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<p>VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES A ESCOLA PÚBLICA EXPERIMENTA A DEMOCRACIA edição revista São Paulo 2003</p><p>2003 by Xamã Editora edição Direitos desta edição reservados à Xamã VM Editora e Gráfica Ltda. É proibida a reprodução total ou parcial, por quaisquer meios, sem autorização expressa da editora. edição Papirus Editora - 1996 Edição: Expedito Correia Capa: Expedito Correia sobre detalhe da obra Terra (Vermelho), de Delima Revisão: Estela Dias Editoração eletrônica: Xamã Editora SUMÁRIO Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) P257 Paro, Vitor Henrique. INTRODUÇÃO 7 Eleição de diretores : a escola pública expe- rimenta a democracia / Vitor Henrique Paro. - 2. 1 FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS ed. - São Paulo : 2003. DE ESCOLHA 13 136 p. ; 21 cm. 1 As DIVERSAS MODALIDADES DE ESCOLHA 13 1.1 O diretor nomeado e as marcas do clientelismo político 14 ISBN: 85-7587-023-8 1.2 Concurso público: virtudes e fraquezas 19 1.3 Eleição: instrumento de democracia 26 1. Diretores escolares - Brasil. 2. Escolas 2 ELEIÇÃO NO CONTEXTO DA DEMOCRATIZAÇÃO DA GESTÃO ESCOLAR 37 públicas Brasil. I. 2.1 Democratização da sociedade 37 2.2 Democratização da gestão e autonomia da escola 40 CDD 371.20120981 3 EXPECTATIVAS SOBRE A ELEIÇÃO 42 2 INSTITUCIONALIZAÇÃO - MOTIVAÇÕES E RESISTÊNCIAS 49 1 DISCURSOS, VISÕES DE MUNDO, INTERESSES 49 2 FORMAS DE EMPECILHOS, PAPEL DO AGENTE Xamã VM Editora e Gráfica Ltda. POLÍTICO E PARTICIPAÇÃO DA SOCIEDADE CIVIL 55 Rua Loefgreen, 943 - Vila Mariana São Paulo - SP 3 LEGALIDADE E CONSTITUCIONALIDADE DA ELEIÇÃO DE DIRETORES 62 CEP 04040-030 - Fone: (11) 5081-3939 / 5549-6026 Fax: (11) 5574-7017 www.xamaeditora.com.br e-mail: vendas@xamaeditora.com.br 3 IMPLEMENTAÇÃO - os DESAFIOS DA PRÁTICA 73 Impresso no Brasil 1 DIREÇÃO COMO FUNÇÃO DE CONFIANÇA DO GOVERNO 73 novembro - 2003 2 PARTIDARIZAÇÃO DAS ELEIÇÕES 76</p><p>12 ELEIÇÃO DE DIRETORES na vida da escola. O capítulo 2 examina ucionalização das destacando os A O tratar da eleição de rativos e ideológicos dessa medida. No ado o processo de implementação das diretor no contexto da estões relacionadas a sua regulamentação democracia escolar, Vitor Paro o 4 procura examinar impacto produzido busca evitar, por um lado, o ração da escola e sobre a qualidade e cido. Finalmente, o quinto capítulo busca risco do preconceito ao julgar ções provisórias a respeito da experiência uma inovação, e, por outro, Igumas perspectivas que se abrem com a precipitação em fazer do no contexto de uma gestão democrática FUNDAMENTOS processo eletivo a panacéia para o ensino público básico. A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS autor examina a questão no ALTERNATIVAS DE ESCOLHA âmbito da organização escolar no Brasil, estudando suas múltiplas facetas, e apresenta subsídios teóricos essenciais As DIVERSAS MODALIDADES DE ESCOLHA para o desvelamento de virtudes e limites da medida, É possível identificar, nos trabalhos sobre assunto, mais de uma classificação dos tipos de escolha para diretores das escolas tanto em termos de públicas. Nircélio Zabot (1984) nomeia três procedimentos: a) indicação democratização da escola "por alguém que detém mandato político"; b) "processo estruturado dentro de um plano de carreira"; e c) escolha mediante votação pela quanto no que concerne aos comunidade escolar. Segundo Carlos Marés (1983, p. 49), há quatro efeitos sobre a racionalização formas possíveis de escolha: "a) diretor de carreira; b) concurso público; c) livre indicação pelos poderes do Estado; d) eleições", da gestão escolar e sobre a enquanto Luiz Fernandes Dourado (1990, p. 103) menciona "a livre qualidade do ensino. indicação pelos poderes do Estado, diretor de carreira, o concurso público, a indicação por listas e a eleição direta, dentre outras." Neste trabalho, esses tipos aparecerão sintetizados em três categorias. À livre nomeação por autoridade do Estado, sem outros requisitos que não a vontade do agente que indica, na hierarquia governamental ou burocrática do próprio Estado, chamarei simplesmente de nomeação.</p><p>14 15 HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES 1 FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS A escolha a partir de um plano de carreira tem significado quase sempre do ensino. Nem a garantia da eficiência nem a certeza do reto en- a exigência de concurso de títulos ou de provas, mas nada impede que caminhar político se conseguem com essa forma de indicação." se pense numa carreira que exija também algum processo eletivo entre (MARÉS, 1983, p. 50) / seus requisitos para escolha do diretor. Por isso, chamarei esse segundo Em todas as argumentações contrárias à escolha do diretor pelo tipo simplesmente de escolha por concurso, para discriminá-lo do processo de nomeação por autoridade estatal, o denominador comum terceiro, que chamarei de escolha por eleição, em que se incluem todas é a condenação do clientelismo político que subjaz ao processo. as variações que prevêem a manifestação da vontade das pessoas clientelismo, como prática de relação de dependência e de troca de envolvidas na vida da unidade escolar (educadores, funcionários em favores entre pessoas e grupos sociais, embora característica de geral, alunos, pais e outros membros da comunidade), seja mediante sociedades pré-modernas, não deixa de estar presente também nas voto direto, seja por representação, seja ainda pela escolha uninominal sociedades A esse respeito, o Brasil parece ser ou pela escolha de listas plurinominais. precisamente aquele tipo de sociedade em que "o modo capitalista de produção e a organização política moderna, apoiada num aparelho 1.1 O diretor nomeado e as marcas do clientelismo político político-administrativo centralizado, se compenetram, mas não conseguiram abalar completamente as relações sociais tradicionais e A nomeação pura e simples pode dar-se, ou com a exigência o sistema político preexistente." (MASTROPAOLO, 1986, p. 177) Essa prévia de qualificação específica e um mínimo de experiência, ou por espécie de "clientelismo moderno" presente na sociedade brasileira é razões político-clientelistas, ou por uma combinação dos dois critérios. bem captada por Martine Droulers, ao afirmar que, no Brasil, onde Bastante disseminada atualmente nos sistemas de ensino no Brasil, é ocorrem altas taxas de crescimento urbano, também a mais criticada. Dourado (1990, p. 103) considera que o sai-se de uma situação de clientelismo na qual a subordinação pessoal nascia produto final desse tipo de procedimento é "a transformação da escola da total dependência econômica, para uma situação de clientelismo político naquilo que numa linguagem do cotidiano político pode ser designado moderno onde o político torna-se um dos intermediários no acesso aos recursos como 'curral eleitoral' cristalizado pela política do favoritismo e do Estado. Essa função de intermediário é cada vez mais importante, é a do marginalização das oposições." Nesse caso, ao se tomar diretor "broker" dos anglo-saxões, literalmente o corretor, esse personagem do mundo como representante do Poder Executivo, fica imobilizada "a abertura urbano e da esfera política moderna, que desconta no tráfico de influência para de canais legítimos de participação, à medida em que o diretor ter acesso a bens do Estado, uma dessas figuras que bem poderia ser a do famoso despachante da sociedade brasileira: o intermediário obrigatório nas prescinde do respaldo da comunidade escolar, trabalhando, pois, relações complicadas que o cidadão enfrenta com um Estado excessivamente numa situação em si, instrumentalizadora de práticas autoritárias" burocrático. Essa função de intermediário passa, então, e cada vez mais, pelos (DOURADO, 1990, p. 104). Para Zabot (1984, p. 88), o procedimento canais da política. (DROULERS, 1989, p. administrativo que prevê a direção de escola pública como cargo de Certamente, o clientelismo na escolha dos diretores escolares confiança de quem detém o comando político "é um filho, obviamente não se manifesta de modo homogêneo nos diversos estados e bastardo, do coronelismo da República Velha." Também Marés, em municípios do país. Não obstante, a apreciação do fenômeno, mesmo artigo de 1983, descarta a livre indicação dos diretores pelos poderes em regiões localizadas, pode ser proveitosa para uma maior do Estado, afirmando: "Se os poderes do Estado indicam livremente compreensão do assunto. Nesse sentido, o Estado de Goiás e sua os diretores, sem consulta ou com consulta formal, permane ce capital, Goiânia, regiões para as quais se dispõe de estudos sobre instituída a tradicional forma baseada no tráfico de influência, que poderá até servir para o fortalecimento do Partido no Poder, mas desserve grandemente a Educação e a possibilidade de transformação 1 Ver também Canesin (1993, p. 64).</p><p>16 17 VITOR HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS. tema, podem servir de ilustração dos efeitos da prática clientelista no Calaça revela também a ausência de qualquer constrangimento processo de escolha de diretores. na maneira de operar do agente político em benefício de seus interesses: Como resultado de um longo período de lutas das entidades Para os cargos mais elevados na hierarquia da SME assédio dos políticos era via contato direto, ou por telefone em tom tipo comunicação, isto é, fulano vai representativas dos professores, a escolha de diretores por meio de ser seu chefe de gabinete, beltrano vai para a coordenação do setor X, etc. Já eleição foi instituída em Goiânia em 1983, e em Goiás em para os cargos nas escolas, especialmente, os que exigem menor ou nenhum Anteriormente, o critério vigente era a nomeação pura e simples pelos grau de escolaridade, a forma de reivindicação de cargos era via bilhete, ou poderes do estado. Em seu estudo sobre a relação entre a eleição de ofício apresentando um nome, mais de um ou mesmo uma lista. Existem no diretor e a democratização da escola, realizado na rede municipal de arquivo pessoal da Secretária quase quatrocentos pedidos assinados por ensino de Goiânia, Celina Ferreira Calaça afirma que, antes das eleições, vereadores. (CALAÇA, 1993, p. 65, n. 22) a escolha de diretores "se fundava na prática clientelista, evidentemente Outra interessante característica da indicação clientelística de sujeita a critérios casuísticos e subjetivos" (CALAÇA, 1993, p. 43). Revela, dirigentes escolares apontada por Calaça era a tendência a estender ainda, a mesma autora que, "para tanto, a capital e as cidades do interior indefinidamente o mandato do diretor, sem que isso implicasse (no caso do Estado) eram zoneadas de acordo com a representação qualquer tipo de avaliação. "Na verdade a SME não avaliava o trabalho C parlamentar e a ela destinadas" (CALAÇA, 1993, p. 43). Assim, a escolha do diretor e nem intencionava fazê-lo, pois o prestígio do diretor com do diretor cabia ao deputado, ao vereador, ao prefeito ou ao chefe do político que indicava era a medida de sua e a fi- A diretório partidário, que indicava "considerando parentesco, delidade partidária o parâmetro de seu (CALAÇA, n compadrio, ou influência política local do pretendente" (CALAÇA, 1993, 1993, p. 47) Assim, Dependendo do prestígio do mandatário político e do diretor, a tendência era p. 43). A disso era que o diretor empossado, na maioria das vezes, não era professor; não tinha vínculo mantê-lo no cargo por vários anos seguidos. Encontrei casos de diretores há empregatício com o Estado ou município, ou nenhuma ligação com a escola e 13 anos no cargo. No entanto, se, por razões de querelas políticas, havia com a comunidade. Além de não conhecer a problemática educacional, o que desavenças entre o diretor e político local ou entre prefeito e os vereadores, a demissão do diretor era feita por telefone, ou por um simples recado; da já é grave, não tinha compromisso com a escola nem com a comunidade a que V mesma forma, a sua substituição. Não raro, esta situação se repetia em iria servir, mas com quem o havia indicado. bairros de Goiânia. (CALAÇA, 1993, p. 44) diretor, nesse caso, se já não era, se transformava em cabo eleitoral do mandatário ou do partido, deixando a escola aberta às ingerências político- Em estudo sobre movimento de professores da rede pública partidárias, tornando-a extensão do diretório local. político tinha carta estadual de primeiro e segundo graus de Goiás, Maria Tereza Canesin branca para admitir, remover pessoal técnico administrativo e professores e (1993) dá a dimensão do clientelismo no estado: interferir na distribuição de disciplinas e carga horária dos professores. No enquadramento clientelista de apadrinhamento e privilégio em que a (CALAÇA, 1993, p. 43-44) Secretaria da Educação se inseria, a função de direção das escolas era A fala de uma professora entrevistada por Dourado, em seu concebida como um cargo de confiança de acordo com os critérios de q estudo anteriormente citado, confirma o fato de que "antes de 82 as filiação partidária. A escola enquanto um vasto curral eleitoral constituía-se escolas eram os currais eleitorais dos vereadores de Goiânia, cada em um objeto de disputa por parte dos parlamentares, prefeitos e outros chefes políticos locais que buscavam obter controle sobre a mesma através vereador em cada setor era responsável por determinadas escolas e da indicação da direção. Frente a essas relações de natureza marcadamente realmente controlava as escolas, indicava os diretores e de certa clientelista a organização dos professores definiu a eleição direta para diretor forma interferia no processo, inclusive pedagógico da escola..." como instrumento que deveria proporcionar uma maior autonomia às (DOURADO, 1990, p. 113) escolas. (CANESIN, 1993, p. 118-119)</p><p>19 8 I FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS VITOR HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES No mesmo estudo, fica evidente a força do clientelismo na forma da pessoa ou grupo político que o nomeia. Por esses motivos, a da pressão de prefeitos do estado para impedir a aprovação da nomeação sem concurso público ou processo eletivo para cargo de diretor de escola não se apresenta como uma alternativa defensável eleição de diretores na Assembléia Legislativa. Em 1985, após a aprovação, em primeira votação, de projeto de lei que dispunha sobre para a escolha do diretor escolar, sendo condenada por todos aqueles interessados na boa gestão da escola pública. as eleições diretas de diretor, 55 dos prefeitos convocados pela Associação Goiana de Municípios se reuniram na Assembléia Legislativa e ameaçaram retirar o apoio do deputado que votasse 1.2 Concurso público: virtudes e fraquezas a favor do projeto. Os prefeitos e presidentes de diretórios municipais afirmavam A escolha a partir de concurso público encontra defensores dos que não abdicariam do direito de promover, junto ao Secretário da Educação, a mais diferentes matizes políticos e ideológicos. A defesa dessa indicação para essa importante função do ensino (O POPULAR, Goiânia, 27/6/ 85). Após a primeira votação o projeto permaneceu parado por falta de quorum alternativa está particularmente presente nos sistemas como do de deputados do PMDB que se intimidavam diante das ameaças de suas bases Estado de São Paulo, em que há uma tradição de muitos anos no (CANESIN, 1993, p. 149) provimento do cargo de diretor por meio de concurso público de Quando é para lutar por seus interesses, os políticos clientelistas títulos e provas. A argumentação mais comum em favor desse tipo de conseguem fazer o inusitado. Em Volta Redonda, Estado do Rio de escolha tem sempre a ver com a defesa da moralidade pública na Janeiro, a maioria dos vereadores, com receio de perder seus pri- escolha dos funcionários do Estado e com a adoção de critérios vilégios de interferir na indicação de diretores, além de rejeitar Projeto técnicos para preenchimento dos cargos. Tal argumentação tem sua de Lei n° 70/93, que regulamentava as eleições na rede municipal, origem na contraposição à alternativa clientelista de nomeação por ainda aprovou outra lei, a de n° 98/93, que, em seu Artigo estabelece: critérios e, portanto, na convicção de que os "Fica proibido qualquer tipo de eleição para a escolha de diretores e cargos públicos não devem ser distribuídos por apadrinhamento Funções em escolas municipais." (apud político, tendo-se de garantir a democratização do acesso a eles, por OLIVEIRA, A. A. R., 1994, p. 151) meio de concursos, considerados a forma mais avançada, objetiva e Ao agirem dessa forma, esses vereadores, interessados no imparcial de fazê-lo. clientelismo político, estão, na verdade, procurando garantir a As principais virtudes apontadas para concurso são, pois, a possibilidade de serem favorecidos por ele. É precisamente aí que a coibição do clientelismo e a possibilidade de aferição reside o principal problema com relação à nomeação como critério do conhecimento técnico do candidato. A objetividade é importante de escolha do diretor. Ao propiciar a indicação sem outros na medida em que possibilita tratamento igualitário a todos os mecanismos que coíbam a imposição de vontades particularistas de candidatos e concorre, assim, para a eliminação da subjetividade. Por pessoas ou grupos, a nomeação pura e simples por autoridade estatal isso, como bem assinala Dourado, a defesa do concurso "tem sido encerra sempre um alto grau de subjetividade. Isso propicia um sem- tônica geral em setores da comunidade científica, por se imputar a esta número de injustiças e irregularidades, já que não existe um critério a objetividade na escolha de méritos intelectuais." (DOURADO, 1991, p. objetivo, controlável pela população, que, além de garantir o respeito 33)2 Da mesma forma, na medida em que critério de escolha está aos interesses do pessoal escolar e dos usuários, possa também evitar condicionado ao desempenho em provas e à comprovação de títulos favorecimento ilícito de pessoas, situação que fere o princípio de acadêmicos ou profissionais, favorecimento político-clientelista fica igualdade de oportunidades de acesso ao cargo por parte dos candidatos. Além disso, esse procedimento tende a fazer com que o 2 Ver também Dourado (1990, p. 104). compromisso do diretor acabe se dando apenas com os interesses</p><p>20 VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS - A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS. enormemente dificultado, o que passa a ser apontado pelos autores prover O preenchimento de cargos em que se fazem exigências de como uma das principais virtudes do concurso. Assim, não obstante competência técnica específica. Trata-se, na verdade, de ter presente aponte problemas na alternativa dos concursos públicos para diretores suas insuficiências e pensar em alternativas que possam supri-las. de escolas, Marés considera esta "uma excelente forma de contratação A principal insuficiência que se aponta no concurso público como de pessoas para serviço público, talvez a única verdadeiramente critério para a escolha de diretores é o fato de que ele não se presta à moral" (MARÉS, 1983, p. 49-50). aferição da liderança do candidato diante do pessoal escolar e dos Com respeito à capacidade de aferição do conhecimento usuários da escola pública. Embora considere o concurso uma forma lécnico dos candidatos, parece haver também poucas dúvidas adequada para a escolha de pessoas para serviço público, Marés não quanto ao acerto da opção pelo concurso como forma de escolher se furta a fazer restrições à aplicação dessa solução à escolha de os mais aptos às carreiras do serviço público. Por isso é que se con- dirigentes escolares: sidera que a defesa desse recurso "deve ser bandeira a ser em- No caso de diretores de escola [...] há um conjunto de qualidades que devem punhada e efetivada, enquanto prática cotidiana, hoje já consagrada ser apuradas e que, via de regra, escapam à capacidade de examinadores distantes. Se os critérios forem suficientemente abrangentes a ponto de p pela constituição pelo menos, para o setor público, para o ingresso comportar inclusive a liderança que tem o professor na comunidade, estaremos a na carreira docente." (DOURADO, 1991, p. O que se pode afirmar fazendo nada mais nada menos que uma eleição indireta, com o colégio eleitoral com segurança é que, escolhido pelo poder público. A tipicidade de concurso público serve, e bem, embora imperfeito, parece que o concurso apresenta-se como excelente meio para uma objetiva escolha de méritos intelectuais, porém é difícil avaliar para verificar a capacidade técnica das pessoas para assumirem determinados desempenho e liderança através dele. Portanto, concurso público também cargos. Antes, portanto, de se renunciar a essa alternativa, que tem demonstrado não é a forma mais apropriada para a escolha de dirigentes de estabelecimentos ser, se não a pelo menos a mais eficiente maneira de escolher os mais de ensino. (MARÉS, 1983, p. 50) capacitados tecnicamente, trata-se, muito mais, de se aperfeiçoarem os Exigir atributos de liderança do candidato a diretor é reconhecer procedimentos adotados na realização dos concursos, apurando as técnicas de medida do desempenho e incluindo entrevistas, estágios probatórios e outros o caráter eminentemente político dos problemas mecanismos que lhe incrementem a eficiência. (PARO, 1995b, p. 114) que afetam a escola Um conhecimento mais apurado da Diante disso, parece que, de fato, como assevera Dourado (1991, realidade dessa escola (PARO, 1995b) permite afirmar que a pre- cariedade de sua situação deve-se fundamentalmente à recusa do 33), ponto de partida para ingresso do educador no sistema de Estado em fornecer condições de funcionamento adequado a um ensino" deve ser a prestação de concurso de provas e títulos. Dizer ensino de boa qualidade. Não é a ausência de belas teorias sobre isso, porém, não significa privilegiar concurso como critério para administração de recursos que impede diretor de gerir uma escola levar o educador à função de diretor, nem supor a suficiência desse com qualidade, mas a falta mesma desses recursos para serem critério para tal mister. Quando se trata da escolha do diretor da escola geridos. A declaração patética de uma diretora, em pesquisa realizada pública, no Brasil, é preciso ter bem claro tipo de desempenho que se numa escola pública da periferia urbana da Grande São Paulo, espera do futuro ocupante do cargo e saber se o concurso, isola- quando perguntada a respeito da formação que deveria ter diretor damente, tem condições de aferir a presença da necessária aptidão para atender às funções que lhe são atribuídas pelo Estado e para nos candidatos. Não se trata, portanto, de questionar a realização de manter a escola pública tal qual ela se encontra hoje, parece concurso, já que este tem provado ser o recurso mais adequado para representar bem o pensamento dos diretores da rede pública, ao mesmo tempo que mostra o quão inútil se torna a capacidade técnica 3 Ver também Dourado (1990, p. 105). diante da situação presente.</p><p>23 22 I FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS. HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES É interessante observar como a precariedade da escola em Do jeito que ela está, você pega um secretário de escola [...] olha, nem you dizer com uma capacidade de redação, que nem precisa (só um ou outro termos de condições de funcionamento, bem como o desenho da caso). Então, cê pega um secretário de escola que tenha um pouquinho de função do diretor como agente de uma prática burocratizada no liderança, seja um pouco mais tem um pouquinho de traquejo, e bota sentido de "práxis degradada" empregado por Adolfo Sánchez ele aqui. [...] Um pouquinho de bom senso [...], ele vai, ele vai. Não precisa de Vázquez (1977, p. 260 et seq.) são características presentes na Pedagogia, ele não precisa de nada. Ele vai... [...] Ah! e esse um pra essa realidade escolar em todo território nacional. Calaça, discorrendo escola... uma dose de paciência [...]; mas uma dose de sobre a rotina do diretor de escola em Goiânia no período anterior à paciência sem limites. E compactuar com estado geral das coisas; não querer as coisas certas, deixar tocar, deixar rolar. Essa pessoa seria ideal pra adoção de eleições, afirma: do jeito que as coisas estão. Porque ela não teria conflitos, não causaria conflitos "Liberado", por um lado, do trabalho de pensar a escola, e premido, por e a coisa andaria [...]. (PARO, 1995b, p. 107) outro, pelas precárias condições de funcionamento da escola, diretor se tornava um eterno ausente: ou estava pleiteando algum material básico ou Jurema Barbieri Couto (1988, p. 108), em pesquisa sobre a gestão alguma prestação de serviço para colocar a escola em condições, mesmo escolar no Distrito Federal, ao falar sobre as funções de determinado que mínimas, de funcionamento, ou estava a serviço das exigências do diretor de escola, diz que estas "são as mais diversas e muitas vezes papelório, e da burocracia, ou, não raras vezes, à disposição do padrinho [ele] é obrigado a desenvolver tarefas que não lhe dizem respeito, dada político. (CALAÇA, 1993, p. 46) a precariedade de recursos." Afirma ainda a mesma autora que esse Exceção feita ao apadrinhamento político mencionado no final diretor, embora considere sua função pedagógica como a mais desta citação, nota-se inteira semelhança do perfil do diretor importante, esta se apresenta como a "mais difícil de conduzir, pois os (nomeado) aí descrito com do diretor (concursado) no Estado de aspectos administrativos absorvem grande parte do seu tempo." O São Paulo. que em comum é a falta de cuidado com os mesmo diretor afirma, então: "Você fica muito envolvido com lâmpadas, aspectos mais propriamente políticos da situação. Num e noutro com torneiras, com o prédio, com administração do pessoal, com mais caso, o diretor vê-se envolvido com as carências da escola e reage a isso e mais aquilo, e, muitas vezes, a parte pedagógica fica esquecida, o elas procurando supri-las de forma desvinculada da ação dos que é fundamental, é a principal tarefa." (COUTO, 1988, p. 108) usuários, que são os mais diretamente interessados na qualidade do ensino oferecido. O Estado responde a isto, por um lado, negando o Parece, portanto, paradoxal que o Estado, e até mesmo pessoas bem-intencionadas dentre aquelas que militam no ensino público, provimento dos recursos e das condições favoráveis; por outro, continuem a ver no concurso a grande solução para a escolha do reduzindo o problema a uma questão meramente técnica, jogando a diretor. A se manter diretor com as mesmas atribuições que ele tem culpa, ou na inépcia administrativa do diretor, ou na incompetência hoje, a aferição de sua capacidade para desempenho dessas funções do corpo docente. dispensaria próprio concurso, da maneira como ele é feito hoje, que fica configurado, assim, é uma questão de natureza emi- quando se exige todo um conhecimento de teoria administrativa, bem nentemente política, ou seja, quem detém poder de decidir, o Estado, como uma formação específica na área de administração escolar. Por nega-se a atender aos interesses dos usuários, que são os que financiam outro lado, se se pretende um diretor com funções mais propriamente a escola pública por meio de seus impostos. Nos sistemas em que o diretor é nomeado, seu compromisso político é com quem está no políticas, não é a aferição do conhecimento técnico em administração poder, porque foi quem nomeou; nos sistemas em que ele é a que se precisa proceder, mas à escolha, dentre os educadores concursado, seu compromisso é também com quem está no poder, escolares, daquele com maior comprometimento político e capacidade pois o concurso isolado não estabelece nenhum vínculo do diretor de liderança diante do pessoal escolar, dos alunos e dos pais. E a isto o com os usuários, mas sim com o Estado, que é quem legitima pela lei. concurso não se presta.</p><p>25 24 FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES Uma questão correlata a esta é a necessidade de não se tomar a Mas há uma diferença importante: quando há a nomeação pura e (relativa) igualdade de oportunidades oferecida aos candidatos no simples, o aspecto político fica à mostra, provocando, especialmente concurso público com a democracia que se deve exigir na gestão da em períodos de democratização da sociedade, descontentamento e escola. Luci Silva Samartini, por exemplo, considera que os concursos mobilização dos prejudicados para superar a situação; mas, nos casos "são uma forma democrática de provimento de cargos, incluindo o em que há a ocorrência isolada do concurso, há o agravante de que de Diretor de Escola, já que concurso é aberto a quem quer que aspecto político fica escamoteado, com maior tendência de preencha os requisitos de títulos e provas. Dá oportunidades iguais a acomodação e de crença na justificativa meramente técnica para os todos os capacitados, sem favorecimentos pessoais que podem problemas da escola. ocorrer nas indicações por apadrinhamento e até nas eleições." Não deve ser por acaso que a luta por eleições começa e se desen- (SAMARTINI, 1994, p. 157) volve com muita antecedência nos estados onde o cargo de diretor era Na verdade, o sistema de escolha do diretor por concurso público provido por nomeação, com a questão política permanecendo explícita. é democrático apenas do lado do candidato ao cargo. Este, quando Nesses sistemas, as entidades representativas dos professores se aprovado e convocado pela Secretaria de Educação, escolhe, dentre mobilizaram, exigindo não apenas melhores salários e condições de as várias unidades escolares disponíveis, aquela que mais lhe interessa. trabalho mais adequadas, mas também o direito de escolher diretor. Nesse processo, "o diretor escolhe a escola, mas nem a escola nem a Esses professores acreditavam, no fundo, que seus diretores eram comunidade podem escolher diretor" (PARO, 1992, p. 44). autoritários, delatores, descomprometidos com professores e alunos Em pode-se afirmar que, não obstante as qualidades porque eram nomeados. Não sabiam eles que, no Estado de São Paulo, intrínsecas a um sistema de credenciamento dos profissionais da os diretores eram (e ainda são) levados a agir também autoritariamente educação pela via de concursos públicos que afiram sua competência e a ser meros burocratas, por mais boa intenção que tenham, mesmo técnica para o desempenho de funções determinadas, é preciso re- não sendo apenas nomeados. É que o concurso isoladamente, sem conhecer os casos em que a natureza política do cargo exige medidas outros elementos que induzam o comprometimento do diretor com mais de acordo com suas funções sociais e que escapam a um os objetivos dos usuários, embora não se prenda necessariamente a controle meramente técnico. Nesse sentido, o concurso que se presta esta ou àquela facção política, produz também a situação de (parcialmente) à escolha do bom diretor é aquele que é realizado dependência do diretor a quem lhe deu legitimidade, ou seja, ao poder quando da escolha do bom professor. Nesta ocasião, há que se d do Estado; e, mais grave ainda, não importa qual a facção política ou o verificar o conhecimento do candidato sobre: "a) seu conteúdo pro- partido que esteja no poder. gramático específico (Geografia, Matemática, Biologia, Língua Um fator que agrava a circunstância de concurso não promover Portuguesa etc.); b) os fundamentos da educação (históricos, e o compromisso do diretor com a escola e seus usuários é o fato de, em filosóficos, sociológicos, econômicos, psicológicos); c) a Didática e geral, o concurso estar vinculado à estabilidade do cargo para o qual as metodologias necessárias para bem ensinar determinado ele é feito. Para quem examina em profundidade o funcionamento real conteúdo programático; e d) as questões relacionadas à situação da escola pública onde o concurso para cargo de diretor é a regra, da escola pública." 1995a, p. 5) como no sistema público estadual paulista, não é difícil perceber a O educador que tenha sido aprovado em tais requisitos em intensidade com que essa estabilidade quase vitalícia do cargo concorre concurso público de títulos e provas e que possua uma experiência para determinar o descompromisso do diretor com objetivos mínima no magistério estará preparado para submeter-se a um educacionais articulados com os interesses dos usuários e induz à processo de escolha que inclua a consulta a professores, demais negligência para com formas democráticas de gestão.</p><p>26 27 HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS.. funcionários, alunos e pais, capaz de aferir seu compromisso político papéis específicos, por exemplo, de pai e de filho, de cônjuge, de empresário e sua capacidade de liderança para ocupar o posto de diretor de e de trabalhador, de professor e de estudante e até mesmo de pai de estudante, de médico e de doente, de oficial e de soldado, de administrador e de escola pública. administrado, de produtor e de consumidor, de gestor de serviços públicos e de usuário, etc. (BOBBIO, 1989, p. 55) 1.3 Eleição: instrumento de democracia Nessa linha de raciocínio, a democratização da escola pública A defesa da eleição como critério para a escolha de diretores deve implicar não apenas o acesso da população a seus serviços mas escolares está fundamentada em seu caráter democrático. Zabot também a participação desta na tomada de decisões que dizem respeito considera esta como "a mais democrática e, sem sombra de dúvidas, a a seus interesses, o que inclui o envolvimento no processo de escolha melhor, mais oportuna e mais viável opção, se compararmos com as de seus dirigentes. No dizer do mesmo Bobbio, citadas anteriormente." (ZABOT, 1984, p. 89) se hoje se pode falar de processo de democratização, ele consiste não tanto, À medida que a sociedade se democratiza, e como condição dessa como erroneamente muitas vezes se diz, na passagem da democracia democratização, é preciso que se democratizem as instituições que representativa para a democracia direta quanto na passagem da democracia política em sentido estrito para a democracia social, ou melhor, consiste na compõem a própria sociedade. Daí a relevância de se considerar a extensão do poder ascendente, que até agora havia ocupado quase eleição direta, por parte do pessoal escolar, alunos e comunidade, como exclusivamente o campo da grande sociedade política (e das pequenas, um dos critérios para a escolha do diretor de escola pública. Tal re- em geral politicamente irrelevantes associações voluntárias), para levância fundamenta-se na necessidade do controle democrático do o campo da sociedade civil nas suas várias articulações, da escola à fábrica: Estado por parte da população, no sentido do provimento de serviços falo de escola e de fábrica para indicar emblematicamente os lugares em que coletivos em quantidade e qualidade compatíveis com as obrigações se desenvolve a maior parte da vida da maior parte dos membros de uma sociedade moderna [...]. (BOBBIO, 1989, p. 54-55) do Poder Público e de acordo com os interesses da sociedade. Para isso é preciso reconhecer que a fragilidade da democracia fun- Essa democratização social implica certa distribuição do poder damentada na participação política da população apenas no momento centralizado do Estado para as instâncias da base da pirâmide estatal, p de eleger seus governantes e representantes legislativos em âmbito onde se dá o contato direto com os cidadãos. Na consideração lúcida municipal, estadual e federal está em que, assim, a população fica pri- de um dos entrevistados de Marta Luz Sisson de Castro et al., em estudo vada de processos que, durante os períodos de mandatos parlamentares sobre a experiência das eleições de diretores no Estado do Rio Grande d ou governamentais, permitiriam controlar as ações dos eleitos para do Sul (1991, p. 100), governador tem de se conscientizar de que tais mandatos de modo a atender aos interesses das camadas quando a escola é democrática seus poderes têm de diminuir." populares. (PARO, 1992, p. 40) Por isso, o caminho para a real "demo- Obviamente, isto é muito difícil de acontecer, porque os detentores do e cratização da sociedade", de que fala Norberto Bobbio, precisa passar poder do Estado costumam resistir a toda forma de democratização pela ocupação "de novos espaços, isto é, de espaços até agora da sociedade. A esse respeito, como veremos no capítulo 4, a resistência di dominados por organização de tipo hierárquico ou burocrático." de governos conservadores, tentando acabar com o processo eletivo q em estados como Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul, verificada (BOBBIO, 1989, p. 55) no final da década de 1980 e início da de 1990, não deixa de ser uma Nas sociedades em que se tem intensificado o processo de prova do potencial democrático da eleição de diretores. No dizer de democratização da vida social, o que se verifica é que tal processo uma conselheira do Conselho Estadual de Educação do Paraná, "é tão está se estendendo da esfera das relações políticas, das relações nas quais o indivíduo é considerado em seu papel de cidadão, para a esfera das relações importante a eleição do diretor que foi uma das primeiras coisas que o sociais, onde o indivíduo é considerado na variedade de seus status e de seus governo Requião, surpreendentemente assessorado por gente que a</p><p>28 29 VITOR HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS gente até pensava que era progressista [...], que por obrigação de considerada como a única garantia de democratização da escola, então partido deveria ter uma posição mais avançada, primeira coisa que corre-se risco de restringir-se à simples substituição de pessoas no eles fizeram (o Requião já apostava nisso enquanto candidato) foi de poder, e assim, perder de vista o legítimo anseio da democratização da fato cortar [a eleição]." escola enquanto espaço educativo para a participação e a cooperação A eleição de diretores não pode, todavia, ser tomada como uma necessárias ao exercício da cidadania." 1990, p. 86) panacéia que resolverá todos os problemas da escola e muito menos, Entretanto, nada há no processo eletivo exigindo que ele seja em particular, os de natureza política. Essa, aliás, tem sido a alegação considerado como "a única garantia de democratização da escola." mais dos que resistem à eleição como alternativa para a risco maior, parece-me, é, por excesso de cautela, deixar de considerar escolha do diretor, ou seja, descarta-se a eleição porque "não é possível as importantes contribuições que processo eletivo pode trazer para a atribuir a existência da democracia a apenas uma variável, seja ela o democracia. Às vezes, a impressão que se tem é que se pretende fazer concurso, os cursos, ou, menos ainda, a eleição" (SAMARTINI, 1994, política sem passar pelo debate de idéias e pela legitimação democrática p. 162). Maria de Lourdes Melo Prais, por exemplo, afirma: "A proposta que passa necessariamente pela manifestação da vontade dos de eleição do diretor tem sido tomada como sinônimo da efetivação envolvidos. Veja-se, a propósito, a da fala de Prais: da democratização escolar, entretanto, a proposta por si só Nestes termos, a tarefa do diretor-educador assume uma manifesta dimensão certamente não garante a democratização da escola. Pois, de responsabilidade política. Responsabilidade que exige naturalmente tanto independentemente da forma de provimento do cargo, deve-se experiência educativa quanto competência técnica fundada no âmbito da ciência da administração escolar. considerar prioritariamente a maneira como será exercida esta De modo que o exato equilíbrio entre competência técnico-acadêmica e função." (PRAIS, 1990, p. 86)4 sensibilidade política se coloca como requisito indispensável para o diretor- Acontece que é muito difícil se pensar "a maneira de como será educador, antes de ser resolvida a questão subseqüente do provimento do exercida a função" de forma desvinculada de seus condicionantes. E cargo. (PRAIS, 1990, p. 86, grifos meus) não há dúvida de que um deles é a maneira de provimento da função Mas, como se pode falar em "responsabilidade política" ou se de diretor. A respeito desse pensamento de Prais, afirma Dourado que, cogitar em "sensibilidade política" antes de refletir sobre a legi- "no entanto, é fundamental ampliarmos os horizontes da demo- timidade da escolha do diretor? A mesma autora continua: "Na- cratização da gestão, enfatizando conjuntamente a forma de escolha e turalmente que qualquer forma de provimento de cargo deverá o exercício da função, de modo a não incorrermos nos riscos de uma obedecer a critérios inequívocos de civilidade e legitimidade." Mas pretensa neutralidade frente às formas de escolha normalmente como falar em legitimidade se se descarta o processo eletivo, que autocráticas assim, a forma de provimento no cargo pode não definir propicia ouvir os liderados sobre a legitimidade dos que os lideram? o tipo de gestão, mas, certamente, interfere no curso desta." (DOURADO, A seguir, afirma Prais: "Cabe, pois, reiterar a prioridade da prática 1990, p. 109) colegiada de administração escolar sobre a forma de provimento É interessante observar a de argumentos que tentam do cargo de diretor, no processo de democratização da escola desmerecer a eleição sob a alegação de que ela, sozinha, não garante a pública." (PRAIS, 1990, p. 87, grifo meu) democracia na escola. Na mesma obra citada, Prais afirma: "Deve-se A questão não é que vem antes ou depois. Se estamos preo- pois, manter em evidência que, se a proposta de eleição de diretor for cupados com a democracia na escola, temos de lutar tanto por gestão colegiada quanto por processos eletivos de escolha. Mas quando, a pretexto de defender uma dessas medidas, se descarta a outra, corre- 4 Ver também Dourado (1990, p. 109).</p><p>30 31 VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES 1 FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS se o risco de pôr-se ao lado daqueles que são contrários a qualquer distribuição do poder, a eleição em si não garante essa nova dinâmica. tipo de democratização, como fazem, por exemplo, os que defendem É possível reeditar as relações elitistas e autoritárias já incorporadas na interesses corporativos contrários à diminuição da autoridade do diretor história do país e em nossa história profissional." (MAIA, 1984, p. 52) na escola. A esse respeito, é sintomática a posição de um membro da "Chegamos à conclusão de que a delegação do poder, a demo- diretoria de uma entidade de diretores no Estado de São Paulo. Segundo cratização da escola não se garante pela eleição dos seus dirigentes e ele, a escola pública não tem autonomia, nem financeira nem optamos então por realizar o concurso." (MAIA, 1984, p. 53) administrativa e, Em suma, o argumento que afirma ser a eleição de diretores por isso, não há a possibilidade da autogestão na unidade escolar. Nós inadequada porque não resolve todos os problemas da democracia teríamos seis mil escolas autônomas no Estado de São Paulo. E aí, eu na escola assume que, porque não resolve tudo, deixa também de ter realmente acho, sou totalmente contra a eleição de diretor ou qualquer qualquer importância no encaminhamento de soluções. Corolário forma de eleição. Por quê? Porque, para mim, no meu modo de pensar, a dessa visão é o argumento de que a escola só será democrática eleição seja para diretor, seja para professor, seja para qualquer cargo de direção ou orientação, ela é plenamente justificável na autogestão, onde quando a sociedade for democrática. mesmo dirigente de entidade você define os rumos, onde você define os meios e onde você delibera a de diretores de escolas públicas no Estado de São Paulo afirma: "Por forma de usar os recursos. Isto sim, você tem independência, você tem que não se tem uma escola democrática, hoje, aqui em São Paulo e autonomia. Em caso contrário, ou como o sistema que nós temos, sendo no Brasil? [...] Porque nós temos uma sociedade que não é de- eleito, sendo por concurso, você vai ter uma série de atribuições que têm mocrática. Ou seja, se você tem uma sociedade em que você tem que ser cumpridas, quer seja eleito quer não seja. uma democracia de direito, mas de fato ela não existe, é impossível Este parece um argumento forjado pelo espírito de corporação imaginar que você vai ter uma escola democrática. [...] Não dá para para, ao mesmo tempo que se apresenta como democrata, imaginar uma escola democrática numa sociedade que não é autogestionário, se ponha contra a eleição de diretores. Acena-se com democrática." uma autogestão, desde já considerada impossível, como condição para A fragilidade desse argumento está no fato de que ele deixa de que haja eleição. Ou seja: ou tudo ou nada. Não se aventa sequer a levar em conta a própria natureza da educação que, supõe-se, é função hipótese da necessidade de construção da democracia almejada por da escola promover. Embora a educação escolar não possa, por si, meio de mecanismos democráticos, dentre eles, a eleição. mesmo modificar a sociedade, não significa que ela não tenha potencialidades d comportamento não se verifica, entretanto, com relação ao conselho para, pelo menos, contribuir para isso. Na medida em que consiste na de escola que, do modo como se estrutura na rede pública estadual apropriação da cultura humana, a educação constitui elemento q paulista, já demonstrou não representar nenhum perigo para a imprescindível para que os sujeitos humanos, tomando ciência da e autoridade do diretor: "Agora, que eu acho que onde se pode atacar realidade social, possam agir na direção de sua transformação. E a bastante a questão da gestão é no trabalho com o Conselho de Escola. escola, ao lidar com esse tipo de atividade, tem necessariamente de ter Aí, realmente, eu acho que está a saída para esta situação que nós um mínimo de autonomia com relação às determinações sociais mais vivemos. Este trabalho pode fazer avançar bastante." amplas, o que possibilita que ela implemente e exercite formas Observe-se que, neste caso, não se considera que o conselho de democráticas de convivência e de gestão. escola também só devesse existir quando fosse possível a autogestão... Outra alegação que ignora a natureza das relações que se dão no argumento de Eny Marisa Maia também é no sentido de negar interior da escola pública, bem como tipo de papéis e funções importância à eleição porque ela não garante a democracia na escola: desempenhados por seus funcionários e educadores, é a que afirma "Se a questão da democratização das relações na escola passa pela não ter sentido falar em eleger diretor sem falar em eleger também os</p><p>32 33 VITOR HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS professores ou os demais profissionais da escola. "Ninguém pensa, p. Moacyr de Góes (1992, p. 92), embora favorável à eleição de diretores, ex., em eleição para professor", afirma Samartini (1994, p. 162). Já reconhece que "a eleição vai revelar as relações de poder na escola" e Romualdo Portela de Oliveira, diante da indagação: "Se é para eleger o que essa revelação "pode ser um choque." diretor, por que não eleger também o professor?", pondera: choque de opiniões e a explicitação de posições conflitantes Subjacente a esta pergunta está o desconhecimento (proposital?) da diferença são sempre muito temidos em nossa sociedade. Roberto DaMatta de natureza que parece existir entre as duas funções, o que justifica que se faça concurso para professor e eleição para diretor. Retomando a distinção entre considera que "somos avessos à crise" e que "sabemos que conflito cargo e função, entendo que professor deva ser um cargo [...] e diretor uma aberto e marcado pela representatividade de opiniões é, sem dúvida função. Nesta medida, o segundo é de provimento temporário. No limite, esta alguma, um traço revelador de um igualitarismo individualista que, entre confusão, se aceita, justificaria a não-realização de concursos para provimento nós, quase sempre se choca de modo violento com o esqueleto de cargos no serviço público em geral. (OLIVEIRA, R. P., 1993, p. 122) hierarquizante de nossa sociedade." (DAMATTA, 1990, p. 149) A confusão referida por Romualdo Portela de Oliveira reside no Stephen J. Ball, citando H. Svi Shapiro a respeito dos conflitos no tratamento indistinto que se dá a profissionais com atribuições e res- interior da escola, afirma que "em nenhuma outra instituição, as idéias ponsabilidades, em certo sentido, bastante diversas. O professor de hierarquia e igualdade, de democracia e coerção, se vêem obrigadas embora a política perpasse toda sua prática docente (e escolar de um a coexistir na mesma estreita proximidade" (BALL, 1989, p. 32). modo geral) não precisará exercer a liderança política na proporção Mas, onde os contrários à eleição vêem motivos para preocupação, e natureza que ela é exigida do profissional encarregado de coordenar os defensores do processo eletivo encontram precisamente uma das o esforço humano coletivo na unidade escolar. No caso do diretor, a maiores razões para sua implementação. Perguntada sobre o que questão da liderança (que tem a ver com legitimidade, aceitação por considerava O mais forte argumento a favor da eleição de diretores, a parte dos liderados) perpassa de forma marcante suas próprias conselheira do conselho Estadual do Paraná anteriormente citada funções técnicas. De um professor de geografia, por exemplo, exige- afirma: "Eu acho que é, de fato, evidenciar a organização da sociedade, se, acima de tudo, que conheça geografia e domine a metodologia dos grupos políticos [...] permitir que a questão da necessária para Isto pode ser aferido em concurso de títulos democrática se ponha... da dos pais [...] O corporativismo e provas. Ao diretor, para exercer suas funções, não bastam as ha- dos professores aparece de fato [...] é mais verdadeiro, a escola se bilidades de um bom professor. Além delas, é preciso que ele apresente torna mais expressão das condições reais de funcionamento da legitimidade diante do pessoal escolar e dos usuários da escola. E sociedade, da contradição, da luta de classes, tudo, que atravessa de legitimidade não se mede por concursos, mas pela livre manifestação fato a sociedade." da vontade da maioria. O ex-assessor da Secretaria da Educação do Paraná, ante- Um dos receios que fundamentam a opinião contrária de muitas riormente citado, ao relatar a experiência de eleições diretas no Estado, pessoas a respeito da eleição de diretores é o de que esta acaba diz que, "então, os conflitos eles vieram à tona. Em função de um causando conflitos. Ouvido em entrevista, um dos idealizadores da grupo ou de outro, houve uma riqueza de discussão muito grande no eleição direta para diretores de escolas no Paraná e assessor da seio da escola, e os grupos, realmente, eles vieram à luz, com força [...] Secretaria de Educação do Estado no Governo José Richa (1983-1987) Em algumas escolas realmente a coisa ficou bastante polêmica, e diz que os que eram contrários à eleição alegavam que os estudantes demonstrando que o jogo democrático é este mesmo. E a gente contra- iriam mandar na escola. O outro argumento "aparentemente forte era argumentava: 'Olha esses conflitos existem, eles são camuflados, às que as eleições tinham trazido isso já depois da primeira eleição vezes a própria direção da escola os Em conclusão, ele afirma: tinham trazido a paz da escola tinha acabado [...]." "Eu acho que a eleição de diretores cria um clima favorável à mudança</p><p>34 35 VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS na escola. Quer dizer, ela chacoalha, ela mexe com o torpor da escola. havia manifestações de pessoas que receavam que os candidatos Porque, de repente, parece que a escola acordou: tem uma coisa viessem com promessas demagógicas e a alegação de que aluno iria importante a votar no professor "bonzinho"; ele mesmo concorda que "houve Romualdo Portela de Oliveira, diante do argumento de que "a realmente fatos concretos: boa parte dos escolhidos eram professores eleição de diretor de escola pode criar um processo de tensiona- de Educação Física, que tinham um contato muito vivo com seus mento no interior da escola que tornaria impossível o seu funcio- alunos." Mas ele argumentava: "como em toda democracia, e es- pecialmente como a nossa, os oportunistas, os demagogos chegam à namento", afirma: Isto é verdade. A eleição não é uma receita para se "evitarem problemas", mas luz, mas aí é que está o exercício, o interessante; o jogo democrático é sim uma alternativa para que eles aflorem e sejam enfrentados abertamente, exatamente [isso]." sem permanecerem subjacentes. O desafio que a eleição significa, como, Para pôr-se contra a eleição de diretores, dirigente de uma aliás, em todo e qualquer processo de disputa democrática, é a construção de associação de diretores escolares do Estado de São Paulo um ethos de convivência que permita que os objetivos maiores da instituição se sobreponham às disputas internas. Ressalte-se que isto pode acontecer com ou anteriormente citado afirma: "Eu parto do princípio que o profissional sem eleição. (OLIVEIRA, P., 1993, p. 122) consciente, democrático nas suas ações, qualquer que seja a forma de Os que procuram na eleição ou em qualquer outro recurso provimento do cargo, ele será, ao passo que ruim será ruim, democrático um modo de evitar conflitos ou impedir que os conflitos autoritário será autoritário de qualquer forma." venham à tona certamente podem frustrar-se completamente, pois O principal problema com esse tipo de argumentação é ignorar não é a isso que a democracia se presta. A esse respeito, vêm a propósito que o que se busca não é uma fórmula mágica de escolher bons as palavras de Francisco de Oliveira sobre a função da democracia diretores, mas sim modo de provimento que garanta maiores probabilidades de se escolher melhor. Outro aspecto é que como método: O método democrático recusa Ao contrário, o método democrático apresenta Romualdo Portela de Oliveira. Diante da constatação de constrói regras através do conflito, do reconhecimento das alteridades, da que, tanto quanto com concurso, não se pode garantir que, com a relevância dos sujeitos coletivos, que abrem o espaço para a relevância do eleição, não seja escolhido precisamente um mau diretor, esse autor indivíduo. As regras não são eternas, imutáveis, mas tampouco são um "raio lembra que "a diferença é que, com a eleição, após cumprimento num dia de céu azul". Têm historicidade e temporalidade. Não asseguram nada essencialmente; asseguram um processo, que se converte, pois, em do mandato, é possível se repensar a escolha, enquanto com o essência. Não asseguram justiça, mas a administração, a possibilidade de concurso só se altera a situação por aposentadoria ou por remoção." justiça; não asseguram a igualdade, mas a possibilidade, processo, da (OLIVEIRA, R. P., 1993, p. 122) igualdade. O método democrático é, por assim dizer, exigência e resultado, Em trabalho anterior (PARO, 1995b), ao analisar as opiniões do suposto e pressuposto de um longo processo de complexificação, pessoal escolar, pais e alunos de uma escola pública do sistema estadual diversificação, das estruturas sociais, das classes, dos interesses. (OLIVEIRA, de São Paulo, assim me referi ao risco de, com a eleição, se escolherem F., 1993, p. 78) "as pessoas mais reacionárias, que tivessem condições de manipular a A incipiente prática política existente nas escolas faz com que comunidade": muitas pessoas se coloquem contra a eleição de diretores com receio [...] este é um risco presente em todo processo democrático e a respeito de que de que, assim, sejam escolhidas precisamente as pessoas mais pouca coisa podemos fazer a não ser acreditar que a prática da democracia é conservadoras e demagógicas, que não tenham em caminho que se faz caminhando e que embate das idéias e a explicitação manipular os eleitores. O ex-assessor da Secretaria da Educação do das contradições são mais propícios à superação dos conflitos do que fazer Estado do Paraná, anteriormente citado, diz que antes das eleições de conta que eles não existem. Ademais, a prática do concurso também não</p><p>36 37 HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS risco de escolher "os mais já que não coloca (nem pode em votação sua política educacional (cujo fórum de discussão é o poder colocar) como exigência o compromisso político. Além disso, sendo o único legislativo), mas tão simplesmente a sua implementação através de quadros critério de escolha, o concurso oferece condições propícias para o exercício intermediários livremente escolhidos em [...] Aliás, se os quadros do autoritarismo do diretor, já que, ao legitimar uma escolha "impessoal", intermediários que defendem a política educacional do governo perdem estabelece um vínculo (com permanência garantida pela estabilidade do cargo) sistematicamente eleições dentro da escola, é mister rever essa política, entre o diretor e o Estado, o que exclui compromisso direto e explícito, porque possivelmente ela contém erros ou exageros de difícil ou viciosa possível por meio de processo eletivo, com aqueles que elegeram para um implementação. (MARÉS, 1983, p. 50) mandato e que estarão a controlar seu desempenho, podendo não elegê-lo O autor conclui, então, pela eleição como a forma mais adequada para próximo. (PARO, 1995b, p. 117) de escolha do diretor: "A eleição para diretor de escola é a mais rica das Subjacente à preocupação de que a eleição possa levar à escolha formas que se apresentam para suprir a necessidade administrativa da de "maus" candidatos parece estar sempre a concepção de que a co- existência de um comando dentro da escola, e a que mais favorece a munidade escolar (e especialmente pais e alunos) não está "preparada" discussão da democracia na Escola, porque toda eleição é forma de ou não sabe votar. Também já escrevi que esse raciocínio "encerra debate." (MARÉS, 1983, p. 50) uma perversidade muito grande porque, como a comunidade só A pretensão de que a escola permaneça alheia à política, deixando aprende a votar votando, nunca aprenderá (porque não vota) e, assim, inteiramente nas mãos do governo eleito a orientação da educação, é nunca deverá votar (porque não (PARO, 1995b, p. 112) uma postura que procura manter a sociedade apenas no nível da Outra objeção que se faz à eleição como critério de escolha de democracia formal, restringindo a participação política da população diretores é a de que a política compete ao governo eleito. Segundo às eleições periódicas para mandatos executivos e parlamentares, e Samartini, (1994, p. 157) "a escola é uma repartição pública, uma secção abrindo mão do controle democrático do Estado, característica da de Secretaria de Estado. Não se constitui um governo, um parlamento, democracia social a que me referi anteriormente. composto de cargos eletivos. Não é um poder público, uma 'pequena soberana e autônoma." Para Marés, 2 ELEIÇÃO NO CONTEXTO DA DEMOCRATIZAÇÃO [...] deve-se pressupor que a política democrática compete ao Estado. O povo, quando escolhe seus governantes, escolhe o projeto político que deseja ver DA GESTÃO ESCOLAR implementado. As Secretarias de Educação não podem deixar de cumprir a diretriz política na democratização do ensino. [...] Os diretores de 2.1 Democratização da sociedade estabelecimentos de ensino são quadros intermediários responsáveis pela administração de uma unidade escolar, responsáveis pela implementação Ao enfatizar a necessidade de as formas democráticas ocuparem prática de uma política, mas não necessariamente idealizadores dessa política. espaços onde elas ainda não se fazem presentes na sociedade, Bobbio A diretriz política, sempre é bom reafirmar, tem que ser dada pelo Governo que refere-se a uma "verdadeira reviravolta no desenvolvimento das foi eleito para pô-la em prática. (MARÉS, 1983, p. 49) instituições democráticas" que ele resume como "da Mas, apesar dessas ressalvas quanto à responsabilidade e democratização do estado à democratização da sociedade." (BOBBIO, competência do governo eleito para pôr em ação seu programa, o 1989, p. 55) Essa democratização da sociedade significa que a frágil autor, neste texto, é defensor da eleição de diretores como a melhor democracia política, fundamentada na escolha periódica de opção para a escolha de administradores escolares, fazendo apenas a representantes, por meio de eleições, para os cargos executivos e parlamentares deve ser ampliada e aprofundada na disseminação de seguinte ressalva: É necessário, porém, que Estado, ao estabelecer o processo eleitoral para formas de participação dos cidadãos no maior número possível de preencher os cargos de direção de escolas, deixe claro que não está pondo instâncias do corpo social.</p><p>38 39 VITOR HENRIQUE ELEIÇÃO DE DIRETORES 1 FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS Hoje, se se quer apontar um índice do desenvolvimento democrático este não apenas delegando as tomadas de decisão a parlamentares e executivos pode mais ser o número de pessoas que têm direito de votar, mas o número de instâncias (diversas daquelas políticas) nas quais se exerce direito de distantes que, em grande medida, escapam ao controle daqueles em voto; sintética mas eficazmente: para dar um juízo sobre estado da nome dos quais o governo deve exercer-se. Essa participação dos democratização num dado país o critério não deve mais ser o de "quem" vota, indivíduos na vida dos organismos civis da sociedade apresenta pelo mas o do "onde" se vota (e fique claro que aqui entendo o "votar" como o ato menos dois aspectos de fundamental importância para o desen- típico e mais comum do participar, mas não pretendo de forma alguma limitar volvimento da democracia. Por um lado, na medida em que se envolve a participação ao voto). (BOBBIO, 1989, p. 56) com outros sujeitos (individuais ou coletivos), indivíduo exercita sua Não se trata, de maneira nenhuma, de minimizar a importância de que ser cidadão, e ser indivíduo, é algo que se aprende, e nossa democracia representativa, mas apenas de levar a sério as é algo demarcado por expectativas de comportamentos singulares." palavras de Thomas Paine em Common sense, para quem (DAMATTA, 1991, p. 72) Por outro lado, ao intervir com sua opinião e A sociedade é produzida por nossas carências e o governo por nossa explicitação de seus interesses, procurando influir nas decisões que se perversidade; a primeira promove a nossa felicidade positivamente mantendo tomam nos órgãos e instâncias em que se realizam as atividades-fim do juntos os nossos afetos, o segundo negativamente mantendo sob freio os aparelho estatal (escolas, atendimento de saúde, transportes etc.), os nossos vícios. Uma encoraja as relações, o outro cria as distinções. A primeira cidadãos contribuem para realizar o controle democrático do Estado, protege, segundo pune. A sociedade é sob qualquer condição uma bênção; concorrendo o governo, inclusive na sua melhor forma, nada mais é do que um mal para que este atue de acordo com os interesses da população que o mantém. necessário, e na sua pior forma é insuportável. (citado em BOBBIO, 1990, p. 21, grifos no original) Nesse sentido, na medida em que concorre para que pessoal Assim, importante é desenvolver na sociedade os mecanismos escolar e usuários do ensino público exercitem seu direito de decidir necessários para levar Estado a cada vez mais agir de acordo com os sobre os destinos da gestão escolar, a eleição de diretores escolares interesses dos cidadãos, entendidos estes como indivíduos livres que está inteiramente de acordo com os princípios da democracia, "que se optam por viver em sociedade de acordo com regras delimitadas e funda sobre uma concepção ascendente de poder" (BOBBIO, 1990, p. comumente aceitas. Com isto se quer enfatizar a importância da 46), não havendo razão para considerá-la contra os interesses do Estado, sociedade moderna, fundada nos direitos dos cidadãos e no se este se pauta pelo atendimento do interesse público. Um exemplo contratualismo, contrapondo-a às formas sociais pré-modernas de que podem ser confluentes os interesses do Estado e da população baseadas numa concepção organicista. Nas palavras de Bobbio: usuária pode ser verificado na instituição da eleição para diretores O que une a doutrina dos direitos do homem e contratualismo é a comum escolares do sistema público estadual do Paraná, pela Lei 7.961/84, concepção individualista da sociedade, a concepção segundo a qual primeiro em que, por ocasião da implementação da medida, a própria Secretaria existe o indivíduo singular com seus interesses e com suas carências, que da Educação do Estado faz a seguinte recomendação: tomam a forma de direitos em virtude da assunção de uma hipotética lei da Finalmente é bom lembrar que a escolha para cargo de diretor escolar, natureza, e depois a sociedade, e não vice-versa como sustenta organicismo decidida por ato de vontade deliberada da maioria da comunidade escolar, e todas as suas formas, segundo qual a sociedade é anterior aos indivíduos representará, para os novos diretores, maiores responsabilidades e ou, conforme a fórmula aristotélica destinada a ter êxito ao longo dos séculos, compromissos explícitos assumidos dentro da comunidade escolar. Não todo é anterior às partes. (BOBBIO, 1990, p. 15) somente às orientações de governo submeter-se-ão os novos diretores no A maneira de o indivíduo fazer prevalecer seus interesses em exercício de uma função pública, mas também, e, de modo particular, eles deverão respeitar e atender as necessidades da comunidade escolar, concordância com respeito aos direitos dos demais é, cada vez mais, compatibilizando recursos e harmonizando interesses e expectativas em função sua intervenção nos destinos da sociedade. Isto não se consegue do bem comum. (ZABOT, 1985)</p><p>38 39 VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS Hoje, se se quer apontar um índice do desenvolvimento democrático este não apenas delegando as tomadas de decisão a parlamentares e executivos pode mais ser o número de pessoas que têm direito de votar, mas o número distantes que, em grande medida, escapam ao controle daqueles em de instâncias (diversas daquelas políticas) nas quais se exerce direito de nome dos quais o governo deve exercer-se. Essa participação dos voto; sintética mas eficazmente: para dar um juízo sobre estado da democratização num dado país o critério não deve mais ser de "quem" vota, indivíduos na vida dos organismos civis da sociedade apresenta pelo mas o do "onde" se vota (e fique claro que aqui entendo "votar" como o ato menos dois aspectos de fundamental importância para o desen- típico e mais comum do participar, mas não pretendo de forma alguma limitar volvimento da democracia. Por um lado, na medida em que se envolve a participação ao voto). (BOBBIO, 1989, p. 56) com outros sujeitos (individuais ou coletivos), indivíduo exercita sua Não se trata, de maneira nenhuma, de minimizar a importância de cidadania, que ser cidadão, e ser indivíduo, é algo que se aprende, e nossa democracia representativa, mas apenas de levar a sério as é algo demarcado por expectativas de comportamentos singulares." palavras de Thomas Paine em Common sense, para quem (DAMATTA, 1991, p. 72) Por outro lado, ao intervir com sua opinião e A sociedade é produzida por nossas carências e governo por nossa explicitação de seus interesses, procurando influir nas decisões que se perversidade; a primeira promove a nossa felicidade positivamente mantendo tomam nos órgãos e instâncias em que se realizam as atividades-fim do juntos os nossos afetos, o segundo negativamente mantendo sob freio os aparelho estatal (escolas, atendimento de saúde, transportes etc.), os nossos vícios. Uma encoraja as relações, o outro cria as distinções. A primeira cidadãos contribuem para realizar o controle democrático do Estado, protege, segundo pune. A sociedade é sob qualquer condição uma bênção; concorrendo para que este atue de acordo com os interesses da o governo, inclusive na sua melhor forma, nada mais é do que um mal população que mantém. necessário, e na sua pior forma é insuportável. (citado em BOBBIO, 1990, p. 21, grifos no original) Nesse sentido, na medida em que concorre para que pessoal escolar e usuários do ensino público exercitem seu direito de decidir Assim, o importante é desenvolver na sociedade os mecanismos sobre os destinos da gestão escolar, a eleição de diretores escolares necessários para levar o Estado a cada vez mais agir de acordo com os está inteiramente de acordo com os princípios da democracia, "que se interesses dos cidadãos, entendidos estes como indivíduos livres que funda sobre uma concepção ascendente de poder" (BOBBIO, 1990, p. optam por viver em sociedade de acordo com regras delimitadas e comumente aceitas. Com isto se quer enfatizar a importância da 46), não havendo razão para considerá-la contra os interesses do Estado, sociedade moderna, fundada nos direitos dos cidadãos e no se este se pauta pelo atendimento do interesse público. Um exemplo de que podem ser confluentes os interesses do Estado e da população contratualismo, contrapondo-a às formas sociais pré-modernas usuária pode ser verificado na instituição da eleição para diretores baseadas numa concepção organicista. Nas palavras de Bobbio: escolares do sistema público estadual do Paraná, pela Lei n° 7.961/84, O que une a doutrina dos direitos do homem e o contratualismo é a comum concepção individualista da sociedade, a concepção segundo a qual primeiro em que, por ocasião da implementação da medida, a própria Secretaria existe indivíduo singular com seus interesses e com suas carências, que da Educação do Estado faz a seguinte recomendação: tomam a forma de direitos em virtude da assunção de uma hipotética lei da Finalmente é bom lembrar que a escolha para o cargo de diretor escolar, natureza, e depois a sociedade, e não vice-versa como sustenta organicismo decidida por ato de vontade deliberada da maioria da comunidade escolar, e todas as suas formas, segundo o qual a sociedade é anterior aos indivíduos representará, para os novos diretores, maiores responsabilidades e ou, conforme a fórmula aristotélica destinada a ter êxito ao longo dos séculos, compromissos explícitos assumidos dentro da comunidade escolar. Não o todo é anterior às partes. (BOBBIO, 1990, p. 15) somente às orientações de governo submeter-se-ão os novos diretores no exercício de uma função pública, mas também, e, de modo particular, eles A maneira de o indivíduo fazer prevalecer seus interesses em deverão respeitar e atender as necessidades da comunidade escolar, concordância com o respeito aos direitos dos demais é, cada vez mais, compatibilizando recursos e harmonizando interesses e expectativas em função sua intervenção nos destinos da sociedade. Isto não se consegue do bem comum. (ZABOT, 1985)</p><p>40 41 VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS 2.2 Democratização da gestão e autonomia da escola Salles Gonçalves assim se manifesta a respeito dessa proposta de Mello: O processo de envolver-se e participar nas atividades da escola "É interessante verificar-se que tal proposta de suposta descentralização pública, dando sugestões e influindo nas decisões, é o mesmo processo e autonomia estrutura-se, no entanto, sob evidente esquema de controle pelo qual pessoal escolar e os usuários podem contribuir para a tão (sempre centralizado)." 1994, p. 16) propalada e pouco compreendida autonomia da escola. Assim como, Na verdade, não há nada contra o Estado fiscalizar cumprimento em âmbito individual, a autonomia tem a ver com elevação das pessoas dos objetivos mais gerais da educação escolar, pois que este é seu à condição de sujeitos, em âmbito institucional, falar em autonomia da dever perante a população que mantém. Todavia, a ênfase não pode escola é considerá-la como sujeito social. Isto significa caminhar em ser dada à "existência de um sistema externo de avaliação de direção a uma "concepção ascendente do poder" (BOBBIO, 1990, p. resultados", como quer Mello (1992, p. 195), ainda mais quando esta é 46), descentralizando-o e propiciando formas e mecanismos considerada como uma das "condições indispensáveis à maior institucionais que não só viabilizem mas também estimulem a iniciativa autonomia das escolas" (MELLO, 1992, p. 195). Além disso, sabe-se que e a participação dos servidores da escola e de seus usuários nas a tal "avaliação de produto ou de resultados" tem-se reduzido às decisões que dizem respeito aos rumos que deve seguir a instituição famigeradas provas e testes elaborados de forma idêntica à dos exames escolar. Isto vai no sentido inverso da conservadora onda neoliberal vestibulares, sem nenhuma capacidade de aferir em que medida a que, a pretexto de "modernizar" a gestão do ensino, fazendo-a à escola básica tem logrado alcançar seu objetivo maior de preparar imagem e semelhança da gestão empresarial capitalista, propugna "para exercício consciente da cidadania". Como se o importante precisamente pela centralização de poder e pelo alijamento dos usuários fosse (e reforçar) a face mais perversa e indigente da escola e do pessoal da escola de seu papel de sujeitos sociais. Guiomar Namo atual, que tem sido a de preparar (ou apenas selecionar) os alunos de Mello, por exemplo, afirma: para "tirarem notas" ou "irem bem" em provas e testes... Se estamos Torna-se cada vez mais difícil e ineficaz controlar de forma centralizada e vertical as atividades fins (sic) das organizações e sistemas e isto é ainda mais verdadeiro realmente preocupados com o desempenho da escola, não há dúvida para a estrutura do aparato As grandes organizações, privadas ou públicas, de que a avaliação da mesma deve ser considerada como elemento acabaram por desenvolver uma multiplicidade de estruturas centralizadas que imprescindível no processo de realização de objetivos. Mas a natureza se tornaram fins em si mesmas, perdendo de vista as necessidades de seus específica do produto escolar (PARO, 1993, p. 135-149) "exige que a usuários e as da sociedade. Tornou-se, portanto, imperativo a partir da incorporação avaliação seja um processo permanente que permeie todas as de novas tecnologias de gerenciamento, reestruturar as grandes máquinas burocráticas, redirecionando para suas atividades fins (sic) mais recursos, atividades e procedimentos no interior da escola, procurando dar conta capacidade de iniciativa e inovação, bem como responsabilidade de prestar da qualidade e adequação do desempenho de todos os envolvidos, contas pela qualidade dos serviços que prestam. Esse redirecionamento tem-se não apenas do (PARO, 1995a, p. 5). revelado possível e necessário pela incorporação de tecnologias micro O que precisa ficar claro é que, se se pretende desenvolver a organizacionais de informação, que permitem adotar controles centralizados autonomia da escola, é preciso que se tome o pessoal escolar e es- menos numerosos e mais flexíveis, combinados com um forte componente de avaliação de produto ou de resultados. (MELLO, 1992, p. 194, grifos meus) pecialmente os alunos e pais como sujeitos. Ao invés das antipáticas avaliações externas por meio de provas que não aferem nada além Observe-se que, embora se fale em "controles centralizados menos daquilo que já estamos cansados de saber, ou seja, que a imensa maioria numerosos e mais flexíveis", a preocupação central é com os "controles é reprovada em tais provas, mais produtivo seria que se respeitasse centralizados", que se quer "menos numerosos e mais flexíveis" para pessoal escolar e os usuários como cidadãos e lhes oferecessem serem mais eficientes. Por isso é que não se abre mão de "um forte oportunidades de participar de mecanismos coletivos como os componente de avaliação de produto ou de resultados." Maria Dativa de conselhos de classe e de série que, integrados por professores,</p><p>42 43 VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES 1 FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS funcionários, alunos e pais e rearticulados em suas funções e possíveis de serem realizadas. Algumas pessoas, porém, mostram- propósitos, poderiam "constituir elemento de constante avaliação e se mais realistas, como uma diretora de escola fundamental do redimensionamento de todas as atividades-fim da escola, e instrumento sistema de ensino público municipal de Vitória que, provida no cargo de prestação de contas da qualidade de seu produto à sociedade." por meio de eleição, afirma, em entrevista, não ter expectativas (PARO, 1995a, p. 5) ilusórias quanto à eleição, "porque as condições dadas de trabalho, O movimento para a autonomia precisa ser, pois, inverso do nomeada ou eleita, permaneceriam as mesmas." Mas diz que "os apontado por Mello, ou seja, deve-se privilegiar a fiscalização de- alunos, a comunidade, colocam uma expectativa alta"/enquanto que, mocrática da escola pela sociedade civil, não o seu controle centralizado "no interior da escola, por parte dos professores" ela acha "que a pelo Estado. No dizer de Gonçalves: "Se tal aparato de controle central coisa fica muito dividida: algumas pessoas acham que é superim- for mantido, de fato a escola não chegará a ser autônoma, pois o portante eleger melhor para elas", mas outras até gostavam mais movimento de sua autonomização tem que necessariamente pender do diretor nomeado porque raciocinavam que, se fosse nomeado, para a periferia (sociedade civil) e não para o Centro (Estado); neste teria maior trânsito com o poder e poderia ajudá-las, especialmente sentido, controle deve ser cada vez mais controle pelas organizações se fosse amigo delas. da sociedade civil." 1994, p. 17) Por outro lado, as expectativas otimistas não deixam de se fazer Na medida em que enseja envolvimento dos usuários e do presentes diante das perspectivas de adoção da eleição, não faltando pessoal da escola na tomada de decisão a respeito da melhor li- dentre elas a que tem a eleição como uma panacéia que resolverá derança para a instituição escolar, estimulando também a con- todos os problemas da educação escolar. Durante a pesquisa de seqüente participação na discussão das questões que envolvem campo, várias vezes foram mencionados casos de entusiasmo assunto, a escolha de diretores pela via eletiva pode ser importante exagerado por parte, quer do pessoal escolar, quer de alunos e pais, elemento de exercício democrático e de fortalecimento da a respeito das potencialidades do processo eletivo em solucionar autonomia da escola. questões completamente fora do alcance dessa medida, como a Mas a eleição não pode ser entendida apenas como um critério imediata melhoria da qualidade do ensino e a mudança no aporte de de escolha, e sim como uma alternativa de soberania dos eleitores que recursos e nas condições objetivas em que se dá trabalho na escola. se deve efetivar de forma plena. Ou seja, não basta atender a população É preciso, pois, estar atento para evitar expectativas descabidas que no momento de prover o escolhido no posto de diretor; é preciso que frustrações que podem comprometer a própria crença nas aquela tenha assegurado direito de acompanhamento democrático virtudes da eleição. Segundo Dourado, "vislumbrar a eleição como do eleito em sua função. Por isso, diretor eleito não pode estar sujeito ação terminal é incorrer no equívoco de se negar caráter histórico a quaisquer constrangimentos por parte do Estado, a não ser nos casos, do processo, pois a eleição deve ser vislumbrada como um previstos em lei, de descumprimento de suas funções, mediante instrumento a ser associado a outros na luta pela democratização processo que inclua a manifestação da comunidade que o elegeu. possível. Parece-nos assim que a utilização de instrumentos eleitorais deve ser vista como um exercício na construção da democracia." (DOURADO, 1991, p. 34) 3 EXPECTATIVAS SOBRE A ELEIÇÃO Uma expectativa que merece um exame mais detido é aquela que Como toda inovação, é natural que a perspectiva de introdução parece ter motivado os professores nos vários sistemas em que se da via eletiva para escolha de diretores escolares provoque um grande verificou ou se verifica a luta por eleições de dirigentes escolares, e que número de expectativas nos sujeitos envolvidos, muitas delas im- diz respeito ao desejo dos docentes de controlar as ações do diretor</p><p>44 45 VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES 1 FUNDAMENTOS A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ou, pelo menos, fazer com que essas ações estejam mais de acordo privilegia as pessoas de acordo com os interesses dos Outro com os interesses dos docentes. Para uma componente do Conselho importante aspecto apontado por Canesin diz respeito à diferença entre Estadual de Educação do Paraná, a expectativa com relação à eleição a concepção das lideranças sindicais e a dos demais professores diante de diretores no Estado esteve muito marcada pela idéia da participação das reivindicações que o movimento fazia, entre elas a eleição de da comunidade; mas para os professores havia "a idéia de controle da diretores: "De certa forma pode-se considerar que, enquanto as escola", de ter diretor do seu lado, e muitas vezes sem divisarem os lideranças têm como eixo a necessidade de desenvolver oufazer ampliar interesses dos a politização no sentido de reconhecimento das relações de poder A prática exercida pelos diretores nomeados, de anotar nome existentes na sociedade, a razão de ser do grosso das mobilizações dos professores grevistas e enviar a lista para os órgãos superiores da esteve circunscrita à obtenção de benefícios e a interesses próprios da Secretaria da Educação, era algo que, segundo a expectativa dos corporação." (CANESIN, 1993, p. 226-227) professores favoráveis à eleição, em vários sistemas, deveria ter fim Assim, por um lado, não se pode esquecer um elemento até certo com a escolha por processo eletivo que colocasse na posição de diretor ponto corporativista, que devia estar presente no interesse dos um profissional mais comprometido com a categoria docente. professores pelas eleições de dirigentes escolares: estes, eleitos entre Mas não só a respeito de seus interesses corporativos se dava a os professores, seriam menos repressivos e mais simpáticos à categoria expectativa do professorado. Em pesquisa realizada no Rio Grande do dos docentes. Por outro lado, entre as lideranças e as parcelas mais Sul sobre os critérios de escolha utilizados pelos professores nas politizadas dos professores afirmava-se a compreensão "de que é eleições para diretores de escolas de primeiro e segundo graus no preciso somar-se às outras forças na luta pela mudança através de Estado em 1985 e 1988, Marta Luz Sisson de Castro et al. constatam que uma ampla politização que possibilite a criação de uma nova ordem ou "o professor quer liberdade para definir seu trabalho e não somente sociedade." (CANESIN, 1993, p. 252) Nesse quadro, a democratização uma participação mais geral na vida da escola." (CASTRO et al., 1991, p. das escolas por meio da eleição de seus diretores colocava-se como 95) Falando sobre a expectativa dos professores do Estado de tarefa prioritária (CANESIN, 1993, p. 252). em estudo anteriormente referido, Canesin apresenta os requisitos A democratização da escola, com a substituição do autoritarismo apontados pela entidade dos professores: e da hierarquia cristalizada por relações de colaboração entreas pessoas, que saiba ouvir, discordar com educação e conviver com as divergências; é uma das expectativas mais fortemente presentes diante daperspectiva que tenha senso de justiça e jamais favoreça grupinhos, que respeite os de escolha do diretor via eleição. O fundamento dessa crença, quando alunos e os pais, reconheça-os como pessoas com suas próprias motivações explicitado, reporta-se ao novos vínculos que serão estabelecidos pelo e cujas experiências de vida devem ser incorporadas à escola; que entenda a diretor com aqueles que os elegeram. Zabot diz: "O diretor oriundo da função de direção como de serviço e não de mando, que veja nos demais servidores companheiros e não subalternos, que seja pessoa comprometida escolha livre terá compromisso muito sério dentro da comunidade com educação e veja no processo educativo o caminho para liberdade e escolar. Controle burocrático algum, por mais perfeito que seja, poderá consciência. (CPG. Diretas para diretor: a luta faz a lei. Goiânia, s.d. Mimeo, substituir o controle direto, exercido pelos que estão vivamente in- apud CANESIN, 1993, p. 203-204) teressados com que acontece na escola, isto é, os professores, os Segundo a mesma autora, a eleição era entendida "como ponto alunos, os pais e os funcionários." (ZABOT, 1984, p. 89) Mais adiante, o de partida e não de chegada da democratização interna da escola", mesmo autor afirma: "Pensamos que principal aspecto seja a própria tendo-se "a expectativa de se obter maior autonomia no âmbito do mudança de postura do diretor. Seus vínculos, as raízes onde se firma processo pedagógico" (CANESIN, 1993, p. 204) porque, com as eleições, sua autoridade estão no seio da própria comunidade escolar. Seu plano deixaria de existir O diretor controlado pelos políticos, que pune ou de intenções esboçado no seu plano de trabalho de conhecimento</p><p>47 46 1 FUNDAMENTOS - A ELEIÇÃO DIANTE DAS DEMAIS ALTERNATIVAS.. VITOR HENRIQUE PARO ELEIÇÃO DE DIRETORES participação; é necessário forjar mecanismos que promovam a sustentação e público norteiam sua ação. Seu mandato lhe dá ao mesmo tempo a garantia da continuidade da prática participativa nas unidades de ensino confiança e dependência." (ZABOT, 1984, p. 90, grifos meus) substituindo as práticas autoritárias e centralizadoras por uma nova postura Também para integrantes da Equipe de Organização da Gestão compatível com os princípios e diretrizes de democratização consagrados na Participativa da Secretaria Municipal de Educação de Vitória, ouvidas legislação. Esses princípios e diretrizes, por sua vez devem garantir uma escola em entrevista, novo vínculo do diretor é determinante de sua função. de qualidade, cujo pressuposto seja a construção da cidadania como projeto de uma transformação social. (VITÓRIA, 1994, p. 2-3) Uma delas afirma que novo dirigente, "enquanto diretor eleito, vai ter o compromisso de estar fazendo esse trabalho colegiado junto à co- munidade"; já, "se ele é indicado, ele não tern esse compromisso com aquela comunidade." Não há dúvida de que a democratização da escola deve estar no horizonte quando se procura providenciar o processo de escolha do diretor por meio de eleição. Todavia, é preciso ter presentes suas potencialidades, não se esquecendo de que este é apenas um dos fatores que concorrem para essa democratização. O ex-assessor da Secretaria de Educação do Estado do Paraná, referido anteriormente, assim se pronuncia a respeito do assunto: "Na verdade, a gente do entendia e tinha muito claro que a escolha dos diretores através processo eleitoral, de eleição direta etc., seria um dos passos fundamentais, mas apenas um passo na questão da gestão democrática da escola. A idéia iria era que, a partir do processo eleitoral, da escolha dos diretores, criar na escola uma dinâmica diferente. Quer dizer, ela possibilitaria da fazer cumprir mais adequadamente as políticas de democratização gestão escolar. Mas seria um ponto inicial." Esta lucidez parece muito necessária, como é também imprescindível que essa primeira medida esteja sempre articulada com outras providências visando à democratização da escola, como propõe a mencionada Equipe de Organização da Gestão Participativa da Secretaria Municipal de Educação de Vitória que, em histórico sobre a institucionalização das eleições e do conselho de escola na rede escolar do município, assim se manifesta: Os Conselhos de Escola e a eleição de diretores são instrumentos importantes a democratização do ensino; contudo, por si só não garantem a existência das para de relações críticas, solidárias, participativas e democráticas no interior Unidades Escolares. É preciso tornar processo participativo um ingrediente cotidiano na vida das pessoas. Por outro lado, não se pode somente esperar da que sua as pessoas tomem voluntariamente consciência da importância</p>