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CULPABILIDADE
INTRODUÇÃO 1
CONCEITO 1
CULPABILIDADE FORMAL E CULPABILIDADE MATERIAL 1
TEORIAS DA CULPABILIDADE 2
TEORIA PSICOLÓGICA (Franz Von Liszt e Beling) 2
TEORIA PSICOLÓGICA-NORMATIVA (Edmund Mezger, Bertold Freudenthal, Goldschimitd e Frank) 2
TEORIA NORMATIVA PURA / EXTREMADA / ESTRITA (Hans Welzel) 3
TEORIA DA COCULPABILIDADE 4
COCULPABILIDADE À AVESSAS 4
VULNERABILIDADE 5
CULPABILIDADE PELA VULNERABILIDADE (Zaffaroni) 5
ELEMENTOS DA CULPABILIDADE 5
CAUSA LEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABILIDADE 10
CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABILIDADE 10
CULPABILIDADE: Tipo Positivo vs. Tipo Negativo (Jakobs) 11
INTRODUÇÃO
Para a teoria bipartite, a culpabilidade não integra o crime, sendo mero pressuposto de aplicação da pena, juízo de
reprovação e censura. Já para a teoria tripartite, a culpabilidade é substrato do crime, ao lado do fato típico e da
ilicitude.
CONCEITO
Segundo Rogério Sanches1, a culpabilidade é um juízo de reprovação pessoal que recai sobre o autor do fato
típico e ilícito, que podendo se comportar conforme ao direito, opta livremente por comportar de forma contrária a
ele.
CULPABILIDADE FORMAL E CULPABILIDADE MATERIAL
CULPABILIDADE
FORMAL
É a definida em abstrato, ou seja, o juízo de reprovabilidade realizado em relação ao
provável autor de um fato típico e ilícito, se presentes os elementos da culpabilidade,
no momento em que o legislador incrimina uma conduta. Serve, pois, para o
legislador cominar os limites (mínimo e máximo) da pena atribuída a determinada
infração penal.
Assim, quando criados dois tipos incriminadores (ex: um crime contra a honra e um
crime doloso contra a vida), o legislador considera formalmente duas culpabilidades:
uma maior, para o crime mais grave (doloso contra a vida) e outra mais branda (crime
contra a honra).
1 SANCHES (2020), pag. 353.
1
http://www.a-pdf.com/?tr-demo
CULPABILIDADE
MATERIAL
É estabelecida em concreto, dirigida a um agente culpável que cometeu um fato
típico e ilícito. Destina-se, portanto, ao magistrado, colaborando com a aplicação
concreta da pena.
TEORIAS DA CULPABILIDADE
 TEORIA PSICOLÓGICA (Franz Von Liszt e Beling)
Tem base causalista
Afirma que a culpabilidade é a relação psíquica entre o autor e o resultado.
São espécies da culpabilidade o dolo e a culpa.
A imputabilidade não é elemento da culpabilidade, sendo um pressuposto para sua análise.
O dolo é normativo (consciência da ilicitude).
TEORIA PSICOLÓGICA
FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE
Conduta (ação/omissão)
Resultado
Nexo causal
Tipicidade
Excludentes:
Estado de necessidade
Legítima defesa
Exercício regular de direito
Estrito cumprimento de dever
legal.
Causa supralegal:
consentimento do ofendido
Dolo/culpa
Imputabilidade não é elemento
constitutivo, mas pressuposto
para análise da culpabilidade.
Fruto do causalismo (teoria mecanicista) – culpabilidade era puramente psicológica.
 TEORIA PSICOLÓGICA-NORMATIVA (Edmund Mezger, Bertold Freudenthal, Goldschimitd e Frank)
A culpabilidade seria constituída pelos elementos psicológicos/subjetivos (dolo e culpa), além dos
elementos normativos: IMPUTABILIDADE e EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA.
A consciência da ilicitude estava embutida no dolo.
A culpabilidade deixa de ser um fenômeno puramente natural, de cunho psicológico, pois a ela se
atribui um novo elemento, estritamente normativo, inicialmente chamado de normalidade das
circunstâncias concomitantes, e, posteriormente, de motivação normal, atualmente definido como
exigibilidade de conduta diversa.
O conceito de culpabilidade assume um perfil complexo, constituído por elementos naturalísticos
(vínculo psicológico, representado pelo dolo ou pela culpa) e normativos (normalidade das
circunstâncias concomitantes ou motivação normal).
A imputabilidade deixa de ser pressuposto da culpabilidade, para funcionar como seu elemento
TEORIA PSICOLÓGICO-NORMATIVO
FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE
Conduta (ação/omissão)
Resultado
Nexo causal
Tipicidade
Excludentes:
Estado de necessidade
Legítima defesa
Exercício regular de direito
Estrito cumprimento de dever
Elemento psicológico/volitivo:
 Dolo / culpa (dolo
normativo, ou seja, com
consciência atual da
ilicitude);
2
legal.
Causa supralegal:
consentimento do ofendido
Elemento normativo:
 Imputabilidade (deixa de
ser mero pressuposto da
culpabilidade e passa a ser
elemento constitutivo).
 Exigibilidade de conduta
diversa.
Não rompe com o causalismo, mas é influenciada pelo neokantismo.
 TEORIA NORMATIVA PURA / EXTREMADA / ESTRITA (Hans Welzel)
Tem base finalista.
A culpabilidade é JUÍZO DE REPROVAÇÃO de um determinado comportamento, que foi tomado
voluntariamente e que é contrário ao direito como um todo.
Welzel retirou o dolo e a culpa da culpabilidade e os colocou na conduta humana, elemento do fato
típico. Ao fazer isso, Welzel retira a consciência da ilicitude do dolo (aspecto normativo), por entender
que culpabilidade é imputabilidade, exigibilidade de conduta diversa e a potencial consciência da
ilicitude.
Atual estágio da culpabilidade – culpabilidade normativa.
Dolo deixa de ser normativo e passa a ser natural.
TEORIA NORMATIVA PURA
FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE
Conduta (ação/omissão):
destinada a uma finalidade
(dolo/culpa)
Resultado
Nexo causal
Tipicidade
Excludentes:
Estado de necessidade
Legítima defesa
Exercício regular de direito
Estrito cumprimento de dever
legal.
Causa supralegal:
consentimento do ofendido
Imputabilidade
Exigibilidade de conduta diversa
Potencial consciência da
ilicitude
Rompe com o causalismo. É a teoria da culpabilidade para o finalismo. Retira dolo/culpa
da culpabilidade, alocando-os no fato típico.
Crítica: não é possível aferir na prática o poder de agir de outro modo
CULPABILIDADE
TEORIA PSICOLÓGICA TEORIA
PSICOLÓGICO-NORMATIVA
TEORIA NORMATIVA OU
NORMATIVA PURA
Franz Von Liszt/Beling Mezger Welzel
Dolo/culpa Dolo/culpa
Imputabilidade
Exigibilidade de conduta diversa
Imputabilidade
Exigibilidade de conduta diversa
Potencial consciência da
3
ilicitude
A teoria normativa pura possui duas vertentes:
TEORIA EXTREMADA TEORIA LIMITADA
BASE FINALISTA
A culpabilidade possui os seguintes elementos:
 Imputabilidade
 Exigibilidade de conduta diversa
 Potencial consciência da ilicitude
Diferem em relação à natureza jurídica do art. 20, §1°, cp
(descriminantes putativas)
Art. 20, § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe
situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro
deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo.
Erro de proibição Erro de tipo
Adotada no código penal
 TEORIA DA COCULPABILIDADE
Todo sujeito age numa circunstância determinada e com um âmbito de
autodeterminação também determinado. Em sua própria personalidade há uma
contribuição para esse âmbito de autodeterminação, posto que a sociedade - por melhor
organizada que seja - nunca tem a possibilidade de brindar a todos os homens com as
mesmas oportunidades. Em consequência, há sujeitos que têm um menor âmbito de
autodeterminação, condicionado desta maneira por causas sociais. Não será possível
atribuir estas causas sociais ao sujeito e sobrecarregá-lo com elas no momento de
reprovação de culpabilidade. Costuma-se dizer que há, aqui, uma “coculpabilidade”,
com a qual a própria sociedade deve arcar (ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI,
José Henrique. Manual de direito penal brasileiro. Parte geral. 7. ed. São Paulo: RT, 2007.
v. 1, p. 525)
“A teoria da coculpabilidade (co-culpabilidade) preconiza que ao Estado deve ser imputada a
corresponsabilidade pelo cometimento de determinadas infrações penais praticadas pelo indivíduo
que possui autodeterminação de menor alcance, diante das circunstâncias do caso concreto,
principalmente no que se refere a condições sociais e econômicas, o que enseja menor reprovação
social”2.
Apesar de não ter previsão no Código Penal, entende-se que é possível aplicá-la por meio do art. 66 do
CP (a pena poderá ser ainda atenuada emrazão de circunstância relevante, anterior ou posterior ao
crime, embora não prevista expressamente em lei) como uma atenuante genérica.
O STJ já se posicionou no seguinte sentido:
2 Biffe Junior, João Concursos públicos : terminologias e teorias inusitadas / João Biffe Junior, Joaquim Leitão Junior. – Rio de Janeiro:
Forense; São Paulo: MÉTODO, 2017, pág. 127
4
A teoria da coculpabilidade não pode ser erigida à condição de verdadeiro prêmio
para agentes que não assumem a sua responsabilidade social e fazem da
criminalidade um meio de vida (STJ, AgRg no REsp 1770619 / PE AGRAVO REGIMENTAL NO
RECURSO ESPECIAL 2018/0260741-6, 06/06/2019)
Quanto à tese de concorrência de culpa, vale registrar que esta Corte Superior não tem
admitido a aplicação da teoria da coculpabilidade do Estado como justificativa para
a prática de delitos. HC 187.132/MG, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA,
Sexta Turma, DJe 18/02/2013.
COCULPABILIDADE À AVESSAS
Eduardo Bernardini Gonçallo divide em duas perspectivas2:
É o abrandamento da aplicação da pena nos
crimes praticados por pessoas de alto poder
socioeconômico, como é o caso da extinção da
punibilidade pelo pagamento da dívida nos
crimes contra a ordem tributária, previstos na Lei
8.137/1990, quando na verdade, essas mesmas
pessoas deveriam sofrer um maior rigor na
aplicação da pena, porquanto tiveram maiores
oportunidades perante a sociedade.
É a criação pelo Estado de leis que incriminem
as condutas passíveis de estarem sujeitas
somente as pessoas de menor capacidade
socioeconômica, como é caso da vadiagem e
mendicância, já mencionadas acima (GONÇALLO,
2015, p. 1).
 VULNERABILIDADE
Criminalização primária e secundária: denomina-se criminalização o processo de seleção realizado
pelo Estado (detentor de poder) de quem será submetido a punição. A criminalização primária é a
elaboração das leis penais, ao passo que o programa deve ser cumprido pelas agências de
criminalização secundária (Polícia, MP, Judiciário e agentes penitenciários).
Para Zaffaroni, criminalização primária “é o ato e o efeito de sancionar uma lei penal material que
incrimina ou permite a punição de certas pessoas” e a criminalização secundária “é a ação punitiva
exercida sobre pessoas concretas, que acontece quando as agências policiais detectam uma pessoa
que supõe-se tenha praticado certo ato criminalizado primariamente”.3
Seletividade e vulnerabilidade: como as agências de criminalização não possuem estrutura para
realizar o programa (criminalização primária), acaba realizando apenas uma pequena parcela, de
sorte que surge a chamada cifra oculta ou negra da criminalidade (diferença dos crimes
efetivamente ocorridos com a parcela que chega ao conhecimento das instâncias penais ou que são
efetivamente punidas). Nos crimes de colarinho branco utiliza-se a expressão cifra dourada.
Em razão da falta de condições operacionais das agências, ocorre uma seleção do criminoso, a qual é
condicionada por outras agências.
 CULPABILIDADE PELA VULNERABILIDADE (Zaffaroni)
“Propõe a redução da culpabilidade (da responsabilidade) para aquelas pessoas que têm as maiores
chances de sofrer punições do direito penal. É uma contraproposta à teoria da coculpabilidade, que
atribui à sociedade, quando excludente e segregante, a colaboração para a prática de delitos”4
4 https://professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/121923492/o-que-se-entende-por-teoria-da-vulnerabilidade
3 https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2017/07/04/o-que-se-entende-por-criminalizacao-primaria-e-secundaria/
5
No momento da aferição da culpabilidade e da resposta estatal, deverá ser observado o estado de
vulnerabilidade (aferido pelo estereótipo) e a situação de vulnerabilidade (posição concreta
criminalizante). A pessoa que se amoldar ao estereótipo ou pertencer a uma classe social, não precisa
fazer um esforço considerável para posicionar-se em uma situação de risco criminalizante (situação de
vulnerabilidade), já que provém de um estado de vulnerabilidade relativamente alto, de sorte que a
reprovabilidade será menor. Concepção limitadora ou redutora do poder punitivo, eis que protege o
indivíduo que se encontra em estado de vulnerabilidade, resultando na fórmula: maior o estado de
vulnerabilidade menor será a pena.
ELEMENTOS DA CULPABILIDADE
 IMPUTABILIDADE: é a possibilidade de se atribuir a alguém a responsabilidade pela prática de uma infração.
Critérios para definição da inimputabilidade:
1. Critério biológico: leva-se em conta unicamente o desenvolvimento mental do agente (não
importando sua capacidade de entendimento e autodeterminação no momento da conduta);
2. Psicológico: leva-se em consideração a capacidade de entendimento e autodeterminação do
agente no momento da conduta (não importando o seu desenvolvimento mental).
3. Biopsicológico: leva-se em conta não apenas o desenvolvimento mental do agente, mas também
a sua capacidade de entendimento e autodeterminação no momento da conduta.
CAUSAS DA INIMPUTABILIDADE
Rogério Sanches apresenta as seguintes causas:
1. Inimputabilidade em razão de anomalia psíquica
Art. 26: É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental
incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz
de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse
entendimento.
Adoção do critério biopsicológico.
O termo “doença mental” deve ser entendido de forma ampla e abrangente, compreendendo
qualquer enfermidade que venha a debilitar as funções psíquicas do agente.
Rogério Sanches apresenta as seguintes observações que merecem atenção:
● O inimputável por doença mental é denunciado, processado e ao final é absolvido com
imposição de medida de segurança.
● O art. 26, §único do CP não traz hipótese de inimputabilidade, mas de responsabilidade penal
diminuída, ou seja, semi-imputabilidade.
2. Em razão da idade do agente
Art. 27 - Os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, ficando sujeitos às
normas estabelecidas na legislação especial.
Adoção do critério biológico.
Há uma presunção absoluta de que o menor de 18 anos possui desenvolvimento mental
incompleto. Tal presunção funda-se em razões de política criminal.
3. Em razão da embriaguez:
6
Art. 28,
§ 1º - É isento de pena o agente que, por embriaguez completa, proveniente de caso
fortuito ou força maior, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz
de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse
entendimento. (embriaguez absoluta).
§ 2º - A pena pode ser reduzida de 1/3 a 2/3, se o agente, por embriaguez, proveniente
de caso fortuito ou força maior, não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a plena
capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse
entendimento. (embriaguez incompleta).
A embriaguez é a intoxicação transitória causada pelo álcool ou substância de efeitos
análogos.
Rogério Sanches apresenta o seguinte cenário que pode ser extraído do CP:
EMBRIAGUEZ ACIDENTAL
Pode ser por caso fortuito ou por força maior.
O agente não quer ingerir a substância, seja por que
não sabia o que estava ingerindo, seja porque foi
obrigado a ingeri-la.
Completa: exclui a capacidade de entendimento e
autodeterminação (exclui a imputabilidade, nos termos
do art. 28, §1º).
Incompleta: reduz a capacidade (diminuição de pena,
nos termos do art. 28, §2º).
EMBRIAGUEZ NÃO ACIDENTAL
Voluntária / dolosa: o agente quer se embriagar.
Involuntária / Culposa: fruto de negligência.
Completa ou incompleta: não exclui a imputabilidade
(art. 28, II, CP).
EMBRIAGUEZ PATOLÓGICA
“É a embriaguez doentia, que, conforme o caso
concreto, pode ser tratada como anomalia psíquica,
gerando a inimputabilidade do agente ou redução de
sua pena, nos moldes do art. 26 do CP”5.
EMBRIAGUEZ PREORDENADA
É aquela em que o sujeito quer ingerir, quer se
embriagar e quer praticar o crime.
Não há exclusão da culpabilidade do agente.
Constitui circunstância agravante, prevista no art. 61,
inciso II, l doCP
Fundamento para se punir a embriaguez não acidental e a preordenada, mesmo quando
completas
5 SANCHES (2020), pág. 367
7
Conforme Sanches, adota-se a teoria da “ACTIO LIBERA IN CAUSA” (ação livre na causa), para a
qual o ato transitório revestido de inconsciência (momento do crime, em que o agente se
encontra embriagado) decorre de ato antecedente que foi livre na vontade (momento de
ingestão da bebida ou substância análoga), transferindo-se para esse momento anterior a
constatação da imputabilidade e da voluntariedade (CUNHA, 2020, p. 368). Assim, o
livre-arbítrio não é aferido no momento da prática da conduta, mas sim se ação foi livre no
momento da ingestão da substância.
Segundo o STJ:
A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça está fixada no sentido de que "nos termos do art.
28, II, do Código Penal, é cediço que a embriaguez voluntária ou culposa do agente não exclui a
culpabilidade, sendo ele responsável pelos seus atos mesmo que, ao tempo da ação ou da
omissão, era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de
acordo com esse entendimento. Aplica-se a teoria da actio libera in causa, ou seja,
considera-se imputável quem se coloca em estado de inconsciência ou de incapacidade de
autocontrole, de forma dolosa ou culposa, e, nessa situação, comete delito." (AgInt no REsp
1.548.520/MG, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 07/06/2016, DJe
22/06/2016; sem grifos no original).
POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE: segundo Sanches, é a possibilidade que tem o agente imputável de
compreender a reprovabilidade de sua conduta. Não se exige uma compreensão técnica, um conhecimento
jurídico, mas apenas a percepção leiga de que o comportamento contraria o que certo. A doutrina fala, então, da
chamada valoração paralela na esfera do profano (Edmund Mezger): avaliar se o agente possuía o conhecimento
do profano, do homem leigo na sociedade. Trata-se de um critério para identificar se o individuo estar ou não em
erro de proibição. Na concepção de Mezger, profano é tudo aquilo que não está na esfera estritamente jurídica: a
moral, política, os costumes, valores culturais e sociais. Para Mezger, para saber se há erro de proibição, não se faz
um juízo jurídico e sim uma valoração paralela. Basta o conhecimento ou a possibilidade de conhecimento da
antijuridicidade, sem que seja necessário o conhecimento da penalização da conduta.
Segundo o STJ, no REsp 1846189, “Não se exige do agente o conhecimento técnico da ilicitude,
basta que tenha a ciência da proibição na esfera do profano, um juízo comum na comunidade e
no meio social em que vive.”
A causa excludente (dirimente) da potencial consciência da ilicitude é o erro de proibição.
Art. 21 - O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se
inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço.
Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a
consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir
essa consciência.
Rogério Sanches apresenta 3 situações possíveis6:
1. O agente, apesar de ignorar a lei, conhece a reprovabilidade de sua conduta: Neste caso, não
temos a configuração de erro de proibição.
2. O agente conhece a lei, mas ignora a reprovabilidade: Pode-se alegar erro de proibição;
3. O agente ignora a lei e a reprovabilidade: Poderá alegar o erro de proibição.
6 SANCHES (2020), pág. 372.
8
O erro de proibição pode ser:
ERRO DE PROIBIÇÃO DIRETO ERRO DE PROIBIÇÃO INDIRETO
O agente aqui se equivoca quanto ao conteúdo
de uma norma proibitiva, ignorando a sua
existência ou o seu conteúdo ou ainda o seu
âmbito de incidência.
O agente sabe que a conduta é atípica, mas
supõe presente uma norma permissiva (trata-se
de excludente de ilicitude).
ATENÇÃO: Sanches pontua que a teoria psicológica normativa exigia consciência ATUAL da ilicitude e,
portanto, qualquer erro de proibição excluiria o crime (evitável ou inevitável), pois o simples fato de ter
o erro demonstra que o agente não tinha consciência atual. Já na teoria normativa pura, exige-se a
POTENCIAL consciência e, por isso, somente o erro INEVITÁVEL exclui o crime.
TEORIA PSICOLÓGICA
NORMATIVA7
TEORIA
NORMATIVA PURA
ERRO DE PROIBIÇÃO
INEVITÁVEL
Isenta o agente de pena,
eliminando a atual consciência
da ilicitude.
Isenta o agente de pena,
eliminando a atual consciência
da ilicitude.
ERRO DE PROIBIÇÃO EVITÁVEL
Isenta o agente de pena,
eliminando a atual consciência
da ilicitude.
Não isenta o agente de pena,
pois, apesar de eliminar a atual,
existe a potencial consciência
da ilicitude, suficiente para a
punição.
Não confunda
AUSÊNCIA DE
CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE
Circunstância atenuante Erro de proibição (exclui culpabilidade)
ERRO DE TIPO ERRO DE PROIBIÇÃO
Erro sobre uma circunstância fática, que
constitui elementar do tipo.
Não tem consciência que realiza os elementos
objetivos do tipo.
Exclui o dolo da conduta, permitindo a
condenação a título de culpa, se previsto na lei a
proibição da conduta culposa.
Ex: carregar droga não sabendo que era droga.
Erro sobre a proibição da conduta.
Possui a consciência do fato, mas não da sua
ilicitude.
O erro de proibição inevitável exclui a potencial
consciência da ilicitude.
Erro de proibição Inevitável /
Invencível / Escusável
Isenta de pena (exclui culpa).
Erro de proibição Evitável /
Vencível / Inescusável
↓ 1/3 a 2/3.
7 SANCHES (2020), pág. 373.
9
EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA: possibilidade de se exigir do homem médio uma conduta diferente, ou
seja, conduta conforme o direito no caso concreto. Avalia-se a normalidade das circunstâncias ao caso concreto.
Circunstâncias concretas normais fundamentam uma exigibilidade de conduta diversa e a culpabilidade. Se a
situação é anormal pode não ser possível fazer o juízo de reprovação sobre a conduta do agente (inexigibilidade de
conduta diversa).
Causas de exclusão da exigibilidade de conduta diversa
1. Coação moral irresistível: grave ameaça ou violência sofrida pelo contra sua vontade.
COAÇÃO MORAL
Incide na psique/vontade/liberdade de escolha, que, por
estar com a vontade viciada, acaba praticando o que lhe é
determinado.
Teoria do Domínio do fato: quem praticou a conduta
(conduta porque é voluntária), não tem domínio do fato,
foi mero executor. A pessoa que obrigou é o autor
mediato.
COAÇÃO MORAL POR MEIO FÍSICO
(VIS COMPULSIVA)
Com violência, no momento que a vítima age, embora que
por movimentos próprios e com dolo, a vontade está
viciada por medo da violência. Também pode se falar em
autoria mediata. Ex. Torturar para conseguir que a vítima
realize algo
ATENÇÃO: Coação moral resistível é circunstância
atenuante (art. 65, III, c, CP)
COAÇÃO FÍSICA IRRESISTÍVEL
Não há conduta por parte do coagido em virtude de
ausência de voluntariedade. Assim, o coagido sequer
praticou um crime. O coator responde pelo seu próprio
crime. É a chamada de vis absoluta ou vis corporalis.
2. Obediência hierárquica (art. 22, CP)
REQUISITOS8:
- Ordem de superior hierárquico: Segundo Sanches, “a manifestação de vontade
emanada de um detentor de função pública dirigida a um agente público
hierarquicamente inferior, destinada à realização de uma ação ou abstenção. A
subordinação doméstica (pai e filho) ou eclesiástica (bispo e sacerdote) não configura a
dirimente (podendo caracterizar causa supralegal de exclusão da culpabilidade).”
- Ordem não seja manifestamente (claramente) ilegal: Segundo Sanches, “ordem
recebida, apesar de ilegal, tem aparências de legalidade, induzindo em erro o
subordinado, que acaba por executá-la. Portanto, a ilicitude da ordem recebida não pode
ser flagrante, clara e ululante, caso em que o executor não se exime de responsabilidade
(sendo punido juntamente com o mandante, seu superior hierárquico)”.
- Estrita observância da ordem: sob pena de responder pelo excesso.
8 SANCHES (2020), pág. 378/379
10
CAUSA LEGAIS DE EXCLUSÃODA CULPABILIDADE9
ELEMENTOS DA
CULPABILIDADE
DIRIMENTES COMENTÁRIOS
IMPUTABILIDADE
Anomalia psíquica (art. 26, caput) O rol de dirimentes da imputabilidade
é taxativo.
O índio não é considerado
inimputável, salvo se portador de
anomalia psíquica, for menor de 18
anos ou apresentar embriaguez
completa acidental.
Menoridade (art. 27)
Embriaguez acidental (art. 28, §1º)
POTENCIAL CONSCIÊNCIA
DA ILICITUDE
Erro de proibição inevitável (art. 21) Rol taxativo.
EXIGIBILIDADE DE
CONDUTA DIVERSA
Coação moral irresistível Prevalece que as dirimentes da
exigibilidade de conduta diversa estão
dispostas num rol exemplificativo,
admitindo-se causas supralegais (STJ)
Obediência hierárquica
CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABILIDADE
1. FATO DE CONSCIÊNCIA: segundo Sanches, “estará isento de pena aquele que, por motivo de consciência
ou crença, praticar algum fato previsto como crime, desde que não viole direitos fundamentais
individuais.” (SANCHES, 2020, pág. 380).
Decisão moral do autor, fundamentada no direito constitucional de liberdade de crença e consciência art.
5, inc VI CF, desde que não atinja bem jurídico de 3º. Ex: transfusão de sangue de testemunha de Jeová.
Não exime o autor de culpa se decorre resultado danoso à bem jurídico alheio. Ex. não deixa o filho
receber sangue e ele morre, responde por homicídio por ser garantidor.
OBS: O profissional de saúde que realiza transfusão sanguínea sem autorização do pai é acobertado por
estado de necessidade, excluindo a ilicitude.
2. PROVOCAÇÃO DE LEGÍTIMA DEFESA: não se pode alegar legítima defesa quando o autor provoca
dolosamente a situação de agressão. Se não há outra saída para repelir a agressão à vida, é possível
afastar a culpabilidade do agente. (não é exigível a renúncia do direito à vida).
3. CONFLITO DE DEVERES: a escolha do mal menor evitando o mal maior, sendo, portanto, uma conduta que
merece reprovação.
Não havendo outra saída não se pode exigir conduta diferente (escolhe o mal menor).
Ex. desviar um trem de passageiros para evitar a colisão com outro tem, causando a morte de alguns
operários na outra ferrovia, mas evitando a morte de muitos passageiros.
CULPABILIDADE: Tipo Positivo vs. Tipo Negativo (Jakobs)10
10 https://www.buscadordizerodireito.com.br/dodpedia/detalhes/0070d23b06b1486a538c0eaa45dd167a?palavra-chave=culpabilidade&criterio-pesquisa=e e BAUMFELD, Laura Minc.
Coleção Roteiros de Prova Oral: Ministério Público Estadual. Salvador: JusPodivm, 2018, p. 530.
9 SANCHES (2020), pág. 382.
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Desenvolvidos pelo penalista alemão Jakobs, os conceitos de TIPO POSITIVO E NEGATIVO DE CULPABILIDADE
compõem a formatação da culpabilidade no âmbito de seu funcionalismo penal, que substitui a culpabilidade
concebida como juízo de reprovabilidade por necessidades reais ou supostas de prevenção.
Para Jakobs, a culpabilidade pressupõe o injusto sendo que o autor deste só será responsável pelo "déficit de
motivação jurídica se ao tempo do fato era imputável", caracterizando o TIPO POSITIVO DE CULPABILIDADE. Por
outro lado, o TIPO NEGATIVO DE CULPABILIDADE, associado à inexigibilidade de comportamento, a culpabilidade
apenas será atribuída ao agente quando ele não tiver atuado com ânimo ou em um contexto exculpante.
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