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<p>INICIAIS</p><p>PROVOCAÇÕES</p><p>Você já parou para pensar sobre o que acontece quando uma criança ou um adoles-</p><p>cente, em idade escolar, encontra-se hospitalizado por um período longo?</p><p>A infância é, naturalmente, um período de descobertas, de exploração do mundo,</p><p>de constituição da identidade, de construção de vínculos e referências na vida da</p><p>criança. Tudo isso se dá pela aprendizagem, seja ela formal seja informal, e grande</p><p>parte deste processo acontece no ambiente escolar. Ao ser privada de estar nes-</p><p>se ambiente, devido a um processo de hospitalização, como fica esse processo de</p><p>aprendizagem?</p><p>A criança nunca deixa de aprender. O acompanhamento pedagógico dentro das</p><p>unidades hospitalares é uma necessidade e um direito. É, também, uma forma de</p><p>manter a criança ou adolescente em contato com a Educação, com aquilo que ela</p><p>produz, com a natureza de aprendiz e a responsabilidade que lhe são próprias. Os</p><p>problemas de saúde são inevitáveis, então, é preciso oportunizar às crianças, aos</p><p>adolescentes, aos alunos uma forma de manter o contato com a aprendizagem em</p><p>casos em que há necessidade de longos períodos de internação.</p><p>Imagine uma criança que recebeu um diagnóstico de uma doença crônica. Ela</p><p>precisará ficar internada por três semanas e, após este período, manterá atendimento</p><p>ambulatorial, semanalmente, para tratamento. Sua doença não interfere na capa-</p><p>cidade cognitiva, mas as intervenções médicas provocam dor, e os medicamentos</p><p>administrados no tratamento ambulatorial causam sonolência. Como psicopedagogo</p><p>responsável pelo caso, o que você pode fazer? Elabore um plano de ação a ser pro-</p><p>posto para a equipe.</p><p>Embora o contato com as atividades pedagógicas seja muito importante, é pre-</p><p>ciso avaliar, de forma cuidadosa, a possibilidade de a criança realizar as atividades.</p><p>Deve-se considerar a rotina do hospital, a adequação do ambiente para estudos e</p><p>as condições físicas e emocionais da criança, em cada momento. É necessário fazer</p><p>PSICOPEDAGOGIA - TEORIA E PRÁTICA</p><p>NO CONTEXTO HOSPITALAR</p><p>contato com a escola para ver quais atividades seriam passíveis de realização pela</p><p>criança, sozinha ou com orientação do psicopedagogo, bem como verificar com a</p><p>equipe médica os horários mais adequados para que ela realize as atividades no</p><p>ambiente hospitalar.</p><p>A hospitalização não é um processo agradável em nenhuma etapa da vida, mas</p><p>o atendimento psicopedagógico que queremos aprofundar aqui é este segundo for-</p><p>mato: o atendimento dentro dos hospitais. A Psicopedagogia Hospitalar é, ainda,</p><p>muito recente, por isso, precisamos nos aprofundar no tema e ajudar a escrever este</p><p>capítulo na história da Psicopedagogia.</p><p>No decorrer das unidades, aprofundaremos nossos estudos sobre a importância</p><p>e a atuação do psicopedagogo na área hospitalar. Como futuro psicopedagogo, como</p><p>você avalia o seu plano de trabalho proposto? Que dificuldades você espera encontrar</p><p>na aplicação deste plano?</p><p>IMERSÃO</p><p>RECURSOS DE</p><p>Quando identificar o ícone de QR-CODE, utilize o aplicativo Unicesumar</p><p>Experience para ter acesso aos conteúdos on-line. O download do</p><p>aplicativo está disponível nas plataformas: Google Play App Store</p><p>Ao longo do livro, você será convida-</p><p>do(a) a refletir, questionar e trans-</p><p>formar. Aproveite este momento.</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>NOVAS DESCOBERTAS</p><p>Enquanto estuda, você pode aces-</p><p>sar conteúdos online que amplia-</p><p>ram a discussão sobre os assuntos</p><p>de maneira interativa usando a tec-</p><p>nologia a seu favor.</p><p>Sempre que encontrar esse ícone,</p><p>esteja conectado à internet e inicie</p><p>o aplicativo Unicesumar Experien-</p><p>ce. Aproxime seu dispositivo móvel</p><p>da página indicada e veja os recur-</p><p>sos em Realidade Aumentada. Ex-</p><p>plore as ferramentas do App para</p><p>saber das possibilidades de intera-</p><p>ção de cada objeto.</p><p>REALIDADE AUMENTADA</p><p>Uma dose extra de conhecimento</p><p>é sempre bem-vinda. Posicionando</p><p>seu leitor de QRCode sobre o códi-</p><p>go, você terá acesso aos vídeos que</p><p>complementam o assunto discutido.</p><p>PÍLULA DE APRENDIZAGEM</p><p>OLHAR CONCEITUAL</p><p>Neste elemento, você encontrará di-</p><p>versas informações que serão apre-</p><p>sentadas na forma de infográficos,</p><p>esquemas e fluxogramas os quais te</p><p>ajudarão no entendimento do con-</p><p>teúdo de forma rápida e clara</p><p>Professores especialistas e convi-</p><p>dados, ampliando as discussões</p><p>sobre os temas.</p><p>RODA DE CONVERSA</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>Com este elemento, você terá a</p><p>oportunidade de explorar termos</p><p>e palavras-chave do assunto discu-</p><p>tido, de forma mais objetiva.</p><p>UNIDADE 1</p><p>12</p><p>Você consegue imaginar como uma criança se sente durante um processo de</p><p>internação? A angústia de não poder sair, não poder brincar ou ir à escola? Os</p><p>relatos que você verá a seguir são de crianças com patologias crônicas, que pas-</p><p>saram por uma ou mais internações longas.</p><p>Primeiro relato: Guilherme, 8 anos, internado, há sete dias, por síndrome</p><p>nefrótica.</p><p>“</p><p>Pesquisadora: Como é ficar no hospital?</p><p>Guilherme: Muito ruim, nossa! A enfermeira vem dar remédio</p><p>toda hora. De noite não durmo direito, aqui tem muito barulho.</p><p>Ontem chorei muito, porque tiveram que pegar outra veia e doeu</p><p>tanto que pedi para respirar um pouquinho, porque não conseguia</p><p>respirar de tanto que doía” (VASQUES, 2007, p.162)</p><p>Segundo relato: Orlando, 12 anos, internado, há sete dias, por quadro de pneu-</p><p>monia aspirativa.</p><p>“</p><p>Pesquisadora: Como foi, para você, ficar no hospital?</p><p>Orlando: Muito ruim.</p><p>Pesquisadora: Por quê?</p><p>Orlando: Dói. Você tem que fazer tudo que eles querem, na hora</p><p>que eles querem… (VASQUES, 2007, p.143)</p><p>Terceiro relato: Diego, 12 anos, internado, há dez dias, por celulite de face. “Pes-</p><p>quisadora: Como é ficar doente? Diego: Muito ruim! Você se sente um inútil,</p><p>não tem nada pra fazer, aqui só tem criança, o tempo não passa… Vichi! É ‘um</p><p>saco” ficar aqui’” (VASQUES, 2007, p.155).</p><p>Estes são trechos de entrevistas com crianças hospitalizadas, extraídos da</p><p>dissertação “A experiência de sofrimento: histórias narradas pela criança hos-</p><p>pitalizada” (VASQUES, 2007). Podemos notar o quanto a rotina do hospital se</p><p>torna invasiva e agressiva para a criança, uma vez que ela se vê sem nenhuma</p><p>autonomia e privada das coisas que lhe dão prazer e da presença das pessoas que</p><p>ama. Mas será que é só a criança que vivencia esses sentimentos?</p><p>UNIDADE 1</p><p>14</p><p>o que vamos comer), não podemos nem ao menos descansar de forma tranquila</p><p>durante a noite, devido à toda a rotina característica desse ambiente. Mas não</p><p>temos opção; quando ficamos doentes, dependendo da situação, a hospitalização</p><p>é inevitável e o hospital passa a ser o nosso principal contexto de convívio, um</p><p>contexto muito diferente do habitual, que já traz em si uma quebra de rotina.</p><p>A rotina do hospital é extremamente limitante. Quando precisamos ficar inter-</p><p>nados, somos privados da nossa liberdade de ir e vir, temos que seguir horários</p><p>que não foram planejados por nós e não podemos ter contato com as pessoas</p><p>que amamos. Lima e Natel (2010) acrescentam que o processo de hospitalização</p><p>pode ser traumático para o indivíduo, pois ele perde sua singularidade, passa a</p><p>ser identificado por números, vestir-se igual aos outros, ser reconhecido por sua</p><p>doença e responder a procedimentos médicos, muitas vezes, dolorosos.</p><p>É comum associarmos a palavra hospital a outras, como dor, perdas e so-</p><p>frimento. E estar nesse ambiente gera, naturalmente, ansiedade e medo. Junior</p><p>e Alves (2016) colocam que a hipótese de hospitalização gera uma mistura de</p><p>sentimentos e situações na cabeça do indivíduo adulto.</p><p>UNICESUMAR</p><p>15</p><p>Rotina de um Hospital - Entrevista</p><p>Vamos conhecer, um pouco mais de perto, a rotina do</p><p>hospital? Confira a entrevista com uma técnica de enfer-</p><p>magem que já atua há 25 anos em hospitais no atendi-</p><p>mento de crianças e adolescentes!</p><p>Se, para o indivíduo adulto, já é difícil, imagine, então, como é a hospitalização</p><p>para a criança. Nascimento (2004, p. 48) coloca que, para indivíduos jovens que</p><p>apresentam diagnóstico de patologias crônicas, “o hospital</p><p>hospitais e</p><p>tem sido muito bem aceita, pois é uma forma efetiva de possibilitar que as</p><p>crianças e adolescentes internados não interrompam seus estudos e possam</p><p>UNICESUMAR</p><p>53</p><p>Descrição da Imagem: A figura é um desenho feito por uma</p><p>criança de 7 anos, sendo uma cama quadrada, com os pés</p><p>redondos, e um suporte com a bisnaga do soro.</p><p>retomar o ensino presencial quando estiverem curados. Além disso, manter</p><p>esse contato com a escola auxilia na recuperação desses pacientes (OLIVEI-</p><p>RA; SILVA; FANTACINI, 2016).</p><p>Vamos ouvir um pouquinho de quem está na</p><p>linha de frente!</p><p>Como os médicos percebem o atendimento educacional e as</p><p>atividades lúdicas para crianças e adolescentes no ambiente</p><p>hospitalar?</p><p>Confira a entrevista com a Dra. Sueli, médica pediatra do</p><p>Hospital Municipal de Maringá.</p><p>Além do atendimento nas classes hospitalares, Oliveira, Silva e Fantacini (2016)</p><p>mencionam outros formatos de atendimento educacional no contexto hospitalar:</p><p>■ Atendimento ao leito.</p><p>■ Atendimento pedagógico domiciliar.</p><p>■ Brinquedoteca hospitalar.</p><p>Figura 1 - A cama do hospital, por Jean (7 anos)</p><p>Fonte: Vasques (2011, p. 85).</p><p>Vamos conhecer cada um</p><p>deles. O atendimento ao</p><p>leito ocorre quando a con-</p><p>dição da criança ou adoles-</p><p>cente não lhe permite sair</p><p>do quarto e/ou da cama</p><p>hospitalar. Nesses casos, o</p><p>atendimento ocorre de for-</p><p>ma individualizada, no pró-</p><p>prio quarto da criança, ou</p><p>seja, o educador vai até ela e</p><p>propõe as atividades que ela</p><p>faria se pudesse ir até a clas-</p><p>se hospitalar (OLIVEIRA;</p><p>SILVA; FANTACINI, 2016).</p><p>UNIDADE 2</p><p>54</p><p>No caso do atendimento pedagógico domiciliar, as atividades educativas ocorrem</p><p>na casa da criança ou adolescente. Ocorre quando a criança está impossibilitada</p><p>de frequentar as aulas por motivo de doença, mas seu quadro de saúde permi-</p><p>te que ela faça o tratamento em casa (OLIVEIRA; SILVA; FANTACINI, 2016).</p><p>Conforme definição de Brasil (2002, p. 13),</p><p>“</p><p>[...] o atendimento pedagógico domiciliar é o atendimento educa-</p><p>cional que ocorre em ambiente domiciliar, decorrente de problema</p><p>de saúde que impossibilite o educando de frequentar a escola ou</p><p>esteja ele em casas de passagem, casas de apoio, casas-lar e/ou outras</p><p>estruturas de apoio da sociedade.</p><p>Já a brinquedoteca hospitalar é um ambiente mais lúdico, mas também muito</p><p>importante para o desenvolvimento da criança. Como o próprio nome já sugere,</p><p>é o espaço de brincar. Oliveira, Silva e Fantacini (2016) ressaltam que o brincar</p><p>permite que a criança desenvolva suas potencialidades, expresse suas emoções e</p><p>se socialize com seus pares. “É um ambiente prazeroso, onde a criança hospitali-</p><p>zada passa horas e horas brincando sem se lembrar da hora e principalmente de</p><p>seu problema de saúde” (OLIVEIRA; SILVA; FANTACINI, 2016, p. 95).</p><p>UNICESUMAR</p><p>55</p><p>De acordo com a Lei nº 11.104/2005, a brinquedoteca é o espaço dentro do</p><p>hospital no qual são disponibilizados brinquedos e jogos educativos com o objetivo</p><p>de estimular os pacientes internados a brincar, seja sozinho, com os pares ou com</p><p>os acompanhantes (BRASIL, 2005a). A Lei, aprovada pela Portaria nº 2.261/2005,</p><p>estabelece que todas as unidades de saúde que ofertam atendimento a crianças em</p><p>regime de internação têm a obrigatoriedade de instalar brinquedotecas.</p><p>Cunha ([s. p.] apud OLIVEIRA; SILVA; FANTACINI, 2016) refere que a ideia</p><p>de criar um espaço para brincar surgiu, inicialmente, de um diretor de uma escola</p><p>de Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1932. Após ter recebido queixas de que</p><p>crianças estavam roubando brinquedos de uma loja, o diretor propôs a criação</p><p>de um local onde os brinquedos pudessem ser emprestados. Assim, surgiu a pri-</p><p>meira brinquedoteca. De acordo com Costa et al. (2014, p. 212), ao refletir sobre</p><p>o problema do roubo dos brinquedos,</p><p>“</p><p>[...] o diretor concluiu que isto acontecia porque elas não tinham</p><p>com o quê brincar e decidiu iniciar um trabalho de empréstimo</p><p>de brinquedos às crianças carentes da comunidade. Assim, surgiu</p><p>a primeira ideia de brinquedoteca no mundo, com o nome de Los</p><p>Angeles Toy Loan, que existe até hoje.</p><p>Na Suécia, a ideia de emprestar brinquedos às crianças surgiu, em 1963, na cidade</p><p>de Estocolmo. Partiu de duas professoras que tinham filhos com deficiência. Elas</p><p>emprestavam brinquedos e orientavam as famílias de crianças excepcionais, com</p><p>o objetivo de orientá-las sobre como estimular os próprios filhos por meio da</p><p>brincadeira (COSTA et al., 2014).</p><p>Em 1967, surgiram, na Inglaterra, as Toy Libraries, bibliotecas de brinquedos,</p><p>nas quais as crianças podiam pegar brinquedos para brincar em casa, devolven-</p><p>do-os após algum tempo. Com o tempo, essa atividade foi se expandindo, até que,</p><p>em 1976, realizou-se o Primeiro Congresso Internacional sobre as Brinquedote-</p><p>cas em Londres (COSTA et al., 2014). Posteriormente, outros eventos para tratar</p><p>do assunto, também, foram organizados.</p><p>“</p><p>Muitas outras finalidades foram sendo desenvolvidas pelas brin-</p><p>quedotecas, como apoio às famílias, orientação educacional e de</p><p>saúde mental, estimulação precoce, estímulo à socialização e resgate</p><p>UNIDADE 2</p><p>56</p><p>da cultura lúdica. Por causa disso, em 1987, no Congresso Interna-</p><p>cional de Toy Libraries, em Toronto-Canadá, um grupo de pesqui-</p><p>sadores questionou a adequação do nome Toy Libraries, que foi</p><p>modificado para Centros de Recursos para a Família.</p><p>A transformação desse serviço continuou, levando ao lançamento</p><p>de um livro com o título Toy Libraries in an International Perspec-</p><p>tive, editado na Suécia e lançado no Congresso Internacional de</p><p>Brinquedotecas de 1990, realizado em Turim-Itália, relatando os tra-</p><p>balhos de brinquedotecas de 37 países (COSTA et al., 2014, p. 2013).</p><p>Costa et al. (2014) comentam que o surgimento da brinquedoteca no Brasil foi</p><p>motivado pela necessidade de estimular crianças com deficiência. Em 1971, foi</p><p>inaugurado o Centro de Habilitação da Associação de Pais e Amigos dos Ex-</p><p>cepcionais de São Paulo, e, na ocasião, foram apresentados diversos brinquedos</p><p>pedagógicos em uma grande exposição, a qual foi transformada em um Setor de</p><p>Recursos Pedagógicos do centro.</p><p>“</p><p>Nesse setor, dois anos após, foi implantado o Sistema de Rodízio de</p><p>Brinquedos e Materiais Pedagógicos, em que foram centralizados</p><p>todos os brinquedos existentes em seu Setor Educacional, os quais</p><p>passaram a serem utilizados nos moldes de biblioteca circulante,</p><p>mas ainda não se falava em brinquedoteca. Pois, o uso do material</p><p>era principalmente voltado ao estímulo do desenvolvimento cog-</p><p>nitivo e motor, empregado com intenção terapêutica e prescrito por</p><p>profissional, relegando a segundo plano, a dimensão lúdica desse</p><p>brinquedo e a necessidade do brincar na vida da criança.</p><p>Ainda assim, a iniciativa trouxe valorização ao uso dos brinquedos</p><p>e passou a ser objeto de interesse de grande número de profissionais</p><p>e estudantes de diferentes áreas, dos pais das crianças e de artesãos</p><p>em busca de novidade (COSTA et al., 2014, p. 213).</p><p>Diferente das brinquedotecas americanas, na qual as crianças emprestam os brin-</p><p>quedos para brincar em casa, no Brasil, as crianças brincam no próprio espaço</p><p>da brinquedoteca (OLIVEIRA; SILVA; FANTACINI, 2016). A brinquedoteca</p><p>hospitalar deve obedecer a algumas diretrizes:</p><p>UNICESUMAR</p><p>57</p><p>“</p><p>Art 5º Para o cumprimento do disposto nos artigos anteriores, de-</p><p>verão ser observadas as seguintes diretrizes:</p><p>I. os estabelecimentos hospitalares pediátricos deverão disponibi-</p><p>lizar brinquedos variados, bem como propiciar atividades com</p><p>jogos, brinquedos, figuras, leitura e entretenimento nas unidades</p><p>de internação e tratamento pediátrico como instrumentos de</p><p>aprendizagem educacional e de estímulos positivos na recupe-</p><p>ração da saúde;</p><p>II. tornar a criança um parceiro ativo em seu processo de tratamento,</p><p>aumentando a aceitabilidade em relação à internação hospitalar, de</p><p>forma que sua permanência seja mais agradável;</p><p>III. agregação de estímulos positivos ao processo de cura,</p><p>proporcio-</p><p>nando o brincar como forma de lazer, alívio de tensões e como ins-</p><p>trumento privilegiado de crescimento e desenvolvimento infantil;</p><p>IV. ampliação do alcance do brincar para a família e os acompanhantes</p><p>das crianças internadas, proporcionando momentos de diálogos</p><p>entre os familiares, as crianças e a equipe, facilitando a integração</p><p>entre os pacientes e o corpo funcional do hospital; e</p><p>V. a implementação da brinquedoteca deverá ser precedida de um tra-</p><p>balho de divulgação e sensibilização junto à equipe do Hospital e de</p><p>Voluntários, que deverá estimular e facilitar o acesso das crianças</p><p>aos brinquedos, do jogos e aos livros (BRASIL, 2005b, on-line).</p><p>Essas diretrizes mostram, claramente, que a lei reconhece a importância das</p><p>atividades recreativas e dos brinquedos como formas de aprendizagem e es-</p><p>tímulo à recuperação da criança internada. Souza e Stobäus (2012), também,</p><p>falam sobre a importância do brincar para o desenvolvimento infantil. Os</p><p>autores ressaltam que</p><p>“</p><p>[...] o brincar está para a criança assim como o trabalho está para</p><p>o adulto. O brincar de forma espontânea e prazerosa é sinal de</p><p>saúde mental e desenvolvimento cognitivo adequado, bem como,</p><p>a ausência deste, pode ser um sinal de sintoma de doença. Ao</p><p>brincar, as crianças dão sentido ao saber que possuem, tentando</p><p>integrar outros saberes que desejam alcançar (SOUZA; STO-</p><p>BÄUS, 2012, p. 91-92).</p><p>UNIDADE 2</p><p>58</p><p>Voltando ao início da nossa unidade, as crianças que citamos trazem exemplos</p><p>reais sobre o efeito do brincar no contexto do hospital. Yuri, de 9 anos, chega a</p><p>mencionar que não fica triste no hospital, pois lá pode brincar no computador</p><p>com uma funcionária: a “tia da sala de brinquedo”. “Ah, é bom. Eu brinco no</p><p>computador, a tia da sala de brinquedo me ensinou a jogar no computador e a</p><p>gente brinca (...)” (VASQUES, 2007, p. 197). Yuri ressaltou, várias vezes, durante</p><p>a entrevista, que não fica triste nesse ambiente, pelo fato de poder brincar no</p><p>computador. Disse, ainda, que essa era a estratégia que uma criança deveria usar</p><p>para diminuir sua tristeza quando está internada:</p><p>“</p><p>Pesquisadora: O que acha que ela deve fazer para diminuir a</p><p>tristeza dela?</p><p>Yuri: Ela tem que ir brincar, falar com a avó dela, tem que</p><p>tomar o remédio que daí ela vai embora rapidinho, porque o</p><p>computador é muito legal, daí ela vai brincar e não vai mais</p><p>ficar triste, nem vai chorar mais (VASQUES, 2007, p. 198).</p><p>Figura 2 - O “parquinho” do hospital, por Matheus (10 anos) / Fonte: Vasques (2011, p. 75).</p><p>Descrição da Imagem: desenho feito por uma criança de 10 anos, com um balanço de dois lugares,</p><p>brinquedos, escorregador e uma criança.</p><p>UNICESUMAR</p><p>59</p><p>A brinquedoteca hospitalar tem diversos objetivos, que vão além de somente proporcio-</p><p>nar um momento de lazer e diversão à criança ou adolescente hospitalizado. Cunha (2008</p><p>apud OLIVEIRA, SILVA; FANTACINI, 2016, p. 98) cita alguns deles:</p><p>“ • Preservar a saúde emocional da criança ou adolescente, proporcionando oportunida-</p><p>des para brincar, jogar, e encontrar parceiros.</p><p>• Preparar a criança para situações que irá enfrentar, levando-a a familiarizar-se com</p><p>roupas e instrumentos cirúrgicos de brinquedo por meio de situações lúdicas, a tomar</p><p>conhecimento de detalhes na vida do hospital e do tratamento a que vai ser submetida.</p><p>• Dar continuidade à estimulação de seu desenvolvimento, pois a internação poderá</p><p>privá-la de oportunidades e experiências de que necessita.</p><p>• Proporcionar condições para que a família e os amigos que vão visitar a criança se en-</p><p>contrem com ela em um ambiente mais favorável e alegre.</p><p>• Preparar a criança para voltar para casa depois de uma internação prolongada ou trau-</p><p>mática”.</p><p>Fonte: adaptado de Cunha (2008 apud OLIVEIRA, SILVA; FANTACINI, 2016).</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>É possível notar o quanto o prazer da atividade recreativa, no caso, os jogos de</p><p>computador, proporciona para Yuri. Ele considera que não é ruim estar internado,</p><p>simplesmente, pelo fato de poder jogar no computador e, ainda, enfatiza que essa</p><p>estratégia pode ser efetiva para as crianças que ficam tristes.</p><p>Guilherme, também, fala sobre esse assunto. Afirma que não somente o brincar,</p><p>mas também a leitura o faz sentir-se melhor: “Pesquisadora: Quando fica triste, o</p><p>que te ajuda a se sentir melhor? Guilherme: Eu leio uns livrinhos que as tias tra-</p><p>zem, brinco com os joguinhos e fico com a minha mãe!” (VASQUES, 2007, p. 163).</p><p>Aqui, podemos observar o quanto o brincar e a atividade educativa, no caso,</p><p>a leitura, podem amenizar o sofrimento da criança. Para Guilherme, são ativi-</p><p>dades que o fazem se sentir melhor apesar da dor e frustração da internação.</p><p>Nascimento (2004) coloca que o brincar é uma forma de intervenção psicope-</p><p>dagógica no ambiente hospitalar. Por meio da brincadeira, a criança projeta suas</p><p>realidades dolorosas e seus medos, de forma simbólica, amenizando a frieza do</p><p>tratamento e o próprio hospital.</p><p>UNIDADE 2</p><p>60</p><p>O processo de aprendizagem do sujeito hospitalizado</p><p>Como já falamos na unidade anterior, a hospitalização, geralmente, ocorre de</p><p>forma rápida e imprevisível, sem que o indivíduo tenha tempo para se preparar.</p><p>Miranda e Alves ([s. d.] apud NASCIMENTO, 2004) ressaltam que, quanto mais</p><p>jovem, piores são as consequências para o desenvolvimento. O hospital é viven-</p><p>ciado como um desconhecido, gerador de insegurança e estresse. Nascimento</p><p>(2004, p. 52) complementa que</p><p>“</p><p>[...] outras ansiedades, tais como a impotência, a dependência, a</p><p>mudança da imagem corporal (dependendo da doença) e o medo</p><p>da morte, compõem as dificuldades da criança e do adolescente</p><p>hospitalizado. Assim, para o jovem hospitalizado, o afastamento da</p><p>família, dos amigos e de seu habitat (casa, escola, etc.) pode causar-</p><p>-lhe profundas reações, tanto a nível cognitivo quanto psicossocial.</p><p>É dessa forma que se encontram os pacientes que chegam até o psicopedagogo.</p><p>Ansiosos, assustados, inseguros. Muitas vezes, até irritados ou agressivos, pela</p><p>dificuldade de aceitação da doença e de suas limitações (NASCIMENTO, 2004).</p><p>E é nesse contexto que o profissional de Psicopedagogia precisa planejar e de-</p><p>senvolver suas atividades.</p><p>Ferreira (2011) destaca que a aprendizagem ocorre de forma única e indi-</p><p>vidual para cada indivíduo e existem inúmeros fatores que podem interferir na</p><p>aprendizagem. Para tratar as dificuldades de aprendizagem, o psicopedagogo deve</p><p>considerar as dificuldades do indivíduo com o meio e do meio com o indivíduo</p><p>de forma recíproca. A partir da compreensão dos problemas de aprendizagem</p><p>em todas as suas dimensões, ele irá “agir operacionalmente, aproximando-se e</p><p>buscando soluções pedagógicas a partir de uma leitura afetivo-cognitiva e social</p><p>do problema” (FERREIRA, 2011, p. 47).</p><p>Voltando às nossas crianças, Alisson, de 8 anos, queixou-se bastante, durante</p><p>a entrevista, dos procedimentos pelos quais tem que passar no hospital, especial-</p><p>mente, pelo fato de sentir muita dor. No entanto considera que existem coisas que</p><p>são, ainda, piores que a dor durante o internamento: “Alisson: Quando quero ir pra</p><p>casa e não posso, quero brincar, tenho saudade do meu irmão… eu brincava com</p><p>ele… Eu adoro o meu irmão! Tenho saudades dos meus brinquedos, da escola - eu</p><p>UNICESUMAR</p><p>61</p><p>brincava bastante na escola -, dos meus amigos…” (VASQUES, 2007, p. 166-167).</p><p>Veja que a falta do convívio com familiares e amigos, para esta criança, é</p><p>pior do que a dor. É pior porque lhe priva daquilo que lhe é natural: o brincar, a</p><p>interação com os pares, estudar. Não podemos dizer que proporcionar atividades</p><p>lúdicas e educacionais vão eliminar toda dor da doença e da hospitalização, mas,</p><p>com certeza, podem amenizar o sofrimento dessa criança. É possível notar que a</p><p>escola tem o caráter de diversão e socialização para Alisson, e que ele sente muita</p><p>falta não só da casa e dos familiares, mas também do ambiente escolar, no qual</p><p>ele podia brincar e encontrar os amigos.</p><p>Anderson, de</p><p>17 anos, também, queixa-se da impossibilidade de fazer as coi-</p><p>sas que gosta. Relatou à pesquisadora que esta é a pior parte de estar internado</p><p>e que, mesmo não gostando, sente falta de estudar: “Pesquisadora: E o que tem</p><p>de pior em tudo isso? Anderson: Ficar aqui sem fazer muita coisa. De vez em</p><p>quando, desço, dou uma volta lá embaixo, mas é só. Não gosto muito de estudar,</p><p>mas até disso estou sentindo falta” (VASQUES, 2007, p.188).</p><p>A fala de Anderson, também, expressa a frustração das privações que o am-</p><p>biente hospitalar impõe. Ele chega a dizer que, mesmo não gostando de estudar,</p><p>sente falta dessa atividade. Sente falta porque era algo que fazia parte de sua</p><p>rotina, das atividades que lhe são naturais nesse período da vida. Naturalmente,</p><p>toda essa carga emocional interfere no processo de aprendizagem da criança ou</p><p>adolescente hospitalizado. E, se a aprendizagem é o objeto de estudo da Psicope-</p><p>dagogia, intervir para que o indivíduo aprenda, mesmo com as barreiras que o</p><p>ambiente hospitalar impõe, é tarefa do profissional dessa área.</p><p>Ferreira (2011) coloca que a diferença da intervenção psicopedagógica nesse</p><p>ambiente é a própria dinâmica de intervenção e os recursos utilizados. “Faz-se</p><p>necessário que esse profissional, imbuído de competências, descortine o universo</p><p>hospitalar, através de situações do cotidiano que exigem aprendizagem por meio</p><p>de múltiplos processos” (FERREIRA, 2011, p. 48). Isso significa que o profissional</p><p>de Psicopedagogia Hospitalar não se ocupará, apenas, do processo de aprendi-</p><p>zagem do paciente.</p><p>Para desenvolver suas atividades, o psicopedagogo precisa compreender como</p><p>ocorre o desenvolvimento infantil, verificar em que medida as doenças interfe-</p><p>rem na possibilidade de realizar as atividades escolares e como os problemas de</p><p>saúde acarretam problemas na aprendizagem e as causas que determinam essas</p><p>dificuldades (NASCIMENTO, 2004). Complementando essa colocação, Ferreira</p><p>UNIDADE 2</p><p>62</p><p>(2011) afirma que existem diversos fatores que podem interferir na aprendizagem</p><p>do indivíduo. Nesse sentido, o psicopedagogo “deve considerar as dificuldades</p><p>do sujeito com o meio e as dificuldades do meio com o sujeito, visto que essas</p><p>duas dimensões devem ser analisadas reciprocamente” (FERREIRA, 2011, p. 47).</p><p>Vamos sintetizar o que vimos até aqui. Existem diversos fatores que vão in-</p><p>terferir no desenvolvimento e aprendizagem de crianças e adolescentes hospi-</p><p>talizados:</p><p>■ Os aspectos ambientais: estar em um ambiente diferente do habitual,</p><p>a rotina hospitalar, a falta de espaço e recursos adequados para a apren-</p><p>dizagem.</p><p>■ Os aspectos emocionais: o medo, a ansiedade, a insegurança, o estresse</p><p>de estar vivenciando uma situação de doença.</p><p>■ Os aspectos biológicos: a condição do indivíduo em si, a dor da doença</p><p>ou dos procedimentos realizados no hospital, as consequências da doença</p><p>para o funcionamento cognitivo do paciente.</p><p>Todos esses fatores devem ser considerados na atuação do profissional da psico-</p><p>pedagogia. Trazendo essas colocações para a prática, vamos refletir: que apren-</p><p>dizagens são importantes no ambiente hospitalar? Em primeiro lugar, é preciso</p><p>compreender que a doença interferirá no processo de aprendizagem desse indi-</p><p>víduo, inevitavelmente. A começar pelo ambiente: estar em um hospital significa</p><p>que ele não está no local próprio para a aprendizagem. A escola tem foco no de-</p><p>senvolvimento e aprendizagem dos sujeitos, e o hospital tem foco na recuperação</p><p>da saúde. Pelas próprias características, esses locais são completamente diferentes.</p><p>É preciso que a criança ou adolescente hospitalizado conheça esse novo ambien-</p><p>te, familiarize-se com ele, para que a ansiedade e o medo do desconhecido não</p><p>interfiram na sua recuperação.</p><p>Penso que essa é a primeira aprendizagem que precisa acontecer. É necessário</p><p>educar o paciente sobre esse novo ambiente e suas regras, sobre a rotina e pro-</p><p>cedimentos que farão parte do seu dia a dia a partir na internação. Nascimento</p><p>(2004, p. 52) complementa que “educar o paciente ao convívio com a sua nova</p><p>realidade, muitas vezes limitante às atividades da vida diária, responde a um</p><p>trabalho de cunho psicopedagógico”.</p><p>É preciso, também, educar sobre a doença. O pequeno paciente precisa en-</p><p>tender as limitações que sua condição pode lhe trazer, que procedimentos serão</p><p>UNICESUMAR</p><p>63</p><p>necessários, a presença ou não da dor, os devidos cuidados para que ele se recupe-</p><p>re e, até mesmo, o prognóstico, ou seja, o quanto ele irá se recuperar. Saber sobre</p><p>a doença é necessário para que a criança se torne um sujeito ativo do processo,</p><p>bem como auxilia na adesão ao tratamento. Souza ([s. d.] apud NASCIMENTO,</p><p>2004) coloca que a adesão ao tratamento é uma forma de aprendizagem, pois o</p><p>indivíduo passa a se comprometer com a própria recuperação, fortalecendo sua</p><p>autonomia por meio do conhecimento de si e da sua doença.</p><p>Vasques (2007) ressalta que, além de conversar com a criança sobre a doença,</p><p>é preciso permitir que ela fale sobre suas preocupações, medos e angústias da</p><p>situação em que se encontra. Dessa forma, ela passa a conviver com a experiência</p><p>de estar doente e se sente mais à vontade no hospital, o que lhe permite</p><p>“</p><p>[...] encontrar formas para substituir, ainda que temporariamente,</p><p>algumas perdas que vivencia. Ela redireciona sua energia para ativi-</p><p>dades que a fazem se sentir melhor. Assim, ela se vê pronta para usu-</p><p>fruir os brinquedos e brincadeiras do hospital, parecendo se adaptar</p><p>ao meio em que se encontra e retomar atividades importantes, ca-</p><p>racterísticas da infância, como o brincar (VASQUES, 2007, p. 105).</p><p>Em meio a todas essas mudanças, é preciso oportunizar o aprendizado escolar.</p><p>O vínculo entre o paciente e a escola permitirá a continuidade de seus estudos e</p><p>facilitará o retorno às aulas presenciais após a alta médica. Sobre isso, Nascimento</p><p>(2004, p. 52) coloca que o profissional de psicopedagogia precisa “entrar em con-</p><p>tato com a escola, fomentando o vínculo escola-hospital, auxiliando o paciente</p><p>no seu processo de aprendizagem escolar, inclusive depois da alta, realizando o</p><p>trabalho de inclusão escolar de crianças pós-hospitalizadas”.</p><p>Aspectos de aprendizagem no hospital enquanto</p><p>organização</p><p>Já conversamos, aqui, sobre as peculiaridades do ambiente hospitalar. Vamos,</p><p>então, explorar quais aspectos diferenciam a aprendizagem que deve ocorrer</p><p>nesse ambiente. O primeiro aspecto que o profissional precisa levar em conta é</p><p>que, diferentemente do consultório, no hospital, ele não estará lidando com um</p><p>UNIDADE 2</p><p>64</p><p>indivíduo saudável do ponto de vista físico. Nascimento (2004) coloca que o</p><p>apoio que o paciente necessita, quando está hospitalizado, vai além da aprendi-</p><p>zagem escolar. “O paciente hospitalizado (internado ou não) precisa de um apoio</p><p>diferenciado, referindo mais suporte afetivo e cognitivo a respeito de sua doença</p><p>e tratamento, bem como ao seu desenvolvimento como um todo, durante seu</p><p>curso no hospital” (NASCIMENTO, 2004, p. 54).</p><p>Nesse sentido, faz-se necessário uma atuação junto à equipe multidisciplinar. O</p><p>psicopedagogo precisa estar inserido nas equipes de saúde, em primeiro lugar, para</p><p>aprender. Ele precisa compreender a doença e as implicações da mesma para cada</p><p>paciente, para que possa ajudá-lo a aceitar sua condição e o tratamento que precisa-</p><p>rá realizar. Dessa forma, além de auxiliar o paciente, o psicopedagogo, também, es-</p><p>tará auxiliando a equipe médica nas suas intervenções. Nas palavras de Nascimento</p><p>(2004, p. 54), o psicopedagogo deve atuar em todo o processo de hospitalização,</p><p>“</p><p>[...] instrumentalizando o paciente a aprender sobre si mesmo, sobre</p><p>como ajudar-se em sua cura, como e porque aceitar o uso das medica-</p><p>ções, bem como atua com o desenvolvimento integral desse paciente e</p><p>com a manutenção de sua aprendizagem que possibilitará sua reinser-</p><p>ção na vida escolar após seu processo de alta. Seu papel é também de</p><p>locutor nas relações interpessoais</p><p>de escuta a criança e sua família, bem</p><p>como aos profissionais da equipe, através de uma atuação que favoreça</p><p>o atendimento em uma visão integrada biopsicossocial em saúde.</p><p>UNICESUMAR</p><p>65</p><p>EU INDICO</p><p>Falamos muito, nessa unidade, sobre as classes hospitalares, que é o forma-</p><p>to mais comum de oferta de atendimento educacional nos hospitais. Confi-</p><p>ra, na íntegra, o documento Classes Hospitalar e Atendimento Pedagógico</p><p>Domiciliar. Este tem como objetivo orientar a forma como deve ser estrutu-</p><p>rado o atendimento educacional no hospital e em domicílio. É essencial que</p><p>o psicopedagogo conheça esses formatos de atendimento, para que possa</p><p>planejar tais atividades de forma efetiva.</p><p>Isto significa que o profissional, também, deverá se preocupar com a aprendi-</p><p>zagem por parte das famílias e das equipes de saúde. Com relação às famílias, é</p><p>necessário que elas, também, aprendam sobre o hospital e sobre a doença, visando</p><p>um apoio mais adequado à criança ou adolescente hospitalizado. Da mesma for-</p><p>ma, com relação às equipes de saúde, o psicopedagogo deve oportunizar para elas</p><p>a aprendizagem sobre as necessidades do paciente, auxiliando na comunicação</p><p>entre paciente e equipe, para fortalecer e humanizar essa relação. Cabe, ainda,</p><p>citar a aprendizagem da própria equipe entre si. O psicopedagogo pode atuar</p><p>como um facilitador dentro da equipe multiprofissional, intervindo de forma</p><p>institucional para auxiliar na comunicação, interação e humanização da relação</p><p>entre os membros da equipe.</p><p>Vamos relembrar a atividade proposta no início da nossa unidade? Reveja a entre-</p><p>vista que você realizou com um profissional da saúde e faça uma análise a partir</p><p>dos pontos estudados nessa unidade. Agora é o momento de agir! Considerando a</p><p>realidade apresentada pelo seu entrevistado e os conhecimentos estudados nessa</p><p>unidade, analise e responda às seguintes questões:</p><p>1. Quais as dificuldades encontradas na instituição em questão?</p><p>2. O que você poderia fazer para sanar tais dificuldades?</p><p>66</p><p>AGORA É COM VOCÊ</p><p>Mapa da empatia</p><p>Como vimos, a atuação do psicopedagogo, na área hospitalar, exige uma série de conhe-</p><p>cimentos habilidades. Com base nos conteúdos estudados até aqui, elabore um quadro</p><p>com três colunas, nas quais você fará uma lista de tópicos que irão sintetizar o que você</p><p>aprendeu até agora. Em cada coluna, você irá responder uma das questões:</p><p>1ª coluna: que conteúdos (conhecimentos) são importantes para a atuação do psicope-</p><p>dagogo no hospital?</p><p>2ª coluna: que habilidades são importantes para o psicopedagogo que deseja atuar</p><p>nessa área?</p><p>3ª coluna: quais dessas habilidades você já possui e quais, ainda, precisa desenvolver?</p><p>MEU ESPAÇO</p><p>68</p><p>CONFIRA SUAS RESPOSTAS</p><p>1ª coluna: que conteúdos (conhecimentos) são importantes para a atuação do psicopeda-</p><p>gogo no hospital? Espera-se que nessa questão o aluno possa elencar conteúdos teóricos</p><p>e práticos que ele precisará ter conhecimento, tais como: Educação, Desenvolvimento Hu-</p><p>mano, Psicologia, Pedagogia, Inclusão, a rotina hospitalar, as consequências das doenças</p><p>para a aprendizagem, entre outras.</p><p>2ª. coluna: que habilidades são importantes para o psicopedagogo que deseja atuar nessa</p><p>área? Nessa questão, o aluno deve listar habilidades profissionais, tais como: iniciativa,</p><p>criatividade, trabalho em equipe, capacidade de adaptação, flexibilidade, entre outras.</p><p>3ª coluna: quais dessas habilidades você já possui e quais, ainda, precisa desenvolver?</p><p>Nesta última coluna, o aluno deverá fazer uma autoanálise e expor quais as características</p><p>que já possui e quais considera que, ainda, precisa desenvolver.</p><p>UNIDADE 3</p><p>70</p><p>Ao longo da disciplina, você já viu as-</p><p>pectos da rotina do hospital e de como</p><p>a Psicopedagogia ganhou espaço nesse</p><p>ambiente. Agora, está na hora de pen-</p><p>sarmos na prática.</p><p>Para intervir sobre um problema,</p><p>primeiro, é preciso conhecê-lo! Então,</p><p>vamos conhecer a história de algumas</p><p>crianças em situação de doença.</p><p>Já citamos nas unidades anteriores,</p><p>algumas falas de Guilherme, de 8 anos,</p><p>citado pela pesquisadora Raquel Vasques</p><p>(2007). Guilherme é uma criança com</p><p>diagnóstico de síndrome nefrótica, uma</p><p>doença renal, caracterizada pela perda</p><p>da capacidade dos rins em reter proteí-</p><p>nas filtradas na urina. Trata-se de uma</p><p>doença crônica, que precisa de tratamen-</p><p>to constante por um longo período para</p><p>que não haja perda da função renal.</p><p>Pacientes com síndrome nefrótica</p><p>passam por diversas internações ao lon-</p><p>go da vida. Guilherme, na ocasião da en-</p><p>trevista, disse que já havia sido internado</p><p>“um montão de vezes”. Sua mãe explicou</p><p>que foram duas internações aos 6 anos e</p><p>era a segunda naquele ano. E, geralmen-</p><p>te, são internações longas, com proce-</p><p>dimentos dolorosos. Guilherme relatou</p><p>à pesquisadora que achava importante</p><p>saber sobre sua doença. Disse que pre-</p><p>cisava ficar no hospital porque, devido à</p><p>doença, ele não faz “muito xixi”. Comen-</p><p>tou que considera importante que ele e</p><p>sua mãe saibam da doença:</p><p>UNICESUMAR</p><p>71</p><p>“</p><p>[...] acho importante saber que doença tenho, porque, daí, me cuido.</p><p>Minha mãe cuida de mim porque ela sabe o que eu tenho e que</p><p>remédio tenho que tomar. Acho importante ser cuidado, porque</p><p>a gente é criança. O adulto tem que cuidar da criança porque ela</p><p>é pequena e não sabe se cuidar sozinha (VASQUES, 2007, p. 67).</p><p>Guilherme também relatou que é ruim ficar no hospital devido à rotina (a me-</p><p>dicação é administrada frequentemente, o barulho, a dificuldade para dormir).</p><p>Mencionou, ainda, a dor que sente quando precisa fazer um procedimento, como,</p><p>por exemplo, pegar veia. Citou que, em uma ocasião, chegou a pedir para inter-</p><p>romper o procedimento para que pudesse “respirar um pouquinho, porque não</p><p>conseguia respirar de tanto que doía” (VASQUES, 2007, p. 67).</p><p>Priscila, de 7 anos, também, foi entrevistada pela pesquisadora Raquel Vas-</p><p>ques (2007). Estava internada por anemia falciforme e crise álgica há 8 dias. As</p><p>crises álgicas são as complicações mais comuns da anemia falciforme e se carac-</p><p>terizam por uma dor intensa. Durante a entrevista, Priscila comentou que sente</p><p>muito medo quando os técnicos vêm aplicar injeção. Diz que, logo que os vê, ela</p><p>chora bastante, porque sabe que vai doer.</p><p>“</p><p>Elas falam que não vai doer e dói, daí eu choro mais que as outras</p><p>crianças, porque dói muito, o pé, as costas, dói o corpo todo. O que</p><p>me preocupa que vai acontecer é a injeção, tenho medo dela.</p><p>O pior de tudo isso é o susto. Todo mundo me assusta. A minha irmã</p><p>Bia e as enfermeiras, quando vem me dar injeção de dipirona para dor.</p><p>Elas colocam aqui na veia. Quando fico doente, o que me deixa triste</p><p>é ficar aqui no hospital. Não gosto de ficar aqui, aí fico triste. Tem que</p><p>tomar remédio, injeção e ficar no hospital; a injeção machuca. Quero</p><p>ir pra casa. Não tenho medo, tenho dor nas costas e no pé. Para melho-</p><p>rar a tristeza, brinco lá fora no parquinho (VASQUES, 2007, p. 76-77).</p><p>Outro ponto bastante enfatizado por Priscila, durante a entrevista, foi a impor-</p><p>tância da presença da mãe. Comentou que fica com medo quando a mãe precisa</p><p>ir para casa para tomar banho, buscar uma roupa ou se alimentar e demora para</p><p>voltar. Queixou-se de que sua mãe, às vezes, sai sem avisar e ela se sente sozinha,</p><p>acha que a mãe não voltará para ficar com ela. Disse, ainda, que a presença da</p><p>mãe ajuda a aliviar a dor e a tristeza:</p><p>UNIDADE 3</p><p>72</p><p>“</p><p>Outro dia ela saiu, não me avisou e chorei porque não sabia onde</p><p>ela estava. Ontem ela demorou muito para voltar e achei que ela</p><p>não viesse mais, daí fiquei triste. Ela fica pra lá e pra cá, sai sem</p><p>me avisar, daí eu assusto! Agora não estou triste. O que ajuda a</p><p>melhorar a tristeza é a minha mãe: ela fica comigo, pinta comigo,</p><p>brinca… quando me dão injeção, minha mãe assopra e a dor</p><p>passa. Minha mãe ajuda também. Ela cuida de mim e fica comigo</p><p>(VASQUES, 2007, p. 76).</p><p>Atuar como psicopedagogo na área hospitalar exige que o profissional</p><p>tenha conhecimento</p><p>sobre os diversos fatores relacionados à doença e à</p><p>internação hospitalar. Vamos pensar sobre esses fatores?</p><p>A psicopedagogia se ocupa do processo de aprendizagem, e esta tem uma função</p><p>organizadora. Quando eu aprendo sobre alguma coisa, compreendo seus limites</p><p>e possibilidades e me torno capaz de atuar sobre ela. Trazendo esse conceito para</p><p>a situação de doença, quando eu conheço minha doença, eu sei os tratamentos</p><p>que preciso fazer para ter melhor qualidade de vida, seja pela possibilidade de</p><p>cura ou do alívio dos sintomas. Sendo assim, é importante que o psicopedagogo</p><p>conheça a doença de cada paciente, para que possa auxiliá-lo na compreensão</p><p>da mesma e na motivação para o tratamento.</p><p>O psicopedagogo, também, precisa conhecer a rotina do hospital e de cada</p><p>paciente, de acordo com sua doença, para que possa elaborar propostas de inter-</p><p>venção que sejam adequadas ao ambiente e à situação do paciente. É preciso saber</p><p>os momentos em que o paciente estará disponível e em condições de realizar uma</p><p>determinada atividade, pois a prioridade são os procedimentos médicos e, muitas</p><p>vezes, devido à própria doença ou à dor de um determinado procedimento, o</p><p>paciente pode não estar disposto para uma intervenção psicopedagógica.</p><p>É importante considerar também os aspectos emocionais que interferem na</p><p>prontidão para a aprendizagem, como o medo, a insegurança, a sensação de aban-</p><p>dono, a frustração de estar limitado no ambiente hospitalar. Todos esses fatores</p><p>precisam ser avaliados e ponderados para que a intervenção psicopedagógica seja</p><p>efetiva. Por fim, é importante trabalhar, também, com o familiar do paciente, que</p><p>precisa ter consciência dos fatores que interferem no bem-estar do paciente, para</p><p>que possa colaborar nesse processo.</p><p>UNIDADE 3</p><p>74</p><p>O primeiro passo para uma boa intervenção psicopedagógica é fazer um bom</p><p>diagnóstico. De acordo com Weiss (1994), o diagnóstico psicopedagógico é uma</p><p>investigação que não vai bem com o indivíduo em relação ao que é esperado</p><p>dele. Como a Psicopedagogia se ocupa do processo de aprendizagem, a queixa</p><p>é, na maioria das vezes, da escola. O objetivo da investigação é perceber como o</p><p>indivíduo aprende e os desvios desse processo. A investigação permite levantar</p><p>hipóteses sobre a dificuldade apresentada.</p><p>Colomer, Masot e Navarro (2008, p. 19) complementam que “a avaliação psi-</p><p>copedagógica deve nos permitir dispor de informações relevantes não apenas</p><p>em relação às dificuldades apresentadas por um determinado aluno ou grupo</p><p>de alunos, por um professor ou alguns pais, mas também às suas capacidades e</p><p>potencialidades”.</p><p>Trazendo essa questão para o ambiente hospitalar, podemos dizer que a in-</p><p>vestigação nos mostrará quais as dificuldades relacionadas à aprendizagem desse</p><p>indivíduo. Mas esse ambiente é muito diferente do ambiente escolar, pois não é</p><p>um ambiente de aprendizagem formal. Por isso, as questões que o paciente precisa</p><p>aprender e que precisam ser avaliadas são bem diferentes. Em primeiro lugar,</p><p>o paciente precisa aprender sobre esse ambiente, suas características e regras</p><p>de funcionamento. Precisa compreender os limites do ambiente hospitalar e os</p><p>cuidados que precisará ter durante o tempo em que estiver internado.</p><p>Miranda e Alves (1998 apud NASCIMENTO, 2004) colocam que o hospital é</p><p>um desconhecido gerador de insegurança e estresse, o que pode causar traumas</p><p>no paciente. Dessa forma, conhecer esse ambiente pode minimizar os impactos</p><p>da internação para o paciente. Quando falamos sobre avaliação psicopedagó-</p><p>gica no contexto escolar, o que é percebido pelo indivíduo e pela instituição é</p><p>o sintoma. Por meio deste, o indivíduo expõe algo que não está ocorrendo de</p><p>forma adequada. O sintoma surge a partir da personalidade em interação com</p><p>o sistema social em que ele está. Existe um desvio quando o sujeito está em um</p><p>determinado ambiente, que está relacionado com as exigências desse ambiente</p><p>em relação ao sujeito (WEISS, 1994).</p><p>O psicopedagogo deve buscar esses parâmetros que definem o desvio e sua in-</p><p>fluência sobre a aprendizagem. São alguns desses parâmetros: a formação cultural,</p><p>classe socioeconômica, idade cronológica, exigência familiar, exigência escolar,</p><p>relação entre os conteúdos escolares e o desenvolvimento de estruturas de pen-</p><p>samento, exigências escolares durante a alfabetização e a psicogênese da leitura e</p><p>UNICESUMAR</p><p>75</p><p>escrita. Outros parâmetros dependerão do contexto ensino-aprendizagem.</p><p>No caso do ambiente hospitalar e do processo de internação, um dos sintomas</p><p>a ser avaliado é a própria resistência do paciente ao tratamento. Entendemos que a</p><p>resistência provém da falta de conhecimento do indivíduo sobre a própria doença</p><p>e a importância dos procedimentos para sua reabilitação. Souza (2001 apud NAS-</p><p>CIMENTO, 2004) ressalta que a adesão ao tratamento é uma aprendizagem que</p><p>pode ser trabalhada pelo psicopedagogo. Quando o paciente aprende sobre seu</p><p>tratamento, assume “um compromisso pessoal para o restabelecimento da pró-</p><p>pria saúde, que é o desenvolvimento de sua autonomia pelo autoconhecimento</p><p>e emancipação de sua identidade” (Souza, 2001 apud NASCIMENTO, 2004, p.</p><p>52). Complementando essa ideia, Porto (2007 apud LIMA; NATEL, 2010, p. 129)</p><p>ressalta que “a aprendizagem possui uma função integradora, estando diretamen-</p><p>te relacionada ao desenvolvimento psicológico, denotando as possibilidades de</p><p>interação e adaptação da pessoa à realidade ao longo da vida, sofrendo múltiplas</p><p>influências de fatores ambientais e individuais”.</p><p>Dessa forma, podemos compreender que aprender sobre a doença e o tra-</p><p>tamento auxiliará o paciente a se adaptar a essa nova realidade de forma mais</p><p>tranquila e com menor prejuízo para seu desenvolvimento. Vamos relembrar a</p><p>fala de uma das crianças no início da unidade. Guilherme relatou que achava</p><p>importante saber sobre sua doença. Disse que precisava ficar no hospital porque,</p><p>devido à doença, ele não faz “muito xixi”. Comentou que considera importante</p><p>que ele e sua mãe saibam da doença:</p><p>“</p><p>[...] acho importante saber que doença tenho, porque, daí, me cuido.</p><p>Minha mãe cuida de mim porque ela sabe o que eu tenho e que</p><p>remédio tenho que tomar. Acho importante ser cuidado, porque</p><p>a gente é criança. O adulto tem que cuidar da criança porque ela</p><p>é pequena e não sabe se cuidar sozinha (VASQUES, 2007, p. 67).</p><p>A fala de Guilherme é um exemplo claro da necessidade de orientar o paciente e</p><p>sua família sobre a doença. Ele mesmo coloca que saber sobre seu quadro é im-</p><p>portante para que ele possa ser cuidado, para que saiba o que precisa fazer para</p><p>melhorar. Ao saber sobre seu problema, o paciente tem mais facilidade de aderir</p><p>ao tratamento necessário para sua reabilitação. Para fazer essa orientação com o</p><p>paciente, o próprio psicopedagogo precisará entender sobre a doença por meio</p><p>UNIDADE 3</p><p>76</p><p>da leitura do prontuário e da conversa com a equipe médica. Entretanto, é im-</p><p>portante considerar que o conhecimento do psicopedagogo sobre cada caso será</p><p>limitado, pois ele não é o profissional especialista na área da saúde. O conheci-</p><p>mento mais apurado de cada doença e dos procedimentos cabe à equipe médica.</p><p>Nesse sentido, para ter uma compreensão clara da doença, o psicopedagogo</p><p>precisa estar próximo da equipe médica, para que possa solicitar os esclarecimen-</p><p>tos necessários para melhor compreensão do quadro do paciente, de como sua</p><p>doença pode evoluir, de quais os procedimentos necessários para sua reabilita-</p><p>ção e de como esses procedimentos impactarão seu bem-estar enquanto estiver</p><p>internado. Essa compreensão será fundamental durante a avaliação, para que ele</p><p>possa planejar intervenções adequadas a cada situação.</p><p>Somente após a compreensão do quadro é que o profissional de Psicopeda-</p><p>gogia poderá orientar o paciente e sua família sobre as questões relativas à saúde</p><p>e ao tratamento. Em algumas situações, o profissional poderá, também, solicitar</p><p>à própria equipe médica</p><p>que faça essa orientação junto a ele, para que possam</p><p>esclarecer dúvidas que paciente e família possam ter sobre o quadro.</p><p>A dor é um dos fatores que mais interferem no bem-estar do paciente durante a interna-</p><p>ção. Nesse sentido, quando a doença exige procedimentos dolorosos, o que você conside-</p><p>ra que seria importante avaliar para elaborar uma proposta de intervenção?</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>O psicopedagogo, também, deve avaliar a capacidade de compreensão do pa-</p><p>ciente sobre seu quadro, bem como auxiliar na “tradução” dos termos técnicos</p><p>relacionados aos procedimentos e à própria doença. Os médicos, geralmente,</p><p>passam pouco tempo com os pacientes internados, por isso, acabam não tendo</p><p>tantas informações sobre esse aspecto da aprendizagem.</p><p>Uma família, por exemplo, que não teve uma educação formal, provavelmen-</p><p>te, terá dificuldades de compreender o quadro de saúde, o que pode impactar na</p><p>adesão ao tratamento. O psicopedagogo pode auxiliar nesse processo orientando</p><p>a equipe médica em relação à capacidade de compreensão do paciente e de sua</p><p>família, atuando como um intermediário entre médico e paciente, auxiliando na</p><p>eliminação de barreiras na comunicação entre eles.</p><p>UNICESUMAR</p><p>77</p><p>Em resumo, o psicopedagogo deve compreender o caso para auxiliar o pa-</p><p>ciente a ter essa compreensão e avaliar se ele próprio conseguirá levar esse conhe-</p><p>cimento sobre a doença ou se deverá acompanhar a equipe médica no momento</p><p>em que ela for fazer esses esclarecimentos para o paciente e sua família. Reto-</p><p>mando a discussão sobre o diagnóstico psicopedagógico, Weiss (1994), ao falar</p><p>sobre psicopedagogia clínica, coloca que, para iniciar o diagnóstico, é preciso ter</p><p>claro os dois eixos de análise:</p><p>Horizontal</p><p>a-histórico — visão do presente</p><p>(aqui, agora, comigo).</p><p>Este eixo busca as causas que</p><p>coexistem com o sintoma, o</p><p>contexto que mostrará o tamanho</p><p>do desvio. Os dados para inves-</p><p>tigação do eixo horizontal são</p><p>adquiridos por meio de entrevista</p><p>com o paciente, entrevista com os</p><p>pais e outros membros da família,</p><p>sessões lúdicas, testagens, provas</p><p>operatórias de Piaget, entrevistas</p><p>com a equipe e outros profission-</p><p>ais, além da análise de produções</p><p>extra consultório (WEISS, 1994).</p><p>Vertical</p><p>histórico — visão do passado,</p><p>visão da construção do sujeito.</p><p>Consiste na busca da história do</p><p>indivíduo e de sua família. Neste</p><p>eixo, são realizadas anamnese</p><p>com a família e escola, pesquisa</p><p>de documentos, relatórios, laudos,</p><p>história de vida, história escolar,</p><p>história clínica, história da família</p><p>e dos ancestrais (WEISS, 1994).</p><p>No caso da psicopedagogia hospitalar, podemos dizer que o eixo horizontal é</p><p>a própria situação atual do sujeito: a condição da doença e a hospitalização. A</p><p>investigação desse eixo se dá pela leitura do prontuário do paciente bem como</p><p>pela discussão do caso com a equipe médica. É preciso que o psicopedagogo</p><p>compreenda a doença e suas implicações, para que possa propor intervenções</p><p>adequadas para cada situação. Também, é preciso avaliar o estado atual do pa-</p><p>ciente, o conhecimento que ele tem sobre sua condição e impacto emocional da</p><p>doença sobre ele. Tais informações serão essenciais para determinar a frequência</p><p>e o formato da intervenção a ser proposta.</p><p>UNIDADE 3</p><p>78</p><p>Para exemplificar, imagine um paciente que precisa fazer um procedimento</p><p>três vezes por semana. Imagine que esse procedimento é doloroso e que exige</p><p>anestesia, de forma que ele fique fragilizado após o procedimento. Nesse caso, a</p><p>intervenção psicopedagógica pode ser planejada, no início do tratamento, para</p><p>orientação do paciente sobre o tratamento, antes das sessões e/ou nos dias em</p><p>que ele não precisará passar pelo procedimento, pois ele estará mais disposto para</p><p>realizar as atividades propostas pelo psicopedagogo.</p><p>É importante avaliar e propor atividades de acordo com cada momento do</p><p>paciente. No exemplo em questão, poderíamos propor uma intervenção inicial</p><p>na qual o psicopedagogo conversaria com o paciente sobre a doença e o procedi-</p><p>mento, tirando todas as suas dúvidas sobre ambos. Também, podem ser planeja-</p><p>das intervenções breves, antes dos procedimentos, para orientações e, nos dias em</p><p>que não há procedimento médico, para conversar sobre a doença, sobre o trata-</p><p>mento ou outras dúvidas que o paciente possa vir a ter sobre a rotina hospitalar.</p><p>Voltando para a questão do diagnóstico, no caso da Psicopedagogia Hospita-</p><p>lar, o eixo histórico está relacionado à história de vida e ao desenvolvimento do</p><p>paciente. Considerar o eixo histórico na avaliação significa que o psicopedagogo</p><p>deverá investigar como a doença surgiu, qual o impacto desta e do tratamen-</p><p>to para a vida desse indivíduo, qual o prognóstico e as consequências para seu</p><p>desenvolvimento e bem-estar. Além disso, no eixo histórico, também, deve ser</p><p>avaliada a condição de aprendizagem do sujeito.</p><p>Sobre a coleta e análise de informações para o diagnóstico, Colomer, Masot e</p><p>Navarro (2008, p. 19) destacam que: “deve nos permitir identificar os elementos</p><p>suscetíveis de melhoria, mas também as competências e capacidades dos parti-</p><p>cipantes, a fim de que as propostas de mudança possam ser implementadas com</p><p>êxito e satisfação por parte de todos”. Weiss (1994) complementa que cada sujeito</p><p>tem um caminho próprio que deve ser descoberto e respeitado. O terapeuta deve</p><p>ter sensibilidade para explorar os aspectos revelados em cada situação, o foco</p><p>de análise deve se estender às relações do paciente, a seus grupos e instituições.</p><p>Voltando para a questão do diagnóstico em Psicopedagogia Hospitalar, a</p><p>avaliação deve considerar todos os envolvidos, ou seja, o paciente, sua famí-</p><p>lia e a equipe médica. Também, é necessário considerar o curso da doença e</p><p>prognóstico, bem como o impacto dos procedimentos pelos quais o paciente</p><p>precisará ser submetido.</p><p>UNICESUMAR</p><p>79</p><p>O atendimento psicopedagógico no ambiente</p><p>hospitalar</p><p>Você já parou para refletir como o psicopedagogo faz seu atendimento? Temos</p><p>a ideia de que este profissional atende, somente, crianças e permanece liga-</p><p>do, somente, à escola. Mas, aqui, já estamos discutindo o mesmo profissional</p><p>que atua no contexto educacional aplicado ao contexto hospitalar. Mas, daí,</p><p>questionamo-nos: qual a diferença no atendimento escolar e no atendimento</p><p>hospitalar? Por que é tão necessário estabelecer, seguidamente, parâmetros</p><p>para atendimento em contextos diversos?</p><p>Segundo Nascimento (2004), no Brasil, temos duas situações em que o psico-</p><p>pedagogo poderá ser inserido: em ambulatório de psicopedagogia inserido nos</p><p>hospitais e em hospitais gerais. O trabalho do psicopedagogo no ambulatório</p><p>inserido nos hospitais iniciará por meio da implementação de um serviço ou</p><p>ambulatório de psicopedagogia com avaliação e atendimento; seu papel será</p><p>desempenhado com crianças e adolescentes no que tange à área do saber psico-</p><p>pedagógico e com o assessoramento da equipe da área da saúde e da educação.</p><p>Esse trabalho é importante, pois é realizado de forma a auxiliar crianças de baixa</p><p>renda, que não possuem a oportunidade de realizar acompanhamento particular</p><p>com neurologistas, fonoaudiólogos, psiquiatras e psicólogos.</p><p>O psicopedagogo inserido no contexto de ambulatório geral de um hospital,</p><p>seja neonatal, hemato-oncologicas, pediátricas ou outras, deve compreender que,</p><p>entre outras atribuições, ele é o responsável pela classe hospitalar, principalmente,</p><p>para aqueles que passarão um período longo no hospital. Deverá entrar em con-</p><p>tato com a escola para realizar um vínculo escola-hospital e realizar a inclusão</p><p>desse aluno na escola, mesmo depois da alta (NASCIMENTO, 2004).</p><p>O psicopedagogo que atua no contexto hospitalar deve iniciar seus trabalhos</p><p>a partir de uma anamnese bem elaborada, com especificadores da área da saú-</p><p>de. Essa anamnese deve ser realizada em três grandes contextos: família, equipe</p><p>hospitalar e criança (MATOS; MUGIATTI, 2012).</p><p>Junto aos familiares, devem ser levados</p><p>em consideração os questionamentos</p><p>referentes ao desenvolvimento, ao início da doença, à forma como se apresenta a</p><p>doença, aos principais sintomas, a como a família percebe a doença, à estrutura</p><p>familiar, a como é o relacionamento afetivo da família, ao histórico de adoeci-</p><p>UNIDADE 3</p><p>80</p><p>mento pregresso, ao histórico do pré-natal, ao parto e ao pós-parto. Levantando</p><p>essas informações, é possível conhecer, profundamente, a composição familiar.</p><p>Muitas vezes, pode-se tomar, como auxílio, o papel da família para facilitar</p><p>o processo de aprendizagem no contexto hospitalar, porém, sem o pleno conhe-</p><p>cimento da estrutura familiar, não é possível saber quem o desempenha. Por</p><p>exemplo, se a criança hospitalizada tem uma maior facilidade afetiva com o pai,</p><p>mãe, irmão ou algum outro membro familiar, é possível se utilizar dessas relações</p><p>como meio de engajamento no processo de ensino e aprendizagem (NOFFS;</p><p>RACHMAN, 2007; MATOS; MUGIATTI, 2012).</p><p>Em uma entrevista com a equipe médica, o questionamento que deve ser le-</p><p>vantado na anamnese é de como se dá a doença, principais sintomas, agravamen-</p><p>to cognitivo, processo curativo, prognóstico atual e evolução da doença, sinais de</p><p>agravamento, principais medicações que a criança ingere, efeitos colaterais que</p><p>a medicação tem e no que pode prejudicar a aprendizagem, a atenção, a concen-</p><p>tração e a parte cognitiva, além de compreender os prejuízos para o cognitivo e</p><p>para a aprendizagem da criança. Tendo conhecimento destes elementos, o psi-</p><p>copedagogo possui um amplo diagnóstico sobre como deverá ser sua atuação</p><p>(NOFFS; RACHMAN, 2007; MATOS; MUGIATTI, 2012).</p><p>Os medicamentos possuem efeitos colaterais que podem alterar os estados</p><p>cognitivos. Por exemplo, é muito comum em ansiolíticos o efeito colateral de</p><p>levar o sujeito a um estado de relaxamento profundo que induz ao sono. Assim,</p><p>uma criança sob efeito dessa medicação estará com memória, capacidade de</p><p>apreensão, atenção e concentração prejudicadas. Então, o psicopedagogo deverá</p><p>interpor e adaptar a rotina dessa criança, devido aos efeitos do medicamento</p><p>(NOFFS; RACHMAN, 2007; MATOS; MUGIATTI, 2012).</p><p>O mesmo pode ser visto na doença em si. Determinados sintomas da AIDS,</p><p>por exemplo, em estados de maior agravamento, podem levar a alterações do</p><p>sistema nervoso central. É corriqueiro observar menor desempenho escolar na</p><p>execução de tarefas simples e do dia a dia, além das dificuldades de concentração,</p><p>memória e nas funções cognitivas superiores, como nos aponta Christo (2010).</p><p>Aqui, temos um exemplo de como é importante conhecer a doença em si e a pos-</p><p>sibilidade de ampliar as variadas formas de atuação do psicopedagogo no contexto</p><p>hospitalar (MATOS; MUGIATTI, 2012).</p><p>Junto à criança, o psicopedagogo deve realizar sua avaliação conforme dis-</p><p>cutimos anteriormente. Além disso, com auxílio de brinquedos, jogos e material</p><p>UNICESUMAR</p><p>81</p><p>Síndrome Nefrótica</p><p>Você já ouviu falar sobre síndrome nefrótica? Trata-se de</p><p>uma doença renal crônica, caracterizada pela perda da</p><p>capacidade dos rins em reter proteínas filtradas na urina.</p><p>Pacientes com essa síndrome passam por diversas inter-</p><p>nações ao longo da vida, as quais, geralmente, são longas</p><p>e com procedimentos dolorosos. Vamos ouvir agora o rela-</p><p>to de uma experiência real no atendimento de uma criança</p><p>com síndrome nefrótica..</p><p>escolar, proporcionar atividades e dinâmicas onde a criança possa se expressar</p><p>por meio do lúdico, da fala e da interação entre psicopedagogo, criança e todas</p><p>as dificuldades desta. Devemos sempre nos atentar à área de atuação do psico-</p><p>pedagogo, pois esta é exclusiva dele e não deve ser confundida com a área do</p><p>psicólogo, que lida com emoções e saúde mental.</p><p>Com a observação e uma boa avaliação da interlocução das entrevistas com</p><p>família, equipe médica e criança é que o psicopedagogo poderá atuar de maneira</p><p>eficaz e plausível (MATOS; MUGIATTI, 2012).</p><p>Pensando nessas demandas levantadas, podemos interpor o diálogo entre a teoria e a</p><p>prática. Como sabemos, a psicopedagogia visa à humanização do sujeito em situação</p><p>de hospitalização, garantindo o direito universal de acesso à educação. Dependendo</p><p>do quadro da doença e do prognóstico, o sujeito permanecerá em situação de inter-</p><p>namento hospitalar por longos períodos. Em relação a isso, é necessário pensar nas</p><p>possibilidades de atuação e atendimento do psicopedagogo no contexto hospitalar.</p><p>Após levantar a demanda, o profissional pode atuar de maneira individualizada ou</p><p>de maneira coletiva junto aos alunos (MATOS; MUGIATTI, 2012).</p><p>De forma individualizada, a atuação pode ser feita com auxílio da brinque-</p><p>doteca, e, de forma coletiva, baseada no modelo de Classe Hospitalar. O aten-</p><p>dimento deve ser feito visando a alguns elementos, como o currículo escolar,</p><p>no caso de internação de longo prazo, e o ensino dos cuidados e do processo</p><p>educativo da doença, como os horários e a importância da medicação, os cui-</p><p>dados com a alimentação, bem como as formas de estabelecer adaptações para</p><p>melhora da qualidade de vida frente ao adoecimento (NOFFS; RACHMAN,</p><p>2007; DIETZ; OLIVEIRA, 2008).</p><p>UNIDADE 3</p><p>82</p><p>Figura 1 - Classe Hospitalar do Centro de Onco Hematologia Pediátrico (CEONHPE), do</p><p>Hospital Oswaldo Cruz - Recife PE / Fonte: Recife (2019, on-line).</p><p>Descrição da Imagem: imagem de três crianças realizando atividade de pintura juntamente com uma</p><p>professora e um rapaz que está fotografando as atividades. Sobre a mesa, encontram-se livros, cadernos</p><p>e lápis coloridos.</p><p>A classe hospitalar nasceu em São Paulo, regulamentada pela Lei nº 10.685, de</p><p>30 de novembro de 2000, onde a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo</p><p>aprovou a lei que dispõe sobre o acompanhamento educacional da criança e do</p><p>adolescente internados para tratamento de saúde. A Lei garante:</p><p>“</p><p>Artigo 1º - É assegurado à criança e ao adolescente internados para</p><p>tratamento de saúde por tempo indeterminado, o acompanhamento</p><p>educacional durante o período de internação.</p><p>Artigo 2º - O acompanhamento educacional se destina a criança e</p><p>ao adolescente em idade escolar, regularmente matriculado em es-</p><p>tabelecimento de ensino fundamental, de acordo com a faixa etária</p><p>e o nível de escolaridade.</p><p>UNICESUMAR</p><p>83</p><p>§ 1º - O estabelecimento de ensino em que a criança ou o adoles-</p><p>cente estejam regularmente matriculados fornecerão, sempre que</p><p>necessário, os programas básicos das matérias ministradas, a fim de</p><p>propiciar o acompanhamento.</p><p>§ 2º - Sempre que possível, tal atendimento será feito em grupos</p><p>de crianças ou adolescentes, se internadas no mesmo estabeleci-</p><p>mento de saúde.</p><p>Artigo 3º - O acompanhamento educacional será realizado de</p><p>acordo com as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Estadual de</p><p>Educação, podendo ser prestado, conforme o caso, por estagiários</p><p>do magistério ou de ensino superior.</p><p>Artigo 4º - A periodicidade e a duração do acompanhamento edu-</p><p>cacional serão realizadas de acordo com os critérios a serem fixados</p><p>pelo estabelecimento de saúde, consideradas as necessidades, possi-</p><p>bilidades e condições do paciente, na forma a ser estabelecida pelos</p><p>profissionais responsáveis pelo tratamento.</p><p>(SÃO PAULO, 2000, on-line).</p><p>Com essa lei, iniciou-se a primeira turma hospitalar com a possibilidade de</p><p>desbravamentos para uma nova frente de trabalho para psicopedagogos, vis-</p><p>lumbrando a integralização da área da saúde e educação. Lima e Natel (2010,</p><p>p. 132) trazem que existiam dificuldades muito pertinentes nesse modelo edu-</p><p>cacional, dos quais são:</p><p>■ Alunos em séries diferentes;</p><p>■ Número de alunos varia de acordo com a demanda do setor;</p><p>■ Não há constância e frequência precisa dos alunos;</p><p>■ A temática planejada deve ser iniciada e finalizada no mesmo período;</p><p>■ Local em que ocorrem as atividades é de acordo com a possibilidade da</p><p>instituição (brinquedoteca, por exemplo) ou, conforme possibilidade do</p><p>aluno, as atividades são realizadas no próprio leito da criança.</p><p>Quando temos uma</p><p>turma multisseriada, é preciso pensar em um programa</p><p>educacional que atenda, minimamente, ao currículo exigido, mas que possa ser</p><p>flexível o suficiente para ter qualidade de ensino, respeitando os limitantes de</p><p>saúde do momento, bem como as fases do desenvolvimento da criança. O pro-</p><p>fissional da educação deve estar atento aos agravantes da doença, em relação à</p><p>UNIDADE 3</p><p>84</p><p>indisposição pela doença ou pela medicação administrada. Aqui, vale relembrar</p><p>a importância da anamnese bem elaborada, que preparará o profissional para</p><p>tal. Pode-se usar estratégias de adaptação, como o lúdico, as mudanças de me-</p><p>todologia e a mudança de ambiente, para que o sujeito possa se adaptar o mais</p><p>confortavelmente no ambiente (LIMA; NATEL, 2010).</p><p>A classe hospitalar é mutável cotidianamente. A alta no hospital ou o agrava-</p><p>mento da doença é um fator que aparece todos os dias. O professor precisa estar</p><p>atento a esses prazos e recomenda-se que toda programação educacional inicie</p><p>e termine no mesmo dia. Conhecer a rotina médica de cada paciente, lendo o</p><p>prontuário e mantendo uma boa comunicação com a equipe médica, fará com</p><p>que o planejamento seja mais calcado nas certezas do que nas dúvidas. Outro</p><p>elemento de suma importância é o ambiente em que acontecerão as aulas pode</p><p>ser desde um ambiente com mesa e cadeira — o refeitório, por exemplo — até o</p><p>próprio leito do paciente. A programação educacional dependerá, também, das</p><p>disponibilidades da instituição, ou seja, se, de fato, existe uma brinquedoteca</p><p>ou uma sala destinada a isso, equipamentos que possibilitem o estudo no leito</p><p>(LIMA; NATEL, 2010).</p><p>Para auxiliar no planejamento, Lima e Natel (2010) recomendam que se faça a</p><p>observação de todas as variáveis e o registro da evolução de cada paciente. Assim,</p><p>fica pautada, em dados concisos, a prática do profissional da educação, podendo</p><p>adaptar de maneira assertiva e eficaz, quando necessário, bem como reformular</p><p>planejamento ou alterações quando for preciso (LIMA; NATEL, 2010).</p><p>Lima e Natel (2010) bem como Noffs e Rachman (2007) ressaltam a impor-</p><p>tância de delimitar o papel do psicopedagogo no contexto hospitalar. Não é um</p><p>professor particular nem um professor de uma classe regular, mas faz parte da</p><p>instituição hospitalar e compõe a equipe multiprofissional de atendimento ao</p><p>paciente em estado de adoecimento de longo prazo.</p><p>Quando falamos em atendimento individualizado, podemos pensar nos</p><p>mesmos princípios de planejamento, observação e adaptação, mas que pode ser</p><p>feito no modelo individual. A brinquedoteca é um importante elemento neste</p><p>processo. Trabalhar o cognitivo, por meio do lúdico, torna-se um importante</p><p>instrumento de ensino. Com o atendimento individualizado é que se pode aplicar,</p><p>de maneira mais específica, alguns conceitos que podem trabalhar as questões</p><p>escolares, mas, também, os cuidados com a doença e com o adoecimento, bem</p><p>como as boas práticas de saúde (DIETZ; OLIVEIRA, 2008).</p><p>UNICESUMAR</p><p>85</p><p>O atendimento psicopedagógico aos pacientes que</p><p>apresentam necessidades educacionais especiais</p><p>A atualidade escancarou à nossa sociedade as dificuldades que as escolas têm em rela-</p><p>ção à educação inclusiva e à dificuldade de encontrar profissionais aptos para trabalha-</p><p>rem e auxiliarem os indivíduos no que diz respeito às necessidades de aprendizagem,</p><p>sendo que a educação é um direito previsto em lei a todos. É preciso compreender,</p><p>também, que o papel do psicopedagogo e da escola é proporcionar aos indivíduos um</p><p>ambiente acolhedor e sem exclusão (SANTOS; SOUZA; FONTES, 2017).</p><p>Segundo Tavares, Santos e Freitas (2016), a discussão sobre a inclusão, em re-</p><p>lação ao ensino e aprendizagem, passa pela percepção dos envolvidos no proces-</p><p>so, pela noção do indivíduo sobre inclusão e pelas políticas públicas que abarcam</p><p>o tema. Os referidos autores afirmam, ainda, que é preciso investir na capacitação</p><p>dos envolvidos no processo, que são os professores e os educadores, para que o</p><p>despreparo não acabe atrapalhando o processo de aprendizagem dos alunos.</p><p>Compreenderemos, agora, um pouco sobre como as pessoas com deficiências</p><p>físicas e intelectuais eram tratadas no Brasil. No século 17, as pessoas que apre-</p><p>sentavam algum tipo de deficiência, principalmente, de cunho intelectual, eram</p><p>inseridas em hospitais psiquiátricos e tratadas como pacientes desses locais, ou</p><p>seja, como pacientes psiquiátricos. Então, foi a partir disso que surgiu um inte-</p><p>resse médico em escolarizar essas pessoas, com o intuito final de realizar testes</p><p>projetivos e de inteligência nas mesmas (TAVARES; SANTOS; FREITAS, 2016).</p><p>Na década de 50, ocorreu, no país, um aumento das Associações de Pais e</p><p>Amigos dos Excepcionais (APAE). O entendimento era de que o aluno com de-</p><p>ficiência poderia, sim, aprender; então, saímos do modelo de ensino médico e</p><p>passamos para o modelo educacional, mas as escolas especiais seguiam como</p><p>modelo complementar às escolas de ensino regular. Foi com a Lei nº 9394/96 (Lei</p><p>de Diretrizes de Bases da Educação — LDB), em seu capítulo V (BRASIL, 1996),</p><p>que ocorreu a inserção das pessoas com necessidades especiais na sociedade,</p><p>como, por exemplo, nas escolas regulares (TAVARES; SANTOS; FREITAS, 2016).</p><p>Ainda segundo a Lei n° 9.394/96, LDB: “Entende-se por educação es-</p><p>pecial, para os efeitos desta Lei, a modalidade de educação escolar ofe-</p><p>recida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com</p><p>deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou</p><p>superdotação” (Art. 58) (BRASIL, 1996, on-line).</p><p>UNIDADE 3</p><p>86</p><p>Segundo Fabrício e Cantos (2011), é sabido que, atualmente, há uma demanda</p><p>grande de indivíduos que carecem de um respaldo maior, no que concerne ao en-</p><p>sino-aprendizagem, e entendemos que, muitas vezes, o método de ensino precisa</p><p>ser revisto para que a aprendizagem ocorra de modo satisfatório. Desse modo, os</p><p>alunos com necessidades especiais precisam ser assistidos e compreendidos de</p><p>acordo com o seu caso. Ainda de acordo com os referidos autores, os educadores</p><p>precisam deter um olhar diferenciado sobre cada indivíduo e atender à necessida-</p><p>de específica de cada um. Ainda em relação à formação dos professores, Tavares,</p><p>Santos e Freitas (2016) afirmam que este é um assunto extremamente atual e que</p><p>há muito o que se discutir. Segundo Fabrício e Cantos (2011, p. 115):</p><p>“</p><p>Para que os educadores possam desenvolver um plano pedagó-</p><p>gico e educacional “inclusivo” precisam deter o conhecimento</p><p>dos estudantes como indivíduos. Alunos com “dificuldades de</p><p>aprendizagem” têm a necessidade de serem olhados, terem suas</p><p>características identificadas, serem conhecidos para que se possa</p><p>atuar com eles de maneira adequada e incluí-los no processo de</p><p>escolarização a que têm direito.</p><p>Fabrício e Cantos (2011) escrevem que, em todo caso, há a necessidade de rea-</p><p>lizar um diagnóstico formal para compreensão das “dificuldades” do aluno em</p><p>relação à aprendizagem, mas, para além do diagnóstico, é preciso compreender</p><p>que o plano de intervenção será diferenciado para cada indivíduo. Os autores</p><p>explicam que, para cada processo de intervenção, faz-se necessário que tenha</p><p>caráter multidisciplinar, processual e singular, tal qual:</p><p>“</p><p>- Multidisciplinar: trabalhando todos os aspectos do indivíduo po-</p><p>deremos garantir uma estimulação eficaz. Acreditamos que com</p><p>as informações trazidas por todos os profissionais envolvidos no</p><p>processo é possível estabelecer objetivos e estratégias comuns e tam-</p><p>bém avaliar se os caminhos escolhidos estão tendo bons efeitos. A</p><p>medicação está tendo o efeito desejado? Quais as atividades pren-</p><p>dem mais a atenção do aluno? Tem ido à terapia? São informações</p><p>importantes que devem circular entre a equipe de trabalho.</p><p>UNICESUMAR</p><p>87</p><p>- Processual: uma vez iniciada a intervenção, todas as ações preci-</p><p>sam seguir um padrão básico e ininterrupto:</p><p>=> planejar => desenvolver => avaliar => replanejar => planejar...</p><p>O indivíduo muda,</p><p>novas demandas surgem e os profissionais devem</p><p>adaptar permanentemente seus objetivos, condutas e instrumentos.</p><p>- Singular: porque mesmo tendo um mesmo diagnóstico ou caracterís-</p><p>ticas muito semelhantes, os seres humanos são diferentes. Um distúrbio,</p><p>uma síndrome, uma doença, jamais podem se sobrepor às necessidades</p><p>daquele indivíduo específico (FABRÍCIO; CANTOS, 2011, p. 116-117).</p><p>Segundo os autores, o trabalho poderá ser dinâmico e satisfatório, caso os envol-</p><p>vidos compreendam que o plano de intervenção precisa ser planejado e replane-</p><p>jado, caso seja necessário, pois é preciso entender que os indivíduos são únicos e</p><p>que estão em constante mudança, não há a possibilidade de elaborar um plano</p><p>de intervenção e permanecer nele sem que alterações específicas para cada aluno</p><p>seja revista, mas, para que isso ocorra, os envolvidos precisam estar dispostos a</p><p>trabalhar por cada indivíduo (FABRÍCIO; CANTOS, 2011).</p><p>Mas e nos hospitais, como se daria o ensino e aprendizagem, a escolari-</p><p>zação, nestes ambientes? Segundo Nascimento (2004), a inserção da criança</p><p>ou do adolescente no ambiente hospitalar nem sempre se dará de forma fácil,</p><p>sendo que, dependendo do grau da doença, a criança passará um período longo</p><p>hospitalizado, e isso pode se tornar algo complicado para ela, podendo gerar</p><p>medo e sofrimento. O cotidiano da criança muda, o convívio, agora, será com as</p><p>pessoas que fazem parte do ambiente hospitalar, e não mais o mesmo da escola</p><p>ou do bairro onde passava a maior parte de seu tempo. Tudo isso precisa ser</p><p>observado, também, pelo profissional que atuará junto a criança ou adolescente,</p><p>bem como pela equipe hospitalar.</p><p>Percebeu-se a necessidade de realizar um atendimento educativo para com as</p><p>pessoas que estavam inseridas no ambiente hospitalar. Por meio do atendimento</p><p>educacional no ambiente hospitalar, é possível oferecer ao indivíduo uma por-</p><p>ção saudável de sua vida, que seria o ato de dar continuidade aos estudos, mas</p><p>devendo respeitar as limitações de cada indivíduo (PEREIRA, 2015). Segundo a</p><p>Resolução nº 2, de 11 de setembro de 2001:</p><p>UNIDADE 3</p><p>88</p><p>“</p><p>Art. 13 § 1º As classes hospitalares e o atendimento em ambiente do-</p><p>miciliar devem dar continuidade ao processo de desenvolvimento</p><p>e ao processo de aprendizagem de alunos matriculados em escolas</p><p>da Educação Básica, contribuindo para seu retorno e reintegração</p><p>ao grupo escolar, e desenvolver currículo flexibilizado com crianças,</p><p>jovens e adultos não matriculados no sistema educacional local,</p><p>facilitando seu posterior acesso à escola regular (BRASIL, 2001, p. 4).</p><p>É preciso entender, porém, que a escolarização, no ambiente hospitalar, não pode</p><p>ser pensada, apenas, como transitória e de reintegração, pois desvaloriza o papel</p><p>fundamental que esse ambiente proporciona para o indivíduo, tratando-se de sua</p><p>escolarização (SILVEIRA, 2015).</p><p>Apesar da Resolução alegar que há a possibilidade de reintegração aos am-</p><p>bientes escolares ou, até mesmo, ao atendimento educacional em ambiente do-</p><p>miciliar, é preciso entender que nem todas as pessoas inseridas no ambiente hos-</p><p>pitalar conseguirão retornar, de imediato, à escola ou a suas residências. Então,</p><p>desse modo, precisarão de um profissional psicopedagogo, nesse período, para</p><p>que possa acompanhá-las durante o período hospitalar. Não se pode limitar lu-</p><p>gares como não educacionais ou não educativos, ou seja, o ambiente hospitalar,</p><p>também, pode ter essa função (SILVEIRA, 2015). A Resolução nº 2, ainda, aborda</p><p>as classes hospitalares no que concerne ao ambiente hospitalar educacional:</p><p>“</p><p>Art. 13. Os sistemas de ensino, mediante ação integrada com os</p><p>sistemas de saúde, devem organizar o atendimento educacional</p><p>especializado a alunos impossibilitados de frequentar as aulas em</p><p>razão de tratamento de saúde que implique internação hospitalar,</p><p>atendimento ambulatorial ou permanência prolongada em domi-</p><p>cílio. § 1º As classes hospitalares e o atendimento em ambiente do-</p><p>miciliar devem dar continuidade ao processo de desenvolvimento</p><p>e ao processo de aprendizagem de alunos matriculados em escolas</p><p>da Educação Básica, contribuindo para seu retorno e reintegração</p><p>ao grupo escolar, e desenvolver currículo flexibilizado com crianças,</p><p>jovens e adultos não matriculados no sistema educacional local,</p><p>facilitando seu posterior acesso à escola regular. § 2º Nos casos de</p><p>que trata este Artigo, a certificação de frequência deve ser realizada</p><p>com base no relatório elaborado pelo professor especializado que</p><p>atende o aluno (BRASIL, 2001, p. 4).</p><p>UNICESUMAR</p><p>89</p><p>Figura 2 - Classe Hospitalar</p><p>Descrição da Imagem: imagem de uma criança sentada em uma cadeira com suporte para escrita. A</p><p>criança está sorrindo e fazendo um desenho.</p><p>A Resolução CNE/CEB 4/2009 define que, “Em casos de Atendimento Educacio-</p><p>nal Especializado em ambiente hospitalar ou domiciliar, será ofertada aos alunos,</p><p>pelo respectivo sistema de ensino, a Educação Especial de forma complementar</p><p>ou suplementar” (Art. 6º) (BRASIL, 2009, p. 2). O Decreto nº 3.298/1999, que dis-</p><p>põe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiên-</p><p>cia, retrata o período em que o indivíduo passará a ter direito a escolarização no</p><p>ambiente hospitalar: “As instituições hospitalares e congêneres deverão assegurar</p><p>atendimento pedagógico ao educando portador de deficiência internado nessas</p><p>unidades por prazo igual ou superior a um ano, com o propósito de sua inclusão</p><p>ou manutenção no processo educacional” (Art. 26) (BRASIL, 1999, on-line).</p><p>Segundo Pereira (2015), o ambiente da classe hospitalar precisa ser diferencia-</p><p>do, precisa ser acolhedor, com estimulações visuais, ser alegre, com brinquedos e</p><p>jogos. É preciso compreender que é por meio do brincar que o trabalho de ensino-</p><p>-aprendizagem se faz possível e auxilia nos aspectos físicos e emocionais, bem como</p><p>na diminuição do comprometimento mental desses indivíduos. O trabalho deve</p><p>ser voltado a dar continuidade ao que o indivíduo estava realizando na escola em</p><p>si, para facilitar o retorno do aluno ao ambiente escolar, após receber alta hospitalar.</p><p>UNIDADE 3</p><p>90</p><p>O papel dos pais já se faz de extrema importância com os alunos que apresentam</p><p>dificuldades de aprendizagem. Quando se trata de uma criança ou adolescente em</p><p>situação de classe hospitalar, os pais precisarão ser inseridos ainda mais no acom-</p><p>panhamento das atividades escolares, pois esses alunos estarão mais reclusos,</p><p>poderão sentir a falta dos amigos, poderão sentir-se sozinhos (PEREIRA, 2015).</p><p>Segundo Oliveira (1991, p. 161), “a criança hospitalizada necessita da presença</p><p>amorosa e solidária dos familiares ligados a ela por laços de parentesco mais es-</p><p>treitos”. O papel dos pais, juntamente com a equipe multidisciplinar, é de extrema</p><p>relevância, pois são eles que auxiliarão, também, o indivíduo com as atividades e</p><p>realizarão a integração da equipe escolar com a equipe de classe hospitalar.</p><p>Vale acrescentar que o psicopedagogo é o profissional que contribuirá para o</p><p>trabalho do professor na classe hospitalar. Nascimento (2007) diz que é a partir</p><p>do trabalho realizado pelo psicopedagogo com os professores das classes hos-</p><p>pitalares que a aprendizagem poderá ocorrer de maneira fluida, e que, assim, as</p><p>dificuldades de aprendizagem poderão ser superadas, sendo que essa melhora</p><p>na aprendizagem poderá auxiliar no processo de cura e adesão ao tratamento.</p><p>Sendo assim, compreendemos que o papel do psicopedagogo perpassa por</p><p>todos os âmbitos, dentro da unidade hospitalar, para auxiliar a criança e o adoles-</p><p>cente na construção educativa e na reinserção deles ao ambiente escolar de fato.</p><p>Além disso, percebemos o quanto é importante a sua comunicação com toda a</p><p>equipe multidisciplinar para realizar o melhor projeto de intervenção possível</p><p>para cada um que se encontra hospitalizado (NASCIMENTO, 2004).</p><p>Vamos relembrar a história de Guilherme? Conforme citamos no início da</p><p>unidade, Guilherme possui uma</p><p>doença renal e já passou por diversas internações</p><p>ao longo da vida. Ao longo da unidade, conversamos sobre a importância de avaliar</p><p>bem cada caso, considerando aspectos, como a dor, os procedimentos médicos e</p><p>a rotina hospitalar. Suponha que você seja o(a) profissional responsável pelo caso</p><p>de Guilherme no hospital e, nesse momento, você recebeu a informação de que</p><p>ele se internará, novamente, para procedimentos médicos devido a uma piora no</p><p>quadro, sendo essa internação de, pelo menos, 15 dias. Considerando o conteúdo</p><p>estudado, que atividades você poderia propor, inicialmente, para ele nesse período?</p><p>91</p><p>AGORA É COM VOCÊ</p><p>Como vimos, a atuação do psicopedagogo, na área hospitalar, exige que o profissional</p><p>tenha conhecimento sobre os diversos fatores relacionados à doença e à internação</p><p>hospitalar. Com base no conteúdo apresentado ao longo da unidade, elabore um mapa</p><p>mental com os tópicos que devem ser considerados na avaliação psicopedagógica no</p><p>ambiente hospitalar.</p><p>92</p><p>CONFIRA SUAS RESPOSTAS</p><p>O mapa deverá conter os seguintes tópicos:</p><p>• A doença e suas implicações.</p><p>• O prognóstico e a evolução do quadro.</p><p>• A dor, seja da doença ou dos procedimentos.</p><p>• A rotina hospitalar (horário de medicação, visita médica, procedimentos</p><p>gerais, trocas de plantão, entre outros).</p><p>• A compreensão e a aceitação do paciente em relação à doença e aos</p><p>procedimentos.</p><p>• A compreensão da família sobre o caso.</p><p>• A capacidade de aprendizagem do paciente e da família.</p><p>UNIDADE 4</p><p>94</p><p>Durante minha trajetória profissional na área escolar, atendi inúmeros casos de alu-</p><p>nos com transtornos emocionais que precisaram de afastamento para tratamento</p><p>médico. Alguns por quadros graves de depressão, outros por tentativa de suicídio,</p><p>outros por Transtorno do Pânico ou Fobia Social. O tempo de afastamento varia mui-</p><p>to, em média, era 30 dias, mas, às vezes, esse tempo se estendia por dois a três meses.</p><p>Um dos casos mais graves que acompanhei foi de uma adolescente com ten-</p><p>tativas recorrentes de suicídio, com hipótese diagnóstica de Transtorno de Perso-</p><p>nalidade Borderline. Era estudante do segundo ano do Ensino Médio, extrema-</p><p>mente dedicada aos estudos, com notas excelentes, mas com questões emocionais</p><p>intensas que estavam impactando seu desejo de viver.</p><p>No ano em que eu a acompanhava na escola, ela foi internada após uma tentativa</p><p>grave de suicídio, ingeriu uma grande quantidade dos medicamentos psicotrópicos</p><p>que fazia uso. Estávamos no meio do segundo semestre do ano letivo, em período de</p><p>avaliação. A família informou à equipe escolar que ela ficaria internada sem previsão</p><p>de alta. Como já era procedimento da instituição escolar, fizemos contato com o</p><p>hospital para saber como ela estava e qual a possibilidade de ela realizar as atividades</p><p>avaliativas. O que é importante avaliar nesse primeiro contato? Como oportunizar</p><p>ao estudante um atendimento que não impacte na conduta médica e rotina do hos-</p><p>pital e, ao mesmo tempo, possibilite ao aluno a continuidade dos estudos?</p><p>Com autorização da família, fomos até o hospital para uma reunião de equipe,</p><p>na qual participaram o médico, a assistente social, a psicóloga e nós — psicopedago-</p><p>ga e coordenadora pedagógica da escola. Discutimos o caso e chegamos à conclusão</p><p>que ela poderia realizar atividades de forma adaptada, ou seja, um volume menor</p><p>de disciplinas (conteúdo de duas a três disciplinas por semana) e as atividades não</p><p>teriam peso de avaliação. Além disso, caso a equipe de Psicologia notasse que ela não</p><p>estivesse em condições emocionais de realizar atividades, estas seriam suspensas.</p><p>Dentre as atividades que ela precisava fazer durante a internação, estavam: ofi-</p><p>cinas terapêuticas diárias, consultas psicológicas e médicas semanais, bem como</p><p>terapia de grupo. Dessa forma, optamos por encaminhar as atividades uma vez na</p><p>semana, por meio da família. Assim, a equipe do hospital poderia propor que ela</p><p>as realizasse nos momentos em que ela estivesse disponível e disposta. Também,</p><p>combinamos que, caso ela não conseguisse realizar as atividades propostas, não</p><p>haveria problema, pois a prioridade, naquele momento, era sua saúde mental.</p><p>Esse caso mostra a importância da comunicação entre os diversos profissionais</p><p>que atuam com o paciente, bem como entre hospital e escola.</p><p>UNIDADE 4</p><p>96</p><p>Descrição da Imagem: conhecer as fases do luto possibilita que o profissional da psicopedagogia, que atua</p><p>em hospitais gerais, possa realizar intervenções por meio da aprendizagem focada em como lidar com o luto.</p><p>Figura 1 - Fases do luto (1996) / Fonte: adaptada de Kübler-Ross (1996).</p><p>Assim como na hospedaria faz-se necessário atender bem o cliente, no hospital,</p><p>é necessário que o “cliente”, isto é, o sujeito adoentado, receba cuidados redobrados,</p><p>pois se trata de doença e vida. O adoecimento é um processo doloroso e que carac-</p><p>teriza muitas perdas e reflexões sobre a vida. Angerami-Camon et al. (1995) falam</p><p>da importância de conhecer esse processo do adoecer, que envolve saber distinguir</p><p>as fases do desenvolvimento humano e interpor com a realidade mental, social e</p><p>física do sujeito. Kübler-Ross (1996) aponta que o processo de enlutamento possui</p><p>cinco fases típicas: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação.</p><p>Fases do luto</p><p>Negação</p><p>• Caracterizada por uma tendência do sujeito a negar o que lhe acontece, duvidar do</p><p>diagnóstico ou dos exames, tirar a credibilidade da equipe médica, desconsiderar as</p><p>orientações da equipe médica, acreditar que está com saúde estável e bem.</p><p>• Compreende um sentimento de indignação pela frustração da percepção do fim</p><p>da vida. Aparecem comportamentos agressivos em relação a equipe médica, escola,</p><p>família e contra o próprio adoecido.</p><p>• A superação da fase da raiva se dá com a tentativa de negociação das expectativas</p><p>de vida do sujeito. Uma tendência a barganhar com bons comportamentos para</p><p>superar a doença e voltar à vida. Aqui deseja estar saudável, mas logo percebe a</p><p>inviabilidade de tais promessas.</p><p>• Apresenta-se na forma de uma profunda tristeza e devido a percepção da realidade.</p><p>A frustração pelo fim da vida ou de suas expectativas vitais começam a aparecer de</p><p>maneira muito mais efetiva. As fases anteriores permaneciam em um estado de</p><p>fantasia para amortecer a difícil realidade. Mas aqui acontece a percepção da</p><p>realidade efetivamente.</p><p>• Caracterizada pela aceitação da doença e do tratamento. Aceitar não significa</p><p>entregar-se totalmente a doença, mas perceber que apesar da doença, existem</p><p>outras possibilidades em um tratamento. Aqui temos a importância de preparar</p><p>o sujeito para a aceitação.</p><p>Raiva</p><p>Barganha</p><p>Depressão</p><p>Aceitação</p><p>Aproveitando-nos dos apontamentos da autora, que desponta o enlutamento como</p><p>o processo de adoecimento, precisamos compreender este processo de adoeci-</p><p>mento e, posteriormente, a prática hospitalar. Quando o sujeito recebe a notícia do</p><p>UNICESUMAR</p><p>97</p><p>adoecimento, existe uma tendência a negar o diagnóstico. Essa fase é demarcada</p><p>por essa negação de que existe a possibilidade do fim da vida. Isso faz com que di-</p><p>ficulte o acesso ao tratamento, pois é preciso que o sujeito adoentado compreenda</p><p>os processos de adoecimento e aceite o tratamento. Em uma segunda fase do luto,</p><p>ocorre a raiva. Esta pode aparecer na forma de comportamentos hostis em relação</p><p>aos familiares, à equipe médica, ou seja, em relação aos vivos. A percepção do diag-</p><p>nóstico leva ao sujeito a raiva por estar em uma situação frente à morte.</p><p>Num terceiro momento, a raiva dá lugar a barganha na forma de negociações</p><p>com a vida, como promessas das mais variadas, na tentativa de voltar a viver. Nes-</p><p>se momento, o sujeito procura auxílio espiritual para sua recuperação, promete</p><p>não fumar nem beber, bem como fazer caridades e boas ações para obter a cura. A</p><p>frustração pela não cura aparece e, então, chega a quarta fase, que é a de depressão,</p><p>sendo marcada por profunda tristeza, devido ao enfrentamento da morte</p><p>passa a ser, por muito</p><p>tempo, o seu principal contexto de convívio, de desenvolvimento e aprendizagem”.</p><p>E o desenvolvimento da criança pressupõe a liberdade de explorar o mundo a sua</p><p>volta, de experimentar, de brincar. Essa é a natureza da criança.</p><p>“</p><p>A criança, enquanto ser em desenvolvimento, explora e interage</p><p>com seu meio de forma contínua e recíproca, à medida em que as</p><p>características ambientais são favoráveis e à medida em que opor-</p><p>tunidades lhe são oferecidas. Através dessa interação mútua ocor-</p><p>rem as modificações no repertório comportamental da criança e</p><p>da natureza funcional do meio. Enquanto atua sobre o ambiente</p><p>criando novas possibilidades de exploração, a criança aprende sobre</p><p>o mundo a sua volta e sobre suas próprias condições de atuação</p><p>sobre ele (GUIMARÃES, 2012, p. 105).</p><p>Ao ser hospitalizada, porém, ela fica privada de sua capacidade de explorar o</p><p>mundo, pois fica limitada ao ambiente e à rotina hospitalar. Para exemplificar,</p><p>voltaremos ao caso das crianças entrevistadas que citei no início desta unidade.</p><p>Guilherme tinha 8 anos na ocasião da entrevista e estava internado há sete dias</p><p>por síndrome nefrótica. Já era sua quarta internação desde que nasceu. Ao falar sobre</p><p>sua experiência nesse ambiente, Guilherme enfatizou o quanto é ruim, comentou</p><p>sobre os horários de medicação, sobre a dificuldade de dormir devido ao barulho.</p><p>Sua fala mostra a dificuldade de lidar com a rotina característica desse ambiente.</p><p>UNIDADE 1</p><p>16</p><p>Orlando, de 12 anos, encontrava-se internado há sete dias por um quadro</p><p>de pneumonia aspirativa. Durante a entrevista, enfatizou a dificuldade de ter</p><p>que fazer o que os outros querem e não o que ele mesmo quer fazer. O relato</p><p>de Orlando traz esse sentimento de impotência associado à obrigatoriedade de</p><p>cumprir as normas do hospital.</p><p>Lohr ([s. d.] apud Nascimento, 2004, p. 49) ressalta que, diante de doenças</p><p>graves, toda a rotina da criança é alterada, pois ela passa por inúmeras interna-</p><p>ções, tratamentos dolorosos e longos processos terapêuticos; por esse motivo, “os</p><p>elementos relacionados ao desenvolvimento e aprendizagem são ‘quebrados’ pela</p><p>descoberta da doença e seu posterior tratamento”. Lima e Natel (2010, p. 128)</p><p>complementam que, ao ser hospitalizada, “a criança depara-se com o impedimen-</p><p>to de brincar e continuar a explorar este mundo porque deve cumprir regras e se</p><p>submeter a procedimentos médicos”. Guimarães (2012, p. 108), também, alerta</p><p>para os impedimentos característicos do ambiente hospitalar. O autor cita alguns:</p><p>“</p><p>[...] imobilidade, visto que a restrição impossibilita a maior parte</p><p>dos comportamentos interativos ou mesmo exploratórios; ambiente</p><p>inexpressivo ou repetitivo, por falta de novidade e incentivo à curio-</p><p>sidade; super estimulação, por sua desorganização típica e caracte-</p><p>rísticas inibidoras; e medo, gerador de ansiedade, incompatível com</p><p>o relaxamento implícito no brincar.</p><p>As falas das crianças citadas expressam exatamente esse sentimento: a impo-</p><p>tência, diante da rotina hospitalar, e a frustração de não poder fazer o que tem</p><p>vontade. Claro que são rotinas e procedimentos necessários, mas para a criança,</p><p>é muito mais difícil de compreender tudo isso, por isso, o impacto é maior. Gui-</p><p>marães (2012) pontua que a hospitalização, ao privar a criança da possibilidade</p><p>do brincar, por exemplo, interfere, significativamente, na evolução natural e de-</p><p>senvolvimento da criança. Por esse motivo,</p><p>“</p><p>[...] é necessário voltar a atenção para o contexto psicossocial em</p><p>que se encontra a criança enferma, o tipo de influência que essas</p><p>condições podem estar exercendo sobre seu desenvolvimento como</p><p>um todo e o tipo de procedimento adequado para se obter o con-</p><p>trole de tais variáveis circunstanciais (GUIMARÃES, 2012, p.108).</p><p>UNIDADE 1</p><p>18</p><p>Vamos exercitar um pouco nosso conhecimento até aqui?</p><p>Vigotski é um grande teórico da aprendizagem e desenvolvimento. E essa afirmação do</p><p>autor, de que a aprendizagem acontece a partir da interação da criança com o ambiente</p><p>e com seus pares, já nos mostra a extensão dos prejuízos que uma internação longa pode</p><p>trazer para o desenvolvimento da criança. Pense a respeito, na sua opinião, quais seriam</p><p>as consequências da hospitalização para a aprendizagem de crianças e adolescentes em</p><p>idade escolar?</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>A criança precisa ser atendida de forma integral. É importante considerar</p><p>suas peculiaridades, as condições sociais, econômicas e religiosas da família, as</p><p>condições do ambiente ao qual ela está inserida. É preciso respeitar cada fase do</p><p>desenvolvimento, buscando a saúde não só do físico, mas também do psicológico</p><p>da criança. Barbosa (2001 apud GUIMARÃES, 2012) cita três aspectos que são</p><p>essenciais para um atendimento integral à criança:</p><p>1. O atendimento deve promover a saúde e não apenas lutar contra a</p><p>doença e a morte.</p><p>2. Deve-se considerar que a saúde abrange o bem-estar físico, mental e social.</p><p>3. O paciente deve ser encarado de acordo com sua singularidade e suas in-</p><p>ter-relações complexas com a família.</p><p>Diante dessas pontuações, traremos a reflexão para a questão da aprendizagem.</p><p>Paín (1985) ressalta que a aprendizagem não é uma estrutura, mas sim, um efeito</p><p>que ocorre a partir da articulação de esquemas. Por isso, fala-se em “processo</p><p>de aprendizagem”, porque ela resulta e depende da interação entre as condições</p><p>biológicas do sujeito e o meio social ao qual ele está inserido. Vigotski (2007, p.</p><p>103), também, ressalta que a aprendizagem acontece a partir da interação do</p><p>indivíduo com o meio. Para o autor,</p><p>“</p><p>[...] o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvi-</p><p>mento, que são capazes de operar somente quando a criança intera-</p><p>ge com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus</p><p>companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se</p><p>parte das aquisições do desenvolvimento independente da criança.</p><p>UNICESUMAR</p><p>19</p><p>“Educar consiste então em ensinar, no sentido de mostrar, de estabelecer sinais, de mar-</p><p>car como se faz o que pode ser feito. Desta forma, a criança aprende a expressar-se, a</p><p>vestir-se, a escrever, e também a não se sujar, não se atrasar, a não chorar. A maneira de</p><p>fazer o que a educação prescreve tem por objetivo a constituição do ser que determinado</p><p>grupo social precisa: ser respeitoso, limpo, pontual, sem afetações, etc.”.</p><p>Fonte: Paín (1985, p. 17-18).</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>De acordo com Paín (1985), a aprendizagem possui três dimensões: biológica,</p><p>cognitiva e social. A dimensão biológica diz respeito à herança genética do in-</p><p>divíduo, associada ao componente evolutivo da espécie, ou seja, aquilo que é</p><p>esperado de acordo com a idade e período evolutivo de cada um. A dimensão</p><p>cognitiva está relacionada à capacidade de adquirir novas habilidades, adaptar-se</p><p>ao meio e a novas demandas e desenvolver novas estruturas. A autora chama essa</p><p>aprendizagem de estrutural e pontua que ela está “vinculada ao nascimento das</p><p>estruturas lógicas do pensamento, por meio das quais é possível organizar uma</p><p>realidade intangível e cada vez mais equilibrada” (PAÍN, 1985, p.17).</p><p>Quanto à dimensão social, Paín (1985) menciona que a aprendizagem é um</p><p>dos polos do processo educativo, constituído pelo par ensino-aprendizagem. É por</p><p>meio da educação que o sujeito adquire, assume e transmite uma cultura particular.</p><p>Porto ([s. d.] apud LIMA; NATEL, 2010) complementa que a aprendizagem tam-</p><p>bém possui uma função integradora, a qual se relaciona com as possibilidades</p><p>de interação do indivíduo à realidade. Por meio da aprendizagem, o indivíduo</p><p>pode atuar sobre sua realidade e transformá-la. Nesse sentido, ao tornar possível</p><p>a aprendizagem a uma criança hospitalizada, permitimos que ela retome sua</p><p>condição de agente transformador dessa realidade. Desta forma, “a criança con-</p><p>seguirá explorar seu meio e intervir, permitindo assim que seja no mundo, dife-</p><p>rentemente de quando está submetida a procedimentos médicos</p><p>e ao</p><p>adoecimento. Por fim, a percepção de todo percurso da vida e os desdobramentos</p><p>da doença dão lugar à aceitação. Nesta, o sujeito consegue prosseguir em um bom</p><p>tratamento e, consequentemente, um bom prognóstico.</p><p>Você deve estar se perguntando: por que devo saber sobre o adoecimento?</p><p>E a resposta para isso é: porque é necessário compreender a forma que a equipe</p><p>multiprofissional atua. Quando o sujeito está em negação ou raiva, por exemplo,</p><p>a equipe pode sofrer os mais variados tipos de agressões, sendo necessária a</p><p>atuação de um profissional que possa auxiliar neste processo; então, o psicope-</p><p>dagogo pode atuar, prontamente, neste caso. O processo de aprendizagem sobre</p><p>a doença, a aplicação da técnica da psicoeducação, o explanar sobre o tratamento</p><p>e a educação para viver são pontos que podem ser feitos por qualquer membro</p><p>da equipe. Porém o psicopedagogo possui didática, um prioritário requisito no</p><p>processo de ensino e aprendizagem.</p><p>A interlocução com outras áreas do saber é muito importante para a integra-</p><p>lização da saúde, como um todo, do sujeito, e isso é uma das características de</p><p>trabalho multiprofissional trazido por Angerami-Camon (1995), onde o referido</p><p>autor discute a área de saúde como plural, e não singular. Essa área é composta</p><p>por médico, enfermeiro, nutricionista, psicólogo, fisioterapeuta, fonoaudiólogo,</p><p>terapeuta ocupacional, odontólogo, farmacêutico, biomédico, entre outras pro-</p><p>fissões. Pensando nessa variedade de profissões é que devemos pensar em como</p><p>articular a interação de todas, sem que nenhuma se perca em sua profissão. É aí</p><p>que o autor discute o trabalho multiprofissional.</p><p>UNIDADE 4</p><p>98</p><p>Figura 2 - Equipe multiprofissional / Fonte: o autor.</p><p>Essa prática deve ser permeada por diálogo e comunicação constante entre os</p><p>diferentes profissionais que atuam com o sujeito adoentado. Uma mesma pessoa</p><p>que passa por um período de internação de longo prazo passa pelos cuidados de</p><p>diversos profissionais. Ela não é atendida, somente, pelo médico, mas também pelo</p><p>enfermeiro, farmacêutico, biomédico, fisioterapeuta, nutricionista, psicólogo e, tam-</p><p>bém, pelo psicopedagogo. É importante estabelecer, periodicamente, a discussão de</p><p>casos complexos com a equipe médica, para que seja possível trabalhar esse proces-</p><p>so de adoecimento da melhor maneira, trazendo conforto e bem-estar ao adoecido.</p><p>Estabelecer este vínculo com a equipe é essencial para um tratamento eficaz.</p><p>Outra frente de trabalho possível e que pode ser aproveitada pelo psicopedagogo</p><p>é a interdisciplinaridade. Esta é um termo, ainda, complexo e que necessita de</p><p>profissionais bem experientes para colocar em prática esse tipo de atitude, diante</p><p>da doença, e proporcionar o melhor atendimento ao sujeito adoecido.</p><p>Quando falamos em disciplina, estamos falando de algo particular de uma úni-</p><p>ca área do conhecimento, por exemplo: o pedagogo domina as variadas formas</p><p>didáticas de ensino e pode usar diversas técnicas que lhe cabe, o que trará grandes</p><p>ganhos ao profissional da psicopedagogia. A disciplina de didática faz parte do pro-</p><p>fessor pedagogo, mas não é exclusiva dele, ou seja, pode estar, também, no professor</p><p>mestre ou doutor de ensino superior. Este professor, talvez, não consiga dominar,</p><p>totalmente, determinada disciplina, mas consegue articular seus próprios conheci-</p><p>mentos pelo viés de outra. E esse processo é denominado trabalho interdisciplinar.</p><p>Modelo de relações de trabalho multiprofissional</p><p>Paciente</p><p>em</p><p>discussão</p><p>Psicólogo</p><p>Nutricionista</p><p>Médico Fisioterapeuta</p><p>Psicopedagogo</p><p>Demais</p><p>especialidades</p><p>UNICESUMAR</p><p>99</p><p>Descrição da Imagem: a figura representa um modelo de organograma da equipe multiprofissional, o</p><p>qual é formado por seis retângulos, contendo os seguintes textos: 1º retângulo: Psicólogo; 2º retângulo:</p><p>Nutricionista; 3º retângulo: Médico; 4º retângulo: Fisioterapeuta; 5º retângulo: Psicopedagogo; e 6º retângulo:</p><p>Demais especialidades. Os retângulos estão dispostos em volta de um círculo e há uma seta saindo de cada</p><p>um deles. No círculo, há o seguinte texto: PACIENTE EM DISCUSSÃO.</p><p>Descrição da Imagem: a figura representa um modelo de organograma da equipe multidisciplinar. Neste</p><p>modelo, o psicopedagogo perpassa por diferentes saberes dentro do hospital, a saber: Fisioterapeuta,</p><p>Psicopedagogo, Demais especialidades, Médico, Psicólogo e Nutricionista, para atuar, pontualmente, junto</p><p>ao paciente, à equipe médica e aos familiares.</p><p>Modelo de relações de trabalho interdisciplinar</p><p>Psicólogo</p><p>Nutricionista</p><p>Médico</p><p>Fisioterapeuta</p><p>Psicopedagogo</p><p>Demais</p><p>especialidades</p><p>Paciente</p><p>Figura 3 - Equipe interdisciplinar / Fonte: o autor.</p><p>Como podemos observar, tanto a equipe multiprofissional quanto a multidisci-</p><p>plinar veem e assistem ao paciente no que diz respeito às suas necessidades, ou</p><p>seja, o paciente é, amplamente, atendido. Porém, no modelo de trabalho em saúde</p><p>UNIDADE 4</p><p>100</p><p>Pensando sobre a importância da comunicação entre os diversos profissionais da equipe</p><p>hospitalar, na sua opinião, quais as possíveis consequências da falta de comunicação para</p><p>o trabalho do psicopedagogo?</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>multiprofissional, o profissional deve estar preocupado com a sua comunicação,</p><p>em relação aos demais colegas de trabalho, na discussão de caso do paciente.</p><p>Sempre devemos relembrar o que Coriolano-Marinus et al. (2014) nos re-</p><p>forçam: a comunicação é imprescindível para a formação do profissional que</p><p>atua na saúde. Mesmo como formação de psicopedagogo, é necessário desen-</p><p>volver comunicação como um dispositivo de trajetória e conduta das tratativas</p><p>em saúde. No ambiente hospitalar, obter as informações do caso com o médico,</p><p>discutir possibilidades de aplicação de planos de ensino e observar as principais</p><p>demandas do sujeito no momento é de suma importância para a prática do pro-</p><p>fissional psicopedagogo.</p><p>Peduzzi (2001) fala da importância dessa comunicação em uma equipe multi-</p><p>profissional na área da saúde e aborda dois tipos de equipes, sendo: equipe de</p><p>agrupamento e equipe de integração. Ambas possuem ações diferentes, por terem</p><p>características diferentes.</p><p>EQUIPE AGRUPAMENTO</p><p>EQUIPE INTEGRAÇÃO</p><p>Justaposição das ações</p><p>Agrupamento dos agentes</p><p>Articulação das ações</p><p>Interação dos agentes</p><p>Figura 4 - tipos de equipe multiprofissional baseado na comunicação / Fonte: Peduzzi (2001, p. 106).</p><p>Descrição da Imagem: a figura mostra o termo EQUIPE AGRUPAMENTO, seguido de duas setas indicativas: uma</p><p>para “justaposição das ações” e outra para “agrupamento dos agentes”. Embaixo, há o termo EQUIPE INTEGRA-</p><p>ÇÃO, seguido de duas setas indicativas: uma para “ articulação das ações” e outra para “interação dos agentes”.</p><p>UNICESUMAR</p><p>101</p><p>Comunicação</p><p>Às vezes, a falta de comunicação entre os profissionais da</p><p>equipe do hospital pode custar a vida. Escute esse podcast</p><p>de uma experiência em que o posicionamento do setor de</p><p>psicologia chegou a custar a vida de um paciente prema-</p><p>turo, ao ser tirado de perto da mãe por questões médicas.</p><p>A equipe agrupamento é caracterizada pela fragmentação do trabalho, ou seja,</p><p>cada sujeito trabalha de forma independente. As ações de cada profissional ocor-</p><p>rem de maneira individualizada, apesar de existir comunicação. Os profissionais</p><p>estarão habituados a se comunicarem, quando necessário, sem que haja, de fato,</p><p>a obrigatoriedade disso. Em contrapartida, a equipe integração proporciona que</p><p>haja uma mútua interação entre os profissionais, ou seja, a interdisciplinaridade</p><p>e o trabalho em equipe ocorrem de maneira fluída, pois se baseiam em ações de</p><p>saúde que permeiam a discussão de um caso e do sujeito em si (PEDUZZI, 2001).</p><p>Vale ressaltar que o psicopedagogo não atua de forma independente dos de-</p><p>mais profissionais. É preciso que haja interação entre os profissionais de saúde para</p><p>que possam ter sucesso no tratamento e conduta do tratamento em saúde. Outro</p><p>ponto importante da discussão do trabalho do profissional de saúde em geral, e</p><p>aqui</p><p>incluímos o psicopedagogo que atua no campo hospitalar, é saber ouvir o</p><p>sujeito. Muito ouvimos falar sobre o tratamento, o ensino, o sujeito que necessita</p><p>aprender e se desenvolver. Porém devemos nos atentar ao conceito de saber ouvir</p><p>a demanda do sujeito, ouvir a demanda da equipe médica, ouvir a família.</p><p>Rubem Alves (2005), ilustre autor, educador, psicanalista, exímio em seus traba-</p><p>lhos, pode contribuir sobre o assunto com a crônica da “Escutatória”. O autor vem</p><p>falando de como é difícil escutar o outro.</p><p>“</p><p>Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado</p><p>curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém</p><p>quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória.</p><p>Mas acho que ninguém vai se matricular.</p><p>Escutar é complicado e sutil. Diz o Alberto Caeiro que ‘não é bas-</p><p>tante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também</p><p>UNIDADE 4</p><p>102</p><p>não ter filosofia nenhuma’. Filosofia é um monte de idéias, dentro</p><p>da cabeça, sobre como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre</p><p>os olhos. Diante de nós, fora da cabeça, nos campos e matas, estão</p><p>as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que</p><p>existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O</p><p>que está fora não consegue entrar. A gente não é cego. As árvores e</p><p>as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e caem num mar</p><p>de ideias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós.</p><p>Perdem a sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o</p><p>que vemos não são as árvores e as flores. Para se ver é preciso que a</p><p>cabeça esteja vazia (ALVES, 2005, p. 1).</p><p>Aqui neste excerto, podemos ver a preocupação do autor sobre as pessoas falarem</p><p>mais do que ouvirem. Quando se refere às filosofias, diz, em um tom aprimorado, o</p><p>requinte da escuta sem julgamento. Veja: quando abordamos um caso para atendi-</p><p>mento, logo, pensamos em todas as possibilidades a serem feitas com o sujeito, como:</p><p>o que ensinar, qual conduta tomar, como desenvolver e ensinar essa criança, quais</p><p>recursos utilizar, entre tantas outras possibilidades a serem feitas em um caso. Mas</p><p>Figura 5 - Escutatória</p><p>Descrição da Imagem: figura de uma menina com estetoscópio ouvindo o coração de um urso de pelúcia</p><p>deitado em seu colo.</p><p>devemos nos atentar aos</p><p>mínimos do que se fala.</p><p>Será que estamos ou-</p><p>vindo, de fato, o sujeito?</p><p>Será que estamos ou-</p><p>vindo, corretamente, a</p><p>equipe médica? E essa</p><p>família está sendo ouvi-</p><p>da? Outro elemento que</p><p>entra em cena também é</p><p>a escola. Esta está sendo</p><p>ouvida? Vamos observar</p><p>a figura a seguir.</p><p>UNICESUMAR</p><p>103</p><p>É muito importante observar o elemento ouvir, pois este proporciona ao paciente</p><p>e ao profissional de saúde, pedagogo, enfermeiro ou médico, uma boa interação</p><p>de relacionamento. Mantendo esse vínculo entre profissional e paciente, é possível</p><p>estabelecer um bom prognóstico em saúde desse paciente. Não é possível obter</p><p>o cuidado necessário com a pessoa adoentada, se não se sabe o que lhe ocorre. E</p><p>esse cuidado é do profissional de saúde em geral.</p><p>Assim como cuidar e ouvir é de conhecimento do enfermeiro, médico, psicó-</p><p>logo ou outro profissional que ali lida com o hospital e o paciente, também, é do</p><p>psicopedagogo que trabalha no hospital. Não devemos eximir o psicopedagogo</p><p>por ter uma base de formação diferente do profissional de saúde. Isso é o que, de</p><p>fato, caracteriza nossa discussão, isto é, capacitar o discente para que compreenda</p><p>os processos de trabalho multiprofissionais que ocorrem, a todo momento, no</p><p>contexto hospitalar.</p><p>Figura 6 - Prática psicopedagógica no contexto hospitalar</p><p>Descrição da Imagem: figura de uma criança sentada na mesa, em</p><p>uma brinquedoteca hospitalar, realizando suas atividades escolares.</p><p>A maneira como o</p><p>profissional psicopeda-</p><p>gogo se porta é de forma</p><p>similar à equipe médica,</p><p>com jaleco hospitalar</p><p>e sala adaptada, pois se</p><p>trata de um leito de en-</p><p>fermaria. Como pode-</p><p>mos observar na figura</p><p>anterior, há uma mesa,</p><p>materiais didáticos e o</p><p>acompanhamento para</p><p>o pleno ensino. Porém,</p><p>para se obter sucesso</p><p>nesta prática, é preciso</p><p>levar em consideração</p><p>que o sujeito está em um</p><p>ambiente confortável, propício ao ensino, com condições de saúde estáveis e</p><p>apropriadas ao ensino e à aprendizagem.</p><p>A forma como o sujeito desempenhará bem suas funções profissionais neste</p><p>contexto é, exatamente, por meio da comunicação com diferentes profissionais</p><p>e disciplinas tanto da área da educação quanto da área da saúde, para, assim,</p><p>UNIDADE 4</p><p>104</p><p>estabelecer as práticas necessárias ao ensino desse paciente. Não basta, somente,</p><p>comunicar tudo a todo momento, mas também, como vivos, saber ouvir e receber</p><p>as mensagens. Retomando nossas discussões sobre comunicação, devemos nos</p><p>atentar que existe a dinâmica de um emissor, mensagem e receptor.</p><p>Emissor Mensagem Receptor</p><p>Figura 7 - Dinâmica da comunicação / Fonte: o autor.</p><p>Descrição da Imagem: a imagem mostra três retângulos, um ao lado do outro. Dentro do primeiro, está</p><p>escrito “emissor” e dele sai uma seta em direção à direita, onde há o segundo retângulo. Dentro deste, está</p><p>escrito “mensagem” e dele sai uma seta em direção à direita, onde há o terceiro e último retângulo, no qual</p><p>está escrito “receptor”.</p><p>Quando olhamos para a figura anterior, podemos perceber como é importante</p><p>conhecer o funcionamento das interações multiprofissionais por meio da co-</p><p>municação. Weinberg e Could (2017) esclarecem que existem, basicamente, dois</p><p>tipos de comunicação: a intrapessoal e a interpessoal. A intrapessoal é o diálogo</p><p>consigo mesmo, um diálogo interior, motivacional ou não, sabotador ou não, mas</p><p>extremamente importante.</p><p>Já a comunicação interpessoal é a mais utilizada, pois é a relação que desem-</p><p>penhamos com os outros indivíduos, é a forma de socialização com nosso meio.</p><p>Além disso, dentro das relações interpessoais, apresenta-se a comunicação não</p><p>verbal ou gestual, sendo representada por até 70% do que transmitimos. Esse</p><p>tipo de comunicação, por não se apresentar conscientemente, é mais difícil de</p><p>esconder e é caracterizado, comumente, por expressões, porém é preciso cuidado,</p><p>pois essas podem ser interpretadas de maneira incorreta. Entender esse tipo de</p><p>comunicação auxilia, e muito, na transmissão e na recepção de uma mensagem.</p><p>A comunicação verbal, segundo Weinberg e Could (2017), precisa ser enviada</p><p>de forma clara e interpretada de forma correta. Uma mensagem precisa disso,</p><p>pois, se entregue e interpretada erroneamente, pode causar uma ruptura no diá-</p><p>logo, prejudicando ambas as partes. Por vezes, o comunicador se importa mais</p><p>em falar, não respeitando o processo de recepção da mensagem e o entendimento</p><p>que o receptor obteve sobre.</p><p>UNICESUMAR</p><p>105</p><p>Malanga (2004) explica que, basicamente, sempre haverá comunicação (seja</p><p>interpessoal, grupal ou de massa) entre pessoas. Nesse contexto, o agente de comu-</p><p>nicação será o emissor da mensagem e, por conseguinte, haverá um receptor dessa</p><p>mensagem emitida. Perceba que esse discurso trazido pelo autor demonstra que, no</p><p>meio da saúde, a comunicação se dá entre esses elementos do emissor, mensagem</p><p>e receptor, demonstrando a importância de ter um emissor e receptor preparados</p><p>para enviar e receber as diferentes mensagens que são enviadas nesse meio.</p><p>Na ação comunicativa, Coriolano-Marinus et al. (2014) descrevem que o men-</p><p>sageiro da informação transmitirá algo dentro de um contexto dinâmico, sendo</p><p>que se referirá não, somente, ao mundo objetivo, mas, ao mesmo tempo, ao mundo</p><p>próprio e ao mundo social. Tratando-se da área da saúde, fica nítido a necessidade</p><p>de comunicação entre os agentes trabalhadores, pois é essa interação que auxiliará</p><p>no processo multiprofissional bem-sucedido de hospitalização de um sujeito (PE-</p><p>DUZZI, 2001). Segundo Teixeira (2004, p. 615), a comunicação em saúde pode</p><p>auxiliar em várias vertentes, tais como:</p><p>■ Promover a saúde e educar para</p><p>a saúde</p><p>■ Evitar riscos e ajudar a lidar com ameaças para a saúde</p><p>■ Prevenir doenças</p><p>■ Sugerir e recomendar mudanças de comportamento</p><p>■ Recomendar exames de rastreio</p><p>■ Informar sobre a saúde e sobre as doenças</p><p>■ Informar sobre exames médicos que é necessário realizar e sobre os seus</p><p>resultados</p><p>■ Receitar medicamentos</p><p>■ Recomendar medidas preventivas e atividades de autocuidado em indi-</p><p>víduos doentes.</p><p>Teixeira (2004) nos explica que a comunicação em saúde é, basicamente, o estudo</p><p>das melhores estratégias e decisões de comunicação voltadas para os indivíduos</p><p>incluídos nas instituições ou no contexto amplo denominado saúde, com o intuito</p><p>claro e absoluto de promover a saúde. Na visão do autor, não se trata, apenas, de pro-</p><p>mover a saúde em si, mas de como promovê-la e reportá-la de forma clara e eficaz.</p><p>Como podemos observar, é longa a trajetória do trabalho em saúde. Falamos,</p><p>longamente, sobre o assunto, mas aqui nos cabe capacitar o discente para esse</p><p>campo que é educacional, mas também da saúde. A compreensão do trabalho</p><p>UNIDADE 4</p><p>106</p><p>hospitalar e a importância de se habituar a esse ambiente tão diferente da sala de</p><p>aula fazem-se necessárias. Por ser uma área multidisciplinar (saúde x educação),</p><p>é preciso estar atento ao verdadeiro papel do sujeito psicopedagogo no ambiente</p><p>hospitalar. Como vemos, o psicopedagogo faz parte da equipe hospitalar, auxilia</p><p>nas variadas demandas que podem ser levantadas do sujeito, da família, da escola,</p><p>da equipe médica etc.</p><p>Perceba que se faz necessário entender a importância de uma boa comu-</p><p>nicação no ambiente hospitalar, pois é, somente, assim que serão realizados os</p><p>planejamentos e as ações eficazes. É pelo ouvir e ouvir sem julgamentos, como</p><p>nos coloca Alves (2005), que poderemos ter a melhor compreensão do sujeito. É</p><p>com a empatia que será possível a real recuperação desse nosso paciente-aluno.</p><p>Apoio da escola na recuperação do aprendiz</p><p>Quem já viu aquele aluno que não progride de série? Existe aquele aluno que não</p><p>consegue aprender muito bem, tem dificuldades de concentração ou, até mesmo,</p><p>sente-se extremamente incomodado no ambiente escolar. Como é difícil lidar</p><p>com tais assuntos, mas é necessário. Mas para além disso, já pensou no fracasso</p><p>escolar? Como fica a criança que está com dificuldades de progressão de série?</p><p>Ou, mais profundo, como fica a criança que é impossibilitada de progredir de</p><p>série por motivo de doença? Esse sentimento terrível que aparece nesses alunos</p><p>que não conseguem avançar de série, apesar dos esforços, chamamos frustração.</p><p>Cabe-nos discutir frustração no ambiente escolar para, posteriormente, dis-</p><p>cutir esse mesmo assunto no ambiente hospitalar. Existe uma tendência a culpa-</p><p>bilizar a família ou o aluno pelo fracasso escolar. Prioste (2020, p. 3) aponta que:</p><p>“</p><p>Explicações genéricas e simplistas também têm sido adotadas por</p><p>parte dos psicólogos. Em geral, há uma tendência de os psicólogos</p><p>interpretarem as dificuldades na aprendizagem escolar enfatizan-</p><p>do os problemas familiares, intrapsíquicos e psicodinâmicos, com</p><p>negligência dos fatores relacionados ao processo de escolarização</p><p>da criança [...]. Trata-se de um psicologismo que reforça a culpabi-</p><p>lização dos alunos e de seus familiares.</p><p>UNICESUMAR</p><p>107</p><p>Perceba que é necessário compreender o que, de fato, ocorre com o processo</p><p>de escolarização que leva ao fracasso escolar, e esse sentimento de frustração</p><p>é aterrador ao aluno. A referida autora traz uma série de pontuações sobre o</p><p>fracasso escolar, como problemas familiares, problema com apoio docente, de-</p><p>sorganização da gestão escolar, problemas intrínsecos ao aluno, entre outros; e o</p><p>mesmo vale para o contexto hospitalar. Não está distante a necessidade de se ter</p><p>um ambiente com gestão aceitável e que inclua, de fato, o aluno no processo de</p><p>tratamento de saúde e de ensino e aprendizagem (PRIOSTE, 2020).</p><p>A frustração escolar aparece no aluno quando ele cria expectativas sobre a</p><p>vida, mas essas são interrompidas. Nós somos movidos ao desejo, isto é, quando</p><p>desejamos algo, movimentamo-nos para realizar esse desejo. O desejo de pros-</p><p>seguir na vida pode ser interrompido pela doença, por exemplo. O desejo de se</p><p>tornar um profissional de alguma área pode ser interrompido pela reprovação nas</p><p>séries. Porém, no ano de 2018, foi adicionado à Lei nº 13.716 o seguinte Artigo:</p><p>“</p><p>Art. 4º-A. É assegurado atendimento educacional, durante o pe-</p><p>ríodo de internação, ao aluno da educação básica internado para</p><p>tratamento de saúde em regime hospitalar ou domiciliar por tempo</p><p>prolongado, conforme dispuser o Poder Público em regulamento,</p><p>na esfera de sua competência federativa (BRASIL, 2018, on-line).</p><p>O sentimento de frustração reside nas mudanças de ambiente — da escola para</p><p>hospital/domicílio — ou em relação ao próprio educador, ou seja, à mudança</p><p>de profissional que atende esse aluno. O psicopedagogo necessita perceber esses</p><p>elementos que podem levar ao fracasso escolar, mesmo no contexto hospitalar.</p><p>Ali, não está lidando, somente, com a questão da aprendizagem, conteúdos e um</p><p>currículo escolar que precisa ser ministrado a um aluno e este aprender os conteú-</p><p>dos de maneira eficaz, mas em relação à doença também, que sempre precisa ser</p><p>avaliada e observada constantemente sobre o quanto impacta na vida deste aluno.</p><p>A própria doença traz a conotação de interrupção da vida, conforme apon-</p><p>tado por Kübler-Ross (1996), e é isso que pode deixar o aluno com expectativas</p><p>péssimas em relação aos estudos. O psicopedagogo precisa permanecer atento a</p><p>este aspecto e solicitar apoio psicológico quando necessário. Pensemos: insistir</p><p>em uma educação, sem a percepção de perspectivas futuras, torna-a infrutífera.</p><p>Veja, novamente, como a interação multiprofissional se torna um carro chefe, em</p><p>UNIDADE 4</p><p>108</p><p>relação às ações do psicopedagogo, no ambiente hospitalar: com apoio psicoló-</p><p>gico, é possível elaborar melhor o luto pela percepção da doença, mas também,</p><p>com o auxílio do psicopedagogo, atuando no ensino sobre a doença e os cuidados</p><p>com o tratamento, é possível reverter este quadro.</p><p>Quando falamos da Educação Básica, compreendemos a Educação Infantil,</p><p>Fundamental e Médio. A Lei nº 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação</p><p>Brasileira) (BRASIL, 1996) abarca grande número de alunos que precisam ser</p><p>atendidos no âmbito educacional, mesmo que em regime domiciliar ou hospita-</p><p>lar. Trabalhar arduamente para que se possa oferecer subsídios palpáveis para a</p><p>aprendizagem desse aluno, em um contexto tão distante do ideal, é estar preocu-</p><p>pado com a recuperação deste aluno. A doença, muitas vezes, é determinante de</p><p>certas frentes na vida de um aluno. Estar limitado por algo que coloca em risco a</p><p>vida pode comprometer a aprendizagem em larga escala, mas, tendo os esforços</p><p>necessários, as mínimas adaptações bem como o empenho e o engajamento da</p><p>equipe escolar, hospitalar e da família, é possível estabelecer ganhos apropriados</p><p>em ensino e aprendizagem (BELANCIERI et al., 2018).</p><p>Belancieri et al. (2018) nos trazem que a escola pode apoiar, grandemente,</p><p>esse aluno hospitalizado na forma de estabelecer uma comunicação entre coor-</p><p>denação/direção da escola em que estava inserido e psicopedagogo hospitalar.</p><p>Esse aluno vinha de um currículo escolar diferente, adaptado a um outro regime</p><p>didático e escolar, então, estar em um ambiente hospitalizado gera angústias e</p><p>desconfortos que podem atrapalhar a aprendizagem. O ambiente se torna um</p><p>grande desafio, mas pode-se intervir neste aspecto. O psicopedagogo necessita se</p><p>habituar aos aspectos da aprendizagem que o aluno já estava inserido, pois esse</p><p>aluno já tinha facilidades e dificuldades de acordo com seus aspectos cognitivos.</p><p>Realizar reuniões periódicas com a equipe de professores e coordenação da</p><p>escola que o aluno estava inserido proporciona ao psicopedagogo artifícios para</p><p>lidar com as dificuldades desse aluno. Se é um</p><p>aluno que possui mais dificuldade</p><p>com matemática ou língua portuguesa, o psicopedagogo pode trabalhar, mais</p><p>efetivamente, estas disciplinas de maneira que atinja excelência em seu trabalho.</p><p>Receber esse aluno na forma mais eficiente significa obter apoio da escola que</p><p>advém, além disso, esta deve ter o compromisso com a educação desse aluno em</p><p>oferecer o apoio necessário para este longo período de internação.</p><p>O longo tempo de internação e as novas práticas educativas adaptadas que o</p><p>psicopedagogo proporciona a esse aluno levam-no a se recriar e a se fortalecer</p><p>UNICESUMAR</p><p>109</p><p>neste espaço. Até mesmo Belancieri et al. (2018) pontuam que a equipe médica</p><p>tem maior facilidade no tratamento de pacientes que recebem escolarização no</p><p>hospital, pois isso reforça o sentimento curativo da doença. E, como já é espe-</p><p>rado, a cura vem e essa criança volta para a escola. Esse momento é difícil para</p><p>a criança e para o psicopedagogo, pois gera angústia em ambos. É preciso que o</p><p>psicopedagogo esteja atento às angústias de separação que ele possa vir a sentir,</p><p>para que isso não se torne incapacitante para a profissão. Sobre o aluno, é impor-</p><p>tante ressaltar o apoio da escola que o recebe de volta.</p><p>Assim como a saída do aluno da escola, a inserção dele em um contexto</p><p>hospitalar adaptado para educação exige inúmeros esforços para aprendizagem</p><p>e retorno à escola habitual, bem como demandará novos enquadres. Veja aqui a</p><p>importância de a escola principal sempre manter contato com psicopedagogo e</p><p>família, para monitorar o atual estado do aluno e, assim, proporcionar o devido</p><p>apoio necessário em cada momento. Quando o retorno desse aluno, de fato, ocor-</p><p>rer, é necessário que a escola o prepare para esse retorno. Um primeiro contato</p><p>com o aluno ameniza as ansiedades por essas mudanças, assim como comunicar à</p><p>turma para recebê-lo, orientar professores sobre o retorno, bem como monitorar</p><p>e avaliar o desempenho periodicamente para verificar a necessidade de maiores</p><p>intervenções (COSTA; BORUCHOVITCH, 2004).</p><p>Falando um pouco sobre o ensino superior, não há legislação que, de fato,</p><p>regulamente as práticas da coordenação e o ensino hospitalar. Os cursos de en-</p><p>sino superior preparam um profissional para o mercado de trabalho, e, conse-</p><p>quentemente, isso necessita de muitas horas de prática na profissão para que seja</p><p>um profissional exímio. Na situação de educação hospitalar, fica difícil executar</p><p>atividades práticas, pois muitas necessitam de contato com pessoas, laboratórios,</p><p>centros e outras instituições para as práticas. O conteúdo teórico é, também, am-</p><p>plamente, ministrado na estrutura curricular do ensino superior. Cabe à coorde-</p><p>nação de curso avaliar minuciosamente as possibilidades de atendimento a este</p><p>aluno ou recomendar o trancamento em detrimento da doença.</p><p>Como podemos perceber, a situação de doença modifica todos os esquemas</p><p>de aprendizagem do aluno. Readequar a forma de aprender, manter o vínculo</p><p>com a escola, proporcionar a continuidade do currículo da escola que estava</p><p>inserido e fornecer um currículo adaptado que atenda às necessidades educacio-</p><p>nais dessa criança, neste contexto, torna-se função do psicopedagogo. Além disso,</p><p>após o período de internação e com o retorno do paciente a sua escola principal,</p><p>UNIDADE 4</p><p>110</p><p>oferecer subsídios à escola para que ela possa receber, prontamente, esse aluno e</p><p>o inserir em sua classe proporciona a habituação dele, novamente, à escola.</p><p>Participação da família na psicopedagogia hospitalar</p><p>Segundo Roudinesco (2003), ao longo dos períodos históricos, a compreensão</p><p>sobre família foi se modificando. Na Antiguidade, o pai era visto como autoridade</p><p>máxima, a mãe, cuja opinião não era ouvida, era incubada de realizar os cuidados</p><p>básicos da criança, e esta era considerada fruto dos valores morais da família. A</p><p>infância, porém, não era vista com bons olhos, era conspirada, amedrontadora e</p><p>maléfica, mas, ao longo dos séculos, essa ideia foi se modificando, assim como a</p><p>visão de família. O poder patriarcal foi decaindo, e as mulheres foram ganhando</p><p>voz e força; com isso, elas se tornaram independentes e passaram a chefiar suas</p><p>famílias. Desse modo, os divórcios, consequentemente, aumentaram e o modelo</p><p>tradicional familiar deu lugar a famílias monoparentais, “recompostas”, com a</p><p>emancipação das mulheres e dos filhos.</p><p>Com toda essa transformação, as crianças, finalmente, passaram a ter voz e</p><p>puderam ser ouvidas, algo que não acontecia, em hipótese alguma, antigamente.</p><p>Passou-se a compreender mais sobre o pequeno ser e suas necessidades, e leis</p><p>foram criadas para que esse sujeito, entendido, agora, como frágil e vulnerável,</p><p>sobrevivesse de forma saudável, com toda a assistência necessária seja pelo estado,</p><p>seja por meio da família (BEZERRA LINS et al., 2014).</p><p>Ariès (2011) explica que as mudanças sobre a concepção familiar, desde a Era</p><p>Medieval até a família do século XVIII, chegando à Moderna, limitavam-se aos</p><p>burgueses, artesãos e lavradores, que eram abastados de dinheiro. A família deixaria</p><p>de ser algo público e se tornaria um laço entre pessoas que gostavam de permanecer</p><p>juntas, sob o mesmo lar. A preocupação que, antigamente, não existia, em relação</p><p>à criança, mudou na sociedade moderna. A família e o Estado passam a ter maior</p><p>preocupação com as questões educacionais, sendo que as ações, antes realizadas nas</p><p>sociedades antigas, tornaram-se repugnantes para essa “nova” sociedade. Na socieda-</p><p>de em que vivemos, educação e sociedade caminham em conjunto (ARIÈS, 2011).</p><p>Segundo Casarin e Ramos (2007), entende-se a família como base protetora,</p><p>e, para os casais que decidirem ter filhos, essa base precisa de maior solidifica-</p><p>ção, pois essa criança precisará de afeto, carinho, amor e usufruir de meios que</p><p>UNICESUMAR</p><p>111</p><p>garantam sua aprendizagem e seu amadurecimento saudável; então, a família é</p><p>base social para essa criança que cresce a cada dia.</p><p>Como já exposto anteriormente, o processo de hospitalização para a criança</p><p>poderá vir a ser uma experiência amedrontadora, devido à separação da família,</p><p>dos amigos, dos ambientes que estava acostumada a frequentar no seu cotidiano,</p><p>entre outros. Sendo assim, a família, juntamente com a escola, desempenha papel</p><p>estruturante no que diz respeito à formação de identidade pessoal e social dessa</p><p>criança, pois, dessa forma, ela resgatará um pouco da vivência anterior à doença</p><p>ou ao seu processo de internamento (HOLANDA; COLLET, 2012).</p><p>“</p><p>O paciente e seu familiar tendem a assumir uma postura passiva</p><p>diante dos profissionais da saúde e das situações que enfrentam</p><p>nesse contexto. Além disso, a internação quase sempre ocasiona</p><p>necessidade de construção de novas relações interpessoais entre</p><p>pacientes, familiares cuidadores e profissionais da saúde, no anda-</p><p>mento das atividades e no estar social, afetando o cotidiano e a sin-</p><p>gularidade de cada sujeito (GOMES et al., 2014, p. 235).</p><p>Essa passagem da criança e da família, que precisou se adequar à rotina quase</p><p>que mecanizada da instituição, com horários rígidos para higiene, alimentação e</p><p>visitação, não, necessariamente, precisa ser algo desfavorável; pelo contrário, se a</p><p>instituição hospitalar estiver disponível para tornar essa vivência mais agradável</p><p>e menos estressante, ela auxiliará, e muito, os envolvidos no processo multidis-</p><p>ciplinar em relação ao tratamento da criança e à dinâmica familiar (GOMES et</p><p>al., 2014). Segundo Gomes et al. (2014, p. 236):</p><p>“</p><p>As famílias vivenciam um bom tempo no hospital quando se sentem</p><p>potencializadas para desenvolver o cuidado à criança. Por isso, reconhe-</p><p>cem e valorizam o componente educativo do cuidado atribuído pela</p><p>equipe de saúde. Quando são instrumentalizadas e incentivadas pelos</p><p>profissionais da saúde, as famílias ocupam seu tempo adquirindo habili-</p><p>dades que lhes tornam capazes de cuidar melhor da criança. Sentem-se</p><p>estimuladas a cuidar, quando os profissionais da saúde</p><p>esclarecem suas</p><p>dúvidas em relação à doença da criança, bem como quando recebem</p><p>orientações que permitem aprimorar o cuidado prestado a elas.</p><p>UNIDADE 4</p><p>112</p><p>No que tange à escolarização hospitalar, esta não fugirá muito dessa lógica de</p><p>adaptações e readequações educacionais, pois, por mais que a criança esteja em</p><p>um período de internamento e, por muitas vezes, seja complicado pensar em levar</p><p>adiante sua escolarização, a família estará ali para apoiar e auxiliar essa criança</p><p>juntamente com a equipe psicopedagógica do hospital (HOLANDA; COLLET,</p><p>2012). Entende-se que é papel da família incluir a criança no ambiente escolar,</p><p>desde cedo, e oferecer também meios para que a criança possa desempenhar um</p><p>bom papel na escola, pois é a família que detém os cuidados da criança e é ela</p><p>que precisa, também, fazer parte do contexto escolar, para compreender como a</p><p>criança se desenvolve na escola (HOLANDA; COLLET, 2012).</p><p>A família, inicialmente, precisa compreender a importância da escola-</p><p>rização para a criança e motivá-la sempre, ou seja, deve entender que, por</p><p>mais que seja difícil ver a criança acamada, a escolarização é um processo</p><p>fundamental na vida dessa pessoa que estará obtendo conhecimento e se</p><p>transformando (HOLANDA; COLLET, 2012).</p><p>Figura 8 - Cuidados médicos com crianças e acompanhamento familiar</p><p>Descrição da Imagem: figura de uma criança sentada no colo da mãe, olhando e sorrindo para o médico.</p><p>UNICESUMAR</p><p>113</p><p>A criança, por vezes, poderá relatar que não quer estudar mais, que está</p><p>fadigada com as tarefas repassadas pelos profissionais e que não enxerga futuro</p><p>mais em estudar, já que esteve ausente na sala de aula. Todos esses sentimentos</p><p>precisam ser compreendidos e encaminhados aos profissionais, mas a família</p><p>não pode deixar se abater ou ceder a esses pensamentos negativos e intrusivos</p><p>(HOLANDA; COLLET, 2012). Em relação à saúde da criança e ao papel da</p><p>família, Winnicott (2005, p. 136) nos explica que: “Se aceitarmos como correta</p><p>a identificação entre saúde e maturidade relativa, devemos ter como certo que</p><p>o indivíduo só possa atingir sua maturidade emocional num contexto em que</p><p>a família proporcione um caminho de transição entre os cuidados dos pais (ou</p><p>da mãe) e a provisão social”.</p><p>Figura 9 - Ensino de procedimentos de saúde pelo psicopedagogo a pacientes internados</p><p>Descrição da Imagem: figura de um psicopedagogo ensinando sobre saúde a uma criança com auxílio de um</p><p>urso de pelúcia e seringa.</p><p>UNIDADE 4</p><p>114</p><p>É papel da família estar em comunicação direta com a escola e com o profissional</p><p>encarregado de auxiliá-la com a escolarização, pois, por mais que o psicopedago-</p><p>go esteja, ali, disponível para a criança, é a família que precisa apoiar e demons-</p><p>trar interesse com o aprendizado e a obtenção de conhecimento da criança e</p><p>do adolescente, bem como com a sua saúde física e mental. É na família que a</p><p>criança enxerga o potencial para continuar com os estudos mesmo diante de tal</p><p>dificuldade, pois, basicamente, neste momento, a criança se vê rodeada, apenas,</p><p>deles; então, o desânimo gerado, por não estar em uma sala de aula ou próximo</p><p>dos amigos e dos professores, é um corte abrupto, repentino e precisa ser suprido</p><p>pelos familiares (HOLANDA; COLLET, 2012).</p><p>Integração entre a psicopedagogia, hospital, escola</p><p>e família</p><p>Essa é uma integração de extrema importância para a criança ou adolescente</p><p>que se encontra hospitalizado; dessa forma, retomamos, então, a necessidade de</p><p>comunicação entre essas áreas do saber, pois elas definirão o rumo do processo</p><p>da criança ou do adolescente. É importante ressaltar que cabe à equipe médica</p><p>reportar aos familiares e à equipe pedagógica sobre as condições do indivíduo</p><p>em dar ou não continuidade aos estudos, e é ela quem dará suporte máximo para</p><p>que o aluno dê continuidade à escolarização, mesmo hospitalizado.</p><p>A escola, por sua vez, deve interagir com a equipe pedagógica e com a família</p><p>para repassar informações sobre atividades escolares, e cabe ao psicopedagogo</p><p>acompanhar esse aluno no hospital e, mesmo após a alta, compreender sua si-</p><p>tuação após o processo de internamento, por exemplo: como está lidando com</p><p>esse “novo” modo de estudar, se está conseguindo acompanhar o ritmo da classe</p><p>escolar, se seu rendimento é satisfatório etc. (NASCIMENTO, 2004).</p><p>Segundo Smerdel e Murgo (2018), o trabalho desempenhado precisa ser de</p><p>ordem multidisciplinar, pois o psicopedagogo atuará juntamente com a classe hos-</p><p>pitalar para um bem comum, que será a saúde do indivíduo que se encontra hospi-</p><p>talizado. A equipe hospitalar estará centrada nas demandas da pessoa, enquanto o</p><p>psicopedagogo estará integrado à equipe, buscando qualidade de vida para o sujeito.</p><p>A família auxiliará tornando esse período de internação hospitalar mais “leve”,</p><p>se possível, oferecendo amor, carinho e cuidados que a criança ou adolescente</p><p>UNICESUMAR</p><p>115</p><p>necessita e, não menos importante, auxiliando a classe hospitalar com as infor-</p><p>mações necessárias sobre a classe escolar do paciente. É toda essa manobra ou</p><p>esforço em conjunto que fará com que o hospitalizado retome a sua qualidade</p><p>de vida o mais rápido possível e, consequentemente, retorne para casa ou para a</p><p>classe escolar, dependendo do diagnóstico do caso (SMERDEL; MURGO, 2018).</p><p>Cabe à instituição hospitalar facilitar o trabalho do profissional que atuará</p><p>juntamente com as crianças hospitalizadas, repassar informações sobre prognós-</p><p>ticos, situação da saúde da criança e se essa criança ou adolescente conseguirá</p><p>realizar as atividades propostas pela classe hospitalar, pois o psicopedagogo de-</p><p>pende dessa interação da equipe de saúde para realizar seu trabalho de forma</p><p>que o hospitalizado seja o maior beneficiado desse processo (NASCIMENTO,</p><p>2007). Nascimento (2007, p. 24) esclarece, ainda, que</p><p>“</p><p>[...] o auxílio multiprofissional torna-se de grande valor, principal-</p><p>mente porque pode contribuir com o trabalho médico-terapêutico,</p><p>auxiliando nas questões de adesão do paciente ao tratamento, bem</p><p>como no estabelecimento de contatos do mesmo com o ambiente</p><p>hospitalar, na medida em que pode tornar mais íntegra a interação</p><p>entre ambas as partes (profissionais e pacientes), via construção de</p><p>conhecimentos novos e necessários ao entendimento dessa situação.</p><p>Segundo Azevedo, Palladino e Freire (2019, p. 627):</p><p>“</p><p>O psicopedagogo, sendo parte de apoio da equipe multidisciplinar</p><p>pode contribuir para uma adequação das interações existentes entre</p><p>a equipe multidisciplinar e os pacientes, para o fortalecimento dos</p><p>vínculos afetivos, quando estes estiverem fragilizados, contribuindo</p><p>para a prevenção de problemas futuros de aprendizagem.</p><p>O psicopedagogo deverá entrar em contato com a escola, fomentando o vínculo</p><p>hospital-escola para obter conhecimento sobre o desempenho do indivíduo; e</p><p>é papel da escola fornecer todo o material necessário para os profissionais que</p><p>estarão acompanhando o aluno hospitalizado e repassar a eles o conteúdo que</p><p>a classe escolar está aprendendo, para que os profissionais da classe hospitalar</p><p>o administrem de acordo com cada caso (NASCIMENTO, 2004). E, com o re-</p><p>UNIDADE 4</p><p>116</p><p>torno desse aluno à sala de aula, o trabalho de investigação e de análises sobre</p><p>o desempenho dele continua, pois é preciso verificar o ritmo de aprendizagem</p><p>do aluno e de experiências de escolarização dado o período de internação dele</p><p>(AZEVEDO; PALLADINO; FREIRE, 2019).</p><p>Após um longo período de estudos e compreensão de como se dá a atuação</p><p>do psicopedagogo no contexto hospitalar, compreendendo diferentes formas de</p><p>intervenção e, também, como integralizar o trabalho do psicopedagogo com a</p><p>equipe médica, família, escola e paciente, precisamos praticar nosso conhecimen-</p><p>to. Considerando a importância da comunicação entre hospital e escola, elabore</p><p>uma lista de orientações que poderiam ser repassadas para a escola no caso de</p><p>um adolescente afastado por 45 dias por tentativa de suicídio.</p><p>117</p><p>AGORA É COM VOCÊ</p><p>Com base nos conhecimentos adquiridos nesta unidade, elabore um mapa mental que</p><p>sintetize o papel da escola e da família com relação à escolarização da criança ou ado-</p><p>lescente hospitalizado.</p><p>118</p><p>CONFIRA SUAS RESPOSTAS</p><p>O mapa mental precisa conter, como papel da escola: contato com a família, contato com a</p><p>equipe do hospital, disponibilização de atividades flexibilizadas para o estudante, respeito</p><p>às orientações da equipe médica, preparo da turma e orientação dos professores para o</p><p>acolhimento do aluno no seu retorno e flexibilização de atividades avaliativas, conforme</p><p>orientação médica.</p><p>Papel da família: facilitar o contato entre escola e hospital, auxiliar a criança ou adolescente</p><p>na realização das atividades propostas, incentivar a continuidade dos estudos e monitorar</p><p>a criança ou adolescente na realização das atividades, para que estas não prejudiquem o</p><p>quadro de saúde ou estado emocional do estudante.</p><p>MEU ESPAÇO</p><p>MEU ESPAÇO</p><p>UNIDADE 5</p><p>124</p><p>Para construir e aplicar com eficiência um Projeto Político-Pedagógico em um</p><p>contexto hospitalar, é preciso compreender sua construção em um contexto escolar</p><p>do cotidiano de um pedagogo professor. Nogueira (2009, p. 17) nos traz que,</p><p>“</p><p>[...] quando falamos do Projeto Político-Pedagógico (PPP), não</p><p>podemos perder de vista o enfoque educacional, as bases con-</p><p>ceituais e os princípios epistemológicos, porém nada impede que</p><p>possamos “beber em outras fontes” e que, além dos conceitos pe-</p><p>dagógicos que já conhecemos e adotamos, possamos buscar em</p><p>outras áreas as ferramentas estratégicas para dar mais praticidade</p><p>à elaboração desse documento.</p><p>Nogueira (2009), ainda, diz que, mesmo com tanto planejamento, os profissio-</p><p>nais envolvidos sempre ficam com um sentimento de que estão cumprindo uma</p><p>parte burocrática do trabalho pedagógico, o qual será um documento que fica-</p><p>rá engavetado, sem execução de fato. Todo início de ano, a equipe pedagógica</p><p>se reúne para elaborar o temido PPP e permanece com essa percepção de ser,</p><p>apenas, uma questão burocrática. Isso ocorre porque nem sempre a equipe está</p><p>totalmente consciente da importância do planejamento escolar na elaboração do</p><p>PPP. Planejar permite uma melhor programação do conteúdo, forma de aplicação,</p><p>didática, ensino, resultados esperados, entre outros elementos. O autor, ainda,</p><p>ressalta algumas formas de planejamento:</p><p>■ Planejamento participativo: neste modelo, a proposta é integralizar</p><p>todos os envolvidos na educação, como professores, alunos, pais de alunos,</p><p>coordenação gestão escolar, comunidade e todos os demais envolvidos na</p><p>escola. Com esse modelo de planejamento, é possível que cada membro</p><p>da escola possa apresentar o problema e intervir para que essa demanda</p><p>seja atendida, de alguma maneira, pela escola. Por exemplo: no último</p><p>ano, houve muitos problemas relacionados ao bullying com meninas por</p><p>parte dos meninos; então, com os pais apresentando tal demanda e pen-</p><p>sando em possibilidades de resolução junto à equipe escolar, é possível</p><p>chegar a formas de enfrentamento do problema. Isso vale para todo tipo</p><p>de demanda (NOGUEIRA, 2009).</p><p>UNICESUMAR</p><p>125</p><p>Relato de experiência prática</p><p>Vamos ouvir agora um relato de experiência prática. Nossa</p><p>conversa será com a professora Jane Biscaia Hartmann,</p><p>psicóloga no serviço público do HUM-UEM-Maringá, de 1984 a</p><p>2017, onde coordenava e supervisionava projeto de extensão</p><p>com equipe de acadêmicos e com ampla produção científica.</p><p>■ Planejamento estratégico: consiste em direcionar a organização da es-</p><p>cola a algum objetivo ou rumo específico.</p><p>“</p><p>O planejamento estratégico de uma instituição é normalmente</p><p>constituído de análise do ambiente e do contexto em que a insti-</p><p>tuição está inserida; definição de visão, missão e valores; estabele-</p><p>cimento dos objetivos e metas; elaboração de Planos de ação para</p><p>atingir as metas e os objetivos, indicador de desempenho, avaliação</p><p>e revisão constante (NOGUEIRA, 2009, p. 18).</p><p>Como se pode perceber é mais complexo realizar e pensar em tantos elemen-</p><p>tos que são organizacionais e ambientais (não somente em relação à educação)</p><p>do que pensar no ensino que conjectura outros dois elementos: o ambiente e a</p><p>organização. Esse modelo de planejamento pode ser muito bem aproveitado no</p><p>ambiente hospitalar, visto que, neste, não está envolvido, somente, o elemento</p><p>ensino, mas toda a organização do ambiente e da instituição hospitalar, para que</p><p>o aluno hospitalizado seja atendido de forma eficaz.</p><p>A figura, a seguir, descreve pontualmente como o Projeto Político-Pedagógico é</p><p>feito por meio do planejamento estratégico:</p><p>UNIDADE 5</p><p>126</p><p>Descrição da Imagem: a figura mostra três quadrados, contendo o passo a passo de como estruturar o</p><p>Projeto Político-Pedagógico. No primeiro quadrado, há o seguinte texto: onde estamos? Análise do contex-</p><p>to e do ambiente para planejamento futuro. No segundo: onde queremos chegar? Objetivos apresentados</p><p>por todos para o próximo ano. E, no terceiro e último quadrado, está escrito: como fazer para chegar lá?</p><p>Estratégias necessárias para alcançar os objetivos colocados..</p><p>Figura 1 - Passo a passo da estruturação de um PPP / Fonte: o autor.</p><p>Na efetiva educação no ambiente escolar, para se ter sucesso, é preciso ter um bom</p><p>planejamento em que exista a participação de diferentes membros envolvidos na</p><p>escola. No contexto hospitalar, o mesmo acontece, ou seja, é necessário um bom</p><p>planejamento, considerando as particularidades do hospital e levando em conta,</p><p>conforme fora discutido anteriormente, aqui, em nossas discussões: o estado da</p><p>doença, a turma multisseriada, o tempo curto para fechamento dos conteúdos</p><p>ensinados, a adaptação do ambiente, os recursos, como materiais escolares e brin-</p><p>quedoteca, entre outros elementos.</p><p>Pensar em um PPP no contexto hospitalar é muito mais trabalhoso do que</p><p>no escolar, pois, apesar de ser um número menor de alunos, trata-se de um PPP</p><p>específico para cada situação que pode se alterar com o tempo e variar de aluno</p><p>para aluno. Como sabemos, o projeto sempre deve ser construído levando em</p><p>conta que o conteúdo ensinado deve ser iniciado e terminado, ainda, no hospi-</p><p>tal, ou seja, não se deve promover o ensino a longo prazo, pois a rotatividade de</p><p>alunos em estado de internação é muito volátil.</p><p>Ceccim (2010) ressalta a importância da formação docente no contexto hos-</p><p>pitalar. O professor pedagogo é muito bem preparado para atuar em sala de aula,</p><p>na coordenação, na avaliação de estudo e na aplicação de políticas públicas, mas</p><p>carece de uma integralização do saber pedagógico com o tratamento integral</p><p>necessário no ambiente hospitalar, incluindo a educação.</p><p>Onde estamos?</p><p>Análise do contexto</p><p>e do ambiente para</p><p>planejamento</p><p>futuro.</p><p>Objetivos</p><p>apresentado</p><p>por todos para</p><p>o próximo ano.</p><p>Estratégias</p><p>necessárias para</p><p>alcançar os objetivos</p><p>colocados.</p><p>Onde queremos</p><p>chegar?</p><p>Como fazer</p><p>para chegar lá?</p><p>UNICESUMAR</p><p>127</p><p>“A escuta psicopedagógica da criança hospitalizada fundamenta-se na concepção de uma</p><p>educação no seu sentido mais amplo, no qual educar é considerado um processo global que</p><p>ocorre em qualquer espaço físico, envolvendo diferentes atores, empenhando-se em con-</p><p>verter a dor e a hospitalização em potencializadores das múltiplas formas de aprendizagem”.</p><p>(Bianca Acampora)</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>“</p><p>O reconhecimento de que todas as crianças apresentam necessida-</p><p>des educacionais próprias ao seu desenvolvimento integral implica</p><p>o reconhecimento de que um projeto terapêutico às crianças hospi-</p><p>talizadas inclui o atendimento pedagógico no ambiente hospitalar</p><p>durante sua internação para tratamento de saúde. As “necessidades</p><p>educacionais” se traduzem em desenvolvimento psíquico e desen-</p><p>volvimento cognitivo da criança, assim o atendimento pedagógico</p><p>realizado no ambiente hospitalar é aquele que opera com os proces-</p><p>sos intelectivos (aprendizagens complexas) e os processos afetivos</p><p>(vivências de interação)</p><p>que não só não se interrompem frente ao</p><p>adoecimento e à hospitalização, como ganham os contornos pró-</p><p>prios dessa experiência (CECCIM, 2010, p. 33-34).</p><p>Perceba o desafio de se pensar em um projeto político-pedagógico no hospital.</p><p>Quando o autor se refere às necessidades educacionais próprias, faz alusão não,</p><p>somente, à subjetividade da forma de aprendizagem do aluno, mas também à</p><p>situação específica que se encontra o aluno hospitalizado. Fontes (2005) e Ceccim</p><p>(2010) orientam que muito do tratamento ofertado pelo hospital está focado, ma-</p><p>joritariamente, às necessidades médicas e da enfermagem, as quais se referem ao</p><p>tratamento e ao cuidado do paciente pediátrico hospitalizado. Porém a proposta</p><p>da pedagogia hospitalar se refere a uma atenção integral à saúde, que diz respeito</p><p>ao cuidado emocional, cognitivo e psicológico.</p><p>O trabalho do pedagogo pode ser visto, muitas vezes, como assistencialista,</p><p>mas tem sua função de ensino também. O trabalho em proteção emocional pode</p><p>ser feito, também, pelo pedagogo de forma recreacional e de envolvimento do</p><p>paciente pediátrico nas relações e na aprendizagem sobre a doença e sobre o trata-</p><p>mento. Ceccim (2010, p. 34) traz uma grande crítica quanto ao cuidado cognitivo,</p><p>ao dizer que a “proteção ao desenvolvimento cognitivo tem sido postergada na</p><p>UNIDADE 5</p><p>128</p><p>maioria das vezes, mas a proposta de classes educacionais em ambiente hospitalar</p><p>viria preencher essa lacuna”.</p><p>O ensino em hospital, às vezes, é visto como algo que pode ser adiado, porém,</p><p>em um atendimento integral à saúde da criança, o valor educacional não pode ser</p><p>desconsiderado. Ele possui sua relevância e deve ser prontamente atendido. Na</p><p>construção de um PPP no contexto hospitalar, a postura e a formação de docentes</p><p>voltados a essa área são necessárias, pois como um profissional poderá elaborar</p><p>um bom PPP neste contexto sem a devida formação para isso? Pensando nos</p><p>diferentes e importantes pontos a serem considerados no PPP focado no contexto</p><p>hospitalar, elencamos alguns pontos a serem considerados na construção de um</p><p>PPP no contexto hospitalar:</p><p>■ Qual ambiente será destinado aos estudos?</p><p>■ Quais conteúdos a serem ministrados em função do tempo e das capaci-</p><p>dades do aluno em detrimento da doença?</p><p>■ Considerar, em reunião com coordenação da escola, a evolução do aluno</p><p>na escola que advém.</p><p>■ Considerar as dificuldades de aprendizagem do aluno em reunião</p><p>com familiares.</p><p>■ Considerar as orientações médicas e os cuidados da enfermagem na di-</p><p>nâmica do tratamento e da medicação que é administrada.</p><p>■ Quais os objetivos da aprendizagem neste momento?</p><p>■ Quais recursos serão utilizados e quais estão disponíveis para os objetivos?</p><p>■ Qual metodologia e didática a serem utilizadas para potencializar o ensino</p><p>e a aprendizagem deste aluno em detrimento da doença e da situação de</p><p>hospitalização?</p><p>■ Promover a humanização e a sensibilização do ensino no ambiente hospitalar.</p><p>■ Desenvolver a escuta pedagógica como forma de humanização do ensino.</p><p>■ Estabelecer uma forma de avaliação da aprendizagem, considerando a</p><p>doença e o tratamento estabelecido pela equipe médica.</p><p>Não distante da nossa discussão sobre o PPP no hospital, devemos falar da for-</p><p>mação do professor que trabalha nesse ramo. Ceccim (2010), Barros (2007),</p><p>Ceccim e Carvalho (1997) e Fonseca (2003) apontam sobre como é importante</p><p>estabelecer pontos de habilidades e competências profissionais com o intuito de</p><p>UNICESUMAR</p><p>129</p><p>proporcionar uma formação completa e baseada em parâmetros metodológi-</p><p>cos confiáveis para proporcionar um bom desenvolvimento de uma pedagogia</p><p>hospitalar de excelência. Para tanto, carecemos de uma leitura na íntegra de um</p><p>excerto do material elaborado por Barros (2007) que exemplifica muito bem</p><p>quais são as habilidades e as competências que o profissional pedagogo hospitalar</p><p>necessita pensar quando está trabalhando em sua área de atuação. Nas elencações</p><p>da autora, ela aponta que o profissional carece de ter a</p><p>“</p><p>[...] capacidade do professor de se adaptar à demanda de uma nova</p><p>classe hospitalar e justificá-la a partir da apreciação de variáveis como:</p><p>a freqüência de crianças e adolescentes internados; faixa etária e tempo</p><p>médio de permanência; avaliação das estruturas física e de atendi-</p><p>mento do hospital, presença de área disponível para a realização das</p><p>atividades lúdicas, pedagógicas, recreativas; densidade de leitos na</p><p>enfermaria pediátrica e dinâmica da utilização do espaço; rotinas de</p><p>cuidados e atenção destinados às crianças em tratamento, bem como</p><p>agenda de horários a estas atividades relacionados; avaliação do perfil</p><p>epidemiológico da clientela atendida (quanto ao tipo de debilidades</p><p>clínicas e limitações implicadas pelas doenças sofridas pelos jovens pa-</p><p>cientes e quanto à recorrência das internações); levantamento do perfil</p><p>sócio-educacional da clientela atendida: procedência do domicílio da</p><p>criança, renda familiar e escolaridade dos pais, referência a abandono,</p><p>repetência ou exclusão escolar sofridas pela criança anteriormente à</p><p>instalação da morbidade [...] (BARROS, 2007, p. 265-266).</p><p>Percebemos que, logo no primeiro apontamento da autora, discute-se toda a</p><p>parte ambiental e o planejamento de todo o trabalho a ser realizado no hospital.</p><p>Leva-se em conta o hospital, o ambiente, a doença, as capacidades da criança</p><p>em detrimento da doença, a forma e a postura profissional adotada diante das</p><p>limitações da doença bem como a importância da anamnese inicial. Pensemos:</p><p>como poderia um professor, em dadas circunstâncias, elaborar um bom plane-</p><p>jamento sem as devidas informações necessárias que são obtidas em discussão</p><p>com escola, família, equipe médica e criança? Perceba que, sem essas informações,</p><p>desenvolver um trabalho sem o planejamento e o PPP estabelecidos fica inviável.</p><p>Barros (2007), ainda, traz que, na classe hospitalar, o profissional deve ter a</p><p>UNIDADE 5</p><p>130</p><p>“</p><p>[...] capacidade de, quando implantar uma nova classe hospitalar,</p><p>apreciar a existência de outras medidas humanizadoras (como pre-</p><p>sença de brinquedoteca, atuação periódica de recreadores voluntá-</p><p>rios e presença dos pais como acompanhantes integrais à interna-</p><p>ção) e integrá-las às atividades correntes de uma classe hospitalar</p><p>(BARROS, 2007, p. 266).</p><p>Aqui, a autora coloca a importância de estabelecer a humanização, assunto am-</p><p>plamente discutido em nossos conteúdos. Além disso, aponta que as estratégias</p><p>podem ser variadas. A brinquedoteca é uma ótima aliada às práticas psicopeda-</p><p>gógicas dentro do hospital, porém não é limitada somente a este. A integralização</p><p>com familiares e equipe hospitalar se mostra eficaz, pois ajuda na assimilação da</p><p>dor e do sofrimento contidos nesses espaços (SILVA et al., 2020). Para comple-</p><p>mentar, a autora traz um elemento prático que auxilia muito na harmonia do</p><p>ensino no contexto hospitalar, que é a prática de atores clown. A autora aponta</p><p>que o profissional envolvido com classe hospitalar necessita ter a</p><p>“</p><p>[...] capacidade de, quando na presença, por exemplo, de profissio-</p><p>nais do tipo atores clown, sugerir modos criativos e funcionais de</p><p>explorarem os espaços e as rotinas hospitalares, de modo que esses</p><p>possam compor harmonicamente os momentos de expressão dra-</p><p>mática requeridos em dinâmicas de teatro (BARROS, 2007, p. 266).</p><p>Bergerson (1983) e Lima (2009) colaboram com o excerto de Barros (2007) e</p><p>apontam a importância do tratamento e do atendimento dessa modalidade de</p><p>prática, no ambiente hospitalar, como forma de obtenção de resultados mais har-</p><p>mônicos. Lima (2009) fala do clown como uma dramatização terapêutica em que</p><p>o sujeito hospitalizado pode lidar melhor com a dor e o sofrimento no hospital</p><p>em momento de longa internação. Catapan, Oliveira e Rotta (2019) trazem outro</p><p>termo, a palhaçoterapia, mas afirmam que se trata da chamada terapia de riso,</p><p>onde os “uniformes brancos ganham um colorido, o silêncio dá lugar ao riso,</p><p>às</p><p>histórias e à música. E o medo do desconhecido é aliviado pelo inusitado” (CA-</p><p>TAPAN; OLIVEIRA; ROTTA, 2019, p. 3426).</p><p>Vejamos a importância de incluir essa prática no tratamento para viabilizar</p><p>um atendimento em ensino mais humanizado. Porém, para tanto, é preciso es-</p><p>tabelecer isso em um planejamento do PPP hospitalar. Sem incluir as datas, os</p><p>UNICESUMAR</p><p>131</p><p>Descrição da Imagem: imagem de uma criança, na cama de hospital, olhando para um palhaço segurando</p><p>um urso com estetoscópio no coração do urso.</p><p>Figura 2 - Prática de clown, no ambiente hospitalar, como auxiliar no processo de ensino</p><p>e aprendizagem em classe hospitalar</p><p>horários e a forma como isso será desenvolvido, torna-se difícil existir eficácia</p><p>no ensino da classe hospitalar e conciliar as diferentes conexões que necessitam</p><p>nessa prática, por exemplo, companhia de teatro, equipe médica preparada para</p><p>recebê-los, ambiente apropriado etc.</p><p>Vale ressaltar que a minimização da dor, no hospital, parece ser uma prática</p><p>muito mais voltada à psicologia do que à psicopedagogia, porém, realizando essa</p><p>prática de minimização da dor por meio de teatralização, é possível obter gran-</p><p>des ganhos no ensino em classe hospitalar, pois, com isso, a criança estará muito</p><p>mais preparada para receber o ensino devido à redução da dor e do sofrimento</p><p>causados pela doença, hospitalização e mudança social.</p><p>Barros (2007) nos fala que é importante incluir essa prática fundamentada em</p><p>uma preocupação com o processo de hospitalização. O profissional da classe hos-</p><p>pitalar deve ter a “capacidade de, quando da ocorrência desses momentos, adaptar</p><p>flexivelmente as atividades de ensino e aprendizagem das crianças e adolescentes</p><p>UNIDADE 5</p><p>132</p><p>Descrição da Imagem: imagem de uma criança manuseando um brinquedo educativo matemático adap-</p><p>tado com papelão, tampinhas de garrafa e massinha de modelar.</p><p>Figura 3 - Brinquedo educativo matemático adaptado com materiais que podem</p><p>ser utilizados pela própria criança na criação do brinquedo.</p><p>hospitalizados ou aquelas atividades terapêuticas destinadas a colaborarem no</p><p>enfrentamento psíquico da hospitalização” (BARROS, 2007, p. 266).</p><p>A referida autora nos diz ainda que, quando se minimiza a dor e o sofrimen-</p><p>to, obtém-se ganhos educacionais. Sem isso, a educação, o processo de ensino</p><p>aprendizagem e todo planejamento realizado no PPP hospitalar fica comprome-</p><p>tido. Como já vimos anteriormente, o psicopedagogo participa de uma equipe</p><p>multidisciplinar e multiprofissional no ambiente hospitalar. Quando perceber a</p><p>existência de fatores emocionais, deve discutir o caso com profissionais habilita-</p><p>dos a lidar com isso, por exemplo, o psicólogo. Incluir isso no PPP, também, faz</p><p>parte de uma postura profissional que pode proporcionar ganhos educacionais</p><p>relevantes à criança hospitalizada.</p><p>Barros (2007, p. 266) afirma que faz parte da prática do profissional da classe</p><p>hospitalar ter a “capacidade de propor maneiras e materiais alternativos na con-</p><p>fecção de jogos e brinquedos”. É preciso sempre pensar em formas alternativas</p><p>para problemas diversos. O princípio para a boa atuação profissional é que se faz</p><p>educação em qualquer espaço, mesmo em um contexto que não é o próprio da</p><p>educação. Isso inclui tanto materiais educativos quanto formas de abordagem</p><p>diversas junto à criança hospitalizada.</p><p>UNICESUMAR</p><p>133</p><p>A autora continua e finaliza seus apontamentos sobre o profissional da classe</p><p>hospitalar trazendo o discurso de que o esse profissional necessita ter a</p><p>“</p><p>[...] capacidade de sugerir modos mais apropriados de diagnosticar</p><p>as demandas de acompanhamento escolar do paciente, modos que</p><p>o contemple na integralidade de sua condição humana e indisso-</p><p>ciabilidade de suas necessidades – física, psíquica, social, de gênero,</p><p>e de outras variáveis (BARROS, 2007, p. 265-266).</p><p>Vemos, aqui, que a humanização deve ser integral, considerando todos os pontos</p><p>de necessidade do ser humano, e deve ter uma visão ampliada do ser como sujeito</p><p>constituído, indivíduo biológico, psicológico e social. Além disso, é necessário que</p><p>a humanização tenha a visão biopsicossocial sobre a pessoa humana que está em</p><p>um momento de hospitalização e precisa ter seus direitos assegurados (BOCK,</p><p>2018; ANGERAMI-CAMON, 2010). Tendo essas diretrizes sobre o indivíduo</p><p>criança em um momento de hospitalização, podemos ampliar nossos modos de</p><p>aplicação da educação em um ambiente tão diferente da escola. Para fortalecer</p><p>essa percepção, discutiremos mais sobre os métodos e as técnicas que podem ser</p><p>utilizados na gestão da educação hospitalar.</p><p>Métodos e técnicas de gestão de projetos na área</p><p>hospitalar para a aprendizagem</p><p>Borba e Kliemann Neto (2008) ressaltam que, ao longo do tempo, a gestão que</p><p>lidava com as questões sanitárias ou hospitalares foi abandonando a ideia de que</p><p>era um gasto desnecessário e passou a idealizar e a projetar práticas que visavam</p><p>melhorias para os agentes e usuários envolvidos com esse processo, e esse novo</p><p>olhar preconizou tomadas de estratégias mais funcionais para a organização desse</p><p>sistema. Com isso, foi dado maior enfoque à questão da pesquisa, da aprendiza-</p><p>gem ou da obtenção de conhecimento, visando novas formas de gestão. Borba e</p><p>Kliemann Neto (2008, p. 55) descrevem que</p><p>“</p><p>[...] essa preocupação é reforçada pela importância dada à sistema-</p><p>tização de pesquisas e procedimentos, pelo foco em discussões cole-</p><p>UNIDADE 5</p><p>134</p><p>tivas para a elaboração de novas formas de gestão e ação. Percebe-se</p><p>nesse processo a necessidade de uma mudança comportamental nas</p><p>práticas de saúde, buscando o conhecimento coletivo e uma ênfase</p><p>na explicitação dos conhecimentos para a organização.</p><p>Segundo Pereira e Pereira (2015), a partir dos anos 80 e 90, os usuários do sistema</p><p>de saúde passaram a procurar não, apenas, tratamento para a cura da doença em</p><p>si, mas um atendimento com equidade e qualidade no intuito de satisfazer suas</p><p>necessidades, mesmo numa época onde a saúde, no país, mostrava-se fragilizada</p><p>e longe da aplicabilidade, ou seja, mesmo sendo um planejamento perfeito no</p><p>papel. Na visão dos autores, “a gestão de qualidade tem como princípio a filosofia</p><p>orientada para a satisfação do usuário, na busca de motivação, no envolvimento</p><p>dos profissionais e de todos os colaboradores e na integração e interação nos</p><p>processos de trabalho” (PEREIRA; PEREIRA, 2015, p. 112).</p><p>França (2018) explica que, ao longo do tempo, com pesquisas, foi possível</p><p>verificar que as dificuldades observadas nos indivíduos advinham das diversas</p><p>instituições em que estavam inseridos, sendo a instituição familiar, escolar, hos-</p><p>pitalar, entre outras. O autor escreve também que o psicopedagogo inserido nas</p><p>instituições, e especificaremos, aqui, a instituição hospitalar, pode e deve utilizar</p><p>os pressupostos teóricos, práticos e metodológicos, pois, por mais que não esteja</p><p>atuando na clínica ou nas outras instituições citadas, o propósito do seu trabalho</p><p>é atender e auxiliar os grupos e as comunidades.</p><p>Segundo Matos e Mugiatti (2009), a prática pedagógica parecerá complexa e</p><p>desafiadora, porém não há motivos para não ser realizada de forma satisfatória;</p><p>e, nestes desafios, pode-se encontrar maneiras diferenciadas de atuação, sendo</p><p>preciso abstrair os conceitos de atuação profissional, pois o ambiente exige uma</p><p>postura do profissional além daquela que seria exercida em uma classe escolar,</p><p>por exemplo. O psicopedagogo inserido, neste espaço, precisa ter a visão de um</p><p>todo do indivíduo muito bem definida, para que a sua atuação e os processos</p><p>relacionados à aprendizagem de crianças e adolescentes sejam bem-sucedidos,</p><p>e seu olhar deve estar para além da educação, ou seja, deve contemplar, também,</p><p>a saúde dos hospitalizados. Paín (1986 apud BOSSA, 2007, p.106) escreve que</p><p>“</p><p>[...] o profissional, para cumprir os objetivos e garantir o enquadre</p><p>no trabalho psicopedagógico, deve adotar certas técnicas. São elas:</p><p>UNICESUMAR</p><p>135</p><p>organização prévia da tarefa; graduação nas dificuldades das tarefas;</p><p>auto avaliação de cada tarefa a partir de determinada finalidade; his-</p><p>toricidade do processo, de forma que o paciente possa reconhecer sua</p><p>trajetória no tratamento; informações a serem oferecidas ao sujeito</p><p>pelo psicopedagogo, num nível em que possa integrá-las ao seu reper-</p><p>tório intelectual e construir o mundo que habita; por fim, a autora fala</p><p>da indicação como mais uma técnica no tratamento psicopedagógico.</p><p>O que a autora traz à luz é que, de modo geral, faz-se necessário que o profissio-</p><p>nal de psicopedagogia esteja sempre atualizado e preparado tecnicamente para</p><p>que sua atuação se dê de forma satisfatória e que, assim, o processo seja mais</p><p>completo e agradável para o indivíduo. O processo de aprendizagem deve estar</p><p>em consonância com aspectos inter/intra e transdisciplinares, pois essa será a</p><p>realidade de atuação profissional em que estará inserido. É preciso pensar nos</p><p>aspectos biopsicossociais desse indivíduo e, a partir desse ideal coerente de indi-</p><p>víduo, planejar projetos que atendam cada um, de acordo com suas necessidades</p><p>(MATOS; MUGIATTI, 2009). Os referidos autores revelam que:</p><p>“</p><p>[...] a assistência pedagógica, na hospitalização, sugere uma ação</p><p>educativa que se adapta às manifestações de cada criança/adoles-</p><p>cente, em diferentes circunstâncias, nos enfoques didáticos, meto-</p><p>dológicos, lúdicos e pessoais. Nesse sentido, ela apresenta, em todos</p><p>os momentos, um alto grau de flexibilidade e adaptabilidade às es-</p><p>truturas (MATOS; MUGIATTI, 2009, p. 101).</p><p>Os métodos a serem utilizados para melhoria na aprendizagem dos indivíduos</p><p>hospitalizados devem, sim, permear as dificuldades relacionadas à escolarização,</p><p>mas também realizar intervenções lúdicas, pois dessa forma o profissional con-</p><p>seguirá integrar a criança e o adolescente à classe hospitalar.</p><p>O profissional precisa entender também que seu papel é de caráter preventivo</p><p>e que seus projetos precisam estar em consonância com o hospitalizado, com a</p><p>família e com a equipe médica. Além disso, é essencial que ele entenda que seu</p><p>principal papel é proporcionar qualidade de vida para os envolvidos neste processo</p><p>de hospitalização, ou seja, seu método de trabalho deve se apresentar de forma multi</p><p>e interdisciplinar, e não há questionamentos em relação a isso. Caso o profissional</p><p>encarregado de atuar na área hospitalar se abstenha desse ideal de trabalho realiza-</p><p>UNIDADE 5</p><p>136</p><p>do na área da saúde, não conseguirá apresentar ou demonstrar motivos para estar</p><p>inserido nesse contexto, então, é preciso enfatizar que, para legitimar sua atuação</p><p>nessa área, o profissional precisa estar em constante aprimoramento por se tratar</p><p>de um conhecimento específico (AZEVEDO; PALLADINO; FREIRE, 2019).</p><p>Segundo Azevedo, Palladino e Freire (2019), o método utilizado na classe</p><p>hospitalar, em relação à avaliação de desempenho do hospitalizado em idade</p><p>escolar, não divergirá muito do utilizado na classe escolar e ele deverá, sim, ser</p><p>levado em consideração, pois é dessa forma que o psicopedagogo poderá direcio-</p><p>nar a melhor técnica a ser utilizada com esses indivíduos, tanto individualmente</p><p>quanto em grupo. Dessa forma, os autores escrevem que “a avaliação no contex-</p><p>to hospitalar, é um processo compartilhado de coleta e análise de informação</p><p>acerca de vários elementos que intervêm no processo de ensino e aprendizagem,</p><p>visando oferecer suporte ao desenvolvimento psíquico, cognitivo e emocional”</p><p>(AZEVEDO; PALLADINO; FREIRE, 2019, p. 627).</p><p>Segundo Azevedo, Palladino e Freire (2019), os projetos ou a intervenção des-</p><p>se profissional devem levar em consideração aspectos psíquicos, sociais, motores,</p><p>cognitivos e afetivos da criança ou do adolescente hospitalizado. Pereira (2015)</p><p>complementa que, inicialmente, é preciso realizar todo um projeto de investiga-</p><p>ção sobre a criança ou adolescente com a família, com o hospitalizado e com a</p><p>escola. É preciso realizar anamnese, para compreender o caso, uma entrevista com</p><p>a mãe/pais e, a partir desse ponto, realizar os testes necessários para compreender</p><p>a dificuldade desse indivíduo. De acordo com Pereira (2015, p. 15):</p><p>“</p><p>Para dificuldades serem encontradas, geralmente é utilizada inicial-</p><p>mente uma entrevista com a mãe ou acompanhante, o exercício da es-</p><p>cuta, a observação, depois aplicação de testes operatórios e projetivos,</p><p>avaliando lateralidade, percepção, atenção, outros, EOCA (entrevista</p><p>operatória centrada na aprendizagem), TDE (teste de desempenho</p><p>escolar), desenho da família, desenho do seu próprio eu, atividades e</p><p>jogos como Jogo da memória, jogos de encaixe, brincadeira da cabra</p><p>cega, morto vivo, ciranda, leituras compartilhadas e tonalizadas, caça-</p><p>palavras, atividades de pintura, o uso de atividade com Mandalas.</p><p>A partir da perspectiva da referida autora, conseguimos esclarecer pontos va-</p><p>liosos que nortearão a atuação desse profissional, mas é preciso reforçar sempre</p><p>UNICESUMAR</p><p>137</p><p>que a intervenção deverá levar em consideração a saúde e a capacidade do hos-</p><p>pitalizado de realizar as atividades.</p><p>Pereira (2015) esclarece que é importante iniciar, com o hospitalizado, a en-</p><p>trevista operativa centrada na aprendizagem (EOCA), pois, assim, será possível</p><p>investigar a aprendizagem da criança e realizá-la com instrumentos escolares</p><p>simples, como uma folha em branco, lápis, tesoura sem ponta, revistas, giz de</p><p>cera, cola, caneta, jogos, entre outros. Além disso, por meio desse método, será</p><p>possível verificar os vínculos do sujeito com os objetos, e, por se tratar de objetos</p><p>escolares, suas defesas e condutas, o material, nesta entrevista investigativa, deverá</p><p>ser escolhido de acordo com a idade da criança.</p><p>Outro teste que poderá ser aplicado é o de desempenho escolar ou TDE. Com</p><p>este, o profissional poderá verificar a escrita, a aritmética e o nível de leitura do</p><p>sujeito, e, assim poderá identificar o nível de escolaridade e as dificuldades do</p><p>hospitalizado. Além de, claro, poder realizar projetos de avaliação mais abertos,</p><p>como brincadeiras lúdicas (PEREIRA, 2015).</p><p>Aplicação da Política Nacional de Humanização nos</p><p>projetos psicopedagógicos em ambiente hospitalar</p><p>Para adentrar nesse assunto, precisaremos, aqui, explicar sobre humanização,</p><p>sobre seu funcionamento na área da saúde e sua importância para o mundo.</p><p>Ferreira (2009) explica que humanizar significa tornar humano, dar condição</p><p>humana; e, partir desse entendimento, podemos compreender o motivo de uti-</p><p>lizar esse comportamento na área da saúde. Segundo Goulart e Chiari (2010), a</p><p>discussão sobre essa temática vem sendo abordada ao longo de décadas, tornando</p><p>possível, dessa forma, enxergar o ser humano em sua essência para além da sua</p><p>doença e da necessidade financeira, física ou mental. Humanizar é cuidar do</p><p>indivíduo em sua totalidade e integralidade.</p><p>A Política Nacional de Humanização (PNH) foi formulada, no Brasil, em</p><p>2003, com intuito de aplicar os serviços do Sistema Único de Saúde (SUS), provo-</p><p>cando mudanças no modo de gerir e cuidar. A PNH permitiu que a comunicação</p><p>entre os envolvidos nos processos relacionados à saúde no país acontecesse, de</p><p>forma ampla, para viabilizar saúde com qualidade e equidade para aqueles que</p><p>necessitam de atendimento médico (BRASIL, 2013).</p><p>UNIDADE 5</p><p>138</p><p>A PNH é vinculada à Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde</p><p>e conta com uma equipe de apoiadores regionais e municipais, sendo que eles</p><p>irão, de forma compartilhada, elaborar planos e ações, a fim de promover a saú-</p><p>de, no país, da melhor forma possível (BRASIL, 2013). Para que o programa seja</p><p>desempenhado de forma eficiente e coesa, baseia-se em princípios norteadores</p><p>que precisam ser levando sempre em consideração, tais como:</p><p>• Valorização da dimensão subjetiva, coletiva e social em todas as prá-</p><p>ticas de atenção e gestão no SUS, fortalecendo o compromisso com</p><p>os direitos do cidadão, destacando-se o respeito</p><p>às reivindicações de</p><p>gênero, cor/etnia, orientação/expressão sexual e de segmentos espe-</p><p>cíficos (populações negras, do campo, extrativistas, povos indígenas,</p><p>remanescentes de quilombos, ciganos, ribeirinhos, assentados, etc.);</p><p>• Fortalecimento de trabalho em equipe multiprofissional, fomentan-</p><p>do a transversalidade e a grupalidade;</p><p>• Apoio à construção de redes cooperativas, solidárias e comprometi</p><p>das com a produção de saúde e com a produção de sujeitos;</p><p>• Construção de autonomia e protagonismo dos sujeitos e coletivos</p><p>implicados na rede do SUS;</p><p>• Co-responsabilidade desses sujeitos nos processos de gestão e aten-</p><p>ção;</p><p>• Fortalecimento do controle social, com caráter participativo, em</p><p>todas as instâncias gestoras do SUS;</p><p>• Compromisso com a democratização das relações de trabalho e</p><p>valorização dos trabalhadores da saúde, estimulando processos de</p><p>educação permanente;</p><p>• Valorização da ambiência, com organização de espaços de trabalho</p><p>saudáveis e acolhedores (BRASIL, 2006, p. 17-18).</p><p>A HumanizaSus, como é conhecida a PNH, conta com a inclusão de colabora-</p><p>dores, usuários e gestores para que o processo de planos de ação seja idealizado</p><p>e posto em prática, de forma que todos sejam beneficiados com o programa.</p><p>Trata-se de uma estrutura transversal, que pensa em uma construção de ações</p><p>coletivas (BRASIL, 2013). Esquematizando esse processo, basicamente, temos</p><p>essa disposição do sistema de diretrizes do programa:</p><p>UNICESUMAR</p><p>139</p><p>Descrição da Imagem: A figura mostra três círculos, contendo as Diretrizes da Política Nacional de Hu-</p><p>manização. Esses círculos fazem intersecção com um círculo maior, contendo o seguinte texto: Diretrizes</p><p>da PNH. No primeiro círculo, há o seguinte texto: - Acolhimento e - Clínica ampliada. No segundo, está</p><p>escrito: - Gestão participativa e cogestão e - Defesa dos direitos dos usuários. Por fim, no terceiro círculo,</p><p>está escrito: - Valorização do trabalhador e - Ambiência.</p><p>Figura 4 - Diretrizes da Política Nacional de Humanização / Fonte: o autor.</p><p>O acolhimento acontece de forma que o usuário do SUS seja assistido e sua ne-</p><p>cessidade seja vista de forma singular e legítima”. Ele será feito, de forma coletiva,</p><p>pelos envolvidos no processo de acolhimento, com a construção de uma relação</p><p>socioafetiva. Será realizado uma escuta minuciosa e qualificada para que o usuário</p><p>tenha acesso à tecnologia adequada para sua necessidade e para que, a partir dessa</p><p>escuta, sejam definidos grupos de risco, vulnerabilidade e gravidade (BRASIL, 2013).</p><p>Já a cogestão é formada por dois grupos: um referente aos trabalhadores e</p><p>aos gestores que estarão envolvidos nas necessidades do usuário e outro que per-</p><p>mite a participação ativa de usuários e familiares nas unidades de saúde. Tanto</p><p>a gestão participativa como a cogestão baseiam-se na inclusão de novos agentes</p><p>e na ampliação dessas atividades para realizar análises e estabelecer decisões.</p><p>- Acolhimento</p><p>- Clínica</p><p>Ampliada</p><p>DIRETRIZES</p><p>DA PNH- Valorização do</p><p>trabalhador</p><p>- Ambiência - Gestão</p><p>participativa e</p><p>cogestão</p><p>- Defesa dos</p><p>direitos dos</p><p>usuários</p><p>UNIDADE 5</p><p>140</p><p>Assim, a cogestão será realizada com as rodas para estabelecimento da coesão</p><p>dos envolvidos no processo (BRASIL, 2013).</p><p>A ambiência revela-se necessária, pois é a partir desse entendimento que espa-</p><p>ços acolhedores, saudáveis, confortáveis e que atendam à privacidade do usuário</p><p>serão criados. Ela é realizada de forma que o projeto arquitetônico das unidades de</p><p>saúde seja discutido para melhoria do trabalho dos agentes e dos usuários (BRASIL,</p><p>2013). A clínica ampliada e compartilhada refere-se à ferramenta teórica e prática,</p><p>que busca compreender o sujeito em sua singularidade e a complexidade do proces-</p><p>so saúde/doença. Pode ser realizada de forma que os recursos viáveis enriqueçam os</p><p>diagnósticos e o diálogo e permita que as decisões tomadas sejam compartilhadas</p><p>e comprometidas com a saúde dos usuários (BRASIL, 2013).</p><p>A valorização do trabalhador consiste em dar visibilidade e voz aos agentes</p><p>de saúde envolvidos no processo de atenção à saúde. Há um programa, na rede</p><p>de saúde, que permite a inclusão dos trabalhadores e a realização do referido</p><p>diálogo, preconizando o menor índice de sofrimento e de adoecimento nesse</p><p>meio; esse programa se chama: Programa de Formação em Saúde e Trabalho e a</p><p>Comunidade Ampliada de Pesquisa (BRASIL, 2013).</p><p>A defesa dos direitos dos usuários se faz necessária de modo que esses</p><p>direitos são garantidos por lei e precisam ser informados ao usuário de saúde,</p><p>sendo que os agentes de saúde precisam garantir que esses direitos serão cum-</p><p>pridos desde o ingresso do usuário até a sua alta. A defesa deve ser realizada de</p><p>modo que a equipe cuide desse usuário e informe seu estado de saúde, cabendo</p><p>ao usuário compartilhar ou não sobre seu quadro de saúde com a rede social</p><p>em que convive (BRASIL, 2013).</p><p>A PNH está presente na Atenção Básica de Saúde, na Urgência e Emergência,</p><p>nos prontos-socorros, nos pronto-atendimentos, na Assistência Pré-Hospitalar,</p><p>na Atenção Especializada e na Atenção Hospitalar nos níveis A e B, sendo esses os</p><p>parâmetros utilizados de acordo com o caso.</p><p>Os dois parâmetros de níveis A e B, por exemplo, assemelham-se ao Grupo de</p><p>Trabalho de Humanização (GTH), que conta com: plano de trabalho implantado;</p><p>garantia de visita aberta, por meio da presença do acompanhante e de sua rede so-</p><p>cial, respeitando a dinâmica de cada unidade hospitalar e as peculiaridades das ne-</p><p>cessidades do acompanhante; ouvidoria em funcionamento; equipe multiprofissio-</p><p>nal (minimamente, com médico e enfermeiro) de atenção à saúde para seguimento</p><p>UNICESUMAR</p><p>141</p><p>dos pacientes internados; horário pactuado para o atendimento à família e/ou à sua</p><p>rede social; e garantia de continuidade de assistência com sistema de referência e</p><p>contrarreferência. A partir desse ponto, o parâmetro de nível A é acrescentado por:</p><p>• Existência de mecanismos de desospitalização, visando a alternati-</p><p>vas às práticas hospitalares, como as de cuidados domiciliares.</p><p>• [...] Conselho gestor local com funcionamento adequado.</p><p>• Existência de acolhimento com avaliação de risco nas áreas de aces-</p><p>so (pronto-atendimento, pronto-socorro, ambulatório, serviço de</p><p>apoio diagnóstico e terapia)</p><p>• Plano de educação permanente para trabalhadores com temas de</p><p>humanização em implementação (BRASIL, 2004, p. 16).</p><p>E o nível B acrescentado por “Mecanismos de recepção com acolhimento aos usuá-</p><p>rios [e] Mecanismos de escuta para a população e os trabalhadores” (BRASIL, 2004,</p><p>p. 15). Em todos esses ambientes de saúde, a PNH se faz presente e compreende-se</p><p>que os profissionais envolvidos com a saúde e, até mesmo, os usuários estão dispos-</p><p>tos a estabelecer uma rede de humanização coletiva e acolhedora (BRASIL, 2004).</p><p>Mas e como funciona esse ingresso do usuário, quais são os passos necessários</p><p>para que ocorra seu atendimento? Segundo Silveira, Costa e Jorge (2018), a propos-</p><p>ta, em relação à saúde, sempre decorreu do ideal de uma integralidade formada por</p><p>diversos dispositivos da saúde. Carvalho (2013) acrescenta que a saúde é também</p><p>um direito garantido por lei, decorrente de lutas para a reforma sanitária no país,</p><p>sendo dever do Estado garantir que seus cidadãos recebam toda assistência médica.</p><p>O ponto inicial foi a criação da RAS — Rede de Atendimento à Saúde —, um</p><p>sistema que engloba todos os serviços relacionados à saúde, e é a partir dela que</p><p>os direitos dos cidadãos serão aplicados. Seu objetivo, de acordo com a Portaria</p><p>do Ministério da Saúde nº 4.279, de 30 de dezembro de 2010, é o de “promover</p><p>a integração sistêmica, de ações e serviços de saúde com provisão de atenção</p><p>contínua, integral, de qualidade, responsável e humanizada, bem como incremen-</p><p>tar o desempenho do Sistema, em termos de acesso, equidade, eficácia clínica e</p><p>sanitária; e eficiência econômica” (BRASIL, 2010, p. 1).</p><p>A partir desse momento, foi verificada a importância</p><p>- neste instante</p><p>ela age e não simplesmente, reage” (LIMA; NATEL, 2010, p. 129).</p><p>Pode-se dizer então que se o ambiente propiciar condições favoráveis, a</p><p>aprendizagem torna-se um fator terapêutico para a criança internada, à medi-</p><p>da que contribui para uma melhora significativa da experiência no hospital. Se</p><p>UNIDADE 1</p><p>20</p><p>olharmos para o histórico do ambiente hospitalar, é possível notar que ele sempre</p><p>foi caracterizado como um lugar de exclusão e sofrimento. Por essas e outras difi-</p><p>culdades e no intuito de proporcionar uma cura efetiva, os hospitais identificaram</p><p>a necessidade de um olhar mais cuidadoso e individualizado para os pacientes,</p><p>o que culminou em um movimento de humanização do ambiente hospitalar,</p><p>que, mais tarde, abriu caminho para a entrada do psicopedagogo neste ambiente.</p><p>A Política Nacional de Humanização</p><p>Em 2000, o Ministério da Saúde lançou um Projeto Piloto de Humanização Hos-</p><p>pitalar, focado na humanização das relações que se estabelecem dentro do hos-</p><p>pital. Tal projeto teve como objetivo “criar uma nova cultura de relações entre os</p><p>trabalhadores de saúde e os usuários, na busca da valorização da vida humana”</p><p>(LIMA; NATEL, 2010, p.130). Desde então, o tema da humanização passou a ser</p><p>bastante difundido na área da saúde.</p><p>Após essa iniciativa, foi lançada a Política Nacional de Humanização</p><p>(PNH), visando transformar toda a atenção e gestão no Sistema Único de</p><p>Saúde (SUS). Os gestores dessa política entendem a humanização como a va-</p><p>lorização de todos os envolvidos no contexto dos atendimentos de saúde: ges-</p><p>tores, profissionais de saúde e usuários, objetivando a autonomia de cada um,</p><p>estabelecendo responsabilidades compartilhadas e valorizando os vínculos</p><p>entre eles (LIMA; NATEL, 2010).</p><p>A PNH, segundo a Rede Humaniza SUS ([2020], on-line), tem como propósitos:</p><p>■ Envolver e contagiar profissionais da saúde, gestores e usuários com os</p><p>princípios e diretrizes da humanização.</p><p>■ Fortalecer iniciativas nesse sentido que já existem.</p><p>■ Desenvolver estratégias funcionais de relacionamento e práticas de gestão</p><p>e atenção que atendam aos princípios da humanização e compartilhá-las.</p><p>■ Aprimorar, ofertar e divulgar estratégias e metodologias de apoio a mu-</p><p>danças efetivas e viáveis dos modelos de atenção e gestão.</p><p>■ Implantar processos de acompanhamento e avaliação, visando à melhoria</p><p>e ao compartilhamento de experiências bem-sucedidas.</p><p>UNICESUMAR</p><p>21</p><p>“Humanizar é, portanto, o ato de tornar humano. E deve ser entendido em saúde como</p><p>uma valorização do respeito à vida e das condições humanas, considerando os aspectos</p><p>individuais e particulares de cada pessoa, como a história de vida deste indivíduo, os seus</p><p>medos, suas angústias, suas crenças e sonhos, os seus anseios e demais singularidades”.</p><p>Fonte: Lima e Natel (2010, p.131).</p><p>EXPLORANDO IDEIAS</p><p>A PNH está pautada nos princípios da transversalidade, indissociabilidade e</p><p>protagonismo.</p><p>Transversalidade significa que a humanização deve estar inserida em todas as</p><p>políticas e programas do SUS. A PNH busca ampliar o contato e a comunicação</p><p>entre pessoas e grupos, reconhecendo que todas as especialidades e práticas de</p><p>saúde, ao compartilhar experiências, podem contribuir para a produção da saúde</p><p>do indivíduo atendido de forma corresponsável.</p><p>Indissociabilidade entre atenção e gestão significa que os trabalhadores de</p><p>saúde e usuários devem conhecer a gestão dos serviços e da rede de saúde, bem</p><p>como participar, ativamente, do processo de tomada de decisão sobre as ações, pois</p><p>as decisões dos gestores interferem, diretamente, na atenção à saúde. Protagonismo</p><p>está relacionado com a autonomia e corresponsabilidade dos sujeitos e grupos.</p><p>Significa que usuários e trabalhadores da saúde, também, são responsáveis pelas</p><p>mudanças que querem no sistema. Um SUS humanizado reconhece e valoriza</p><p>cada pessoa como cidadã de direitos, capaz de atuar na produção de saúde.</p><p>A PNH abriu espaço para discussões importantes na área da saúde, o que</p><p>favoreceu a entrada de outros profissionais no ambiente hospitalar, visando à</p><p>garantia de direitos dos pacientes e uma cura mais efetiva e com menos con-</p><p>sequências negativas.</p><p>Antes de prosseguir com a leitura, faça uma reflexão: por que a PNH foi importante para a</p><p>entrada de outros profissionais no hospital? De que forma outros profissionais, além dos</p><p>médicos e enfermeiros, podem contribuir para a melhoria de processos de cura de doenças?</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>UNIDADE 1</p><p>22</p><p>Lima e Natel (2010) pontuam que a proposta de acompanhamento pedagógico</p><p>no ambiente hospitalar contribui muito para a humanização nesse ambiente. E,</p><p>concomitante ao movimento de humanização, também surgiram as chamadas</p><p>classes hospitalares.</p><p>Vamos entender como a educação chegou no hospital</p><p>O direito à educação já estava previsto na Constituição de 1988. E, prevendo</p><p>a necessidade de garantir esse direito às crianças hospitalizadas, o Estatuto da</p><p>Criança e do Adolescente (ECA), junto com outros órgãos e dispositivos legais,</p><p>estabeleceu os direitos da criança e adolescente em situação de hospitalização.</p><p>Os Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizados foram publicados no dia</p><p>17 de outubro de 1995. O texto, aprovado na íntegra, foi escrito pela Sociedade</p><p>Brasileira de Pediatria.</p><p>Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizados</p><p>(Resolução do Conanda nº 41, de 17 de outubro de 1995)</p><p>1. Direito à proteção, à vida e à saúde, com absoluta prioridade e sem qual-</p><p>quer forma de discriminação.</p><p>2. Direito a ser hospitalizado quando for necessário ao seu tratamento, sem</p><p>distinção de classe social, condição econômica, raça ou crença religiosa.</p><p>3. Direito de não ser ou permanecer hospitalizado desnecessariamente por</p><p>qualquer razão alheia ao melhor tratamento de sua enfermidade.</p><p>4. Direito a ser acompanhado por sua mãe, pai ou responsável, durante</p><p>todo o período de sua hospitalização, bem como receber visitas.</p><p>5. Direito de não ser separado de sua mãe ao nascer.</p><p>6. Direito de receber aleitamento materno sem restrições.</p><p>7. Direito de não sentir dor, quando existam meios para evitá-la.</p><p>8. Direito de ter conhecimento adequado de sua enfermidade, dos cuidados te-</p><p>rapêuticos e diagnósticos a serem utilizados, do prognóstico, respeitando sua</p><p>fase cognitiva, além de receber amparo psicológico quando se fizer necessário.</p><p>UNICESUMAR</p><p>23</p><p>9. Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de edu-</p><p>cação para a saúde, acompanhamento do currículo escolar durante sua</p><p>permanência hospitalar.</p><p>10. Direito a que seus pais ou responsáveis participem ativamente de seu</p><p>diagnóstico, tratamento e prognóstico, recebendo informações sobre os</p><p>procedimentos a que será submetido.</p><p>11. Direito a receber apoio espiritual/religioso, conforme a prática de sua família.</p><p>12. Direito de não ser objeto de ensaio clínico, provas diagnósticas e tera-</p><p>pêuticas, sem o consentimento informado de seus pais ou responsáveis</p><p>e o seu próprio, quando tiver discernimento para tal.</p><p>13. Direito a receber todos os recursos terapêuticos disponíveis para sua</p><p>cura, reabilitação e/ou prevenção secundária e terciária.</p><p>14. Direito a proteção contra qualquer forma de discriminação, negligência</p><p>ou maus tratos.</p><p>15. Direito ao respeito à sua integridade física, psíquica e moral.</p><p>16. Direito à preservação de sua imagem, identidade, autonomia de valores,</p><p>dos espaços e objetos pessoais.</p><p>17. Direito a não ser utilizado pelos meios de comunicação de massa, sem</p><p>expressa vontade de seus pais ou responsáveis ou a sua própria vontade,</p><p>resguardando-se a ética.</p><p>18. Direito à confidência de seus dados clínicos, bem como direito de tomar</p><p>conhecimento dos mesmos, arquivados na instituição pelo prazo estipu-</p><p>lado em lei.</p><p>19. Direito a ter seus direitos constitucionais e os contidos no Estatuto da</p><p>Criança e do Adolescente respeitados pelos hospitais integralmente.</p><p>20. Direito a ter uma morte digna, junto a seus familiares, quando esgotados</p><p>todos</p><p>da convergência da</p><p>RAS com uma atenção mais estabelecida e respaldada por lei; temos, portanto, a</p><p>Atenção Básica à Saúde, por meio da Portaria nº 2.488, de 21 de outubro de 2011,</p><p>sendo definida por:</p><p>UNIDADE 5</p><p>142</p><p>“</p><p>[...] um conjunto de ações de saúde, no âmbito individual e coletivo,</p><p>que abrange a promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agra-</p><p>vos, o diagnóstico, o tratamento, a reabilitação, redução de danos e a</p><p>manutenção da saúde com o objetivo de desenvolver uma atenção</p><p>integral que impacte na situação de saúde e autonomia das pessoas</p><p>e nos determinantes e condicionantes de saúde das coletividades. É</p><p>desenvolvida por meio do exercício de práticas de cuidado e gestão,</p><p>democráticas e participativas, sob forma de trabalho em equipe,</p><p>dirigidas a populações de territórios definidos, pelas quais assume</p><p>a responsabilidade sanitária, considerando a dinamicidade existente</p><p>no território em que vivem essas populações. Utiliza tecnologias de</p><p>cuidado complexas e variadas que devem auxiliar no manejo das</p><p>demandas e necessidades de saúde de maior frequência e relevância</p><p>em seu território, observando critérios de risco, vulnerabilidade,</p><p>resiliência e o imperativo ético de que toda demanda, necessidade</p><p>de saúde ou sofrimento devem ser acolhidos (BRASIL, 2011, p. 2).</p><p>Dentro da atenção à saúde, temos três diferentes níveis: o primeiro é o da Atenção</p><p>Primária na Saúde (APS), em que o papel desempenhado é o de prevenção. Esse</p><p>nível é o canal mais próximo aos usuários do SUS e é constituído pelas Unidades</p><p>Básicas de Saúde (UBS), pelos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), pela Equipe</p><p>de Saúde da Família (ESF) e pelo Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF). O</p><p>nível intermediário de atenção, por sua vez, fica a encargo do SAMU 192 (Serviço de</p><p>Atendimento Móvel as Urgência) e das Unidades de Pronto Atendimento (UPA), e o</p><p>atendimento de média e alta complexidade é realizado nos hospitais (BRASIL, 2010).</p><p>O segundo nível é o da Atenção Secundária, ele é formado pelos serviços</p><p>especializados, em nível ambulatorial e hospitalar, que necessitam de assistência</p><p>tecnológica intermediária entre a atenção primária e a terciária. Historicamente,</p><p>esse nível é interpretado como procedimentos de média complexidade e com-</p><p>preende os serviços médicos especializados (de apoio diagnóstico e terapêutico)</p><p>e o atendimento de urgência e emergência (ERDMANN, 2013; BRASIL, 2007).</p><p>O terceiro e último nível é o da Atenção Terciária ou Alta Complexidade, ele</p><p>possui caráter de especialização elevada. Nesse nível, estão incluídos os tratamen-</p><p>tos mais tecnológicos e/ou mais custosos ou que demandam mais tempo, como</p><p>tratamento oncológico, cardiológico ou, até mesmo, transplantes, parto de risco,</p><p>entre outros, sendo aqueles tratamentos mais densos (BRASIL, 2007).</p><p>UNICESUMAR</p><p>143</p><p>Descrição da Imagem: imagem de uma criança hospitalizada sorrindo. À sua frente, sobre uma mesa,</p><p>encontra-se um desenho em uma folha de sulfite, e a criança está o colorindo. Há, ainda, na mesa, cerca</p><p>de oito lápis de colorir à disposição da criança.</p><p>Figura 5 - Criança hospitalizada</p><p>Assim, concebe-se a importância de a assistência em saúde ser tratada de</p><p>forma multidisciplinar e descentralizada. Pode parecer que há uma divisão, em</p><p>relação ao atendimento do usuário, olhando dessa forma super esquematizada,</p><p>porém, na realidade, o que ocorre, ou deveria ocorrer, é uma interligação muito</p><p>bem elaborada desse sistema de forma que o maior beneficiado seja o usuário.</p><p>Pensando dessa forma e vislumbrando o profissional de psicopedagogia como</p><p>agente ativo de saúde, compreendemos que tanto eles quanto os agentes de saúde</p><p>podem oferecer para uma criança ou adolescente, nos hospitais, saúde humaniza-</p><p>da por meio do lúdico, do brincar, da escuta. É preciso entender que os pacientes</p><p>que chegaram até eles perderam, por um momento, o contato com um mundo</p><p>próprio e único que estavam desenvolvendo fora do ambiente hospitalar.</p><p>UNIDADE 5</p><p>144</p><p>O brincar, também, é um direito da criança, independente do ambiente em</p><p>que esteja inserida. Segundo a Resolução nº 41, de outubro de 1995, do Ministério</p><p>da Justiça e do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, toda</p><p>criança e adolescente hospitalizado tem “direito a desfrutar de alguma forma de</p><p>recreação, programas de educação para saúde e acompanhamento de currículo</p><p>escolar, durante a sua permanência no ambiente hospitalar” (BRASIL, 1995, p. 1).</p><p>Para os adultos leigos, pode parecer algo supérfluo, sem necessidade, mas, para</p><p>quem estudou o mínimo sobre atendimento ou educação para crianças e adolescen-</p><p>tes e, até mesmo, para os outros profissionais de saúde envolvidos com a educação</p><p>no hospital, compreender a importância da aplicação de jogos psicopedagógicos, da</p><p>escuta e do brincar para aqueles que estão se desenvolvendo ou para os que querem</p><p>ser, apenas, ouvidos para “esquecer”, mesmo que por minutos, sua real situação é</p><p>fundamental. O psicopedagogo deve abraçar a ideia de que seu trabalho está para</p><p>além das questões pedagógicas/cognitivas de classes escolares, é preciso existir esse</p><p>entrelace do hospitalizado com o meio em que está inserido (PEREIRA, 2015).</p><p>Adentramos, portanto, em um assunto extremamente necessário. Você acre-</p><p>dita que a classe hospitalar se faz necessária ou, até mesmo, que está integrada</p><p>à humanização? Como já foi dito anteriormente, a educação hospitalar é um</p><p>direito garantido por lei, e já menciono aqui a Declaração dos Direitos Huma-</p><p>nos, de 1948 (ONU, 1948), que é a lei suprema, em relação aos direitos humanos,</p><p>que garante, para além dos direitos individuais e coletivos, o direito social com</p><p>assistência médica e farmacêutica.</p><p>As leis posteriores à Declaração dos Direitos Humanos foram formuladas no</p><p>intuito de reforçar esse clamor por uma humanização social mais forte e con-</p><p>creta e para assegurar que ela fosse posta em prática em cada área da vida que</p><p>se observou sua necessidade. Quando uma criança precisa ser hospitalizada, ela</p><p>não deixa de ser enxergada como ser humano que é em sua totalidade, muito</p><p>pelo contrário, seu direito pela educação e cidadania precisa ampará-la nesse</p><p>momento mais do que nunca (PEREIRA, 2015).</p><p>Por esse motivo, o governo investiu em recomendações e treinamento de pes-</p><p>soal que passariam a lidar com o atendimento hospitalar destinado às crianças.</p><p>Esses direitos estão, também, abarcados dentro da Declaração de 1988, com a</p><p>Carta da Criança Hospitalizada e, em 2002, o Ministério da Educação, por meio</p><p>da Secretaria da Educação Especial, elaborou um documento com orientações</p><p>sobre o atendimento hospitalar.</p><p>UNICESUMAR</p><p>145</p><p>As crianças e os adolescentes brasileiros estão, por lei, amparados nos mais</p><p>diversos níveis sociais, pois percebeu-se, desde cedo, a necessidade de protegê-los</p><p>das mazelas da sociedade que, por ventura, pudessem acometê-los em algum</p><p>momento de sua vida. Pereira (2015, p. 9) acrescenta que: “estar preparado para</p><p>atuar na classe hospitalar quer dizer estar apto para enfrentar obstáculos ten-</p><p>do um olhar diferenciado não só aos atrasos educacionais ou a dificuldades de</p><p>aprendizagens, mas também o reconhecimento ao sofrimento do próximo”.</p><p>O atendimento humanizado acontecerá a partir do momento que o profis-</p><p>sional conseguir enxergar a criança para além de suas dificuldades escolares e/</p><p>ou cognitivas, mas, sob a visão das particularidades e das dificuldades de cada</p><p>um, entendendo que cada ser é único e singular, e que o aprendizado acontece,</p><p>também, na esfera afetiva e com a troca de experiências (PEREIRA, 2015).</p><p>Imagine que você foi convidado(a) para participar de uma seleção para tra-</p><p>balhar no setor de pediatria de um hospital geral, e que, para ser selecionado(a),</p><p>você precisará apresentar um projeto de estruturação do setor de Psicopedagogia</p><p>desse hospital. Tendo em vista os conteúdos apresentados até aqui, elabore um</p><p>projeto de atendimento psicopedagógico para as crianças</p><p>internadas.</p><p>146</p><p>AGORA É COM VOCÊ</p><p>1. A prática do psicopedagogo, dentro do hospital, deve ser, amplamente, abordada</p><p>para capacitar este profissional a atuar em um contexto tão diferente do educacio-</p><p>nal. Trata-se de uma conexão entre educação e saúde, além da interface de huma-</p><p>nização que existe nessa prática. A Política Nacional de Humanização se encarrega</p><p>de proporcionar suporte e orientações para a aplicação de práticas que atendam,</p><p>integralmente, o paciente que está em tratamento. Considerando a Política Nacio-</p><p>nal de Humanização e a prática psicopedagógica no contexto hospitalar, assinale a</p><p>alternativa correta.</p><p>a) A política Nacional de Humanização é um conjunto de regras e processos que</p><p>devem ser aplicados dentro do contexto educacional, visando ao atendimento</p><p>biopsicossocial do indivíduo hospitalizado em internação de longo prazo. Nas</p><p>práticas do psicopedagogo, deve-se levar em conta que esta política considera</p><p>uma série de práticas que devem ser norteadas por esse documento.</p><p>b) Os Direitos Humanos são a base definitiva para o a política Nacional de Huma-</p><p>nização, por isso, abordam a máxima de educação para todos como modelo de-</p><p>mocrático de acesso à educação. Em contexto hospitalar, deve-se sempre pensar</p><p>na saúde do indivíduo, enquanto a parte educacional precisa aguardar ampla</p><p>recuperação do paciente.</p><p>c) O contexto de saúde e as políticas do SUS dividem o sistema de saúde em pri-</p><p>mário, secundário e de alta complexidade. A política de humanização em saúde</p><p>aplicada ao SUS é, somente, percebida no tratamento de pacientes de alta com-</p><p>plexidade e que necessitam de internação de longo prazo e com necessidades de</p><p>atendimento educacional especializado. Isso se aplica ao tratamento pediátrico</p><p>oncológico ou a clínicas de reabilitação, por exemplo.</p><p>d) As diretrizes da Política Nacional de Humanização não preconizam a atribuição de</p><p>valor ao trabalhador da área e a ambiência, vislumbram uma gestão participativa,</p><p>pautada na cogestão, trabalham o acolhimento por meio de clínica ampliada, além</p><p>de estarem calcadas na anuição dos direitos do usuário de saúde.</p><p>e) Sobre a aplicação dos direitos humanos em saúde, devemos compreender a apli-</p><p>cação do direito à vida e à educação, explanada nos Artigos 3º e 26 da Declaração</p><p>dos Direitos Humanos. O acesso à saúde e à educação é universal e, portanto,</p><p>para todos. Dessa maneira, o direito à vida é atendido com o tratamento integral</p><p>à saúde, colocando em pauta a discussão entre saúde e educação.</p><p>147</p><p>AGORA É COM VOCÊ</p><p>2. Segundo Nogueira (2009), o Projeto Político-Pedagógico (PPP) é um documento ela-</p><p>borado no contexto educacional que leva o profissional educador a nortear suas</p><p>práticas nesse ambiente. Muitas vezes, é visto como algo burocrático e deve ser</p><p>preenchido e feito a partir de diversas regras, passando a impressão de que o que</p><p>foi proposto no projeto não será aplicado. Porém esse projeto, também, pode ser</p><p>aplicado no contexto psicopedagógico hospitalar e considerar determinadas orienta-</p><p>ções sobre o contexto de saúde. Sobre o PPP e a prática psicopedagógica hospitalar,</p><p>analise as asserções a seguir:</p><p>I - O PPP deve ter, em sua criação, a aplicação da Política Nacional de Humanização,</p><p>diretrizes pelo qual estão norteadas e pautadas muitas das práticas terapêuticas</p><p>do psicopedagogo.</p><p>II - Na construção do PPP no contexto hospitalar, o psicopedagogo deve estabelecer</p><p>vínculo comunicativo entre equipe médica, família, gestão escolar e paciente. É</p><p>preciso que o planejamento esteja de acordo com o acompanhamento de saúde</p><p>que o aluno recebe, visando ao atendimento educacional terapêutico do aluno.</p><p>III - A aplicação do PPP reside em uma série de dúvidas nos profissionais da educa-</p><p>ção. O que excede, em relação ao entendimento do profissional, é o documento</p><p>que se situa em uma questão burocrática necessária à escola, enquanto a prática</p><p>é do profissional educador. O mesmo vale para o psicopedagogo hospitalar que</p><p>aplica suas práticas independentemente do planejamento escolar.</p><p>IV - A situação da criação de um PPP adaptado ao contexto hospitalar deve tomar,</p><p>por base, a Política Nacional de Humanização, da qual prevê e prioriza, somente,</p><p>o direito à vida, uma vez que o tratamento hospitalar se restringe, somente, aos</p><p>cuidados médicos.</p><p>Assinale a alternativa correta:</p><p>a) Somente, a asserção I é verdadeira.</p><p>b) Somente, a asserção III é verdadeira.</p><p>c) Somente, as asserções I e II são verdadeiras.</p><p>d) Somente, as asserções II e IV são verdadeiras.</p><p>e) Somente, as asserções III e II são verdadeiras.</p><p>148</p><p>AGORA É COM VOCÊ</p><p>3. O olhar para um aluno hospitalizado deve ser de cuidado e cautela. Goulart e Chiari</p><p>(2010) já nos traz o conhecimento de que o conceito de saúde deve ser humanizado.</p><p>Para isso, temos a Política Nacional de Humanização (PNH) que tanto nos orienta</p><p>sobre práticas hospitalares e em saúde. O psicopedagogo, como membro da equipe</p><p>médica, precisa ter suas práticas pautadas nos modelos terapêuticos da PNH. Sobre</p><p>a PNH e as práticas do psicopedagogo, analise as asserções a seguir:</p><p>I - A escuta na forma de acolhimento é vista como um importante agente terapêu-</p><p>tico que pode potencializar os ganhos tanto em saúde como em educação. A</p><p>minimização do sofrimento e da dor auxilia em ganhos educacionais em pacien-</p><p>tes que são alunos de longa internação.</p><p>II - A prática de clown é um importante agente terapêutico que traz a visualização</p><p>da dor como forma de transformação. Em um ambiente em que vida e morte</p><p>lidam entre si diariamente, a transformação pode ser feita por meio da prática</p><p>de clown. Aqui, os ganhos educacionais são mínimos uma vez que não se trata</p><p>de uma questão educacional, porém terapêutica.</p><p>III - Na PNH, o atendimento em saúde se dá por um modelo de setorização da saúde,</p><p>em níveis primários, secundários e terciários de alta complexidade. O atendi-</p><p>mento humanizado se restringe aos setores secundários de saúde e podem</p><p>compreender a clínica ampliada e não há escuta de acolhimento.</p><p>IV - A prática terapêutica inclusa em um PPP destinado à área hospitalar pode tra-</p><p>zer muito ganhos educacionais. O luto pela dor e perda da saúde bem como</p><p>o sofrimento pela doença se apresentam como grandes agentes que causam</p><p>comprometimento educacional. Ter um trabalho terapêutico prepara esse aluno</p><p>para melhor receber os conteúdos educacionais.</p><p>Assinale a alternativa correta:</p><p>a) Somente, a asserção I é verdadeira.</p><p>b) Somente, a asserção III é verdadeira.</p><p>c) Somente, as asserções I e II são verdadeiras.</p><p>d) Somente, as asserções I e IV são verdadeiras.</p><p>e) Somente, as asserções III e II são verdadeiras.</p><p>149</p><p>CONFIRA SUAS RESPOSTAS</p><p>1. E. O acesso à educação e à saúde é universal a todos. A PNH é pautada nas orientações</p><p>dos direitos humanos e foi criada para minimizar sofrimento e dor nos mais diversos</p><p>ambientes de saúde. Assim, é verossímil a educação mesmo no ambiente hospitalar,</p><p>pois isso garante a aplicação dos direitos humanos e da PNH.</p><p>2. C. O plano nacional de humanização possui muitas diretrizes que podem nortear as</p><p>práticas e o planejamento do PPP; além disso, a construção desse deve ser baseada</p><p>em um diálogo entre equipe médica, família, paciente e escola. Sem essa comunica-</p><p>ção, a construção de um PPP que possa atender, de maneira eficaz, esse aluno fica</p><p>prejudicada, inviabilizando a construção do PPP.</p><p>3. D. Visto a PNH como forma de orientação da prática do psicopedagogo hospitalar, a</p><p>escuta como acolhimento se mostra como uma importante e eficaz prática que auxilia</p><p>no tratamento terapêutico de minimização da dor e do sofrimento em detrimento da</p><p>doença. Assim, podemos perceber que, minimizando a dor da doença e o sofrimento</p><p>pela situação de hospitalização, é possível obter ganhos educacionais, de forma im-</p><p>portante e eficaz, quando o aluno for estudar no contexto hospitalar.</p><p>150</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>Unidade 1</p><p>AZEVEDO, R. Q.; PALLADINO, R. R. R.; FREIRE, R. M. A. C. A atuação do psicopedagogo no contex-</p><p>to hospitalar. Distúrbios da Comunicação, São Paulo, v. 31, n. 4, p.</p><p>622-629, 2019.</p><p>BOSSA, N. A. A Psicopedagogia no Brasil contribuições a partir da prática. 2. ed. Porto</p><p>Alegre: Artmed, 2000.</p><p>BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação</p><p>nacional. Disponível: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm. Acesso em: 13 jan. 2020.</p><p>BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Especial. Classe Hospitalar e atendi-</p><p>mento pedagógico domiciliar: estratégias e orientações. Brasília: MEC; SEEP, 2002.</p><p>BRASIL. Resolução nº 2. Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação</p><p>Básica. Diário Oficial da União, Brasília, 2001.</p><p>BRASIL. Resolução nº 41, de 13 de outubro de 1995. Aprova na íntegra o texto da Sociedade</p><p>Brasileira de Pediatria, relativo aos direitos da criança e do adolescente hospitalizados. Dis-</p><p>ponível em: https://www.mpdft.mp.br/portal/pdf/unidades/promotorias/pdij/Legislacao%20</p><p>e%20Jurisprudencia/Res_41_95_Conanda.pdf. Acesso em: 12 jan. 2020.</p><p>CALSA, G. C. O papel da Psicopedagogia na aprendizagem escolar. In: RODRIGUES, E.; ROSIN, S.</p><p>M. (org.) Infância e práticas educativas. Maringá: Eduem, 2007, p. 81-90.</p><p>COSTA, M. T. de A. Introdução a psicopedagogia. 1. ed. Curitiba: Iesde Brasil, 2015.</p><p>CHIATTONE, H. B. de C. A Significação da Psicologia no Contexto Hospitalar. In: CHIATTONE, H.</p><p>B. de C. Psicologia da Saúde: um novo significado para a prática clínica. 2. ed. revista e amplia-</p><p>da. São Paulo: Cengage Learning Edições, 2011. p. 145-233.</p><p>GUIMARÃES, S. S. A hospitalização na infância. Psicologia: Teoria e pesquisa, Brasília, v. 4, n.</p><p>2, p. 102-112, 2012.</p><p>JUNIOR, E. 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Acesso em: 2 mar. 2021.</p><p>MEU ESPAÇO</p><p>MEU ESPAÇO</p><p>A Rotina Hospitalar - Como a Psicopedagogia Pode Ajudar?</p><p>Ensino e Aprendizagem e o Contexto Hospitalar: Reflexões e Prática do Psicopedagogo</p><p>Atuação Psicopedagógica com Pacientes no Ambiente Hospitalar</p><p>Trabalho do Psicopedagogo</p><p>na Unidade Hospitalar e Integração Escola, Equipe Médica e Família</p><p>Projeto Político Pedagógico,</p><p>Gestão de Projeto e Aplicação da Política de Humanização em Psicopedagogia Hospitalar.</p><p>os recursos terapêuticos disponíveis.</p><p>Observe que o artigo 9º aborda o direito a momentos de lazer e educação durante</p><p>o período de permanência no hospital. A Lei das Diretrizes e Bases da Educação</p><p>Nacional (LDB), também, prevê a oferta do atendimento educacional durante a</p><p>internação. Tal Lei foi alterada pela Lei nº 13.716/2018 para assegurar esse direito:</p><p>Quadro 1 - Direitos da Criança e do Adolescente Hospitalizado / Fonte: Brasil (1995, on-line).</p><p>UNIDADE 1</p><p>24</p><p>“</p><p>Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes</p><p>e Bases da Educação Nacional), para assegurar atendimento edu-</p><p>cacional ao aluno da educação básica internado para tratamento de</p><p>saúde em regime hospitalar ou domiciliar por tempo prolongado.</p><p>O PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL, no</p><p>exercício do cargo de PRESIDENTE DA REPÚBLICA Faço saber</p><p>que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:</p><p>Art. 1º A Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Dire-</p><p>trizes e Bases da Educação Nacional), passa a vigorar acrescida</p><p>do seguinte art. 4º-A:</p><p>‘Art. 4º-A. É assegurado atendimento educacional, durante o pe-</p><p>ríodo de internação, ao aluno da educação básica internado para</p><p>tratamento de saúde em regime hospitalar ou domiciliar por tempo</p><p>prolongado, conforme dispuser o Poder Público em regulamento,</p><p>na esfera de sua competência federativa’ (BRASIL, 1996, on-line).</p><p>Vejam que, a partir dessa alteração na LDB, o aluno da Educação Básica que</p><p>estiver em tratamento de saúde, seja em regime hospitalar ou domiciliar, por pe-</p><p>ríodos de tempo prolongados, tem assegurado seu direito ao atendimento escolar</p><p>durante todo o período de internação/afastamento. Esse atendimento deve ser</p><p>regulamentado pelos executivos federal, estadual e municipal.</p><p>Dentre as situações que necessitam de um formato diferenciado de acesso</p><p>ao ensino, estão as relacionadas à Educação Especial. O Conselho Nacional de</p><p>Educação inclui o atendimento a estudantes hospitalizados nesse grupo, pois tra-</p><p>ta-se, também, de um atendimento diferenciado. Tal medida consta na Resolução</p><p>nº 2, de 11 de setembro de 2001. O Artigo 13 desta resolução determina que os</p><p>sistemas de ensino devem organizar o atendimento educacional especializado aos</p><p>estudantes que não podem frequentar as aulas por motivo de doença:</p><p>“</p><p>Art. 13. Os sistemas de ensino, mediante ação integrada com os sis-</p><p>temas de saúde, devem organizar o atendimento educacional espe-</p><p>cializado a alunos impossibilitados de frequentar as aulas em razão</p><p>de tratamento de saúde que implique internação hospitalar, aten-</p><p>dimento ambulatorial ou permanência prolongada em domicílio.</p><p>§ 1o As classes hospitalares e o atendimento em ambiente domi-</p><p>ciliar devem dar continuidade ao processo de desenvolvimento e</p><p>UNICESUMAR</p><p>25</p><p>ao processo de aprendizagem de alunos matriculados em escolas</p><p>da Educação Básica, contribuindo para seu retorno e reintegra-</p><p>ção ao grupo escolar, e desenvolver currículo flexibilizado com</p><p>crianças, jovens e adultos não matriculados no sistema educa-</p><p>cional local, facilitando seu posterior acesso à escola regular.</p><p>§ 2o Nos casos de que trata este Artigo, a certificação de frequên-</p><p>cia deve ser realizada com base no relatório elaborado pelo pro-</p><p>fessor especializado que atende o aluno (BRASIL, 2001, on-line).</p><p>Em 2002, o Ministério da Educação (MEC), também, divulgou um guia de estraté-</p><p>gias e orientações para a organização e funcionamento das classes hospitalares e do</p><p>atendimento pedagógico domiciliar. De acordo com esse manual de orientações:</p><p>“</p><p>O atendimento educacional hospitalar e o atendimento pedagógico</p><p>domiciliar devem estar vinculados aos sistemas de educação como</p><p>uma unidade de trabalho pedagógico das Secretarias Estaduais, do</p><p>Distrito Federal e Municipais de Educação, como também às dire-</p><p>ções clínicas dos sistemas e serviços de saúde em que se localizam.</p><p>Compete às Secretarias de Educação, atender à solicitação dos</p><p>hospitais para o serviço de atendimento pedagógico hospitalar e</p><p>domiciliar, a contratação e capacitação dos professores, a provisão</p><p>de recursos financeiros e materiais para os referidos atendimentos</p><p>(BRASIL, 2002, p. 15).</p><p>Entende-se por educação especial, de acordo com o Artigo 58 da LDB (BRASIL,</p><p>1996), a modalidade de educação ofertada para estudantes com deficiência, trans-</p><p>tornos globais do desenvolvimento e altas habilidades ou superdotação. A Lei,</p><p>ainda, estabelece que esse atendimento deve ser ofertado, preferencialmente, na</p><p>rede regular de ensino. Mas esse Artigo, também, traz um complemento:</p><p>“</p><p>§ 1º Haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola</p><p>regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação especial.</p><p>§ 2º O atendimento educacional será feito em classes, escolas ou</p><p>serviços especializados, sempre que, em função das condições es-</p><p>pecíficas dos alunos, não for possível a sua integração nas classes</p><p>comuns de ensino regular (BRASIL, 1996, on-line).</p><p>UNIDADE 1</p><p>26</p><p>Pode-se perceber aqui, mais uma vez, uma garantia do direito à educação para</p><p>alunos que se encontram impedidos de comparecer às classes regulares. Para</p><p>isso, é necessário que a equipe médica se disponha a trabalhar com equipes</p><p>multidisciplinares, visando garantir não só a saúde, como também a qualidade</p><p>de vida dos alunos internados.</p><p>Foi nesse contexto que surgiram as chamadas classes hospitalares. De acordo</p><p>com o MEC/SEE, a classe hospitalar diz respeito ao atendimento pedagógico edu-</p><p>cacional que acontece em ambientes relacionados a tratamento de saúde, seja por</p><p>ocasião de internação ou mesmo em atendimentos ambulatoriais, hospital-dia e</p><p>hospital-semana, ou, ainda, em serviços de atenção integral à saúde mental (BRA-</p><p>SIL, 2002). Para que esse atendimento ocorra, o MEC orienta que o atendimento</p><p>educacional nessas unidades precisa estar em consonância com os sistemas edu-</p><p>cacionais e vinculado com a organização pedagógica da unidade escolar.</p><p>Para que se desenvolva um trabalho adequado no ambiente hospitalar ou</p><p>outro de tratamento de saúde, é necessário que a instituição organize um espaço</p><p>adequado, contendo, pelo menos, uma sala para desenvolvimento das atividades</p><p>educativas, mobiliada e equipada com uma bancada e uma pia. É necessário,</p><p>também, instalações sanitárias adequadas e um espaço ao ar livre, no qual seja</p><p>possível a prática de atividades físicas e ludopedagógicas (BRASIL, 2002).</p><p>O MEC, ainda, orienta que é necessário considerar que muitos alunos, devido</p><p>às restrições próprias de sua condição de saúde, não terão condições de frequentar</p><p>tais salas ou ambientes adaptados. Nesse caso, eles devem ser atendidos em seus</p><p>leitos ou na enfermaria. Além da adequação do ambiente, é necessário disponibi-</p><p>lizar recursos e materiais didáticos e digitais que possibilitem aos alunos o desen-</p><p>volvimento das atividades determinadas, bem como materiais de uso do professor.</p><p>Por todas essas peculiaridades do atendimento educacional no ambiente</p><p>hospitalar, cada vez mais, tem-se estudado formas de sistematizar o atendimen-</p><p>to psicopedagógico nos hospitais. Entretanto, de acordo com Serra (2012), a</p><p>Psicopedagogia no âmbito hospitalar ainda é pouco trabalhada, pouco difun-</p><p>dida e, portanto, pouco conhecida. Ela tem como função trabalhar os processos</p><p>cognitivos e de aprendizagem de crianças e adolescentes em idade escolar que</p><p>se encontram afastados da escola, seja devido à hospitalização ou aos tratamen-</p><p>tos domiciliares por motivo de doença.</p><p>O profissional que atua nessa área é o psicopedagogo, o qual busca intervir</p><p>junto ao leito onde a criança ou adolescente se encontra, no intuito de reduzir as</p><p>UNICESUMAR</p><p>27</p><p>perdas que o afastamento da escola pode ocasionar. Ao desenvolver seu trabalho,</p><p>o psicopedagogo pode, também, trabalhar aspectos sociais e emocionais dessa</p><p>criança ou adolescente que se encontra fragilizado pela doença, visando capaci-</p><p>tá-lo para dar continuidade aos seus estudos quando estiver apto ao retorno</p><p>às</p><p>atividades escolares (SERRA, 2012).</p><p>É importante diferenciar, aqui, a função dos profissionais da Psicopedagogia,</p><p>Pedagogia e Psicologia. O psicopedagogo irá avaliar e intervir sobre as dificul-</p><p>dades de aprendizagem do paciente, buscando identificar se sua dificuldade está</p><p>relacionada à família, ao tratamento, à própria doença ou, até mesmo, ao retorno</p><p>à escola. O foco de sua atuação será a aprendizagem do paciente. Lima e Natel</p><p>(2010, p. 136) colocam que esse profissional “utilizará uma abordagem sistêmica</p><p>e levará em consideração o vínculo estabelecido do aluno com a instituição, o</p><p>impacto do tratamento no seu desempenho assim como a própria relação fami-</p><p>liar e também, após o período de internação, o seu retorno ao ambiente escolar”.</p><p>Já o pedagogo é o profissional responsável pela aplicação das atividades edu-</p><p>cacionais propostas para o paciente internado. Sua atuação está voltada, exclusi-</p><p>vamente, para as questões pedagógicas relacionadas ao currículo escolar, embora</p><p>ele, também, preocupe-se com o desenvolvimento de habilidades psíquicas, so-</p><p>ciais, afetivas e motoras do paciente (AZEVEDO; PALLADINO; FREIRE, 2019).</p><p>O psicólogo hospitalar, por sua vez, tem como objetivo auxiliar o paciente nas</p><p>questões emocionais envolvidas em seu processo de adoecimento, buscando mi-</p><p>nimizar o estresse e o sofrimento causado pela internação (CHIATTONE, 2011).</p><p>Trazendo a questão emocional, Costa (2015) afirma que que o hospital é gera-</p><p>dor de muitas emoções e sentimentos negativos, como tensão, medo, dor e angústia,</p><p>o que reforça a necessidade de um atendimento interdisciplinar que inclua o psico-</p><p>pedagogo. Para Amambahy (2013), a Psicopedagogia Hospitalar pode contribuir</p><p>muito para a melhoria da qualidade de saúde e autoestima de pacientes internados,</p><p>à medida que proporciona uma intervenção lúdica, humanizada estimulante em</p><p>relação à aprendizagem. A atuação do psicopedagogo traz o caráter humanizador</p><p>e afetivo para a atuação da equipe multidisciplinar, cria um elo entre as diversas</p><p>especialidades, promovendo a integração de novas ideias (MELLO, 2004).</p><p>Na visão de Costa (2012), os diversos profissionais que compõem a equi-</p><p>pe multidisciplinar, tais como médicos, enfermeiros, nutricionistas, fisiotera-</p><p>peutas, psicólogos e assistentes sociais, precisam estar em sintonia durante o</p><p>processo de internação, mas cada um deles pode atuar de forma direcionada,</p><p>UNIDADE 1</p><p>28</p><p>relacionando sua área com a necessidade de assistência ao paciente. O psicope-</p><p>dagogo tem a possibilidade de ver o paciente de forma integral, como alguém</p><p>com necessidades físicas, emocionais, afetivas, sociais e cognitivas. Por esse</p><p>motivo, a atuação do psicopedagogo, junto à equipe multidisciplinar, faz-se</p><p>necessária, pois ele intervirá nas questões relacionadas ao aspecto cognitivo de</p><p>uma forma holística, considerando os aspectos sociais, culturais e emocionais</p><p>relacionados à aprendizagem.</p><p>Para realizar sua intervenção com alunos que se encontram com implicações</p><p>de saúde, o psicopedagogo deve avaliar cada caso, considerando o contexto, as di-</p><p>ficuldades do aluno e as possibilidades do ambiente em que ele se encontra, bem</p><p>como as orientações da instituição de ensino ao qual o aluno está matriculado.</p><p>E tal avaliação precisa ser realizada em conjunto com a equipe multidisciplinar</p><p>que acompanha o caso.</p><p>Vamos fazer um exercício. Na sua percepção, como deve ser a avaliação do psicopedago-</p><p>go no ambiente hospitalar? Use sua criatividade e tudo que você já aprendeu sobre esse</p><p>ambiente e faça uma lista dos aspectos que precisam ser considerados nessa avaliação.</p><p>Depois, você poderá testar suas hipóteses na unidade em que abordaremos esse assunto.</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>Além de avaliar e propor uma intervenção adequada, o psicopedagogo precisa</p><p>acompanhar desde o início do período de afastamento até a saída do aluno da</p><p>classe hospitalar, de forma a assegurar que ele consiga retomar as atividades</p><p>pedagógicas, reinserindo-se nas esferas sociais, escolares e culturais sem pre-</p><p>juízos. Azevedo, Palladino e Freire (2019, p. 624) complementam que a atuação</p><p>desse profissional se torna relevante “para um olhar e uma escuta sensíveis,</p><p>buscando compreender a situação vivenciada pela criança e seus familiares,</p><p>que podem fazer possíveis os traumas pelo tempo de internação e pela mu-</p><p>dança em sua rotina”. Desta forma, é possível perceber como é o trabalho da</p><p>Psicopedagogia Hospitalar no Brasil. Embora ainda pouco conhecida, essa área</p><p>UNICESUMAR</p><p>29</p><p>de atuação vem ganhando espaço à medida que se mostra capaz de tratar os</p><p>processos de aprendizagem, os sociais, os de afetividade, entre outros, e fazendo</p><p>com que a criança ou adolescente em idade escolar possa se ressignificar e se</p><p>recolocar na sociedade, sem graves perdas ou prejuízos.</p><p>E como a Psicopedagogia pode ajudar?</p><p>Com o avanço da PNH, os hospitais passaram a enxergar demandas de atuação</p><p>de outros profissionais nas equipes de saúde, visando um olhar para o paciente</p><p>de forma integral. Bom, então, no que a Psicopedagogia pode ajudar? Talvez, com</p><p>as reflexões até aqui, você já tenha algumas ideias.</p><p>A psicopedagogia surgiu com o intuito de eliminar barreiras e obstáculos em</p><p>relação à aprendizagem, visando ao reconhecimento das capacidades do indiví-</p><p>duo. Seu objeto de estudo é o próprio processo de aprender, ou seja, seus desen-</p><p>volvimentos normal e patológico, considerando o contexto interno e externo ao</p><p>indivíduo e incluindo os aspectos cognitivos, afetivos e sociais próprios desse</p><p>processo (BOSSA, 2000). A psicopedagogia se ocupa do processo de aprendiza-</p><p>gem e tudo que o envolve. Nas palavras de Bossa (2000, p. 21),</p><p>“</p><p>[...] a Psicopedagogia preocupa-se com o problema da aprendiza-</p><p>gem, ocupando-se inicialmente com o processo como a mesma</p><p>ocorre. Estuda as características da aprendizagem humana; como</p><p>se aprende; como essa aprendizagem varia evolutivamente e está</p><p>condicionada por vários fatores, como se produz as alterações na</p><p>aprendizagem, como reconhecê-las, tratá-las e preveni-las.</p><p>O atendimento psicopedagógico pode ser preventivo ou terapêutico. O enfoque</p><p>preventivo leva em consideração o desenvolvimento normal e as alterações carac-</p><p>terísticas. O enfoque terapêutico diz respeito ao diagnóstico e ao tratamento de</p><p>dificuldades de aprendizagem. (BOSSA, 2000).</p><p>UNIDADE 1</p><p>30</p><p>Descrição da Imagem: a figura mostra um esquema que explica o objeto de estudo da Psicopedagogia.</p><p>Contém o seguinte título “O objeto de estudo da Psicopedagogia”. Abaixo deste, há a palavra “Apren-</p><p>dizagem”, em que saem duas setas desta. A primeira seta indica “Desenvolvimento normal (enfoque</p><p>preventivo)” e a segunda indica “Desenvolvimento normal (enfoque preventivo)”.</p><p>APRENDIZAGEM</p><p>ENFOQUE</p><p>PREVENTIVO</p><p>ENFOQUE</p><p>TERAPEUTICO</p><p>Desenvolvimento</p><p>normal</p><p>Desenvolvimento</p><p>patológico</p><p>Figura 1 - O objeto de estudo da psicopedagogia / Fonte: a autora.</p><p>Golbert (1985 apud YAEGASHI, 1998), também, fala sobre os enfoques pre-</p><p>ventivo e terapêutico. Preventivo no sentido de que considera o ser humano em</p><p>desenvolvimento, potencialmente educável; terapêutico porque busca identificar,</p><p>analisar e elaborar uma metodologia de diagnóstico e tratamento da dificuldade</p><p>apresentada pelo sujeito.</p><p>O psicopedagogo é o profissional habilitado para trabalhar com as questões</p><p>da aprendizagem. Ao falar sobre o caráter preventivo do trabalho deste profis-</p><p>sional, Bossa (2000) aponta que ele intervém nos processos educativos com o</p><p>intuito de diminuir a frequência dos problemas de aprendizagem, considerando</p><p>as questões didático-metodológicas do processo de ensino, atuando na formação</p><p>e orientação dos professores e, até mesmo, fazendo aconselhamento aos pais.</p><p>Comentando a colocação da autora, Yaegashi (1998) afirma que, a partir do</p><p>olhar sobre o processo educativo, o psicopedagogo elabora um plano de diag-</p><p>nóstico da instituição escolar e um plano de intervenção para diminuir e tratar</p><p>os problemas já instalados,</p><p>objetivando um trabalho com os professores para</p><p>prevenir novas ocorrências dos mesmos transtornos.</p><p>UNICESUMAR</p><p>31</p><p>Yaegashi (1998, p. 10) coloca, ainda, uma última atribuição do psicopedagogo,</p><p>que é “eliminar os transtornos já instalados, através de um procedimento clínico”.</p><p>A autora ressalta que, mesmo nesse nível, a intervenção continua com o caráter</p><p>preventivo, à medida que, ao eliminar um transtorno, previne-se o aparecimento</p><p>de outros. Macedo (1992 apud YAEGASHI, 1998), ao falar sobre as atribuições</p><p>do psicopedagogo, destaca:</p><p>■ A orientação de estudos.</p><p>■ O trabalho sobre os conteúdos escolares.</p><p>■ O atendimento de crianças deficientes ou comprometidas.</p><p>■ O desenvolvimento do raciocínio.</p><p>Sobre a orientação de estudos, o autor coloca que o psicopedagogo auxilia a</p><p>criança a organizar sua vida escolar:</p><p>“</p><p>[...] a ênfase do trabalho recai sobre a melhor forma de utilização do</p><p>tempo a ser dedicado a cada matéria, bem como sobre a organização</p><p>da agenda, do espaço para estudo e de todos os fatos relacionados ao</p><p>‘como estudar’, ou seja, como ler um texto, como escrever, como estu-</p><p>dar para a prova, etc. (MACEDO, 1992 apud YAEGASHI, 1998, p. 12).</p><p>Em relação à segunda atribuição, Macedo (1992 apud YAEGASHI, 1998) co-</p><p>menta que o psicopedagogo auxilia a criança nos conteúdos escolares em que</p><p>ela não está tendo um bom aproveitamento. Sobre o atendimento de crianças</p><p>deficientes ou comprometidas, o autor refere-se ao trabalho desenvolvido com</p><p>crianças autistas, deficientes intelectuais ou com outros comprometimentos gra-</p><p>ves, chegando a substituir o trabalho da escola.</p><p>Quanto ao desenvolvimento do raciocínio, este está relacionado com o desen-</p><p>volvimento dos processos de pensamento necessários ao ato de aprender. “Geral-</p><p>mente este trabalho é feito por intermédio de jogos, através dos quais o psicope-</p><p>dagogo intervém de modo a possibilitar à criança a construção de procedimentos</p><p>adequados à solução dos problemas situados no contexto do jogo” (MACEDO,</p><p>1992 apud YAEGASHI, 1998, p.12). Isto significa instrumentalizar o sujeito para</p><p>que ele possa lidar com a dificuldade que apresenta, utilizando, da melhor forma</p><p>possível, os recursos que possui. A experiência com o jogo faz com que a criança</p><p>perceba novas formas de ação, de resolução de problemas, de alternativas múltiplas.</p><p>UNIDADE 1</p><p>32</p><p>A chegada da Psicopedagogia no hospital: um</p><p>pouco de História</p><p>A preocupação com os problemas de aprendizagem começou a existir, desde</p><p>o século XIX, na Europa. Os primeiros estudiosos dos processos de aprendi-</p><p>zagem foram os filósofos, médicos e educadores (YAEGASHI, 1998). Inicial-</p><p>mente, a preocupação era compreender as deficiências sensoriais, os portado-</p><p>res de debilidade mental ou outros comprometimentos da aprendizagem. “Em</p><p>1898, o professor de Psicologia Edouard Claparède e o neurologista François</p><p>Neville introduziram nas escolas públicas da França as ‘classes especiais’, para</p><p>atendimento escolar às crianças com retardo mental. No campo da reeduca-</p><p>ção, este foi o primeiro registro de ação conjunta de médicos e educadores”</p><p>(YAEGASHI, 1998, p. 4).</p><p>Ainda, no final deste século, o educador Seguin e o médico Esquirol forma-</p><p>ram uma equipe para investigar os fatores neurológicos que influenciavam a</p><p>aprendizagem. Paralelamente, a psiquiatra italiana Maria Montessori desenvol-</p><p>veu um método de aprendizagem para crianças com retardo mental baseado na</p><p>estimulação sensorial.</p><p>Em meados do século XX, foram surgindo, na Europa e nos Estados Unidos,</p><p>escolas que se voltavam para o atendimento individual de crianças com apren-</p><p>dizagem lenta. Em 1930, surgiram, na França, os primeiros centros de orientação</p><p>educacional infantil, que contavam com equipes multidisciplinares. Os primei-</p><p>ros Centros Psicopedagógicos foram criados por J. Boutonier e George Mauco</p><p>na França, em 1946, que buscavam atender crianças com problemas escolares e</p><p>comportamentais e que, geralmente, apresentavam doenças crônicas, precisando,</p><p>também, de atendimento médico.</p><p>“</p><p>Os centros Psicopedagógicos possuíam equipes de médicos, psicó-</p><p>logos, psicanalistas, pedagogos e reeducadores de psicomotricida-</p><p>de. O médico era responsável pelo diagnóstico. Para realizá-lo, ele</p><p>examinava os resultados da investigação familiar, os métodos edu-</p><p>cativos e os resultados de testes de QI. Após o diagnóstico baseado</p><p>nestes dados, o médico prescrevia a orientação para o tratamento,</p><p>quer de reeducação, quer de terapia (YAEGASHI, 1998, p. 5).</p><p>UNICESUMAR</p><p>33</p><p>A partir das décadas de 60 e 70 na Europa e da década de 80 no Brasil, os pes-</p><p>quisadores começaram a considerar o aspecto social, levantando questões sobre</p><p>o papel da escola e da sociedade na aprendizagem. Nas duas últimas décadas,</p><p>começou, também, haver uma preocupação com a falta de preparo do professor</p><p>para o trabalho docente. Ao falar sobre esse assunto, Yaegashi (1998, p. 7) aponta</p><p>“a necessidade de os educadores adquirirem conhecimentos que lhes possibili-</p><p>tem compreender sua prática e os instrumentos necessários para promoverem</p><p>o sucesso escolar dos alunos”.</p><p>Calsa (2007) destaca que, atualmente, o objeto de estudo e o campo de atuação</p><p>da Psicopedagogia vêm se ampliando, passando a considerar, além dos processos</p><p>patológicos da aprendizagem, a influência do meio cultural e social em que o</p><p>sujeito está inserido (família, escola e sociedade).</p><p>“</p><p>Nesse sentido, o aprender e o não-aprender deixam de ser com-</p><p>preendidos como manifestações de processos de aprendizagem</p><p>diferenciados, e passam a ser entendidos como um processo único,</p><p>que assume caminhos diferentes em função da interação peculiar</p><p>que se estabelece entre as condições internas e externas ao sujeito</p><p>que aprende (CALSA, 2007, p. 82).</p><p>Concluindo, Yaegashi (1998) complementa que o surgimento da Psicopedago-</p><p>gia objetivou uma compreensão mais integrada do processo de aprendizagem,</p><p>agregando conhecimentos de várias áreas sem perder o foco no fator educativo e</p><p>em suas implicações sociais. Pelas nossas reflexões até aqui, você deve concordar</p><p>comigo que a hospitalização pode ser considerada uma barreira à aprendizagem,</p><p>certo? Nesse caso, o psicopedagogo pode ajudar muito nesse processo!</p><p>A psicopedagogia hospitalar aparece, em 2001, como uma proposta de atendi-</p><p>mento educacional vinculada ao sistema de saúde, objetivando garantir o suporte</p><p>psicopedagógico a crianças e adolescentes em idade escolar que se encontram</p><p>hospitalizados, prevenindo assim, os possíveis déficits na aprendizagem (AZE-</p><p>VEDO, PALLADINO E FREIRE, 2019). De acordo com Junior e Alves (2016),</p><p>a psicopedagogia surge como uma proposta de intervenção a ser incluída no</p><p>tratamento de doenças, visando minimizar os déficits no processo de ensino-</p><p>-aprendizagem de crianças e adolescentes em idade escolar por meio da interação</p><p>entre a escola, a família e o tratamento.</p><p>UNIDADE 1</p><p>34</p><p>De acordo com Nascimento (2004), a Psicopedagogia pode ser desenvolvida</p><p>em hospitais, tanto de forma clínica quanto em serviços hospitalares gerais. No</p><p>primeiro caso, tratam-se de serviços ambulatoriais vinculados a um hospital,</p><p>mas que não deixam de ser um atendimento psicopedagógico clínico. O segundo</p><p>refere-se ao atendimento psicopedagógico dentro do hospital, vinculado a outros</p><p>ambulatórios. Falaremos um pouco mais sobre cada um desses formatos ao longo</p><p>da nossa disciplina.</p><p>O atendimento psicopedagógico, porém, que queremos aprofundar aqui é</p><p>esse segundo formato: o atendimento dentro dos hospitais. O serviço de psicope-</p><p>dagogia no hospital geral, pode ter o caráter clínico, institucional ou de pesquisa.</p><p>Responde a uma demanda clínica quando trabalha com os problemas de saúde</p><p>que podem se tornar causa de problemas de aprendizagem, ou seja,</p><p>“</p><p>[...] quando objetiva verificar o que e como os problemas de saúde</p><p>levam a dificuldades na aprendizagem; quando auxilia o paciente a</p><p>acomodar a nova situação, oportunizando-lhe a expressão de seus</p><p>sentimentos</p><p>e oferecendo-lhe apoio; quando realiza intervenções</p><p>psicossociais aos internados e à equipe, via participação em grupos</p><p>de apoio (NASCIMENTO, 2004, p. 53).</p><p>O trabalho do psicopedagogo é de pesquisa quando o profissional busca investi-</p><p>gar as causas de uma determinada dificuldade ou distúrbio de aprendizagem ou,</p><p>ainda, quando há necessidade de produção de material educativo. E é institucio-</p><p>nal quando as atividades estão relacionadas a questões específicas do contexto</p><p>hospitalar não, diretamente, ligadas à aprendizagem do indivíduo, tais como:</p><p>“</p><p>[...] a classe hospitalar; o trabalho de inclusão escolar de crianças</p><p>pós-hospitalizadas; a observação do desenvolvimento infantil como</p><p>um todo; o fomento no paciente à adesão ao tratamento clínico; a</p><p>participação em programas de atendimento integral à saúde (...);</p><p>atividades ocupacionais; a discussão de casos clínicos com a equipe</p><p>(NASCIMENTO, 2004, p. 53).</p><p>UNICESUMAR</p><p>35</p><p>Serviços hospitalares gerais - clínica, pesquisa</p><p>e institucional</p><p>Serviços hospitalares gerais</p><p>Clínica Pesquisa Institucional</p><p>como os problemas de</p><p>saúde levam a dificuldades</p><p>de aprendizagem</p><p>causas que determinam</p><p>as dificuldades e produção</p><p>de material educativo</p><p>educação sobre rotinas,</p><p>inclusão escolar pós-internação,</p><p>adesão ao tratamento,</p><p>discussão de casos clínicos</p><p>Figura 2 - A Psicopedagogia no Hospital Geral / Fonte: adaptada de Nascimento (2004).</p><p>Ao falar sobre as diferentes formas de intervenções psicopedagógicas e quais as</p><p>demandas na área de saúde, a psicopedagoga Maria Irene (p. 10-11), em entre-</p><p>vista durante o evento Psicopedagógico Sedes Sapientiae, realizado em agosto</p><p>de 2007, explica que:</p><p>“</p><p>A Psicopedagogia Hospitalar consiste em avaliações e intervenções</p><p>no contexto de saúde, levando em conta o processo de aprendi-</p><p>zagem que engloba, o desenvolvimento e o uso de uma série de</p><p>competências, tanto físicas, como mentais e emocionais. Trata-se de</p><p>um modo de intervenção institucional e também clínica, levando</p><p>em conta diferentes contextos diferenciados a seguir:</p><p>Descrição da Imagem: a figura, intitulada “Serviços hospitalares gerais - clínica, pesquisa e institucio-</p><p>nal”, mostra os serviços desenvolvidos pelo psicopedagogo dentro dos hospitais. Abaixo do título, há a</p><p>descrição desses serviços. O serviço prestado no âmbito Clínico é a identificação de como os problemas</p><p>de saúde levam a dificuldades de aprendizagem. No âmbito da Pesquisa, temos a produção de material</p><p>educativo e investigação das causas que determinam as dificuldades de aprendizagem. E, por fim, no</p><p>âmbito Institucional, temos o serviço de orientação sobre rotinas, inclusão escolar pós-internação, adesão</p><p>ao tratamento e discussão de casos clínicos.</p><p>UNIDADE 1</p><p>36</p><p>• Suporte psicopedagógico à Instituição de saúde como um todo e</p><p>com a equipe de profissionais, com construções de projetos e atua-</p><p>ções em grupo para evitar a fragmentação do conhecimento e pro-</p><p>mover trocas entre os especialistas, propiciando a integração das</p><p>disciplinas no âmago de um mesmo projeto de trabalho;</p><p>• Orientação ao paciente hospitalizado, com o objetivo de trabalhar</p><p>não só os conhecimentos básicos, apesar da importância de se cui-</p><p>dar do não afastamento destes pacientes do mundo acadêmico. É</p><p>importante, no entanto, focalizar o trabalho no desenvolvimento das</p><p>competências de natureza psicossociais para que o paciente se habili-</p><p>te como agente ativo do seu próprio processo de tratamento, recupe-</p><p>ração e promoção de sua saúde. Pode ser realizada em grupo, como o</p><p>que se verifica nas chamadas classes hospitalares, ou individualmente;</p><p>• Suporte à família, profissionais e acompanhantes que permitem a ins-</p><p>talação e o resgate das potencialidades de parentes, e cuidadores, na</p><p>estimulação dos enfermos em suas habilidades cognitivas e afetivas.</p><p>Junior e Alves (2016) afirmam que o psicopedagogo hospitalar pode ser um im-</p><p>portante elo de ligação entre o paciente e sua família bem como escola e amigos,</p><p>auxiliando no enfrentamento das dificuldades decorrentes da internação. Na</p><p>visão dos autores, esse profissional é o mais adequado para atuar com as dificul-</p><p>dades no processo de aprendizagem decorrentes da doença. Ressaltam que “o re-</p><p>ferido profissional deve estar, diretamente, sintonizado com a escola do paciente,</p><p>permitindo que o vínculo escola-hospital o auxilie, o aluno, em seu processo de</p><p>aprendizagem escolar” (JUNIOR; ALVES, 2016, p. 65). A Psicopedagogia Hospita-</p><p>lar é, ainda, muito recente, por isso, precisamos nos aprofundar no tema e ajudar</p><p>a escrever esse capítulo na história da Psicopedagogia.</p><p>Até aqui, falamos sobre algumas características e consequências da rotina</p><p>do hospital, sobre a Política Nacional de Humanização e sobre a entrada do psi-</p><p>copedagogo no hospital. Resgatando as histórias citadas no início da unidade, é</p><p>possível compreender a importância e necessidade de atuação de um profissional</p><p>de psicopedagogia naquele ambiente. O psicopedagogo pode auxiliar no alívio da</p><p>angústia das crianças em permanecer naquele ambiente, proporcionando ativida-</p><p>des de lazer e estudo, para que ela permaneça ativa, auxiliando na compreensão</p><p>da rotina hospitalar bem como na orientação dos familiares sobre formas de</p><p>estabelecer algum tipo de contato entre as pessoas que são importantes para a</p><p>criança, mas que não podem estar com ela nesse momento.</p><p>37</p><p>AGORA É COM VOCÊ</p><p>Agora é a sua vez! Para sintetizar as ideias até aqui, elabore um mapa conceitual com as</p><p>principais informações trabalhadas nesse capítulo.</p><p>38</p><p>CONFIRA SUAS RESPOSTAS</p><p>PSICOPEDAGOGIA HOSPITALAR</p><p>Surge a partir da PHN</p><p>(foi fortalecida)</p><p>Atende a demandas e dificuldades</p><p>decorrentes da rotina do hospital</p><p>Surge da psicopedagogia</p><p>Preventiva ou terapêutica Clínica, institucional</p><p>ou de pesquisa</p><p>MEU ESPAÇO</p><p>MEU ESPAÇO</p><p>UNIDADE 2</p><p>44</p><p>“</p><p>“Pesquisadora: Você ia dizendo que ficava triste porque não</p><p>podia fazer tudo. O que não podia fazer?</p><p>Antônio Carlos: o que uma criança normal faz: correr, brincar,</p><p>jogar bola… Você passa vontade” (VASQUES, 2007, p. 135).</p><p>Anderson, de 17 anos, também queixa-se da impossibilidade de fazer as coisas que</p><p>gosta. Relatou à pesquisadora que esta é a pior parte de estar internado. “Pesquisa-</p><p>dora: E o que tem de pior em tudo isso? Anderson: Ficar aqui sem fazer muita</p><p>coisa. De vez em quando, desço, dou uma volta lá embaixo, mas é só. Não gosto</p><p>muito de estudar, mas até disso estou sentindo falta” (VASQUES, 2007, p. 188).</p><p>Essas falas, carregadas de emoção, trazem-nos uma demanda: como amenizar</p><p>a dor e a frustração da internação para crianças e adolescentes? Como os hospitais</p><p>têm trabalhado com essa demanda e que aspectos devem ser considerados na</p><p>elaboração de uma atividade lúdica e de aprendizagem nesse contexto?</p><p>Como já vimos na Unidade 1, o hospital tem suas rotinas próprias, horário de</p><p>medicações, visitas de profissionais da saúde, procedimentos muitas vezes dolorosos,</p><p>regras de visitas, entre outras coisas, isto é, uma rotina que tira a criança e o ado-</p><p>lescente das atividades que lhe são próprias: o estudo e o brincar. Por isso, é preciso</p><p>pensar em formas de oportunizar a esses pacientes a manutenção de tais atividades.</p><p>É possível notar nos relatos que o brincar e o estudar são necessários à criança e ao</p><p>adolescente, são atividades que os ajudam a se sentir melhor. Estudar e brincar faz</p><p>parte de sua natureza e favorece seu desenvolvimento, além de promover o alívio da</p><p>dor física e emocional. Procure um profissional de saúde que atue com crianças na</p><p>área hospitalar e faça uma entrevista, abordando os seguintes tópicos:</p><p>- A instituição em que você atua oferece alguma atividade para crianças e</p><p>adolescentes hospitalizados?</p><p>- Essas atividades (se existentes) são efetivas para a melhora do paciente?</p><p>- Se sim, você percebe diferença entre as crianças que participam dessas ati-</p><p>vidades e as que não participam?</p><p>- Na sua percepção, qual a importância de atividades recreativas e</p><p>educacio-</p><p>nais para crianças hospitalizadas?</p><p>Você pode acrescentar outros questionamentos que sejam do seu interesse</p><p>ou, ainda, levantar outros pontos a partir das respostas do seu entrevistado. Re-</p><p>flita como foi a experiência da entrevista. Nem todas as instituições hospitalares</p><p>oferecem serviços de atendimento à aprendizagem e ao lúdico para a criança</p><p>UNIDADE 2</p><p>46</p><p>Você consegue imaginar como seria atender a uma criança com uma doença crônica ou</p><p>mutilada? Imagine como você reagiria diante da situação, do sofrimento dessa criança</p><p>e de sua família. Que aspectos você, como psicopedagogo(a), deveria considerar nesses</p><p>casos? E que habilidades isso exigiria de você enquanto profissional?</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>cio, já se considerava importante não só as atividades escolares, mas também a</p><p>interação e a socialização que também estão intimamente relacionadas à função</p><p>da educação na vida da criança.</p><p>As autoras explicam que não é só a escolarização que é necessária. É preciso,</p><p>também, oportunizar aos pacientes em idade escolar atividades de interação com</p><p>os pares e recreativas. Tais atividades são próprias da natureza das crianças e, por</p><p>isso, auxiliarão a amenizar o sofrimento do processo de doença e da internação.</p><p>Além dos aspectos educativos no sentido estrito da escolarização, a criança</p><p>ou adolescente hospitalizado precisa se ocupar com outras atividades, precisa</p><p>interagir, se divertir, brincar para que seu estado não piore e para que possa supe-</p><p>rar esse processo de internação, que conforme já dito, muitas vezes é traumático</p><p>(OLIVEIRA; SILVA; FANTACINI, 2016, p. 92-93).</p><p>Junior e Alves (2016) complementam que a classe hospitalar surgiu da neces-</p><p>sidade de atender as crianças que passavam por longos períodos de tratamento</p><p>devido à tuberculose. E esse formato de atendimento passou a ser debatido e</p><p>ampliado após a Segunda Guerra Mundial, que impossibilitou milhares de crian-</p><p>ças de frequentarem as escolas regulares devido a sequelas graves e mutilações.</p><p>Como vimos na unidade anterior, a classe hospitalar surgiu como uma modali-</p><p>dade de educação inclusiva, visando à garantia do direito à Educação sem pre-</p><p>juízos à aprendizagem da criança ou adolescente hospitalizado. Dessa forma,</p><p>podemos dizer que a classe hospitalar é o primeiro modelo de atendimento em</p><p>psicopedagogia hospitalar. Conforme apontam Junior e Alves (2016, p. 64), “a psi-</p><p>copedagogia hospitalar aparece como uma proposta a ser inclusa no ambiente de</p><p>tratamento de enfermidades, permitindo que o indivíduo não obtenha déficits no</p><p>seu processo de ensino-aprendizagem, interligando escola, família e tratamento”.</p><p>Cabe aqui, explorarmos, novamente, a diferença entre a atuação do pedagogo</p><p>UNICESUMAR</p><p>47</p><p>e a do psicopedagogo no contexto hospitalar. O pedagogo é o educador, é o pro-</p><p>fissional que aplicará as atividades propostas para o aluno. Seu foco de atuação</p><p>é a aprendizagem e o desenvolvimento do aluno (paciente), tendo em vista o</p><p>período evolutivo e série em que se encontra. A atuação do psicopedagogo vai</p><p>além. Compreende o planejamento dessas atividades, considerando a presença</p><p>de crianças de diferentes faixas etárias, a rotina do hospital, os recursos disponí-</p><p>veis. O psicopedagogo, também, irá se ocupar das dificuldades que a condição da</p><p>doença ou as especificidades do tratamento impõe à criança ou ao adolescente,</p><p>buscando formas de intervir no intuito de minimizar os prejuízos dessas dificul-</p><p>dades. Além disso, também, será responsável pelo contato com a escola e família</p><p>bem como pelo envolvimento de toda equipe multiprofissional nas intervenções.</p><p>Conforme destacam Azevedo, Palladino e Freire (2019, p. 628),</p><p>“</p><p>[...] a atuação do psicopedagogo segue uma tendência ao enfoque</p><p>multidisciplinar e a um trabalho integrado com as famílias, con-</p><p>siderando uma abordagem sistêmica. A sua atuação se difere do</p><p>atendimento pedagógico da classe hospitalar, que se dirige apenas</p><p>às questões pedagógicas voltadas ao currículo escolar. O psicope-</p><p>dagogo desenvolve um trabalho mais amplo que envolve aspectos</p><p>afetivos, cognitivos e sociais.</p><p>As classes hospitalares, nos hospitais, não acontecem sempre da mesma forma, cada</p><p>instituição tem autonomia para organizar esse atendimento de acordo com as pos-</p><p>sibilidades da Escola e Hospital. No entanto Lima e Natel (2010) apontam algumas</p><p>orientações que devem ser consideradas neste formato de intervenção. É preciso,</p><p>inicialmente, compreender que o atendimento da classe hospitalar é muito diferente</p><p>da classe escolar regular. Vejamos algumas diferenças, segundo Lima e Natel (2010):</p><p>Diferença de atuação do pedagogo, do psicólogo e</p><p>do psicopedagogo na área hospitalar</p><p>É muito difícil determinar a diferença de atuação do pedago-</p><p>go, do psicólogo e do psicopedagogo na área hospitalar, não</p><p>é mesmo? Para entender melhor essa diferença, faremos um</p><p>exercício prático, um breve estudo de caso para exemplificar</p><p>como seria a atuação de cada profissional. Confira no vídeo!</p><p>UNIDADE 2</p><p>48</p><p>■ Na classe hospitalar, existem alunos de séries diferentes, pois é uma sala</p><p>única na qual todos as crianças internadas podem participar das atividades.</p><p>■ A quantidade de alunos no dia varia conforme a demanda. As crianças</p><p>podem estar internadas hoje e saírem no dia seguinte, ou podem estar em</p><p>procedimentos ou exames, ou mesmo podem não se sentir bem naquele</p><p>momento da atividade e não estarem dispostas a participar.</p><p>■ Não há uma regularidade na frequência dos alunos, devido à própria</p><p>rotina do hospital. Nesse sentido, toda atividade planejada deve iniciar e</p><p>terminar no mesmo período.</p><p>■ O local onde as atividades são realizadas depende dos espaços disponíveis</p><p>na instituição e da condição da criança. Em muitos hospitais, existe uma</p><p>brinquedoteca, mas tem casos em que a atividade precisa ser realizada no</p><p>próprio leito do aluno devido à sua condição de saúde.</p><p>Barros ([s. d.] apud LIMA; NATEL, 2010) ressalta que a classe hospitalar pode</p><p>ser caracterizada como um grupo aberto de estrutura dinâmica. No entanto o</p><p>profissional à frente dessa atividade precisa elaborar um programa com temas</p><p>norteadores da prática pedagógica. Tal planejamento deve considerar as fases</p><p>do desenvolvimento das crianças que serão atendidas, ou seja, é preciso conhe-</p><p>cer as crianças para desenvolver atividades que sejam significativas para cada</p><p>uma delas individualmente.</p><p>O profissional que atua nesse serviço, também, deve estar atento a motivação das</p><p>crianças e buscar sempre estratégias de estimular o aluno a participar das atividades,</p><p>pois, muitas vezes, ele pode sentir-se indisposto e desanimado devido ao quadro da</p><p>doença. Também, é importante ter flexibilidade, uma vez que a atividade pode ser</p><p>interrompida, frequentemente, por diversos eventos próprios da rotina hospitalar.</p><p>Fonseca ([s. d.] apud LIMA e NATEL, 2010, p. 132) ressalta que essas interrupções</p><p>“</p><p>[...] poderiam ser consideradas como uma interferência, mas de-</p><p>vem ser compreendidas como uma dinâmica do cotidiano da</p><p>Classe Hospitalar. O profissional deve aproveitar cada momento</p><p>vivenciado como ganchos para dinamizar ou re-estruturar a ati-</p><p>vidade, abrindo uma nova janela para o interesse do aluno e seu</p><p>desempenho frente às atividades em desenvolvimento.</p><p>UNICESUMAR</p><p>49</p><p>O planejamento das atividades da classe hospitalar deve contemplar uma</p><p>programação com início, meio e fim no mesmo dia, pois a rotatividade das crian-</p><p>ças nesse ambiente não pode ser controlada pelo educador. Por exemplo, uma</p><p>criança pode participar da atividade por apenas um dia, seja por agravamento</p><p>de seu quadro clínico ou por ter recebido alta. Nesse sentido, é necessário que o</p><p>profissional consulte o prontuário da criança antes de planejar a atividade a ser</p><p>desenvolvida. Conforme apontam Lima e Natel (2010, p. 132), “o profissional de-</p><p>verá ler o prontuário de cada criança internada para ter conhecimento da situação</p><p>real e ter tempo hábil para fazer qualquer tipo de adequação</p><p>em seu planejamen-</p><p>to”. De acordo com o documento Classe Hospitalar e Atendimento Pedagógico</p><p>Domiciliar publicado pelo MEC em 2002, as classes hospitalares são ambientes</p><p>“</p><p>[...] projetados com o propósito de favorecer o desenvolvimento e</p><p>a construção do conhecimento para crianças, jovens e adultos, no</p><p>âmbito da educação básica, respeitando suas capacidades e neces-</p><p>sidades educacionais especiais individuais. Uma sala para desen-</p><p>volvimento das atividades pedagógicas com mobiliário adequado</p><p>e uma bancada com pia são exigências mínimas. Instalações sani-</p><p>tárias próprias, completas, suficientes e adaptadas são altamente</p><p>recomendáveis e espaço ao ar livre adequado para atividades físicas</p><p>e ludo-pedagógicas (BRASIL, 2002, p. 15-16).</p><p>Tal documento foi publicado no intuito de estruturar o atendimento escolar em</p><p>ambiente hospitalar. O texto estabelece que o atendimento ao aluno não ocorre</p><p>somente no espaço da classe hospitalar, mas nos outros ambientes do hospital,</p><p>conforme a necessidade da criança atendida:</p><p>“</p><p>Além de um espaço próprio para a classe hospitalar, o atendimento</p><p>propriamente dito poderá desenvolver-se na enfermaria, no leito ou</p><p>no quarto de isolamento, uma vez que restrições impostas ao edu-</p><p>cando por sua condição clínica ou de tratamento assim requeiram.</p><p>O atendimento pedagógico poderá também ser solicitado pelo am-</p><p>bulatório do hospital onde poderá ser organizada uma sala especí-</p><p>fica da classe hospitalar ou utilizar-se os espaços para atendimento</p><p>educacional (BRASIL, 2002, p.15).</p><p>UNIDADE 2</p><p>50</p><p>Lima e Natel (2010), também, comentam sobre a questão do ambiente em que</p><p>ocorrem as atividades da classe hospitalar. Ressaltam que a escolha do local de-</p><p>penderá dos recursos que a instituição pode disponibilizar.</p><p>“</p><p>Em alguns casos, o hospital dispõe de um leito desativado ou um es-</p><p>paço inutilizado para que uma estrutura com mesa e cadeiras possa</p><p>ser montada; em outros a brinquedoteca é o local disponibilizado,</p><p>Mas, conforme a realidade, poderá acontecer o acompanhamento</p><p>na enfermaria, no próprio leito, em um refeitório ou outro local em</p><p>que haja uma mesa e uma cadeira (LIMA; NATEL, 2010, p. 133).</p><p>A disponibilização dos recursos pode ser um indício de como a instituição hos-</p><p>pitalar vê essa oferta de atividades lúdicas e pedagógicas nesse ambiente. A falta</p><p>de um local adequado ou a precariedade de recursos pode demonstrar a falta de</p><p>envolvimento da equipe de saúde com esses aspectos. O psicopedagogo precisa</p><p>estar atento a essa demanda, conhecer bem o ambiente e a equipe, para identificar</p><p>necessidades e possibilidades de atuação. Ferreira (2011) coloca que o psicope-</p><p>dagogo precisa compreender toda a complexidade do hospital.</p><p>“</p><p>Desenvolver sua atividade profissional em um hospital signifi-</p><p>ca estar presente, em todos os sentidos, e atento a tudo e todos os</p><p>acontecimentos. É preciso que esse profissional veja, por si mesmo,</p><p>esclareça pessoalmente os fatos, indague, e procure ter uma visão</p><p>pessoal e intransferível daquilo que o próprio paciente está viven-</p><p>ciando. Equivale a dizer que ele deve circular pelo hospital para</p><p>conhecer, in loco, o trabalho de seus colegas de equipe e para tentar</p><p>compreender suas rotinas, e seus horários (FERREIRA, 2011, p. 57).</p><p>Isso significa que o psicopedagogo precisa atuar junto à equipe multiprofissional.</p><p>Ferreira (2011) pontua que o profissional precisa criar um espaço para que haja</p><p>troca de saberes entre os diferentes profissionais da equipe. Vale ressaltar que os</p><p>profissionais da área de saúde têm outro foco de atuação, ou seja, sua preocupa-</p><p>ção é com a doença, a cura, o tratamento, a reabilitação do paciente. O brincar</p><p>UNICESUMAR</p><p>51</p><p>e a educação, dificilmente, estarão no centro de atenção desses profissionais, até</p><p>pela formação profissional de cada um: médicos, enfermeiros, técnicos de saúde.</p><p>E cabe, aqui, uma reflexão: como poderia ser diferente? É preciso lembrar que</p><p>eles foram formados para isso.</p><p>Ferreira (2011) coloca que a questão da humanização não é uma tarefa fácil. É</p><p>um processo, ainda, em construção. E, embora os cuidados humanizados estejam,</p><p>cada vez mais, presentes, na maioria das vezes, os pacientes continuam sendo um</p><p>número, uma patologia. Por isso, é preciso que o psicopedagogo tome a iniciativa,</p><p>que sua ação possa resgatar a singularidade de cada sujeito.</p><p>“</p><p>Nesse sentido, o trabalho psicopedagógico torna-se grande aliado</p><p>do processo de humanização, pois poderá ressignificar o contexto</p><p>hospitalar, não apenas como um cenário frio, hostil, asséptico, mas</p><p>como um espaço em que a vida acontece; numa perspectiva de edu-</p><p>cação que a fertilize, pois o desejo de aprender/conhecer enquadra</p><p>o desejo de viver do ser humano (FERREIRA, 2011, p. 52).</p><p>Ter a iniciativa significa que o profissional deve mostrar como seu trabalho pode</p><p>contribuir para a melhora do paciente e da instituição como um todo. Quem</p><p>conhece sobre o desenvolvimento humano no aspecto da aprendizagem é o pro-</p><p>fissional dessa área, então, cabe a ele a conscientização das equipes sobre a im-</p><p>portância desse trabalho. Mas é preciso ter claro que o ambiente hospitalar já tem</p><p>suas próprias regras, normas e valores, ou seja, o psicopedagogo precisa ter claro</p><p>que a prioridade nesse ambiente é a recuperação da saúde, e não a educação. Nesse</p><p>sentido, seu planejamento deve considerar e respeitar, primeiro, o tratamento, de</p><p>forma que as atividades propostas contribuam para o bom desenvolvimento do</p><p>trabalho da equipe médica e recuperação do paciente, e não para atrapalhar a</p><p>rotina e tratamentos que precisam ser realizados nesse ambiente.</p><p>O documento Classe Hospitalar e Atendimento Pedagógico Domiciliar, tam-</p><p>bém, orienta sobre a disponibilidade de recursos para atendimento e intervenção</p><p>escolar nas classes hospitalares. É preciso que a instituição hospitalar ofereça meios</p><p>para o planejamento, desenvolvimento e avaliação das atividades desenvolvidas,</p><p>bem como para a manutenção do vínculo entre o aluno e a instituição escolar.</p><p>UNIDADE 2</p><p>52</p><p>“</p><p>Nas classes hospitalares, sempre que possível, devem estar disponi-</p><p>bilizados recursos audiovisuais, como computador em rede, televi-</p><p>são, vídeo-cassete, máquina fotográfica, filmadora, videokê, antena</p><p>parabólica digital e aparelho de som com CD e k7, bem como tele-</p><p>fone, com chamada a ramal e linha externa. Tais recursos se fazem</p><p>essenciais tanto ao planejamento, desenvolvimento e avaliação do</p><p>trabalho pedagógico, quanto para o contato efetivo da classe hospi-</p><p>talar, seja com a escola de origem do educando, seja com o sistema</p><p>de ensino responsável por prover e garantir seu acesso escolar. Da</p><p>mesma forma, a disponibilidade desses recursos propiciará as condi-</p><p>ções mínimas para que o educando mantenha contato com colegas</p><p>e professores de sua escola, quando for o caso (BRASIL, 2002, p.15).</p><p>É notável a diferença entre a citação anterior e esse parágrafo. Ressalto aqui que</p><p>essa disponibilidade de recursos não é a realidade na maioria das instituições hos-</p><p>pitalares. No entanto a falta de recursos não pode ser um impedimento para o</p><p>atendimento de crianças e adolescentes hospitalizados. Por isso, é preciso que o pro-</p><p>fissional tenha flexibilidade e capacidade de lidar com as dificuldades que surgirem.</p><p>Conforme ressaltam Lima e Natel (2010, p. 133), é necessária “uma boa habilidade</p><p>de adaptação, sensibilidade e disposição para contribuir com seu trabalho para</p><p>uma melhora - muitas vezes sutil - do quadro clínico de uma criança hospitalizada”.</p><p>Veja que atuar, como psicopedagogo, na área hospitalar exigirá de você não só conheci-</p><p>mento, mas também uma série de habilidades… Vamos levantar algumas:</p><p>• Comunicação.</p><p>• Trabalho em equipe.</p><p>• Flexibilidade.</p><p>• Iniciativa.</p><p>• Criatividade.</p><p>• Resolução de problemas, entre outras.</p><p>Quais dessas habilidades você já possui e quais, ainda, considera que precisa desenvolver?</p><p>PENSANDO JUNTOS</p><p>A classe hospitalar é o modelo de atendimento mais comum nos</p>

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