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<p>5</p><p>7</p><p>16</p><p>20</p><p>25</p><p>31</p><p>36</p><p>45</p><p>48</p><p>52</p><p>62</p><p>68</p><p>69</p><p>70</p><p>73</p><p>Índice</p><p>Tema 1 - O CVV e o Centro de Valorização da Vida</p><p>Tema 2 - A pessoa que procura o CVV</p><p>Tema 3 - O voluntário</p><p>Tema 4 - A Relação de Ajuda</p><p>Estágios Temáticos</p><p>Estágio 1</p><p>Estágio 2</p><p>Estágio 3</p><p>Estágio 4</p><p>Estágio 5</p><p>Estágio 6</p><p>Os Sete Princípios</p><p>As Sete Práticas</p><p>Administração</p><p>Regimento Interno do Programa de Apoio Emocional do CVV</p><p>6</p><p>7</p><p>TEMA 1 - O CVV</p><p>CENTRO DE VALORIZAÇÃO DA VIDA</p><p>1 - Características da nossa sociedade</p><p>As rápidas transformações que ocorrem continuamente na sociedade fazem com que os</p><p>princípios e valores tradicionais, tais como o casamento, a família, a religião, a amizade e a hones-</p><p>tidade, também sofram mudanças sucessivas.</p><p>Os relacionamentos entre as pessoas tornam-se, a cada dia, no mínimo mais complexos e ricos.</p><p>Os casais separados precisam dividir o tempo entre os filhos e os novos companheiros; os filhos,</p><p>entre os diversos pais; os religiosos disputam entre si a posse da “verdade”; os amigos desconfiam</p><p>de estarem sendo “passados para trás” ou de que lhes vão “puxar o tapete”, porque a esperteza</p><p>ainda tem mais valor do que a amizade.</p><p>O individualismo, ou a defesa dos interesses pessoais - recurso para a sobrevivência diante do</p><p>excesso de competição e da ausência de cooperação -, supera em importância o coletivismo ou a</p><p>preocupação pelo interesse comum. As consequências são conhecidas de todos: o distanciamen-</p><p>to entre as pessoas, a frieza e a insensibilidade.</p><p>Nossa época, no entanto, também apresenta características bastante positivas, que estimulam</p><p>a capacidade de realização de cada indivíduo. O desafio da comunicação verdadeira entre as</p><p>pessoas está muito mais presente. Estamos na era da comunicação de massa, através da TV, do</p><p>rádio, do jornal e da Internet.</p><p>Mesmo com tantos recursos, porém, para muitas pessoas a única forma que lhes resta de co-</p><p>municar os sentimentos é a violência contra os outros ou contra si mesmas.</p><p>2 - Causas sociais do surgimento dos trabalhos de ajuda</p><p>A própria sociedade, como um organismo vivo, desenvolve parte de sua energia e transforma</p><p>algumas dessas características e combate outras.</p><p>Diversos grupos têm se organizado com o objetivo de suprir as necessidades coletivas mais im-</p><p>portantes. São pessoas que se sensibilizam mais facilmente com os grandes problemas humanos</p><p>e tomam para si a tarefa de colaborar para amenizá-los. Delas surgiram diversos tipos de trabalhos</p><p>de ajuda, com consequências imediatas.</p><p>O simples fato de se saber que “algo está sendo feito” já produz sentimentos positivos no seio</p><p>da sociedade. As pessoas sentem-se mais seguras e confiantes, mesmo que não necessitem de</p><p>ajuda imediata.</p><p>3 - A prevenção do suicídio se faz com aceitação e compreensão</p><p>Nenhum ser humano pode dizer que “jamais pensará em suicídio”. A nossa condição interior</p><p>e a maneira como dimensionamos os problemas pode ser também passaporte para a dor e o</p><p>sofrimento, de onde a morte parece ser, por vezes, a única saída. “Prevenção do suicídio” é uma</p><p>expressão de força, de impacto, para a ação silenciosa dos voluntários. Ela nos faz recordar de</p><p>8</p><p>imagens de policiais e enfermeiros procurando impedir uma tentativa de suicídio. Mas, se a ex-</p><p>pressão for usada no sentido da Medicina Preventiva, como ação preventiva do suicídio, então</p><p>estará descrevendo um dos aspectos mais importantes do trabalho.</p><p>O médico vacina as pessoas, visando desenvolver-lhes resistência contra as doenças. Nós va-</p><p>cinamos pessoas por meio da aceitação e da compreensão, para que elas desenvolvam força e</p><p>confiança em si mesmas e, dessa forma, adquiram resistência contra a doença do desespero.</p><p>4 - Histórico</p><p>A partir do momento em que um ser humano colocou-se em disponibilidade para ouvir com</p><p>compaixão o desabafo das angústias de outro ser, pode-se dizer que começou o trabalho de pre-</p><p>venção do suicídio.</p><p>No início do século XX, despontaram diversos serviços de apoio emocional em situações de</p><p>crise, todos oferecidos por voluntários. Primeiro, nos Estados Unidos da América, e, depois, em</p><p>Londres, ambos no ano de 1906; posteriormente, em Viena, 1948, e em Berlim, 1956.</p><p>Entretanto, foi a partir da II Guerra Mundial que, na Europa e nos EUA, começaram a se formar</p><p>grupos, profissionais ou voluntários, com a estrita finalidade de prevenir o suicídio. Pessoas que se</p><p>colocaram disponíveis para ajudar aqueles que sofrem a ponto de desejarem dar fim à própria vida.</p><p>De todas as entidades que foram se formando, uma delas mais se projetou. Trata-se de os</p><p>Samaritans, fundada em 1953 pelo Reverendo Chad Varah, psicoterapeuta e pastor da Igreja An-</p><p>glicana. Embora ganhando estrutura naquela ocasião, os Samaritans começaram muito antes,</p><p>em 1936. Naquele ano, o jovem Varah, recém-formado pela Igreja Anglicana, fora designado para</p><p>proceder ao ofício fúnebre de uma jovem de 14 anos que se suicidara. Após fazer a encomendação</p><p>do corpo, voltou para casa e escreveu para um pequeno jornal de Londres, dizendo-se disponível,</p><p>em sua própria casa, para “ouvir seriamente pessoas falarem de assuntos sérios”. A partir daquele</p><p>momento, o Reverendo Varah não mais descansou. Já no dia seguinte à publicação do artigo dele,</p><p>recebia a visita de uma pessoa do Continente, isto é, de alguém que atravessara o Canal da Man-</p><p>cha somente para abrir-se com o homem que se propunha a ouvir.</p><p>Atualmente, os Samaritans contam com mais de 200 postos na prevenção do suicídio em toda</p><p>a Inglaterra e Irlanda, reunindo cerca de 20 mil voluntários. Deste grupo teve origem o Befrienders</p><p>Worldwide, organização que congrega voluntários de 36 países, onde cerca de 370 postos estão</p><p>em atividade.</p><p>5 - Redes de Prevenção do Suicídio</p><p>Os serviços de prevenção do suicídio constituem uma rede inserida em outras redes locais e</p><p>globais que oferecem múltiplas formas de suporte.</p><p>Podem ser classificados em três categorias, conforme suas características:</p><p>a) Humanitários: como “Samaritans”, da Inglaterra; “SOS Amitié”, da França; e o CVV, do Brasil.</p><p>Neste grupo, todos os trabalhadores são voluntários reunidos tão somente pelo desejo de servir,</p><p>não havendo entre eles discriminação de religião, cor, sexo, filiação política, etc. São entidades</p><p>não religiosas e apartidárias, de portas abertas para o atendimento gratuito a pessoa que procura</p><p>ajuda, sem discriminação de qualquer espécie;</p><p>b) Religiosos: como “Telefono Amico”, da Itália; a “Pastoral da Escuta” e o “Fala que eu te escu-</p><p>to”, aqui do Brasil. São mantidos e integrados pelos membros de uma ordem religiosa e também</p><p>são desenvolvidos</p><p>Ante uma situação, vivenciá-la plenamente é fazer uso da nossa capacidade de sentir, pensar e</p><p>agir. Diferimos uns dos outros porque utilizamos de forma diferente essas capacidades. A cultura</p><p>ocidental moderna valoriza acima de tudo a ação e os resultados imediatos. O que pode aumentar</p><p>a probabilidade de, quando nos defrontamos com uma situação, agirmos com o impulso de resol-</p><p>vê-la o quanto antes, frequentemente sem pensar a respeito ou senti-la intencionalmente.</p><p>4 - Respostas compreensivas e respostas defensivas</p><p>“Respostas compreensivas” são aquelas que refletem nossa compreensão da pessoa e das</p><p>vivências dela. Isto ocorre quando conseguimos nos colocar no lugar dela. Transcende o aspecto</p><p>verbal. Para além da comunicação verbal daquilo que compreendemos, refletem nossa atitude de</p><p>disposição em compartilhar com a Outra Pessoa os seus sentimentos e vivências.</p><p>Quando estamos defensivos, as respostas estão voltadas para o INDIVÍDUO e o PROBLEMA no</p><p>Triângulo das Bermudas, emergem as “Respostas defensivas” na forma de conselhos, julgamen-</p><p>tos, orientações, simples curiosidade, apoio superficial, etc. São decorrentes do nosso receio de</p><p>compartilhar verdadeiramente com a Outra Pessoa o sofrimento dela.</p><p>Há um tipo aceitável de resposta defensiva: quando é necessário esclarecer a extensão e limites</p><p>do apoio que podemos oferecer no CVV, conforme estabelecem nossos Princípios e Práticas.</p><p>SENTIMENTOS</p><p>PENSAMENTOS AÇÕES</p><p>33</p><p>Semáforo</p><p>D</p><p>e</p><p>so</p><p>n</p><p>e</p><p>st</p><p>id</p><p>a</p><p>d</p><p>e</p><p>In</p><p>te</p><p>le</p><p>ct</p><p>ua</p><p>l -</p><p>D</p><p>ific</p><p>uldades Pessoais - Medos - Melindre</p><p>RC</p><p>RDE</p><p>P</p><p>reconceitos - Politicagem - Personalismo -</p><p>Poder</p><p>-</p><p>E</p><p>g</p><p>o</p><p>-</p><p>D</p><p>e</p><p>fe</p><p>s</p><p>a</p><p>s</p><p>-</p><p>V</p><p>a</p><p>id</p><p>a</p><p>d</p><p>e</p><p>Vivência</p><p>Emocional</p><p>da Pessoa</p><p>R</p><p>D</p><p>A</p><p>:</p><p>lim</p><p>ite</p><p>s,</p><p>n</p><p>or</p><p>mas, combinados. PPP...</p><p>... e Principios do tra</p><p>balh</p><p>o</p><p>d</p><p>o</p><p>C</p><p>V</p><p>V</p><p>RC: Resposta Compreensiva</p><p>RDA: Resposta Defensiva Aceitável</p><p>RDE: Resposta Defensiva a ser Evitada</p><p>34</p><p>5 - Vida plena</p><p>Viver plenamente é aprender a vivenciar as três fases do ciclo da vida com fluidez, isto é, sentin-</p><p>do, pensando e agindo com atenção e estando presente. Nestes momentos, percebemos o outro</p><p>e a nós mesmos. Conseguimos no estado de presença, dividir nossa atenção olhando os dois fo-</p><p>cos ao mesmo tempo - “o outro e a nós” - com integridade. É quando “caem as fichas”. Não é um</p><p>estado fixo ou congelado, e, sim, um processo, um encontro com nosso interior. Assim, podemos</p><p>identificar os estados defensivos ou os confiantes, parcialmente ou em sua totalidade, quanto mais</p><p>nos abrirmos para a vivência da experiência em plena experiência.</p><p>Nossas defesas nos afastam da vida e das pessoas, dificultando toda a relação. Nossos esta-</p><p>dos de confiança nos aproximam delas, facilitando as trocas de vivências, impressões e sentimen-</p><p>tos. Vida plena é um processo, não um estado. É uma direção, não um destino.</p><p>O exercício de Vida Plena ajuda a identificar nossos diversos estados interiores e exteriores, pro-</p><p>porcionando-nos um pouco mais de consciência de nós mesmos naquele momento, o que poderá</p><p>ser lembrado. O clima de confiança, o entendimento do que é o exercício, a disponibilidade interna</p><p>dos participantes e a liberdade para se expressar ou não são essenciais para que se alcancem</p><p>os objetivos. O autoconhecimento aumenta nossa disponibilidade para o trabalho e para a Outra</p><p>Pessoa.</p><p>6 - Treinamento de papéis</p><p>a) Objetivo</p><p>O treinamento de papéis é um método de aperfeiçoamento do voluntário. É uma vivência emo-</p><p>cional, não teatral.</p><p>b) Fase de aquecimento</p><p>A fase de aquecimento é uma atividade preliminar que visa promover a integração entre os par-</p><p>ticipantes e prepará-los para a vivência do papel a ser representado. No CVV, usamos dinâmicas</p><p>de grupo, curtas. Uma delas pode ser o Treinamento de Papéis simplificado, em que o facilitador</p><p>ou uma pessoa indicada expressa um estado emocional através da verbalização, expressão facial</p><p>ou corporal. Um por um dos participantes deverão traduzir sua compreensão da vivência apresen-</p><p>tada, se possível com uma palavra apenas. Com esta participação geral, o grupo se descontrai e</p><p>se motiva para o treinamento de papéis.</p><p>Outra possibilidade é o aquecimento múltiplo. Cada pessoa presente expressa uma vivência</p><p>emocional através da verbalização, expressão facial ou corporal, para a pessoa ao seu lado (de-</p><p>fine-se direita ou esquerda). Em seguida, a pessoa ao lado traduz sua compreensão da vivência</p><p>apresentada, se possível com uma palavra. O grupo poderá ajudar.</p><p>c) Fase do treinamento de papéis</p><p>Nesta fase, o facilitador deixa em aberto a oportunidade de um dos voluntários viver o papel da</p><p>pessoa que procura o CVV e cuja representação poderá se basear:</p><p>• Na vivência de alguém que passou por uma Relação de Ajuda no CVV. Neste caso, devem</p><p>ser respeitados o sigilo e a privacidade da pessoa. É uma vivência emocional do papel, e não uma</p><p>simples repetição da história;</p><p>• Na própria vivência, de um problema real que o voluntário esteja passando;</p><p>• Na vivência de uma situação hipotética criada pelo voluntário, que necessita ser treinada.</p><p>As três possibilidades são importantes. O voluntário pode viver o papel de uma pessoa ou revi-</p><p>ver seu papel baseado numa situação real ou imaginária.</p><p>Vale considerar que ao viver a personalidade de uma pessoa apoiada, o voluntário não deve</p><p>aferir seu desempenho real no plantão.</p><p>Escolhido o voluntário que vivenciará o papel da pessoa que procura o CVV, este assume sua</p><p>posição, informando se o diálogo é pessoal, por telefone ou outro meio. Para preservar o sigilo,</p><p>ele não deve falar que a representação baseou-se em atendimento, nem no início, nem no fim da</p><p>apresentação. O ambiente deve ser sereno e livre de barulhos e perturbações exteriores.</p><p>Em seguida, apresenta-se quem vai viver o papel do voluntário do CVV durante o treinamento.</p><p>Antes de iniciar a representação de papéis, o “outro” anuncia seu sexo e sua idade aproximada.</p><p>A Relação de Ajuda se inicia, prosseguindo naturalmente com a participação dos dois. Assim</p><p>que o facilitador perceber que já foram alcançados alguns aspectos importantes, com respostas</p><p>compreensivas, de aceitação, respeito, etc., pode dar o treinamento por encerrado e passar às</p><p>observações com o grupo.</p><p>Inicia-se, sempre, pela pessoa que experimentou o papel de voluntário; em seguida, passa-se</p><p>ao voluntário que vivenciou o papel da pessoa que procura o CVV; e, finalmente, abre-se a palavra</p><p>para o grupo, para comentários, se necessário (muitas vezes dispensáveis). O tempo será mais</p><p>bem utilizado se os comentários forem substituídos por uma sequência de representações feitas</p><p>pelos diversos voluntários enfocando um paralelo da situação.</p><p>Ao final, o grupo faz uma apreciação sobre as respostas compreensivas e não compreensivas</p><p>que surgiram no treinamento. É útil, pois ajuda a organizar a experiência vivida.</p><p>Uma coisa comum durante os treinamentos, e que em tese sinaliza a necessidade de mais trei-</p><p>namento e apoio ao voluntário e ao grupo, é o querer representar em todos os detalhes exatamente</p><p>o experimentado durante uma Relação de Ajuda, buscando uma aprovação e identificação (saber</p><p>se fez o correto). Assim, ao invés de fluir com as respostas que emergem no treinamento, o volun-</p><p>tário que vivencia o papel da pessoa que procura o CVV fica preso a uma tentativa de reproduzir o</p><p>que ele vivenciou anteriormente, e não vivencia o treinamento no aqui e agora. É importante, nesse</p><p>caso, a sensibilidade do facilitador e do grupo, para acolher o voluntário e ajudá-lo na percepção</p><p>de si mesmo, de suas inseguranças e ansiedades, compreendendo-o sem censuras ou avaliações.</p><p>36</p><p>ESTÁGIO 2</p><p>1 - Principais tipos de abordagens telefônicas</p><p>a) Solicitando informações - Sondagem</p><p>As informações solicitadas podem ser de dois tipos:</p><p>• A pessoa está apenas interessada em conhecer melhor o CVV, sem intenção ou necessidade</p><p>de obter apoio;</p><p>• A pessoa sente necessidade de conhecer um pouco mais o CVV, ou o voluntário, para decidir</p><p>se pode confiar em ambos e solicitar apoio;</p><p>Em ambas as situações o importante</p><p>é abrir possibilidades para a pessoa falar de si mesma. Isto</p><p>pode ser feito perguntando simplesmente: “E como você está?”</p><p>Ao falarmos sobre o CVV, devemos ser breves, sem entrar em detalhes sobre o trabalho, filoso-</p><p>fia, princípios e práticas. Quando a pergunta é sobre nós, voluntários, as respostas devem também</p><p>ser breves, sem entrar em nossa vida pessoal.</p><p>Caso a Outra Pessoa insista em saber mais sobre nós, devemos voltar a esclarecer sobre a</p><p>amplitude do trabalho, por exemplo: “Somos pessoas disponíveis para estar com quem entra em</p><p>contato com o CVV, buscando compreender a pessoa”.</p><p>Em ambas as situações, lembramos que o foco é a pessoa que entrou em contato com o servi-</p><p>ço, sempre de forma acolhedora e respeitosa.</p><p>b) Superficiais</p><p>São contatos desprovidos de conteúdo emocional, e podem também ser de dois tipos:</p><p>• Bate-papo usual – Entra em contato para passar o tempo ou aliviar a solidão. Caso a pessoa</p><p>insista em manter esse tipo de diálogo, devemos procurar abreviar o contato.</p><p>Há outros serviços que se destinam a facilitar o contato entre pessoas solitárias por telefone,</p><p>pela Internet, ou pessoalmente. O tempo do plantão é destinado prioritariamente ao pronto-socor-</p><p>ro emocional e à prevenção do suicídio. Nos demais tipos de abordagem, cuja intencionalidade é</p><p>encontrar a prestação de outro tipo de serviço, compete acolher, compreender, respeitar, conside-</p><p>rar e abreviar o contato (limites do serviço e objetividade), através da comunicação compreensiva.</p><p>Os postos devem dispor de uma relação dos serviços a serem indicados nessa eventualidade.</p><p>• Diálogo, inicialmente superficial, que evolui para apoio. A Outra Pessoa que conhecer um</p><p>pouco mais do trabalho, ou ganhar tempo enquanto não adquire confiança para expor os motivos</p><p>reais de nos ter procurado.</p><p>c) Apresentando o caso de um amigo</p><p>São contatos de pessoas que estão preocupadas com alguém que conhecem e que precisam</p><p>da nossa ajuda. A pessoa que chama pode ser um amigo, parente, vizinho, empregador, cônjuge,</p><p>etc. Também pode ser a própria pessoa interessada, mas estar com receio de se expor e não dizer</p><p>logo. Em quaisquer situações, ajudar é papel do voluntário e consiste em dar à pessoa oportu-</p><p>37</p><p>nidade de falar o quanto ela queira. Ela pode estar se sentindo sozinha, inadequada, indignada,</p><p>confusa, etc. E, embora tenha procurado o CVV por causa de Outra Pessoa, ela própria também</p><p>estará precisando de apoio.</p><p>O papel de voluntário:</p><p>• Ouvir genuinamente é útil. De algum modo, o voluntário tem preparo para conversar e estar</p><p>com a pessoa, por causa de seu treinamento e experiência em lidar com aqueles que sofrem e que,</p><p>por isso, podem estar pensando em suicídio. Participar um pouco das experiências da pessoa,</p><p>considerar que ela é o foco do diálogo de ajuda, acolher suas inseguranças, ansiedades, preocu-</p><p>pações e comunicar compreensão sobre aquilo que ela está a compartilhar é fundamental. Por</p><p>vezes, ela pode estar buscando aprovação. Quer certificar-se de estar fazendo a coisa certa, pode</p><p>estar sentindo que tem feito pouco e precisa ser feito mais.</p><p>As atitudes facilitadoras - “empatia, aceitação, respeito e confiança - ao comunicar compreen-</p><p>são” ajudam a clarificar a utilidade ao estar próxima, ao ouvir e fazer saber que se importa com a</p><p>pessoa em si. Podem também contribuir com a diminuição da pressão e da autocobrança. Nestas</p><p>situações, temos a vantagem de “partilharmos o peso” com nosso grupo, enquanto quem chama</p><p>pode estar vivendo tudo sozinha.</p><p>• É preciso prestar atenção aos indícios de que a pessoa que nos procura possa realmente ser</p><p>a pessoa interessada. Não precisa esclarecer a situação. Quando ela sentir confiança, ela mesma</p><p>poderá fazê-lo.</p><p>• Devemos deixar que a pessoa tome as providências que achar necessárias. Embora, normal-</p><p>mente, o voluntário não possa chamar uma ambulância, avisar um médico ou psiquiatra, chamar</p><p>parentes, a polícia, ou tomar qualquer outra iniciativa prática sem a permissão da pessoa direta-</p><p>mente interessada, o outro é livre para executar qualquer ação que considere necessária.</p><p>• É preciso respeitar esta capacidade. Tirar esta liberdade é considerá-lo incapaz.</p><p>• É útil informar que pode dar ao amigo o contato do CVV e encorajá-lo a nos procurar.</p><p>• Se a pessoa pensa que seu amigo jamais procuraria o CVV, e que seria mais seguro se nós,</p><p>voluntários, entrássemos em contato, então é preciso dizer-lhe que é sempre melhor quando a</p><p>própria pessoa toma a iniciativa e entra em contato conosco. Podemos lembrar-lhe o inconve-</p><p>niente e o risco de deixá-la embaraçada, ou ainda que nosso contato possa ser visto como uma</p><p>intromissão e, assim, dificultar a possibilidade de que ela sinta interesse e necessidade de entrar</p><p>em contato com CVV.</p><p>• Proponha à pessoa continuar seu contato conosco e informar como está seu amigo. Indepen-</p><p>dente de ele nos procurar, ela pode contar com nossa presença.</p><p>d) Encaminhando alguém</p><p>Advogados, policiais, agentes de seguro, seguranças, pessoas de outras instituições e psiquia-</p><p>tras, algumas vezes, querem enviar pessoas ao CVV. Nestes contatos temos a considerar que o</p><p>intermediário não está necessariamente preocupado com um amigo chegado, ele está mais procu-</p><p>rando ajuda, por exemplo, para um cliente, conhecido, paciente ou vítima. Portanto, este interme-</p><p>diário pode não precisar do mesmo apoio que necessitam um cônjuge, um familiar, parente, amigo</p><p>ou um vizinho preocupado. Sua relação emocional com o outro é diferente. Mesmo assim é preciso</p><p>solicitar que informem à pessoa de como entrar em contato com o CVV.</p><p>Não devemos usar esclarecimentos do tipo: “os voluntários do CVV não interferem na vida de</p><p>pessoas que não procuraram sua ajuda diretamente...”. Lembre-se como você se sentiria se te</p><p>dissessem isto. O caminho é centrar o diálogo na pessoa que contatou o serviço do CVV, através</p><p>das respostas compreensivas, acolher o outro, e clarificar como funciona o serviço.</p><p>Nos casos eventuais de pessoas que comparecem ao Posto, acompanhadas da pessoa que</p><p>38</p><p>deseja que seja ajudada – atendida pelo CVV, a conduta segue a mesma linha do acolhimento e</p><p>respeito ao interesse e disponibilidade da pessoa para estar em contato conosco ou não. Manter</p><p>a calma e a serenidade, certificar-se se a pessoa quer conversar conosco, para decidir pelo aten-</p><p>dimento presencial naquele momento ou não. Do mesmo modo que a Relação de Ajuda no CVV</p><p>se propõe e não se impõe, ou seja, não conversamos com alguém coagido ou forçado a buscar</p><p>nossa ajuda, também não nos responsabilizamos pelas pessoas e ou aceitamos terceirização de</p><p>responsabilidades, assim não assinamos documentos ou formulários sobre o atendimento presta-</p><p>do. O esclarecimento sobre os diversos canais de contato com o CVV, a disponibilidade do serviço,</p><p>a oferta de um material de divulgação institucional impresso (se houver no momento), se faz útil e</p><p>prudente.</p><p>e) Reticenciosas</p><p>São os diálogos intercalados por longos espaços e silêncios. A pessoa se mostra profundamen-</p><p>te tensa e com dificuldades de expor-se. A disponibilidade do voluntário se desdobra quando ele</p><p>se esforça em sintonizar-se com o tempo de comunicação da pessoa.</p><p>f) Diretas ao assunto</p><p>Quando alguém em contato com o CVV e expressa “Vou me matar”, entrar em pânico atrapalha.</p><p>É comum sentir tensão numa situação como esta. Respirar lenta e profundamente ajuda bastante.</p><p>Pode-se transmitir calma ao se expressar mais lentamente, diferente de como se expressa normal-</p><p>mente. Ao expressar-se de maneira aflita, o interlocutor pode se sentir inseguro para falar de sua</p><p>intimidade, dificulta esta relação delicada em que a confiança é um diferencial.</p><p>Expressões como: “Gostaria de ajudar, se puder...”, ou “Você não está suportando a situação</p><p>em que vive...”, ou “Está difícil continuar vivendo neste momento...”, ajudam a aproximação do</p><p>outro. O ouvir atentamente e compreensivamente é o esforço a fazer.</p><p>Isto evitará sua identificação com este primeiro problema apresentado. O que é essencial para</p><p>manter a centralidade e propiciar o</p><p>acolhimento e clima favorável à Relação de Ajuda centrada na</p><p>pessoa.</p><p>Uma pessoa em crise geralmente pensa que alguma providência deve ser tomada imediatamen-</p><p>te. Não se deixe dominar pelo pânico dela. Leve algum tempo para descobrir qual é a situação,</p><p>converse com ela para que possa expressar os sentimentos e, assim, ver sua vida e suas possibi-</p><p>lidades:</p><p>- “Você pode fazê-lo se as coisas continuarem intoleráveis, e, agora, estou aqui com você. Pode</p><p>me falar sobre o que está causando tanto sofrimento”.</p><p>Para a pessoa em crise, o fato de sentir que pode contar com alguém, pode ajudar a passar o</p><p>tempo. O suicídio é um processo lento, mas o ato em si acontece num momento de impulso. Se</p><p>nesse momento a pessoa pode contar realmente com alguém, isso pode fazer a diferença.</p><p>Algumas pessoas não dizem claramente que estão pensando em suicídio. Elas podem mencio-</p><p>nar uma série de perdas: descrever sintomas de depressão, chorar, suspirar, ou dizer coisas como:</p><p>“Não vejo saída; não posso continuar; estou no fim da linha”.</p><p>A busca de ajuda no CVV pode indicar que a pessoa não está totalmente segura que sua morte</p><p>seja a única alternativa. Na crise suicida é comum ocorrer o estado de ambivalência em que os</p><p>opostos têm o mesmo valor:</p><p>Expressões como: “Quero me matar, mas não estar morto — não para sempre.” Isto pode sig-</p><p>nificar a busca de algum modo de sair desta situação angustiante.</p><p>Após o desabafo sem ser interrompida, sem ser julgada, criticada ou rejeitada, sem ser acon-</p><p>39</p><p>selhada, a tensão da pessoa cai, o desespero se alivia e os sentimentos suicidas passam a ser</p><p>desconsiderados momentaneamente.</p><p>A primeira coisa de que ela precisa é alguém que a ouça e se importe com ela; alguém que a</p><p>leve a sério e escute o que tem a dizer. Quase toda pessoa pode ser ajudada a superar quase todo</p><p>tipo de situação externa que possa destruir sua confiança em si mesma e na vida se você lhe der</p><p>alguma coisa a que se apegar, algum sentimento de que está em contato com outro ser humano</p><p>que se importa com ela, que lhe dá valor, que sente que ela é necessária.</p><p>g) Silenciosas (mudas)</p><p>Estes contatos podem ser causados por atitudes de:</p><p>• Curiosidade: pessoa que quer confirmar se o CVV existe realmente, após ter tomado conheci-</p><p>mento do trabalho através da publicidade.</p><p>• Confirmação: pessoa que sente no CVV uma alternativa, sem, entretanto, terem dele se utili-</p><p>zado, ou pensarem em utilizá-lo no futuro. Busca confirmação através de um contato, mudo, para</p><p>verificar há alguém de fato disponível.</p><p>• Inibição: quando a pessoa que entra em contato não consegue articular uma palavra (verbal ou</p><p>escrita), por sentir vergonha ou por seu profundo estado de ansiedade.</p><p>• No telefone e virtual, a pessoa nada fala; no chat nada tecla; e no e-mail e carta, a mensagem</p><p>é em branco.</p><p>Relatos de situações típicas dos contatos mudos:</p><p>“Da primeira vez que liguei, desisti. Não pude pensar em nada para dizer”.</p><p>“Liguei para o CVV muitas vezes, quando minha depressão estava pior. Nunca falei nada, mas</p><p>só o fato de ouvir uma voz gentil, com paciência, e de saber que alguém estava lá me ajudou a</p><p>superar”.</p><p>“Ouvi o número no rádio. Liguei para ver se era verdade. A pessoa que me atendeu pareceu</p><p>tão calorosa e pronta a me ajudar que senti não precisar de ajuda e desliguei sem dizer nem uma</p><p>palavra”.</p><p>“Da primeira vez que acionei, desisti. Não pude pensar em nada para dizer”.</p><p>“Entrei em contato e desisti. Não sabia o como começar a escrever”.</p><p>Depois de “CVV, bom dia! (boa tarde, ou boa noite)”, o que você pode dizer? E como deveria</p><p>dizer / escrever de modo que faça o outro se sentir seguro e perceber que alguém se preocupa</p><p>com ele, sem pressa, dando a ele a certeza de que está fazendo a coisa certa ao procurar o CVV,</p><p>e que é livre para começar a desabafar?</p><p>Durante quanto tempo você continua disponível, mesmo sem obter respostas? Quando é que,</p><p>alguma vez, você encerra o contato primeiro? O que você deveria evitar?</p><p>• Recomendação: Aguardar e avaliar, atentamente, se está havendo progresso. Em caso positi-</p><p>vo, continuar aguardando. “Em caso negativo, dizer que estamos disponíveis para conversar e que</p><p>compreendemos o silêncio; e convidamos a pessoa a nos procurar sempre que quiser”.</p><p>h) Trotes</p><p>Em princípio, para o voluntário do CVV, não existem trotes. Todos os chamados têm valor, como</p><p>uma oportunidade de prestar ajuda ou esclarecimento sobre o que é o trabalho do CVV.</p><p>Para eliminar ou reduzir os supostos trotes, devemos procurar melhorar sempre a qualidade da</p><p>ajuda que prestamos. Na atualidade, dada à facilidade de acesso às tecnologias e diversas fer-</p><p>ramentas, são possíveis constatar trotes efetivos direcionados ao CVV pelos diferentes canais de</p><p>acesso ao serviço.</p><p>40</p><p>É um tema que merece a vigilância do voluntário e do grupo, na disponibilidade, aceitação,</p><p>compreensão, confiança e respeito com foco na pessoa. Não temos controle ou poder sobre o</p><p>outro, e não nos compete julgar ou condenar a pessoa que busca se expressar através do trote.</p><p>Permanece válida a mentalidade dos primeiros anos de compreender e receber a pessoa que</p><p>busca o CVV através do trote, alguém que precisa e busca ajuda a seu modo, o que significa man-</p><p>ter a postura de plantonista, e na sintonia espiritual com o serviço, interagir com o outro através</p><p>das respostas compreensivas.</p><p>No geral, isso desestimula a pessoa a prosseguir com o trote, e ou reconduz naturalmente a</p><p>conversar seriamente e fazer uso do serviço, sem a necessidade de querer persuadir a pessoa a</p><p>isso. Insistindo a pessoa no espírito do trote, não funcionando a comunicação compreensiva, se</p><p>inevitável, utilizar as respostas defensivas aceitáveis, e abreviar o contato, de modo respeitoso,</p><p>informando que as portas estão abertas para um novo contato, quando ela desejar, e o serviço</p><p>permanecerá disponível aos que dele necessitam.</p><p>i) Enganos</p><p>São bastante semelhantes às chamadas silenciosas ou mudas no seu significado. Devemos</p><p>sempre manifestar a nossa total disponibilidade.</p><p>Há também o engano efetivo, em que de fato o contato foi direcionado para o CVV e era para</p><p>outro serviço ou pessoa, ou em que a pessoa acredita que entramos em contato com ela, ao iden-</p><p>tificar um número ou endereço semelhante ao do CVV.</p><p>Independente de ser um engano efetivo ou de sondagem, compete sempre a postura de acolhi-</p><p>mento e abertura à comunicação, que pode surtir na transformação do engano em apoio, e ou da</p><p>simples e oportuna divulgação do serviço.</p><p>j) Solicitando mensagens e orações</p><p>É uma forma de abordagem utilizada geralmente por pessoas que não conhecem suficiente-</p><p>mente o trabalho desenvolvido pelo CVV. Devemos esclarecer sempre que a nossa finalidade é</p><p>prestar apoio emocional.</p><p>O voluntário necessita exercitar, no apoio e no treinamento de papéis, o seu respeito pelas</p><p>crenças do outro, e a vigilância para não querer impor as suas ou mesmo ceder à solicitação em</p><p>especial quando comunga da mesma crença do outro.</p><p>O autoconhecimento ajuda a se aproximar e aceitar nossas opiniões, crenças e preconceitos;</p><p>a conversar sobre de forma respeitosa e reflexiva com o grupo. Sempre que possível, exercitar o</p><p>ciclo da vida e o exercício de vida plena, para que possamos treinar e melhor servir.</p><p>Isso não significa, porém, atender às solicitações da pessoa que procura o serviço do CVV,</p><p>mesmo que pessoalmente esteja ao nosso alcance fazê-lo. Nosso compromisso é de oferecer</p><p>um trabalho humanitário, centrar o diálogo de ajuda na pessoa, com acolhimento, calor humano e</p><p>respeito, oferecer as respostas compreensivas. Insistindo a pessoa em querer receber do CVV um</p><p>serviço diferente do ofertado, compete esclarecer os limites do trabalho. Existem serviços religio-</p><p>sos e doutrinários, para apoio e suporte que a pessoa poderá contar se assim o desejar.</p><p>k) Pessoas que solicitam ajuda material</p><p>Os Serviços de Assistência Social existentes prestam apoio material em forma de ajuda finan-</p><p>ceira, alimentação, transporte, moradia, etc.</p><p>O CVV presta apoio emocional. Não podemos pretender transformá-lo</p><p>em Serviço de Assistên-</p><p>41</p><p>cia Social, não temos este direito. Se fosse possível, seria serviço de amadores. Nossa especiali-</p><p>zação é outra.</p><p>Quando a ajuda solicitada for de natureza material, o voluntário poderá indicar um dos Serviços</p><p>de Assistência Social relacionados na lista de contatos disponíveis no Posto e aprovados pelo GE.</p><p>l) Reportagens</p><p>A divulgação é um dos três sustentáculos do trabalho. Os espaços na mídia têm custo material</p><p>elevado, acima de nossas possibilidades. Toda publicidade oferecida gratuitamente é acolhida</p><p>com reconhecimento e satisfação.</p><p>Precisamos dar atenção a jornalistas ou equipes de reportagem das emissoras de rádio e TV. É</p><p>necessário se relacionar bem com eles, recebê-los abertamente. O trabalho deles é importante e</p><p>sempre uma oportunidade especial. Cuidados devem ser tomados, com algumas das solicitações,</p><p>especialmente as relacionadas com o sigilo da Outra Pessoa, do voluntário e do CVV.</p><p>Sendo da mesma região encaminhar o contato a coordenação responsável pela divulgação.</p><p>Do contrário oferecer o serviço da Assessoria de Comunicação do CVV, orientar a pessoa que os</p><p>meios de contatos podem ser localizados diretamente no site: www.cvv.org.br e ou www.setem-</p><p>broamarelo.org.br. Nos casos de abrangência nacional, sugere-se também sempre que possível</p><p>tomar nota sobre o veículo, profissional, pauta, data e hora do contato e enviar o mais breve pos-</p><p>sível para o e-mail divulgacao@cvv.org.br , que a CND - Comissão Nacional de Divulgação saberá</p><p>dar continuidade ao contato. Com isso, estará liberando os outros deste contato e mantendo o</p><p>anonimato de voluntário.</p><p>2 - Atitudes do voluntário durante o plantão</p><p>A atenção do voluntário deve ser sempre para a Outra Pessoa, durante seu plantão. Além da</p><p>pontualidade, que confirma sua disponibilidade, o voluntário deve se dedicar, durante o plantão,</p><p>a leituras relacionadas com o trabalho, que facilitem a Relação de Ajuda. Outras atividades que</p><p>comprometam nossa disponibilidade devem ser evitadas.</p><p>O plantão e a Relação de Ajuda, como outras atividades repetidas periodicamente, podem se</p><p>tornar rotineiras e nossa participação se tornar mecânica. É preciso estar alerta para não aconte-</p><p>cer. Requer esforços pessoais indispensáveis ao trabalho.</p><p>3 - Finalizando um contato</p><p>A maior parte das pessoas que entra em contato com o CVV quer alguém com quem se abrir,</p><p>sem laços de compromisso. Elas encerram o contato quando terminam de desabafar. Apenas</p><p>assegure-se de que elas sabem dos diversos canais de acesso ao CVV, e que podem procurar o</p><p>serviço sempre que sentir necessidade.</p><p>Quando você estiver finalizando uma ajuda, considere se alguma das seguintes ideias é apro-</p><p>priada:</p><p>– Encoraje o outro a procurar o CVV novamente</p><p>Esta atitude considera que continuar com a Relação de Ajuda é importante e oferece a disponi-</p><p>bilidade do CVV, para estar junto com a pessoa. “Pode nos procurar o CVV novamente, se quiser”.</p><p>– E se o outro quiser procurar o CVV novamente quando você estiver de plantão?</p><p>Esta atitude é natural. Não deve ser forçada pelo voluntário. O outro é livre para procurar o CVV</p><p>quando quiser. É importante lembrar que, como voluntário, pode-se doar muito mais como parte</p><p>42</p><p>de uma equipe do que como personalidade. Isto evita ter muitas pessoas que só falem apenas</p><p>com você. É um equívoco e pode ultrapassar a disponibilidade do voluntário.</p><p>– Considere a possibilidade de convidar a pessoa para ir ao Posto mais próximo</p><p>Lembre-se, entretanto que:</p><p>• Não pressione as pessoas, forçando este convite. Continue disponível para a Relação de Aju-</p><p>da;</p><p>• Algumas pessoas preferem a conveniência e o anonimato (telefone, virtual, chat, e-mail, carta).</p><p>Outras acham mais fácil falar pessoalmente;</p><p>• Facilite para que a pessoa saiba o que a espera como, por exemplo, um aposento onde ela</p><p>poderá falar confortavelmente e com privacidade;</p><p>• Dê instruções detalhadas de como chegar ao Posto. As pessoas podem se confundir com</p><p>instruções vagas.</p><p>– Você ficou com sensação de “tarefa inacabada”?</p><p>• Não se deve esperar que o apoio acabe com os problemas resolvidos;</p><p>• “Alguém com quem falar” é a essência do serviço e assim que é divulgado;</p><p>• As respostas virão do outro, quando ele estiver pronto;</p><p>• É inútil dar às pessoas conselhos que não querem ou não podem seguir.</p><p>– É engano encaminhar pessoas para agências</p><p>• Há momentos que simplesmente não se sabe o que dizer;</p><p>• Muitas vezes, o voluntário se sentirá inadequado. Que não “fez” nada, ou mesmo que não</p><p>“ajudou;</p><p>• É preciso considerar que pessoas deprimidas ou com depressão muitas vezes são de convi-</p><p>vência difícil e, por isso, podem não estar sendo ouvidas com atenção e simpatia por familiares ou</p><p>amigos;</p><p>• Dar tempo e atenção pode parecer pouco, mas pode ser de importância vital para o outro. O</p><p>sentimento de importância de si mesmo, com a atenção dada a ele pode ser o que falta para res-</p><p>taurar a visão dele próprio e a capacidade de seguir adiante.</p><p>– O contato com alguns é difícil de ser encerrado</p><p>a) A pessoa já concluiu sua história, e continua repeti-la.</p><p>É preciso concluir e encerrar o contato. Avise a pessoa alguns minutos antes:</p><p>• “Não quero te cortar, se tem algo mais a dizer...”.</p><p>• “Vamos interromper agora? Pode ligar de novo, a qualquer momento que precisar”.</p><p>• “Tudo bem, vamos dedicar então mais 5 minutos para você concluir”.</p><p>Alguns momentos depois:</p><p>• “Tenho que desligar agora. Realmente apreciei falar com você. Podemos conversar em outro</p><p>momento”.</p><p>• “Deu nossos 5 minutos, foi bom estar com você, nos procure novamente se desejar”.</p><p>b) Pessoas que não param de falar, que desejam “bater um papo”, mas são solitárias.</p><p>Talvez elas não tenham ninguém que queira ouvi-las. É certo que uma conversa breve e cen-</p><p>trada no outro é adequada. Entretanto, ao conversar por mais de 10 minutos com pessoas que</p><p>procuram o CVV várias vezes por dia, pode-se estar prolongando contatos “seguros”, evitando-se</p><p>contatos “novos”. Ou estar prendendo os canais de acesso ao serviço para novos atendimentos.</p><p>Ou ter dificuldades de encontrar um jeito de concluir a conversa.</p><p>c) Pessoas que insistem em se sentirem rejeitadas, não importa o que você diga.</p><p>Algumas poderão ficar zangadas e ou malcriadas. “Pensei que vocês estivessem aí para ajudar</p><p>as pessoas.” O papel do voluntário é oferecer sua disponibilidade para pessoas em desespero.</p><p>Não se pode permitir que algumas pessoas insistentes imponham-se e ocupem os canais de ajuda</p><p>de modo que outras não possam acessá-los.</p><p>43</p><p>• Se for preciso finalizar o contato, fique calmo e firme. Se ficar inseguro ou na defensiva, não irá</p><p>conseguir. Se ficar zangado ou perder a compostura, o que é um contrassenso como voluntário,</p><p>poderá provocar uma reação indesejada no outro como, por exemplo, fazer chamadas perturba-</p><p>doras, o que deixará a linha indisponível.</p><p>4 - Ajuda fora do plantão</p><p>Prestamos ajuda pessoal somente nas dependências do Posto. Em casos extremos e excep-</p><p>cionais é possível contar com o apoio presencial de voluntários do CVV, o que se dá de modo ar-</p><p>ticulado e organizado. Recomenda-se para esses casos excepcionais a supervisão de voluntários</p><p>mais experientes e que se realizem, no mínimo, em dupla (preferencialmente com voluntários de</p><p>sexo oposto), evitando-se assim conotações que possam dar margem a possíveis dúbias interpre-</p><p>tações.</p><p>Exemplos de situações excepcionais: pessoa com mobilidade reduzida, acamada, hospitaliza-</p><p>da, em situação de cárcere privado, que se encontra necessitada do pronto-socorro emocional e</p><p>da prevenção do suicídio, deseja o apoio do CVV e solicita-o por si mesma. A ajuda fora do plan-</p><p>tão só pode ocorrer após estudo e avaliação criteriosa. Não se pode fazê-la fora do Ambiente do</p><p>Atendimento CVV sem a autorização prévia e expressa da Coordenação.</p><p>É uma situação rara, contudo deve estar clara e ser conversada e expressamente autorizada</p><p>pelo CVV para segurança à integridade física do voluntário, e do grupo, e o cumprimento com</p><p>isenção do papel social institucional e imagem do CVV.</p><p>5 - Ajuda por</p><p>correspondência, convencional ou eletrônica</p><p>Os princípios da Relação de Ajuda por correspondência são os mesmos que os considerados</p><p>na relação pessoal, telefônica ou virtual: facilitar o desabafo, centrando nossa atenção na pessoa.</p><p>É sabido que a comunicação oral e escrita constituem universos específicos de linguagem e,</p><p>como tal, possuem características próprias. Do mesmo modo que no contato oral buscamos nos</p><p>aproximar ao máximo da pessoa que entra em contato com o CVV, na interação escrita procura-</p><p>mos elaboração e precisão, refletidas no vocabulário simples, na objetividade, na clareza de ideias</p><p>e na eliminação de ambiguidades.</p><p>Buscar ao máximo o mesmo clima de interação direta com o outro, e que pode a princípio ser</p><p>mais simples pelo chat, uma vez que a comunicação ocorre em tempo real e conta com os recur-</p><p>sos extralinguísticos, como os emotions e a velocidade da interação, o que facilita a transmissão</p><p>de ideias, emoções e possibilita refazer a mensagem e a comunicação compreensiva. Em ambas</p><p>as modalidades - oral e escrita (online ou não) -, o voluntário deve buscar que a comunicação com-</p><p>preensiva seja efetiva e possa, de fato, contribuir com o apoio emocional e o contato da pessoa</p><p>consigo.</p><p>O destino da correspondência, cartas ou e-mails, deve receber todo cuidado para que não haja</p><p>quebra de sigilo.</p><p>6 - Sigilo, confidencialidade e privacidade</p><p>O sigilo no CVV é essencial. Mantêm-se em segredo os detalhes dos contatos, pessoais, tele-</p><p>fônicos, chat, virtual, e-mail, carta ou de qualquer outra natureza. É necessário adotar o mesmo</p><p>procedimento também em relação aos voluntários. Assim, não se comenta quem procurou ajuda</p><p>e tampouco quem deu ajuda, prevalece o anonimato até mesmo em relação à segurança pública.</p><p>44</p><p>Nenhum voluntário tem permissão de aceitar uma confidência se for imposta a condição de que</p><p>não poderá comunicá-la nem mesmo à Coordenação, se necessário.</p><p>Os voluntários do CVV são conhecidos apenas por seu nome próprio. Sobrenomes, endereços</p><p>ou dados pessoais são trocados apenas internamente. Logo, qualquer informação não pode ser</p><p>compartilhada externamente ou com aqueles que procuram o serviço do CVV. É fundamental res-</p><p>peito ao anonimato e à privacidade do voluntário.</p><p>Desde o início, o voluntário se compromete com a confidencialidade, durante sua atividade,</p><p>assim como após.</p><p>Relatórios ou anotações internas permanecem no ambiente interno institucional, e para sair</p><p>deste, requerem prévia apreciação administrativa sobre a necessidade e o objetivo, acompanhada</p><p>da autorização dos responsáveis sobre o tema.</p><p>Nenhuma Relação de Ajuda pode ser acompanhada ou presenciada. Somente os voluntários</p><p>e pessoas autorizadas têm acesso aos ambientes que contêm avisos, instruções, arquivos ou as</p><p>gavetas de comunicação internas. Todos os assuntos relativos à imprensa, publicidade, justiça,</p><p>segurança pública, etc. são encaminhados à Coordenação.</p><p>Considere como você aplicaria o sigilo nas situações abaixo, sem faltar com a confiança, mentir,</p><p>ficar desorientado, inseguro ou desapontar a Outra Pessoa:</p><p>• Uma pessoa pergunta se temos anotações: “Você não está escrevendo isto tudo, está?”</p><p>• Uma pessoa tem algo a dizer a você e somente para você: “Posso confiar que você não vai</p><p>contar para ninguém?”</p><p>• Uma pessoa diz que atropelou uma criança que atravessou correndo na frente de seu carro,</p><p>entrou em pânico e não parou!</p><p>• Um homem liga aborrecido, porque sua filha fugiu de casa e imagina se ela entrou em contato</p><p>com o CVV.</p><p>• Um homem pergunta o que aconteceu com a mulher que estava chorando no Posto, na última</p><p>vez em que ele esteve lá.</p><p>• Uma mulher liga, perguntando se alguém chamado Paulo nos procurou a noite passada.</p><p>• Alguém liga, e você percebe que é uma pessoa conhecida, embora ela não tenha lhe reconhe-</p><p>cido.</p><p>• Uma pessoa lhe diz o quanto foi útil àquela gentil voluntária, Norma, na noite passada; o quan-</p><p>to ela parece saber sobre hospitais. “Ela é enfermeira?”.</p><p>• Alguém que você conhece ligeiramente chega até você e afirma que ouviu dizer que você está</p><p>envolvido com o CVV. “Parece-me tão interessante. Fale-me tudo sobre isso”.</p><p>• Uma pessoa contatou o CVV, foi internada no hospital e pede que você a visite “como amigo”.</p><p>• Uma pessoa contata o CVV pedindo o número do telefone de um voluntário.</p><p>• Uma pessoa diz a você que vai envenenar o marido.</p><p>• Uma pessoa vai se mudar para outro estado e pede seu endereço e sobrenome, para que pos-</p><p>sa continuar se comunicando com você.</p><p>• Um homem quer falar com um voluntário gay. Há alguém gay entre vocês?</p><p>• Um repórter entra em contato, perguntando sobre algumas coisas a respeito dos voluntários,</p><p>para escrever uma matéria que vai ser publicada daqui a cinco dias.</p><p>• Você está se candidatando numa eleição e está fazendo uma lista de suas qualificações e ati-</p><p>vidades para propaganda na campanha.</p><p>• Uma pessoa contata o CVV, diz que é de outra instituição e quer saber como anda aquela pes-</p><p>soa que encaminhou para atendimento no CVV.</p><p>45</p><p>ESTÁGIO 3</p><p>1 - Alcoolismo e pessoas alcoolizadas</p><p>a) Alcoolismo:</p><p>O alcoolismo está relacionado ao uso contínuo e prolongado do álcool, de modo periódico, per-</p><p>manente, habitual ou condicionado por uma dependência psicofísica. Difere de estar embriagado.</p><p>É a dependência do indivíduo ao álcool, considerada doença pela Organização Mundial da</p><p>Saúde. O uso constante, descontrolado e progressivo de bebidas alcoólicas pode comprometer</p><p>seriamente o bom funcionamento do organismo, levando a consequências irreversíveis.</p><p>É um vício e pode afetar três aspectos da pessoa:</p><p>• Físico: provocar danos à saúde daqueles que bebem;</p><p>• Mental: ocasionar distúrbios mentais que podem se tornar crônicos, levando a pessoa até ao</p><p>suicídio;</p><p>• Social: atinge as relações e mina com a vida familiar, profissional, social e ou econômica.</p><p>É incorreto dizer que o alcoolismo é um problema nato e também não é verdade afirmar que</p><p>sua causa é desconhecida. A pessoa se torna dependente do álcool ao usá-lo continuamente.</p><p>Transforma-se em dependente físico, quando ingere álcool logo de manhã para firmar as mãos; ou</p><p>dependente psicológico, quando bebe a qualquer hora para se sentir bem e capaz de encarar o</p><p>dia. Assim, seu organismo fica à espera da próxima dose, em estado de ansiedade ou depressão</p><p>quando não é atendido.</p><p>Um das causas que transforma a pessoa em dependente é o convívio social, que a pressiona a</p><p>beber e fazer parte de seu estilo de vida. Torna-se mais fácil quando o custo da bebida é baixo e</p><p>onde há poucas restrições de uso. Muitas vezes o dependente é alvo de críticas e desaprovação.</p><p>Alguns insistem que deve abandonar o vício usando seus recursos possíveis.</p><p>Uma pessoa alcoólica que entra em contato precisa ser acolhida com calor humano. Ao volun-</p><p>tário cabe aceitar esta relação da pessoa com o vício, o que nem sempre é fácil para alguns.</p><p>O alcoolismo, também conhecido como “síndrome da dependência do álcool”, é uma doença</p><p>que se desenvolve após o uso repetido de álcool, tipicamente associado aos seguintes sintomas</p><p>(que não necessariamente ocorrem juntos):</p><p>• Compulsão: uma necessidade forte ou desejo incontrolável de beber;</p><p>• Dificuldade de controlar o consumo: não conseguir parar de beber depois de ter começado;</p><p>• Sintomas de abstinência física: náusea, suor, tremores e ansiedade, quando se para de beber;</p><p>• Tolerância: necessidade de doses maiores de álcool para atingir o mesmo efeito obtido com</p><p>doses anteriormente inferiores ou efeito cada vez menor com uma mesma dose da substância.</p><p>b) Pessoas alcoolizadas:</p><p>O abuso de álcool é diferente do alcoolismo porque não inclui uma vontade incontrolável de</p><p>beber, perda do controle ou dependência física. As pessoas quando alcoolizadas têm poucas</p><p>condições de se beneficiarem da Relação de Ajuda.</p><p>Algumas atitudes do voluntário podem despertar sua agressividade. Diante a procura de pes-</p><p>soa claramente alcoolizada ou em estado de embriaguez, o voluntário deve acolher a pessoa e</p><p>respeitosamente finalizar o contato, convidando-a a procurar o</p><p>CVV em outra ocasião.</p><p>46</p><p>2. Vício em drogas e pessoas drogadas</p><p>Cabe ao voluntário avaliar os próprios preconceitos sobre o assunto e entender que o uso de</p><p>drogas não decorre apenas de problemas familiares ou falhas de relacionamento. É uma somatória</p><p>de fatores, tais como: conflitos pessoais, dificuldades escolares, sociais ou profissionais, busca de</p><p>alternativas, escapismo, predisposição genética, etc.</p><p>Certas drogas são utilizadas em tratamentos médicos, obedecendo rigorosamente às dosagens</p><p>determinadas por um especialista. Há usuários que as utilizam indevidamente desobedecendo às</p><p>prescrições recomendadas.</p><p>Pessoas com dependência química, que fazem uso de drogas de modo contínuo e prolonga-</p><p>do, periódico, permanente, habitual ou condicionado por uma dependência psicofísica, têm uma</p><p>expectativa de vida baixa. Há riscos de superdoses, hepatite, infecções e geralmente adotam um</p><p>modo de vida não saudável, comumente vivem fora de casa, alimentam-se inadequadamente,</p><p>repousam pouco, e, quando mais dependentes, passam a abandonar além da alimentação e do</p><p>repouso, os cuidados pessoais, higiene e saúde. Tudo gira em torno da próxima dose.</p><p>Por vezes, na ausência de posses para sustentar o vício, a pessoa ingressa no mundo do crime</p><p>e ou da prostituição a fim de obter meios de conseguir a droga.</p><p>Aqueles que almejam parar com o vício, além da firmeza de vontade, necessitam do apoio emo-</p><p>cional e médico. Em alguns tratamentos, as drogas em uso são substituídas por outras de efeitos</p><p>mais amenos, consecutivamente até sair da crise, superar a dependência e conseguir viver sem</p><p>usá-las.</p><p>Nem sempre é possível ter certeza que uma pessoa está sob efeito de drogas, pois enquanto al-</p><p>guns apresentam comportamentos mais óbvios, como agressividade e alucinações, outros podem</p><p>ter sintomas bem mais brandos. As tentativas de encontrar soluções rápidas ou fáceis e propô-las</p><p>ao usuário devem ser evitadas. Mudar os hábitos, sem que a pessoa queira, é atitude desrespeito-</p><p>sa. É uma pretensão ilusória.</p><p>Há alguns sinais que nos ajudam a perceber se a pessoa esta sob o efeito de drogas. Esses</p><p>sinais podem ocorrer em diversos problemas de saúde e, isoladamente, nem sempre significam</p><p>que a pessoa está necessariamente sob o efeito de drogas. Ao perceber vários sinais associados,</p><p>há grandes chances de que sejam devido à intoxicação por drogas. Nesses casos, a diretriz é a</p><p>mesma da pessoa sob o efeito de álcool: acolher a pessoa e finalizar respeitosamente o contato,</p><p>convidando-a a procurar o CVV em outra ocasião.</p><p>Sinais comuns:</p><p>• Dificuldade em manter o foco;</p><p>• Mudanças de assuntos repentinamente;</p><p>• Risadas inapropriadas (descontrole, crise de risos, risadas diante a situações sérias);</p><p>• Alteração na motivação e interesse (diminuição ou aceleração);</p><p>• Mudanças repentinas de humor (raiva súbita e inexplicável, por exemplo);</p><p>• Alterações no apetite (vontade incontrolável de comer);</p><p>• Paranoia (achar que esta sendo perseguido, comportamento violento, etc.);</p><p>• Olhos vermelhos (inchados e vermelhos).</p><p>Algumas pessoas apresentam manifestações clássicas; outras, sintomas mais sutis. Atenção</p><p>para não cair no equívoco de rotular uma pessoa com a presença de um ou mais dos sintomas</p><p>apresentados. Diversos problemas de saúde, como conjuntivite, por exemplo, ou situações co-</p><p>muns, como choro, podem resultar em olhos vermelhos e inchados. Tratamento medicamentoso,</p><p>uso de remédios controlados, resquícios de um AVC, esclerose múltipla, entre outros, podem dar</p><p>a impressão de que a pessoa está em estado de embriaguez ou intoxicação por drogas.</p><p>Ouvir o outro, aceitá-lo e interessar-se por ele são posturas que criam o bom relacionamento</p><p>47</p><p>com aqueles que querem livrar-se da droga e com os que, a princípio, não querem ajuda. Nestes</p><p>momentos, é necessário que o voluntário compreenda e aceite esta circunstância.</p><p>Quanto à família do dependente químico: quando somos procurados por ela, observa-se que</p><p>geralmente sua maior preocupação é:</p><p>• Saber quem pode ter desencadeado esta atitude</p><p>É frequente que os familiares tragam à tona situações da vida familiar passada visando encon-</p><p>trar um ou vários culpados pelo acontecido.</p><p>• Descobrir onde esta o “erro”</p><p>A indagação “onde errei ou erramos?” é acompanhada de um balanço das relações familiares e</p><p>de tudo o que foi proporcionado ao outro. Tenta-se encontrar um alívio da ansiedade, tal como a</p><p>afirmação: “Sempre lhe demos o melhor”.</p><p>• Ambivalência – perseverar ou desistir</p><p>Expressões tais como “não aguento mais”, “já fizemos de tudo”, “seria melhor acabar com tudo</p><p>isso”, “sei que não é o certo, mas por vezes penso que seria melhor que ele sumisse ou morresse”</p><p>são acompanhadas de choros, dores, desesperos e sentimentos de impotência. Um misto de ou-</p><p>tras expressões tais como de um balanço das relações familiares e de tudo o que foi proporciona-</p><p>do ao outro. Tenta-se encontrar um alívio da ansiedade, como, por exemplo: “eu preciso ser forte</p><p>e suportar tudo isso”, “o que mais podemos fazer?”, “eu acredito que ele sairá dessa”, “onde ela</p><p>estará agora, quero-a tanto aqui por perto”.</p><p>Diante a eventual dificuldade com o tema é útil procurar apoio e orientação com os voluntários</p><p>mais experientes e com o grupo.</p><p>48</p><p>ESTÁGIO 4</p><p>1 - Abalos situacionais</p><p>Dentre os abalos situacionais, ocupam lugar de destaque as perdas, que podem ser classifica-</p><p>das como a seguir:</p><p>a) Quanto ao que foi perdido:</p><p>Pessoas Para familiares e amigos</p><p>Animais Para crianças</p><p>Recursos de apoio</p><p>Proventos</p><p>Trabalho (demissão / aposentadoria)</p><p>Saúde</p><p>Status</p><p>Juventude</p><p>Amputações</p><p>Lar</p><p>Ilusões e fantasias</p><p>Beleza</p><p>Casa</p><p>Rotina (promoção, casamento, fortuna)</p><p>Materiais ou concretas</p><p>Pessoas</p><p>Bens</p><p>Status</p><p>Saúde</p><p>Independência</p><p>Espirituais ou interiores</p><p>Crenças</p><p>Fé</p><p>Confiança</p><p>Sonhos</p><p>Otimismo</p><p>49</p><p>b) Quanto ao que causa a perda:</p><p>• Morte</p><p>• Doença (física / mental)</p><p>• Separação</p><p>• Casamento</p><p>• Trabalho</p><p>• Suicídio</p><p>• Serviço militar</p><p>• Estudo: jovem obrigado a sair da casa dos pais</p><p>• Formatura: perda dos colegas e ambiente da turma</p><p>• Mudança de cidade, estado, pais, escola, faculdade, casa, trabalho, status.</p><p>• Relacionamento Intrapessoal e Interpessoal: atitudes, comportamentos, desavenças, confli-</p><p>tos, temperamentos, divergências de valores e de ideais, interesses, etc.</p><p>As consequências e a maneira de reagir à perda são próprias de cada pessoa. Às vezes, a per-</p><p>da provoca mudanças de funções na vida, como no caso de uma pessoa que perde o cônjuge e</p><p>passa, assim, a exercer o papel de única provedora e responsável da família.</p><p>Além disso, são criados estigmas associados a essas perdas. Por exemplo: uma pessoa que</p><p>teve um membro do corpo amputado torna-se alvo de compaixão para outros, e, assim, passa a</p><p>ser estigmatizado. Desta maneira, pode ser que isso gere sentimentos de revolta, não aceitação da</p><p>perda, e desrespeito por si, o que potencializa um sentimento defensivo voltado a sua pessoa. Por</p><p>consequência, isso também poderá criar insegurança nas pessoas próximas para se aproximar</p><p>dela, com receio de feri-la ao tocar no assunto.</p><p>No geral, o sofrimento diante a perda está atrelado ao fato de sentir que se perdeu uma parte</p><p>de si. Por vezes, na dualidade do ter e do ser, acaba-se por acreditar que se é os bens adquiridos</p><p>e conquistados. O que reforça a importância do ter, a se confundir com o ser. A percepção de que</p><p>somos nossas capacidades de adquirir, construir e utilizar nossos bens se confunde com o sermos</p><p>nossos bens.</p><p>c) Os principais fatores que determinam como o indivíduo reagirá perante essa situação</p><p>de perda são:</p><p>Tipo de relacionamento com o que foi perdido:</p><p>• Se for de dependência, as reações poderão ser complicadas.</p><p>• Se foi num momento de raiva e o indivíduo desejou a perda, a reação poderá ser de culpa.</p><p>Busca de defesas contra o sofrimento:</p><p>• Geralmente, aqueles que mantêm autocontrole rígido diante da perda sofrem muito nos meses</p><p>que se seguem.</p><p>Tipo de reação diante da perda:</p><p>• É mais sério, com aumento do risco, aos que se isolam ou são isolados. Sem apoio, sentirão</p><p>que</p><p>nada mais na vida interessa.</p><p>• Excesso de proteção dos mais próximos também é prejudicial, especialmente caso se prolon-</p><p>gue além do necessário.</p><p>d) Sentimentos decorrentes da perda</p><p>Motivações Sentimento Sentimento Interfaces</p><p>Evitar a perda</p><p>Medo Pavor, Pânico, Temor,</p><p>Insegurança, Fobia</p><p>Aversão Repugnância, Rejeição,</p><p>Intolerância</p><p>Ansiedade</p><p>Apreensão, Insatisfação,</p><p>Tensão, Impaciência,</p><p>Preocupação</p><p>Reparar a perda</p><p>Punir o responsável</p><p>Tentativa de reparar uma determinada perda</p><p>ou de punir a quem julgamos ser responsável</p><p>por ela</p><p>Raiva Ira, Fúria, Indignação,</p><p>Revolta, Melindre</p><p>Inveja Cobiça, Rivalidade, Ambição</p><p>Incapacidade de obter prazer e alegria</p><p>Decorrente de uma determinada perda</p><p>Tristeza</p><p>Desgosto, Decepção, Aborrecimento,</p><p>Melancolia, Desapontamento, Infelici-</p><p>dade, Desalento, Desânimo, Pessimis-</p><p>mo</p><p>Culpa Autodepreciação,</p><p>Autoacusação, Autopunição</p><p>Saudade Nostalgia</p><p>Vergonha Inibição</p><p>Ausência de perspectivas - prazer e ale-</p><p>gria</p><p>Somatória de perdas não resolvidas</p><p>Solidão Carência, Vazio, Privação,</p><p>Necessidade, Desamparo</p><p>Angústia Aflição, Agonia,</p><p>Estreiteza, Opressão</p><p>Inferioridade Autopiedade, Inaptidão,</p><p>Incapacidade</p><p>Desespero Desilusão, Decepção,</p><p>Desengano, Desesperança</p><p>Trasitórios - Ameaça de perda Prazer e Alegria</p><p>Presunção, Euforia, Posse, Grandeza,</p><p>Audácia, Orgulho, Ansiedade, Ciúme,</p><p>Vaidade, Medo</p><p>Sentimentos de abertura -</p><p>Postura confiante</p><p>Interesse Atração, Curiosidade,</p><p>Admiração, Coragem.</p><p>Afeição</p><p>Apreço, Aceitação, Atração, Estima,</p><p>Compaixão,</p><p>Consideração</p><p>Prazer Bem Estar, Satisfação</p><p>Alegria</p><p>Otimismo, Entusiasmo, Bom Humor,</p><p>Animação,</p><p>Contentamento, Confiança</p><p>Amor Bondade, Ternura, Perdão, Respeito,</p><p>Esperança, Resignação, Abnegação</p><p>51</p><p>2 - Crianças</p><p>Apesar de não serem frequentes, recebemos também chamadas de crianças. Na sua totalidade,</p><p>as que nos procuram possuem problemas no ambiente doméstico. Esses problemas são senti-</p><p>dos como perdas de amor dos pais, da segurança, etc. Assim como ocorre com idosos, também</p><p>elas dificilmente são ouvidas pelos demais. Normalmente seus problemas não são considerados</p><p>importantes. O sofrimento pela perda de animais de estimação, por exemplo, é bastante intenso</p><p>nessa idade.</p><p>Podemos e devemos falar de maneira natural com as crianças, assim como fazemos com os</p><p>demais: sem complicações e sem o linguajar maternal que tenta imitar o infantil. O voluntário deve</p><p>exercitar também sua confiança na capacidade que elas possuem de realizar o ciclo da vida.</p><p>3 - Adolescentes</p><p>Geralmente, eles relatam seus sofrimentos em meio a risadas, o que deve ser tomado como</p><p>uma maneira de mascarar a timidez, visto que, para os adolescentes, é muito difícil comunicar</p><p>sentimentos e preocupações. Os problemas mais comuns relatados são: achar que os pais não os</p><p>entendem; medo de contar aos pais que deixaram de frequentar a escola para ir a outros lugares;</p><p>brigas familiares constantes ou iminente separação dos pais; pressão causada pelo fato de os</p><p>pais estarem esperando (exigindo) que eles se saiam bem em tudo, o que gera nos adolescentes</p><p>o medo de falhar e de magoar os pais.</p><p>O mundo do adolescente é muito complexo. Além das mudanças físicas, ele também enfrenta</p><p>as dos sentimentos. Por isso, é comum relatar problemas e preocupações típicas de adultos, mis-</p><p>turadas a outras aparentemente infantis.</p><p>Tudo isso deve ser levado a sério pelo voluntário, porque, por trás de uma simples briga com um</p><p>colega de escola, pode se ocultar um grande problema. O fato de o indivíduo ter chamado indica</p><p>que algo não está bem e não há qualquer razão para não se acreditar nisso. O adolescente exige o</p><p>máximo de confidência em relação aos seus problemas. Assim, se o voluntário fizer com que ele se</p><p>sinta confiante, será capaz de expor seus sentimentos e encontrar condições para resolver sozinho</p><p>aquilo que o está perturbando.</p><p>4 - Pessoas idosas</p><p>O índice de suicídio entre pessoas idosas é bastante elevado. Os motivos que levam essas</p><p>pessoas a ligarem para o CVV não são muito diferentes dos já citados, mas podemos destacar</p><p>principalmente:</p><p>• Perda de saúde (limitações causadas por doenças)</p><p>• Perda de pessoas (solidão)</p><p>• Outros recursos de apoio (trabalho, aposentadoria, proventos)</p><p>• Perda de autonomia (agressividade, violência doméstica), ser lesado ou usado financeira e</p><p>materialmente</p><p>A comunicação, por exemplo, pode estar prejudicada pela perda total ou parcial da audição,</p><p>pela vagarosidade da dicção, por confusões e perda de memória, etc. Embora possa acontecer</p><p>em qualquer etapa da vida, a solidão é comum entre as pessoas mais velhas, e a maior incidência</p><p>se dá entre aquelas que vivem em instituições para idosos. Geralmente são os indivíduos de per-</p><p>sonalidade mais difícil que acabam em tais instituições. Eles muito comumente não se relacionam</p><p>bem com seus companheiros, o que piora muito a situação.</p><p>52</p><p>ESTÁGIO 5</p><p>1. Ajuda com temática sexual</p><p>A sexualidade ainda é um grande tabu social, e se manifesta de diversas formas. Saber primeiro</p><p>a diferença entre sexo, gênero, identidade de gênero e orientação sexual pode nos ajudar a ampliar</p><p>o olhar mais compreensivo sobre o tema.</p><p>a) Sexo</p><p>É a parte biológica e se divide entre macho, fêmea e intersexo. É definido por cromossomos e</p><p>características como órgãos reprodutivos internos e externos. Uma pessoa biologicamente inter-</p><p>sexo pode nascer com características sexuais de macho e fêmea.</p><p>b) Gêneros</p><p>São as categorias de masculino e feminino que construímos socialmente. Os gêneros englobam</p><p>todas as práticas arbitrariamente atribuídas às pessoas que nascem com um aparelho genital ou</p><p>outro. Cada cultura incentiva que as pessoas tenham certos comportamentos, vestuários, profis-</p><p>sões e valores de acordo com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer.</p><p>c) Identidade de gênero</p><p>Tem a ver com qual gênero a pessoa se identifica. Uma pessoa biologicamente do sexo masculi-</p><p>no pode se identificar com o gênero masculino ou feminino, e uma pessoa biologicamente do sexo</p><p>feminino também pode se identificar com qualquer um dos dois ou mesmo com ambos.</p><p>Transgêneros são pessoas cuja identidade de gênero e expressão desta identidade diferem do</p><p>sexo biológico delas. Exemplo: pessoa biologicamente do sexo masculino que se identifica com o</p><p>gênero feminino, e se veste ou se comporta de modo coerente com o modo feminino.</p><p>Quando a identidade e a expressão de gênero são coerentes com o gênero atribuído à pessoa,</p><p>denomina-se cisgênero.</p><p>d) Orientação sexual</p><p>Descreve por qual pessoa se sente atração afetiva ou sexual. Geralmente se divide em orienta-</p><p>ção heterossexual, homossexual e bissexual.</p><p>Atualmente, a orientação sexual é vista mais como um contínuo, variando de um extremo ao</p><p>outro. A orientação sexual não é necessariamente fixa e pode variar por diferentes razões.</p><p>Tanto a orientação sexual, quanto a identidade de gênero costumam se manifestar desde cedo,</p><p>independente dos pais ou pessoas próximas serem heterossexuais, homossexuais, transgêneros</p><p>ou cisgêneros.</p><p>Todas as características da sexualidade são determinadas por múltiplos fatores, como herança</p><p>genética passada pelos pais, o funcionamento das glândulas e dos hormônios do corpo, as primei-</p><p>ras experiências de socialização, a cultura vigente e as experiências durante vida.</p><p>A nossa sociedade incentiva algumas orientações e identidades, enquanto discrimina outras.</p><p>Por isso, os pais geralmente costumam incentivar ou reprimir em seus filhos, desde os primeiros</p><p>anos, as manifestações de sexualidade a partir das normas culturais com as quais eles concordam.</p><p>O rótulo e o preconceito em relação à identidade de gênero são mais comuns do que possamos</p><p>imaginar. Automaticamente, a sociedade busca enquadrar sexo e orientação sexual como sendo a</p><p>mesma coisa, o que dá margem a julgamentos, tais como:</p><p>1• Uma mulher que se reconhece no universo masculino (veste-se, usa de um linguajar mas-</p><p>culinizado e porta-se como tal) é homossexual;</p><p>53</p><p>2• Um homem que se identifica com o universo feminino (veste-se, usa de um linguajar de-</p><p>licado ou afeminado, e porta-se como tal) é homossexual;</p><p>3• Uma mulher que se identifica com o universo feminino (veste-se, usa de linguajar delicado</p><p>e porta-se de modo delicado e suave, com o padrão de modelo “mulher fêmea”) é heterossexual;</p><p>4• Um homem que se identifica com o universo masculino (veste-se, usa de linguajar mas-</p><p>culinizado, e porta-se com o padrão de modelo “homem macho”) é heterossexual.</p><p>Uma pessoa pode disfarçar os seus sentimentos ou tentar obedecer a um padrão de identidade</p><p>para ser mais bem aceita, enquanto isso gera internamente anos de frustração, sofrimento e pode</p><p>levar até mesmo ao suicídio.</p><p>Homossexuais e pessoas com uma identidade destoante do gênero associado ao seu sexo</p><p>são alvos de discriminação e de violência. Há incompreensão e negação do fato de que o sexo, a</p><p>orientação sexual e a identidade de gênero não são meras escolhas que fazemos.</p><p>O resultado disso é que quem não é heterossexual ou cisgênero vive em um mundo muito hostil.</p><p>O que por vezes resulta em medo, revolta, dor, sofrimento, isolamento, agressividade, dependên-</p><p>cias de álcool e drogas, prostituição, homofobias, homicídios e suicídio.</p><p>2 - Assexualidade</p><p>É a falta de atração sexual. A pessoa não sente vontade de ter relações sexuais com ninguém.</p><p>As pessoas podem ser assexuais em diferentes níveis. Embora não sintam vontade de ter relações</p><p>sexuais com alguém, assexuais podem ter desejo sexual e se estimularem sexualmente com al-</p><p>guma frequência. A diferença é que, ao contrário da maioria das pessoas, o desejo sexual de as-</p><p>sexuais não se traduz em vontade de satisfazer esse desejo por meio de uma relação sexual com</p><p>Outra Pessoa.</p><p>54</p><p>Alguns assexuais não têm interesse sexual e nem afetivo por outras pessoas, enquanto outros</p><p>não possuem interesse sexual, mas possuem vontade de se relacionar e se envolver afetivamente</p><p>com os outros.</p><p>Ser assexual não é a mesma coisa que ter medo de sexo ou ser celibatário. Assexuais geral-</p><p>mente não fazem sexo não por medo ou crenças religiosas, e sim porque não sentem vontade. E,</p><p>mesmo sem vontade, alguns podem fazer por curiosidade ou para agradar o parceiro.</p><p>A assexualidade também difere do transtorno da excitação sexual feminino e do transtorno do</p><p>desejo sexual masculino hipoativo. Os dois transtornos envolvem a inexistência ou redução do</p><p>interesse sexual, e, em ambos os casos, a pessoa sofre muito com esse transtorno.</p><p>Não se conhece muito sobre as causas da assexualidade, tanto fatores genéticos quanto am-</p><p>bientais podem ser importantes.</p><p>Várias condições médicas e psicológicas, como desregulação hormonal ou depressão podem</p><p>levar alguém a exibir pouco ou nenhum interesse sexual. Para saber se alguém é assexual é ne-</p><p>cessário fazer uma avaliação por um profissional capacitado.</p><p>A assexualidade não esta associada por si só a algum tipo de sofrimento. Não é sinônimo de ter</p><p>sofrido uma experiência traumática ou uma disfunção sexual. No entanto, numa sociedade em que</p><p>se valoriza tanto o sexo, pode ser difícil ser assexual.</p><p>O sofrimento inicialmente atribuído à discriminação social poderá desencadear em negação,</p><p>desajustes, dúvidas e inaceitação de si. O que contribui com a somatória de fatores de risco para</p><p>o suicídio, tais como: transtornos, isolamento, desequilíbrios, doenças psicossomáticas, vícios,</p><p>dependências, compulsões, depressão, ideação suicida, etc.</p><p>3 - Sexualidade e Sexo</p><p>A sexualidade humana é complexa e diversa e mesmo o que parece tão óbvio pode não ser. A</p><p>diversidade de comportamentos e a vivência sexual podem ser mal compreendidas e não aceitas,</p><p>o que leva a preconceitos, julgamentos e rejeições da própria pessoa sobre si e das outras pesso-</p><p>as.</p><p>Ao voluntário compete o olhar sensível e compreensivo para com a complexidade que a área da</p><p>sexualidade humana e do sexo ocupa na vida das pessoas e em sociedade. A clareza do conceito</p><p>é de vital importância para poder conversar de modo respeitoso.</p><p>No aspecto da sexualidade humana e do sexo, esconde-se por universos e guetos, um altíssimo</p><p>índice de suicídio. Da prostituição, da orientação sexual (homossexuais), do travesti, das pessoas</p><p>em conflito de gênero, das pessoas dependentes sexuais (viciadas no sexo presencial ou virtual),</p><p>das compulsivas sexualmente que afundam economicamente na busca por sexo pago e ou casual,</p><p>das que sofrem abuso, assédio ou violência sexual, das que sofrem de violação sexual, das que</p><p>buscam a cirurgia para mudança de sexo e depois se arrependem, das situações de aborto (es-</p><p>pontâneo ou induzido) seguido de arrependimento, culpa ou impotência, das vítimas de estupro,</p><p>além do aspecto das doenças sexualmente transmissíveis.</p><p>Pode ser difícil iniciar uma conversa sobre aspectos tão íntimos e censurados, em especial</p><p>quando a própria pessoa não se aceita e luta insistentemente por sua autonegação. Desaprovação</p><p>ou condenação, além de não ajudar, bloqueiam ou, no mínimo, dificultam a livre expressão, reve-</p><p>lação e segurança do clima permissivo ao desabafo.</p><p>A imposição da heterossexualidade enquanto padrão de modelo socialmente aceito e ade-</p><p>quado a grande parte das culturas, sociedades e países, cada vez mais vai dando espaço para a</p><p>liberdade da expressão e de orientação sexual; para a união estável e a legalidade do casamento</p><p>entre pessoas do mesmo sexo, com igualdade de direitos; para a adoção de crianças por casais</p><p>homossexuais, conquistas resultantes de anos de luta e intenso sofrimento, e que fazem emergir,</p><p>55</p><p>cada vez mais, modelos novos de concepção de família.</p><p>De todo modo, a sexualidade permanece enquanto território complexo, tabu em diversas áreas</p><p>e temas, numa luta incessante para se derrubar modelos, padrões, estilos e tipos preconcebidos,</p><p>como estereótipos no jeito de ser e estar. Assim, é comum, por exemplo, o estereótipo do linguajar,</p><p>ao jeito de se vestir, se portar, dos gostos e preferências culturais, lugares aos quais frequentar e o</p><p>aprisionamento e imposição de modelos (impostos e autoimpostos), tais como: o gay espalhafato-</p><p>so, a lésbica mulher macho (com as vestes e linguajar masculinizado), travesti montado de modo</p><p>exuberante e carregado em brilhos, decotes e maquiagem, etc. Modelos que não necessariamente</p><p>representam a fiel imitação do universo feminino ou masculino, contudo, o universo que luta por</p><p>derrubar imposições de modelo e de jeito certo de ser também impõe a si certos estereótipos.</p><p>Há uma vasta evolução e revolução no campo da sexualidade humana. Historicamente, há situ-</p><p>ações que já foram consideradas crimes, transtorno, pecado, doença e, na atualidade, são perce-</p><p>bidas enquanto naturais. Bem como o contrário também se faz presente, comportamentos vistos</p><p>enquanto naturais e culturais no passado e que, na atualidade, se configuram crime, transtorno,</p><p>doença, etc.</p><p>As noções de desvio, padrões de desempenho sexual e conceitos de papel apropriado para o</p><p>gênero podem variar entre as culturas.</p><p>A homossexualidade, por exemplo, classifica-se e diferencia-se em ego-sintônica, pessoa ho-</p><p>mossexual que se sente confortável, não apresenta problemas com a sua sexualidade e a aceita,</p><p>logo, no campo da psiquiatria e psicologia, é considerada enquanto orientação sexual; e a pessoa</p><p>homossexual egodistônica, que se sente desconfortável, não se aceita, neste caso no campo da</p><p>psiquiatria e psicologia é considerado transtorno sexual.</p><p>4 - Alguns conceitos a se observar:</p><p>• As Parafilias são caracterizadas por anseios, fantasias ou comportamentos sexuais recor-</p><p>rentes e intensos que envolvem objetos, atividades ou situações incomuns e causam sofrimento</p><p>clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento social ou ocupacional ou em outras áreas</p><p>importantes da vida do indivíduo.</p><p>• Os Transtornos da Identidade de Gênero caracterizam-se por uma forte identificação sexual</p><p>com o gênero oposto, acompanhada por desconforto persistente com o próprio sexo atribuído. Há</p><p>transtornos do funcionamento sexual não classificáveis em quaisquer das categorias específicas.</p><p>Aqueles que percebem ter</p><p>desvios sexuais são frequentemente solitários, por não se sentirem</p><p>aceitos, compreendidos ou respeitados, e por vezes também por não conseguirem sentir aceita-</p><p>ção, compreensão e respeito por si mesmos.</p><p>A condição interior e a maturidade emocional da pessoa são diferenciais no seu apoio e no su-</p><p>porte para superação de perdas, conflitos e no processo do autoconhecimento e autoaceitação, o</p><p>que se conquista gradualmente. Ao voluntário cabe acolher a pessoa em seu sofrimento e necessi-</p><p>dade de apoio emocional, independente da temática, orientação, estilo, preferências, motivações,</p><p>valores, e da forma em que esta vivencia sua própria sexualidade e o sexo, de ser sexuada ou</p><p>assexuada.</p><p>Compreender e perceber, por exemplo, certa hostilidade, suposta indiferença e comunicação</p><p>agressiva, no estilo de se expressar enquanto mecanismo de defesa, e receber a pessoa com uma</p><p>comunicação compreensiva, acolhedora, e que a possibilite sentir-se aceita e respeitada em sua</p><p>dignidade humana, poderá ajudá-la a baixar as defesas e deixar nos aproximarmos num encontro</p><p>de pessoa com pessoa.</p><p>5. Violência sexual contra crianças e adolescentes</p><p>É uma violação dos direitos sexuais, porque abusa ou explora o corpo e a sexualidade, seja</p><p>pela força ou outra forma de coerção, ao envolver crianças e adolescentes em atividades sexuais</p><p>impróprias à sua idade cronológica, ou ao seu desenvolvimento físico, psicológico e social.</p><p>A violência sexual infantil pode ocorrer de duas formas:</p><p>1• ABUSO SEXUAL: é a utilização do corpo de uma criança ou adolescente, por um adulto ou</p><p>adolescente, para a prática de qualquer ato de natureza sexual.</p><p>2• EXPLORAÇÃO SEXUAL: caracteriza-se pela utilização sexual de crianças e adolescentes</p><p>com a intenção do lucro ou troca, seja financeiro ou de qualquer outra espécie.</p><p>O sentimento de culpa, do sentir-se sujo, merecedor, revoltado, etc. são comuns e podem levar</p><p>anos para a superação. É importante que tanto a vítima quanto sua família e o próprio abusador</p><p>sejam tratados, e tenham a oportunidade de acompanhamento psicológico.</p><p>6. Recomendações: Ajuda com a temática sexual no CVV</p><p>• Sempre que centramos a atenção na pessoa e não no problema, estabelece-se uma conver-</p><p>sação de profundo conteúdo emocional, que se distanciará da agressividade ou da obscenidade;</p><p>• Emoções, pressão sexual, solidão, busca de alguém com quem falar, podem estar no mesmo</p><p>contexto, que o outro poderá separar diante a um ambiente favorável ao diálogo de ajuda;</p><p>• Aceitar a obscenidade ou a pessoa obscena não é concordar com seu comportamento. É re-</p><p>conhecer sua existência e respeitar os limites e objetivos de ajuda no CVV;</p><p>• Tentativa de Escatologia Telefônica ou Cibersexo: respeitamos a existência e finalizamos o</p><p>contato.</p><p>Independente da motivação para o contato com o CVV, cuja temática pode ser sobre:</p><p>Transtorno Disfunção Configura Crime Dependéncias para</p><p>o prazer</p><p>Da Identidade</p><p>de gênero Sexual Necrofilia Dom-juanismo /</p><p>Satiríase</p><p>De desejo sexual</p><p>hipoativo</p><p>Sexual devido a uma</p><p>condição médica geral Zoofilia Ninfomania</p><p>Transtorno de aversão</p><p>sexual</p><p>Sexual induzida por</p><p>substância Pedofilia Incesto</p><p>Da excitação sexual Ejaculação precoce Gerontofilia Fetichismo</p><p>Da excitação sexual</p><p>feminina Dispareunia Frotteurismo Masoquismo</p><p>Erétil masculino Vaginismo Exibicionismo Sadismo</p><p>Orgásmicos Aversão sexual Voyeurismo Fetichismo Transvéstico</p><p>Orgásmico feminino Anorgasmia Parafilias Parcialismo</p><p>Orgásmico masculino Disfunção erétil Escatologia telefônica Coprofilia</p><p>De dor Sexual Doenças sexualmente</p><p>transmissíveis Urofilia</p><p>Frigidez</p><p>Clismafilia</p><p>Infertilidade</p><p>57</p><p>O diálogo de ajuda visa o encontro de pessoa com pessoa, cujo foco é a pessoa e não o indiví-</p><p>duo ou seus problemas. Isso significa respeitá-la integralmente, considerar o indivíduo, o problema</p><p>e a pessoa conforme o Triângulo das Bermudas, respeitando o direito e a vontade de a pessoa na-</p><p>vegar em qualquer direção, se aproximar da sua própria experiência e vivência emocional ou não.</p><p>7 - Escatologia Telefônica</p><p>Consiste na excitação e sexo por telefone com um parceiro desavisado e sem consentimento.</p><p>A pessoa com escatologia telefônica experimenta o estado de tensão e início da excitação ante-</p><p>cipadamente ao contato telefônico. A ideia de abordar Outra Pessoa e coagi-la sexualmente por</p><p>telefone lhe é excitante e alucinante. Como em outros estados de vício e dependência, a pessoa</p><p>entra no estado de aceleração e fixação pelo objeto de consumo. Quem recebe seu contato escuta</p><p>enquanto o dependente expõe suas fantasias ou a induz a falar sobre sua atividade sexual. A con-</p><p>versa é acompanhada de masturbação (explícita ou implícita), que tende a ser consumada depois</p><p>que o contato é interrompido.</p><p>Estudos e pesquisa sobre o tema apontam que a Escatologia Telefônica, assim como outros</p><p>vícios, pode evoluir para outra dependência e ou agregar novas formas de dependência ou não,</p><p>como a denominada Cibersexo.</p><p>8 - Cibersexo</p><p>O avanço das tecnologias, a facilidade de acesso à internet e às redes sociais virtuais e digitais</p><p>também trouxe consigo esse tema que vem sendo estudado e pesquisado, no qual as pessoas</p><p>usam de redes interativas, chat, webcam, e-mail, sites e outros meios eletrônicos e virtuais (em</p><p>tempo real ou não), para enviar mensagens obscenas e pornografias, assim como para trocar entre</p><p>si, transmitir e trocar imagens sexualmente explícitas de si ou de outros.</p><p>Um ponto destacado enquanto possível vantagem é o anonimato dos usuários nas salas de</p><p>bate-papo, e na prática do cibersexo, uma vez que também permite desempenhar papeis diferen-</p><p>tes, como, por exemplo, o do sexo oposto, expressar fantasias de travestismo e transexualismo,</p><p>adotar personagens, ter idade diferente da atual, criar perfis falsos, etc.</p><p>Investigações sobre o submundo da Internet (denominado Internet profunda) descobriram que</p><p>se faz presente nesse universo todo o tipo de violência, transtornos, dependências e práticas cri-</p><p>minosas, tais como a pedofilia, a exploração sexual infantil, os abusos sexuais, a violação sexual</p><p>e da privacidade e o anonimato de pessoas (usuários dependentes).</p><p>A alta vulnerabilidade contribui com uma série de desequilíbrios. A pessoa dependente acaba</p><p>por se ver exposta e ter dilacerada sua vida, carreira, família, etc. Pedófilos se utilizam com fre-</p><p>quência da Web, se passando por criança e adolescente, ou adultos amigos, para fazer contato</p><p>com crianças ou adolescentes, conquistam a confiança delas e posteriormente as convencem de</p><p>encontrá-los pessoalmente, sendo então molestadas. Há também casos de adultos vítimas de</p><p>estupro, estelionato e até mesmo homicídios nesse território.</p><p>Há relacionamentos por computador que se transformam em relacionamentos privados e evo-</p><p>luem para o presencial. E, embora haja pessoas que acabam por conquistar e gerar relacionamen-</p><p>tos significativos e genuínos, são mais frequentes os casos de danos, destruições, e encontros</p><p>com decepção e desilusão, em especial nas situações em que se relaciona virtualmente com um</p><p>perfil falso, cuja pessoa real não corresponde com a pessoa fantasiada, podendo gerar a insatisfa-</p><p>ção de expectativas, construções, ideia de perfeição, o sentir-se usado e enganado, em especial</p><p>quando a pessoa que usou de perfil falso teve essa intenção e só se revela no contato presencial.</p><p>58</p><p>9 - Contatos obscenos</p><p>a) Contatos obscenos ou pornográficos, por hábito:</p><p>A pessoa se utiliza normalmente de um linguajar chulo, “palavrões” e obscenidades em sua</p><p>comunicação, o que faz parte do vocabulário dela sem a intencionalidade de agredir, constranger</p><p>ou incomodar.</p><p>• Diretriz: É o típico caso em que basta o voluntário amorosamente e respeitosamente sinalizar</p><p>seus limites, através de uma comunicação compreensiva, sem repreensão ou julgamento, e a pes-</p><p>soa passa se vigiar.</p><p>b) Contatos obscenos ou pornográficos, por agressão:</p><p>Quando os “palavrões” e as obscenidades são usados para agredir o voluntário.</p><p>• Diretriz: Manter a compostura, compreendendo</p><p>tratar-se de um desabafo. Comunicar-se com-</p><p>preensivamente, num movimento de oferta e disponibilidade de ajuda, oferecer a Relação de Aju-</p><p>da. Insistindo a pessoa no desvio de objetivos, assertivamente sinalizar os limites do serviço e sua</p><p>disponibilidade. Insistindo novamente, finalizar com firmeza e calmamente.</p><p>10 - Contatos eróticos:</p><p>a) Exibicionistas:</p><p>O outro demonstra prazer em relatar suas experiências sexuais no passado ou no momento da</p><p>conversa, e busca expressar com riqueza de detalhes o ato sexual, suas fantasias e desejos.</p><p>• Diretriz: comunicar respeitosamente os objetivos do serviço do CVV, e finalizar o contato.</p><p>b) Sedutores:</p><p>O outro procura envolver o voluntário, passando de exibicionista para sedutor, convidando, di-</p><p>reta ou indiretamente, a participação da pessoa do voluntário.</p><p>c) Escatologia Telefônica:</p><p>Transtorno da preferência sexual em que o prazer é obtido ao se dizer obscenidades pelo te-</p><p>lefone ou na masturbação durante o contato telefônico ou após finalizá-lo. O estímulo do prazer</p><p>consiste em envolver um parceiro desavisado e sem o seu consentimento (uma espécie de estupro</p><p>telefônico ou virtual). Trata-se de uma parafilia praticada por homens e mulheres em que durante o</p><p>contato poderá ocorrer ou não a masturbação, e essa, por vezes, se dá ostensivamente, para que</p><p>outro perceba (ato violento revelado - explícito); às vezes discretamente, para confundir (ato violen-</p><p>to velado – implícito). Faz parte do jogo e das fantasias buscar enganar e confundir o outro. Assim,</p><p>no menor sinal implícito ou explícito de que a pessoa do voluntário percebeu suas intenções, ou</p><p>que irá finalizar, é comum a pessoa vitimar-se, desculpar-se, dizer que foi sem querer.</p><p>Ao ter seu contato finalizado pelo voluntário, costuma retornar sequencialmente e dizer que não</p><p>teve a intenção, desculpar-se novamente (no caso daqueles que têm no campo das fantasias o ge-</p><p>rar domínio por culpa e piedade, o deixar o outro confuso), ou agredir, falar mal, ameaçar e ofender</p><p>(no caso daqueles cuja fonte de prazer se dá pela humilhação, medo e opressão da vítima), etc.</p><p>Para as pessoas com essa parafilia, faz parte do jogo e do prazer persuadir, confundir e dominar</p><p>o outro.</p><p>11 - Detalhando Diretrizes:</p><p>a) Escatologia Telefônica ou Cibersexo: O CVV não presta serviço de sexo, e nem está dispo-</p><p>nível para promover espaços e brechas que conduzam à Escatologia Telefônica ou Cibersexo.</p><p>Identificada essa intencionalidade, finaliza-se o contato. Esse é um dever e um compromisso do</p><p>59</p><p>voluntário para com a instituição, com o grupo, com os que precisam do serviço de pronto-socorro</p><p>emocional e prevenção do suicídio, com a sociedade e consigo.</p><p>• Diretriz: comunicar respeitosamente que percebe e respeita a necessidade da pessoa, mas</p><p>não está disponível. Finalizar o contato. Sem longas explicações, mas com firmeza e compostura.</p><p>A pessoa retorna vitimando-se ou agressiva? Fato que a experiência ensinou, e que pesquisas</p><p>e especialistas sobre o tema comprovam, faz parte (embriaguez sexual) do estado compulsivo em</p><p>que se encontra (como um dependente químico alucinado para consumir mais álcool ou a droga).</p><p>Finalizar o contato, com brevidade, firmeza e compostura.</p><p>b) A ajuda com a temática sexual no CVV pode ocorrer por uma infinidade de temas e mo-</p><p>tivações, tais como: identidade de gênero, orientação sexual, dificuldades com a dependência</p><p>sexual, vícios e compulsões sexuais presencial ou virtual, assexualidade, sexo no casamento e</p><p>fora deste (a depender de aspectos culturais, dos valores e do tipo de relação estabelecida entre</p><p>os cônjuges), casamento de fachada para dar margem ao padrão de modelo heterossexual, vida</p><p>dupla (moral e imoral), casamento sem sexo, abuso sexual, violência sexual, estupro, exploração</p><p>sexual, pedofilia, prostituição, conflito entre a orientação e condenação sobre o desejo sexual, o</p><p>sexo antes do casamento ou fora deste, inibição ou proibição sexual frente a crenças e doutrinas,</p><p>gravidez indesejada, gravidez na adolescência, aborto (espontâneo e indesejado, por escolha,</p><p>com culpa e sem culpa), anomalias sexuais, dificuldades com as próprias taras, manias sexuais,</p><p>promiscuidades, homofobia, sadismo, masoquismo, fetichismo, travestismo, exibicionismo, entre</p><p>tantos outros, cuja premissa seja o pronto-socorro emocional e a prevenção do suicídio. A postura</p><p>é a mesma adotada para todas as demais temáticas, tendo o semáforo enquanto suporte.</p><p>c) Diante a ajuda com a temática sexual existe uma linha divisória tênue e ao mesmo tempo</p><p>nitidamente clara, do que é o pronto-socorro emocional e a prevenção do suicídio, do que é apoio</p><p>sexual e sexo por telefone, por computador (virtual, chat, e-mail) ou por correspondência impressa.</p><p>Apresentamos a seguir alguns passos para a melhor qualidade na oferta da ajuda:</p><p>1• O autoconhecimento do voluntário sobre a própria libido, formas de excitação, sua forma</p><p>de vivenciar a sexualidade ou não, de ser sexual ou assexual, dos preconceitos, conceitos e even-</p><p>tuais traumas ligados à temática sexual, é o primeiro passo para melhor se aproximar do outro e</p><p>oferecer a Relação de Ajuda preconizada pelo CVV;</p><p>2• Reconhecer os limites da ajuda e respeitar os limites do serviço;</p><p>3• Aceitar a existência de pessoas que nutrem e que vivenciam de maneira desordenada e</p><p>compulsiva a preferência sexual, fantasias e o sexo por canais como os do serviço do CVV;</p><p>4• Aceitar o que apontam as pesquisas e estudos sobre o tema das parafilias, das disfun-</p><p>ções e dos transtornos sexuais, no campo da Escatologia Telefônica e do Cibersexo (pelo com-</p><p>putador, com uso de e-mail, chat, voip, redes sociais virtuais). Seu prazer consiste em envolver a</p><p>Outra Pessoa sem o conhecimento ou o consentimento dela (no caso do sexo virtual consentido</p><p>entre duas ou mais pessoas, ou entre grupos), e por vezes oscila em escancará-lo ou negá-lo,</p><p>como em outros tipos de parafilias, cujo prazer está no desconhecimento, no não consentimento,</p><p>na dúvida, no desnorteamento e na confusão da vítima (no nosso caso, a pessoa do voluntário);</p><p>5• Reconhecer e respeitar os próprios limites e os limites do CVV. Se de um lado o querer</p><p>demover a pessoa da sua intenção é desrespeito para com ela, por outro concordar com o uso in-</p><p>devido do espaço e canal de serviço do CVV (com ou sem consentimento intencional) é desserviço</p><p>e desrespeito às normas, regras e condutas. A diretriz é clara: o que o outro busca está dentro do</p><p>contexto da Escatologia Telefônica e do Cibersexo? Esclarece, respeita sua necessidade e finaliza</p><p>o contato;</p><p>6• Uma pessoa que sofre com a Escatologia Telefônica ou Cibersexo aborda seu sofrimento</p><p>e desafio em conviver com a situação, num momento em que esteja sóbria e focada em olhar pra</p><p>si, no que no que se passa consigo, suas perdas e danos, desafios, isolamento social, possíveis di-</p><p>60</p><p>ficuldades em vivenciar relações físicas e presenciais, dificuldades nos relacionamentos, etc, sem</p><p>entrar no aspecto prático e detalhado do fato e do ato em si, da prática vivencial dessa parafilia.</p><p>Numa analogia para elucidar a diferenciação, é como uma pessoa alcoólatra ou dependente do</p><p>uso de outras drogas, que procura o CVV e, tendo feito uso da sua dependência (encontra-se alte-</p><p>rada), quer conversar num estado distante da sobriedade e sem condições de discernimento, em</p><p>pleno uso da sua dependência. Da pessoa alcoólatra ou dependente de outras drogas que procura</p><p>o CVV em estado de sobriedade e quer conversar, sobre o vício, sua dependência e danos em sua</p><p>vida, ou outros assuntos, até que tenha coragem e se sinta segura para revelar sua dependência</p><p>(dispensa-se a narrativa detalhada de como ela pega, segura, abre ou fecha a garrafa, usa o copo,</p><p>o tipo de bebida e quantas vezes e de que jeito – ou faz uso da droga e etc.);</p><p>7• Exercitar o discernimento dos propósitos da Relação de Ajuda no CVV e os objetivos do</p><p>serviço prestado, com coragem para modificar o que precisa ser modificado em si, aceitação para</p><p>com o que não é possível modificar (o outro),</p><p>gratuitamente;</p><p>c) Científicos: geralmente integrados por profissionais remunerados - médicos, psicólogos, ad-</p><p>vogados, etc. O “SPC – Suicide Prevention Center”, de Los Angeles, nos Estados Unidos, é um</p><p>9</p><p>deles. Seus profissionais têm contribuído muito para que possamos conhecer um pouco melhor o</p><p>suicídio e suas causas.</p><p>O CVV é um programa de prevenção do suicídio do tipo humanitário, isto é, integrado somente</p><p>por voluntários e que presta serviço gratuitamente. Até mesmo seus consultores, como médicos,</p><p>advogados e psicólogos, atuam voluntariamente.</p><p>6 - O Centro de Valorização da Vida - C.V.V.</p><p>O Centro de Valorização da Vida é uma Organização da Sociedade Civil sem finalidades lucrati-</p><p>vas, de caráter filantrópico, fundada em 1º de março de 1962 como Campanha de Valorização da</p><p>Vida, na cidade de São Paulo, por um grupo inicial de 14 voluntários. Foi registrado como Centro</p><p>de Valorização da Vida em 20 de fevereiro de 1965 e, em 20 de dezembro de 1973, reconhecido</p><p>como Entidade de Utilidade Pública Federal pelo Decreto nº 73.348.</p><p>a) Fase Embrionária</p><p>Em julho de 1961, o jovem Jacques André Conchon, então com 19 anos, é tomado de grande</p><p>emoção ao receber de um amigo, Milton Batista Jardim, um envelope de papel manilha, com a</p><p>informação de que vinha a pedido do “Comandante”.</p><p>O Comandante Edgard Armond foi o idealizador da Escola de Aprendizes do Evangelho, mi-</p><p>nistrada pela Federação Espírita do Estado de São Paulo. Ao abrir o envelope, viu um recorte de</p><p>jornal, com um bilhete manuscrito: “Para quem deseja servir, aqui está uma boa oportunidade”.</p><p>Em anexo, uma matéria sobre o trabalho de prevenção do suicídio realizado na Inglaterra pelo Re-</p><p>verendo Chad Varah.</p><p>Emergiram indagações reflexivas: “Se eles fazem lá, podemos fazer aqui?!... Se é possível pre-</p><p>venir lá, por que não seria aqui? É outra cultura, outro país, podemos adaptar...”.</p><p>Seguia o mês de agosto de 1961 a todo vapor no campo dos Estudos, Pesquisas e Estatísticas,</p><p>com o apoio e orientação do Dr. Ary Alex, médico do HC - Hospital das Clínicas. No final daquele</p><p>mês, ocorreu a apresentação do Esboço da Campanha de Prevenção do suicídio para o “Coman-</p><p>dante”.</p><p>No mês de setembro, depois de sedimentada a ideia de plantões, aconteceu a primeira Mobi-</p><p>lização de Voluntários, e surgiram 30 interessados, dentre esses Flávio Focássio. No mesmo mês</p><p>foi feita a visita ao Hospital das Clínicas, sob a supervisão do Dr. Pedro Augusto Martins, oportuni-</p><p>dade de grande impacto emocional, de reforço à determinação de servir à causa da prevenção do</p><p>suicídio e de contribuir de algum modo para minorar as estatísticas.</p><p>A certeza de que era preciso e possível fazer algo consolidou-se ao contato com as vítimas do</p><p>suicídio, em pleno “calvário de dor”, nos corredores do HC na área dos sobreviventes. Em outubro</p><p>seguiram-se os encontros para preparação do grupo. No primeiro, o conferencista faltou e im-</p><p>provisou-se. No segundo, um efeito desanimador. Após examinar ficha por ficha, o conferencista</p><p>presente balançou a cabeça negativamente no seu parecer: “Você está com um material humano</p><p>fraquíssimo”, disse ele, referindo-se aos candidatos ao voluntariado. De todo modo, o encontro</p><p>trouxe o beneficio da indicação do livro do psiquiatra Karl Menninger: “O Homem Contra Si Pró-</p><p>prio”.</p><p>No terceiro encontro, o palestrante convidado faltou, e houve uma evasão de mais de 50% dos</p><p>candidatos. O encontro seguinte compensou todos os anteriores quando a conferencista da noite,</p><p>a enfermeira Nancy Puhlmann Di Girolamo, afirmou: “A Campanha que hoje vocês iniciam, se, ao</p><p>longo de cem anos, tiver salvado uma vida, uma só, já estará justificada”. A reunião seguinte tam-</p><p>bém foi um incentivo eloquente, com o psiquiatra Wilson Ferreira de Mello: “Dentro de dez anos</p><p>10</p><p>vocês estarão entendendo de desespero e ansiedade mais do que eu”.</p><p>Novembro prosseguiu com a revisão sobre o nome da campanha, com os desenhos de Nelson</p><p>de Oliveira e a preparação para iniciar os plantões. Dezembro surgiu com um desafio que inicial-</p><p>mente pareceu um obstáculo e, mais tarde, compreendeu-se ser um exercício de aceitação e de</p><p>oportunas lições de determinação, perseverança e disciplina. Jacques foi recrutado para o Exérci-</p><p>to. Os jovens continuaram nos caminhos da perseverança no servir por entre os desafios da vida,</p><p>da escola, da faculdade, do trabalho, da sobrevivência, entre tantos outros. No mês de dezembro,</p><p>o grupo decidiu entrar em férias, para o “desespero de alguns”: “Como? Nem começamos e já</p><p>vamos entrar de férias?”</p><p>Uma pausa providencial, denominada de férias, após o conferencista daquele final de ano “jogar</p><p>um balde de água fria no grupo”, justamente ao falar de “Como dar de si – o que é doação afetiva”,</p><p>tema que entusiasmara os interessados em engajar-se. Questionamentos tais como: “Vocês es-</p><p>tão mexendo em casa de vespeiro”, “vocês estão invadindo a seara alheia”, entre outros, soaram</p><p>como desestímulos.</p><p>O mês de janeiro de 1962 foi marcado por intensa dedicação no Exército e no Trabalho. Em fe-</p><p>vereiro, ocorreu a definição do tema para a campanha: com a sugestão de Alice Monteiro, surgia</p><p>a “Campanha de Valorização da Vida”. Começava a convocação dos voluntários, a elaboração do</p><p>MGP – Mapa Geral de Plantão, a definição da estrutura, do local, da administração, etc. Foi dis-</p><p>tribuído o Rol Expressivo de Pensamentos Positivos, com frases tais como: “Amanhã será outro</p><p>dia”, “Após a tempestade vem a bonança”, etc, experiência que na prática durou poucos dias, pois</p><p>rapidamente o grupo percebeu a inadequação de usá-lo durante os atendimentos. No dia 1º de</p><p>março de 1962 aconteceu o primeiro plantão.</p><p>Nos primeiros quatro anos de atividades, o CVV atendeu em uma sala contígua ao consultório</p><p>do Dr. Wilson Ferreira de Mello. Local de grande movimento cuja sala de espera era partilhada,</p><p>quando necessário, com as pessoas que procuravam o CVV. Constatou-se um efeito negativo</p><p>nessas pessoas, desmotivando-as de retornar. Foi então realizada uma campanha financeira entre</p><p>familiares e amigos dos plantonistas, que resultou na compra da sede própria, em julho de 1968. A</p><p>linha telefônica, que na época era muito difícil de ser obtida, foi conseguida através de uma pessoa</p><p>vinculada ao trabalho.</p><p>A conquista da sede própria trouxe ao grupo a segurança para divulgar o serviço de prevenção</p><p>do suicídio, por sentir que estava então capacitado a atender adequadamente a um maior número</p><p>de pessoas. Inicialmente, o CVV buscou, além de contribuir para minorar o índice de suicídios,</p><p>oferecer uma ampla assistência aos que se encontravam em vias de cometê-lo. Focado no proble-</p><p>ma e no indivíduo, oferecia soluções e tinha por objetivo tanto dissuadir a pessoa da ideia suicida,</p><p>como também prepará-la para enfrentar os problemas futuros. O que durou pouco tempo, uma</p><p>vez que o CVV aprendeu com as próprias pessoas em sofrimento que elas buscavam outra coisa:</p><p>queriam falar e ser escutadas, sem interferências ou julgamentos.</p><p>Em 1970, o grupo passou a estabelecer os critérios para uma divulgação cuidadosa do CVV. Em</p><p>1971, começou a expandir a disponibilidade do atendimento, com a criação do Corujão (plantão</p><p>das 22 horas às 7 horas). Em dezembro 1974, estendeu o período de atendimento para 24 horas.</p><p>O Reverendo Chad Varah veio ao Brasil em maio de 1977, transmitindo ao grupo de voluntários</p><p>uma mensagem de confiança que desencadeou o processo de expansão do CVV. Ele retornou em</p><p>abril de 1979 para o 1º Encontro Nacional de Plantonistas, com a presença de 500 participantes.</p><p>b) Atualidade</p><p>I - Programa CVV de Prevenção do suicídio</p><p>Primeira atividade desenvolvida pelo Centro de Valorização da Vida: um serviço gratuito de</p><p>11</p><p>apoio emocional oferecido por voluntários disponíveis para conversar com pessoas em estado de</p><p>angústia, sofrimento, e em necessidade de desabafar por telefone, e-mail, carta, virtual ou pesso-</p><p>almente.</p><p>Também está associado ao Befrienders Worldwide, entidade que congrega instituições de apoio</p><p>emocional e prevenção do suicídio</p><p>e sabedoria para manter-se em sintonia espiritual e</p><p>emocional com o trabalho;</p><p>8• Contar com o grupo e consigo, com o suporte e supervisão dos mais experientes, realizar</p><p>exercícios de vida plena e treinamento de papéis;</p><p>9• CLARIFICAR O CONCEITO: ajuda com a temática sexual no CVV condiz com o pronto-</p><p>socorro emocional e a prevenção do suicídio, através da oferta de apoio emocional à pessoa em</p><p>sofrimento que procura o serviço. Nada tem a ver com sexo por telefone, computador ou qualquer</p><p>outro meio, ou com o escutar detalhes e narrativas sobre o ato sexual;</p><p>10• Permitir e facilitar para que o outro narre e relate o ato e suas fantasias, com ou sem</p><p>envolvimento emocional, afetivo ou sexual num canal do CVV, é desserviço;</p><p>11• Toda pessoa é livre (seja voluntária ou não) para fantasiar, participar ou praticar sexo e</p><p>vivenciar sua sexualidade de modo não criminoso, seja o sexo com contato físico ou não, afetivo,</p><p>espiritual, verbal, mental, por telefone, computador ou qualquer outro canal. Desde que não crimi-</p><p>noso. O que implica na relação com Outra Pessoa capaz, no relacionamento com outro humano</p><p>vivo, requer o consentimento da outra parte, seja da pessoa interessada e disponível ou do profis-</p><p>sional do sexo (que necessariamente precisa ser maior de idade, exercer a profissão com liberda-</p><p>de e prestar o serviço sem coação). Requer, ainda, o uso de outros espaços e serviços propícios</p><p>e destinados a essa finalidade, cujo CVV não se enquadra em nenhuma dessas possibilidades e</p><p>oferta;</p><p>12• Considerar que do mesmo modo que não se estamos imune a drogas, álcool, desvalo-</p><p>res, violências, conflitos afetivos e conjugais, crises existenciais, conflitos nas relações, finanças</p><p>ou profissão, ao suicídio, doenças e depressão, também não estamos dos desafios para com o</p><p>vivenciar de modo saudável e harmônico a sexualidade em nossas vidas, quer sejamos sexuais ou</p><p>assexuais. Ajuda mais o autoconhecimento e a moderação, do que a desonestidade intelectual, o</p><p>moralismo e o falso moralismo, a rigidez e o radicalismo.</p><p>13• O VOLUNTÁRIO E SUA AUTOPERCEPÇÃO: observar as próprias necessidades e fazer</p><p>uso da honestidade intelectual diante da situação - Escatologia Telefônica (telefonemas obsce-</p><p>nos que envolve um parceiro desavisado) ou Cibersexo (sexo virtual) -, é fundamental para com</p><p>o autoconhecimento e o respeito ao espaço e serviço do CVV. É possível que por alguma razão</p><p>inconsciente a situação desperte sensações, a libido, o interesse ou desinteresse do voluntário.</p><p>Identificar e aceitar seus sentimentos, pensamentos e sensações é diferente de nutrir. Dar margem</p><p>e espaço permissivo para que a situação evolua com consentimento e conscientemente é desser-</p><p>viço e desonestidade para com o grupo e a instituição (má conduta), inconscientemente (percebe-</p><p>se que algo mexeu e despertou interesse ou desinteresse e nega-se) é desonestidade intelectual;</p><p>14• APROXIMAÇÃO DE SI COM O TEMA: indagações tais como “Mexe comigo?”, Des-</p><p>perta curiosidade? Enoja? Incomoda? Aciona meu lado moralista? Aciona meu lado libidinoso?</p><p>61</p><p>Deixa-me indignado? Deixa-me excitado? Desperta piedade? Desperta raiva? Sinto desejo de dar</p><p>corda para ver onde vai? Entro em pânico e sinto vontade de finalizar imediatamente? Desperta</p><p>fantasias e desejos em mim, e, quando dou por mim, estou imaginando tudo o que o outro relata?</p><p>Reconheço preconceitos e conceitos em meu sistema de valores na área da sexualidade humana</p><p>e do sexo? Consigo aceitar, compreender, confiar e respeitar a pessoa do indivíduo que diverge</p><p>dos meus ideais e valores? E, finalmente, qual é o foco do serviço do CVV? Onde está o meu foco</p><p>nestes momentos?</p><p>Quando o contato da pessoa se trata de narrativas, partilhas, obscenidades, agressividades,</p><p>busca de sexo com ou sem consentimento, finalizamos o contato e abrimos o canal do CVV para</p><p>pessoas que estejam necessitadas de receber e contar com os seus serviços efetivamente.</p><p>62</p><p>ESTÁGIO 6</p><p>1 - Pessoas agressivas</p><p>a) Tipos de ameaças</p><p>O desabafo por vezes pode se transformar em uma postura agressiva e a Outra Pessoa ameaça</p><p>o voluntário.</p><p>Podem ser assim classificadas:</p><p>• Ameaças diretas: quando a Outra Pessoa, por raiva ou frustração, agride verbalmente ou ame-</p><p>aça agredir;</p><p>• Ameaças indiretas: quando a Outra Pessoa ameaça se agredir ou cometer suicídio;</p><p>• Ameaças durante o apoio pessoal: são situações raras, quando a Outra Pessoa está alcooli-</p><p>zada ou drogada. Quando ocorre no posto, pode se tornar uma situação delicada e tensa para o</p><p>voluntário.</p><p>b) Considerações</p><p>Nos três casos é preciso compreender que geralmente:</p><p>• A agressividade é uma forma de desabafo,</p><p>• A agressão não é dirigida ao voluntário quando este se esforça em respeitá-lo.</p><p>c) Recomendações</p><p>Com essas considerações, é possível compreender o outro. Contudo, o voluntário precisa ado-</p><p>tar duas atitudes corretas:</p><p>• Nunca revidar a agressão;</p><p>• Não se colocar em atitude defensiva.</p><p>Seu comportamento deve ser sempre sereno e firme, aguardando que o outro se acalme e, se</p><p>quiser conversar, apoiá-lo.</p><p>Caso seja impossível continuar a conversa, e o outro continuar agressivo, se a relação for por</p><p>telefone ou virtualmente, pedimos licença e desligamos. Em caso de ser no posto, se o outro não</p><p>aceitar a interrupção para retornar quando estiver melhor, é mais seguro solicitar colaboração po-</p><p>licial, pedindo que atuem com discrição e ajudem à Outra Pessoa.</p><p>2 - Situações drásticas</p><p>Situações drásticas são aquelas em que o voluntário é informado de uma tentativa de suicídio</p><p>em andamento, ou prestes a acontecer, ou que já tenha ocorrido pouco antes.</p><p>Este tipo de apoio poderá ser realizado com segurança, à medida que se organiza e se amplia a</p><p>rede nacional de prevenção do suicídio, por contar com mais instituições envolvidas nessa ajuda.</p><p>A eficácia da rede dependerá sempre da continuidade desta iniciativa por parte dos Postos do</p><p>CVV, em ampliar a rede ao fazer contatos e consumar parceria com outras organizações de pre-</p><p>venção do suicídio e dos serviços de saúde e segurança pública.</p><p>O intercâmbio de informações dos Postos do CVV entre si, e com os demais serviços - princi-</p><p>palmente públicos, poderão melhorar esquema de apoio às pessoas que pensam em cometer o</p><p>suicídio.</p><p>As situações drásticas podem ser classificadas de acordo com quatro tipos de solicitação.</p><p>63</p><p>a) Solicitação de companhia</p><p>Quando a pessoa liga para ter a companhia do voluntário, logo após ter decidido pelo suicídio,</p><p>ou mesmo já tendo iniciado a tentativa.</p><p>É necessário que o voluntário confirme se ela deseja ou não ser socorrida. Isso deve ser feito</p><p>com serenidade e sem insistência. Se ela não quiser o socorro, ele terá que centrar-se nela.</p><p>b) Solicitação de socorro</p><p>– Pela própria pessoa</p><p>Quando, após ter iniciado a tentativa de suicídio, ela liga solicitando socorro, o volun-</p><p>tário deverá solicitar a mesma que acione um serviço de emergência (Bombeiros, Polícia ou</p><p>SAMU).</p><p>– Por terceiros</p><p>Quando alguém solicita ajuda para Outra Pessoa, cuja tentativa de suicídio esteja em andamen-</p><p>to (como vimos no Estágio 2), a pessoa que liga deve ser orientada a pedir apoio à polícia, ou ao</p><p>pronto-socorro ou ao Corpo de Bombeiros.</p><p>c) Quando conduzia ao Posto CVV</p><p>Quando a pessoa é conduzida ao Posto CVV por policiais, seguranças ou outros envolvidos,</p><p>após ser impedida de morrer por suicídio.</p><p>Neste caso, acolhedoramente após se certificar que ela deseja conversar com o CVV, deixá-la à</p><p>vontade, esclarecer-lhe o que é o CVV, e facilitar para que ela opte ou não pela Relação de Ajuda.</p><p>Compete esclarecer que não nos responsabilizamos pela pessoa, deste modo não assinamos</p><p>documentos e formulários de outros Órgãos que levem a pessoa contra a sua vontade ou não ao</p><p>Posto CVV.</p><p>d) Usando o Trote</p><p>As situações drásticas apresentadas acima são propícias a trote, com as ressalvas feitas no</p><p>Estágio 2. Se possível, o voluntário deve solicitar a pessoa que acione o serviço de emergência</p><p>(Polícia, Bombeiros ou SAMU), diretamente.</p><p>As centrais de triagem da PM e os serviços de</p><p>socorro possuem larga experiência nesse tipo de</p><p>situação e poderão ajudar a outra pessoa.</p><p>3 - Personalidade “sociopática”</p><p>a) Conceitos</p><p>Denominam-se distúrbios de personalidade da pessoa certas atitudes marcantes que se repe-</p><p>tem na forma de pensar, sentir e agir. A personalidade usa estas três funções para se relacionar</p><p>com o mundo e as pessoas obedecendo à própria estrutura pessoal, as convenções sociais e</p><p>demandas da vida.</p><p>Assim, passam a ser considerados distúrbios por não estarem congruentes com o comporta-</p><p>mento considerado aceitável pela sociedade. São personalidades muitas vezes imprevisíveis que</p><p>provocam situações difíceis e até destrutivas. Focam esta relação com as pessoas mais próximas,</p><p>amigos, parentes, de convivência esporádica ou um grupo social qualquer.</p><p>O distúrbio de personalidade sociopática se caracteriza pela insensibilidade e pela capacidade</p><p>de fazer sofrer aos outros ou a um grupo social.</p><p>64</p><p>SIMBOLIZAÇÃO DO SER DAS PESSOAS E AS INFLUÊNCIAS DA MANEIRA DE COMPORTAMENTO</p><p>Pessoa</p><p>normal</p><p>Pessoa</p><p>com muito sentimento</p><p>Sociopata</p><p>• Sentimento Nulo</p><p>• Razão Avantajada</p><p>b) Características da personalidade “sociopática”:</p><p>• Comportamento antissocial: desde as pequenas infrações às leis e às normas sociais de con-</p><p>vívio, até os grandes crimes;</p><p>• Comportamento associal: aversão à convivência em grupo;</p><p>• Egocentrismo: baixa capacidade de amar, de ser leal e de estabelecer laços de afetos dura-</p><p>douros;</p><p>• Mentira patológica: são falsos e insinceros e, quando inteligentes, podem enganar durante</p><p>algum tempo muitas pessoas, inclusive profissionais;</p><p>• Agressividade: variável, desde a obstinada e displicente falta de higiene, até o assassinato</p><p>impulsivo e frio. Essa impulsividade é decorrente da grande intolerância à frustração e à inabili-</p><p>dade em planejar. Semelhante à criança que deseja algo e precisa tê-lo imediatamente, uma vez</p><p>que, para ela, o amanhã é palavra destituída de sentido concreto. Se a satisfação imediata for</p><p>impossível pelos meios sociais aceitos, certamente a pessoa fará uso de qualquer outro recurso</p><p>para alcançar seus fins. Sua conduta é caracterizada pelo egoísmo e por sua constante busca do</p><p>prazer imediato;</p><p>• Inocência fingida: pode ludibriar aos que a consideram com arrependimento verdadeiro. Usam</p><p>a mentira: “Eu nunca farei isso novamente, você tem a minha palavra” ;</p><p>• Baixa capacidade de aprender com a experiência: não sentem “realmente” remorso, vergonha</p><p>ou culpa pelos seus atos. A consequência é a repetição incessante do seu comportamento e a</p><p>falência de qualquer tipo de tratamento;</p><p>• Comportamento sexual divergente: manifestam a imaturidade da personalidade, principalmen-</p><p>te a prática de promiscuidade e a prostituição;</p><p>65</p><p>• Vício: drogas em geral, incluindo o alcoolismo.</p><p>• Instabilidade profissional: é uma das características mais frequentes. Os empregos são perdi-</p><p>dos por razões diversas, dentre eles: agressões, inabilidade em ver o conjunto das coisas, atrasos,</p><p>indolência, patifaria... Não conseguem obedecer a qualquer disciplina, programação ou plano de</p><p>vida;</p><p>• Comportamento autodestrutivo: os sociopatas frequentemente atacam o CVV em seu ponto</p><p>mais fraco, ameaçando-os com suicídio. Cometer suicídio não é comum entre eles; entretanto,</p><p>podem apresentar uma incidência média, de tentativas, mais altas. Investigações sobre essas</p><p>tentativas mostram que a manipulação é sua principal finalidade, por exemplo: como evitar o pa-</p><p>gamento de débitos ou procedimentos policiais. Outro exemplo é quando sua atitude é de reter ou</p><p>fazer retornar a esposa que está saindo de casa;</p><p>• Comportamento racional: como em geral são bastante inteligentes e práticos, usam esta ca-</p><p>pacidade enquanto for possível e tiram proveito dela;</p><p>Muitas dessas características, de forma mais ou menos acentuada, são comuns a todas as pes-</p><p>soas e se tornam visíveis em certas circunstâncias. Uma pessoa pode agir de forma sociopática</p><p>diante desta ou daquela situação e adequadamente nas demais. Outra se comporta sociopatica-</p><p>mente na maioria das situações.</p><p>c) Evolução:</p><p>Todas as pessoas possuem capacidade intrínseca de crescimento e amadurecimento. Esse</p><p>processo, contudo, ocorre de forma peculiar em cada um. Em alguns ocorre lentamente e, mesmo</p><p>mais velhos, ainda permanecem infantis. Outros, a despeito de sua baixa capacidade de aprender</p><p>com a experiência, podem na terceira ou quarta década se transformar e tornar-se cidadãos. Há,</p><p>ainda, aqueles que se mantêm equilibrados, apoiando-se nas rígidas estruturas das Forças Arma-</p><p>das, das religiões ou em hospitais repressivos. É importante neste tratamento o aprendizado em</p><p>assumir a própria responsabilidade de seus atos.</p><p>Não é possível ajudar as pessoas quebrando as regras ou infringindo normas do grupo.</p><p>d) Armadilhas típicas do comportamento sociopático:</p><p>O que caracteriza o comportamento do sociopático é sua voracidade afetiva, que o leva a uma</p><p>incessante busca de atenção, e necessidade de repetidas provas de que é amado. Considera</p><p>insuficiente qualquer prova de amor recebido. Daí passa a rejeitar a pessoa e, assim, reinicia nova</p><p>busca.</p><p>Essa atenção tanto pode ser material, como por exemplo, ajuda financeira ou social, quanto</p><p>emocional, como atenção pessoal a qualquer custo, como também piedade, desafio... A necessi-</p><p>dade de desafio é característica do comportamento sociopático e frequentemente torna-se abu-</p><p>sivo.</p><p>Outra particularidade é sua baixa capacidade de amar. Os outros são apenas instrumentos de</p><p>seus desejos e caprichos. Deste modo, alimenta sua permanente “esperança de satisfação futura”.</p><p>Se permitirmos o desenvolvimento desta “esperança” imaginária, seu retorno à realidade pode-</p><p>rá ser desastroso, frustrando-se e liberando sua natureza agressiva, e poderá voltar- se contra si</p><p>mesmo ou contra o voluntário.</p><p>Muitas vezes procura obter o que deseja através de chantagem. Relacionando-se com o CVV,</p><p>fazer ameaça de suicídio é uma atitude esperada. O objetivo é tirar nossa autoridade e estabelecer</p><p>preocupação, remorso e apontar o escândalo que existe até num posto do CVV</p><p>e) Como o sociopata envolve o voluntário:</p><p>De início, obtendo pequenas concessões, pequenos pedidos satisfeitos, diminuindo assim sua</p><p>ansiedade e a do voluntário. Insistindo progressivamente com pedidos mais fúteis, estabelecendo</p><p>um relacionamento dependente entre ambos.</p><p>Seus relatos convincentes e dramáticos de desastres, rejeições, catástrofes, desemprego,</p><p>66</p><p>abandono, dívidas, gravidez, delinquência, alcoolismo, vício em drogas, desvios sexuais, citando</p><p>alguns apenas para exemplificar, são envolventes e o voluntário precisa perceber seus próprios</p><p>sentimentos e reações a estas “histórias tocantes”.</p><p>Nossos cuidados serão de:</p><p>• Observar nossos sentimentos e reações;</p><p>• Impor limites de tempo e frequência a esta relação;</p><p>• Não permitir que nossa disponibilidade a outros seja prejudicada;</p><p>• Manter-se fiel e íntegro com as normas estabelecidas.</p><p>Estas pessoas são especialistas em descobrir falhas no comportamento de grupo. Geralmente</p><p>usam aqueles que dão sinais de insegurança e os novos, com pouca experiência. Certos sociopa-</p><p>tas têm prazer de dividir o grupo e escandalizar e espalhar a discórdia entre todos, especialmente</p><p>em instituições como o CVV.</p><p>Quando seus planos falham, podem criar situações embaraçosas como, por exemplo, tentar</p><p>obrigar o voluntário a usar a força ou chamar a polícia, para que depois possa dizer que “O CVV,</p><p>não é tudo, o que dizem ser”.</p><p>Há outros métodos que usam para prejudicar e sabotar o trabalho:</p><p>• Contatos repetidos e longos;</p><p>• Trotes verdadeiros, com intuito de provocar ansiedade no voluntário e dificuldades para a or-</p><p>ganização.</p><p>A melhor atitude sempre é: neutralidade e firmeza. O menor sinal de irritação alimenta sua in-</p><p>tenção destrutiva. Assim, é necessário usar o conhecimento e cumprimento das normas e combi-</p><p>nados com o grupo e a instituição.</p><p>Um tipo comum adotado por estas pessoas é o “pobre coitado”- uma pessoa inadequada que</p><p>traz problemas sociais diversos, problemas</p><p>financeiros, entre outros, e que frequenta assiduamen-</p><p>te o Plantão. Não se pode permitir que prejudique os outros atendimentos. Deve ser atendido com</p><p>atenção e gentileza, com firmeza e, se for o caso, ser encaminhado a serviços de socorro social ou</p><p>psicológico disponíveis. Essas pessoas são manipuladoras, raramente entram na crise de suicídio.</p><p>4 - Pessoas que contatam repetidamente ou procuram o CVV com assidu-</p><p>idade</p><p>a) Motivos</p><p>– Necessidade mais tempo para superar a crise</p><p>À medida que ela for sendo superada, a frequência dos contatos tenderá a diminuir, até a com-</p><p>pleta independência da pessoa.</p><p>– Dependência do CVV ou do voluntário</p><p>A Relação de Ajuda não está se processando, por dificuldade do outro ou do próprio voluntário.</p><p>b) Consequências</p><p>Essas situações poderão causar transtornos ao voluntário e ao trabalho:</p><p>– Perda da disponibilidade</p><p>Por acreditar que ouvirá agora, neste Plantão, “as mesmas coisas” que ouviu no plantão ante-</p><p>rior, o voluntário pode deixar de acolher e compreender o outro com o calor humano necessário.</p><p>– Desmotivação</p><p>O voluntário pode sentir-se inútil e fazer seu Plantão como dever, para não sair do CVV.</p><p>c) Providências e recomendações:</p><p>Para readquirir disponibilidade e motivação, o voluntário precisa buscar a ajuda dos mais expe-</p><p>rientes e dedicar-se ao treinamento em seu grupo, procurando utilizá-lo para aperfeiçoamento da</p><p>sua capacidade e melhora da qualidade do trabalho.</p><p>67</p><p>Algumas dessas situações são difíceis para todos, principalmente as que são consequências de</p><p>erros cometidos por nós próprios.</p><p>Para desfazer a relação de dependência, é necessário centrar nossa atenção na pessoa. Por</p><p>vezes pode ser difícil. Lembremos que o outro está em primeiro lugar e que no trabalho não culti-</p><p>vamos interesses pessoais.</p><p>5 - Pessoas que sofrem de transtornos mentais</p><p>Algumas pessoas que procuram o plantão sofrem de transtornos mentais. A maioria passa des-</p><p>percebida, ou porque os sintomas não são aparentes, são leves, ou por essas pessoas estarem</p><p>seguindo tratamento. Preocupar-se com as causas da pessoa estar nesta situação, além de não</p><p>ajudar, dificulta a Relação de Ajuda.</p><p>As diretrizes e orientações básicas deste Manual são aplicáveis em todas as circunstâncias.</p><p>Respeitamos e compreendemos a pessoa com seus problemas, e nosso esforço é dirigir toda a</p><p>atenção para ela.</p><p>68</p><p>OS SETE PRINCÍPIOS</p><p>1 - O objetivo primordial do CVV é estar disponível para prestar apoio emo-</p><p>cional às pessoas que estão se sentindo propensas ou determinadas a prati-</p><p>carem o suicídio (pronto-socorro).</p><p>2 - Os voluntários também procuram aliviar o sofrimento, a angústia, o</p><p>desespero e a depressão, ouvindo e oferecendo apoio àqueles que sentem não</p><p>haver ninguém disponível para aceitá-los e/ou compreendê-los. (prevenção).</p><p>3 - A pessoa que faz contato com o CVV terá respeitado o seu direito à</p><p>liberdade de tomar suas próprias decisões, inclusive a de suicídio, a de romper</p><p>o contato a qualquer momento e a de permanecer no anonimato (confiança na</p><p>tendência construtiva).</p><p>4 - O fato de uma pessoa ter procurado o apoio oferecido pelo CVV, bem</p><p>como tudo o que tenha dito e possa identificá-la, é completamente confidencial</p><p>e sigiloso, permanecendo restrito ao próprio voluntário e, excepcionalmente, à</p><p>coordenação, quando estiverem em risco os princípios e a segurança do tra-</p><p>balho ou de qualquer pessoa (sigilo).</p><p>5 - Quando o apoio solicitado for além do que o CVV está disponível e</p><p>preparado para oferecer, a pessoa será esclarecida sobre os objetivos do tra-</p><p>balho (limites do voluntário, do grupo e do CVV).</p><p>6 - Os voluntários, no trabalho de apoio aos que procuram o CVV, são por</p><p>sua vez, apoiados e orientados pelos demais, especialmente os mais experien-</p><p>tes, e os que integram a Coordenação (trabalho centrado no grupo).</p><p>7 - O CVV é um serviço humanitário desenvolvido por voluntários, sem fins</p><p>partidários e doutrinários. Os voluntários jamais tentarão influenciar ou impor</p><p>suas próprias convicções, quaisquer que sejam, àqueles que procuram o CVV</p><p>(respeito).</p><p>69</p><p>1 - Os voluntários são cuidadosamente selecionados por suas qualidades</p><p>pessoais e aptidões naturais para o trabalho. Os processos de aperfeiçoa-</p><p>mento individual do voluntário e da sua prática, e de integração às demais ati-</p><p>vidades do CVV, são objetos de atenção e empenho permanentes (seleção e</p><p>desenvolvimento).</p><p>2 - Os voluntários estão integrados à Rede de Serviços do CVV, que perma-</p><p>nece em atividade ininterrupta, durante 24 horas, todos os dias do ano, podendo</p><p>ser contatada por telefone, atendimento pessoal, correspondência impressa e</p><p>eletrônica, chat, virtual, ações com a comunidade, e outros meios (disponibili-</p><p>dade do serviço - material).</p><p>3 - Quando a pessoa que procura o CVV encontra-se propensa ou determi-</p><p>nada a praticar o suicídio, ela obtém integral disponibilidade dos voluntários,</p><p>durante o tempo que for necessário (disponibilidade do voluntário – interna -</p><p>voltada ao objetivo primordial).</p><p>4 - O apoio às pessoas nas demais situações é oferecido com idêntica dis-</p><p>ponibilidade, apenas sofrendo restrições se houver comprometimento do obje-</p><p>tivo primordial do CVV, a critério da coordenação (restrições à disponibilidade).</p><p>5 - Os voluntários não interferem na vida das pessoas que não pediram aju-</p><p>da diretamente ao CVV. Contudo, oferecem também o seu apoio e esclarecem</p><p>àqueles que estão preocupados com o bem-estar delas (não interferência).</p><p>6 - O voluntário é normalmente conhecido pelo seu primeiro nome. Os</p><p>contatos feitos por aqueles que procuram o CVV são realizados exclusivamen-</p><p>te através dos canais de ajuda, de forma a manter o anonimato do voluntário</p><p>(anonimato do voluntário).</p><p>7 - Os voluntários desenvolvem suas atividades observando as normas do</p><p>CVV, Serviço ao qual estejam integrados (POSTO, WEB, VIRTUAL, COMUNIDA-</p><p>DE), que por sua vez está integrado a uma Regional ou Coordenação Colegia-</p><p>da, e esta às demais, visando manter a unidade dos Princípios, das Práticas e</p><p>das diretrizes do CVV (unidade de princípios, práticas e normas básicas).</p><p>AS SETE PRÁTICAS</p><p>70</p><p>ADMINISTRAÇÃO</p><p>I. O Manual do Programa CVV</p><p>Além do Manual do Voluntário, o CVV dispõe de outros manuais específicos. Um deles é o Ma-</p><p>nual do Programa CVV, cujo objetivo é buscar a unidade do trabalho desenvolvido abordando as</p><p>questões administrativas.</p><p>II. Filosofia e fundamentos da administração</p><p>1. Filosofia da administração</p><p>Talvez o significado mais marcante do nosso trabalho e de maior alcance futuro seja simples-</p><p>mente o nosso modo de ser e agir enquanto equipe.</p><p>Criar um ambiente onde o poder é compartilhado, as pessoas e os grupos são vistos como dig-</p><p>nos de confiança e competentes para enfrentar os problemas: tudo isso é inédito na vida comum.</p><p>Nossas escolas, nossos governos e negócios estão permeados da visão de que não se pode</p><p>confiar nem num indivíduo, nem em um grupo, o que justifica o poder que exercem sobre eles para</p><p>controlá-los. O sistema hierárquico faz parte da nossa cultura, bem como o paradigma de que a</p><p>essência das pessoas é perigosa e, por esse motivo, elas precisam ser controladas, guiadas e</p><p>ensinadas.</p><p>Contudo, nossa experiência — e não estamos sozinhos nela — tem demonstrado que existe</p><p>uma outra forma de compreender o ser humano muito mais eficiente e construtiva para o indiví-</p><p>duo e a sociedade. Segundo o ponto de vista do Programa CVV, havendo um clima psicológico</p><p>adequado, o indivíduo e os grupos são dignos de confiança, criativos, automotivados, poderosos,</p><p>construtivos e capazes de realizar potencialidades jamais imaginadas.</p><p>2. Fundamentos da Direção Centrada no Grupo</p><p>O modelo de administração com Direção Centrada no Grupo é o modelo sobre o qual está ba-</p><p>seada toda a administração dos Serviços do Programa CVV.</p><p>A administração se caracteriza pela valorização dos grupos e pela confiança em sua vitalidade,</p><p>e o processo de decisão deve iniciar pela participação de todos.</p><p>É, portanto, também uma busca permanente de formas e conteúdos organizativos que dão ao</p><p>CVV um dinamismo</p><p>incomum na nossa sociedade.</p><p>III. O Centro de Valorização da Vida</p><p>Pessoa que</p><p>procura apoio</p><p>Voluntário do</p><p>Programa CVV</p><p>Programa de</p><p>Saúde Mental</p><p>Hospital Ambulatório</p><p>Residências Terapêuticas</p><p>Diretoria do Programa</p><p>de Saúde Mental</p><p>Eixos de Apoio</p><p>Diretoria Executiva</p><p>Conselho Curador</p><p>e Assembleia Geral</p><p>Conselhos Fiscal</p><p>e Consultivo</p><p>Posto, Web, Virtual</p><p>e Comunidade</p><p>Diretoria do Programa</p><p>de Apoio Emocional</p><p>Grupos/ Comissões</p><p>Grupo Executivo Local</p><p>GE Regional</p><p>GE Nacional</p><p>72</p><p>IV. Serviços do Programa de Apoio Emocional do CVV</p><p>1. CVV Postos</p><p>Tem por objetivo instalar e manter Postos físicos nas principais capitais e cidades do país.</p><p>a) Inicio das atividades no dia 1º de março de 1962, na cidade de São Paulo.</p><p>b) A maior parte do trabalho de apoio é realizada telefonicamente. Também é possível realizar</p><p>apoios pessoais, por e-mail e por carta. Os voluntários também podem se inserir nos demais ser-</p><p>viços: Web, Virtual, e Comunidade.</p><p>2. CVV Web</p><p>Tem como meta adequar-se aos meios de comunicação mais modernos e atingir o público jo-</p><p>vem.</p><p>a) Início das atividades em outubro de 2008.</p><p>b) As pessoas acessam o chat através do site do CVV: http://www.cvv.org.br</p><p>c) O apoio é realizado pelo voluntário diretamente de sua casa através de um programa insta-</p><p>lado em seu computador. A senha para acessar o site é liberada para os voluntários no início das</p><p>atividades e é cancelada quando deixam de participar do serviço.</p><p>3. CVV Virtual</p><p>Tem a meta de realizar apoios por voz através da internet e implementar a atuação do voluntário</p><p>fora do posto, principalmente em locais em que inexiste um posto físico, atendendo pessoas que</p><p>preferem utilizar a internet.</p><p>a) Início das atividades no dia 15 de outubro de 2010.</p><p>b) Utiliza o aplicativo Skype (gratuito).</p><p>c) Alguns Postos físicos disponibilizam o equipamento necessário para que os seus voluntários</p><p>realizem apoios também via Skype.</p><p>d) O treinamento e a capacitação dos voluntários são realizados através da sala virtual ofertada</p><p>pelo MEC. As reuniões e cursos também acontecem nesta sala privativa do CVV.</p><p>4. CVV Comunidade</p><p>Tem por objetivo compartilhar com a comunidade a proposta de vida do CVV, oferecendo de-</p><p>senvolvimento pessoal, e prestar apoio às pessoas no local onde se encontram.</p><p>a) Início das atividades em 2012.</p><p>b) Disponibiliza as seguintes atividades:</p><p>• Caminho de Renovação Continua – CRC</p><p>• Cine SER CVV</p><p>• Curso Caminho de Valorização da Vida</p><p>• Curso de Escutatória</p><p>• Palestras de Proposta de Vida</p><p>• Semana de Valorização da Vida</p><p>• Participações em eventos na comunidade (SIPAT, Multiação, etc.)</p><p>• CVV GASS – Grupo de Apoio de Sobreviventes de Suicídio</p><p>c) É ainda um programa de apoio indo ao encontro das pessoas com necessidade de ajuda</p><p>emocional ou que estejam em situação de risco, ajudando-as a lidar com suas realidades cotidia-</p><p>nas e inesperadas em qualquer lugar da comunidade.</p><p>73</p><p>Capítulo 1 - Denominação e finalidades</p><p>Art. 1° - O Centro de Valorização da Vida é uma sociedade civil, sem fins lucrativos, fundada</p><p>em 1962, sediada na cidade de São José dos Campos, estado de São Paulo, na Estrada Dr. Be-</p><p>zerra de Menezes, 700 – CEP 12.229-380, declarada de utilidade pública pelo Decreto Federal n°</p><p>73.348, de 20/12/73.</p><p>§ 1° - Para alcançar os seus objetivos, o Centro de Valorização da Vida possui várias diretorias</p><p>dentre as quais se destaca a Diretoria do Programa de Apoio Emocional.</p><p>§ 2° - A Diretoria do Programa de Apoio Emocional do CVV tem por finalidade o desenvolvi-</p><p>mento do Programa CVV de Apoio Emocional e Prevenção do Suicídio através dos Serviços: CVV</p><p>Postos, CVV Web, CVV Virtual e CVV Comunidade.</p><p>§ 3° - A coordenação de todos os trabalhos atinentes ao Programa de Apoio Emocional do CVV</p><p>é da responsabilidade do Diretor do Centro de Valorização da Vida, eleito para a Diretoria do Pro-</p><p>grama de Apoio Emocional do CVV e designado como Diretor do Programa de Apoio Emocional</p><p>do CVV.</p><p>§ 4° - As marcas de serviço nominativas CVV, Posto Samaritano, Centro Samaritano, CVV-Sa-</p><p>maritanos e seus homófonos, e a mista (logotipo CVV), são de propriedade do Centro de Valoriza-</p><p>ção da Vida para todo o território nacional.</p><p>Capítulo II - Serviços, Postos e Regionais do Programa de Apoio Emocional do CVV.</p><p>Art. 2° - Denominam-se Serviço e Posto CVV todo núcleo de prevenção do suicídio que funcione</p><p>dentro das normas deste Regimento.</p><p>§ 1º - Os Serviços e os Postos, por serem tão somente executores de um programa de trabalho</p><p>desenvolvido dentro de normas elaboradas com a experiência do Centro de Valorização da Vida,</p><p>não poderão ter personalidade jurídica.</p><p>§ 2° - Os Serviços e os Postos funcionarão sempre sob a cobertura de pessoas jurídicas.</p><p>§ 3° - No caso de fundação de uma entidade para dar cobertura jurídica aos Serviços e Postos,</p><p>esta não poderá usar em sua denominação social as marcas de serviço citados no Art. 1º, § 4.</p><p>Art. 3° - Denomina-se Posto Líder Regional ao Posto CVV eleito, para esta finalidade, pelos de-</p><p>mais Postos CVV da Região.</p><p>§ único - A autorização de uso da marca CVV será concedida pelo Centro de Valorização da Vida</p><p>aos Serviços e ao Posto Líder Regional através da sua Pessoa Jurídica mantenedora, e por esta</p><p>aos demais Postos da Região.</p><p>Art. 4° - Caso o Serviço ou o Posto, pelo seu Grupo Executivo referendado pela pessoa jurídica,</p><p>decidir não mais pautar o seu trabalho de modo estrito por este Regimento, o mesmo se com-</p><p>promete e se obriga a não utilizar as marcas de serviço e o logotipo citados no Art. 1º, § 4°, de tal</p><p>modo que, ocorrendo o inadimplemento desta obrigação, a pessoa jurídica será notificada para</p><p>tal cometimento, sob pena de responderem os seus dirigentes às penalidades judiciais cabíveis.</p><p>§ único - Do mesmo modo, se, ocorrendo à cassação do credenciado, a pessoa jurídica conti-</p><p>nuar utilizando os dísticos aludidos depois de notificada, responderão os seus dirigentes às pena-</p><p>lidades cabíveis.</p><p>REGIMENTO INTERNO DO PROGRAMA</p><p>CVV APOIO EMOCIONAL</p><p>74</p><p>Capítulo III - Atividades desenvolvidas e coordenação</p><p>Art. 5 - As atividades dos Serviços e dos Postos CVV e sua coordenação estão subordinadas</p><p>ao texto do documento “Princípios e Práticas” e aos “Manuais do Programa CVV e do Voluntário”.</p><p>§ único - Os casos omissos ou que ensejarem dúvidas serão resolvidos ou esclarecidos pelo</p><p>Grupo Executivo Nacional e pelo Conselho Nacional e referendados pela Diretoria do Programa de</p><p>Apoio Emocional do Centro de Valorização da Vida.</p><p>em todo o mundo.</p><p>Presta, atualmente, os seguintes serviços:</p><p>1. CVV Posto, com postos nas principais capitais e cidades do país, com atendimento por te-</p><p>lefone 24 horas através do 188, além de oferecer apoio emocional por e-mail, carta e presencial.</p><p>Ainda promove e participa de ações comunitárias, palestras e eventos em prol da sociedade;</p><p>2. CVV Comunidade, com voluntários integrados aos postos CVV ou não, que prestam apoio a</p><p>grupos diversos da sociedade, tais como presidiários, associações de bairro, empresas, escolas,</p><p>faculdades, universidades e sobreviventes de suicídio por meio do GASS - Grupo de Apoio aos</p><p>Sobreviventes de Suicídio. Realiza palestras, sessões de Cine Ser, Cursos e o programa Caminho</p><p>da Renovação Contínua – CRC, cuja finalidade é divulgar e propagar a Proposta de Vida do CVV;</p><p>3. CVV WEB, com voluntários vinculados aos Postos CVV ou não. Realizam os apoios por chat</p><p>online, de seus computadores ou celulares pessoais, em sala virtual privativa do CVV;</p><p>4. CVV Virtual, com voluntários vinculados aos Postos CVV ou não. Realizam os apoios através</p><p>da chamada de Voz por IP de seus computadores ou celulares pessoais, em sala virtual privativa</p><p>do CVV.</p><p>II - Hospital Francisca Júlia</p><p>Fundado em 1º de maio de 1968, iniciou suas atividades na cidade de São José dos Campos</p><p>(SP) em 12 de agosto de 1972. Atende pessoas com transtornos mentais e dependentes químicos</p><p>através de leitos de internação, em convênio com o SUS, e também particulares. Além do hospital,</p><p>oferece atendimento de ambulatórios infantil e adulto, e Serviços Residenciais Terapêuticos.</p><p>O Centro de Valorização da Vida também promoveu e viabilizou a introdução do Programa Ami-</p><p>gos do Zippy no Brasil, para crianças de seis a sete anos de idade. Esse programa teve origem</p><p>na Inglaterra com uma equipe internacional e multidisciplinar sob a coordenação do Befrienders</p><p>Worldwide. O objetivo é desenvolver as capacidades das crianças para lidar com as dificuldades</p><p>delas do dia-a-dia, identificar e conversar sobre sentimentos e lidar com eles.</p><p>A exemplo do que ocorreu na Inglaterra, onde foi fundada uma organização independente e es-</p><p>pecífica (PFC – Partnership for Children) para cuidar de programas de desenvolvimento de habili-</p><p>dades socioemocionais, no Brasil, após a aprovação da fase experimental coordenada e represen-</p><p>tada pelo CVV, o programa estrategicamente ganhou independência. Para tal, foi fundada a ASEC</p><p>– Associação pela Saúde Emocional de Crianças, para trazer e desenvolver programas e capacitar</p><p>educadores em escolas públicas e particulares. É ela hoje quem administra e representa o progra-</p><p>ma Amigos do Zippy, mantendo-se o espírito de parceria e interação entre ambas as Organizações</p><p>(CVV e ASEC). A ASEC e a PFC trabalham com uma estrutura constituída por profissionais.</p><p>7 - Os Postos CVV</p><p>O CVV coloca-se à disposição de grupos de pessoas que voluntariamente queiram instalar</p><p>um ou mais Postos de Prevenção do Suicídio em sua cidade e região. Para facilitar e viabilizar a</p><p>sustentabilidade, o Posto funciona como Franquia Social, o que exige a existência de uma man-</p><p>tenedora que o represente localmente dentro da sua área de abrangência, responsável por sua</p><p>representação jurídica. A criação da mantenedora visa cuidar e garantir o respeito e o cumprimento</p><p>12</p><p>da legislação em vigor referente ao território de abrangência, as regras, as normas, os princípios,</p><p>as práticas, os preceitos e as orientações do Programa CVV e de funcionamento da Rede CVV.</p><p>Ao grupo interessado serão fornecidas todas as informações sobre como constituir essa asso-</p><p>ciação, obrigações civis e legais, regimento interno, custos, hierarquia administrativa e organiza-</p><p>cional, e outras que forem necessárias.</p><p>Um traço fundamental do CVV é a atuação como grupo de amigos a serviço das pessoas, pois</p><p>somente dessa forma é possível alcançar resultados duradouros.</p><p>A Direção Centrada no Grupo é o modelo sobre o qual está baseada toda a vida organizativa</p><p>do CVV. As funções são executadas por membros diferentes, conforme as habilidades específicas</p><p>exigidas pelas diferentes situações, e sempre centradas no grupo ao qual pertence. O que significa</p><p>intrinsicamente estar centrado no Trabalho e no Serviço (ideal existencial que nos torna grupo e</p><p>rede).</p><p>O grupo interessado na constituição do Posto CVV deve observar as etapas descritas a seguir:</p><p>a) Informar ao Posto Coordenador Regional;</p><p>b) Fundar uma Associação Civil, a Mantenedora, sem fins lucrativos, para desempenhar a fun-</p><p>ção de Personalidade Jurídica do Posto e registrá-la no cartório local, juntamente com o Estatuto</p><p>da entidade e outros documentos necessários;</p><p>c) Providenciar local e infraestrutura necessária para funcionamento do Posto (exemplo: equipa-</p><p>mentos para o atendimento e conexão banda-larga);</p><p>d) Iniciar a divulgação para a realização de um Curso de Seleção de Voluntários;</p><p>e) Eleger a coordenação do Posto, responsável para estar em contato com a regional e tratar</p><p>das atividades diárias.</p><p>8 - Organização dos Postos CVV</p><p>Dentro de cada Posto, os voluntários estão organizados em pequenos grupos, coordenado por</p><p>um entre eles, mais experiente, que esteja disponível para prestar apoio e esclarecimento sempre</p><p>que os voluntários necessitarem.</p><p>A equipe composta pelas Coordenações de Grupos constitui o Grupo Executivo daquele Posto,</p><p>que possui uma Coordenação Geral nomeada anualmente.</p><p>Os Postos estão agrupados em Regionais, para estimular o desenvolvimento de atividades vol-</p><p>tadas ao aperfeiçoamento constante dos voluntários.</p><p>As deliberações atinentes ao Programa CVV de Prevenção do Suicídio são da alçada do Grupo</p><p>Executivo Nacional, constituído pelas Coordenações Regionais de todo o País.</p><p>A reunião de todas as Coordenações de Postos do Brasil constitui o Conselho Nacional, órgão</p><p>soberano do CVV, que tem por objetivo desenvolver estudos e referendar as deliberações do Gru-</p><p>po Executivo Nacional.</p><p>13</p><p>a) Estrutura Administrativa do CVV</p><p>CVV</p><p>Programa de Prevenção do Suicídio</p><p>Conselho Nacional</p><p>GEN</p><p>Coordenações Regionais</p><p>Mantenedora Postos do CVV</p><p>Grupo Executivo Local</p><p>Comissões Coordenação</p><p>Geral do Posto</p><p>Grupos</p><p>14</p><p>9 - O Programa de Seleção de Voluntários (PSV)</p><p>O curso - o PSV - é constituído de quatro temas (parte teórica), 8 a 11 estágios e a aula admi-</p><p>nistrativa, totalizando no mínimo 9 encontros e no máximo 12 encontros (parte prática). Ao concluir</p><p>o conjunto dos temas com aproveitamento, o candidato passa aos estágios. Nessa etapa, terá</p><p>oportunidade de adquirir familiaridade com as situações do cotidiano do CVV e dos atendimen-</p><p>tos, no caso de plantonistas, vivenciando o período institucionalmente nomeado de probatório.</p><p>Posteriormente à admissão, entre 90 e 120 dias, os candidatos ao voluntariado CVV participam</p><p>da aula de reforço, que finaliza o período probatório, e credencia oficialmente a pessoa enquanto</p><p>voluntária CVV.</p><p>O PSV engloba metodologias e métodos diferenciados relativos aos serviços oferecidos: Tele-</p><p>fone, Apoio pessoal, Chat, Virtual, E-mail e Comunidade. Há pontos específicos e diferenciados</p><p>entre os serviços (presencial, virtual e misto), bem como regras, normas administrativas, compro-</p><p>missos observados a cada modalidade, função a ser exercida e gestão interdependentes. Ora,</p><p>contudo, a essência do conteúdo - filosofia, princípios, práticas, preceitos, missão, visão, valores e</p><p>proposta de vida - é a mesma para todos os Serviços CVV, para todos os que desejam engajar-se</p><p>no Voluntariado e Rede CVV.</p><p>O detalhamento, etapas e fases do PSV podem e devem ser observados nas Apostilas e Manu-</p><p>ais específicos sobre o tema.</p><p>O PSV seleciona o potencial voluntário, mas o caminho formativo e de desenvolvimento se faz</p><p>através da experiência vivencial, da participação nas oportunidades de estudos, tais como: reuni-</p><p>ões, treinamentos, exercícios, leituras edificantes, encontros, cursos, seminários, reciclagens, etc.</p><p>Institucionalmente, o CVV se preocupa e cuida do desenvolvimento e fortalecimento do voluntá-</p><p>rio, no exercício</p><p>do voluntariado e enquanto pessoa, através de inúmeras ofertas e possibilidades</p><p>para seu autoconhecimento, maturidade emocional e espiritual, com o trabalho, com o serviço e</p><p>com a vida, com oportunidades e com momentos de estudos, além da supervisão, do apoio e do</p><p>suporte dos mais experientes. É um processo cíclico, em que o engajamento e o compromisso</p><p>pessoal são diferenciais na jornada do tornar-se pessoa e grupo, e melhor servir.</p><p>10 - Elementos essenciais do trabalho</p><p>São três os elementos necessários ao funcionamento dos postos:</p><p>I - O voluntário</p><p>É a pessoa com disponibilidade interior para acolher, ouvir, respeitar e compreender as pessoas</p><p>angustiadas que procuram o CVV.</p><p>Ela deve estar disposta a adquirir ou aperfeiçoar as seguintes características básicas:</p><p>a) Flexibilidade: capacidade de deixar o seu ponto de vista e se aproximar do outro com since-</p><p>ridade e honestidade;</p><p>b) Não sectarismo: não induzir para religião, política ou qualquer outro caminho;</p><p>c) Disponibilidade para superar as dificuldades pessoais: os seus preconceitos e medos para</p><p>aprender a estar junto com a pessoa;</p><p>d) Humildade para reconhecer sua limitação e esforço para se colocar à mesma altura daquele</p><p>que está se relacionando com ele;</p><p>e) Abertura para Supervisão e Aprimoramento Humano: abertura à opinião, suporte, supervisão</p><p>e orientação na prestação do serviço; confraternizar e treinar sempre para melhor ser e servir.</p><p>II - A infraestrutura</p><p>15</p><p>O local deve ser simples, acolhedor, sóbrio e silencioso, que se permita conversar sem dificul-</p><p>dade, garantindo sempre a privacidade e o sigilo.</p><p>O equipamento necessário e suficiente para que se realize uma ou mais das formas de apoio:</p><p>a) Telefone com recursos para acessar o PABX virtual 188;</p><p>b) E-mail;</p><p>c) Chat;</p><p>d) Virtual;</p><p>e) Presencial;</p><p>f) Carta;</p><p>g) Comunidade.</p><p>Todos os apoios são sigilosos e com respeito total à privacidade da pessoa. Esta é uma essên-</p><p>cia do CVV. Nenhuma informação é revelada a ninguém fora do CVV sem a permissão da pessoa</p><p>que procura ajuda. O voluntário, antes de começar a trabalhar no CVV, assume um compromisso</p><p>de seguir as regras do trabalho e manter sempre atitude de confidencialidade, tanto durante o seu</p><p>tempo de serviço, quanto depois de deixar o CVV. Todos os assuntos com imprensa, advogados,</p><p>polícia e outras agências são encaminhados à Coordenação ou ao Voluntário responsável pela</p><p>área de Comunicação e Administração do Programa em referência.</p><p>III - A divulgação</p><p>Necessária para que outras pessoas, em busca de apoio ou candidatas ao voluntariado, conhe-</p><p>çam o serviço do CVV e as oportunidades de trabalho voluntário.</p><p>16</p><p>TEMA 2</p><p>A PESSOA QUE PROCURA O CVV</p><p>1 - Motivações profundas</p><p>A área de telecomunicações trouxe avanços e benefícios incontestáveis à sociedade. A difusão</p><p>em massa e a presença cada vez mais constante nas empresas, no ambiente de trabalho, na rua,</p><p>no cotidiano das pessoas e, sobretudo, nos lares minimizou a relação de proximidade física. A</p><p>televisão, o rádio, o computador, o celular, a Internet e a palavra escrita (jornais, revistas, blogs)</p><p>passaram a ocupar também espaços e momentos mais exclusivos que reservamos para dialogar</p><p>conosco mesmos.</p><p>Assim, longe da palavra do outro e, sobretudo, da presença do outro, por vezes nos sentimos</p><p>mergulhados na solidão, embora no meio da multidão. Quando não encontramos espaço para o</p><p>sentir, nos revestimos de certa frieza para não sucumbir às pressões a que estamos submetidos.</p><p>Nem todos conseguem sobreviver na solidão do próprio mundo interior, onde nos refugiamos</p><p>no esforço de fugir ao peso esmagador das exigências da vida objetiva. Muitas vezes esse mundo</p><p>interior seca, o sentimento diminui, e surgem, então, o vazio dilacerante e desesperador, a angústia</p><p>e o desejo de destruição do outro e de nós mesmos.</p><p>O gesto de uma pessoa vir em busca do CVV pode ser uma tentativa de romper a solidão, sain-</p><p>do de si mesma à procura de outro ser humano.</p><p>2 - A pessoa que pensa em suicídio</p><p>A pessoa que pensa em suicídio é uma pessoa solitária. Ela pode estar no meio de uma grande</p><p>multidão ou de uma grande família, mas sente-se só, isolada. Tentou comunicar-se com muita gen-</p><p>te, mas essa gente toda não a atendeu, não se dispôs a ouvi-la. Logo, o suicídio pode ser encarado</p><p>como um gesto de comunicação. O último gesto de comunicação de um indivíduo; gesto deses-</p><p>perado e violento, mas que, no fundo, comunica alguma coisa para alguém ou para a sociedade.</p><p>Embora, à primeira vista, se tenha a impressão de que o gesto suicida surge repentinamente,</p><p>isso nem sempre é correto. Às vezes, é necessário passar longo tempo de sofrimento, até que o</p><p>desejo de morrer supere o forte impulso para a vida que todo ser humano possui.</p><p>A amizade e o calor humano são o grande antídoto contra esse mal. É justamente esse traba-</p><p>lho que nós nos propomos no CVV: doar amizade incondicional aos que nos procuram para que</p><p>possam encontrar novas razões para continuar a viver. Agindo assim, estaremos combatendo as</p><p>causas mais profundas da atitude autodestrutiva.</p><p>3 - Sentimentos presentes na pessoa que pensa em suicídio</p><p>a) Ambivalência</p><p>Ambivalência é a convivência, num mesmo indivíduo, de dois sentimentos em conflito. O estado</p><p>de ambivalência é um estado de sofrimento. No caso da pessoa que pensa em suicídio, por exem-</p><p>plo, ela vai aos poucos cultivando (até inconscientemente, às vezes) o desejo de autodestruição;</p><p>17</p><p>contudo, o instinto de conservação a prende à vida, gritando que quer continuar.</p><p>O CVV existe porque acredita que cada pessoa possui essa força de vida que permanentemente</p><p>a está impulsionando para uma condição melhor.</p><p>b) Busca de atenção</p><p>A “falta de tempo”, a pressa, a velocidade com que tudo se realiza hoje em dia contribui para</p><p>impedir as pessoas de darem atenção umas às outras. Mais acentuadamente a partir do desen-</p><p>volvimento dos meios de comunicação de massa, elas permanecem distantes, cada qual em um</p><p>refúgio, fechadas em si mesmas.</p><p>c) Desejo de vingança</p><p>Quando perdemos algum bem e conseguimos responsabilizar alguém pelo prejuízo que sofre-</p><p>mos, é comum surgir em nós um sentimento de revide, um desejo de impor ao outro o mesmo so-</p><p>frimento que estamos sentindo. Muitas vezes, entretanto, não conseguimos encontrar outra forma</p><p>de fazer o outro sofrer que não seja agredindo e destruindo a nós mesmos.</p><p>d) Desejo de fugir de uma situação desagradável</p><p>As pessoas que pensam em suicídio desejam fugir do sofrimento, mesmo que essa situação</p><p>represente “o nada” para elas. O “nada”, muitas vezes, é sentido como preferível ao intenso sofri-</p><p>mento. Isso se dá porque a luta contra o sofrimento, originado por questões mais profundas pelas</p><p>dificuldades cotidianas, é sempre tomada como cansativa, monótona, inoperante, interminável e</p><p>invencível.</p><p>e) Desejo de ir para um lugar melhor</p><p>As pessoas em geral buscam o melhor para si, embora, às vezes, possa parecer que elas dese-</p><p>jam o sofrimento. A força instintiva que existe dentro de todos nós impulsiona em busca de uma</p><p>vida melhor. Mesmo os que cometem suicídio o fazem com a intenção de procurar uma situação</p><p>melhor.</p><p>f) A procura de paz</p><p>Não são todos que conseguem encontrar a paz interior necessária à existência e a sobrevivên-</p><p>cia num mundo caracterizado pela competição e pela luta permanente “por um lugar ao sol”. A</p><p>morte pode ser vista, em certas circunstâncias, como uma forma de “encontrar paz”.</p><p>4 - Suicídios e tentativas</p><p>As pessoas que pensam em suicídio desejam uma vida melhor, querem escapar de sua angús-</p><p>tia, muitas vezes insuportável. Algumas são mais decididas e outras menos; algumas se utilizam</p><p>de métodos letais, como armas de fogo, e outras usam meios menos letais, como a ingestão de</p><p>medicamentos.</p><p>Ao voluntário do CVV não cabe analisar o quanto a pessoa desejava ou não se matar. A atitude</p><p>de quem deseja ajudar consiste em ouvi-la, procurando perceber e sentindo empaticamente suas</p><p>angústias. Se procurarmos qualquer explicação antes de ouvi-la, estaremos fazendo um prejulga-</p><p>mento.</p><p>Quem deseja ajudar jamais deve julgar.</p><p>A pessoa que tentou uma vez, se não tiver apoio para revalorizar à vida, tentará outras vezes,</p><p>até que ocorra a última tentativa, fatal. Muitas vezes, uma tentativa frustrada pode ser um aviso de</p><p>suas intenções: a próxima pode não ser mais uma tentativa; pode tornar-se um suicídio.</p><p>A pessoa que se mata dá avisos antes de se matar. Avisos diretos ou indiretos, meio camuflados.</p><p>Por exemplo: a pessoa dizer que um dia vai se matar é uma forma de aviso; ou quando deixa de</p><p>praticar um hobby, sem adotar outro. Está provado que, de cada dez pessoas que se matam, oito</p><p>deixam avisos. Se compreendidos a tempo, as atitudes seriam diferentes e poderia ser ajudada.</p><p>18</p><p>5 - Mitos e fatos</p><p>Há uma série de mitos, ideias incorretas sobre o suicídio. O voluntário deve conhecer sobre o</p><p>suicídio, visto que o CVV pode atuar como um agente de esclarecimento junto à população, para</p><p>que ela passe a olhar a pessoa que pensa em suicídio de forma mais séria e clara.</p><p>Mitos Fatos</p><p>O suicídio está no sangue,</p><p>é hereditário</p><p>Quando várias pessoas de uma mesma família</p><p>se matam, isso não ocorre em razão da heredita-</p><p>riedade. Na verdade, aqueles que ficam sentem-se</p><p>culpados por considerarem que não fizeram nada;</p><p>não conseguem viver sem a Outra Pessoa e po-</p><p>dem repetir o gesto quando não encontram ajuda</p><p>para superar esses sentimentos.</p><p>Alguns fatores de riscos que contribuem com o</p><p>processo do suicídio são hereditários. Ora, contu-</p><p>do, existem pessoas que embora estejam presen-</p><p>tes os fatores de risco, não possuem a ideação e a</p><p>intencionalidade suicida. Daí a afirmativa de que é</p><p>um mito dizer que é algo determinadamente here-</p><p>ditário ao qual não haverá escapatória.</p><p>A pessoa que pensa em suicídio não se</p><p>mata</p><p>De cada 10 pessoas que se mataram ou tenta-</p><p>ram, 8 disseram que o fariam.</p><p>O suicídio ocorre sempre sem aviso</p><p>As pessoas que se matam dão sempre muitos</p><p>avisos. Acontece que os demais não acreditam,</p><p>não percebem ou não entendem esses avisos.</p><p>Geralmente são avisos indiretos.</p><p>A pessoa que se mata estava decidida</p><p>a morrer</p><p>Ao lado do desejo de fugir da vida existe sem-</p><p>pre a poderosa força que impulsiona todos nós</p><p>para ela. É o chamado instinto de conservação.</p><p>Uma pessoa que já pensou em suicídio</p><p>será sempre uma candidata a ele</p><p>Qualquer pessoa pode, em certas circunstân-</p><p>cias, pensar em suicídio. Superada a fase, ela</p><p>passara a se comportar como as demais pessoas.</p><p>O suicídio ocorre mais entre pessoas</p><p>pobres (ou ricas)</p><p>A proporção de suicídios é a mesma tanto entre</p><p>pobres quanto entre ricos.</p><p>Os candidatos ao suicídio são todos</p><p>doentes mentais</p><p>Pode ser encontrado algum sintoma de sofri-</p><p>mento mental: depressão e dependência química</p><p>principalmente, praticamente entre todos os que</p><p>pensam em suicídio. Esses sintomas, no entanto,</p><p>podem ser leves, moderados ou severos e todos</p><p>podem ser prevenidos e devidamente tratados.</p><p>19</p><p>6 - O que buscam as pessoas que procuram o CVV?</p><p>Pergunte a você mesmo: Se eu estivesse sofrendo muito ou até pensando em suicídio e procu-</p><p>rasse alguém:</p><p>O que eu gostaria de encontrar? O que eu não gostaria de encontrar?</p><p>• Alguém disponível para me ouvir;</p><p>• Espaço e retorno imediato ao meu chamado;</p><p>• Voz calma;</p><p>• Perceber que não sou louco;</p><p>• Sentir que sou valorizado;</p><p>• Alguém que está presente;</p><p>• Alguém que acredite em mim sem me</p><p>justificar;</p><p>• Alguém próximo a meu lado;</p><p>• Sentir-me seguro;</p><p>• Ser apoiado;</p><p>• Ser respeitado;</p><p>• Ter toda a atenção;</p><p>• Compreensão e alívio;</p><p>• Esperança;</p><p>• Perceber o que acontece comigo;</p><p>• Descontração;</p><p>• Alguém de confiança e que eu possa confiar;</p><p>• Alguém que demonstre seu cuidado comigo;</p><p>• Alguém que se importe comigo;</p><p>• Alguém que me aceite como sou.</p><p>• Alguém sem tempo para me ouvir;</p><p>• Precisar aguardar a disponibilidade para</p><p>receber atenção;</p><p>• Alguém que me dissesse que é errado ou tolo</p><p>me sentir assim (Rejeição);</p><p>• Sentir-me envergonhado por procurar ajuda;</p><p>• Uma explanação, sermão, ou debate que me</p><p>inferioriza;</p><p>• Clichês;</p><p>• Uma repreensão (“Você é mais forte que</p><p>isso”);</p><p>• Um interrogatório em busca de informações;</p><p>• Reanimação falsa (“Tudo estará melhor</p><p>amanhã cedo”);</p><p>• Ser humilhado ou criticado, analisado ou</p><p>rotulado;</p><p>• Ser enganado, ficar desapontado;</p><p>• Que me digam o que fazer;</p><p>• Conselhos;</p><p>• Que expressem sua piedade;</p><p>• Sentir-me sozinho;</p><p>• Ser apressado (interrompido) ou ser</p><p>mandado;</p><p>• Sentir-me comparado ou Ouvir experiências</p><p>dos outros;</p><p>• Que mintam para mim;</p><p>• Ser pressionado ou sentir-me um peso;</p><p>• Que aja comigo de forma paternalista;</p><p>• Conversa vazia - Que não dê importância ao</p><p>meu relato e mude de assunto;</p><p>• Ser tratado como “mais um caso”;</p><p>• Que me façam sentir culpado.</p><p>20</p><p>TEMA 3</p><p>O VOLUNTÁRIO</p><p>1 – Introdução</p><p>Ao ingressar no voluntariado CVV, já nos primeiros contatos, a pessoa do potencial voluntário se</p><p>depara com um convite que transcende ao exercício de um trabalho voluntário, no qual se dispõe</p><p>a ajudar e fazer algo em prol do semelhante e da sociedade.</p><p>Um dos primeiros passos será compreender o conceito de ajuda no CVV, o respeito irrestrito à</p><p>pessoa que procura o serviço e aprender a se certificar se a ajuda que oferecemos é o que a pes-</p><p>soa deseja receber. Saber diferenciar desejos de necessidades e compreender que não fazemos</p><p>para agradar ou ser aprovado. Aceitar que nem sempre a ajuda que oferecemos é a ajuda que o</p><p>outro busca é algo desafiador e que exige humildade para discernirmos a diferença entre propor</p><p>ajuda e impor ajuda. Respeitar os limites da ajuda oferecida pelo CVV é essencial.</p><p>Outro passo importante se dá para com o vivenciar o jeito de Ser CVV enquanto filosofia de vida,</p><p>com a necessária sabedoria da prática reflexiva e a abertura emocional. Assim, as atitudes básicas</p><p>do voluntário serão impulsionadas para além do tempo reservado ao plantão e a serviço do CVV,</p><p>naturalmente, nas relações e interações com pessoas, grupos, organizações e sociedade. Desta</p><p>forma, cada vez mais a Proposta de Vida do CVV e a própria Postura de Vida estarão próximas.</p><p>A abertura do voluntário para o autoconhecimento, a supervisão e o aperfeiçoamento contínuos</p><p>é essencial para que ele consiga vivenciar cada vez mais naturalmente os valores humanitários.</p><p>Além disso, uma das principais características que deve desenvolver em si é a atitude interna de</p><p>se colocar como pessoa à mesma altura daquele que o procura. Assim, buscando conhecer a si</p><p>mesmo, poderá também reconhecer e considerar o outro na sua totalidade.</p><p>Quanto melhor percebermos nossas atitudes, pensamentos, sensações, sentimentos e intui-</p><p>ções, melhor poderemos agir em benefício dos demais e sentir a pessoa que procura o CVV, o</p><p>que permite que nos aproximemos dela genuinamente, durante o encontro de pessoa para pes-</p><p>soa. Poderemos, também, modificar aos poucos hábitos e comportamentos, para que sejam mais</p><p>adequados à intenção de ajuda e a transformação interior do homem em processo ao homem</p><p>espiritual.</p><p>Apresentamos no tema 3 - O VOLUNTÁRIO - questões a serem pensadas na atividade como</p><p>voluntários do CVV e, para além do serviço prestado no dia e horário combinado, no transcorrer de</p><p>nossas vidas, enquanto pessoa e cidadão. É um convite à pessoa do voluntário, no seu encontro</p><p>com o ideal e jeito de ser, num compromisso com a vida.</p><p>Falaremos, agora, sobre atitudes e posturas, ou seja, qual a filosofia de trabalho e sua intencio-</p><p>nalidade. Quais são as predisposições do CVV? E sobre nós mesmos: Eu estou disposto a quê?</p><p>Quais são os meus objetivos? O que eu pretendo? O que é que eu penso e sinto em relação a mim</p><p>mesmo, em relação aos meus semelhantes, em relação à vida, em relação às dificuldades que</p><p>surgem?</p><p>2 - Atitudes básicas do voluntário</p><p>21</p><p>a) Atitude de confiança na pessoa humana</p><p>As pessoas possuem uma força interior que as impele continuamente em busca de uma condi-</p><p>ção de vida melhor. As adversidades não são suficientes para fazê-las desistir de lutar pela vida,</p><p>muitas vezes remando na contra corrente.</p><p>A atitude de confiança</p><p>na pessoa reflete a percepção e a compreensão das características hu-</p><p>manas e potenciais. Em essência, as pessoas:</p><p>• Tendem ao autodesenvolvimento, sendo, portanto, capazes de tomar decisões sobre si e so-</p><p>bre a vida delas;</p><p>• Não são necessariamente más em essência;</p><p>• Têm necessidades de socialização, autonomia, conservação e autorrealização;</p><p>• Quanto mais sentem supridas suas necessidades básicas e quanto mais favorável o ambiente</p><p>para o seu desenvolvimento, mais tendem a mover-se na direção da plenitude do seu ser, a desen-</p><p>volver suas potencialidades, vivenciar suas capacidades, o processo em pleno processo criativo;</p><p>• No processo evolutivo, tendem a mover-se do homem animal - ao homem material; e do ho-</p><p>mem material - ao homem em processo; e do homem em processo - ao homem espiritual, movido</p><p>e direcionado aos valores e práticas mais altruístas e humanitárias.</p><p>Sua tendência natural é procurar a proximidade dos outros; é de buscar amizade e calor huma-</p><p>no; é de desejar comunicar o que está em seu universo interior. Quando encontram obstáculos ou</p><p>impedimentos, essa tendência pode se obscurecer dando lugar à violência, ao egoísmo, à inveja</p><p>e outras atitudes defensivas. No CVV, preconizamos a oferta de um ambiente favorável ao desen-</p><p>volvimento humano.</p><p>Nossas atitudes repercutem no confiar na pessoa; facilitar o esforço que ela está fazendo para</p><p>se comunicar conosco; e reconhecer suas razões, seu sofrimento e o potencial para encontrar</p><p>soluções para si.</p><p>b) Atitude de respeito pelo Outro</p><p>Respeitar o Outro é reconhecer que só ele reúne as melhores condições para saber e decidir</p><p>sobre o que mais lhe convém. Respeitamos o Outro quando reconhecemos sinceramente isto e</p><p>assim o tratamos como pessoa; consideramos seus sentimentos e ideias. Diante do seu relato ou</p><p>da expressão de suas limitações e dor, nossa atitude é de acolhimento sincero, e não de avaliação.</p><p>É importante observar que respeitar não é usar a própria medida para sentir a angústia do Outro,</p><p>é tentar usar a medida da própria pessoa.</p><p>c) Atitude de aceitação</p><p>Aceitar o Outro é admitir sua existência, é abrir as portas para ele, é perceber que “ele é assim”.</p><p>É olhar para ele, observar e examinar com ele as suas características, sem receio, sem precon-</p><p>ceito, sem julgamento. A atitude de aceitação é significativa, pois, se o Outro não se aceita, ao o</p><p>aceitarmos, ele poderá se sentir mais capaz de aceitar-se também.</p><p>É importante ainda esclarecer que aceitar é admitir a existência do comportamento de alguém,</p><p>de alguma coisa ou de uma dada situação. Assim, aceitar não é o mesmo que concordar ou apro-</p><p>var as atitudes do Outro. Significa considerar a pessoa em sua totalidade existencial - sentimento,</p><p>pensamento (intelecto, crenças, desejos, percepção, razão), sensação e intuição. A pessoa é um</p><p>conjunto, o somatório de todas as partes, forma um todo indivisível.</p><p>Atitude de aceitação no CVV significa considerar incondicionalmente a existência do Outro.</p><p>22</p><p>d) Atitude de compreensão</p><p>Compreender o Outro é ter a capacidade de perceber o que está ou não está expresso, relacio-</p><p>nado com suas atitudes, pensamentos, sensações, sentimentos e intuições. Significa percebê-lo a</p><p>partir do ponto de vista dele, colocar-se no lugar dele com seus valores, para perceber seu mundo</p><p>como possivelmente ele percebe. Quando se possui esta capacidade, se estabelece um estado</p><p>interno de compreensão empática do Outro.</p><p>Para compreender empaticamente alguém é fundamental que se compreenda o contexto, o</p><p>todo, o indivíduo e a pessoa (vivência emocional – o que foi dito – sentimento). O foco de nossa</p><p>atenção deve estar na própria pessoa, no que ela está relatando, nos sentimentos e nas vivências</p><p>que nos conta, o que é profundamente abrangente (envolve sentimento, pensamento, sensação e</p><p>intuição) e ainda soma o seu sistema de valores e experiências de vida - atitudes e comportamen-</p><p>tos. Resumindo, é diferente e vai muito além do querer entender racionalmente o problema.</p><p>3 - Observar a si próprio</p><p>Observar com a ideia de conhecer melhor como nós funcionamos: nossa maneira de pensar,</p><p>de sentir e agir, nossos preconceitos, nossa maneira de nos relacionarmos com os outros. Assim</p><p>poderemos conhecer um pouco, também os que nos procuram. Somos semelhantes em essência.</p><p>A interação de pessoa para pessoa, exige vigilância para observar e discernir o que vem de nós</p><p>e o que vem do outro, o que se passa internamente em nós, sensibilidade para separar interesses</p><p>pessoais, curiosidades, preconceitos e obstáculos que possam dificultar a abertura emocional e</p><p>disponibilidade para acolher e servir, durante o encontro com o outro.</p><p>a) Flexibilidade</p><p>Flexibilidade é a capacidade de deixar nosso ponto de vista e examinar o do Outro, com since-</p><p>ridade. A nossa falta de flexibilidade pode trazer obstáculos para aqueles que procuram o serviço.</p><p>A Relação de Ajuda não acontece quando existe uma postura com defesa de ideias. Captamos</p><p>melhor as emoções do outro, e discernimos das nossas, quando vigiamos e sabemos separar</p><p>nosso ponto de vista, e o momento em que esse não cabe, por exemplo, durante a Relação de</p><p>Ajuda. Para que o encontro aconteça é fundamental saber reconhecer e respeitar o foco, ou seja,</p><p>a pessoa que busca ajuda.</p><p>Sempre que emerge nosso sistema de valores, e esse passa a funcionar enquanto obstáculo à</p><p>aproximação, acolhimento, respeito, aceitação e compreensão empática do outro deve-se acionar</p><p>o observar a si próprio mais intensamente, e a vigilância para com as posturas de ameaças e defe-</p><p>sas ao outro. Momento em que o autoconhecimento, o apoio dos mais experientes, o treinamento,</p><p>estudo e partilha com o grupo são ainda mais essenciais.</p><p>b) Nivelamento</p><p>O que diferencia o voluntário da pessoa que busca e usa o serviço do CVV é o momento da</p><p>condição emocional, no qual uma pessoa está disposta a acolher, ouvir genuinamente, compre-</p><p>ender e ajudar, e a outra está necessitada de acolhimento, de poder desabafar, de compreensão</p><p>e de ajuda.</p><p>Nivelamento é a atitude de nos percebermos e colocarmos à altura do Outro. Quando nos ni-</p><p>velamos, percebemos mais e podemos acolher o Outro com abertura, respeito e compreensão.</p><p>O nivelamento é um comportamento indispensável para a aproximação entre as pessoas e que</p><p>23</p><p>permite a troca de calor humano. Precisamos vivenciar a compreensão que não somos melhores</p><p>nem piores do que o Outro.</p><p>c) Não Projeção</p><p>É aceitar que as pessoas podem perceber as coisas de maneira diversa de mim. Acreditar que</p><p>todos veem o mundo da mesma forma que eu vejo é um equívoco. É uma atitude que dificulta a</p><p>aproximação genuína entre as pessoas, e o nosso encontro - de pessoa para pessoa.</p><p>4 - Moderação</p><p>É a atitude de se manter vigilante para com os extremos. O fanatismo e extremismo dificultam a</p><p>proximidade com o outro, o aceitar, o compreender, o confiar, e o respeitar o diferente e a própria</p><p>existência da diversidade. Dificulta o admitir o outro, a si, e ao grupo em processo de desenvol-</p><p>vimento. E repercute em bloqueios para estar disponível, por manter-se com muitas exigências</p><p>dentro de si.</p><p>Pessoas com opiniões contrárias encontram maior dificuldade para conviver. É possível ter pon-</p><p>tos de vistas diferentes. Ter flexibilidade viabiliza a convivência. Opiniões extremas e radicais tor-</p><p>nam a relação mais difícil e inviabiliza a relação de proximidade e o encontro genuíno conosco e</p><p>com o outro.</p><p>5 - Humildade</p><p>Humildade é uma atitude que ocorre quando reconhecemos que não sabemos tudo, que não</p><p>somos capazes de superar todas as dificuldades, que não temos soluções prontas para todos os</p><p>problemas humanos, que não temos respostas para todas as perguntas. É o reconhecimento de</p><p>nossas limitações. Facilita as relações, e as pessoas se sentem melhor diante de quem não se</p><p>considera perfeita.</p><p>A humildade do voluntário em relação ao CVV diz respeito à abertura e a disponibilidade para</p><p>o aprimoramento contínuo, para o trabalho em grupo, o compreender que as pessoas estão em</p><p>estágio evolutivo e de maturidade</p><p>emocional e atitudinal diferentes para com a proposta de vida</p><p>preconizada pelo CVV, enquanto filosofia de vida que está em processo, assim como o grupo. Isso</p><p>não significa acomodação ou ficar fixo na inércia e, sim, a oportunidade e a possibilidade para que</p><p>pratique na relação e na convivência com o grupo o estado de alerta e de prontidão para com o es-</p><p>pirito samaritano, além da observação e do respeito às normas coletivas, traço marcante daquele</p><p>que deseja construir sem se destacar individualmente.</p><p>A vida no CVV esta baseada em combinados, normas, recomendações, confiança e qualidade</p><p>nos relacionamentos e interação entre e com as pessoas. A compreensão da necessidade de res-</p><p>peitar essas premissas pode refletir entre outros, a humildade do voluntário, em sua relação com a</p><p>instituição e com o grupo. É um trabalho interno que só cabe a ele e que facilita a sua permanência</p><p>no trabalho.</p><p>6 - Disponibilidade</p><p>Considerando esta característica necessária ao trabalho, serviço e voluntários, tem como as-</p><p>pectos principais:</p><p>a) Disponibilidade de tempo:</p><p>Todos precisam reservar parte de seu tempo para os plantões, reuniões, grupos de estudos,</p><p>campanhas de arrecadação de fundos, etc. Parte desta disponibilidade é condição obrigatória,</p><p>mínima, imprescindível. E a outra fica por conta de cada um.</p><p>b) Disponibilidade de doação de calor humano</p><p>É a capacidade de se doar para as pessoas. É o que sustenta o trabalho. A prática da Relação</p><p>de Ajuda se traduz num jeito de ser, que se revela na nossa capacidade de confiar nas pessoas</p><p>como elas são - confiar nas capacidades e potencialidades de dirigirem-se a si mesmas, e em</p><p>saber comunicar-se no encontro de pessoa para pessoa, com respeito, aceitação e compreensão.</p><p>c) Disponibilidade para buscar o autoconhecimento</p><p>Ocorre quando estamos decididos e nos empenhamos através da observação a conhecer nós</p><p>mesmos. É olhar pra si, o que torna possível reconhecer o Outro.</p><p>O autoconhecimento possibilita reconhecer e aceitar o que requer transformação em nós, e</p><p>então mudar como pessoa.</p><p>A disponibilidade para o autoconhecimento ajuda no estado de prontidão durante o plantão,</p><p>frente à ausência do encontro de pessoa para pessoa. Numa espera produtiva, ao não estarmos</p><p>numa Relação de Ajuda durante o plantão, permanecemos vigilantes, disponíveis a nós mesmos e</p><p>à sociedade. Disponíveis no observar nosso mundo interior, numa leitura edificante, no meditar e</p><p>no refletir, alertas ao possível chamado de ajuda, prontos para caminhar com o Outro. É o mesmo</p><p>processo que ocorre com o bombeiro e o atendente do pronto-socorro, que permanecem disponí-</p><p>veis, embora nem sempre efetuando o serviço de socorro.</p><p>d) Disponibilidade para enfrentar um trabalho em desenvolvimento</p><p>O trabalho do CVV está em permanente organização e crescimento. Reconhecer a si mesmo,</p><p>ao Outro, ao grupo e à organização em processo de desenvolvimento ajuda a compreender que o</p><p>CVV não está pronto nem acabado, mas é contemporâneo e caminha progressivamente, em pleno</p><p>aprimoramento. Devemos estar disponíveis para enfrentar as dificuldades e contribuir com o que</p><p>somos para o desenvolvimento, continuidade e disponibilidade do serviço, de forma disciplinada e</p><p>séria. Engajar-se no voluntariado no CVV significa também contribuir com a sustentabilidade insti-</p><p>tucional e existencial para melhor servir.</p><p>25</p><p>TEMA 4</p><p>A RELAÇÃO DE AJUDA</p><p>1 - A Relação de Ajuda no CVV</p><p>A Relação de Ajuda no CVV preconiza um jeito de ser, e não uma técnica. É um trabalho humani-</p><p>tário, que permanece em contínuo processo de transformação, por meio da vivência no campo da</p><p>experiência e da interação com as pessoas que procuram e usam os serviços, com a interação e a</p><p>colaboração intrínseca dos voluntários, que recebem a proposta ao engajarem-se nesta atividade</p><p>enquanto filosofia de vida.</p><p>Nos primeiros anos de existência, durante a década de 60, o CVV buscou interferir e impor so-</p><p>luções na vida das pessoas que buscavam ajuda.</p><p>Destacamos alguns pontos relevantes no marco histórico do CVV, âncoras e águas divisó-</p><p>rias na experimentação de si, diante as fases dos atendimentos, a saber:</p><p>a) Primeira Fase (1962) - “Eliminada a causa, o efeito cessa”</p><p>b) Segunda Fase (1962 - 1965) - “Iluminar os caminhos”</p><p>• (1963) - Compreensão dos fatores de risco “transtornos mentais e dependências químicas”</p><p>para com o suicídio;</p><p>• (1963 - 1965) - Idealização do Hospital Francisca Julia. Fase embrionária. Doação do Terreno</p><p>para construção do Hospital;</p><p>• (1968) Pedra Fundamental do Hospital.</p><p>c) Terceira Fase (1965 - 1975) “Ensinar a pescar”</p><p>• (1966) - Após o primeiro contato, todos os “casos” eram submetidos a uma rigorosa observa-</p><p>ção durante 90 dias;</p><p>• (1966) - Os plantonistas aprovados eram obrigados a fazer estágios de aperfeiçoamento em</p><p>hospitais, ambulatórios, sanatórios, etc;</p><p>• (1968) - Sede própria e consolidação da experiência do CVV. Fundado há mais de 6 anos, fun-</p><p>cionava em caráter experimental;</p><p>• (1974) - Cursos de Aperfeiçoamento contendo informações de outros serviços de prevenção</p><p>do suicídio pelo mundo: SPC - Suicide Prevention Center, de Los Angeles, e os Samaritans, da</p><p>Inglaterra.</p><p>d) Quarta Fase (1975) - “A pessoa como Centro”</p><p>• A mescla não diretiva: em nossas entrevistas, dentro da diretividade à qual estávamos acos-</p><p>tumados, começavam a surgir colocações não diretivas tentando clarificar os sentimentos e as</p><p>emoções;</p><p>• Implantação do Treinamento de Papéis, que trouxe um processo de constante aperfeiçoamen-</p><p>to para os voluntários.</p><p>e) Quinta Fase (1979) - Método não diretivo para um Jeito natural de Ser</p><p>• “O método não diretivo deixa de ser método e passa a ser comportamento. Os voluntários es-</p><p>tão mais descontraídos, as palavras mais soltas, mas ainda existe contraste entre a conversa que</p><p>mantemos em nossas salas de atendimento e o bate-papo da rua” ;</p><p>• Plano de Trabalho: buscar assimilar a filosofia do CVV, Proposta de Vida, Princípios, Práticas,</p><p>26</p><p>Valores e Postura de Vida;</p><p>• (1983) Finalização do estudo do livro Tornar-se Pessoa (Carl Rogers), e implantação do concei-</p><p>to e do exercício de Vida Plena nos encontros, atividades e postos.</p><p>2 - A Relação de Ajuda no CVV</p><p>A Relação de Ajuda no CVV é a doação de apoio de uma pessoa para outra que está em um</p><p>momento de crise ou solidão. Propõe-se, e não se impõe.</p><p>A principal atitude na Relação de Ajuda praticada no CVV é a disposição de tratar aos que nos</p><p>procuram com respeito, compreensão, aceitação, confiando em sua capacidade e potencialidade</p><p>individual, sem críticas ou conselhos.</p><p>A disponibilidade que oferecemos, seja por telefone, carta, e-mail, chat, virtual ou pessoalmen-</p><p>te, zela pelo anonimato e confidencialidade. O sigilo reduz a ameaça e facilita o contato das pes-</p><p>soas conosco.</p><p>As pessoas que nos procuram geralmente estão vulneráveis à rejeição. A voz do voluntário e</p><p>suas atitudes devem emanar sentimentos de amor para que a pessoa se sinta confiante para falar.</p><p>A Relação de Ajuda é oferecida à pessoa que nos procura e está voltada às necessidades dela,</p><p>e não do voluntário. Também não é um relacionamento social - o voluntário não expõe a intimidade</p><p>dele informando dados pessoais como sobrenome, endereço ou telefone, nem procura obter os</p><p>da Outra Pessoa. O voluntário não deve esperar nada em troca. O Outro não tem obrigações, nem</p><p>laços de apego, não precisa contribuir com nada nem ter ou mostrar gratidão.</p><p>Na Relação de Ajuda, a pessoa decide, é livre para rejeitar ajuda, tomar decisões ou afastar-se a</p><p>qualquer momento, com a certeza de não ser procurada. Oferece-se à Outra Pessoa, simplesmen-</p><p>te apoio, sem exigências, ameaças ou interferências na vida dela, para que continue livre e tome</p><p>as próprias decisões ou recuse ajuda, interrompa o contato, ou mesmo tire a própria vida.</p><p>A Relação de Ajuda não é aconselhamento, nem um substituto para a psicoterapia, ou trata-</p><p>mento de saúde ou ajuda especializada. Não utiliza nenhuma técnica de persuasão, crença ou</p><p>doutrina religiosa. Não é imposta, nem interfere.</p><p>Não age em benefício da pessoa com objetivo de</p><p>obter bons resultados sem o consentimento dela.</p><p>Ao compreender e aceitar a proposta de vida do CVV, o voluntário passa a vivenciar os fun-</p><p>damentos práticos da Relação de Ajuda, de diversas formas, através das oportunidades para o</p><p>Trabalho Voluntário. Reconhece tratar-se de um jeito de ser, e não de uma técnica, uma filosofia</p><p>de vida que preconiza viver para além das esferas do pronto-socorro emocional e da prevenção</p><p>do suicídio, independente da função escolhida e exercida (Plantonista, Apoio ou Especialista).</p><p>Passa-se a vivenciar os fundamentos práticos em qualquer ambiente, e para além dos canais</p><p>institucionais de ajuda e interação com o serviço. Aprende-se a oportunizar o encontro de pessoa</p><p>para pessoa nas relações e interações humanas, por sua existência e dignidade, que transcende</p><p>títulos, honrarias, cargos, papeis e conta bancaria, o que passa a fluir de modo tão natural quando</p><p>respirar, do ser humano em processo ao ser humano espiritual.</p><p>3 - Fundamentos práticos da Relação de Ajuda</p><p>a) Ouvir ativamente</p><p>Ouvir não é uma atitude passiva na qual nada se faz, é uma atitude ativa e participativa. Ouvir</p><p>atenciosa e profundamente é o primeiro passo para nos aproximarmos da Outra Pessoa e per-</p><p>cebermos seu mundo interno e, assim, podermos responder-lhe da maneira mais transparente e</p><p>27</p><p>próxima. Requer interesse genuíno e atenção respeitosa.</p><p>Quando encontramos alguém que nos ouve com atenção, mesmo por pouco tempo, e podemos</p><p>dizer e expressar o que se passa em nosso interior, as ideias se organizam, ficam mais claras, o</p><p>potencial criativo se manifesta e novas possibilidades tornam-se visíveis.</p><p>Ouvir é essencial à compreensão do outro.</p><p>- Observar o que vem de nós mesmos</p><p>Algumas atitudes e posturas defensivas que partem de nós podem trazer dificuldades para o</p><p>bom desenvolvimento da Relação de Ajuda: nosso humor, indisposição, cansaço, as sensações</p><p>ou preconceitos expressos, o tom de voz, a fala ou gestos agressivos. É preciso que estejamos</p><p>atentos para lembrar a importância de oferecer nossa disponibilidade, para que tal comportamento</p><p>não afaste o outro.</p><p>- Ouvir o que é dito e observar o que não é dito</p><p>• Os silêncios: o que o outro não diz;</p><p>• O tom da voz: calmo, irritado, nervoso;</p><p>• A altura da voz: alto, baixo, moderado;</p><p>• A postura: rigidez, descontração, concentração;</p><p>• A mímica: sorriso, choro, contrações, colorido da face;</p><p>• Na escrita: o ritmo, os símbolos utilizados.</p><p>- Observar as incoerências</p><p>Elas geralmente revelam as dificuldades que o Outro está encontrando para comunicar suas</p><p>ideias e sentimentos. Às vezes, a Outra Pessoa faz a troca da terceira pessoa pela primeira (Ele x</p><p>Eu). Paciência e calma ajudam a perceber e são úteis para dar tempo ao Outro de adquirir confian-</p><p>ça em nós.</p><p>- Respeitar os silêncios</p><p>Respeitar sempre os silêncios quando ocorrem, sem analisar, nem interpretar. Podem ocorrer:</p><p>• No início da Relação de Ajuda;</p><p>• Após uma situação confusa;</p><p>• Após um desabafo;</p><p>• Preparação para tocar num assunto muito difícil;</p><p>• Necessário para organização das ideais e sentimentos.</p><p>Como voluntário, para nada vai levar qualquer tipo de interpretação para consumar a Relação</p><p>de Ajuda. O que vale é a sensibilidade para reconhecer a presença de silêncio fecundo (tempo,</p><p>espaço, reflexão, digestão, maturação), o que pede respeito ao tempo do outro, de modo a facilitar</p><p>o clima de confiança para conversar e se abrir. Já o silêncio estéril (sem jeito, sem assunto, sem</p><p>graça ou coragem para se abrir) repercute em ausência e distanciamento, em falta de comunica-</p><p>ção e de diálogo. Sem diálogo, não há Relação de Ajuda.</p><p>b) Compreender</p><p>As atitudes das pessoas têm sempre uma causa, embora, nem sempre sejam claras ou identifi-</p><p>cáveis. Às vezes, as causas dos comportamentos são inconscientes. Certos comportamentos so-</p><p>cialmente desajustados, geralmente não se mostram isolados, e, sim, envoltos num emaranhado</p><p>de lembranças, recalques, ideias fixas, ambivalências, etc.</p><p>Isto esclarece a necessidade de olhar além das causas aparentes e secundárias, em busca das</p><p>causas reais, nem sempre evidentes. Vale lembrar-se dos cuidados a tomar em relação a conceitos</p><p>apressados de acharmos que já sabemos tudo sobre a Outra Pessoa.</p><p>c) Comunicar o que ouvimos e compreendemos</p><p>28</p><p>De nada adianta ouvir, compreender e não comunicar. É importante que a Outra Pessoa perceba</p><p>que a estamos compreendendo, aceitando, respeitando e confiando na capacidade dela, o que</p><p>pode ser expresso através de respostas compreensivas, tais como:</p><p>• Pelo telefone e virtual - pelo ritmo e pelo tom da nossa voz, pela atenção ao que o outro co-</p><p>munica, pelo interesse no que ele diz;</p><p>• Pessoalmente - além dos recursos acima, acolhendo-o bem, aproximando-nos dele, apertan-</p><p>do-lhe a mão calorosamente, sorrindo-lhe ou olhando nos olhos dele ou oferecendo um lenço;</p><p>• Por chat, e-mail e carta - pela prontidão da resposta, a seleção das palavras e o teor da men-</p><p>sagem.</p><p>4 - Medidas objetivas</p><p>a) O local</p><p>O ambiente acolhedor e seguro contribui para a pessoa sentir-se melhor. Devemos tomar os</p><p>seguintes cuidados:</p><p>Privacidade:</p><p>• Pelo telefone, virtual, chat, e-mail e carta - espaço silencioso, sem interferência de terceiros e</p><p>que possibilite concentração e dedicação plena ao atendimento;</p><p>• Pessoalmente - a pessoa deve ficar reservada à observação ou curiosidade de vizinhos quan-</p><p>do procurar o Posto. Um alpendre, uma varanda, uma entrada discreta, ausência de grandes le-</p><p>treiros, um espaço seguro que a pessoa não se sinta exposta enquanto aguarda para ser recebida.</p><p>Conforto:</p><p>• A sala em si deve ser um local acolhedor e agradável, limpo e preferencialmente com cores</p><p>claras.</p><p>Funcionalidade:</p><p>• O local deve ter os móveis necessários, simples e sem ostentação, com poucos e discretos</p><p>objetos decorativos.</p><p>Silêncio:</p><p>• Deve ser um local onde se possa conversar sem dificuldade, em tom normal e sem interrup-</p><p>ções.</p><p>b) Tempo</p><p>Embora bastante variável, o tempo necessário para uma Relação de Ajuda é em torno de 50 a</p><p>60 minutos.</p><p>As primeiras conversas, em geral, são mais demoradas. Algumas vezes, o voluntário toma a</p><p>iniciativa de limitar o tempo. É quase sempre a Outra Pessoa quem decide o quanto tempo lhe é</p><p>necessário.</p><p>c) Sigilo</p><p>Conduta dos atendimentos</p><p>• Em decorrência de respeito à pessoa, o conteúdo da conversa não deve ser comentado com</p><p>outras pessoas. É incorreto quebrar a confiança depositada na condição de sigilo, por uma pes-</p><p>soa, mormente quando procura ajuda;</p><p>• Muitas vezes é útil informar que o sigilo é uma norma de conduta para o voluntário;</p><p>• É compromisso do voluntário o respeito ao sigilo e à confidencialidade das pessoas que usam</p><p>o serviço do CVV, antes, durante e após sua permanência no voluntariado.</p><p>Conduta ética individual e institucional</p><p>• O fato de uma pessoa ter procurado o apoio oferecido pelo CVV, bem como tudo o que tenha</p><p>dito e possa identificá-la, é confidencial e sigiloso, permanecendo restrito ao próprio voluntário</p><p>e, excepcionalmente, à coordenação, quando estiverem em risco os princípios e a segurança do</p><p>29</p><p>trabalho ou de qualquer pessoa;</p><p>• Para efeito de estudos, desenvolvimento do voluntário e do grupo, utilizamos situações temá-</p><p>ticas nos treinamentos de papéis e vivências. Deve-se, no entanto, suprimir detalhes do indivíduo</p><p>que possam identificar a pessoa em si. Treinamos as situações, que são temas para rodas de diá-</p><p>logos, estudo, exercício de vida plena, o que é diferente de tornar a pessoa nosso assunto.</p><p>5 - Lembretes úteis</p><p>a) Seja você mesmo</p><p>O outro vai extrair da Relação de Ajuda aquilo de que ele precisa.</p><p>O que você diz ou não diz não é tão importante quanto a “forma” como você diz. Se você não</p><p>consegue encontrar as palavras certas, mas se sente genuinamente preocupado, sua voz e seus</p><p>modos mostrarão isso.</p><p>b) Aprenda a acolher bem</p><p>Um acolhimento atencioso é sempre um bom início e deve ser propiciado pelo voluntário em</p><p>todas as formas de apoio.</p><p>c) Relacione-se com a pessoa, não</p><p>apenas com o problema</p><p>Tente estabelecer uma relação com a qual a pessoa possa ganhar apoio e força. Informe seu</p><p>nome e esteja atento para o dela (se ela quiser falar). Estabeleça um clima de confiança e aproxi-</p><p>mação.</p><p>Pessoas deprimidas podem estar retraídas e serem difíceis dê se relacionar. Demonstre que</p><p>você está disponível, busque aproximar-se com sensibilidade, valorize-a, aceita-a sem restrições.</p><p>d) Esteja no nível do outro</p><p>As pessoas que nos procuram são frequentemente sensíveis à rejeição. A atitude de aceitação</p><p>incondicional, sem críticas e com respeito, é imprescindível para ajudar a restaurar a dignidade, a</p><p>confiança e a autoestima, que elas sentem que perderam.</p><p>e) Olhe a capacidade:</p><p>Não se concentre só na fraqueza ou na doença. Isso o ajudará se você transmitir algo sem ser</p><p>artificial, valorizando o outro e reconhecendo que ele está fazendo o melhor que pode para cuidar</p><p>de si mesmo.</p><p>Muitas vezes é possível perceber e dizer: “Você sente que o seu esforço não é reconhecido“.</p><p>f) Dê sua atenção total</p><p>Esteja atento à vivência emocional da pessoa, mais do que aos fatos, e ao que não é dito tanto</p><p>quanto ao que é dito. Responda de forma que o outro perceba que está sendo entendido.</p><p>Não há pressa. Deixe a pessoa falar o quanto precisar. Você não tem que dizer algo inteligente</p><p>quando há uma pausa; o silêncio fecundo é restaurador interno. E é insubstituível.</p><p>g) Facilite o desabafo</p><p>Mostre atenção e interesse. Facilite para que ela prossiga em sua exposição, sem intervir.</p><p>“Você gostaria de falar sobre isso...”, ou “Você me dizia que..”, ou “Ahnhan...”, ou “Continue”,</p><p>ou “Mmmmm”.</p><p>h) Vá em direção ao sofrimento</p><p>Dê ao outro uma chance de expressar os sentimentos, quaisquer que sejam: raiva, desespero,</p><p>medo, culpa, ansiedade.</p><p>Às vezes, você precisa prover uma abertura, para que a pessoa fale sobre seus próprios segre-</p><p>dos; coisas íntimas, que ela não diz a ninguém e talvez não interesse a outras pessoas. Por exem-</p><p>plo, “Você parece aborrecido...”.</p><p>i) Tente ver as coisas pelo ponto de vista do outro</p><p>Esteja do lado dela, não do das pessoas que a magoam ou que ela pode estar magoando. Res-</p><p>30</p><p>ponda com compreensão aos sentimentos dela, mesmo que as causas que ela apresente pareçam</p><p>irracionais ou improváveis. Exemplo:</p><p>Ela: “Minha nora está tentando me envenenar...”.</p><p>Você: “Você está com medo de ser envenenada...”.</p><p>j) Deixe as respostas virem do outro</p><p>O primeiro problema apresentado pode ser a introdução para outros problemas. Você pode</p><p>achar que encontrou uma solução e ficar tentado a apresentar uma consideração apressada, por</p><p>pensar que já tem tudo analisado, estruturado e quer passá-la à pessoa e provar a validade dela.</p><p>Não se precipite. As informações podem ser incorretas e sem fundamento. O seu ângulo de visão</p><p>pode ser diferente do dela. E, ainda, você pode estar lhe roubando algo significativo e dignificante,</p><p>não deixando que descubra as coisas por si mesmo.</p><p>k) Responda às perguntas com honestidade e sensibilidade</p><p>Algumas perguntas revelam apenas uma atitude de polidez; outras, uma espécie de sondagem</p><p>prévia: é o outro se preparando para entrar em algum assunto importante que não sabe como ini-</p><p>ciar (um quebra gelo – puxar assunto). Acolher as perguntas, considerar o contexto e responder</p><p>o mais compreensivamente possível, e voltar o foco da conversa para a pessoa, sem ficar muito</p><p>tempo com a palavra. As perguntas são uma forma de comunicação como outra qualquer. Não há</p><p>razão para nos sentirmos ameaçados.</p><p>l) Seja um amigo “provisório”</p><p>Pode parecer pouco dar seu tempo, sua atenção e preocupação, durante o encontro com a Ou-</p><p>tra Pessoa no tempo de plantão. Para a pessoa em sofrimento, que procura o serviço do CVV, ter</p><p>alguém com quem falar em confiança, a qualquer hora do dia ou da noite, sem laços de compro-</p><p>misso, pode ser um verdadeiro diferencial e ser tudo de que precisa para restaurar sua confiança</p><p>na vida.</p><p>O contato com pessoas em dificuldades e sem esperança pode criar em você sentimentos</p><p>de desamparo, inadequação ou incapacidade. Estar genuinamente disponível, “presente” e ouvir</p><p>atentamente, ser atencioso, oferecer apoio e manifestar empatia, através da comunicação com-</p><p>preensiva, é uma contribuição genuína. Implica em dar menos importância a nós mesmos, e maior</p><p>importância ao encontro de pessoa para pessoa, durante o plantão, o que nos ajuda a compre-</p><p>ender que não nos cabe dar soluções à vida dela nem salvá-la. Ela tem condição de fazê-lo por si</p><p>mesma. É necessário confiar.</p><p>6 - Atitudes a serem evitadas numa Relação de Ajuda</p><p>• Refletir a impressão de desinteresse pelo que o Outro diz;</p><p>• Subestimar ou desvalorizar as preocupações do Outro;</p><p>• Apresentar opiniões ou elaborar julgamentos;</p><p>• Proteger ou agir de forma paternalista;</p><p>• Comentar sobre o Outro que recebe ajuda com outras pessoas (mesmo que sejam da família);</p><p>Encontrar a Oura Pessoa fora do ambiente de atendimento CVV sem a aprovação da coorde-</p><p>nação;</p><p>• Discutir com o Outro seus próprios problemas;</p><p>• Dar informações para a polícia ou para a imprensa, caso forem solicitadas;</p><p>• Dar ou emprestar dinheiro ao Outro, oferecer comida ou lugar para ficar;</p><p>• Apressar a Outra Pessoa ou se revelar impaciente;</p><p>• Tornar-se ausente na Relação de Ajuda;</p><p>• Distrair-se durante a Relação de Ajuda.</p><p>31</p><p>ESTÁGIO 1</p><p>1 - Preparação do voluntário e do grupo</p><p>Antes de iniciarmos o plantão, é imprescindível realizarmos nossa preparação emocional, “sin-</p><p>tonia espiritual com o trabalho”, condição interior essencial para focar no serviço e melhor servir.</p><p>A forma de fazê-la é pessoal, mas requer um esforço dos nossos sentimentos, pensamentos, sen-</p><p>sações e intuições com os ideais maiores do CVV de ajuda às pessoas que nos procuram aflitas,</p><p>sofredoras, em busca de acolhimento e apoio.</p><p>O clima construído com sentimentos de fraternidade e solidariedade deve ser cultivado espe-</p><p>cialmente nas salas onde são realizados os apoios. Nas reuniões, ao fazermos a preparação em</p><p>voz alta, devemos cuidar para que o foco esteja voltado ao ideal, com respeito às premissas do</p><p>CVV, o que engloba a isenção de conotação doutrinária ou religiosa.</p><p>2 - Diálogo centrado na pessoa</p><p>Para facilitar o treinamento do diálogo centrado na pessoa, utilizaremos o esquema abaixo, que</p><p>foi batizado de “Triângulo das Bermudas”.</p><p>Quando se inicia a conversa, a Outra Pessoa em geral encontra-se mais interessada em des-</p><p>crever os fatos acontecidos ou os problemas pelos quais está passando. Ela tem a liberdade de</p><p>abordar livremente o PROBLEMA, o INDIVÍDUO e a PESSOA (o que representamos pelas setas</p><p>tracejadas). O voluntário, porém, só deve navegar no sentido das setas cheias, isto é, centralizan-</p><p>do sempre o assunto na pessoa.</p><p>A PESSOA é seu ser, um todo, com sentimentos, sensações, pensamentos, intuições, emoções,</p><p>atitudes e ações.</p><p>O INDIVÍDUO é como ele aparece a seus próprios olhos ou aos olhos dos outros. Sua aparência</p><p>e qualificativos: idade, altura, profissão, condição social, endereço, CPF, carro, filhos, etc.</p><p>O PROBLEMA é a circunstância em que a pessoa está inserida, pela qual passa em determina-</p><p>do momento. Está sem emprego, ficou viúva, ganhou na loteria, seu time perdeu o jogo, etc.</p><p>PESSOA</p><p>(pensamentos,</p><p>sentimentos</p><p>e ações)</p><p>INDIVÍDUO</p><p>(nome, endereço,</p><p>profissão...)</p><p>PROBLEMAS</p><p>(fatos)</p><p>32</p><p>3 - Ciclo da vida</p><p>Denominamos no CVV de Ciclo da vida a sequência em que se manifestam as funções Emocio-</p><p>nal, Intelectual e Motora de uma pessoa. A emocional manifesta nossos sentimentos; a intelectual,</p><p>nossos pensamentos e ideias; e a motora, nosso agir, fazer ou nossas ações. Os sentimentos</p><p>são percebidos mais rapidamente, os impulsos de fazer e agir na sequência, e, posteriormente,</p><p>os pensamentos e ideias. Toda vez que as ideias se manifestam antes das ações, é um indício de</p><p>que houve um controle, uma intenção de pensar antes de agir, evitando assim, muitas vezes, espe-</p><p>cialmente nos relacionamentos, situações indesejáveis. Agir antes de pensar normalmente ocorre</p><p>quando estamos em estados defensivos.</p>