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<p>© Edições Universitárias Lusófonas</p><p>Título: Inspiração Psicanalítica - Freud e as psicoterapias dinâmicas e</p><p>de suporte</p><p>Autor: José Martinho</p><p>Edição: Edições Universitárias Lusófonas, Maio de 2011</p><p>Capa: Rute Muchacho</p><p>Paginação: Ana Sofi a Bastos</p><p>Impressão e acabamento: Clássica - Artes Gráfi cas, S.A.</p><p>Depósito Legal: 331349/11</p><p>ISBN: 978-989-8512-05-5</p><p>Tiragem: 250 exemplares</p><p>Todos os direitos desta edição reservados por:</p><p>Edições Universitárias Lusófonas</p><p>Campo Grande, 376 - 1749-024 Lisboa</p><p>Telef.: 217 515 500 Fax: 217 577 006</p><p>Email: edicoes.lusofonas@ulusofona.pt</p><p>José Martinho</p><p>INSPIRAÇÃO PSICANALÍTICA</p><p>Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Colecção “Psicanálise”</p><p>Edições Universitárias Lusófonas</p><p>INDICE</p><p>PREFÁCIO 09</p><p>I – O QUE DIZ O SINTOMA AO PSICANALISTA</p><p>1.1. O sintoma na Medicina, na Psicoterapia e na Psicanálise</p><p>1.2. De Freud aos nossos dias</p><p>11</p><p>13</p><p>30</p><p>II - FREUD AO PÉ DA LETRA: PRINCÍPIO, MEIO E FINS DA PSICANÁLISE</p><p>2.1. Amor em análise</p><p>2.2. Interpretar, reconstruir e construir</p><p>2.3. Fins da análise</p><p>51</p><p>53</p><p>69</p><p>87</p><p>III - PSICANÁLISE E PSICOTERAPIAS</p><p>3.1. Intersecção Psicanálise – Psicoterapia</p><p>3.2. A Entrevista Psicológica e Clínica</p><p>3.3. Psicoterapias Breves</p><p>3.4. Grupanálise</p><p>3.5. Psicodrama</p><p>111</p><p>113</p><p>119</p><p>142</p><p>149</p><p>161</p><p>BIBLIOGRAFIAS 175</p><p>9</p><p>José Martinho</p><p>PREFÁCIO</p><p>Este livro resulta em boa parte das aulas de “Psicoterapias</p><p>Dinâmicas e de Suporte” que lecciono no Mestrado de Psicologia,</p><p>Aconselhamento e Psicoterapia da Faculdade de Psicologia da</p><p>Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias e, mais</p><p>recentemente, na Pós-graduação em Consulta de Psicologia,</p><p>Aconselhamento e Psicoterapia do ISLA (Leiria), e num Seminário da</p><p>formação clínica da Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Breves.</p><p>O que interrogo basicamente aqui é a inspiração psicanalítica das</p><p>designadas “Psicoterapias Dinâmicas e de Suporte”. O primeiro</p><p>capítulo conduz este questionamento para a distinção entre o</p><p>sintoma psicanalítico e o sintoma médico e psicoterapêutico.</p><p>Através do comentário de três textos escolhidos de Freud, o segundo</p><p>capítulo esclarece o que é o princípio, o meio e os fi ns da Psicanálise.</p><p>O terceiro capítulo fala da Intersecção Psicanálise – Psicoterapia, e</p><p>debruça-se sobre algumas psicoterapias individuais e de grupo que</p><p>correspondem a esta operação lógica.</p><p>José Martinho</p><p>Lisboa 29/11/2010</p><p>O QUE DIZ O SINTOMA AO PSICANALISTA</p><p>13</p><p>José Martinho</p><p>1</p><p>“Não há nada para o qual o homem, pela sua organização,</p><p>esteja menos capacitado do que para a psicanálise”</p><p>Freud</p><p>“O homem é carne feita de sublimação”</p><p>Freud</p><p>1.1 O sintoma na Medicina, na Psicoterapia e na Psicanálise</p><p>Ouve-se muitas vezes dizer que Freud foi o “pai” da Psicanálise</p><p>e esta a “mãe” de todas as psicoterapias.1 Mas Freud não deu o</p><p>nome de “Psicanálise” a nenhuma das suas fi lhas, e a dita “mãe” das</p><p>psicoterapias não é propriamente uma Psicoterapia. Vejamos de</p><p>mais perto.</p><p>O que pode levar a uma certa confusão sobre a praxis da Psicanálise</p><p>e da Psicoterapia é o facto de o sintoma ser o ponto de partida</p><p>empírico das duas. Ambas começam geralmente por uma difi culdade</p><p>concreta: uma ansiedade premente, um sentimento de tristeza que</p><p>alastra, uma ideia que parasita a mente, um impulso para comer ou</p><p>beber, por vezes a simples necessidade de um conselho. O terapeuta</p><p>surge como aquele que sabe libertar destes transtornos. Mas a sua</p><p>acção é dupla: por um lado, consegue mudar o comportamento e o</p><p>pensamento do indivíduo, mas, por outro lado, acaba por tocar num</p><p>1. Emprego geralmente neste livro o termo “Psicanálise” (com maiúscula) para designar</p><p>a invenção de Freud, mesmo se existem quase tantas psicanálises como maneiras de</p><p>praticar e conceber a “coisa”. O termo “Psicoterapia” refere-se basicamente ao conjunto</p><p>das terapias de inspiração psicanalítica, nomeadamente as “Dinâmicas e de Suporte”.</p><p>14</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>mal ainda maior.</p><p>Aquilo distingue a partir daqui a Psicanálise da Psicoterapia é a</p><p>maneira como cada uma delas concebe este mal-estar, e mais</p><p>particularmente lida com a forma como se apresenta no pedido</p><p>de ajuda do sujeito, o qual não corresponde exactamente ao seu</p><p>sintoma nuclear.</p><p>Como seguem desde o início o modelo médico do tratamento e da</p><p>cura, as psicoterapias apresentam-se geralmente como medicinas da</p><p>alma tendo como principal objectivo a remoção dos sintomas.</p><p>Mas Freud distingue explicitamente a “doença” do “sintoma”, ao</p><p>mesmo tempo que afi rma que a única coisa de tangível que resta</p><p>depois de tratada a doença é a capacidade de formar “novos</p><p>sintomas”.2</p><p>O novo sintoma não é um distúrbio do equilíbrio natural provocado</p><p>pela análise, nem a alteração de uma função orgânica; o sintoma</p><p>após a análise é uma nova maneira de lidar com os sintomas da</p><p>antiga doença, e sobretudo o “benefício” que resulta do “novo tipo</p><p>de funcionamento”.3 Este propósito de Freud obriga-me a distinguir</p><p>desde já o sintoma psicanalítico do sintoma que se impõe na prática</p><p>do clínico?4</p><p>2. FREUD, Sigmund. (1989). “Os caminhos para a formação de sintoma”. Textos Essenciais</p><p>da Psicanálise III. Lisboa: Publicações Europa América, p.127</p><p>3. FREUD, Sigmund. (1951). Inhibition, symptôme e angoisse. Paris: PUF, p 1.</p><p>4. O termo “clínica” designa uma inclinação objectiva (o acto de se debruçar sobre</p><p>a cabeceira do leito doente para observar os sinais da doença) e subjectiva (um</p><p>int eresse próprio e algo mórbido pelo sofrimento alheio).</p><p>15</p><p>José Martinho</p><p>Desde Hipócrates de Cós (460 - 380 a.C.) que o sintoma é concebido</p><p>como o “signo” (το σημειον)5 de uma desarmonia. Este “signo”</p><p>comporta um equívoco, pois é ao mesmo tempo o sinal de uma</p><p>perturbação da ordem natural e um termo do vocabulário médico.</p><p>Na Antiguidade clássica, toda a desarmonia se destaca sobre um</p><p>fundo de harmonia preestabelecida. A doença, por exemplo, é vista</p><p>como um distúrbio da ordem cósmica que devia reinar.</p><p>Depois de acreditarem que eram os deuses que enviavam as maleitas</p><p>aos mortais para os castigarem por alguma falta de moderação,</p><p>os Gregos começaram a interessar-se pelas causas naturais das</p><p>doenças. É nesse momento que nasce a seita laica dos fi siatras, ou</p><p>seja, dos médicos.6</p><p>A procura da causa física - que Aristóteles diferencia em causa material,</p><p>formal, efi ciente e fi nal – pôs de lado a possibilidade de uma doença</p><p>da “psique”. Apesar de se encontrarem descrições da melancolia, da</p><p>mania, da histeria e da epilepsia nos livros de Medicina antiga, as</p><p>escolas médicas de Cós e de Cnido nunca distinguiram entre doenças</p><p>físicas e psíquicas. O que dominou a Medicina ocidental até ao século</p><p>XVII foi a teoria dos “quatro humores” de Hipócrates e Galeno (Roma,</p><p>5. Etimologicamente, “sintoma” é o que cai (ptôma) junto (sym). O símbolo (symbolon)</p><p>reúne o que se quebrou ou separou. Articulando sintoma e símbolo, Freud diz que,</p><p>como o cristal, o sintoma tem uma estrutura, logo que, quando há quebra, as partes</p><p>fragmentam-se seguindo as linhas defi nidas previamente pela estrutura. No seu</p><p>primeiro ensino, Lacan explicou que a estrutura comum ao sintoma psicanalítico e</p><p>à fala do analisando é a da linguagem, a “ordem simbólica” da “língua” (de Saussure).</p><p>No seu último ensino, Lacan mostra que a referida estrutura é topológica, e que por</p><p>conseguinte o que o sintoma não é um cristal (signifi cante), mas um nó (borromeano).</p><p>Cf. LACAN, Jacques. (2005). Le Séminaire, livre XXIII, Le sinthome. Paris: Seuil.</p><p>6. Nalgumas situações, a cólera dos deuses podia ser acalmada por um sacrifício</p><p>animal (galo, cordeiro, etc.) ou humano (virgem, etc.).</p><p>16</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>(129-204 d.C.). Esta pretendia que o temperamento ou os estados</p><p>da alma dependiam da variação – equilíbrio ou desequilíbrio - dos</p><p>humores do corpo.7</p><p>Só muitos séculos mais tarde é que se pôde admitir a existência</p><p>prestada inicialmente a esta matéria-</p><p>prima descuidou a relação que a palavra (consciente/inconsciente)</p><p>entretém com a pulsão, o que fez com que não se tenha previsto a</p><p>fantasia sexual e a declaração de amor dos analisandos, logo que não</p><p>se tenha elaborado uma estratégia a esse respeito.</p><p>Freud cita apenas uma das diversas situações que se podem</p><p>apresentar no decorrer da análise: a da analisanda que confessa</p><p>abertamente o seu amor pelo analista.38 Os motivos desta escolha</p><p>são múltiplos: razões pessoais e históricas, mas também pela</p><p>sua frequência, o interesse técnico e a importância teórica que o</p><p>fenómeno adquiriu no aperfeiçoamento do método analítico.39</p><p>O senso comum acredita que as coisas do amor só dizem respeito à</p><p>vida privada, ou que apenas podem ser escritas num diário íntimo,</p><p>não destinado a ser lido por outros. Quanto ao sábio e ao médico,40</p><p>preferem normalmente calar-se sobre o assunto, por discrição, mas</p><p>também por o considerarem sem interesse científi co e clínico. No</p><p>entanto, Freud recorda que estas posições por assim dizer normais</p><p>atrasaram de pelo menos uma década o progresso da psicanálise.</p><p>38. As Observações defi nem a transferência em geral como “Amor”. Antes delas, A</p><p>Dinâmica da Transferência distinguia entre transferência negativa (ódio), transferência</p><p>positiva (amor) e transferência erótica; apesar desta distinção, Freud diz que é</p><p>sempre do recalcamento do amor inconsciente que deriva a ordem sentimental da</p><p>vida consciente. O amor transferêncial inclui também o amor homossexual. Este</p><p>é abordado, por exemplo, na 27ª Conferência da Introdução à Psicanálise, de Freud,</p><p>onde este explica que o analisando idealiza também o analista do mesmo sexo e sente</p><p>ciúmes dele. O mais importante é que se entenda que o psicanalista como tal não é</p><p>um homem, nem uma mulher, não é velho, nem novo.</p><p>39. Cf. Os casos de Anna O/Breuer, ou de Lucy R, e de Dora/Freud. O tipo de amor</p><p>tratado nestas Observações diz sobretudo respeito às relações entre a histérica e o seu</p><p>médico psicoterapeuta, relações que, como se sabe, estiveram na origem da invenção</p><p>da psicanálise.</p><p>40. Breuer, Fliess e mais tarde Jung, Ferenczi, Jones, entre outros.</p><p>56</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>O amor é um fenómeno bastante corrente, que não acontece apenas</p><p>na análise; a dissimetria entre o “médico” e a “doente” também é algo</p><p>de normal em todo o amor, bem como na maioria das relações.</p><p>Freud escreve sobretudo para os psicanalistas. Mas como a psicanálise</p><p>começou também a fazer parte do mundo moderno, ele diz que se</p><p>tornou necessário falar publicamente do assunto, não para aumentar</p><p>a clientela, mas para esclarecer a opinião pública sobre a ética da</p><p>psicanálise. Dito isto, sossega imediatamente o leitor afi rmando que</p><p>é sempre o interesse da analisanda que prevalece na análise.</p><p>Não existem aparentemente mais do que três desfechos possíveis</p><p>diante de uma declaração de amor. No presente caso, podemos</p><p>resumi-los do seguinte modo: primeiro, o analista e a analisanda estão</p><p>interessados naquele amor, o que signifi ca que podem estabelecer</p><p>entre si uma relação lícita como o casamento e abandonar a análise.</p><p>Segundo, um dos dois não está interessado nesse amor, e, por</p><p>conseguinte, pode interromper a análise e deixar de ver o outro.</p><p>Terceiro, tentam uma experiência em comum que seja ao mesmo</p><p>tempo uma solução de compromisso entre a análise e o amor.</p><p>O mais espantoso é que Freud afi rme que o psicanalista não sai da</p><p>situação por nenhuma destas portas, ou que ele oferece um modelo</p><p>que não existe na vida real. Esta afi rmação indica que o psicanalista</p><p>possui algo de inumano, uma vez que não se comporta aqui como</p><p>qualquer homem ou mulher.</p><p>A terceira possibilidade – prosseguir a análise entrando em amores</p><p>escondidos ou relações ilícitas e destinadas a não durar – é a mais</p><p>57</p><p>José Martinho</p><p>inadmissível para Freud, porque não respeita a honestidade que</p><p>deve inspirar a psicanálise. É por conseguinte uma saída que não</p><p>serve o amor, nem a psicanálise.</p><p>No primeiro caso, o casamento conduz à interrupção da análise.</p><p>Mas o casamento e a família nunca curaram as neuroses; podem</p><p>até intensifi cá-las. Freud dá como exemplo o ciúme patológico de</p><p>Tolstoi, e o dos pais e maridos que recusam que as suas fi lhas e</p><p>mulheres consultem um ginecologista.</p><p>A segunda saída é a única que ensina alguma coisa à Psicanálise.</p><p>Se o analista e a analisanda se separaram, esta pode piorar e ter de</p><p>recorrer a um outro psicanalista. O que a experiência mostra é que,</p><p>neste caso, ela vai também enamorar-se do novo analista. Há, pois,</p><p>uma repetição. A recorrência do fenómeno prova que a pessoa do</p><p>analista não conta no desencadeamento do amor transferêncial, que</p><p>não se trata de uma “conquista” – as qualidades físicas, intelectuais</p><p>e morais do analista não interessam para o caso –, mas de algo</p><p>induzido pelo próprio artifício da análise.</p><p>Quando tomaram conhecimento de que o amor de transferência</p><p>era recorrente, alguns “psicanalistas” começaram a incitar as suas</p><p>pacientes para se enamorarem o mais rapidamente possível deles,</p><p>para assim abreviar o tempo e os custos do tratamento. Freud</p><p>comenta que não pode imaginar uma “técnica” mais insensata; como</p><p>se fosse possível encomendar o amor, retirar-lhe a espontaneidade,</p><p>o entusiasmo ou a fé que sempre manifesta.</p><p>É na Psicoterapia da Histeria (1893-1895) que Freud fala pela primeira</p><p>58</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>vez da “transferência” como uma usual “falsa ligação” entre certas</p><p>representações que afl igem o doente e a pessoa do seu médico.</p><p>Na Interpretação dos sonhos (1900), o termo “transferência” designa</p><p>apenas o transporte de conteúdos inconscientes para o consciente,</p><p>movimento que contribui para o objectivo do tratamento. Com o</p><p>“caso Dora” (1909), a transferência reaparece como um obstáculo</p><p>clínico, que impede a persecução da análise. A Dinâmica da</p><p>Transferência e as Observações (1914) vão primeiramente denunciar</p><p>o amor transferêncial como a mais forte das resistências; mas,</p><p>ultrapassando o impasse, acabam por fazer dele a mola mestra da</p><p>análise, ligando-o para sempre ao princípio desta última: a palavra.</p><p>O que é uma resistência? Resistência, diz Freud, é tudo o que impede</p><p>a continuação da análise. Como a análise é uma prática da fala, é</p><p>também na fala que a resistência aparece.</p><p>Mais precisamente, é o Ego ou o Eu da analisanda que resiste, quando</p><p>declara conscientemente o seu amor pelo analista. É, pois, ele que</p><p>faz estagnar o diálogo ou a dialéctica do desejo e impede o acesso</p><p>ao inconsciente.</p><p>O fenómeno ocorre normalmente quando a analisanda se dá conta</p><p>de uma verdade inconveniente; a rememoração e a elaboração dos</p><p>conteúdos mentais são então interrompidas.</p><p>Mas a resistência do Eu da analisanda é apenas um dos aspectos do</p><p>problema. Em primeiro lugar, diz Freud, porque o amor já lá estava</p><p>antes da análise.</p><p>59</p><p>José Martinho</p><p>Ele já lá estava ao nível da própria demanda de análise. Pedir alguma</p><p>coisa a alguém (ajuda, tratamento, compreensão, etc.) é sempre, no</p><p>fundo, pedir-lhe amor. 41 Veremos mais adiante que o amor também</p><p>já lá estava antes do pedido de análise.</p><p>O amor da analisanda é à partida um amor inconsciente. No entanto,</p><p>já é possível ler os seus sinais. Por exemplo, no início da análise,</p><p>a analisanda mostrava-se dócil às interpretações, inteligente,</p><p>afectuosa, tirava todos os trunfos da manga para agradar ao analista.</p><p>É geralmente quando sente a angústia da perda de amor, ou está</p><p>prestes a reconhecer algo de penoso, que a consciência volta a cortar</p><p>a palavra ao inconsciente. A analisanda sacrifi ca, então, a verdade</p><p>que emergia, muda de discurso e confessa abertamente o seu amor</p><p>pelo analista.</p><p>Assistimos desde logo ao seguinte: ela deixa de se preocupar com</p><p>o que antes a fazia sofrer para se focar no analista;</p><p>deixa de falar</p><p>daquilo que a trouxe à análise, diz-se até curada, para se dedicar</p><p>exclusivamente ao seu novo amor. Através do amor de transferência,</p><p>o sintoma da analisanda toma uma outra direcção, vem ter com o</p><p>analista e procura satisfazer-se com este.</p><p>41. O divã apenas ajuda aqui a baixar as defesas de quem está disposto a pagar a um</p><p>analista, por um tempo indeterminado, para contar tudo o que lhe apetece. O analista</p><p>procede dando a palavra a quem a demanda. O que contará então, como diz Lacan</p><p>no Seminário II, é “o momento signifi cativo da passagem de poderes do sujeito ao</p><p>Outro (…), que é o lugar da fala, virtualmente o lugar da verdade”. O que decorre disto,</p><p>como Lacan destaca a partir do Seminário sobre A Identifi cação, é que o amor pelo</p><p>analista não é um sentimento, pois, à partida, a analisanda não sente nada por ele. A</p><p>demanda fundamenta-se no saber que se supõe ao analista. Saber suposto, porque,</p><p>na realidade, o analista não sabe nada à partida dos seus analisandos. A questão que</p><p>se segue é se o saber suposto ao analista abre, ou fecha, o caminho para o verdadeiro</p><p>saber, que é o do inconsciente (cf. Seminário XI, de Lacan).</p><p>60</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Mas se o consciente da analisanda resiste à verdade, o inconsciente</p><p>não. O inconsciente faz também vir à fala o que está inscrito na</p><p>memória, em particular a falta de amor que faz sofrer. A repetição</p><p>desta falta passa a mostrar que o amor que faltava antes da chegada</p><p>à análise contribuiu fortemente para a formação do sintoma</p><p>que atrapalhava a vida da analisanda. Só que agora o problema</p><p>complicou-se, porque ela acredita ter encontrado no analista o seu</p><p>verdadeiro amor.</p><p>Nem sempre é possível sair desta complexa situação. Freud adverte</p><p>mesmo que análise pode falhar com certas mulheres de paixões</p><p>violentas, guiadas pela lógica do tudo ou nada.42 É que o seu amor</p><p>frustrado se transforma facilmente em ódio.43 Depois da tentativa de</p><p>rebaixar o analista à categoria de amante, seguir-se-á a tentativa de</p><p>o destruir a ele e à Psicanálise. Assim, só aquelas que continuam na</p><p>análise podem realmente ensinar alguma coisa.</p><p>A abstenção é uma das condições da análise. A analisanda deve</p><p>abster-se, mas o analista também, em particular abster-se de</p><p>responder a toda a demanda de amor: esta é a posição que alguns</p><p>chamam a “neutralidade” do analista. No entanto, o analista não pode</p><p>ser neutro, objectivo como um cientista. Freud insiste: o analista</p><p>deve explorar ao máximo o amor que ele ajudou a sair dos infernos.</p><p>Porque é que o analista se deve abster de corresponder ao pedido de</p><p>42. Freud fala da lógica da sopa e dos argumentos dos bolinhos (Supenlogik mit</p><p>Knödelargründen), transcrevendo erradamente a frase de Heine, que diz Suppenlogik</p><p>mit Knödelgründen (cf. HEINE: Die Wanderrraten).</p><p>43. Na análise, o ódio como sentimento emblemático da “transferência negativa”</p><p>deriva do amor, pois é o avesso do amor transferêncial, ou o amor com sinal menos.</p><p>61</p><p>José Martinho</p><p>amor da analisanda, mesmo quando é jovem, não comprometido e</p><p>esperançado numa boa oportunidade?</p><p>É que se ele não se abstivesse, trairia o princípio da talking cure. A</p><p>análise é um jogo, com uma regra que deve ser respeitada. Trata-se,</p><p>pois, de se abster de tudo o que não seja falar livremente, transferir</p><p>todos os problemas para a palavra, verbalizá-los como se diz, para</p><p>melhor poder elaborá-los e solucioná-los.</p><p>É unicamente pela via da palavra que o analista opera, consegue</p><p>transformar a relação patológica do sujeito com o sintoma que</p><p>o trouxe até à análise. O importante é sempre que o analista não</p><p>destrua a dialéctica do desejo, pois esta é o motor da estadia na</p><p>análise e a condição do seu possível sucesso.</p><p>Para mais, é inútil convidar uma mulher apaixonada a abdicar da</p><p>sua paixão. As paixões platónicas e os sacrifícios sublimes não são</p><p>apenas difíceis, aumentam a frustração. E a resignação não cura de</p><p>coisa nenhuma.</p><p>A difi culdade da estratégia da transferência prende-se com o facto</p><p>de o analista não poder fi ngir que não está interessado no amor da</p><p>analisanda. Se ele mentisse, não só faltaria à sinceridade exigida pela</p><p>análise, como seria mais tarde ou mais cedo apanhado em fl agrante</p><p>delito. Na verdade, ele está realmente interessado nesse amor, não</p><p>como homem ou mulher, mas como analista.</p><p>O analista apenas tem de respeitar o princípio, a regra e as condições</p><p>da análise. É seu dever proceder para que a analisanda consiga falar</p><p>62</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>livremente do amor que lhe pede, e assim continuar a interrogar o</p><p>desejo que se esconde entre necessidade e demanda.</p><p>A abstinência do analista é desde logo o que mais estimula a</p><p>verbalização do desejo insatisfeito da analisanda.</p><p>Mas esta abstinência não será também um recalcamento? Ela só o</p><p>seria se o analista funcionasse na análise como um Eu, se fosse o seu</p><p>Ego a resistir ao que se passa do lado da analisanda: é o fenómeno</p><p>que Freud chama “contratransferência”.44</p><p>44. As Observações alertam para o perigo da “contratransferência” sem desenvolver</p><p>muito o tema. Freud tinha já abordado o assunto nas Perspectivas futuras da</p><p>terapêutica psicanalítica, e volta a tratá-lo em Análise terminável e interminável.</p><p>Declara aí que os psicanalistas deviam ter superado os seus problemas, erros e</p><p>equívocos, mas que não é o que acontece na realidade, muitos deles tendo mesmo</p><p>aprendido a utilizar mecanismos de defesa para se desviarem das exigências da</p><p>análise. Mas que a contratransferência impeça o acto analítico ou mais simplesmente</p><p>a escuta do analisando, Freud nunca imaginou aquilo em que ela se viria a tornar.</p><p>O que muitos pós-freudianos defenderam (Heiman, Racker, Money Kyrle, etc.), e</p><p>defendem ainda (cf., por exemplo, EINZINK, Cl, COSTA F, KAPCZINSKI, F, PILTCHER, R,</p><p>GAUER R, LIBERMANN Z. Observing countertransference in brief dynamic psychoterapy.</p><p>Psychosom. 1991; 56 (3): 174-81), é que o essencial na análise é a análise da</p><p>contratransferência (acrescida de introspecção, auto-análise e supervisão). A distinção</p><p>que fazem entre contratransferência patológica e positiva leva a pensar que o analista</p><p>conseguirá melhorar cada análise que conduz se esta for uma continuação da sua</p><p>própria análise; ele prosseguira esta indefi nidamente… sempre à custa do cliente.</p><p>É num sentido completamente diferente que J.A Miller enunciou no “Événement de</p><p>Paris” (2008): "être analyste, ce n’est pas analyser les autres, c’est d’abord continuer à</p><p>s’analyser". Trata-se primeiramente de lembrar que a “interpretação da transferência”</p><p>não se baseia na psicologia do analista, mas na certeza que este obteve no fi nal da sua</p><p>análise. Em seguida, que o analista não pode, nem deve esquecer – por conseguinte</p><p>tem de elaborar, nomeadamente no que se chama um ensino – aquilo que foi o</p><p>fi m da sua análise, o sintoma que aí identifi cou para lá do fantasma. O problema de</p><p>fundo é que quem pratica a Psicanálise como se esta fosse uma Psicoterapia defende-</p><p>se constantemente contra o seu sintoma, contra o real de que só ele é responsável.</p><p>Na instituição, no hospital psiquiátrico, no centro de saúde, no consultório privado,</p><p>o dito “psicoterapeuta” - comovido, fatigado, adormecido, salvador, sedutor, perito,</p><p>professor, pai, mãe, apressado, distraído, imitando o seu analista, obcecado com uma</p><p>ideia, concentrado na sua contratransferência, etc, etc, etc. – constrói então um muro</p><p>63</p><p>José Martinho</p><p>Epifenómeno da transferência, a contratransferência apenas prova</p><p>que o suposto analista não é realmente um analista, ou que não está</p><p>devidamente preparado para praticar a análise.45 No acto (de amor)</p><p>analítico, o analista não é um Eu, nem tem um.</p><p>É ao abster-se de uma subjectividade mais ou menos egoísta que a</p><p>“terceira orelha” (Reik) do psicanalista pode verdadeiramente escutar</p><p>a fala da analisanda, pesar cada uma das suas palavras ou</p><p>frases. É</p><p>neste processo de escuta que emerge o objecto de amor realmente</p><p>resistente, capaz de animar o desejo de levar a análise até ao fi m.</p><p>Para isto, o analista só pode contar consigo, ainda que se apoie no</p><p>que é mais forte do que o seu Eu e o da analisanda: a repetição e a</p><p>transferência.</p><p>O amor já lá estava antes da análise porque o amor transferêncial é</p><p>como a reimpressão inalterada ou a edição revista de um cliché que</p><p>procura tornar-se consciente, mas que apenas consegue substituir o</p><p>objecto da infância – ou da “neurose infantil”, protótipo da “neurose</p><p>actual”- pela pessoa do analista.</p><p>Ainda que a presença do analista na transferência sirva também para</p><p>entre si e esse real. O problema é que o real do outro de quem ele se ocupa só o toca</p><p>indirectamente; por esta razão, o psicoterapeuta deve saber que é com o seu próprio</p><p>real que tem primeiramente de se haver. O analista nunca se encontra, pois, numa</p><p>posição de Amo ou de Mestre; ele não pode, nem sabe, ou sabe apenas, por ter sido</p><p>analisado, que todos os falantes se encontram do lado da impotência relativamente</p><p>ao insuportável real de que são responsáveis, quer se chame a este “inconsciente”,</p><p>“pulsão”, ou “sintoma”.</p><p>45. O analista que se encontra devidamente formado não impõe o seu “eu” na análise.</p><p>A imagem que tem de si deve ter sido sufi cientemente alterada, esvaziada até, para</p><p>que o seu Eu não resista a Isso que fala do lado da analisanda. Só deste modo é que o</p><p>analista será capaz de ocupar, sob transferência, o lugar do objecto de amor.</p><p>64</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>simbolizar a ausência do objecto antigo46, o psicanalista é sobretudo</p><p>um objecto novo.</p><p>Além disso, o analista não se deve deixar prender a nenhuma</p><p>contingência corporal. Ele não é o objecto parcial (seio, etc.), nem</p><p>o objecto total que a mãe edipiana pode representar. O amor</p><p>transferêncial não é maternal, mas “irreal”.47 É esta particularidade</p><p>que faz com que Freud remeta aqui o problema para o fantasma.</p><p>O objecto do amor é “irreal” porque está perdido desde a origem.</p><p>Como escreve Freud noutro dos seus artigos: “o objecto que</p><p>encontramos é sempre um substituto do objecto que procuramos, o</p><p>qual está perdido desde sempre”.</p><p>Com certeza que o sonho nocturno e diurno tende a alucinar o</p><p>objecto perdido.48 Por esta razão, para que o objecto cesse de ser</p><p>46. A análise não convida o indivíduo a regredir até à infância para fruir fi nalmente</p><p>do seu primeiro objecto de amor, ou recriar o seu ideal de autoridade. No presente</p><p>da neurose de transferência, o passado analisa-se em função do futuro; isto só é</p><p>viável porque o analista é algo mais que um objecto infantil, ou uma fi gura parental</p><p>conferindo calor e protecção. A análise deve ir sempre além da reconstrução do</p><p>passado. Deve abrir ao que ainda não existe mas pode ser realizado: é por exemplo o</p><p>que Freud sugere na 27ª Conferência da Introdução à Psicanálise, quando compara a</p><p>transferência à camada do meio (entre o núcleo do caule e a casca) do tronco de uma</p><p>árvore, local onde irão nascer os “novos tecidos” que aumentam a sua espessura.</p><p>47. O “irreal” não é o imaginário. O irreal tem uma relação - inconsciente e pulsional,</p><p>simbólica e imaginária, falsa e fantasiada - com o real. O objecto é irreal, mas o desejo</p><p>que ele causa é a realizar.</p><p>48. “É escusado sonhar que se bebe, escreve Freud na Interpretação dos sonhos, pois</p><p>quando a sede aperta é preciso acordar para beber”. Aproveito esta nota para lembrar</p><p>que se estuda desde 1954 os registos eléctricos do sono e do sonho. Actualmente</p><p>sabe-se que o sono não é uma actividade unitária, mas uma sequência de fases que</p><p>se repetem. O sono divide-se em 5 fases: o sono não-REM (4 fases) e o sono R.E.M.</p><p>(REM = Rapid Eyes Movement). Cada uma das fases do sono não-R.E.M. (ou sono</p><p>lento) está associada a um tipo específi co de padrão de onda cerebral e a um certo</p><p>número de outros sinais fi siológicos e comportamentais. Estádio 1: Sono leve. Estádio</p><p>65</p><p>José Martinho</p><p>alucinado só existe uma via: a da palavra. Ou a alucinação ou a</p><p>2: Sono intermediário. Estádio 3: Sono profundo. Estádio 4: Sono mais profundo. Sono</p><p>R.E.M: é nesta fase que ocorrem os sonhos mais nítidos. Durante os períodos R.E.M. a</p><p>respiração e o ritmo cardíaco fi cam ligeiramente mais rápidos e mais irregulares. Na</p><p>fase 1 do sono não-REM vamos nos desligando lentamente do mundo envolvente</p><p>(dura aproximadamente 7 minutos – 5% do tempo total do sono). Há diminuição das</p><p>ondas a (ondas rápidas de pequena amplitude que temos quando nos encontramos</p><p>na fase de vigília). O registo electrónico da fase 2 permite distinguir claramente a fase</p><p>1 da fase 2: o aparecimento dos fusos de sono e complexos k. Nas fases 3 e 4 – Fase</p><p>Delta ou Sono Profundo – as ondas alfa são substituídas por ondas delta; estas fases</p><p>correspondem a 12 a 14% do sono total e é o sono com mais qualidade, designado</p><p>também de “sono reparador”. O Sono REM ou “Paradoxal” inicia-se 90 minutos após</p><p>o início do sono. O primeiro episódio é de cerca de 5 minutos e o último de cerca de</p><p>meia hora (aumenta de duração ao longo da noite). O tipo de resposta que a pessoa</p><p>apresenta em termos de ondas cerebrais é mais activa, ocorre o aceleramento do</p><p>batimento cardíaco, uma respiração mais intensa e acelerada, movimento ocular e é</p><p>aqui que surgem os sonhos. Durante uma noite de sono existem 4 a 6 ciclos de sono</p><p>(7 a 8 horas). Contudo, se formos privados de determinadas fases (3 e 4 e sono R.E.M.)</p><p>numa noite, no sono seguinte tentamos compensá-los, com um tempo de duração</p><p>maior para o tipo de sono em privação. O ritmo dormir/acordar, pode ser visto como</p><p>um sistema de crédito/débito, sendo atribuídos 2 pontos por cada hora de sono e 1</p><p>ponto por cada hora que o indivíduo está acordado. Assim, quanto menos pontos se</p><p>tiver, mais preparado se está para dormir: geralmente a pessoa dorme quando tem</p><p>pouco ou nenhum crédito de sono e dormirá cerca de 8 horas (16 pontos de crédito).</p><p>Isto será seguido por um período de vigília de cerca de 16 horas (16 pontos), pelo</p><p>que ao fi m de 24 horas retomará do início, estando preparada para mais um período</p><p>de sono. Através disto, podemos verifi car que o sistema de crédito é afectado por</p><p>padrões irregulares de trabalho, incluindo extensos períodos de tempo em vigília com</p><p>sono reduzido ou interrompido. Esta acumulação de sono em falta é denominada de</p><p>débito de sono cumulativo. Além do tempo de vigília ser importante na determinação</p><p>da preparação para o sono, este possui também um ritmo circadiano, o que signifi ca</p><p>que em determinadas horas do dia, mesmo um indivíduo em privação pode ter</p><p>difi culdade em dormir, devido ao facto do factor crítico para a duração do sono ser a</p><p>altura do dia em que este decorre e não a quantidade de tempo que se está acordado.</p><p>Assim, o ritmo dormir/acordar afecta a preparação para o sono e a altura do dia em que</p><p>se dorme, associada à temperatura corporal, têm uma infl uência crucial na duração do</p><p>sono. Desta forma, o sono geralmente ocorre quando a temperatura corporal está a</p><p>descer e o acordar quando está a subir. Apesar da temperatura corporal considerada</p><p>normal ser de 37º C, na realidade ela varia entre 36,9ºC (no início da noite) e os 36,2ºC</p><p>(de madrugada). Isto explica a razão porque dormir em horas “anormais” pode ser</p><p>mais perturbado e menos regenerador. É no sono não paradoxal ou ortodoxo, de</p><p>características fi siológicas bastante diferentes, que surgem as actividades mentais</p><p>mais próximas do pensamento acordado, bem como os sonhos mais passageiros e</p><p>difíceis de recordar.</p><p>66</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>verbalização. A talking cure aposta decididamente na segunda.</p><p>A difi culdade reside no facto de o fantasma se caracterizar por</p><p>manter a irrealidade ou não admitir a perda estrutural do objecto</p><p>do desejo. Ele elege um substituto do objecto perdido e tece à sua</p><p>volta uma rede simbólica e imaginária</p><p>para conseguir capturar a</p><p>coisa. É por esta razão que a análise procura (re) construir o fantasma</p><p>fundamental.</p><p>Mesmo se a compulsão a repetir faz com que a analisanda tenda a</p><p>colocar o analista no lugar da mãe, do pai ou de um qualquer outro</p><p>objecto ou predicado seu, o analista não se deve deixar confundir</p><p>com as personagens padrão da vida da analisanda, nem com a parte</p><p>que falta ao seu auto-erotismo.</p><p>Qual é a verdadeira natureza do amor? Antes de responder a esta</p><p>pergunta, Freud lembra que só os idiotas – e acrescenta os cientistas</p><p>- é que fi ngem ignorar que o gozo do amor é o melhor que existe,</p><p>porque reúne em si todas as satisfações físicas e morais.49</p><p>Esta afi rmação de Freud refere-se ao mito de Eros, mais</p><p>49. Para além do amor de si (Narciso) e do amor anaclítico, parricida e incestuoso</p><p>(Édipo), os Gregos diferenciaram entre Ludos (o amor lúdico ou brincalhão), Mania (o</p><p>amor emocional ou louco), Pornos (o amor físico entre corpos), Philia (amor generoso</p><p>ou altruísta, como o parental, fi lial, fraternal, mas também político), Ágape (o amor</p><p>espiritual ou divino), Pragma (o amor negócio ou útil), Storge (a amor amigo, que</p><p>cresce devagar), e o mais perfeito de todos, Eros (o amor do Uno). A referência de</p><p>Freud é sobretudo ao Eros dos poetas e fi lósofos (cf. o mito do Andrógino primordial</p><p>no Banquete de Platão). Eros é o amor que tenta fazer Um com dois corpos, almas</p><p>e intelectos. A miragem suprema do gozo prometido pelo amor acontece quando</p><p>as metades físicas, psíquicas e espirituais se juntam num mesmo Todo. O que assim</p><p>se esclarece é característica autoerótica e narcísica do amor, em que o outro serve</p><p>sobretudo para colmatar a lacuna básica do chamado self.</p><p>67</p><p>José Martinho</p><p>particularmente ao que é dito sobre a divindade no discurso de</p><p>Aristófanes, no Banquete de Platão. O poeta diz aí que Eros é amor</p><p>do Uno. O cómico da situação é que a união erótica é impossível</p><p>de realizar, pois por mais que se idealize, por mais tentativas que se</p><p>faça, dois ou mais seres não conseguem ser Um só. A transferência</p><p>analítica é amor porque partilha da natureza de Eros. De facto, a</p><p>analisanda também tem o impossível desejo de se unir ao analista.</p><p>Apesar do que alguns pretendem, o amor transferêncial é um</p><p>amor genuíno. Ele inclui todas as características do amor. O que o</p><p>especifi ca é o facto da inquebrável resistência do objecto-analista</p><p>o tornar ainda mais cego ou louco do que os outros amores. Mas</p><p>é precisamente por causa disso que o amor de transferência pode</p><p>fornecer a chave de tudo o que se chamou, chama e chamará “amor”.</p><p>Em resumo: o amor que já lá estava ressurge na fala da analisanda</p><p>com a sua demanda e a suposição de saber; ele fortalece-se com</p><p>a procura da verdade e sobretudo com a esperança que o analista</p><p>realize o amor-perfeito que a proibição do incesto e mais geralmente</p><p>a vida sexual dos humanos não permite.</p><p>Mas quem assim espera, desespera, pois, no fi nal, não há casamento,</p><p>mas divórcio. Depois de a analisanda se confrontar com a</p><p>impossibilidade de fazer Um com o analista, o amor transferêncial</p><p>termina com o desejo de outra coisa. É então que obriga o ilimitado</p><p>do gozo a condescender à falta que anima o desejo. 50</p><p>50. Esta falta exige alguma forma de morte do analista. Como escreve Freud na</p><p>Dinâmica da transferência, “quando tudo está dito e feito, é ainda impossível destruir</p><p>alguém in absentia ou effi gie”. A nova palavra que dá vida ao desejo implica, pois, a</p><p>presença e depois a morte da coisa, isto é, do analista.</p><p>68</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Mas o que faz com que o amor esteja sempre para aquém ou além do</p><p>narcisismo e anaclitismo, é que ele é, desde o início, amor da língua.</p><p>A talking cure acontece numa língua. O sujeito que fala procura aí a</p><p>sua verdade, mas a estrutura da linguagem é um muro que impede</p><p>que possa dizer tudo e em particular toda a verdade. O que ele faz é</p><p>verbalizar o que lhe passa pela cabeça, até que encontre o impossível</p><p>de dizer de cada fala que se confronta com o real. Desde logo é o</p><p>amor de bem-dizer este impossível que revela ser o fundamento</p><p>ético da psicanálise.</p><p>É a Ética que substitui a Clínica e a Psicoterapia na Psicanálise. É</p><p>ela que faz com que o analista seja responsável de tudo o que se</p><p>passa numa análise, desde a oferta inicial de um novo amor, até à</p><p>dissolução da transferência:</p><p>⤤ narcísico (Eu) ↓</p><p>Amor da língua: busca da verdade/resistência (do real) →dissolução</p><p>da transferência</p><p>⤥ anaclítico (outro) ↑</p><p>A análise termina com a separação do analisando (o amante) e</p><p>do analista (o objecto amado). Este fi nal é a condição do desejo</p><p>efectivamente causado pelo objecto perdido, objecto que o analista</p><p>só passará a “ser” depois da dissolução da neurose de transferência.</p><p>É ao desejo inédito que emerge então do lado do analisado, isto é</p><p>daquele que terminou a sua análise, que devemos chamar o “desejo</p><p>do analista”.</p><p>69</p><p>José Martinho</p><p>As Observações de Freud irão terminar com um alerta ao leitor, para</p><p>que este saiba que o analista deve travar sempre um triplo combate:</p><p>1) Contra as forças externas que procuram desqualifi car o princípio,</p><p>o meio e os fi ns Psicanálise, ou simplesmente comprometer o acto</p><p>analítico com tarefas ou técnicas que lhe são alheias. Este perigo vem</p><p>normalmente de uma sociedade que aceita mal a Psicanálise, porque</p><p>sabe que esta lida com matérias explosivas como o amor sexual. A</p><p>Química também lida com matérias infl amáveis. Mas, contrariamente</p><p>aos químicos, os psicanalistas parecem estar condenados a conquistar</p><p>indefi nidamente o seu direito ao trabalho. É também importante</p><p>que o psicanalista não se identifi que com o médico fanático, com o</p><p>seu furor sanandis, pois, como já dizia Hipócrates, aquilo que o ferrum</p><p>(o ferro, isto é, a faca ou a cirurgia) e o ignis (o fogo, diríamos hoje, os</p><p>fármacos) não curam, é preferível considerar incurável.</p><p>2) O segundo combate é contra o fantasma inconsciente que</p><p>sobredetermina o sintoma que forçou a analisanda à análise,</p><p>miragem de gozo que não confessa à partida, mas que pode destruir</p><p>o dispositivo analítico e até a própria vida.</p><p>3) Mas o terceiro combate e o mais irredutível é contra si mesmo, e</p><p>passa pela análise pessoal e didáctica.</p><p>70</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>2.2 INTERPRETAR, RECONSTRUIR E CONSTRUIR</p><p>“Se substituirmos o indivíduo isolado pela humanidade como um todo,</p><p>descobriremos que também ela desenvolveu delírios inacessíveis à crítica lógica”</p><p>Freud</p><p>Construções na Análise (1937)51 é um dos últimos artigos de Freud. Ele</p><p>tem na altura 81 anos e vai falecer dois anos mais tarde.52</p><p>Os primeiros textos de Freud serviram para apresentar a sua invenção;</p><p>em seguida, veio a maioria dos escritos metapsicológicos, onde</p><p>corrige algumas das suas anteriores concepções; fi nalmente, publica</p><p>os textos em que faz o balanço da obra, responde a algumas críticas</p><p>e redige o seu testamento para os alunos.</p><p>Este artigo apresenta-se como a resposta de Freud a um bem</p><p>conhecido homem de ciência e meritíssimo sábio que, depois de</p><p>ter defendido publicamente a Psicanálise, levantou contra ela uma</p><p>objecção injusta e até caluniosa: “Heads I win, tails you lose”, caras</p><p>ganho eu, coroas perdes tu;53 dizia ele, para afi rmar que o psicanalista</p><p>51. FREUD, S. (2011). Construções na análise. Transferência, construções e fi ns da</p><p>psicanálise. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas.</p><p>52. Sobre os últimos e trágicos anos do inventor da Psicanálise pode se ler:</p><p>EDMUNDSON, Mark. (2009). A morte de Freud, o legado dos seus últimos dias. São Paulo:</p><p>Odisseia.</p><p>53. Quem é este homem de ciência e sábio de mérito? Na Viena da época, pode ser</p><p>Ludwig Wittegenstein, ou Karl Popper.</p><p>Ambos se interessaram pela Psicanálise e</p><p>criticaram Freud. Os dois afi rmaram que a Psicanálise não era uma ciência, mas uma</p><p>opinião, em última instância a opinião de Freud. Nas Palestras de Cambridge (1932-</p><p>34), Wittgenstein diz que aquilo que Freud imagina ser um determinismo (segundo</p><p>a gramática da causalidade científi ca) é apenas uma intencionalidade (segundo a</p><p>gramática da consciência); para Wittgenstein, o “inconsciente” não existe ou apenas</p><p>pode ser descrito como objecto pela consciência. A Psicanálise seria uma Oratória</p><p>71</p><p>José Martinho</p><p>se arranja sempre para ter razão, tanto quando o analisando está de</p><p>acordo com o que diz, como quando lhe resiste.</p><p>Na verdade, este tipo de objecção só surge na mente de um</p><p>feita para convencer o leitor. Todavia, Wittgenstein aprecia o estilo de Freud ou</p><p>sente sempre um grande prazer a lê-lo. Por sua vez, no Realismo da ciência, “post-</p><p>scriptum” da Lógica da Descoberta Científi ca (1934), Popper contesta também o</p><p>carácter científi co da Psicanálise, na medida em que as suas proposições não seriam</p><p>refutáveis. Karl Popper e Ludwig Wittgenstein tiveram igualmente entre si uma acesa</p><p>discussão, em particular na noite de 25 de Outubro de 1946, na sala H.3 do King’s</p><p>College, em Cambridge. Esta disputa foi relatada no capítulo «Inglaterra: na London</p><p>School of Economics and Political Science», da Autobiografi a Intelectual de Karl</p><p>Popper. A polémica deu origem ao texto de David Edmonds e John Eidinow, intitulado</p><p>O Atiçador de Wittgenstein, em que os autores confrontaram os discursos das várias</p><p>testemunhas oculares presentes com a veracidade dos factos. Popper conta que, no</p><p>início do ano lectivo de 1946-1947, o secretário do Clube de Ciência Moral o convidou</p><p>para fazer uma conferência sobre as “charadas fi losófi cas”, segundo a terminologia que</p><p>Wittgenstein usou para designar o que a Filosofi a denomina “problemas fi losófi cos”.</p><p>Em resposta ao tom provocatório do convite, Popper aceitou participar no debate</p><p>com o intuito de refutar a tese de Wittgenstein de que não existem problemas</p><p>fi losófi cos genuínos, mas apenas charadas linguísticas. Popper defendeu a existência</p><p>de verdadeiros problemas fi losófi cos, enquanto Wittgenstein sustentou a tese de que</p><p>estes são enigmas que resultam de confusões verbais e conceptuais provenientes dos</p><p>dualismos que perduram na tradição fi losófi ca. Depois da leitura da sua comunicação,</p><p>intitulada “Existem problemas fi losófi cos?”, Popper explica que interrompeu várias</p><p>vezes a contra-argumentação de Wittgenstein, apresentando uma lista de verdadeiros</p><p>problemas fi losófi cos, que Wittgenstein refutou sistematicamente. A dada altura,</p><p>Wittgenstein, que estava sentado junto à lareira e brandia nervosamente o atiçador</p><p>de fogo, que ele usava por vezes como uma batuta de maestro para sublinhar as</p><p>suas afi rmações”, lança um desafi o ao fi lósofo das Ciências, pedindo para que este</p><p>lhe desse um exemplo de regra moral. Popper respondeu-lhe: “não se deve ameaçar</p><p>conferencistas visitantes com atiçadores de fogo”. Irritado, Wittgenstein atirou o</p><p>atiçador e saiu precipitadamente da sala batendo com a porta. Popper escreve que</p><p>fi cou aborrecido com a atitude de Wittgenstein, mas que a irritação se dissipou na</p><p>continuação do debate, graças à agradável companhia de Bertrand Russell, que</p><p>presidia à reunião. Voltando a Freud: o teste popperiano da falsifi cação através de</p><p>exemplos empíricos que possam contrariar a teoria estabelecida também é utilizado</p><p>pelo inventor da psicanálise. Por exemplo: quando ele passa da teoria do trauma</p><p>à hipótese do fantasma; ou a propósito de um caso de paranóia contrário à teoria</p><p>psicanalítica; ou a respeito dos fenómenos que se encontram para além do Princípio</p><p>do Prazer; ou, ainda, no momento em que a angústia passa de efeito para causa do</p><p>recalcamento. No entanto é verdade que a psicanálise não é uma ciência positiva, que</p><p>visa a explicação causal e a objectividade do objecto.</p><p>72</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>intelectual, que confunde o que se passa numa consulta médica e</p><p>mais precisamente na sessão analítica com uma disputa escolástica;</p><p>é o caso do universitário, do fi lósofo ou do epistemólogo que acredita</p><p>que a argumentação racional e o saber científi co se assemelham à</p><p>verdade que se constrói numa análise.</p><p>E, no entanto, é pertinente afi rmar que o “sim” e o “não” do analisando</p><p>não provam de imediato quem tem razão. Por exemplo, uma</p><p>analisanda pode muito bem aceitar as interpretações do seu analista</p><p>por estar enamorada dele; mas pode também recusá-las, por se sentir</p><p>frustrada nesse amor ou resistir à verdade que então lhe é revelada.</p><p>O problema passa, pois, a ser: o que é a verdade, mais precisamente</p><p>o que fornece e garante o critério da verdade na análise.</p><p>Antes de poder responder devidamente à objecção, Freud considera</p><p>importante informar o leitor – que ele coloca desde logo no lugar do</p><p>sábio leigo na matéria – do que é uma análise, o seu princípio, meio</p><p>e fi ns.</p><p>O analista não discute opiniões com o analisando. Ele cala-se para o</p><p>deixar falar livremente. Ele conta deste modo com que o analisando</p><p>consiga levantar a censura que pesa sobre a sua fala ou ultrapasse o</p><p>recalcamento (secundário) que levou à formação do sintoma, para</p><p>poder atingir um estado de maturidade psíquica que seja compatível</p><p>com o “recalcamento primordial”.54</p><p>54. O que Freud chama “recalcamento secundário” ou “propriamente dito”</p><p>corresponde à censura da fala e expulsão, pela consciência, das representações que</p><p>lhe são intoleráveis. Quando a censura é levantada, os conteúdos recalcados podem</p><p>voltar à consciência. Um dos objectivos da análise é mesmo que o consciente aceite</p><p>73</p><p>José Martinho</p><p>Freud coloca a tónica na associação livre verbal, na rememoração e</p><p>na elaboração mental. Aproveita também para dizer que o verdadeiro</p><p>problema reside no facto de o analisando apenas fornecer um</p><p>material solto e fragmentado: um lapso de vez em quando, um</p><p>pedaço de sonho, uma ideia que lhe surgiu subitamente, algumas</p><p>lembranças relacionadas com episódios da sua infância, etc.</p><p>Que fazer com todos estes rebotalhos? Primeira hipótese plausível:</p><p>o analista pode tentar formar a partir deles uma “imagem completa”</p><p>(Vollstandiges Bild) do passado esquecido pelo analisando.</p><p>Só que neste caso existiriam duas difi culdades maiores: a primeira</p><p>é que o analisando não cessa de oferecer material fragmentado a</p><p>cada sessão, indefi nidamente; a segunda é que falta sempre uma</p><p>peça ou mais ao puzzle, em virtude da existência do “recalcamento</p><p>primordial.”</p><p>Em seguida, Freud afi rma que todo o analista praticante é suposto</p><p>saber o que irá relatar neste artigo. Basta que ele tire as consequências</p><p>da apologia. Lembra então, que, no início, se interessou sobretudo</p><p>pelo que se passava do lado do analisando, pelo material que este</p><p>fornecia e a resistência com que se debatia. Só que este interesse</p><p>médico e intelectual pelo analisando descurou o que se passava do</p><p>lado do analista.55</p><p>funcionar com o inconsciente. Mas ainda que continue a atrair outros conteúdos e</p><p>formas, o recalcado primordial nunca chega à fala consciente; por esta razão não</p><p>podemos saber nunca o que foi originariamente recalcado. É a isso que se refere já</p><p>a Interpretação dos sonhos, quando diz que há sempre um ponto em que o sonho se</p><p>liga ao “Desconhecido”.</p><p>55. Inclusive a necessidade do analista ser analisado antes de praticar a análise. Mas</p><p>lembro que foi sobretudo a declaração do amor transferêncial que obrigou Freud a</p><p>colocar pela primeira vez a questão do acto analítico.</p><p>74</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Não se deve esquecer que existe uma dissimetria entre o acto</p><p>analítico e o trabalho do analisando. Por exemplo, se o analisando</p><p>fala e o analista está em silêncio é porque ele não sabe nada do</p><p>que se passa com o outro, logo não pode falar no lugar dele, nem</p><p>recordar</p><p>o que só este viveu.</p><p>A associação livre não é uma regra para o analista; e como este</p><p>também não é um adivinho, e a intuição não faz parte da sua</p><p>formação, Freud acaba por dizer que aquilo que cabe ao analista é</p><p>“construir”.</p><p>Para melhor elucidar o problema, separo, num pequeno esquema,</p><p>o que parece passar-se do lado do analisando e do lado do analista,</p><p>com a respectiva comunicação entre os dois:</p><p>Sentido</p><p>⇐</p><p>analisando</p><p>fala</p><p>associa livremente</p><p>material fragmentado</p><p>rememora (o passado)</p><p>elabora (mentalmente)</p><p>transferência</p><p>repete (o mesmo)</p><p>analista</p><p>está em silêncio</p><p>escuta fl utuante</p><p>interpreta</p><p>reconstrói</p><p>constrói</p><p>contratransferência</p><p>uma nova signifi cação</p><p>⇒</p><p>sem-sentido</p><p>75</p><p>José Martinho</p><p>Será que aquilo que o analisando espera do analista é que este lhe</p><p>reenvie, em retorno, a sua própria mensagem, acrescida do sentido</p><p>que lhe faltava?</p><p>Mesmo que fosse este o objectivo, o analista apenas consegue</p><p>pontuar a signifi cação do que foi dito pelo analisando depois de o</p><p>ter escutado sob transferência.</p><p>Ainda que esteja basicamente em silêncio durante esse tempo,</p><p>o analista não é mudo. De vez em quando ele fala; podemos dizer</p><p>que interpreta, reconstrói ou constrói. Há também um momento</p><p>oportuno para o analista falar; a altura propícia ou tempo certo é</p><p>quando o analisando deu sinais sufi cientes de estar apto a reconhecer</p><p>a verdade do que já disse.</p><p>Este artigo de Freud trata pouco da “interpretação”, e hesita uma vez</p><p>entre “reconstrução” e “construção”. Mas o seu título – Construções na</p><p>análise – indica o termo que mais convém nele interrogar.</p><p>Freud emprega a palavra “reconstrução” quando tece uma longa</p><p>analogia entre o acto analítico e o trabalho do arqueólogo56. A</p><p>partir dos pedaços dispersos que aparecem durante as escavações,</p><p>o arqueólogo pode ir reconstruindo a estátua ou a ânfora antiga</p><p>exactamente como estas foram no passado. Através da análise dos</p><p>materiais e da camada geológica do solo em que os fragmentos</p><p>56. A Arqueologia fascinou Freud e os seus contemporâneos. Os inúmeros livros que</p><p>Freud leu sobre a matéria, assim como todas as peças que decoravam o seu gabinete,</p><p>testemunham deste gosto por objectos antigos. Mas muitos outros foram também</p><p>seduzidos pelo desterro de Pompeia, praticamente intacta sob as cinzas do Vesúvio,</p><p>a riqueza do túmulo de Tutankhamon, e sobretudo pela descoberta da lendária Tróia,</p><p>por Schliemann.</p><p>76</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>foram conservados, pode igualmente saber em que época os</p><p>objectos foram feitos e usados.</p><p>Mas na verdade o acto analítico não se assemelha ao trabalho do</p><p>arqueólogo. Primeiro, porque o objecto da análise não é um objecto</p><p>material e inerte, nem pertence a um passado ultrapassado ou</p><p>morto; é um objecto subjectivo, vivo e que fala. O analisando pode</p><p>dizer a verdade ou mentir, confi rmar ou infi rmar as interpretações do</p><p>analista, mas as ruínas de Pompeia e o sarcófago de Tutankhamon</p><p>não podem. Cabe apenas ao arqueólogo provar que tem razão.</p><p>Mostrando uma vez mais que não está interessado em ter razão a</p><p>qualquer preço, Freud - depois de afi rmar o que vai desmentir mais à</p><p>frente, a saber, que nada se perde defi nitivamente para o psiquismo</p><p>- confessa que ainda desconhece a estrutura do objecto psíquico, ou</p><p>que apenas sabe que esta é bastante mais complexa do que a do</p><p>objecto arqueológico.</p><p>Se atendermos à analogia do puzzle ou da big picture, o mais</p><p>espantoso aqui é a afi rmação de Freud de que a reconstrução</p><p>é o objectivo último do arqueólogo, mas apenas um “trabalho</p><p>preliminar” (Vorarbeit) da análise. Isto signifi ca que, se a reconstrução</p><p>é um degrau, um pórtico ou uma entrada do templo da análise, ela</p><p>não é esse templo. Desde logo, a reconstrução do passado deve</p><p>começar a ser entendida como uma passagem obrigatória, forçada</p><p>pela fala do analisando, mas não como o essencial do que se passa</p><p>na análise, nem como o seu último objectivo.</p><p>77</p><p>José Martinho</p><p>II</p><p>No início da segunda secção deste artigo, o leitor é fi nalmente</p><p>obrigado a optar pelo termo “construção”, na medida em que</p><p>Freud estabelece uma nova analogia, desta vez entre o analista e o</p><p>construtor de casas, que, tal como o arquitecto, constrói o edifício</p><p>com o material e a técnica disponíveis, num local onde nada se</p><p>encontrava. Para lá da repetição do mesmo, o que Freud introduz</p><p>aqui é o momento da invenção ou criação do novo. Trata-se do ponto</p><p>onde uma psicanálise faz realmente a diferença.</p><p>Freud explica ainda que, quando se refere a um “trabalho preliminar”,</p><p>não quer dizer que é necessário construir a casa e erigir as suas</p><p>paredes para proceder à decoração. A construção na análise também</p><p>não é uma decoração de exteriores e interiores.57</p><p>A interpretação foi o termo eleito pela literatura psicanalítica,</p><p>provavelmente porque é a operação própria da análise, aquela que</p><p>disseca ou dissocia o que a fala associa livremente.</p><p>Freud lembra que a interpretação incide sempre sobre fragmentos</p><p>do material, por exemplo sobre o pormenor de um sonho. É dizer</p><p>que a interpretação tem a mesma estrutura das formações do</p><p>inconsciente, que, tal como o lapso, são instantâneas, desaparecem</p><p>logo que aparecem.</p><p>57. Este propósito poderia fazer refl ectir os psicoterapeutas que se preocupam muito</p><p>com a decoração dos seus consultórios e mais geralmente com a neutralidade do</p><p>setting.</p><p>78</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>A construção visa aquilo que está para além da reconstrução do</p><p>passado e da interpretação ou da análise. A construção não dissocia,</p><p>mas associa, reúne elementos já analisados. Mesmo se Freud afi rma</p><p>que a sua análise da psique não tenta nenhuma síntese, a construção</p><p>analítica é sempre menos espontânea ou mais demorada que a</p><p>interpretação.</p><p>O que são efectivamente as “construções” na análise? O artigo</p><p>começa por sugerir duas possibilidades: 1ª) a construção como</p><p>construção do caso clínico; o exemplo que Freud dá é o do “pequeno</p><p>Hans”; 2ª) a construção como uma conjectura que deve ser verifi cada</p><p>no decorrer da análise através de “confi rmações indirectas” (Indirekte</p><p>Arten der Bestätigung).</p><p>A construção freudiana do caso clínico não parte de observações</p><p>concretas, nem visa a objectividade. Ela é retrospectiva e apoia-se no</p><p>que permanece indeterminado para o sujeito. Assim, na construção</p><p>que apresenta do caso do “pequeno Hans”, Freud vai sublinhar a</p><p>“nova signifi cação” (Neue Bedeutung) do pai que surpreendeu o</p><p>menino após o nascimento da sua irmã Anna.</p><p>O pai já lá estava, mas a signifi cação dele mudou. Foi preciso que uma</p><p>nova criança tivesse nascido para que Hans se confrontasse com a lei</p><p>do pai e sentisse a insatisfação que lhe está associada. O seu querido</p><p>pai tornou-se nesse momento um rival, o grande culpado da perda</p><p>de exclusividade do amor materno. É esta inesperada signifi cação</p><p>que acabou por transformar o pai de Hans num objecto fóbico, o</p><p>cavalo que podia morder.</p><p>79</p><p>José Martinho</p><p>Mas é verdade que esta construção da signifi cação inconsciente do</p><p>pai edipiano do menino não é independente da reconstrução do</p><p>passado de Hans.58</p><p>A segunda sugestão de Freud sobre a construção responde um</p><p>pouco melhor à objecção inicial do sábio. Ela indica que quem tem</p><p>razão na análise não é o analista, nem o analisando, mas o que se</p><p>passa sob transferência.</p><p>Para encontrar um critério de verdade a relação dual não chega. É</p><p>exigido um terceiro termo, quer se trate do Inconsciente (com suas</p><p>signifi cações), ou da Pulsão (satisfações); é este tal termo médio que</p><p>garante efectivamente a justeza das interpretações e construções na</p><p>análise.59</p><p>Freud pergunta ainda: será que o analista pode errar quando</p><p>comunica uma construção? O pior que poderia acontecer é que</p><p>ele erre muitas vezes e perca deste modo</p><p>o crédito que lhe confere</p><p>o amor de transferência. O analisando pode, então, abandonar a</p><p>análise e deixar o analista sozinho com os seus erros. Mas errar de vez</p><p>em quando não é grave, porque o erro pode ser facilmente admitido</p><p>na análise. Ele é normalmente inofensivo; por vezes, serve mesmo de</p><p>isco para apanhar a carpa da verdade que andava por perto.60</p><p>58. No contexto de uma análise, a construção concerne sobretudo a passagem do</p><p>analista como médico ao analista como sujeito suposto saber e objecto de amor.</p><p>59. Freud fala como se a interpretação e a construção coubessem exclusivamente ao</p><p>analista. Mas, na verdade, tudo o que diz o analisando vem já interpretado por um</p><p>inconsciente que não pára de construir saber sobre a satisfação que o sujeito procura</p><p>em vão alcançar.</p><p>60. Your bait of falsehood takes this carp of truth (Shakespeare, Hamlet, II, 1, v. 63). Freud</p><p>refere-se aqui a um dizer de Polónio (Polonius), personagem do Hamlet de William</p><p>Shakespeare, conhecida por enunciar grandes verdades sem consequências, como to</p><p>80</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Mas o “sim” e o “não” directos do analisando não provam a verdade</p><p>ou o erro do analista. Eles não têm valor em si, dado que podem</p><p>ser ambíguos e até hipócritas. O que permite verifi car o valor de</p><p>verdade de uma construção na análise são sempre as “confi rmações</p><p>indirectas”.61 Basta que o analista saiba corrigir o seu erro quando</p><p>uma confi rmação indirecta mostra que está errado. O analisando</p><p>percebe de imediato que a construção do analista tinha apenas o</p><p>valor de uma hipótese de trabalho que foi testada no laboratório da</p><p>sessão.</p><p>O que efectivamente se passa numa análise corresponde</p><p>aproximadamente ao que dizia o arguto satírico austríaco Johann</p><p>Nestroy, a saber, que é no decorrer dos futuros acontecimentos que</p><p>tudo se irá esclarecer.</p><p>thine own self be true, “sê fi el a ti próprio”. Perante o mistério da conduta de Hamlet,</p><p>Polónio diz: Though this be madness, yet there is method in it, apesar de ser loucura, há</p><p>método nela. (Acto 2 Cena II). Freud também cita este propósito mais à frente no texto.</p><p>61. Exemplos de “confi rmações indirectas” dados por Freud:</p><p>- Interpretação ou construção confi rmada por negação (cf. o artigo de Freud</p><p>sobre a Denegação, Verneinung). Quando alguém diz “não penso nisso”, por</p><p>exemplo na minha mãe, está a dizer que é nisso que pensa. O que importa</p><p>não é o sim ou o não relativo à mãe, mas o facto que tenha dito a palavra</p><p>"mãe".</p><p>- Confi rmação por uma palavra fora do contexto: o “também” de um colega</p><p>de Freud que associou dois diagnósticos aparentemente sem ligação: o</p><p>seu problema de saúde provocado pelo facto da mulher não querer ter</p><p>relações com ele e a morte de um paciente inglês.</p><p>- Confi rmação através de um erro de pronúncia: um paciente dizia Gauner</p><p>(gatuno, velhaco) em vez de Jauner (um nome conhecido em Viena); a</p><p>injúria foi confi rmada por um erro semelhante: pronuncia (com i) jewagt (é</p><p>demais) em vez de gewagt (ousado).</p><p>- Por um lapso: falando do preço da consulta, que afi rmava não ser elevado,</p><p>o paciente confi rma o que lhe sugeriu Freud dizendo “dez xelins” em vez</p><p>de “dez dólares”.</p><p>- Por uma repetição de ditos ou de comportamentos que fogem à</p><p>rememoração da verdade que dói.</p><p>- Pelo agravamento masoquista do sintoma e a reacção terapêutica negativa.</p><p>81</p><p>José Martinho</p><p>III</p><p>Além do problema colocado pelo desconhecimento da estrutura</p><p>do objecto psíquico, a outra grande difi culdade que Freud confessa</p><p>neste artigo é aquela que se prende com o acontecimento traumático</p><p>que terá estado na origem do recalcamento primordial, logo da</p><p>formação do sintoma.</p><p>O analisando não se recorda normalmente deste acontecimento</p><p>traumático. Por vezes, após uma construção do analista, e certamente</p><p>para agradar a este62, lembra-se, não do próprio acontecimento,</p><p>mas de pormenores insignifi cantes que estariam associados a ele.</p><p>Quando acredita fi rmemente ou parece acreditar no incidente, trata-</p><p>se de uma alucinação, psicótica ou não.</p><p>“Construção” é a palavra que Freud escolhe para designar a relação</p><p>(do analista) com o recalcado primordial.</p><p>Freud aborda a partir de vários ângulos o que se terá perdido nesse</p><p>tempo originário (Urzeit). Em primeiro lugar, recorda o que propôs no</p><p>início sobre a passagem da cena de sedução histérica à conjectura</p><p>do fantasma inconsciente do desejo. O que disse então é que o</p><p>acontecimento traumático não tinha ocorrido na realidade material,</p><p>mas fazia apenas parte da realidade psíquica.</p><p>62. O mais célebre exemplo freudiano destas construções é o da “cena primitiva” do</p><p>“Homem dos Lobos”. Para satisfazer o analista, o paciente “recordou-se” da cena em</p><p>que tinha visto os seus pais a ter relações sexuais a tergo, mas mais tarde negou que</p><p>isso pudesse alguma vez ter acontecido.</p><p>82</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>É esta hipótese sobre o fantasma que parece levar Freud ao seguinte</p><p>enunciado: uma análise bem conduzida, convence da verdade da</p><p>construção (Überzeugung der Wahrheit der Konstruktion), o que, do</p><p>ponto de vista terapêutico, tem o mesmo valor de uma recordação</p><p>(Erinnerung).</p><p>O mais estranho é que Freud parece defender nesta passagem</p><p>a ideia que a análise seria o efeito de sugestão que ele negara</p><p>categoricamente na segunda secção.</p><p>Para esclarecer melhor o problema, vou escrever uma fórmula</p><p>quase matemática com as iniciais das palavras alemãs “recordação”</p><p>(Erinnerung), “convicção” (Überzeugung), “verdade” (Wahrheit) e</p><p>“construção (Konstruktion)”:</p><p>E = UWK</p><p>Esta fórmula – que faz lembrar a de Einstein: E = mc2 – é o matema do</p><p>artigo de Freud. Convém, pois, aprofundar o que transmite a todos.63</p><p>Freud não é um construtivista, não pensa que os analisandos são</p><p>doentes imaginários; ele tem a certeza que algo aconteceu realmente,</p><p>pois existe a alucinação, o retorno do recalcado e a regressão às fases</p><p>anteriores do desenvolvimento.</p><p>Ele apenas sabe que aquilo que aconteceu alterou profundamente</p><p>63. Fórmula extraída de Marginalia (1994), onde J-A Miller comenta este artigo de</p><p>Freud (http://www.causefreudienne.net/agenda/lettre-en-ligne/les-textes-publies-</p><p>par-la-lel/em-marginalia-em-de-constructions-dans-l-analyse-par-jacques-alain-</p><p>miller.html?symfony=694ff 31550cee555680ac0b3a51f721d).</p><p>83</p><p>José Martinho</p><p>a vida do indivíduo. A experiência analítica indica também que este</p><p>acontecimento traumático só pode ter ocorrido num tempo muito</p><p>precoce, numa idade em que a criança ouviu ou viu alguma coisa</p><p>que não podia entender, mais que não seja porque ainda não sabia</p><p>falar.</p><p>O que não pôde vir então à fala da criança deveria ser, por hipótese, o</p><p>primordialmente recalcado É o que não se terá articulado na ordem</p><p>simbólica, nem fi gurado no imaginário, que as alucinações psicóticas</p><p>indirectamente confi rmam. Como as vozes alucinadas, o que não foi</p><p>admitido no aparelho psíquico reaparece no real.</p><p>É por esta razão que as alucinações psicóticas ajudam a entender a</p><p>razão pela qual as histéricas sofrem de reminiscências, mas também</p><p>porque é que fi camos todos sujeitos à repetição.</p><p>Como é possível desde logo que a análise aproxime este real</p><p>recalcado que não vem à memória? A primeira coisa que Freud</p><p>propõe é que o faça através da construção da “verdade histórica”.</p><p>A História não é a Arqueologia. O objecto da História não é a realidade</p><p>material, mas a sua verdade. Assim, o historiador não trabalha</p><p>directamente sobre o passado, mas indirectamente, sobre arquivos,</p><p>documentos ou outro tipo de inscrição que permita testemunhar</p><p>a verdade do que terá ocorrido. É desta maneira que o que fi cou</p><p>inscrito passa a escrito. Assim, não é de admirar que a História acabe</p><p>sobretudo por se encontrar nos livros de História. Freud fala de</p><p>“romance histórico” a propósito do seu último livro sobre Moisés.</p><p>84</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e</p><p>de suporte</p><p>A verdade histórica não só depende das palavras que fazem e</p><p>organizam os factos, como da subjectividade do historiador. Assim, à</p><p>semelhança do mito e do romance familiar, a verdade da história tem</p><p>uma estrutura de linguagem.</p><p>História e Psicanálise seriam, assim, fi cções verosimilhantes de um</p><p>passado ao qual não se pode realmente ter acesso? No fundo, seriam</p><p>uma fantasia mais ou menos próxima do real.</p><p>É aqui que temos de dar mais um passo e lembrar que há construção</p><p>e construção, como indica o plural no título de Freud.</p><p>Como Freud explica em Uma Criança é batida, a análise constrói a</p><p>verdade histórica colhendo, na fala do sujeito, a frase que estrutura o</p><p>objecto do fantasma inconsciente. Mas para alcançar este objectivo</p><p>é necessário que a análise seja mais do que um outro fantasma, um</p><p>sonho, uma divagação ou, mesmo, uma interpretação delirante. A</p><p>condição que Freud exige aqui para a análise é que ela não tente,</p><p>como o delírio individual e colectivo, escapar à “crítica lógica”.64</p><p>Esta exigência de lógica que Freud faz no fi nal do seu artigo é crucial</p><p>para o leitor poder abordar o verdadeiro real da psicanálise. Ela é</p><p>também a última resposta que Freud dá à objecção do conhecido</p><p>sábio, possivelmente um especialista da lógica da descoberta</p><p>64. Não foram os livros de Ciência e de Medicina, mas o livro em que o Presidente</p><p>Schréber falou do seu delírio que permitiu a Freud elaborar a sua concepção da</p><p>psicose, mais especifi camente da paranóia. Como Shakespeare, Freud afi rma que não</p><p>há apenas método no delírio, mas também tentativa de cura. Todo o delírio tem um</p><p>“núcleo de verdade” (Wahrheitskern), dito de outro modo, a verdade é nuclearmente</p><p>delirante. O delírio pode perfeitamente conduzir à construção de um mundo; é o caso</p><p>da religião como delírio fundado em algo (Deus) de que ninguém pode garantir a</p><p>verdade, nem dar realmente provas da existência.</p><p>85</p><p>José Martinho</p><p>científi ca (Popper) ou da lógica simbólica (Wittgenstein).</p><p>Mesmo que Freud confesse que não se devia tratar um assunto</p><p>destes da maneira ligeira como o faz, o alerta lançado no fi nal ao</p><p>leitor para que não tente escapar à lógica convida à problemática</p><p>psicanalítica da construção lógica.65</p><p>Depois de ter proposto e desqualifi cado várias analogias entre o</p><p>fazer analítico e outros tipos de praxis - o trabalho intelectual, o fazer</p><p>puzzles, a Adivinhação, a Arqueologia, a Arquitectura, a Decoração, a</p><p>História e até o delírio psicótico -, Freud estabelece uma homologia</p><p>entre o analisar e o que faz o lógico.</p><p>Explico-me: para que a análise não seja apenas uma interpretação</p><p>delirante, ela deve proceder como na Lógica.</p><p>O delírio paranóico também é rigorosamente lógico. O problema</p><p>reside no postulado de onde ele parte (por exemplo: “sou o Cristo”).</p><p>É que o psicótico não aceita perder o seu postulado, porque de outra</p><p>maneira o seu mundo ruiria. Mas, no universo da ciência, quer se</p><p>trate de Lógica ou de Física Matemática, aceita-se sem drama mudar</p><p>de axiomática quando esta não conduz a nada de sério.</p><p>Como procede o lógico? Começa por apagar todos os pressupostos,</p><p>postula no lugar vazio assim criado certos axiomas e regras, e</p><p>deduz as consequências que levam à imparável verdade. Quando o</p><p>resultado da inferência não é válido, muda de axiomática, sem que</p><p>65. O saber construído na análise acaba por equivaler ao que o Compêndio de</p><p>Psicanálise de Freud chama a “equação pessoal”.</p><p>86</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>haja desmoronamento catastrófi co da realidade, como é o caso na</p><p>psicose.</p><p>Assim, o que há de mais real em lógica não é aquilo que é negado ou</p><p>colocado no início entre parêntesis, nem os axiomas ou postulados,</p><p>sempre fi losofi camente discutíveis, mas o que chega no fi nal como a</p><p>indiscutível conclusão.</p><p>A talking cure tem um procedimento algo semelhante: suspende</p><p>todas as qualidades físicas, intelectuais e morais do Eu consciente,</p><p>postula o princípio da palavra e a regra da associação livre verbal,</p><p>e retira as consequências. O princípio da fala livre do analisando</p><p>não levanta problemas como o axioma do delírio psicótico, já que</p><p>permite que o sujeito diga tudo o que lhe passa pela cabeça.</p><p>O universo inicial tende para o infi nito. A liberdade de palavra dada</p><p>ao analisando abre efectivamente um universo de discurso onde</p><p>tudo pode ser dito ou interpretado; mas, à medida que as palavras</p><p>proferidas ao acaso começam a encadear-se, o determinismo a que</p><p>estão sujeitas vai-se revelando.</p><p>Quando o analisando desdiz o que disse começam a surgir as</p><p>contradições e o universo do discurso retrai-se. Não é só a lógica</p><p>das proposições verdadeiras ou falsas que assim se elabora, mas</p><p>também a lógica das modalidades, já que aparece o necessário, o</p><p>contingente, o impossível e o possível.</p><p>A partir de tudo o que disse ao longo dos anos e recebeu em</p><p>feedback do analista, o analisando é fi nalmente obrigado a concluir</p><p>87</p><p>José Martinho</p><p>aquilo a que as suas palavras conduziram. É aí que pode fi nalmente</p><p>reconhecer o que ele é como objecto do fantasma fundamental,</p><p>do script que ocupa normalmente o lugar do real primordialmente</p><p>recalcado.66</p><p>Podemos agora entender porque é que Freud dizia que, numa análise</p><p>correctamente conduzida, o analisado parte convencido da verdade</p><p>da construção, ou vencido pela série dos pensamentos inconscientes</p><p>e vicissitudes pulsionais a que o seu Eu resistia.</p><p>Esta convicção na verdade da construção não é uma convicção</p><p>delirante, mas a fé comprovada que o analisado passou a ter nas</p><p>consequências lógicas da palavra.</p><p>Porém, a demonstração hipotético-deductiva que acabo de</p><p>apresentar para dar conta do percurso de uma análise contém</p><p>algo de indecidível; e deixa um resto que não é igual a zero. É este</p><p>suplemento que permite que o analisado se dê conta que o real com</p><p>que terá de lidar não cabe inteiramente numa construção lógica.</p><p>Esta manifestação residual vai dar lugar à nova e singular relação – de</p><p>abdução, invenção ou criação – que o sujeito passa a tecer com o seu</p><p>sintoma.</p><p>Isso já não acontece na análise, mas na ex-sistência.</p><p>66. O mistério do primeiro traumatismo está associado ao encontro do indivíduo da</p><p>espécie com a linguagem. Neste acontecimento, ele entranha o estranho que o força</p><p>a advir como sujeito falante, a identifi car-se com um nome, e a reorganizar a relação</p><p>com a Coisa perdida (que devém o objecto alheio e próprio).</p><p>88</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>2.3 FINS DA ANÁLISE</p><p>“Não pretendo afi rmar que a análise nunca tem fi m.</p><p>Qualquer que seja a nossa atitude teórica relativamente a esta questão,</p><p>o fi m de uma análise é uma questão prática”</p><p>Freud</p><p>Alguns comentadores afi rmam que Análise Terminável e Interminável</p><p>(1937)67 refl ecte o “pessimismo” de Freud quanto à efi cácia</p><p>profi láctica e terapêutica e da psicanálise, em particular face ao peso</p><p>que teria a Biologia na constituição do sintoma. Mas se lermos com</p><p>mais atenção este texto testamentário do inventor da psicanálise,</p><p>veremos que responde sobretudo aos desvios de certos psicanalistas</p><p>(essencialmente Otto Rank, Sandor Ferenczi e Anna Freud68)</p><p>relativamente ao real que não entra nas construções da análise, e por</p><p>conseguinte ao incurável do sintoma.</p><p>I</p><p>Na primeira secção, Freud interroga a razão pela qual se procurou</p><p>encurtar a duração das análises. Começa por responder que foi</p><p>porque estas passaram a consumir muito tempo, mas também porque</p><p>aqueles que foram obrigados a admitir a existência das neuroses</p><p>procuraram desde logo desembaraçar-se o mais rapidamente delas.</p><p>67. FREUD, S. (2011). Análise terminável e interminável. Transferência, construções e fi ns</p><p>da psicanálise. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas.</p><p>68. Estes três autores contribuíram fortemente à partida para a infeliz concepção</p><p>que a maioria dos contemporâneos ainda tem da Psicanálise, nomeadamente</p><p>para a</p><p>maternagem psicoterapêutica e o reforço psicológico do Ego.</p><p>89</p><p>José Martinho</p><p>Existiram várias destas tentativas para abreviar o tempo das análises,</p><p>como a que foi proposta por Otto Rank (1884-1939) depois da</p><p>publicação de O Traumatismo do Nascimento (1924).69</p><p>Rank defendeu no seu livro que a origem de todas as neuroses reside</p><p>na separação do bebé e da mãe no momento do nascimento. Para</p><p>além de negar a importância crucial que Freud tinha atribuido ao</p><p>complexo de Édipo, do ponto de vista prático, esta tese implica que</p><p>bastaria focar a análise no nascimento para reduzir consideravelmente</p><p>o tempo e os custos do tratamento.70</p><p>De que cartola é que Rank tirou este coelho, já que não existe</p><p>ninguém que se lembre do seu próprio nascimento? Certamente</p><p>que não foi da sua análise, pois Rank nunca foi analisado.71 Rank</p><p>refere-se à sua experiência, não só como fi lósofo e intelectual, mas</p><p>também como terapeuta. De facto, mesmo se não foi o único nessa</p><p>época a aceitar pacientes sem ter sido analisado, Rank passou a fazê-</p><p>lo a partir de 1920.</p><p>Seja de onde for que o autor tenha tirado a ideia, O Traumatismo do</p><p>69. RANK, O. (1976). Le traumatisme de la naissance. Paris: Petite bibilothèque Payot.</p><p>70. O livro de Rank procura ir ainda mais longe, explicar a “humanização” em geral a</p><p>partir do traumatismo do nascimento. A superação deste trauma na análise permitiria</p><p>modifi car o rumo da “evolução total da humanidade”.</p><p>71. Rank acabou por pedir uma análise a Freud para evitar a ruptura defi nitiva com este.</p><p>Demasiado tarde. Assim, esta análise que não se chegou a efectuar foi substituída pela</p><p>partida de Rank para os EUA; e a promoção, já no âmbito da “prosperidade americana”,</p><p>do seu modelo psicoterapêutico. A situação das Breves nos EUA tornou-se bastante</p><p>preocupante a partir de certa altura. Perls, por exemplo, mostra-se muito preocupado</p><p>com o assunto, alertando para aqueles que, na cultura americana e contra os que</p><p>passaram “séculos” nos divãs europeus, incitavam às “curas instantâneas, ao gozo</p><p>instantâneo (…) à coisa rápida-rápida”, que não dá tempo a ninguém e impede o</p><p>crescimento.</p><p>90</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Nascimento conduziu a um projecto de psicoterapia breve no qual o</p><p>indivíduo superaria – com a ajuda de um analista mãe ou “parteira”,</p><p>mais do que “médico” - o recalcado primordial. Verdade seja dita que</p><p>Rank apenas concebeu esta superação como uma maneira de saber</p><p>lidar melhor com o trauma originário.72</p><p>Um dos comentários que Freud faz à proposta de Rank é que esta não</p><p>deixa de estar relacionada com o modo de vida americano. Podíamos</p><p>também dizer com a tentativa de adaptar o timing do analisando à</p><p>pressa em que começou a viver o homem contemporâneo.</p><p>Mas o desafi o psicoterapêutico de Rank não refl ecte apenas o</p><p>american way of live. O propósito de Rank não é só especulativo,</p><p>desconhece também que, na análise, os efeitos não são proporcionais</p><p>à causa. Mais ainda, desconhece que os fenómenos psíquicos não</p><p>derivam de uma única causa ou que são sobredeterminados por</p><p>toda uma rede causal. Aquilo que Rank propôs, conclui Freud, é algo</p><p>semelhante ao que faria um corpo de bombeiros que procurasse</p><p>apagar o fogo que alastrou por toda a parte apenas no local onde</p><p>este se defl agrou.</p><p>Em seguida, Freud faz o seu mea culpa, confessa que também</p><p>cometeu erros semelhantes no início. Ele não se refere às curas</p><p>curtas que praticou quando ainda não sabia o tempo que iriam</p><p>durar as análises, mas ao primeiro paciente que o obrigou a colocar</p><p>o problema das análises longas, um jovem russo, na realidade Sergei</p><p>Pankejeff (1887-1979), mais conhecido pelo “Homem dos Lobos”.73</p><p>72. O verdadeiro trauma do sujeito não é o do nascimento, como acreditava Rank, mas</p><p>o da língua que lhe é imposta e onde ele é primordialmente banhado.</p><p>73. A família Pankejeff (transliteração actual Pankeyev) era grande proprietária em St.</p><p>91</p><p>José Martinho</p><p>Freud fi xou abusivamente o termo deste tratamento que se estava a</p><p>tornar demasiado longo. Isto levou a que privasse o sujeito do tempo</p><p>que lhe era necessário para procurar a sua verdade, compreendê-la</p><p>e concluir a análise sem pressa. Apesar do episódio da alucinação</p><p>psicótica com que já se tinha deparado, esta medida de extorsão</p><p>fez com que fosse impossível descobrir a paranóia que se escondia</p><p>por detrás da neurose infantil do adulto, psicose que só veio a</p><p>desencadear-se quinze anos mais tarde, no pós-guerra, quando o</p><p>paciente era seguido por uma das suas alunas, a psiquiatra americana</p><p>Ruth Mack Brunswick.</p><p>Estes e outros exemplos de chantagem psicológica fazem com que</p><p>Freud conclua esta primeira secção do seu artigo da seguinte forma:</p><p>como não se sabe de antemão o tempo que durará uma análise, não</p><p>se deve abreviar a sua duração, nem antecipar o seu termo.</p><p>Petersburg. Sergei estudou no estrangeiro voltando à Rússia em 1905. Em 1906, a sua</p><p>irmã mais velha, Anna, suicida-se. Em 1907, ele começa a mostrar sinais de depressão.</p><p>O seu pai, Konstantin, sofria de uma depressão grave e suicidou-se. Em Janeiro 1910,</p><p>o médico de família levou Serguei a Viena para ser tratado por Freud. Eles encontram-</p><p>se várias vezes entre Fevereiro de 1910 e Julho de 1914. Como Sergei prosseguia</p><p>indefi nidamente o tratamento sem aprofundar a análise, Freud deu-lhe um prazo</p><p>para terminar até ao fi nal do ano. O paciente vence então as resistências e acaba por</p><p>confessar aquilo de que Freud estava convicto a partir do sonho dos lobos e restante</p><p>material: a cena primitiva ou momento traumático (diferente do nascimento) em que</p><p>a criança teria visto os seus pais a fazer sexo a tergo (por de trás). Mais tarde, Freud</p><p>pensou na possibilidade de o sujeito ter presenciado a cópula entre animais e, depois,</p><p>transferido a cena para os seus pais. A primeira publicação de Freud sobre O “Homem</p><p>dos Lobos” é escrita em 1914; ela centra-se na história da neurose infantil do adulto.</p><p>O texto é publicado em 1918. Depois da guerra, Sergei volta a Viena pobre e doente.</p><p>Freud recebe-o em análise até 1919. Outros analistas e a própria comunidade analítica</p><p>continuarão durante décadas a ocupar-se do paciente. Sergei Pankejeff transforma-se</p><p>pouco a pouco no principal caso da Psicanálise. Mais tarde, os sujeito publica mesmo</p><p>um livro sobre o seu caso, assinado com o pseudónimo o “Homem dos Lobos”. Sergei</p><p>fi cou sempre em contacto com a família e discípulos de Freud até à morte.</p><p>92</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>II</p><p>A vontade de por rapidamente um termo à análise pode vir de fora,</p><p>mas é mais inquietante quando vem do próprio meio analítico.</p><p>Convém, pois, que o analista saiba do que está a falar quando fala de</p><p>“fi m da análise”; e logo à partida da sua fi nalidade mais consensual,</p><p>que é a terapêutica.</p><p>A análise acaba sempre quando o analisando e o analista deixam de</p><p>se encontrar para a sessão analítica. Quando a fi nalidade da análise é</p><p>apenas terapêutica, é preferível que o analisando tenha conseguido</p><p>levantar o recalcamento patológico, rememorar as lacunas da sua</p><p>história e construir o fantasma fundamental que determinava o seu</p><p>sofrimento sintomático. Mas uma vez alcançado este objectivo, será</p><p>que é possível falar de um restabelecimento defi nitivo, ou de dizer</p><p>que os analisados fi caram curados para sempre?</p><p>Freud afi rma várias vezes ao longo do seu texto que não há cura</p><p>defi nitiva em psicanálise. Por esta razão, aconselha os analistas a</p><p>preocuparem-se menos com a “cura” e mais com os “obstáculos” que</p><p>encontram no seu caminho.</p><p>A primeira pedra que se encontra no caminho da análise é sempre</p><p>o sintoma. Como é que este se forma? Em geral, a etiologia do</p><p>sintoma é mista: em primeiro lugar, existe uma pré-condição, a</p><p>constituição hereditária. Em seguida vêm as causas concorrentes,</p><p>como o esgotamento físico, a sobrecarga intelectual, os acidentes</p><p>traumáticos. Finalmente, existem</p><p>as causas específi cas, em particular</p><p>93</p><p>José Martinho</p><p>as alterações do Eu face à pulsão, ou a forma como as determinações</p><p>biológicas e sociais são vividas na realidade psíquica do indivíduo</p><p>durante o seu desenvolvimento.</p><p>Quando se trata de constituição inata (doenças congénitas como</p><p>a demência, etc.), ou de doenças físicas (por exemplo um tumor</p><p>cancerigeno como aquele de que sofria Freud), o psicanalista não</p><p>pode fazer nada senão minorar a dor mental, ou melhorar a relação</p><p>do doente com a sua doença. O tratamento que tem mais sucesso é o</p><p>das perturbações causadas por acidentes externos, caso das neuroses</p><p>traumáticas (catástrofes naturais, acidentes ferroviários, crimes de</p><p>guerra, etc.). Este êxito terapêutico equivale normalmente a um</p><p>reforço do Eu. Quando o trauma é interno ou resulta do confronto</p><p>com a pulsão, o Eu não consegue fugir, mas apenas modifi car-se em</p><p>função das reivindicações pulsionais.</p><p>Por vezes, parece que a pulsão e o Eu acabam por encontrar uma</p><p>paz provisória, mas esta não é mais do que uma nova formação</p><p>de compromisso sintomática. Nos primórdios da análise, chegou-</p><p>se a pensar que o tratamento terminava quando era alcançado o</p><p>equilíbrio psicossomático enunciado pelo “princípio de constância”</p><p>(Fechner). Mas passados mais de doze a vinte anos, em que estado</p><p>se encontram os pacientes que nessa altura se acreditou estarem</p><p>“curados”?</p><p>Freud já tinha falado do “Homem dos Lobos”. Agora dá mais dois</p><p>exemplos. O primeiro – mesmo que não diga o nome do paciente, já</p><p>falecido - é o de Sandor Ferenczi.</p><p>94</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Durante a sua análise com Freud, Ferenczi não mostrou nenhuma</p><p>hostilidade em relação ao analista.74 Depois de ter terminado a</p><p>análise, realizou as suas aspirações sentimentais e profi ssionais,</p><p>casou com a mulher que amava, começou a praticar a psicanálise e</p><p>tornou-se um mestre para os seus antigos companheiros e rivais.75</p><p>Mas sobretudo a partir de 1919, trouxe a lume novas propostas</p><p>teóricas e práticas,76 ao mesmo tempo que mostrou uma inesperada</p><p>agressividade contra o seu analista. Dizia ele que Freud não amava</p><p>os seus pacientes, mas apenas o seu Superego. Ferenczi criticou</p><p>sobretudo Freud por este não ter analisado a transferência negativa,</p><p>por não a ter sabido descobrir, nem provocar, e, logo, ser incapaz de</p><p>levar a análise até ao fi m.</p><p>Freud responde que o analista não tem de adivinhar confl itos, nem</p><p>provocar os que não surjam espontaneamente no tratamento,</p><p>mesmo com a fi nalidade de analisar a “transferência negativa”. No</p><p>entanto, a inesperada agressividade de Ferenczi prova que a sua</p><p>análise não estava efectivamente terminada.</p><p>O segundo exemplo é o de uma paciente histérica. Freud diz que</p><p>74. A análise de Ferenczi (1873 -1933) durou duas semanas em 1914, três semanas</p><p>depois da Guerra, de Junho a Julho de 1916, e mais outras duas, de Setembro a</p><p>Outubro do mesmo ano.</p><p>75. Ferenczi acabou por se casar com uma velha amante e analisanda, Gizella Palos.</p><p>Analisou e apaixonou-se também se por Elma, a fi lha de Gizella.</p><p>76. Em particular a “técnica activa”, o “relaxamento” e a “neocartarse”, com a</p><p>indulgência que permitia a alguns pacientes de o beijarem. Freud avisa-o logo:</p><p>“você não dissimulou que beija os seus pacientes (…) com certeza que poderá ir</p><p>mais longe, e incluir também na técnica “as carícias” (…), depois virão outras técnicas</p><p>mais audaciosas (…), o que terá como efeito um notável aumento do interesse pela</p><p>psicanálise (…). Olhando então a cena animada de que foi o instigador, Deus Pai</p><p>Ferenczi dirá para consigo mesmo: afi nal de contas, talvez devesse ter parado na</p><p>minha técnica de afeição maternal, antes do beijo”.</p><p>95</p><p>José Martinho</p><p>depois de a análise a ter aliviado de graves sintomas de conversão</p><p>somática (em particular de severas dores nas pernas), ela tornou-</p><p>se uma mulher extremamente activa durante os doze anos que se</p><p>seguiram. Mas ao fi m deste tempo, teve uma infecção ginecológica</p><p>que obrigou à extracção de um mioma e ablação do colo do útero</p><p>(histeroctomia). A doente enamorou-se do cirurgião que a operou e</p><p>começou a fantasiar que lhe podiam infl igir outras transformações</p><p>orgânicas dolorosas (relações sexuais, gravidez). O aparecimento</p><p>deste romance masoquista no interior do fantasma histérico, indica,</p><p>também, que faltava, pelo menos, analisar um tal traço de perversão</p><p>neurótico.</p><p>Os dois casos provam – mais contra os optimistas que contra os</p><p>cépticos do tratamento analítico – que se deve levar sempre em conta</p><p>as “manifestações residuais” do sintoma, quer estas se apresentem</p><p>numa forma negativa (traços perversos, fantasmas inconscientes,</p><p>resíduos de transferência não analisados, etc.), ou positiva. Penso ser</p><p>este o momento indicado para dizer que o analista também é um</p><p>resto da análise, e o mais positivo. Um resto em acto.</p><p>96</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>III</p><p>Nesta terceira secção, Freud começa por lembrar que, durante os</p><p>últimos anos, se dedicou sobretudo às análises didácticas.77</p><p>Estas não só exigem mais tempo, como colocaram um problema</p><p>inédito, que obrigou a uma defi nição mais apertada da relação do</p><p>sintoma analisável com o Eu e as puslsões.</p><p>Até aqui, Freud tinha explicado que a etiologia do sintoma em</p><p>geral compreendia a força constitucional das pulsões, os acidentes</p><p>77. No começo, distinguiu-se entre a análise do doente e a análise didáctica, que</p><p>visava apenas a formação do analista. A partir de dado momento – como assinalou</p><p>aliás Ferenczi – as análises dos pacientes começaram a durar mais tempo do que as</p><p>didácticas, o que fazia com que os pacientes começassem a estar mais bem analisados</p><p>que os seus analistas. Foi para ultrapassar este paradoxo que Ferenczi, Freud e os</p><p>outros acharam preferível aumentar o tempo da análise didáctica ou levar a análise</p><p>do psicanalista praticante até ao fi m. É só com Lacan que deixa de haver diferença</p><p>entre análise pessoal e didáctica, mais precisamente, a análise do futuro analista passa</p><p>a incluir a análise pessoal conduzida até às suas últimas consequências, tornando-</p><p>se desde logo análise didáctica toda a análise que produza, no fi nal, um analista.</p><p>Na verdade, só a análise didáctica pode esclarecer devidamente o problema do fi m</p><p>último da análise, por conseguinte do que resta após a dissolução da transferência.</p><p>Convém ainda entender que a análise didáctica não procura encurtar a duração</p><p>do tratamento, mas prolongá-lo o tempo que for preciso, para poder identifi car o</p><p>sintoma e preparar o analisado para a sua futura prática como analista. Assim, aquilo</p><p>que a análise visa fi nalmente é a formação do analista, mesmo se o analisado decide</p><p>não empenhar a sua existência nesta exigência. O que se passa numa análise é mais</p><p>ou menos o seguinte: alguém vem queixar-se do sintoma que lhe atrapalha a vida,</p><p>mas, à medida que vai falando ao analista, afeiçoa-se por este, e acaba por substituir</p><p>o seu antigo sofrimento pelo amor de transferência; depois de ter entranhado a razão</p><p>e o motivo deste estranho fenómeno, o sujeito abandona o objecto de amor irreal</p><p>que o analista foi para ele e pode, então, apaixonar-se pela psicanálise. Neste caso, ele</p><p>consegue fi nalmente perceber que a análise era, desde o início, a verdadeira solução</p><p>do seu sintoma. Formar alguém que possa pensar a análise e praticá-la deste modo</p><p>passa forçosamente pela transformação da relação patológica do sujeito com o seu</p><p>sintoma. Fecho o parêntese.</p><p>97</p><p>José Martinho</p><p>traumáticos e as alterações do Eu. Mas esta nova refl exão obriga-o</p><p>a corrigir o primeiro termo, dizendo que não se deve falar de “força</p><p>constitucional” das pulsões, e sim da sua força “actual”.78</p><p>Se é a constituição hereditária que tem o maior peso até ao</p><p>nascimento, com a família e a sociedade em geral entra também</p><p>em jogo a educação. A maneira de educar e governar o indivíduo</p><p>da espécie passa, então,</p><p>da</p><p>“doença mental”. Todavia, voltámos hoje à concepção greco-romana</p><p>da doença, graças à ideia que aquilo que se passa na “mente” deve</p><p>ser unicamente explicado pelos genes e neurónios, isto é, pela</p><p>Neurobiologia. O que se anuncia deste modo é simplesmente a</p><p>morte de todos os “psis”: psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e afi ns.</p><p>Será que alguma coisa mudou realmente ao longo dos séculos a</p><p>respeito da concepção médica do sintoma? Podemos dizer que o</p><p>velho equívoco do “signo” se manteve, mas que o médico moderno</p><p>vai sobretudo interessar-se pelo sintoma enquanto constructo da</p><p>Medicina científi ca.</p><p>É através do exame clínico que o médico se tornará cada vez mais o</p><p>proprietário legítimo do (saber sobre o) sintoma; é ele que observa</p><p>7. Os cuidados aos doentes foram inicialmente prestados pelos familiares e pessoas</p><p>mais chegadas. A crença que os deuses enviavam os males fez com que a medicina</p><p>começasse por ser uma prática sacerdotal. Mesmo depois do aparecimento dos</p><p>fi siatras, as práticas mágico-religiosas perduraram, por exemplo em Delfos (templo</p><p>de Apolo) e Epidauro (templo de Asclépio). Será sobretudo o racionalismo do Corpus</p><p>Hippocraticum que levará o conhecimento médico ocidental a apoiar-se, até ao fi nal</p><p>do século XVII, nas seguintes palavras: “O corpo do homem tem sangue, linfa , bílis amarela e bílis negra, é isso que constitui a sua natureza e</p><p>que cria a doença e a saúde. Há essencialmente saúde quando estes princípios estão</p><p>em justa proporção de temperamento, de força e quantidade, e a mistura é perfeita;</p><p>há doença quando um destes princípios peca, quer por defeito, quer por excesso, ou,</p><p>isolando-se no corpo, não está combinado com todo o resto”. Apenas a peste e a lepra</p><p>é que não podiam ser atribuídas a um desequilíbrio dos humores e, por esta razão,</p><p>supunha-se que eram transmitidas pelo ar, ou vinham do céu, possivelmente como</p><p>castigo dos deuses.</p><p>17</p><p>José Martinho</p><p>os sinais do processo patológico, lhes atribui um nome e classifi ca; é</p><p>também ele que busca a causa do mal, trata este e procura curá-lo.</p><p>O sintoma vai, assim, sendo determinado pela leitura que o médico</p><p>faz do mal-estar que perturba o corpo do doente, leitura efectuada</p><p>em função do conhecimento acumulado, que será cada vez menos</p><p>aquele que provinha do povo e cada vez mais o dos Mestres em</p><p>medicina. Pressupunha-se, ainda, que o saber herdado deste modo</p><p>se enriqueceria com a experiência particular de cada médico.</p><p>Em todos os casos, o objectivo do saber médico permaneceu até</p><p>a uma data bastante recente o restabelecimento da saúde pela</p><p>remoção do sintoma como signo do estado patológico e da essência</p><p>mórbida do corpo. Só que, durante todo este tempo, os médicos</p><p>ignoraram a etiopatogenia dos sintomas que pretendiam curar. Mais</p><p>que não seja por esta razão, a Medicina tornou-se uma escolástica,</p><p>por vezes mesmo uma demonologia, com a respectiva “caça às</p><p>bruxas”.</p><p>Até ao fi nal do Grande Século, os herdeiros de Hipócrates</p><p>manipularam a alma dos crédulos quando pretendiam curar o seu</p><p>corpo. Charlatães de rua, feiticeiros da ilusão, empíricos de corte ou</p><p>barbeiros-cirurgiões, os médicos pouco ou nada conheciam do seu</p><p>objecto e, por conseguinte, a sua autoridade e reputação estiveram</p><p>constantemente expostas a sarcasmos.8</p><p>8. Cf. MILLEPIERRES, François. (1955). La vie quotidienne des médecins au temps de</p><p>Molière, Paris: Hachette (trad. port A Vida Quotidiana Dos Médicos No Tempo De Molière,</p><p>Edição dos Livros do Brasil). FOUCAULT, Michel. (1963). La naissance de la clinique Une</p><p>archéologie du regard médical. Paris : Presses Universitaires de France ; FOUCAULT,</p><p>Michel. (1972) L´Histoire de la folie à l’âge classique. Folie et déraison. Paris: Gallimard.</p><p>18</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Na Idade Média, os fi siatras passaram a constituir uma congregação</p><p>de “clérigos” saída directamente da Faculdade de Medicina, onde</p><p>defendiam teses que se limitavam a esgrimir as intangíveis regras</p><p>do silogismo. O Grego e o Latim ajudavam em seguida os jovens</p><p>médicos a ganhar a sua vida, porque os populares supunham</p><p>que quem falava estas línguas ou podia redigir receitas com letra</p><p>indecifrável devia certamente ser um santo ou um sábio.</p><p>Ao obscurantismo dos Doutores acrescentavam-se práticas como</p><p>os diagnósticos pelo cheiro e degustações das fezes e das urinas, as</p><p>centenárias sangrias ou sanguessugas em torno dos jugulares, do</p><p>ânus e da coluna vertebral, cauterizações, injecções de aguarás e de</p><p>essência de terebintina, incitações a beber os mais estranhos chás e</p><p>xaropes, bem como a aplicação de mezinhas com plantas e a prática</p><p>da Astrologia, da Magia e da Alquimia com diversos minerais. Se o</p><p>pó do chifre mirífi co do unicórnio continuava a ser citado como uma</p><p>droga de excelência em todas as farmacopeias do Antigo Regime era</p><p>também e sobretudo, como disse Ambroise Paré, porque as “pessoas</p><p>gostam de ser enganadas.”</p><p>Mesmo se a ideia de fundo continuou a ser que a Medicina apenas</p><p>podia coadjuvar Deus e/ou a Natureza no tratamento dos males, os</p><p>médicos não escaparam ao furor de curar.</p><p>Apesar destes e de outros avatares, o saber da Medicina sempre teve</p><p>um enorme poder, na medida em que todos, homens e mulheres,</p><p>jovens e velhos, nobres e plebeus, ricos e pobres acabam sempre um</p><p>dia por cair nas mãos dos médicos.</p><p>19</p><p>José Martinho</p><p>O Estado só se ocupou tardiamente das questões relativas à saúde</p><p>da população. Foram as comunidades religiosas que começaram a</p><p>organizar a Assistência Pública. A acção caridosa desenvolvida por</p><p>estas comunidades deu lentamente lugar aos primeiros Hospitais,</p><p>onde se amontoavam em condições da maior insalubridade os</p><p>necessitados; levou igualmente à criação das primeiras clínicas</p><p>privadas, para uso dos mais abastados.</p><p>Em Portugal, apesar de D. Dinis ter nomeado, em 1536, o padre</p><p>Pedro Fernando de Oliveira como “curador dos fora de siso”, só em</p><p>1763 é que estes foram instalados na enfermaria João de Deus do</p><p>reconstruído Hospital do Rossio. Até ao terramoto de 1755, e nos</p><p>anos seguintes, foram enfi ados em pátios de hospital, fossos de</p><p>fortifi cações, vários calabouços e cabanas, bem como nas cocheiras</p><p>de Castelo Melhor. Em 1850 é inaugurado, pelo Duque de Saldanha</p><p>e com o apoio de D. Maria II, o primeiro “asilo de lunáticos”, o hospital</p><p>de Rifanholes, futuro Miguel Bombarda. Os recursos eram muito</p><p>escassos e o ambiente desolador, mas já se utilizavam algumas</p><p>técnicas “psicoterapêuticas” como a persuasão, a balnearioterapia, a</p><p>ergoterapia e a terapia ocupacional. Mais tarde chegaram os Asilos</p><p>de alienados, os Hospícios e Manicómios.9</p><p>Em 1786, a Salpêtrière – uma antiga fábrica de pólvora de Paris que</p><p>se tornou um famoso Hospital psiquiátrico – transformou-se num</p><p>asilo de alienados para “7.000 indigentes, mais um certo número de</p><p>loucas e de prostitutas.”</p><p>9. Cf. SOBRAL CID, José Matos. (1984). Obras, vol. II. Lisboa: Fundação Calouste</p><p>Gulbenkian.</p><p>20</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>A possibilidade da “doença mental” como entidade nosológica</p><p>à parte só chega na segunda metade do século XVIII. Em França,</p><p>Philippe Pinel (1745-1826) separa pela primeira vez os loucos, dos</p><p>indigentes, dos tristes e dos criminosos, fazendo com que se comece</p><p>a encarar a possibilidade de uma “alienação mental” separada de</p><p>qualquer lesão anatómica; é também ele que propõe um “Tratamento</p><p>Moral” dos “desassizados” (os sem siso ou juízo), precursor da ideia de</p><p>“tratamento psíquico”.</p><p>Com o desenvolvimento dos novos conhecimentos científi cos a</p><p>Medicina começou a aderir lentamente ao método científi co e</p><p>experimental, como podemos ler já em Molière, quando este aposta</p><p>na ciência contra o latim médico.</p><p>Foi a Anatomopatologia renascentista e a descoberta do sistema</p><p>circulatório sanguíneo por Harvey (1578-1657) que levaram cada</p><p>vez mais os</p><p>a sobredeterminar o que ele era à partida.</p><p>Mas apesar da educação, não é o Eu que domina as pulsões, e sim o</p><p>contrário. Mesmo que o Eu fosse forte Hércules, perderia sempre a</p><p>luta contra o monstro pulsional.79</p><p>Será que este poderio da pulsão limita os esforços terapêuticos da</p><p>psicanálise? Para responder devidamente à questão, Freud diz ser</p><p>forçado a recorrer à “Feiticeira” (Goethe) – ou Fantasia, como também</p><p>sugere – metapsicológica.80</p><p>A Metapsicologia freudiana é a parte da obra que aborda a</p><p>estrutura e o funcionamento do aparelho psíquico a partir de várias</p><p>perspectivas. Destacam-se sobretudo três pontos de vista: o “tópico”</p><p>- ou “topográfi co”, quando se leva em conta a grafi a que se inscreve</p><p>no espaço topológico – mostra a divisão do sujeito sobre o qual</p><p>opera a psicanálise; ele permite entender que o sujeito da psicanálise</p><p>não se reduz ao Eu da primeira e da segunda tópica. O ponto de vista</p><p>78. A actualidade da pulsão não é independente do que Freud chama a</p><p>“indestrutibilidade” do desejo e sua “intemporalidade” inconsciente. Podemos dizer</p><p>que indestrutibilidade e intemporalidade são nomes freudianos da estrutura da</p><p>linguagem.</p><p>79. Um dos monstros com os quais Hércules luta, o Centauro (corpo de cavalo e</p><p>cabeça de homem), mostra relativamente bem o carácter híbrido da pulsão freudiana.</p><p>80. So muss denn doch die Hexe dran! “Bem precisamos que a Feiticeira nos ajude”</p><p>(Goethe, Fausto, verso 2365).</p><p>98</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>“dinâmico” analisa o que se passa na mente em termos de confl ito; é</p><p>este ângulo que leva a pensar que existe uma guerra mais ou menos</p><p>latente entre os batalhões da pulsão que estão no Inconsciente,</p><p>e os do Eu, que estacionam na Consciência. Mas o ponto de vista</p><p>sobre o qual Freud insiste agora é o “económico”, os investimentos,</p><p>desinvestimentos e contra-investimentos que permitem ao Eu</p><p>negociar um lucro com a pulsão.81</p><p>Freud começou por situar o Eu ao nível consciente, e defi ni-lo como</p><p>uma função de desconhecimento, uma resistência ao inconsciente e</p><p>uma defesa contra as moções pulsionais. Mas a segunda tópica veio</p><p>mostrar que o Ego e o Id têm a mesma origem, que grandes partes</p><p>do Ego permanecem inconscientes, mais ainda, que o Ego é sempre</p><p>um aliado da pulsão. Finalmente, Freud explica que o sintoma é o nó</p><p>desta aliança, o companheiro que o Ego se dá na busca da satisfação</p><p>pulsional que não se deu.</p><p>É neste ponto que Freud é obrigado a dar um pequeno passo em</p><p>direcção do que chamou, desde 1919, o “para além do princípio</p><p>do prazer”. Mas antes de entrar neste terreno de areias movediças,</p><p>previne o leitor que a tentativa de calar as pulsões não só é ilusória,</p><p>como indesejável. O Eu que se desenvolve no interior da reserva</p><p>pulsional começa por ser infantil, imaturo, e utilizar mecanismos de</p><p>defesa contra aquilo que o inibe e angustia.82 Os mecanismos que</p><p>81. Freud associou à partida este lucro (Lustgewin) à satisfação proporcionada pelo</p><p>princípio do prazer. Mas o intercâmbio entre o princípio de prazer e o princípio de</p><p>realidade (que reina ao nível do consciente) apenas se torna possível mediante a</p><p>representação de palavra, que a primeira tópica situa no pré-consciente. Na verdade,</p><p>a palavra tanto está do lado do inconsciente, como da consciência, da representação,</p><p>como da signifi cação, do afecto, como da satisfação. É nesta medida que ela constitui</p><p>o princípio mesmo da talking cure.</p><p>82. Quando o Eu procura livrar-se dos novos confl itos através de um “recalcamento</p><p>99</p><p>José Martinho</p><p>escolhe persistem ao longo da existência para ajudar a “domar” a fera</p><p>pulsional, isto é, a lidar melhor com as pulsões. Não podendo vencer</p><p>um inimigo que é mais forte do que ele, o Eu alia-se à pulsão. Esta</p><p>aliança não o torna infeliz, mas feliz, ainda que a consciência tenha</p><p>uma grande difi culdade em reconhecer este tipo de prazer.</p><p>A estratégia mais usual que o Eu utiliza para extrair um benefício</p><p>do corpo pulsional é a seguinte: quando o organismo em evolução</p><p>é perturbado por reforços fi siológicos (puberdade, menopausa),</p><p>ou mais geralmente pelas pressões da vida quotidiana, o Eu pode</p><p>regressar a fases anteriores do desenvolvimento. Dado que estas</p><p>etapas nunca são inteiramente ultrapassadas, e os antigos objectos</p><p>defi nitivamente abandonados, ele regride às antigas organizações</p><p>libidinais (oral, anal, genital) e fi xa-se no que aí privilegiou (seio,</p><p>excremento, pénis/clítoris, etc.).</p><p>Esta regressão e fi xação são sufi cientes para que a análise não</p><p>falsifi que os fenómenos defendendo a existência de uma lei geral do</p><p>desenvolvimento. De facto, a psicanálise não concebe a causalidade</p><p>de um modo linear, como um progresso contínuo. Dado que lida</p><p>com processos complexos e transformações incompletas, ela sabe</p><p>que o ponto de partida e de chegada de um percurso não são</p><p>sufi cientes para explicar as mudanças quantitativas e compreender</p><p>os estados qualitativos nas etapas intermediárias. Existem sempre</p><p>manifestações residuais do sintoma; e não é possível prever, nem</p><p>prevenir contra as “compensações” e “sobrecompensações” destas</p><p>réstias de gozo.</p><p>secundário”, o preço que paga por esta revisão dos antigos mecanismos de defesa é</p><p>sempre o retorno do recalcado.</p><p>100</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Nesta medida, Freud diz ser preferível que o psicanalista pense como</p><p>Nestroy, a saber, que todo passo em frente apenas tem metade do</p><p>tamanho do que parece no início.</p><p>IV</p><p>O psicanalista não dá conselhos, nem se lança em acções preventivas</p><p>contra as futuras doenças, porque a única realidade com que lida é a</p><p>da neurose de transferência. É neste terreno e não no da antecipação</p><p>imaginária dos confl itos que o sintoma fala e consegue encontrar a</p><p>sua solução psicanalítica.</p><p>A psicanálise não procura eliminar um sintoma que, no fundo, é</p><p>irredutível; mas também não se contenta com o ponto de vista</p><p>estritamente pragmático, para o qual basta que o sintoma não</p><p>perturbe a ordem estabelecida, a boa adaptação do indivíduo ao</p><p>meio em que vive. Um Ego bem adaptado, possuidor de um carácter</p><p>forte e rígido, é um Ego imbecil, o contrário do sujeito fl exível que a</p><p>análise supõe.</p><p>Ainda que não possa trazer benefícios a quem não adere ao seu</p><p>artifício, a análise é a única prevenção possível: uma espécie de</p><p>vacina dada em doses pequenas, sessão a sessão.</p><p>Mesmo que o analista tivesse uma bola de cristal que lhe permitisse</p><p>adivinhar o futuro, não devia brincar ao aprendiz feiticeiro. O analista</p><p>sabe que ninguém pode viver o futuro por procuração, mas também</p><p>que não tem o direito de produzir confl itos artifi ciais, por exemplo</p><p>provocando o analisando para este ter uma atitude hostil e, assim,</p><p>101</p><p>José Martinho</p><p>analisar a transferência negativa. Mesmo se está silencioso como o</p><p>cão que dorme, o confl ito, se existe realmente, acordará um dia e</p><p>ladrará.</p><p>Também é perfeitamente inútil dar lições ao analisando. Tudo se</p><p>passaria então como no caso dos povos primitivos a quem se pregou</p><p>o cristianismo, mas que continuam a adorar em segredo os seus</p><p>velhos ídolos. Ou como no caso daqueles que dão uma educação</p><p>sexual às crianças, sem quererem saber que estas não sacrifi cam ao</p><p>novo conhecimento as teorias sexuais que despontaram com o seu</p><p>desenvolvimento. Também não é sufi ciente que se leiam obras de</p><p>psicanálise para saber o que esta é; o leitor pode sentir-se tocado</p><p>pelas passagens que se aplicam a ele, mas o resto deixa-o frio.</p><p>V</p><p>Depois de tratar do problema da força das pulsões e da acção do</p><p>trauma na etiopatogenia do sintoma, Freud vai-se focar na alteração</p><p>do Ego.</p><p>Muita gente acredita que o analista deve associar-se ao Eu do</p><p>analisando para lutar contra a doença mental. Foi esta ideia que</p><p>promoveu o ideal de um Ego forte, adulto e autónomo, concepção</p><p>contraditória com a da segunda tópica freudiana, que afi rma que</p><p>o Ego é apenas</p><p>o servidor de três Senhores: o Id, o Superego e o</p><p>mundo externo. É também a este propósito que Freud cita O Eu e os</p><p>Mecanismos de Defesa, título da tese que a sua fi lha Anna defendeu</p><p>em 1936, para se tornar sócia titular da Associação Psicanalítica</p><p>Internacional..</p><p>102</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>A jovem Anna Freud pensava que a análise devia reforçar o Eu que</p><p>ainda não era senhor de si em sua casa. A descriminação psicanalítica</p><p>dos mecanismos de defesa seleccionados pelo Ego devia-o ensinar</p><p>a combater os inimigos que alteram a sua identidade e unidade. A</p><p>psicanálise tornar-se-ia desde logo a verdadeira pós-educação, a</p><p>única capaz de corrigir devidamente os erros cometidos pela família,</p><p>a escola e a sociedade na educação da criança.83</p><p>Mas o único ponto que Freud entende sublinhar nesta secção é</p><p>que o Eu não é, nem poder ser um aliado do analista. Como diz, o</p><p>Eu normal – esse que se pressupõe poder fazer uma aliança com o</p><p>analista - não existe ou é apenas uma “fi cção ideal”.</p><p>A “normalidade” do Eu é uma média. Aquilo que é mais normal é o</p><p>sintoma, geralmente neurótico. Mas a clivagem perversa prova ainda</p><p>melhor do que a neurose que o analista não pode contar com a ajuda</p><p>de um Eu normal, uno e idêntico a si mesmo. E no que diz respeito</p><p>às psicoses ou psiconeuroses narcísicas, sabemos que elas são, por</p><p>estrutura, rebeldes à relação transferêncial.84</p><p>83. Três concepções do Ego ligam-se e opõem-se na obra de Sigmund Freud. A primeira</p><p>concebe o Eu a partir da Neurologia e Teoria da Evolução, como um produto orgânico</p><p>que se diferencia através de reacções bem adaptadas aos estímulos. A segunda</p><p>concebe-o como uma entidade psicológica construída progressivamente na relação</p><p>com outrem, capaz de fazer face aos constrangimentos da realidade. A terceira limita-</p><p>se a escutar o que cada um diz na análise enquanto sujeito falante. Na primeira destas</p><p>concepções primam as metáforas biológicas: o Eu é uma parte inata e organizada do</p><p>tecido vivo, um órgão que se desenvolve para defender o organismo contra os perigos</p><p>externos; por vezes é a projecção de uma função orgânica na superfície corporal. Na</p><p>segunda concepção dominam as metáforas sociais; o Eu é a imagem de si que se</p><p>constitui a partir do outro que lhe serve de ideal, de modelo ou de rival; é também o</p><p>lugar da angústia, das identifi cações e das escolhas de objecto. Uma vez mais, só é a</p><p>terceira concepção – a do sujeito que diz “eu”, “nós”, etc. - nos coloca verdadeiramente</p><p>na via a talking cure.</p><p>84. Por defi nição, o esquizofrénico apresenta uma mente fendida; mas a dissociação</p><p>103</p><p>José Martinho</p><p>É a diferença entre o Ego enquanto sujeito psicológico e o sujeito</p><p>da associação livre verbal que conduzirá em seguida Freud a uma</p><p>analogia que lhe permite esclarecer um pouco melhor a natureza e a</p><p>função dos mecanismos de defesa.</p><p>Na Interpretação dos sonhos, o termo “censura” colocava</p><p>explicitamente o interdito ao nível da linguagem, da fala ou da</p><p>escrita, como no exemplo então citado dos jornais russos. É ainda</p><p>esta analogia que permite agora a Freud comparar o recalcamento</p><p>à eliminação das partes inconvenientes de um palimpsesto85; e os</p><p>restantes mecanismos de defesa86 às diferentes formas de deformar</p><p>(omitir parágrafos, riscar frases, etc.) ou tornar inócua a mensagem</p><p>indesejável de um texto. Isto antes da invenção da imprensa, na</p><p>altura em que os livros eram redigidos e copiados à mão, um a um,</p><p>como acontece no caso por caso da análise.87</p><p>mental, a clivagem do Eu e a divisão subjectiva não existem apenas na esquizofrenia,</p><p>como prova a menor formação do inconsciente (lapso, etc.). O verdadeiro aliado do</p><p>analista não é, pois, o Eu (censor, mentor e narcísico), mas o sujeito que lhe fala. Assim,</p><p>para poder analisar um confl ito ou um negócio, o analista dá a palavra a cada uma das</p><p>partes envolvidas, para que estas possam encontrar-se num mesmo terreno, deliberar</p><p>sobre um problema que, de outro modo, seria impossível de resolver. E só a palavra</p><p>tem esta capacidade de penetrar nos vários campos.</p><p>85. No caso do recalcamento primordial, podíamos mesmo falar, como Lacan, de uma</p><p>rejeição juridicamente prescritiva ou preclusão (forclusion).</p><p>86. Muitos psicanalistas seguiram Anna Freud quando se dedicaram a aumentar</p><p>a lista dos mecanismos de defesa. Confundindo vários conceitos da psicanálise,</p><p>defenderam que existiam defesas primitivas ou psicóticas (clivagem, negação,</p><p>dissociação, projecção, introjecção, identifi cação, identifi cação projectiva, etc.), e</p><p>defesas neuróticas (recalcamento, conversão, condensação, deslocamento, reacção,</p><p>anulação, isolamento, intelectualização, acting out, acting in, passagem ao acto, e até</p><p>de mecanismos “maduros”, como a sublimação e o altruísmo).</p><p>87. Apesar dos seus defeitos, esta analogia indica que, mesmo quando são censuradas,</p><p>as reivindicações pulsionais podem ser lidas ao nível da fala dos analisandos. De facto,</p><p>os efeitos da palavra sobre o organismo físico e psíquico inscrevem as “pulsões” no</p><p>campo da linguagem, juntamente com o que sobra ao sujeito de gozo do corpo.</p><p>A pulsão freudiana fala no entanto pela calada, pois a sua enunciação é anónima,</p><p>ninguém aí diz “Eu”, supondo-se apenas que “Isso” fala. Mas é precisamente porque</p><p>104</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>A mais importante conclusão que podemos tirar é que, se o Eu</p><p>consciente tende a sacrifi car a percepção da realidade que lhe é</p><p>intolerável, a associação livre verbal nunca deixa a verdade fi car</p><p>calada.</p><p>VI</p><p>Nesta sexta secção, Freud volta a interrogar a natureza e a função dos</p><p>mecanismos de defesa. Eles parecem ser inatos e sempre os mesmos</p><p>em cada indivíduo. Se não são congénitos, devem pelo menos ter</p><p>sido adquiridos muito cedo, na infância mais precoce.</p><p>Freud pensa que o Ego se forma à partida para cumprir uma função</p><p>biológica; ele possuiria, assim, características hereditárias, específi cas</p><p>e individuais.88 Estas características seriam explicadas pela Teoria da</p><p>Evolução, a Antropologia (características das famílias, raças, nações),</p><p>mas também pela Teoria do Simbolismo, pois o Simbólico como</p><p>herança arcaica do ser humano está lá sempre antes do nascimento</p><p>de cada indivíduo da espécie. 89</p><p>À partida, pensou-se que os mecanismos de defesa serviam apenas</p><p>para afastar tudo o que era perigoso para o Eu e o organismo; mas,</p><p>em seguida, apercebeu-se que eles se tornam por sua vez perigosos,</p><p>inclusive para o sucesso da análise. Apesar de poder falar livremente</p><p>Isso que goza também escreve ou fala que pode obedecer a uma “gramática”, ser</p><p>censurado, ou reimprimir-se.</p><p>88. Freud refere certos temas ainda não estudados, como o facto os indivíduos tenham</p><p>ritmos diferentes, e uma maior ou menor capacidade para se transformar.</p><p>89. Freud faz aqui uma breve alusão à relação que existe entre o Simbólico (em</p><p>particular o simbolismo linguístico) e os mecanismos de defesa que identifi cam e</p><p>alteram o Ego.</p><p>105</p><p>José Martinho</p><p>na análise, o Eu funciona também como resistência à revelação das</p><p>resistências.</p><p>Mesmo se Freud continua a afi rmar que ainda não conhece bem a</p><p>verdadeira natureza dos mecanismos de defesa, ele sabe que estes</p><p>podem também estar ao serviço da pulsão.90 Por exemplo, a satisfação</p><p>sentida pelo Eu que fala ao analista pode perfeitamente combinar</p><p>com a vontade de não melhorar, como indica o agravamento do</p><p>sintoma e a reacção terapêutica negativa. E este tipo de fenómenos</p><p>que forçam Freud a dar aqui mais um passo em direcção daquilo</p><p>que se encontra para além do princípio do prazer. É então que ele</p><p>introduz no seu texto o dualismo pulsão de vida – pulsão de morte.</p><p>“Pulsão de morte” é o nome que Freud dá ao gozo que se encontra</p><p>para além do Princípio do Prazer e do Princípio de Realidade.</p><p>A noção fez com que os leitores de Freud tivessem de começar</p><p>a admitir que existe algo de interno que contraria o equilíbrio</p><p>organístico;</p><p>e que isso provoca uma estranha satisfação, que dá azo</p><p>a experiências aparentemente incompreensíveis para a razão e a</p><p>consciência, como o masoquismo perverso ou moral, o sentimento</p><p>de culpa inconsciente, ou a tendência para o crime.</p><p>Mas como esta dimensão fundamental do ser humano não era</p><p>90. A própria língua não serve apenas para a representação de palavra. O que Freud</p><p>chama a “química silábica” do sonho, os jogos de palavras obsessivos, os equívocos</p><p>inconscientes da histeria ou os neologismos psicóticos mostram que existe também</p><p>um gozo da linguagem. É ainda este gozo de falar que faz com que as análises tenham</p><p>passado a durar tanto tempo. Daí, talvez, que a questão pragmática inicial de Freud</p><p>sobre o dever de encurtar o tempo da análise se possa redefi nir como um-cortar</p><p>aquilo que o sentido (gozado) tende a fazer perdurar.</p><p>106</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>aceite pelos seus alunos da época, inclusive pela sua fi lha mais fi el,</p><p>Anna, Freud é levado a enfatizar a satisfação que sentiu ao recordar</p><p>o velho tempo – bem diferente daquele do mundo apressado da sua</p><p>época – em que Empédocles de Agrigento falou de um dualismo</p><p>fundamental, do encontro (τμχη) entre philia (ϕιλια) e neikos (νεικοζ),</p><p>a amizade e a discórdia. O que o velho sábio propôs nesses termos,</p><p>ainda que sob a forma de uma fantasia cósmica, é uma ideia directriz</p><p>muito semelhante à que Freud defende agora para a psicanálise.</p><p>A sexta secção termina com uma defesa acérrima do dualismo. Não</p><p>há efectivamente meio de reduzir duas pulsões e dois sexos a Um só.</p><p>É a pulsão de morte que serve também nesta secção para explicar a</p><p>violência heterossexual contra os homossexuais.</p><p>VII</p><p>Nesta sétima secção, Freud responde defi nitivamente à crítica que</p><p>lhe fez Ferenczi a partir de Setembro de 1927, após uma comunicação</p><p>ao Congresso de Innsbruck.91</p><p>Freud começa por louvar Ferenczi por este ter afi rmado que a</p><p>análise não é interminável, e insistido para que o analista termine</p><p>a sua análise antes de exercer a profi ssão (o que Ferenczi chama a</p><p>“segunda regra fundamental” na Elasticidade da técnica analítica).</p><p>Louva-o igualmente por ter enumerado os diversos problemas com</p><p>que o analista se depara no exercício do seu acto, em particular a</p><p>contratransferência.92</p><p>91. FERENCZI, S. (1982). “Le problème de la fi n de l´analyse ». Œuvres Complètes, t. IV</p><p>(1927-1933). Paris : Payot.</p><p>92. É em 1908 que Ferenczi “descobre” a contratransferência. Em 1918, na Técnica</p><p>107</p><p>José Martinho</p><p>Por fi m, lamenta que as propostas de Ferenczi tenham fi cado</p><p>presas numa “normalidade esquemática”, que ignora os factos. Seria</p><p>conveniente que ele tivesse tido uma menor ambição.93</p><p>O amor à verdade em que se baseia a psicanálise obriga a constatar</p><p>que o estado de perfeição exigido por Ferenczi ao psicanalista e à</p><p>psicanálise nunca foi atingido.</p><p>De qualquer forma, o analista não é um ser omnipotente e</p><p>omnisciente, alguém de extraordinário, perfeito e sem falha.94 Ele</p><p>não é um super-homem, e a sua “profi ssão”, como a do político e</p><p>do educador, contem algo de “impossível”, porque lida com um</p><p>real que escapa aos ideais. Freud diz que já não seria mau que, na</p><p>sua radiografi a psíquica (análise pessoal, didáctica, supervisão), o</p><p>analista conseguisse proteger-se - e proteger os seus analisandos -</p><p>Psicanalítica, insiste para que o analista controle a sua tendência a julgar que os</p><p>problemas dos pacientes são seus. Em 1919, propõe a “técnica activa”, através da qual</p><p>o analista deve sair da passividade e intervir no tratamento com gestos de ternura e</p><p>afecto, e depois convidando o paciente a uma análise mútua. Em 1929, desenvolve</p><p>este projecto no Princípio do relaxamento e da neocatarse, artigo em que estabelece</p><p>as regras para provocar e resolver as reacções emocionais do paciente. Finalmente,</p><p>na Confusão de línguas entre os adultos e a criança (1932), Ferenczi volta a uma ideia</p><p>realista do “trauma” e ataca abertamente a hipocrisia da corporação freudiana.</p><p>93. Ferenczi também repudiava a “pulsão de morte”; mas afi rmava-a com o ódio contra</p><p>o seu analista. Na verdade, ele – que era na época o n.º 2 do movimento psicanalítico, o</p><p>“Grão-vizir Secreto” como lhe chamava Freud – procurava conquistar o lugar do “Pai da</p><p>psicanálise”. O caso Rank é análogo deste ponto de vista. Rank dedica o Traumatismo</p><p>do nascimento a Freud, e ao mesmo tempo atira-lhe uma pedra. Diziam na altura que</p><p>Rank se transformara em David para assassinar Golias, mas que apenas o fez depois de</p><p>saber que Freud sofria de um cancro.</p><p>94. Freud acreditava que a Ciência acabaria por eliminar a Religião. Lacan nunca</p><p>pensou o mesmo. Antes pelo contrário, Lacan previu o retorno em força do religioso.</p><p>O que se limitou a lembrar foi que, mesmo que não se tenha de pronunciar por ou</p><p>contra nenhuma religião, a Psicanálise sabe que a Religião é a sua maior inimiga,</p><p>porque promove uma ilusão que agrada a quase todos. Por este motivo, se a Religião</p><p>ganha terreno – e como laço social fundamental ela é imbatível – é a Psicanálise pode</p><p>desaparecer.</p><p>108</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>dos efeitos nocivos dos raios Roentgen ou X.</p><p>Freud lembra sobretudo que, por diversas razões e até à data em que</p><p>escreve, todas as análises foram breves e incompletas. Mais valeria,</p><p>pois, que o analista praticante não se sentisse envergonhado de</p><p>voltar de vez em quando ao divã, por exemplo de cinco em cinco</p><p>anos.</p><p>Isto não signifi ca que a análise pessoal e didáctica tenham de ser</p><p>para sempre intermináveis. Há análises que terminam na prática, pois</p><p>quando as coisas fi cam realmente resolvidas, acabam defi nitivamente.</p><p>Todos conhecem casos de análises efectivamente terminadas, mesmo</p><p>que não se saiba muito bem como, nem porquê. Como se perdeu</p><p>bastas vezes o rastro dos analisados, é só quando estes permanecem</p><p>no meio analítico, sobretudo quando se tornam psicanalistas, que</p><p>é possível concluir, a partir do testemunho e do exemplo que dão,</p><p>sobre o que terá sido o fi nal das suas análises. 95</p><p>Já sabemos que o sintoma como formação do inconsciente e</p><p>vicissitude pulsional era o primeiro obstáculo que se encontrava no</p><p>caminho da análise, mas qual é, pergunta Freud, o derradeiro?</p><p>VIII</p><p>Para responder a esta pergunta, o artigo vai acentuar a diferença</p><p>entre análise terapêutica, análise de carácter96 e análise didáctica. A</p><p>95. Lacan criou mesmo um dispositivo (la passe) onde um tal exemplo e testemunho</p><p>têm lugar para quem assim o desejar.</p><p>96. O debate sobre a “análise do carácter” tornou-se bastante importante a partir de</p><p>109</p><p>José Martinho</p><p>primeira é a mais semelhante com uma psicoterapia, já que tem como</p><p>principal objectivo a remoção do sintoma que fazia sofrer o sujeito. A</p><p>segunda não visa o desaparecimento do sintoma, mas o modo como</p><p>este funciona; ela comporta a análise do Eu e dos mecanismos de</p><p>defesa, a dissecação da estrutura da personalidade psíquica, com os</p><p>seus tipos, traços e habituais infantilidades. Mas a análise didáctica</p><p>não concerne as anomalias do carácter do Ego e sim a formação</p><p>profi ssional do analista; o que ela procura é que o analista seja capaz</p><p>de não falar demasiado cedo, nem tarde, mas também que aprenda</p><p>a fazer valer o saber-fazer como seu sintoma para poder dizer um</p><p>adeus defi nitivo - rebus bene gestis - a quem analisou.</p><p>Isto só é possível quando o analista é realmente capaz de ocupar a</p><p>posição de objecto na transferência.97</p><p>O problema é que o lugar subjectivo mais difícil de ocupar para os</p><p>homens e as mulheres é precisamente o do objecto. Nenhum deles</p><p>aprecia ser reduzido a um objecto.</p><p>Antes de se ser analista, cada um é homem ou mulher. Mas como se</p><p>devém homem ou mulher, pergunta Freud? Mesmo que haja uma</p><p>bissexualidade inata, como pretendia Fliess, o que será determinante</p><p>dada altura. Reich foi um dos seus grandes promotores, tendo dedicado mesmo um</p><p>livro ao tema. Reich</p><p>opunha-se especialmente a Numberg, que defendia que a análise</p><p>devia basear-se na transferência positiva e visar um reforço do Ego. Ao contrário, Reich</p><p>pensava que o reforço do Ego levava à infl exível couraça ou carapaça caracterial, mas</p><p>também que a transferência positiva acabava por tornar as análises intermináveis.</p><p>Por esta razão, defendia que o psicanalista devia romper o equilíbrio do carácter,</p><p>provocando reacções corporais (como o orgasmo), e provocando e interpretando a</p><p>transferência negativa.</p><p>97. Convém, no entanto precisar, que o analista não é o objecto, mas aparenta sê-lo</p><p>para, deste modo, causar o desejo do analisando.</p><p>110</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>para um tal posicionamento genérico é o modo como o desejo sexual</p><p>atravessa o fantasma edipiano e se submete, ou não, ao complexo de</p><p>castração.</p><p>Na verdade, é o complexo de castração que faz com que a distinção</p><p>anatómica e cultural dos sexos fi que sujeita a um único símbolo</p><p>sexual: o Falo. O dualismo volta a impor-se através da relação –</p><p>libidinal e agressiva - que cada um dos sexos tece com o símbolo</p><p>comum aos dois. Para quem se coloca do lado homem, o que</p><p>prima é a “angústia de castração”, o medo de perder os atributos da</p><p>virilidade, ou simplesmente de permanecer passivo diante de um</p><p>outro homem. Para quem se coloca do lado das mulheres, prevalece</p><p>o desejo do pénis, que se pode traduzir na inveja de quem possui</p><p>um, ou na conquista de um substituto fálico (marido, bebé, etc).</p><p>No psiquismo dos homens e das mulheres, é ainda o “complexo de</p><p>castração” que ocupa o lugar da “rocha subjacente” ou do grande</p><p>enigma do sexo na reprodução da vida. A castração é, pois e segundo</p><p>Freud, o último obstáculo à análise, aquele que a torna normalmente</p><p>interminável.</p><p>Freud acrescenta ainda – pensando também no que disse Ferenczi -</p><p>que, apesar de ser desesperante ver como todos recusam a castração</p><p>que os colocaria numa posição feminina, castrada e objectal, ele</p><p>não pode fazer mais nada senão dizer às mulheres que aceitem a</p><p>ideia de possuírem um pénis como irrealizável; e aos homens que</p><p>admitam a atitude passiva em relação a um outro homem como algo</p><p>de indispensável em muitas situações da vida.</p><p>111</p><p>José Martinho</p><p>A conclusão que se pode tirar agora deste texto testamentário de</p><p>Freud é a seguinte: a partir de 1937 terminar a análise é ir além do</p><p>complexo de castração. Este objectivo pressupõe que a castração</p><p>não tem apenas um valor negativo, que ela possui também um</p><p>valor positivo. É o que acontece quando o corte que opera produz o</p><p>objecto perdido que causa o desejo, mais particularmente o desejo</p><p>do analista.</p><p>É a resolução desta enigmática mais-valia que Análise Terminável</p><p>e Interminável lega a Otto Rank, Anna Freud, Sándor Ferenczi e,</p><p>fi nalmente, a todos os pós-freudianos.</p><p>PSICANÁLISE E PSICOTERAPIAS</p><p>115</p><p>José Martinho</p><p>3</p><p>“Tudo leva a crer que, dada a aplicação maciça</p><p>da nossa terapêutica, seremos obrigados a juntar</p><p>ao ouro puro da psicanálise uma quantidade considerável</p><p>do cobre da sugestão directa; mas seja qual for a forma</p><p>desta psicoterapia popular, os seus elementos mais efi cazes</p><p>continuarão a ser os que foram retirados da psicanálise pura”</p><p>Freud</p><p>“Todas as formas de psicoterapias breves revivem o horror do tempo,</p><p>saibam-no ou não aqueles que as praticam”</p><p>Mann</p><p>Este terceiro capítulo pode ser lido como um comentário das frases</p><p>de Freud e de Mann que acabo de citar . Mais precisamente, ele fala da</p><p>Intersecção lógica entre a Psicanálise e a Psicoterapia, da Entrevista</p><p>Psicológica e Clínica, e de algumas psicoterapias individuais e de</p><p>grupo que se inspiram na Psicanálise.98</p><p>3.1 INTERSECÇÃO PSICANÁLISE - PSICOTERAPIA</p><p>Torna-se neste momento necessária uma descrição detalhada das</p><p>diversas técnicas psicoterapêuticas de inspiração psicanalítica para</p><p>se perceber melhor porque é que a Psicanálise - cujo princípio,</p><p>meio e fi ns foram expostos nos capítulos precedentes - não é uma</p><p>98. Algumas das refl exões que se seguem sobre as Psicoterapias de Inspiração</p><p>Psicanalítica (PIP) e as Psicoterapias de Apoio (PA) foram feitas com Leopoldo Leitão,</p><p>o colega da ULHT que tem ensinado esta parte da matéria comigo nos últimos</p><p>quatro anos. Servir-me-ei também aqui de alguns apontamentos da sebenta de</p><p>“Psicopatologia Geral” de Miguel Trigo.</p><p>116</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Psicoterapia.99 Começo por lembrar que as psicoterapias têm vindo</p><p>a ganhar terreno à Psicanálise, pois prometem ser mais acessíveis,</p><p>agradáveis, breves, económicas e efi cazes. Algumas delas pretendem</p><p>igualmente ser cada dia mais “científi cas”, o que faz com que se</p><p>tornem geralmente menos “terapêuticas”.</p><p>Entrar em Psicoterapia não é nada de natural. Trata-se de uma</p><p>decisão que leva o indivíduo a abrir-se ao discernimento de um</p><p>outro e a pagar-lhe pelo seu escrutínio. O que faz com que a maioria</p><p>das pessoas evite esta escolha não é, como geralmente se pensa, a</p><p>escassez de fé, de dinheiro e de informação, mas a falta de coragem.</p><p>É ainda esta última que faz com que a maioria dos psiquiatras,</p><p>psicólogos e psicoterapeutas recusem deitar-se no divã de um</p><p>psicanalista.</p><p>Qual o valor de uma Psicoterapia? Este valor não reside no alívio</p><p>que o indivíduo que sofre espera alcançar, mas num desafi o</p><p>pessoal sempre doloroso, que só se torna possível mediante o uso</p><p>de quatro ferramentas: aceitar adiar a gratifi cação, assumir a sua</p><p>responsabilidade, dedicar-se por inteiro e com disciplina à procura</p><p>da verdade, e apostar num desenvolvimento espiritual que leve ao</p><p>restabelecimento do equilíbrio.100</p><p>Mas tudo isto não chega para que se possa estabelecer uma</p><p>99. As psicoterapias desvirtuam aquilo que Lacan chamou o “Discurso do Analista”,</p><p>pois inscrevem-se no “Discurso do Amo”, pelo seu poder de sugestão, a infl uência que</p><p>exercem, a adaptação à realidade que promovem, etc.</p><p>100. PECK, M. Scott. (1999). O Caminho Menos Percorrido. Lisboa: Sinais de Tempo.</p><p>(No original: The road less traveled). Este best-seller de um psiquiatra e psicanalista</p><p>americano transmite relativamente bem, e numa linguagem acessível a todos, o</p><p>essencial da Psicoterapia.</p><p>117</p><p>José Martinho</p><p>equivalência entre a Psicanálise e a Psicoterapia, mesmo a de</p><p>inspiração psicanalítica. Assim, para melhor situar o que há de</p><p>comum e diferente entre as duas, passo a designar a Psicanálise pelo</p><p>conjunto P, e a Psicoterapia pelo conjunto T.</p><p>Na teoria dos conjuntos, a “intersecção” de P e T é o conjunto dos</p><p>elementos que pertencem simultaneamente a P e a T. Esta operação</p><p>torna-se mais visível quando representamos a zona da intersecção</p><p>num diagrama de Venn:</p><p>P T</p><p>O conjunto do meio (a cheio na fi gura) escreve-se P∩T. É a intersecção</p><p>(∩) da Psicanálise (P) com a Psicoterapia (T).</p><p>Por defi nição, cada conjunto contém o conjunto vazio (Ø). O conjunto</p><p>sem elementos é, pois, uma parte ou um subconjunto de todo o</p><p>conjunto. Ainda por defi nição, a intersecção P∩Ø é o conjunto vazio;</p><p>e a intersecção T∩Ø também.</p><p>Os elementos que são comuns à Psicanálise e à Psicoterapia que</p><p>privilegia a fala são os signifi cantes, isto é, a matéria-prima das</p><p>palavras que aí se usam e trocam.</p><p>118</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>O conjunto vazio é o “sujeito do signifi cante”, aquele cuja fala, à</p><p>partida vazia, se vai preenchendo com os conteúdos analisados, até</p><p>encontrar o absoluto que é o objecto do fantasma.</p><p>A partir daqui, a principal diferença entre a Psicanálise e a Psicoterapia,</p><p>nomeadamente Dinâmica, reside na face da fala que mais interessa</p><p>cada uma delas na abordagem do sintoma. Desenvolvo esta</p><p>diferença no seguinte esquema:</p><p>Psicanálise</p><p>signifi cante</p><p>associação livre</p><p>interpretação - construção</p><p>restos</p><p>sintomáticos</p><p>objecto irreal</p><p>tempo indefi nido</p><p>Psicoterapia (DS)</p><p>signifi cado</p><p>atenção selectiva - entrevista (semi) directiva</p><p>sugestão – correcção - adaptação</p><p>maturidade - normalidade</p><p>Eu ideal</p><p>numero limitado de consultas</p><p>Enquanto talking cure, a Psicanálise interessa-se sobretudo pela</p><p>dimensão signifi cante, fonética ou literal da fala do analisando, em</p><p>detrimento do signifi cado, da opinião ou conceito que transmite, ou,</p><p>ainda, do sentido que se atribui ao sofrimento.</p><p>À função da fala no campo da linguagem, a Psicanálise acrescenta a</p><p>única regra compatível com este princípio: a associação livre verbal.</p><p>Mesmo que se sirvam da fala do paciente para escutar a sua queixa</p><p>e pedido de ajuda e compreensão, as consultas psicoterapêuticas</p><p>tendem a limitar a liberdade desta fala, pela atenção selectiva, as</p><p>entrevistas directivas e semi-directivas, um terapeuta interventivo</p><p>e focado, ou, mesmo, pela infl uência do grupo sobre o indivíduo.</p><p>A interpretação e a construção na Psicanálise baseiam-se</p><p>119</p><p>José Martinho</p><p>exclusivamente no que dizem os analisandos. Apesar da neutralidade</p><p>e da ausência de juízos de valor por parte do psicoterapeuta, a</p><p>tendência mais geral na Psicoterapia é para infl uenciar o paciente</p><p>através de algum tipo de sugestão.101</p><p>A Psicoterapia tenta corrigir os comportamentos inaptos e os</p><p>pensamentos enviesados, para ajudar o indivíduo a responder</p><p>devidamente às exigências do meio em que se insere. Mas a</p><p>interpretação do desejo, a reconstrução do passado e a construção</p><p>da lógica do fantasma na Psicanálise não visam adaptar ninguém a</p><p>nada.</p><p>A Psicoterapia procura tratar os distúrbios psicológicos (estados</p><p>emocionais perturbadores, imagens desfocadas, falsos testemunhos,</p><p>etc.) para promover o desenvolvimento do indivíduo, restabelecer a</p><p>saúde mental, atingir a normalidade e a maturidade equilibrada. Mas</p><p>como a Psicanálise sabe que existe algo de intratável na organização</p><p>do ser humano, dá sobretudo importância ao sintoma e suas</p><p>manifestações residuais. Ao invés de uma adaptação à realidade,</p><p>sempre problemática e instável, a psicanálise leva à identifi cação do</p><p>sujeito com o sintoma que lhe é mais próprio.</p><p>Para cumprir a tarefa médica de que se incumbiu, a Psicoterapia</p><p>procura fomentar uma boa relação de acompanhamento com o</p><p>paciente. Considera geralmente que esta relação depende de quatro</p><p>variáveis que interagem entre si: a empatia ou capacidade de entrar</p><p>no universo vivencial e genuíno do outro; a fé na reciprocidade ou a</p><p>101. A interpretação psicoterapêutica é confundida em certos casos com a avaliação</p><p>psicológica, em particular quando se aplica uma grelha de leitura prévia, muitas vezes</p><p>materializada em jogos, listagens, testes e questionários.</p><p>120</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>confi ança mútua; a compreensão interna e a disponibilidade para a</p><p>mudança; e a congruência ou capacidade de integração psicológica</p><p>do que é aprendido, função tradicionalmente atribuída à síntese</p><p>da consciência. Estas quatro dimensões estariam, pois, na base da</p><p>adesão à Psicoterapia e sua manutenção.</p><p>Ainda que a Psicanálise reconheça a importância da relação que se</p><p>tem consigo mesmo, com outrem e com o mundo, ela sabe que o</p><p>sintoma central – que Freud chamava o “núcleo do ser” - deriva da</p><p>inexistência de uma relação simétrica, complementar e plenamente</p><p>satisfatória, mais particularmente da carência gerada pela não-</p><p>relação do sintoma com o Outro (sexo).</p><p>Ainda que algumas Psicoterapias admitam a neurose de transferência,</p><p>e falem da relação terapêutica em termos de transferência e</p><p>contratransferência, é geralmente o Eu atento e activo do terapeuta</p><p>que serve de ideal para o paciente, substituindo deste modo o</p><p>objecto do amor irreal que o analista incarna antes da dissolução da</p><p>transferência.</p><p>Isto faz com que estas Psicoterapias tenham geralmente de se</p><p>confrontar com as reacções do terapeuta ao paciente, com as</p><p>respostas sentimentais e intelectuais que ele dá às questões que o</p><p>outro lhe impõe. Entre raiva, receio e outros sentimentos mais doces,</p><p>a psicoterapia principal passa a ser aqui a do (Ego do) psicoterapeuta.</p><p>Ainda que o agir a contratransferência não seja a mesma coisa que</p><p>a análise da contratransferência, o problema de fundo permanece.</p><p>Por fi m, e mesmo se tudo depende também da técnica e do caso,</p><p>121</p><p>José Martinho</p><p>a Psicoterapia considera geralmente importante fi xar um número</p><p>limite de consultas para atingir rapidamente o bem-estar procurado.</p><p>Mas a Psicanálise esforça-se, durante o tempo que for necessário, por</p><p>assediar o irremediável mal-estar provocado por aquilo de que só o</p><p>sujeito é responsável, o real do sintoma que a Psicoterapia procura</p><p>em vão eliminar.102</p><p>3.2 A ENTREVISTA PSICOLÓGICA E CLÍNICA</p><p>Específi ca do psicólogo, a Entrevista Psicológica pode igualmente</p><p>ser o ponto de partida da série de entrevistas em que irá consistir</p><p>a Psicoterapia, nomeadamente a Psicoterapia Dinâmica, de Suporte</p><p>ou de Apoio.</p><p>Com a aplicação do decreto de Bolonha ao ensino superior, e a</p><p>criação da Ordem dos Psicólogos portugueses, passou também a</p><p>ser exigido ao Mestre em Psicologia Clínica, do Aconselhamento e</p><p>Psicoterapia um estágio profi ssional, um exame suplementar e uma</p><p>cédula profi ssional da sua área.</p><p>Até nova ordem, a formação específi ca em Psicoterapia permanece</p><p>da única responsabilidade das Associações, Sociedades Científi cas e</p><p>outras instituições criadas para esse efeito.103</p><p>102. No Seminário XXIII, Le sinthome, Lacan diz que o sujeito falante apenas é</p><p>responsável do que sabe fazer (savoir-faire) com o seu sintoma. Esta responsabilidade,</p><p>que passa pela resposta sexual que o sujeito será capaz de dar, estende-se a todo</p><p>e qualquer artifício criado para lidar com o real que é impossível de dizer, pensar e</p><p>imaginar.</p><p>103. Só há cerca de quatro anos é que existem em Portugal Sociedades que dão uma</p><p>formação específi ca na área das Psicoterapias de Inspiração Psicanalítica, ao contrário</p><p>do que aconteceu com outro tipo de terapias, como as Breves, as Sistémicas e as</p><p>Cognitivo-Comportamentais.</p><p>122</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Mas o essencial continua a ser que nenhum diploma pendurado</p><p>na parede, nenhum estágio ou estudo aprofundado possa garantir</p><p>aquilo que é mais importante para o psicoterapeuta, a saber, que</p><p>ele deva tratar de si antes de tentar tratar um outro. Mais ainda,</p><p>nenhuma “técnica” se substituirá jamais ao carácter “didáctico” ou</p><p>“ético” de uma análise levada até ao fi m.</p><p>A prática pode, ainda, exigir a intuição e a habilidade do psicólogo</p><p>clínico e do psicoterapeuta, bem como a sua inteligência,</p><p>sensibilidade e capacidade para se colocar no lugar de outrem, para</p><p>além da maturidade e da experiência que possam trazer os anos de</p><p>trabalho e o contacto directo e indirecto com inúmeras situações e</p><p>casos complicados.</p><p>Em que consiste a Entrevista Psicológica? Ela não é uma conversa de</p><p>café entre amigos, nem um interrogatório jornalístico ou policial. O</p><p>entrevistador deve ter cumprido pelo menos os dois Ciclos básicos</p><p>do ensino de um Curso de Psicologia, e feito um estágio académico e</p><p>profi ssional. Deve ter igualmente benefi ciado do conselho dos seus</p><p>professores e da ajuda continuada de um supervisor.104</p><p>104. O que se chama “supervisão” ou “controlo” coloca vários tipos de problemas, a</p><p>começar pelo terminológico, já que o primeiro vocábulo refere a uma visão superior,</p><p>e o segundo a uma espécie de policiamento do acto terapêutico. A noção impôs-se</p><p>aos pós-freudianos, onde designa normalmente a continuação (num quadro diferente</p><p>da auto-análise) da análise do analista praticante. Ela está intimamente associada à</p><p>“contratransferência”, já que a supervisão visa também controlar o que faz o analista</p><p>quando analisa uma outra pessoa, em particular quando os seus sentimentos e (pré)</p><p>conceitos interferem no</p><p>tratamento. A um certo nível, podemos dizer que esta prática</p><p>faz parte da grande desconfi ança que os psicanalistas e psicoterapeutas têm de si</p><p>próprios, das reacções negativas e eróticas que podem ter na relação com os seus</p><p>pacientes. O aspecto positivo estaria no facto da supervisão permitir ver à distância</p><p>e melhor o que não convém que se faça e, assim, melhorar a qualidade da acção</p><p>terapêutica. As supervisões ou controlos costumam efectuar-se em consultórios</p><p>privados, nas Sociedades científi cas e em algumas instituições da Saúde Mental. Pode</p><p>123</p><p>José Martinho</p><p>Podemos dizer que a Entrevista Psicológica é um encontro formal</p><p>previamente combinado, entre duas ou mais pessoas com papéis</p><p>bem defi nidos à partida, executada num determinado espaço, com</p><p>início e duração variáveis, e utilizando um conjunto de técnicas e</p><p>de teorias psicológicas para alcançar objectivos específi cos, que</p><p>habitualmente se centram na recolha de informação.</p><p>No fundo, a Entrevista Psicológica não serve para obter dados</p><p>objectivos sobre o sujeito, mas sobretudo para ganhar o seu</p><p>assentimento, a sua confi ança e eventual adesão a uma Psicoterapia.</p><p>Neste último caso, o “entrevistado” passa a ser chamado - de modo</p><p>impróprio, mas como normalmente se diz - “doente”, “paciente” ou</p><p>“cliente”.</p><p>As Entrevistas são instrumentos que podem ser utilizados na</p><p>investigação (teses, etc.), em estágios académicos supervisionados,</p><p>no estudo de casos, ou na clínica, com a fi nalidade de estabelecer um</p><p>diagnóstico, um prognóstico e um tratamento. Podem igualmente ser</p><p>entrevistas para a avaliação das competências escolares, profi ssionais</p><p>e desportivas, ou para detectar perturbações da personalidade</p><p>(psicopatia, sociopatia, perturbação paranoíde, histriónica, narcísica,</p><p>etc.) no contexto forense. Podem, ainda, ter fi ns meramente jurídicos</p><p>ou até fi nanceiros.</p><p>também acontecer que haja supervisores dos supervisores, sem que se saiba então</p><p>muito bem ao certo onde este visionamento deve terminar. Para os psicanalistas de</p><p>“orientação lacaniana”, esta operação não faz parte da continuação da análise de um</p><p>analista que, em princípio, deve ter terminado a sua análise; ela pertence ao que Lacan</p><p>chamou a “transferência de trabalho”, a tarefa solidária entre membros da Escola a</p><p>propósito do psicanalisar e da construção do caso clínico.</p><p>124</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Existem três tipos de Entrevista Psicológica e Clínica:</p><p>1. Não directiva ou aberta. É a que se inspira mais da Psicanálise.</p><p>O entrevistador coloca perguntas não dirigidas e deixa o</p><p>paciente falar livremente. A vantagem é de se poder saber</p><p>mais sobre o sujeito. A desvantagem é que este também é</p><p>livre de não falar de si mesmo.</p><p>2. Directiva ou fechada. É o psicólogo que dirige aqui a</p><p>Entrevista; ele defi ne os temas e não deixa o sujeito divagar.</p><p>Trata-se de uma Entrevista pré-estruturada. A vantagem é</p><p>de ser mais objectiva e sistemática. A desvantagem é de se</p><p>pode perder informação adicional importante. É a melhor</p><p>para o entrevistador com pouca experiência.</p><p>3. Semi-directiva: apesar de trazer tópicos para facilitar</p><p>a anamnese, o psicólogo apenas os pode introduzir</p><p>espontaneamente na conversa. Se não houver espaço para</p><p>tal, deixa para a próxima sessão.</p><p>Consoante o objectivo (investigação, clínica, avaliação, psicoterapia,</p><p>etc.) podemos ter entrevistas directivas e não directivas.</p><p>Técnica</p><p>Segundo Craig105:</p><p>1. Questionamento:</p><p>i. Não se podem fazer as mesmas perguntas e da mesma</p><p>105. CRAIG, R. J. (1989). Clinical and diagnostic interviewing. New York: Jason Aronson</p><p>Inc.</p><p>125</p><p>José Martinho</p><p>maneira a todas as pessoas.</p><p>ii. Aumenta a informação sobre o sujeito.</p><p>iii. Inclui perguntas abertas e fechadas.</p><p>iv. Não se devem fazer as perguntas e dar as respectivas</p><p>respostas. Por exemplo: “Hoje está ansioso, não está?”</p><p>2. Refl exão:</p><p>i. Dar a entender à pessoa que se está a compreender o que</p><p>ela diz e a pensar nisso.</p><p>ii. Repetir o que a pessoa diz e dar-lhe um feedback.</p><p>3. Confrontação:</p><p>i. Tem como objectivo esclarecer dúvidas que possam</p><p>surgir no entrevistador, principalmente quando aparecem</p><p>proposições contraditórias.</p><p>ii. Deve ter em atenção o tom de voz, o modo como se olha,</p><p>etc, para evitar toda a agressividade. Deve haver algum</p><p>cuidado para não confrontar directamente o paciente com</p><p>uma verdade que ele seja incapaz de aceitar.</p><p>4. Reformulação:</p><p>i. Procura-se devolver da maneira mais clara à pessoa o que</p><p>ela acaba de dizer.</p><p>ii. Facilita a compreensão do que a pessoa diz.</p><p>5. Silêncio:</p><p>i. O silêncio pode resultar de uma inibição (a pessoa não se</p><p>sente segura, etc.). Neste caso, é necessário dar-lhe mais</p><p>confi ança, introduzindo por exemplo temas gerais.</p><p>126</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>ii. Silêncios defensivos: resistência do entrevistado face à</p><p>entrevista. Tem medo de ser prejudicado pelo que diz.</p><p>iii. Pausas: esgotou-se o que havia para dizer. O entrevistador</p><p>tem de introduzir outro tema mesmo que este não estivesse</p><p>previsto.</p><p>iv. Silêncios refl exivos: pensar no que foi dito na sessão.</p><p>v. Inerentes à doença. Por exemplo, a depressão é caracterizada</p><p>pela falta de iniciativa. É necessário que o entrevistador</p><p>estimule aqui a pessoa.</p><p>vi. Respeitar os silêncios e saber distingui-los.</p><p>6. Exploração:</p><p>Investigar áreas da vida da pessoa (pensamentos,</p><p>sentimentos, etc.). É semelhante ao questionamento, mas as</p><p>perguntas não são tão superfi ciais, servindo sobretudo para manter</p><p>a confi ança ou restaurá-la.</p><p>7. Reestruturação:</p><p>A reestruturação cognitiva tem como objectivo reorganizar</p><p>o material e os conteúdos de modo que o entrevistado compreenda</p><p>melhor o assunto ou tema que apresenta. Por exemplo: se a pessoa</p><p>se queixa das relações pessoais no trabalho mas gosta do mesmo.</p><p>8. Interpretação:</p><p>Não deve ser utilizada em certos casos, porque pode</p><p>prejudicar a recolha de nova informação. Só deve ser feita por</p><p>entrevistadores experientes e com um bom conhecimento da pessoa.</p><p>Objectivo: clarifi car a situação ou acrescentar algo à comunicação.</p><p>Por exemplo: uma pessoa passadas 2 ou 3 sessões não fala dela</p><p>127</p><p>José Martinho</p><p>própria. O psicólogo interpreta dizendo que ela se defende, mas tem</p><p>de ter a certeza que a pessoa vai aceitar a interpretação e que esta</p><p>está correcta. Nunca se fazem interpretações na 1ª ou 2ª entrevista.</p><p>9. Humor:</p><p>Pode ser utilizado como desdramatização. Há que ter cuidado</p><p>para não desvalorizar o que a pessoa está a dizer ou para esta julgar</p><p>que não há compreensão. Pode servir para criar um distanciamento</p><p>em relação ao que é dito, ou uma certa descontracção quando a</p><p>pessoa não consegue falar.</p><p>Isabel Leal acrescenta mais três itens aos precedentes:</p><p>- A generalização, que visa mostrar a extensão que tomou o tema</p><p>dominante.</p><p>- A focagem, que identifi ca um tema importante e se centra nele.</p><p>- O ecoar, que repete uma palavra ou uma interrogação para mostrar</p><p>que se reconheceu o problema.106</p><p>Funcionamento e regras</p><p>- Primeiro encontro com o entrevistado. Muitos psicólogos</p><p>consideram geralmente que é importante ir buscar o entrevistado</p><p>à sala de espera. Se a pessoa faz o movimento de vir ter com o</p><p>psicólogo, este deve dar-lhe o feedback. Isto ajuda a transmitir que</p><p>está disponível. É importante que se veja como está o indivíduo,</p><p>se ele vem acompanhado, se parece ansioso, etc. Até chegar ao</p><p>gabinete obtêm-se bastante informação. Entrar os dois lado a lado</p><p>106. Cf. LEAL, I. (1999). Entrevista Clínica e Psicoterapia de Apoio. Lisboa. ISPA.</p><p>128</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>desde o primeiro momento.</p><p>- Ao entrar no gabinete. É importante dar espaço para a pessoa</p><p>escolher o lugar onde se quer sentar (ter cadeiras iguais, etc.). Em</p><p>relação às famílias deve-se ver que cadeiras são escolhidas e por</p><p>quem. Normalmente a pessoa que escolhe</p><p>a cadeira mais perto da</p><p>porta é o elemento mais resistente.</p><p>- O setting é o espaço do gabinete. Duas pessoas diferentes ou mais</p><p>vão aí se ajustar. Podem-se introduzir perguntas como: “Deu bem</p><p>com este sítio?”; “Foi difícil?”. Serve para criar desinibição, conforto</p><p>e habituação. Importância de ser sempre o mesmo gabinete (se</p><p>possível), disposto da mesma forma e com boa insonorização</p><p>(isolamento acústico).</p><p>- Reforçar a confi dencialidade e a confi ança. Explicar que aquilo que</p><p>será dito na consulta não vai ser conhecido fora dela. Importância de</p><p>ser sincero.</p><p>- Reformular o problema. Ajudar a pessoa a formular de novo o seu</p><p>problema, até porque as queixas não são específi cas de diagnóstico.</p><p>Por exemplo: “Ando a sentir-me em baixo.” O psicólogo pergunta: “</p><p>mas o que quer dizer com sentir-se em baixo?”; o sujeito acrescenta:</p><p>“às vezes choro…”</p><p>- Informação prévia acerca do entrevistado. É importante dizer à</p><p>pessoa a informação que já se tem sobre ela (através de familiares,</p><p>círculo de amigos, etc.), por causa do sigilo e da confi ança.</p><p>129</p><p>José Martinho</p><p>- Tempo da Entrevista. Considera-se normalmente necessário um</p><p>limite de tempo para a pessoa se poder organizar. Entre os 50-60</p><p>minutos. A primeira entrevista leva mais tempo, pode chegar aos</p><p>70-90 minutos. É importante a fl exibilidade ser de 5-10 minutos</p><p>no máximo para não haver contratransferência. Dar mais minutos</p><p>a uns do que a outros não é bom. Os sujeitos não devem adquirir</p><p>este hábito. É melhor um tempo igual para todos os entrevistados</p><p>ou doentes.</p><p>Na Entrevista Clínica propriamente dita, o mais importante será</p><p>sempre a relação paciente/psicoterapeuta. É uma relação de</p><p>proximidade mas com distância para o psicólogo não julgar, nem se</p><p>envolver nos problemas do paciente. Importância do equilíbrio da</p><p>relação. Nunca trocar de papéis. O entrevistador não pode aceitar</p><p>perguntas nem falar da sua vida.</p><p>Estudo de Casos</p><p>O Estudo de Caso sistematiza a informação recolhida na Entrevista.</p><p>Defi ne a série de parâmetros que se deve recolher para o diagnóstico.</p><p>Inicia-se com o motivo da consulta e é fi nalizado com o projecto</p><p>de intervenção. Enquanto instrumento, envolve difi culdades</p><p>metodológicas: não é possível realizar o Estudo de Caso da mesma</p><p>maneira para diferentes pessoas. Portanto não devem ser utilizados</p><p>Questionários. É necessário adaptar o Estudo à pessoa e sua</p><p>problemática.</p><p>É necessário ter um bom domínio do que se irá abordar (infância,</p><p>família, etc.).</p><p>130</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Duas dimensões estão relacionadas com o Estudo de Caso:</p><p>a) A história pessoal ou biográfi ca da pessoa, desde que nasceu até</p><p>ao momento em que adoeceu; à qual se irá juntar a história médica</p><p>de todas as doenças do seu desenvolvimento. b) A história clínica,</p><p>toda a sintomatologia da doença actual e o seu impacto na pessoa.</p><p>Podem ser recolhidos vários tipos de dados para o Estudo de Caso:</p><p>- Identifi cação: nome, idade sexo, nacionalidade, etnia, área de</p><p>residência; etc.</p><p>- Motivo da consulta: resumo da primeira descrição que a pessoa faz</p><p>da sua doença.</p><p>- Fonte das informações: se vêm todas do entrevistado ou em</p><p>conjunto com familiares, amigos, etc. Considerar a forma como</p><p>são apresentados os conteúdos (por exemplo, se a pessoa conta a</p><p>mesma história de várias maneiras, a validade não é boa). É também</p><p>importante ver como a pessoa narra o conteúdo (se chora, ri, sente</p><p>raiva, etc.). Notar os aspectos gerais do observado, postura, aspecto</p><p>ou tipo (pícnico, leptossómico, atlético, etc.).</p><p>- Descrição da pessoa. Se tem um ar cuidado ou descuidado,</p><p>excêntrico, se a idade corresponde à aparência. Se está tensa ou</p><p>descontraída durante as sessões. Se a linguagem corporal ou as</p><p>mímicas são pobres ou ricas. Se a expressão da linguagem é fl uente.</p><p>Se o contacto estabelecido com o médico é sintónico ou superfi cial,</p><p>com conteúdos banais e mecanismos de defesa (falta de esperança,</p><p>131</p><p>José Martinho</p><p>agressivo, distante).</p><p>- Queixas. O que perturba pode não estar relacionado directamente</p><p>com o motivo da consulta (tristeza, a família não o compreende,</p><p>etc.). Os antecedentes pessoais, por exemplo, gravidez não planeada,</p><p>doenças ou situações fora do normal, etc.</p><p>- Desenvolvimento psicossomático, físico e psicológico (por</p><p>exemplo: período de amamentação, idade com que começou a</p><p>andar, controlo dos esfíncteres, idade com que começou a falar,</p><p>etc.). Sinais psicopatológicos (enurese, terrores nocturnos, etc.).</p><p>Educação e desenvolvimento intelectual (adaptação escolar, amigos,</p><p>professores, desenvolvimento escolar, actividades e brincadeiras,</p><p>etc.). Adolescência: como foram vividas as mudanças da adolescência,</p><p>a relação com a família relativamente ao testar de limites, a</p><p>sexualidade, o consumo de substâncias como o álcool. Entrada</p><p>na idade adulta: namoro, relação social, experiência profi ssional,</p><p>percurso de estudos (curso desejado ou não, seu desempenho).</p><p>Serviço militar (adaptação, relações, etc.).</p><p>- Personalidade Pré-mórbida: funcionamento da pessoa antes</p><p>de adoecer. Se era alegre, triste, introvertido ou extrovertido, etc.</p><p>Há pessoas deprimidas que têm difi culdade em exprimir estas</p><p>sensações do antes. Antecedentes mórbidos pessoais, outro tipo de</p><p>doenças como internamentos por operações, ou doenças diferentes</p><p>não habituais. É importante perguntar a idade da pessoa quando</p><p>a doença ocorreu e que consequências teve para ela e para a</p><p>família. Antecedentes familiares (história de 3 gerações; separações,</p><p>acontecimentos fora do normal, ambiente familiar; relações</p><p>132</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>signifi cativas, etc.). Antecedentes familiares mórbidos (doenças na</p><p>família principalmente psiquiátricas, se sim quais as consequências</p><p>e mudanças; tentar especifi car a doença). Exame psíquico (atenção,</p><p>memoria, percepção, etc.). Sintomas psico-fi siológicos ou alterações</p><p>que acompanham a doença. Se vêm através de relato da pessoa ou do</p><p>relatório médico; exames complementares de diagnóstico (qualquer</p><p>técnica que ajude ao diagnóstico, tanto Psicométrica/Questionários,</p><p>Mini-Multe, IOC, SCL-90-R, BDI, como de teste Projectivo, Rorschach,</p><p>etc.). Factores desencadeantes: factores que permitem que a doença</p><p>se manifeste num determinado momento.</p><p>Considera-se geralmente que a impressão diagnóstica deve ser</p><p>pensada em termos temporais e com base no CID-10 ou no DSM-IV.</p><p>- Prognóstico: dizer qual será a evolução mais provável através</p><p>da idade, o suporte social, familiar e profi ssional. Tentar com que</p><p>a pessoa tome mesmo a medicação caso seja necessária e que</p><p>compreende o problema de deixar de tomar. Projecto terapêutico:</p><p>importância de encaminhar o caso para um psiquiatra se o psicólogo</p><p>não consegue lidar com ele.</p><p>- Follow-Up: reavaliação depois de 6 meses. Verifi car se a doença se</p><p>agravou; se a pessoa cumpriu à risca com a medicação; se a doença</p><p>melhorou, ou se não, o que correu mal, etc.</p><p>Papel do psicólogo</p><p>Apresentação do psicólogo/psicoterapeuta e a sua postura. Segundo</p><p>vários códigos deontológicos, este não deve ser apresentado ao</p><p>doente num espaço social, mas conhecê-lo apenas no espaço do</p><p>133</p><p>José Martinho</p><p>gabinete. Se encontrar a pessoa na rua não deve permitir que a</p><p>sessão seja transferida para outro espaço que não o gabinete. O</p><p>técnico entrevista a pessoa, mas esta não o entrevista a ele; não o</p><p>pode por conseguinte questionar em relação à sua vida pessoal. A</p><p>assimetria relacional deve ser mantida. Importância de pensar no</p><p>facto de dar ou não o número de telemóvel. Benefícios. Não se devem</p><p>obter benefícios a não ser para a relação terapêutica. Por exemplo: se</p><p>o paciente é mecânico e se oferece para fazer uma reparação mais</p><p>barata, o psicólogo não pode aceitar.</p><p>Ofertas e prendas. Também não deve aceitar prendas porque não</p><p>as pode retribuir. Por vezes, tem</p><p>de haver algum cuidado para a</p><p>pessoa não fi car magoada; neste caso pode aceitar-se a prenda,</p><p>mas explicando que isso não pode voltar a acontecer. Podem-se no</p><p>entanto receber lembranças de Natal, etc. Receber prendas fora de</p><p>épocas festivas signifi ca que a relação entre o paciente e o terapeuta</p><p>está mal estruturada, pode ser uma chamada de atenção, uma</p><p>tentativa de “comprar” o técnico, etc.</p><p>Registo da informação</p><p>Mesmo se este procedimento levanta várias questões deontológicas,</p><p>há quem considere necessário e útil – até por razões didácticas – um</p><p>certo tipo de recolha de informações, por meio de:</p><p>- Notas escritas: tem vantagens e desvantagens. A maior vantagem é</p><p>de se poder anotar tudo o que se entende; e depois fazer Relatórios.</p><p>A desvantagem é que não se presta tanta atenção ao sujeito, e não</p><p>ter como informação a componente não-verbal. Prestar atenção</p><p>134</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>signifi ca que se está disponível.</p><p>- Gravador: carácter inibitório, apesar de ter de haver permissão para</p><p>o uso do mesmo.</p><p>- Vídeo: registo mais completo do que efectivamente se passa, mas</p><p>com um forte carácter inibitório. Também com a devida autorização</p><p>dos pacientes é mais utilizado em Terapia Familiar, porque tem como</p><p>objectivo o posterior visionamento com o técnico.</p><p>Podem-se combinar os três meios. No entanto, se verifi camos que</p><p>o gravador ou o vídeo são demasiado inibitórios e desconfortantes</p><p>para a pessoa, apesar da sua permissão, retiramos esses elementos.</p><p>Se é uma pessoa que necessita muito de contacto visual, paramos de</p><p>anotar. Se anotamos, convém anotar sempre a mesma quantidade</p><p>de informação para não haver julgamentos do tipo: “Hoje escreveu</p><p>muito portanto tenho muitas doenças, ou disse coisas muito</p><p>importantes”. Quando há esquecimentos pode-se voltar ao assunto</p><p>na próxima sessão.</p><p>Factores condicionantes</p><p>a) Factores relacionados com os objectivos.</p><p>b) Factores relacionados com o entrevistador.</p><p>c) Factores relacionados com o entrevistado.</p><p>d) Factores relacionados com o setting.</p><p>a) Os objectivos do entrevistador e do entrevistado devem ser</p><p>semelhantes. É importante fazer a clarifi cação do objectivo logo na</p><p>135</p><p>José Martinho</p><p>1ª entrevista, assim como das intenções do paciente em relação ao</p><p>técnico.</p><p>b) Situação do entrevistador: a situação biológica interfere quando,</p><p>por exemplo, se está com gripe, febre, sono de 2h.</p><p>- Situação afectiva: o entrevistador tem de estar equilibrado</p><p>psicologicamente para não se sentir atingido quando ocorrem certos</p><p>impactos (testemunhar uma vida parecida com a dele). Tem de dar a</p><p>noção de que é estável. Aqui é importante a supervisão porque desta</p><p>forma podemos perceber porque razão consegue ou não lidar com</p><p>a pessoa.</p><p>- Termos linguísticos. Linguagem simples, clara e acessível, porque</p><p>se irá lidar com pessoas mais e menos diferenciadas. Adequar</p><p>a linguagem à pessoa, sem utilizar a “sua” linguagem (caso dos</p><p>toxicodependentes). Evitar utilizar a linguagem técnica da Psicologia.</p><p>- Honorários. Deve sempre existir um pagamento, nem que seja</p><p>simbólico. O pagar tem uma relação com o trabalho profi ssional.</p><p>- Compromisso institucional. Pode prejudicar a entrevista porque</p><p>pode haver complicações em termos do entendimento. Tem</p><p>de se tentar explicar o nosso papel e abdicar de certos termos</p><p>(fl exibilidade).</p><p>- Poder. Apesar de a relação ser assimétrica, o objectivo não é ser</p><p>melhor que o entrevistado. A assimetria tem relação com o papel</p><p>do técnico. Não se pode provocar mudanças nas pessoas mesmo</p><p>136</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>que nos seja dado esse poder, porque as pessoas têm de tomar a</p><p>sua própria decisão. Apenas se pode avaliar e ajudar as opções.</p><p>Por exemplo: não dar opiniões sobre um possível divórcio porque</p><p>isso vai provocar uma mudança que a pessoa não decidiu; ela está</p><p>apenas a pedir uma opinião.</p><p>c) Situação biológica do entrevistado. Não se deve fazer entrevista</p><p>com, alguém que não se sente bem fi sicamente e está desejoso de</p><p>acabar a entrevista para ir embora. Durante as entrevistas a pessoa</p><p>não pode consumir nada. Combina-se isto na 1ª entrevista.</p><p>- Situação afectiva. Deve se permitir que a pessoa tenha todos os</p><p>desequilíbrios (choro, raiva, etc.). Não fazer a pessoa ansiosa por</p><p>se estar a tentar controlar esses desequilíbrios. É importante que</p><p>a pessoa exprima os seus sentimentos. A pessoa tem de se sentir</p><p>apoiada. Não deixar a pessoa sair do gabinete desorganizada.</p><p>- Situação linguística. Importante que a pessoa utilize a sua própria</p><p>linguagem para defi nir o que sente.</p><p>- Situação económica. Tenta-se perceber se vão existindo mudanças</p><p>a este nível uma vez que pode levar ao desistir da consulta.</p><p>- Situação ideológica. Preparar-se para ideologias diferentes das</p><p>nossas. Mesmo que a pessoa pergunte não podemos dar informação</p><p>sobre nós.</p><p>- Compromisso institucional. O técnico ligado a uma instituição</p><p>pode dar uma imagem errada ao entrevistado, criando instabilidade,</p><p>137</p><p>José Martinho</p><p>inibição e resistência ao mesmo. Por exemplo: num hospital</p><p>psiquiátrico, a pessoa pode pensar que é “maluca”; na prisão, pode</p><p>pensar que o técnico faz parte do sistema como os guardas, e que</p><p>aquilo que o entrevistado disser vai ser usado contra o mesmo. É</p><p>importante reforçar a confi dencialidade. Em relação à prisão temos</p><p>de ter cuidados para dar a entender que o sigilo é só sobre coisas</p><p>que podemos saber. O que não convém saber é melhor não ser</p><p>dito pois o psicólogo – que não está acima da lei - perante certas e</p><p>determinadas coisas tem de agir.</p><p>- Nível do compromisso familiar. A intervenção familiar pode</p><p>facilitar ou comprometer a entrevista. Facilitar porque temos mais</p><p>informação sobre o sujeito; comprometer se o psicólogo deixar que</p><p>se sobreponham ao sujeito na entrevista. A intervenção familiar tem</p><p>de ser acordada pelo sujeito. Apenas é necessário se este é uma</p><p>criança ou um doente que não tenha noção da crítica. É necessário</p><p>explicar que há importância do familiar se juntar e que este só vai</p><p>falar na sua presença.</p><p>- Situação de poder. Não se pode permitir que o entrevistado se</p><p>coloque numa posição de maior poder (indicador de inibição/</p><p>mecanismo de defesa). É necessário, então, reforçar a confi ança e a</p><p>disponibilidade.</p><p>- Mito e estatuto do “louco”. Há doentes que valorizam ou</p><p>desvalorizam a sua doença. Valorizam: pessoa que esteja mais frágil</p><p>emocionalmente e tem tendência para exagerar. Acontece, por</p><p>exemplo, quando as pessoas querem reforma antecipada e mentem</p><p>para obtenção da mesma; pessoas que querem permanecer no</p><p>138</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>hospital psiquiátrico porque lá têm maior conforto, ou porque não</p><p>têm ninguém cá fora.</p><p>d) Condições da sala.</p><p>- Insonorização: não nos ouvirem, nem ouvirmos os outros.</p><p>- Sem objectos demasiado personalizados como fotos para o sujeito</p><p>não perceber a nossa pessoa.</p><p>- Se parece cheia de diplomas, inibe.</p><p>- Móveis de nível normal para não ofender algumas pessoas.</p><p>- Boa luminosidade, ter cuidado para não entrar o sol pela janela de</p><p>encontro à cara do psicólogo ou do paciente.</p><p>- Cadeiras ou sofás iguais; uma secretária - ligação com realização</p><p>de testes e não com uma barreira física – que pode ser confundida</p><p>com a indisponibilidade. As cadeiras não devem ser demasiado</p><p>confortáveis ou desconfortáveis. Quando colocadas frente a frente</p><p>são demasiado intimidadoras e intrusivas.</p><p>- Aquecimento/ar condicionado.</p><p>Pequenos reparos</p><p>Considera-se sempre que o entrevistador deve ser uma pessoa</p><p>idónea, respeitadora e com um espírito aberto. Mas ele pode muito</p><p>139</p><p>José Martinho</p><p>bem ter este perfi l psicológico sem possuir a mínima competência</p><p>em Psicologia, Clínica e Aconselhamento. Por esta razão, é-lhe exigida</p><p>uma formação específi ca e um treino, e que aprenda a</p><p>entrevistar</p><p>entrevistando.</p><p>Mas o problema de fundo reside no facto que aquilo que é observado</p><p>depende de quem observa, e que quem é entrevistado depende do</p><p>entrevistador, melhor dizendo, das fronteiras do seu Ego.</p><p>O real limita sem ter limites. O recém-nascido, por exemplo, não</p><p>distingue propriamente entre o Tu, o Eu e o Não-Eu. É pouco a pouco</p><p>que começa a sentir-se o mesmo, uma unidade separada do resto. A</p><p>criança é objecto para o outro, mas o seu Ego só se constituirá por</p><p>intermédio de uma primeira imagem autónoma de si, semelhante</p><p>àquela que reconhece - com júbilo e aproximadamente entre os 6 e</p><p>os 18 meses - no espelho. Ao que melhor caracterizava a criança até</p><p>então – e que é menos a individuação biológica do que a identidade</p><p>simbólica do nome e apelido dado pelos pais -, vem juntar-se a</p><p>identifi cação imaginária do Ego. Uma vez constituído, este segue um</p><p>desenvolvimento desigual: físico e moral. Entretanto, o Ego começa</p><p>a pensar que é diferente de tudo o que o rodeia, que possui um</p><p>corpo, uma voz, uma vontade, um sentimento próprio. As fronteiras</p><p>do Ego podem atrofi ar-se ou expandir-se, mas terão sempre de ser</p><p>redefi nidas ao longo da existência, em particular porque haverá</p><p>de reconhecer um outro Ego, outros Egos, toda uma sociedade. A</p><p>alternativa acaba por ser: a relação ou a solidão.</p><p>É muitas vezes no ponto crítico da solidão que começa o pedido de</p><p>ajuda e a resposta da Entrevista Psicológica, Clínica e Psicoterapêutica.</p><p>140</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>De um lado temos o Ego saudável, verdadeiro, bom, bem equilibrado</p><p>do psicólogo ou do psicoterapeuta; do outro lado, temos a solidão</p><p>esquizoide ou até psicótica, depressiva, perturbada, neurótica do</p><p>cliente.</p><p>A intenção do psico-terapeuta vai habitualmente no sentido de</p><p>privilegiar o contacto e a comunicação. Mas ao seguir o caminho da</p><p>relação, a Psico-Terapia perde muitas vezes a noção da importância</p><p>da não relação, não só da fatalidade da solidão, como do que esta</p><p>pode ter de positivo, melhor dizendo, do que o sintoma individual</p><p>traz como benefício.</p><p>Querer o bem do necessitado é uma acção que o psicólogo só</p><p>acredita normalmente ser possível graças a um reforço do Ego. Por</p><p>vezes, julga mesmo que é preciso cimentar os alicerces de um Ego</p><p>muito só e pouco sólido, fraco, doente; neste caso, antes mesmo</p><p>de promover o crescimento, o psicoterapeuta pensa que o seu</p><p>primeiro dever é servir de modelo ou de exemplo para o debilitado.</p><p>Começa, então, por se fazer o espelho reconstituinte da identidade</p><p>perdida ou da unidade fragmentada do Ego do outro. Convém,</p><p>ainda, sublinhar que o terno “Entrevista” engana, já que remete para</p><p>aquilo que se entrevê, no fundo, para a vista. Ora, o olho clínico faz</p><p>tradicionalmente acreditar que a comunicação mais importante é a</p><p>“não-verbal”,107 crença que levar muitas vezes à ideia estapafúrdia</p><p>107. “Comunicação” (do latim comunicatio-onis) signifi ca tornar comum (communis),</p><p>comungar. Comunicar é trocar ideias, experiências e sentimentos entre pessoas que</p><p>conhecem uma língua, o signifi cado do que aí se diz, e o que se pensa e faz com</p><p>isso. A Teoria da Comunicação moderna supõe a existência de um “código”, que em</p><p>última instância é a linguagem, ou uma linguagem mais (matemática) ou menos</p><p>(língua materna) bem-feita. Para estabelecer a comunicação é necessário que existam</p><p>os seguintes elementos: o “emissor”, que é o ponto de partida ou quem transmite</p><p>a mensagem. O “receptor”, que é o destinatário da mensagem ou do conteúdo da</p><p>141</p><p>José Martinho</p><p>que a essência do inefável é o melhor “revelador”108.</p><p>comunicação. O emissor cifra a mensagem no código comum e o receptor escuta, lê e</p><p>interpreta a mensagem, descodifi ca-a ou retira o seu signifi cado. O “canal” é o médium,</p><p>o suporte que serve de veículo à mensagem (ar, rádio, jornais, telefone, livros, etc.).</p><p>Para que o emissor verifi que se a sua mensagem foi correctamente recebida, deverá</p><p>obter uma informação de retorno (feedback). A informação exige apenas um sentido,</p><p>ao passo que a comunicação exige os dois sentidos. Não existe, pois, comunicação</p><p>sem feedback. Por generalização deste esquema, qualquer comportamento pode</p><p>passar a ser considerado comunicação; até mesmo o silêncio se torna uma forma de</p><p>comunicação. A comunicação envolve, assim, dois aspectos: o conteúdo ou signifi cado</p><p>da mensagem; e a forma (verbal ou não verbal). A comunicação verbal é digital, lógica,</p><p>analítica e sintética; estabelece-se através de signos (signifi cantes), cuja relação com a</p><p>signifi cação é convencional; esta comunicação pode ser oral (conversa, etc.) ou escrita,</p><p>(mensagens de telemóvel, computador, etc.). A comunicação é propensa a erros,</p><p>que envolvem a antecipação, as expectativas, os lapsos, a distorção na transmissão.</p><p>Todos estes problemas podem ocorrer durante a troca de informações, por exemplo</p><p>quando se fala muito depressa, quando se usa uma fraseologia incorrecta, ou quando</p><p>o ruído é intenso, interferindo na qualidade da comunicação. Por sua vez, considera-</p><p>se que a comunicação não-verbal ou analógica se efectua através de sinais que tem</p><p>uma relação de semelhança com o que se pretende comunicar. Os principais meios</p><p>não-verbais de comunicação do ser falado/falante são o olhar, a expressão facial, o</p><p>toque, a postura, os movimentos corporais e a distância física. Outras informações</p><p>podem ser transmitidas também pela maneira de falar (tom de voz, velocidade,</p><p>pausas, etc.). A velocidade da fala e o tom de voz podem denotar ansiedade; um outro</p><p>aspecto importante de qualquer conversa é o modo como o emissor pode mudar,</p><p>as interrupções e a facilidade com que uma pessoa dá a palavra a outra. A expressão</p><p>facial é importante para a comunicação dos estados emocionais básicos, como a</p><p>alegria, o medo, a raiva, o nojo, a tristeza, o interesse, o desprezo, etc. A tristeza e a</p><p>raiva são principalmente transmitidas desta forma, mas todas as expressões faciais</p><p>podem ser disfarçadas, e as da raiva, medo, desprezo e nojo deverão mesmo sê-lo na</p><p>maioria dos casos. O olhar normalmente é breve. O olhar que fi xa prolongadamente</p><p>quem não nos é íntimo é normalmente interpretado como ameaçador. O toque,</p><p>através de um aperto de mão pode ser signifi cativo da personalidade da pessoa; a sua</p><p>postura é também reveladora, uma vez que temos tendência a nos inclinar perante as</p><p>pessoas com as quais concordamos, ou de quem gostamos, e afastarmo-nos de quem</p><p>nos desagrada, ou não concordamos, ao mesmo tempo que evitamos cruzar o olhar,</p><p>ou que nos distraímos brincando com qualquer objecto, como um lápis. Deste ponto</p><p>de vista, o “frente a frente” proporciona maior confronto. Balançar a perna, bater os</p><p>dedos e encolher os ombros, indica frustração, desacordo e tensão, pelo que devem</p><p>ser evitados.</p><p>108. A questão do não-verbal coloca-se particularmente a propósito da Psicoterapia</p><p>de crianças de pouca idade, já que Psicanálise de crianças não existe propriamente,</p><p>havendo apenas psicanalistas que se ocupam de crianças em instituições ou no</p><p>privado. Na Psicoterapia de crianças utilizam-se recursos como jogos, desenhos,</p><p>142</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>O “não-verbal não é o “pré-verbal”. Na verdade, o pré-verbal não</p><p>existe para quem já nasce num mundo estruturado pela linguagem.</p><p>Não-verbal é, por exemplo, a expressão facial da emoção de um ser</p><p>falado/falante; mas pode também ser um pensamento enviesado, ou</p><p>um distúrbio comportamental que provoque uma má adaptação do</p><p>indivíduo ao grupo. Este privilégio dado à vista, em detrimento dos</p><p>efeitos somativos, psíquicos e epistémicos da palavra, leva muitas</p><p>vezes a pensar que aquilo que cabe essencialmente ao psicólogo,</p><p>clínico e psicoterapeuta, é ver, olhos nos olhos, o que o entrevistado</p><p>não vê.</p><p>Moreno quer mesmo arrancar os olhos do outro: “um encontro de</p><p>dois: olhos nos olhos, face a face. E quando estiveres perto, arrancar-</p><p>te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus; e arrancarei os meus</p><p>olhos para colocá-los no lugar dos teus; então ver-te-ei com os teus</p><p>olhos e tu ver-me-ás com os meus.”.</p><p>Dou agora o exemplo de um caso clínico relatado numa reunião</p><p>académica sobre a Entrevista Psicológica para que o leitor possa</p><p>entender melhor aquilo a que me refi ro:</p><p>Um homem de quarenta e cinco anos conta na sua primeira en-</p><p>trevista que se vai divorciar pela terceira vez e que está muito</p><p>feliz. O psicólogo observa a instabilidade postural do paciente,</p><p>bem como o facto que ele tem as mãos a suar enquanto fala</p><p>brinquedos, o computador e outros elementos oportunos. A criança que não</p><p>consegue falar sobre os seus problemas pode servir-se destes instrumentos para</p><p>revelar a causa da sua difi culdade. Através deles, pode adquirir maior maturidade,</p><p>aprender a conhecer limites, a desenvolver o seu raciocínio, a concentrar-se, a prestar</p><p>mais atenção. Mas histórias, cantigas e outras brincadeiras utilizadas na Psicoterapia</p><p>de crianças são sobretudo técnicas para as ajudar a falar, para fazer com que acabem</p><p>por dizer alguma coisa que permita entender devidamente o problema e resolvê-lo.</p><p>143</p><p>José Martinho</p><p>Que fazer com esta postura, suor e tremores? Se o psicólogo está</p><p>particularmente interessado no “não-verbal”, pode, por exemplo,</p><p>querer inspeccionar ou até espiar todas as atitudes do paciente.</p><p>Como já referimos, há mesmo quem pretenda que se devia observar</p><p>o comportamento dos doentes na sala de espera, ou até saber como</p><p>eles chegam da rua, o que implicaria que se colocassem câmaras de</p><p>fi lmar à porta do consultório. Como parar esta vontade de ver tudo</p><p>tão característica da nossa época?</p><p>Mas se o psicólogo clínico ou o psicoterapeuta abandonar a vontade</p><p>de ver para tentar verbalizar o “não-verbal”, pode imaginar o suor</p><p>e o tremor do paciente de várias maneiras. Quem sabe se não dirá</p><p>ao paciente: “o Sr. está a mentir, afi rma que está feliz, mas ninguém</p><p>pode estar feliz depois de um divórcio”; e acrescentar: “a prova da sua</p><p>instabilidade é que o Sr. está a tremer e a suar das mãos”.</p><p>Suponhamos que o paciente sofre de parkinsonismo ou de</p><p>qualquer outra doença que provoque a instabilidade postural</p><p>e os tremores. Neste caso, não apreciará certamente o que lhe</p><p>disse o psicólogo. O desconforto sentido pode mesmo levá-lo a</p><p>abandonar defi nitivamente as consultas. Daí que alguns aconselhem</p><p>paradoxalmente que se observe, mas que não se interprete, pelos</p><p>menos nas primeiras sessões.</p><p>Este pequeno aparte para dizer que, se é mesmo falso que um</p><p>divórcio possa trazer felicidade, esta falsidade ou fantasia virá à fala</p><p>mais cedo ou mais tarde. O psicólogo apenas deve começar por</p><p>respeitar o timing do sujeito que o procura. O que ele terá de fazer</p><p>em seguida – por exemplo lidar com a transferência sem ter sido</p><p>144</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>analisado – será certamente muito mais difícil.</p><p>A infl ação ao nível da técnica apenas revela um défi ce ao nível da</p><p>ética. Quando o desejo – base da ética da psicanálise – coxeia, é</p><p>preciso muita bengala técnica para o suportar.</p><p>3.3 PSICOTERAPIAS BREVES</p><p>Mesmo que todas as terapias sejam breves quando comparadas com a</p><p>Psicanálise109, as chamadas “Psicoterapias Breves” são procedimentos</p><p>terapêuticos oriundos das psicanálises curtas praticadas por Freud</p><p>nos primeiros tempos.</p><p>Elas acabaram por seguir dois principais caminhos: o primeiro</p><p>começou nos anos 1920, na escola psicanalítica austríaca (Rank) e</p><p>húngara (Ferenczi), e mais tarde, com a guerra, foi até ao Reino Unido,</p><p>onde benefi ciou da teoria das “relações de objecto” (Fairbain, Klein e</p><p>Winnicott) e sobretudo das experiências da Tavistock Clinic (Balint).</p><p>Nos anos 1950, este caminho foi designado como o da Intensive</p><p>Short-Term Dynamic Psychotherapy (David Malan).</p><p>O segundo caminho começou com a emigração dos psicanalistas</p><p>europeus para o continente americano. Prosseguiu nos Estados</p><p>Unidos da América com Franz Alexander (Chicago), Mann (Boston) e</p><p>109. Não me refi ro apenas ao que se chamou, na International Psychoanalytical</p><p>Association (IPA), a standard cure, de quatro sessões semanais de tempo fi xo – a famosa</p><p>“hora de cinquenta minutos” -, antecipadamente programadas para que o paciente</p><p>não falte ou tenha de pagar caso falte, durante pelo menos dez anos. Mesmo se a</p><p>sessão e a série das sessões não têm horário pré-estabelecido (por relógios, agendas,</p><p>etc.), a análise de “orientação lacaniana” também consome muito mais tempo do que</p><p>uma psicoterapia individual ou de grupo.</p><p>145</p><p>José Martinho</p><p>Sifneos (Belmont); e, no Canadá, com Davenloo.</p><p>Em síntese, a primeira via é a das Psicoterapias Breves Dinâmicas ou</p><p>Psicoterapias Breves de Inspiração Psicanalítica (PBIP); e a segunda</p><p>a das Breef Therapy, das Psicoterapias Breves, em geral, campo onde</p><p>irão aparecer também as Terapias de Apoio e as Técnicas Cognitivo-</p><p>Comportamentais.</p><p>Actualmente, existem várias propostas de Psicoterapias Breves.</p><p>Messer e Warren agrupam-nas em três Modelos: 1) o Estrutural (que</p><p>procura identifi car o confl ito primário da personalidade do cliente</p><p>no interior da sua actual problemática); os autores mais conhecidos</p><p>desta perspectiva são Malan, Sifneos e Davanloo. 2) o Relacional</p><p>(interessado sobretudo na relação contra-transferêncial); os autores</p><p>de referência são aqui: Luborsky, Horowitz, Strupp e Binder. 3) o</p><p>Integrativo ou Eclético, que procura integrar técnicas e conceitos</p><p>de diferentes quadrantes, para adaptar melhor a psicoterapia ao</p><p>paciente e não o contrário. Falarei adiante do mais reputado autor</p><p>português deste “Modelo Integrado”, Pedro Lau Ribeiro.</p><p>Como já referi, foram Otto Rank (1924) e Sandor Ferenczi (1918,</p><p>1927) que propuseram pela primeira vez técnicas visando encurtar</p><p>o tempo de um tratamento psicanalítico que parecia se alongar cada</p><p>vez mais.</p><p>A “técnica activa” de Ferenczi devia sobretudo servir aos terapeutas</p><p>mais experientes para intensifi car a relação transferêncial e obter</p><p>deste modo resultados mais rápidos.</p><p>146</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>A aplicação desta técnica ao que Balint chamou a “lacuna básica”, e</p><p>o recomeçar (new begining) que uma tal acção devia proporcionar,</p><p>conduziram Malan e Sifneos à reelaboração dos conceitos de “Foco”</p><p>e de “Psicoterapia Focal”.</p><p>O conceito de “Foco” veio de Stekel e é inerente à “terapia sectorial”,</p><p>centrada no sintoma alvo.</p><p>O “Foco” é a área que se delimita para ser trabalhada no processo</p><p>terapêutico através de avaliação e planeamento prévios.</p><p>Normalmente, o confl ito focal é consciente ou pré-consciente, mas</p><p>remete para o “confl ito nuclear”, inconsciente, oriundo da infância e</p><p>mais difícil de abordar.</p><p>A focalização não é a única técnica utilizada nas Psicoterapias Breves.</p><p>Outras técnicas vão ser desenvolvidas por Alexander e French</p><p>(Experiência Emocional Correctiva), McCullough (a Integração das</p><p>Tácticas Terapêuticas) e Malan (Triângulos: do Confl ito, do Insight,</p><p>etc.).</p><p>Balint disse que a Psicoterapia Breve era uma “Psicanálise aplicada”.</p><p>Mesmo que não seja a “Psicanálise pura”, a Psicoterapia Breve procura</p><p>que o inconsciente se torne consciente, ainda que dirigindo a fala do</p><p>paciente para o que o terapeuta considera mais vantajoso.</p><p>Apesar de infl uenciado por Balint, Malan era da opinião que o</p><p>terapeuta breve se devia preocupar “mais com o futuro e menos com</p><p>o passado”. Para tal, deveria adoptar posturas activas e intervir no</p><p>tratamento no sentido de reeducar o comportamento do doente.</p><p>147</p><p>José Martinho</p><p>A atitude do terapeuta relativamente aos sintomas do paciente e</p><p>à obtenção de um equilíbrio estável devia fazer-se na base de um</p><p>sentimento de segurança. Mas há igualmente quem defenda, na</p><p>esteira de Ferenczi, uma estratégia mais activa e até agressiva, com</p><p>uso de técnicas como a confrontação e a clarifi cação.</p><p>novos médicos a tentar explicar o sintoma (efeito) pela</p><p>estrutura ou a função orgânica afectada (causa).10</p><p>Todavia, até ao século XX, existiram sobretudo médicos do “crânio”</p><p>e dos “nervos”, todos eles incapazes de explicar a verdadeira causa</p><p>das doenças que observavam e descreviam e, claro está, de as tratar.</p><p>Assim, aquilo que veio a ser mais tarde a “Psiquiatria” - especialidade</p><p>médica que tem como objectivo a prevenção, o diagnóstico e o</p><p>tratamento das doenças mentais - permaneceu durante todo esse</p><p>10. A “afasia” fornece um bom exemplo das difi culdades com que se depararam os médicos.</p><p>Enquanto não foi descoberta a lesão cerebral que estava na origem das perturbações</p><p>afásicas da linguagem (sons ou fonemas; léxico ou palavras, gramática, sintaxe; ritmo/</p><p>� uência e escrita/leitura), estas foram facilmente atribuídas a defeitos individuais e vícios</p><p>morais.</p><p>21</p><p>José Martinho</p><p>tempo uma Nomenclatura, e os cuidados que dispensava andaram</p><p>sempre muito próximos da ajuda samaritana. Ou do crime. 11</p><p>O nome e a obra de Emil Kraepelin (1855-1926) vão marcar uma</p><p>data naquilo que constituirá o núcleo duro da “Psiquiatria” clássica.</p><p>Fundador da Escola Alemã, Kraepelin é ao mesmo tempo um médico,</p><p>um cientista e um “psicólogo” infl uenciado pelas experiências do</p><p>laboratório de Wundt.</p><p>Kraepelin observou centenas de doentes, descreveu e classifi cou os</p><p>seus sintomas. Tornou-se deste modo o responsável pela primeira</p><p>grande classifi cação das doenças mentais. Na sua abordagem</p><p>dos sintomas, levou em conta dois tipos de causas: constitucional</p><p>e acidental; e duas funções: transversal (descrição dos sintomas</p><p>actuais da doença) e longitudinal (descrição do curso da doença,</p><p>com os novos dados). A principal preocupação de Kraepelin recaiu</p><p>sobre o prognóstico ou a evolução da doença.</p><p>É também no seu Tratado de Psiquiatra que encontramos a primeira</p><p>descrição da síndrome da demencia precox (que Bleuler denominou</p><p>“esquizofrenia”), para além da “paranóia” (alucinações, delírio de</p><p>interpretação) e da “psicose maníaco - depressiva” (alternância</p><p>entre o estado de euforia e depressão; actualmente denominada</p><p>“perturbação bipolar”).</p><p>Após as descrições e classifi cações de Kraepelin, as medicinas da alma</p><p>11. A História da “Psiquiatria” está repleta de curiosidades e horrores: rituais de</p><p>possessão, trepanação de crânios, canibalismo para ingestão da massa cerebral, nave</p><p>dos loucos, enclausuramento, electrochoques, camisolas de forças físicas e químicas,</p><p>lobotomias, etc., etc., etc.</p><p>22</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>foram-se tornando mais “científi cas”, e por conseguinte afastando-</p><p>se da confi ssão católica, da preocupação de si ligada ao cuidado</p><p>greco-romano do corpo, e das práticas curandeiras primitivas como</p><p>o xamanismo, cuja efi cácia simbólica dependia dos ritos e mitos</p><p>colectivos das sociedades primitivas a que pertenciam. Mas o estado</p><p>da arte psiquiátrica só irá efectivamente mudar no século XX, com a</p><p>Fenomenologia e a Psicanálise.</p><p>Antes destas, foi a Psicologia Analítica de W. Dilthey (1833-1911) que</p><p>introduziu uma ideia directriz que irá trilhar um importante caminho,</p><p>a saber que, para além da “descrição” (pré-científi ca) da doença e a</p><p>“explicação” (científi ca)12 da sua causa, deve haver a “compreensão”</p><p>do ser humano que o doente também é.</p><p>Compreender não é observar o indivíduo de fora, de maneira</p><p>objectiva e neutra, mas ter a capacidade de se colocar no seu</p><p>lugar, de penetrar na sua mente, para poder vivenciar o que este</p><p>verdadeiramente sente, pensa e quer.</p><p>Voltou a apostar-se deste modo na transparência das almas, na</p><p>verdade e na identifi cação ao outro. A partir daí acreditou-se que seria</p><p>esta transparência que permitiria apreender o conteúdo intencional</p><p>e (auto) biográfi co que a doença tem para o doente, logo, a relação</p><p>que estabelece consigo, com outrem e com o mundo.</p><p>Uma tal preocupação geral com o conteúdo dos fenómenos acabou</p><p>12. Para o pensamento fi losófi co-científi co Moderno, a explicação causal irá residir</p><p>essencialmente na “causa formal” de Aristóteles. Mas é o “Princípio de razão” de</p><p>Leibnitz que melhor ilustra o determinismo que afi rma que nada acontece à toa no</p><p>psiquismo.</p><p>23</p><p>José Martinho</p><p>por conduzir os espíritos a uma nova Hermenêutica.13 Todos os</p><p>fenómenos humanos tornaram-se desde logo portadores de um</p><p>Sentido. Daí que se começasse a tentar compreender o sentido de</p><p>tudo, partindo da estrutura do organismo e da esfera da intimidade,</p><p>até à dimensão universal da Existência humana, da História, do Ente</p><p>supremo e do Ser. Esta infl ação do Sentido fez-se sentir com maior</p><p>acuidade ainda após a ruína dos valores da Civilização ocidental</p><p>provocada pela Segunda Guerra Mundial.</p><p>Karl Jaspers (1883-1969) é o fundador do que se designa por modelo</p><p>Fenomenológico - Existencial em Psiquiatria. Ele introduz na Medicina</p><p>dos nervos o “método explicativo” (a ligação causal entre a doença</p><p>mental e a função orgânica afectada) e o “método compreensivo”</p><p>(despido de teorias e preconceitos, em que o investigador descreve</p><p>o doente tal como lhe aparece).</p><p>É também Jaspers que propõe os conceitos de “síndrome” (conjunto</p><p>de sinais e sintomas organizados de forma especifi ca) e de “vivência”</p><p>(experiência psico-patológica do único indivíduo). Finalmente,</p><p>a Psicopatologia jaspersiana apresenta-se como Geral, ou seja,</p><p>médicos independentes com igual formação devem chegar ao</p><p>mesmo diagnóstico.</p><p>Na Psicologia, a corrente Fenomenológico – Existencial vai prolongar</p><p>a chamada corrente “Humanista”, e dar lugar à Logoterapia de V. Frankl</p><p>(1905-1997), à Terapia Existencial (ou do Dasein) de L. Biswanger</p><p>(1881-1966) e à Terapia da Gestalt de F. Perls (1893-1970)14.</p><p>13. Dilthey já tinha publicado, em 1900, uma Introdução à Hermenêutica (Die</p><p>Entstehung der Hermeneutik).</p><p>14. Destaco aqui a Terapia da Gestalt, pela importância crescente que tomou no</p><p>24</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Estavam, assim, criadas as condições para que se pudesse procurar</p><p>e encontrar em toda a perturbação mental um comportamento</p><p>clinicamente signifi cativo.</p><p>A Psicanálise é também apanhada a dada altura nesta grande onda</p><p>do Sentido. O mal-entendido foi-lhe aparentemente favorável, pois a</p><p>importância crucial que passou a ter para a Psiquiatria, a Psicologia e</p><p>a Sociedade em geral só começou quando o Sentido veio substituir</p><p>o Sexo. Freud-o-grande-obcecado-sexual cedeu, então, o lugar a</p><p>Freud-o-grande-pensador-e-escritor.</p><p>Foi, pois, um mal-entendido que esteve na origem da crescente</p><p>infl uência que da Psicanálise sobre a Psiquiatria e a Psicoterapia entre</p><p>os anos 1930 e 1950. Foi ainda este mal-entendido que levou a que se</p><p>viesse a conceber a Psicanálise como uma “Psicologia compreensiva”,</p><p>ou uma “Psicologia das profundezas”, que procurava não só o sentido</p><p>consciente dos fenómenos psíquicos, como o sentido “subliminar” à</p><p>consciência ou “subconsciente”.</p><p>mundo hispânico e mais recentemente em Portugal (website da Sociedade Luso-</p><p>Espanhola de Psicoterapia Gestalt: http://slepg.net/index.php?cont=4). O seu</p><p>fundador, Frits Perls era um médico psiquiatra e psicanalista formado em Berlim e</p><p>Viena, onde conheceu W. Reich, P. Federn, H. Deutsch e K. Horney. Infl uenciado pela</p><p>Psicologia da Gestalt (Friedlander, Wertheimer e muito especialmente por Goldstein),</p><p>a Fenomenologia (Husserl) e o Existencialismo (sobretudo Sartre), mas também pelo</p><p>Psicodrama (Moreno), afasta-se decididamente do freudismo e acaba por lançar nos</p><p>EUA, juntamente com a sua mulher Laura, as bases da Gestalt Therapy. Esta defende</p><p>o princípio da Forma Global e da auto-regulação (homeostasia) do Universo, do</p><p>organismo em interacção com o meio, e da Pessoa no próprio processo terapêutico.</p><p>Atribui-se aí igual importância ao corpo, à mente e ao amadurecimento destes, mas</p><p>sobretudo ao awareness, ao dar-se conta da situação</p><p>Discípulo de Malan, Sifneos – pioneiro da Short-Term Anxiety</p><p>Provoking Psychoterapy (STAPP) – propôs que se fi zessem</p><p>Psicoterapias Ansiolíticas Breves, para poder intervir em situações de</p><p>crise (intervenções até dois meses) e a curto prazo (de dois a quinze</p><p>meses).</p><p>As Psicoterapias Breves mais longas deviam focar-se no complexo de</p><p>Édipo. Actualmente, há também quem pense que o psicoterapeuta</p><p>tanto se pode focar neste tema, como em qualquer outro escolhido</p><p>juntamente com o paciente.</p><p>Em resumo: em toda a Psicoterapia Breve existe um processo</p><p>planeado, com foco, objectivo e estratégias terapêuticas</p><p>estabelecidas a partir da compreensão do caso. O desenvolvimento</p><p>deste processo pressupõe, pois, um esquema geral, que parte do</p><p>diagnóstico que é elaborado na entrevista inicial e vai até à remoção</p><p>ou, pelo menos, o alívio dos sintomas que o paciente trouxe para</p><p>a terapia. As Breves podem deste modo não ser tão breves quanto</p><p>isso. O que é sempre exigido é que o paciente seja capaz de falar</p><p>de si com sinceridade, e de defi nir, juntamente com o terapeuta,</p><p>as principais metas da terapia. Os silêncios, os atrasos, as faltas e</p><p>o desvio da conversa para outros assuntos devem ser vistos como</p><p>resistências e, logo, ser desencorajados.</p><p>148</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Ao abordar os diferentes níveis de confl ito no interior de um</p><p>Foco, aquilo que se espera atingir e resolver é o “confl ito nuclear”.</p><p>A “ramifi cação” de todos os confl itos constitui a estrutura da</p><p>personalidade, cuja análise completa é efectuada nas psicoterapias</p><p>longas. O objectivo das Breves é sobretudo fazer com que os traços</p><p>de personalidade que desadaptam o indivíduo se transformem em</p><p>traços adaptativos. Nos casos de pacientes mais ambiciosos, pode</p><p>ser-lhe proposta uma Psicanálise.</p><p>É necessário efectuar uma selecção cuidada dos pacientes em</p><p>Psicoterapias Breves, segundo a gravidade dos sintomas e a patologia</p><p>subjacente. As Breves são indicadas para crianças ou adultos com</p><p>estruturas neuróticas, ou com perturbações pós-traumáticas sem</p><p>grandes complicações. Mas são contra-indicadas para indivíduos</p><p>com um Ego muito frágil, ou que lidam bastante mal com a perda, o</p><p>abandono e a rejeição.</p><p>O paciente ideal para a Psicoterapia Breve costuma ter problemas</p><p>focados, espírito de sacrifício, motivação, inteligência, boa</p><p>capacidade de introspecção e de vinculação ao terapeuta. Na</p><p>verdade, poucos são os que se enquadram neste perfi l psicológico.</p><p>Dado que as Psicoterapias Breves são por defi nição incompletas, e o</p><p>seu tempo limitado, é necessário que se aborde precocemente nelas</p><p>as questões relativas à duração e aos objectivos do tratamento.</p><p>Na prática, o paciente senta-se frente a frente com o psicoterapeuta,</p><p>em sessões que podem variar entre uma ou duas vezes por semana</p><p>inicialmente, tornando-se mais espaçadas quando se aproxima o</p><p>fi nal.</p><p>149</p><p>José Martinho</p><p>No início, destaca-se a interpretação dos elementos do confl ito:</p><p>sintomas, impulsos, desejos, sentimentos, mecanismos de defesa.</p><p>Num segundo momento interpreta-se o confl ito nas diferentes</p><p>situações interpessoais: transferência, relação com pessoas</p><p>signifi cativas da vida actual e da passada.</p><p>Segundo Fonseca (1988) “o numero de sessões é controlado pelo</p><p>paciente, que, ao sentir que o seu problema está resolvido, deixa de</p><p>comparecer.”</p><p>Costuma-se distinguir três tipos de Psicoterapias Breves:</p><p>A Psicoterapia Breve mobilizadora, em que se trata sobretudo</p><p>de dissipar a ansiedade contida nos processos mórbidos de um</p><p>paciente ainda muito ligado aos seus habituais mecanismos de</p><p>defesa; eventualmente de o motivar para um acompanhamento</p><p>especializado mais longo.</p><p>A Psicoterapia Breve de Apoio, que procura reforçar as funções do</p><p>Ego utilizando a infl uência do terapeuta, por sugestão e aumento</p><p>do autoconhecimento. Este tipo de terapia é por vezes utilizado</p><p>nos Hospitais e Centros de Saúde para tratar distúrbios somáticos</p><p>clínicos ou cirúrgicos.</p><p>A Psicoterapia Breve Resolutiva, que se destina a procurar a origem</p><p>da situação de crise vivida pelo paciente. Este tipo de terapia não só é</p><p>a mais longa, como aquela que corresponde melhor à ideia corrente</p><p>de Psicoterapia.</p><p>150</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Foi o médico psiquiatra Pedro Lau Ribeiro que fundou em 1986,</p><p>juntamente com Margarida Oliveira Lau Ribeiro e Maria de Castro</p><p>Ferrão a Sociedade Portuguesa de Psicoterapias Breves (http://www.</p><p>sppb.pt/).110 Em 1997, Pedro Lau Ribeiro publica um livro teórico-</p><p>clínico em que procura integrar os dois caminhos clássicos das</p><p>Breves num modelo mais alargado, que contemplaria, entre outros</p><p>e para além da Psicanálise, a Fenomenologia (de Hursserl a Merleau</p><p>Ponty), a Psicologia Analítica de Jung, a Hermenêutica de Ricoeur e a</p><p>Psicossomática de Marty.111</p><p>Lau Ribeiro112 propõe este “Modelo Integrado” das Psicoterapias</p><p>Breves como o mais apropriado para responder aos quatro tipos</p><p>de questões que o sujeito se coloca: a primeira é a que diz respeito</p><p>à etiologia dos sintomas que o incomodam (ansiedade, insónias,</p><p>gastralgias, fobias, ataques de pânico, etc.) e que deviam ser</p><p>atenuados ou removidos; a segunda diz respeito à queixa sobre as</p><p>relações afectivas (entendimento com os pais, os fi lhos, os colegas</p><p>de trabalho, o patrão, etc.); a terceira é a sua questão existencial (“de</p><p>onde venho?”, “o que ando aqui a fazer?”, “para onde vou?”); e a quarta</p><p>é uma questão metafísica e religiosa, do estilo, “existe o Demiurgo?”.</p><p>110. Website SPPB: http://www.sppb.pt/</p><p>111. CORDIOLI, Aristides Volpato & Colaboradores (2008). “Psicoterapias – Abordagens</p><p>actuais”. (3ª edição); Porto Alegre; Artmed.</p><p>CRAMER, B. (1974). Interventions thérapeutiques brèves avec parents et enfants.</p><p>Psyquiatrie de l’Enfant, 17 (1), 53-117.</p><p>FERNANDES DA FONSECA, Azevedo (1988). Psiquiatria e Psicopatologia – II vol. Lisboa:</p><p>Fundação Calouste Gulbenkian, pp.746-748.</p><p>GILLÉRON, Edmond (2001); A primeira entrevista em psicoterapia. Lisboa : Climepsi;</p><p>p.203.</p><p>KNOBEL, M. (1986). Psicoterapia breve. São Paulo: EPU.</p><p>MACHADO VAZ, Júlio. (1992). O Fio Invisível. Lisboa: Relógio D´Água.</p><p>SANTOS, Eduardo Ferreira (1997). “Psicoterapia Breve – Abordagem sistematizada de</p><p>situações de crise”. Brasil: Editora Ágora. 4ª Edição.</p><p>112. LAU RIBEIRO (1997). Psicoterapia Breve, um modelo integrado. Lisboa. SPPB.</p><p>151</p><p>José Martinho</p><p>Pedro Lau Ribeiro faleceu em Junho de 2010. Nos últimos quatro anos</p><p>da sua vida, considerou que o “retorno a Freud” de Jacques Lacan</p><p>era a melhor maneira de não esquecer a grande fonte inspiradora</p><p>das Psicoterapias Breves. Em consequência desta escolha, tornou-</p><p>se, em 2008, membro da Antena do Campo Freudiano113 instituição</p><p>onde pôde desenvolver o que já tinha proposto no seu livro sobre o</p><p>Seminário I de Lacan, Os escritos técnicos de Freud.</p><p>3.4 GRUPANÁLISE</p><p>Ninguém procura – a não ser aconselhado - uma terapia de grupo</p><p>ou em grupo para ultrapassar as suas difi culdades. Ninguém pensa</p><p>também espontaneamente que, para resolver os seus próprios</p><p>problemas, é preciso trazer os pais, o marido ou a mulher, e a restante</p><p>família para o consultório, ou reunir aí com uma série de outras</p><p>pessoas e terapeutas.</p><p>Assim, as Terapias de Grupo surgiram da necessidade - sobretudo</p><p>político-militar, económica e médica - de estender a um maior</p><p>número de pessoas as possibilidades de um mesmo atendimento</p><p>terapêutico.</p><p>Os primeiros destes grupos terapêuticos – as chamadas “classes</p><p>colectivas” - foram organizados por Joseph Pratt, por volta de 1906.</p><p>Pratt reunia vinte a trinta pacientes com tuberculose, para os quais</p><p>fazia também palestras uma ou duas vezes por semana.</p><p>Nos anos 1920, em Washington, Edward Lazell tentou levar a cabo</p><p>113. Website ACF: http://acfportugal.com/</p><p>152</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>as primeiras psicoterapias</p><p>grupais. Mas foi sobretudo durante a</p><p>Segunda Guerra Mundial que a necessidade de tratar grandes</p><p>quantidades de jovens hospitalizados em meio militar com</p><p>perturbações psicológicas reactivas à situação, conduziu alguns</p><p>psicanalistas exercendo o seu serviço militar à prática da Psicoterapia</p><p>de Grupo de Inspiração Psicanalítica.</p><p>Paralelamente, sobretudo após o ano de 1935, desenvolvem-se</p><p>também nos Estados Unidos da América os primeiros grupos de auto-</p><p>ajuda em torno do problema do alcoolismo (Alcoólicos Anónimos).</p><p>Em 1945, Kurt Lewin cria, no Massachusetts Institute of Technology</p><p>(MIT), o Centro de Pesquisa em Dinâmica de Grupos, onde aparece</p><p>pela primeira vez a designação “T-Group” (Training-Group).</p><p>Em 1946, Rogers lança os Grupos de Encontro, fórmula que decorre</p><p>do trabalho pioneiro dos Grupos-T, aos quais acrescenta a Terapia da</p><p>Gestalt de Perls, para desenvolver a Psicoterapia Centrada no Cliente</p><p>ou na Pessoa.114</p><p>É um dos fundadores da Associação Psicanalítica Americana, Trigant</p><p>Burrow, que faz, em 1927, a primeira referência a uma Análise de</p><p>Grupo. Mas o verdadeiro inventor do termo Group-analysis será S.H</p><p>Foulkes.</p><p>O major Foulkes efectuou a sua primeira experiência grupanalítica</p><p>no centro médico-militar de Northfi eld, no Reino Unido. Como</p><p>114. Web site da Sociedade Portuguesa de Psicoterapia Centrada no Cliente e</p><p>Abordagem Centrada na Pessoa: http://www.sptrogeriana.com</p><p>153</p><p>José Martinho</p><p>muitos outros na época, ele tinha como principal objectivo resolver</p><p>problemas de indisciplina e comunicação entre os soldados.</p><p>Tendo obtido bons resultados com as suas experiências, resolveu</p><p>desenvolver em seguida o método que tinha empregado. Depois</p><p>dele, muitos outros inspirar-se-ão no nome e na coisa, como</p><p>Lawrence (1927), Syz (1961), Syz (1961) e Abse (1979).</p><p>A formação e o desenvolvimento de um grupo (fechado/aberto/</p><p>lentamente aberto) fazem surgir fenómenos (em espelho e em</p><p>cadeia) que não são observáveis numa terapia individual. Por</p><p>exemplo, ocorrem nas tensões do grupo fenómenos como a</p><p>rivalidade e a solidariedade, ou a emergência do bode-expiatório, do</p><p>estrangeiro, do líder, etc.</p><p>É sempre difícil correlacionar o grupo, com os seus factores específi cos</p><p>e consequências, e a prática psicoterapêutica, nomeadamente de</p><p>inspiração psicanalítica. Em Psicologia das massas e análise do Ego,</p><p>Freud tinha dado preciosas indicações sobre a relação do colectivo</p><p>com o individual. Adler e Bion lançaram-se também posteriormente</p><p>no estudo dos pequenos grupos.</p><p>Foulkes procurou sobretudo mostrar aquilo que aproxima a análise</p><p>individual da terapia de grupo. Começou por fazê-lo a partir de um</p><p>certo número de pressupostos sobre a comunicação verbal e não</p><p>verbal. Assim, propôs que, à associação livre, corresponderia, na</p><p>Grupanálise, a contribuição espontânea e a discussão circulante</p><p>entre os diferentes membros do grupo.</p><p>Psicanálise e Grupanálise procurariam ambas interpretar o material</p><p>154</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>da comunicação verbal para revelar o sentido oculto dos sintomas;</p><p>mas enquanto na Psicanálise a interpretação caberia apenas</p><p>ao psicanalista, na Grupanálise, caberia ao grupanalista, com a</p><p>participação dos membros do grupo.</p><p>A Psicanálise tentaria descobrir os mecanismos de defesa individuais,</p><p>enquanto a Grupanálise procuraria sobretudo tornar conscientes os</p><p>hábitos grupais.</p><p>A suposta comunicação não verbal far-se-ia, na Psicanálise, ao nível</p><p>da relação dual, ao passo que, na Grupanálise, a situação seria multi-</p><p>pessoal, com várias transferências e relações com outras pessoas do</p><p>grupo.</p><p>Na Psicanálise, existiria um anonimato e uma passividade em</p><p>relação ao analista, assim como uma neurose de transferência bem</p><p>estabelecida, por conseguinte um problema de dependência e de</p><p>fi xação ao terapeuta; na Grupanálise, haveria uma relativa realidade</p><p>do grupanalista e das relações entre membros, uma neurose</p><p>de transferência não plenamente estabelecida, e logo menos</p><p>problemas de dependência. Por fi m, na Psicanálise, seria dada ênfase</p><p>à introspecção e rememoração do passado, enquanto na Grupanálise</p><p>a importância recairia sobre o Ego no aqui e agora.</p><p>Foi um analisando e discípulo de Foulkes, o psiquiatra Eduardo Luís</p><p>Cortesão (1919-1991), que introduziu, em 1956, a Grupanálise em</p><p>Portugal.</p><p>Eduardo Luís Cortesão fez a sua formação no Maudsley Hospital,</p><p>155</p><p>José Martinho</p><p>em 1954, como bolseiro do British Council. Em Setembro de 1955,</p><p>após concurso, é empossado como Psiquiatra dos Royal Bethleem</p><p>and Maudsley Hospitals. Em 1956 é admitido como Full Member da</p><p>Group-Analytic Society de Londres. É nessa data que irá também</p><p>iniciar o movimento grupanalítico em Portugal. Este conduziu</p><p>primeiramente à criação do Grupo de Estudos da Grupanálise,</p><p>em 1958, da Secção de Grupanálise da Sociedade Portuguesa</p><p>de Neurologia e Psiquiatria, em 1963, e fi nalmente, em 1981, da</p><p>Sociedade Portuguesa de Grupanálise (http://www.grupanalise.</p><p>pt/).115</p><p>Cortesão deu um contributo decisivo para que a Grupanálise</p><p>adquirisse uma singularidade teórico-técnica, e que o modelo se</p><p>expandisse para além dos limites originais de método de tratamento</p><p>psicológico numa situação de grupo, até diferentes áreas da</p><p>actividade humana, o que o enriqueceu com um novo enfoque e</p><p>dilatou a sua capacidade operacional.</p><p>Como escreveu, “o grupo é uma estrutura, um molde, uma matriz, um</p><p>fórum. Não é uma entidade psíquica nem um aparelho mental (…)</p><p>é por isso que uma vez mais devo insistir que algumas expressões</p><p>correntes, como transferência grupal, resistência de grupo, etc,</p><p>devem servir unicamente o propósito de indicar a situação em que</p><p>são tecnicamente aplicadas”.</p><p>Cortesão afi rma, ainda, no seu principal livro sobre o tema, que a</p><p>Grupanálise “inclui compreensivamente toda a teoria psicanalítica</p><p>115. O leitor interessado pode encontrar neste website todo o tipo de informações</p><p>idóneas e especializadas sobre a história da SPG, as condições de admissão, os sócios,</p><p>a terapia, a formação, as publicações, para além de notícias diversas.</p><p>156</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>- e pressupõe deste modo, o manejo técnico e clínico, desde as</p><p>formulações metapsicológicas até às minúcias das relações de</p><p>objecto, numa situação específi ca de grupo. Situação diferente,</p><p>ainda que não contraditória da situação dual da psicanálise.”116</p><p>Ele sempre pretendeu dotar a Grupanálise de credibilidade científi ca,</p><p>com um substrato teórico coerente e sólido, submetendo para isso</p><p>as hipóteses oriundas do laboratório clínico oferecido pelo grupo</p><p>de análise, e ao critério da validação pragmática conferido pelos</p><p>resultados terapêuticos. Foi assim que erigiu conceitos e defi niu</p><p>procedimentos técnicos que enformam o que se designa ainda por</p><p>“Escola Portuguesa” de Grupanálise.</p><p>Destes conceitos podemos destacar: a Matriz Grupanalítica, o Padrão</p><p>Grupanalítico e o Processo Grupanalítico.</p><p>Foulkes (1967) defi nira a Matriz Grupanalítica como “a teia hipotética</p><p>de comunicação e relação num dado grupo. A matriz é o terreno</p><p>partilhado em conjunto, aquele que, em última instância, determina</p><p>o sentido e a signifi cação de todos os acontecimentos, e no qual se</p><p>integram todas as comunicações e interpretações, verbais e não-</p><p>verbais.”</p><p>Cortesão (1989) redefi ne a Matriz Grupanalítica como a “rede</p><p>específi ca de intercomunicação, inter-relação e interacção, a qual,</p><p>pela integração do padrão grupanalítico, fomenta a evolução do</p><p>processo grupanalítico”. A Matriz é a trama comum; dela dependem,</p><p>116. CORTESÃO.E.L. (1989). Grupanálise, Teoria e Técnica. Lisboa. Fundação Calouste</p><p>Gulbenkian, p.36</p><p>157</p><p>José Martinho</p><p>pois, as comunicações e interpretações explícitas e implícitas, e</p><p>fi nalmente o signifi cado de tudo o que surge e acontece ao grupo.</p><p>O Padrão Grupanalítico baseia-se no exemplo</p><p>e atitudes específi cas</p><p>que o grupanalista transmite no interior da Matriz Grupanalítica,</p><p>através da sua função fomentadora do Processo Grupanalítico.</p><p>O Processo Grupanalítico reside no estabelecimento do setting e</p><p>na aplicação das regras do funcionamento terapêutico. Eis algumas</p><p>destas regras: “os elementos do grupo não se devem conhecer</p><p>previamente, não se devem encontrar fora das sessões entre si, nem</p><p>com o grupanalista; o grupanalista, não pode tratar, nem estabelecer</p><p>contacto com familiares ou amigos dos seus grupanalisandos; as</p><p>sessões decorrem num horário fi xo e pré-estabelecido, numa sala em</p><p>que nove cadeiras estão dispostas num círculo, habitualmente com</p><p>uma pequena mesa no centro; a confi dencialidade deve ser mantida</p><p>pelo grupanalista e por todos os grupanalisandos; as sessões não</p><p>podem ser interrompidas pela realidade externa (telefonemas, saídas</p><p>para fora da sala por parte do grupanalista ou dos grupanalisandos),</p><p>assegurando-se assim um ambiente tranquilo; não existe contacto</p><p>físico entre as pessoas; o grupanalista deve avisar com antecedência</p><p>o seu período de férias, bem como os dias em que por qualquer</p><p>motivo, não possa fazer sessão; os grupanalisandos deverão pagar</p><p>todas as sessões, incluindo aquelas a que faltam; não existem sessões</p><p>individuais com nenhum dos grupanalisandos, após a sua entrada no</p><p>grupo; caso o grupanalista seja médico não deverá ser grupanalista e</p><p>medicar simultaneamente o mesmo cliente.</p><p>A neurose de transferência também existe na Grupanálise. Cortesão</p><p>pretende mesmo que o conceito não é diferente aí da sua forma</p><p>158</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>original, pouco divergindo no conteúdo e na função. Assim, “os</p><p>membros do grupo representam, um para cada outro e no todo da</p><p>situação, um papel fundamental como fi guras de transferência (…)</p><p>a intensidade, constância, preponderância e repetição compulsiva</p><p>de formas de actuar, pensar e sentir tornam-se até mais relevantes</p><p>e signifi cativas nesta situação de transferência”. A neurose de</p><p>transferência é de cada membro no contexto do grupo ou da matriz</p><p>do grupo. Existem pois n neuroses de transferência, tantas quanto os</p><p>membros do grupo.</p><p>Cortesão defendia a importância da frequência das sessões e</p><p>da duração no estabelecimento da neurose de transferência</p><p>grupanalítica.</p><p>Para além da transferência como repetição e reformulação das</p><p>necessidades, angústias e confl itos infantis surgindo no cenário</p><p>grupanalítico, deve-se, ainda, considerar os seguintes níveis de</p><p>experiência e interpretação: experiência subjectiva individual,</p><p>experiência subjectiva múltipla, comunicação associativa,</p><p>interpretação genético-evolutiva, interpretação desenvolutiva,</p><p>interpretação de signifi cação, interpretação de criatividade,</p><p>interpretação na transferência e interpretação comutativa.</p><p>Maria Rita Mendes Leal diz-nos também que foi a teoria das relações</p><p>de objecto que conduziu ao conceito grupanalítico de “Grupo</p><p>Interno”. Ela comenta, a importância de “salientar que o grupo interno</p><p>de cada um é conotado na sua origem com o grupo familiar.</p><p>O importante impacto dos métodos de grupo em Portugal teve</p><p>159</p><p>José Martinho</p><p>igualmente a sua origem em Eduardo Luís Cortesão, desde o ensino</p><p>que ministrou no Hospital Miguel Bombarda e na Clínica Psiquiátrica</p><p>Universitária do Hospital de Santa Maria, a partir de 1956.</p><p>As estruturas e o funcionamento nos Hospitais e Serviços Psiquiátricos</p><p>foram então profundamente alterados: no trabalho em equipa, na</p><p>discussão em grupo, na formação de Hospitais de Dia, no enfoque</p><p>multidisciplinar e multiprofi ssional na formulação do diagnóstico e</p><p>indicação terapêutica, nos métodos de grupo na formação médica</p><p>pré, pós-graduada e contínua, na orientação grupanalítica na</p><p>formação e prática dos profi ssionais do Serviço Social, nos métodos</p><p>de grupo no campo da Terapia Ocupacional, nos métodos de grupo</p><p>nos curricula de algumas escolas de Enfermagem.</p><p>Também a partir de 1956, Cortesão providenciou a supervisão</p><p>em Psicoterapia Grupanalítica e Grupanálise na Consulta Externa</p><p>do Hospital de Santa Maria. E iniciou a Psicoterapia Grupanalítica</p><p>para pacientes psicóticos, no Hospital Miguel Bombarda. O ensino</p><p>dos métodos de entrevista e Terapia Familiar com orientação</p><p>grupanalítica já tinha sido iniciado por ele nos fi nais de 1950.</p><p>O Serviço Universitário de Psiquiatria e Saúde Mental da Faculdade</p><p>de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa constituiu-se</p><p>nessa época como um modelo de ensino, investigação e formação</p><p>que privilegiava a dimensão grupanalítica.</p><p>A partir de 1985, em colaboração com o Instituto da Clínica Geral</p><p>do Sul, Cortesão implementou um plano de formação dos Clínicos</p><p>Gerais.</p><p>160</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Em 1988, estabeleceu um protocolo de cooperação entre a Faculdade</p><p>de Ciências Médicas de Lisboa e o Ministério da Justiça Foi este o</p><p>motor que levou à criação do Departamento de Saúde Mental da</p><p>Direcção Geral dos Serviços Prisionais e da Clínica de Psiquiatria e</p><p>Saúde Mental da Direcção Regional dos Serviços Prisionais em Caxias.</p><p>O tratamento grupanalítico pressupõe que um grupo heterogéneo</p><p>de pessoas, geralmente oito, se encontre regularmente, duas ou três</p><p>vezes por semana. O grupanalista deve proporcionar que os membros</p><p>do grupo associem livremente ideias e sentimentos, e estimular a</p><p>sua verbalização. Os grupanalisandos vão podendo deste modo</p><p>estabelecer pontes entre os processos inconscientes e conscientes.</p><p>O grupo representa também para cada elemento o microcosmo do</p><p>seu mundo interno, através do qual, modos alternativos de lidar com</p><p>os confl itos e desejos podem ser explorados e modifi cados, através</p><p>do estabelecimento de novas relações interpessoais.</p><p>A actividade interpretativa tanto privilegia o funcionamento</p><p>mental de cada indivíduo, como o funcionamento geral do grupo.</p><p>A valorização da participação e contribuição de cada elemento,</p><p>assume características muito próprias. Por outro lado, todos os</p><p>elementos interagem verbalmente, de forma activa, entre eles e</p><p>com o grupanalista, podendo cada um exercer a sua actividade</p><p>interpretativa. Em suma, a Grupanálise constitui-se como uma análise</p><p>de grupo, com o grupo e em grupo, mas não do grupo.</p><p>A Grupanálise decorre num contexto de clínica privada, conduzida</p><p>por um grupanalista credenciado. Institucionalmente existem</p><p>também adaptações psicoterapêuticas grupanalíticas.</p><p>161</p><p>José Martinho</p><p>A “Escola Portuguesa” de Grupanálise tem especifi cidades diferentes</p><p>das outras escolas europeias e americanas (EUA, Brasil, América</p><p>Hispânica) de Grupanálise e psicoterapias de grupo de inspiração</p><p>psicanalítica. A Grupanálise é indicada normalmente por médicos</p><p>e psicólogos aos pacientes para um vasto leque de patologias,</p><p>desde difi culdades de relacionamento interpessoal, a problemas</p><p>como a depressão, a ansiedade, doenças psicossomáticas,</p><p>disfunções comportamentais e até para alguns casos de psicose.</p><p>A Grupanálise está também por vezes associada a uma medicação</p><p>psicofarmacológica.</p><p>A motivação é também aqui um dos factores principais para</p><p>o sucesso do tratamento. Este consta de sessões de grupo de</p><p>aproximadamente 1h20, com a periodicidade de duas a três vezes</p><p>por semana. O grupo é constituído pelo grupanalista e o máximo de</p><p>oito grupanalisandos.</p><p>O grupanalista dá nome e signifi cado aos sentimentos que estão a ser</p><p>vividos pelos elementos do grupo, e relaciona o que se está a passar</p><p>com a história passada de cada um. Ele organiza um espaço para que</p><p>possam ser vividas novas e construtivas relações inter-pessoais com</p><p>os outros membros do grupo e com o próprio analista, possibilitando</p><p>que cada um possa vir a estabelecer melhores relações adaptativas</p><p>ao longo da sua vida.</p><p>A estas características do tratamento, acresce o facto de que</p><p>em Grupanálise</p><p>também vemos e somos vistos. A comunicação</p><p>desenrola-se, pois, a nível verbal e não verbal. A Grupanálise não</p><p>decorre num divã, com o terapeuta atrás e longe do olhar. Os</p><p>162</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>elementos do grupo e o grupanalista encontram-se sentados face</p><p>a face, em círculo. Para além de possibilitar que a linguagem verbal</p><p>e a não verbal seja facilmente apreendida, este setting imita com</p><p>maior fi delidade a relação precoce com a mãe (que se acredita ser</p><p>fundamental para o desenvolvimento da personalidade), em que o</p><p>olhar é essencial.</p><p>A Grupanálise proporciona de um modo especial este desiderato,</p><p>uma vez que sugere que a família é primordial para cada um. Ela</p><p>procura recriar o grupo familiar de base, e os seus prolongamentos</p><p>nos outros grupos pelos quais o indivíduo passa ao longo da vida:</p><p>escolar, social, cultural, recreativo, religioso, desportivo, profi ssional,</p><p>etc.</p><p>Isto, porque as emoções fi cam gravadas na nossa memória (explícita</p><p>e implícita), mesmo se são relegadas para estratos mais profundos</p><p>da vida mental. A Grupanálise permitiria, pois, uma visita integral ao</p><p>mundo interno de cada um, bem como uma reconstrução facilitadora</p><p>de uma existência mais adaptada aos diversos contextos grupais em</p><p>que o indivíduo se move.</p><p>O tempo de duração de uma Grupanálise é variável de acordo com</p><p>a patologia do cliente, a sua motivação, capacidade de mudança</p><p>interna, assim como o fi m a que se destina (caso da Grupanálise</p><p>didáctica). De qualquer modo, a Grupanálise é um processo</p><p>relativamente longo, uma vez que o que está em causa não é apenas</p><p>o desaparecimento dos sintomas, mas uma mudança profunda,</p><p>que abrange a capacidade de lidar melhor com os confl itos e de</p><p>estabelecer relações mais saudáveis com as outras pessoas.</p><p>163</p><p>José Martinho</p><p>A técnica grupanalítica pode ser adaptada a diversos grupos</p><p>homogéneos ou heterogéneos, com ou sem objectivos</p><p>psicoterapêuticos. É muito vasta a sua aplicação, desde os Grupos</p><p>Balint, grupos de Terapia Familiar de orientação analítica, grupos</p><p>de familiares, grupos de patologias específi cas (alcoólicos,</p><p>toxicodependentes, etc.), Psicodrama Psicanalítico, grupos de</p><p>adolescentes, grupos multifamiliares (familiares e pacientes), etc.</p><p>Tem também sido ensaiado, a nível experimental, uma técnica para</p><p>médios e grandes grupos.</p><p>Podem igualmente constituir-se grupos psicoterapêuticos nas</p><p>instituições hospitalares, em enfermaria de agudos, ambulatório, etc.</p><p>Fazem-se aí menos número de sessões, com níveis de interpretação</p><p>diferentes.</p><p>Mas o grupanalista está também vocacionado e pode ser</p><p>especialmente treinado para conduzir outros tipos de grupos,</p><p>como empresas, igrejas, escolas, exército, associações, ou grupos de</p><p>intervenção comunitária, de formação e ensino, etc.</p><p>3.5 PSICODRAMA</p><p>O Psicodrama foi inventado por Jacob Levy Moreno. Nascido numa</p><p>família judia de Bucareste, em 19 de Maio de 1892, Moreno faleceu</p><p>em 14 de Maio de 1974, com 85 anos, em Nova York. É costume</p><p>lembrar que pediu para que se inscrevesse na sua lápide o seguinte:</p><p>“Aqui jaz aquele que abriu as portas da psiquiatria à alegria”.</p><p>Moreno fez o seu curso de Medicina e a sua especialização em</p><p>164</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Psiquiatria em Viena, onde conheceu pessoalmente Freud. Em</p><p>1912, ainda em Viena, funda o Teatro da Espontaneidade, onde</p><p>cria o Psicodrama, em particular num trabalho levado a cabo com</p><p>prostitutas.</p><p>Depois de ter mudado o nome de “Teatro da Espontaneidade” para</p><p>“Teatro Terapêutico”, Moreno desenvolve o Psicodrama de Casal</p><p>e de Família. Simultaneamente, utiliza outras técnicas de grupo,</p><p>tais como a palestra, a discussão livre, a gravação de sessões num</p><p>magnetofone, a música, a dança e a ocupação laboral. O Psicodrama</p><p>propriamente dito consiste num jogo cénico improvisado, fazendo</p><p>ressurgir emoções e fantasias que, depois de trabalhadas, ajudam a</p><p>corrigir os comportamentos e a reorganizar a personalidade.</p><p>Tendo tido bastantes difi culdades em difundir as suas ideias na Europa,</p><p>Moreno deixa Viena, em 1925, e muda-se para os Estados Unidos da</p><p>América. É neste país que começa a promover o Psicodrama, através</p><p>de uma metodologia de investigação e de intervenção em grupos e</p><p>entre grupos. É também nos EUA que introduz o termo “Psicoterapia</p><p>de Grupo”.117</p><p>No Teatro da Espontaneidade em Viena, as pessoas vinham por</p><p>vezes ao palco dizer o que fariam se fossem Imperadores da Áustria.</p><p>Ninguém passou no teste, mas todos fi cavam a saber alguma coisa</p><p>sobre quem tinha falado. A esta informação sobre a pessoa, Moreno</p><p>acrescentou o facto da identifi cação dos espectadores com os actores</p><p>produzir uma catarse que ajuda à tomada de consciência; e que esta</p><p>117. MORENO, J. L. (1959). Fundamentos do Psicodrama. São Paulo: Summus. MORENO,</p><p>J. L. (2002). Psicodrama. São Paulo: Cultrix. MORENO, J. L. (2006). Psicodrama. São Paulo:</p><p>Cultrix MORENO, J. L. (1984). Teatro da Espontaneidade. São Paulo: Summus.</p><p>165</p><p>José Martinho</p><p>consciencialização favorece a espontaneidade e a criatividade, em</p><p>desfavor da repetição que não traz nada de novo.</p><p>Os conceitos de “espontaneidade” e de “criatividade” vão ser as</p><p>bases do Psicodrama moreniano; mas outros como os de “papel”</p><p>(identifi cação dramática, que vem do teatro, arte que Moreno</p><p>aplica ao Psicodrama), “tele” (capacidade de se perceber de forma</p><p>objectiva), “empatia” (tendência para sentir o que se sentiria caso</p><p>se estivesse na situação e circunstâncias experimentadas por uma</p><p>outra pessoa.), “co-inconsciente” (vivências, sentimentos, desejos</p><p>e até fantasias inconscientes comuns a duas ou mais pessoas) e</p><p>“matriz da identidade” (lugar e origem do verdadeiro nascimento)</p><p>vão igualmente ter a sua importância na rede dos conceitos.</p><p>A ideia directriz de Moreno é que o primeiro acto criativo da criança</p><p>realiza-se com o seu nascimento. Para ele, nascer não é um trauma,</p><p>como pretendia Rank, mas a primeira catarse de integração.</p><p>Em Moreno, a fi losofi a do que se é no momento opõe-se à da</p><p>duração. Esta fi losofi a confere maior importância ao presente que</p><p>está em constante mutação. Isto por que é sempre no “aqui e agora”</p><p>que o crescimento se faz.</p><p>O nascimento confi gura o destino porque a criança nasce com a</p><p>capacidade criadora própria ao ser humano; mas esta potencialidade</p><p>só se irá actualizando com o desenvolvimento e a ajuda dos outros.</p><p>O primeiro Ego-auxiliar da criança nesta tarefa é a sua própria mãe.</p><p>À medida que vai crescendo e vivendo diversos papéis em contacto</p><p>com os demais agentes sociais, o indivíduo desenvolve, ou atrofi a,</p><p>166</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>a sua espontaneidade criadora, de acordo com o tipo de relações</p><p>e tradições (a “conserva cultural”) que lhe são impostas pelos mais</p><p>velhos. Infelizmente, estes agentes sociais submetem-no muitas</p><p>vezes a condutas estereotipadas, rituais e vazias de signifi cado.</p><p>Na sua pormenorizada descrição da evolução da imagem do mundo</p><p>na criança, Moreno distingue ainda: 1) A matriz da identidade total:</p><p>é o primeiro universo, onde Tudo é Um. 2) A matriz da identidade</p><p>total diferenciada: é o segundo tempo do primeiro universo, onde as</p><p>diversas unidades (os Eu) se diferenciam. 3) A matriz do hiato entre a</p><p>fantasia (que Freud chamou “teatro privado”) e a realidade, onde se</p><p>começam a organizar dois mundos, o real e o fantasiado.</p><p>Na primeira etapa da vida, o funcionamento do indivíduo é</p><p>psicossomático. A segunda etapa é a da formação e reconhecimento</p><p>do Eu. A criança observa então o outro (mãe) como diferente dela; ela</p><p>vai integrando as diferentes partes do corpo numa unidade e, a partir</p><p>daí, distingue-se dos objectos.</p><p>É também nesta fase que surgem os “papéis. Estes designam o</p><p>conjunto das possibilidades de identifi cação do ser humano.</p><p>Enquanto psicodramáticos,</p><p>expressam as distintas fases e faces do</p><p>Eu, assim como a versatilidade das representações mentais. Os papéis</p><p>são o núcleo do desenvolvimento. À medida que a criança cresce</p><p>vai podendo ampliar o seu leque de papéis; alguns deles fi carão no</p><p>entanto inibidos, necessitando posteriormente de serem resgatados.</p><p>É uma das funções do Psicodrama.</p><p>A Psicoterapia de Grupo de Moreno trata os problemas psíquicos dos</p><p>167</p><p>José Martinho</p><p>indivíduos e das suas relações interpessoais. Cada um é aí agente</p><p>terapêutico, mas o grupo também o pode ser em relação a um outro</p><p>grupo.</p><p>O conceito de “contacto” ou de “encontro” entre indivíduos será</p><p>central, na medida em que o encontro vai além da empatia e da</p><p>transferência entre o Tu e o Eu. Ele vai além do “Tu és Tu” e do “Eu sou</p><p>Eu”. Forma o “Nós”.</p><p>A acção une-se à palavra no desdobramento completo do</p><p>Psicodrama. No palco, o indivíduo representa os seus confl itos e</p><p>temores, expectativas e dúvidas, explora as relações do passado</p><p>com o presente e o futuro. Trabalha-se com cinco elementos no</p><p>Psicodrama e Treino de Papéis: Palco, Protagonista, Director, Ego-</p><p>Auxiliar e Público.</p><p>A sessão psicodramática exige um espaço onde se desenvolva a acção,</p><p>um palco, um protagonista, o paciente que escolhe o assunto a ser</p><p>tratado e interpreta o papel principal; um Director, que é o terapeuta</p><p>que conduz a sessão; e um ou mais Egos-Auxiliares, que são outros</p><p>terapeutas ou participantes do grupo que ajudam o protagonista e</p><p>interpretam os papéis complementares previstos na dramatização;</p><p>por último, o público, assim como os demais participantes do grupo</p><p>que não actuam, mas que ajudam o protagonista, que manifesta</p><p>reacções e observações de forma espontânea e compartilhando os</p><p>seus sentimentos.</p><p>Existem três momentos com particular importância no</p><p>desenvolvimento do Psicodrama: o primeiro é o “aquecimento”,</p><p>tempo em que se prepara o clima do grupo; escolhe-se um tema</p><p>168</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>e um protagonista e tenta-se penetrar no mesmo com a maior</p><p>espontaneidade possível. O segundo momento é a “representação”</p><p>na cena dramática; ganham importância aqui os Eu-auxiliares, que</p><p>serão encarregados de encarnar as persona que o protagonista</p><p>escolheu, personagens reais ou fantasiosas, que retratam aspectos</p><p>internos e símbolos do mundo do paciente. O terceiro momento é o</p><p>“partilhar”, onde o grupo vai exercer a sua função terapêutica, através</p><p>da comunicação das vivências de tudo o que foi acontecendo e as</p><p>ressonâncias que produziu.</p><p>O director do Psicodrama instrumenta, em cada situação, as técnicas</p><p>que pareçam mais adequadas ao momento do drama, segundo</p><p>o tipo de vinculação que aí se expressa. À primeira etapa, a da</p><p>indiferenciação do Tu e do Eu, corresponde a técnica da dupla. À</p><p>segunda, a do reconhecimento do Eu, corresponde a técnica do</p><p>espelho. À terceira, a técnica da inversão de papéis.</p><p>Na técnica da dupla, um Eu-auxiliar desempenha o papel do</p><p>protagonista; ele complementa verbal e gestualmente aquilo que</p><p>entende e sente o protagonista, por este não o poder expressar</p><p>completamente. O Eu-auxiliar coloca-se aí ao lado do protagonista,</p><p>funcionando estes como a mãe e a criança da primeira etapa.</p><p>Na técnica do espelho, o protagonista sai do palco e é, então, o que o</p><p>público faz dele. O que se procura é que o paciente se reconheça em</p><p>determinada representação, assim como na sua infância reconheceu</p><p>a sua própria imagem no espelho. Aquilo que é procurado na técnica</p><p>da inversão de papéis é que as personagens sintam o que se passa no</p><p>mundo do paciente. É a técnica básica do Psicodrama.</p><p>169</p><p>José Martinho</p><p>Sendo a técnica do Psicodrama uma técnica grupal, são valorizados</p><p>nela aspectos como a interacção mútua, a confi ança, o vínculo, o</p><p>falar aos outros de si próprio. Tudo é signifi cativamente aumentado</p><p>à medida que a pessoa se liberta dos seus constrangimentos</p><p>emocionais e visões fantasistas, no sentido de uma maior capacidade</p><p>de auto-conhecimento, fortalecimento psicológico, autonomia e</p><p>tomada de consciência de si, do outro e do mundo.</p><p>O Psicodrama como Psicoterapia de Grupo é normalmente bem</p><p>aceite em idades em que a vida grupal é bastante importante,</p><p>como na adolescência. A união do grupo é causa e consequência</p><p>da possibilidade proporcionada aos membros de observarem o que</p><p>são as relações emocionais genuínas, para além das resistências</p><p>que frequentemente lhe estão associadas. Geralmente estabelece-</p><p>se uma profunda ligação afectiva entre todos os elementos do</p><p>grupo, baseada numa intimidade profunda, alicerce do crescimento.</p><p>Este vínculo estabelecido entre todos e cada um dos elementos</p><p>fundamentais, dá segurança e estabilidade ao funcionamento do</p><p>grupo ao longo do tempo.</p><p>Tendo a sua origem em Moreno, é óbvio que nem todo o Psicodrama</p><p>é de inspiração analítica: é o caso do Psicodrama praticado pelos</p><p>membros da Sociedade Portuguesa de Psicodrama.118</p><p>O Psicodrama Psicanalítico nasceu na França depois da Segunda</p><p>Guerra Mundial. Ele foi criado por alguns psicanalistas interessados</p><p>pela Terapia de Grupo que consideravam que a teoria moreniana era</p><p>pouco sólida comparada com a teoria psicanalítica, no sentido lato</p><p>118. Website da SPP: http://www.sociedadeportuguesapsicodrama.com/</p><p>170</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>e estrito (teoria da identifi cação, teoria da relação de objecto, etc.),</p><p>ainda que tivessem aspectos complementares.</p><p>No Psicodrama Psicanalítico, o paciente não se limita a falar,</p><p>rememorar e elaborar. Deve também agir. Não se trata de uma</p><p>passagem ao acto, mas de uma representação dramática, que pode</p><p>ser levada a cabo de três formas: no Psicodrama individual, em grupo</p><p>e de grupo.</p><p>São os psicanalistas franceses René Diatkine, Serge Lebovici e Evelyne</p><p>Kestemberg que fundam o Psicodrama Psicanalítico Individual.</p><p>1 - O Psicodrama Psicanalítico Individual</p><p>Faz-se com um só paciente e um grupo de terapeutas, que compreende</p><p>um Director, dois ajudantes (Egos-auxiliares) e actores que podem ir</p><p>no máximo até ao número de seis. A regra fundamental aqui é que</p><p>o paciente é livre de representar os papéis que entender. Tudo o</p><p>que vem à sua mente - uma recordação de infância, uma situação</p><p>presente, um sonho, etc - pode ser proposto para a representação.</p><p>E tudo pode ser representado: o medo, a raiva, a violência, a auto-</p><p>punição, etc.</p><p>Também aqui é o próprio paciente que se encarrega da escolha do</p><p>tema e das personagens que quer representar; é igualmente ele</p><p>que escolhe os actores para os diferentes papéis, os quais devem</p><p>estar sempre disponíveis para a acção. O mais importante é que o</p><p>paciente seja livre de inventar a história que quer ver representada,</p><p>e que todo o processo contribua para a compreensão interna e o</p><p>amadurecimento do paciente.</p><p>171</p><p>José Martinho</p><p>No dispositivo clássico, o Director nunca representa um papel; ele</p><p>limita-se a receber o paciente e a ajudá-lo a encenar as suas peças.</p><p>Tem também a função de suspender o desenrolar da acção dramática</p><p>num momento judicioso, interpretar e estabelecer ligações com</p><p>outras cenas ou elementos cénicos. O Director garante sobretudo</p><p>o enquadramento do Psicodrama, enuncia as suas regras e faz com</p><p>que estas se cumpram. A sua intervenção incide essencialmente</p><p>sobre a representação dos actores, de modo a revelar as resistências,</p><p>as repetições e as diversas relações transferênciais.</p><p>Existem transferências colaterais com todos os participantes, mas</p><p>a transferência principal é sempre com o Director do Psicodrama.</p><p>Este deve estar bastante atento à contratransferência e fazer com</p><p>que as suas intervenções sejam momentos fecundos da terapia,</p><p>que relancem a actividade associativa do paciente, que pode, então,</p><p>propor uma outra representação.</p><p>Assim, cada sessão pode compreender duas ou três. Cabe sempre ao</p><p>Director por fi m a cada série de</p><p>sessões.</p><p>São os actores que permitem desenvolver as fantasias das cenas</p><p>propostas pelo paciente. Eles emprestam o seu pré-consciente para</p><p>que o paciente consiga aceder ao fantasma inconsciente.</p><p>O objecto da fantasia do paciente fragmenta-se nos diferentes</p><p>papéis representados pelos actores. Mas estes servem também de</p><p>contentores da agressividade do paciente, permitindo que esta se</p><p>ligue à pulsão de vida através do amor de transferência.</p><p>Na representação, a acção é simulada e não real. Tudo se passa</p><p>“como se” fosse verdade, mesmo que não o seja. Nesta medida, o</p><p>172</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Psicodrama faz-se também na abstinência, não deixando lugar para</p><p>o acting out e a passagem ao acto.</p><p>2 - O Psicodrama Psicanalítico em Grupo</p><p>Como o Psicodrama Psicanalítico individual, o Psicodrama</p><p>Psicanalítico de Grupo comporta um Director e um conjunto de</p><p>terapeutas e de actores. A diferença é que existem vários pacientes</p><p>em vez de um só. Considera-se que o grupo óptimo de pacientes é</p><p>de quatro. Cada um propõe sucessivamente uma história para ser</p><p>representada.</p><p>Todas as cenas se centram num problema pessoal. O paciente</p><p>representa um ou vários aspectos desse problema, juntamente com</p><p>outros pacientes e terapeutas escolhidos por ele.</p><p>O Director interpreta a representação individual, mas a sua</p><p>interpretação tem sempre efeitos sobre os outros pacientes do grupo.</p><p>Fala-se de Psicodrama Psicanalítico Individual em Grupo porque os</p><p>problemas específi cos do grupo requerem aqui uma elaboração</p><p>particular.</p><p>3 - O Psicodrama Psicanalítico de Grupo</p><p>Este Psicodrama comporta em geral 4 ou 6 pacientes, terapeutas e</p><p>actores. Como nos precedentes, o Director não representa, ajuda</p><p>apenas a encenar, interpreta e efectua ligações.</p><p>Neste caso, os problemas individuais são sempre reportados à situação</p><p>do grupo. Supõe-se que a dinâmica psíquica de cada indivíduo está</p><p>inserida na dinâmica do grupo. Os objectivos terapêuticos passam,</p><p>173</p><p>José Martinho</p><p>pois, pela acção do grupo sobre o narcisismo, a relação a dois, a três</p><p>ou edipiana, etc.</p><p>Cabe ao Director evitar que a distribuição dos papéis se fi xe. É</p><p>também ele que favorece a coerência do grupo e promove um ideal</p><p>comum.</p><p>- Indicações</p><p>O Psicodrama Psicanalítico pode ser proposto à maioria dos</p><p>pacientes neuróticos, que não tenham um falso self. Ele ajuda a</p><p>identifi car problemas, a simbolizar o objecto e a estabelecer relações,</p><p>mediante um trabalho complexo de transformações, que passa pela</p><p>capacidade de rêverie e vai até à reorganização da personalidade</p><p>total.</p><p>O Psicodrama individual é mais aconselhável para pacientes adultos,</p><p>com boa verbalização e elaboração mental, e capacidade de projectar</p><p>sem se destruírem internamente.</p><p>No entanto, muitos adultos têm terror de terapias de grupo como o</p><p>Psicodrama. Estes guardam geralmente no seu interior uma grande</p><p>dose de agressividade que os inibe. Nestes casos são preferíveis</p><p>outras técnicas em que não haja necessidade de agir ou representar</p><p>em público.</p><p>Doentes graves, desligados do mundo, por exemplo em razão de</p><p>longas hospitalizações, podem também benefi ciar do Psicodrama</p><p>Psicanalítico, em particular porque o grupo os ajuda a sair do seu</p><p>isolamento.</p><p>O Psicodrama Psicanalítico de crianças é quase sempre individual,</p><p>174</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>para que a inveja, o ciúme e outras rivalidades não perturbem muito</p><p>o processo terapêutico de crescimento. Os adolescentes aderem</p><p>bem ao Psicodrama Psicanalítico de e em grupo, na medida em que</p><p>este lhes permite desenvolver melhor as suas tendências libidinais e</p><p>agressivas.</p><p>- Contra-indicações</p><p>O Psicodrama Psicanalítico é desaconselhado para quem tenha</p><p>grandes carências narcísicas, para pacientes psicóticos (paranóicos,</p><p>esquizofrénicos, etc.), bem como para os grandes perversos. Uma</p><p>fase aguda de delírio, por exemplo provocada pelo álcool ou a droga,</p><p>retira também ao Psicodrama Psicanalítico toda efi cácia terapêutica.</p><p>Vários psicanalistas interessados pela técnica do Psicodrama foram</p><p>sublinhando que o Psicodrama Psicanalítico incidia sobretudo</p><p>em quatro importantes temas: a dramatização dos confl itos, a</p><p>comunicação simbólica, o efeito catártico, e a importância do</p><p>jogo lúdico para o ser humano.119 Ao favorecer o encontro, a</p><p>espontaneidade, o jogo com símbolos e fi guras, a representação</p><p>dramática e o partilhar, o Psicodrama Psicanalítico liberta o falar,</p><p>o pensar e o sentir. O palco é o lugar simbólico e imaginário desta</p><p>libertação, onde o passado se vai revelando através dos elementos</p><p>cénicos do mundo interno dos pacientes, no aqui e agora em que se</p><p>constrói a memória do futuro.</p><p>119. ANZIEU, D. (1979). Le psychodrame analytique chez l’enfant et l’adolescent (2ª ed.).</p><p>Paris: Presses Universitaires de France. (Obra original em Francês 1956). ANZIEU, D., &</p><p>MARTIN, J. I. (1979). La dynamique des groupes restreints. Paris: Presses Universitaires de</p><p>France. (Obra original em Francês 1968). CHABERT, C. (202). Pourquoi le psychodrame</p><p>à l’adolescence ? Paris : Dunod ; DELACROIX, P. (1996). Le psychodrame psychanalytique</p><p>individuel. Paris : Payot ; KESTEMBERG, E ; JEAMMET, P. (1987).Le psychodrame</p><p>psychanalytique, Paris : Que sais-je?, PUF : WIDLÖCHER, D. (2003).Le psychodrame chez</p><p>l’enfant. Paris : PUF</p><p>175</p><p>José Martinho</p><p>Existe igualmente em França uma corrente do Psicodrama</p><p>Psicanalítico de inspiração “lacaniana” (Jean Guir e outros), que</p><p>afi rma que o palco, como a “outra cena” do inconsciente, é o lugar</p><p>vazio onde serão enunciados os signifi cantes novos do sujeito. O</p><p>Psicodrama Psicanalítico afasta-se por conseguinte aqui da “busca do</p><p>sentido” (do sofrimento, etc.), evitando, pela mesma razão, qualquer</p><p>“interpretação que proporcione o sentido ou a perda do sentido”.</p><p>O Psicodrama Psicanalítico foi introduzido em Portugal pelo médico</p><p>psiquiatra e psicanalista Carlos Amaral Dias, numa tentativa de</p><p>conjugar as obras de Wilfred Bion e de Alfredo Correia Soeiro.120</p><p>Este trabalho pioneiro é desenvolvido essencialmente hoje pela</p><p>Sociedade Psicanalítica de Psicodrama Psicanalítico de Grupo121,</p><p>presidida pela psiquiatra Luísa Branco Vicente.</p><p>120. BION, W. R. (1970). Experiências com grupos. Rio de Janeiro: Imago Editora. (Obra</p><p>original em Inglês 1961). CORREIA SOEIRO, Alfredo. (1991). Psicodrama e Psicoterapia.</p><p>Lisboa: Escher; CORREIA SOEIRO, Alfredo. (1994). 0 Instinto de Plateia. Lisboa:</p><p>Afrontamento.</p><p>121. É possível encontrar no Website da SPPPG uma bibliografi a relevante sobre o</p><p>Psicodrama: http://www.spppg.com/index.php?option=com_content&view=categor</p><p>y&layout=blog&id=4&Itemid=52</p><p>BIBLIOGRAFIAS</p><p>178</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>179</p><p>José Martinho</p><p>Bibliogra� a Básica de Psicoterapias Dinâmicas e de Suporte</p><p>ABREU, P. (2000). 0 Modelo do Psicodrama Moreniano. Lisboa: Quarteto.</p><p>AGUILAR, J. Oliva, M.V & Marzani, C. (2003). A entrevista psicanalítica. Coimbra:</p><p>Almedina.</p><p>AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION (2000). Diagnostic and Statistical</p><p>Manual of Mental Disorders (4th ed. Text Revision). Washington, DC: Author.</p><p>DSM-IV-TR. Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais.</p><p>Lisboa: Climepsi.</p><p>BALTES, P. B. (2000). Autobiographical refl ections: From developmental</p><p>methodology and lifespan psychology to gerontology. In J. E. 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Les mouvements de vie et de mort. Paris : Petite Bibliothèque</p><p>Payot.</p><p>MAY, R. (1975). O homem à procura de si mesmo. São Paulo: Imago.</p><p>MORENO, J. L. (1990). O psicodramaturgo (1889-1989). São Paulo: Casa do</p><p>Psicólogo.</p><p>OSÓRIO, Luiz Carlos. Grupos : teoria e prática : acessando a era da grupalidade.</p><p>Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.</p><p>PIPPER, W. E., Joyce, A. S., MCCALLUM, M., AZIM, H. F., OGRODNICZUK (2002).</p><p>Interpretive and supportive psychotherapies. Matching therapy and patient</p><p>personality. Washington, DC: American Psychological Association.</p><p>SOEIRO, Alfredo. (1994). 0 Instinto de Plateia. Lisboa: Afrontamento.</p><p>SOEIRO, Alfredo (1991). Psicodrama e Psicoterapia, Lisboa, Escher.</p><p>VASCO, A. B. (1994). Psicoterapeutas portugueses: características</p><p>demográfi cas, actividades profi ssionais, perspectivas teóricas e satisfação</p><p>com o treino e com a carreira” in Psicologia, 9, 403-426.</p><p>181</p><p>José Martinho</p><p>Bibliogra� a Básica Anexa</p><p>Afreudite, Revista de Psicanálise Pura e Aplicada:</p><p>http://revistas.ulusofona.pt/index.php/afreudite</p><p>AGUIAR, J., OLIVA, M.V; MARZANI, C. (2003), A entrevista psicanalítica.</p><p>Coimbra: Almedina</p><p>AMARAL DIAS, C. (1983), Espaço e relação terapêutica. Ed. Coimbra: Coimbra.</p><p>AMARAL DIAS, C., Sousa Monteiro, J. (1989), Eu já posso imaginar que faço.</p><p>Lisboa: Assírio & Alvim.</p><p>ANGERAMI, V.A. (2004), Vanguarda em psicoterapia fenomenológico-</p><p>existencial. São Paulo: Thomson.</p><p>BENENZON, R. O. (2002), Musicoterapia – De la teoría a la práctica. Barcelona:</p><p>Paidós.</p><p>BION,W.R. (1991), As transformações : A mudança do aprender para o crescer.</p><p>Rio de Janeiro: Imago</p><p>BION, W.R. (1962), Learning from experience. London: W. Heinemann.</p><p>BION, W.R. (1970). Atenção e Interpretação. Rio de Janeiro: Imago Editora Lda.</p><p>BLEICHMAR, N. M., & BLEICHMAR, C. L. (1992). A Psicanálise Depois de Freud –</p><p>Teoria e Clínica. Porto Alegre: Artes Médicas.</p><p>BLOCH, S. (1999). Uma introdução às psicoterapias. Lisboa: Climepsi Editores.</p><p>BROWN, D. E Pedder, J. (1997), Princípios e práticas das psicoterapias. Lisboa:</p><p>Climepsi</p><p>E PEDDER, J. (1997), Princípios e práticas das psicoterapias. Lisboa: Climepsi</p><p>CARDELLA, B, H, P. (2002), A construção do psicoterapeuta: uma abordagem</p><p>gestáltica. São Paulo: Summus editorial</p><p>CHILAND, C. e outros (1983), L´ entrétien clinique. Paris: P.U.F.</p><p>COIMBRA DE MATOS, A.(1985), «O silêncio na comunicação analítica», in</p><p>Revista Portuguesa de Psicanálise, nº1 Fev. 1985</p><p>182</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>COIMBRA DE MATOS, A. (1985), «A contra transferência como resistência do</p><p>analista e como material do processo analítico». In Revista Portuguesa de</p><p>Psicanálise, nº 2 Dezembro</p><p>COIMBRA DE MATOS, A. (2002), Psicanálise e Psicoterapia Psicanalítica. Lisboa:</p><p>Climepsi</p><p>CRAIG, R.J. (1989), Clinical al diagnostic interviewing. New York: Jason Aronson</p><p>Inc.</p><p>DECOBERT, S., SACCO, F. (1995), O desenho no trabalho psicanalítico com a</p><p>criança. Lisboa: Climepsi</p><p>FREUD, A. (1975). Le traitement psychanalytique des enfants: Paris : PUF.</p><p>FREUD, S. (1977). La technique psychanalytique: Paris. PUF.</p><p>FREUD, S. (1985). «Constructions dans l’analyse». Résultats, idées, problèmes,</p><p>v. II: Paris, PUF.</p><p>FREUD, S. (1985). «L’analyse avec fi n et l’analyse sans fi n». Résultats, idées,</p><p>problèmes, v. II: Paris, PUF.</p><p>DIAS, G.F. (1996), «Factores Comuns em Psicoterapia». In Antropoanálise, nº2,</p><p>pp, 12 – 19.</p><p>DRUDEN, W. (1996). 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Revista Portuguesa de Psicanálise [no prelo].</p><p>LEITÃO, L. G., & Machado, R. S. (2005). Psicoterapia de Grupo em Rapazes</p><p>Adolescentes com Alterações do Comportamento: uma experiência de três</p><p>anos. XII Jornadas de Pediatria: Livro de Textos e Resumos.</p><p>LEITÃO, L. G., (2004). Relações terapêuticas: Um estudo exploratório sobre</p><p>Equitação Psico-Educacional (EPE) e autismo. Análise Psicológica, 2 (XXII), 27-</p><p>46.</p><p>LEITÃO, L. G., (2003). Contratransferência: Uma revisão na literatura do</p><p>conceito. Análise Psicológica, 2 (XXI), 175-183.</p><p>LEITÃO, L. G., (2003). Psycho-Educational Riding (PER) and Autism: An</p><p>exploratory study. Scientifi c & Educational Journal of Therapeutic Riding, 9, 33-</p><p>64.</p><p>MARTINHO, J. (1977). A Minha Psicanálise: Lisboa: Fim-de-Século, Lisboa.</p><p>(1999). Ditos. Lisboa: Fim de Século.</p><p>(2003). Ditos II: Lisboa: Fim-de-Século.</p><p>(2005). Ditos III. Lisboa: Fim-de-Século.</p><p>MIJOLLA, A., & MIJOLLA-MELLOR, S. (2002). Psicanálise. Lisboa: Climepsi</p><p>Editores.</p><p>PEREIRINHA, Filipe. (2006). Psicanálise & Arredores: Lisboa: EU Lusófonas.</p><p>POPER, W. E., JOYCE, A.S., McCALLUM, M., AZIM, H.F., ORGRODNICZUK (2002).</p><p>Interpretative and supportive psychotherapies. Matching therapy and patient</p><p>personality. Washington, DC: American Psychological Association</p><p>ROGERS, C. (1970), Tornar-se pessoa. Lisboa: Moraes editores</p><p>ROGERS, C. (1979), Psicoterapia e consulta psicológica. Lisboa: Moraes</p><p>editores</p><p>ROGERS,C. (1976), Grupos de encontro. Lisboa: Moraes editores</p><p>TORRAS DE BEÀ, E. (1991), Entrevista e diagnóstico em psiquiatria e psicologia</p><p>infantil.</p><p>Lisboa: Fim de Século</p><p>184</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>VASCO, A.B. (1994), «Psicoterapeutas portugueses: características</p><p>demográfi cas, actividades profi ssionais, perspectivas teóricas e satisfação</p><p>com o treino e com na carreira». In Psicologia, (1994) IX, 3: 403-426</p><p>SHEPHERD, R., JOHNS, J., & ROBINSON, H. T. (1997). D.W. WINNICOTT –</p><p>Pensando sobre crianças. Porto Alegre: Artes Médicas.</p><p>THOMA, H., & KACHELE, H. (1989). Teoria y práctica del psicoanálisis (vol. I e II).</p><p>Barcelona: Editorial Herder.</p><p>WINICOTT, D.W. (1975), O brincar & a realidade. Rio de Janeiro: Imago Editora</p><p>WINICOTT, D.W. (1971). Therapeutic Consultations in Child Psychiatry. London:</p><p>The Hogarth Press.</p><p>ZIMMERMAN, D. E. (2004). Fundamentos Psicanalíticos. Porto Alegre: Artes</p><p>Médicas</p><p>Bibliogra� a freudiana</p><p>A obra de Freud, traduzida actualmente em 30 línguas, é composta por</p><p>24 livros, 123 artigos e 5000 cartas já encontradas. Existem duas edições</p><p>“completas”, os Gesammelte Schriften e as Gesammelte Werke (obra de</p><p>referência, publicada primeiramente em Londres e depois em Frankfurt).</p><p>A única edição crítica continua a ser a Standard Edition of the Complete</p><p>Psychological Works of Sigmund Freud, publicada por James Strachey. Roger</p><p>Dufresne recenseou ainda os 23 artigos que Freud escreveu entre 1877 e</p><p>1886, não integrados nas Obras, por serem considerados pré-analíticos.</p><p>Existe também uma Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas</p><p>Completas de Freud (24 vols., Imago, Rio de Janeiro, 1977).</p><p>185</p><p>José Martinho</p><p>Obras de Psicanálise e a� ns publicadas em Portugal</p><p>Traduções da obra de Sigmund Freud</p><p>FREUD, Sigmund. (1974). Psicopatologia da vida quotidiana. Lisboa: Estúdios</p><p>Cor.</p><p>FREUD, Sigmund. (1979). A interpretação das afasias. Lisboa: Edições 70.</p><p>FREUD, Sigmund. (1988-89). A interpretação dos sonhos, 3 vols. Lisboa:</p><p>Pensamento.</p><p>FREUD, Sigmund. (1989). Textos Essenciais da Psicanálise, o inconsciente, os</p><p>sonhos e a vida pulsional, vol. I. Mem Martins: Europa-América.</p><p>FREUD, Sigmund. (1989). Textos Essenciais da Psicanálise, a teoria da</p><p>sexualidade. Vol. II, Mem Martins: Europa-América.</p><p>FREUD, Sigmund. (1989). Textos Essenciais da Psicanálise, a estrutura da</p><p>personalidade psíquica e a psicopatologia, vol. III. Mem Martins: Europa-</p><p>América.</p><p>FREUD, Sigmund. (1990). Moisés e a religião monoteísta. Lisboa: Guimarães.</p><p>FREUD, Sigmund. (1990). Moisés e o monoteísmo. Lisboa: Relógio D’água.</p><p>FREUD, Sigmund. (1990). Psicopatologia da vida quotidiana. Lisboa: Relógio</p><p>D’água/Círculo de Leitores.</p><p>FREUD, Sigmund. (1990). Uma recordação de infância de Leonardo da Vinci.</p><p>Lisboa: Relógio D’água/ Círculo de Leitores.</p><p>FREUD, Sigmund. (1991), Esquecimento e Fantasma. Lisboa: Assírio & Alvim.</p><p>FREUD, Sigmund. (1995). Delírio e sonhos na Gradiva de Jensen. Lisboa:</p><p>Gradiva.</p><p>FREUD, Sigmund; EINSTEIN, Albert. (1997). Porquê a guerra? Lisboa: Edições</p><p>70.</p><p>186</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>FREUD, Sigmund. (1994). Textos Essenciais sobre Literatura, Arte e Psicanálise.</p><p>Mem Martins, Europa-América.</p><p>FREUD, Sigmund. (2004). Totem e tabu. Lisboa: Relógio D’água.</p><p>FREUD, Sigmund. (2005). Sobre o Ensino da Psicanálise na Universidade,</p><p>Afreudite, Revista Lusófona de Psicanálise Pura e Aplicada. Lisboa: Edições</p><p>Universitárias Lusófonas (http://afreudite.ulusofona.pt/).</p><p>FREUD, Sigmund. (2009). O Mal-estar na Civilização. Lisboa: Relógio d´Água.</p><p>FREUD, Sigmund. (2010). A interpretação dos Sonhos. Lisboa: Relógio d´Água.</p><p>Traduções da obra de Jacques Lacan</p><p>LACAN, Jacques. (1977) [com outros autores]. O sujeito, o corpo, e a letra:</p><p>ensaios de escrita psicanalítica. Lisboa: Arcádia.</p><p>LACAN, Jacques. (1981). A família. Lisboa: Assírio & Alvim.</p><p>LACAN, Jacques. (1986). Joyce o sintoma. Coimbra: Escher.</p><p>LACAN, Jacques. (1986). Os escritos técnicos de Freud: Seminário I (1953-54).</p><p>Lisboa: D. Quixote.</p><p>LACAN, Jacques- (1987). O mito individual do neurótico. Lisboa: Assírio &</p><p>Alvim.</p><p>LACAN, Jacques. (1989). Shakespeare, Duras, Wedekind, Joyce. Lisboa: Assírio</p><p>& Alvim.</p><p>LACAN, Jacques. (1993), «O estádio do espelho» in Assédio, nº 1. Oeiras: Celta.</p><p>187</p><p>José Martinho</p><p>Sobre a história da Psicanálise em Portugal</p><p>ALVIM, Francisco. (1979). Ensaio Sobre a Teoria da Sexualidade, Conferência</p><p>no I Congresso Português de Psiquiatria da Adolescência. Figueira da Foz,</p><p>8-11 de Novembro de 1979.</p><p>CID, J.M.Sobral (1924). A Vida Psíquica dos Esquizofrénicos, Pensar Autista e</p><p>Mentalidade Arcaica. Lisboa: Jornal da Sociedade de Ciências Médicas, 88,</p><p>180-236.</p><p>FERNANDES, Barahona. (1967). «Parecer Sobre o Reconhecimento Ofi cial</p><p>da Sociedade Portuguesa de Psicanálise». Lisboa: Ministério da Educação</p><p>Nacional.</p><p>FREUD, Sigmund. (1972). «Quatro Cartas a Abel de Castro». Análise Psicológica,</p><p>I: 7-12. Lisboa: ISPA.</p><p>FURTADO, Diogo. (1959). «Psicanálise e sua Situação entre Nós». Lisboa:</p><p>Jornal do Médico, XL: 293-302.</p><p>LARANJEIRA, Manuel. (1986). A Doença da Santidade, Prefácio de Maria Belo,</p><p>Lisboa: Editorial Labirinto.</p><p>LIMA, Sílvio. (2002). Obras Completas, dirigidas por José P. Ferreira da Silva,</p><p>Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2 vol.</p><p>LUZES, Pedro. (2002). Cem Anos de Psicanálise. Lisboa: ISPA, 2ª ed.</p><p>MARTINHO, José. (2001). A Psicanálise no Mundo e em Portugal. Freud & Co,</p><p>Coimbra: Almedina.</p><p>MARTINHO, José. (2003). Sobre a Recepção de Freud em Portugal. Metacrítica</p><p>n.º 3, Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas.</p><p>MONIZ, Egas. (1902). A Vida Sexual (Fisiologia e Patologia). Lisboa: Ática, 1.ª</p><p>ed.</p><p>MONIZ, Egas. (1915). As Bases da Psicanálise. Lisboa: A Medicina</p><p>Contemporânea, 33, 377-383.</p><p>MONIZ, Egas. (1921). O Confl ito Sexual. Lisboa: Portugal Médico, 3.ª série, n.º</p><p>9, pp. 395-401.</p><p>188</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>MONIZ, Egas. (1924). Júlio Diniz e a Sua Obra. Lisboa: Ática</p><p>PERRON, Roger. (1998). História da Psicanálise. Lisboa: RésEditora.</p><p>SEABRA-DINIS. (1945). Joaquim, Psicanálise. Lisboa: Edições Cosmos.</p><p>Bibliogra� a geral de obras de Psicanálise, Psiquiatria, Psicologia e</p><p>a� ns publicadas em Português</p><p>AAVV, Revista de Psicanálise. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Psicanálise.</p><p>AAVV. Assédio, Revista de Psicanálise e Cultura: Fascínios, nº 1 (1993), Oeiras:</p><p>Celta.</p><p>AAVV, Página ACF on-line (site da Antena do Campo Freudiano: acfportugal.</p><p>com</p><p>AAVV. Afreudite, Revista Lusófona de Psicanálise Pura e Aplicada. Lisboa:</p><p>Edições Universitárias Lusófonas (http://revistas.ulusofona.pt/index.php/</p><p>afreudite).</p><p>AAVV. Revista Lusófona das Ciências da Mente e do Comportamento,</p><p>Departamento de Psicologia da ULHT. Lisboa: Edições Universitárias</p><p>Lusófonas.</p><p>AAVV. Revista Portuguesa de Psicossomática. Lisboa: Sociedade Portuguesa</p><p>de Psicossomática.</p><p>AAVV. Revista Portuguesa de Grupanálise. Lisboa: Sociedade Portuguesa de</p><p>Grupoanálise.</p><p>AAVV. (2003). Revista Portuguesa de Filosofi a. Abril-Junho. Volume 59. Fasc. 2.</p><p>AAVV. (1970). Psicanálise e Sociedade. Lisboa: Perspectivas.</p><p>AAVV. (1978). Sexualidade e Poder. Lisboa: Edições 70.</p><p>AAVV. (1984). Psicanálise e Cinema. Lisboa: Relógio d’Água.</p><p>AAVV. (1992). Esquizofrenia, uma doença ou alguns modos de ser humano?</p><p>Lisboa: Caminho.</p><p>189</p><p>José Martinho</p><p>AAVV. (1996). Bion hoje. Lisboa: Fim de Século.</p><p>AAVV. Cem anos sobre o sonho: “A injecção dada a Irma” de Sigmund Freud.</p><p>Lisboa: Ed. Lusófonas, 1996.</p><p>AAVV. (1994). Inconsciente, Normal/Anormal, Enciclopédia Einaudi. Lisboa:</p><p>INCM, vol 23.</p><p>AAVV. (1999). Pensar a Escola sob os Olhares da Psicologia. Porto: Afrontamento.</p><p>AAVV. (2001). Prevenção das Toxicidependências. Lisboa: Climepsi.</p><p>AAVV. (2006). Sigmund Freud, 150 anos depois. Lisboa: Fenda.</p><p>ABRAHAM, Giorgio (2006). O Sonho do Século. Lisboa: Círculo</p><p>ABREU, Pio. (1982). O Modelo do Psicodrama Moreniano. Coimbra: Ed</p><p>Psiquiatria Clínica.</p><p>AFONSO, Pedro. (2002). Esquizofrenia. Lisboa: Climepsi.</p><p>AITCHISON, J. (2002). O Mamífero Articulado. Uma introdução à psicolinguística.</p><p>Lisboa: Instituto Piaget.</p><p>ALVES, José.</p><p>(1998). Ética e Psicanálise, a Coisa, o Desejo e a Lei (tese de</p><p>doutoramento da Universidade do Minho-Braga).</p><p>ALMEIDA, J.M. Caldas de. «Relação com a Pessoa ao Nível da Prevenção</p><p>Primária». Lisboa: Hospital Miguel Bombarda.</p><p>ANAUT, Marie. (S/D). A Resiliência. Ultrapassar os Traumatismos. Lisboa:</p><p>Climepsi.</p><p>ANDREASON, Nancy. (S/D). Admirável Cérebro Novo. Dominar a Doença</p><p>Mental na Era da do Genoma. Lisboa: Climepsi.</p><p>ANTUNES, Lobo. (1977). «Atitude grupanalítica em Consulta Externa com</p><p>Articulação Hospitalar» in Grupanálise, nº 2, Lisboa.</p><p>ANTUNES, Lobo; DIAS, M.I. Silva. (1974). «Loucura e Criação Artística: Angelo</p><p>de Lima, Poeta de Orfeu». Lisboa: Sociedade Portuguesa de Neurologia e</p><p>Psiquiatria.</p><p>ANTUNES, Lobo; SAMPAIO, Daniel. (1976). Alice no País das Maravilhas ou a</p><p>Esquizofrenia Esconjurada. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Neurologia e</p><p>Psiquiatria.</p><p>190</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>ALMEIDA, J.M. Caldas de. Matriz Sociocultural da Doença Mental, Lisboa:</p><p>Hospital Miguel Bombarda.</p><p>ANZIEU, Didier. (1990). A auto-análise de Freud e a descoberta da psicanálise.</p><p>Lisboa: Edições 70.</p><p>ARONSON, E. (2002). O Animal Social. Lisboa: Instituto Piaget.</p><p>ASSOUN, Paul-Laurent. (2000). Metapsicologia. Lisboa: Climepsi.</p><p>BALINT, Ednid; NORELL, J. (S/D). Seis Minutos para o Doente. Lisboa: Climepsi.</p><p>BARRACLOUGH, Jennifer; GILL, David. (S/D). Bases da Psiquiatria Moderna.</p><p>Lisboa: Climepsi.</p><p>BARROS, Luísa. (S/D). Psicologia Pediátrica. Lisboa: Climepsi.</p><p>BARROS, Luísa. (S/D). Perturbações da Eliminação na Infância e na Adolescência.</p><p>Lisboa: Climepsi.</p><p>BATEMAN, Anthony; BROWN, Dennis; PEDDER, Jonathan. (S/D). Princípios e</p><p>Prática das Psicoterapias. Lisboa: Climepsi.</p><p>BATEMAN, Anthony; HOLMES, J. (1998). Introdução à Psicanálise. Lisboa:</p><p>Climespsi.</p><p>BATESON, G, (1987). Natureza e Espírito. Lisboa: Dom Quixote.</p><p>BATESON, G. (1996). Metadiálogos. Lisboa: Gradiva.</p><p>BALINT, Michael. (2001). O Médico, o seu Doente e a Doença. Lisboa: Climepsi.</p><p>BÉGOIN, Jean. (2005). Do traumatismo do nascimento à emoção estética.</p><p>Lisboa: Fenda.</p><p>BELO, Maria. (1999). Preto e branco: De como os portugueses expressaram</p><p>a estrutura da sua cultura as modalidades do seu relacionamento com os</p><p>africanos, (tese de doutoramento apresentada na Faculdade de Ciências</p><p>Sociais e Humanas da Universidade Nova, Departamento de Estudos</p><p>Portugueses).</p><p>BENNET, Paul. (S/D). Introdução Clínica à Psicologia da Saúde. Lisboa: Climepsi.</p><p>BENNET, Paul; MURPHY, Simon. (1999). Psicologia e Promoção da Saúde.</p><p>Lisboa: Climepsi.</p><p>191</p><p>José Martinho</p><p>BÉNONY, H. (S/D). 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Por exemplo, porque é que tal sonho tem um</p><p>determinado sentido e não um outro?</p><p>O real de que se ocupa a Ciência ou que ela explica não tem o mínimo</p><p>sentido. Mas é precisamente o sentido que Freud encontra no real</p><p>que a Ciência exclui, nomeadamente no sintoma do sujeito.</p><p>O sentido deste sintoma é duplo ou tem a forma da signifi cação e da</p><p>satisfação. A partir deste dado da experiência, Freud conclui que não</p><p>é o cientista, nem o médico, mas o sintoma que deve ter a primeira e</p><p>a última palavra a dizer sobre a sua duplicidade.</p><p>Um dos problemas com que Freud se depara quando começa a</p><p>exercer a Medicina, é que ele não tem ao seu dispor nenhum saber</p><p>efectivo sobre a etiologia dos sintomas das doentes histéricas que</p><p>começavam a consultá-lo.</p><p>Apesar das leituras que fazia e das viagens que o levaram até Paris</p><p>(Charcot) e Nancy (Liebault, Bernheim), Freud é obrigado a constatar</p><p>que não existia Livro, nem Mestre em Medicina que soubesse</p><p>explicar cientifi camente a causa da histeria, ou que ensinasse uma</p><p>técnica para curar a doença, pelo menos para reduzir os seus efeitos</p><p>mais prejudiciais.</p><p>26</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Esta ausência de um corpo de doutrina constituído não desagradava</p><p>de todo a Freud, porque lhe dava a oportunidade de ler tudo o que</p><p>bem lhe apetecesse. Mas a sua liberdade começa a restringir-se a</p><p>partir do momento em que a impotência do saber científi co e médico</p><p>relativos ao sintoma histérico o obriga a ir colher o saber novo que</p><p>procurava na própria fala dos analisandos. É então que reconhece</p><p>e afi rma: "as palavras são o principal instrumento do tratamento</p><p>psíquico".</p><p>Joseph Breuer e Bertha Pappenheim (A Anna O. dos Estudos sobre</p><p>a Histeria) vão ser essenciais nesta viragem. É de Bertha que vem</p><p>a defi nição inaugural da Psicanálise como talking cure; mas é só</p><p>quando Freud consegue entender esta deixa e a das outras histéricas,</p><p>que se afasta decididamente do saber da Ciência e da Medicina e se</p><p>aproxima de quem carrega o sintoma como a sua sina.</p><p>Foi pela única via da fala dos analisandos que Freud descobriu os</p><p>“mecanismos” que governam a criação do sentido dos fenómenos</p><p>psíquicos, nomeadamente ao nível do processo primário ou</p><p>inconsciente.</p><p>O substantivo “inconsciente” serviu-lhe à partida para designar uma</p><p>hipótese de trabalho que devia ser testada na sessão analítica. Como</p><p>esta hipótese se mostrou fecunda, Freud acabou por dizer que ela</p><p>não era só “necessária”, mas também “legítima”. A partir daqui pôde</p><p>trabalhar em intensão e extensão o “Inconsciente” como um conceito</p><p>fundamental da Psicanálise.</p><p>O que encontra Freud graças à sua hipótese do inconsciente?</p><p>27</p><p>José Martinho</p><p>“Pensamentos”, diz. Na verdade, o que ele faz é escutar os analisandos,</p><p>e são os lapsos que estes cometem que revelam os pensamentos de</p><p>que não tinham consciência ou que eram deformados por esta. Como</p><p>se formam tais pensamentos? Freud mostra que é pela “censura” que</p><p>a palavra (dos pais, professores, etc.) exerce sobre a representação</p><p>e afectos dos indivíduos da espécie desde a mais pequena infância.</p><p>Freud verifi ca, ainda que existe uma estreita relação entre a</p><p>signifi cação destes pensamentos inconscientes e a satisfação que é o</p><p>alvo daquilo que chama a “Pulsão” (Trieb), e não o “Instinto” (Instinkt).</p><p>O que é a pulsão sexual que se vai impor a Freud durante o tratamento</p><p>da histeria? A sua formação científi ca e médica leva-o a conceber a</p><p>libido como a “energia” da matéria viva que passa pelo metabolismo</p><p>das glândulas sexuais e é investida na reprodução biológica. Mas</p><p>aquilo que lhe contam as histéricas (cenas de sedução) e mais tarde</p><p>todos os outros pacientes, prova que esta energia não é unicamente</p><p>canalizada para a satisfação da necessidade reprodutora da espécie,</p><p>que ela é transformada por toda a maquinaria que leva o indivíduo à</p><p>procura mais ou menos fantasiada de uma Outra satisfação.15</p><p>O que acontece realmente é que a energia libidinal passa também</p><p>15. Imaginamos que existem “forças” por detrás de tudo o que se move na natureza.</p><p>Falamos de “matéria” e “energia”, mas o conceito físico de “energia” é o de uma</p><p>constante numérica num cálculo matemático (E=mc2). Filho do seu tempo, Freud</p><p>evoca também uma “energia” libidinal, mas o psicanalista, no seu consultório, não lida</p><p>com nenhuma força ou energia natural. Ele limita-se a escutar o que lhe dizem, e a</p><p>falar de vez em quando. O que Freud faz é chamar “quantidade de energia” à unidade</p><p>de medida que utiliza no seu cálculo da interpretação, de decifração do que move</p><p>(desejo inconsciente, reivindicação pulsional) o sujeito que fala, particularmente na</p><p>análise.</p><p>28</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>pelo “aparelho da linguagem”16 e o “aparelho psíquico”, e reparte</p><p>daí para o organismo, onde vai ter efeitos surpreendentes e até</p><p>contrários à homeostasia do vivente. São, pois, estes dois ecos da</p><p>palavra - na alma e no corpo - que vão ser decisivos para o modo</p><p>como a Psicanálise irá conceber e lidar com o sintoma.</p><p>O que é um sintoma no sentido psicanalítico do termo? Existem pelo</p><p>menos três defi nições deste sintoma na obra de Freud. A primeira é</p><p>contemporânea da invenção da Psicanálise. O sintoma é aí defi nido</p><p>como uma “formação de compromisso” entre o desejo inconsciente</p><p>e o recalcamento deste pela consciência. É a consciência que está</p><p>na origem da doença mental. O sintoma só se cristaliza depois; ele</p><p>forma-se a partir do que foi recalcado, e vem mostrar o deslocamento</p><p>do desejo inconsciente provocado pela censura. O problema é que o</p><p>Eu consciente do sujeito recusa reconhecer este desejo.</p><p>A segunda defi nição do sintoma encontra-se em Inibição, sintoma e</p><p>angústia. O sintoma é então defi nido como “o signo e o substituto da</p><p>satisfação pulsional que não ocorreu”.17</p><p>Estas duas defi nições articulam o desejo inconsciente com a pulsão</p><p>e o seu representante psíquico ou fantasma.18 É a segunda defi nição</p><p>16. Expressão que Freud usa num dos seus primeiros textos. Cf. FREUD, S. (1977). A</p><p>Interpretação das afasias. Lisboa: Edições 70.</p><p>17. J-A Miller escreve que, até ao fi m da análise, o sintoma passa por uma série de</p><p>reduções da satisfação fantasiada, que contribuem todas para a forma fi nal de saber</p><p>lidar com ele. (cf. MILLER, Jacques-Alain. (1998). O osso de uma análise. Biblioteca</p><p>Agente, Salvador).</p><p>18. Vários psicanalistas de língua portuguesa preferem traduzir o termo freudiano</p><p>Phantasie por “fantasia”, em vez de “fantasma”. Emprego neste livro os dois vocábulos</p><p>indiferentemente, o mais importante sendo que o leitor saiba que me refi ro sempre ao</p><p>conceito psicanalítico. A Phantasie freudiana é uma ponte entre o sujeito e o objecto</p><p>(outro ou mundo). Esta passagem encontra-se estruturada como uma frase do tipo</p><p>29</p><p>José Martinho</p><p>que nos informa defi nitivamente que a quarta dimensão, o sintoma</p><p>propriamente dito, possui uma signifi cação (Bedeutung) e é uma</p><p>satisfação (Befriedigung).</p><p>A terceira defi nição de Freud completa as anteriores. Ela afi rma que</p><p>o sintoma psíquico só existe enquanto analisável na neurose de</p><p>transferência. Esta última defi nição é sufi ciente para que não se tente</p><p>mais explicar o sintoma psicanalítico por nenhum factor orgânico ou</p><p>cultural. Em vez de</p><p>e Práticas, Porto:</p><p>Afrontamento.</p><p>GONÇALVES, Óscar. (1999). Introdução às Psicoterapias Comportamentais.</p><p>Coimbra: Quarteto.</p><p>GLASERSFELD, Ernst. (1996). Construtivismo Radical. Lisboa: Instituto Piaget.</p><p>GLEITMAN, Henry. (1993). Psicologia. Lisboa: Gulbenkian.</p><p>GOLSE, Bernard. (S/D). Do Corpo ao Pensamente. 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Lisboa: Relógio D’Água.</p><p>uma continuidade “bio-psico-social”, como se diz</p><p>agora, ele instaura uma descontinuidade.</p><p>Antes da análise, a relação do sujeito com aquilo que o faz sofrer</p><p>é geralmente má, por vezes mesmo dramática. Quando a análise</p><p>começa, esta relação fi ca melhor, porque o analisando supõe que o</p><p>analista sabe tratar dos seus sintomas.</p><p>Mas, no decorrer da análise, vão haver altos e baixos, pois o sujeito</p><p>não encontra exactamente aí o que esperava. É no fi nal que emerge</p><p>o sintoma que passou pela dissolução da relação do sujeito com</p><p>o analista. Quando o processo não entra num impasse, o sujeito</p><p>consegue modifi car a relação trágica que tinha de início com o seu</p><p>sintoma. Por vezes, a antiga tragédia revela-se mesmo como sendo</p><p>uma comédia.</p><p>“uma criança é batida” (cf. FREUD, S. (1991). “Uma criança é batida”. Esquecimento e</p><p>Fantasma. Lisboa: Assírio & Alvim). É a frase que fornece o guião que conduz, com mais</p><p>ou menos disfarces, à encenação mental do desejo recalcado. Apesar de inconsciente,</p><p>a Phantasie é também a matriz do voto consciente. Lacan mostrou, ainda, que</p><p>os diferentes elementos cénicos da Phantasie freudiana se articulam de forma</p><p>signifi cante, para um sujeito dividido, atravessado pelo objecto estruturalmente</p><p>perdido que causa o desejo inconsciente.</p><p>30</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>O que convém entender é que o sintoma psicanalítico não faz</p><p>parte da doença, mas da tentativa de cura. O sujeito só se queixa</p><p>do seu sintoma porque não quer saber que ele é uma mensagem</p><p>do inconsciente, que o convida a reconhecer o seu modo de</p><p>participação na doença; Por hábito o sujeito prefere não se inteirar</p><p>do que se passa, até mesmo fi car doente. Quando procura livrar-</p><p>se do seu sintoma, fá-lo geralmente de três maneiras: recorrendo</p><p>a substâncias como drogas naturais ou químicas; lançando a culpa</p><p>sobre os outros, isto é, condenando os pais, a sociedade, o destino,</p><p>deus ou o diabo pela sua má sorte; ou procurando um Mestre que o</p><p>salve da má sorte.</p><p>É só a partir do momento em que assume a inteira responsabilidade</p><p>do seu sintoma, que o sujeito percebe que a única solução que resta</p><p>é a sua habilidade para responder ao problema, mais ainda, é de</p><p>perceber que o sintoma é a sua sorte grande. É de facto uma sorte</p><p>ter sintomas, pois é o sintoma que singulariza e permite que o sujeito</p><p>se liberte da alienação ao Outro.19</p><p>1.2 De Freud aos nossos dias</p><p>Muitas águas correram depois de Freud.</p><p>Comecemos por dizer algumas palavras sobre o que se passa hoje</p><p>na Faculdade de Medicina (local tradicional da investigação e do</p><p>ensino) e no Hospital (lugar institucional e privilegiado da clínica).</p><p>19. Lacan pôs em relevo que não existe simetria, nem complementaridade sexual.</p><p>Como é realmente impossível fazer Um com o Outro (sexo), cada sujeito ama o seu</p><p>sintoma como si mesmo. Qualquer negociação com o alheio terá de ser, pois, inter-</p><p>sintomática.</p><p>31</p><p>José Martinho</p><p>O certo é que ambos se apoiam cada dia mais na Tecnociência. Ora,</p><p>o extraordinário avanço das ciências e das técnicas contemporâneas</p><p>fez não só com que o curriculum vitae médico tivesse radicalmente</p><p>de mudar, mas também com que toda uma rede multidisciplinar</p><p>de especialistas fosse substituindo o antigo médico de família e a</p><p>sua relação pessoal com o doente. O que se perdeu quase sempre</p><p>com a explicação e o tratamento tecnocientífi co da doença foi a</p><p>humanidade devida ao doente.</p><p>Apesar de haver hoje um conhecimento muito mais aprofundado das</p><p>causas das doenças, logo da sua prevenção e tratamento, a Medicina</p><p>Tecnocientífi ca distanciou-se imenso da antiga Arte Médica, que</p><p>repousava sobretudo na escuta e no cuidado a prestar ao doente.</p><p>O herói da série televisiva House – médico extremamente hábil a</p><p>diagnosticar as doenças, mas que foge dos doentes – é um excelente</p><p>exemplo do que acabo de afi rmar.</p><p>Aquilo que a Medicina perdeu foi parcialmente recuperado pela</p><p>Enfermagem e a Psicoterapia.</p><p>Deixo aqui de lado a Enfermagem, e passo a lembrar que a noção</p><p>de “Psicoterapia” aparece no fi nal do século XIX, com a crítica da</p><p>Introspecção e o progresso dos Métodos Científi co e Clínico.20 Ela</p><p>vai sobretudo desenvolver-se a partir dos anos 40 do século XX,</p><p>20. O método clínico dedica-se à colheita de dados precisos sobre todas as doenças</p><p>dos seres humanos, as afecções que limitam os poderes e a duração da vida. Tal</p><p>como o método científi co, o método clínico parte dos dados da observação que</p><p>sugerem hipóteses; em seguida, estas são examinadas à luz das novas observações,</p><p>algumas das quais feitas na prática clínica e outras em laboratório. O que na ciência</p><p>se denomina “teoria”, chama-se “diagnóstico diferencial” ou “operacional” em clínica.</p><p>O método clínico em Psicologia aplica esta mesma ideia directriz ao chamado “facto</p><p>psicológico”.</p><p>32</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>associada à Psicanálise. Cresce, então, uma nova ideia de escuta e</p><p>de cuidados terapêuticos que conduzirá à formação de “técnicos”</p><p>especialistas da “psique”, bem como à criação de serviços nos</p><p>Hospitais, Centros de Saúde e outras estruturas de acolhimento que</p><p>possam oferecer tratamentos aos doentes mentais, adultos, jovens</p><p>e crianças, e recebam os pedidos de aconselhamento e de apoio</p><p>psicológico que irão se multiplicando.21</p><p>A partir dos anos 1930, e em razão do já referido mal-entendido,</p><p>a Psiquiatria, a Psicologia e a Psicoterapia serão cada vez mais</p><p>infl uenciadas pela Psicanálise. Mas esta infl uência diminui nos anos</p><p>1950, com as Técnicas Cognitivo-Comportamentais, a descoberta</p><p>da Psicofarmacoterapia, e os avanços da Biologia e da Genética</p><p>Molecular; ela diminuirá ainda mais drasticamente nos anos 1970,</p><p>com os progressos da Neurobiologia da mente e a chegada massiva</p><p>ao mercado dos primeiros antidepressivos e ansiolíticos.22</p><p>Apesar deste dado sociológico, a Euro-Federação de Psicanálise</p><p>veio chamar recentemente (2010) a atenção para o facto de o acto</p><p>analítico não se enquadrar no que habitualmente se chama a “Saúde</p><p>Mental”, ainda que um certo número de psicanalistas trabalhe no</p><p>21. Actualmente, com o www, entrámos na era da Web e da Cyberpsicologia.</p><p>Podemos encontrar a “Webpsicologia” em todas as lojas de Psicologia e Psicoterapia</p><p>oferecidas pela Internet. A Ciberpsicologia consiste basicamente na introdução</p><p>das 3D nos cenários terapêuticos das Técnicas Cognitivo-Comportamentais, ainda</p><p>que a disciplina procure fundamentar as suas elaborações e intervenções na actual</p><p>Neurobiologia da mente.</p><p>22. O primeiro destes medicamentos, a Cloropromazina, foi inventado por Henri</p><p>Laborit no início dos anos 1950. Actualmente, as principais classes de psicofármacos</p><p>são: os neurolépticos (com efeitos anti-psicóticos); os anti-depressivos (para as</p><p>depressões, certas perturbações de pânico, agorafobia, fobias sociais, neurose</p><p>obsessiva, dor crónica, narcolepsia e impulsividade); e os tricíclicos ou Inibidores da</p><p>Mono-amino-oxidase; os ansiolíticos (para a ansiedade patológica).</p><p>33</p><p>José Martinho</p><p>sector.23 A Saúde Mental é um prodigioso esforço médico, político</p><p>e económico-fi nanceiro para fazer com que a “mente”24 - órgão ou</p><p>rede neural cuja estrutura e função têm vindo a ser explicadas pela</p><p>Neurobiologia – adapte rápida e convenientemente o indivíduo</p><p>da espécie ao meio em que evolui. Mas como qualquer coisa</p><p>descarrila sempre no projecto adaptativo, convém também defi nir</p><p>a Saúde Mental - como propôs J-A Miller nas III Jornadas do “Campo</p><p>Freudiano”, em Sevilha (1988) – na sua relação com a Ordem Pública.25</p><p>A Saúde Mental é efectivamente um Serviço ao serviço da Ordem</p><p>Pública. Mas o psicanalista preocupa-se sobretudo com o que</p><p>escapa aos interesses da sociedade e até da espécie; o que provoca o</p><p>irremediável mal-estar individual e colectivo.</p><p>Por este motivo, a Psicanálise dedica-se preferencialmente a organizar</p><p>um lugar onde cada um possa falar livremente</p><p>da sua maluquice.</p><p>Neste particular, ela segue o velho Humanismo de Erasmo, quando</p><p>faz o elogio da loucura como o próprio do Homem.</p><p>Lá onde a Saúde Mental procura padronizar o desejo com a fi nalidade</p><p>de colocar o indivíduo a passo com os ideais comuns, a Psicanálise</p><p>defende o direito de cada um “não ser como toda a gente”. Lá onde</p><p>a Saúde Mental possui ainda a velha marca da caritas, a Psicanálise</p><p>procura aliviar o sujeito da vontade do “Outro que lhe quer bem”.</p><p>23. Website da EFP: http://www.europsychoanalysis.eu/</p><p>24. Podíamos utilizar aqui os termos latinos mens, spiritu e anima, para distinguir o</p><p>objecto da Neurobiologia, da Espiritualidade e da Alma da Religião.</p><p>25. MILLER, J-A: (1997). “Santé mentale et ordre publique”. Mental 3. Bruxelles : École</p><p>Européenne de Psychanalyse.</p><p>34</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>Ainda há pouco tempo, o confronto entre as disciplinas implicadas</p><p>na Saúde Mental era uma fonte de debate permanente e rigoroso,</p><p>alicerçado em dados claramente defi nidos. Os protagonistas</p><p>deste debate não descansavam enquanto não refi navam as suas</p><p>observações clínicas e fundamentavam os seus argumentos</p><p>científi cos. Este debate está extinto hoje. Os Estados fi zeram da</p><p>Saúde Mental um negócio, e a coordenação política e económica do</p><p>mesmo veio para o primeiro plano.</p><p>Os Manuais de Diagnóstico mais utilizados pelos clínicos pretendem</p><p>agora ser a-teóricos, apenas compatíveis com a norma estatística e a</p><p>opinião pública. Por sua vez, muitas universidades procuram diluir os</p><p>sofrimentos psíquicos na imprecisão do vocábulo “bio-psico-social”.</p><p>A defi nição de Saúde Mental pela OMS como “promoção do bem-</p><p>estar”, ou “prevenção das perturbações mentais”, vai estendendo a</p><p>sua acção a todos, sem distinção. Este consenso cria um nevoeiro</p><p>epistémico que coloca o real das práticas clínicas à distância da</p><p>Saúde Mental. Assim, a ideia de um transtorno mental objectivável e</p><p>curável rejeita toda e qualquer abordagem do sintoma que conjugue</p><p>o gozo singular do sujeito com a sua verdade.</p><p>A actual ideia de “bem-estar” é uma redução das virtudes outrora</p><p>defendidas pelo Higienismo. Por sua vez, a avaliação baseada</p><p>em Questionários parasita hoje todo e qualquer encontro clínico</p><p>transportado pela palavra e a transferência. A Nosografi a psiquiátrica</p><p>transformou-se num continuum que apaga as diferenças entre os</p><p>sofrimentos psíquicos agudos e o sofrimento inerente à condição</p><p>humana.</p><p>35</p><p>José Martinho</p><p>Enquanto isto, o mercado dos psicotrópicos aproveita-se da</p><p>globalização do campo de aplicação da Saúde Mental, transformada</p><p>num Ideal a atingir. Ao não querer reconhecer mais o sujeito do</p><p>inconsciente, as terapias cognitivo-comportamentais tentam impor</p><p>o seu negócio em nome de uma experiência empiricamente validade</p><p>e uma testada efi cácia terapêutica.</p><p>Encontramo-nos, pois, face a uma doutrina que pretende que todos</p><p>temos perturbações mentais e que ninguém tem um inconsciente.</p><p>São muitos os clínicos que na Europa e resto do mundo resistem a</p><p>este movimento de diluição da singularidade, fazendo questão de</p><p>manter a sua orientação psicanalítica. Todas as medidas são desde</p><p>logo boas para os submeter à liquidez epistémica e ética que se</p><p>instalou: o apelo ao legislador e aos tribunais, aos estudos “científi cos”</p><p>que desacreditam as suas formações e práticas, e mesmo, se isto não</p><p>for sufi ciente, a calúnia. Os psicanalistas não reivindicam nenhum</p><p>consenso a este respeito, mas um verdadeiro debate. Daí que alguns</p><p>perguntem: o que quer dizer hoje “Saúde Mental”? Mais ainda: “será</p><p>que existe?”. 26</p><p>Neste quadro geral, a Psicanálise tem vindo a ser cada vez menos</p><p>atacada pela atenção que presta à realidade sexual do inconsciente,</p><p>e cada vez mais por não ser uma ciência e possuir pouca ou</p><p>nenhuma efi cácia terapêutica. E, no entanto, não se pode dizer que</p><p>estas críticas sejam ajustadas, na medida em que o psicanalista não</p><p>se propõe conhecer objectivamente o sujeito que lhe fala, nem visa</p><p>26. CAROZ, Gilles. (2010). Does Mental Health exist? Website EFP:</p><p>http://www.europsychoanalysis.eu/site/page/en/6/en/does_mental_health_</p><p>exist_#article-box-52.</p><p>36</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>a sua cura defi nitiva. Para simplifi car, digamos que o psicanalista se</p><p>dedica preferencialmente ao intratável e incurável do falante. Por</p><p>exemplo, tal psicólogo comportamental faz valer publicamente a</p><p>efi cácia da sua psicoterapia empiricamente validade, mas continua a</p><p>ter estados de alma omnipotentes, uma permanente irritação e uma</p><p>profunda raiva dos outros.</p><p>Esclareçamos um pouco melhor este delicado assunto. A Psicanálise</p><p>considera que o sintoma faz parte da condição humana. Para</p><p>entender isso, basta lembrar que não existem homens nem mulheres</p><p>sem sintomas. A harmonia, o equilíbrio organístico, numa palavra, a</p><p>homeostasia para a qual tendem os fenómenos vitais é apenas um</p><p>estado ideal continuamente perturbado.</p><p>Neste particular, a Psicanálise chega a uma antiga constatação, a</p><p>saber, que a linguagem é constituinte da condição humana. A ordem</p><p>simbólica que é própria ao mundo que a linguagem organiza fala</p><p>sempre pela boca daqueles a quem incumbe a função de procriar e</p><p>o cargo de criar a prole.</p><p>O humano só o é precisamente na medida em que o indivíduo da</p><p>espécie se identifi ca ao nível da estrutura da linguagem e se sujeita</p><p>a esta. Por sua vez, o infans só se reconhece como ser humano,</p><p>tendo uma família e existindo em sociedade quando reconhece esta</p><p>estrutura de determinações. Caber-lhe-á, ainda, advir como sujeito</p><p>de uma enunciação singular, independente de qualquer enunciado</p><p>fi xo. É um facto que a palavra parasita, penetra precocemente no</p><p>animal humano; e que é do buraco que faz na suposta natureza que</p><p>surgem, irremediavelmente, sintoma e cultura.</p><p>37</p><p>José Martinho</p><p>Uma das principias consequências deste recorrente trauma é que</p><p>deixa de haver complementaridade sexual entre os géneros da</p><p>espécie.</p><p>Outra consequência é a emergência, no sujeito da fala, de um desejo</p><p>radical, que inclui a falta que a linguagem introduz no real.</p><p>Esta falta - que vai tomar uma signifi cação fálica no interior do</p><p>complexo das representações familiares (Édipo), e articular-se à lei da</p><p>proibição do incesto - condena o desejo à impotência e à insatisfação.</p><p>Os sintomas tipo que melhor ilustram estas duas dimensões são o</p><p>obsessivo e o histérico.</p><p>Mas as formas do incurável não se esgotam na modalidade histérica</p><p>do desejo. Freud falou igualmente do desamparo (Hilfl losigkeit)</p><p>do ser humano, da sua radical dependência (Abhängigkeit), da</p><p>angústia da perda do amor (Angst der Liebesverlust), bem como</p><p>da sua irremediável relação com o tempo e a morte. Acrescentou</p><p>a esta lista mais alguns itens, como o “nervosismo geral” (Gemeine</p><p>Nervosität) que resulta das diversas pressões que se exercem sobre</p><p>o indivíduo vivo, o qual corresponde aproximadamente ao que se</p><p>chama hoje o stress.27 Como a série destas condições da formação</p><p>do sintoma permanece ao longo da existência, Freud afi rma que a</p><p>normalidade humana é a neurose, mesmo se esta pode ser melhor</p><p>ou pior vivida. Existem também psicóticos e sujeitos com traços</p><p>psíquicos perversos, mas em número mais reduzido. Porém, vários</p><p>psicanalistas têm vindo a constatar que há cada vez mais psicóticos,</p><p>27. Cf. MARTINHO, José. (2005). «Stress e Depressão». Afreudite Vol. 1, No 1 (2005)</p><p>Novos Desafi os da Psicanálise: on-line: http://afreudite.ulusofona.pt/</p><p>38</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>não no sentido extraordinário, mas ordinário. Esta “psicose ordinária”,</p><p>vulgar, comum, banal, compensada ou não desencadeada é mesmo</p><p>o wallpaper da mente contemporânea.28</p><p>Porque é que isto acontece? Talvez porque a sociedade tradicional se</p><p>fundava no poder atribuído ao Nome do pai. Bastava neste caso que</p><p>o</p><p>indivíduo amasse ou se identifi casse com o pai da autoridade familiar</p><p>para poder constituir uma nova família, adaptar-se à sociedade e</p><p>manter a estabilidade destas. Mas uma tal adaptação ao meio tornou-</p><p>se anacrónica e até impossível num mundo em constante mudança</p><p>como o de hoje, de revolução tecnológica permanente, onde nada</p><p>dura ou se aguenta de pé mais do que uma estação. Na medida em</p><p>que a estrutura mudou, mudou também a função reguladora do</p><p>Nome do pai, que estava na base da normalidade neurótica. O que</p><p>aparece desde logo e cada vez mais na sociedade contemporânea</p><p>é a psicose comum, e a função do sintoma que procura corrigir a</p><p>carência paterna no lugar onde esta se produziu.</p><p>Isto não impede que a Psicanálise continue a ser procurada pelos</p><p>efeitos terapêuticos que pode ter sobre a neurose, a psicose e a</p><p>perversão. No entanto, Freud avisou os interessados que estes efeitos</p><p>apenas chegam por acréscimo. Se a Psicanálise não é propriamente</p><p>uma Psicoterapia, então para que serve? Não serve para mais nada</p><p>do que para substituir as tradicionais indicações e contra-indicações</p><p>médicas pela “busca da verdade” e a “realização do desejo”.</p><p>Muitos psiquiatras, psicólogos e até psicanalistas seguidores do</p><p>28. MILLER, Jacques.-Alain. (2009). “Eff et retour sur la psychose ordinaire”. Quarto –</p><p>Retour sur la psychose ordinaire, (94/95). Bruxelles: École de la Cause freudienne.</p><p>39</p><p>José Martinho</p><p>Modelo Médico continuam a desaconselhar a psicanálise para</p><p>psicopatologias graves como as psicoses. Mas há mesmo quem a</p><p>contra-indique para casos aparentemente banais, como mulheres</p><p>com mais de trinta anos.</p><p>O que todas estas contra-indicações teimam a desconhecer é que a</p><p>Psicanálise não faz mal a ninguém. Ela é simplesmente um convite</p><p>feito a cada um para ousar realizar o desejo para além da busca</p><p>verdade. O que acontece é que este convite implica uma certa</p><p>coragem, já que é um desafi o a si mesmo, ao conforto próprio.</p><p>O verdadeiro fi m da Psicanálise permanece no entanto o didáctico.</p><p>Isto, porque a análise didáctica que o analista deve efectuar antes de</p><p>praticar a análise continua a ser a condição sine qua non para que não</p><p>confunda os seus problemas com os dos seus analisandos.</p><p>Cada fi nal de análise permite igualmente incorporar o valor ético que</p><p>possui o sintoma analisado. É com esta mais-valia que cada analisado</p><p>repartirá, então, para a existência, quer seja para constituir família,</p><p>trabalhar, dedicar-se a uma causa, ou para psicanalisar.</p><p>O sintoma que deve ser primeiramente analisado é sempre o</p><p>daquele que virá um dia a exercer a psicanálise. Como Freud não</p><p>tinha analista, nunca pôde analisar como o entendemos hoje.</p><p>A Psicanálise começou com o mau encontro de Freud com o seu</p><p>sintoma. Em seguida, ao procurar tornar pública a sua “auto-análise”,</p><p>ele tentou que esta fosse vista como a análise originária, mas</p><p>apenas conseguiu que a obra incluísse também uma dissecação da</p><p>40</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>personalidade psíquica do autor.</p><p>Muitas águas tiveram, pois, de passar sob a ponte até que a invenção</p><p>freudiana conseguisse produzir realmente um analista, capaz de</p><p>fazer valer a ética do seu saber-fazer com o seu sintoma.</p><p>Que signifi ca este “seu”?</p><p>Sabemos que Freud assediou também outros sintomas que não</p><p>o seu, sintomas de mulheres e de homens histéricos, obsessivos,</p><p>fóbicos, etc. Chamou “típicos” a estes sintomas; e explicou que as</p><p>diferenças que apresentavam giravam todas em torno de um núcleo</p><p>comum: o “complexo de Édipo”.29</p><p>A tipologia freudiana diz sobretudo respeito à etiopatogenia</p><p>dos sintomas. Mas, para lá investigação científi ca sobre as causas</p><p>das doenças, Freud interessava-se pelos doentes, pelo sintoma</p><p>característico de cada um. Assim, «Homem dos Ratos», ou «Homem</p><p>dos Lobos» não são os nomes próprios dos pacientes, nem os dos</p><p>seus sintomas típicos, mas os dos sintomas que lhes são próprios.</p><p>É aquilo que o sujeito diz sobre a maneira como viveu o complexo</p><p>de Édipo e de castração que acaba por mostrar a tipicidade do</p><p>sintoma, em termos freudianos, a sua “escolha da neurose”. São ainda</p><p>29. O complexo de Édipo e tudo o que roda à sua volta, tal como o período “pré-</p><p>edipiano” referido já por Freud e depois enfatizado por Mélanie Klein e outros</p><p>psicanalistas. Todavia, alerta Lacan, «os tipos clínicos decorrem da estrutura, mas o</p><p>que decorre de uma mesma estrutura não tem forçosamente o mesmo sentido. É</p><p>por isso que só existe análise do particular. Os sujeitos de um tipo, portanto, não têm</p><p>utilidade para outros do mesmo tipo.» (LACAN, Jacques (2003). “Introdução à edição</p><p>alemã de um primeiro volume dos Escritos”. Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, p.</p><p>554)</p><p>41</p><p>José Martinho</p><p>os sintomas típicos que permitem fazer diagnósticos e prognósticos,</p><p>assim como elaborar uma Caracteriologia e uma Psicopatologia.30</p><p>Porém, a etiologia (clássica e moderna)31 dos sintomas típicos</p><p>difere radicalmente daquilo que apresentam os actuais Manuais</p><p>internacionais do sistema das perturbações mentais: a Classifi cação</p><p>Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial de Saúde,</p><p>10a revisão (CID 10 - 1993), e o Diagnostic and Statistical Manual of</p><p>Mental Disorders, 4a edição (DSM-IV - 2002).32</p><p>É sempre possível imaginar – como fez Otto Kernberg em Nova York33</p><p>30. Os sintomas típicos traduzem a doença tal como é extraída de uma série de casos.</p><p>Eles não concernem, pois, a singularidade do doente, mas a classe patológica e a “cura</p><p>tipo”.</p><p>31. Em 1915 temos: Neuroses Actuais: Neurastenia, Neurose de Angústia, Neuroses</p><p>Traumáticas.</p><p>Neuroses de Transferência: Histeria de Conversão, Histeria de Angústia ou Fobia,</p><p>Neurose Obsessiva</p><p>Psicoses: Paranóia, Demência Precoce, Parafrenia ou Esquizofrenia</p><p>Perversões: Sadismo, Masoquismo, Exibicionismo, Voyeurismo, Homossexualidades,</p><p>etc.</p><p>Em 1924: acrescenta-se a Neurose de Guerra no capítulo das Neuroses Actuais.</p><p>E, no capítulo da Psicose, a Mania e a Melancolia.</p><p>Actualmente fala-se de Fenómenos Psicossomáticos (Epistemosoma), Estados-limites</p><p>ou Borderline, Perturbações da Personalidade (incluindo as Psicopatias), Toxicomanias,</p><p>Alcoolismo, Anorexia e Bulimia, etc. Já referi também a Psicose Ordinária.</p><p>32. Este Manual “ateórico” recorre a critérios de inclusão, prevalência e incidência (faixa</p><p>etária, género; etc.). O seu modelo sindromático não utiliza o termo “neurose”, apenas o</p><p>de “psicose”. Tem uma abordagem multiaxial (avaliação em 5 eixos diferentes, cada eixo</p><p>remetendo para um tipo de informação: Eixo I: Perturbação clínica. Outras situações</p><p>que podem ser foco de atenção medica, como a perturbação depressiva com abuso</p><p>de álcool. Eixo II: Perturbação de Personalidade. Defi ciência Mental. Perturbação</p><p>dependente da personalidade. Eixo III: Estado físico geral (qualquer doença física que</p><p>a pessoa tenha). Diabetes; alergias; etc. Eixo IV: Problemas psicossociais e ambientais.</p><p>Pessoas em eminência de perder o emprego; divórcio; etc. Eixo V: avaliação geral do</p><p>funcionamento).</p><p>33. Para além do estabelecimento de um consenso entre os Manuais de Diagnóstico,</p><p>a Psiquiatria e a Psicanálise, Kernberg propôs um continuum entre Psicanálise,</p><p>Psicoterapias de Inspiração Analítica ou Dinâmicas e Psicoterapias de Suporte ou</p><p>42</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>– que se poderia chegar a um consenso entre a corrente psiquiátrica</p><p>e a psicanalítica. Se o antigo diagnóstico psiquiátrico passou a</p><p>dada altura a ser Fenomenológico (Jaspers), o actual é puramente</p><p>Estatístico. Ainda se pode notar esta diferença nas abordagens da</p><p>CID e do DSM.</p><p>Outro é o diagnóstico psicanalítico. A análise não inclui nenhuma</p><p>“síntese”, mesmo diagnóstica, fenomenológica e estatística. Ela</p><p>limita-se a dissecar a personalidade psíquica, com os seus sintomas</p><p>típicos e habituais mecanismos de defesa, para extrair fi nalmente</p><p>dela o que Freud chama o</p><p>“sintoma individual”.</p><p>O sintoma que caracteriza cada modo singular de ser e de estar não</p><p>leva a nenhum consenso prévio, mais que não seja porque só pode</p><p>ser identifi cado numa análise, único espaço de tempo onde cada caso</p><p>é realmente um caso. Uma vez dito isto, volto ao postulado freudiano</p><p>da talking cure, ou que “as palavras são o principal instrumento do</p><p>tratamento psíquico”.</p><p>É para facilitar a enunciação destas palavras por parte do analisando</p><p>que Freud postula, como “regra fundamental” (Grundregel) da análise,</p><p>a “associação livre”. Verbal – digo eu, após Elisabeth Von R ter pedido</p><p>a Freud que a deixasse falar sem pressão -, pois apenas se analisa o</p><p>que vem livremente à fala.34</p><p>Apoio (cf. KERNBERG, Otto, F. “Psychoanalysis, Psychoanalytic Psychotherapy and,</p><p>Supportive Psychotherapy: Contemporary Controversies”. International Journal</p><p>of Psycho-Analysis, 1999; v. 80 (6), p1075, 17p). O que se perde sempre com estas</p><p>continuidades são as diferenças estruturais.</p><p>34. Do lado do analista, o que vai corresponder à fala do analisando é o “silêncio”</p><p>próprio à “atenção livre fl utuante”, à escuta que navega ao sabor da associação verbal.</p><p>43</p><p>José Martinho</p><p>Acrescentarei ainda a esta formulação o que Éric Laurent designou,</p><p>em 2006, como os “Princípios Directores do Acto Analítico”35, que são</p><p>também os do Código Deontológico apresentado no VI Congresso</p><p>da Associação Mundial de Psicanálise (Buenos Aires, 21-25 de Abril</p><p>2008).</p><p>Primeiro princípio (a talking cure): A psicanálise é uma prática da</p><p>fala. Existem aí dois parceiros, o analista e o analisando, que se</p><p>reúnem no presente da mesma sessão analítica. O analisando fala</p><p>do que o trouxe à análise, do seu sintoma. Este está articulado com a</p><p>materialidade do inconsciente, com o facto de que as coisas ditas ao</p><p>sujeito lhe fi zeram mal; o sujeito fala também do impossível de dizer.</p><p>O analista pontua os dizeres do analisando, de modo a tecer o</p><p>conteúdo do seu inconsciente. Os poderes da linguagem e os efeitos</p><p>de verdade permitem o que se chama a interpretação, que é o poderio</p><p>mesmo do inconsciente. A interpretação faz-se tanto do lado do</p><p>analisando como do analista. No entanto, um e outro não têm a mesma</p><p>relação com o inconsciente, pois um já efectuou a experiência que o</p><p>outro ainda não teve. Segundo princípio (desidentifi cação): A sessão</p><p>psicanalítica é um lugar onde se vão desaparafusar as identifi cações</p><p>mais estáveis que fi xam o sujeito. O psicanalista permite que se tome</p><p>esta distância em relação aos hábitos, às normas, às regras a que o</p><p>analisando obedece fora da sessão. Ele autoriza o questionamento</p><p>radical dos fundamentos da identidade de cada um. Pode temperar</p><p>35. Les Principes directeurs de l’acte psychanalytique foram apresentados por Éric Laurent</p><p>em 16 de Julho 2006, na Assembleia Geral da AMP (V Congresso, Roma): http://www.</p><p>causefreudienne.net/index.php/ecole/textes-fondateurs/principes-directeurs-de-l-</p><p>acte-psychanalytique http://usuarios.lycos.es/acfportugal/Discurso%20de%20E.%20</p><p>Laurent,%20Presidente%20da%20AMP</p><p>44</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>a radicalidade deste questionamento tomando em consideração a</p><p>particularidade clínica do sujeito que a ele se dirige. Nada mais é tido</p><p>em conta. É isto que defi ne a particularidade do lugar do psicanalista:</p><p>aquele que suporta o questionamento, a abertura, o enigma do</p><p>sujeito que o procura. O analista não se identifi ca a nenhum dos</p><p>papéis que o seu interlocutor lhe atribui, nem a nenhum magistério</p><p>ou ideal civilizacional. O analista é aquele que não tem outro lugar a</p><p>não ser o do questionamento do desejo.</p><p>Terceiro princípio (objecto): O analisando endereça-se ao analista. Ele</p><p>atribui-lhe sentimentos, crenças, reage ao que este lhe diz, e quer agir</p><p>sobre isso, espera e antecipa. A decifração do sentido destas trocas</p><p>entre analisando e analista não é a única coisa que está em jogo. Há</p><p>também aquilo que é visado por quem fala. Trata-se para este de</p><p>recuperar qualquer coisa que perdeu junto do interlocutor. É esta</p><p>recuperação de um objecto que fornece a chave do mito freudiano da</p><p>pulsão. Ela funda a transferência que liga os dois parceiros. A fórmula</p><p>de Lacan segundo a qual o sujeito recebe do Outro a sua própria</p><p>mensagem invertida inclui tanto a decifração, como a vontade de</p><p>agir sobre aquele a quem se endereça. Em última instância, quando</p><p>o analisando fala, quer atingir o Outro das suas expectativas, crenças</p><p>e aspirações, para lá do sentido. Ele visa o parceiro do seu fantasma.</p><p>O psicanalista, esclarecido pela experiência do seu próprio fantasma,</p><p>tem isso em conta. Ele evita agir em nome deste.</p><p>Quarto princípio (não-relação): A relação transferêncial supõe</p><p>um lugar, o “lugar do Outro”, como disse Lacan, não ocupado,</p><p>nem regimentado por ninguém de particular. É o lugar onde o</p><p>inconsciente se pode manifestar na sua maior liberdade de dizer,</p><p>45</p><p>José Martinho</p><p>logo, de viver os logros e as difi culdades. É assim que as fi guras</p><p>do parceiro fantasmagórico podem se desenvolver nos jogos de</p><p>espelho mais complexos. Razão pela qual a sessão psicanalítica não</p><p>suporta um terceiro, com o seu olhar exterior ao processo. O terceiro</p><p>reduz-se ao lugar do Outro. Este princípio exclui a intervenção de</p><p>terceiros autoritários, querendo estabelecer o lugar de cada um e o</p><p>alvo do tratamento psicanalítico. O terceiro como avaliador inscreve-</p><p>se na série dos terceiros cuja autoridade se afi rma do exterior ao que</p><p>se joga entre o analisando, o analista e o inconsciente.</p><p>Quinto princípio (espaço): Não há tratamento standard, um protocolo</p><p>geral da sessão analítica. Freud serviu-se da metáfora do xadrez</p><p>para indicar que não existem regras de começo e de fi m de partida.</p><p>É verdade que, depois de Freud, certos algoritmos formalizaram o</p><p>xadrez e aumentaram a sua difi culdade. Associados à capacidade de</p><p>cálculo do computador, eles permitiram à máquina ganhar contra</p><p>um jogador humano. Mas isto não muda nada ao facto da psicanálise,</p><p>contrariamente ao xadrez, não poder se apresentar de forma</p><p>algorítmica. O próprio Freud transmitiu a psicanálise com a ajuda de</p><p>casos particulares: o Homem dos Ratos, Dora, o Pequeno Hans, etc. A</p><p>partir do Homem dos Lobos, o relato da cura entrou em crise. Freud</p><p>sentiu que não podia unir num relato a complexidade do processo</p><p>em causa. Longe de se reduzir a um protocolo técnico, a experiência</p><p>de uma análise apenas tem uma regularidade: a originalidade do</p><p>cenário através do qual se manifesta a singularidade subjectiva A</p><p>psicanálise não é, pois, uma técnica, mas um discurso que encoraja</p><p>cada um a produzir a sua singularidade, a sua excepção.</p><p>Sexto princípio (tempo): A duração da cura e o desenrolar das</p><p>46</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>sessões não podem ser estandardizados. Os tratamentos de Freud</p><p>tiveram durações muito variáveis. Houve de uma sessão, como a</p><p>psicanálise de Gustav Mahler. Houve também de quatro meses,</p><p>caso do Pequeno Hans, de um ano, como o Homem dos Ratos,</p><p>de vários anos, como com o Homem dos Lobos. Desde então que</p><p>esta diversidade não deixou de aumentar. Para mais, a aplicação da</p><p>psicanálise fora do consultório, ao nível das instituições da saúde,</p><p>contribuiu para a diversifi cação dos tratamentos. A variedade dos</p><p>casos clínicos e das idades da vida às quais a psicanálise foi aplicada</p><p>permitiu, ainda, considerar que a duração da cura deve ser defi nida</p><p>doravante em função do utente. Um tratamento será levado até ao</p><p>ponto em que o analisando se sinta sufi cientemente satisfeito com a</p><p>experiência e entenda deixar o analista. O que é visado deste modo</p><p>não é a aplicação de uma norma, mas um acordo do sujeito consigo</p><p>próprio.</p><p>Sétimo princípio (fi ns): A psicanálise não pode determinar o seu</p><p>objectivo e fi m em termos de adaptação da singularidade do sujeito</p><p>aos procedimentos, regras e regulamentos</p><p>da realidade. Antes de</p><p>mais, a descoberta da psicanálise é a da impotência do sujeito a</p><p>atingir uma satisfação sexual plena. Esta impotência foi designada</p><p>pelo termo “castração”. Para lá desta, a psicanálise formulou, com</p><p>Lacan, a impossibilidade da norma da relação entre os sexos. Se não</p><p>há satisfação completa, não há norma ; resta a cada um inventar uma</p><p>solução particular, apoiado no seu sintoma. A solução de cada um</p><p>pode ser mais ou menos típica, mais ou menos tradicional, seguidora</p><p>de regras comuns. Pode também, ao contrário, entrar em ruptura, ou</p><p>numa certa clandestinidade. No fundo, a relação entre os sexos não</p><p>tem solução que seja “para todos”. Neste sentido, fi ca marcada pelo</p><p>47</p><p>José Martinho</p><p>selo do incurável, da falta que haverá sempre. O sexo, no ser falante,</p><p>é não - todo (pas-tout).</p><p>Oitavo princípio (formação): A formação do psicanalista não pode</p><p>ser reduzida às normas da formação universitária e da avaliação do</p><p>conhecimento adquirido na experiência. Desde que se estabeleceu</p><p>como discurso, a formação analítica repousa num tripé: os</p><p>seminários teóricos (para universitários), o prosseguimento pelo</p><p>candidato a psicanalista de uma psicanálise levada até ao seu termo</p><p>(de onde decorrem efeitos de formação) e a transmissão pragmática</p><p>nas supervisões (conversas entre parceiros de uma prática). Freud</p><p>acreditou durante um certo tempo que era possível determinar</p><p>a identidade do psicanalista. Mas o êxito da psicanálise, a sua</p><p>internacionalização, as gerações que se sucederam desde há um</p><p>século mostrou que esta defi nição de identidade era uma ilusão. A</p><p>defi nição do psicanalista inclui a variação da identidade. Ela é esta</p><p>variação mesmo. A defi nição do psicanalista não é um ideal, ela</p><p>inclui a história da psicanálise, e do que se chamou “Psicanálise” em</p><p>contextos radicalmente distintos. A nomeação do psicanalista inclui</p><p>componentes contraditórios. Necessita uma formação académica,</p><p>universitária ou equivalente, com obtenção de graus. Necessita</p><p>uma experiência clínica que se transmita na sua particularidade</p><p>e sob o controlo de pares. Necessita a experiência radicalmente</p><p>singular de uma análise. Os níveis do geral, do particular e do</p><p>singular são heterogéneos. A história do movimento psicanalítico</p><p>é a das discordâncias e interpretações desta heterogeneidade. Ela</p><p>faz também parte da grande conversa da psicanálise sobre quem é</p><p>psicanalista. Este dizer efectua-se através de procedimentos próprios</p><p>às comunidades que são as instituições psicanalíticas. Neste sentido,</p><p>48</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>o psicanalista não está sozinho, depende, como o chiste, do Outro</p><p>que o reconhece. Este Outro não pode ser reduzido a um Outro</p><p>normativo, autoritário, regulamentar, estandardizado. O psicanalista</p><p>é aquele que afi rma ter obtido da experiência o que podia esperar,</p><p>logo, ter dado esse “passo” (passe), como disse Lacan. Ele testemunha,</p><p>assim, da sua ultrapassagem dos impasses. A interlocução pela qual</p><p>pretende obter um acordo sobre esta travessia faz-se através de</p><p>dispositivos institucionais. Mais profundamente, ela inscreve-se na</p><p>grande conversa da psicanálise sobre a civilização. O psicanalista</p><p>não é autista. Ele não pára de se endereçar ao interlocutor bem-</p><p>intencionado, à opinião esclarecida, para comover e envolver na</p><p>causa psicanalítica.</p><p>Expostos estes oito princípios, termino o primeiro capítulo deste</p><p>meu livro propondo ao leitor um pequeno esquema daquilo que se</p><p>passa numa análise:</p><p>49</p><p>José Martinho</p><p>POSTULADO</p><p>A palavra: a função da fala no campo da linguagem</p><p>REGRA</p><p>A associação livre (verbal): a dádiva da palavra</p><p>CONDIÇÕES</p><p>abstinência: só em palavras</p><p>tempo: é a pontuação da palavra que decide da signifi cação</p><p>dinheiro: o preço da palavra</p><p>OBJECTO</p><p>O que se analisa a partir do Princípio e da Regra da palavra:</p><p>material: resistências:</p><p>inconsciente: pulsão: repetição: transferência:</p><p>formações vicissitudes automatismo amor</p><p>MÉTODO</p><p>interpretação acto analítico</p><p>(re) construção do fantasma fundamental</p><p>FINS</p><p>análise terapêutica – análise do carácter – análise didáctica</p><p>O sujeito cessa de se identifi car O sujeito separa-se do objecto</p><p>com o Ideal que dominou irreal do seu fantasma</p><p>a sua história</p><p>O saber (inconsciente) aparece O desejo passa a ser</p><p>o lugar da verdade (delirante) causado pelo que resta de gozo</p><p>Admissão da não existência de completude sexual (castração)</p><p>Identifi cação do sintoma individual e saber-fazer com ele</p><p>FREUD AO PÉ DA LETRA:</p><p>PRINCÍPIO, MEIO E FINS DA PSICANÁLISE</p><p>53</p><p>José Martinho</p><p>2</p><p>Lendo Freud ao pé da letra, vou mostrar, neste segundo capítulo,</p><p>como o princípio da palavra envolve e dissolve o amor na</p><p>transferência; como é este mesmo princípio que permite efectuar as</p><p>operações da palavra sobre a palavra que são as interpretações, as</p><p>reconstruções e as construções na análise; mas também como é o</p><p>princípio da palavra, levado até às suas últimas consequências, que</p><p>determina o tempo e os objectivos de uma análise, em particular o</p><p>seu fi m didáctico.</p><p>2.1. AMOR EM ANÁLISE</p><p>“O amor sexual é indubitavelmente umas das mais importantes</p><p>coisas da vida, e a satisfação mental e física do seu gozo constitui</p><p>um dos seus pontos culminantes”</p><p>Freud</p><p>O artigo intitulado Observações sobre o amor transferêncial36 é</p><p>publicado por Freud em 1915, um ano após ter defi nitivamente</p><p>introduzido o Narcisismo na Psicanálise.</p><p>O amor “narcísico” é aquele que o Eu tem por si mesmo ou por uma</p><p>parte do seu corpo. Trata-se de uma das faces do amor, a outra sendo</p><p>a “anaclítica”, o amor por um outro não redutível a uma imagem de</p><p>si37:</p><p>36. FREUD, S. (2011). Observações sobre o amor transferêncial. Transferência,</p><p>construções e fi ns da psicanálise. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas.</p><p>37. Mesmo que não seja possível amar verdadeiramente um outro sem se amar a</p><p>si próprio, mesmo se o amor de si inclui a vontade de alargar os limites do Eu e de</p><p>54</p><p>Inspiração Psicanalítica: Freud e as psicoterapias dinâmicas e de suporte</p><p>⤤ narcísico (Eu)</p><p>Amor</p><p>⤥ anaclítico ( outro ou objecto)</p><p>A primeira frase das Observações sobre o amor transferêncial remete</p><p>o leitor para o “principiante em psicanálise”. Esta designação levanta</p><p>uma questão de facto e outra de direito, uma relativa à História da</p><p>Psicanálise e outra ao Princípio do seu acto. Deste último ponto de</p><p>vista, é preferível considerar que não há psicanalista inexperiente,</p><p>nem psicanalista experiente. O psicanalista é psicanalista ou não o</p><p>é. Ponto fi nal.</p><p>Ao nível dos factos, o “principiante em psicanálise” foi o próprio</p><p>Freud, ainda que possamos também pensar em Breuer e nos outros</p><p>médicos e intelectuais que começavam a praticar a análise nos</p><p>primeiros tempos.</p><p>Aquilo que se temeu à partida foram as difi culdades ligadas</p><p>à interpretação do material (recalcado); mas rapidamente se</p><p>apercebeu que o problema maior residia na análise das resistências,</p><p>em particular na interpretação da transferência.</p><p>É a regra fundamental – a associação livre – que fornece sempre</p><p>ao analista o material interpretável (relatos de sonhos, lapsos da</p><p>integrar o que é alheio até à anexação do Outro (“fusão” sentida no êxtase místico,</p><p>na paixão erótica, no orgasmo), situa-se habitualmente o amor pelo analista na</p><p>modalidade anaclítica do amor.</p><p>55</p><p>José Martinho</p><p>fala, etc.). Mas a atenção</p>