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Professor Mestre João Arthur dos Santos de Oliveira GENÉTICA EGENÉTICA E MELHORAMENTO MELHORAMENTO REITOR Prof. Ms. Gilmar de Oliveira DIRETOR DE ENSINO PRESENCIAL Prof. Ms. Daniel de Lima DIRETORA DE ENSINO EAD Prof. Dra. Geani Andrea Linde Colauto DIRETOR FINANCEIRO EAD Prof. Eduardo Luiz Campano Santini DIRETOR ADMINISTRATIVO Guilherme Esquivel SECRETÁRIO ACADÊMICO Tiago Pereira da Silva COORDENAÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO Prof. Dr. Hudson Sérgio de Souza COORDENAÇÃO ADJUNTA DE ENSINO Prof. Dra. Nelma Sgarbosa Roman de Araújo COORDENAÇÃO ADJUNTA DE PESQUISA Prof. Ms. Luciana Moraes COORDENAÇÃO ADJUNTA DE EXTENSÃO Prof. Ms. Jeferson de Souza Sá COORDENAÇÃO DO NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Prof. Me. Jorge Luiz Garcia Van Dal COORDENAÇÃO DOS CURSOS - ÁREAS DE GESTÃO E CIÊNCIAS SOCIAIS Prof. Dra. Ariane Maria Machado de Oliveira COORDENAÇÃO DOS CURSOS - ÁREAS DE T.I E ENGENHARIAS Prof. Me. Arthur Rosinski do Nascimento COORDENAÇÃO DOS CURSOS - ÁREAS DE SAÚDE E LICENCIATURAS Prof. Dra. Katiúscia Kelli Montanari Coelho COORDENAÇÃO DO DEPTO. DE PRODUÇÃO DE MATERIAIS Luiz Fernando Freitas REVISÃO ORTOGRÁFICA E NORMATIVA Beatriz Longen Rohling Caroline da Silva Marques Carolayne Beatriz da Silva Cavalcante Eduardo Alves de Oliveira Jéssica Eugênio Azevedo Marcelino Fernando Rodrigues Santos PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO Hugo Batalhoti Morangueira Carlos Firmino de Oliveira Vitor Amaral Poltronieri ESTÚDIO, PRODUÇÃO E EDIÇÃO Carlos Eduardo da Silva DE VÍDEO Carlos Henrique Moraes dos Anjos Kauê Berto Thassiane da Silva Jacinto André Oliveira Pedro Vinícius de Lima Machado FICHA CATALOGRÁFICA Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP O48g Oliveira, João Arthur dos Santos de Genética e melhoramento / João Arthur dos Santos de Oliveira, Paranavaí: EduFatecie, 2023. 115 p. : il. Color. 1. Genética animal. 2. Genética veterinária. 3. Animais – Melhoramento genético I. Centro Universitário Unifatecie. II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título. CDD: 23 ed. 636.20821 Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577 As imagens utilizadas neste material didático são oriundas dos bancos de imagens Shutterstock . 2023 by Editora Edufatecie. Copyright do Texto C 2023. Os autores. Copyright C Edição 2023 Editora Edufatecie. O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores e não representam necessariamente a posição oficial da Editora Edufatecie. Permitido o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. AUTOR Professor Doutor João Arthur dos Santos de Oliveira ● Graduado em Ciências Biológicas (Licenciatura Plena) pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR); ● Mestre em Biotecnologia Ambiental pela Universidade Estadual de Maringá (UEM); ● Doutorado em Biotecnologia Ambiental pela Universidade Estadual de Maringá. Têm experiência nas áreas de Biotecnologia, Biologia Molecular e Bioprocessos atuando principalmente nos seguintes temas: biotecnologia microbiana com ênfase no isolamento e bioprospecção de microrganismos endofíticos e genética de microrganismos. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3010508643799841 4 APRESENTAÇÃO DO MATERIAL Caro aluno, seja bem-vindo a nossa disciplina de genética e melhoramento. Por muitos anos não se sabia como as características eram transmitidas dos pais para os filhos, como a cor dos olhos, cor da pele, altura, entre outras. Esse questionamento da transmissão das características hereditárias não tangia somente os seres humanos, mas também aos animais e plantas. A descoberta da composição, estrutura e propriedades do DNA possibilitou um grande avanço para o surgimento da genética e na elucidação de como a hereditariedade ocorre, ou seja, como as informações contidas no DNA são passadas de geração em geração. A nossa apostila está dividida em quatro Unidades que nos ajudarão a desbravar os conceitos genéticos e moleculares da genética. Na Unidade I, Bases de genética e tópicos de estrutura do material genético, vamos abranger o histórico do material genético, conhecendo como essas informações são armazenadas e organizadas nas células. Na unidade II (Tópicos de genética I), contextualizamos como foi possível conhecer os mecanismos envolvidos nas heranças hereditárias por meio dos princípios mendelianos, originados pelos estudos de Mendel. As variações das heranças genéticas daquelas estudadas nos princípios mende- lianos, como interação gênica e como ocorre o fluxo das informações gênicas em uma população serão abordados e contextualizados na Unidade III (Tópicos de genética III). E por fim, mas não menos importante, vamos conhecer a genética moderna, também denomi- nada de genética molecular ou biologia molecular, na Unidade IV (Ferramentas de Biologia Molecular e melhoramento genético), abordando quais as principais ferramentas utilizadas para manipular o material genética e seus produtos para se obter organismos melhorados geneticamente, como os transgênicos. Ficou curioso para saber mais? Então vamos nessa, bons estudos! SUMÁRIO Bases de Genética e Tópicos de Estrutura do Material Genético UNIDADE 1 UNIDADE 2 Tópicos de Genética I UNIDADE 3 Tópicos de Genética II UNIDADE 4 Elementos do Design e Suas Aplicações no Âmbito Gráfico e Digital . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos ● Histórico e estrutura do material genético; ● Células e os genes; ● Genoma de eucariotos e procariotos Objetivos da Aprendizagem ● Conceituar e contextualizar a descoberta do DNA; ● Estabelecer a importância do DNA para o funcionamento da célula; ● Compreender os tipos de célula quanto sua organização do material genético. 1UNIDADEUNIDADE BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICOGENÉTICO v 7UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO INTRODUÇÃO Prezado aluno, seja bem-vindo a nossa primeira unidade da disciplina de genética e melhoramento. Durante esta disciplina nós vamos estudar os principais tópicos de genética e conhecer algumas ferramentas de biologia molecular que são utilizadas para manipulação genética visando o melhoramento genético, sejao melhoramento de plantas, animais ou micro-organismos. Aqui, está unidade, nós vamos abordar um breve histórico da descoberta do DNA e sua estrutura, bem como se deu o entendimento de suas propriedades e funções celulares. Vamos conhecer também como essas informações contidas no DNA que são utilizadas para o controle das atividades no interior da célula, não são perdidas ao longo dos ciclos celulares, além de garantir que essas informações sejam passadas de geração em geração. Além disso, veremos como as células organizam essas informações genéticas. Fique bastante atento aos conceitos abordados nesta unidade, pois eles serão de suma importância para o entendimento e contextualização dos nossos próximos assuntos nas demais unidades da nossa disciplina. Vamos começar? Bons estudos! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO 8 1 HISTÓRICO E ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO TÓPICO Todas as células, sejam elas animais, vegetais ou microbianas, guardam suas informações no DNA. Estas informações são passadas de geração em geração, e são responsáveis não somente pelas características fenotípicas, ou seja, aquelas que conseguimos ver, como no controle do metabolismo e atividade celular. O DNA, então, controla todas as funções celulares. Os primeiros estudos que visavam estudar a natureza e características do DNA (Deoxyribonucleic acid ou em português ácido desoxirribonucleico - ADN) iniciou por volta de 1860, com o médico suíço Johann Friedrich Miescher. Miescher caracterizou uma substância isolada de leucócitos com uma grande quantidade de fósforo e de caráter ácido, denominando-a de nucleína. Mais tarde, na década de 20 (1920), Frederick Griffith demonstrou que bactérias não patogênicas ao serem cultivadas juntamente com bactérias patogênicas sob determinadas condições, passavam a apresentar como bactérias patogênicas. Griffith ajudou a descrever então o processo de transformação genética que ocorre em bactérias, que é estudado até hoje. O experimento de Griffith e as hipóteses testadas estão resumidos na Figura 1. Na década de 40, Avery, MacLeod e McCarty (1944), baseados nos achados experimentais de Frederick Griffith (figura 1), descobriram que o DNA é o agente responsável por expressar as características desejadas, no caso das bactérias patogênicas estudadas previamente por Griffith e depois por Avery e seus colaboradores, O DNA é a molécula que contém as informações necessárias para expressar a patogenicidade dessas bactérias avaliadas. 9UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Cerca de 10 anos após as descobertas de Avery e seus colaboradores, Alfred Hershey e Martha Chase (1952), utilizando isótopos radioativos demonstraram que o DNA era a molécula transmitida durante as gerações, e não as proteínas como acreditava-se anteriormente. A partir dos estudos de todos esses cientistas ao longo dos anos foi possível então reconhecer o DNA como uma molécula armazena e transmite as informações gené- ticas/hereditárias. FIGURA 1. EXPERIMENTO DE FREDERICK GRIFFITH. OS NÚMEROS DE 1 ATÉ 4 DEMONSTRAM OS QUATRO EXPERIMENTOS REALIZADOS QUE TESTAVAM A HIPÓTESE DE GRIFFITH Fonte: O autor (2022). A partir das descobertas das funcionalidades do DNA, passou-se a questionar então como seria sua constituição e propriedades estruturais. A estrutura tridimensional do DNA em dupla hélice como conhecemos hoje foi descrita na década de 50. Em 1953, Watson e Crick descreveram como se comporta a estrutura do DNA: são duas fitas de complementares de DNA que se enrolam em um mesmo eixo. A caracterização da natureza química do DNA foi possível graças às ideias de Erwin Chargaff, que descreveu a complementaridade das bases nitrogenadas (A-T e C-G), que contribuíram grandemente para que Watson e Crick caracterizassem estruturalmente esta molécula. Abaixo podemos observar uma representação da dupla fita de DNA: A-T-T-T-C-G-G-G-T-A-A-T-C-G-C-T-G-T-A T-A-A-A-G-C-C-C-A-T-T-A-G-C-G-A-C-A-T 10UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Quimicamente, o DNA é constituído por agrupamentos nucleotídeos. Os nucleotídeos são constituídos por três partes fundamentais: ● Um grupamento fosfato; ● Um açúcar: sempre com 5 carbonos (pentose); ● Compostos nitrogenados cíclicos: comumente chamados de bases nitrogenadas. Adenina (A), timina (T), citosina (C), guanina (G) e uracila (U). FIGURA 2. CONSTITUIÇÃO ESTRUTURAL E QUÍMICA DO DNA. EM 1. ESTRUTURA TRIDIMEN- SIONAL EM DUPLA HÉLICE, 2. CONSTITUIÇÃO DE UM NUCLEOTÍDEO, 3. DEMONSTRAÇÃO DE UM POLÍMERO DE NUCLEOTÍDEOS E EM 4. REPRESENTAÇÃO ESTRUTURAL E QUÍMICA DO DNA Fonte: Adaptado de Cox; Doudna; O’Donnel (2012, p. 48). O DNA é a única molécula de material genético? Quando falamos em material genético o DNA é sim a molécula que contém as informações hereditárias, contudo, as moléculas de RNA (ácido ribonucleico) também são material genético. Essas moléculas, diferentemente do DNA, são moléculas de fita simples e são resultado da transcrição das informações armazenadas no DNA. Além disso, quimicamente, essas moléculas diferenciam-se por possuírem uracila (U) ao invés de timina (T) como no DNA e, suas funções celulares são diversas dentro da célula, principalmente relacionadas ao processo de síntese de proteínas, como nós veremos no próximo tópico “células e genes”. 11UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Por conter as características hereditárias, são necessários que alguns mecanismos sejam adotados para que tais informações não sejam perdidas. Dentre os principais mecanismos genéticos associados a isso podemos citar a Replicação do DNA, Transcrição e Tradução. Esses três mecanismos que todas as células realizam é conhecido como o “Dogma Central da Biologia”. Ficou interessado para conhecer mais sobre esse dogma e como ocorrem esses mecanismos celulares? Então vem comigo que no próximo tópico vamos conhecê-los! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO 12 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 12 2 CÉLULAS E OS GENESCÉLULAS E OS GENES TÓPICO No tópico anterior nós estudamos que todas as células possuem suas informações guardadas no DNA. Mas, será que o DNA está organizado de maneira semelhante em todas as células? Se formos responder essa pergunta diretamente, a resposta é NÃO! A célula é considerada a unidade básica e funcional de um organismo e podem ser classificadas em dois tipos: ● Células procarióticas: são aquelas células que o seu material genético fica disperso no citoplasma, isto é, o DNA não está organizando em um núcleo. Seus principais representantes, e únicos conhecidos até então, são os pertencentes ao Reino Monera (as bactérias). ● Células eucarióticas: diferentemente das células procarióticas, essas células possuem o seu material genético organizado em um núcleo. O núcleo caracteriza- se por uma membrana chamada de carioteca que envolve esse material. Com exceção das bactérias, todas as outras são consideradas eucariontes como as células vegetais, animais, microbianas fúngicas e outras. Normalmente dentro do núcleo o DNA organiza-se em cromossomos, que são enovelados de DNA que se associamcom proteínas chamadas de Histonas. O número e classificação quanto ao tipo de cromossomos variam de acordo com as espécies, o ser humano, por exemplo, possui 46 cromossomos. 13UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Mas, onde de fato as informações genéticas estão contidas no DNA dentro da célula? A informação está armazenada nos genes. Resumidamente, podemos definir um gene como uma sequência de informações para determinadas características. O conjunto de todos os genes de um organismo é denominado de genoma. Os genes, então, contém as informações para o funcionamento da célula. FIGURA 3. ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO MATERIAL GENÉTICO (DNA) Fonte: Pimenta; Lima (2015, p. 25). Na célula, o fluxo da informação genética contida nos genes ocorre pelos mecanismos de replicação, transcrição e tradução. Na Replicação ou Duplicação do DNA, todas as informações são copiadas, ou seja, são realizadas cópias do DNA com o intuito principalmente de evitar as perdas das informações genéticas. Esse processo de duplicação é chamado de semiconservativo, pois sempre uma das fitas servirá como molde para a produção da fita filha (nova fita de DNA). De início, as enzimas helicases atuam quebrando as pontes de hidrogênio entre as bases possibilitando a abertura e separação da dupla fita e, em seguida, as enzimas DNA polimerases atuam inserindo novos nucleotídeos a fita molde originando assim uma nova fita de DNA complementar. Esse processo ocorre sempre na direção 5’→3’ e só se encerra quando toda a fita de DNA for copiada por completo. Ao final, uma molécula de DNA origina 2 moléculas. 14UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO O processo de Transcrição é semelhante ao de Duplicação, ocorre ação das enzimas para desnovelamento e separação da dupla fita, contudo, apenas regiões específicas são lidas, os genes. Além disso, os produtos finais da transcrição sempre serão moléculas de RNAs enquanto que na duplicação o resultado final sempre serão novas moléculas de DNA. No geral podemos dizer que a duplicação é um xérox completo das informações, enquanto que na transcrição ocorre um resumo. Enquanto que na duplicação do DNA a enzima responsável por realizar a polimerização da nova fita de DNA é a DNA polimerase, na transcrição as enzimas atuantes são as RNA polimerases. FIGURA 4. MECANISMOS DE REPLICAÇÃO/ DUPLICAÇÃO DO DNA E TRANSCRIÇÃO Fonte: Adaptado de Cox; Doudna; O’Donnel (2012, p. 54). Já na tradução, ocorre a leitura das moléculas de RNA produzidas na transcrição. Essa leitura (tradução) resultará na síntese de uma proteína. Para que aconteça a síntese das proteínas é necessário que ocorra a transcrição dos RNA mensageiro (RNAm), RNA transportador (RNAt) e RNA ribossômico (RNAr). O RNAm contém a informação (sequência) inicial que identifica a proteína que deve ser produzida e juntamente com o RNAt que possui a informação complementar (aminoácidos) se unem no RNAr resultando na ligação dos aminoácidos por ligações peptídicas originando assim uma proteína. A sequência dos aminoácidos que constituirão uma proteína é determinada pelo código genético. O código genético é um sistema em trinca (conjunto de três letras) códon e anticódon, no qual o códon é a mensagem contida no RNAm e o anticódon no RNAt. 15UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Enquanto que alguns códons sinalizam que a proteína deve ser iniciada (AUG), outros determinam quando sua síntese deve ser finalizada (UAA e UAG, por exemplo). Na figura 5, podemos observar o quadro geral que apresenta os códons do código genético. FIGURA 5. REPRESENTAÇÃO DO CÓDIGO GENÉTICO Fonte: Griffiths; Doebley; Peichel et al (2022, p. 310). A tradução de uma proteína só se inicia quando um código de início é identificado. Se tomarmos como exemplo a sequência: GAA-GGC-AUG-AUU-ACU-AGA-GGU-UAG, a proteína será constituída por IIe- -Thr-Arg-Gly pois o código de início está localizado apenas a partir da terceira trinca (AUG). Uma vez identificado o códon de início, a leitura da proteína ocorre até ser identificado um códon de término (UAG). A duplicação é realizada principalmente quando a célula está se preparando para realizar algum tipo de ciclo celular, como as divisões celulares de mitose e meiose ou em fissão binária como nas bactérias, por exemplo. Como esses processos de divisão sempre originam células idênticas às células progenitoras, as células resultantes precisam ter o mesmo material genético, então a célula mãe faz uma cópia do seu DNA para que uma cópia seja repassada para a célula filha. Já a transcrição e tradução, são processos que ocorrem principalmente quando proteínas são requeridas pela célula. 16UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Neste tópico nós conhecemos como a informação genética está organizada e quais os processos biológicos que estão associados a essa informação. No próximo tópico, nós vamos discutir as diferenças do fluxo das informações gênicas entre as células procariontes e eucariontes. Ficou curioso para conhecer se existem diferenças e quais são elas? Vem comigo então! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 GENOMA DE EUCARITOS E PROCARIOTOS TÓPICO UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO 17 Vimos no tópico anterior que as células podem ser classificadas quanto a sua organização genética em procariontes e eucariontes. Além disso, definimos que o genoma é o conjunto das informações contidas nos genes de um organismo. Agora, se pararmos para pensar nas características estruturais desses dois tipos celulares e os processos do dogma central da biologia (Replicação, transcrição e tradução), o fluxo das informações genéticas ocorre de forma igual nas duas? Bom, além da organização do material genético, as células eucariontes e procariontes também se diferenciam no que tange ao fluxo das informações genéticas. Resumidamente, em bactérias (procarioto), podemos dizer que os processos de transcrição e tradução ocorrem quase que simultaneamente, ou seja, os RNAs transcritos são rapidamente lidos. Além disso, o genoma procarioto inexiste a presença de regiões não codificadoras de proteínas (introns) e normalmente são organizados em sequências lineares de genes chamados de operons. Já em eucariotos, o RNA transcrito precisa ser modificado e transportado do núcleo até o citoplasma para ser traduzido em uma proteína, além de possuir diversas regiões não codantes em seu genoma. Se considerarmos os processos transcricionais, a transcrição do DNA que ocorre nas células eucarióticas ocorre de uma maneira um pouco mais complexa quando comparamos com a transcrição em células bacterianas. Enquanto que em bactérias existe praticamente apenas uma RNA polimerase, em eucariontes são conhecidas até então três RNA polimerases atuantes: 18UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO ●RNA polimerase I (Pol I): realizam a transcrição de genes relacionados principalmente com rRNA. ●RNA polimerase II (Pol II): transcrevem quase todos os genes que codificam proteínas produzindo um mRNA. ●RNA polimerase III (Pol III): transcrevem genes relacionados ao RNAt e outros tipos de RNAs. Os íntrons presentes no genoma eucarioto também influenciam na sua expressão gênica. Como mencionamos anteriormente, os íntrons são regiões que não são codificadoras de proteínas, ou seja, não são sequências que possuem informações para produzir nenhuma proteína. Na transcrição eucariótica, todo o gene é transcritoem RNA, incluindo os íntrons, no qual posterior edição para retiradas destas regiões não codantes, as sequências codificadoras (exóns) são traduzidas em proteínas. Por esse motivo, é comum observar a expressão diferencial de uma mesma proteína em tecidos diferentes. Esse fenômeno é chamado de splicing alternativo. Normalmente a enzima responsável pela edição dos RNAs primários eucarióticos e remoção dos íntrons são as RNA polimerases II. Na Figura 6, podemos observar um resumo que compara o fluxo das informações genéticas entre estes dois tipos celulares. FIGURA 6. COMPARAÇÃO DO FLUXO DAS INFORMAÇÕES GENÉTICAS EM PROCARIONTES E EUCARIONTES Fonte: Adaptado de Cox; Doudna; O’Donnel (2012, p. 548). 19UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO Além disso, se compararmos os genomas de bactérias e eucariotos, a nível de tamanho, os genomas eucariotos podem ser maiores. É importante ressaltar que até hoje existem muitas regiões do genoma de muitos organismos, incluindo os seres humanos, que ainda não se sabe qual sua funcionalidade. Muitas dessas regiões são classificadas como regiões intrônicas. Finalizamos aqui mais um tópico da nossa Unidade I. Viram só como a genética é muito interessante? Nas próximas unidades, vamos continuar explorando a ciência da genética, conhecendo como as características podem ser passadas de geração em geração e como ela está envolvida no nosso cotidiano por meio do melhoramento genético. A fita-molde do DNA é copiada durante a transcrição, e sua sequência é o complemento do transcrito de RNA. A fita de DNA codificadora possui a mesma sequência que o transcrito de RNA (exceto para A no DNA e para U no RNA). Portanto, por exemplo, o códon de iniciação para a transcrição é 5'-ATG na fita codificadora no DNA e 5'-AUG no mRNA. Por convenção, o gene, o promotor e a sequência reguladora no DNA são escritos conforme aparecem na fita codificadora. Fonte COX, M. M.; DOUDNA, J. A.; O’DONNEL, M. Biologia Molecular: Princípios e Técnicas. Porto Alegre: Artmed, p. 943, 2012. Os remédios utilizados para tratar as doenças possuem diversos mecanismos de ação sob o patógeno-alvo. Um dos princípios mais utilizados no desenvolvimento de novas drogas para tratar as doenças e fazer com que elas provoquem danos ao DNA do patógeno. De acordo com os conhecimentos dessa unidade, em qual etapa do fluxo genético (replicação, transcrição e tradução) essa substância poderia atuar mais eficazmente? Fonte: O Autor (2022). 20 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado aluno, nessa unidade nós discutimos como o DNA é a molécula de material genético que contém as informações hereditárias. Conhecemos também como essas informações contidas no DNA são preservadas por meio da duplicação do DNA e também como ocorre o fluxo dessa informação por meio dos mecanismos de transcrição e tradução, além de elucidarmos as diferenças no que tange esses processos em células eucariontes e procariontes. A partir desses conceitos vamos explorar nas próximas unidades os Tópicos de genética, abordando principalmente como os genes funcionam, ou seja, como eles estão ligados na expressão das características que conseguimos ver em nosso dia-a-dia. Ficou interessado? Te vejo na próxima unidade então. Bons estudos. UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO 21 MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Microbiologia Autor: Gerard J. Tortora, Berdell R. Funke, Christine L. Case. Editora: Artmed. Sinopse: Desde a publicação da 1ª edição, há aproximadamente 30 anos, mais de 1 milhão de estudantes utilizaram o livro Microbiologia em faculdades e universidades em todo o mundo, tornando-o um clássico na área. Esta nova edição mantém as características que tornaram este livro tão bem-sucedido, as quais são empregadas para abordar, de forma mais didática, as novidades deste campo em constante mudança. FILME/VÍDEO Título: O que é DNA? Como funciona e quais as suas funções Ano: 2019. Sinopse: Você sabe o que é o DNA e como ele funciona? Neste vídeo são abordadas suas principais funções. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=yUPy5yh-2jI UNIDADE 1 BASES DE GENÉTICA E TÓPICOS DE ESTRUTURA DO MATERIAL GENÉTICO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos ● Princípios mendelianos; ● Dominância; ● Alelos múltiplos e genes letais • Objetivos da Aprendizagem ● Conceituar e contextualizar os princípios mendelianos; ● Compreender os tipos de dominância; ● Discutir e compreender a importância dos alelos múltiplos e genes letais. 2UNIDADEUNIDADE TOPICOS DE TOPICOS DE GENÉTICA IGENÉTICA I Professor Mestre João Arthur dos Santos de Oliveira 23UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I INTRODUÇÃO Hoje nós sabemos que as características fenotípicas, ou seja, aquelas que conseguimos ver/observar, são consequência do genótipo. Essas informações estão contidas nos genes, que por sua vez podem possuir duas formas de expressar essas características, uma dominante e outra recessiva. Além disso, nós sabemos também que algumas adaptações oriundas de mutações nesses genes podem influenciar na expressão do genótipo, além da interação que pode existir entre dois ou mais alelos de um mesmo gene. Contudo, essas informações nem sempre foram sempre claras e bem conhecidas. A Genética como ciência que estuda principalmente as informações contidas no DNA e como acontece a transferência dessas informações hereditariamente, só foi possível ser estabelecida por meio dos estudos de Gregor Mendel. Por meio dos princípios mendelianos, foi possível então buscar e observar como esses fenômenos genéticos hereditários se comportam nos organismos. Nesta unidade nós vamos conhecer e discutir quais são esses princípios mendelianos e suas variações. Vamos nessa? Bons estudos! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I 2424 1 PRINCÍPIOS MENDELIANOS TÓPICO Como estudamos na unidade I, todas as informações hereditárias estão armazenadas em nosso DNA. Mas, como essas informações, como a cor dos nossos olhos e altura, por exemplo, são herdadas? A herança das características hereditárias foi estudada pela primeira vez pelo monge Gregor Mendel em 1866. Os estudos de Mendel empregando ervilhas possibilitaram o entendimento dos mecanismos pelos quais ocorrem as heranças de um, dois ou mais pares de genes, sendo elas a 1ª e 2ª lei de Mendel, respectivamente. Mas por que Mendel escolheu ervilhas para seus estudos? Mendel utilizou as ervilhas da espécie Pisum sativum por serem dicotiledôneas que apresentam um bom crescimento em condições de casa de vegetação, além de produzirem um número grande de descendentes, são facilmente manipuladas e seu ciclo reprodutivo é relativamente curto. Assim, Mendel podiaanalisar as características em curto período em com um número considerável de amostras. Inicialmente ele estudou as características morfológicas, como as cores das plantas (roxas e brancas). Mendel realizou a autofecundação (o pólen fecunda o óvulo da mesma planta) dessas plantas originando descendentes puros. Destes descendentes puros ou parentais, ele promovia cruzamentos entre as plantas roxas e brancas, ou seja, o pólen de uma planta roxa e fecundar o óvulo de uma planta branca, para originar a primeira geração, também denominada de F1. Como resultado, Mendel observou que todas as plantas resultantes na F1 eram de coloração roxa. Observando esse resultado, ele realizou cruzamentos F1xF1. Como resultado, na segunda geração, ou F2, Mendel observou que dentre as plantas obtidas haviam plantas de coloração roxa e branca. Assim, Mendel determinou que a característica observada que predominava em todas as plantas (coloração roxa) em F1 de dominante e, a característica que voltava a ser observada posteriormente em F2 (coloração branca) de 25UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I recessiva. Mendel também analisou outras características morfológicas para determinar as características dominantes e recessivas das plantas de ervilha, como podemos observar na tabela abaixo (Tabela 1). TABELA 1. EXPERIMENTOS DE MENDEL PARA ANALISAR AS CARACTERÍSTICAS MORFOLÓ- GICAS DE PLANTAS DE ERVILHA E OS RESULTADOS OBSERVADOS EM F1 E F2 Fonte: Adaptado de Takasusuki (2011, p. 60). Dos estudos de Mendel foi possível postular a ideia de que os pares de genes se segregam igualmente entre espermatozóides e óvulos, sendo conhecida como a 1ª lei de Mendel. Além disso, desses cruzamentos monoíbridos realizados (apenas uma característica analisada), F1XF1, em F2 Mendel observou uma proporção de 3 dominantes para 1 recessivo, então dizemos que em F2 temos 3:1. Hoje nós denominamos essas características analisadas por Mendel de fenótipo, que são aquelas características visíveis. Esse fenótipo é a expressão do genótipo, ou seja, as informações genéticas contidas nos genes para sua expressão. Considerando esse exemplo de plantas roxas e brancas, o gene B (dominante) origina plantas roxas enquanto que o gene b (recessivo) origina plantas brancas. Como a maioria dos eucariotos, como as plantas, são diplóides (2n), há a combinação de dois alelos para cada gene. Sendo assim os genótipos das plantas poderiam ser apresentados da seguinte forma: BB (roxas) x bb (brancas). 26UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I Os cruzamentos realizados por Mendel que representam a 1ª lei podem ser exemplificados da seguinte forma então: BB (roxas) x bb (brancas) F1: 100% Bb (roxas) F1: Bb x Bb F2: BB, Bb, Bb e bb (3 roxas e 1 branca/ 3:1) Por apresentar apenas uma forma do gene como BB e bb, essas plantas são denominadas de homozigotas, já por apresentarem duas formas alternativas do gene, as plantas Bb são heterozigotas. Após analisar os cruzamentos para uma característica, Mendel iniciou os cruzamentos para analisar duas características (cruzamentos diíbridos). Analisando a distribuição de plantas roxas/ brancas e sementes amarelas/ verdes, Mendel observou que os pares de genes sendo eles em cromossomos diferentes separam- se independentemente durante a formação dos gametas, postulando assim sua 2ª lei. Vamos observar como ocorre esse fenômeno genotipicamente: BB: plantas roxas. bb: plantas brancas. AA: sementes amarelas. aa: sementes verdes. BBAA (roxa com semente amarela) x bbaa (brancas com semente verde) F1: BbAa (100%) roxas com semente amarela F1 x F1 F2: BBAA, BBAa, BbAA, BbAa, BBAa, BBaa, BbAa, Bbaa, BbAA, BbAa, bbAA, bbAa, BbAa, Bbaa, bbAa, bbaa 9 roxas e semente amarela (B_A_) 3 roxas e semente verde (B_aa) 3 brancas e semente amarela (bbA_) 1 branca e semente verde (bbaa) Assim, a proporção para a 2ª lei de Mendel será de 9:3:3:1. Para facilitar a análise, principalmente visual, podemos expressar os cruzamentos utilizando o quadro de Punnett: 27UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I TABELA 2. QUADRO DE PUNNET DEMONSTRANDO A SEGREGAÇÃO INDEPENDENTE DOS GAMETAS Neste tópico, nós vimos como os estudos de Mendel ajudaram a compreender como as características contidas no DNA são transmitidas para as gerações, sejam elas mono ou híbridas. Em seguida, no próximo tópico, tendo como bases esses princípios mendelianos vamos entender como ocorre a relação de dominância e recessividade das características. Te vejo em breve. babABaBAGAMETAS BbAaBbAABBAaBBAABA BbaaBbAaBBaaBBAaBa bbAabbAaBbAaBbAAbA bbaabbAaBbaaBbAaBa . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I 28 DOMINÂNCIA TÓPICO 28 2 Por meio dos estudos de Mendel, foi possível determinar inicialmente como as características contidas nos genes, os alelos, se comportam. Analisando as características das plantas de ervilha, ele observou que aparentemente apenas um dos alelos (o dominante) manifestava sua característica, enquanto que o outro recessivo não se manifestava. Anos mais tarde, descobriu-se que os alelos contidos nos genes podem interagir em relações de dominância, ou seja, a forma pela qual o fenótipo (característica) será expresso. Essas interações de dominância foram denominadas mais tarde de dominância completa, dominância incompleta e codominância. Quando nos referimos a dominância completa dizemos que o fenótipo do alelo dominante (A_) será expresso mesmo o gene contendo apenas uma forma daquele alelo, enquanto que o outro será totalmente recessivo (a), ou seja, não se manifestará. Neste sentido, não é possível separar fenotipicamente homo (AA) e heterozigotos (Aa), pois ambos terão fenótipos iguais (AA = Aa). Como exemplo desse tipo de dominância, podemos citar aquele estudado no Tópico 1 do cruzamento entre plantas roxas (AA) e brancas (aa) resultando em uma F1 com apenas plantas roxas (Aa). Observe então, que o alelo A dominante sobre o alelo a determina a coloração roxa das plantas. 29UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I Já na dominância incompleta, não ocorre a expressão total do alelo dominante (A), ou seja, o alelo dominante não domina em relação ao alelo recessivo (a). Neste sentido, os indivíduos heterozigotos (Aa) apresentarão um fenótipo intermediário entre os parentais. Como exemplo podemos citar as plantas da espécie Mirabilis jalapa, conhecida popularmente como planta maravilha. Se cruzarmos duas plantas homozigotas, uma vermelha (AA) e uma branca (aa), serão originadas plantas heterozigotas (Aa) com coloração rosa, ou seja, um fenótipo intermediário entre o vermelho e branco. Do cruzamento entre as plantas rosas (Aa) serão produzidas 25% de plantas vermelhas (AA), 50% de rosas (Aa) e 25% de brancas (aa), como podemos observar abaixo: Parentais: AA (vermelha) x aa (branca) F1: Aa (100% cor de rosa) Cruzamento F1: Aa x Aa F2: AA (vermelha), Aa (rosa), Aa (rosa), aa (branca) CRUZAMENTO PELO QUADRO DE PUNNET PARA 1ª GERAÇÃO (F1): CRUZAMENTO PELO QUADRO DE PUNNET PARA 2ª GERAÇÃO (F1): 30UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I Mas, como esse fenótipo intermediário poderia ser explicado? Como já discutido, esses alelos possuem as informações para a expressão das características, assim, a característica desejada muitas vezes pode ser uma determinada proteína ou pigmento. Quando temos a dominância completa (AA), apenas o alelo dominante produz a proteína ou o pigmento, enquanto que o alelo recessivo (a) não produz. Quando temos uma dominância parcial (Aa), o alelo dominante não produzirá os níveis de proteínas ou pigmentos tão altos quanto as plantas homozigotasdominantes (AA), das quais produzirão o dobro de pigmento. Por fim, temos a codominância. Neste sistema de dominância, o indivíduo heterozigoto (Aa) expressará os dois fenótipos, ou seja, vermelho e branco e não um fenótipo intermediário. Um exemplo clássico que podemos citar de codominância é o sistema sanguíneo humano ABO. Os alelos IA e IB são dominantes, enquanto que i é recessivo. O cruzamento entre indivíduos pode originar 6 genótipos 4 fenótipos diferentes: ● Tipo sanguíneo A: IAIA ou IAi ● Tipo sanguíneo B: IBIB ou IBi ● Tipo sanguíneo AB: IAIB ● Tipo sanguíneo O: ii Neste sentido, podemos observar que os indivíduos que apresentam os alelos dominantes IA e IB apresentam a expressão de ambos, possuindo o tipo sanguíneo AB. Contudo, as interações baseadas na presença ou ausência de dominância não são as únicas existentes para se determinar o fenótipo de um indivíduo. No próximo tópico, vamos continuar vendo os tipos de interações alélicas, como os alelos múltiplos e aqueles ligados à letalidade (genes letais). Vamos nessa? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 ALELOS MÚLTIPLOS E GENES LETAIS TÓPICO UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I 31 Como nós estudamos até aqui, os princípios descritos por Mendel foram muito importantes não somente para o entendimento de como as características hereditárias são transmitidas, mas serviram como um parâmetro para se estudar outros fenômenos genéticos existentes. Muitas vezes, as proporções genotípicas e, na maioria das ocorrências, as proporções fenotípicas descritas pela 1ª e 2ª lei de Mendel, podem divergir em alguns casos. Dois exemplos que divergem das proporções mendelianas, podemos citar os múltiplos alelos e genes letais. Didaticamente, podemos definir esses dois princípios como: • Alelos múltiplos: são genes que possuem três ou mais formas alternativas de alelos. Essas formas alternativas surgem ao longo da história evolutiva de cada organismo e podem ou não serem incorporados na população. • Genes letais: são genes, ou alelos, que são capazes de provocar a morte do organismo em um dos seus estágios de desenvolvimento. Um exemplo bem difundido sobre alelos múltiplos é a coloração da pelagem em coelhos. Os coelhos considerados selvagens ou aguti possuem genótipo C_, enquanto as outras colorações, como podemos observar na tabela 3 abaixo, são determinadas pela interação de dominância entre as outras formas alélicas: 32UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I TABELA 3. DETERMINAÇÃO DA PELAGEM EM COELHOS Fonte: Adaptado de: Snustad; Simmons (2017, p. 63). Observando a Tabela acima, é possível afirmar que a relação de dominância entre estas formas alélicas é C>cch>ch>c. Assim, a nível de exemplo, como seriam as proporções genéticas e fenotípicas do cruzamento de um coelho selvagem (Cch) com um coelho himalaio (chc)? CRUZAMENTO PELO QUADRO DE PUNNET: Fonte: O Autor (2022). Outro exemplo que podemos citar referente aos alelos múltiplos trata-se do sistema sanguíneo humano ABO, que ocorre por codominância (IA=IB>i). Qual a probabilidade de um casal do tipo sanguíneo A (IAi) e B (IB IB) ter um filho com sangue tipo AB? FenótipocchGameta s 50% selvagem e 50% himalaio 2:2 CcCchC chcchchch 33UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I CRUZAMENTO PELO QUADRO DE PUNNET: Fonte: O Autor 2022 De acordo com o cruzamento apresentado pelo quadro de Punnet acima, a probabilidade dessa criança nasceu com tipo sanguíneo IAIB é de 50% (2:2). Considerando os alelos letais, um exemplo a ser citado trata-se da coloração da pelagem em ratos. Enquanto que os selvagens apresentam genótipos AA e os de coloração amarela AYA, enquanto que em homozigose AYAY (amarelo) ocasiona a morte destes indivíduos. TABELA 4. DETERMINAÇÃO DA PELAGEM EM RATOS Fonte: Adaptado de: Snustad; Simmons (2017, p. 63). Como seria a proporção resultante do cruzamento entre um rato selvagem (AA) e amarelo (AYA)? Gametas IB IB IA IAIB IAIB i IBi IBi Fenótipo Genótipo Selvagem com pelagem escura AA normal Pelagem amarela AYA normal Pelagem amarela AY AY letal – não sobrevive 34UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I CRUZAMENTO PELO QUADRO DE PUNNET: Neste cruzamento a proporção seria 2:2, dois selvagens: dois amarelos. Esta proporção seria diferente do cruzamento entre dois AY A? CRUZAMENTO PELO QUADRO DE PUNNET: Fonte: O Autor (2022). Sim, a proporção observada será 2:1, dois amarelos: 1 selvagem. Por que não 3:1 conforme os princípios mendelianos de herança monoíbrida? Como citado anteriormente, em homozigose AYAY, este alelo é letal ocasionando a morte da prole que contém este genótipo, neste sentido a proporção observado será de 2:1. É importante ressaltar que os estudos envolvendo os genes ou alelos letais são importantes para compreender como esses genes/alelos estão atuando sob o desenvolvimento da população e em qual estágio de desenvolvimento ele torna-se ativo. Com esses conhecimentos, muitas técnicas de melhoramento genético podem ser empregadas para eliminar estes genes da população de um organismo de interesse. Chegamos ao fim de mais tópico da nossa Unidade II. Viu só como conhecer um pouco mais sobre os mecanismos que envolvem o DNA, especialmente como ele está relacionado com transmissão das características hereditárias foi interessante? Mas não vamos parar por aqui! Gametas AY A A AY A AA A AY A AA Gametas AY A AY AYAY AYA A AY A AA 35UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I Na próxima unidade, vamos continuar estudando alguns conceitos relacionados à genética e iniciar nossos conhecimentos sobre melhoramento genético por meio da biologia molecular. Vamos lá? 36UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I As mutações normalmente são as principais fontes para a variabilidade nos alelos. Essas mutações podem ser positivas ou negativas. A anemia falciforme humana, por exemplo, é um exemplo de mutação em que ocorre a troca de uma base nitrogenada da sequência CTT para CAT. Pessoas normais possuem genótipo para hemoglobina HbAHbA, enquanto os genótipos HbSHbA e HbSHbS apresentam traços de hemácias falcêmicas e anemia grave, respectivamente. Curiosamente, genotipicamente a anemia falciforme é um exemplo de dominância incompleta, pois os indivíduos heterozigotos apresentam traços de anemia, enquanto que análises de biologia molecular como a eletroforese demonstra que se trata de uma codominância. Fonte: Takasusuki (2011, p.100). A dominância incompleta ocorre quando o alelo dominante se expressa parcialmente, enquanto na codominância os dois alelos são expressos igualmente. Se observarmos uma flor com coloração vermelha e branca na mesma pétala, podemos inferir que se trata de um exemplo de dominância incompleta e codominância? Fonte: O Autor (2022). 37UNIDADE 2 TÓPICOS DE GENÉTICA I CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade nós conhecemos como as informações contidas no DNA são transmitidas de geração em geração. Essas informações contidas nos genes, e em suas formas alternativas, os alelos, podem apresentar alguns mecanismos de expressão como as relações de dominância e letalidade. Além disso, vimos como esses conceitos estão inseridos em nosso cotidiano com os exemplos da coloração das plantas relacionados à dominância completa e incompleta, o sistema sanguíneo humano (ABO) para codominância e a pelagem de coelhos e ratos para alelos múltiplos e genes letais, respectivamente. Todo esse conhecimento sobre genética que temos hoje vieram dos princípios mendelianos, que contribuíram grandemente para explicar não somente os fatos investigadosnaquela época, como também servem como base para o desenvolvimento de estudos envolvendo a genética e biologia molecular visando o melhoramento genético de plantas, animais ou microrganismos de interesse. Finalizamos então mais uma unidade. Te vejo na próxima. Até mais! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos ● Interação gênica; ● A genética de populações; ● Introdução a Biologia molecular. Objetivos da Aprendizagem ● Conceituar e contextualizar como ocorre a interação gênica; ● Definir o que é genética de populações; ● Conceituar e contextualizar do que se trata a biologia molecular. 3GENÉTICA IIGENÉTICA II UNIDADEUNIDADE TÓPICOS DE TÓPICOS DE Professor Mestre João Arthur dos Santos de Oliveira 39UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II INTRODUÇÃO Quando olhamos em nossa volta, em nosso cotidiano, nós podemos perceber que não somente nós mas também todos os organismos vivos (plantas, animais, insetos, micro- organismos, entre outros) e não vivos (temperatura, luminosidade, precipitação, entre outros) estão interagindo. Esse fenômeno de interação entre fatores bióticos e abióticos em biologia é chamado de ecossistema. Nesta Unidade, nós vamos entender e contextualizar que não somente essa interação ocorre em um ecossistema, mas nossos genes também interagem e influenciam na ex- pressão de outros genes. Vamos conhecer quais podem ser essas interações gênicas e como elas determinam algumas características, como a cor da pele por exemplo. Além disso, vamos compreender como cruzamentos que aumentam descendentes com genótipo heterozigoto pode ser vantajoso para uma população, visando a eliminação de possíveis genes danosos que possam afetá-los, além de proporcionar sua evolução por um maior fluxo gênico e um equilíbrio. Estou animado para elucidar todos esses conceitos junto com você! Então, vamos lá?! Bons estudos. 39 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 INTEGRAÇÃO GÊNICA TÓPICO UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II 40 As características que observamos, também chamadas de fenótipo, são resultantes da expressão de um ou mais genes. Quando dois ou mais genes interagem para resultar em um determinado fenótipo, nós dizemos que há uma interação gênica entre eles. Essa interação acontece principalmente de forma não alélica, ou seja, embora esses genes possuam interação para determinar um fenótipo “x”, cada gene separadamente pode apresentar outros fenótipos próprios. Como exemplo de interação gênica podemos citar a Epistasia. Esse fenômeno genético acontece quando um alelo de um gene atua impedindo a expressão dos outros. Assim, enquanto o gene que atua impedindo a expressão é denominado de epistático, o gene que é suprimido é chamado de hipostático. Além disso, a epistasia pode ser dominante ou recessiva, isto é, os genes que atuam como epistáticos podem ser dominantes ou recessivos. Em abóboras nós podemos observar basicamente três fenótipos para coloração dos frutos: verde, alaranjado e amarelo. O gene responsável por determinar a coloração amarela é o B, enquanto que pela coloração alaranjada o A. Em dupla recessividade, os frutos serão verdes. Observando o exemplo para o cruzamento de indivíduos homozigotos abaixo, vamos determinar qual será o gene epistático e qual sua forma de ação: AAbb (alaranjado) x aaBB (amarelo) F1: AaBb (amarelo) 41UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II CRUZAMENTO POR MEIO DO QUADRO DE PUNNETT: CRUZAMENTO POR MEIO DO QUADRO DE PUNNETT: Fonte: O autor (2022). A partir do cruzamento de F1 x F1, podemos observar que a proporção é de 12:3:1, além disso, é possível afirmar que o gene B quando dominante é epistático ao gene A. Neste sentido, podemos afirmar que neste caso trata-se de uma epistasia dominante. Já na epistasia recessiva, o gene epistático atuará em recessividade. Em algumas espécies de camundongos, a coloração da pelagem é determinada por epistasia recessiva: A_P_ pelagem selvagem, aaP_ pelagem preta e A_pp pelagem albina. Como seria o resultado do cruzamento entre dois camundongos com pelagem preta (aaPp) x com pelagem selvagem (AaPp)? CRUZAMENTO POR MEIO DO QUADRO DE PUNNETT: Fonte: O autor (2022). Gametas Ab Ab aB AaBb AaBb aB AaBb AaBb Gametas AB Ab aB ab Fenótipos AB AABB AABb AaBB AaBb Amarelo: 12/16 (75%) Alaranjado: 3/16 (18,5%) Verde: 1/16 (6,5%) Ab AABb AAbb AaBb Aabb aB AaBB AaBb AaBB AaBb ab AaBb Aabb AaBb aabb Gametas AP Ap aP ap Fenótipos aP AaPP AaPp AaPP aaPp Preta: 4/16 (25%) Selvagem: 8/16 (50%) Albina: 4/16 (25%) ap AaPp Aapp aaPp Aapp aP AaPP AaPp AaPP aaPp ap AaPp Aapp aaPp Aapp 42UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II Podemos observar então, que o alelo “p” em recessividade é o gene epistático, enquanto que o gene A é hipostático. A poligenia também é um exemplo de interação gênica. Podemos definir este termo como a ação conjunta de genes que se somam para expressar uma característica. Diferentemente da epistasia, na poligenia os genes não atuam inibindo a ação de outros, mas sim somando características, por isso é comum dizer que são genes aditivos. Dentre muitos exemplos de heranças poligênicas, podemos citar a altura, cor dos olhos e cor da pele humana. A cor de pele branca é determinada pelo genótipo aabb enquanto a pele negra AABB. Como resultado, os descendentes da primeira geração todos seriam mulatos médios (AaBb). Como seriam os descendentes do cruzamento entre dois mulatos médios (AaBb)? CRUZAMENTO POR MEIO DO QUADRO DE PUNNETT: Fonte: O autor (2022). Podemos observar então, de acordo com o quadro de Punnett e as proporções obtidas, que os genes A e B se somam para originar a pigmentação da pele, por isso também podemos chamá-los de genes aditivos, pois sua presença adiciona ainda mais a característica desejada (aabb= branco, AABB= negro, Aabb/aaBb= mulato claro, AaBb/ AAbb/aaBB= mulato médio e AABb/AaBB= mulato escuro). As heranças poligênicas por ser heranças aditivas, muitas vezes para estudá-las faz-se a utilização de modelos matemáticos para se determinar o quanto cada gene adiciona ao fenótipo de interesse, ou quais são os fenótipos que serão resultantes desse tipo de herança, assim, além do cruzamento exemplificado pelo quadro de Punnett, também Gametas AB Ab aB ab Fenótipos AB AABB AABb AaBB AaBb Brancos: 1/16 (6,5%) Negros: 1/16 (6,5%) Mulatos claros: 4/16 (25%) Mulatos médios: 6/16 (37,5%) Mulatos escuros: 4/16 (25%) Ab AABb AAbb AaBb Aabb aB AaBB AaBb aaBB aaBb ab AaBb Aabb aaBb aabb 43UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II Podemos realizar a apresentação deste tipo de herança por meio de gráficos. O resultado gráfico do exemplo citado anteriormente pode ser observado na Figura abaixo (Figura 1): FIGURA 1. REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DA HERANÇA POLIGÊNICA RELACIONADA A COR DE PELE HUMANA Fonte: O autor (2022). Neste tópico nós podemos perceber como os genes podem interagir pararesultar em um determinado fenótipo, seja atuando inibindo/impedindo a expressão ou somando suas propriedades. Mas será que existem fatores que podem influenciar estes fenótipos quanto à sua expressão? No próximo tópico (Tópico 3) nós vamos estudar um pouco sobre a genética de populações e conhecer alguns mecanismos que alteram a frequência geno- típica e fenotípica em uma população. Ficou interessado? Então se liga! Te vejo em breve. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 A GENÉTICA DE POPULAÇÃO TÓPICO UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II 44 O termo “Genética de populações” pode ser definido como o estudo das informações genéticas/genes de um conjunto de indivíduos que visam o entendimento de como esses indivíduos estão estruturados e se relacionam entre si. Por meio desses estudos, é possível o desenvolvimento de programas de manejo ou preservação de espécies que estejam ameaçadas. Um dos principais pontos analisados nos estudos de genética de populações são os polimorfismos. Polimorfismo trata-se da variação entre os genes que podem surgir ao longo da história evolutiva do organismo no ambiente. Esse polimorfismo pode ser ocasionado por inúmeros fatores, mas principalmente são originados por mutações e endogamia. Uma mutação ocorre quando há uma mudança na sequência de bases do gene. Essas mutações podem ocorrer influenciadas por fatores físicos como as radiações ionizantes (luz UV, raios gama, entre outros) ou químicos (metais pesados, corantes, agroquímicos, entre outros). Essa mudança, que pode ser pontual ou aleatória, resulta em um erro na matriz de leitura do gene durante o processo de transcrição, o que resultará em uma expressão errada da proteína de interesse ou a sua não produção. No geral, as mutações podem ser divididas em: ● Transversão: trata-se da substituição de uma base nitrogenada pirimidina por purina, ou o inverso. Exemplo: C↔G. ● Transição: uma base pirimidina é substituída por outra pirimidina. O mesmo ocorre com as purinas. Exemplo: T↔C. ● Adição ou deleção: quando uma base é adicionada ou deletada/excluída de uma sequência alterando o códon de leitura. Exemplo: AUGCUUAUUUAA → AUGCUUACUUAA. 45UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II Essas mutações podem ou não serem incorporadas nos indivíduos daquela popula- ção ao longo de sua história, principalmente se conferirem adaptações positivas/benéficas no ambiente que eles estão inseridos. Embora todos os organismos estejam sujeitos a ocorrência de mutações, a própria célula possui mecanismos de conferência e reparos desses eventos que ocorrem no DNA, a nível de exemplo, a taxa de mutação nos seres humanos é menor que 10-6. Já a endogamia se trata do cruzamento entre indivíduos próximos, popularmente chamados de consanguíneos ou “parentes”. Mas por que esse cruzamento não é positivo do ponto de vista biológico e genético? O cruzamento consanguíneo pode aumentar a fre- quência de alelos homozigotos naquela população. Muitas vezes, a homozigose é negativa pois não fornece aquela população uma variabilidade genética podendo manter genes que são letais aquela população. Um exemplo podem ser genes que podem ocasionar doenças ou má formação dos indivíduos, ou até mesmo a suscetibilidade a doenças. Neste sentido, entre uma população estimula-se o cruzamento entre indivíduos não consanguíneos (exogamia), o que resulta em uma maior heterozigozidade (maior frequência de heterozigotos) possibilitando um maior valor evolutivo e adaptativo aquela população, por sua vez eliminando possíveis genes/alelos prejudiciais a ela. Um exemplo da vantagem do aumento do número de heterozigotos na população trata-se da anemia falciforme. Este tipo de anemia é uma doença genética na qual os indivíduos afetados não produzem hemácias normais (formato globular) mas sim em forma de foice. Essa deformação da hemácia afeta sua funcionalidade, e nos indivíduos com anemia falciforme grave são levados à morte. Por se tratar de uma doença genética, os genótipos observados são: HbAHbA= hemácias normais; HbSHbA= hemácias com traço falcêmico; HbSHbS= anemia falcêmicas grave. Observamos então que neste caso os indivíduos heterozigotos, embora apresentem traços de hemácias falcêmicas, sobrevivem. Além disso, uma vantagem interessante desses indivíduos trata-se da resistência malária, um fenótipo extremamente vantajoso nas regiões onde o índice dessa doença é elevado. 46UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II O fluxo gênico de uma população também pode ser influenciado pelos mecanismos naturais e seleção e migração das espécies. Esse fluxo gênico pode ser estudado pela teoria de Hardy-Weinberg. Estes cientistas postularam que as populações podem atingir um equilíbrio durante seu processo evolutivo, seguindo as seguintes determinações: ● Ausências de eventos mutacionais; ● A população possui um grande número de indivíduos; ● O número de machos e fêmeas são idênticos em uma população (50%/50%); ● Os cruzamentos entre esses indivíduos ocorrem completamente ao acaso. No entanto é possível observar que nem sempre estes padrões podem ser aplicados em uma população, principalmente aquelas naturais. Mas, de modo geral, este princípio nos auxilia a entender se uma determinada população está em equilíbrio, isto é, em evolução e fluxo gênico entre homozigotos e heterozigotos. Agora que nós conhecemos como as características hereditárias são repassadas de geração em geração, e como esse fluxo de informações influenciam uma população, vamos aplicar esses conhecimentos para o melhoramento genético. Nosso primeiro passo é conhecer um pouco sobre a Biologia Molecular e posteriormente suas ferramentas. Vamos nessa? Bons estudos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 INTRODUÇÃO A BIOLOGIA MOLECUAR TÓPICO UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II 47 Após a descoberta das propriedades do material genético e como os genes atuam, se iniciou a descoberta de ferramentas para a manipulação desses materiais genéticos (DNA ou RNA). Com o avanço da biologia, mais especificamente da genética e biologia molecular, surgiu então a engenharia genética. A engenharia genética estuda e aplica ferramentas de manipulação de material genético. A manipulação de DNA por engenharia genética pode ter diferentes objetivos, como o melhoramento genético de plantas de interesse agrícola para aumentar sua produção em campo, seleção e melhoramento de animais na pecuária, entre outros. Além da engenharia genética, surgia também a bioinformática. Este ramo de estudo que une a biologia+informática visa analisar por meio de programas computacionais os eventos biológicos, notadamente os genéticos, como a sequência e expressão de DNA, RNA e proteínas. Os marcadores moleculares são um exemplo da evolução da genética. Um marcador genético ou molecular é uma forma de se analisar uma característica herdada muitas vezes pelo princípio mendeliano de herança mono-híbrida. Resumindo, esses marcadores analisam e, em alguns casos até quantificam, os polimorfismos e a diversidade entre indivíduos de uma população ou entre populações. Atualmente existem diferentes tipos de marcadores moleculares, e muitas vezes sua aplicação depende do objetivo do estudo, todavia, os principais estão apresentados na tabela abaixo (tabela 1): 48UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II TABELA 1. MARCADORES MOLECULARES UTILIZADOS PARA ANALISAR A DIVERSIDADE DE POLIMORFISMO 1RestrictionFragment Length Polymorphism; 2Random Amplified Polymor- phic DNA; 3Inter Simple Sequence Repeats; 4AmplifiedFragment Length Polymor- phism; 5Single Nucleotide Polymorphism. Fonte: Adaptado de Faleiro (2007, p. 100). Estes marcadores podem ou não fazer a utilização da técnica de PCR (Polymerase Chain Reaction), que resumidamente é a produção de cópias de segmentos específicos de DNA. Como resultado, estes fragmentos são separados por um campo elétrico em um gel, técnica denominada de eletroforese. Todos esses conceitos e técnicas serão abordados na nossa próxima unidade. Além disso, vamos conhecer como ocorre o melhoramento genético empregando a Tecnologia do DNA recombinante e Transformação genética. Parece muito interessante, não é mesmo?! Vamos nessa descobrir juntos? Te vejo em breve. Marcador molecular Definição Herança mendeliana RFLP1 São fragmentos de DNA obtidos por meio da ação de enzimas de restrição Codominância RAPD2 São pequenos fragmentos de DNA amplificados por PCR de forma aleatória Dominância Microssatélite Fragmentos super curtos de DNA amplificados por PCR. Esses fragmentos possuem sequência conhecida Codominância ISSR3 São sequência curtas de DNA (até 300 pares de bases) construídas a partir dos microssatélites Dominância AFLP4 São fragmentos curtos de DNA obtidos por meio da combinação de RAPD e RFLP Dominância SNP5 Identifica a mudança/alteração de um nucleotídeo na sequência de DNA alvo --- 49UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II Os marcadores moleculares geram uma grande quantidade de informações sobre diversidade, frequência gênica, filogenia, entre outras. Essas informações são extremamente úteis em programas de conservação, caracterização e uso de germoplasma e melhoramento genético. Dessa forma, pode-se dizer que esses marcadores moleculares são ferramentas poderosas na geração de informações úteis em diferentes etapas (coleta, caracterização e uso de recursos genéticos), passando por atividades antes do melhoramento, durante o melhoramento e depois do melhoramento. Fonte: FALEIRO, F. G. Biotecnologia: estado da arte e aplicações na agropecuária. Planaltina: Embrapa Cerrados, p. 730, 2011. Muitas vezes as mutações são eventos aleatórios ou espontâneos. Em laboratório, facilmente conseguimos realizar a indução dessas mutações expondo a célula de interesse a um agente mutacional físico ou químico. Mas e no meio ambiente, quais tipos de agentes poderiam ser fonte dessas mutações que podem culminar em variabilidade genética? Fonte: O autor (2022). 50UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta Unidade nós vimos como determinados fenótipos podem ser influenciados ou originados pela interação entre um grupo de genes. Essa interação pode ocorrer seja ela pela inibição da expressão, como na epistasia, ou por meio da adição de mais um caráter à expressão, como os poligenes. Vimos também como a heterozigozidade pode ser importante para a evolução de uma população e, como essa evolução pode ser avaliada por meio do equilíbrio de Hardy-Weinberg. Por fim, demos início a nossa jornada sobre os conceitos sobre biologia molecular, como os marcadores moleculares, relacionando-os com os conceitos básicos que estudamos nos tópicos de genética, notadamente com os princípios mendelianos. Estou ansioso para te encontrar na nossa próxima unidade – Ferramentas de biologia molecular e melhoramento genético – onde nós aplicaremos ainda mais esses conceitos estudados até agora. Você tem ideia de como os organismos geneticamente modificados são feitos? Quais são suas aplicações? Quais características podem ser melhoradas geneticamente? Vem comigo e fica ligado que logo vamos descobrir! Te vejo na próxima unidade. 50 51UNIDADE 3 TÓPICOS DE GENÉTICA II MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO Título: Marcadores genético-moleculares aplicados a progra- mas de conservação e uso de recursos genéticos. Autor: Fábio Gelape Faleiro. Editora: Embrapa Cerrados. Sinopse: Este livro apresenta, de forma resumida, os principais tipos de marcadores genéticos moleculares, o princípio de sua obtenção e análise e algumas das aplicações práticas para resolver problemas e aumentar a eficiência de programas de conservação e uso de recursos genéticos vegetais. A finalidade deste livro é apresentar algumas das potencialidades práticas das técnicas de genética molecular, estimulando a sua utilização, em determinadas situações, por profissionais que trabalham com recursos genéticos vegetais. Pode-se dizer que os marcadores moleculares podem ser úteis em qualquer programa de conservação e uso de qualquer espécie, pelo menos em algumas fases desses programas ou para resolver determinado problema. Vários artigos científicos são citados no livro para exemplificar cada uma das aplicações práticas dos marcadores moleculares e um glossário é apresentado para fazer a interface e esclarecer termos utilizados por profissionais especializados em genética molecular e profissionais especializados em recursos genéticos. FILME/VÍDEO Título: O que são marcadores moleculares? Ano: 2021. Sinopse: Neste vídeo é apresentado sobre o que são marcado- res moleculares, a característica de alguns, a diferença entre marcadores dominantes e codominantes. Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=N0Lf9hEIq- Vs 51 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Plano de Estudos ● Reação em Cadeia da Polimerase (PCR); ● Tecnologia do DNA recombinante; ● Transformação genética e clonagem gênica. Objetivos da Aprendizagem ● ● Conceituar e contextualizar como ocorre a reação em cadeia da polimerase; ● ● Compreender os tipos de ferramentas para a tecnologia do DNA recombinante; ● ● Conceituar transformação genética e compreender suas metodologias. 4BIOLOGIA MOLECULAR E BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICOMELHORAMENTO GENÉTICO UNIDADEUNIDADE FERRAMENTAS DE FERRAMENTAS DE Professor Mestre João Arthur dos Santos de Oliveira 53UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO INTRODUÇÃO Prezado aluno, seja bem-vindo a nossa última unidade de nossa disciplina. Até aqui nós vimos a importância do DNA e como as informações armazenadas nele são herdadas. Mas, é possível melhorar determinadas características? Nesta unidade nós estudaremos que sim! Empregando as ferramentas adequadas e conhecendo os genes que se deseja melhorar, podemos construir organismos geneticamente modificados, podendo eles ser transgênicos, recombinantes ou mutantes. Muito se fala da presença dos OGM em nosso cotidiano, não é mesmo?! Que tal nós descobrirmos como eles podem surgir e quais suas aplicações? Então vamos nessa! Bons estudos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE TÓPICO UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO 54 Por definição, uma reação em cadeia da polimerase (em inglês Polimerase Chain Reaction – PCR) é uma reação padronizada e controla onde cópiasespecíficas de seg- mentos de DNA são copiadas, ou seja, são produzidas cópias (novos fragmentos) de um determinado segmento do DNA. Mas, como essa reação surgiu e como ela acontece? A reação de PCR foi pensada em 1983 por Kary Banks Mullis, um bioquímico norte americano. Mullis imaginou se seria possível selecionar e replicar/ produzir cópias daqueles segmentos de DNA específicos. Para isso, Mullis determinou que para que essa reação seja bem sucedida são necessários três reagentes fundamentais: ● Uma amostra de DNA que terá o segmento selecionado para molde da rea- ção; ● Uma solução tampão que garantirá que a reação aconteça adequadamente, principalmente em relação ao pH da reação; ● Enzima DNA polimerase que atuará na polimerização (produção) dos novos fragmentos de DNA. Normalmente essas enzimas utilizadas são as Taq DNA polimerases, pois como são utilizadas altas temperaturas nas reações, essas enzimas são termoestáveis. ● Magnésio (MgCl2) que atuará como cofator enzimático, ou seja, se ligará a enzima polimerase auxiliando-a durante a produção dos novos fragmentos de DNA; ● Conjunto de primers. Os primers são pequenos fragmentos de DNA que se identificam com a sequência do DNA molde que será copiado. São as sequências daquela região escolhida que a DNA polimerase utilizará para polimerização, assim, para se realizar a PCR é necessário conhecer a região onde se deseja amplificar. 55UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO ● Nucleosídeos trifosfatados (dNTP). Assemelham-se às bases nitrogenadas trifosfatadas que constituem os nucleotídeos (dGTP [Deoxyguanosine triphosphate], dCTP [Desoxicitidina trifosfato], dATP [Deoxyadenosine triphosphate] e dTTP [Thymidine triphosphate]). ● Água ultrapura (H2O mili-Q) para garantir o funcionamento adequado da reação, uma vez que dentro das células praticamente todas as reações metabólicas e bioquímicas ocorrem em meio aquoso. O volume da reação pode ser variável, mas comumente usam-se volumes entre 25 a 50 µL. A PCR é uma reação exponencial, ou seja, os fragmentos de DNA que são produzidos vão aumentando a cada ciclo da reação. O primeiro passo da PCR ocorre a desnaturação (±94 ºC), em que ocorre a separação inicial da dupla fita de DNA, posteriormente a esta desnaturação inicial ocorrem os ciclos. Cada ciclo (1x) é constituído de desnaturação, anelamento e extensão. FIGURA 1. REPRESENTAÇÃO DE COMO OCORREM OS CICLOS DA PCR Fonte: Malajovich (2016, p. 89). 56UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO Após a desnaturação à ±94 ºC, ocorre o anelamento em que ocorre os pares de primers utilizados se ligarão a região do DNA para a qual foram selecionados. Como os primers são sequências de DNA que foram desenhadas para identificar regiões específicas na molécula de DNA, sua temperatura de anelamento é variável para garantir que eles se ligarão na região, ou regiões, adequadas/ corretas. Essa temperatura pode variar entre 50 a 70 ºC. Uma vez que os primers se anelaram vem a extensão, que ocorre a 72 ºC e trata-se do alongamento da fita de DNA, também chamado de polimerização. A polimerização não ocorre por toda a fita do DNA, mas sim até a identificação da região de término que são determinadas pelo conjunto de primers. Após esse ciclo, um novo fragmento de DNA foi produzido, sendo este podendo ser usado para a produção de um novo fragmento e assim sucessivamente. Por isso a PCR ocorre exponencialmente! O número de ciclos da PCR para a amplificação de um determinado gene também pode ser variável e ocorre entre 25 a 40 ciclos. Todo esse processo ocorre após o preparo da reação que então é acondicionada em um equipamento denominado de termociclador. Os termocicladores são equipamentos que permitem uma variação de temperatura controlada, ou seja, podem ser programados para aquecer e resfriar em determinadas temperaturas. Vamos observar abaixo uma tabela que exemplifica como uma reação de PCR é montada (Tabela 1) e como ocorre sua cicla- gem (Tabela 2): TABELA 1. PREPARO DA REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE PARA O GENE 16S DE BACTÉRIAS Fonte: Reação de PCR apresentada por Oliveira et al. (2022, p. 70). Reagente Concentração volume Solução tampão 1x concentrado 5 µL dNTPS 2,5 mM 5 µL Primer foward 10 pMol 3 µL Primer reverse 10 pMol 3 µL MgCl2 50 mM 3,7 µL Taq DNA polimerase 5 U 0,4 µL Água Milli-Q --- 27,8 µL Amostra de DNA 10 ng/ µL 2 µL Volume total 50 µL 57UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO TABELA 2. CICLAGEM DA REAÇÃO EM CADEIA DA POLIMERASE PARA O GENE 16S DE BACTÉRIAS Fonte: Reação de PCR apresentada por Oliveira et al. (2022, p. 70). Qual seria a importância da técnica de PCR para o melhoramento genético? Esta técnica permite produzir inúmeras cópias dos genes de interesse. Essas cópias poderão ser utilizadas futuramente em processos de transformação genética. Além disso, os fragmentos de DNA produzidos podem ser sequenciados e analisados por meio de ferramentas de bioinformática para a identificação molecular dos organismos por meio da taxonomia molecular. Essas ferramentas de bioinformáticas analisam as sequências dos genes amplificados e auxiliam na montagem das árvores filogenéticas que permite uma melhor caracterização de qual nível hierárquico aquele organismo em questão pertence. Até aqui nós já compreendemos que por meio da PCR podemos obter inúmeras cópias de um segmento do DNA, mas, como esses resultados são observados? Em uma PCR convencional, está descrita acima, os resultados das amplificações são expressos por meio da eletroforese! A eletroforese consiste em uma separação dos fragmentos de DNA em um gel quando aplicado a um campo elétrico. O gel que serve como base para a migração do DNA pode ser de agarose ou poliacrilamida. Esse gel permite a migração dessas moléculas por serem capazes de formar poros que permitem a passagem dessas moléculas de um pólo a outro. A eletroforese então separa os fragmentos de acordo com seu peso molecular. Mas por que o DNA migra nesse gel quando aplicado no campo elétrico? Vocês devem se lembrar de como é a estrutura do DNA, principalmente quando a composição dos nucleotídeos. Estes constituintes apresentam grupamentos fosfatos em sua formação, o que deixa o DNA com uma carga negativa (-). Quando se aplica um campo elétrico com um polo positivo e outro negativo, os opostos serão atraídos, assim, como o Reagente Temperatura Tempo Desnaturação inicial 94 ºC 5 minutos Ciclos (25x): Desnaturação 94 ºC 30 segundos Anelamento 63 ºC 1 minuto Extensão 72 ºC 1 minuto Extensão final 72 ºC 7 minutos 58UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO DNA possui carga negativa devido a estes grupamentos fosfatos ele é atraído para o polo positivo do campo elétrico, caracterizando a corrida ou migração eletroforética. Além disso, existe uma correlação entre a porosidade do gel e o tamanho do frag- mento amplificado. Quanto menor for a porosidade, menores serão os poros e os fragmentos terão mais facilidade para atravessá-los, enquanto que quanto maior a porosidade maior será a dificuldade de atravessar o poro durante a migração. Neste sentido, fragmentos com pouco peso molecular (tamanho) tendem a migrar mais facilmente em comparação aos de maior peso. FIGURA 2. SISTEMA E ANÁLISE ELETROFORÉTICA Fonte: Malajovich (2016, p. 84). Para a visualização dos fragmentos após a migração no gel é necessário submetê- -los à coloração de fluorescência. O brometo de etídio é o mais utilizado pois por se tratar de um intercalante potente de DNA possibilita uma boa análise quando submetido a luz ultravioleta. Entretanto, o brometo de etídio é extremamente danoso à saúde, podendo cau- sar cânceres durante uma exposição prolongada. Nesta perspectiva, atualmente existem alguns reagentesconsiderados mais seguros em relação ao brometo, como os safer dyes para biologia molecular que desempenham a mesma função do brometo, mas sem seus efeitos adversos à saúde 59UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO Na figura abaixo nós podemos observar dois exemplos de como são os géis após a eletroforese. Em 1 trata-se de um gel de PCR convencional para analisar a amplificação de apenas um gene. O resultado positivo se dá quando aparece a banda observada nas amostras 2, 7 e 8, por exemplo, e negativo quando não há a formação das bandas como em 2, 4, 5 e 6. A formação da banda indica que aqueles organismos possuem o gene de in- teresse, e a ausência da banda pode ser um indicativo de que o gene não está presente no organismo alvo. Em um é apresentado um padrão de peso molecular para um comparativo do tamanho das bandas que foram amplificadas do gene de interesse. FIGURA 3. GEL QUE REPRESENTA COMO OCORRE A ELETROFORESE, A MIGRAÇÃO DOS FRAGMENTOS DE DNA EM UM GEL. Fonte: 1. Andrade e Faleiro (2011, p. 40); 2. Ribeiro et al. (2021, p. 45). 60UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO Em 2, trata-se de uma análise de polimorfismo, ou seja, os primers empregados identificaram todos as regiões que possuem aquela sequência alvo, neste sentido, são observadas várias bandas, pois todo região do genoma que possui aquela informação foi amplificada diferindo da amplificação observada em 1 na qual se deseja amplificar um gene com uma sequência específica. Ainda não ficou claro? Eu sei, é difícil né? Mas vou tentar esclarecer melhor! Imagine que em 1 queremos amplificar a sequência no genoma 5’ ATCTGCCAAAATCGG 3’, assim, o primer desenhado só irá amplificar o gene que contém essa sequência completa. Já em 2, polimorfismo, iríamos amplificar todas as regiões que contém a sequência 5’ ATCTG 3’, então, todas as regiões que possuem essas sequências completas ou não serão amplificadas por isso observamos várias bandas no gel, pois 5’ ATCTG 3’ é muito genérica. Viram só a diferença? No entanto, é importante salientar que a eletroforese não se aplica apenas para a separação de moléculas DNA, mas também de outras moléculas de material genético ou seus produtos como moléculas de RNA e proteínas. A PCR possui diversas aplicações na biologia molecular e no melhoramento genético, seja amplificando genes de interesse para posterior montagem de bibliotecas genômicas ou analisando e identificando polimorfismos ou espécies. Agora que conhecemos um pouco sobre essa importante ferramenta da biologia molecular, no nosso próximo tópico nós vamos conhecer quais as principais ferramentas utilizadas na construção de um organismo recombinante ou geneticamente melhorado. Vem comigo descobrir! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO 61 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 61 2 TECNOLOGIA DO RNA RECOMBINANTE TÓPICO 61 Assim como a Reação em cadeia da Polimerase (PCR), a Tecnologia do DNA Re- combinante, ou simplesmente TDR, também é uma importante ferramenta para a genética, biologia molecular e melhoramento genético. Em Suma, a TDR é um conjunto de técnicas que visam a obtenção de moléculas re- combinantes, notadamente moléculas de DNA, ou seja, a ligação de diferentes fragmentos de DNA de interesse em uma única molécula. Para isso, podem ser empregadas diferentes estratégias como a utilização de enzimas de restrição, hospedeiros, vetores, transcrição reversa, entre outros. No geral, as enzimas de restrição são como tesouras moleculares, isto é, iden- tificam e cortam sequências específicas de DNA produzindo pequenos fragmentos. Estes fragmentos podem ser ligados em uma nova molécula por outras enzimas denominadas de DNA ligases. Normalmente essas sequências identificadas e posteriormente cortadas pelas enzimas de restrição são os palíndromos. Um palíndromo em genética são sequências que podem ser lidas da mesma forma da esquerda para a direita e da direita para a esquerda. Geneticamente falando, um palín- dromo significa a mesma leitura de 5’ para 3’ e 3’ para 5’: 5’ → ATGGGGCTTTAAC 3’ 3’ CAATTTCGGGGTA ← 5’ Algumas das enzimas de restrição que são conhecidas e empregadas na TDR estão apresentadas na tabela abaixo: 62UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO TABELA 3. ENZIMAS DE RESTRIÇÃO UTILIZADAS EM TÉCNICAS DE TDR Fonte: Andrade e Faleiro (2011, p. 40). Após a obtenção da molécula de DNA de interesse, essas são inseridas ou trans- feridas para os vetores e posteriormente para os hospedeiros. Os vetores são um meio de transporte para que o DNA de interesse seja inserido em um hospedeiro. Um exemplo de um vetor é o plasmídeo (molécula de DNA circular). A sequência de interesse então é inse- rida neste plasmídeo que consequentemente é inserido em um hospedeiro. O hospedeiro então, é uma célula que é capaz de receber o vetor contendo o DNA exógeno de interesse para se expressar a característica de interesse. FIGURA 3. EXEMPLO DE UM VETOR. ESTE VETOR É UM PLASMÍDEO DENOMINADO PBR322. ESSE PLASMÍDEO FOI CRIADO NA DÉCADA DE 70 E FOI UTILIZADO COMO VETOR DE CLONAGEM NA BACTÉRIA ESCHERICHIA COLI Fonte: Pamphile (2011, p. 60). Nome da enzima Fonte Sequência para corte EcoRI Escherichia coli 5'-G-A-A-T-T-C-3’ 3’-C-T-T-A-A-G-5' PstI Providencia stuartii 5'-C-T-G-C-A-G-3’ 3’-G-A-C-G-T-C-5' SmaI Serratia marcescens 5'-C-C-C-G-G-G-3’ 3’-G-G-G-C-C-C 5' HaeIII Haemophilus aegyptius 5'-G-G-C-C-3’ 3’-C-C-G-G- 5' HpaII Haemophilus parainfluenzae 5'-C-C-G-G-3’ 3’-G-G-C-C-5' 63UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO A célula hospedeira então contém o gene, ou os genes, de interesse. Uma característica importante para uma célula hospedeira é que a mesma precisa multiplicar-se facilmente, por isso, comumente são utilizadas células bacterianas ou virais como células hospedeiras. Por fim, a transcrição reversa, trata-se da conversão de moléculas de RNA em cDNA, ou seja, um DNA complementar. As moléculas de RNAs obtidas passam por um processo semelhante ao PCR e são polimerizadas em uma dupla fita. Essa conversão é necessária pois como as moléculas de RNA normalmente são de fita simples, são muito instáveis e degradam facilmente, enquanto que o DNA ou cDNA em dupla fita tornam-se mais estáveis. Essa técnica é muito empregada para se analisar a expressão gênica de um determinado organismo, uma vez que os RNAs são produzidos apenas quando são necessários. Por isso é possível quantificar a atividade dos genes por meio dos RNAs transcritos. Agora que já conhecemos as principais ferramentas da TDR, vamos estudar sobre a transformação genética no próximo tópico. Como será que ela ocorre? Todos os organismos geneticamente modificados são transgênicos? Ficou curioso? Então vem descobrir comigo! Até já! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3TÓPICOTÓPICO UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO 646464 Em nosso cotidiano é comum vermos nas embalagens dos produtos indicando que aquele produto foi produzido a partir de organismos geneticamente modificados (OGM), principalmente os transgênicos. Mas o que significa e como obter um OGM? Os organismosgeneticamente modificados, como o próprio nome faz referência, trata-se de um organismo do qual sua constituição genética foi alterada/ modificada. Essa modificação pode ser oriunda da introdução de um DNA exógeno (material genético de outra espécie ou gênero) ou a edição/modificação dos genes do próprio organismo sem necessariamente introdução de outras sequências a este DNA. Quando ocorre a introdução de uma sequência exógena de DNA de outra espé- cie/ gênero este organismo será considerado um transgênico! No entanto, quando ocorre apenas a edição ou indução de mutações esse organismo não será um transgênico pois não carrega informações oriundas de DNA exógeno. Assim, todos os transgênicos são organismos geneticamente modificados, todavia, nem todos os organismos geneticamente modificados são transgênicos! O melhoramento genético pode ocorrer empregando técnicas clássicas ou por meio das ferramentas de biologia molecular. O melhoramento genético clássico é aquele que utiliza métodos físicos ou químicos para alterar o DNA do organismo de interesse, como por exemplo luz ultravioleta ou outras radiações ionizantes (método físico) ou exposição a substâncias químicas mutagênicas como bromato ou clorato de potássio (método quími- co), por exemplo. Esses métodos provocam alterações no DNA muitas vezes aleatórias e, estas alterações podem ocasionar em benefícios como a diminuição da patogenicidade de patógenos ou melhorando a capacidade de micro-organismos em produzir compostos de interesse biotecnológico. TRANSFORMAÇÃO GENÉTICA E CLONAGEM GENÉTICA 65UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO Neste sentido, os métodos clássicos originam organismos geneticamente modi- ficados, porém não transgênicos pois não ocorre a adição de DNA exógeno no genoma do organismo de interesse, mas sim uma modificação do próprio genoma do organismo. Nestes casos, comumente chamamos os organismos de mutantes. Já o melhoramento genético empregando ferramentas de biologia molecular utilizam as técnicas de PCR, sequenciamento e a transformação genética propriamente dita. Dentre as principais metodologias de transformação podemos citar a biobalística, eletroporação e transformação mediada por Agrobacterium tumefaciens. A biobalística consiste no bombardeamento das células com partículas metálicas que possuem moléculas de DNA aderidas em sua superfície. Este bombardeamento é realizado por um equipamento chamado de “gene gun”. Já a eletroporação consiste em colocar a célula de interesse em uma solução contendo sais que induzirão a aberturas dos canais de membrana para a passagem das moléculas de DNA existentes nessa solução. As aberturas dos canais da membrana são estimuladas por meio de choques elétricos. A desvantagem destas duas técnicas, biobalística e eletroporação, é que não está garantido que as moléculas de DNA serão incorporadas ao genoma da célula alvo. E uma vez incorporado, não está garantido que esta sequência de DNA inserida será mantida durante os ciclos celulares. Assim, a transformação mediada por A. tumefaciens pode ser uma alternativa mais efetiva. A. Tumefaciens é uma bactéria que servirá como um vetor de transformação, ou seja, ela transportará os genes de interesse e posteriormente transferirá para a célula alvo. Esta técnica é comumente empregada na transformação de plantas, e em alguns casos de fungos filamentosos. De maneira geral podemos dizer que a transformação apresenta 5 etapas principais: ● Seleção do gene de interesse; ● Isolamento do gene ou sequência de interesse; ● Replicação do gene de interesse, por meio de PCR e posterior clonagem; ● Transformação: transferência do gene ou sequência do gene selecionado para a célula do organismo alvo; ● Avaliação da transformação: verificação se o gene ou sequência foi inserida no genoma do organismo. A verificação pode ser realizada empregando PCR ou sequenciamento. Além disso, verifica-se se as informações inseridas serão repassadas às futuras gerações. 66UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO FIGURA 4. ETAPAS DA TRANSFORMAÇÃO Fonte: Andrade e Faleiro (2011, p. 435). Para transformação em animais, além das técnicas de eletroporação e bombar- deamento (biobalística), emprega-se também as técnicas de transformação de células tronco, microinjeções, fertilização in vitro de espermatozoides modificados e transferência nuclear de células somáticas. Um esquema simplificado apresentando essas técnicas está apresentado na Figura 5. 67UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO FIGURA 5. TRANSFORMAÇÃO E MELHORAMENTO GENÉTICO EM ANIMAIS Fonte: Andrade e Faleiro (2011, p. 440). Qual o desafio da transformação genética? Digamos que o principal desafio de todas as metodologias que visam o melhoramento genético trata-se não somente da inserção do gene de interesse no local adequado, mas também se esse gene será incorporado no genoma daquele organismo e não será perdido nos eventos celulares como as divisões de mitose e meiose, garantindo assim que essas informações melhoradas serão repassadas de geração em geração. Para se melhorar um organismo, é necessário conhecer qual fenótipo (característica) se deseja alterar. Este fenótipo pode ser a produção de mais grãos de plantas de interesse agropecuário, a resistência ao ataque de insetos e outras pragas, resistência a estresses ambientais, maior produção de leite, entre outras. O melhoramento genético clássico ou por meio das ferramentas de biologia molecular podem apresentar resultados mais rápidos em comparação com aqueles convencionais que ocorrem por meio do cruzamento entre dois organismos que apresentam as características de interesse. O melhoramento genético neste sentido é mais direcionado e eficiente. Aqui, chegamos ao fim de mais uma unidade da nossa disciplina de genética e melhoramento. Nesta unidade nós vimos conceitos muito interessantes sobre como deter- minadas características podem ser melhoradas empregando as ferramentas disponíveis, seja ela pelo método clássico ou molecular. Muito interessante, não é mesmo? Muito obrigado pela sua companhia até aqui e te vejo em uma próxima oportunidade. 68UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO Uma variação da PCR convencional que estudamos nessa unidade é a PCR em tempo real (rtPCR). Os processos de amplificação que ocorre na rtPCR são semelhantes ao da PCR convencional que vimos, no entanto, na rtPCR são utilizados reagentes que emitem fluorescência o que permite não somente detectar a presença do gene avaliado, mas também quantificar sua expressão, ou seja, o quanto aquele gene está ativo, enquanto na PCR convencional só é possível detectar a presença ou ausência do gene. Fonte: O Autor (2022). A PCR é uma técnica que produz cópias de determinadas regiões do DNA. Como estudamos na Unidade I, esse processo de produção de cópias do DNA é realizado naturalmente por todas as células. De acordo com esses conceitos, qual seria então a diferença entre a Replicação e PCR? Fonte: O Autor (2022). 69UNIDADE 4 FERRAMENTAS DE BIOLOGIA MOLECULAR E MELHORAMENTO GENÉTICO Título: Biotecnologia: estado da arte e aplicações na agropecuária. Autor: Fábio Gelape Faleiro, Solange Rocha Monteiro de Andrade e Fábio Bueno dos Reis Junior. Editora: Embrapa Cerrados. Sinopse: Neste livro, estas várias técnicas são discutidas por vários especialistas da Embrapa Cerrados e instituições parceiras, sendo um material didático importante para dar uma ideia geral da biotecnologia, incluindo aspectos conceituais, sua importância histórica e atual e também sua importância futura, considerando toda sua potencialidade e o que ainda vai ser descoberto. Título: Gattaca - A Experiência Genética. Ano: 1997. Sinopse: Num futuro noqual os seres humanos são escolhidos geneticamente em laboratórios, as pessoas concebidas biologicamente são consideradas inválidas, como Vincent Freeman (Ethan Hawke). Desde pequeno, ele tem o desejo de ser astronauta, mas seu código genético o predispõe a doenças cardíacas, o que o leva a trocar de identidade para alcançar seu objetivo. Até que um assassinato põe seu disfarce em risco. LIVRO VÍDEO/FILME MATERIAL COMPLEMENTAR 70 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nesta unidade nós vimos como as ferramentas de biologia molecular são empregadas no melhoramento genético. Essas ferramentas podem ser utilizadas tanto em células animais, vegetais ou microbianas e visam obter como resultado final um genótipo que expressa um fenótipo melhorado a célula selvagem ou parental, por exemplo, se uma planta de milho produz cerca de 20 kg de espigas por mês, seu OGM será capaz de produzir cerca de 25 kg de espigas. Estas técnicas continuam em constante evolução para se tornarem cada vez mais refinadas e mais precisas, como permitir a edição de dois ou mais genes de uma única vez. É isso caro aluno, encerramos aqui nossa última unidade da nossa disciplina de genética e melhoramento onde conhecemos conceitos e assuntos muito interessantes sobre genética e a manipulação do DNA. Muito obrigado por ter me acompanhado até aqui nessa jornada incrível! Te vejo em uma próxima, muito sucesso. 71 ANDRADE, S. L. M.; FALEIRO, F. G. Engenharia genética: princípios científicos e aplicações. In: FALEIRO, F. G.; ANDRADE, S. L. M.; REIS JUNIOR, F. B. Biotecnologia: estado da arte e aplicações na agropecuária. Planaltina: Embrapa Cerrados, p. 730, 2011. COX, M. M.; DOUDNA, J. A.; O’DONNEL, M. Biologia Molecular: Princípios e Técnicas. Porto Alegre: Artmed, p. 943, 2012. FALEIRO, F. G. Marcadores genético-moleculares aplicados aos programas de conservação e uso de recursos genéticos. Planaltina: Embrapa Cerrados, p. 102, 2007. GRIFFITHS, A. J. F; DOEBLEY, J; PEICHEL, C et al. Introdução à Genética. 12 ed. Rio de Janeiro: Gua- nabara Koogan, 2022. 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