Prévia do material em texto
O brincar para o desenvolvimento infantil é de extrema relevância para a saúde do corpo e do cérebro. Brincar é algo além de gastar energia ou algo prazeroso para a criança. É através disso que as crianças se relacionam com o mundo a sua volta, interagem de forma inteligente com objetos, usam a imaginação, desenvolvendo criatividade para resolução de problemas, descobrem formas flexíveis de usar objetos e se capacitam para a vida adulta. As brincadeiras, inclusive, tiveram um papel relevante do ponto de vista da evolução, já que houve e há um proposito no brincar. Os jogos permitem desenvolvimentos de capacidades físicas e cognitivas necessárias para todas as fases da vida. No início da vida, as brincadeiras possibilitam o desenvolvimento neuromuscular, que se especializam no decorrer do crescimento do indivíduo, ajudando a desenvolver força muscular, resistência e eficiência nos movimentos. Os grandes teóricos do desenvolvimento humano estudaram o brincar como ferramenta fundamental das diversas áreas do desenvolvimento infantil, estando presente em todas as fases do desenvolvimento. Para Piaget, o brincar reflete como a criança aprende, interage com o mundo e desenvolve suas diversas capacidades, cognitivas, motoras, emocionais e sociais. E, também, a forma ou tipos de brincadeiras refletem o estágio de desenvolvimento que a criança está. O brincar perpassa toda a teoria de aprendizagem de Piaget. É por meio dele que a criança realiza os processos de assimilação[footnoteRef:1], acomodação[footnoteRef:2] e, por fim, a equilibração[footnoteRef:3]. [1: Para Papalia e Martorell, assimilação é o “termo de Piaget para a incorporação de novas informações em uma estrutura cognitiva existente” (PAPALIA, E. Diane e MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano – Porto Alegre, AMGH Editora Ltda, 2022, pg 30. ] [2: Para Papalia e Martorell, acomodação é o ““termo de Piaget para as mudanças e uma estrutura cognitiva existente” (PAPALIA, E. Diane e MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano – Porto Alegre, AMGH Editora Ltda, 2022, pg 30. ] [3: Para Papalia e Martorell, acomodação é o “termo de Piaget para a tendência a procurar um equilíbrio estável entre os elementos cognitivos, obtido por meio do equilíbrio entre assimilação e acomodação” (PAPALIA, E. Diane e MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano – Porto Alegre, AMGH Editora Ltda, 2022, pg 30. ] Além disso, Piaget identificou os diferentes tipos de brincadeira nos estágios de desenvolvimento, que à luz da sua teoria se dividem da seguinte maneira: a) Sensório motor, de 0 a 2 anos, quando as brincadeiras se limitam ações físicas repetitivas, que influem no desenvolvimento motor e sensório da criança. É o denominado jogo do exercício. b) Pré-operatório, de 2 a 7 anos, quando as brincadeiras predominantes usam o simbólico, refletindo o desenvolvimento cognitivo ligado à linguagem e à capacidade de representação. É o denominado jogo simbólico; c) Operatório Concreto, de 7 a 11 anos, quando as brincadeiras são mais estruturadas, jogos de regras, resolução de problemas práticos, que auxiliam o desenvolvimento cognitivo relacionado ao raciocínio logico e compreensão de relações causais. É o denominado jogo de regra d) Operatório formal, a partir de 12 anos, quando o brincar de forma abstrata se estabelece, com raciocínio hipotético. As brincadeiras também são fundamentais na aquisição e construção de esquemas mentais e no desenvolvimento de noções de moral, justiça, adquiridos através das brincadeiras com regras. Ao brincar, especialmente com o “faz de conta” as crianças criam representações mentais do mundo, o que as ajuda a compreendê-lo. Outro teórico fundamental no estudo do desenvolvimento infantil foi Vygostky, que acrescenta o fator social como determinante para o desenvolvimento da criança, ou seja, a interação social e o contexto cultura em que se está inserido favorece ou desfavorece o desenvolvimento sadio da criança em qualquer esfera, seja ela cognitiva, física, emocional ou social. Para ele, o brincar contribui fortemente para o desenvolvimento cognitivo, a medida em que a criança pode exercitar seu papel no mundo e adquirir e alterar sua compreensão sobre este mundo em que vive. É a partir do brincar que a criança desenvolve suas funções psicológicas superiores, não inatas, que são condições sine qua non para seu desenvolvimento. Através do brincar a criança explora situações para além do que está concretamente a sua frente, o que possibilita desenvolvimento de habilidades cognitivas mais complexas, como resolução de problemas, simbolização e imaginação. A teoria de Zona de Desenvolvimento Proximal deste teórico muitas vezes tem lugar no brincar, pois a criança adquire novas capacidades cognitivas ligeiramente mais complexas se comparadas às capacidades atuais, através da mediação de outro sujeito. Outra capacidade cognitiva relevante para o desenvolvimento infantil é a de abstração de uso de conceitos simbólicos, instrumentalizada mais uma vez pelo brincar. O uso das brincadeiras de faz de conta auxilia o desenvolvimento da capacidade de abstração que no futuro é de grande valia para compreensão de conceitos abstratos, a exemplo de conceitos matemáticos e científicos. Sara Meadows Smilansky, pesquisadora israelense, estudou sobre as contribuições do brincar com relação ao desenvolvimento cognitivo, em especial desenvolvimento da aprendizagem. O desenvolvimento das brincadeiras acompanha a evolução cognitiva da criança, com a criança progredindo de brincadeiras mais simples para brincadeiras mais complexas à medida que seu pensamento se torna mais elaborado. A partir dos seus estudos, identificou 4 níveis de brincadeiras, classificadas conforme a capacidade cognitiva da criança: a) Jogo funcional, que começa na primeira infância, que são brincadeiras que envolvem a pratica repetida de movimentos musculares; b) Jogo construtivo, que são brincadeiras envolvendo o uso de objetos ou materiais para fazer algo. c) Jogo dramático, o terceiro nível, que são brincadeiras que envolvem pessoas ou situações imaginárias. Dependem de um desenvolvimento cognitivo mais avançado, pois usam funções cerebrais mais especializadas bem como capacidade de pensamento abstrato. São as brincadeiras de faz de conta, de fantasia. Este nível tem seu auge nos anos pré-escolares. d) Jogos formais com regras, que são aquelas brincadeiras com procedimentos, regras e penalidades estipuladas. Cabe ressaltar que as brincadeiras não apenas são respostas a um intelecto em desenvolvimento, mas também são um fator que propicia o desenvolvimento, ou seja, é uma via de mão dupla, à medida que proporciona desenvolvimento cognitivo bem como é reflexo deste desenvolvimento. Para além da identificação dos níveis de jogos, Smilansky também reconheceu a importância da linguagem no desenvolvimento cognitivo das crianças. As brincadeiras simbólicas, por exemplo, frequentemente envolvem uma comunicação verbal, o que contribui para o desenvolvimento da linguagem e do pensamento complexo. Ela observou que o brincar oferece uma oportunidade para as crianças explorarem novos vocabulários, formularem ideias e resolverem problemas através da interação com os outros. Por fim, uma revisão sistemática realizada por pesquisadores da universidade de Cambridge e de Harvard, intitulada O papel da brincadeira no desenvolvimento infantil: uma revisão das evidências[footnoteRef:4] de 2017 se propôs a reunir pesquisas sobre o papel das diversas brincadeiras (jogo físico, brincar com objetos, jogo simbólico, jogo com regras) no desenvolvimento infantil. A pergunta ou problemática da pesquisa girou em torno das seguintes questões: “ há um corpo substancial de pesquisa, em várias disciplinas, argumentando sobre a importância da brincadeira no desenvolvimento humano e, em alguns casos, propondo mecanismos potenciais intrigantes que podem explicar o papel da brincadeira no aprendizado cognitivo, emocional e sócia das crianças”[footnoteRef:5]. A partir disso, levantou-se quais as perguntasde pesquisas futuras devem ser realizadas a fim de examinar os vários processos psicológicos relacionados aos diversos tipos de brincadeiras. [4: WHITEBREAD, David; NEALE, Dave; JENSEN, Hanne ; LIU, Claire; SOLIS, Lynneth; HOPKINS, Emily; HIRSH-PASEK, Kathy; ZOSH, Jennifer. (2017). The role of play in children's development: a review of the evidence. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/325171537_The_role_of_play_in_children's_development_a_review_of_the_evidence. Acesso em 10 nov.2024 ] [5: IBIDEM, p. 4.] A pesquisa apresentou as seguintes conclusões e questionamentos: O que sabemos: •. Perceber uma atividade como brincadeira parece levar a níveis mais altos de alegria e engajamento ativo. • A interação social durante a brincadeira às vezes está ligada a melhores resultados de aprendizagem. •. Fingir pode levar a melhores resultados porque as crianças fazem ligações mais significativas com seu próprio conhecimento e experiência. • A brincadeira iterativa pode levar a maneiras mais criativas e inovadoras de pensar e resolver problemas. O que não sabemos: •. Qual é a contribuição relativa da alegria e do engajamento ativo para a aprendizagem por meio da brincadeira? Ambos são necessários para que a aprendizagem ocorra? • O que há na interação social que pode melhorar os resultados da aprendizagem? É o conhecimento transmitido pelo parceiro de brincadeira, aumentos na confiança e nas habilidades de comunicação ou algo mais? • A pretensão faz com que as crianças criem ligações significativas com sua própria experiência, em comparação com outros contextos de aprendizagem e outros tipos de brincadeira? •. Quanto efeito o significado tem na aprendizagem durante a brincadeira? Há uma grande ou pequena diferença na aprendizagem se as crianças conseguem vincular o material à sua própria experiência? •. Em que condições, se houver, as características são prejudiciais ao aprendizado? Particularmente para interação social, parece lógico que brincar com um parceiro ignorante ou desorientado pode levar a um aprendizado reduzido ou mal adaptativo.[footnoteRef:6] [6: IBIDEM, p. 4]