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UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO- CAMPUS SÃO BENTO DIREITO BACHARELADO MOYSANNYELLEN AGUIAR CARVALHO ENTRE A LIBERDADE E A JUSTIÇA SOCIAL: O Papel da Constitucionalização no Direito Contratual São Bento 2024 MOYSANNYELLEN AGUIAR CARVALHO ENTRE A LIBERDADE E A JUSTIÇA SOCIAL: O Papel da Constitucionalização no Direito Contratual Artigo acadêmico à disciplina de Direito Civil- Contratos do curso de Direito da Universidade Estadual do Maranhão, como requisito para obtenção de nota referente à primeira avaliação da disciplina. Prof. Gilberlan Serra São Bento 2024 1. INTRODUÇÃO O Direito Contratual é uma área fundamental do Direito Civil, trazendo aspectos sobre os regulamentos necessários diante realização de acordos entre dois ou mais sujeitos, bem como estabelece condições e obrigações recíprocas. Ou seja, o Direito dos Contratos consiste em uma teoria que rege a execução e a realização de todos os contratos vigentes, com base nesta teoria a formulação de um contrato baseia-se, primordialmente, na expressão da vontade humana em firmar um negócio jurídico, o qual gera efeitos no campo jurídico e assim traz à tona as discussões necessárias geradas entre as partes do negócio. Os renomados doutrinadores Flávio Tartuce e Pablo Stolze Gagliano em suas obras, conceituam, respectivamente, o seguinte acerca o contrato: “O contrato é um ato jurídico bilateral, dependente de pelo menos duas declarações de vontade, cujo objetivo é a criação, a alteração ou até mesmo a extinção de direitos e deveres de conteúdo patrimonial (TARTUCE, 2023)” e “Contrato é um negócio jurídico por meio do qual as partes declarantes, limitadas pelos princípios da função social e da boa- fé objetiva, autodisciplinam os efeitos patrimoniais que pretendem atingir, segundo a autonomia das suas próprias vontades (GAGLIANO; PAMPLONA FILHO, 2022).” A partir de suas definições sobre o que seria o contrato nota-se a presença seus elementos constitutivos, além de seus princípios e aspectos mitigatórios, afinal, ainda que ambos os conceitos pareçam semelhantes, os autores trazem elementos diferentes. Nesse sentido, vê-se que Tartuce traz uma abordagem tradicional acerca da formação dos contratos, baseando sua forma primeiramente na declaração de vontade de duas partes (princípio da liberdade das partes/ autonomia da vontade), o qual está vinculado a outro princípio, qual seja, a força obrigatória dos contratos (pacto sunt servanda), e por fim, o princípio da relatividade dos efeitos contratuais. Por outro lado, os juristas Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho debatem sob a temática moderna, a qual visa integrar os princípios tradicionais mencionados. Tais princípios são: boa-fé objetiva, função social do contrato e o equilíbrio econômico. Dessa maneira, o atual trabalho tem como objetivo principal a explanação da visão de ambos os autores trazendo os aspectos mitigatórios ocasionados pela criação de novos princípios na teoria contratual, tendo como base o Código Civil como fonte primária e as abordagens dos doutrinadores como fonte secundária. 2. PRINCÍPIOS DAS RELAÇÕES CONTRATUAIS SOB A ÓTICA TRADICIONAL Alegar que o contrato visa firmar um acordo entre duas partes ou mais, devendo ter objeto lícito, possível, determinado ou determinável, no qual há manifestação expressa das partes, é o conceito mais genérico e prático que pode ser utilizado no meio jurídico. Essencialmente essa é a finalidade deste objeto legal, no entanto, pode ser conceituado mais profundamente por meio da doutrina, uma vez que o Código Civil não traz um conceito na lei seca, propriamente falando. Como na lei somente há exemplos de relações contratuais, bem como as obrigações supervenientes deste, doutrinadores como Flávio Tartuce, Pablo Stolze, Fábio Ulhoa Coelho, Maria Helena Diniz, entre muitos outros, trazem a norma sob um aspecto epistemológico como forma de ampliar a ótica dos leitores sobre os contratos. Tradicionalmente, sua formação está ligada ao princípio da liberdade contratual, que permite às partes negociarem livremente os termos de seus contratos, desde que respeitem a ordem pública e os bons costumes. Sob a ótica de Pablo Stolze (2021, p. 612), o doutrinador define o seguinte acerca o contrato: Um negócio jurídico bilateral, por meio do qual as partes, visando a atingir determinados interesses patrimoniais, convergem as suas vontades, criando um dever jurídico principal (de dar, fazer ou não fazer), e, bem assim, deveres jurídicos anexos, decorrentes da boa-fé objetiva e do superior princípio da função social. (grifo meu). Nesse sentido, cabe conceituar os princípios oriundos desta era tradicional, iniciando assim com o princípio da autonomia das partes decorrente do Código Francês, o qual sofreu fortes influências da Revolução, propondo dessa maneira a inserção dos valores: liberdade, igualdade e fraternidade em seus contratos. Dessa forma, toda a base contratual foi concebida tendo como premissa a plena liberdade de contratar. Tal princípio visa a intervenção mínima do Estado, no contrato então é utilizada a liberdade contratual na qual os indivíduos (contratantes) tem o poder de regulamentar, mediante acordo, a regulamentação de seus interesses. Sob essa ótica o professor Stolze (2022, p. 618) afirma que “contrato sem vontade não é contrato. Pode ser tudo. Até tirania. Menos contrato.’’ Todavia, Tartuce alerta que tal autonomia não é absoluta, devendo obedecer a certos regramentos onde encontra “limitações em normas de ordem pública e nos princípios sociais.’’ (TARTUCE, 2023, p.1156). Dessa forma, tal liberdade contratual está relacionada ao direito de escolher o conteúdo do contrato, isto é, o direito de estipular as cláusulas e condições de acordo com seus interesses e suas conveniências, ressalvando-se as normas de ordem pública, podendo ser citado como exemplo contratos que tem como objeto algo ilícito e advindos de erro, dolo, coação ou outros vícios, podendo ser anulados como prevê o artigo 171, II do Código Civil, in verbis: Art. 171. Além dos casos expressamente declarados na lei, é anulável o negócio jurídico: (...) II - por vício resultante de erro, dolo, coação, estado de perigo, lesão ou fraude contra credores. Posteriormente, decorrente do primeiro, tem-se o princípio da força obrigatória dos contratos (pacta sunt servanda) pois, a partir da realização do negócio jurídico firmado entre os contratantes, há nele a obrigação do cumprimento deste por ambas as partes – pacta sunt servanda, ou, os pactos devem ser cumpridos. Afinal, “de nada valeria o negócio, se o acordo firmado entre os contraentes não tivesse força obrigatória. Seria mero protocolo de intenções, sem validade jurídica.” (STOLZE, 2021, p. 623). Desse modo, tal princípio tem como finalidade o reconhecimento da obrigatoriedade dos contratos, uma vez que não fosse assim haveria prejuízo para as partes, principalmente para aquela mais fraca na relação contratual, pois não teria o negócio jurídico força vinculante de lei. Contudo, há nesse fundamento alguns aspectos que trazem problemas quanto ao caráter humanitário que atualmente a relação contratual busca, sob uma crítica a esse princípio Tartuce traz o seguinte em sua obra: Anote-se que o princípio da força obrigatória como regra máxima tinha previsão já no Direito Romano, segundo o qual deveria prevalecer o pacta sunt servanda, ou seja, a força obrigatória do estipulado no pacto. Não poderia, portanto, sem qualquer razão plausível, sero contrato revisto ou extinto, sob pena de acarretar insegurança jurídica ao sistema. Vê-se, dessa maneira, características que traziam inseguridade jurídica para os indivíduos, principalmente a opressão do forte sobre o fraco, acentuando ainda mais as desigualdades sociais existentes. O civilista segue afirmando que com a pós- modernização do mundo globalização não há como prevalecer essa característica estática e dura dos contratos, tendo em vista avanços significativos no meio econômico e digital em que há abusos contratuais cometidos pelos grandes grupos econômicos. Dessa maneira, a mitigação desse fundamento enfraqueceu essa previsibilidade do contrato como forma de proteção jurídica e social: Certo é, portanto, que o princípio da força obrigatória não tem mais encontrado a predominância e a prevalência absoluta que exercia no passado, o que não pode ser alterado pela recente legislação. O princípio em questão está, portanto, mitigado ou relativizado, sobretudo pelos princípios sociais da função social do contrato e da boa-fé objetiva. (TARTUCE, 2023, p. 1190) Por fim, traz-se o princípio da relatividade dos efeitos contratuais o qual define que os efeitos oriundos do negócio jurídico só trarão efeitos para aqueles que fazem parte do contrato, não tendo efeito erga omnes, sendo somente para as partes – inter partes –, ou seja, relativo. Porém, tal princípio tem suas exceções podendo em alguns casos específicos atingir terceiros, Flávio Tartuce traz quatro exemplos, sendo o primeiro em benefício de terceiros como prevê os artigos 436 a 438 do Código Civil, in verbis: Art. 436. O que estipula em favor de terceiro pode exigir o cumprimento da obrigação. Parágrafo único. Ao terceiro, em favor de quem se estipulou a obrigação, também é permitido exigi-la, ficando, todavia, sujeito às condições e normas do contrato, se a ele anuir, e o estipulante não o inovar nos termos do art. 438. Art. 437. Se ao terceiro, em favor de quem se fez o contrato, se deixar o direito de reclamar-lhe a execução, não poderá o estipulante exonerar o devedor. Art. 438. O estipulante pode reservar-se o direito de substituir o terceiro designado no contrato, independentemente da sua anuência e da do outro contratante. Parágrafo único. A substituição pode ser feita por ato entre vivos ou por disposição de última vontade. A segunda exceção dar-se-á como uma promessa de fato a terceiro (arts. 439 e 440 do CC), podendo ser exemplificado como um indivíduo que firma um compromisso que deve ser realizado por outro sujeito, caso este não realize deverá o que prometeu ser responsabilizado. Art. 439. Aquele que tiver prometido fato de terceiro responderá por perdas e danos, quando este o não executar. Parágrafo único. Tal responsabilidade não existirá se o terceiro for o cônjuge do promitente, dependendo da sua anuência o ato a ser praticado, e desde que, pelo regime do casamento, a indenização, de algum modo, venha a recair sobre os seus bens. Art. 440. Nenhuma obrigação haverá para quem se comprometer por outrem, se este, depois de se ter obrigado, faltar à prestação. A terceira exceção configura-se quando o contrato com pessoa a declarar ou com cláusula pro amico eligendo (arts. 467 a 471 do CC), exemplifica Tartuce (p. 1232): “no momento da conclusão do contrato, pode uma das partes reservar-se à faculdade de indicar a pessoa que deve adquirir os direitos e assumir as obrigações dele decorrentes (art. 467 do CC).” E a última e quarta exceção ocorre quando há tutela externa do crédito ou eficácia externa da função social do contrato (art. 421 do CC), esse caso representa uma evolução na interpretação dos contratos, priorizando valores sociais e o princípio da solidariedade. Tal fato é exemplificado por um julgado onde uma seguradora deveria reparar os danos causados pelo segurado a um terceiro, cuja liberdade contratual das partes não seria afrontadas e assim haveria uma maximização da eficácia social do contrato seguindo o princípio da solidariedade e garantindo a função social do contrato. Art. 421. A liberdade contratual será exercida nos limites da função social do contrato. (Redação dada pela Lei nº 13.874, de 2019) Parágrafo único. Nas relações contratuais privadas, prevalecerão o princípio da intervenção mínima e a excepcionalidade da revisão contratual. (Incluído pela Lei nº 13.874, de 2019) No entanto, tal entendimento do STJ foi revisto e a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça decidiu que não pode a vítima ingressar com ação apenas e diretamente contra a seguradora, mas somente contra ambos. Como jurista, Tartuce lamenta que a jurisprudência do STJ (Súmula 529), tenha sido editada, a qual permitia que terceiros sem relação contratual direta pudessem exigir indenizações diretamente a seguradora do causador do dano, vejamos o enunciado: No seguro de responsabilidade civil facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado causador do dano. (SÚMULA 529, SEGUNDA SEÇÃO, julgado em 13/05/2015, DJe 18/05/2015) 3. PRINCÍPIOS DAS RELAÇÕES CONTRATUAIS SOB A ÓTICA MODERNA E SEUS ASPECTOS MITIGATÓRIOS Ainda que utilizados, tais princípios tradicionais não permitiam ao direito a implementação de valores sociais que transcendessem os interesses individuais das partes e permitissem a promoção da justiça e da solidariedade social. Por esse motivo houve a necessidade de um estudo que levasse em consideração tais prerrogativas para a mitigação desses princípios que traziam de forma rígida a relação contratual entre os indivíduos. Nessa toada, concebe-se o princípio da função social do contrato onde o Estado passa a adotar uma postura mais intervencionista, equilibrando-se com a sua intervenção mínima, afinal entendeu-se que o Estado não poderia ser mero espectador da ambiência econômica (STOLZE, p. 628). Ou seja, os efeitos do direito contratual devem ser considerados e interpretados para toda a coletividade, uma vez que sua finalidade jurídica é a distribuição de riquezas, viabilizando o desenvolvimento social e econômico do país. A função social do contrato é o princípio central para o Stolze, que afirma que os contratos devem respeitar o interesse coletivo, promovendo justiça e equilíbrio, sobretudo em um contexto cujas partes economicamente mais frágeis necessitam de proteção jurídica. O autor traz um estudo citado pelo professor Humberto Theodoro Jr. apud Paulo Nalin, o qual designa dois níveis para a manifestação da função social dos contratos, observemos: A) Intrínseco — o contrato visto como relação jurídica entre as partes negociais, impondo-se o respeito à lealdade negocial e à boa-fé objetiva, buscando-se uma equivalência material entre os contratantes; B) Extrínseco — o contrato em face da coletividade, ou seja, visto sob o aspecto de seu impacto eficacial na sociedade em que fora celebrado. (grifo meu) Assim, Stolze destaca que o contrato deve buscar uma relação equilibrada entre as partes e uma adequação aos interesses coletivos. A distinção proposta por Paulo Nalin, conforme citado por Humberto Theodoro Jr., mostra que a função social dos contratos deve operar em dois níveis: o intrínseco, onde prevalece a equidade e a boa-fé entre os contratantes, e o extrínseco, que considera a repercussão do contrato sobre a sociedade. Esses dois níveis buscam assegurar que o contrato, enquanto instrumento jurídico, seja um meio de justiça e promoção do bem comum. Dando continuidade nessa abordagem modernizada, Stolze conceitua o princípio da boa-fé objetiva introduzindo-se primeiramente na visão romana (bona fides) o qual semanticamente a “A fides seria antes um conceito éticodo que propriamente uma expressão jurídica da técnica. Sua ‘juridicização’ só iria ocorrer com o incremento do comércio e o desenvolvimento do jus gentium, complexo jurídico aplicável a romanos e a estrangeiros”. Ou seja, o autor explora tal princípio retomando as origens romanas no qual o conceito “bona fides” inicialmente gozava de um sentido ético, ligado ao campo da moral e das boas intenções do que ao campo técnico e jurídico. Em Roma, a boa-fé referia-se a confiança e a lealdade que um sujeito demonstrava em seus compromissos, tendo dessa maneira um valor social e não uma obrigação legal. O questionamento que se levanta é: como tal conceito mudou-se para aquele que conhecemos hodiernamente? A resposta encontra-se no aumento das relações comerciais existentes e formando o desenvolvimento do jus gentium (direito dos povos), assim a boa-fé começou a ganhar importância prática incorporando-lhe valor técnico, afinal como este facilitava o comércio houve a necessidade de estabelecimento de uma base de confiança e honestidade nas negociações e assim esse princípio jurídico transformou-se em essencial para a aplicação das normas contratuais e comerciais. Feito esse breve apanhado histórico, já podemos observar que a boa-fé é, antes de tudo, uma diretriz principiológica de fundo ético e espectro eficacial jurídico. Vale dizer, a boa-fé se traduz em um princípio de substrato moral, que ganhou contornos e matiz de natureza jurídica cogente.” (STOLZE, 2021, p. 643) (...) tendo o homem como centro necessário das atenções, oportuno de indagar da possibilidade de localização da boa-fé enquanto princípio geral do Direito, no sistema constitucional, assim como os demais princípios então ditos fundamentais inclusos na Carta, como o da dignidade do ser humano, a vida, a integridade física, a liberdade, a propriedade privada, a livre manifestação do pensamento, a intimidade e vida privada etc. (STOLZE apud NALIN, 2021, p. 643) Dessa forma, o princípio da boa-fé objetiva atua como uma cláusula de lealdade e transparência entre as partes, exigindo condutas de cooperação e vedando abusos, ainda que não estejam previstos explicitamente no contrato. Com essa mitigação, é possível que contratos sejam interpretados com base em padrões éticos e morais, buscando o equilíbrio nas relações e protegendo partes mais vulneráveis. Ainda há mais um princípio mencionado por Stolze, o qual não se encontra na obra do jurista Tartuce, mas, é de imensa valia introduzi-lo neste artigo. O Princípio da equivalência material desenvolvido por Paulo Luiz Netto Lôbo busca a preservação do equilíbrio real dos direitos e deveres do contrato, tanto para manter a proporcionalidade inicial dos direitos e obrigações, tanto para correção dos desequilíbrios supervenientes dos contratos (STOLZE, 2021, p. 641-642 apud NETTO LÔBO, 20XX). Nas palavras do jurista: O que interessa não é mais a exigência cega de cumprimento do contrato, da forma como foi assinado ou celebrado, mas se sua execução não acarreta vantagem excessiva para uma das partes e desvantagem excessiva para outra, aferível objetivamente, segundo as regras da experiência ordinária. Entretanto, no entendimento de Stolze e Gagliano, tal princípio é superveniente da função social do contrato, sendo um “subproduto normativo” deste princípio maior. Os doutrinadores alegam que o princípio da equivalência material seria um desdobramento da manifestação intrínseca da função social e da boa-fé objetiva do contrato. Os autores apontam que esses princípios são fundamentais para que o contrato contribua para um solidarismo social, ou seja, uma relação justa que respeite a dignidade de cada parte, limitando o poder econômico de uma das partes em contratos desequilibrados. A ideia é superar o princípio tradicional do pacta sunt servanda (de que o contrato deve ser cumprido a qualquer custo), substituindo-o por uma abordagem que busque o equilíbrio e a equidade, em sintonia com valores sociais e éticos modernos. Assim, com a Constitucionalização do Direito Contratual percebe-se uma suavização das relações contratuais, principalmente no que cerne à coletividade, uma vez que o interesse desta como um todo deve ser levado em consideração. Tais aspectos mitigatórios refletem os olhares de juristas que visaram a justiça social e a igualdade nas relações privadas, tendo em vista a vulnerabilidade social de pessoas naturais em relação a empresas. 4. DA FORMAÇÃO DOS CONTRATOS Encerrada as definições dos princípios dos contratos, faz-se necessário o estudo sobre a formação destes uma vez que já observamos os fundamentos que norteiam a relação contratual. Em regra, o contrato é um negócio jurídico bilateral fruto da convergência da manifestação de vontade de partes contrárias (STOLZE, 2021, p. 668), onde, por exemplo, em um caso de vendas, apresentam proposta e oferta e caso haja aceitação, as manifestações fazem surgir o consentimento. Contudo, até que a formação do contrato seja pactuada há conflitos de interesses pelas partes e somente será formalizado quando as duas encontrem um caminho para que a proposta oferecida seja aceita e assim o negócio seja culminado. Como já explanado no tópico anterior, o contrato é dotado pela autonomia privada conferindo liberdade de contratação entre os sujeitos, todavia essa liberdade não é ilimitada ou absoluta sendo mitigada pela supremacia da ordem pública, dispondo que o negócio tenha que obedecer a solidariedade social (função social do contrato) e a boa-fé objetiva. De forma clara e objetiva, Tartuce, por sua vez, identifica quatro fases na formação do contrato, qual sejam: 1) Fase de negociações preliminares ou de puntuação; 2) Fase de proposta, policitação ou oblação; 3) Fase de contrato preliminar; 4) Fase de contrato definitivo ou de conclusão de contrato. A primeira fase se inicia com a discussão dos termos e condições que pretendem estabelecer no contrato, há somente uma pretensão e as propostas discutidas ainda não são formalizadas e como o título diz, é uma fase preliminar, não configurando em pré-contratual. Tal fase não está prevista no Código Civil de 2002, portanto não há do que se falar em vinculação das partes nem mesmo da existência da responsabilidade civil contratual do negócio. (TARTUCE, 2023, apud, DINIZ). Todavia, embora não exista uma obrigação formal que vincule as partes, estas devem agir com boa-fé evitando as práticas enganosas e/ou comportamentos que possam prejudicar a outra parte, instigando até mesmo ao aceite. Ainda nesse sentido, a obrigação de não contratar não significa que os danos decorrentes não devam ser indenizados, por exemplo, a parte que efetivou gastos com a certeza de que o negócio seria celebrado e não o foi, deve ser indenizado. Depende, pois, da circunstância do caso. Consequentemente, conclui-se que doutrinariamente a fase da puntuação gera deveres as partes, afinal em alguns casos a confiança depositada gera expectativa da celebração e a quebra desta pode sim gerar responsabilização civil. Em segundo lugar, o jurista destaca a chamada fase de proposta – ou policitação ou oblação –, esta fase tem caráter formal, pois constitui a manifestação da vontade de contratar por um dos sujeitos do negócio, o proponente, o qual apresentar a outra parte (oblato) os termos e as condições que deseja estabelecer. A referida etapa define-se apenas pela declaração unilateral de vontade apenas produzindo efeitos caso seja recebida pela outra parte, o Código Civil dispõe o seguinte acerca da fase de oblação, in verbis: Art. 427. A proposta de contrato obriga o proponente, se o contrário não resultardos termos dela, da natureza do negócio, ou das circunstâncias do caso. Art. 431. A aceitação fora do prazo, com adições, restrições, ou modificações, importará nova proposta. Nesse sentido, para que esta fase produza efeitos alguns requisitos são necessários, primeiramente a proposta deve ter a presença de todos os elementos essenciais do negócio proposto (ex: preço, quantidade, tempo de entrega, validade, entre outros), a proposta deve ser séria, clara, precisa e definitiva e a aceitação deve ser pura e simples. A fase de contrato preliminar, ocorre quando as partes formalizam o interesse de firmar o contrato definitivamente, o Código Civil traz regras em seus artigos 462 a 466. Tartuce explica que esta etapa não é obrigatória entre as partes, sendo dispensável, mas há aqueles que preferem por introduzi-lo em suas relações contratuais. No entanto, há uma compreensão de Pablo Stolze que melhor desmitifica o que seria o contrato preliminar: (...) compreendemos o contrato preliminar como uma avença através da qual as partes criam em favor de uma ou mais delas a faculdade de exigir o cumprimento de um contrato apenas projetado. Trata-se, portanto, de um negócio jurídico que tem por objeto a obrigação de fazer um contrato definitivo. Ao compreendermos o que é o contrato preliminar, prossegue-se em conceituar as duas classificações dos tipos de compromissos contratuais previstos nesta etapa, são eles: a) Compromisso unilateral do contrato: esta hipótese, segundo o professor Tartuce, existe quando as duas partes assinam o contrato, mas somente uma delas assume um dever, uma obrigação de fazer o contrato definitivo. Sendo assim, deixa em aberto para o outro contratante a opção de celebrar o contrato definitivo. b) Compromisso bilateral do contrato: as duas partes assinam o contrato e assumem a obrigação de celebrar o contrato definitivo, havendo nele a possibilidade de retratabilidade. Esta fase serve para dar segurança e estabilidade Às partes durante as negociações de um contrato definitivo, pois está resguardada no princípio da boa-fé e da lealdade, afinal ambas as partes devem agir com transparência e colaboração para o fechamento do negócio, além disso a função social também é aplicada uma vez que os indivíduos devem observar o equilíbrio e evitar abusos. Sendo assim, o contrato preliminar protege as partes de desistências arbitrárias e fornece uma base sólida para a conclusão do contrato definitivo. Por fim, a fase de contrato definitivo (conclusão) ocorre quando o contrato se torna formal e definitivo, nele as partes oficializam o acordo e começam a ter obrigações e direitos vinculantes conforme decididos no contrato final, esta etapa marca o compromisso completo dos contratantes. Adverte, Tartuce, “não se pode esquecer que a boa-fé objetiva, com todos os seus deveres anexos ou laterais, deve ser aplicada a essa fase, bem como à fase pós-contratual.” 5. CONCLUSÃO Concluindo, o estudo do Direito Contratual revela uma transição gradual do tradicional, moderno e o pós-moderno. Inicialmente destaca-se o Direito dos Contratos sob uma perspectiva tradicional, centrada por princípios como o pacta sunt servanda, rígidos e que não garantiam a proteção social e segurança jurídica dos agentes. Embora ainda exista esses princípios nas relações contratuais vimos que a constitucionalização do direito trouxe uma nova perspectiva acerca destes, havendo dessa maneira uma mitigação que colaborou para a implementação dos valores sociais, da solidariedade e da dignidade humana. Nesse sentido, os princípios da autonomia da vontade, da força obrigatória e da relatividade das partes foram limitados por princípios da função social, da boa-fé objetiva e da equivalência material que asseguram uma aplicação mais justa das normas contratuais, protegendo partes vulneráveis e promovendo um ambiente jurídico que respeite o interesse coletivo. Assim, o Direito Contratual se molda aos desafios atuais, oferecendo um caminho de equilíbrio entre a liberdade individual e a proteção contra abusos, em sintonia com a promoção de uma sociedade mais equitativa e solidária. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula nº 529. No seguro de responsabilidade civil facultativo, não cabe o ajuizamento de ação pelo terceiro prejudicado direta e exclusivamente em face da seguradora do apontado causador do dano. Diário Judicial Eletrônico: seção 2, Brasília, DF, 13 maio 2015. GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA FILHO, Rodolfo. Manual de direito civil: volume único. São Paulo: Saraiva, 2021. TARTUCE, Flávio. Manual de direito civil: volume único. 13. ed. Rio de Janeiro: Método, 2023.