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Marcela Bastos, 71C Insuficiência Hepática e Cirrose Introdução: ❖ Sistema Porta: artéria > capilar > veia porta > capilar ou sinusoide > veia hepática. Vascularização Hepática: ❖ Veia porta: formada pela veia mesentérica superior e veia esplênica. A veia porta é responsável pela vascularização de 75% do parênquima hepático. ❖ Artéria hepática comum: responsável por 25% da nutrição hepática. É um ramo do tronco celíaco, junto com artéria esplênica e artéria gástrica esquerda. Funções Hepáticas: ❖ Eliminação de toxinas. ❖ Metabolização de drogas. ❖ Produção de fatores de coagulação. ❖ Regulação imunológica: produção de citocina inflamatórias e proteínas do sistema complemento. ❖ Metabolismo intermediário: glicose, ácidos graxos, aminoácidos (albumina), depuração de amônia, estoque de vitaminas e bilirrubina. Insuficiência Hepática Aguda: ❖ Definição: desenvolvimento de icterícia e encefalopatia hepática em paciente sem doença hepática prévia. ❖ Forma fulminante: encefalopatia em até 8 semanas após o início da icterícia. Ex: hepatites virais (A e B), intoxicação por medicamentos (paracetamol), febre amarela, isquemia hepática. ❖ Marcadores de lesão hepática: TGO e TGP. TGP é mais específica. ❖ Marcadores de função hepática: albumina, RNI, bilirrubina total e frações. Marcela Bastos, 71C Hipertensão Portal: ❖ Definição: gradiente de pressão venosa hepática > 5mmHg. • Se > 10mmHg, temos início da formação de varizes. • Se > 12mmHg, temos risco de rompimento das varizes. • Não medimos isso rotineiramente. ❖ Nem todo paciente com insuficiência hepática tem hipertensão portal. ❖ Avaliação não invasiva: USG abdominal. • Calibre da veia porta > 12mm. • Fluxo hepatofugal: fluxo na contra-mão. • Ascite. • Esplenomegalia. • Fígado nodular. Classificação da HP: Pré-hepática: ❖ Trombose de veia porta: aparece mais em prova. SAAF ou neoplasia. ❖ Trombose de veia esplênica: associada à pancreatite crônica. Formação de varizes de fundo gástrico isoladas. Tratamento dessas varizes é com cianocrilato. ❖ Não gera ascite. Só temos ascite quando chega no sinusoide. Intra-hepática: ❖ Pré-sinusoidal: não gera ascite. Ex: Esquistossomose. ❖ Sinusoidal: chegou no sinusoide, então pode ter ascite. Ex: Cirrose. ❖ Pós-sinusoidal: reação enxerto x hospedeiro, chá da Jamaica. Pós-hepática: ❖ Síndrome de Budd-Chiari: obstrução da veia hepática por um próprio tombo ou por uma compressão extrínseca por tumor. ❖ Insuficiência cardíaca. ❖ Obstrução de veia-cava. ❖ Pode ter ascite. Marcela Bastos, 71C Tratamento: ❖ Pacientes graves/instáveis: fazer vasoconstrição com Noradrenalina ou Terlipressina. Apertar o vaso e jogar o sangue para qualquer outro leito venoso, aliviando a pressão do sistema-porta. Derivação portossistêmica transjugular intra-hepática (TIPS): derivação que drena a hipertensão portal para o sistema da veia cava inferior. ❖ Indicação: sangramento refratário de varizes, ascite refratária, síndrome de Budd-Chiari. ❖ Contraindicação: insuficiência cardíaca. A drenagem pode gerar descarga de volume para o coração. ❖ Complicação: encefalopatia hepática. Leva mais toxinas que não foram metabolizadas pelo fígado doente para a circulação da veia cava inferior. ❖ Derivação porto-cava não seletiva: cirurgia de urgência para sangramento varicoso refratário. Causas de Ascite Peritoneal: ❖ Tuberculose. ❖ Carcinomatose. ❖ Pancreatite. ❖ Síndrome Nefrótica. Cirrose ❖ Insuficiência hepatocelular + hipertensão portal. ❖ Inflamação crônica > regeneração disfuncional. ❖ Fibrose e diminuição do órgão. ❖ Cirrose: diagnóstico histológico por biópsia hepática. ❖ Doença hepática crônica: diagnóstico clínico, laboratorial e radiológico. ❖ Etiologias: • Álcool: principal etiologia no Brasil. • MASLD (anteriormente chamada de NASH > paciente que tem síndrome metabólica, com esteatohepatite não-alcoólica). • Hepatites B e C. • Doenças de Wilson e hemocromatose. • Hepatite autoimune. • Colangite biliar primária. Marcela Bastos, 71C ❖ Disfunção hepatocelular: • Icterícia; • Aumento do RNI; • Hipoalbuminemia; • Hiperestrogenismo. Paciente pode ter ginecomastia, hipoandrogenismo. ❖ Hipertensão portal: • Varizes de esôfago; • Cabeça de medusa. • Doença hemorroidária. Avaliação da Função Hepática - Classificação de Child-Pugh: ❖ Utilizada para estadiamento e prognóstico após cirurgias. ❖ Ascite, bilirrubina, albumina sérica, RNI, encefalopatia hepática. ❖ CHILD A: 5 a 6 pontos. Cirrose ‘compensada’. ❖ CHILD B: 7 a 9 pontos. Paciente candidato ao transplante hepático. ❖ CHILD C: 10 a 15 pontos. Paciente candidato ao transplante hepático. Marcela Bastos, 71C Escore de MELD: ❖ Avaliação prognóstica e priorização na fila de transplante. ❖ Avalia bilirrubina, RNI e creatinina. Dica: Caneta BIC (bilirrubina, INR e creatinina). ❖ MELD > 15 = hepatopatia avançada. Complicações: Encefalopatia Hepática: ❖ Definição: distúrbio reversível do SNC, multifatorial, presente na doença hepática avançada. ❖ Até 45% dos cirróticos. Mortalidade em 1 ano de aproximadamente 60%. ❖ Alta recorrência. ❖ Alteração de consciência e cognição. ❖ Mecanismos: circulação colateral + insuficiência hepática. O que chega eu não metabolizo bem e ainda tem uma parte fugindo pela circulação colateral. ❖ Aumento de amônia na circulação. Quadro Clínico: ❖ Lentidão psicomotora, alteração de sono-vigília: manejo ambulatorial. ❖ Desorientação, flapping. ❖ Alteração grave de consciência e interação. ❖ Coma. Marcela Bastos, 71C Diagnóstico: CLÍNICO E DE EXCLUSÃO. ❖ Cirrose e/ou shunt + manifestações neuropsiquiátricas compatíveis + exclusão de outras causas de alteração do estado mental. ❖ Dosagem de amônia sérica é controversa e não recomendada. Fatores Precipitantes: ❖ Hemorragia digestiva: sangue possui muitas proteínas e a metabolização delas causa produção de amônia. O fígado doente não consegue metabolizar a amônia. ❖ Peritonite bacteriana. ❖ Disfunção renal. ❖ Distúrbios hidroeletrolíticos. ❖ Constipação: aumento da multiplicação de bactérias > maior produção de amônia. Tratamento: ❖ Suporte clínico. ❖ Tratar a causa base > abordar o precipitante é o mais importante. A maioria das vezes é o suficiente para reverter a EH leve (graus 0 e 1). ❖ Sem precipitantes ou EH grave (graus 2, 3 e 4): • 1ª opção: Lactulose VO (ou SNE) > 20-60ml 4/4 a 8/8h. Meta: 3-4 evacuações pastosas por dia. ❖ 2ª opção: Metronidazol. Tentar controlar a microbiota. Marcela Bastos, 71C ❖ Restrição proteica na dieta NÃO é recomendada. Ascite: ❖ Acúmulo de líquido na cavidade peritoneal. Paracentese: ❖ Quando puncionar? • Primeiro episódio de ascite. • Suspeita de infecção (ex: PBE). • Hemorragia digestiva varicosa. • Encefalopatia hepática. ❖ O que avaliar no líquido? • Celularidades total e diferencial. • Proteínas totais e albumina. • Bacterioscopia. cultura e gram. • Bioquímica. • Análise do gradiente de albumina soro-ascite (GASA): gradiente = um menos o outro. Albumina sérica – (MENOS) albumina do líquido ascético (GASA): ❖ ou igual a 1,1 = transudato: hipertensão portal. Se a diferença está maior que 1,1, é porque tem pouco albumina no líquido ascítico. Marcela Bastos, 71C Tratamento: ❖ Restrição de sódio a 2g/dia (4g/d NaCl) > evitar a retenção de líquidos. ❖ Restrição hídrica 1000-1500ml apenas se sódiose a drenagem for > 5 litros. ❖ TIPS. ❖ Transplante hepático. Peritonite Bacteriana Espontânea (PBE): ❖ Definição: infecção do líquido ascítico SEM evidência de uma fonte intra-abdominal de contaminação. ❖ Até 12% dos cirróticos. Até 30% dos cirróticos admitidos no hospital. Mortalidade de até 60%. ❖ Translocação bacteriana. NÃO é uma perfuração. Quadro Clínico: ❖ Dor abdominal e febre. ❖ Sinais de encefalopatia. ❖ Queda no estado geral. Marcela Bastos, 71C Diagnóstico: ❖ Paracentese com polimorfonucleares > 250/mm3 e cultura positiva monobacteriana. ❖ Germes mais comuns: gram-negativos entéricos e pneumococo em crianças com síndrome nefrótica. ❖ Cultura positiva polimicrobiana ocorre quando a peritonite bacteriana é secundária (PBS) a uma perfuração de víscera ou a um abcesso abdominal. Variantes: ❖ Bacterascite não neutrofílica: cultura positiva sem PMN aumentados. Tratar apenas se sintomático. ❖ Ascite neutrofílica: PMN > 250/mm3 com cultura negativa. Tratar sempre. Marcela Bastos, 71C Diagnóstico Diferencial: ❖ Peritonite bacteriana secundária (PBS): quando teve comunicação da luz intestinal para a cavidade peritoneal, geralmente por perfuração. • Infecção de líquido ascítico com foco intra-abdominal presumido. • Polimorfonucleares > 250/mm3. • Geralmente, cultura com crescimento polimicrobiano. Tratamento: ❖ PBE: Cefalosporina de 3ª geração (infecção comunitária). ❖ PBS: cefalosporina de 3ª geração + metronidazol. Avaliar a necessidade de cirurgia. Profilaxia: ❖ Primária: cirróticos após sangramento de varizes: Ceftriaxona. ❖ Secundária (pacientes com PBE prévia): Norfloxacino ou Sulfametoxazol/Trimetoprima. Marcela Bastos, 71C Síndrome Hepatorrenal: ❖ Até 10% dos cirróticos. ❖ Pior prognóstico. ❖ A perda peritoneal de líquido leva a uma hipoperfusão renal. ❖ Geralmente em pacientes já com quadro mais avançado. Precipitantes: ❖ Sangramento gastrointestinal. ❖ PBE. ❖ Negativação rápida de balanço. ❖ Paracentese volumosa sem reposição de albumina. Diagnóstico de Exclusão: ❖ Hipovolemia descartada? Descartar IRA pré- renal com a suspensão de diuréticos + reposição de albumina. ❖ Choque distributivo? Afastar choque, sepse, infecção. ❖ Existe obstrução pós-renal? Afastar IRA pós- renal com USG de rins e vias urinárias. Marcela Bastos, 71C Classificação: ❖ Tipo 1: • Grave, rápida progressão (