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Referência e referenciação Apresentação Uma maneira de entendermos o processo de significação das línguas é analisando as relações que se estabelecem entre as expressões linguísticas e as entidades ou situações no mundo às quais essas expressões se referem. Por exemplo, o sucesso da interpretação do significado de uma sentença como “o meu pai tem uma casa em Copacabana” depende, em grande medida, da identificação das referências estabelecidas a partir das expressões “meu pai”, “tem uma casa” e “Copacabana”. Essas referências constituem o objeto de interesse de uma parte bastante proeminente dos estudos dos significados, composta pelas teorias semânticas de abordagem referencial. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai aprender alguns aspectos que caracterizam as teorias semânticas de abordagem referencial, bem como os tipos de referência que as expressões linguísticas podem estabelecer e os processos de referenciação que asseguram a coerência de um texto. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar aspectos da semântica referencial.• Reconhecer alguns tipos de referência.• Analisar processos de referenciação.• Desafio Um aspecto da produção textual ao qual um revisor de textos deve prestar atenção diz respeito às referências feitas nos materiais que ele precisa revisar. Ele deve observar se as referências feitas nas várias sentenças do texto são coerentes entre si – ou seja, se estabelecem as respectivas referências de maneira ordenada e consistente. Você é um revisor de textos que foi solicitado para revisar a manchete abaixo. a) Você consegue identificar algo que possa causar confusão na leitura da manchete? Qual seria o motivo dessa confusão? b) Qual sugestão você daria para solucionar tal confusão? Infográfico "Dêixis" é um tipo muito particular de referência, pois é totalmente dependente do contexto de uso. As "expressões dêiticas" são aquelas cuja referência captura referentes relativos ao lugar e ao momento em que são utilizadas. As referências estabelecidas por meio dessas expressões sempre partem do ponto de vista do falante. O Infográfico a seguir explica os processos de referenciação realizados por meio de expressões dêiticas. Mova o mouse sobre cada tipo de expressão para ver um exemplo de seu uso. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/d2ff4483-a439-4db5-bf8a-987c3e33d38f/4cf8667d-41de-416d-9aa3-d71872d00825.jpg Conteúdo do livro A semântica formal lança mão de alguns conceitos fundamentais para tratar dos significados das línguas e das relações por trás dos respectivos processos de significação. Acompanhe um trecho da obra Semântica, base teórica para esta Unidade de Aprendizagem. Leia o capítulo Referência e referenciação, que contém explicações sobre três desses conceitos fundamentais: referente, referência e referenciação. Boa leitura! SEMÂTICA DO PORTUGUÊS Dalby Dienstbach Referência e referenciação Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identi� car aspectos da semântica referencial. Reconhecer alguns tipos de referência. Analisar processos de referenciação. Introdução Uma maneira de entendermos o processo de significação das línguas é analisando as relações que se estabelecem entre as expressões linguís- ticas e as entidades ou situações no mundo às quais essas expressões se referem. Por exemplo, o sucesso da interpretação do significado de uma sentença como “O meu pai tem uma casa em Copacabana” depende, em grande medida, da identificação das referências estabelecidas a partir das expressões “meu pai”, “ter uma casa” e “Copacabana”. Essas referências constituem o objeto de interesse de uma parte bastante proeminente dos estudos dos significados, composta pelas teorias semânticas de abordagem referencial. Neste capítulo, você vai aprender alguns aspectos que caracterizam as teorias semânticas de abordagem referencial, bem como os tipos de referência que as expressões linguísticas podem estabelecer e os processos de referenciação que asseguram a coerência de um texto. U N I D A D E 2 Semântica do português_U2C3.indd 33 22/08/2017 13:09:45 A semântica referencial O campo dos estudos que tratam dos signifi cados das línguas corresponde, atualmente, a um conjunto bastante amplo e diverso de teorias semânticas. Uma das teorias mais tradicionais (e antigas) desse conjunto é uma que fi cou conhecida como semântica formal, cujos fundamentos e desenvolvimento podem ser atribuídos, sobretudo, aos estudos do matemático e fi lósofo alemão F. Gottlob Frege (1848–1925) e do matemático e fi lósofo polonês Alfred Tarski (1901–1983). Ancorada em pressupostos da lógica e da matemática, a semântica formal (ou, ainda, a lógica semântica) investiga os significados das línguas a partir das relações que existem entre as unidades linguísticas e as entidades no mundo às quais essas unidades se referem. É por isso, a propósito, que podemos caracterizar a semântica formal como uma teoria semântica de abordagem referencial (CANÇADO, 2008). No seu tratamento dos significados das línguas, bem como das relações que estariam por trás dos respectivos processos de significação, a semântica formal lança mão de alguns conceitos fundamentais, dentre os quais devemos destacar o referente, a referência e a referenciação (LEITE, 2015). Por referente, podemos entender uma entidade (ou conjunto de entidades) ou uma situação, pertinentes à realidade do falante, que venham a constituir o objeto do seu enunciado. Já referência diz respeito a relação que se estabelece entre essa entidade ou situação e a nossa língua. Uma definição bastante didática, a propósito, vai explicar que “referência é o que as palavras captu- ram no mundo” (OLIVEIRA et al., 2012, p. 150, grifo nosso). Por exemplo, a referência da palavra “sol” é a entidade (ou, ainda, o referente) no mundo que ela “captura” (ou identifica), ou seja, a estrela central do nosso sistema solar. Por fim, temos a referenciação, que consiste no processo por meio do qual se estabelece referência —isto é, quando o falante recruta uma dada unidade linguística (que pode ser uma palavra, um sintagma, uma frase, etc.) para “capturar” determinado referente (Figura 1). Referência e referenciação34 Semântica do português_U2C3.indd 34 22/08/2017 13:09:45 Figura 1. Elementos que compõem o processo de referenciação. Devemos ter em mente, além do mais, que os processos de significação, nos moldes de uma semântica de abordagem referencial, não se limitam somente às relações que podem se estabelecer entre a nossa língua e referentes pertinentes à nossa realidade. Os significados das palavras e frases que usamos podem ser analisados, também, a partir de referentes pertinentes a mundos possíveis (OLIVEIRA et al., 2012), isto é, a partir de entidades e situações que não existem, mas que podem existir ou, ainda, poderiam ter existido. Por exemplo, quando um jornalista, ao anunciar a previsão do tempo em um programa de televisão, diz que “cairá neve amanhã”, ele não faz referên- cia a uma neve que existe de fato (afinal de contas, o “amanhã” ainda não aconteceu, e é possível que sequer caia neve no dia seguinte). Nesse caso, a palavra “neve” estabelece a sua referência com uma entidade imaginável, que pode ou não vir a fazer parte da nossa realidade. A semântica dos mundos possíveis, cujo desenvolvimento pode ser atribuído, sobre- tudo, aos estudos dos filósofos norte-americanos Saul Kripke (1940–) e Dadid Lewis (1941–2001), é eventualmente empregada, por exemplo, nos estudos literários, para o estudo dos universos figurados e imaginários que integram as obras de ficção. 35Referência e referenciação Semântica do português_U2C3.indd 35 22/08/2017 13:09:45 Tipos de referência É importante observarmosque, dependendo da natureza do referente no mundo que é capturado no processo de referenciação, diferentes tipos de referência podem ser estabelecidos. Uma forma de distinguirmos entre esses tipos de referência é por meio de um esquema de classifi cação esboçado por Cançado (2008), com base em refl exões feitas pelo linguista britânico John Lyons (1932–). Nesse sistema de classifi cação, podemos identifi car quatro tipos de referência: referência definida; referência geral; referência indefinida; referência genérica. Podemos considerar, ainda, certos sintagmas nominais definidos com fun- ção predicativa que, embora não cheguem a configurar um tipo de referência, servem para estabelecer uma relação de identidade entre referentes (no mundo). Vamos analisar cada um desses tipos a partir de agora. Referência definida Esse tipo de referência acontece quando o sintagma nominal identifi ca (ou seja, “captura”) um referente único e particular no mundo. Dentro desse tipo de referência, temos, como o seu caso mais prototípico, os nomes próprios. Nomes próprios são, nas palavras de Cançado (2008, p. 77), “expressões referenciais por excelência”, pois estabelecem uma relação exclusiva com um único elemento no mundo. Na sentença “a Universidade de São Paulo possui onze campi”, por exemplo, a expressão “Universidade de São Paulo” se refere a um certo elemento particular no mundo — nesse caso, a determinada instituição de ensino superior de determinado estado brasileiro. Outros casos de referência definida são os sintagmas nominais definidos, que identificam o seu referente no mundo por artigos definidos, pronomes demonstrativos ou algum modificador característico (como, por exemplo, “a minha professora de matemática” e “aquele homem de chapéu cinza”) e os pronomes pessoais, cujos referentes sempre dependem do contexto em que são enunciados (como, por exemplo, os sujeitos das frases “nós chegamos pela manhã” e “eles estudam na mesma escola”). Referência e referenciação36 Semântica do português_U2C3.indd 36 22/08/2017 13:09:45 Quando se trata de referência definida estabelecida por um nome próprio, devemos lembrar que é possível que existam, no mundo, mais de um referente (ou, ainda, mais de um indivíduo) com o mesmo nome. É o caso, por exemplo, do cantor Robertos Carlos (1941–) e do ex-jogador da Seleção Brasileira de futebol Roberto Carlos (1973–). No entanto, isso não interfere nas relações de referência que se estabelecem no processo de significação. Por conta de diversos fatores contextuais (como o tópico do assunto), presume-se que os interlocutores que evocam um nome próprio sempre possuem um único referente em mente. Referência geral Referência geral acontece quando o sintagma nominal identifi ca um conjunto delimitado de referentes no mundo. Referências gerais, nesse caso, podem ser ou coletivas ou distributivas. São coletivas quando identifi cam o conjunto de referentes como um todo (como, por exemplo, o sujeito da sentença “o nosso time venceu o campeonato”. Por outro lado, referências gerais são distributivas quando identifi cam os seus referentes como indivíduos que compartilham uma mesma condição (como, por exemplo, o sujeito da sentença, “o nosso time usa uniforme vermelho”). Referência indefinida Esse tipo de referência acontece quando o sintagma nominal aponta para um referente único no mundo, mas que não pode ser identifi cado. Esse referente pode ser específi co ou não. Um exemplo de referência indefi nida é o sujeito da sentença “todos os dias, um coroinha toca o sino da igreja a cada uma hora”. A expressão “um coroinha” confi gurará uma referência indefi nida específi ca se o seu referente for sempre a mesma pessoa que, embora não saibamos quem seja, é a única encarregada daquela tarefa. Por outro lado, essa expressão confi gurará uma referência indefi nida não específi ca se essa tarefa puder ser executada por qualquer pessoa, não necessariamente a mesma, desde que esteja disponível no momento em que o sino deve ser tocado. 37Referência e referenciação Semântica do português_U2C3.indd 37 22/08/2017 13:09:45 Referência genérica A referência genérica acontece quando o sintagma nominal identifi ca não um único referente no mundo, mas uma classe ou categoria de referentes – ou, ainda, todo e qualquer referente que fi zer parte daquela categoria. Os sujeitos das sentenças a seguir estabelecem referências do tipo genérica com os seus referentes: “o homem é um animal racional”, “um homem é um animal racional” e “homens são animais racionais”. É importante esclarecer que há certos sintagmas nominais que não “capturam” enti- dades específicas no mundo, mas somente estabelecem relações de identidade entre referentes – nesse caso, por meio de construções predicativas. É o que acontece na sentença “Francisco é o diretor da nossa escola”. A expressão linguística “o diretor da nossa escola” não faz referência a qualquer referente (no mundo), senão que apenas atribui ao referente da expressão linguística “Francisco” uma condição pertinente a outro referente (ou, mais especificamente, a um grupo de referentes) – qual seja o fato de ser diretor da nossa escola. Processos de referenciação Processos de referenciação correspondem a estratégias para estabelecer rela- ções de referência entre expressões linguísticas (uma palavra, um sintagma, uma frase, etc.) e determinados referentes no mundo. Quando se trata da organização e da progressão de um texto, especifi camente, podemos destacar duas estratégias elementares que confi guram esses processos: a topicidade e a sequencialidade (HENRIQUES, 2011). A primeira dessas estratégias, a topicidade, diz respeito aos tópicos e situações que constituem os objetos (ou, ainda, os referentes) dos enunciados do texto. Podemos identificar a topicidade de um dado referente evocado pelo texto a partir do grau de atenção que ele recebe desse texto – ou seja, pela quantidade de vezes em que ele é “referido” no texto. Referência e referenciação38 Semântica do português_U2C3.indd 38 22/08/2017 13:09:45 Já a sequencialidade dá conta da progressão das referências (isto é, da sua introdução, continuidade e retomada) ao longo do texto. Quando um determinado referente é introduzido em um texto, ele pode ser retomado (ou, ainda, “referido”) por meio de duas operações fundamentais: Anáfora. Equivale ao uso de expressões linguísticas que identificam entidades e situações (no mundo) já referidas anteriormente na mesma sentença ou no mesmo texto. Essas expressões podem incluir pronomes, sinônimos ou hiperônimos. Um exemplo de anáfora pode ser verificado na sentença “mais de duas mil assistiram à palestra; portanto, o evento foi um sucesso”. As expressões “palestra” e “evento” são correferen- ciais, ou seja, identificam o mesmo referente. No entanto, a expressão “evento”, especificamente, constitui uma anáfora, visto que retoma a referência introduzida pela expressão “palestra”. Catáfora. Corresponde ao uso de expressões linguísticas que iden- tificam entidades ou situações que serão referidas posteriormente na mesma sentença ou no mesmo texto. Podemos observar essa estratégia na sentença “estes são os materiais que precisamos comprar: tesoura, lápis e cola branca”. As expressões “estes” e “materiais” configuram catáforas relativas às referências que são estabelecidas depois, pelas expressões “tesoura”, “lápis” e “cola branca”. Algo que é muito importante observar é que essas estratégias de referenciação são as principais responsáveis pela coerência e pala coesão de um dado texto. Ou seja, são elas que garantem que as sentenças que compõem o texto façam sentido como um todo. 39Referência e referenciação Semântica do português_U2C3.indd 39 22/08/2017 13:09:45 CANÇADO, M. Manual de semântica: noções básicas e exercícios. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2008. HENRIQUES, C. Léxico e semântica: estudos produtivos sobre palavra e significação.Rio de Janeiro: Elsevier, 2011. LEITE, M. Semântica referencial: a linguagem e os objetos do mundo. Recorte, v. 12, n. 1, p. 1-13, 2015. OLIVEIRA, R. et al. Semântica: 6° período. Florianópolis: UFSC, 2012. 40Referência e referenciação Semântica do português_U2C3.indd 41 22/08/2017 13:09:46 Dica do professor No vídeo a seguir, você vai aprender sobre estratégias de progressão referencial que ajudam a garantir a coerência textual. Essas estratégias são as referências exofórica, endofórica, anafórica e catafórica. Assista! Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/846093cd839ce96beff16b9637f793d8 Exercícios 1) Nos moldes da semântica formal, como podemos chamar a relação que se estabelece entre uma expressão linguística tal e uma determinada entidade no mundo? A) Anáfora. B) Referenciação. C) Referente. D) Catáfora. E) Referência. 2) Há um tipo de referência que acontece quando um sintagma nominal aponta para um referente único no mundo que não pode ser identificado. Qua tipo de referência é essa? A) Definida. B) Indefinida. C) Genérica. D) Distributiva. E) Coletiva. 3) Como se caracterizam as referências estabelecidas por nomes próprios? A) Nomes próprios estabelecem relação com um conjunto delimitado de referentes no mundo. B) Nomes próprios estabelecem uma relação definida com um referente único no mundo. C) Nomes próprios estabelecem relações de identidade entre referentes por meio de predicações. D) Nomes próprios estabelecem relação com todo e qualquer referente que pertence a uma dada categoria. E) Nomes próprios estabelecem relação com um referente único no mundo que não pode ser identificado. 4) Qual operação de referenciação envolve o uso de uma expressão linguística para identificar uma entidade ou situação que será referida posteriormente em uma sentença ou texto? A) Referência coletiva. B) Anáfora. C) Topicidade. D) Referência definida. E) Catáfora. 5) Considere o enunciado "Carmem precisou sair mais cedo do trabalho, pois seu filho sofreu um acidente". Que tipo de referência é estabelecida pelo pronome "seu"? A) Referência anafórica. B) Referência indefinida. C) Referência catafórica. D) Referência distributiva. E) Referência genérica. Na prática A qualidade dos textos que escrevemos depende, dentre outras coisas, da coerência e da consistência entre as referências que estabelecemos ao longo das sentenças. Os professores podem ajudar seus alunos a melhorarem a qualidade dos seus textos sugerindo atividades que promovam a aprendizagem de estratégias de progressão referencial. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Leia o artigo acadêmico Da referência à referenciação: uma abordagem sociocognitiva e interacional, uma revisão teórica sobre os processos de referenciação. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Leia o artigo acadêmico A dêixis discursiva, que fala da definição dos dêiticos discursivos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Assista à videoaula sobre anáfora e catáfora, na qual o Professor Eduardo Torquato ensina sobre esses dois fenômenos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://docplayer.com.br/53562566-Da-referencia-a-referenciacao-uma-abordagem-sociocognitiva-e-interacional.html http://www.revistadeletras.ufc.br/rl22Art06.pdf https://www.youtube.com/embed/iIQU2sb8GZU