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<p>5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER eoria. Eis uma coisa com pouquíssima popularidade entre professores de E isso não é por acaso: muitas vezes, os professores de graduação nos cursos de letras, fi- guras determinantes na formação dos professores de por- tendem a abordar diversas teorias sem estabelecer nenhuma ponte com a prática pedagógica. Em cursos de bacharelado, isso é esperado. Contudo, os cursos de licenciatura em letras visam à formação de professores; logo, nesses cursos, abordar uma teoria sem fazer conexão entre ela e a prática docente é condenável, levando muitos estudantes a se pergun- tarem: "Pra que é que a gente tem que estudar isso? Ninguém eles estão Afinal, de que adianta ao futuro professor estudar, por exemplo, a teoria X-barra, teorias da literatura e postulados da semântica formal sem que se faça qualquer articulação com ensino de português? Dá para entender muito bem a resistência a teorias demonstrada por muitos professores. Entretanto, mesmo não se interessando muito por teo- rias, o professor precisa se conscientizar da necessidade de dominar determi- nados conhecimentos teóricos para poder tomar decisões fundamentadas no que diz respeito ao planejamento das aulas, à escolha das atividades a serem realizadas em sala, ao gerenciamento das aulas e ao processo de avaliação. Sua prática pedagógica precisa estar explicitamente baseada em arcabouços 23 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER</p><p>teóricos que fundamentem e justifiquem suas ações, suas decisões. Por isso, ras, em um conhecido ditado popular: "Pau que nasce torto, cresce torto e morre neste livro, veremos um pouquinho de teoria. Um pouquinho só. Mas um Percebe-se que, segundo o inatismo, o ambiente social não exerce nenhu- pouquinho que tem uma importância enorme para a prática docente. Para ma influência sobre o indivíduo, o que é uma visão determinista e perversa, pois começar, neste capítulo, trataremos de cinco coisas que todo professor de não oferece às pessoas chances de mudança. (Aqui, é impossível não perceber a português tem a obrigação de saber: proximidade que as teorias do déficit cultural mantêm com o inatismo.) (a) o que é ensinar; E quais são as implicações dessa concepção de aprendizagem para (b) que é método de ensino; contexto escolar? em primeiro lugar, o papel do professor é comple- (c) que é língua; tamente minimizado, pois sendo ele um elemento do ambiente no qual os (d) o que significa saber português; alunos estão inseridos e sendo o ambiente algo que não causa nenhuma (e) a razão pela qual se ensina português a brasileiros. influência sobre ser humano, os alunos não precisam do professor para desencadear processo de aprendizagem. Uma segunda implicação diz res- peito aos alunos: aqueles que são bem-sucedidos, assim são porque trazem, 1.1 O que é ensinar? desde seu nascimento, os elementos necessários para aprenderem; os que não são bem-sucedidos, assim o são porque não tiveram a sorte de nascer com aparato necessário que permitisse o desenvolvimento de sua aprendizagem. Se alguém perguntar às pessoas que professor e o aluno fazem, pro- Essa é uma implicação muito perversa e injusta, pois deixa ao deus-dará os vavelmente a resposta será a seguinte: "O professor ensina aluno apren- alunos com dificuldades de aprendizagem. de". Parece uma pergunta simples, não é? E a resposta parece satisfatória e óbvia, pois quem há de discordar que o professor ensina e aluno aprende? Segundo a concepção inatista, que conta para o processo de aprendiza- Tanto a pergunta quanto a resposta parecem simples. parecem. gem são os elementos biológicos, maturacionais. Uma teoria que contribuiu Contudo, professor não deve confiar nas aparências quando lida com para surgimento do inatismo foi a embriologia, segundo a qual desenvol- vimento do embrião não sofre influências do meio Previsivelmente, conceitos teóricos. Aprender e são termos que causam muita sia quando se tenta defini-los, porque suas definições dependem da forma pela essa teoria comprovou-se falsa, pois o feto é claramente influenciado pelo qual concebemos esses dois atos, ou seja, ato de defini-los depende da que acontece com a mãe e ao redor dela. Dessa forma, inatismo começou a ra pela qual concebemos o ensino e a aprendizagem. Dentre as concepções de ser questionado por psicólogos e educadores, fazendo surgir uma nova con- aprendizagem mais discutidas pela psicologia da educação, destacar cepção de aprendizagem: behaviorismo. três: a inatista, a behaviorista (ou ambientalista) e a interacionista. Cada uma De acordo com a concepção behaviorista, popularizada no meio dessas formas de ver a aprendizagem tem implicações pedagógicas distintas. mico por Skinner, o ser humano aprende através de um mecanismo de estí- Por isso, o professor precisa conhecê-las para ter consciência do que é ensinar. mulos, respostas, reforço positivo (recompensas) e reforço negativo (punição). Segundo teórico behaviorista, esse mecanismo leva aprendiz a adquirir Segundo Davis e Oliveira (1995,27), inatismo um conjunto de bons hábitos, i.e., hábitos que contribuem para o sucesso na parte do pressuposto de que os eventos que ocorrem após nascimento não aprendizagem, e a eliminar os maus hábitos, que contribuem para insu- são essenciais e/ou importantes para desenvolvimento. cesso na aprendizagem. Observe-se que, enquanto inatismo ignora o papel Seguindo essa visão, pode-se concluir que um ser humano nasce de um do meio ambiente no processo de aprendizagem, behaviorismo afirma ser jeito e nunca Isso está bem representado, como lembram as duas auto- meio ambiente o único elemento responsável por esse processo. 24 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amarai Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 25</p><p>Você já deve ter visto na televisão (ou pessoalmente) algum show em ra muito negativa para entendimento do papel do aluno no processo de parques aquáticos que envolvem números com golfinhos. Se prestou bem aprendizagem e do papel do professor no Imaginar que aluno é atenção ao show, notou que a amestradora faz determinado movimento com passivo nesse processo não é nem um pouco lógico, apesar de podermos con- as mãos, um sinal específico, que é um estímulo para que o golfinho realize o mecanismo de estímulo-resposta e reforço-punição atuando clara- alguma ação, que é uma resposta àquele estímulo. Se a resposta for a desejada, mente no treinamento de soldados nas forças armadas e em situações fictícias a resposta considerada correta pela amestradora, ela reforça positivamente o como a representada no interessante clássico do cinema Laranja Mecânica, comportamento do golfinho dando-lhe um peixe. Do contrário, o golfinho de Stanley Kubrick, baseado no romance homônimo de Anthony Burgess. é punido, ficando sem peixe, reforçando-se negativamente seu compor- A contribuição negativa atribuída ao papel do professor é clara: partin- tamento. Nesse caso, golfinho pensa lá com seus botões: "Pelas barbas de do do pressuposto de que os alunos não sabem nada, quem deve transferir Netuno! Ela não me deu o peixe! Eu não devia ter feito aquilo. Na próxima conhecimentos para eles é professor. A partir do behaviorismo, ensinar vez, faço diferente". Isso ilustra, de maneira simples, funcionamento do passa a ser visto como sinônimo de transferir Contudo, será mecanismo proposto pelo behaviorismo, no qual reforço desempenha um que transferir conhecimentos é possível? Dá mesmo para fazer isso? papel essencial no processo de aprendizagem. Com essa pergunta, cursistas de oficinas de aperfeiçoamento Vejamos a implicação disso para a sala de aula. Se o ser humano aprende para professores de português de escolas estaduais. Discutimos, ficou cla- exclusivamente a partir de estímulos do meio ambiente, ele é um ser passivo ro que transferir conhecimentos é algo que só pode ser feito pelo Chapéu- perante processo de aprendizagem, pois necessita de algo ou alguém que -Pensador do Professor Pardal, o famoso e inventor criado origine os estímulos. A repetição dos comportamentos considerados corretos por Walt Disney. Afora esse caso da história em quadrinhos, restam apenas e a correção dos comportamentos considerados errados são técnicas funda- falácias. Ninguém pode transferir seus conhecimentos para ninguém. mentais dentro do arcabouço teórico behaviorista E qual seria elemento Uma evidência da impossibilidade de transferência de conhecimentos, mais importante, no meio ambiente, para aprendizado do aluno? Ora, por exemplo, é o fato de aprendizado não ocorrer de maneira uniforme em professor, é claro. uma turma com 40 alunos, que usam mesmo livro didático e que têm as E é aí que se começa a contar a estorinha segundo a qual é o professor mesmas aulas com o mesmo professor na mesma sala de aula. E por que o quem sabe tudo. É ele quem vai preencher a mente vazia do aluno, metafo- aprendizado não ocorre de maneira uniforme? Simplesmente, e exatamente, rizada pelo termo latino tabula rasa, uma superfície vazia a ser preenchida porque os alunos são pessoas diferentes, com histórias de vida pessoal distin- com algo. Cabe ao aluno o papel de repetir tudo que professor disser e tas; porque conhecimento do professor não pode ser transferido para a ca- fazer tudo o que mandar. Por isso, as metáforas usadas para se referir ao beça do aluno; porque o aluno participa mais ou menos ativamente (ou não aprendiz behaviorista são o aluno é um papagaio, por repetir participa) do processo de aprendizagem. Se essa transferência fosse possível, irracionalmente as coisas ditas pelo professor (ou por um aparelho de repro- os discípulos de Platão teriam sido novos Platões os alunos que Einstein dução de voz), e uma esponja, por absorver que o professor diz. Terrivel! teve em Praga teriam sido novos Einsteins, e todos os estudantes aprende- riam sem dificuldade. Só que isso não aconteceu e não acontece. Contudo, a exagerada dada ao papel do professor no processo de aprendizagem acarretou uma implicação muito positiva para a sala de aula: Mas vamos especular um pouquinho. Imaginemos que fosse possível começou-se a se preocupar com o planejamento do ensino, fato que acabou transferir conhecimentos de uma pessoa para outra. Stephen Hawking pode- valorizando o papel do professor que o inatismo minimizara. Embora esse ria, então, vir ao Brasil, dar aulas no Departamento de Física da Universidade ganho para o professor seja inegável, behaviorismo contribuiu de manei- Estadual de Feira de Santana, e os alunos sairiam de suas aulas com todo QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 27 26</p><p>conhecimento construído por esse grande físico sobre os buracos negros, por Ensinar, à luz da visão interacionista, significa facilitar a aprendizagem exemplo. Mesmo assim, os alunos não sairiam das aulas possuindo aquilo dos estudantes, entender aprendizado como um fenômeno que diferencia Hawking, Einstein Platão da grande maioria dos mortais, Ao professor cabe a tarefa de propiciar aos alunos ambiente e os meios ne- da qual esses alunos privilegiados e fictícios fazem parte: a capacidade dife- cessários para que eles construam seus conhecimentos. Facilitar processo de renciada de construção de conhecimentos que os gênios possuem. Hawking aprendizagem engloba uma série de atos bastante complexos, dentre os quais não iria poder transferir isso para os alunos sortudos. figuram: oferecer um ambiente afetivo na sala de aula que seja favorável ao aprendizado; dar espaço para que a do estudante seja ouvida; sugerir es- Felizmente, é possível que estudantes brasileiros ou de qualquer na- tratégias de aprendizagem; recomendar leituras; transmitir informações rele- cionalidade possam fazer contribuições importantes para o acervo de co- vantes para processo de construção de conhecimentos (Oliveira, 2008b, 17). da humanidade, inscrevendo, assim, seus nomes na história do pensamento humano, como fizeram Einstein, Platão e Hawking, que, no Os cursistas das oficinas de aperfeiçoamento elegeram, naturalmente, momento em que escrevo este livro, ocupa a cadeira de Isaac Newton como interacionismo como a concepção de aprendizagem mais adequada para sus- professor de matemática da Universidade de Cambridge, Inglaterra. tentar as reflexões que professor de português precisa fazer acerca de suas aulas e do aprendizado de seus alunos, Ficou claro que professor que adota O estudante é grande responsável pela construção de seus conheci- essa concepção de aprendizagem passa a ser corresponsável pelo aprendizado mentos. Obviamente, ele pode optar por não aprender algo, por não partici- do aluno, que é principal responsável por esse processo. A adoção da visão par do processo de aprendizagem. Mas se decide participar desse processo, interacionista implica que professor entende a aula como um espaço no ele automaticamente assume um papel cognitivamente ativo na construção qual a voz do aluno deve ser ouvida para que ele possa constituir-se como de seus conhecimentos. Os alunos não são esponjas para absorver conhe- sujeito de sua aprendizagem. Isso conduz aluno à formação de uma cons- cimentos nem são papagaios para apenas repetir irracionalmente que ciência crítica, que professor precisa fomentar. professor diz e que eles leem nos livros. Bem, qual a implicação prática dessas considerações? Ora, ensinar não Diante dessa cumbuca em que os behavioristas enfiaram ato de é uma simples e irreal transferência de conhecimentos. Afinal, essa é uma aprender, advento de uma nova concepção de aprendizagem era não ape- forma behaviorista de conceber a aprendizagem c, por essa razão, tem impli- nas era também inevitável. Afinal, era preciso o papel cações muito negativas para o ensino, colocando os estudantes numa posição ativo que aluno desempenha em seu processo de aprendizagem. Foi aí de seres passivos e de meras marionetes dos professores. Conceber ato de que se disseminaram os pensamentos de Jean Piaget e de Ley Seminovitch ensinar como ato de facilitar aprendizado dos estudantes faz com que Vygotsky, fazendo surgir interacionismo. Essa concepção se distancia do professor os veja como seres ativos e responsáveis pela construção de seus inatismo, que não leva em conta papel do ambiente no processo de apren- conhecimentos, enquanto ele passa a ser visto pelos alunos como o facilita- dizado, e se distancia do behaviorismo, que despreza os fatores biológicos dor dessa construção, como mediador do processo de aprendizagem, e não que atuam nesse processo. como aquele que detém os conhecimentos a serem distribuídos. O interacionismo vê aprendizado como um processo de interação que Portanto, conceito de ensino se articula com a prática pedagógica da envolve três fatores fundamentais: aprendiz, os elementos de sua natureza seguinte forma: biológica e o meio ambiente sociocultural em que ele está inserido. O aluno, sob a perspectiva interacionista, não é mais visto como um ser passivo ele o professor ajuda a criar uma atmosfera afetiva (emocional e psico- passa a ser concebido como um sujeito ativo que, para construir seus co- lógica) positiva para facilitar o aprendizado dos seus alunos isso inhecimentos, se apropria dos elementos fornecidos pelos professores, pelos significa que professor não assume a atitude de falsa erudição, de livros didáticos, pelas atividades realizadas em sala e por seus colegas. arrogância, do sabe-tudo, que o leva a menosprezar os estudantes; 28 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PORTUGUÊS PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 29</p><p>o professor continua estudando, participando de congressos e encon- por uma teoria da aprendizagem, que aponta para uma forma de conceber a tros, lendo livros e artigos, para se manter bem informado e, assim, aprendizagem. A abordagem tem, assim, uma importância fundamental para estar preparado para fornecer informações atualizadas a seus alunos e a prática docente, pois é com base nela que professor toma decisões peda- para repensar suas crenças teóricas; gógicas, seleciona materiais didáticos e avalia políticas educacionais. professor recomenda a leitura de textos e livros que contribuem O PROJETO se constitui no delineamento organizacional do curso ou da para a construção dos conhecimentos dos estudantes isso implica disciplina (neste caso, costumamos falar em plano de disciplina). Essa orga- que professor faz análises críticas das gramáticas normativas e dos nização é feita com base nos princípios teóricos explicitados pela abordagem. livros didáticos adotados pela escola em que trabalha, e seleciona cui- No projeto, são explicitados aspectos importantes do método: os objetivos da dadosamente textos literários adequados ao perfil dos disciplina; conteúdo programático; os tipos de atividades a ser usadas em Acho que ficou claro o que significa ato de ensinar. sala de aula; e os papéis que alunos, professor e materiais didáticos desempe- nham no processo de ensino e aprendizagem. Podemos agora abordar a segunda coisa que todo professor de portu- guês tem obrigação de saber: o conceito de método de ensino. Enfatize-se a importância das teorias na configuração do projeto: são elas que determinam cada um dos seus elementos. Por essa razão, professor de português não pode dar as costas às teorias simplesmente por considerar 1.2 O que é método de ensino? as leituras teóricas chatas. PROCEDIMENTO é o conjunto de ações práticas que implementam Ensinar é ato de facilitar aprendizado dos estudantes, O que signifi- projeto, elemento organizacional do método, que, por sua vez, é delinea- ca que professor precisa realizar ações concretas resultantes de um planeja- do pelos princípios teóricos explicitados pela abordagem. No procedimen- mento que pressupõe alguns princípios teóricos. Ensinar requer um método. to, encontram-se explicitadas as técnicas didáticas, as práticas docentes e os Entretanto, embora seja uma palavra muito pronunciada, método não é um comportamentos esperados dos estudantes. O procedimento esclarece como termo cuja definição venha facilmente à mente de estudantes e professores. o professor usa as atividades e o material didático e como avalia a aprendi- Todo professor de português tem a obrigação pedagógica de saber zagem dos seus que é método de ensino. Por isso, não custa relembrar aqui conceito de esquema gráfico abaixo, baseado em Richards e Rodgers (ibid., 28) método, ou melhor, um conceito de método, que é o conceito que adoto. Ele ilustra a composição do método: foi proposto por Richards e Rodgers (1994 [1986]): conjunto de princípios teóricos, princípios organizacionais e ações práticas que norteiam a estrutu- MÉTODO ração de um curso, planejamento das aulas, a avaliação da aprendizagem e a escolha de materiais didáticos. O conceito de método é composto de três partes: a abordagem, e procedimento. ABORDAGEM PROJETO PROCEDIMENTO Teoria da língua A ABORDAGEM é o sustentáculo teórico do método. Ela é formada por Objetivos Técnicas Teoria da aprendizagem Conteúdo programático Comportamentos uma teoria da língua que aponta para uma forma de conceber a língua e Tipos de atividades Papéis do aluno Papéis do professor Em português, não há um termo consagrado para original em que é design. Por Papéis dos materiais didáticos isso, por projeto. 30 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PORTUGUÊS PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 31</p><p>O professor precisa conhecer um pouco de teorias para que sua prática Saussure (1999 [1916]) dividiu a linguagem em duas partes: uma social, pedagógica seja realizada de forma consciente. E a abordagem é o elemento a e uma individual, a fala. Ele excluiu a fala da pesquisa linguística teórico do método que ajuda o professor a criar essa consciência. Portanto, afirmando que a parte social e homogênea da linguagem é elemento que algo que professor precisa fazer é perguntar-se que teoria de língua e que importa para dar cientificidade à linguística. teoria de aprendizagem dão sustentação a sua prática pedagógica. Além dis- Chomsky (1978 [1965], 84) vislumbrou a realidade linguística dos so, ele precisa verificar se conteúdo constante no programa da disciplina e falantes-ouvintes a partir de dois conceitos que ele próprio cunhou e que se as atividades que realiza estão de acordo com essas teorias. viriam a integrar definitivamente o jargão linguístico: competência, que é "o Na próxima seção, trataremos de uma questão vinculada a uma parte da conhecimento que o falante-ouvinte possui de sua língua", e que abordagem, que é a teoria da língua. Afinal, como é que o professor concebe é uso efetivo da língua em situações concretas". Ele excluiu desempe- a língua, objeto de seu ensino? nho da pesquisa linguística alegando que o uso que falante-ouvinte faz da língua é um retrato imperfeito de sua competência devido à interferência de fatores psicológicos e físicos, como o cansaço, a irritação e o sono, que fazem 1.3 O que é língua? com que os falantes se esqueçam de uma ou outra palavra, repitam palavras e não completem sentenças. Chomsky estabeleceu como objeto de estudo Ter consciência de qual concepção de língua dá suporte a sua prática da linguística o falante-ouvinte ideal que vive numa comunidade linguística tem uma importância muito grande para o professor. E por que é importante completamente homogênea. decidir sobre qual conceito de língua ele deve adotar? Porque a forma como Ora, não por acaso, nem Saussure nem Chomsky se preocuparam com o professor vê a língua determina a maneira como ele ensina português. Ela ensino de línguas, pois as exclusões reóricas promovidas pelo estruturalis- tem implicações diretas no planejamento das aulas, na escolha do material mo que eles elaboraram trazem problemas insolúveis para a prática docente. didático, na forma de avaliar a produção dos alunos e no reconhecimento dos Afinal, como podemos vislumbrar um ensino de línguas que desconsidera o dialetos trazidos por seus alunos para a sala de aula, por exemplo. sujeito, o uso da língua e as variações linguísticas? Sem sujeito não há gua nem uso da língua. E as variações linguísticas estão em todas as partes. Desde a segunda metade do século passado, duas teorias polarizam as Ignorar esses elementos quando se trata de ensino é contraintuitivo e torna discussões acerca do conceito de língua: a concepção estruturalista e a con- as aulas de português capengas: as estruturas gramaticais são abordadas, mas cepção interacionista. não se fala sobre os usos que se fazem delas e nem se trata das variações lin- A concepção estruturalista da língua surgiu no do século XX, guísticas de forma racional, tranquila e sem preconceitos. resultado das reflexões do linguista suíço Ferdinand de Saussure e reforça- Diferentemente dos linguistas estruturalistas, os professores de portu- da pelos trabalhos de diversos linguistas norte-americanos como Leonard guês não podem deixar de pensar na variação linguística e nas especificidades Bloomfield, Charles Fries e, principalmente, Noam Chomsky. Para estru- culturais dos seus alunos. Entretanto, muitos professores elegem as formas turalismo, a língua é um sistema formado por estruturas gramaticais inter- que constam nas gramáticas normativas para serem ensinadas em sala de Essa visão, por si só, não causaria nenhum problema ao ensino aula, as quais são apresentadas como as únicas formas corretas de escrever e de línguas se não fosse por um princípio teórico específico: ela exclui de sua de falar português. Isso é reflexo do fato de muitos professores conceberem a análise o uso linguístico e, consequentemente, sujeito usuário da língua e as língua equivocadamente como um homogêneo, ignorando a exis- variações linguísticas que a existência de sujeitos diferentes provoca. tência das variações linguísticas e os sujeitos culturais que são seus alunos. 33 32 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PORTUGUÊS PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER</p><p>Não podemos nos esquecer de um fato importante: nós, brasileiros, não sujeito que fala ou escreve, sujeito que ouve ou as especificidades cultu- falamos usando as formas que constam nas gramáticas normativas rais desses sujeitos, contexto da produção e da recepção dos textos. Foram no nosso dia a dia, se é que as usamos alguma vez na fala. E fato de não as esses os elementos excluídos pela teoria estruturalista. O retorno deles à cena usarmos não é por Aquilo que passou a ser conhecido como gramática linguística se consolidou na década de 1970 no processo que ficou conhecido normativa é um conjunto de regras prescritivas que têm objetivo de supos- como VIRADA PRAGMÁTICA, que elegeu uso da língua como elemento em tamente levar os estudantes a aprenderem bem falar e o bem escrever, todas torno do qual os estudos linguísticos devem girar. elas baseadas em uma linguagem escrita, geralmente exemplificada a partir Um dos principais responsáveis por processo foi o sociolinguista de clássicos da literatura brasileira e portuguesa. norte-americano Dell Hymes (1991 [1978]), que lembrou a linguistas e a E aqui cabe uma pergunta básica: quem é que fala de acordo com a professores de línguas que há regras de uso sem as quais as regras gramati- escrita? Talvez, e muito duvidosamente, apenas as pessoas que se encontram cais não funcionariam. Aprender apenas a estrutura gramatical não é con- em situações formais nas quais a fala fica tão tensa que se aproxima da forma dição suficiente para uma pessoa ser capaz de usar a língua. Nesse sentido, escrita. Os telejornalistas, por exemplo, não falam espontaneamente na hora Hymes elaborou conceito de COMPETÊNCIA COMUNICATIVA, segundo qual do telejornal: eles leem em alta um texto escrito e exibido no telepromp- falante-ouvinte, para ser competente em sua língua, precisa não apenas ter ter, equipamento acoplado às câmeras filmadoras no estúdio de uma rede de conhecimento das regras gramaticais, mas também a habilidade de usar essas televisão que exibe texto a ser lido pelo apresentador do programa. Porém, regras, adequando-as às situações sociais em que se encontra no momento cm nem mesmo essas pessoas falam de acordo com a gramática normativa quan- que usa a língua. Veremos esse conceito em detalhes na quinta seção deste do estão fora de tais situações. E isso precisa ficar claro: a fala e a escrita, capítulo, pois ele é de grande importância para os professores de embora, obviamente, semelhanças, são distintas uma da outra. Outras vozes uniram-se à de Hymes, consolidando a inclusão do uso Ensinar português seguindo a concepção estruturalista de língua signi- linguístico, do falante-ouvinte e das variações nas pesquisas em linguística fica ensinar estruturas gramaticais enfatizando suas formas sem nenhuma ou teórica e linguística aplicada. Vozes, como a de William Labov, que conso- quase nenhuma preocupação com os usos que se fazem delas. A implicação lidou espaço da sociolinguística na academia, que também dava as boas- disso para a sala de aula é séria, já que os alunos acabam estudando estruturas -vindas aos pensamentos pragmáticos de John Austin e John Searle sobre os gramaticais descontextualizadas, muitas vezes sem nem saber quando devem atos de fala. E também as vozes de Robert-Alain de Beaugrande e Wolfgang usá-las, como acontece com pretérito mais-que-perfeito e a voz passiva. Dressler, linguistas textuais que deram uma contribuição extremamente im- O professor que vê a língua segundo a concepção estruturalista pouco portante para entendimento do texto assim, para ensino da leitura e da ajuda seus alunos na tarefa de desenvolver seus recursos linguísticos para in- escrita como atividades de interação sociocultural. teragir nas mais variadas situações sociocomunicativas. Ele apenas contribui Não há dúvidas: os elementos que haviam sido excluídos pelo estru- para reforçar mito de que há uma única forma correta do repro- turalismo estão de volta. Esse retorno representa uma mudança importante duzindo um preconceito linguístico que estigmatiza milhões de brasileiros. não apenas para os rumos da linguística, mas também, e principalmente, para Há, porém, uma maneira mais interessante de ver a língua: a CONCEP- os rumos do ensino de Entretanto, essa mudança tem se mantido ÇÃO INTERACIONISTA, também chamada nome já dei- no lado de dentro dos muros da academia, chegando muito lentamente ao xa clara sua razão de ser: a visão de língua como um meio de interação socio- conhecimento dos professores de português e, consequentemente, às salas cultural, que obviamente está estreitamente ligada à concepção interacionista de aula no ensino fundamental e no ensino médio. E por que essa lentidão de aprendizagem. Interação pressupõe a presença de alguns elementos: ocorre? Exatamente porque essas reflexões circulam, de maneira dispersa, 34 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 35</p><p>em livros ou em artigos publicados em revistas acadêmicas especializadas. Nesse sentido, a formação dos professores de português deve ser orien- Muitas vezes, também, os autores dos livros sobre o ensino e a aprendizagem tada por uma perspectiva que leve o professor a per- de português escrevem de uma maneira extremamente teórica, que não se ceber que os elementos gramaticais possuem uma dimensão relacionada aos torna nem um pouco atraente para os professores. usos da língua e aos significados que esses elementos ajudam a produzir. A Um problema perceptível é fato de muitos professores lerem pouco ideia é que essa percepção leve o professor à razão de ser da língua: texto, por falta de acesso a livros (que se tornam caros por causa dos baixos salários que deve ser eixo em torno do qual as aulas de língua giram. recebidos pelos professores) e porque suas escolas não têm bibliotecas bem Enquanto os professores não adotarem a perspectiva de lín- municiadas de livros teóricos. Ressalte-se ainda fato de as revistas especia- gua, ensino de português se manterá, em muitas escolas brasileiras, no nível lizadas terem pouco alcance em termos de número e tipos de leitores por se- das sentenças isoladas, descontextualizadas, sem que se levem em conta os rem geralmente lidas apenas por alguns membros da academia. Outro fator usos que os brasileiros fazem da língua. E se não se levam em conta os usos que contribui para o distanciamento entre as teorias linguísticas e a sala de linguísticos, que se materializam em forma de textos, os fenômenos textuais aula é a não participação de professores de português do ensino fundamental acabam sendo negligenciados. e do ensino médio em congressos e encontros de linguística por razões va- riadas, como custo de passagens, de hospedagem e de inscrição, e a falta de Pelo fato de as pessoas serem diferentes umas das outras e pelo fato de divulgação dos eventos junto às escolas. serem variados os contextos sociais, geográficos e culturais em que elas usam a língua, professor precisa se lembrar de que os brasileiros não falam da mesma que fazer então? Como fazer chegar aos professores os resultados das maneira. O português falado no Brasil varia de região para região, de grupo pesquisas empreendidas pelos sociolinguistas e pelos linguistas textuais, por social para grupo social. E essa variação se deve à maneira como nos exemplo? Afinal, se os professores que costumam enfocar, quase que exclusi- mos historicamente. Como lembra Darcy Ribeiro (2008, 17), surgimos vamente, a gramática normativa e que costumam abordar apenas um gênero textual a redação no ensino da escrita, refletissem mais sobre a língua e da confluência, do entrechoque e do caldeamento do invasor com sobre o ensino à luz da concepção interacionista, perceberiam a necessidade índios silvícolas e campineiros e com negros africanos, uns e outros aliciados como escravos. de mudar sua prática e algumas de suas crenças teóricas. Isso teria um impac- to significativo na atitude dos estudantes em relação ao estudo de Isso mostra como a língua que falamos está estreitamente vinculada a aumentando nossas esperanças de resultados mais positivos oriundos do bi- nossa Por isso, professor não deve criticar a maneira como es- nômio ensino-aprendizagem, apesar dos sérios problemas que se encontram tudante fala ao chegar à escola, chamando-a de errada. Se criticá-la, profes- fora do domínio da linguística, como a questão da falta de estrutura das sor estará passando a mensagem equivocada de que o estudante e as pessoas escolas e a questão da exclusão social. que com ele convivem e que falam da mesma forma estão linguisticamente erradas e, consequentemente, que há algo errado com suas identidades. Uma forma interessante de fazer chegar aos professores de português essas informações são as oficinas de aperfeiçoamento profissional. Entretanto, A articulação do exposto até aqui com a prática pedagógica é simples: a realização dessas oficinas não deve ser de responsabilidade apenas dos go- a língua precisa ser concebida como um conjunto de estruturas gramaticais e vernos estaduais, mas também das administrações municipais e das escolas lexicais à disposição dos falantes-ouvintes e dos escritores-leitores para que particulares. O governo federal pode e deve participar desse processo, ofe- cles possam interagir socialmente em encontros culturalmente marcados. A recendo apoio às instituições que capacitam professores das escolas públicas concepção de língua como um instrumento cultural de interação sociocomu- estaduais e municipais e das escolas técnicas e militares federais. nicativa acarreta as seguintes implicações práticas para professor: 36 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 37</p><p>a razão de ser das aulas de português não é a nomenclatura grama- que sabem um pouco e os outros garantem não saber português. Em verdade, tical e, por isso, professor precisa vê-la como um meio, possível inconscientemente, eles respondem com base em uma igualdade de duas coi- mas não necessário, e não como um fim, retirando-a do centro de sas que são completamente diferentes: saber a língua portuguesa e dominar suas aulas, reduzindo ao máximo possível espaço tradicionalmente a normativa. reservado a ela; Nesse sentido, provoquei cursistas de oficinas, perguntando-lhes se as formas linguísticas trazidas pelas gramáticas normativas são vis- seus alunos sabiam Houve respostas distintas, semelhantes às que tas como elementos que formam uma variedade linguística impor- meus alunos calouros deram: "sim", "não", "mais ou menos". A ideia foi cons- tante para a linguagem escrita em alguns contextos de interação cientizá-los da necessidade de se esclarecer o que significa saber social, mas não são consideradas a única variedade correta do por- tuguês isso significa que professor precisa não apenas se cons- Discutimos e comentamos sobre como todos os brasileiros, geralmente, cientizar das diferenças entre língua falada e língua escrita, mas conseguem se comunicar com todos os brasileiros com quem estabelecem também ter uma postura construtiva em relação aos erros que os um encontro linguístico, independentemente do grau de escolaridade dos alunos cometem ao escrever; indivíduos envolvidos nesse encontro. A discussão levou os cursistas a perce- o professor tem consciência de que texto é eixo em torno do qual berem que as diferenças existentes entre as formas que as pessoas falam não suas aulas devem girar, pois a interação social que a língua estabelece têm nada a ver com a ideia de que determinadas formas de falar estão certas toma sempre e invariavelmente a forma de textos, escritos e falados, ou erradas: têm a ver, e simplesmente, com diferenças, apesar de toda e não a forma de palavras ou sentenças a força e de todo esforço dos puristas para nos fazer crer na ideia de que há brasileiros que matam a língua portuguesa por falarem algo que Feitas essas considerações acerca dos conceitos de língua, precisamos abordar um ponto crucial para a prática do professor de português: significa- supostamente não é português. do da frase "saber Tenho certeza de que todos os estudantes, todos Você já deve ter conversado com pessoas bem diferentes. Dentre elas os brasileiros, analfabetos ou escolarizados, sabern português. Ou não provavelmente algumas pessoas analfabetas ou com pouca escolaridade, as quais conseguiram entender você e se fizeram entendidas, embora elas pos- sam ter realizado construções linguísticas distanciadas dos modelos existentes 1.4 que é saber português? nas gramáticas normativas. Mas o que importa é que você e elas se fizeram entender. Isso demonstra que tanto você quanto as pessoas com quem você tem conversado falam português (se não, que língua é que elas falam?!). Todos os brasileiros sabem português. Entretanto, muitas pessoas acre- ditam piamente não saberem. E, pasmem, não estou me referindo a pessoas Não estou aqui me referindo a conversas sobre assuntos tecnologica- não estou me referindo a pessoas escolarizadas, que mente, ou culturalmente, orientados e que exigem determinado conheci- anos estudando português. Vejamos uma evidência dessa crença, que, por mento enciclopédico por parte dos locutores e dos interlocutores para que a sinal, é infundada. comunicação se estabeleça. Se, em uma conversa, um investidor menciona a Todas as vezes que leciono linguística para turmas de calouros no curso bolsa de futuros, os fundos de hedge e superávit primário brasileiro, somen- de letras, faço a seguinte pergunta na primeira aula: vocês sabem português? te as pessoas que entendem um pouco de mercado de investimentos enten- Pergunto no propósito de confirmar a contribuição que a escola tem dado derão que ele está falando. Se uma pessoa que passou sua vida em Salvador para levar a autoestima linguística dos estudantes para níveis bem baixos. vai à Vila de Serraria, no município baiano de Entre Rios, e é convidada Invariavelmente, um ou dois estudantes afirmam que sabem, alguns dizem para armar um munzuá para pegar uns será que ela vai entender 38 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 39</p><p>exatamente para o que está sendo convidada? Entretanto, se a conversa for Eu tinha lá em casa dez garrafas de cachaça, da boa. Mas minha mulher sobre um assunto que não exige nenhum tipo de conhecimento específico, a obrigou-me a jogá-las fora. Peguei a primeira garrafa, bebi um copo e conversa fluirá normalmente, se necessário com negociações de sentidos que joguei o resto na pia. Peguei a segunda garrafa, bebi outro copo e joguei podem ocorrer pontualmente em quaisquer conversas. o resto na pia. Peguei a terceira garrafa, bebi o resto e joguei o copo na Percebe-se, portanto, que todos os brasileiros, alfabetizados ou não, e pia. Peguei a quarta garrafa, bebi na pia e joguei o resto no copo. Peguei o que não têm nenhum problema que especificamente interfira no desenvol- quinto copo, joguei a rolha na pia e bebi a garrafa. Peguei a sexta pia, vimento da sua faculdade da linguagem, sabem Saber a garrafa e joguei o copo no resto. A sétima garrafa eu peguei no resto e bebi a pia. Peguei no copo, bebi no resto e joguei a pia na oitava significa não apenas ter o domínio inconsciente das estruturas gramaticais, Joguei a nona pia no copo, peguei na garrafa e bebi o resto. décimo das regras que regem essas estruturas e do léxico, mas também ter domínio copo, eu peguei a garrafa no resto e me joguei na de normas socioculturais de comportamento que nos interagir uns com os outros. Saber português não é a mesma coisa que dominar a nomenclatura gramatical registrada pelas gramáticas normativas nem saber Como maridão da piada estava sob efeito do álcool (apenas explicar as construções gramaticais. Isso tem de ficar claro tanto para os pro- por estar obedecendo à esposa, diga-se de passagem), ele passou a construir fessores quanto para os estudantes. sentenças que não fazem parte do sistema linguístico do Mas, ob- serve: a piada obviamente, ficção. Na vida real, as pessoas com muito álcool Steven Pinker (2002,21) cita algumas palavras bem provocativas de na cabeça podem falar (e falam) coisas semanticamente desconexas, porém um importante linguista e antropólogo americano do começo do século XX, elas provavelmente seguirão as regras sintáticas do português. Edwar Sapir: Vamos fazer um teste? Experimente isso: tente falar sentenças nas quais Quando se trata da forma linguística, Platão não se distingue do guardador de sujeito, o verbo, o objeto, a preposição, o adjetivo e advérbio estejam em porcos macedônio, ou Confúcio, do caçador de cabeças selvagem de Assam. posições que não podem ocupar na sentença, e nas quais a conjugação e a con- Pinker faz essa citação para esclarecer que falar uma língua é um ato cordância seriam consideradas inaceitáveis por todos os brasileiros. Por exem- complexo, realizado tanto por pessoas cuja profissão lhes confere a fama de plo: "Ontem conversarei de ela português literatura professor prova sobre de". Você consegue falar sentenças assim espontânea e rapidamente, sem ler, sem intelectuais quanto por pessoas cuja profissão requer trabalho braçal, que lhes confere o estereótipo de pessoas com baixa capacidade intelectual. pensar, mesmo estando sóbrio? Pois é. Acho que não. Isso porque as regras que regem embora sejam extremamente complexas, estão internaliza- Ora, basta que você observe qualquer brasileiro falando português. Ele das em todos os brasileiros, o que nos torna capazes de aplicar regras em constrói suas sentenças segundo regras sintáticas complexas: os sujeitos vêm tempo real para construirmos sentenças e interagirmos com outros brasileiros. expressos quando os verbos os exigem; os verbos trazem complementos ex- Sabemos, pois, mesmo que saibamos variedades diferentes dele. plícitos quando necessário; a conjugação verbal é marcada formalmente nos Até aqui, falei da linguagem oral. Na verdade, e a rigor, não se ensina verbos quando é imprescindível. A complexidade das regras que regem a ninguém a falar sua língua materna. Qualquer criança, sem problemas pa- língua é tão elevada e está tão inconscientemente internalizada em nossas tológicos, aprende a língua falada por sua mãe, seu pai e seus irmãos sem mentes que é extremamente difícil, para qualquer pessoa, falar fluentemente nenhuma instrução formal: basta conviver com eles, falantes de português. sem segui-las deliberadamente, a não ser que haja algum problema que leve falante a não seguir essas regras, como acontece na seguinte piada, que andou 2 Disponível na internet via circulando pela internet durante algum tempo: 41 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 40 COISAS QUE PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira</p><p>No entanto, o aprendizado da escrita se dá de outra Sem ins- Aquele discurso segundo o qual o que os estudantes falam ao chegarem à trução formal, é extremamente que alguém aprenda a escrever. Isso já escola não é português porque se desvia dos mandamentos das gramáticas nos aponta para uma direção em termos do objetivo principal das aulas de normativas não passa de um discurso surrado, preconceituoso e completa- português no ensino fundamental e no ensino médio: o desenvolvimento da mente equivocado do ponto de vista linguístico. Todo estudante brasileiro competência redacional dos que vai à escola sabe português. Por isso, a pergunta que dá título a esta seção E quais as implicações dessas considerações para a prática pedagógica? precisa ser feita e respondida de forma bem clara. Como a língua é um instrumento cultural de interação sociocomunicativa e como todo brasileiro interage socialmente e se comunica com outras pessoas, Quando chega à escola, no ensino fundamental, o estudante possui um podemos seguramente concluir que todo brasileiro sabe logo: determinado nível de competência para se comunicar e para interagir na sociedade, fato que reforça a ideia de que ele sabe Entretanto, ele professor de português sabe que a língua falada e a língua escrita são ainda não sabe como interagir em quaisquer situações sociais. Por exemplo, diferentes e, consequentemente, tem consciência de que seus alunos ele ainda não sabe como se comportar linguisticamente em uma entrevista sabem falar português, embora estejam aprendendo a ler e a escrever, e, de emprego, nem sabe redigir um curriculum vitae, uma carta de apresenta- por isso, ele não desrespeita os alunos criticando suas formas de falar; ção para se candidatar a um emprego ou um anúncio para vender os filhotes o professor não confunde o conhecimento explícito da gramática e da sua cachorra perdigueira. do léxico com conhecimento implícito desses elementos todos brasileiros conhecem implicitamente a gramática e léxico do Ajudar estudante a aprender a se comportar linguisticamente em di- português, que lhes permite falar essa língua, mas só quem estuda versas situações de interação social é o objetivo principal das aulas de por- formalmente a língua portuguesa pode conhecê-la explicitamente e tuguês, que não deveriam ter como foco principal o ensino da gramática pode falar sobre a língua; normativa por meio da nomenclatura que a descreve de forma inconsistente. professor ajuda seus alunos a desconstruírem o mito segundo o Ensina-se aos brasileiros para ajudá-los a desenvolver sua compe- qual eles não sabem tência Mas que vem a ser competência comunicativa? Esse é um termo que tem ocorrido com uma frequência elevada em livros e artigos Como todos os brasileiros têm conhecimento implícito da língua, sobre o ensino de e, por isso, merece ser explicitado. que professor deve, afinal, fazer na sala de aula? A razão pela qual se ensina a brasileiros é de fundamental importância para os professores de Chomsky cunhou dois conceitos teóricos importantes para a português. É dela que trata a próxima seção. ca: competência e desempenho. Ele excluiu do escopo da pesquisa linguística desempenho, os usos linguísticos concretos que as pessoas fazem, manten- do-se fiel à tradição estruturalista e gerando inquietações no meio acadêmi- 1.5 Para que ensinar CO, principalmente entre os sociolinguistas. português a brasileiros? Coube a Hymes confrontar posicionamento teórico chomskyano no tocante a esses dois conceitos e dar uma contribuição importante para ensino de línguas. Para ele, não se deve considerar o desempenho uma re- Todo professor de português precisa fazer a pergunta que dá título a presentação imperfeita da competência exatamente porque a realidade lin- esta seção e de forma clara e inequívoca. Afinal, ao chegar à sala guística de qualquer falante-ouvinte envolve relacionamentos socioculturais de aula, ele se depara com estudantes que já falam português. E atenção, pois e estados emocionais e psicológicos diversos. que Chomsky considera fa- não adianta tapar o sol com a peneira: os estudantes falam português, sim! lhas no uso do conhecimento linguístico, por exemplo, lacunas funcionais, 42 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 43</p><p>repetição e pausas, são, na verdade, fenômenos naturais e integrantes de tença, no sentido de as regras da língua serem seguidas ao se formar uma nossa produção linguística, diferentemente da fala do falante-ouvinte ideal sentença. Ai se inserem conhecimentos sintáticos, morfológicos, proposto por ele e da linguagem artificial falada pelas personagens das te- COS e semânticos, acrescidos da habilidade de usar esses conhecimentos. Por lenovelas: nenhuma delas gagueja (a menos que a personagem seja gaga), exemplo, uma sentença como "O porta está aberto" não é formalmente pos- nenhuma delas se esquece do que vai falar (a menos que esteja dissimulando sível em assim como a sentença "Eu não estudaram a lição". alguma coisa), nenhuma delas é redundante (a menos que a personagem seja Saber criar sentenças formalmente possíveis, entretanto, não basta para estereotipicamente repetitiva). tornar falante comunicativamente competente. Há fatores psicolinguís- Enfim, Hymes rejeita falante-ouvinte ideal chomskyano e sua comu- ticos, como a memória e a concentração, que podem tornar uma frase nidade linguística completamente homogênea. É claro que é possível de- xequível, inviável. falante-ouvinte precisa, portanto, saber criar sentenças fender Chomsky (não que ele precise de defesa!): ele fez a abstração teórica que não causem problemas no ato da comunicação por serem muito longas que julgou necessária para pesquisar as estruturas gramaticais e as regras e muito complexas. É a esse ponto que Hymes se refere quando fala de sintáticas que regem essas estruturas e que estão internalizadas na mente dos exequibilidade. Uma sentença longa demais, com muitos encaixes, pode ser falantes-ouvintes. Ele criou seu objeto teórico a partir de um objeto observa- formalmente possível, mas pode se tornar inexequível devido àqueles fatores. cional que é compartilhado por outros de linhas de pesquisa distin- Veja-se, por exemplo, a sentença abaixo, escrita por Machado de Assis (1998 tas: a língua. Para a pesquisa que empreendeu sobre sintaxe, seu esforço para [1874], 16). Ela mostra como a presença de alguns encaixes exige um maior isolar os fenômenos sintáticos dos fenômenos semânticos é compreensível, esforço de compreensão por parte do usuário da língua portuguesa: mas é totalmente contraintuitivo e insustentável do ponto de vista da reali- Estevão, dotado de extrema habilidade, e não menor fraqueza de ânimo, afe- dade linguística dos usuários de uma língua, além de levar muitos estudantes tuoso e bom, não bondade varonil, que é apanágio de uma alma forte, de licenciatura em letras a acharem gerativismo uma teoria superchata de mas dessa outra bondade mole e de cera, que vai à mercê de todas as circuns- se estudar (há como culpá-los por isso?). tâncias, tinha, além de tudo isso, infortúnio de trazer ainda sobre o nariz os Hymes questiona ainda conceito de competência proposto por óculos cor-de-rosa de suas virginais Chomsky e lembra, com bastante lucidez, que há regras de uso sem as quais Observe-se que, se Machado tivesse aumentado C número de encaixes as regras gramaticais não funcionariam. Hymes, então, se apropria do con- nessa sentença, leitor, provavelmente, teria dificuldades de processá-la e ceito de competência e cunha termo competência comunicativa para se refe- necessitaria le-la umas duas ou três vezes para entendê-la. Percebe-se que a rir não apenas ao conhecimento que falante-ouvinte possui da sua língua, ou viabilidade, de uma frase está estreitamente relacionada ao mas também à habilidade que ele tem para usar esse conhecimento em situa- conceito de desempenho proposto por Chomsky. Como os fatores psicolin- ções comunicativas concretas. Enquanto a proposta chomskyana equipara guísticos e emocionais são partes inerentes do ser humano, Hymes discorda da competência a conhecimento, a proposta de Hymes torna o conhecimento ideia chomskyana de que desempenho é meramente um reflexo imperfeito uma parte da competência, ainda que uma parte importante a outra parte da competência linguística. Vale notar um problema que ocorre com frequên- é a habilidade para usar o conhecimento. cia na redação de trabalhos acadêmicos como dissertações e teses: períodos muito longos que dificultam a leitura torram a paciência dos examinadores. Há quatro aspectos a considerar no conceito de competência comuni- cativa proposto por Hymes: possibilidade formal, exequibilidade, adequação A competência comunicativa dos falantes-ouvintes possui uma parte contextual e possibilidade de ocorrência. Possibilidade formal corresponde sociocultural que estabelece regras para uso das frases de acordo com o àquilo que Chomsky chama de gramaticalidade, i.e., a boa formação da sen- contexto em que eles se encontram é o que Hymes chama de adequação. 44 COISAS QUE TODO PROFESSOR PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 45</p><p>Mesmo que uma frase seja formalmente possível e exequível, ela tem de ser Widdowson (1991 [1978]) ressaltou a importância da análise textual e utilizada de acordo com contexto social e cultural no qual ela é produzida, chamou a atenção dos professores para a necessidade de incorporar ao ensi- i.e., ela tem de ser adequada. Sem essa capacidade de adequação sociolin- no de línguas os conceitos de coesão e de Percebe-se aí começo guística, um falante-ouvinte não é completamente competente para se co- do discurso em defesa da mudança de foco na sala de aula: em vez de se en- municar em situações sociais diversas. fatizar a abordagem gramatical de sentenças descontextualizadas, enfatiza-se a abordagem de textos, destacando-se os usos que se fazem da língua. Por exemplo, em 2007, em meio à crise aérea que atormentava a vida de muitos brasileiros, a então ministra do Turismo, Marta Suplicy, deu seguinte Hymes e Widdowson prepararam caminho para uma definição mais conselho aos passageiros obrigados a esperarem horas e horas nos aeroportos elaborada e mais operacional de competência comunicativa, para que ela pu- por causa do apagão "Relaxe e goze". Essa frase é formalmente possível, desse servir de norte para professores no planejamento de suas aulas e para é exequível, mas não é socialmente adequada porque foi proferida publica- autores de livros didáticos na escolha do conteúdo programático e das ativida- mente por uma ocupante de um importante cargo governamental para pes- des a realizar em sala de aula. Essa definição viria por meio dos trabalhos de soas que se encontravam em uma situação de níveis elevados de insatisfação e dois linguistas canadenses: Merril Swain e, principalmente, Michael Canale. de estresse. Suplicy foi obviamente, e merecidamente, muito criticada por isso. O conceito de competência comunicativa proposto por Canale e Swain Finalmente, vejamos o último aspecto importante do conceito de com- (1980, 5) diz respeito a conhecimentos e a habilidades: petência comunicativa proposto por Hymes: a possibilidade de ocorrência. Conhecimento aqui se refere àquilo que um indivíduo sabe (consciente e in- Uma frase pode ser possível, exequível e adequada ao contexto e, mesmo conscientemente) sobre a língua e sobre outros aspectos do uso comunicativo assim, não ocorrer. Por exemplo, a sentença "Eu trouxe faisão que Vossa da língua; habilidade se refere a quão bem ele pode realizar esse conhecimento Majestade possível, exequível, adequada e pode realmente ocorrer se em comunicação real. falante-ouvinte for mordomo da rainha da Inglaterra e estiver comuni- cando-lhe que fez que foi solicitado. Se falante-ouvinte for eu, a possibi- fica clara a ideia de que conhecimento só é útil se o indivíduo que o lidade de ocorrência dessa sentença é possui também tiver a habilidade de utilizá-lo em situações concretas. Isso vai reforçar, ainda mais, o conjunto de argumentos contrários à adoção da Vale notar que a ideia de possibilidade de ocorrência tem implicações teoria estruturalista da língua para a prática docente. pedagógicas importantes, reforçando a necessidade de ensinar a gramática do ponto de vista pragmático. Por exemplo, tempos verbais como pretérito Esse conceito tinha inicialmente três componentes: competência gra- mais-que-perfeito e futuro do presente estão claramente em desuso na fala matical, competência sociolinguística e competência estratégica. Entretanto, dos brasileiros. Por isso, o professor de português precisa se perguntar por que os trabalhos de Widdowson sobre o discurso, provavelmente, levaram ensinar esses dois pontos gramaticais tendo em vista sua possibi- Canale, três anos após trabalho conjunto com Swain, mais precisamente lidade de ocorrência para perceber que precisa mostrar aos alunos os gêneros em 1983, a aperfeiçoar o conceito de competência comunicativa, que passou textuais e os contextos que favorecem a ocorrência desses tempos verbais. a incluir também uma quarta componente: competência discursiva. Vejamos cada uma dessas competências e como elas podem ser úteis ao professor em A proposta de competência comunicativa feira por Hymes encontrou sua tarefa de ajudar os estudantes no aprendizado de português. eco nos meios acadêmicos voltados para ensino de linguas estrangeiras. Uma das pessoas que ouviram esse eco foi o linguista Henry Widdowson, A COMPETÊNCIA GRAMATICAL é o conhecimento que usuário da língua cujas ideias sobre discurso vieram a contribuir para o refinamento do concei- possui sobre as regras e as características dessa língua (i.e., a sintaxe, a morfolo- to de competência comunicativa. gia, a pronúncia, vocabulário e a grafia), somado às suas habilidades na utiliza- 46 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de PRECISA SABER 47</p><p>ção desse conhecimento para entender enunciados e expressar significados por Um exemplo de impropriedade de sentido que teve consequências ex- meio de enunciados. Podemos perceber que essa competência corresponde ao tradiscursivas interessantes foi um episódio que ocorreu em janeiro de 2005 conceito de possibilidade formal de Hymes e, em parte, ao conceito de compe- na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. O então presidente da tência linguística proposto por Chomsky, qual não inclui a ideia de instituição, Lawrence Summers, proferiu um discurso em que ofereceu uma Ao planejar suas aulas, o professor precisa se certificar de que está razão para explicar o menor número de mulheres em comparação com de oferecendo as informações gramaticais necessárias para ajudar seus alunos homens nas áreas de engenharia e de outras ciências exatas. Para ele, a melhor a construírem os conhecimentos de que precisam para desenvolverem sua explicação para esse fato é que "há questões de aptidão intrínseca". Note-se competência comunicativa. Eis alguns exemplos disso: para formar senten- que a escolha das formas gramaticais feita por Summers foi apropriada no ças adequadas em determinadas situações discursivas, os estudantes precisam sentido de não haver nenhuma palavra pejorativa ou expressivamente ofen- ter informações sobre tempos verbais, vozes verbais, subordinação e coor- Entretanto, enunciado é semanticamente ofensivo por afirmar que denação; para realizarem adivinhação contextual e usarem dicionários, eles as mulheres possuem uma falta de aptidão inata para as ciências A pressão que as mulheres norte-americanas exerceram sobre Summers foi ta- precisam ser informados acerca dos processos de formação de palavras, mais particularmente sobre uso de afixos; para que tenham consciência de como manha que nem seus inúmeros pedidos de desculpa e seus esclarecimentos atingir efeitos estilísticos em determinadas situações, eles devem ser infor- evitaram sua queda do cargo. mados acerca do poder expressivo das palavras. Ao colocar desenvolvimento da competência sociolinguística de seus A COMPETÊNCIA SOCIOLINGUÍSTICA diz respeito às regras socioculturais alunos como um dos objetivos de suas aulas, o professor inevitavelmente leva que regem o uso da língua. É o conhecimento e a habilidade que o usuário da em consideração questões de variação linguística, de registro e de estilo no língua possui para expressar e entender enunciados de um modo apropriado, seu planejamento. Por isso, não dá para colocar a gramática normativa como de acordo com fatores sociais e culturais do contexto em que ele se encontra a razão de ser das aulas de português. É necessário sensibilizar e conscien- no momento da interação linguística, tais como os propósitos e as normas da tizar os alunos acerca das possibilidades que a língua lhes oferece diante de interação e o tipo de relação que falante-ouvinte possui com () interlocu- situações contextuais diversas e que, em algumas dessas situações, determi- tor. Essa competência corresponde ao conceito de adequação contextual de nadas formas propostas pela normativa são apropriadas. Hymes e deixa transparecer a visão interacionista de língua. A COMPETÊNCIA DISCURSIVA diz respeito às regras do discurso. É CO- Ressalte-se que o termo apropriado se refere tanto à forma linguística nhecimento que permite ao usuário da língua combinar formas gramaticais do enunciado quanto a seu sentido. Por exemplo, a reitora de uma univer- e lexicais para se comunicar por meio de diferentes gêneros textuais, falados sidade estadual, dirigindo-se ao governador do Estado, recém-empossado e ou escritos. É claro que a habilidade de usar tal conhecimento faz parte dessa em visita ao campus, demonstraria falta de competência sociolinguística se competência. Seus textos precisam naturalmente ter unidade, atingida prin- dissesse algo como: "E aí, fofinho? Tá a fim de tomar um cafezinho antes do cipalmente através da coesão, no nível linguístico, e através da coerência, no nível semântico. discurso para a galera da graduação?". Apesar de os significados lexicais que compõem seu enunciado estarem apropriados, as formas linguísticas usadas O professor atento ao desenvolvimento da competência discursiva de não seriam apropriadas para a relação entre uma reitora e um governador. A seus alunos prepara atividades de produção e de recepção textual que os façam ideia de que a reitora está oferecendo café é transmitida ao o governador, mas perceber, por exemplo, a função dos pronomes, dos sinônimos e das conjunções juntamente com a ideia de que ela está paquerando novo governante ou de na articulação das partes de um Além disso, professor tem o cuidado de que ela o está tratando como um amigo íntimo. expor seus alunos a textuais diversos e não apenas à redação, que visa 48 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 49</p><p>apenas aos exames do vestibular e do Enem. Atualmente, poderíamos revisar Consciente da importância de ajudar seus alunos a se tornarem autôno- essa componente para nela incluir todos os sete elementos de textualidade mos, independentes, o professor de português planeja algumas aulas com o propostos por Beaugrande e Dressler, como veremos no próximo capítulo. objetivo específico de desenvolver a competência estratégica dos estudantes. Essa é uma competência tradicionalmente negligenciada por professo- Nesse sentido, o professor precisa apresentar a seus alunos estratégias com- res de português por uma razão simples: como foco das aulas tradicionais pensatórias importantes: recursos linguísticos, como a paráfrase, a sinonímia e a lítotes; recursos textuais, como a adivinhação cotextual; recursos biblio- tende a ser a nomenclatura gramatical e as formas propostas pelas gramáticas normativas, texto como fenômeno sociocomunicativo é relegado a segundo gráficos, como uso de dicionários, em relação aos quais o professor terá de plano. A consequência disso é a tendência a colocar a competência discursiva ajudar seus alunos a aprenderem sobre a inexistência de sinônimos perfeitos dos estudantes em segundo plano também. O curioso é que os estudantes são e sobre restrições selecionais ou de co-ocorrência. sempre criticados por escreverem e lerem mal, como se a culpa fosse deles ou A adoção do conceito de competência comunicativa por parte do pro- só deles. Mas deixemos essa discussão para os próximos capítulos. fessor de português tem implicações importantes para sua prática pedagó- A COMPETÊNCIA ESTRATÉGICA de um usuário da língua é o conhe- gica. Antes de qualquer coisa, fica claro que para seus alunos serem capazes cimento de estratégias verbais e não verbais e a habilidade que ele possui de usar a língua portuguesa oralmente e por escrito em situações sociais de colocar essas estratégias em prática, a fim de compensar alguma falha diversas não basta apenas que sua competência gramatical seja desenvolvida. em uma ou mais de uma das outras competências (falha decorrente de uma O professor passa a perceber que a nomenclatura gramatical e a gramática normativa não devem ser foco das aulas de embora nada proíba competência não muito desenvolvida, de uma falha na memória ou de um problema emocional ou físico temporário). Exemplos dessas estratégias de que elas sejam abordadas de maneira lúcida e funcional em sala (tocaremos compensação são as paráfrases, as definições, o uso de sinônimos, uso de nesse ponto no capítulo 6). Outra implicação é a transformação que ocorre dicionários, os gestos e os desenhos. Um exemplo mais concreto do funcio- na percepção do professor em relação ao ensino de texto passa namento dessa competência surge quando ocorre uma lacuna funcional, que a ser eixo em torno do qual suas aulas giram, ecoando a presença dos ele- é a falta de uma palavra para expressarmos exatamente o que queremos falar: mentos que a virada pragmática trouxe de volta à cena linguística. em português, quando nos esquecemos de uma palavra, lançamos mão de um É interessante notar que alguns autores brasileiros mencionam termo arquilexema universal como coisa, negócio ou treco (Oliveira, 2008a). competência A única obra na qual há uma definição clara desse Um exemplo basta para ilustrar como a competência estratégica pode conceito é livro Nós cheguemu na escola, e agora?- Sociolinguistica & educação, de Stella Maris Bortoni-Ricardo (2005). Pelo menos, essa foi a única obra ajudar uma pessoa. Em 1983, me submeti ao exame do Michigan, um teste de proficiência em língua inglesa. Eu tinha 20 minutos para escrever uma em que encontrei uma definição. Se há outras, desconheço e faço mea redação, o que significa que, uma vez iniciado, não havia tempo para mudar Contudo, ela traz apenas conceito de Hymes, que não é pedagogicamente caminho escolhido. Bem, no meio da redação, precisei escrever a palavra operacional como o de Canale. inglesa que corresponde a satélite. O problema é que não me lembrava da O conceito de competência comunicativa de Canale serve como sus- grafia dessa palavra. Como não queria perder pontos por ortografia, usei uma tentáculo teórico para o planejamento das aulas. Ele ajuda o professor a ava- estratégia de compensação: a perífrase. Redigi, em inglês: "a máquina que é liar se suas aulas estão visando ao desenvolvimento dos recursos linguísticos enviada ao espaço para fotografar corpos celestes". Assim, evitei que descon- de seus alunos nas quatro áreas contempladas pelas componentes da compe- tassem algum ponto da minha redação por causa de um erro de ortografia. tência comunicativa. 50 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 51</p><p>Vale lembrar que nada impede que se vislumbre um conceito de com- dos políticos, que curiosamente nos fazem pensar que estão sempre violando petência comunicativa que tenha mais de quatro componentes. Embora a máxima da qualidade). É exatamente esse pressuposto que permite a exis- modelo proposto por Canale seja importante para ajudar professor na tência da ironia e da mentira, que se diferenciam uma da outra por um ponto construção de aulas voltadas para ajudar seus alunos a ampliarem sua ca- pacidade de se comportar adequadamente em situações sociocomunicativas simples: a mentira é uma afirmação falsa feita por um locutor que espera que seu interlocutor não descubra que é falsa; a ironia também é uma afirmação diversas, há mais uma coisa que pode agregar valor ao conceito de compe- contrária à verdade, só que, nesse caso, locutor espera que seu interlocutor tência refiro-me às máximas conversacionais, propostas pelo perceba que ela é uma afirmação falsa, do contrário a ironia não ocorre. filósofo da Paul Grice (apud Oliveira, 2008a), as quais, embora digam respeito originalmente à fala, podem perfeitamente se referir à escrita. O professor pode explorar isso com seus alunos mostrando textos em que a ironia é mais ou menos explícita. Esses textos podem ser transcritos Grice analisou a comunicação humana e chegou à conclusão de que de programas de TV e de rádio ou retirados de jornais, revistas e livros. Por as pessoas tendem a cooperar para que a comunicação entre elas seja bem- -sucedida. Grice sugeriu que há um PRINCÍPIO DA COOPERAÇÃO, composto exemplo, no dia 12 de março de 2009, um repórter do Sportv fez seguinte comentário sobre um jogador do Corinthians: de quatro regras ou máximas, qual rege os encontros comunicativos. Escudero entrou no lugar de Ronaldo e, com dois minutos cm campo, recebeu A MÁXIMA DA QUANTIDADE nos diz que nossa contribuição ao ato comu- cartão Em seis jogos, seis cartões amarelos, Escudero é, sem dúvida, nicativo deve ser tão informativa quanto necessária. Não devemos dar informa- jogador mais regular do campeonato. ções em excesso nem informações insuficientes a nossos interlocutores. Essa é uma máxima importante: tanto a falta de informações quanto o excesso de in- Agora, observe-se seguinte trecho, que inicia o artigo "Academia formações podem atrapalhar o ato comunicativo ou ajudar um dos participantes Brasileira de Letras recria a Torre de Babel no novo Vocabulário", publicado desse ato a atingir objetivos que sejam desconhecidos por outros participantes. na edição de 16 de setembro de 2008 da revista Veja: Alguns candidatos a cargos públicos, por exemplo, costumam dar infor- A Academia Brasileira de Letras, além dos tradicionais chás com pasteizinhos mações de menos para conseguirem que querem. Essa violação da máxima de carne de todas as quintas-feiras, usou seu tempo nos últimos meses para de quantidade configura crime de falsidade ideológica, que, segundo o ar- elaborar novo Vocabulário Ortográfico da Lingua Portuguesa. tigo 299 do capítulo do Código Penal, é o ato de Depois de um início desses, não dá para esperar outra coisa além de omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, uma crítica forte... Pois estão as palavras que seguem esse trecho: ou inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser es- Um trabalho malfeito, pouco rigoroso, repleto de vícios. crita, com fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante. Bem, continuemos com Grice. A MÁXIMA DA RELAÇÃO nos diz para ser- mos relevantes naquilo que vamos dizer a nossos Se alguém A falsidade ocorre com a omissão de informações e com a já disse algo a você e você reagiu dizendo "E Que é que eu tenho com distorção da verdade, que nos leva à próxima máxima. isso?", a máxima da relação não foi seguida por essa pessoa. A MÁXIMA DA QUALIDADE nos diz para sermos sinceros. Isso é interes- Essa máxima já aponta para um elemento importante produção sante porque realmente partimos do pressuposto de que as pessoas tendem textual: a preocupação que escritor deve ter a respeito de para ele a nos dizer a verdade. Não ficamos constante e neuroticamente nos pergun- escreve. Afinal, só posso saber se o que escrevo é relevante se souber para tando se que acabaram de nos dizer é verdade ou não (à exceção do caso quem estou escrevendo. 52 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 53</p><p>A MÁXIMA DA MANEIRA nos diz para ser claros, concisos, precisos e orga- seus alunos a desenvolverem as competências de leitura e de escrita. Essas nizados. Quando professor de português recomenda a seus alunos que sejam sugestões estão bascadas na proposta de Canale (1990 [1983]). claros e organizados na hora de escrever, ele está recomendando que eles sigam (a) COMPETÊNCIA GRAMATICAL essa máxima. Essa máxima é tão importante que deve ser seguida, por exemplo, por empresas quando vendem produtos e serviços, senão elas podem até ser pu- A pronúncia de palavras em dialetos regionais diferentes. Isso ajuda nidas. Foi que aconteceu com uma empresa fabricante de duchas e chuveiros a evidenciar a heterogeneidade do português brasileiro e a conscien- em 2008, conforme nos informa essa manchete do jornal A Gazeta do Povo: tizar os estudantes acerca da estigmatização que a pronúncia de al- gumas palavras, e consequentemente quem as pronuncia, sofre. Eis alguns exemplos: ['tawba] para ['gawfu] para garfo; ['basora] Lorenzetti é multada por falta para vassoura; ['polta] para porta. A ortografia. Principalmente os casos em que há uma clara influ- de clareza em embalagem de ducha ência da oralidade, como a confusão que muitos estudantes fazem entre as formas da terceira pessoa singular e infinitivo do verbo As máximas conversacionais são muitas vezes seguidas e outras vezes, estar. Eis dois exemplos: "Dinho vai almoçá com Dona Ivone hoje" violadas. Quando ocorrem violações, surge aquilo que Grice chamou de im- e "Luciano estar escrevendo um livro agora". plicaturas conversacionais. Quando uma pessoa dá informações de mais ou As convenções de pontuação. Principalmente o uso da vírgula, de menos, ou quando ela não está sendo clara e está se enrolando toda para pois há uma crença, falsa e generalizada, de que a vírgula representa dizer algo, seu interlocutor passa a se perguntar: "Por que ela está omitindo pausas, levando muitos estudantes a separar o sujeito do verbo, por coisas?" ou "Por que ela está dando tantas informações?" ou "Por que ela está exemplo. A vírgula é usada para agrupar unidades sintáticas. se enrolando toda?". vocabulário. Desde o significado das palavras até as restrições selecionais que o sistema linguístico lhes impõe. Os estudantes pre- Essas perguntas que fazemos a nós mesmos a respeito da violação de cisam ser informados a respeito dos efeitos de sentido que a ocor- alguma máxima são exemplos das implicaturas conversacionais e se resumem rência de determinada palavra em relação sintagmática com outras à seguinte pergunta: que a violação implica? O professor de português pre- pode causar, como, por exemplo, os efeitos que vemos na seguinte cisa informar seus alunos a respeito dessas máximas de suas violações para frase, dita por uma aluna minha: "O jegue do meu vizinho ajudá-los a tomarem consciência de que a linguagem não é ingênua, mas um Ficamos sem saber quem se foi jegue que pertencia ao lugar de encontro de indivíduos em que se estabelecem relações socialmente vizinho da minha aluna ou se foi o vizinho que ela considerava pou- marcadas, conforme alerta Oswald Ducrot (1972). Vale notar ainda que as CO inteligente. Essa ambiguidade é causada pelo verbo morreu, que máximas conversacionais propostas por Grice se relacionam estreitamente pode ter como sujeito tanto um ser humano quanto outros animais. com a competência sociolinguística e a competência discursiva, mas deixa- Se o verbo usado tivesse sido faleceu, não haveria ambiguidade por- remos para falar um pouco mais delas quando abordarmos os elementos de que este verbo só ocorre com um sujeito humano (Oliveira, 2008a). textualidade e a escrita no capítulo 3. Os mecanismos de formação de palavras. Principalmente a afixa- E para finalizar esta seção, ofereço a seguir algumas sugestões de ele- ção, pois reconhecimento de afixos é um recurso que vai permitir mentos que fazem parte de cada uma das componentes da competência ao estudante desenvolver duas estratégias de compensação: a adivi- municativa para os quais professor precisa atentar no momento de ajudar cotextual e o uso de dicionário. 54 QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 55</p><p>A concordância. Afinal, a falta dela é alvo principal do precon- (d) COMPETÊNCIA ESTRATÉGICA ceito linguístico no Brasil. Quem não se lembra do famoso debate político entre os então candidatos à presidência Fernando Collor uso de dicionários, ferramenta importante para o processo de de Mello e Luiz Inácio Lula da Silva ocorrido em 1989? Lula saiu construção da autonomia do Observe-se que o professor dali sofrendo as consequências do preconceito linguístico por causa precisa ajudar os alunos a aprenderem a manusear um dicionário, de construções do tipo "menas gente vai precisar de hospital". E orientando-os acerca das informações que esse livro de referência que dizer do famoso "nós vai", dito por milhões de brasileiros? traz sobre os itens lexicais. Além disso, ele precisa alertá-los a res- (Analisaremos este ponto em detalhes no capítulo 6.) peito da inexistência de sinônimos perfeitos e da importância de se Os tempos verbais. Tanto os que são frequentemente usados pe- atentar para as restrições selecionais ou de coocorrência. los brasileiros quanto os que estão em desuso na oralidade, como uso de gramáticas normativas. Nesse caso, o professor precisa pretérito mais-que-perfeito e o futuro do presente. Nesse caso, alertar o estudante para as falhas conceituais dessas gramáticas. professor precisa ajudar os alunos a conhecerem os gêneros textuais capítulo 6 tratará deste ponto. em que tais tempos verbais tendem a ocorrer. Estratégias não verbais, como mímica e desenho, e estratégias (b) SOCIOLINGUÍSTICA verbais, como a perífrase e uso de palavras Essas estratégias de compensação servem para situações em que falte vo- A adequação das construções verbais a situações interacionais di- cabulário ou alguma estrutura gramatical ao versas. Nesse caso, o trabalho com gêneros textuais diversificados e atividades em que os estudantes se conscientizem da questão do Fica claro, portanto, que, diante do fato de todos os brasileiros saberem registro, dos graus de formalidade, são muito importantes. português, na prática pedagógica, o professor tem por objetivo primordial aju- As diferenças entre língua falada e língua escrita. Isso é essencial dar seus alunos a desenvolverem sua competência comunicativa para que eles para conscientizar os estudantes de que não escrevemos como fa- aprendam a se comportar de forma linguisticamente adequada em situações de lamos e nem falamos como escrevemos e, assim, levá-los a refletir interação sociocultural diversas, por meio da escri- sobre as semelhanças e diferenças entre a fala e a escrita, sobre a ta. Isso significa que o professor ajuda os alunos a conhecerem gêneros textuais existência de diferentes gramáticas do variados e a se tornarem conscientes de que a língua não é ingênua, não é neu- tra, e que ela gira em torno de textos. no capítulo 2, veremos questões (c) COMPETÊNCIA DISCURSIVA importantes relativas ensino da leitura do ponto de vista pragmático. Os gêneros textuais, aos quais dedicaremos uma seção no próximo capítulo. Os elementos de textualidade, aos quais dedicaremos uma seção no próximo capítulo. As máximas conversacionais de Grice, que abordamos anterior- mente e que servem de ponto de partida para sobre o fun- cionamento da comunicação. Acrescentei a essa componente de competência comunicativa elemen- tos resultantes da contribuição que a linguística textual e a filosofia da lin- guagem deram à virada pragmática. 56 COISAS QUE TODO PROFESSOR DE PRECISA SABER Luciano Amaral Oliveira 5 coisas que todo professor de português PRECISA SABER 57</p>