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Cultura e escola Prof. Rodrigo Perez Oliveira Descrição Noção de cultura como um conceito histórico usado para compreender as tensões humanas. A relação entre escola e cultura ao longo do tempo. Propósito Compreender as diversas possibilidades de vínculo entre cultura e escola historicamente, com destaque para o espaço escolar como palco de relações sociais, culturais e políticas complexas, conhecimento essencial para os profissionais da educação. Objetivos Módulo 1 O conceito de cultura Identificar os conceitos atribuídos historicamente à cultura. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 1/65 Módulo 2 A escola e a educação Identificar as características da educação no Ocidente em diferentes períodos históricos. Módulo 3 Cultura e escola Definir a dinâmica da cultura escolar na contemporaneidade. Introdução A escola, entendida como espaço onde professores ensinam conteúdos considerados obrigatórios aos estudantes, é uma das instituições mais importantes do mundo ocidental, tendo se transformado intensamente ao longo do tempo. Seja qual for o recorte histórico, ela sempre foi muito mais do que um prédio no qual professores ensinam alunos. A escola é um conjunto de relações sociais que dialoga com outros. A escola na Atenas Clássica, por exemplo, era marcada pelos valores políticos da pólis democrática, especialmente a isonomia, que afirmava a igualdade entre os cidadãos, considerando os critérios excludentes que definiam a cidadania na época. Na Idade Média, o ambiente escolar era atravessado pelas premissas teológicas e hegemônicas naquelas sociedades. Na Modernidade iluminista, a crença na razão e na Ciência orientou a cultura escolar. Na contemporaneidade, é impossível discutir a instituição escolar sem considerar as ideias de multiculturalidade, diversidade, representatividade, bem como a noção de flexibilização, característica do vocabulário neoliberal. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 2/65 Neste material, exploraremos as diversas possibilidades de relações entre escola e cultura a fim de explicitar a escola como um espaço social complexo, palco de conflitos, negociações e relações de poder. Para isso, dividimos nossa reflexão em três módulos. No primeiro módulo, exploraremos a polissemia do conceito de cultura, definido de diversas formas no debate acadêmico e no senso comum. Posteriormente, no segundo módulo, faremos um breve histórico da instituição escolar no mundo ocidental, da Antiguidade grega até a Modernidade iluminista. E por fim, no terceiro módulo, comentaremos as atuais discussões a respeito da cultura escolar, destacando as agendas do multiculturalismo, da diversidade, da representatividade e da financeirização do mercado educacional, que vêm provocando vigorosas disputas políticas no Brasil e no mundo. 1 - O conceito de cultura Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car os conceitos atribuídos historicamente à cultura. De�nindo cultura 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 3/65 A polissemia do conceito de cultura Poucas palavras são mais polissêmicas no vocabulário ocidental do que cultura. Podemos dizer coisas muito diferentes a depender do jeito que usamos esse termo. Por isso, é necessário saber com cuidado os usos possíveis desse conceito para que possamos escolher criteriosamente de qual sentido desejamos nos apropriar, ou até mesmo combinar sentidos diferentes, que não obrigatoriamente são excludentes entre si. O crítico literário brasileiro Alfredo Bosi nos ajuda a entender a polissemia do conceito de cultura: Polissemia É um conceito da área da Linguística e tem origem no termo grego polysemos, que significa "algo que tem muitos significados". Ainda está com dúvida? Polissemia significa que você precisa aumentar sua rede de informações para compreender bem o conceito, uma só voz não basta. Prepare-se para, ao longo deste conteúdo, relacionar e conhecer muitas vozes, de modo a ficar mais preparado para elaborar a 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 4/65 sua. Na Antiguidade grega, a partir dos escritos de Heródoto (485-425 AEC), reconhecido como o pai dos estudos históricos, outro significado foi agregado ao conceito de cultura. Heródoto teve a preocupação de colocar lado a lado as narrativas gregas e não gregas em um exercício de reconhecimento da alteridade até então incomum entre o seu povo. O historiador francês François Hartog, autor de um trabalho fundamental sobre o texto herodoteano, elabora o seguinte argumento: Grega A remissão à cultura grega não é um exercício de pedantismo intelectual. De fato, as bases do pensamento Ocidental se apoiam no pensamento greco-romano. François Hartog É diretor de Pesquisas na École de Hautes Études en Sciences Sociales (Paris), onde ocupa a cadeira de Historiografia Antiga e Moderna, desde 1987. Fonte: IEAT Ao narrar para os gregos os costumes e as crenças dos bárbaros, Heródoto ampliou o sentido original do termo cultura, que passou a ser pensado também na perspectiva da pluralidade e da diversidade, o que não exclui uma possível postura etnocêntrica no trato com sociedades consideradas estranhas. François Hartog argumenta: 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 5/65 O relato de Heródoto não está imune a julgamentos e, na verdade, funciona como uma espécie de espelho narrativo. Isso porque, ao narrar sobre os bárbaros para os gregos, Heródoto o faz como um grego, e não poderia ser diferente. Sua narrativa seria mais um espelho do pensamento grego do que uma descrição literal dos bárbaros. Ainda assim, o texto de Heródoto é fundamental para tradição ocidental e seu legado chegou à modernidade. (HARTOG, 1999, p. 251) Modernidade e as Ciências Sociais A cultura na Modernidade No século XVI, as grandes navegações intensificaram os contatos culturais, possibilitando o encontro entre sociedades que até então não se conheciam. Os índigenas, habitantes nativos da América (o Novo Mundo), transformaram-se em personagens constitutivos do imaginário dos europeus. Como exemplo, podemos destacar dois dos mais importantes tratados da filosofia ocidental moderna que têm o índigena americano, tratado como “índio”, como personagem principal: A utopia, de Thomas Morus, publicada em 1516, e Do contrato social ou princípios do direito político, 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 6/65 de Jean-Jacques Rousseau, publicado em 1762 . Tanto Morus como Rousseau idealizam o outro, representado pela figura do indígena: Thomas Morus Thomas More, Thomas Morus ou Tomás Moro foi filósofo, homem de Estado, diplomata, escritor, advogado e homem de leis, ocupou vários cargos públicos e, em especial, de 1529 a 1532, o cargo de Lord Chancellor de Henrique VIII da Inglaterra. Thomas Morus “A América é a utopia manifestada na Terra, onde as pessoas são livres e a vida é farta e próspera.” (MORUS, T. A utopia. São Paulo: Nova Cultural, 1997). Jean-Jacques Rousseau “O índio americano é a manifestação mais genuína dos bons sentimentos humanos que foram corrompidos pela sociedade civil.” (ROUSSEAU, J. J. Do contrato social ou princípios do direito político. São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Se essa era a visão europeia, como a cultura popular sobreviveu até os dias atuais? Nem só de idealização é feita a relação da Europa moderna com os outros. Houve também muita violência e extermínio, o que não excluiu 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 7/65 investimentosdirecionados ao estudo da variedade das culturas humanas. O que podemos genericamente chamar de cultura popular passou a ser representado na Europa pelo termo folclore, do inglês folklore, que significava conhecimento do povo. O primeiro a utilizar esse termo foi o escritor inglês William John Thoms. Thoms tinha interesse em estudar o que ele chamava de antiguidades populares, ou seja, os hábitos, os rituais religiosos, as festas e o vocabulário das comunidades europeias consideradas arcaicas e estranhas por parte de uma elite letrada. Segundo o programa de estudos formulado por Thoms, popular era sinônimo de iletrado, comportamento considerado genuíno, ou seja, característico das sociedades rurais e ritualizadas, sem a distinção entre Estado e religião (tão cara à laicidade moderna). 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 8/65 Com o tempo, os estudos folcloristas ampliaram seu universo de interesse para os povos não europeus, principalmente na África e na América. O termo folclore foi se transformando e passou a ser entendido como o conjunto de hábitos considerados lúdicos, engraçados e fantasiosos, sendo sempre associado às culturas não europeias. Saiba mais A tradição judaico-cristã, por exemplo, repleta de profetas abrindo mares, virgens engravidando e messias ressuscitando após a morte, não é considerada folclórica, ainda que seja atravessada por narrativas que trazem elementos de magia e fantasia. Nessa perspectiva etnocêntrica, folclóricos são o Saci-Pererê, a Mula sem Cabeça ou os orixás do candomblé. O folclore passou a ser uma prática de disciplinarização de tradições não europeias que, ao serem rotuladas como folclóricas, são relegadas a um lugar menor no inventário das manifestações culturais humanas. A Antropologia entra em cena Na primeira metade do século XX, o esforço europeu em compreender outros sistemas culturais ganhou a forma de uma ciência especializada, que passou a ser conhecida como Antropologia. O escritor polonês Bronislaw Malinowski é reconhecido como um dos fundadores da Ciência Antropológica, que nasce vocacionada aos estudos de culturas não ocidentais, ágrafas e de comunicação basicamente oral. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 9/65 O livro Argonautas do Pacífico Ocidental, escrito por Malinowski e publicado em 1922, é um dos textos de fundação da Antropologia disciplinar, que se estabeleceu como uma ciência especializada na alteridade cultural. De fato, podemos constatar nas sociedades nativas a existência de um entrelaçado de deveres, funções e privilégios intimamente associados a uma organização tribal, comunitária e familiar bastante complexa. As suas crenças e os seus costumes são coerentes, e o conhecimento que os nativos têm do mundo exterior lhes é suficiente para guiá-los em suas diversas atividades e empreendimentos. Suas produções artísticas são prenhes de sentido e beleza. A função, portanto, sempre significa, por conseguinte, a satisfação de uma necessidade, do mais simples ato de comer à ação sacramental na qual comungar está relacionado a todo um sistema de crenças determinado por uma necessidade cultural de unificação com o Deus vivo. (MALINOWSKI, 1978, p. 23) “Mas eu ouvi que Antropologia não é ciência. Como posso ter certeza que alguma coisa é ciência?” O “podemos constatar” de que fala Malinowski aponta para um programa metodológico, fundamental para que todo conhecimento consiga ser um campo científico autônomo. No caso específico da 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 10/65 Antropologia, esse programa metodológico fez da etnografia, entendida como observação participante, o seu procedimento basilar. O antropólogo seria o cientista que vai ao campo, ao território da cultura estranha a ser analisada, para observar o funcionamento daquela sociedade. A missão do antropólogo seria, tal como já preconizava Heródoto na Antiguidade grega, transformar o exótico em familiar, disciplinando a cultura estranha em uma narrativa explicativa direcionada à sua própria cultura. Bronislaw Malinowski com os nativos nas Ilhas Trobriand, 1918. Com base na ideia de que os seres humanos são naturalmente produtores de cultura, a Antropologia científica se insere em uma longa tradição de pensamento, que começa em Heródoto e passa pelos folcloristas, na qual o mundo ocidental tenta disciplinar povos e culturas não ocidentais, caracterizando-os de exóticos e estranhos. O sociólogo alemão Norbert Elias foi outro autor que criou um complexo sistema de interpretação da sociedade baseado na polissemia do conceito de cultura. Elias é autor do livro O processo civilizatório, publicado pela primeira vez em 1939, sendo certamente um dos textos mais importantes escritos no século XX. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 11/65 O objetivo de Elias nesse livro era examinar a construção das civilizações modernas, marcadas por um eficiente controle do comportamento social. O que Elias mostra em seu trabalho é que os conceitos de educado e mal-educado não têm nada de natural. Trata-se de uma construção histórica, de um grande processo civilizatório que disciplinou os costumes e cuja força reside, justamente, na sua aparente naturalidade. Controle do comportamento social O autor analisa os manuais de etiqueta que circularam na corte francesa de Versalhes no século XVIII, buscando entender como foi construído um modelo de conduta que passou a classificar os comportamentos humanos em educados e mal-educados. Assoar o nariz em público ou soltar puns à mesa são atualmente considerados comportamentos inadequados e censurados em quase todos os espaços sociais. Shutterstock.com 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 12/65 Shutterstock.com Em sua análise, Elias tem o cuidado de explorar a polissemia dos conceitos de civilização e de cultura, cujos significados estão sempre sendo disputados, a depender da dinâmica social em que as palavras são usadas. No mundo europeu, civilização e cultura muitas vezes são palavras usadas para a�rmar a particularidade das nações europeias, de�nindo-as como superiores em relação a outras sociedades. Então toda a Europa possuía a mesma visão sobre o que era civilizado? É grande a diferença entre a forma como ingleses e franceses empregam a palavra (civilização), por um lado, e os alemães por outro. Para os primeiros, o conceito resume em uma única palavra seu orgulho pela importância de suas nações para o progresso do Ocidente e da humanidade. Já no 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 13/65 emprego em que é dado pelos alemães (zivillisation), significa algo de fato útil, mas, apesar disso, apenas um valor de segunda classe, compreendendo apenas a aparência externa de seres humanos, a superfície da existência humana. A palavra pela qual os alemães se interpretam, que mais do que qualquer outra expressa-lhes o orgulho em suas próprias realizações e no próprio ser, é kultur. (ELIAS, 1994, p. 28) A discussão proposta por Elias é fundamental porque mostra que a linguagem nunca é ingênua e seu uso jamais é desinteressado. No uso comum que fazemos das palavras, termos como civilização e cultura são acionados, muitas vezes inconscientemente, como ferramentas de controle e disciplinarização de corpos e condutas. O espaço da sala de aula costuma ser atravessado por esse uso da linguagem. Quantas vezes, no cotidiano escolar, o comportamento de determinado aluno é censurado com as palavras civilização e cultura? Vejamos alguns exemplos: 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio#14/65 Comportamento censurado Exemplos: “Comporte-se como uma pessoa civilizada.” “Seja como uma pessoa decente.” Comportamento incentivado Exemplos: “Estude para ser uma pessoa culta.” “Tenha disciplina para ser uma boa pessoa.” Sociologia e a cultura como problema social Também Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) nos ajudam a entender como a cultura pode ser utilizada para fortalecer relações de poder. Em 1846, Marx e Engels finalizaram o primeiro texto que escreveram juntos. Os manuscritos do que, posteriormente, seria o livro A ideologia alemã. Por motivos que os biógrafos dos autores jamais esclareceram, o texto não foi publicado na época, mas apenas em 1931, postumamente. No prefácio do livro Contribuição à crítica da economia política, publicado em 1859, Marx comenta a não publicação dos manuscritos de A ideologia alemã: 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 15/65 Para Marx, o trabalho em conjunto com Engels, ainda que não vindo a público, mesmo “abandonado aos ratos”, havia sido fundamental para que os autores fossem capazes de elaborar para si mesmos as diretrizes gerais do tipo de pensamento que formulariam a partir de então. Fundamental no argumento dos autores é que o patrimônio coletivo é resultado direto do que os autores denominam vida material, entendida como o esforço cotidiano de reprodução da existência. Em outras palavras, são as táticas que adotamos todos os dias para conseguir recursos que nos permitam viver, como comer, morar, vestir e beber. Segundo Marx e Engels, nossos hábitos, valores, nossas percepções da realidade, ou — por que não? —, nossa cultura, variam de acordo com a posição que ocupamos nesse ciclo produtivo social. Na teoria formulada pelos autores, existem, basicamente, duas posições, ou seja, duas classes sociais: Burguesia Composta pelos proprietários, que controlam os meios de produção. Proletariado Formada pelos despossuídos, cuja única propriedade é a própria força de trabalho. O modo como as pessoas pensam e agem, seus critérios de certo e errado, seus gostos e hábitos, para Marx e Engels, não são o simples 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 16/65 resultado de suas vontades. São, antes de tudo, a projeção da vida material no plano do comportamento individual. O materialismo histórico, que é como chamamos o sistema de pensamento formulado por Marx e Engels, nos ajuda a compreender a dinâmica social de uma sala de aula. Reflita sobre as seguintes questões: Por que determinado professor age de uma forma e outro se comporta de maneira completamente diferente? Por que alguns alunos têm extrema dificuldade em compreender determinados conteúdos enquanto têm grande facilidade de entender outros temas? A explicação pode estar na localização dessas pessoas no processo produtivo. Agora que estudamos o materialismo histórico, vamos conhecer os estudos sociais contemporâneos, discutindo o conceito de cultura utilizado e desenvolvido pelo antropólogo norte-americano Clifford Geertz (1926-2006). Cultura contemporânea 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 17/65 Clifford Geertz é autor do livro A interpretação das culturas, publicado pela primeira vez em 1973. Nesse texto, Geertz propôs um conceito de cultura que se tornou bastante influente e que também nos ajuda a pensar o ambiente escolar. A cultura para Geertz corresponde a redes de sentido dentro das quais homens e mulheres se movem. Se, por um lado, essas redes são elásticas o suficiente para permitir alguma liberdade de movimento, por outro, sua elasticidade tem limites, o que acaba constrangendo de alguma forma o comportamento humano. O aspecto mais importante da re�exão proposta por Geertz é a a�rmação de que o comportamento individual deve ser sempre analisado em rede, pois, ao agir no mundo, os sujeitos acionam teias de sentido compartilhadas coletivamente. Logo, nenhum ato é isolado, pelo contrário, está 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 18/65 sempre dialogando com outros atos e com outras redes de signi�cado. A partir dessa reflexão, podemos pensar novamente o ambiente escolar. O que acontece dentro da escola tem relações diretas com a realidade externa, assim como a escola está enredada a outras instituições e com elas dialogando o tempo inteiro. A disputa também é um tipo de diálogo. Tivemos o cuidado de pensar a cultura a partir de diversas perspectivas com o objetivo de sofisticar nossa percepção dos fenômenos da cultura escolar. No próximo módulo, faremos um exercício semelhante com a própria ideia de escola. Cultura Conheça mais sobre o conceito e a evolução de cultura. Vamos assistir! 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 19/65 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Apesar da polissemia que caracteriza o termo cultura, seu sentido etimológico elementar sobreviveu ao longo do tempo. Assinale, entre as opções a seguir, aquela que melhor define esse sentido. A Em seu sentido etimológico elementar, cultura significa arte erudita, sentido que sobrevive até hoje, pois entendemos como cultura apenas as sofisticadas manifestações estéticas. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 20/65 Parabéns! A alternativa B está correta. À luz da discussão desenvolvida por Alfredo Bosi, o termo cultura, originalmente, refere-se às técnicas agrícolas e remete ao acúmulo do trabalho humano na terra ao longo do tempo. Questão 2 No tratado Histórias, Heródoto elaborou uma forma de lidar com as manifestações culturais que chegou até a modernidade. Assinale entre as opções abaixo aquela que melhor apresenta esse legado. B Em seu sentido etimológico elementar, cultura remete às práticas agrícolas e ao acúmulo do trabalho das gerações anteriores no trato com a terra. De alguma forma, a associação entre cultura e repertório coletivo sobrevive até hoje. C Em seu sentido etimológico elementar, cultura significa tolerância e respeito aos costumes diferentes, o que fez com o que o conceito já nascesse vocacionado para a alteridade, não admitindo a possibilidade de etnocentrismos. D Em seu sentido etimológico elementar, cultura significa o conjunto de artimanhas acionado pelos poderosos para mentir e enganar os mais pobres. Por isso, Marx e Engels, formuladores do conceito ideologia, são os grandes representantes dos estudos antropológicos no mundo ocidental. E Polissemia vem de som, então é os estudo dos sotaques e dos sons típicos de cada região, algo que impacta no cotidiano da sociedade e depois da escola. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 21/65 Parabéns! A alternativa D está correta. O texto de Heródoto é marcado pela preocupação de traduzir a alteridade, o bárbaro, para o grego, fundando a ideia de que existem culturas diferentes dignas de serem observadas e estudadas. A Para Heródoto, apenas as manifestações culturais gregas eram dignas de serem narradas, premissa que fundou a postura etnocêntrica característica da colonização moderna. B Para Heródoto, apenas as manifestações religiosas dos bárbaros eram dignas de serem narradas, justamente por serem semelhantes às manifestações cristãs. C Para Heródoto, interessava apenas os conflitos políticos travados entre cidades gregas, o que fez com que seu texto tivesse clara dimensão etnocêntrica e preconceituosa. D Heródoto produziu uma retórica da alteridade. Seu interesse era colocarlado a lado os grandes feitos de gregos e bárbaros, igualmente dignos de lembrança. Ganhou força, assim, a ideia de que culturas diferentes também são dignas de serem estudadas. E Hérodoto é o pai da história e o mundo grego o criador de nossa cultura. Então, ele estava classificando as culturas e as hierarquias sociais, algo que ainda hoje é muito caro. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 22/65 2 - A escola e a educação Ao �nal deste módulo, você será capaz de identi�car as características da educação no Ocidente em diferentes períodos históricos. A relação histórica entre a escola e a educação Conhecer A transmissão de conhecimento entre as gerações não é prerrogativa das sociedades ocidentais. Talvez seja a manifestação mais elementar da existência humana. Sempre, independentemente do conjunto de cultura de uma sociedade, veremos pessoas em interação intelectual, transmitindo conhecimento umas às outras, desde as lições mais básicas de agricultura até os conteúdos mais complexos da Física Quântica. No entanto, a transformação dessa prática em rito institucional regulado pelo poder público é uma invenção da modernidade ocidental. Reconstruir essa história é o nosso objetivo. A Grécia Clássica 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 23/65 Começamos pelo que é considerado o início da história da escola no mundo ocidental: a paideia na Grécia Clássica, entendida como a formação intelectual necessária para o exercício da cidadania. Entendemos por Grécia Clássica o período da história grega compreendido entre os séculos VI e IV AEC, quando ocorreu a formação das pólis, que eram cidades-Estados com autonomia política. As principais cidades-Estados do período clássico foram Atenas e Esparta, que dominaram a geopolítica e disputaram frequentemente a hegemonia na Hélade, o que envolveu, entre outras coisas, uma série de conflitos, destacando-se a Guerra do Peloponeso. O período clássico tem duas características fundamentais que podemos relacionar com Atenas, são elas: A consolidação da experiência político-democrática. O fortalecimento da Filosofia como discurso público hegemônico. Podemos situar a construção da democracia em Atenas entre os séculos VII e VI AEC, quando uma série de transformações alterou as instituições políticas atenienses. Até esse momento, o poder político ateniense era controlado pelos grandes proprietários de terra: os eupátridas, ou bem-nascidos. O princípio fundamental da democracia é a isonomia, que afirma a igualdade entre todos os cidadãos diante das leis e dos direitos políticos. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 24/65 Pode-se dizer então que a democracia em Atenas era perfeita? A cidadania ateniense era excludente, sendo restrita aos homens, maiores de 18 anos, filhos de pais atenienses e nascidos em Atenas. Eram exatamente esses que deveriam frequentar as academias filosóficas. Ou seja, a paideia atendia aos mesmos critérios de exclusão da democracia. Nas palavras de Moses Finley (1912-1986) uma das maiores autoridades em história antiga grega: Para Platão [...] os homens são criados desiguais; não meramente no sentido superficial da desigualdade no físico, na riqueza ou posição social, mas desiguais na alma, moralmente desiguais. Alguns homens são potencialmente capazes de uma conduta completamente racional e, por conseguinte, de juízo moral correto; a maior parte não o é. Por conseguinte, a governação deveria ser entregue à minoria moralmente superior – idealmente, nas mãos dos filósofos autênticos. (FINLEY, 1963, p. 113) A construção da democracia ateniense foi acompanhada da definição da Filosofia, logos, como discurso público hegemônico, em detrimento do mito, que foi circunscrito à esfera privada. A diferença fundamental entre logos e mito está na possibilidade de comprovação. Saiba mais Enquanto o mito se fundamenta em uma concepção mágica de verdade, exigindo crença, que sempre é, em última instância, uma escolha particular, o logos exige a possibilidade de comprovação. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 25/65 Por exemplo: acreditar em ressurreição significa crer em uma verdade mitológica, pois exige crença, ou seja, a aceitação do mistério. Já o teorema de Pitágoras, relativo ao triângulo retângulo, afirma que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos, podendo ser comprovado. Todo e qualquer triângulo retângulo comprova a verdade do teorema de Pitágoras. O fato de a democracia se fundamentar no princípio da isonomia faz com que as particularidades das convicções mítico-religiosas precisem ser restritas ao espaço privado, chamado de oikos pelos gregos. O espaço público passa a ser reservado, então, para o tipo de conhecimento passível de ser comprovado empiricamente, por meio do estatuto da prova. Essa é a matéria da Filosofia e da Educação gregas, da paideia. Era isso que deveria ser ensinado nas academias, onde os homens eram preparados para o exercício da Filosofia e da cidadania. Não podemos achar que a exclusão formal das mulheres do exercício da cidadania implicava sua total irrelevância política. Há diversas formas de contornar as restrições formais. Há diversas maneiras de interferir na vida política fora dos canais formais. É isso que mostra Aristófanes (447-386 AEC), na comédia As mulheres na Assembleia, encenada pela primeira vez em 392 AEC. Aristófanes (447-386 AEC), autor desconhecido, séc. XVII. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 26/65 As mulheres na Assembleia A peça alegoriza a possibilidade da intervenção feminina na política, ao mostrar as mulheres de Atenas fazendo greve de sexo para obrigar os homens a decretarem o fim da guerra. Com isso, o autor pretendia mostrar que a política não se resume ao voto e aos discursos na praça pública, sendo também uma prática privada e protagonizada por aquelas que eram excluídas da cidadania formal. Parte da herança político-pedagógica da paideia ateniense chegou a Roma, que durante séculos foi o centro político e cultural do mundo ocidental. As relações entre as culturas grega e romana são marcadas por diferenças e semelhanças. Alguns valores são semelhantes, por exemplo, o princípio da soberania popular. Porém, a democracia em Roma possuía outro funcionamento bastante distinto da democracia grega. Se as pólis gregas eram caracterizadas pela autonomia das cidades-Estados, a civitas romana era caracterizada pela expansão imperial do centro do poder, que era localizado na Península Itálica. Tanto para os gregos quanto para os romanos, a educação era uma atividade destinada a preparar os homens para a vida política. Ou seja, saber ler, escrever, conhecer as regras da matemática e as lições da história eram consideradas habilidades fundamentais para o exercício da política. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 27/65 Não existia a separação entre pedagogia e política. Essa cultura pedagógica ecoa até os nossos dias. Não é incomum ouvirmos dizer que um povo mal-educado vota mal, sendo a educação entendida como acesso ao ensino formal ministrado nos sistemas educacionais. A educação e o ensino ainda são considerados requisitos fundamentais para o pleno exercício dos direitos políticos. Entre todas a competências, a retórica, conhecida como a arte de convencimento por meio do uso da palavra, era a mais valorizada no pensamento pedagógico romano. Um homem considerado educado e culto dominava as técnicas do discurso público. Por isso, as escolas latinas adotavam os tratados de retóricacomo material didático obrigatório. Entre os principais tratados retóricos estavam o De oratore e o De inventione, ambos escritos por Cícero (106-43 AEC), o Institutio Oratoria, de Quintiliano (35-96 EC), e o Ad Herenniun, cuja autoria é desconhecida. Pedagogia e política No século II AEC, foram organizadas em Roma escolas segundo o modelo grego, destinadas a dar uma formação gramatical e retórica, voltada à língua grega. No século I AEC, foi fundada uma escola de retórica latina, que reconhecia total dignidade à literatura e à língua dos romanos. Pouco tempo depois, o espírito prático, próprio da cultura romana, levou a uma sistemática organização das escolas, divididas por graus e providas de instrumentos didáticos específicos (manuais). Marcus Tullius Cícero. Quintiliano. Tanto Cícero como Quintiliano associam o estudo da retórica à vida política. No pensamento pedagógico grego, o aluno típico era o futuro varão ilustre, o homem público que ocuparia a tribuna do Senado ou qualquer outro cargo público para fazer política. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 28/65 Idade Média Durante o período medieval na Europa, o ensino foi controlado pela Igreja Católica que, a partir do século VI, tornou-se o único poder capaz de estabelecer uma dominação relativamente universal. Mas o que queremos dizer exatamente quando usamos o conceito de Idade Média? O historiador brasileiro Hilário Franco Jr. mostra como Idade Média é um conceito que, em última instância, não pertence à Idade Média, mas sim ao futuro da Idade Média, quando as pessoas se esforçaram pra entender aquele período. Assim, procedem os estudos históricos, sempre por meio de conceitos, que muitas vezes têm mais relação com o momento em que são criados do que com a realidade que pretendem esclarecer. Nas palavras de Cynthia Veiga, estudiosa especializada na história da educação no mundo ocidental: A educação na Idade Média foi basicamente monopólio da Igreja. Durante um bom tempo, os representantes eclesiásticos controlavam os procedimentos relativos às formas de transmissão do conhecimento, de definição dos saberes e dos métodos de transmissão, bem como os processos de concessão de licença para ensinar. (VEIGA, 2007, p. 17-18) A autora mostra que, durante a Idade Média, o ensino era controlado pela Igreja, possuindo a seguinte estrutura: 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 29/65 Escolas paroquiais Destinadas à formação dos sacerdotes. Escolas monásticas Destinadas à formação dos monges. Escolas palatinas Surgiram no século XIII e eram caracterizadas por um currículo mais complexo (Direito, Medicina, Retórica e Teologia). 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 30/65 Escolas catedrais Escolas urbanas caracterizadas pela abertura da atividade intelectual ao exterior. Não pense que a educação medieval foi exclusivamente vinculada ao misticismo religioso. Nesse período, observou-se uma abundante atividade intelectual. Por volta do século XII, ocorreu um movimento de complexificação da educação medieval com o surgimento das universidades. Começaram a surgir universidades na Europa medieval quando estava em curso o processo de urbanização do continente, marcado pela intensificação das trocas comerciais e da circulação de pessoas. No início, as universidades surgiram, diz Cynthia Veiga (2007), como um tipo bastante particular de corporação: as universitas studii, uma associação de alunos e mestres para transmissão e aprendizagem de conhecimentos “desinteressados”, ou seja, sem aplicabilidade imediata. Mapa das universidades fundadas durante a Idade Média. Foi nesse momento, segundo a autora, que começou um processo, ainda tímido, de laicização do ensino, por meio do qual a Igreja Católica foi lentamente perdendo o controle sobre os estabelecimentos de ensino. Mas o que era ensinado nas escolas medievais? Hilário Franco Jr. nos ajuda com a resposta: 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 31/65 De um lado, a cultura erudita, de elite, cultura letrada que, pelo menos até o século XIII, foi eclesiástica do ponto de vista social, e latina do ponto de vista linguístico. Conscientemente elaborada (mas sem deixar, é claro, de ser tributária da mentalidade), era formalmente transmitida (escolas monásticas, escolas catedralícias, universidades). Por isso, tendia a ser conservadora, a se fundamentar em autoridades. De outro lado, estava a cultura que já foi chamada de popular, laica ou folclórica, e que preferimos denominar “vulgar”, pois para os medievais essa palavra rotulava sem ambiguidade tudo que não fosse clerical. A cultura vulgar era oral, transmitida informalmente (nas casas, ruas, praças, tavernas etc.) por meio de idiomas e dialetos vernáculos. (FRANCO JR., 2001, p. 102) Se a Igreja dominava tudo, principalmente as escolas, como ainda existia diversidade? O fato de o ensino formal ser dominado pela Igreja não implicava o controle da circulação de conhecimento no período medieval por essa instituição. Por mais forte que seja, nenhum poder é capaz de exercer dominação total. Por isso, como explica Hilário Franco Jr. (2001), se é verdade que a Igreja exercia grande controle sobre o pensamento pedagógico medieval, por meio de suas instituições e do quase monopólio sobre o ensino formal, é também verdade que aquelas sociedades encontravam 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 32/65 outros espaços para fazer circular seus saberes: as festas populares, as oficinas de artesanato, as feiras, a rua e tudo o que podemos chamar de cultura popular. Festa da Aldeia, Gillis Mostaert, 1590. A relação entre a escola e a cultura Rumo à Modernidade A Modernidade trouxe mudanças estruturais no mundo, incluindo, obviamente, as práticas de transmissão de conhecimento, às quais chamamos genericamente de educação. O historiador alemão Hans Ulrich Gumbrecht (2015) nos ajuda a entender esse longo período da história humana, compreendido entre os séculos XVI e XXI: 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 33/65 A Modernidade, segundo a argumentação de Gumbrecht, é formada por quatro cascatas de experiência: Estamos interessados especificamente na primeira cascata, pois foi nela que surgiram os valores que fundam a cultura escolar moderna. Segundo Gumbrecht, a principal característica da primeira cascata de Modernidade foi o nascimento de uma nova cultura epistemológica, ou seja, uma nova maneira de tratar a produção e a circulação do conhecimento. Primeira cascata de Modernidade Da descoberta do Novo Mundo (séc. XV) às revoluções modernas (séc. XVIII). Segunda cascata de Modernidade A geopolítica revolucionária (1780-1830). Terceira cascata de Modernidade Meados do século XIX até as vanguardas do século XX. Quarta cascata de Modernidade Final do século XX até os dias atuais. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 34/65 Gumbrecht a�rma que, na Modernidade, a autoridade superior do conhecimento deixou de ser Deus e passou a ser o método cientí�co. A seguir, apresentaremos uma tabela comparativa entre a Idade Média e a Modernidade em relação aos conceitos citados. IDADE MÉDIA MODERNIDADE CONHECIMENTO VERDADEIRO PERTENCIA A DEUS MÉTODO CIENTÍFICO CABE À INTELIGÊNCIA HUMANA A POSSIBILIDADE DE INTERPRETAR O MUNDO (DE FORMA LACUNAR E INCOMPLETA) ABRE-SE À INTELIGÊNCIA HUMANA A POSSIBILIDADE DO CONHECIMENTO PERFEITO Tabela: Idade média x modernidade. Rodrigo Perez Oliveira Toda e qualquerlimitação para a capacidade humana de conhecer o mundo não é atribuída à Deus, mas sim à insuficiência do método. A autoridade do conhecimento não é exatamente subjetiva, pois não é atributo pessoal do cientista. É no método que está a autoridade. Nas palavras do autor: Durante a Idade Média, ao contrário, a autoimagem predominante do homem o teria apresentado como parte de uma criação divina, cuja verdade ou estava além da compreensão humana, ou, no melhor dos casos, era dada a conhecer pela revelação de Deus. Mais do que produzir conhecimento novo, a tarefa da sabedoria humana 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 35/65 era proteger do esquecimento todo saber que tivesse sido revelado – e tornar presente essa verdade revelada pela pregação, e, sobretudo, pela celebração dos sacramentos. O deslocamento central rumo à modernidade, por conseguinte, está no fato de o homem ver a si mesmo ocupando o papel do sujeito da produção do saber (o qual, na teologia protestante, muda o status dos sacramentos para o de meros atos de comemoração). (GUMBRECHT, 2010 p. 12) O filósofo que mais incorporou esses valores epistemológicos foi René Descartes (1596-1650), autor do Discurso do método, publicado pela primeira vez em 1650. No texto, o autor delimita aqueles que, na sua perspectiva, seriam os quatro elementos fundamentais do método científico (DESCARTES, 1979): 1º Jamais acolher algauma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal, isto é, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 36/65 O que deveria ser ensinado era justamente esse método, pois a Modernidade, especialmente depois do iluminismo no século XVIII, alçou o conhecimento científico à posição de força motora do progresso. Assim, a educação moderna está baseada na ideia de que os estudos científicos devem ser ensinados visando ao progresso do aluno e ao da sociedade. Essa maneira de pensar o objetivo da educação foi radicalmente transformada a partir do final do século XX, como veremos a seguir. 2º Dividir cada uma das dificuldades que eu tenha e examinar em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê- las. 3º Conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir, pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos [...]. 4º Fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais que eu tivesse a certeza de nada omitir. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 37/65 Cultura e sua humanidade Vimos que, na construção da sociedade ocidental, a cultura não é algo pétreo, facilmente reconhecido, mas sim um conceito histórico, sociológico, antropológico e principalmente humano. Trata-se de uma construção complexa e contínua, que passou pela formulação da cadeira das Ciências Sociais e é fundamental a qualquer sujeito que deseje se dedicar à Educação. Recuperamos também a relação entre a escola e o tempo. Repare que não estamos lidando com a História da Educação, mas com o processo institucional, filosófico e social chamado escola. Veja na a linha do tempo com com as escolas ao longo do tempo: Escolas gregas Formavam poucos cidadãos. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 38/65 Em cada uma dessas escolas estavam presentes a cultura social e seus anseios. Nosso desafio é aprender a analisar a cultura e dinamizá-la com esses prédios — no caso da contemporaneidade, os clássicos prédios das escolas. Você reviu uma ideia de cultura que vem da interpretação humana e de sua capacidade de emprestar sentido às opções e à dinâmica das relações humanas. Cultura e escola sempre estiveram relacionadas e vivenciadas. Uma vez conceituadas cultura e escola, passaremos a relacionar esses conceitos, concentrados nas dinâmicas contemporâneas. Escolas romanas Formavam cidadãos e os preparavam para atuar em sua sociedade. Escolas eclesiásticas Formavam novos quadros, grupos distintos que buscavam a educação. Escola moderna Valorizada com as elites, em especial burguesas, tentando incorporar e fomentar-se com seus valores. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 39/65 Escola A escola é um ambiente socialmente construído e resultado de transformações. NesSe sentido, o ambiente escolar tem seu próprio processo histórico e está relacionado ao seu passado, com as demandas do presente, bem como com as propostas e visões de futuro. Cultura e escola da Antiguidade à Modernidade Entenda mais sobre o conceito de escola, sua origem, evolução e seu lugar na contemporaneidade. Vamos assistir! 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 40/65 Vamos relacionar Os três conceitos São três conceitos aqui explorados: educação, escola e cultura. Vamos, de maneira breve, deixar bem claras as relações e diferenças pensando em nossa sociedade contemporânea. No nosso mundo ocidental, digital, e multimidiático, a educação se mantém conceitualmente. Para se viver em sociedades humanas, nós passamos conhecimentos, práticas e tecnologias de forma ordenada ou não. Aqueles que vivem observam, reproduzem, criticam e trazem novas possibilidades de uso da tecnologia e modificações. Esse processo se dá na família, na rua, nas telas, e tem muitas possibilidades. Comentário Então, notem que a educação em sua forma se modificou intensamente junto com a sociedade, mas seu conceito permanece bem parecido. A escola, no entanto, sob a mesma formulação ou práticas da Antiguidade, está sob forte ataque. As práticas desse espaço privilegiado para construir e produzir o saber deixou de ser conteudístico, deixou de ser vinculado somente a um segmento social, se popularizou, e viu os meios e os discursos mudarem, apesar da resistência. Seu desafio é acompanhar as demandas da educação, as demandas sociais, e estar sendo pertinente como um direito. A cultura acaba por ser o mar que liga as trocas e as vivências. Assim, a cultura faz parte da educação, em especial no diálogo entre o cotidiano social e o cotidiano escolar. Portanto, faz a mediação entre os saberes científicos e os saberes escolarizados. Saberes cientí�cos e saberes escolarizados A diferença de saberes a serem desenvolvidos no ambiente escolar tem forte relação com essa tríade entre educação, cultura e escola. Acontece que a escola é um espaço privilegiado para o desenvolvimento 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 41/65 da educação, mas não o único. Da mesma forma, dentro da escola estão presentes saberes de natureza diversa, cotidianos. Atenção! Os saberes cotidianos e os saberes escolares não se isolam, se comunicam, se influenciam, constituindo uma grande rede de saberes. Esses saberes não podem ser hierarquizados, mas devem estar presentes dentro do processo de aprendizagem. O professor é formado e tem seus desenvolvimentos específicos em áreas diversas. Tem sua bagagem e sua formação pedagógica, e nas escola esses dois mundos devem se encontrar. Se forem levados até a escola saberes científicos, não adaptados, sem considerar o cotidiano e a experiência dos indivíduos, aquele conhecimento será tido pelos aprendentes com algo distante. Assim, seguindo a Base Nacional Comum Curricular e a BNC – Formação, os docentes precisam focar, em seu trabalho, o desenvolvimento da aprendizagem, isto é, os objetivos de aprendizagem, as habilidades e competências a serem desenvolvidase adquiridas. Então, os saberes científicos devem ser incorporados, adaptados e ressignificados com base na cultura, na sociedade, na valorização do processo educacional, fazendo dos saberes escolares significativos e transformadores para os alunos, razão final de ser de toda escola. Atividade discursiva Se você tivesse que traçar a comparação de um conhecimento que você tem de forma científica e como levá-lo para um sala de aula, o que você faria? Digite sua resposta aqui Chave de resposta 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 42/65 Esperamos que sua resposta tenha começado pelas seguintes perguntas: quem são os alunos? Quais suas idades? De que ambientes eles fazem parte? Qual o entorno da comunidade escolar? Depois, você deve diferenciar o conhecimento e indicar como ele pode ser adaptado para ser compreendido, abrir e adaptar atividades téorico-práticas para que os aprendentes tenham oportunidade de se relacionar com o documento. No mais, compartilhe o exemplo pensado com colegas e em suas redes, é uma boa forma de ter mais retornos sobre o que você pensa sobre essa ação. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 43/65 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 A paideia atendia aos mesmos critérios de inclusão/exclusão da democracia ateniense. Assinale entre as alternativas abaixo aquela que melhor relaciona a paideia e a democracia na antiguidade grega. A Entre os gregos, já existia o projeto de inclusão geral e irrestrita, o que garantia às mulheres e aos estrangeiros o mesmo acesso à educação e à atividade política. B Entre os gregos, a educação, chamada de paideia, era restrita ao espaço rural, uma vez que era destinada ao ensino de técnicas agrícolas, fundamentais para a sobrevivência material daquela sociedade. C Entre os gregos, a educação, chamada de paideia, era considerada como o preparo para o exercício da cidadania na pólis democrática, sendo, por isso, condicionada aos mesmos critérios de exclusão da cidadania: restrita a homens nascidos em Atenas. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 44/65 Parabéns! A alternativa C está correta. A paideia grega era vista como o preparo para o exercício da cidadania, atendendo aos mesmos critérios de exclusão da democracia, contemplando apenas homens nascidos em Atenas. Precisamos lembrar que a sociedade ocidental se considera herdeira da sociedade greco-romana. Nesse sentido, o papel da paideia é central na percepção dos conceitos que construímos. Questão 2 A Modernidade trouxe uma grande novidade epistemológica que mudou estruturalmente a forma como o mundo ocidental tratava a transmissão dos saberes. Assinale entre as alternativas a seguir aquela que melhor apresenta essa transformação estrutural. D Entre os gregos, a educação, chamada de paideia, era restrita aos iniciados nos mistérios religiosos, sendo voltada, por isso, à formação dos oráculos, que naquela sociedade atuavam com conselheiros dos governantes. E Entre os gregos não existia formação escolar e a educação era somente familiar. Paideia era o exercício de reproduzir o que a família e os pais faziam, mantendo essas sociedades estáticas. A A Modernidade recuperou o legado da Antiguidade, fazendo da educação o preparo para a vida política. B A Modernidade deslocou o centro da autoridade do conhecimento de Deus para o método, o que foi incorporado por Descartes no livro Discurso do método. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 45/65 Parabéns! A alternativa B está correta. A Modernidade fez do método a grande autoridade do conhecimento, ocupando o lugar que na Idade Média era de Deus. A noção de modernidade baseia sua visão ao considerar que uma grande e indiscutível ruptura foi recuperada, ao mesmo tempo que a razão e sua condução seria a verdade a ser desenvolvida. 3 - Cultura e escola C A Modernidade deslocou o centro da autoridade do método para a figura divina, o que foi incorporado por Tomás de Aquino e Santo Agostinho em seus tratados teológicos. D A Modernidade deslocou o centro da autoridade do conhecimento de Deus para as artes, o que foi incorporado pelos artistas renascentistas. E A Modernidade trouxe a escola como o único centro de produção de cultura e de saber, retirando da família o papel de educar e concetrando seu olhar para a formação pública educacional. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 46/65 Ao �nal deste módulo, você será capaz de de�nir a dinâmica da cultura escolar na contemporaneidade. Relação entre cultura e escola A escola e sua inserção social Vimos como o conceito de cultura se organiza ao longo do tempo e como a escola na sociedade ocidental sempre foi relacionada à cultura em que estava imersa. Esse ponto é fundamental. Comentário A escola não está descolada ou deslocada do mundo em que se encontra, e é influenciada pela cultura, pelas disputas e pelos meios em que ela se insere. As escolas são representantes do palco de disputa social. Se uma sociedade é marcada pelo racismo, a escola poderá reproduzi-lo. Se a sociedade está imersa em uma crise ou no auge de processos de produção, a escola possivelmente reproduzirá esses elementos. Agora que já entendemos o que é cultura e como a escola ocidental foi criada e repensada pelas influências de sua sociedade chegamos ao desafio final: Perceber de maneira complexa o contexto em que vivemos, a nossa cultura e, com isso, entender melhor a escola que nós vivemos. Uma vez fundamentado, queremos que você reconheça esse processo: cultura e escola no seu próprio mundo. Cultura escolar: desa�os contemporâneos 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 47/65 Atualmente, o ambiente escolar é atravessado por duas grandes questões dos nossos tempos, pertencentes aos projetos do capitalismo neoliberal e da agenda da representatividade, que não são exatamente excludentes entre si. Os cientistas políticos Pierre Dardot e Christian Laval são autores de um importante estudo sobre a racionalidade neoliberal que vem pautando os debates pedagógicos contemporâneos. Pierre Dardot Christian Laval A razão neoliberal não é apenas um modelo de desenvolvimento econômico, tampouco pode ser resumida apenas à máxima do Estado mínimo, como muitas vezes acontece no debate público. A razão neoliberal prevê a intervenção do Estado na vida social, mas numa perspectiva distinta daquelas que caracterizaram o keynesianismo e o socialismo, que possuíam algum horizonte de justiça social. A educação tinha como objetivo compartilhar o conhecimento cientí�co de maneira democrática; como ela se tornou uma competição? Segundo a razão neoliberal, o Estado deve criar condições para a livre competição entre indivíduos, alterando radicalmente o projeto iluminista de educação forjado entre os séculos XVI e XVIII. Comentário A educação não é mais vista como um projeto de difusão das luzes do conhecimento científico, visando ao progresso coletivo, mas sim como a aquisição de competências que qualifiquem o sujeito para a disputa. Stephen Ball, Ivor Goodson e Meg Maguire escreveram um livro sobre os efeitos dessa racionalidade neoliberal na educação escolar e universitária. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 48/65 A educação iluminista demandava o tempo longo, pois o desenvolvimento individual e coletivo nas luzes da racionalidade científica era progressivo, era um tempo pedagógico de espera. No capitalismoglobalizado e neoliberal, a cultura pedagógica passa a estar condicionada a outro tipo de temporalidade. É o tempo curto do consumo, com o objetivo de preparar o indivíduo para a competição social e material. (BALL; GOODSON; MAGUIRE, 2007, p. xiii) A educação deixou de ser vista como um patrimônio coletivo para ser tratada como um produto, que deve ser estrategicamente produzido em função do consumo. Isso explica, segundo os autores, o uso do vocabulário empresarial no trato dos assuntos pedagógicos: gestão, flexibilização, racionalidade, custos e lucro são termos comuns na rotina das empresas que se especializaram no comércio de serviços educacionais. Para os estudiosos, isso significa a perda de autonomia do trabalho pedagógico, que agora atende, em primeiro plano, aos interesses do mercado, e não aos seus próprios objetivos. Rupturas contemporâneas Multiculturalismo Desde meados do século XX, a agenda do multiculturalismo está posta no debate pedagógico internacional. O trauma das duas guerras 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 49/65 mundiais, marcadas pela radicalização do nacionalismo e pela atuação bélica dos regimes autoritários de matriz fascista, despertou o interesse pela defesa das diferenças culturais, preocupação que foi institucionalizada na fundação da Organização das Nações Unidas em 1945. O consenso global na época era de que um mundo estável e pacífico dependia diretamente da capacidade das nações de conviverem umas com as outras, em um ambiente de respeito às diversidades. Ainda que nas últimas décadas esse consenso global não tenha sido tão consensual assim, o que explica a ocorrência de inúmeros conflitos, a agenda do multiculturalismo se tornou canônica nos manuais pedagógicos ocidentais. Como, na prática, funcionou essa valorização da diversidade? A partir da década de 1990, aconteceu uma sensível transformação nessa agenda pedagógica, e o elogio à diversidade deu lugar à busca por outras formas de ensinar, a partir de conhecimentos locais, periféricos no mundo hegemonizado pelo ocidentocentrismo. Essas perspectivas pedagógicas passam a ser chamadas de pós-colonial, quando se referem às culturas asiáticas e africanas, e decolonial, quando se referem às culturas nativas americanas. O multiculturalismo parte do princípio de que não existe educação que não esteja inserida no contexto que a cerca. Sendo assim, a modernidade (no sentido de sociedades atuais) lida com a diversidade como ponto central. Essa pode ser vista como assimilação de tudo o que é diverso ou da prática de classificação entre o que pertence aos saberes dominantes versus aos saberes excluídos. Comentário É notório, nas palavras da professora Vera Candau (2003, p. 61), que a escola sempre teve dificuldade em lidar com a pluralidade e a diferença. Tende a silenciá-la e neutralizá-las, sente-se mais confortável com a homogeneização e a padronização. No entanto, abrir espaços para a diversidade, para a diferença e para o cruzamento de culturas constitui o grande desafio que a escola é chamada a enfrentar. Cruzamento de culturas Fluido complexo de culturas produzidas no cotidiano e as culturas produzidas no meio científico nas artes, nas ciências e na filosofia. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 50/65 O multiculturalismo convidava o mundo ocidental a respeitar a diversidade, mas sempre a partir de um lugar de pensamento e ensino, que era o próprio Ocidente. Já a pós-colonialidade e a decolonialidade, partindo da premissa de que a colonização também assume uma forma epistêmica, propõem a desocidentalização do pensamento como uma prática de descolonização. O sociólogo peruano Aníbal Quijano é uma das principais referências nessa discussão. Para Quijano: Os ecos do pensamento pós-colonial e decolonial chegaram aos debates pedagógicos na forma da diversificação do conteúdo a ser ensinado. Nas suas críticas ao sistema de ensino dos EUA, essa é a discussão proposta por Gloria Anzaldúa resumida em três perguntas centrais: Por que as aulas de História devem contar a história a partir da perspectiva colonial? Por que as aulas de Matemática somente ensinam a perspectiva ocidental? 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 51/65 Anzaldúa (2000), critica o sistema escolar norte-americano, insensível às necessidades práticas e às identidades daqueles que não se enquadravam no arquétipo estadunidense: branco, puritano e anglo- saxão. As escolas do ensino regular, segundo a autora, não nos ensinaram a escrever, nem nos deram a certeza de que estávamos corretos em usar nossa linguagem marcada pela classe e pela etnia. Como mulher mestiça, chicana, Anzaldúa não se via representada naquele conteúdo escolar, que, na sua percepção, não tinha nada de universal. O erro do sistema educacional chancelado pelo Estado seria tratar certos conteúdos pedagógicos como derivados de uma cientificidade universalmente válida, independentemente da realidade e das vivências dos estudantes. Decolonialidade Rompendo com o pensamento colonial No Brasil, Paulo Freire (1921-1997) foi um dos primeiros pensadores da educação a trazer a crítica à colonização epistêmica para o centro de suas atenções, ainda que ele jamais tenha usado o termo decolonial. Freire ganhou notoriedade ao criar um método de alfabetização para jovens e adultos segundo o qual o conteúdo a ser ensinado deveria ser idealizado a partir das experiências culturais dos alunos. Ou seja, o aluno não deveria ser o objeto de uma intervenção pedagógica originada de um lugar hierarquicamente superior. É a intervenção pedagógica que deve ser pensada a partir das experiências e do cotidiano do próprio aluno. Por que as aulas de Ciência também não abordam conteúdos não ocidentais? 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 52/65 A decolonialidade de Paulo Freire está na denúncia do ato de dominação que costuma caracterizar a pedagogia dita tradicional, na qual o professor estabelece relação hierárquica com o aluno, que é visto como uma tábula rasa a ser preenchida por um conteúdo imposto verticalmente. No pensamento pedagógico de Paulo Freire, não há sentido em diferenciar cultura e escola. A escola está inserida em um sistema cultural mais amplo, dialoga com ele, é afetada por ele e deve se moldar a ele. Por que não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver em área da cidade descuidadas pelo poder público para discutir, por exemplo, a poluição dos riachos e dos córregos e os baixos níveis de bem-estar das populações, os lixões e os riscos que oferecem à saúde das gentes? Por que não há lixões no coração dos bairros ricos e mesmo puramente remediados dos centros urbanos? [...] Uma escola pública popular não é apenas a que garante 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 53/65 acesso a todos, mas também aquela de cuja construção todos podem participar, aquela que realmente corresponde aos interesses populares, que são os interesses da maioria: é, portanto, uma escola com uma nova qualidade, baseada no empenho, numa postura de solidariedade, formando a consciência social e democrática. [...] O primeiro passo é conquistar a escola velha e convertê-la num centro de investigação, reflexão pedagógica e experimentação com novas alternativas dum ponto de vista popular. (FREIRE, 2014, p. 24) Outro nome, já citado, fundamental para lidar com o multiculturalismo no Brasil é o da professora Vera Candau. Para ela, em vez de ser o espaço em que o multiculturalismo aproximado à diversidade teria se materializado, a escola teria na prática se aproximado mais do identitarismo, da tradição eda segregação entre os saberes valorizados pela formação dos docentes e os saberes produzidos e reivindicados de forma diversas pelos alunos. Assim, o que vemos é uma escola que não é transformadora, mas em crise sobre o que fazer e como fazer. Em suas palavras: Acredito que o mal estar que se vem acentuando em nossas escolas, entre os professores e professoras, assim como entre alunos e alunas, exige que enfrentemos com a questão da crise atual da escola não de um modo superficial, que tenta 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 54/65 reduzi-la à inadequação de métodos e técnicas, à introdução de novas tecnologias de informação e de comunicação de forma intensiva, ou ajuste da escola à lógica do mercado e da chamada modernização. Situo a escola a um nível mais profundo, a escola está cada vez mais desenraizada da sociedade, o mundo mudou e continua mudando muito rapidamente. (CANDAU, 2008, p. 16) Para a professora, as razões históricas marcadas por uma escola habilitadora a se inserir na Modernidade perde o sentido quando a necessidade passa a ser de luta, de movimentos sociais, de vozes diversas, em que a escola acaba representando um bastião do passado e não uma iconografia das novas lutas. A professora sinaliza de forma importante que o conceito de multiculturalismo é polissêmico e teve, ao longo do mundo, visões e formas diversas. Destaca que debates assimilacionistas, por exemplo, que visam à lógica de somente convivências toleráveis, não servem ao debate na maneira como busca compreender: “devemos aceitar que as sociedades são multiculturais, o outro existe, nem todos têm a mesma oportunidade ou buscam as mesmas coisas, logo o exercício é de aceitação”. Essa visão não funciona e não resolve os problemas desenhados. A contraposição — falsa — a essa visão, de um multiculturalismo diferencialista, que diz que as sociedades são diferentes, “tenho direito a ser diferente e não aceito que ninguém se intrometa na minha concepção de mundo” é ainda mais grave. É a justificação de falsa de um “direito de expressar” suas formas de violência e negação do outro em uma sociedade plural. A proposta de Candau pede uma visão de interculturalidade, isto é, um exercício deliberado de diálogos e construção de diálogos culturais em espaços fundamentais, como a escola. Alguns pontem podem indicar essa visão: 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 55/65 Escolhas entre os muitos caminhos possíveis Vimos que a escola não é um espaço isolado das questões culturais mais amplas que atravessam a sociedade, suas hierarquias, suas disputas, suas violências. Como mostrou o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984): A produção e a circulação de conhecimentos, atividades que Promoção deliberada da interrelação entre diferentes grupos culturais presentes em uma determinada sociedade. Em outras palavras, as questões mais complexas, mais íntimas de uma cultura, precisam e devem ser debatidas, expostas e trabalhadas. Culturas não são estáticas. Quer dizer, a oportunidade de pensar, elaborar, construir e reconstruir relações culturais permite superar preconceitos, violências e segregações que podem parecer explícitas ou naturais. Valorizar a dinâmica de hibridização cultural. A lógica de juntar, realocar, criar e recriar é um traço óbvio e rico em nossas sociedades. Mostrar como isso ocorreu e continua ocorrendo é um exercício que deve fazer parte do cotidiano escolar. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 56/65 caracterizam o espaço escolar, são sempre manifestações de poder, de relações de conflito e negociação entre dominadores e dominados. (FOUCALT, 2006) A escola, apesar de muitas vezes ser pensada como o espaço que alinha, direciona e coloca todos no mesmo discurso hegemônico, é na prática ícone da diversidade cultural presente em qualquer sociedade. Reproduz em seu cotidiano e é palco de importantes disputas que se materializam sobre o estudo da cultura. “É evidente que, em um dispositivo como um exército ou uma oficina, ou um outro tipo de instituição, a rede de poder possui uma forma piramidal. Existe portanto um ápice; mas, mesmo em um caso tão simples como esse, o ‘ápice’ não é a ‘fonte’ ou o ‘princípio’ de onde todo o poder derivaria como de um foco luminoso (essa é a imagem que a monarquia faz dela própria). O ápice e os elementos inferiores da hierarquia estão em uma relação de apoio e de condicionamento recíprocos; eles se sustentam (o poder, ‘chantagem’ mútua e indefinida). Mas se você me pergunta: essa nova tecnologia de poder historicamente teve origem em um indivíduo ou em um grupo determinado de indivíduos, que teriam decidido aplicá-la para servir a seus interesses e tornar o corpo social passível de ser utilizado por elas, eu responderia: não. Essas táticas foram inventadas, organizadas a partir de condições locais e de urgências particulares. Elas se delinearam por partes antes que uma estratégia de classe as solidificasse em amplos conjuntos coerentes. É preciso assinalar, além disso, que esses conjuntos não consistem em uma homogeneização, mas muito mais em uma articulação complexa através da qual os diferentes mecanismos de poder procuram apoiar-se, mantendo sua especificidade. A articulação atual entre família, medicina, psiquiatria, psicanálise, escola, justiça, a respeito das crianças, não homogeneíza essas instâncias diferentes, mas estabelece entre elas conexões, repercussões, complementaridades, Nas palavras de Michel Foucault 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 57/65 delimitações, que supõem que cada uma mantenha, até certo ponto, suas modalidades próprias.” (FOUCAULT, 2006, p. 221) Vejamos na imagem a seguir um esquema gráfico que resume o processo citado: Cultura e escola Saiba mais sobre a relação entre cultura e escola na contemporaneidade! Neste vídeo, o professor nos apresenta a evolução histórica da relação entre cultura e escola, alcançando sua visão contemporânea. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 58/65 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 59/65 Um dos projetos que atualmente pauta a cultura pedagógica é a racionalidade neoliberal. Assinale entre as alternativas a seguir a que melhor define os efeitos da racionalidade neoliberal na cultura escolar. Parabéns! A alternativa C está correta. A razão neoliberal deixou de tratar a educação nos termos iluministas, segundo os quais a atividade pedagógica era o motor do progresso coletivo. O neoliberalismo a aproxima da condição das dinâmicas econômicas, como muitas outras, em que o Estado não tem responsabilidade direta e sua valorização deve ser estabelecida na dinâmica de valores (financeiros) e na disposição de investimento. A ação do Estado deve ser garantir vínculos A No plano da educação, a razão neoliberal fortaleceu a razão iluminista ao continuar definindo a educação como um projeto de emancipação coletiva por meio das luzes do conhecimento científico. B No plano da educação, a razão neoliberal fortaleceu a lógica pedagógica medieval, uma vez que reabilitou o prestígio público da Igreja Católica. C No plano da educação, a razão neoliberal esvaziou a razão iluminista, uma vez que passou a tratar a educação como um produto a ser consumido individualmente. D No plano da educação, a razão neoliberal esvaziou a razão iluminista, uma vez que passou a tratar a educação como um projeto coletivo de emancipação por meio do conhecimentocientífico. E No plano da educação, a razão neoliberal trouxe a perspectiva multicultural e o lidar com as diversidades no cotidiano escolar. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 60/65 mínimos a sujeitos para serem integrados nas dinâmicas econômicas. Questão 2 As perspectivas pós-coloniais e decoloniais tornaram-se muito importantes no debate pedagógico contemporâneo. Assinale, entre as alternativas a seguir, aquela que melhor define essas perspectivas. A As perspectivas pós-colonial e decolonial criticam o uso da racionalidade como instrumento de dominação colonial, propondo então a emancipação de saberes historicamente dominados e silenciados. B As perspectivas pós-colonial e decolonial criticam a dominação colonial no plano político e econômico, silenciando o que se refere ao plano epistemológico. C As perspectivas pós-colonial e decolonial reforçam a narrativa iluminista da racionalidade universal e, por isso, estão pouco preocupadas com outros projetos epistemológicos para além daqueles desenvolvidos na Europa. D As perspectivas pós-colonial e decolonial reforçam a narrativa iluminista da racionalidade universal e, por isso, estão muito preocupadas com outros projetos epistemológicos para além daqueles desenvolvidos na Europa. E As perspectivas pós-coloniais trazem o foco na economia, na formação para o mercado de trabalho, visando garantir sustento e melhorar a condição financeira. 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 61/65 Parabéns! A alternativa A está correta. As perspectivas decolonial e pós-colonial consistem em críticas à dimensão epistêmica do poder colonial. Trata-se da discussão de temáticas localizadas versus discursos hegemônicos com a educação sendo uma forma de rompimento de amarras históricas e representativas. Na educação, os sujeitos são solicitados a se reconhecer e a se rebelar contra sistemas que foram naturalizados em suas dinâmicas sociais. Considerações �nais Neste estudo, percebemos a relação entre cultura e escola em experiências distintas ao longo da história ocidental. Na Antiguidade grega, a educação era considerada como o preparo para a vida política, porque a democracia era o principal valor daquela sociedade. Na Idade Média, a educação era atravessada por valores teológicos porque, naquelas sociedades, Deus era considerado a potência organizadora do mundo. Logo, estudar significava interpretar os sinais divinos. Na Modernidade, a educação foi marcada pelo princípio do método científico porque a Ciência é o valor moderno mais importante, ocupando o lugar que já foi da política e da religião. Na contemporaneidade, a flexibilização neoliberal e o horizonte da representatividade pautam as discussões relativas à cultura escolar. Foi possível observar a totalidade da construção do pensamento: entendemos como, ocidentalmente e contemporaneamente, foi construído o conceito de cultura para perceber como a escola mediou e experimentou dinâmicas diversas dessa cultura. Instrumentalizado com esses conceitos, convidamos você a perceber as dinâmicas contemporâneas dessa relação. Podcast 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 62/65 Agora com a palavra os professores Rodrigo Rainha, Rodrigo Perez e Daniel Pina. Explore + Para aprofundar seus estudos sobre cultura e escola, assista aos seguintes filmes: Mudança de hábito 2 - De volta ao convento, dirigido por Bill Duke (1993). Escritores da liberdade, dirigido por Richard LaGravenese (2007). A má educação, dirigido por Pedro Almodóvar (2004). Para se aprofundar nos estudos sobre cultura e escola, pesquise em seu navegador e leia os seguintes artigos: Diferenças culturais, cotidiano escolar e práticas pedagógicas, de Vera Maria Ferrão Candau, publicado no periódico Currículo sem Fronteiras, v. 11, n. 2, 2011. A escola como entreposto cultural: o cultural e o simbólico no desenvolvimento democrático da escola, de Leonor Lima Torres, publicado na Revista Portuguesa De Educação, v. 21, n. 1, 2018. Cultura de escola: entre as coisas e as memórias, de Rogério Fernandes. Referências 6/4/24, 10:24 PM Cultura e escola https://stecine.azureedge.net/repositorio/00212hu/00384/index.html?brand=estacio# 63/65 BOSI, A. Colo-Cultus-Cultura. In: BOSI, A.; MONTEIRO, P. M. Colony, cult and culture. Dartmouth: University of Massachusetts Press, 2008. CANDAU, V. M. Multiculturalismo e educação: desafios para a prática pedagógica. Multiculturalismo: diferenças culturais e práticas pedagógicas, v. 2, p. 13-37, 2008. CANDAU, V. M. 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