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Infância Educação Infanti uma abordagem histórica Moysés Kuhlmann Jr. Editora Mediação Digitalizado com CamScannerCoordenação Editorial: Jussara Hoffmann Assistente Editorial: Luana Aquino Revisão: Setor Editorial Mediação Capa: Bento de Abreu Editoração: Setor Editorial Mediação Impressão: Gráfica e Editora Pallotti Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) K96i Kuhlmann Júnior, Moysés. Infância e Educação Infantil : uma abordagem histórica / Moysés Kuhlmann Jr.-7. - ed. - Porto Alegre : Mediação, 2015. 192 Inclui bibliografia. ISBN 978-85-87063-16-8 1. Educação pré-escolar - Brasil - História. 2. Assistência a menores - Brasil - História. 3. Creches - Brasil - História. 4. Educação de crianças - Brasil. 5. Jardim de infância - Brasil. I. Título. CDU 373.2(81)(091) CDD 362.70981 Bibliotecária responsável: Sabrina Leal Araujo - CRB 10/1507 Edição: 1998 Todos os direitos desta edição reservados à Editora Mediação Distribuidora e Livraria Ltda. Av. Taquara, 386/908 Bairro Petrópolis Porto Alegre RS CEP 90460-210 Fone: (51) 3330 8105 faleconosco@editoramediacao.com.br ft Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorização expressa do Editor. by Moysés Kuhlmann Jr., 2015 Printed in Brazil/Impresso no Brasil Digitalizado com CamScanner5. Instituições pré-escolares assistencialistas no Brasil (1899-1922) Há uma diversidade de opiniões sobre as causas e os temas que influenciado a constituição das instituições pré-escolares - creches, escolas maternais e jardins de infância. Neste capítulo, pretendo apresentar uma análise sobre a história dessas instituições, em nosso país, no campo da assistência à infância, como resultado da articulação de interesses jurídicos, empresariais, políticos, médicos, pedagógicos e religiosos, em torno de três influências básicas: a jurídico-policial, a médico-higienista e a religiosa. Além dessa composição de forças, a infância, a maternidade e o trabalho feminino também são aspectos presentes na história das institui- ções de Educação Infantil. Não se pode deixar de reconhecer, ainda, que subjacente ao conjunto desses fatores, a questão econômica - entendida de modo amplo, como o processo de constituição da sociedade capitalista, da urbanização e da organização do trabalho industrial - evidencia-se como um fator determinante, sem que isso represente "a resolução de uma mera equação de primeiro O que se pretende mostrar é que a história das instituições pré-escolares não é uma sucessão de fatos que se somam, mas a interação de tempos, influências e temas, em que o período de elaboração da proposta educacional assistencialista se integra aos outros tempos da história dos homens. As instituições pré-escolares foram difundidas internacionalmente a partir da segunda metade do século XIX, como parte de um conjunto de 77 Editora Mediação Digitalizado com CamScanner78 e Educação Infantil medidas que conformam uma nova concepção assistencial, a assistência abarcando aspectos como a alimentação e habitação dos e dos pobres, conforme analisado no capítulo anterior. A grande marca dessas instituições, então, foi a sua postulação como como propostas modernas, científicas - palavras utilizadas nessa época de exaltação do progresso e da indústria. A creche, para as crianças de zero a três anos, foi vista como muito mais do que um aperfeiçoamento das Casas de Expostos, que recebiam as crianças abandonadas; pelo contrário, foi apresentada em substituição ou oposição a estas, para que as mães não abandonassem suas crianças. Além disso, não se pode considerar a creche como uma iniciati- va independente das escolas maternais ou jardins de infância, para as crianças de três ou quatro a seis anos, em sua vertente assistencialista, pois as propostas de atendimento educacional à infância de zero a seis anos tratam em conjunto das duas iniciativas, mesmo que apresentando instituições diferenciadas por idades e classes sociais. Fig. 1. Sessão solene de inauguração do novo prédio do Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro - IPAI/RJ (Archivos de Assistencia a Infancia do Rio de Janeiro, V. 15, n. 1, jan./ dez. 1929, p. 16). Editora Mediação79 Moysés Kuhlmann Jr. As primeiras propostas de instituições pré-escolares no Brasil No ano de 1899, ocorreram dois fatos que permitem considerá-lo como marco inicial do período analisado. Em primeiro lugar, fundou-se o Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro, ins- tituição pioneira, de grande influência, que posteriormente abriu filiais por todo o país. Em segundo lugar, foi o ano de inauguração da creche da Companhia de Fiação e Tecidos Corcovado (RJ), a primeira creche brasileira para filhos de operários de que se tem regis- tro. Entretanto, é possível identificar alguns Fig. 2. Vitral do hall de entrada da momentos anteriores a essa data, quando nova sede do com o lema do instituto (AAI, V. 15, n. 1, jan./dez. ocorreram manifestações importantes em 1929, p. 36). relação às instituições pré-escolares. Em janeiro de 1879, no Rio de Janeiro, foi lançado um jornal chamado A de Família, destinado às mães burguesas, às senhoras fluminenses, Fig. 3. Componentes da Comissão de Damas do IPAI/RJ, responsáveis pelas festas e pela creche do instituto (AAI, V. 5, n. 9, set. 1907, p. 6). Editora Mediação Digitalizado com CamScanner80 Infância e Educação Infantil como redator principal o Dr. Carlos Costa, médico artigo moléstias tendo Vinelli, médico dos Expostos como especialista creche em das crianças. Nessa publicação, em destaque, em do jornal, apareceu uma das primeiras referências à Misericórdia do Rio de Janeiro. país, escrita pelo Dr. K. da Santa Casa nos- de O artigo, publicado em partes até o número seis do jornal, se "A creche" (asilo para a primeira infância). Vinelli apresentou a creche de forma peculiar, pois, enquanto na França e nos países europeus, ela proposta em nome da ampliação do trabalho industrial feminino, era ainda não havia uma demanda efetiva daquele setor. O autor, embora aqui referindo a essa característica da nova instituição, mostrou-se preocupado com a lei do Ventre Livre, que teria trazido um problema para as donas de casa, em relação à educação das crianças de suas escravas: Fig. 4. interior de uma creche ao norte da França sob direção dos Dr. Wibaux - Florin instalação improvisada em uma fábrica (AAI, n. 1, abr./mai. 1917, p. 33). Que tarefa não é a de educar o filho de uma escrava, um ente de uma condição nova que a lei teve de constituir sob a condição de ingênuo! Que grave responsabilidade não assumimos conservando em nosso lar, junto de nossos filhos, essas criaturazinhas que hoje embalamos descuidosas, para amanhã vê-las talvez convertidas em inimigos da nossa e quiçá mesmo da nossa Editora Mediação Digitalizado com CamScannerMoysés Kuhlmann Jr. 8 I Aliás, a chamada creche popular foi criada e até hoje ainda man- tém muito dessa característica - mais para atender às mães trabalhadoras domésticas, do que às operárias industriais. o jardim de infância dos ricos No ano de 1883 houve a tentativa de se realizar um Congresso da Ins- trução, que não se realizou, mas que resultou na Exposição Pedagógica do Rio de Janeiro e na publicação dos textos que haviam sido elaborados para apresentação no congresso. A Exposição Pedagógica de 1883 caracterizou- se, na questão da educação pré-escolar, pela legitimação dos interesses pri- vados. Embora houvesse referências à implantação.de jardins de infância para atender a pobreza, elas não encontravam o menor eco em iniciativas concretas. A preocupação daqueles que se vinculavam às instituições pré- escolares privadas brasileiras era com o desenvolvimento das suas próprias escolas. Nota-se, entre eles, a utilização do termo "pedagógico" como uma estratégia de propaganda mercadológica para atrair as famílias abastadas, como uma atribuição do jardim de infância para os ricos, que não poderia ser confundido com os asilos e creches para os pobres. O inspetor geral da Instrução Pública, Souza Bandeira Filho - e também membro da comissão que, naquela exposição, atribuiu a Menezes Vieira o diploma de primeira classe pelos trabalhos relativos ao seu jardim de infância -, publicou um relatório sobre a viagem que havia realizado para obter informações sobre o ensino pré-escolar em diversos países da Europa (França, Suíça, Áustria e Alemanha), no qual o Kindergarten, por suas características, era apresen- tado como uma instituição procurada pelas famílias das elites: Na Áustria e Alemanha principalmente, os Kindergarten ainda são reputa- dos uma instituição fora do alcance das classes populares; estas levam seus filhos para os asilos, que os guardam durante o dia, e mais se preocupam com a propaganda religiosa. As classes médias e as superiores, pelo con- trário, enviam seus filhos aos institutos mantidos pelas associações (Ve- reinKindergarten) ou contratam senhoras que educam em casa as crianças conforme os preceitos do sistema. (...) O sistema Froebel é uma reforma Editora Mediação Digitalizado com CamScanner82 e Educação Infantil lecimentos de caridade destinados às crianças aquela educação estabe- exclusivamente pedagógica. Seguramente convém introduzir nos única compatível com o progresso científico; mas não se confundam causas a tão essencialmente setor privado da educação pré-escolar, voltado para as elites, com os jardins de infância de orientação froebeliana, teve como principais expoentes, no Rio de Janeiro, o do Colégio Menezes Vieira, fundado em 1875; e em São Paulo, o da Escola Americana, de 1877. No setor público, o jardim de infância anexo à Escola Normal Caetano de Campos, de 1896, que será estudado no próximo capítulo, mesmo sendo oficial, atendia aos filhos da burguesia Mesmo considerando a incipiente industrialização do país, a produ- ção capitalista era uma referência para aqueles que defendiam as novas instituições, inclusive em relação ao setor privado. Joaquim Teixeira de Macedo comparava o atraso de 40 anos no reconhecimento dos Kinder- garten (jardins de infância) com a demora na valorização da Revolução Industrial, afirmando: "a primeira máquina a vapor inventada não causou senão completa incredulidade, e ninguém sonhava nos prodígios que ela seria capaz de realizar. O mesmo acontece no mundo Instituições pré-escolares assistencialistas Durante as duas décadas iniciais do século XX, implantaram-se as primeiras instituições pré-escolares assistencialistas no Brasil. Se na Euro- pa, as salas de asilo salles d'asile, primeiro nome das écoles maternelles francesas -, para as crianças de três a seis anos, antecederam a criação das creches, aqui a situação se inverte: em geral, as entidades primeiro fundavam creches, prevendo uma posterior instalação dè jardins de recomendação da criação de creches junto às indústrias ocorria com frequência nos congressos que abordaram a assistência à infância. Era uma medida defendida no quadro da necessidade de criação de uma regu- lamentação das relações de trabalho, particularmente quanto ao trabalho Editora Mediação Digitalizado com CamScannerMoysés Kuhlmann Jr. 83 Fig. 5. Escola Maternal Vila Maria Zélia, criada por Jorge Street para atender a filhos de operários, 1918 (Foto cedida pelo LABRIMP-USP). feminino. A creche da Companhia de Fiação e Tecidos Corcovado (RJ) fundou-se em 13 de novembro de 1899. A fábrica Corcovado já havia criado o Montepio dos Operários em 1896, com o objetivo de prestar assistência médica e dentária, socorros funerários e pecuniários aos sócios empregados daquele estabelecimento e suas famílias. Cabe ressaltar que - quando ainda hoje o reconhecimento da paternidade é tão discriminado -, o regulamento garantia a matrícula aos filhos de todos os operários efetivos e não apenas às mães operárias6. Há outros exemplos de creches e escolas maternais em indústrias, como a da Companhia de Tecidos Alliança, do Rio de Janeiro (premiada nas Exposições Internacionais da Louisiana, em 1904, e de Bruxelas, 1910, e também na Exposição Nacional de 1908); da Vila Operária Maria Zélia, do industrial Jorge Street, em São Paulo, em 1918; e da indústria Votoran- tim, em Sorocaba, São Paulo, em Entretanto, considerado não como um direito dos trabalhadores e de seus filhos, mas como uma dádiva dos filantropos, propunha-se o atendimento educacional à infância por enti- dades assistenciais. Editora Mediação Digitalizado com CamScanner84 e Educação Infantil Fig. 6. Asilo de menores desamparados do Rio de Janeiro - crianças de sete a 17 anos (AAI, n. 7-8, jul./ago. 1907, p. 136). O Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro (IPAI-RJ), entidade mais importante do período estudado, foi fundado pelo médico Arthur Moncorvo Filho, em 24 de março de 1899. Em 1929, já possuía 22 filiais em todo o país, 11 delas com creche (Belo Horizonte, Fortaleza, Curitiba, Juiz de Fora, São Luís, Niterói, Petrópolis, Ribeirão Preto, Rio de Janeiro, Salvador, e Santos). A Associação das Damas da Assistência à Infância, entidade apêndice do IPAI, que tinha o objetivo de auxiliar a manutenção do Instituto, fundou, em 1908, a creche Sra. Alfredo Pinto, que atendia, em sua grande maioria, filhos de empregadas domés- ticas e não de operárias. O IPAI dividia os seus serviços em puericultura intrauterina - gine- cologia, proteção à mulher grávida pobre, higiene da prenhez, assistência ao parto em domicílio, assistência ao recém-nascido e extrauterina que incluía o programa Gotas de Leite (distribuição de leite), creche, consulta de lactantes, higiene da primeira idade, exame e atestação das amas de Editora Mediação Digitalizado com CamScannerMoysés Kuhlmann Jr. 85 leite, exame das mães que pedem leite esterilizado para seus filhos, e va- cinação. IPAI promoveu concursos de robustez para bebês, atribuindo prêmios em dinheiro às mães que aleitavam seus filhos. O seu lema era: "infantes tuendo pro Patria Laboramus (quem ampara a infância trabalha pela Pátria)". O IPAI-RJ foi reconhecido de utilidade pública municipal em 1909; premiado com medalha de prata na Exposição da Louisiana em 1904; com o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908; com medalha de ouro na Exposição de Higiene em 1909, Rio de Janeiro; e no Congresso Sul- Americano de Mutualismo, em São Paulo em 1910; e com o Diploma de Hon- ra em 1912 na Exposição de Higiene em Roma. As filiais do IPAI da Bahia e de Pernambuco também receberam o Grande Prêmio na Exposição de 1908. Outra entidade de assistência à infância é o Patronato de Menores, fundado por juristas brasileiros em 1906, no Distrito Federal. O Patronato inaugurou a Creche Central, denominada assim para ser matriz de outros institutos semelhantes a se abrir nos bairros afastados do centro da cidade, em 1908, no edifício onde funcionava o Asilo de Menores Desamparados, cedido pelo chefe de polícia, Dr. Alfredo Pinto, com a finalidade de "abrigar as criancinhas cujas mães busquem trabalho fora do lar". Ainda no Distrito Fig. 7. Jardim de Infância Marechal Hermes, Rio de Janeiro (AAI, n. 1, abr./mai. 1917, p. 34). Editora Mediação Digitalizado com CamScanner86 Infância e Educação Infantil Federal fundou-se, em 1916, a Assistência de Santa Thereza, que tinha como programa: auxílio à velhice sofredora; auxílio aos enfermos desprotegidos: auxílio às famílias reconhecidamente pobres; cozinha para os necessitados: instrução elementar, cívica e moral; creche diurna; e recolhimento das crianças desamparadas. Em São Paulo, em 1901, um grupo de senhoras, em sua maioria professoras, sob a direção de Anália Franco, espírita, filiada ao Partido Republicano, fundou uma sociedade destinada ao amparo e educação da mulher e da infância: a Associação Feminina Beneficente e O primeiro passo da entidade foi criar um Liceu Feminino, estabelecimento destinado a preparar professoras para escolas chamadas maternais (es- pécie de creche e jardim de infância) e uma escola noturna destinada à alfabetização da mulher. Segundo Kishimoto, as creches de Anália Franco, ao menos em seu início, atendiam em regime de Ainda em São Paulo, a Revista Educação e Pediatria anunciou, em 1913, a fundação da Creche Baroneza de Limeira, destinada a filhos de criados e operários, "que na luta afanosa da vida são obrigados a entregar a mãos inábeis os filhos de tenra idade"9. Fig. 8. Jardim de Infância Campos Sales, Rio de Janeiro (AAI, V. 9, n. 1, abr./mai. 1917, p. 34). Editora Mediação Digitalizado com CamScannerMoysés Kuhlmann Jr. 87 Congressos e saberes sobre a assistência à infância A creche não era defendida de forma generalizada, pois trazia à tona conflitos, tais como a defesa da atribuição de responsabilidade primordial à mãe na educação da pequena Vieira salienta que a expressão "mal necessário" foi utilizada para caracterizar a creche por autores que a No entanto, se a proposta de constituição das creches foi objeto de controvérsias, a afirmação da sua necessidade pressupunha que essas instituições poderiam colaborar para conciliar a contradição entre o papel materno defendido e as condições de vida da mulher pobre e traba- lhadora, embora essa não deixasse de ser responsabilizada por sua situação. As novas instituições não eram apenas um mal necessário, mas repre- sentavam a sustentação dos saberes jurídico, médico e religioso no controle e elaboração da política assistencial que estava sendo gestada e que tinha na questão da infância o seu principal pilar. Cada saber apresentava as suas jus- tificativas para a implantação de creches, asilos ou jardins de infância, e seus agentes promoveram a constituição de associações assistenciais privadas, como apresentado anteriormente. Essas influências se articularam, em nosso país, tanto na composição das entidades, como na participação e organização de congressos sobre os temas da assistência, da higiene, da educação, etc., que ocorreram em número expressivo durante o período O peso das concepções médico-higienistas na sociedade - particular- mente na assistência à infância -, durante as primeiras décadas deste século, acaba por encobrir, à primeira vista, a influência de outras concepções. Sonia Kramer atribui ao período inicial do atendimento pré-escolar, chamado por ela de "fase pré-1930", um caráter de atendimento médico e Maria Vittoria P. Civiletti (1988, p. 99) afirma que as creches teriam sido implantadas pelos médicos, aliados às mulheres burguesas, nos interesses do movimento higienista e visando ao atendimento às trabalhadoras Entre- tanto, embora aquele saber esteja marcadamente presente na constituição das creches e asilos, em nosso país, não se pode caracterizar este período como de hegemonia médico-higienista: as propostas de atendimento pré- escolar não são monopólio daqueles interesses, daquele corpo profissional. Editora Mediação Digitalizado com CamScanner88 e Educação Infantil Não havia apenas médico-higienismo na Educação Além puericultura, que passou a integrar os currículos das escolas desenvolveram-se da estudos de Psicologia Infantil e de métodos pedagógicos a criança pequena. Já evidenciamos que a difusão das instituições associava-se para umbilicalmente à ideia de sociedade moderna e à ideologia do progresso. Nos congressos dedicados à infância se outras influências: esses congressos iniciaram-se na Antuérpia, Bélgica, em 1894, repetindo-se em Bruxelas em 1895 e em Liège, em Em Paris, também em 1905, realizou-se o Primeiro Congresso Internacional de Gotas de Leite, o segundo deles em Bruxelas, em 1907 quando foi criada a União Internacional de Proteção à Infância da Primeira Idade -, e o terceiro em Berlim, 1911. Em julho de 1913, reunia-se na Bélgica o Primeiro Congresso de Proteção à Infância, referido anteriormente. Os Congressos Americanos da Criança ocorreram a partir de 1916 como parte das comemorações do centenário da independência argentina, em Buenos Aires. O segundo foi em 1919, Montevidéu. O terceiro, durante a Exposição de 1922, no Rio de Janeiro, realizado conjuntamente com o Pri- meiro Congresso Brasileiro de Proteção à Infância. Essas reuniões reuniram um amplo espectro de forças sociais, como identificou Alfredo Ferreira de Magalhães médico da Bahia que teve uma participação marcante nas iniciativas de atendimento à infância no início do século em relação ao encontro de 1916: Primeiro Congresso Americano da Criança não foi um congresso de clínica pediátrica, como talvez a muitos tenha podido parecer. Ali não se encon- traram, não trocaram ideias e discutiram somente os médicos; estiveram também presentes advogados, jurisconsultos, políticos, professores de ensi- no secundário, normal e profissional, diretores de associações protetoras de crianças, velhos e moços, homens, senhoras e senhorinhas, sendo que muitas destas demonstraram não pequeno grau de cultura intelectual e Na organização do Primeiro Congresso Brasileiro de Proteção à Infância, ocorrido em 1922 juntamente com o Terceiro Congresso Ame- ricano da Criança, recebendo a adesão de mais de 2600 membros de 21 estados brasileiros, espelham-se as forças envolvidas. A sua programação de maneira alguma traz formulações originais, sendo semelhante à de Editora Mediação Digitalizado com CamScannerMoysés Kuhlmann Jr. 89 outros congressos internacionais, anteriormente realizados, sintetizando o conjunto das preocupações que envolviam a questão. congresso representou, no caso brasileiro, a consagração de pro- postas que vinham sendo desenvolvidas aqui desde o início do século. Seu objetivo era "tratar de todos os assuntos que direta ou indiretamente se referiam à criança tanto no ponto de vista social, médico, pedagógico e higiênico, em geral, como particularmente em suas relações com a família, a sociedade e o O congresso foi dividido em cinco seções: Sociologia e Legislação, particularmente em relação à família e à coletividade; Assistência - em relação à mulher grávida, mãe ou nutriz, às crianças da primeira e da se- gunda idade; Pedagogia - especialmente em relação à Psicologia Infantil e à educação física, moral e intelectual, inclusive à educação profissional; Medicina - Medicina Infantil e Pediatria em geral, Cirurgia, Ortopedia e Fisioterapia; e Higiene Eugenia, higiene privada da primeira e da segunda infância, estudo da química alimentar da criança da primeira idade, Higiene Pública, principalmente das coletividades, sobretudo a Higiene Escolar. Como se pode observar, a perspectiva é a de abarcar o conjunto das questões que possam envolver a infância a ser assistida, em uma articulação que encontra raízes por todo o território nacional. Três influências básicas podem ser identificadas na composição de forças que irão participar da ela- boração dessas políticas: a médico-higienista, a jurídico-policial e a religiosa. médico-higienismo A década de 1870 marca-se pela entrada triunfal da influência médico- higienista nas questões educacionais. Nessa época, consolidaram-se e os conhecimentos relativos às relações entre micro-organismos chamada avançaram doenças, inaugurando-se a era bacteriológica, assim por e George Rosen. Esse autor ressalta que a cooperação internacional para partir a prevenção de doenças passou a ser assunto da maior importância a de meados do século Editora Mediação Digitalizado com CamScanner90 e Educação Infantil Os resultados concretos obtidos a partir das descobertas de Louis Pasteur e dos demais cientistas que se ocuparam de pesquisas no campo da epidemiologia dotaram a Medicina e a Higiene de uma autoridade social incontestável. Houve avanços no combate à mortalidade infantil, a pasteurização do leite de vaca permitiu que o uso da mamadeira fosse difundido, multiplicaram-se as chamadas consultas de lactantes, as ligas contra a mortalidade e as o produto mães os às infantil diariamente. discussões Gotas Com de isso, Leite, instituições médicos ganharam que distribu- um papel preponderante nas sobre a criança. Na educação, essa influência foi fundamental, presente em inúmeros aspectos. São vários os médicos que de algum modo redirecionaram suas atividades profissionais ou políticas à educação, como donos de escolas, membros de órgãos governamentais, pesquisadores, membros de asso- ciações dedicadas à educação popular, etc. Os higienistas discutiam os projetos para construção de escolas, a implantação dos serviços de inspeção médico-escolar e apresentavam sugestões para todos os ramos do ensino, em especial com relação à educação primária e infantil. As creches teriam até funcionado como laboratórios para os médicos, como na creche anexa à Escola Doméstica de Natal (RN) criada em 1914 pelo Dr. Henrique Castriciano. A creche, sob a guarda de miss Rose Jammes, diplomada pelo Watts Hospital, Estados Unidos, recebia anualmente seis crianças internas para observação diária das alunas, além das que o professor julgava conveniente trazer ao estabelecimento, para o estudo de diversas moléstias, notadamente das Do ponto de vista médico-higienista, o grande tema associado à as- sistência à infância era a mortalidade Além disso, as propostas se integravam ao projeto mais geral de saneamento para atingir a civilidade e a modernidade. De acordo com Moncorvo Filho, no as maiores momento e em que se procura realizar o saneamento do Rio de Janeiro com mais estupendas obras, é bom e assistência imediata à infância, esse saneamento que se diga que, sem a proteção tônica, que nos as vale termos os mais belos monumentos na mais não será fina linha completo; arquite- de cada qual grandes e frescas enfim os mais diversos mais suntuoso a aguçar a nossa vista, se possuímos uma panoramas, raça que Editora Mediação Digitalizado com CamScannerKuhlmann Jr. 9 I aos poucos se deprime, se enfraquece e se elimina? (...) Sim, pelos cuidados prodigalizados à infância pode-se avaliar o grau de civilização de um A Pediatria, uma especialização recente da Medicina, encontrava na Puericultura a forma de divulgação de normas racionais de cuidados com a infância. A Puericultura era considerada como "a ciência da família, feita com a colaboração confiante da mãe e do médico, do amor materno esclarecido pela Além disso, também era entendida como "a ciência que tem por fim pesquisar os conhecimentos relativos à reprodução e à conservação da espécie Assim, a Puericultura desdobrava- se numa perspectiva de controle racial, adotando princípios da eugenia, concepção racista que ganhava espaço nesse período. A participação da mulher na assistência era estabelecida numa linha de auxiliares da intervenção dos homens. As mães burguesas, as esposas e parentes dos promotores das associações assistenciais eram postas como aliadas dos médicos na tarefa de difusão dos novos comportamentos exi- gidos para a função materna, atuando como modelos junto às mães traba- lhadoras. Esse movimento de promoção e subordinação da mulher pode ser verificado na ocupação de cargos de caráter secundário na composição das associações, e também no nome atribuído à creche fundada pelo IPAI- RJ, em 1908, Creche Sra. Alfredo Pinto: o nome da homenageada ficou à sombra do de seu marido, chefe de polícia do Distrito Federal. Fig. 9. Os 30 lactantes que recebiam leite pasteurizado no Dispensário Moncorvo (AAI, set. 1907, p. 26). Editora Mediação Digitalizado com CamScanner92 Infância e Educação Infantil Apesar de seu caráter médico, conselho administrativo do IPAI constituído por representantes de vários setores sociais, como militares, negociantes, industriais, juristas, e outros profissionais foi Os objetivos do IPAI, segundo seus estatutos de 1903, mostram preocupação com a questão jurídica e também com a educação: inspe- cionar e regulamentar a lactação; inspecionar as condições de vida das crianças pobres (alimentação, roupas, habitação, educação, instrução, etc.); dispensar proteção a crianças abandonadas; auxiliar a inspeção médica nas escolas e indústrias; zelar pela vacinação; difundir meios de combate à tuberculose e outras doenças comuns às crianças; criar jardins de infância e creches; manter o Dispensário Moncorvo para tratamento das crianças pobres; criar um hospital para crianças pobres; auxiliar os poderes públicos na proteção às crianças necessitadas; criar sucursais nos bairros do Rio de Janeiro; concorrer para que fossem criadas, nos hospícios e casas de saúde, escolas para imbecis, idiotas, etc.; criar filiais nos outros estados; propagar a necessidade de leis protetoras da infância e também da regulamentação da indústria das amas de leite; finalmente, "aceitar, favorecer, auxiliar e propagar qualquer ideia em proveito da caridade, máxime em prol da Fig. 10. Concurso de robustez infantil: "os 19 rechonchudos concorrentes", 14/07/1907, data de ani- versário do IPAI-RJ (AAI, V. 5, n. 9, set. 1907, p. 56). Editora Mediação Digitalizado com CamScannerKuhlmann Jr. 93 A influência jurídico-policial Do ponto de vista jurídico-policial, as preocupações com as legisla- ções trabalhista e criminal trazem o tema da chamada infância moralmente abandonada. A definição de parâmetros para a legislação trabalhista, que se desenvolvia naquele momento, implementa uma divisão entre medi- das para os trabalhadores, entendidos como beneficiários; e medidas que passam a constituir o campo da assistência, voltadas para os mais pobres, entendidos como Determinados aspectos da vida dos operá- rios tais como a habitação, a educação das crianças, etc. não são vistos como direitos do trabalhador mas como mérito dos que se mostrem mais subservientes. Segmenta-se preconceituosamente a pobreza considerada uma ameaça à tranquilidade das elites procurando dificultar o seu acesso aos bens culturais. Os objetivos do Patronato de Menores, estabelecidos nos estatutos de 1909, eram: fundar creches e jardins de infância; proporcionar aos me- nores pobres recursos para o aproveitamento do ensino público primário; incutir no espírito das famílias pobres os preciosos resultados da instrução; auxiliar os Juízes de Órfãos no amparo e proteção aos menores material- mente e moralmente abandonados; promover a proibição das vendas por menores "na escola perniciosa das ruas"; codificar as causas que acarretam a cessação do pátrio poder; evitar a convivência dos menores de ambos os sexos, promovendo a extinção da promiscuidade nos xadrezes, criando depósitos com aposentos separados para ambos os sexos; promover a as- sistência dos detentos menores; tratar da reforma das prisões de menores; e esforçar-se para que se realize a fiscalização de todos os asilos e institutos de assistência pública e privada. Evaristo de Moraes publicou, em 1916, o livro Criminalidade da Infância e da Adolescência, em que dedica um capítulo à importância dos congressos de antropologia criminal e jurídicos) na definição de normas para um novo tipo de atendimento à infância, a fim de evitar a criminalidade. Segundo o autor, as causas da criminalidade se dividiriam em duas categorias de fatores: os individuais, ligados à here- ditariedade, e os Editora Mediação Digitalizado com CamScanner94 Infância e Educação Infantil Em comunicação ao Congresso de Proteção à Infância, em 1922, jurista João Aureliano Correia de Araujo retomava as mesmas A Antropologia aos Criminal, divulgada pelo italiano Lombroso, daria ênfase fatores hereditários; e a Sociologia Criminal daria ênfase à do meio. Na complexa questão da criminalidade infantil, as duas concepções viriam a compor "uma só corrente de ideias entrelaçadas e unânimes". Nesse sentido, os sociólogos e antropólogos criminalistas são acordes em que o patrocínio e a assistência à infância desvalida ou moral e mente abandonada é a base de todo o sistema de proteção e socorro efetivo de que felizmente se vêm ocupando os Estados modernos, como obra de fraternidade e preservação Evaristo de Moraes dava especial relevo à "causa familiar" para a criminalidade da infância, apontando a desorganização da família e a má influência diretamente exercida em certos meios familiares. Moraes refere-se ao livro Le Crime dans la Famille, do juiz francês Luiz Albanel, que distribuía os pais socialmente imprestáveis em três classes: os negligentes, os incapazes, que necessitam da melhoria das condições de vida (habitação, etc.) e os indignos. Ainda segundo Moraes, o Congresso Penitenciário Internacional de 1895 contribuiu para definir a orientação a se adotar: privar do pátrio poder os indignos; e ajudar os pais ou parentes honestos, criando creches, salas de asilo, escolas maternais e asilos temporários para adolescentes. A influência religiosa A Igreja Católica - "única instituição capaz de salvar a ordem social e fazer a felicidade dos povos" anunciava a sua contribuição para o con- trole das classes Seguindo o exemplo de outros setores, realizaram-se congressos católicos visando organizar e homogeneizar o clero e os leigos militantes para a implementação das novas políticas as- sistenciais. Assim, no Primeiro Congresso Eucharistico Nacional, em 1922, Alice Pinheiro Coimbra afirmava: Editora Mediação Digitalizado com CamScannerMoysés Kuhlmann Jr. 95 É pelo ferro e pelo fogo que se costuma sufocar a revolta nas classes populares como se fora esse o remédio de mais pronta e enérgica efi- cácia; esses meios, porém, são contraproducentes, pois que, o homem tomado de indignação e indisciplina assemelha-se à fera que nem sempre aquieta-se sentindo o fustigo do rebenque do seu domador. Soluções mais suasórias encontram-se na religião católica como melhores antídotos contra os grandes venenos que entorpecem a inteligência e a alma das classes A intervenção da Igreja na nova ordem social foi norteada pela encí- clica Rerum Novarum, elaborada pelo Papa Leão XIII em 1891. Segundo Arno Mayer, embora essa celebrada encíclica censure desmandos do libe- ralismo condenando a usura e os lucros desmedidos da classe patronal, e lamentando a miséria e superexploração dos trabalhadores -, a principal denúncia do pontífice romano era contra os sindicatos e o socialismo, vistos como irreligiosos e aproveitadores das condições do proletariado. Con- siderada componente da ordem natural de Deus, a propriedade privada seria inviolável; assim, para proteger os proprietários, a multidão deveria ser mantida na "linha do dever"; teria de "sofrer e suportar" sua condição Carlos de Brito, em sessão solene do Primeiro Congresso Eucarístico, fazia referência à Rerum Os religiosos apresentavam a Igreja como um sustentáculo da socie- dade capitalista, enfatizando que a sua experiência secular na caridade, o seu know-how não deveria ser desprezado. Em 1900, o Padre Julio Maria destacava como a Igreja no trato com a pobreza, por meio das obras sale- sianas, estaria sendo útil para a segurança do capital: D. Bosco compreendeu o que é o pobre, compreendendo a grandeza so- brenatural do pobre, o seu destino providencial, transformou o pobre em protetor do rico. (...) No seio da sociedade moderna, onde tantos ódios, tantas inconfessáveis assaltam a propriedade e ameaçam a rique- za, ele criou uma proteção para o rico, mais poderosa do que os governos, mais eficaz do que os exércitos, mais solícita e previdente do que a política. Compreendeis a beleza de sua obra? Mais do que a infância desamparada, os ricos devem venerar D. Bosco! Saudemos, pois, saudemos na sua obra gloriosa o grande Editora Mediação Digitalizado com CamScanner96 e Educação Infantil Os médicos e os juristas não prescindiram da orientação religiosa seus estabelecimentos, como se poderia supor. Cabe ressalvar que nos posicionamentos mais laicos como os de Moncorvo Filho e de Fran- há Vaz, vendo, no caráter cientificamente organizado da assistência, contraposição à caridade religiosa. Entretanto não é uma postura uma levou a rompimentos com a Igreja Católica: havia muito mais uma acomodação que de interesses, o que pode ser observado na presença do monsenhor Fernando Rangel para benzer o novo edifício sede do IPAI-RJ, em 1929; em discursos efetuados nos congressos; ou então nas creches e asilos, onde os religiosos trabalhavam, como os da Vila Maria Zélia e do Patronato de Menores, que tinha também uma capela para o ofício As contestações Mesmo reunindo uma quase unanimidade em torno daquilo que se apregoava ser uma atitude científica e moderna, antes mesmo de sua realização o Congresso Brasileiro de Proteção à Infância foi objeto de ques- tionamento pela Revista Clarté. Publicada durante o segundo semestre de 1921, como órgão do grupo Liga Intelectual Clarté, de orientação socialista, tinha como membros do seu comitê diretor: Luiz Palmeira, Evaristo de Mo- raes, Nicanor Nascimento, Everardo Dias e Antonio Correia. O segundo número da revista, de setembro, trouxe o artigo "A infância abandonada", escrito por Luiz Palmeira, com críticas contundentes à reunião: "para nós outros, que não aderimos, esse Congresso nada resolverá de prático, porque a causa do abandono infantil não será nunca discutida". A causa do abandono era identificada na desigualdade econômica produzida pelo sistema capitalista: A miserabilidade infantil (...) só poderá ser evitada se fizerem cessar o egoísmo capitalista, de cuja cessação surgirá a fraternidade entre os povos, isto mesmo depois de muita luta e obstinação, de muito sacrifício e muitas revoluções. Com o equilíbrio econômico entre os homens, sim, o problema social, no seu aspecto materialístico, chegará ao seu termo Editora Mediação Digitalizado com CamScannerKuhlmann Jr. 97 final e, nunca, pelas de teses empomadadas de engomados sociólogos, que olham a vida por entre as frestas das venezianas, rica- mente trabalhadas de seus palacetes ou que olham a vida através dos vidros de seus luxuosos Palmeira via em muitos intelectuais uma atitude que beirava a ar- rogância diante da pobreza, provinda de uma visão edulcorada de sua própria atuação política: Para esses sociólogos de pacotilha o abandono da infância se acabará com simples, com meras sugestões de filantropismo, como se possível lhes fosse solucionar o problema com a criação de casas de caridade. Contra isto, contra este filantropismo barato, falsificado, protesta a verdade histórica, porquanto até hoje o coeficiente de pequeninos miseráveis não tem diminuído. As denúncias de Palmeira não se restringiam ao nosso país, estenden- do-se às instituições francesas, dinamarquesas, belgas, italianas, austríacas, etc. autor duvidava que, de fato, o congresso viesse a apresentar resulta- dos concretos para a melhoria da situação de vida da maioria das crianças de nossa população. Para comprovar isso, Palmeira nomeava alguns dos participantes do encontro: Sr. Alfredo Pinto, hoje ministro do Supremo, e ontem Ministro da Justiça, já proporcionou a desgraça em muitas famílias de obreiros! E o então secre- tário do congresso, como deputado, o Sr. Andrade Bezerra, já defendeu o governo em matéria de expulsão ilegal de trabalhadores honestos em pleno parlamento! Como estes, muitos outros há que são fatores do abandono de meninos e que figuram no índice do congresso. Podem, destarte, os algozes do pai servir de protetor aos filhos? Não! O futuro Congresso de Proteção à Infância, que tem como presidente de honra o Presidente da República e como vices os membros do ministério, os governadores dos estados, o cardeal arcebispo, etc., etc., nada fará em favor da causa que pretendem defender, porque na realidade ele será uma farsa como tantas outras já representadas. Apesar de todas essas críticas e da declaração de não adesão ao congresso, Evaristo de Moraes, membro do conselho editorial da revista, participou como secretário da mesa daquela seção, e também apresentou comunicações sobre dois temas oficiais da seção de Sociologia e Legislação: "o testemunho infantil e juvenil perante a justiça e prostituição e infância", Editora Mediação Digitalizado com CamScanner98 e Educação Infantil não havia qualquer formulação crítica em relação à Outra manifestação nas quais polemizadora em relação às concepções majoritárias do con- foi feita por Maria Lacerda de Moura, feminista, simpatizante das ideias gresso comunistas e anarquistas, na época, professora em Barbacena (MG). Em 1920, ela encaminhou cinco trabalhos para a comissão Embora não tenha participado do encontro, suas ideias foram publicadas no sétimo boletim do congresso. As comunicações de Maria Lacerda trataram da educação, da mulher e da assistência. No texto "O atual regime social soluciona o problema da proteção à infância", ela denunciava as propostas assistencialistas. Uma criança atendida seria "como a gota d'água no oceano imenso da miséria universal". Caberia, então, protestar contra a exploração dos fortes, dos ricos, dos poderosos, pois não se tratava de dar, mas de restituir aos ex- plorados o que lhes fosse de direito: Tudo ao alcance de todos: Educação clássica pelo teatro: Corneille, Racine, Ibsen, Shakespeare, Molière, Dickens, etc., etc. Bibliotecas públicas por toda parte. Museus. Exposições permanentes. Edições de todas as obras clássicas distribuídas pelos lugares mais longínquos. Escolas ao ar livre. Sanatórios e colônias de férias. Postos de higiene. Fontes de água fervida. Centros de música. Excursões e viagens. Escolas de professores. Escolas profissionais anexas a cada escola primá- ria e secundária. Conselhos de professores. Escolas de belas-artes. Postos ortopédicos. Escolas para cegos e surdos-mudos. Escolas para mutilados. Aproveitamento do cinematógrafo como meio de educação sob todos os aspectos. Aproveitamento dos palácios para escolas, hospitais ou centros de diversões. Sanatórios de trabalho. Campos de jogos. Escolas maternais e jardins de infância. Laboratórios e postos dentários. Assistência médica. Raios X. Conferências. Nem jogo nem álcool. Parques e jardins públicos, etc., etc. Enfim, o bem-estar para todos, a satisfação das vocações e das necessidades. A saúde e a alegria de viver. Nada disso é pos- sível no atual regime, porque os detentores do poder e do capital ficariam prejudicados nos seus interesses pessoais. As ideias expressas por Maria Lacerda não permitem seu enquadra- mento em uma corrente de pensamento definida, como analisou seu tom contestador, apaixonado e apaixonante, revela tanto aspectos de Editora Mediação Digitalizado com CamScannerKuhlmann Jr. 99 uma consciência crítica em relação às propostas que se produziam no campo das temáticas abordadas no congresso, quanto elementos do pensamento dominante que eram adotados O registro dessas posições é importante para que não se tome a hegemonia construída pela assistência científica como uma unanimidade geral. Conclusão No período estudado, era bastante comum o engajamento das pessoas que se preocupavam com a Educação Infantil em várias associações, com- postas por diferentes setores sociais. Participavam de entidades específicas da educação ou da assistência à infância, como a Sociedade Amante da Instrução ou o Instituto de Proteção e Assistência à Infância, e também de outros grupos, como o Instituto Histórico e Geográfico, ligas de combate à tuberculose, a Sociedade Francesa de Eugenia e muitas À organização desses diversos setores sociais podemos relacionar o conceito de "formações", utilizado por Raymond Williams, ao discutir a Sociologia da cultura, para referir-se àqueles movimentos "que têm influência significativa e por vezes decisiva no desenvolvimento ativo de uma cultura, e que têm uma relação variável, e com frequência oblíqua, com as instituições As "formações" seriam esses movimentos e tendências conscientes literários, artísticos, filosóficos ou científicos com que "os 'produtores têm sido organizados ou se têm organizado eles Há trabalhos de pesquisa histórica que dão importância quase exclusi- va ao peso específico de uma determinada influência, seja sobre o conjunto da vida social, ou em particular quanto à área educacional. Por exemplo, enfatizando o papel do médico-higienismo nas creches, como se fosse o único fator a marcar a sua criação e difusão. Outras vezes, identificando nas tensões entre campos do conhecimento ou concepções ideológicas, por exemplo entre juristas e médicos, ou entre liberais, positivistas e católicos, um motivo para lhes atribuir posições antagônicas e irreconciliáveis. Editora Mediação Digitalizado com CamScanner100 Infância e Educação Infantil Não foram apenas os conhecimentos no campo da Higiene que desenvolveram nesse período. A Antropologia e a Sociologia informavam Direito nas propostas relacionadas à família, ao trabalho e à criminalidade infantil, visando à renovação das instituições educacionais sob a influência dos setores jurídicos, como os internatos e escolas disciplinares. A Engenha- ria Civil e a Arquitetura procuravam aplicar os ensinamentos da Higiene e da Pedagogia nos seus projetos de edificação escolar. Os temários e a composição dos congressos mostram que, para além das tensões e influências específicas, ocorriam articulações entre essas forças, capazes de produzir campos de composição comum, em nome da constituição de uma modernidade que não viesse a ameaçar a manutenção de privilégios sociais, em nome de uma cidadania limitada aos interesses dominantes. Cada sujeito participante desse processo se vinculava quase sempre a mais do que um único grupo. Poderia ser, por exemplo, um dono de escola e médico a participar da mesma associação que um jurista, senador e católico, e outro industrial, positivista e ame- ricanista. As concepções produzidas nessas interações homogeneizavam as posições específicas, atenuando as contradições entre elas. Moncorvo Filho, falando sobre a inauguração do Instituto de Proteção à Infância do Rio de Janeiro, afirmava: Entre as 700 pessoas que subscreveram a ata de instalação e no quadro dos Beneméritos de então, encontra-se a elite de nossa sociedade: Presidentes da República, Governadores de Estado e Prefeitos, Ministros de Estado, Membros do Poder Judiciário, do Corpo Diplomático e do Parlamento, Membros do Conselho Municipal e Havia disputas de posições, mas não se abria mão do esforço comum em organizar uma sociedade por eles intitulada "moderna". Definiam-se atribuições do Estado e instituições próprias para esse mundo capitalis- ta, urbano, industrial, ou nem tanto. Os diferentes setores dirigiam suas propostas para a organização da vida social mas não eram o Estado, sem também deixar de sê-lo: construíam-no. Editora Mediação Digitalizado com CamScannerMoysés Kuhlmann Jr. 101 NOTAS DO AUTOR 1 F. Carta a Joseph Bloch, 1890. In: MARX, K.; ENGELS, F. Ludwig Feuerbach e o fim da Filosofia classica e outros textos Lisboa: Estampa, p. 185-188. 2 A DE FAMILIA, n. III, 1881. p. 19-21. 3 BANDEIRA FILHO, 1883. A. H. S. jardim infantil: sua natureza, seu fim e seus meios de Rio de Ja- neiro: Typ. Nacional, [Relatório apresentado ao governo pelo inspector geral da Instrucção acção. Primaria e Secundaria do município da Côrte], p. 30-33. 4 KISHIMOTO, T. M. A pré-escola em São Paulo (1877-1940). São Paulo: Loyola, 1988; KUHLMANN JR., M. Educação pré-escolar no Brasil, 1899-1922: exposições e congressos a "assistência São Paulo, 1990. Dissertação (Mestrado) PUC-SP; patrocinando Jardim da Infância Caetano de Campos. In: REIS, M. C. D. (Org.). "Caetano de Campos": fragmentos da história da instrução pública no Estado de São Paulo. São Paulo: Moderna/Associação dos Ex-Alunos do Instituto de Educação Caetano de Campos, 1994. p. 61-72. CONGRESSO Rio de Janeiro, 1883. Actas e pareceres. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1884. 6 ASSISTÊNCIA Pública e Privada no Rio de Janeiro: história e estatística; comemoração do centenário da Independência nacional. Rio de Janeiro: Typ. do "Annuario do Brasil", 1922. [prefácio e organização de Ataulpho N. de Paiva], p. 323. 7 KUHLMANN JR., 1990, op. cit.; KISHIMOTO, 1988, op. cit.; VIEIRA, L.M.F. Creches no Brasil: de mal necessário a lugar de compensar carências, rumo à construção de um projeto educativo. Belo Horizonte, 1986. Dissertação (Mestrado) UFMG. op. cit., p. 25, 52-61. 9 EDUCAÇÃO E PEDIATRIA, São Paulo, V. 1, n. 1, 1913, p. 61-62. 10 VIEIRA, op. cit. 11 KRAMER, S. A política do pré-escolar no Brasil: a arte do disfarce. Rio de Janeiro: Achiamé, 1982. M. V. P. A creche e o nascimento da nova maternidade. Rio de Janeiro: 1988. Dissertação (Mestrado) Psicologia/FGV. 13 MAGALHÃES, A. F. de. De Regresso do Primeiro Congresso Americano da Criança. Salvador: Al- meida, 1918. p. 6. 14 CONGRESSO BRASILEIRO DE PROTEÇÃO À INFÂNCIA, n. 6, 1924, p. 78. 15 ROSEN, G. Uma história da saúde pública. São Paulo: Hucitec/UNESP; Rio de Janeiro: Abrasco, 1994, p. 224. 16 CONGRESSO BRASILEIRO DE PROTECÇÃO A INFÂNCIA, 1., Rio de Janeiro, 1922. Boletim 7. Rio de Janeiro: Emp. Graph., 1925. p. 890. [Comunicação "O Ensino de Puericultura nas Escolas Domésticas", de Henrique Castriciano]. 17 ARCHIVOS DE ASSISTENCIA A INFANCIA. Rio de Janeiro, V. III, n. 1-3, jan./fev./mar. 1904, p. 2-3. 18 Assistência Pública e Privada no Rio de Janeiro, p. 14. 19 A. F. Puericultura e philopedia. Salvador [Imp. Oficial], 1922, p. xix. 20 MONCORVO FILHO, A. Da assistência pública no Rio de Janeiro e particularmente da assistência à Rio de Janeiro: Imp. Nacional, 1907. [Comunicação enviada ao IV Congresso Internacional de Assistência Pública e Privada, Milão, 1906], p. 9-11. 21 A. O. Vida urbana e gestão da pobreza. São Paulo: Cortez, 1988. p. 314. 22 MORAES, E. de. Criminalidade da infância e da adolescência. 2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, Editora Mediação Digitalizado com CamScanner102 Infância e Educação Infantil 1927, 11 e segs. Evaristo de Moraes participou da corrente socialista reformista no início do escreveu diversos trabalhos sobre a questão da legislação trabalhista e criminal, foi membro século, entidades (como por exemplo a Liga Brasileira de Higiene Mental), chegando a Trabalho no governo Vargas. integrar o Ministerio de várias do 23 CONGRESSO BRASILEIRO DE PROTECÇÃO A INFANCIA, 7° Boletim, p. Esc. Typ. Salesiano, 1901. p.59. "CONGRESSO CATHOLICO DIOCESANO DE SÃO PAULO, 1., 1901. Actas e São Paulo: 25 CONGRESSO EUCHARISTICO NACIONAL, 1., Primeiro Congresso Eucharistico Nacional, no Rio de Janeiro, de 26 set. a 01 out. 1922, em comemoração ao Primeiro Centenário da celebrado do Brasil. SLp, scp, sd, p. 399. [Comunicação Para a Eficácia da Vida Eucarística nas Classes Iniciativas e Apostolados Femininos; Meios Práticos, nas sessões de estudos para senhoras]. Populares: 26 MAYER, A. J. A força da tradição: a persistência do Antigo Regime, 1848-1914. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, p. 241-2. 27 Ver p. 61. 28 MARIA, J. A religião, ordens religiosas. Instituições pias e beneficentes. In: ASSOCIAÇÃO DO QUARTO CENTENÁRIO DO DESCOBRIMENTO DO BRASIL. Livro do Centenário (1500-1900). Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1900, V. 1. p. 83. 29 Assistência Pública e Privada, p. 353-354. 30 CLARTÉ. Revista de Sciencias Sociaes, Rio de Janeiro, V. 1, n. 2, set. 1921, p. 85-89. Sobre a revista, -se M. M.; PINHEIRO, P.S. grupo Clarté no Brasil: da revolução nos espíritos ao Ministério veja- do Trabalho. In: PRADO, A. A. (Org.). Libertários no Brasil: memórias, lutas, cultura. São Paulo: Brasiliense, 1986, p. 251-287. 31 LEITE, M. L. M. Outra face do feminismo: Maria Lacerda de Moura. São Paulo: Ática, 1984. 32 Em discurso na inauguração da nova sede do Instituto de Proteção e Assistência à Infância do Rio de Janeiro, Moncorvo Filho afirmava, sobre o IPAI: (...) extraordinário número de prestigiadas organizações dos mais civilizados países com as quais estamos em estreitas relações (Chidren's Bureau, Board of Educa- tion, American Genetic Association, Bureau International de Protection l'Enfance, Instituto Internacional Americano de Protección a la Infancia, Association de Secours aux Enfants, e muitas outras). Archivos de Assistência à Infância, V. XV, n. 1, 1929, p. 47 (reproduzido do Jornal do Comércio de 20 jul. 29). 33 WILLIAMS, R. Marxismo e literatura. Rio de Janeiro: Zahar, 1979. p. 120. 34 Cultura. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. 35. 35 Archivos de Assistencia a Infancia, V. XV, n. 1, 1929, p. 42-3. Editora Mediação Digitalizado com CamScanner

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