teve como objetivo apresentar os diferentes objetivos pelos 
quais atuamos em situações de compreensão auditiva e como cada um desses 
se desenvolve. Iniciamos com a apresentação da técnica listening for gist, 
seguido pela técnica de compreensão de detalhes e por inferência. Finalizamos 
diferenciando a abordagem bottom-up e top-down com exercícios para praticar 
o conteúdo exposto. O conhecimento e as técnicas relacionadas a estes são 
essenciais para o progresso na compreensão oral. Esperamos que o conteúdo 
auxilie em seus estudos! 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
ABRANTES, E. L.; PARAGUASSU, L. B.; PAIL, D. B. Práticas discursivas de 
Língua Inglesa: gêneros do cotidiano. Porto Alegre: Sagah, 2020. 
BROWN, S. Teaching listening. EUA: Cambridge University Press, 2006. 
MARQUES, F. S. Ensinar e aprender inglês: o processo comunicativo em sala 
de aula. Curitiba: InterSaberes, 2012. 
SIEGEL, J. Listening for gist in the TESOL encyclopedia of english language 
teaching, hoboken. New Jersey: John Wiley & Sons, 2018. 
VANDERGRIFT, L. Listening to learn or learn to listen?. Annual Review of 
Applied Linguistics, v. 24, p. 3-25, 2004. 
VANDERGRIFT, L.; GOH, C. C. M; MARESCHAL, C. J. The metacognitive 
awareness listening questionnaire: development and validation in language 
learning. Language Learning Research Club, University of Michigan, 56:3, pp. 
431–462, 2006. 
WALESKO, A. M. H. Compreensão oral em língua inglesa. Curitiba: 
InterSaberes, 2012.

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