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AULA 1 ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Prof.ª Cristina Rolim Chyczy Bruno 2 CONVERSA INICIAL Figura 1 - Omissão Crédito: Gilmar Barbosa As políticas públicas são capazes de impulsionar avanços de uma forma geral no sistema educativo, ou, gerar estagnação. Com criatividade e brilhantismo, Nani (2011), na imagem anterior, nos faz pensar que a omissão das instituições governamentais pode inibir os avanços que são necessários no campo da educação, criando, de tal forma, distâncias entre o que o governo intenciona fazer, e o que, realmente, faz. Ao longo destes estudos, vamos investigar as políticas educacionais voltadas à educação de jovens e adultos enquanto forma de desvendar interesses e ações - e omissões - voltadas à educação de maneira geral, e à educação de jovens e adultos em especial. O olhar histórico das legislações voltadas à educação de jovens e adultos, nos permitirá um entendimento crítico acerca deste nível de ensino, reconhecendo seus propósitos e percebendo suas características em diferentes momentos da história. Assenta-se aí um passo importante na formação do docente preocupado com a situação do analfabetismo no Brasil. 3 TEMA 1 – AS POLÍTICAS PÚBLICAS: UM OLHAR PELA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NO BRASIL COM FOCO NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Quando pensamos acerca da história da educação de jovens e adultos no Brasil não podemos deixar de frisar o papel dos jesuítas, no projeto do Brasil Colônia, em que a intenção primeira era, por meio da leitura e da escrita, catequizar os adultos indígenas. Paiva (1987) enriquece nosso relato quando descreve o papel dos jesuítas na implementação da alfabetização de adultos, no Brasil Colônia, por volta de 1549. Os jesuítas realizaram um trabalho voltado ao ensino da língua portuguesa, assim como à catequização, destinado aos indígenas adultos. Todavia, como esclarece a autora, o foco estava assentado mais na catequese do que propriamente no ensino das primeiras letras. Há que destacar que o fato também demonstra as primeiras iniciativas de ensino voltadas aos adultos no Brasil Colonial. Esses dados são interessantes à medida em que revelam fatos históricos, pelos quais podemos analisar iniciativas voltadas à educação de adultos, que, desde a colônia, vêm carregados de projetos políticos. Em especial, como no caso dos indígenas, sua formação era essencialmente ligada à prática do catolicismo, forjando novas crenças e, porque não arriscar afirmar, gerar uma nova cultura para o povo que habitava o Brasil na época. Saiba mais Para saber mais acerca do papel dos jesuítas na educação brasileira você pode recorrer à leitura da obra: História da Educação Brasileira: a organização escolar. Autora: Maria Luisa dos Santos Ribeiro. No capítulo 1: A organização escolar no contexto da consolidação do modelo agrário- exportador dependente, a autora detalha o papel dos jesuítas na fundação dos colégios. Também apresenta o Primeiro Plano Educacional elaborado pelo padre Manoel da Nóbrega. Há neste capítulo uma rica descrição da escola de ler e escrever, enquanto forte propagadora da fé católica. Vale a pena pesquisar para enriquecer suas leituras! 4 No que tange à questão histórica, Galvão e Soares (2010, p. 27) argumentam criticamente, afirmando que “escrever a história da alfabetização no Brasil é uma tarefa praticamente impossível.” Pois os materiais, bem como os próprios dados históricos referentes ao período colonial, assim como do império, são escassos, especialmente em relação à educação de adultos. Todavia, fazemos constar e damos destaque à história, pois somente dessa forma é possível construir uma abordagem crítica desta modalidade de ensino nos dias atuais. Destarte, faz-se necessário levar em consideração o fato de nosso país apresentar características tão distintas “e desde o período colonial, experiências de alfabetização de adultos têm sido vivenciadas de maneira diferente […] fontes necessárias para construí-las estão espalhadas por todo Brasil” (Galvão e Soares, 2010, p.28). No cenário paranaense encontramos dados extremamente relevantes por intermédio da pesquisadora Lilian Wachowicz (1984) retratando que, no ano de 1882, no estado do Paraná, foram criadas 15 escolas para adultos; todas eram noturnas, e contaram com a frequência de 361 adultos; desses adultos, 71 eram escravos. “Surgem escolas noturnas em várias localidades; em muitas delas, o professor trabalha gratuitamente, sendo o mesmo professor regente, com vencimentos, da escola pública regular, durante o dia” (Wachowicz, 1984, p. 223). No contexto das escolas noturnas, nesse período, dependiam de “ânimos particulares” para sustentá-las; ainda, era difícil contar com professores que se dispusessem a lecionar as primeiras letras para pessoas adultas: “na escola noturna, oferecendo três meses de serviço sem remuneração, sendo que o inspetor oferecia uma sala de sua própria casa” (Wachowicz, 1984, p. 223). Os fatos históricos nos oferecem subsídios para vislumbrar o cenário da educação de adultos nesse período, em especial, considerando o contexto paranaense. Elementos históricos ora apresentados nos mostram que a educação de adultos, desde as suas primeiras iniciativas, em grande parte precisava contar com a “caridade” daqueles que se dispunham a exercê-la. Como argumentam Galvão e Soares (2010, p. 35), “A alfabetização de adultos é colocada sob a égide da filantropia, da solidariedade e não do direito”. À medida que avançarmos em nossas análises vamos perceber o quanto essas “raízes”, infelizmente, permanecem nas práticas educativas voltadas à 5 educação de jovens e adultos, desconsiderando o direito das pessoas que não tiveram acesso aos bens culturais da leitura, escrita, letramento na idade certa, em “razão” da benevolência daqueles se dispõem a oferecê-la. TEMA 2 – LEGISLAÇÃO BRASILEIRA: AS PRIMEIRAS LEIS DE ENSINO E SEUS IMPACTOS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Cremos na importância das investigações das leis educacionais quando nos mobilizamos para estudar uma modalidade de ensino. Com a educação de jovens e adultos esse olhar para as leis de diretrizes e bases é fundamental, pois permite avaliar a concepção de educação vigente em diferentes períodos, assim como o “valor” atribuído pelo poder público ao segmento em questão. Para tornar nossos estudos organizados didaticamente, abordamos a primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei n. 4024, de 20 de dezembro de 1961, uma legislação bastante significativa, não só da educação de adultos, mas da educação brasileira como um todo. Em seu artigo 2°, a lei afirma que “a educação é um direito de todos”. No inciso II, ela aponta: […] pela obrigação do Estado de fornecer recursos indispensáveis para que a família, e na falta desta, os demais membros da sociedade se desobriguem dos encargos da educação, quando provada insuficiência de meios, de modo que sejam assegurados iguais oportunidades a todos (Brasil, 1961). Em face da promulgação dessa lei, que na época tornava o ensino público do curso primário de quatro anos obrigatório e gratuito, gerou-se, de certa forma, uma esperança por parte dos educadores que lutavam por um modelo educativo menos excludente, no sentido de que poderia haver a participação das camadas mais desfavorecidas na vida social e econômica do país. Trouxemos aqui tal assertiva, em virtude do desejo que a educação de jovens e adultos atendesse às demandas de um processo de ensino mais democrático. Em síntese, a primeira lei de diretrizes e bases do ensino, por si só, não seria capaz de gerar grandes mudanças no cenário educativo. Sob um olhar criterioso e crítico, vemos uma legislação que procurou enquanto inspiração a integração dos excluídos no sistema de ensino,mas na prática educativa, tal pretensão não se efetivou. 6 Outra lei relevante para nossos estudos é a Lei Federal n. 5.692, de 11 de agosto de 1971. Elaborada pelos governos militares, trouxe pontos de reforma à lei anteriormente apresentada, mas não a substituiu. Vale mencionar que esta lei de reforma é reveladora da tendência produtivista da educação enquanto “elemento” útil ao sistema capitalista. A Lei n. 5.692/71 regula, no artigo 24, a criação do ensino supletivo, que tem como objetivo: […] a) suprir a escolarização regular para os adolescentes e adultos que não a tenham seguido ou concluído na idade própria; b) proporcionar, mediante repetida volta à escola, estudos de aperfeiçoamento ou atualização para os que tenham seguido o ensino regular no todo ou em parte […] Art. 25. O ensino supletivo abrangerá, conforme as necessidades a atender, desde a iniciação no ensino de ler, escrever e contar e a formação profissional definida (Brasil, 1971). É relevante assinalar que o Ensino Supletivo foi criado por meio dessa lei, dedicando-se o capítulo IV à “finalidade de suprir a escolarização regular para os adolescentes e adultos que não tenham seguido ou concluído na idade própria; proporcionar, mediante repetida volta à escola estudos, ou atualização […]” (Brasil, 1971). Uma lei reveladora de uma educação de adolescentes e adultos, sob um prisma tecnicista, assentada, como a própria lei aponta, em técnicas elementares de leitura, no campo da alfabetização. Consideramos detalhar a proposta de análises da educação de jovens e adultos, recorrendo às leis de ensino do país, isso em virtude de a legislação caracterizar-se enquanto processo decisório em políticas educacionais. Martins (2010) define os processos decisórios sob a influência de duas tendências: a primeira é a busca de soluções para problemas sociais e econômicos enfrentados por governos de sociedades industriais; e a segunda tendência, visa suprir lacunas nas abordagens iniciais, que não davam conta dos problemas detectados. Desta maneira, a lei n. 5.692/71 representa a posição do Estado diante de uma “busca de solução” técnica de educação, sob a égide da eficiência e da produtividade. Villa (2009) afirma que a lei não significou uma ruptura completa com a lei n. 4024/61, pois incorporava os objetivos gerais do ensino de 1º e 2º graus e tais objetivos tratavam da necessidade de oportunizar ao aluno uma formação que contemplasse o desenvolvimento de suas potencialidades. Sucede que a lei nº 7 5.692/71, ao menos, dedicou um capítulo exclusivo à educação de adolescentes e adultos. Mas, vale esclarecer outro ponto: A partir da lei nº 5692/71, houve grande difusão do Ensino Supletivo promovido pelo MEC, com a implantação dos Centros de Ensino Supletivo (CESs). A concepção de Ensino Supletivo restringia-se à educação compensatória, de reposição de conhecimentos àqueles que não estudaram na idade própria, reduzindo o conceito de educação apenas às vivências escolares, desconsiderando as especificidades e experiências de vida do jovem e do adulto (Curitiba, 2006, p. 43). Podemos concluir, portanto, que o ensino supletivo apresentava características seletivas e, também, submetia sobremaneira os jovens e adultos aos modelos prontos, tornando-os passivos diante do espectro de aprendizagem formulado. Saiba mais Recomendamos a leitura da obra de SAVIANI (1998): A nova lei da educação: trajetória, limites e perspectivas. Uma rica leitura para quem pesquisa sobre a educação. O livro se constitui em um documento que aborda a trajetória detalhada das leis do ensino, trazendo o significado social, político e pedagógico das diferentes leis, cobrindo a Lei n. 4024, de 20 de dezembro de 1961 em todo seu aspecto relativo ao direito à educação e à responsabilidade do poder público em relação às escolas, assim como a Lei Federal n. 5.692, de 11 de agosto de 1971, que trouxe as denominações de primeiro e segundo graus, substituindo o ensino primário, ginasial e colegial. Vale a pena pesquisar! TEMA 3 – LEGISLAÇÃO BRASILEIRA: O MARCO DA LEI N. 9.394, DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996 Os princípios democráticos e a ideia da expansão e obrigatoriedade do ensino, também previstos na Constituição de 1988, inspiraram os debates em torno da Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Oportuno retratar que a referida lei foi promulgada no Brasil após oito anos de debate no Congresso Nacional. Ademais, é possível afirmar que após a lei n. 4.024/1961; a lei n. 9.394/1996 é a segunda a estabelecer Diretrizes e Bases da Educação Nacional, tendo em vista que a Lei Federal n. 5.692/1971 constitui-se em uma lei de reforma, que toma por base de sustentação a legislação anterior. 8 A lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, foi fruto de debates que aconteceram desde 1988. Em sua primeira versão, a lei teve como relator o deputado Jorge Hage1, cujo perfil é descrito por Saviani (1998, p. 57): […] demonstrou competência, tenacidade, capacidade de trabalho, habilidade de negociação e foi incansável no empenho em ouvir democraticamente todos os que, a seu juízo, pudessem de alguma forma contribuir para o equacionamento da matéria em pauta, tendo percorrido o país a convite ou por sua própria iniciativa para participar de eventos dos mais diferentes tipos em que expunha o andamento do projeto e acolhia as mais diversas sugestões. O projeto de lei, do qual Hage foi o relator, apresentava significativos avanços com relação à educação de jovens e adultos trabalhadores, pois buscou construir uma educação em harmonia com este nível de ensino, evitando o termo ensino supletivo e a carga de valores que a terminologia carregava consigo. Com base na contribuição de segmentos representados por educadores, a primeira versão da legislação (sob relatoria do deputado Hage) apontava uma visão de educação voltada ao púbico jovem e ao adulto trabalhador, pois o projeto considerou que este segmento da educação possui uma forma singular de perceber o mundo e conceber a vida. Conquanto, levando em conta as experiências de trabalho que essas pessoas possuem, procurava-se criar condições para que a educação de jovens e adultos trabalhadores fosse estruturada em uma realidade concreta do adulto inserido na sociedade e no trabalho. Tratava os conteúdos curriculares centrando-os na prática social e no trabalho e com metodologia de ensino aprendizagem adequada à experiência do aluno. Enfim, o projeto trazia enormes avanços, contemplando dimensões relevantes, como professores especializados, programas sociais de alimentação, incentivo às empresas para o oferecimento da educação de adultos. Tais aspectos revelavam um compromisso genuíno com este nível de ensino. Vejamos o que o texto do substitutivo estabelecia para a educação de jovens e adultos trabalhadores: 1 Jorge Hage Sobrinho (Itabuna, 1938) foi deputado federal pelo estado da Bahia. Mestre em Administração Pública, atuou com docente na área do direito. Secretário de Administração do MEC no ano de 1974. 9 No artigo 62 – A educação básica pública oferecerá alternativas adequadas às necessidades da população trabalhadora, jovem e adulta. Parágrafo único – As alternativas referidas neste artigo incluirão, no mínimo: I - regime especial de trabalho para trabalhadores-estudantes, nos seguintes termos: a) redução da jornada de trabalho em até 2 (duas) horas diárias, sem prejuízo salarial, para trabalhadores adolescentes, salvo quando matriculados no ensino noturno, quando a redução será de 1 (uma) hora; b) redução de jornada em 1 (uma) hora diária, sem prejuízo salarial, para trabalhadores adultos matriculados no ensino noturno; c) oferta de trabalho em tempo parcial, com turno de 4 ou 6 horas, especialmente para adolescentes; intervalos para estudo, de até (duas) horas na jornada semanal de trabalho,e de até 1 (uma) semana por semestre, aos empregados inscritos em programas de educação a distância (Hage, citado por Saviani, 1998, p. 93). Saiba mais O projeto formulado por Jorge Hage, que sofreu emperramentos e obstruções, em 1992 foi substituído pelo projeto do então Senador Darcy Ribeiro. É possível encontrar o substitutivo, na íntegra, na obra de Dermeval Saviani: A nova lei da educação: trajetória, limites e perspectivas, 1998. No texto da lei de Hage fica expresso o interesse e as condições para que os adultos pudessem realizar seus estudos, pois não basta implementar programas e oferecer escolas sem o necessário suporte para que o aluno ingresse e tenha condições de permanecer e dar continuidade à sua formação escolar. O projeto, contrariando interesses de segmentos, em especial do governo Collor, sofreu emperramentos e obstruções e, em 1992, foi substituído pelo projeto do então Senador Darcy Ribeiro. Neste “novo projeto”, a educação, de maneira geral, e em especial a educação de jovens e adultos, se apresenta de maneira antidemocrática e reducionista; e diante das batalhas de ideologias, o projeto do Senador Darcy Ribeiro, com algumas inserções do projeto que o antecedeu, logrou êxito, foi aprovado pela maioria do Congresso Nacional em 1995. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9394/1996 toma por base o projeto do Senador Darcy Ribeiro, que por definição de Severino (2007): “prevalece o caráter ideológico da lei disfarçado em sua retórica, não respondendo mais uma vez, às reais necessidades da população brasileira em matéria de educação” (p. 65). O autor supracitado menciona ainda que 10 […] fica evidente que a nova lei não decorre de um compromisso político mais amplo e profundo da sociedade brasileira no sentido de se implementar, pela mediação da educação, ações substantivas na realidade concreta (Severino, 2007, p. 66). Assim, […] impõe-se reconhecer que o texto final da LDB é o resultado histórico possível frente ao jogo de forças e de interesses em conflito no contexto da atual conjuntura política da sociedade brasileira (Severino, 2007, p. 67). Figura 2 – Normalidade e Imprevisto Crédito: Gilmar Barbosa A crítica de muitos educadores, e de alguns segmentos da sociedade civil, diante da lei, foi a de ausência do compromisso político com os debates públicos. Ainda, todas as propostas de inclusão dos “excluídos”, como jovens e adultos sem (ou com pouca) escolaridade, não foram contempladas na forma como apresentado anteriormente, na exposição do projeto de Lei sob relatoria de Jorge Hage. 11 Feita uma reflexão abrangente acerca da legislação vigente, procurando retratar seus propósitos no que tange à educação de jovens e adultos, vale também considerar seus avanços em relação às legislações anteriores. A legislação em questão traz a responsabilidade da União frente à educação de jovens e adultos, e define as responsabilidades dos Estados e dos Municípios com a educação básica, considerando que a educação de jovens e adultos integra a educação básica. O artigo nº. 37 da Lei n. 9.394/96 define que a educação de jovens e adultos “será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria”. Considerando que a idade própria vai dos 7 aos 14 anos de idade, isso implica que o jovem deve ter 15 anos, ou mais, para ingressar nesse nível de ensino. Analisamos que, embora a lei não atenda o que foi almejado para a educação de jovens e adultos no já descrito projeto de relatoria de Jorge Hage, não se pode negar que a lei avança quando coloca a educação de jovens e adultos no mesmo patamar que os outros níveis de ensino. TEMA 4 – PROGRAMA BRASIL ALFABETIZADO Os estudos que realizamos até aqui nos mostram que as leis do ensino no Brasil são resultados históricos que representam conflitos de interesses, mas o fato é que a população brasileira ainda carece de educação básica, e o analfabetismo também demanda, por parte do governo, a criação de programas paralelos. Uma ação que damos destaque para nossos estudos foi o Programa Brasil Alfabetizado, criado pelo Ministério da Educação e Cultura em janeiro de 2003. Este programa estava voltado para a alfabetização de jovens, adultos e idosos, visando a erradicação do analfabetismo. A prioridade do programa eram os municípios com taxas de analfabetismo igual ou superior a 25%. Os programas de alfabetização formulados pelo Brasil Alfabetizado: […] dão-se em parceria com o governo federal e são marcados pela doação de materiais didáticos impressos, e ainda, com a transferência de recursos, destaca-se o pagamento de bolsas para os educadores. As regras para convênios com o programa foram fixadas pela Resolução do Ministério da Educação e Cultura n°122009 (Brasil, 2003). 12 A imagem a seguir, com a bandeira do Brasil, acompanhada por um lápis de escrever, traz a essência dos propósitos do Programa Brasil Alfabetizado: Figura 3 – Brasil Alfabetizado Fonte: Pronatec, [S.d.]. O Programa Brasil Alfabetizado voltava suas ações para a formação continuada dos docentes, propunha a troca de experiências, relatos de práticas bem-sucedidas e planejamento coletivo. No próprio programa é possível encontrar a sugestão de temas para serem debatidos junto ao grupo, como: a história da educação de jovens e adultos, a concepção de alfabetização de jovens e adultos e suas metodologias, cidadania, o mundo do trabalho, metodologia de formação de leitores e práticas sociais de leitura e escrita, construção da linguagem oral e escrita na educação de jovens e adultos, função social da leitura e escrita, registro de aprendizagens, entre outros temas de ordem didático-metodológicas. Os temas debatidos pelo programa apresentavam relevância, se pensarmos em uma lógica didático- pedagógica. Outro aspecto é que o Programa Brasil Alfabetizado permitia que “qualquer cidadão” interessado em alfabetizar adultos, poderia ser “formado”, de acordo com modelos previstos, e assim constituir-se em um docente alfabetizador. Podemos concluir que essa configuração de professor revela o descaso dessas políticas com a docência e com o nível de ensino sob enfoque, uma vez que para alfabetizar não basta o desejo de ensinar. Aqui defendemos que a construção do professor alfabetizador passa pelo domínio de metodologias de intervenção que deem conta de ensinar a ler e 13 escrever, além de uma análise crítica e consistente da realidade desse jovem, ou adulto, que não conseguiu alfabetizar-se na idade adequada. Outro equívoco proposto pelo programa foi a remuneração docente pautada a partir do número de alunos alfabetizados. Tendo em vista que o perfil de alunos atendidos, em sua maioria, eram aqueles excluídos da escola, por inúmeras razões; em consequência, quando se propõe remunerar o professor “por aluno alfabetizado”, deixa transparecer que os desistentes, evadidos que não logram sucesso na alfabetização, são resultados de um trabalho mal realizado. Evidentemente, transparece a culpabilização do educador pelo “fracasso” desse aluno, desconsiderando políticas públicas, condições de acesso e permanência, entre outros inúmeros fatores responsáveis por uma proposta voltada à educação de adultos. O Programa Brasil Alfabetizado, lançado em setembro de 2003, pelo governo Lula, foi alvo de críticas por parte de segmentos da sociedade civil e representantes críticos e atuantes da comunidade educativa. As principais críticas assentavam-se no fato de que o Programa previa um tempo rígido para a alfabetização; caso o aluno não fosse alfabetizado dentro do tempo previsto, ele era desligado do Programa. Ainda, a proposta de formação continuada, alicerçada em um critério de pensar reflexivamente a prática educativa, sucumbiu, à medida que osinvestimentos foram na contramão do que se propunha. Podemos concluir, por fim, que o Programa Brasil Alfabetizado evidencia uma política para alfabetização de adultos que procura atingir o máximo – no que se refere ao número de alunos atendidos e professores envolvidos – com base no mínimo – no que tange a recursos financeiros. TEMA 5 – REFLEXÕES FINAIS DOS TÓPICOS ABORDADOS Ao longo dos nossos estudos percebemos que em muitos momentos da história da educação brasileira, as legislações vigentes e programas voltados à educação de jovens e adultos estão em sintonia com a crítica de Saviani (2008) sobre o “Estado que busca maximizar os resultados dos recursos aplicados na educação” (p. 442). Destaca o autor: 14 A estratégia consiste em incluir estudantes no sistema escolar em cursos de diferentes níveis e modalidades sem os padrões de qualidade exigidos para o ingresso no mercado de trabalho. Essa forma de inclusão melhora as estatísticas educacionais porque permite apresentar números que indicam a ampliação dos atendimentos escolares, aproximando da realização de metas como a universalização de acesso ao ensino (Saviani, 2008, p. 442). No que diz respeito à educação de jovens e adultos, tendo em vista as políticas públicas, é necessário considerar este nível de ensino em sua especificidade, procurando modos de superação do “mito do direito de todos à educação, quando o número de brasileiros que chegam às escolas do país e dos que nela conseguem permanecer é chocante e irrisório” (Freire, 2005, p.159). Por outro lado, quando nos propomos a investigar a educação de jovens e adultos, em diferentes aspectos e distintas realidades, nos ancoramos na esperança em relação à superação do analfabetismo no Brasil. Evidentemente, vamos além dessa esperança, acreditamos na formação de leitores, em especial leitores críticos da realidade social. Ao longo das análises aqui estabelecidas procuramos situar as políticas educacionais e programas voltados à educação de jovens e adultos, de forma histórica, crítica e situada. Conquanto, as “leis gerais do universal operam dando- lhe uma configuração específica. Universal e singular, nessa perspectiva, são indissociáveis (Alves, 1995, p. 7). Os estudos nos revelam que reformas, projetos e programas, realizados de maneira vertical, tendem ao fracasso. Vale mencionar que a prática do diálogo, a promoção à participação e o debate de ideias abrem possibilidades para a construção de políticas afinadas com o tempo histórico em que vivemos, e, de alguma forma, permitem contemplar as necessidades daqueles que não tiveram acesso à educação no tempo adequado. Essa educação, segundo Freire (2005) é uma educação que busca “exigência da superação da contradição educador-educandos. Sem esta, não é possível a relação dialógica, indispensável à cognoscibilidade dos sujeitos cognoscentes […]” (p. 78), rompendo assim, com os esquemas verticais e pautada na prática da liberdade. 15 REFERÊNCIAS ALVES, G. L. Universal e singular: em discussão a abordagem científica do regional. In: Seminário Nacional do Histedbr, 3., 1995. Anais da educação. Campinas: UNICAMP, 1995. BRASIL. Lei n. 4.024, de 20 de dezembro de 1961. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União - Seção 1 - 28/12/1961. Disponível em: . 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