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65 4 Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento Erika Cristine Kneib Licinio da Silva Portugal Resumo Este capítulo pretende caracterizar e contextualizar a acessibilidade, bem como indicar suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento das cidades e metrópoles. Pretende também realçar que o conceito de acessibilidade, ao explicitar a integração entre trans- porte e uso do solo, tem sido visto como um instrumento de promoção da mobilidade sustentável não só no âmbito local mas para todo o território. Por fi m, intenciona-se indicar a tendência de abordagens valorizando o uso da acessibilidade no planejamento, destacando as escalas espaciais e a formulação de estratégias que infl uenciem escolhas na programação de viagens comprometidas com a mobilidade sustentável. Palavras-chave : acessibilidade , mobilidade sustentável , desenvolvimento , escalas territoriais , integração , transporte e uso do solo. 4.1. Caracterização da acessibilidade A acessibilidade é um conceito amplo e antigo. Mesmo quando usado nas áreas de trans- porte e de planejamento urbano apresenta diferentes defi nições, que variam de acordo com o objetivo do estudo, com a natureza do fenômeno, ou com a escala que está em análise. Essa variação pode ser observada no Quadro 4.1 , que traz alguns exemplos das defi nições utilizadas em estudos sobre acessibilidade. Ou seja, a acessibilidade, apesar de estar conectada a uma série de fatores, depende fundamentalmente da articulação entre os transportes e o uso do solo. Segundo Levinson (2012) , a acessibilidade combina a qualidade do serviço, a capacidade e a confi guração da rede de transportes com as atividades existentes e sua distribuição espacial, indicando um “ trade-off ” entre estes fatores. Nesse sentido, o planejamento do uso do solo e dos transportes, de maneira interativa, envolve pensar no planejamento da acessibilidade ( Cascetta et al., 2013 ), pois esta se refere à facilidade com que atividades urbanas podem ser alcançadas a partir de determinada origem ou por determinados indivíduos em dada localidade ( Levinson, 2012 ; Litman, 2016). C0020.indd 65C0020.indd 65 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 66 Nesses elementos — transportes e uso do solo — é possível, aos planejadores e ges- tores urbanos, mais direta e efetivamente intervir e contribuir para o desenvolvimento da cidade ou metrópole, neste caso entendido como a melhoria de aspectos qualitativos e quantitativos da localidade em questão. Dessa forma, a habilidade da acessibilidade em conceber estratégias que integram transportes e uso do solo tem sido considerada como um dos principais instrumentos de promoção da mobilidade sustentável. A fi m de valorizar esta função da acessibilidade de integração dos transportes com o uso do solo, sua defi nição tende a enfatizar a facilidade de alcance de atividades e não de destinos. Até porque, dependendo do propósito da viagem, podem haver diferentes destinos para que tal atividade seja realizada, cuja escolha será infl uenciada pelas condições de acessibilidade associadas a cada um deles. Sendo assim, o conceito adotado neste livro defi ne acessibilidade como a facilidade de alcançar atividades , que reforça seu papel de articulação entre transportes e uso do solo. Também porque defi ne o destino como uma das escolhas a serem contempladas na programação das viagens e que pode ser infl uenciada pela condição da própria aces- sibilidade. Consequentemente, esta facilidade, fruto da fricção ou impedância vinculada à acessibilidade, pode ser determinada por estratégias direcionadas ao transporte e uso do solo, voltadas para aumentar (ou não) tal impedância, com vistas a favorecer (ou não) as modalidades sustentáveis (ou não sustentáveis). Quadro 4.1 Defi nições de acessibilidade Hansen (1959) Potencial de oportunidades de interação. Medida de distribuição espacial das atividades em relação a um ponto, ajustadas à habilidade e desejo das pessoas ou fi rmas em superar a separação espacial. Ingram (1971) Característica (ou vantagem) inerente a um lugar com relação à superação de alguma forma de fricção que se verifi ca espacialmente (tempo e/ou distância). Dalvi e Martin (1976) Facilidade com que qualquer atividade pode ser alcançada a partir de um local, a partir de um determinado sistema de transporte. Jones (1981) Oportunidade ou potencial para que diferentes tipos de pessoas desenvolvam suas atividades. Esse potencial ou oportunidade é disponibilizado pelo sistema de transporte e uso do solo. Handy e Niemeier (1997) Determinada pela distribuição espacial de potenciais destinos, a facilidade de alcançá-los e a quantidade, qualidade e natureza das atividades encontradas em cada um deles. Cheng et al . (2007) Facilidade de se alcançar atividades ou lugares de forma efi ciente e conveniente, dependendo, para isso, dos transportes e/ou da proximidade das atividades, ou de ambos, em conjunto. Curl et al . (2011) Capacidade de as pessoas alcançarem destinos. Levinson (2012) e Parthasarathi (2014) Facilidade de alcançar destinos ou atividades. Jean-Paul Rodrigue (2013) Capacidade de um lugar alcançar ou ser alcançado por diferentes localidades. Rubulotta et al . (2013) Facilidade de alcançar oportunidades (atividades e destinos, bens e serviços). Litman (2016) Facilidade de atingir bens, serviços, atividades e destinos, que juntos são chamados de oportunidades. Consiste no objetivo fi nal do sistema de transporte. C0020.indd 66C0020.indd 66 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 67 Além dos transportes e das atividades que confi guram o uso do solo, Abley e Halden (2013) acrescentam o objeto do deslocamento que demanda a acessibilidade: se pes- soas ou cargas. Halden (2002) ainda inclui a natureza da acessibilidade, se segue a lógica individual (ou de segmentos socioeconômicos) ou locacional. Neste livro, o foco será na acessibilidade das pessoas (e não das cargas) e associada a localidades em suas diferentes escalas territoriais com base na atividade a ser realizada . Ressalta-se, entretanto, a relevância da acessibilidade de carga e do planejamento de sua mobilidade em áreas urbanas e metropolitanas, que, pela sua amplitude, exigem um tratamento mais aprofundado, o que poderia justifi car uma outra publicação específi ca sobre este tema ( Abreu, 2015 ). Se a defi nição e a conceituação da acessibilidade abrangem uma certa complexidade, o mesmo se reproduz na sua contextualização e caracterização. 4.2. Contextualização da acessibilidade A partir da acessibilidade conceituada e delimitada na seção anterior, os diferentes elementos que compõem este conceito são organizados e relacionados esquematicamente na Figura 4.1 , 3 dos quais são realçados: transportes, uso do solo e escalas espaciais ou territoriais. 4.2.1. Transporte Compreende as infraestruturas e serviços destinados a atender as necessidades de des- locamento da população por meio de diferentes modalidades motorizadas e não moto- rizadas. De acordo com a Lei Federal de Mobilidade Urbana ( Brasil, 2012 ), dentre as modalidades não motorizadas, incluem-se os modos suaves, mais sustentáveis, indicados geralmente para as curtas distâncias, como a pé e bicicleta (esta podendo ser utilizada também em distâncias médias). Já as motorizadas, indicadas para deslocamentos mais longos, subdividem-se, segundo a citada lei, em individual, no qual estão presentes os carros e motos; e coletivo, que abrange os modos de baixa, média e alta capacidade, sejam sobre pneus, sobre trilhos ou hidroviários. 4.2.2. Uso do Solo As variáveis, características e defi nições relacionadas ao termo uso do solo são amplas e diversificadas. Geurs e van Wee (2004) , por exemplo, o denominam de land use system , incluindo quantidade, qualidade e distribuição espacial das oportunidades (empregos, escolas, compras, lazer etc.). Na Figura 4.1 , com relação ao uso do solo, consideram-se as características do desenvolvimento urbano e do espaço urbano construído, incluin- do-se as funções urbanas. Para categorizar o uso do solo, foram utilizados os elementos Atividades e Ambiente Construído . Neste segundo, foram utilizados os parâmetros dos C0020.indd 67C0020.indd 67 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 68 5Ds adotados por Cervero et al. (2009) , que incluem Densidade, Diversidade, Dese- nho Urbano, Disponibilidade de transporte público e Destinos acessíveis. Para mais informações, consultar o Capítulo 8. As Densidades, que dependem da variável em análise — normalmente o número de residentes ou de empregos divididos pela área -, estarão diretamente relacionadas à área construída e às atividades desenvolvidas. Já a Diversidade pode ser entendida como um refi namento da variedade das atividades, em uma área determinada. O Desenho Urbano, apesar das diversas defi nições relacionadas, aqui adota um conceito similar ao defendido por Barnett (1982) , considerando principalmente a disposição e forma das cidades, com grande ênfase para o espaço público e para o sistema viário e sua forma de ocupação e utilização, com o objetivo de tornar este conjunto de elementos funcional, atrativo e sustentável. Esta seção merece um grande destaque: é aqui que se inclui o espaço e a infraestrutura necessária Figura 4.1 A acessibilidade, seus componentes e escalas na articulação entre transportes e uso do solo. C0020.indd 68C0020.indd 68 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 69 para o sistema de transporte, seja o não motorizado (a pé e bicicleta), seja o motorizado (individual ou coletivo). A Disponibilidade de transporte público pode ser avaliada de várias maneiras, como proximidade de estações, densidade de rotas, distância entre paradas, dentre outros elementos. Os Destinos acessíveis incluem variáveis como distância e tempo para expressar a proximidade de atividades a partir de um dado endereço. O IMTT (2011) destaca que a identifi cação de tipologias e de padrõ es de ocupaç ã o do solo dispõ e de uma vasta base teórica e de classifi cação. Nesse contexto, enfatiza que o conceito de centralidade urbana tornou-se fundamental para a aná lise, caracterizaç ã o e com- preensã o das estruturas territoriais, seu funcionamento e planejamento. Consequentemente, o desenvolvimento de redes de centralidades – nas diversas escalas territoriais – passou a constituir um dos aspectos estraté gicos da estruturaç ã o e qualifi caç ã o do territó rio. Res- saltam-se, por um lado, algumas similaridades entre os indicadores dos principais tipos de centralidade (como de proximidade, intermediação e autovetor) com os da acessibilidade usados na análise e modelagem de redes ( Rubulotta et al ., 2013 ). Por outro lado, estas similaridades também são observadas entre a centralidade e a mobilidade, quando o conceito de centralidade enfatiza a produção e a atração de viagens em cada localidade, bem como a sua extensão e mesmo a sua divisão modal ( Kneib, 2014 ), o que reforça o papel da cen- tralidade de articular os sistemas de transportes e o uso do solo ( IMTT, 2011 ). Mas este é um grande desafi o: usar estes 3 conceitos — acessibilidade, mobilidade e centralidade — de forma conjunta, possibilitando tratar o mesmo tema por diferentes perspectivas. Assim, apesar deste livro enfatizar a acessibilidade na promoção da mobilidade sus- tentável, reconhece-se que uma alternativa bem-sucedida é a de empregar o conceito de centralidade, como proposto por diferentes autores ( IMTT, 2011; Kneib, 2014 ). De qualquer maneira, pretende-se aproveitar este conceito neste processo de análise e formulação de estratégias, principalmente considerando que uma das características das cidades brasileiras, que afetam negativamente a mobilidade e potencializam ex- ternalidades negativas, refere-se à concentração excessiva de viagens em determinadas áreas mais centrais e melhor atendidas por serviços e oportunidades. E o conceito de centralidade torna-se um instrumento fundamental na reorganização e requalifi cação dos espaços urbanos em sintonia com desenvolvimento e mobilidade sustentáveis. 4.2.3. Escalas Para Gibson et al . (2000) , escala é o termo utilizado para referir-se às dimensões es- paciais, temporais, quantitativas ou analíticas, utilizadas por cientistas para análise e dimensionamento de objetos e processos. As escalas podem ser categorizadas em níveis, como micro, meso ou macro, de acordo com o tamanho do fenômeno inves- tigado. Segundo Lacoste (2004) , as diferentes escalas permitem diferentes níveis de análise, possibilitados pelos diferentes recortes espaciais na realidade. A escala também é considerada a medida que confere visibilidade ao fenômeno ( Castro, 2003 ). Todavia, em determinadas escalas, alguns fatores podem nã o ser visí veis, o que gera a necessidade C0020.indd 69C0020.indd 69 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 70 de mudança de escala. Portanto, as escalas espaciais não devem ser fi xas. Devem ser redefi nidas e reestruturadas em termos de seu alcance, de seu conteú do, de sua neces- sidade e importâ ncia relativa. Com relação à acessibilidade, a escala territorial ganha uma grande relevância. Para Raffestin (1993) , o conceito de território está associado a características polí ti- co-administrativas. Já para Andrade (1995) , o território associa-se à ideia de uma á rea efetivamente ocupada pela população. De qualquer maneira, grande parte dos autores converge para a defi nição que o espaço é mais amplo que o território, englobando-o. Assim sendo, sobre os territórios, existe uma tendência em se organizarem em diversas escalas, com base numa rede de centralidades, que exigem condições de acessibilidade adequadas ( IMTT, 2011 ). Na medida em que a acessibilidade é uma poderosa medida utilizada na análise espacial – infl uenciando tanto a centralidade ( Kneib, 2014 ) como a mobilidade ( Banister, 2008 ) –, há uma preocupação com a escolha da escala territorial apropriada a seus objetivos ( Zhou et al ., 2012 ). Na Figura 4.1 , com relação às escalas territoriais, a acessibilidade varia da escala global à local; da macro à microacessibilidade. Ou seja, no âmbito da acessibilidade, as diferentes escalas podem ser utilizadas como uma ferramenta metodológica de análise e proposição de estratégias direcionadas à acessibilidade em busca da mobilidade sus- tentável. E as escalas podem ainda estar associadas a princípios e a padrões de viagens que refl etem espacialmente condições de acessibilidade favoráveis a uma mobilidade sustentável. 4.3. Acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento Os termos “acessibilidade” e “mobilidade” são frequentemente confundidos e usados sem uma clara distinção entre eles, embora seja muito importante explicitar as dife- renças e relações entre estes dois conceitos (Handy, 2002; Rubulotta et al ., 2013 ). Se a mobilidade, como discutido nos Capítulos 2 e 3, está fundamentalmente associada às potencialidades de movimento e tipicamente expressa pelas viagens realizadas e respectivos padrões, atuais e futuros, a acessibilidade está vinculada à facilidade de alcançar atividades, como descrito na Seção 4.1. Herce (2009) sugere que a acessibilidade refl ete a proximidade de atividades e, segundo Rubulotta et al . (2013) , o potencial de oportunidades para interação, fruto da distribuição espacial do uso do solo e da oferta de serviços de transportes. Enquanto a mobilidade resultadas condições de acessibilidade fornecidas ( Curl et al ., 2011 ), a aces- sibilidade, ao estar vinculada à noção de proximidade, inclui um fator de impedância (em termos de distância, tempo, custo ou mesmo uma função de desutilidade), que é um componente central da mobilidade, que depende da habilidade física e socioeconô- mica dos indivíduos em superar tais restrições ( Rubulotta et al ., 2013 ). No esquema apresentado na Figura 4.2 , é possível realçar que a articulação entre transporte e uso C0020.indd 70C0020.indd 70 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 71 do solo estabelece as condições de “acessibilidade” que, em conformidade com as características dos usuários (que determinam suas necessidades, possibilidades de des- locamento e alternativas de escolha), promovem a mobilidade praticada em uma dada localidade em suas diferentes escalas espaciais. Esta mobilidade, inserida em um dado contexto institucional-cultural, produz seus impactos positivos e negativos, um dos quais o desenvolvimento urbano. O desejável é que tanto a mobilidade quanto os impactos estejam comprometidos com a sustentabilidade. Em caso contrário, estratégias devem ser contempladas para atuar nas condições de acessibilidade e nas escolhas dos usuários na programação das viagens e consequentes padrões de mobilidade que potencializarão os impactos positivos e mitigarão os negativos. Ressalta-se que a melhora das modalidades não sustentáveis, como os automóveis, para determinados destinos e horários, pode incentivar novas viagens por estas alternativas (em termos modal, espacial e temporal), afetando as condições de acessibilidade e, naturalmente, os padrões de mobilidade, como indica a seta tracejada na Figura 4.2 . A intenção deste esquema é o de estabelecer as relações entre a acessibilidade, a mo- bilidade e respectivos impactos, inclusive no desenvolvimento das cidades e metrópoles, a fi m de distinguir o principal signifi cado e missão de cada um deles, de acordo com um processo de análise e decisão comprometido com a sustentabilidade, que possa servir de guia para um maior detalhamento e aprimoramento de seus componentes. Nesse contexto, esta temática insere-se na vida cotidiana das pessoas que precisam realizar atividades, muitas das quais não podem ser feitas por meio de serviços de tele- comunicações, como a internet, o que exige deslocamentos e representa uma necessidade de mobilidade. O atendimento desta necessidade depende da acessibilidade disponível e percebida por tais pessoas, bem como pela capacidade de elas superarem possíveis obstáculos presentes neste acesso. A interseção entre tais elementos – necessidade de Figura 4.2 Esquema simplifi cado contemplando os elementos intervenientes na relação entre acessibilidade, mobilidade e impactos no desenvolvimento sustentável. C0020.indd 71C0020.indd 71 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 72 mobilidade e acessibilidade disponível – leva à mobilidade que é efetivamente praticada, de acordo com as características físicas e socioeconômicas dos indivíduos de uma dada localidade, conforme esquema mostrado na Figura 4.3 . Figura 4.3 Relação geral entre atividades humanas, mobilidade, acessibilidade e estratégias direcionadas à mobilidade sustentável. C0020.indd 72C0020.indd 72 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 73 Na mobilidade praticada, a abordagem convencional recai sobre os aspectos quan- titativos, englobando atributos como quantidade de viagens e velocidade. Porém, com cidades, metrópoles e regiões com sistemas de planejamento desarticulados, é notório que se tem caminhado para situações de crescente imobilidade. Nesse sentido, e fruto da crescente preocupação com a sustentabilidade, deve-se focar não só nos aspectos quantitativos da mobilidade, como também nos qualitativos. Os atributos, desta forma, devem evoluir para incluir a mobilidade inclusiva, justa, segura, verde, produtiva e com qualidade, ou seja: a mobilidade sustentável, como sugerido no Capítulo 3. Se a mobilidade praticada não for compatível com a mobilidade sustentável, devem ser adotadas estratégias de acessibilidade (transporte e uso do solo) de forma a pos- sibilitar que a mobilidade praticada seja revestida de atributos qualitativos (ver Capítulo 3), construindo-se uma relação entre atividades, mobilidade, acessibilidade e estratégias direcionadas à mobilidade sustentável que leve ao desenvolvimento desejado para deter- minada cidade ou metrópole. Com esse propósito, a acessibilidade, ao estar vinculada a uma impedância, pode ser usada na formulação de estratégias para favorecer, em cada escala espacial, as escolhas mais sustentáveis na programação das viagens, não só em termos das modalidades como em termos espaciais (destinos e itinerários) e temporais (horários). 4.4. Escalas espaciais A acessibilidade encontra-se no centro das preocupações para se alcançar uma forma urbana que seja ambientalmente sustentável, socialmente equitativa e inclusiva ( ONU- -Habitat, 2013 ). Conforme destaque anterior, há uma tendência dos territórios se organizarem em diversas escalas, com base numa rede de centralidades, que exigem condições de acessibilidade adequadas ( IMTT, 2011 ). Na medida em que a aces- sibilidade é uma poderosa medida utilizada na análise espacial, diversos estudos se preocupam com a escolha da escala territorial apropriada a seus objetivos ( Zhao et al ., 2011; Zhou et al ., 2012 ). Um novo paradigma de planejamento, como já citado, requer uma análise mais abrangente da acessibilidade (Litman, 2016), inclusive espacial, que contemple todo o território urbano. No sentido de estabelecer as estratégias direcionadas à acessibilidade em busca de uma dada mobilidade, deve-se contemplar outros níveis da escala espacial, além da global ou macro. Inicialmente, as escalas se diferenciam entre si pela sua extensão geográfi ca, variando dentro de um espectro, que tem como extremos opostos uma área mais restrita, normal- mente denominada como escala local ( Spiekermann et al ., 2011 ), denominada ainda como de vizinhança ou microscópica ( Jones e Lucas, 2012 ), ou mesmo de quadra ou de edifi cação ( Balta et al ., 2012 ), até uma área mais abrangente, conhecida como escala global ( Spiekermann et al ., 2011 ), de nível estratégico ( Jones e Lucas, 2012 ), regional ( Hickman et al ., 2010 ) ou macroscópica ( Zegras, 2005 ), intermediadas pela escala C0020.indd 73C0020.indd 73 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 74 mesoscópica ( Zegras, 2005 ). Considerando-se a variedade de nomenclaturas existentes para lidar com a questão das escalas territoriais, entende-se que a escala global abrange a acessibilidade aqui denominada como macroscópica e que a escala local admite pelo menos duas confi gurações distintas, envolvendo uma acessibilidade do tipo micros- cópica e outra do tipo mesoscópica, dependendo do tamanho da região considerada. Assim, pressupõe-se que na escala microscópica – com base em ampla revisão bibliográfi ca registrada nos Capítulos 5, 8 e 9 – as 5 dimensões do ambiente construído determinam condições de acessibilidade que favorecem o transporte não motorizado e, quando articuladas com uma estação de transporte público de maior capacidade, como recomenda o conceito TOD, tendem a promover as modalidades sustentáveis. Nesse contexto, pode-se estender esta lógica para as outras duas escalas: a macroscópica e a mesoscópica, que é um dos desafi os do procedimento proposto no livro, a partir de prin- cípios derivados da sustentabilidade observados na literatura consultada. Um aspecto fundamental dessa concepção é o de estabelecer o uso do solo e uma rede de transportescom capacidade de prover acessibilidade em todas as escalas comprometidos com a mobilidade sustentável ( Curtis, 2008 ; Bigotte et al ., 2010 ; Kneib, 2014 ) ( Figura 4.4 ). Micro A escala microscópica permite que a acessibilidade ocorra a pé ou mesmo por bici- cleta, o que a torna muito sensível ao ambiente construído, tipicamente representado pelas 5 seguintes dimensões: densidade e diversidade de uso do solo, desenho urbano, disponibilidade de transporte público e destinos acessíveis, conforme sugerido por Cervero et al .(2009). Meso Enquanto a escala mesoscópica, pela sua maior extensão, inclui também os meios motorizados de transportes, se referindo tipicamente a um bairro, a uma região adminis- trativa ou mesmo a um município periférico, dependendo tanto do tamanho e da forma da metrópole quanto da densidade da rede estrutural. Macro Já a escala macroscópica abrange toda a cidade ou região metropolitana e seu princi- pal requerimento consiste na disponibilidade de redes de transportes adequadas ( Jones e Lucas, 2012 ), com a integração multimodal ( Spiekermann et al ., 2011 ), para promover maior facilidade de acesso aos destinos ao longo do território ( Vasconcellos, 2000 ). Destaca-se o princípio de equidade (CAF & ONU-Habitat, 2014), a fi m de garantir uma melhor distribuição no espaço da acessibilidade por meio de uma rede estrutural de transporte público de maior capacidade, estimulando o uso desta modalidade. Em conformidade com os objetivos da sustentabilidade, como já citado, considera-se que a delimitação das localidades, nas escalas meso ou micro, que confi guram o terri- tório urbano em análise, assume um papel fundamental. Elas devem ser estabelecidas em sintonia com as diretrizes do plano diretor e, desejavelmente, seguir critérios para a construção de cenários que refl itam o interesse público, um projeto de desenvolvimento para a cidade (ou metrópole) e estimulem a participação dos atores intervenientes C0020.indd 74C0020.indd 74 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 75 ( GIZ, 2014 ). Nas escalas micro e meso, espera-se que a localidade tenha uma autonomia e uma oferta de infraestrutura de transporte e de atividades-oportunidades-empregos equilibrada e compatível com as necessidades dos moradores, potencializando as viagens mais curtas e a propensão ao uso do transporte não motorizado e ao transporte público de menor capacidade, complementarmente atento a medidas de desestímulo ao uso dos automóveis. Nas cidades brasileiras, em particular nas suas metrópoles, fruto das desigualdades existentes, as condições de acessibilidade defendidas nas 3 escalas são fundamentais, levando-se em conta que tipicamente, e diferentemente do que ocorre nas cidades mais avançadas e com melhor qualidade de vida, verifi cam-se: • Na escala macroscópica, a falta de uma rede de transporte público de maior capacidade e operada em via segregada, que cubra equitativamente todo Figura 4.4 Acessibilidade, e suas escalas espaciais, comprometida com a mobilidade sustentável. C0020.indd 75C0020.indd 75 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 76 o território, integrada às modalidades de menor capacidade e compatível com um projeto de desenvolvimento sustentável para toda a área urbana ou metropolitana. • Na escala mesoscópica, localidades com infraestruturas e serviços (inclusive os de transportes e o viário) e oportunidades (como os empregos) concentrados nas localidades mais centrais e com populações de maior poder aquisitivo, que caracterizam uma desigualdade espacial. Esta situação leva a um monocentrismo, que alguns defendem por concentrar viagens em corredores radiais, justifi cando modais de maior capacidade, o que muitas vezes não ocorre nas metrópoles brasileiras, como no Rio de Janeiro, acentuando ainda mais as restrições de acessibilidade e suas externalidades negativas. • Na escala microscópica, um ambiente construído não estruturado com uma ocupação desordenada e não conectado às estações de transporte público. O que justifi ca uma abordagem que valorize a articulação entre os níveis local (micro e meso) e global (macro), os princípios de integração, equidade e autonomia, bem como as modalidades sustentáveis. Ou seja, na escala macro, a rede estruturante potencializa uma maior coesão das localidades, fomenta e fortalece centralidades, consolidando a rede urbana, bem como, para as viagens mais longas, o uso das modalidades de trans- porte público mais produtivas socialmente, além de mais seguras e não poluentes. Já nas escalas micro e meso, espera-se que a localidade tenha uma autonomia e uma oferta de infraestrutura de transporte e de atividades-oportunidades equilibrada e compatível com as necessidades dos moradores, potencializando as viagens mais curtas e a propensão ao uso do transporte não motorizado e do transporte público de menor capacidade. Trabalhar nessa direção para reverter este quadro é uma exigência no sentido de res- gatar condições de acessibilidade que incentivem escolhas orientadas a uma mobilidade mais sustentável. 4.5. Acessibilidade infl uenciando escolhas e padrões de viagens sustentáveis Há um elo entre acessibilidade e mobilidade que são as escolhas que envolvem a neces- sidade e a programação das viagens e determinam os seus padrões que podem ser ou não sintonizados com a sustentabilidade. Entender estas relações é fundamental para se estabelecer as estratégias mais indicadas na busca da mobilidade sustentável. Conside- rando que, segundo Litman (2016), a acessibilidade depende da qualidade de serviço das modalidades disponíveis no espaço (destinos) e no tempo (horários), infl uenciada pela confi guração e capacidade da rede de transporte (motorizada e não motorizada) e pela proximidade de atividades (uso do solo), dentre as escolhas, destacam-se a realização das viagens, o destino, o horário e a modalidade que são mais sensíveis a estratégias voltadas ao planejamento urbano e ao transporte. C0020.indd 76C0020.indd 76 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 77 Banister (2008) apresenta estratégias que afetam as condições de acessibilidade com vistas a incentivar mudanças nas escolhas e nos respectivos padrões de viagens, consi- derando: a) reduzir a necessidade de viagens com foco nas motorizadas (realizando as atividades por meio de tecnologias de telecomunicação, como a internet), b) incentivar a transferência do automóvel para modalidades mais sustentáveis, c) reduzir o compri- mento das viagens pela adoção de políticas de uso do solo e de um ambiente construído que aproxime as atividades e estimule o transporte não motorizado, e d) aumentar a efi ciência no sistema de transporte. Nesta mesma direção, Dalkmann e Brannigan (2007) destacam as estratégias: evitar a realização de viagens ou reduzir a sua extensão, mudar para modos sustentáveis. Estas estratégias contemplam ações nos transportes e no uso do solo, como também em tecnologia, envolvendo fundamentalmente mudanças nas escolhas da realização (ou não) da viagem bem como da modalidade a ser utilizada. Nas cidades brasileiras, no que diz respeito a “ evitar a realização de viagens”, se, por um lado, é importante considerar estratégias com este propósito, por outro, há um grande contingente da população que não tem acesso às tecnologias que viabilizam realizar a atividade sem efetuar o deslocamento, o que se agrava quando esta parcela populacional também não dispõe de acessibilidade física e fi nanceira para fazer sua viagem. Neste contexto, as restrições voltadas para facilitar a acessibilidade, por meio de ações de integração entre transportes e uso do solo, tornam-se fundamentais para proporcionara inclusão social e espacial destas comunidades. Para realçar este quadro, Motte-Baumvol e Nassi (2012) observaram que a taxa de imobilidade na cidade do Rio de Janeiro atinge 46%, ou seja, cerca de metade das pessoas entrevistadas na pesquisa declarou que não fi zeram viagens no dia prévio à pesquisa, envolvendo predominante- mente os segmentos de menor renda. Quanto a “ evitar as distâncias longas”, isto representa um grande desafi o, parti- cularmente em nossas metrópoles, não só pelo tamanho delas mas por tipicamente concentrarem a oferta de serviços, infraestruturas e oportunidades, como emprego, em localidades mais centrais e ocupadas pelos segmentos mais ricos da população. Este desequilíbrio, que refl ete a desigualdade existente no Brasil também na ocupação do território urbano, impõe, às comunidades da periferia e mais pobres, grandes distâncias a vencer, muitas vezes em condições precárias. Ou seja, se as estratégias que buscam melhorar as condições de acessibilidade, integrando transporte e uso do solo, são naturalmente complexas, nas metrópoles brasileiras ainda precisam vencer resistências de determinados grupos mais poderosos que se opõem a mudanças. Sobre este tema, o planejamento, fortalecimento e consolidação de centralidades, na busca por uma rede urbana equilibrada, torna-se uma estratégia de grande importância. Já o mudar em cidades brasileiras não se refere normalmente apenas ao automóvel, mas também ao transporte público baseado em modalidades rodoviárias, quando operando de forma desorganizada, com capacidade insufi ciente para atender a escala da demanda de viagens existente no corredor, com material rodante antigo e com tecnologia ultrapassada. Tal mudança deveria ser orientada às modalidades de maior capacidade e C0020.indd 77C0020.indd 77 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 78 com energia limpa, incluindo-se ainda mudar o atual modelo de fi nanciamento do sis- tema, evoluindo-se para um modelo com fontes de fi nanciamento extratarifárias, para que se viabilize um avanço efetivo na qualidade do sistema e do serviço. Quanto às tecnologias, além das de telecomunicação, bem como as destinadas a melhorar a performance veicular, também devem contemplar aquelas — como sistemas inteligentes e GPS — direcionadas a informar aos usuários, formando uma base de apoio à escolha de destinos, horários, modalidades e, no caso do uso de automóveis, itinerários e instalações de estacionamentos a utilizar. Outras publicações preocuparam-se em identifi car e classifi car as estratégias, co- brindo diferentes aspectos ( Brog et al ., 2004 ; Portugal, 2005; Banister, 2008 ) inclusive incluindo campanhas de marketing e participação e conscientização da população. Neste livro, como já citado, o foco das estratégias será a acessibilidade e as ações integradas entre transportes e uso do solo. Neste sentido, e levando em conta as práticas bem-sucedidas observadas na biblio- grafi a consultada ( Brog et al ., 2004 ; Banister, 2008 ), pretende-se incluir, além da es- colha modal e a associada a realização do deslocamento, outras escolhas envolvidas na programação das viagens, como o destino e o horário, abrangendo as alternativas mais sensíveis a estratégias voltadas ao planejamento urbano e ao de transporte. Além disto, e a partir dos princípios e condições de acessibilidade associados a cada uma das 3 escalas territoriais e respectivos indicadores, são recomendadas algumas estratégias compatíveis com as nossas especifi cidades e que devem ser contempladas, como mostrado esquematicamente na Figura 4.5 e descritas sucintamente a seguir: • Organização das centralidades buscando uma distribuição espacial mais equili- brada das atividades e dos fl uxos de viagens ao longo do território (macroescala) ( IMTT, 2011; Kneib, 2014 ; Burgalassi e Luzzati, 2015 ). • Concepção e implementação de rede estruturante de transporte público, baseada em modalidades de maior capacidade e operada em via segregada, cobrindo todo o território de maneira equitativa e integrada, favorecendo-se a intermodalidade (macroescala) (NSW Government, 2013 ; Litman, 2013; Manaugh et al ., 2015 ). • Concepção e implementação de rede viária capacitada, qualifi cada e regulamen- tada para atender aos seus múltiplos usuários, priorizando os mais frágeis, como os não motorizados, e o transporte coletivo em relação ao tráfego veicular indi- vidual (macroescala) ( Laplante e McCann, 2008 ; Ministério das Cidades, 2015 ). • Concepção e implementação de localidades com autonomia e articuladas a todo o espaço urbano, fortalecendo uma rede de centralidades, garantindo a oferta de atividades, oportunidades e empregos para atender as principais necessidades da sua população, bem como infraestrutura e serviços de transportes para pos- sibilitar os seus deslocamentos internos e sua integração às estações da rede estruturante de transporte público (escalas locais: meso e micro) ( Herce, 2009; Kneib, 2014; Rivas, 2014 ). C0020.indd 78C0020.indd 78 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 79 Mam Men Mip Figura 4.5 Algumas estratégias de acessibilidade derivadas de suas escalas espaciais com foco na mobilidade sustentável. C0020.indd 79C0020.indd 79 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 80 • Concepção e implementação de localidades no entorno das estações da rede estruturante de transporte público com ambiente construído que favoreça e incentive o transporte não motorizado e a intermodalidade (escalas locais: meso e micro) ( Cheng e Agrawal, 2010 ; Victoria Transport Policy Institute, 2015 ). • Política de preço aplicada ao transporte público (política de fi nanciamento do transporte público que inclua fontes extratarifárias e que permita a efetiva melhoria da qualidade do serviço, contemplando ainda tarifas compatíveis com o nível de renda da população, tarifas diferenciadas para incentivar o uso de modalidades mais sustentáveis, bem como de horários e sentido de operação menos carregados). e também ao transporte individual (pedágios e tarifas de estacionamentos para desestimular o uso dos automóveis, em especial em áreas e horários críticos) (es- calas: macro, meso e micro) ( Viegas, 2001; IPEA, 2013; Mello e Portugal, 2017 ). Além destas, como já citado, devem ser contempladas estratégias voltadas para avanços tecnológicos nos transportes (não só para aumentar a efi ciência energética dos veículos e de seus efeitos ambientais, como para aumentar a capacidade gerencial e operacional dos sistemas de transportes e ainda fornecer aos usuários informações que apoiem escolhas mais adequadas), bem como em telecomunicações, possibilitando a realização de atividades sem a necessidade da viagem (escalas: macro, meso e micro) ( Goldman e Gorham, 2006 ; Litman, 2016 ). Naturalmente, outras estratégias podem ser contempladas de acordo com as carac- terísticas locais. Assume-se que o sucesso destas estratégias pressupõe um contexto institucional, social, cultural e político que valorize o conhecimento e o planejamento como instrumentos de mudança, a participação e conscientização da população no exercício da cidadania e em escolhas sintonizadas com o interesse público e sustentável. De acordo com estrutura apresentada na Figura 4.5 , é possível chegar as estratégias levando em conta os indicadores de acessibilidade que se mostrarem defi cientes e que deveriam ser melhorados. Entretanto, a referência a ser usada — para determinar se tais estratégias são necessárias e quais delas são as mais indicadas — deveria ser a mobilidade. Ou seja, se os padrões atuais de mobilidade atendem ou não as metas comprometidas com a sustentabilidade. Neste sentido, em termos acadêmicos e práticos,um desafi o é relacionar tais estraté- gias com os indicadores e respectivos atributos da mobilidade sustentável (ver Capítulo 3), a fi m de se estabelecer um nexo causal entre estes dois componentes fundamentais e inseri-los em um processo de análise que contribua para se alcançar os objetivos de um plano e de um estudo comprometidos com a sustentabilidade, conforme é a pretensão deste livro e segundo concepção formulada sucintamente no Capítulo 5. Uma proposta exploratória é apresentada esquematicamente na Figura 4.5 , des- tacando a seguir alguns elementos que podem contribuir nesta direção. • Quanto à realização das viagens, principalmente no que se refere ao seu défi cit, as taxas de imobilidade determinariam locais, segmentos socioeconômicos e tipo C0020.indd 80C0020.indd 80 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 81 de atividades que deveriam ter suas condições de acessibilidade (transporte, uso do solo e políticas de preço) melhoradas para eliminar possíveis obstáculos físicos e fi nanceiros (ou por serviços de telecomunicações para que as atividades sejam realizadas sem deslocamento ou ainda, desejavelmente, aumentando o nível de renda e o poder aquisitivo dos segmentos mais carentes fi nanceiramente). • No que diz respeito à escolha do destino, ela tende a se justifi car em localidades com centralidades excessivas e desequilibradas espacialmente, sugerindo uma demanda de viagens incompatível com a infraestrutura, serviços e oportunidades disponíveis. Estas localidades poderiam ter as suas condições de acessibilidade melhoradas ou não, com base no conceito de centralidade, nas escalas global e local. • O mesmo em relação a escolha do horário, assumindo uma concentração das viagens em horários de pico, o que sugere centralidades excessivas e uma dis- tribuição desequilibrada das atividades ao longo do território. Mais uma vez, o conceito de centralidade deveria ser considerado e as condições de acessibilidade deveriam ser alteradas nas 3 escalas de acessibilidade. • Levando-se em conta que as condições de acessibilidade infl uenciam as escolhas envolvidas na programação das viagens e considerando-se que a acessibilidade impõe uma dada impedância a ser vencida, o desafi o na formulação das es- tratégias (transportes e uso do solo) é como usar tal impedância para incentivar escolhas e consequentes mobilidades sustentáveis, ressaltando-se que tais escolhas podem englobar não só a modalidade como o destino, o horário e mesmo se viaja ou não para realizar determinada atividade. • Sobre a escolha da modalidade em que escalas espaciais são fundamentais para determinar locais e modalidades cujas condições de acessibilidade devem ser favorecidas ou não. Por outro lado, os indicadores de mobilidade que expressam a divisão modal colaboram para responder a tais questões. Por fi m, cabe ressalvar o que tem sido verifi cado tanto no âmbito local, em particular na microacessibilidade, por alguns estudos que comprovam a infl uência do ambiente construído em reduzir o número de viagens por automóveis, como também aumentar as viagens feitas por modos não motorizados e públicos ( Cervero et al ., 2009; Ewing e Cervero, 2001 ; McKibbin, 2011 ). O mesmo no âmbito global quanto à infl uência da estrutura espacial das metrópoles em custos sociais e ambientais ( Veneri, 2010 ). En- tretanto, estes resultados variam e pesquisas devem continuar sendo feitas ( Salon, 2015 ), principalmente com vistas a se estabelecer a relação entre tais condições com a mobi- lidade e a sustentabilidade, como pretende o procedimento proposto. Há ainda um segundo grupo de escolhas que é mais direcionado a estratégias vincu- ladas aos sistemas viário e de estacionamento destinadas ao usuário dos automóveis. Em ambos os casos, a análise da situação de acessibilidade no contexto global e local deveria recorrer aos indicadores de acessibilidade apresentados no bloco II deste livro com algumas aplicações no bloco III. C0020.indd 81C0020.indd 81 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Transporte, Mobilidade e Desenvolvimento Urbano 82 4.6. Considerações fi nais Este capítulo, ao trazer uma caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento, procurou destacar as diferentes defi nições do termo acessibilidade em um contexto que o conecta a uma série de fatores. Dentre esta gama de fatores, têm destaque o transporte e o uso do solo, elementos sobre os quais é possível aos planejadores e gestores urbanos mais direta e efetivamente intervir para favorecer o desenvolvimento de cidades e regiões. Sendo assim, o conceito adotado neste livro defi ne acessibilidade como a facilidade de alcançar atividades, que reforça seu papel de articulação entre transportes e uso do solo, focado na acessibilidade das pessoas e associado a localidades. É fato que um novo paradigma de planejamento requer uma análise mais abran- gente da acessibilidade, inclusive espacial, que contemple o território urbano em sua plenitude, de forma integrada. No sentido de estabelecer as estratégias direcionadas à acessibilidade em busca de uma determinada mobilidade, deve-se contemplar outros níveis da escala espacial, além da global ou macro, destacando-se a necessidade de uma abordagem multiescalar. Diante de diversas nomenclaturas existentes para lidar com a questão das escalas territoriais, entende-se que a escala global abrange a acessibilidade aqui denominada como macroscópica e que a escala local admite pelo menos duas confi gurações distintas, envolvendo uma acessibilidade do tipo microscópica e outra do tipo mesoscópica, dependendo do tamanho da região considerada. É um desafi o relacionar tais estratégias com os indicadores e respectivos atributos da mobilidade sustentável (Capítulo 3), a fi m de se estabelecer um nexo causal entre estes dois componentes fundamentais e inseri-los em um processo de análise que con- tribua para se alcançar os objetivos de um plano e de um estudo comprometidos com a sustentabilidade, conforme é a pretensão deste livro e segundo concepção formulada no Capítulo 5. De uma maneira sintética, pode-se enfatizar que a articulação entre transporte e uso do solo estabelece as condições de acessibilidade que, em conformidade com as características dos usuários, promovem a mobilidade em uma dada localidade em suas diferentes escalas espaciais. Esta mobilidade inserida em um dado contexto institucional-cultural produz seus impactos positivos e negativos, um dos quais o desenvolvimento, seja urbano, seja metropolitano ou regional. Ou seja, as condições de acessibilidade — transportes e uso do solo — nas suas diferentes escalas devem buscar promover uma mobilidade comprometida com a sustentabilidade, gerando, consequentemente, o desenvolvimento. Tem-se como pressuposto que as escalas, os princípios e diretrizes estabelecidos refl etem condições de acessibilidade que estimulam uma mobilidade mais sustentável e que esta promove o desenvolvimento sustentável. No âmbito local – na microaces- sibilidade – os esforços devem caminhar na busca de um ambiente construído que C0020.indd 82C0020.indd 82 04/07/17 1:13 AM04/07/17 1:13 AM Caracterização da acessibilidade e suas relações com a mobilidade e o desenvolvimento 83 infl uencie diretamente a redução do número de viagens por automóveis, e ao mesmo tempo incentive as viagens feitas por modos não motorizados e públicos. O mesmo no âmbito global, quanto à infl uência da estrutura espacial das metrópoles na redução de custos sociais e ambientais. Alguns casos bem-sucedidos (ver Seção 14.6 deste livro) ressaltam como fundamental a presença articulada de uma forma urbana e uma rede estruturante de transporte pú- blico integrada que proporcionem uma acessibilidade equitativa em todo o território (escala macro), comlocalidades autônomas, dispondo de infraestrutura, serviços e oportunidades para atender as necessidades básicas de seus moradores (escala me- so) e um ambiente construído orientado às modalidades sustentáveis (escala micro). E mais, a concepção e a implantação de tais condições de acessibilidade exigem uma cultura de planejamento e um marco institucional qualifi cados para cumprirem com suas atribuições. Considerando-se que as condições de acessibilidade infl uenciam as escolhas das viagens e consequentemente a mobilidade, e considerando-se que a acessibilidade impõe uma dada impedância a ser vencida, o desafi o na formulação das estratégias de trans- portes e uso do solo é como usar tal impedância para estimular escolhas direcionadas a uma mobilidade mais sustentável. Mas o desafi o não para por aí. Se, por um lado, as estratégias de acessibilidade devem promover escolhas sustentáveis na programação das viagens (que transcendem a escolha modal), por outro lado, devem também incentivar mudanças de comportamento por parte da população, o que contempla outras ações complementares direcionadas à sua conscientização e educação. Devido às especifi cidades e complexidade do tema, estes resultados variam e pes- quisas devem continuar sendo desenvolvidas, principalmente com vistas a se estabelecer a relação entre tais condições de acessibilidade com a mobilidade e a sustentabilidade, como destacam as abordagens e os procedimentos aqui propostos. Referências Abley , S. , Halden , D. ( 2013 ) The New Zealand accessibility analysis methodology . NZ Transport Agency research report , p. 512 . Abreu , B. R. A. ( 2015 ) Diretrizes para elaboração de planos de mobilidade urbana de carga. [Dissertação de Mestrado] . Belo Horizonte : Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Engenharia . Andrade , M. C. ( 1995 ) A questã o do territó rio no Brasil. São Paulo/ Recife: IPESPE /Hucitec . Balta , M. O. , Tekel , A. , Tekel , H. I. ( 2012 ) Urban development process of built envi- ronments in metropolitan areas in Turkey: case study of Angora settlement, Ankara . 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