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CULPABILIDADE INTRODUÇÃO 1 CONCEITO 1 CULPABILIDADE FORMAL E CULPABILIDADE MATERIAL 1 TEORIAS DA CULPABILIDADE 2 TEORIA PSICOLÓGICA (Franz Von Liszt e Beling) 2 TEORIA PSICOLÓGICA-NORMATIVA (Edmund Mezger, Bertold Freudenthal, Goldschimitd e Frank) 2 TEORIA NORMATIVA PURA / EXTREMADA / ESTRITA (Hans Welzel) 3 TEORIA DA COCULPABILIDADE 4 COCULPABILIDADE À AVESSAS 4 VULNERABILIDADE 5 CULPABILIDADE PELA VULNERABILIDADE (Zaffaroni) 5 ELEMENTOS DA CULPABILIDADE 5 CAUSA LEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABILIDADE 10 CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABILIDADE 10 CULPABILIDADE: Tipo Positivo vs. Tipo Negativo (Jakobs) 11 INTRODUÇÃO Para a teoria bipartite, a culpabilidade não integra o crime, sendo mero pressuposto de aplicação da pena, juízo de reprovação e censura. Já para a teoria tripartite, a culpabilidade é substrato do crime, ao lado do fato típico e da ilicitude. CONCEITO Segundo Rogério Sanches1, a culpabilidade é um juízo de reprovação pessoal que recai sobre o autor do fato típico e ilícito, que podendo se comportar conforme ao direito, opta livremente por comportar de forma contrária a ele. CULPABILIDADE FORMAL E CULPABILIDADE MATERIAL CULPABILIDADE FORMAL É a definida em abstrato, ou seja, o juízo de reprovabilidade realizado em relação ao provável autor de um fato típico e ilícito, se presentes os elementos da culpabilidade, no momento em que o legislador incrimina uma conduta. Serve, pois, para o legislador cominar os limites (mínimo e máximo) da pena atribuída a determinada infração penal. Assim, quando criados dois tipos incriminadores (ex: um crime contra a honra e um crime doloso contra a vida), o legislador considera formalmente duas culpabilidades: uma maior, para o crime mais grave (doloso contra a vida) e outra mais branda (crime contra a honra). 1 SANCHES (2020), pag. 353. 1 http://www.a-pdf.com/?tr-demo CULPABILIDADE MATERIAL É estabelecida em concreto, dirigida a um agente culpável que cometeu um fato típico e ilícito. Destina-se, portanto, ao magistrado, colaborando com a aplicação concreta da pena. TEORIAS DA CULPABILIDADE TEORIA PSICOLÓGICA (Franz Von Liszt e Beling) Tem base causalista Afirma que a culpabilidade é a relação psíquica entre o autor e o resultado. São espécies da culpabilidade o dolo e a culpa. A imputabilidade não é elemento da culpabilidade, sendo um pressuposto para sua análise. O dolo é normativo (consciência da ilicitude). TEORIA PSICOLÓGICA FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE Conduta (ação/omissão) Resultado Nexo causal Tipicidade Excludentes: Estado de necessidade Legítima defesa Exercício regular de direito Estrito cumprimento de dever legal. Causa supralegal: consentimento do ofendido Dolo/culpa Imputabilidade não é elemento constitutivo, mas pressuposto para análise da culpabilidade. Fruto do causalismo (teoria mecanicista) – culpabilidade era puramente psicológica. TEORIA PSICOLÓGICA-NORMATIVA (Edmund Mezger, Bertold Freudenthal, Goldschimitd e Frank) A culpabilidade seria constituída pelos elementos psicológicos/subjetivos (dolo e culpa), além dos elementos normativos: IMPUTABILIDADE e EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA. A consciência da ilicitude estava embutida no dolo. A culpabilidade deixa de ser um fenômeno puramente natural, de cunho psicológico, pois a ela se atribui um novo elemento, estritamente normativo, inicialmente chamado de normalidade das circunstâncias concomitantes, e, posteriormente, de motivação normal, atualmente definido como exigibilidade de conduta diversa. O conceito de culpabilidade assume um perfil complexo, constituído por elementos naturalísticos (vínculo psicológico, representado pelo dolo ou pela culpa) e normativos (normalidade das circunstâncias concomitantes ou motivação normal). A imputabilidade deixa de ser pressuposto da culpabilidade, para funcionar como seu elemento TEORIA PSICOLÓGICO-NORMATIVO FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE Conduta (ação/omissão) Resultado Nexo causal Tipicidade Excludentes: Estado de necessidade Legítima defesa Exercício regular de direito Estrito cumprimento de dever Elemento psicológico/volitivo: Dolo / culpa (dolo normativo, ou seja, com consciência atual da ilicitude); 2 legal. Causa supralegal: consentimento do ofendido Elemento normativo: Imputabilidade (deixa de ser mero pressuposto da culpabilidade e passa a ser elemento constitutivo). Exigibilidade de conduta diversa. Não rompe com o causalismo, mas é influenciada pelo neokantismo. TEORIA NORMATIVA PURA / EXTREMADA / ESTRITA (Hans Welzel) Tem base finalista. A culpabilidade é JUÍZO DE REPROVAÇÃO de um determinado comportamento, que foi tomado voluntariamente e que é contrário ao direito como um todo. Welzel retirou o dolo e a culpa da culpabilidade e os colocou na conduta humana, elemento do fato típico. Ao fazer isso, Welzel retira a consciência da ilicitude do dolo (aspecto normativo), por entender que culpabilidade é imputabilidade, exigibilidade de conduta diversa e a potencial consciência da ilicitude. Atual estágio da culpabilidade – culpabilidade normativa. Dolo deixa de ser normativo e passa a ser natural. TEORIA NORMATIVA PURA FATO TÍPICO ILICITUDE CULPABILIDADE Conduta (ação/omissão): destinada a uma finalidade (dolo/culpa) Resultado Nexo causal Tipicidade Excludentes: Estado de necessidade Legítima defesa Exercício regular de direito Estrito cumprimento de dever legal. Causa supralegal: consentimento do ofendido Imputabilidade Exigibilidade de conduta diversa Potencial consciência da ilicitude Rompe com o causalismo. É a teoria da culpabilidade para o finalismo. Retira dolo/culpa da culpabilidade, alocando-os no fato típico. Crítica: não é possível aferir na prática o poder de agir de outro modo CULPABILIDADE TEORIA PSICOLÓGICA TEORIA PSICOLÓGICO-NORMATIVA TEORIA NORMATIVA OU NORMATIVA PURA Franz Von Liszt/Beling Mezger Welzel Dolo/culpa Dolo/culpa Imputabilidade Exigibilidade de conduta diversa Imputabilidade Exigibilidade de conduta diversa Potencial consciência da 3 ilicitude A teoria normativa pura possui duas vertentes: TEORIA EXTREMADA TEORIA LIMITADA BASE FINALISTA A culpabilidade possui os seguintes elementos: Imputabilidade Exigibilidade de conduta diversa Potencial consciência da ilicitude Diferem em relação à natureza jurídica do art. 20, §1°, cp (descriminantes putativas) Art. 20, § 1º - É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo. Erro de proibição Erro de tipo Adotada no código penal TEORIA DA COCULPABILIDADE Todo sujeito age numa circunstância determinada e com um âmbito de autodeterminação também determinado. Em sua própria personalidade há uma contribuição para esse âmbito de autodeterminação, posto que a sociedade - por melhor organizada que seja - nunca tem a possibilidade de brindar a todos os homens com as mesmas oportunidades. Em consequência, há sujeitos que têm um menor âmbito de autodeterminação, condicionado desta maneira por causas sociais. Não será possível atribuir estas causas sociais ao sujeito e sobrecarregá-lo com elas no momento de reprovação de culpabilidade. Costuma-se dizer que há, aqui, uma “coculpabilidade”, com a qual a própria sociedade deve arcar (ZAFFARONI, Eugênio Raúl; PIERANGELI, José Henrique. Manual de direito penal brasileiro. Parte geral. 7. ed. São Paulo: RT, 2007. v. 1, p. 525) “A teoria da coculpabilidade (co-culpabilidade) preconiza que ao Estado deve ser imputada a corresponsabilidade pelo cometimento de determinadas infrações penais praticadas pelo indivíduo que possui autodeterminação de menor alcance, diante das circunstâncias do caso concreto, principalmente no que se refere a condições sociais e econômicas, o que enseja menor reprovação social”2. Apesar de não ter previsão no Código Penal, entende-se que é possível aplicá-la por meio do art. 66 do CP (a pena poderá ser ainda atenuada emrazão de circunstância relevante, anterior ou posterior ao crime, embora não prevista expressamente em lei) como uma atenuante genérica. O STJ já se posicionou no seguinte sentido: 2 Biffe Junior, João Concursos públicos : terminologias e teorias inusitadas / João Biffe Junior, Joaquim Leitão Junior. – Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2017, pág. 127 4 A teoria da coculpabilidade não pode ser erigida à condição de verdadeiro prêmio para agentes que não assumem a sua responsabilidade social e fazem da criminalidade um meio de vida (STJ, AgRg no REsp 1770619 / PE AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL 2018/0260741-6, 06/06/2019) Quanto à tese de concorrência de culpa, vale registrar que esta Corte Superior não tem admitido a aplicação da teoria da coculpabilidade do Estado como justificativa para a prática de delitos. HC 187.132/MG, Rel. Ministra MARIA THEREZA DE ASSIS MOURA, Sexta Turma, DJe 18/02/2013. COCULPABILIDADE À AVESSAS Eduardo Bernardini Gonçallo divide em duas perspectivas2: É o abrandamento da aplicação da pena nos crimes praticados por pessoas de alto poder socioeconômico, como é o caso da extinção da punibilidade pelo pagamento da dívida nos crimes contra a ordem tributária, previstos na Lei 8.137/1990, quando na verdade, essas mesmas pessoas deveriam sofrer um maior rigor na aplicação da pena, porquanto tiveram maiores oportunidades perante a sociedade. É a criação pelo Estado de leis que incriminem as condutas passíveis de estarem sujeitas somente as pessoas de menor capacidade socioeconômica, como é caso da vadiagem e mendicância, já mencionadas acima (GONÇALLO, 2015, p. 1). VULNERABILIDADE Criminalização primária e secundária: denomina-se criminalização o processo de seleção realizado pelo Estado (detentor de poder) de quem será submetido a punição. A criminalização primária é a elaboração das leis penais, ao passo que o programa deve ser cumprido pelas agências de criminalização secundária (Polícia, MP, Judiciário e agentes penitenciários). Para Zaffaroni, criminalização primária “é o ato e o efeito de sancionar uma lei penal material que incrimina ou permite a punição de certas pessoas” e a criminalização secundária “é a ação punitiva exercida sobre pessoas concretas, que acontece quando as agências policiais detectam uma pessoa que supõe-se tenha praticado certo ato criminalizado primariamente”.3 Seletividade e vulnerabilidade: como as agências de criminalização não possuem estrutura para realizar o programa (criminalização primária), acaba realizando apenas uma pequena parcela, de sorte que surge a chamada cifra oculta ou negra da criminalidade (diferença dos crimes efetivamente ocorridos com a parcela que chega ao conhecimento das instâncias penais ou que são efetivamente punidas). Nos crimes de colarinho branco utiliza-se a expressão cifra dourada. Em razão da falta de condições operacionais das agências, ocorre uma seleção do criminoso, a qual é condicionada por outras agências. CULPABILIDADE PELA VULNERABILIDADE (Zaffaroni) “Propõe a redução da culpabilidade (da responsabilidade) para aquelas pessoas que têm as maiores chances de sofrer punições do direito penal. É uma contraproposta à teoria da coculpabilidade, que atribui à sociedade, quando excludente e segregante, a colaboração para a prática de delitos”4 4 https://professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/121923492/o-que-se-entende-por-teoria-da-vulnerabilidade 3 https://meusitejuridico.editorajuspodivm.com.br/2017/07/04/o-que-se-entende-por-criminalizacao-primaria-e-secundaria/ 5 No momento da aferição da culpabilidade e da resposta estatal, deverá ser observado o estado de vulnerabilidade (aferido pelo estereótipo) e a situação de vulnerabilidade (posição concreta criminalizante). A pessoa que se amoldar ao estereótipo ou pertencer a uma classe social, não precisa fazer um esforço considerável para posicionar-se em uma situação de risco criminalizante (situação de vulnerabilidade), já que provém de um estado de vulnerabilidade relativamente alto, de sorte que a reprovabilidade será menor. Concepção limitadora ou redutora do poder punitivo, eis que protege o indivíduo que se encontra em estado de vulnerabilidade, resultando na fórmula: maior o estado de vulnerabilidade menor será a pena. ELEMENTOS DA CULPABILIDADE IMPUTABILIDADE: é a possibilidade de se atribuir a alguém a responsabilidade pela prática de uma infração. Critérios para definição da inimputabilidade: 1. Critério biológico: leva-se em conta unicamente o desenvolvimento mental do agente (não importando sua capacidade de entendimento e autodeterminação no momento da conduta); 2. Psicológico: leva-se em consideração a capacidade de entendimento e autodeterminação do agente no momento da conduta (não importando o seu desenvolvimento mental). 3. Biopsicológico: leva-se em conta não apenas o desenvolvimento mental do agente, mas também a sua capacidade de entendimento e autodeterminação no momento da conduta. CAUSAS DA INIMPUTABILIDADE Rogério Sanches apresenta as seguintes causas: 1. Inimputabilidade em razão de anomalia psíquica Art. 26: É isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Adoção do critério biopsicológico. O termo “doença mental” deve ser entendido de forma ampla e abrangente, compreendendo qualquer enfermidade que venha a debilitar as funções psíquicas do agente. Rogério Sanches apresenta as seguintes observações que merecem atenção: ● O inimputável por doença mental é denunciado, processado e ao final é absolvido com imposição de medida de segurança. ● O art. 26, §único do CP não traz hipótese de inimputabilidade, mas de responsabilidade penal diminuída, ou seja, semi-imputabilidade. 2. Em razão da idade do agente Art. 27 - Os menores de 18 anos são penalmente inimputáveis, ficando sujeitos às normas estabelecidas na legislação especial. Adoção do critério biológico. Há uma presunção absoluta de que o menor de 18 anos possui desenvolvimento mental incompleto. Tal presunção funda-se em razões de política criminal. 3. Em razão da embriaguez: 6 Art. 28, § 1º - É isento de pena o agente que, por embriaguez completa, proveniente de caso fortuito ou força maior, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. (embriaguez absoluta). § 2º - A pena pode ser reduzida de 1/3 a 2/3, se o agente, por embriaguez, proveniente de caso fortuito ou força maior, não possuía, ao tempo da ação ou da omissão, a plena capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. (embriaguez incompleta). A embriaguez é a intoxicação transitória causada pelo álcool ou substância de efeitos análogos. Rogério Sanches apresenta o seguinte cenário que pode ser extraído do CP: EMBRIAGUEZ ACIDENTAL Pode ser por caso fortuito ou por força maior. O agente não quer ingerir a substância, seja por que não sabia o que estava ingerindo, seja porque foi obrigado a ingeri-la. Completa: exclui a capacidade de entendimento e autodeterminação (exclui a imputabilidade, nos termos do art. 28, §1º). Incompleta: reduz a capacidade (diminuição de pena, nos termos do art. 28, §2º). EMBRIAGUEZ NÃO ACIDENTAL Voluntária / dolosa: o agente quer se embriagar. Involuntária / Culposa: fruto de negligência. Completa ou incompleta: não exclui a imputabilidade (art. 28, II, CP). EMBRIAGUEZ PATOLÓGICA “É a embriaguez doentia, que, conforme o caso concreto, pode ser tratada como anomalia psíquica, gerando a inimputabilidade do agente ou redução de sua pena, nos moldes do art. 26 do CP”5. EMBRIAGUEZ PREORDENADA É aquela em que o sujeito quer ingerir, quer se embriagar e quer praticar o crime. Não há exclusão da culpabilidade do agente. Constitui circunstância agravante, prevista no art. 61, inciso II, l doCP Fundamento para se punir a embriaguez não acidental e a preordenada, mesmo quando completas 5 SANCHES (2020), pág. 367 7 Conforme Sanches, adota-se a teoria da “ACTIO LIBERA IN CAUSA” (ação livre na causa), para a qual o ato transitório revestido de inconsciência (momento do crime, em que o agente se encontra embriagado) decorre de ato antecedente que foi livre na vontade (momento de ingestão da bebida ou substância análoga), transferindo-se para esse momento anterior a constatação da imputabilidade e da voluntariedade (CUNHA, 2020, p. 368). Assim, o livre-arbítrio não é aferido no momento da prática da conduta, mas sim se ação foi livre no momento da ingestão da substância. Segundo o STJ: A jurisprudência desta Corte Superior de Justiça está fixada no sentido de que "nos termos do art. 28, II, do Código Penal, é cediço que a embriaguez voluntária ou culposa do agente não exclui a culpabilidade, sendo ele responsável pelos seus atos mesmo que, ao tempo da ação ou da omissão, era inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. Aplica-se a teoria da actio libera in causa, ou seja, considera-se imputável quem se coloca em estado de inconsciência ou de incapacidade de autocontrole, de forma dolosa ou culposa, e, nessa situação, comete delito." (AgInt no REsp 1.548.520/MG, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, julgado em 07/06/2016, DJe 22/06/2016; sem grifos no original). POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE: segundo Sanches, é a possibilidade que tem o agente imputável de compreender a reprovabilidade de sua conduta. Não se exige uma compreensão técnica, um conhecimento jurídico, mas apenas a percepção leiga de que o comportamento contraria o que certo. A doutrina fala, então, da chamada valoração paralela na esfera do profano (Edmund Mezger): avaliar se o agente possuía o conhecimento do profano, do homem leigo na sociedade. Trata-se de um critério para identificar se o individuo estar ou não em erro de proibição. Na concepção de Mezger, profano é tudo aquilo que não está na esfera estritamente jurídica: a moral, política, os costumes, valores culturais e sociais. Para Mezger, para saber se há erro de proibição, não se faz um juízo jurídico e sim uma valoração paralela. Basta o conhecimento ou a possibilidade de conhecimento da antijuridicidade, sem que seja necessário o conhecimento da penalização da conduta. Segundo o STJ, no REsp 1846189, “Não se exige do agente o conhecimento técnico da ilicitude, basta que tenha a ciência da proibição na esfera do profano, um juízo comum na comunidade e no meio social em que vive.” A causa excludente (dirimente) da potencial consciência da ilicitude é o erro de proibição. Art. 21 - O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço. Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência. Rogério Sanches apresenta 3 situações possíveis6: 1. O agente, apesar de ignorar a lei, conhece a reprovabilidade de sua conduta: Neste caso, não temos a configuração de erro de proibição. 2. O agente conhece a lei, mas ignora a reprovabilidade: Pode-se alegar erro de proibição; 3. O agente ignora a lei e a reprovabilidade: Poderá alegar o erro de proibição. 6 SANCHES (2020), pág. 372. 8 O erro de proibição pode ser: ERRO DE PROIBIÇÃO DIRETO ERRO DE PROIBIÇÃO INDIRETO O agente aqui se equivoca quanto ao conteúdo de uma norma proibitiva, ignorando a sua existência ou o seu conteúdo ou ainda o seu âmbito de incidência. O agente sabe que a conduta é atípica, mas supõe presente uma norma permissiva (trata-se de excludente de ilicitude). ATENÇÃO: Sanches pontua que a teoria psicológica normativa exigia consciência ATUAL da ilicitude e, portanto, qualquer erro de proibição excluiria o crime (evitável ou inevitável), pois o simples fato de ter o erro demonstra que o agente não tinha consciência atual. Já na teoria normativa pura, exige-se a POTENCIAL consciência e, por isso, somente o erro INEVITÁVEL exclui o crime. TEORIA PSICOLÓGICA NORMATIVA7 TEORIA NORMATIVA PURA ERRO DE PROIBIÇÃO INEVITÁVEL Isenta o agente de pena, eliminando a atual consciência da ilicitude. Isenta o agente de pena, eliminando a atual consciência da ilicitude. ERRO DE PROIBIÇÃO EVITÁVEL Isenta o agente de pena, eliminando a atual consciência da ilicitude. Não isenta o agente de pena, pois, apesar de eliminar a atual, existe a potencial consciência da ilicitude, suficiente para a punição. Não confunda AUSÊNCIA DE CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE Circunstância atenuante Erro de proibição (exclui culpabilidade) ERRO DE TIPO ERRO DE PROIBIÇÃO Erro sobre uma circunstância fática, que constitui elementar do tipo. Não tem consciência que realiza os elementos objetivos do tipo. Exclui o dolo da conduta, permitindo a condenação a título de culpa, se previsto na lei a proibição da conduta culposa. Ex: carregar droga não sabendo que era droga. Erro sobre a proibição da conduta. Possui a consciência do fato, mas não da sua ilicitude. O erro de proibição inevitável exclui a potencial consciência da ilicitude. Erro de proibição Inevitável / Invencível / Escusável Isenta de pena (exclui culpa). Erro de proibição Evitável / Vencível / Inescusável ↓ 1/3 a 2/3. 7 SANCHES (2020), pág. 373. 9 EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA: possibilidade de se exigir do homem médio uma conduta diferente, ou seja, conduta conforme o direito no caso concreto. Avalia-se a normalidade das circunstâncias ao caso concreto. Circunstâncias concretas normais fundamentam uma exigibilidade de conduta diversa e a culpabilidade. Se a situação é anormal pode não ser possível fazer o juízo de reprovação sobre a conduta do agente (inexigibilidade de conduta diversa). Causas de exclusão da exigibilidade de conduta diversa 1. Coação moral irresistível: grave ameaça ou violência sofrida pelo contra sua vontade. COAÇÃO MORAL Incide na psique/vontade/liberdade de escolha, que, por estar com a vontade viciada, acaba praticando o que lhe é determinado. Teoria do Domínio do fato: quem praticou a conduta (conduta porque é voluntária), não tem domínio do fato, foi mero executor. A pessoa que obrigou é o autor mediato. COAÇÃO MORAL POR MEIO FÍSICO (VIS COMPULSIVA) Com violência, no momento que a vítima age, embora que por movimentos próprios e com dolo, a vontade está viciada por medo da violência. Também pode se falar em autoria mediata. Ex. Torturar para conseguir que a vítima realize algo ATENÇÃO: Coação moral resistível é circunstância atenuante (art. 65, III, c, CP) COAÇÃO FÍSICA IRRESISTÍVEL Não há conduta por parte do coagido em virtude de ausência de voluntariedade. Assim, o coagido sequer praticou um crime. O coator responde pelo seu próprio crime. É a chamada de vis absoluta ou vis corporalis. 2. Obediência hierárquica (art. 22, CP) REQUISITOS8: - Ordem de superior hierárquico: Segundo Sanches, “a manifestação de vontade emanada de um detentor de função pública dirigida a um agente público hierarquicamente inferior, destinada à realização de uma ação ou abstenção. A subordinação doméstica (pai e filho) ou eclesiástica (bispo e sacerdote) não configura a dirimente (podendo caracterizar causa supralegal de exclusão da culpabilidade).” - Ordem não seja manifestamente (claramente) ilegal: Segundo Sanches, “ordem recebida, apesar de ilegal, tem aparências de legalidade, induzindo em erro o subordinado, que acaba por executá-la. Portanto, a ilicitude da ordem recebida não pode ser flagrante, clara e ululante, caso em que o executor não se exime de responsabilidade (sendo punido juntamente com o mandante, seu superior hierárquico)”. - Estrita observância da ordem: sob pena de responder pelo excesso. 8 SANCHES (2020), pág. 378/379 10 CAUSA LEGAIS DE EXCLUSÃODA CULPABILIDADE9 ELEMENTOS DA CULPABILIDADE DIRIMENTES COMENTÁRIOS IMPUTABILIDADE Anomalia psíquica (art. 26, caput) O rol de dirimentes da imputabilidade é taxativo. O índio não é considerado inimputável, salvo se portador de anomalia psíquica, for menor de 18 anos ou apresentar embriaguez completa acidental. Menoridade (art. 27) Embriaguez acidental (art. 28, §1º) POTENCIAL CONSCIÊNCIA DA ILICITUDE Erro de proibição inevitável (art. 21) Rol taxativo. EXIGIBILIDADE DE CONDUTA DIVERSA Coação moral irresistível Prevalece que as dirimentes da exigibilidade de conduta diversa estão dispostas num rol exemplificativo, admitindo-se causas supralegais (STJ) Obediência hierárquica CAUSAS SUPRALEGAIS DE EXCLUSÃO DA CULPABILIDADE 1. FATO DE CONSCIÊNCIA: segundo Sanches, “estará isento de pena aquele que, por motivo de consciência ou crença, praticar algum fato previsto como crime, desde que não viole direitos fundamentais individuais.” (SANCHES, 2020, pág. 380). Decisão moral do autor, fundamentada no direito constitucional de liberdade de crença e consciência art. 5, inc VI CF, desde que não atinja bem jurídico de 3º. Ex: transfusão de sangue de testemunha de Jeová. Não exime o autor de culpa se decorre resultado danoso à bem jurídico alheio. Ex. não deixa o filho receber sangue e ele morre, responde por homicídio por ser garantidor. OBS: O profissional de saúde que realiza transfusão sanguínea sem autorização do pai é acobertado por estado de necessidade, excluindo a ilicitude. 2. PROVOCAÇÃO DE LEGÍTIMA DEFESA: não se pode alegar legítima defesa quando o autor provoca dolosamente a situação de agressão. Se não há outra saída para repelir a agressão à vida, é possível afastar a culpabilidade do agente. (não é exigível a renúncia do direito à vida). 3. CONFLITO DE DEVERES: a escolha do mal menor evitando o mal maior, sendo, portanto, uma conduta que merece reprovação. Não havendo outra saída não se pode exigir conduta diferente (escolhe o mal menor). Ex. desviar um trem de passageiros para evitar a colisão com outro tem, causando a morte de alguns operários na outra ferrovia, mas evitando a morte de muitos passageiros. CULPABILIDADE: Tipo Positivo vs. Tipo Negativo (Jakobs)10 10 https://www.buscadordizerodireito.com.br/dodpedia/detalhes/0070d23b06b1486a538c0eaa45dd167a?palavra-chave=culpabilidade&criterio-pesquisa=e e BAUMFELD, Laura Minc. Coleção Roteiros de Prova Oral: Ministério Público Estadual. Salvador: JusPodivm, 2018, p. 530. 9 SANCHES (2020), pág. 382. 11 Desenvolvidos pelo penalista alemão Jakobs, os conceitos de TIPO POSITIVO E NEGATIVO DE CULPABILIDADE compõem a formatação da culpabilidade no âmbito de seu funcionalismo penal, que substitui a culpabilidade concebida como juízo de reprovabilidade por necessidades reais ou supostas de prevenção. Para Jakobs, a culpabilidade pressupõe o injusto sendo que o autor deste só será responsável pelo "déficit de motivação jurídica se ao tempo do fato era imputável", caracterizando o TIPO POSITIVO DE CULPABILIDADE. Por outro lado, o TIPO NEGATIVO DE CULPABILIDADE, associado à inexigibilidade de comportamento, a culpabilidade apenas será atribuída ao agente quando ele não tiver atuado com ânimo ou em um contexto exculpante. 12