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W BA 06 53 _V 2. 0 GESTÃO DE CLÍNICAS E CONSULTÓRIOS 2 Regis Garcia São Paulo Platos Soluções Educacionais S.A 2022 GESTÃO DE CLÍNICAS E CONSULTÓRIOS 1ª edição 3 2023 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR Homepage: https://www.cogna.com.br/ Diretora Sr. de Pós-graduação & OPM Silvia Rodrigues Cima Bizatto Conselho Acadêmico Alessandra Cristina Fahl Ana Carolina Gulelmo Staut Camila Braga de Oliveira Higa Camila Turchetti Bacan Gabiatti Giani Vendramel de Oliveira Gislaine Denisale Ferreira Henrique Salustiano Silva Mariana Gerardi Mello Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Coordenador Camila Braga de Oliveira Higa Revisor Edson Massola Junior Editorial Beatriz Meloni Montefusco Carolina Yaly Márcia Regina Silva Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)_____________________________________________________________________________ Garcia, Regis Gestão de clínicas e consultórios/ Regis Garcia. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2023. 32 p. ISBN 978-65-5903-495-6 1. Administração de consultório. 2. Gestão financeira. 3. Planejamento e avaliação de desempenho. I. Título. CDD 658.041 _____________________________________________________________________________ Raquel Torres – CRB 8/10534 G216g © 2023 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 4 SUMÁRIO Apresentação da disciplina __________________________________ 05 Formalização e obrigações contábeis fiscais _________________ 07 Gestão de pessoas ___________________________________________ 20 Planejamento e avaliação de desempenho ___________________ 33 Gestão Financeira ____________________________________________ 46 GESTÃO DE CLÍNICAS E CONSULTÓRIOS 5 Apresentação da disciplina Olá, estudante! Que bom tê-lo aqui conosco nesta desafiante disciplina. A consideramos desafiante porque ela trata de um contexto caracterizado por elementos que impõem aos gestores empresariais uma série de enfrentamentos e barreiras a serem rompidas cotidianamente. Por exemplo, este ambiente é tratado pelos militares americanos como o de um contexto volátil, incerto, complexo e ambíguo. Eles cunharam a expressão em inglês VUCA para representar estas características. Esta disciplina apresenta os caminhos que o gestor de clínicas e consultórios deve seguir para constituir empresarialmente a entidade, demonstrando as opções e os benefícios da formalização. Também destaca o papel da contabilidade no processo de abertura das pessoas jurídicas e no apoio aos empresários e gestores destas entidades relacionadas com a área da saúde. Diante do contexto ambiental externo, o ambiente interno das organizações passa a ter que se adaptar com muita velocidade, imprimindo sobre as pessoas uma pressão constante, o que demanda uma gestão cuidadosa para não implicar em perda de produtividade e em aumento dos índices de turnover. A disciplina aborda nesse sentido as questões comportamentais e técnicas da gestão de pessoas, principalmente sob as perspectivas legais e normativas trabalhistas exigidas nas relações de emprego. É 6 apresentada também, como opção trazida pela reforma trabalhista, a terceirização de algumas atividades. Diante dos desafios da gestão de clínicas e consultórios, o planejamento é tratado como uma solução para se reduzir os riscos da operação, além de organizar a entidade de saúde nos três níveis: estratégico, tático e operacional. Neste mesmo sentido a avaliação de desempenho é discutida como uma ferramenta que pode melhorar a comunicação e a aproximação entre a alta administração e os demais níveis hierárquicos da organização. O feedback é fundamental para garantir o engajamento de todos em relação aos objetivos, bem como melhorar o clima organizacional. A gestão financeira, o acompanhamento contínuo dos fluxos de caixa e a avaliação dos resultados apurados são explicados como formas de controles internos que contribuem para apoiar as decisões dos gestores em relação ao bom uso dos recursos financeiros da entidade. Você tem a oportunidade de transitar pelas principais áreas estratégicas de uma empresa ao estudar a disciplina de gestão de clínicas e consultórios, de ter acesso a conteúdos de alto nível e de utilizar seu senso crítico ao refletir sobre a solução de problemas muito próximos da sua realidade profissional. Você é convidado a ingressar em um caminho desafiador, com a certeza de que, ao final, se sentirá recompensado e orgulhoso de seu próprio desempenho. Agora é com você, dê o próximo passo e bons estudos! 7 Formalização e obrigações contábeis fiscais Autoria: Regis Garcia Leitura crítica: Edson Massola Junior Objetivos • Apresentar os principais aspectos relacionados à constituição de uma pessoa jurídica para uma clínica ou consultório. • Discutir os aspectos contábeis inerentes à operação de uma clínica ou consultório na forma de pessoa jurídica. • Apresentar os principais tributos e os aspectos fiscais envolvidos com a operação de uma clínica ou consultório. 8 1. Formalização da pessoa jurídica Um dos desafios envolvendo as operações empresariais – e neste caso não está restrito à área da saúde – é determinar a melhor opção de formalização. Em algum momento, cedo ou tarde, você estará diante da possibilidade de empreender. Isso acontece com alguma frequência quando se escolhe um curso, uma graduação, uma pós-graduação etc. Empreender envolve assumir riscos e responsabilidades, portanto, se o objetivo, por exemplo, é a abertura de uma clínica ou de um consultório, torna-se fundamental conhecer as opções de formalização, bem como as consequências de cada uma delas para a atividade escolhida. Questões formais podem impactar nos resultados das entidades, pois a depender da forma da operação haverá maior ou menor carga tributária, assim como uma série de outras consequências a serem levadas em consideração. É preciso estar atento às mudanças em todas as áreas empresariais, elas podem ditar um ou outro caminho a seguir. Segundo Viriato e Moura (2021), na área da saúde não basta que o gestor seja capaz de executar a coordenação, o controle e a organização, é necessário o acompanhamento das mudanças, assim como ocorreu no caso da COVID-19, por exemplo. Para compreender como se dão as decisões envolvendo a formalização de entidades, como as clínicas e os consultórios, é preciso conhecer alguns conceitos e informações relevantes sobre pelo menos dois tipos jurídicos: • Pessoa física (PF) – definida pelo Código Civil brasileiro como o indivíduo (a pessoa ou o ser natural) (Brasil, 2002). 9 • Pessoa jurídica (PJ) – criada a partir de uma ou mais pessoas físicas, constituída de acordo com as normas do direito, com uma finalidade específica e com personalidade jurídica própria. Segundo o Código Civil brasileiro não se confunde a PJ com seus instituidores, sócios, administradores etc. (Brasil, 2002). A partir desta distinção entre PF e PJ é possível explicar as primeiras consequências de uma ou outra opção de formalização. O profissional poderá operar uma atividade de prestação de serviços, como é o caso da clínica e do consultório, na forma de pessoa física apenas quando optar pela formalização como profissional autônomo. Nesta modalidade, a própria pessoa é o prestador de serviços, bastando que providencie os devidos registros e os documentos para o exercício da profissão. É o caso do médico que deverá providenciar: • Registro como Pessoa Física junto à Receita Federal pordo Resultado é o 55 regime de lançamento das movimentações, bem como a categoria de contas envolvidas, a saber: Na Demonstração dos Fluxos de Caixa os lançamentos são realizados utilizando o regime de caixa, ou seja, os lançamentos levam em consideração o efetivo pagamento ou o recebimento das contas e envolvem: • Ativos – que contempla os bens e os direitos da entidade. • Passivos – que contempla as obrigações e o capital próprio da entidade. • Receitas – que corresponde ao faturamento com serviços da entidade. • Custos – que são os custos dos serviços prestados pela entidade. • Despesas – gastos para manter a entidade em funcionamento. Observa-se que todas as contas transitam pelo caixa e equivalentes de caixa, portanto, o resultado financeiro acaba sendo um lucro ou um prejuízo exclusivamente sob o ponto de vista do recurso financeiro recebido e aplicado. Parte dos recursos que entram no caixa não derivam dos serviços prestados, são, por exemplo, do capital que os médicos aplicaram na clínica, ou ainda são de empréstimos que eles fizeram junto ao banco. Isso distorce o resultado real da operação em si, por isso é necessário apurar o resultado econômico obtido pela atividade da clínica separadamente. Isto porque os prejuízos obtidos pelos hospitais, por exemplo, podem, conforme Souza (2013), impossibilitar o investimento futuro necessário para a adequação da atividade de saúde a uma nova exigência, ou a 56 uma nova demanda, levando a entidade a uma situação de precariedade prejudicial a todos. A Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) está estruturada de forma a evidenciar a partir do faturamento, passando pelos gastos para gerar este faturamento, o lucro ou o prejuízo obtido ao final do período. A DRE, diferentemente da DFC, apresenta o resultado dos lançamentos contábeis pelo regime de competência, ou seja, independentemente do recebimento da receita ou do pagamento dos custos e despesas, elas são contabilizadas por sua efetiva realização e incorrência, respectivamente. Desta forma, mesmo que um material de limpeza seja comprado à vista pelo valor de R$ 1.200,00, se ele for gasto pela clínica em três meses, então para fins contábeis ele será lançado como despesa nos três meses pelo valor consecutivo de R$ 400,00 em cada mês. Já pelo regime de caixa, na DFC, o lançamento será único pelo valor pago no mês da aquisição. No Quadro 3 você pode ver a estrutura de uma DRE na forma contábil. Quadro 3 – Demonstração do Resultado do Exercício RECEITA OPERACIONAL BRUTA (-) DEDUÇÕES DA RECEITA BRUTA Impostos sobre os serviços prestados RECEITA OPERACIONAL LÍQUIDA (-) CUSTO DOS SERVIÇOS PRESTADOS (=) LUCRO BRUTO (-) DESPESAS OPERACIONAIS Despesas com vendas Despesas gerais e administrativas Despesas financeiras LUCRO ANTES DO IR e da CSLL (-) PROVISÃO DO IR e da CSLL LUCRO LÍQUIDO DO EXERCÍCIO Fonte: elaborado pelo autor. 57 Conforme esclarecem Salotti et al. (2019), a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) tem a finalidade de evidenciar o lucro ou prejuízo obtido em um exercício social, sendo depois levado ao balanço patrimonial de forma a permitir a análise financeira da situação patrimonial da entidade. A análise do resultado econômico irá evidenciar a eficácia da gestão da atividade fim e, complementada pela análise da gestão financeira, irá permitir avaliar a viabilidade da operação como um todo. Viriato e Moura (2021) consideram que o resultado deriva do esforço de todos em prol dos objetivos das entidades de saúde, portanto, um bom resultado apurado é fruto do comprometimento e da boa gestão de cada etapa de todo um processo. Observe que o desafio é unir à gestão financeira a gestão do resultado econômico e o acompanhamento contínuo dos controles internos. Você tem muito trabalho, portanto, acredite em você e vá em frente, afinal, você já percorreu um longo caminho até aqui! Referências SALOTTI, Bruno M. et al. Contabilidade Financeira. São Paulo: Grupo GEN, 2019. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597022476/. Acesso em: 11 set. 2023. SOUZA, Antônio Artur de. Gestão financeira e de custos em hospitais. São Paulo: Grupo GEN, 2013. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/ books/9788522478477/. Acesso em: 14 ago. 2023. VIRIATO, Aírton; MOURA, Anísio de. Administração hospitalar: curso de especialização. São Paulo: Manole, 2021. Disponível em: https://integrada. minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555766752/. Acesso em: 14 ago. 2023. 58 Sumário Apresentação da disciplina Objetivos Estratégias e mecanismos de participação cidadã e o papel dos sujeitos Objetivos Objetivos Objetivosmeio do Cadastro Pessoa Física (CPF). • Registro como médico no Conselho Regional de Medicina (CRM). • Emissão do alvará de licença de funcionamento, licença sanitária, vistoria do corpo de bombeiros junto à prefeitura do município. • Inscrição no INSS a partir do Cadastro Específico do INSS (CEI). Observa-se, neste caso, que ao atuar como autônomo a atividade da clínica ou do consultório (independentemente dos ramos específicos) será desenvolvida toda a partir da utilização do próprio CPF da PF do profissional. Vai elaborar o contrato de aluguel da clínica? Um contrato de terceirização de serviços? Um contrato de manutenção de computadores ou equipamentos para a realização de exames? Pois bem, serão todos realizados no CPF da PF. 10 As contas de água, luz, telefone, internet etc. serão todas emitidas utilizando também o CPF do profissional que se torna responsável jurídico pelas obrigações assumidas. Tudo recairá sobre a PF nesses casos. Ao contratar um empregado, o autônomo também o fará a partir do seu CPF, porém neste caso ele utilizará o CEI para os devidos recolhimentos das obrigações trabalhistas e previdenciárias equiparando-se às PJ(s). Antes de tratar da PJ como uma opção, é importante destacar que uma série de atividades são realizadas por clínicas e consultórios. Mantê- las controladas e juridicamente vinculadas ao CPF do profissional pode gerar problemas de controle e confusão patrimonial que prejudicam a própria atividade. Embora se refira mais especificamente às entidades hospitalares, por analogia, pode-se destacar as principais atividades relacionadas com as entidades que operam a área de saúde, que, conforme Souza (2013), compreendem: • i) Atividades clínicas. • ii) Atividades administrativas. • iii) Atividades de apoio. Observa-se que tanto as atividades administrativas como as atividades de apoio são complementares à atividade principal do profissional de saúde. Isso acaba fortalecendo o risco de problemas inerentes à área administrativa e de apoio que podem prejudicar a atividade principal da clínica. É evidente que inicialmente pode-se pensar em operar uma clínica ou consultório na própria PF do profissional, porém ao longo do tempo 11 é preciso estar preparado para uma ampliação e uma mudança na formalização da atividade. Não é uma novidade haver um certo receio em relação à forma mais adequada de constituição da entidade que irá operar. Segundo Valentina e Corrêa (2018), trata-se de uma dúvida comum para os prestadores de serviços: será que eu trabalho como pessoa física ou constituo uma pessoa jurídica? A pessoa jurídica possui maior complexidade, burocracia e responsabilidades perante os vários órgãos de fiscalização, porém, ao mesmo tempo, possibilita negociações e relações de prestação de serviços que não seriam possíveis pela pessoa física autônoma. No caso de PJ, o processo de formalização se constitui em: • Registro do contrato social da PJ no Cartório de Registro de Títulos e Documentos e Pessoas Jurídicas do município. • Registro na Receita Federal e obtenção do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) que equivale ao CPF da PF. • Emissão do alvará de licença de funcionamento, licença sanitária e vistoria do corpo de bombeiros junto à prefeitura do município. • Autorização para emissão de Nota Fiscal de serviços eletrônica. No caso das PJ(s) todas as operações já mencionadas, que antes eram feitas em nome da pessoa física com registro via CPF, passam a ser executadas utilizando o CNPJ, sendo a PJ revestida de responsabilidade jurídica. Outros aspectos importantes a serem considerados se referem à necessidade de apoio de uma contabilidade que – seja a clínica ou consultório uma PF ou PJ – assume os vários processos burocráticos 12 possibilitando ao profissional de saúde manter seu foco e energia em sua atividade principal. 2. Aspectos contábeis da PJ Tanto no caso de uma pessoa física que atua na condição de autônomo quanto no caso de uma pessoa jurídica devidamente formalizada, existem processos e burocracias que demandam a contratação de um profissional contábil habilitado. Desde a constituição, passando pelo período de funcionamento, até no encerramento de uma atividade, deve-se contar com o apoio da contabilidade que minimizará muitos erros que podem ocasionar custos, perdas e ou desperdícios de recursos evitáveis a partir de um bom planejamento. Além disso, outro ponto fundamental deve ser considerado em relação à contabilidade nas empresas. Por meio do registro dos fatos, do processamento e da emissão de relatórios são possíveis decisões mais assertivas. É com o apoio de sistemas especializados que a gestão de uma clínica ou consultório pode ser tornar mais eficaz. Souza (2013) dá ênfase, nesse sentido, ao papel dos sistemas de informações contábeis, pois são eles que proporcionam a geração de informações sobre as atividades das entidades, sua estrutura, seu desempenho e os resultados obtidos pela gestão. Você se lembra das burocracias mencionadas na seção anterior? Pois bem, alvarás, cadastros, registros de documentos etc. são providenciados e monitorados pela contabilidade. 13 Ela deve contribuir para a escolha da melhor formatação para o negócio, especialmente sob o ponto de vista jurídico, contábil e fiscal, e acompanhar o desenvolvimento da atividade empresarial atuando como uma empresa de consultoria para os proprietários e colaboradores da entidade. Para Valentina e Corrêa (2018), a contabilidade presta um importante papel no processo de direcionamento da condução dos negócios. Segundo a autora, o gestor de uma organização deve fazer uso da contabilidade como instrumento capaz de evidenciar a situação financeira e econômica da entidade, mas também de contribuir para a tomada de decisões envolvendo o planejamento futuro. Mas quais são os principais aspectos a serem levados em consideração em termos contábeis, além dos já mencionados? Todo e qualquer fato que envolva modificações no patrimônio (sejam quantitativas ou qualitativas) bem como no resultado das entidades são registradas pela contabilidade por meio do que se denomina lançamento contábil. É por meio deles que são elaborados os relatórios financeiros. O objeto da contabilidade é o patrimônio das entidades, portanto, ela deve prezar pela correta evidenciação tanto da situação econômica como financeira envolvendo a situação patrimonial da clínica ou do consultório. De forma geral, o processo contábil envolve, principalmente: 1. Coleta dos dados (gerados a partir de um fato contábil). 2. Registro dos fatos contábeis por meio do lançamento contábil. 3. Elaboração das demonstrações financeiras. 14 As demonstrações financeiras servem para evidenciar a situação patrimonial e o resultado financeiro e econômico obtido pela entidade, sendo as principais: • Balanço patrimonial (BP): evidencia a situação dos ativos (bens e direitos) e passivos (obrigações), além do patrimônio líquido que representa o resultado da equação patrimonial (ativo menos o passivo). • Demonstração do resultado (DRE): demonstra o resultado econômico, ou seja, o lucro ou o prejuízo obtido no exercício social, que geralmente coincide com o ano civil. • Demonstração dos fluxos de caixa (DFC): demonstra as entradas (origens) e saídas (aplicações) de recursos financeiros de caixa e equivalentes de caixa, como bancos e aplicações de liquidez imediata. As demonstrações financeiras apresentadas correspondem a três aspectos fundamentais para se avaliar uma entidade em termos de eficácia na gestão de recursos, uma vez que evidenciam a situação líquida patrimonial ao final de cada exercício (balanço), o resultado econômico obtido (DRE) e o saldo anterior, movimentações e saldo final de caixa e equivalentes de caixa (DFC). Estas demonstrações financeiras servem para acompanhar a gestão das clínicas e consultórios sob o ponto de vista empresarial, como de fato são. Viriato e Moura (2021) destacamque as organizações de saúde se desenvolveram ao longo dos anos fortalecendo a visão empresarial, o que, por consequência, ampliou a necessidade de uma administração eficaz. Para além das questões gerenciais, a contabilidade também atua assessorando o profissional da área de saúde em suas várias atuações e configurações no que se refere às obrigações tributárias e fiscais. 15 3. Aspectos fiscais da PJ Um dos principais pontos a serem considerados em relação à gestão de entidades de saúde diz respeito aos impactos gerados pelos tributos incidentes sobre o faturamento, como consultas, exames e outros serviços prestados. Embora sob o ponto de vista econômico os tributos representem um alto percentual dos gastos das empresas, todo o arcabouço fiscal que acaba impactando a atividade, incluindo a de saúde, é fruto de um complexo conjunto de leis, normas e regulamentos que visam garantir a arrecadação e a aplicação eficaz dos recursos públicos pelo Estado. A contabilidade se mostra fundamental para a compreensão destes instrumentos legais e normativos e sua correta aplicação. Não se trata de algo que se possa abdicar ao exercer qualquer atividade remunerada, seja na forma de pessoa física, seja a partir de uma PJ. Viriato e Moura (2021), por exemplo, destacam a necessidade da existência de leis e normas para que a sociedade possa exercer o seu papel de controle. É justamente por meio da padronização exigida pelas leis, normas e regulamentos que a sociedade executa o controle social sobre os gastos públicos, portanto, o ideal é garantir a gestão eficaz também na área fiscal. A contabilidade, ao registrar o dispêndio e os investimentos, o faz a partir dos documentos fiscais. O mesmo ocorre em relação ao registro das receitas. Souza (2013) destaca que, por exemplo, as notas fiscais de compras, bem como dos serviços prestados são imputadas (lançadas) nos sistemas de informações para que possibilitem as apurações de receitas, custos e despesas envolvidos com a atividade da entidade de saúde. 16 As notas fiscais, portanto, representam os principais documentos movimentados pelas operações empresariais em qualquer área e são as responsáveis tanto pelo eficaz registro contábil como pela apuração correta dos tributos que estão sujeitos a serem fiscalizados pelos agentes arrecadadores. Embora se reconheça ser algo não contornável e demasiadamente complexa, a área fiscal faz parte do dia a dia das clínicas e consultórios. Valentina e Corrêa (2018) fazem a constatação de que o Brasil conta com uma complexa carga tributária possuindo aproximadamente 60 (sessenta) tributos e 160 (cento e sessenta) obrigações acessórias. Este fato demonstra a importância da atenção adequada para se evitar custos desnecessários com multas e punições por erros e omissões envolvendo a área fiscal. Sob o ponto de vista tributário, a clínica ou o consultório que opera na forma de pessoa física, cujo documento de registro da receita é o Recibo de Pagamento Autônomo (RPA), é afetado pelos seguintes tributos: • Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN). • Contribuição ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS). • Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF). • Encargos sobre a folha de pagamento (INSS e FGTS). No caso da pessoa jurídica, os tributos incidentes sobre as Notas Fiscais das receitas, sobre a folha de pagamento e o lucro obtido são: • Programa de Integração Social (PIS). • Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (COFINS). • Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISSQN). 17 • Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ). • Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). • Encargos sobre a folha de pagamento (INSS e FGTS). Além das obrigações principais que representam o pagamento dos tributos devidos, a área fiscal tem ainda as obrigações acessórias. No caso da folha de pagamento, por exemplo, a entidade contratante deve manter mensalmente atualizadas as informações prestadas via e-Social. Por meio do e-Social são fornecidas todas as informações relativas à força de trabalho da entidade, inclusive aquelas relacionadas com a saúde e a segurança do trabalhador, como: admissões, demissões, exames admissionais, periódicos e demissionais, acidentes de trabalho, remunerações recebidas etc. Em relação aos tributos federais, como é o caso do PIS e da COFINS, além do Imposto de Renda, a empresa deve manter a escrituração contábil fiscal atualizada por meio dos módulos do Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) que contemplam a contabilidade da empresa (Módulo ECD) e as informações fiscais (Módulo ECF). Existem ainda as declarações, como é o caso da Declaração do Imposto de Renda, da Declaração de Débitos e Créditos Tributáveis Federais (DCTF) e da Escrituração Fiscal Digital (EFD) dos tributos federais. Todas essas obrigações, as principais e as acessórias, devem ser cumpridas e dependem do regime tributário da pessoa jurídica. São regimes e sistemas tributários aplicáveis às pessoas jurídicas: • Simples Nacional. • Regime do Lucro Presumido. 18 • Regime do Lucro Real. • Regime do Lucro Arbitrado. Outro aspecto relevante a ser considerado no tocante aos impactos fiscais e aos regimes tributários envolve o tipo de pessoa jurídica. No caso das clínicas e dos consultórios podem ser constituídas PJ(s), como: • Sociedades Anônimas (S/A). • Sociedade de Responsabilidade Limitada (LTDA). • Sociedade Limitada Unipessoal (SLU). Embora estes regimes e tipos de pessoas jurídicas existam, é preciso sempre a checagem da legislação no tocante aos impedimentos que possam existir para que determinadas atividades se utilizem destas opções jurídicas e tributárias. No caso do médico, por exemplo, não é possível a constituição de um tipo de empresa denominada como Microempresário Individual (MEI). A visão empresarial sobre as atividades de saúde, como é o caso das clínicas e consultórios, representa uma evolução em termos de gestão, todavia, ao mesmo tempo, impõe muita responsabilidade. Os profissionais que atuam neste segmento devem reconhecer como fundamental o acompanhamento das mudanças e a atenção às constantes inovações em todas as áreas, inclusive a administrativa e as áreas de apoio. Referências BRASIL. LEI Nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil Brasileiro. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada. htm. Acesso em: 21 ago. 2023. 19 SOUZA, Antônio Artur de. Gestão financeira e de custos em hospitais. São Paulo: Grupo GEN, 2013. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/ books/9788522478477/. Acesso em: 14 ago. 2023. VALENTINA, José D.; CORRÊA, Rinaldi da S. Guia para abertura de empresas– aspectos, tributários e contábeis. São Paulo: Grupo GEN, 2018. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788597018738/. Acesso em: 14 ago. 2023. VIRIATO, Aírton; MOURA, Anísio de. Administração hospitalar: curso de especialização. São Paulo: Editora Manole, 2021. Disponível em: https://integrada. minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555766752/. Acesso em: 14 ago. 2023. 20 Gestão de pessoas Autoria: Regis Garcia Leitura crítica: Edson Massola Junior Objetivos • Apresentar a gestão de pessoas no contexto corporativo sob a perspectiva estratégica na administração de clínicas e consultórios. • Discutir os aspectos legais, fiscais e previdenciários relacionados às obrigações trabalhistas na relação de emprego. • Apresentar a terceirização como opção para o exercício de determinadas atividades de acordo com legislação vigente. 21 1. Gestão de pessoas É difícil estabelecer as áreas mais ou menos importantes de uma organização. Na verdade, todas são fundamentais para o bom funcionamento do sistema organizacional que precisa estar muito coeso e bem integrado. Uma clínica, um consultório, um hospital ou qualquer outra entidade ligada à área da saúde ou a outras áreas são considerados como um sistema abertoe dinâmico. Conceitualmente, um sistema envolve a interação de suas partes que operam de forma a atingir objetivos comuns. Algumas áreas podem ser consideradas como estratégicas por serem mais sensíveis e demandarem um acompanhamento mais rigoroso sobre o seu funcionamento dentro do contexto da organização. Sem dúvida, uma destas áreas é a da gestão de pessoas que contempla um dos mais importantes recursos de uma organização: o capital humano. Os recursos tecnológicos, financeiros, entre outros são fundamentais, porém o fator humano funciona como elemento aglutinador, promovendo o equilíbrio e o bom funcionamento de todo o sistema, por isso a eficácia da gestão de clínicas e consultórios passa pela boa gestão das pessoas. Viriato e Moura (2021) consideram um desafio a ser vencido o processo de humanização das empresas, sendo que a gestão do capital humano se torna um fator crucial em um mundo competitivo e tecnológico. Mas que elementos devem ser considerados na gestão de pessoas? Um desafio importante envolve manter um bom clima organizacional, que seja capaz de motivar, engajar e comprometer as pessoas com os 22 objetivos da organização. A política de treinamento e a formação dos colaboradores, em uma área tecnicamente exigente como a da saúde, também contribui para a eficácia dos processos internos e consequente satisfação dos clientes (pacientes). Viriato e Moura (2021) mencionam, nesse sentido, a gestão por competências. A forma como a clínica ou o consultório está organizada exerce influência sobre a fluidez da comunicação e na resolução de problemas do dia a dia, por isso sugere-se um bom planejamento e a construção de um bom organograma. A elaboração de um organograma, conforme destaca Burmester (2019), é importante por representar graficamente a estrutura formal da entidade, evidenciando os níveis hierárquicos organizacionais. Mesmo que de forma terceirizada, é importante que as entidades da área de saúde mantenham uma política de recursos humanos. Fidelis (2020) destaca a importância do papel desenvolvido pela área de Recursos Humanos (RH) que trata profissionalmente da gestão de pessoas no ambiente organizacional. Outro ponto relevante, destacado por Burmester (2019), diz respeito aos planos de remuneração e recompensas que podem servir como elementos de estímulo ao exercício das atividades estratégicas da clínica ou do consultório. Os processos de gestão de metas e recompensas contribuem para manter a motivação. Torna-se fundamental nesse sentido uma comunicação eficaz sobre o que se espera de cada colaborador e um bom sistema de feedback. A qualidade na gestão de pessoas em um ambiente organizacional pode ser determinante para que se atinja satisfatoriamente os objetivos estabelecidos. 23 Vale ressaltar que o avanço tecnológico tem permitido que órgãos como a Receita Federal implemente novas formas para as empresas prestarem as informações dos vínculos trabalhistas. O Sistema Público de Escrituração Digital (SPED) é um exemplo. Nele está o módulo do Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (e-Social), que facilita o controle e o acompanhamento das informações trabalhistas em âmbito nacional. 2. Aspectos trabalhistas e previdenciários Toda estrutura organizacional que envolva a contratação de pessoas está sujeita à influência da complexidade das relações de trabalho. O respeito à legislação e o cumprimento das obrigações assumidas perante a força de trabalho são vistos como fator fundamental de eficácia na gestão de pessoas nas organizações, independentemente de sua área de atuação. Mas, neste contexto, o que caracteriza o vínculo empregatício? Segundo o que determina a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), conforme explica Fidelis (2020), considera-se empregado: • A pessoa física. • Que exerce uma função remunerada. • De forma habitual. • Mediante subordinação. Pela legislação trabalhista, quando estes requisitos são atendidos, independentemente da forma pela qual a pessoa física foi contratada–e 24 sob qual documento tenha sido utilizado–estará caracterizado o vínculo de emprego e, portanto, o contratante será considerado empregador. Nesse sentido, o empregador consiste na pessoa física ou jurídica que, assumindo o risco de uma determinada atividade, contrata o empregado. Uma vez caracterizado o vínculo empregatício, o empregador passa a ter que cumprir uma série de procedimentos e obrigações que visam, sobretudo, à garantia da segurança das partes envolvidas nas relações de emprego. Justamente por ser uma área complexa, sugere-se que os gestores organizacionais sejam apoiados por profissionais da área contábil e jurídica de forma a evitar erros na gestão trabalhista e fiscal previdenciária que possam resultar em punições e, consequentemente, em gastos desnecessários. Processos de conferências e checagens periódicas devem ser feitas para se evitar o acúmulo de passivos trabalhistas. Nesse sentido, Viriato e Moura (2021) reconhecem o importante papel da auditoria nas entidades de saúde como forma de manutenção do acompanhamento contínuo das atividades e da ampliação da eficácia dos controles internos em todas as áreas. A auditoria de RH, nesse sentido, tem um papel crucial ao contemplar as questões legais, trabalhistas e previdenciárias. O cumprimento da legislação trabalhista é uma obrigação do empregador, Burmester (2019) destaca que os documentos e as práticas relacionadas à área trabalhista precisam estar rigorosamente de acordo com a legislação sob pena de criar riscos, inclusive financeiros, para a entidade. São obrigações trabalhistas que demandam acompanhamento contínuo: 25 • Registro dos empregados, que passa pela documentação, realização do exame admissional e prestação de informações por meio do e-social. • Controles e registros das jornadas de trabalho. • Processamento periódico da folha de pagamento, realização de exames periódicos, concessão de férias, pagamento de 13º salário, comunicações mensais por meio do e-Social. • Recolhimento das obrigações trabalhistas e contribuições. • Manutenção dos programas de segurança e medicina do trabalho, como o caso do PCMSO. • Rescisões, realização dos exames demissionais etc. O principal documento envolvido com o registro dos empregados é a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS). A CTPS – no seu formato digital – contempla todas as anotações de registros de contratos de trabalho do empregado e serve também como instrumento de controle para fins de comprovação de vínculos junto ao Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) que gere o sistema geral de previdência do Brasil. Como todas as informações referentes ao vínculo de emprego são fornecidas digitalmente pelo empregador por meio do e-Social, a CTPS do trabalhador é atualizada automaticamente pelo SPED gerido pela Receita Federal. Além do aspecto documental, as relações de trabalho nas organizações de modo geral compreendem as regras de remuneração e de jornada. Por exemplo, a jornada de trabalho convencional é de 44 (quarenta e quatro) horas semanais (Fidelis, 2020), todavia em algumas atividades a 26 jornada é reduzida, como para algumas funções da área de saúde para as quais a jornada passa a ser de 36 (trinta e seis) horas semanais. É fundamental que se recorra à Convenção Coletiva do Trabalho (CCT) de cada categoria para verificar a sua jornada regular. No caso específico de clínicas e consultórios, por exemplo, a depender da região de trabalho e dos acordos coletivos, podem ser encontradas as possibilidades do exercício das seguintes jornadas de trabalho: • Jornada de 44 (quarenta e quatro) horas semanais, exercida na forma de 8 (oito) horas de segunda a sexta-feira, com intervalo para almoço de no mínimo 1 (uma) hora e 4 (quatro) horas aos sábados. • Jornada de 44 (quarenta e quatro) horas semanais, com intervalo para almoço de no mínimo 1 (uma) hora, porém comcompensação das 4 (quatro) horas do sábado nos demais dias da semana. • Jornada de 36 (trinta e seis) horas semanais, neste caso com 6 (seis) horas diárias ininterruptas. • Jornadas com revezamento, por exemplo, de 12 (doze) horas de trabalho por 36 (trinta e seis) horas de descanso, entre outras. Em todas as jornadas de trabalho deve-se observar o limite de 2 (duas) horas extras diárias, sendo aplicados os percentuais legais de acréscimo na remuneração destas horas extraordinárias. Em relação à folha de pagamento, que envolve a remuneração, os proventos e os descontos–geralmente mensais–alguns pontos merecem atenção: • Ninguém pode ser remunerado com valores inferiores ao salário- mínimo nacional ou regional, quando for o caso. 27 • Para as categorias com salários-mínimos definidos na CCT, estes são os valores mínimos a serem considerados como remuneração. • Horas extras em relação à jornada de trabalho regular devem ser pagas com no mínimo 50% (cinquenta por cento) de acréscimo sobre o valor da hora normal do empregado. • Horas noturnas devem ser remuneradas com no mínimo 20% (vinte por cento) de acréscimo a título de adicional noturno. • A depender do tipo de atividade desenvolvida pelo empregado podem ser devidos os adicionais de insalubridade ou de periculosidade. Além dos proventos (a parte positiva da folha de pagamento) devem ser observados os descontos legais que compreendem especialmente as contribuições dos empregados ao INSS e o Imposto de Renda Retido na Fonte (IRRF), que são calculados com base em tabelas de incidência. O empregador também contribui para o INSS sendo que seu cálculo é feito com base em percentuais aplicados sobre os proventos pagos em folha. Para a formalização das relações de trabalho são elaborados os contratos de trabalho que podem ser firmados por prazo indeterminado, ou seja, sem uma data definida para o seu encerramento e rescisão. Outro tipo de contrato de trabalho envolve o contrato por prazo determinado, que, segundo Fidelis (2020), aplica-se às seguintes situações: • No caso de serviços transitórios, por exemplo, na substituição de período de férias de outros funcionários. • Atividades transitórias, por exemplo, períodos sazonais como o Natal. 28 • No caso do contrato de experiência. A relação de emprego garante ao empregado, além das formalidades de registro e contratação e cobertura pelo plano geral de previdência (INSS), direitos como: • Férias de 30 (trinta) dias a cada um período de 12 (doze) meses de trabalho, acrescida de 1/3 (um terço) constitucional. • 13º (décimo terceiro) salário a cada 12 (doze) meses de trabalho. • Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) de 8% (oito por cento) depositados mensalmente em conta individual do trabalhador. Uma vez finalizada a relação entre empregado e empregador deverá ser processada a rescisão do contrato de trabalho, na qual constarão os direitos trabalhistas a serem pagos pela extinção do contrato de trabalho. 3. Terceirização Além das relações trabalhistas, outra forma pela qual é possível se contratar força de trabalho nas clínicas e consultórios é a terceirização. Durante muito tempo a terceirização foi vista como um método de contratação para a execução de atividades acessórias da atividade de saúde, como limpeza, manutenção de equipamentos, desenvolvimento de softwares etc. A partir da Lei 13.467/2017, no entanto, passou a ser permitida a terceirização da atividade-fim da entidade contratante. Isso significa que até mesmo as atividades médicas e de enfermagem, no caso 29 de entidades de saúde, passaram a ter como opção este tipo de contratação. Além da permissão legal, questões estratégicas podem ser elencadas para justificar a terceirização com uma opção eficaz de contratação. Em termos legais, conforme Fidelis (2020), o Tribunal Superior do Trabalho (TST) determina que a terceirização deve atender aos seguintes requisitos: • Constituir-se por meio de contrato, podendo contemplar atividades diversas, inclusive atividades-fim. • Em caso de terceirização envolvendo ex-funcionários deverá se respeitar um interstício de 18 (dezoito) meses a partir da data do seu desligamento da empresa contratante. • Garantir aos terceirizados o mesmo acesso à empresa concedido aos funcionários com vínculo empregatício, mesmas condições de alimentação, transporte e apoio à segurança e à saúde do trabalhador. A preocupação em respeitar os ritos legais no processo de contratação de terceirizados se justifica. Conforme a CLT determina, o atendimento aos critérios para a caracterização de vínculo empregatício se sobrepõe a outras formas de contratação, ou seja, na maioria das vezes, será devido ao contratado os direitos trabalhistas em caso de uma contenda judicial. Assim como ocorre nas relações convencionais de trabalho, é preciso toda atenção e cuidado com a terceirização para que ela atinja os objetivos almejados pelo contratante. Estes objetivos geralmente passam pelo aumento de eficácia. 30 Viriato e Moura (2021) destacam que as organizações buscam parcerias que contribuam para agilizar e modernizar a administração e fazem um resumo de alguns motivos para a terceirização na área de saúde, dentre eles: • É saudável, pois oxigena a organização. • Contribui para a agilidade. • É estratégico. Mas, de forma geral, como está estruturada uma terceirização de serviços? Existem algumas partes envolvidas neste processo, a saber: 1. O contratante (tomador dos serviços) é aquele que contrata a pessoa jurídica prestadora dos serviços para exercer determinada atividade em substituição a funcionários regulares. 2. A pessoa jurídica contratada (prestadora). 3. Os funcionários da contratada (prestadores) e, portanto, terceirizados. Observa-se que entre o contratante e os funcionários terceirizados existe a figura da entidade terceirizada. É isso que diferencia o processo de terceirização da forma regular de contratação trabalhista. A relação de emprego – no caso da terceirização – se dá entre a empresa terceirizada e seus funcionários que prestam o serviço no ambiente da contratante. A responsabilidade trabalhista, portanto, é da terceirizada. Ocorre que o tomador dos serviços terceirizados pode ser responsabilizado pelas obrigações trabalhistas nos casos em que o 31 prestador dos serviços não tenha recebido seus direitos da empresa terceirizada que o contratou. A partir da responsabilidade solidária envolvida na terceirização, o que deve ser feito para reduzir os riscos do tomador? O contrato de terceirização é o instrumento no qual devem constar as cláusulas que diminuam o risco de haver uma cobrança de direitos não respeitados perante os funcionários das terceirizadas. Sugere-se que no contrato de terceirização se exija a comprovação mensal, por parte da terceirizada, sobre o devido cumprimento das obrigações trabalhistas junto aos seus contratados, o que se faz por meio de documentos. Deve-se exigir da prestadora terceirizada o envio de comprovantes envolvendo, pelo menos, a quitação em relação às seguintes obrigações: • Remunerações comprovadas pelo envio dos recibos de pagamento assinados pelos funcionários prestadores de serviços. • Contribuições ao INSS pelo envio da Guia de Recolhimento Previdenciário (GPS) devidamente quitada. • Retenções do Imposto de Renda (IRRF) pelo envio do Documento de Arrecadações Federais (DARF) devidamente quitado. • Depósito do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) pelo envio das informações fornecidas ao Sistema Empresa de Recolhimento do FGTS e Informações à Previdência Social (SEFIP) e da Guia de Recolhimento do FGTS (GRF) devidamente quitada. Estes cuidados podem evitar problemas futuros, porém, além disso, exercem certa influência em relação ao ânimo da prestadora de serviços 32 em manter suas obrigações sempre em dia, tanto trabalhistas como fiscais. Além das questões trabalhistas é importante que as tomadoras de serviçosexijam a comprovação de sua regularidade fiscal, neste caso, sobre os tributos incidentes em seu faturamento relacionado ao contrato de terceirização. Neste sentido, as certidões negativas dos órgãos arrecadadores como a Receita Federal, a Prefeitura Municipal, a Receita Estadual (embora a prestação de serviços geralmente não demande este tipo de inscrição) podem ser úteis. Além da certidão envolvendo processos trabalhistas, que pode ser requerida junto aos Tribunais Regionais do Trabalho. Embora se perceba a complexidade envolvendo tanto as questões trabalhistas como as terceirizações, é preciso reconhecer que são perspectivas importantes relacionadas ao principal recurso de uma organização, ou seja, o capital humano, e como tal, ele merece toda a atenção e cuidado da gestão. Referências BURMESTER, Haino. Gestão de pessoas em saúde–Série Gestão Estratégica de Saúde. São Paulo: Saraiva, 2019. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca. com.br/#/books/9788571440647/. Acesso em: 14 ago. 2023. FIDELIS, Gilson J. Gestão de Pessoas–Rotinas Trabalhistas e Dinâmicas do Departamento Pessoal. São Paulo: Saraiva, 2020. Disponível em: https://integrada. minhabiblioteca.com.br/#/books/9788536533513/. Acesso em: 14 ago. 2023. VIRIATO, Aírton; MOURA, Anísio de. Administração hospitalar: curso de especialização. São Paulo: Manole, 2021. Disponível em: https://integrada. minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555766752/. Acesso em: 14 ago. 2023. 33 Planejamento e avaliação de desempenho Autoria: Regis Garcia Leitura crítica: Edson Massola Junior Objetivos • Apresentar as contribuições do planejamento e do controle interno para a eficácia empresarial. • Conhecer as dimensões estratégica, tática e operacional da estrutura organizacional e do planejamento de longo, médio e curto prazo. • Conhecer o papel dos indicadores de avaliação de desempenho sob as perspectivas do Balanced Score Card (BSC). 34 1. Planejamento e controle interno Certamente você já ouviu dizer que tudo na vida é uma questão de planejamento. Quanto mais o tempo passa, as experiências e as vivências vão demonstrando que o planejamento contribui de fato com a realização de muitos de nossos objetivos pessoais, principalmente os de longo prazo. No meio corporativo, como no caso das entidades de saúde, que inclui hospitais, clínicas e consultórios, o planejamento exerce um papel fundamental sobre a qualidade da gestão, principalmente ao se reconhecer algumas questões específicas desta área, como: • Os profissionais precisam passar por um constante processo de atualização, envolvendo novas técnicas, procedimentos, experimentações de novas interações medicamentosas etc. • Novos protocolos, muitas vezes, demandam ajustes nas instalações físicas, ajustes em instalações, ampliação ou readequação de edificações, tubulações, adequações documentais etc. • Novos equipamentos surgem, com tecnologias embarcadas, muito mais precisas, demandando igualmente ajustes físicos, treinamentos profissionais e investimentos financeiros etc. • Além destes requisitos que até certo ponto são previsíveis, existe ainda a convivência com riscos de pandemias e endemias que podem exigir de uma hora para outra a desconstrução e a reconstrução das estruturas funcionais para dar vazão aos atendimentos emergenciais que se apresentam, restando a incerteza sobre o que virá depois. Estas considerações sobre a área de saúde se aplicam com os devidos ajustes a outras áreas, uma vez que cada ramo de atividade tem 35 suas próprias peculiaridades, portanto o planejamento deve ser uma realidade para todos. Como é possível perceber, para se enfrentar os desafios que surgem a partir de variáveis sobre as quais não se tem o controle, como no caso de uma pandemia, é preciso estar fortalecido internamente. É neste sentido que Viriato e Moura (2021) destacam a necessidade de se estabelecer uma metodologia de gestão que promova a padronização do ambiente interno em termos de forma e conteúdo, pois isso permite a análise de eficácia das atividades estratégicas. Permite, desta forma, sua avaliação constante. O planejamento consiste basicamente em antecipar os possíveis movimentos futuros de forma a se propor ações e se tomar decisões que conduzam a organização para determinadas direções que sejam entendidas como as mais vantajosas para aqueles contextos previamente analisados. O controle consiste no acompanhamento da execução do planejamento de forma a verificar se aquilo que se planejou está sendo devidamente cumprido – conforme planejado – e se o resultado está de acordo com aqueles previstos nos respectivos orçamentos financeiros de cada área. O controle interno é executado a partir de uma série de documentos que são alimentados pelas áreas a partir de registro de cada operação, de cada tarefa, de cada movimentação, por exemplo: uma compra, uma venda, uma remessa, uma requisição, uma consulta, um resultado de exame retirado, uma guia de consulta por convênio emitida, uma conta de energia paga etc. O planejamento parte do amplo para o restrito. Do geral para o específico. 36 Kuazaqui (2015) traz os principais elementos a serem considerados na busca da construção de um planejamento amplo e consistente de uma organização: • Definir a sua missão e a sua visão. • Definir o seu core business. • Identificar os seus fatores críticos de sucesso. • Identificar as variáveis ambientais (internas e externas). Observa-se que a gestão baseada no planejamento é algo que necessariamente passa pela consciência do gestor (e de todos) sobre o todo organizacional. É o que se denomina visão holística no meio empresarial. Parte-se do pressuposto de que preliminarmente ao planejamento o gestor tem muito bem definida a missão da clínica ou do consultório e a sua visão de futuro, para, a partir disso, iniciar o delineamento dos objetivos estratégicos. O desenho do planejamento, no entanto, não é suficiente para dizer que há em determinada organização uma gestão baseada em planejamento. O maior problema das organizações não está no planejamento, mas na execução daquilo que se planejou e este é um ponto crítico a ser considerado. A essência da estratégia, segundo Herrero Filho (2019), é o planejamento, porém a execução é que deve garantir a antecipação, o enfrentamento e a alavancagem da mudança que eleva a condição da organização em termos de competitividade. Eis o desafio dos três níveis de planejamento organizacional. 37 2. Dimensões: estratégica, tática e operacional O planejamento integral de uma organização passa por três níveis: o estratégico, o tático e o operacional, que também podem ser atribuídos aos três prazos em termos cronológicos, sendo: longo prazo, médio prazo e curto prazo. O planejamento estratégico, o de longo prazo, é o mais amplo e parte da missão e da visão empresarial que são os elementos a partir dos quais toda a estrutura organizacional passa a ser direcionada. • Missão: pode ser considerada como a razão pela qual aquela organização foi criada por seus fundadores, o que os motivaram a abrir aquele negócio, que contribuição eles pretendiam dar para a sociedade, que problemas eles pretendiam resolver, que legado eles pretendiam deixar para as gerações. • Visão: enquanto a missão diz respeito a algo relacionado à existência, à razão de ser da entidade, a visão se relaciona com os objetivos de futuro enquanto parte de um determinado mercado, inclusive considerando sua capacidade competitiva, sua obrigação de continuidade, de crescimento etc. Segundo Herrera Filho (2019), o desafio da gestão estratégica baseada no planejamento se dá sob duas perspectivas: • A busca pelo êxito no futuro. • Competir para vencer no mercado hoje. Além da missão e da visão, a organização precisa estabelecer algo que – embora pareça subjetivo – integra o rol de elementos da cultura organizacional e influencia inclusive a gestão das pessoas. Trata-se dos valores. 38 • Valores:em termos culturais representam os elementos que são relevantes, que se acreditam, que se respeitam e, por isso, dão valor em uma sociedade. Os valores de uma organização compreendem o conjunto de determinados elementos que ela valoriza e, portanto, está acima de outros. Podem ser exemplos de elementos que constituem valores para uma organização qualidades como: honestidade, transparência, bondade, humildade, serenidade, temperança etc., como também bens, por exemplo: dinheiro, edificações, mobiliário, veículos, equipamentos etc., ou ainda sentimentos, como: status, amor à pátria, aparência, beleza, riqueza, limpeza etc. Geralmente os valores de uma organização estão muito relacionados aos valores dos fundadores e das lideranças da organização. Isto é comum, pois é a liderança que conduz o planejamento, a execução e o controle das operações e acaba centralizando as principais decisões estratégicas em si. Segundo Viriato e Moura (2021), o desempenho estratégico da organização depende da liderança, portanto, ela precisa estar integrada em todo o processo. Kuazaqui (2015), ao apresentar seu esquema de planejamento estratégico, considera os seguintes fatores, além daqueles já apresentados nesta seção: • Análise do ambiente, interno e externo. • Mercado e concorrência, estratégias e planos de ações. • Cenário setorial, ameaças e oportunidades. • Capacitação, potencialidade e fragilidades. 39 A partir da concepção de que a organização tem uma missão, visão e valores bem estabelecidos, o planejamento estratégico passa a ser desmembrado de forma a gerar os demais planos: o tático e o operacional. Se o planejamento estratégico tem como foco o longo prazo, o tático se limita ao curto prazo e o operacional ao curto prazo, desta forma os três planos tornam-se conectados e interdependentes. • Estratégico – longo prazo – geralmente 5 anos. • Tático – médio prazo – geralmente entre 2 e 3 anos. • Operacional – curto prazo – geralmente 1 ano. Para se fazer um bom planejamento é preciso que as variáveis envolvidas – tanto aquelas do ambiente interno como externo – sejam identificadas e consideradas como fatores de influência. Por mais que se estude o mercado e os ambientes (interno e externo) muitas variáveis não serão identificadas ou serão mal quantificadas, é preciso se debruçar sobre o planejamento, promover discussões coletivas e procurar diminuir ao máximo as incertezas. Um dos modelos mais conhecidos para a análise ambiental é o SWOT, que é um acrônimo das palavras: strengths (forças), weaknesses (fraquezas), opportunities (oportunidades) e threats (ameaças). No modelo, a distribuição destas variáveis envolve os seguintes ambientes: • Ambiente interno. • Forças versus fraquezas. • Ambiente externo. 40 • Oportunidades versus ameaças. O gestor de clínicas ou consultórios pode lançar mão destes ou de qualquer outro modelo de planejamento, o que de fato irá fazer a diferença na eficácia do seu trabalho será o cuidado com alguns pontos que foram destacados e que têm relação com o envolvimento das pessoas no processo de planejamento, uma vez que elas é que serão cobradas da sua realização, o controle rígido sobre a execução daquilo que foi planejado e a abertura para a revisão quando necessário, uma vez que as variáveis se alteram. O outro ponto fundamental diz respeito à avaliação do desempenho, mas este é o assunto da próxima seção que se baseará no modelo Balanced Score Card. 3. Balanced Score Card Existem vários modelos de avaliação de desempenho organizacional, porém desde o fim da década de 1980 o Balanced Score Card (BSC) tem sido testado e validado por empresas de todo o mundo. Algumas empresas não tiveram êxito, outras, no entanto, muito sucesso, porém todas contribuíram para a melhoria do modelo BSC que originalmente foi desenvolvido pelos professores Kaplan e Norton da Universidade de Harvard. A ideia do BSC surgiu a partir de uma constatação. A grande maioria das organizações mediam seu desempenho a partir de indicadores financeiros, como percentual de lucro, volume de vendas, redução de caixa etc., porém estes indicadores não eram capazes de demonstrar outras questões importantes: • Os clientes estão satisfeitos? 41 • Os funcionários estão bem treinados? • Há problemas com atraso nas entregas? Estes problemas geralmente envolvem questões operacionais que passam desapercebidas aos olhos dos gestores, por isso Kaplan e Norton resolveram criar um modelo que contemplasse outras perspectivas da organização que não se restringisse apenas aos indicadores financeiros. Como destacado na seção anterior, o problema das organizações está na execução daquilo que foi planejado e isso requer esforços e uma visão bem mais ampla do que ficar medindo o resultado e a geração de fluxos de caixa líquidos. Viriato e Moura (2021) destacam as limitações na execução dos planos estratégicos, sugerindo que modelos flexíveis seriam soluções que poderiam contribuir para a superação das barreiras encontradas durante a sua implementação. No mesmo sentido, Kuazaqui (2015) faz uma crítica em relação à existência de muitos relatórios que são criados para atender algumas demandas específicas e que ao final acabam sem sentido, não servindo para a finalidade de tomada de decisão. São relatórios que consomem recursos como tempo e dinheiro, mas não geram valor para a gestão das organizações. Modelos mais inteligentes e bem pensados para as organizações podem ser benéficos tanto em termos de eficácia, tanto sob o ponto de vista da decisão como também da economia empresarial. É justamente nestes três contextos, ou seja: i) complexidade da execução do planejamento; ii) indicadores estritamente financeiros; e iii) relatórios sem sentido–que o BSC pode dar a sua contribuição. Herrera Filho (2019) explica que o BSC é baseado em quatro perspectivas, sendo: 42 • Perspectiva financeira – que evidencia os resultados obtidos, a rentabilidade sobre o investimento, os fluxos de caixa gerados, a geração de valor econômico, liquidez etc. • Perspectiva dos clientes – que diz respeito às relações com consumidores e compradores dos produtos, mercadoria e serviços dos comércios, indústrias e prestadoras de serviços, podendo inclusive compreender as entidades sem fins lucrativos do terceiro setor. • Perspectiva dos processos internos – permite identificar os principais processos relacionados com a cadeia de valor da organização, principalmente se estes processos estão de fato contribuindo para gerar valores aos clientes e finanças. • Perspectiva do aprendizado e crescimento – visa garantir que os indivíduos e a coletividade estão desempenhando as suas competências e habilidades ou aprendendo suficientemente, para que as demais perspectivas sejam atendidas satisfatoriamente. As quatro perspectivas do BSC visam contemplar as principais áreas sensíveis que demandam acompanhamento contínuo. Estas áreas geralmente têm seus orçamentos e controles internos próprios, possibilitando a criação de indicadores de desempenho específicos. Vale destacar que o BSC não é um instrumento de substituição ao planejamento estratégico, mas sim uma forma de organizá-lo. O desenvolvimento do BSC se dá a partir da criação de um mapa estratégico pelo qual se procura traduzir a missão e a visão empresarial em um plano estratégico, que por sua vez é desmembrado em planos mais detalhados até que se chegue aos objetivos de curto prazo e às metas. A forma pela qual se controla a execução destes planos se denomina indicadores chaves e eles são definidos de acordo com o nível de detalhamento que se deseja para cada objetivo e para cada meta. 43 A vantagem de se organizar o planejamento estratégico da organização por meio do BSC está na sua amplitude de atuação, a saber: • Um dos principais benefícios de mapear a estratégia organizacional é o alinhamento entre missão, visão, valores, objetivos, metas e tarefas. • O BSC facilita muito a comunicaçãoe o esclarecimento pela alta administração, aos demais níveis organizacionais, das estratégias organizacionais, além dos objetivos de longo prazo que serão perseguidos por todos. • Outro ponto de fundamental importância e que está relacionado com a eficácia da gestão de pessoas diz respeito à fluidez do feedback, uma vez que os parâmetros estão bem definidos e os pontos e momentos de avaliação também, o que evita surpresas e constrangimentos. Utilizando aqui uma figura de linguagem, em termos operacionais o BSC serve como um mapa de ações, ou seja, cada pessoa responsável por uma ação dentro da operação tem uma espécie de cartilha que lhe diz o que fazer, como fazer e quando fazer, qual é a sua meta e quando será cobrado por ela. A implementação de um processo de avaliação de desempenho como o BSC não é uma tarefa fácil e requer um cuidado especial com a preparação das pessoas que irão interagir com o modelo. Resistências são normais. Geralmente se cria uma equipe para que ela seja treinada e faça a ponte entre a consultoria que está implantando o modelo e os demais colaboradores. O processo de desenvolvimento do BSC envolve, resumidamente: • Quais são os pontos estratégicos escolhidos pela organização? • Para cada ponto estratégico, quais são os objetivos? 44 • Para chegar aos objetivos, quais são as metas? • Para medir as metas, quais são os indicadores? • Para atingir as metas e os indicadores, quais iniciativas? • Quem responde por cada iniciativa? Uma vez que se estabelece o mapeamento é preciso que ele seja apresentado a todos e isso pode ser feito várias vezes até que se chegue a um modelo o mais próximo quanto possível do consenso. Vale destacar, no entanto, que o acompanhamento das ações é fundamental para que o BSC atinja seus objetivos e que o processo não deve se resumir à checagem dos indicadores operacionais, mas é preciso se avaliar o quanto a organização está se aproximando dos objetivos estratégicos. Se um dos problemas enfrentados pelas organizações é o desalinhamento entre a estratégia organizacional com os objetivos, principalmente das pessoas, o BSC pode contribuir para sua redução. Observe, caro gestor de clínica ou consultório, que o desafio é grande, mas o domínio de algumas ferramentas pode lhe ajudar a superar os desafios, portanto, boa parte do seu sucesso está nas suas mãos. Bons estudos! Referências HERRERO FILHO, Emílio. Balanced Scorecard e a Gestão Estratégica: uma abordagem prática. São Paulo: Alta Books, 2019. Disponível em: https://integrada. minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555206920/. Acesso em: 3 set. 2023. KUAZAQUI, Edmir. Planejamento Estratégico. São Paulo: Cengage Learning Brasil, 2015. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/ books/9788522122523/. Acesso em: 14 ago. 2023. 45 VIRIATO, Aírton; MOURA, Anísio de. Administração hospitalar: curso de especialização. São Paulo: Manole, 2021. Disponível em: https://integrada. minhabiblioteca.com.br/#/books/9786555766752/. Acesso em: 14 ago. 2023. 46 Gestão Financeira Autoria: Regis Garcia Leitura crítica: Edson Massola Junior Objetivos • Apresentar e compreender a execução da gestão financeira e a utilização de técnicas de formação de preços como fatores cruciais para o sucesso das organizações empresariais. • Conhecer e compreender a importância da elaboração, do acompanhamento e da interpretação da Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) no contexto da gestão financeira e da tomada de decisões. • Conhecer e compreender a importância da apuração do resultado do exercício e da análise da rentabilidade como elementos da gestão econômica da entidade e apoio ao processo de tomada de decisão. 47 1. Gestão financeira e formação de preços As organizações de saúde são formadas a partir da união de vários subsistemas que interagem em prol de objetivos comuns. Não têm um tipo específico de área considerada mais ou menos importante. Todas têm uma função crucial no sistema. Esta premissa também se aplica aos recursos. Embora os recursos humanos sejam considerados estratégicos e tenham uma importância crucial para que uma entidade clínica se desenvolva bem, sem os recursos tecnológicos, por exemplo, certamente a qualidade dos atendimentos não seria a mesma. Os recursos financeiros seguem a mesma regra, ou seja, não é possível considerá-los como os mais importantes, todavia sem eles uma organização empresarial fica praticamente estagnada em suas atividades. Com tudo isso, assim como ocorre com os subsistemas e com os recursos econômicos disponíveis, é preciso que haja uma boa gestão dos recursos financeiros, o que pressupõe a utilização de controles internos eficazes. No contexto empresarial estes recursos são considerados escassos, custosos e precisam de uma atenção contínua do gestor. Souza (2013), por exemplo, considera que a gestão financeira de entidades de saúde compreende uma das principais atividades, talvez uma das mais complexas, ao se considerar o volume de itens que são movimentados diariamente, mas também levando em consideração os altos valores envolvidos. A origem do controle financeiro se dá a partir do planejamento orçamentário. Uma vez elaborados os planejamentos estratégico, tático e operacional, elaboram-se os orçamentos de cada unidade e dentro de 48 cada unidade são orçadas cada atividade relevante. Estes orçamentos representam o desmembramento econômico e financeiro do orçamento geral. A título de ilustração, considere que no processo orçamentário de caixa referente ao mês de abril/x1 de uma clínica médica estão previstas as movimentações conforme a listagem a seguir: Recebimento de consultas do convênio de saúde X R$ 18.500,00 Recebimento de empréstimo bancário R$ 75.000,00 Recebimento referente à venda de equipamento de ultras- som R$ 50.000,00 Pagamento de duplicatas de fornecedores de insumos R$ 15.500,00 Pagamento de aquisição do equipamento de RX R$ 45.000,00 Pagamento de prestação de financiamento bancário R$ 15.000,00 Pagamento de aluguel R$ 10.000,00 Pagamento dos salários e encargos R$ 20.000,00 As informações como estão na listagem apresentada permitem uma visão parcial sobre as movimentações previstas, porém não evidenciam o impacto real que elas causarão no caixa da clínica. Para fins orçamentários, outras informações são necessárias, por exemplo: qual é o saldo do caixa no final do mês de março/x1, ou seja, o saldo inicial do mês de abril/x1, além da identificação das entradas e saídas (-) de caixa. Antes de demonstrar como o orçamento de caixa seria evidenciado a partir destas informações complementares, é importante destacar que existem padrões de registros e de relatórios para que se mantenha a comparabilidade e a compreensibilidade das informações. Este papel é desempenhado pela contabilidade que é a responsável por registrar e evidenciar a situação patrimonial das entidades. Salotti et al. (2019) destacam este papel da contabilidade no apoio ao gestor financeiro, uma vez que os relatórios financeiros, no caso as 49 demonstrações financeiras por ela elaboradas, permitem tanto a análise patrimonial como a econômica e financeira da entidade, tanto em dado momento como em um período. Retomando o exemplo, considere que o saldo de caixa da clínica médica em março de x1 é de R$ 12.000,00, ou seja, é com ele que se iniciará abril de x1. Além do saldo inicial procedeu-se a identificação das contas orçamentárias que representam saídas. Elas estão identificadas com o sinal de menos (-). Como a contabilidade segue o padrão das Normas Brasileiras de Contabilidade (NBC), procedeu-se também a classificação (ordenação) das contas por tipos contábeis, embora isto não será objeto de discussão neste momento. O resultado desta reorganização do orçamento está apresentado no Quadro 1, que também evidencia o saldo final de caixa após as movimentações do mês de abril/x1, considerando o saldo anterior informado. Quadro 1– Orçamento de caixade abril/x1 Saldo inicial de caixa R$ 12.000,00 Recebimento de duplicatas de clientes R$ 18.500,00 (-) Pagamento de duplicatas de fornecedores de mercadorias R$ 15.500,00 (-) Pagamento de aluguel R$ 10.000,00 (-) Pagamento dos salários e encargos R$ 20.000,00 Recebimento referente à venda de um veículo da empresa R$ 50.000,00 (-) Pagamento de aquisição do equipamento de RX R$ 45.000,00 Recebimento de empréstimo bancário R$ 75.000,00 (-) Pagamento de prestação de financiamento bancário R$ 15.000,00 Saldo final de caixa R$ 50.000,00 Fonte: elaborado pelo autor. Este é o primeiro passo para o processo de gestão financeira de uma clínica ou consultório, porém o controle da realização do orçamento 50 é fundamental, ou seja, a partir desta previsão é preciso saber se a realização ocorreu abaixo, acima ou exatamente como o previsto no orçamento financeiro. Além dos gastos com custos e despesas, os gastos previstos com investimentos também fazem parte do processo orçamentário financeiro, conforme é possível se observar no Quadro 1, portanto é importante conhecer algumas definições que fazem parte deste processo: • Gasto – se refere a qualquer sacrifício financeiro. • Despesa – são gastos para manter a entidade em operação. • Custos – são gastos para fabricar um produto, prestar um serviço ou por uma mercadoria em condição de venda. • Investimentos – são gastos em bens que geram receitas em vários exercícios futuros. Esta classificação é fundamental para se formar o preço do serviço no caso da clínica ou do consultório, por exemplo. O que será integrado ao preço? Existem diferentes técnicas que são utilizadas para se estabelecer preços: • Markup – margem fixa aplicada sobre o custo interno. • Média de mercado – toma como base o preço dos concorrentes. • Custo – toma como base o custo real do produto. • Target costing – baseia-se no preço de mercado e metas de custos. • Mix de produtos – baseia-se em grupos de produtos e preços médios. 51 De qualquer forma, a separação dos custos internos, das despesas e dos imobilizados torna-se fundamental, pois somente assim é possível chegar aos gastos que precisam ser cobertos pelo faturamento (vendas) da clínica. Viriato e Moura (2021) consideram que a formação de preços passa pelo efetivo controle dos custos e de todos os gastos dos hospitais e das demais entidades de saúde. Não é possível o estabelecimento de preços justos sem a correta mensuração de todos os recursos envolvidos com a atividade. No caso dos imobilizados, por exemplo, eles também são geradores de custos e despesas. Embora sejam ativos à disposição da clínica (um equipamento de eletrocardiograma, por exemplo) eles geram: • Manutenções – despesas ou custos para mantê-los funcionando. • Depreciações – reconhecimento da perda de seu valor pelo uso, obsolescência ou simplesmente efeito do tempo. Como a formação de preços depende fundamentalmente da correta mensuração de custos e despesas e como parte dos custos e despesas derivam, por exemplo, das imobilizações, como é o caso da depreciação dos imobilizados, a gestão financeira e a formação de preços precisam estar muito alinhadas porque uma falha em qualquer uma destas duas perspectivas poderá afetar diretamente a outra e prejudicar todo o planejamento da entidade. 2. Fluxos de caixa A contabilidade é a responsável pela elaboração da Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) que envolve a evidenciação de toda movimentação financeira que a entidade teve e que transitou pelo caixa, mas também 52 pelos denominados equivalentes de caixa, como bancos, aplicações de liquidez imediata etc. Trata-se de uma demonstração que contribui para que o gestor financeiro possa visualizar em três grupos distintos a geração de caixa da entidade e, desta forma, identificar qual das áreas pode estar afetando positiva ou negativamente a operação em termos financeiros em dado período. O acompanhamento dos fluxos de caixa é uma dentre as principais tarefas que envolvem a gestão financeira das clínicas ou dos consultórios, pois a identificação imediata de problemas permite ações mais rápidas de correção. Souza (2013), por exemplo, diz que o acompanhamento dos fluxos de caixa torna-se mais exigente à medida que os recursos se tornam mais escassos. A Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC), conforme explicam Salotti et al. (2019), é uma demonstração financeira que tem por objetivo evidenciar as origens e as aplicações dos recursos financeiros que transitaram pelo caixa e pelos equivalentes de caixa, ou seja, as entradas e as saídas, respectivamente. São três os grupos nos quais as movimentações de caixa são organizadas nos fluxos de caixa, sendo que em cada um deles é apurada a variação do período: • Atividades operacionais – no qual estão concentradas as movimentações que dizem respeito às atividades corriqueiras da entidade, como aquisições de insumos para a prestação de serviços, as prestações de serviços, e as despesas mensais, como tributos, aluguéis etc. • Atividades de investimentos – no qual estão classificadas as movimentações de investimentos de longo prazo da entidade, 53 como em outras companhias e em imobilizações, sejam aquisições ou alienações. • Atividades de financiamento – no qual são classificadas as movimentações de entradas e saídas relacionadas ao financiamento de capital da entidade, seja de terceiros ou próprio, como empréstimos e financiamentos bancários ou de capital social. No Quadro 2 é possível conhecer a estrutura da DFC com seus grupos. Quadro 2 – Demonstração dos Fluxos de Caixa ATIVIDADES OPERACIONAIS (+) ORIGENS (-) APLICAÇÕES (+-) CAIXA GERADO PELAS ATIVIDADES OPERACIONAIS ATIVIDADES DE INVESTIMENTO (+) ORIGENS (-) APLICAÇÕES (+-) CAIXA GERADO PELAS ATIVIDADES DE INVESTIMENTO ATIVIDADES DE FINANCIAMENTO (+) ORIGENS (-) APLICAÇÕES (+-) CAIXA GERADO PELAS ATIVIDADES DE FINANCIAMENTO (+-) SALDO INICIAL DE CAIXA E EQUIVALENTES DE CAIXA (+-) SALDO FINAL DE CAIXA E EQUIVALENTES DE CAIXA Fonte: elaborado pelo autor. A gestão de entidades de saúde tem muitos elementos que lhes são peculiares e isto precisa ser considerado no processo de controle. Viriato e Moura (2021) destacam que o acompanhamento de todos os gastos, neste caso o caixa exerce papel fundamental, pode evitar gastos desnecessários, porém deve se considerar a possibilidade do acompanhamento de outras fontes de saídas de recursos, como o almoxarifado, por exemplo. 54 A gestão financeira envolve a busca de eliminação de riscos, por isso além dos controles por meio dos relatórios, como é o caso da DFC, são fundamentais os controles internos e os cuidados com alguns aspectos processuais, como: • Segregação de funções – que significa separar os processos de pedido, autorização e recebimento dos insumos adquiridos pela clínica. • Introdução de controles de solicitação e conferência – que significa dupla checagem no processo de solicitação de gastos, como compras e autorização de despesas, preferencialmente sendo a autorização final feita pela pessoa de maior nível hierárquico da entidade. • Fechamento diário de caixa – todos os dias verificar se o caixa inicial, adicionado pelas entradas comprovadas (recebimentos) e reduzido pelas saídas (pagamentos) está gerando corretamente o caixa final (conferência de saldo final) e se este existe fisicamente. • Confronto entre controles – significa checar se as consultas executadas foram todas (ou faturadas ou geradas guias) e se todas estão devidamente registradas no sistema para gerarem os recebimentos etc. Estes são alguns exemplos de ações cotidianas que proporcionam controle e evitam que haja perda de recursos por descontrole financeiro. 3. Apuração do resultado Além da gestão financeira é importante que o gestor de clínicas ou consultórios tenha uma boa noção sobre o resultado econômico da clínica. A diferença entre o resultado financeiro apurado na DFC e o resultado econômico apurado na Demonstração