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APOSTILA AUXILIAR DEAUXILIAR DE CRECHECRECHE https://www.unovacursos.com.br/admin/cursos/curso/133 AUXILIAR DE CRECHE INTRODUÇÃO...................................................................................................02 Capítulo 1 – O Surgimento da Creche no Brasil.............................................03 Capítulo 2 – A Creche na Atualidade...............................................................07 Capítulo 3 – As Rotinas na Creche..................................................................10 Capítulo 4 – Sugestões de Atividades para as Rotinas na Creche..............13 Capítulo 5 – A Adaptação do Berçário à Creche............................................17 Capítulo 6 – Sugestões para Atividades no Berçário....................................20 Capítulo 7 – O que fazer na Hora do Choro....................................................24 Capítulo 8 – A Arte de Contar Histórias..........................................................27 CONCLUSÕES..................................................................................................31 BIBLIOGRAFIA.................................................................................................32 2 INTRODUÇÃO Nas últimas décadas, a educação de crianças pequenas no Brasil tem crescido significativamente. A Educação Infantil, que antes era uma etapa pouco procurada para a educação, sendo voltada mais a cuidados, atualmente recebe a mesma atenção legal, pedagógica e social das outras etapas da educação básica. As crianças entram na escola cada vez mais cedo, primeiro por se tratar de um lugar seguro para os filhos dos pais que trabalham, segundo porque oferece uma formação indispensável para essa fase da vida criança. Esse primeiro contato das crianças com as instituições educacionais, se iniciou no Brasil como forma assistencialista, para crianças sem família ou vindas de lares sem estrutura para cuidar delas em tempo integral. Com o crescimento da urbanização e da industrialização, a mulher se insere no mercado de trabalho de forma mais intensa e necessita de local que ofereça cuidados e segurança a seus filhos: a creche. Atualmente, a creche é parte da Educação Infantil, ou seja, obedece a uma legislação específica sobre educação, referenciais, paradigmas e parâmetros pedagógicos. Sendo assim, os profissionais que trabalham na creche precisam de formação específica também. Em nossos estudos, iremos descrever com detalhes a formação de um profissional indispensável: o auxiliar de creche. Iremos explicar como e para que se forma este profissional e como é seu trabalho na Educação Infantil. 3 CAPÍTULO 1 – O SURGIMENTO DA CRECHE NO BRASIL O conceito que temos de infância e criança na atualidade é bem recente na história ocidental. Hoje, enxergamos a criança como um sujeito com necessidades e características próprias, como alguém que precisa de uma educação que englobe seu universo e seus aspectos de desenvolvimento. Pensando nisso, neste capítulo, iremos apresentar a evolução do conceito de infância e como a mudança nesse conceito contribuiu para o aparecimento das creches. Nossa ideia de criança atualmente é de um indivíduo diferente do adulto, não só em idade, mas em maturidade física, psíquica, emocional e cognitiva. Porém, nem sempre foi assim, o modo como enxergamos e tratamos a criança depende do contexto histórico e cultural. A cultura ocidental atual pensa em criança como algo frágil, que precisa de cuidado e proteção. A educação é focada na parte cognitiva e intelectual, mas também muito preocupada com o fator psicológico e, principalmente após a pandemia de Covid-19, com o emocional. Existem algumas diferenças dentro de uma mesma sociedade e comunidade sobre o tratamento que se dá para a infância, pois temos que levar em consideração valores familiares, renda, nível cultural e educacional dos pais, religiosidade e outros detalhes que irão influenciar na criação, nos cuidados e na educação das crianças. Porém, ainda assim a forma como enxergamos a infância no ocidente é praticamente hegemônica. Nem sempre a criança foi vista como tal. Na Idade Média, a diferença de tratamento entre crianças e adultos era mínima. Através de documentos, literatura, pinturas, diários de família e outras fontes históricas, notamos que nesse período o conceito de infância, tal qual o temos atualmente, não existia. Era comum crianças usarem roupas de adultos, trabalharem e participarem do lazer como os mesmos e dormirem todos juntos com os pais, pois o conceito de privacidade e individualidade também é recente. A Idade Média era uma sociedade feudal. Nos feudos, o senhor das terras tinha poder quase que ilimitado sobre seus servos. Cada feudo tinha regras e leis próprias. A Igreja Católica dominava a intelectualidade e a cultura e corroborava o feudalismo. As famílias tinham muitos filhos e ansiavam para que estes crescessem depressa para poderem realizar mais tarefas, porém, devido à falta de cuidados, de atenção e às péssimas condições de higiene da época, muitas crianças morriam ainda bebês (AMADO, 2007). As crianças servas que chegavam aos sete anos, eram colocadas em outra família para aprender ofícios. Assim, a criança perdia muito cedo o contato com os pais e irmãos, e os laços familiares não se fortaleciam. Na verdade, o próprio conceito de família que temos hoje em nossa sociedade não era válido naquele tempo. Não havia também a escola como a temos atualmente, para todos e laica. Os poucos colégios eram católicos, destinados a formar religiosos, de preferência padres. 4 Mesmo sem uma educação formal para crianças servas, sem escolas populares e laicas, alguns educadores acabaram se destacando com teorias muito à frente do seu tempo. Um destes foi o escritor que é considerado o pai da didática moderna: João Amós Comênio (1592-1657). Comênio era um educador e bispo da igreja protestante. Ele afirmava que a criança precisava ter respeitados seus estágios de desenvolvimento, que eram seres diferentes dos adultos e que a educação deveria ser fundamentada no diálogo. Comênio também defendia pedagogias ativas, baseadas na experimentação e um ambiente adaptado à educação infantil. A base da didática de Comênio era o contato com o mundo através de experiências sensoriais e cognitivas (AMADO, 2007). Apesar desse importante teórico, a educação na Idade Média não sofreu grandes transformações, pois não havia muita comunicação entre os feudos e o resto do mundo. Essa situação só começa a mudar com as grandes navegações, por volta do século XV, que fizeram ressurgir o comércio e as cidades. Com o enfraquecimento do modelo feudal e o crescimento do mercantilismo, a burguesia ganha influência e o comércio se torna o principal objetivo econômico da Europa Ocidental. Temos o fortalecimento do trabalho assalariado, da moeda e do estilo de vida urbano. Com isso, as escolas e as universidades se tornam mais populares, que ajudam a desenvolver estudos científicos e promovem debates filosóficos fora do teocentrismo. Algumas concepções de infância começam a se difundir, como as que afirmam ser a mesma um ser frágil, incapaz, inocente, o que gera uma atitude exageradamente paternalista por parte dos adultos. Assim, se forma a família burguesa. Nesse período, podemos destacar alguns autores importantes que ajudam a formar o conceito de infância que temos atualmente: Jean Jacques Rousseau: O filósofo francês baseava seus conceitos em uma educação natural, na qual o homem se desenvolveria, em todo o seu potencial, em contato com natureza, que ajudaria a ativar toda a sua completude; Johann Henrich Pestalozzi: se inspirava em Rousseau ao acreditar que a bondade humana era inata e que o meio corrompia o homem, defendeu uma educação popular, que ajudaria a reduzir as desigualdadessociais. Religioso protestante, pregava a caridade e ajudou a criar creches para filhos de operários; Friedrich Froebel: foi o primeiro educador a salientar a importância do brincar e das atividades lúdicas infantis. Sua teoria educacional envolvia a educação familiar e atividades que estimulassem tanto a parte física e motora, como a imaginação infantil, usando o jogo simbólico e a literatura para trabalhar com crianças menores (AMADO, 2007). 5 Essas novas teorias e conceitos sobre a infância se fortaleceram muito durante o Iluminismo, período filosófico que defendia ideais de igualdade, de democracia e de progresso, representando a fortalecida burguesia. Como essas mudanças, muitas monarquias se enfraqueceram, levando a nobreza de alguns países ao colapso, como foi o caso da França. A revolução francesa depôs a monarquia e estabeleceu um governo burguês. Com o crescimento do comércio e dos centros urbanos, aparece a necessidade de produtos e serviços para atender a população e assim temos a primeira Revolução Industrial. Muitas famílias migram para as cidades para trabalharem na indústria e surge a necessidade de se construir locais para que os filhos dos trabalhadores fossem cuidados e educados. Temos assim, o rudimentar surgimento da Educação Infantil, com creches e escolar populares. A educação para crianças na época era do tipo compensatória, que visava suprir as carências emocionais e materiais das famílias no cuidado infantil. Esse cenário só começou a mudar após a Segunda Guerra Mundial com os trabalhos da Unicef, novas teorias educacionais e constituições que pregavam uma educação mais científica e focada nas necessidades da criança. • O Nascimento da Creche no Brasil A história da creche no Brasil nos mostra que desde as primeiras instituições destinadas às crianças de 0 a 6 anos, o objetivo era o cuidado e a proteção, oferecendo alimentação, higiene e segurança enquanto pais e mães trabalhavam. Hoje, porém, os pais estão cada vez mais conscientes da função formadora da educação infantil e as creches, cada vez mais populares, se preocupam também com o desenvolvimento integral da criança. As primeiras creches atendiam mães que trabalhavam principalmente em serviços domésticos e se destinavam à alimentação, higiene e proteção física. Em 1919, o governo brasileiro criou o Departamento da Criança, que acabou se tornando uma obra assistencialista mantida pela iniciativa privada. Esse departamento tinha como objetivo diminuir a mortalidade infantil, protegendo a gestante e a saúde das crianças pequenas (BELLO, 2001). Podemos dizer que somente na década de 1930, principalmente com o governo de Getúlio Vargas, tivemos a organização de um sistema educacional público, gratuito e popular. Em 1930, esse presidente criou o MEC – Ministério da Educação, para criar, expandir e gerir escolas públicas e educação superior em todo o Brasil. O país vivia uma industrialização e urbanização tardia em relação à Europa, muitas mães tinham necessidade de um ambiente seguro para deixar seus filhos, enquanto trabalhavam (BELLO, 2001). Apesar do movimento pela Escola Nova, que defendia uma educação pública, gratuita e laica para crianças de todas as idades e de todas as classes, que se fortaleceu na década de 1930, a creche e a pré-escola não tiveram grandes atualizações. As mudanças de fato, só começam a ocorrer com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, que traça novos ideais de educação. 6 O novo paradigma educacional no Brasil promove a formação e atualização de professores, a inclusão escolar, e, no caso de crianças pequenas, um ambiente próprio para o desenvolvimento infantil. O ensino começa a ser descentralizado, ficando a educação infantil como responsabilidade do município da criança. Assim, vai se construindo a educação infantil tal qual a temos atualmente: oferecida desde o nascimento, dividida entre creche e pré-escola, gratuita, pública e obrigatória a partir dos 4 anos de idade. A creche então, faz parte da Educação Infantil e o currículo dessa etapa é apoiado em leis que objetivam uma formação integral da criança, abrangendo aspectos cognitivos, mentais, emocionais, físicos, neurológicos e sociais. Sem a escola, a criança não receberá estímulos suficientes, nem cognitivos, nem sociais, tão importantes para seu desenvolvimento, como veremos no capítulo sobre aprendizagem. A formação dos profissionais que trabalham com essa etapa da educação precisa ser adequada para ensinar, cuidar e mediar o conhecimento, proporcionando aos seus alunos atividades e estratégias didáticas eficientes e corretas para cada faixa etária. Assim, o auxiliar da creche precisará conhecer o desenvolvimento integral da criança e ser atuante nesse desenvolvimento. 7 CAPÍTULO 2 – A CRECHE NA ATUALIDADE Como descrevemos no capítulo anterior, as grandes mudanças na educação infantil, que resultaram nos paradigmas atuais e consequentemente, na creche tal qual a temos hoje, foram desencadeadas pela promulgação da LDB de 1996. Essa lei estimulou a reformulação, atualização e publicação de outros documentos importantes para o cenário atual. Em 1998, o Governo Federal publicou o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, seguindo as orientações da nova LDB. Era um momento de renovação na Educação Básica e a Educação Infantil passava a ser uma etapa da mesma. Os princípios trazidos pelo RCNEI são (BRASIL, 1998): Respeito à dignidade e aos direitos das crianças, considerando suas diferenças individuais, sociais, econômicas, culturais, étnicas, religiosas, etc.; O direito das crianças a brincar, como forma particular de expressão, pensamento, interação e comunicação infantil; O acesso das crianças aos bens socioculturais disponíveis, ampliando o desenvolvimento das capacidades relativas à expressão, à comunicação, à interação social, ao pensamento, à ética e à estética; A socialização das crianças por meio da participação e inserção nas mais diversificadas práticas sociais, sem discriminação de espécie alguma; O atendimento aos cuidados essenciais associados à sobrevivência e ao desenvolvimento de sua identidade. Em 2001, o Referencial foi reeditado, nele encontramos orientações mais detalhadas de como planejar as estratégias pedagógicas adequadas para que a criança brinque, aproveite sua infância e ao mesmo tempo se desenvolva integralmente, aprenda e expanda seu universo. • Diretrizes Curriculares da Educação Infantil (DCEI) As Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica trazem em seu conteúdo o currículo adequado para cada etapa desse nível, incluindo a educação infantil. Como sabemos, a educação infantil atualmente é dividida em creche e pré-escola, atende crianças de 0 a 5 anos, sendo obrigatória a matrícula de crianças a partir dos 4 anos de idade. Sendo assim, as diretrizes curriculares foram estruturadas pensando no desenvolvimento global da criança dessa faixa etária. Embora, como parte integrante da educação básica, seja necessário a essa etapa o desenvolvimento acadêmico da criança, a educação infantil tem diretrizes que a tornam mais flexível e diversificada no currículo, criando um ambiente acolhedor e educativo, e atraindo cada vez mais o público infantil. 8 Como função sociopolítica e também pedagógica, as escolas de educação infantil devem cumprir o seguinte (BRASIL, 2010): Oferecer recursos para as crianças usufruírem seus direitos; Complementar a educação da criança junto à família; Promover a socialização e a sociabilidade infantil ampliando os saberes e conhecimentos da criança; Promover igualdade de oportunidades a todas as crianças garantindo acesso aos bens culturais e intelectuais da nossa sociedade, sem discriminação; Propiciar desenvolvimento adequado de modo a garantir continuidade nos estudos. Paraque esses princípios sejam cumpridos, a escola deve valorizar a criança, seu ritmo de aprendizagem, sua cultura e suas produções dentro do ambiente escolar. Deve-se buscar o desenvolvimento da autonomia, respeitar as preferências infantis para brincadeiras e manifestações artísticas, pelas escolhas pessoais da criança (OLIVEIRA, 2010). O ambiente escolar deve ser saudável, não só na parte material e física, mas na parte social, as crianças devem ser incentivadas a trabalhar as relações pessoais, desenvolvendo a solidariedade, o respeito à diversidade, a outros grupos culturais e étnicos. Desde muito cedo é preciso entender o significado de liberdade, de igualdade e de equidade (OLIVEIRA, 2010). Através desses princípios percebemos um discurso afiado entre o RCNEI e as diretrizes curriculares nacionais para a Educação Infantil (DCNEI). Ambos irão salientar a importância de se preservar a infância, resguardando os direitos da criança, oferecendo oportunidades de acesso ao conhecimento e à cultura, e proporcionando atividades que eduquem e divirtam. • Base Nacional Comum Curricular (BNCC): Educação Infantil Sendo a educação infantil a primeira etapa da educação básica, é nela que começam a se cumprir os objetivos da educação nacional. A nova BNCC vai orientar então, a construção de um currículo que atente para esse primeiro contato da criança com escola e também para uma proposta de parceria com os pais para que não haja uma ruptura na educação da criança. Por isso, a escola de educação infantil vai educar e cuidar. Além da família, a escola deve manter um vínculo com a comunidade e com a sociedade. Toda a formação da criança vai abranger aspectos sociais e culturais, por isso, o contexto será sempre valorizado. A própria concepção de criança da nova BNCC envolve um sujeito histórico e social. 9 O educador tem a responsabilidade de observar e orientar as crianças nesse processo, selecionando as experiências, as atividades, as brincadeiras, auxiliando nos cuidados no aprendizado da autonomia, refletindo sobre o desenvolvimento de cada aluno e traçando uma avaliação formativa e individual. Portanto, a avaliação de uma criança de educação infantil não pode ser padronizada, engessada. O currículo vai favorecer essa flexibilidade à escola, pois é dividido não em matérias, disciplinas, mas campos de experiências, nos quais a escola vai inserir a criança e lhe fornecer o que for adequado a cada campo. Esses campos são os seguintes (BNCC, 2017, p. 41): O eu, o outro e o nós: esse campo de aprendizagem é focado nas interações da criança com outras da mesma idade e no próprio reconhecimento e construção do eu. Em conjunto com a família e a comunidade, a escola vai propiciar à criança experiências com seu contexto histórico, cultural e social. Também nesse campo, a criança vai aprender a ser mais independente e autônoma, iniciando a formação de sua personalidade e individualidade; Corpo, gestos e movimentos: esse campo vai desenvolver a parte física, motora e consequentemente a cognitiva e neurológica. O ambiente escolar vai ser adaptado para fornecer experiências e atividades que envolvam a exploração do mundo material, sensorial, espacial. A criança vai descobrir seus próprios gestos e movimentos, assim como de seus pares, correndo, pulando, saltando, dançando, cantando, etc.; Traços, sons, cores e formas: o professor pode usar esse campo para expor para a criança a diversidade de manifestações artísticas e culturais. Os cinco sentidos são usados para conhecer a parte estética do mundo exterior e a interpretar toda a diversidade de cores e formas do ambiente e das produções humanas. A criança vê a arte e aprende a produzir arte; Escuta, fala, pensamento e imaginação: a criança vai desenvolver a comunicação, conhecendo as múltiplas linguagens e desenvolvendo a inteligência linguística. Nesse campo, temos o contato com a escrita, com a literatura. Veremos em um capítulo próximo como esse campo de experiência funciona na educação infantil; Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações: a criança vai explorar atividades que envolvam as primeiras noções de tempo e espaço, as primeiras operações lógicas e os fenômenos físicos. Vai começar a entender o mundo material em que vive. Todos esses campos de experiências explorados na educação infantil objetivam desenvolver na criança as mais variadas habilidades e as competências necessárias não só para prosseguir em seus estudos, no futuro, mas também para prepará-las para o ambiente físico e social no qual viverão. 10 CAPÍTULO 3 – AS ROTINAS NA CRECHE O currículo da Educação Infantil tem como objetivo articular experiências e saberes da criança com a bagagem intelectual e cultural da humanidade. Sendo assim, o currículo da educação infantil não é engessado e fixo, vai acompanhar o crescimento, o desenvolvimento, o ritmo e a individualidade infantil. Assim, as escolas e as creches dessa etapa recheiam seu cotidiano com atividades práticas, lúdicas, didáticas, culturais, esportivas, dentre outras, objetivando a construção de vivências significativas para as crianças. A estrutura física da escola, o material didático, o ambiente, as tecnologias, as atividades, tudo vai girar em torno dessas experiências. Os princípios norteadores do currículo da escola de educação infantil são (OLIVEIRA, 2010): Princípios éticos: valorização das relações humanas, da autonomia moral, do respeito ao outro e ao planeta em que vivemos; Princípios políticos: garantia e respeito a todos os direitos da criança, à democracia e coletividade; Princípios estéticos: valorização das artes, da sensibilidade, da ludicidade, da cultura e da criatividade. O currículo então, segundo terceiro volume do RCNEI, se desenvolve em seis eixos de trabalho. São eles (BRASIL, 1998): Movimento: já colocamos aqui a importância do desenvolvimento psicomotor, de a criança exercitar a parte motora, conhecer o corpo e seus movimentos. Esse eixo de trabalho vai orientar os professores a desenvolver atividades que contemplem esse aspecto; Música: desde antes do nascimento os sons devem fazer parte do universo infantil. Por isso, a escola vai apresentar uma variedade de sons, de notas musicais, de instrumentos. A criança vai entrar em contato com os mais diversos ritmos, canções, letras e expressões musicais, relacionando-os com seus sentimentos, seus movimentos, seus pensamentos e sua individualidade; Linguagem Oral e Escrita: a principal função desse eixo de trabalho é a comunicação. Através da linguagem e suas múltiplas manifestações, a criança vai usar a comunicação para se socializar e ter acesso aos bens culturais e acadêmicos de sua sociedade. Para isso, o professor vai usar todos os recursos escritos e orais disponíveis para que a criança se familiarize com as palavras, despertando assim, o interesse pela leitura e a escrita; Artes Visuais: são manifestações que envolvem os sentidos das crianças, mexendo com seus sentimentos, pensamentos e apontando as 11 formas da realidade que a cerca. Nesse eixo devem ser trabalhados todos os espaços, luz, pintura, desenho, escultura, modelagem, volumes, etc.; Natureza e Sociedade: esse eixo orienta para o desenvolvimento de atividades que conscientizem as crianças sobre a importância dos cuidados com o meio ambiente, que lhe ofereçam conhecimento sobre a natureza e sobre a sociedade em que vivem, ensinando modos de se relacionar com as pessoas, com a fauna e a flora; Matemática: a criança deve, desde cedo, ter contato com as noções de número, de lógica, de tempo, de espaço, de lateralidade, entre outras questões relacionadas aos problemas do cotidiano, que envolvam essas noções. Através desses seis eixos, a escola vai planejar seu currículo e suas atividades pedagógicas para as crianças de dois grupos: de 0 a 3 anos (creche, berçário ou maternal) e de 4 e5 anos (pré-escola). O auxiliar de creche, que irá trabalhar diretamente com as crianças, tem algumas responsabilidades específicas em sua rotina, tais como (SALGE et al, 2011): Orientar a crianças em suas necessidades pessoais, como higiene e postura; Estar em diálogo constante com os outros profissionais da escola para sempre resolver os problemas de modo rápido e eficiente; Planejar as atividades pedagógicas adequadas; Trazer situações que envolvam reflexão e participação das crianças; Seguir as orientações curriculares; Manter a organização e a disciplina durante as atividades; Estar em formação e atualização constantes. Planejar e organizar a rotina da educação infantil é uma tarefa prazerosa, mas que envolve bastante responsabilidade. Quando se trata de crianças, rotina, disciplina e organização são parceiras constantes. Uma criança precisa desses 3 aspectos para construir sua personalidade, desenvolver a base cognitiva, física e emocional, aliás, todos precisamos disso. Sendo assim, a rotina de atividades deve ser cuidadosamente planejada. Com horários e datas preestabelecidos, mas que podem ser alterados facilmente, pois quando se trata de crianças, nada pode ser engessado, a rotina deve ser flexível. Toda a organização deve levar em conta, em primeiro lugar a criança e as necessidades da idade, e em segundo, o espaço e material disponíveis. Tendo isso em mente, as atividades devem ser as mais diversificadas e variadas, para 12 estimular ao máximo o desenvolvimento da criança. Não podem faltar atividades ao ar-livre, música, dança, teatro, artes, esportes (próprios para a idade), jogos de exercitação, atividades lúdicas e muitas brincadeiras. Os seis eixos de trabalhos citados pelos RCNEI devem permear toda a rotina. Vejamos um exemplo de plano de atividades: ROTINA DA EDUCAÇÃO INFANTIL – SEGUNDA, 18 de abril de 2022 ATIVIDADE ESPAÇO DURAÇÃO Organizar a sala de aula: tema do dia Sala de aula 30 minutos Recepção das crianças: música e dança Sala de aula 15 minutos Leitura de poema e conversa sobre o mesmo Cantinho da leitura dentro da sala 30 minutos Desenho sobre o poema Mesinhas na sala de aula 30 minutos Colar desenhos no mural Sala de aula 30 minutos Intervalo 1 Brincadeiras ao ar livre no parquinho Parquinho da escola 30 minutos Atividade com blocos lógicos Sala de aula 30 minutos Momento de relaxar: cantiga Sala de aula 10 minutos Intervalo 2 Leiturinha: folhear livros Brinquedoteca 15 minutos Montando uma historinha sobre livro escolhido Pátio ou brinquedoteca 30 minutos Escolhendo bonecos ou fantoches Brinquedoteca 15 minutos Apresentação do teatrinho Brinquedoteca 30 minutos Cantigas Sala de aula 10 minutos Almoço Soneca e higiene pessoal Sala da soneca e banheiros 50 minutos Hora do meio ambiente: cuidar da horta Área verde 45 minutos Intervalo Esportes e brincadeiras em grupos Quadra 50 minutos Hora da limpeza e higiene Sala de aula 30 minutos Encerramento do dia com música e dança Sala de aula 15 minutos 13 CAPÍTULO 4 – SUGESTÕES DE ATIVIDADES PARA AS ROTINAS NA CRECHE A creche tem a função de cuidar e educar as crianças, mas não pode esquecer a importância da diversão, do entretenimento e do brincar no desenvolvimento delas. Neste capítulo, iremos descrever tipos de atividades que podem ser desenvolvidas com crianças de 0 a 3 anos, que é o público-alvo da creche. Antes disso, porém, é interessante explicarmos as características cognitivas e emocionais dessa faixa etária. Quando pensamos no desenvolvimento da criança, precisamos entendê-lo de forma integral, com aspectos físico-neurológicos, cognitivos, sociais e afetivos. Na parte neurológica, segundo a revista Nova Pediatria (2017), o desenvolvimento da criança é contínuo e se inicia antes do nascimento. Quando nasce, a criança tem pouco contato com o meio, a visão é limitada e as ações são, em sua maioria, reflexas. Até os 3 meses de vida ela começa a fixar o olhar, busca por cores e sons. Entre 3 e 6 meses melhora a visão, a audição, o tato, inicia contatos sociais como buscar as pessoas e esboçar sorrisos. Entre 6 e 9 meses o bebê já tem uma interação maior com o meio, com as pessoas e os objetos, é curioso e exercita atividades motoras. Manifesta uma diversidade maior de emoções e reconhece sons, objetos e pessoas. Ao completar 1 ano, a criança começará a se apoiar e andar. Também começa a desenvolver a linguagem. Entre 1 ano, e 1 ano e meio, a criança fará grande avanço neurológico. Explora o ambiente, interage com ele, começa a exercitar a linguagem. Após os três anos, a criança tem maior autonomia motora, se veste sozinha, se limpa, se alimenta. Também aprende regras com mais facilidade. Para entender o que é necessário para a criança se desenvolver, neurológica e cognitivamente, vamos conhecer a teoria de desenvolvimento cognitivo do biólogo suíço Jean Piaget. Ele dividiu esse desenvolvimento em quatro fases das quais apresentamos as duas primeiras (PIAGET, 1964): Período Sensório-Motor (0-2 anos): fase de exercício dos reflexos, das atividades sensoriais, primeiros contatos com o meio, seus indivíduos e seus objetos. A criança desenvolve a linguagem, é egocêntrica, ou seja, centrada no próprio “eu”; Período Pré-Operacional (2-6 anos): a criança inicia o processo de socialização, procura os pares para poder interagir e se comunicar. No jogo, a criança dessa idade faz as próprias regras e exercita o lúdico, o faz-de-conta. É muito curiosa e quer explicações para tudo. Além das fases de desenvolvimento cognitivo, Piaget nomeou as fases de desenvolvimento moral, nas quais a criança se relaciona com o conceito de regras e respeito pelo cumprimento das mesmas, vejamos (PIAGET, 1994). 14 • Anomia: ocorre até os 2 anos de idade e a criança não consegue entender ainda o conceito de regra; • Heteronomia: a criança começa a entender verbalizações de regras, mas não compreende o sentido delas, então, ela obedece às mesmas por medo de sanções ou por respeito/medo dos pais ou outra pessoa que considere uma autoridade, é uma fase de imitação de comportamentos. Além dessas duas, temos a autonomia, que é alcançada, teoricamente, por volta dos 12 anos. Relacionado ao aspecto social, temos o afetivo, no qual se destaca a teoria de Henri Wallon. Para Wallon, os aspectos cognitivo, motor e emocional são igualmente importantes no desenvolvimento humanos e somente esses aspectos em equilíbrio resultam em aprendizado real. A teoria de Wallon divide o desenvolvimento humano em cinco etapas, das quais citamos as primeiras (Galvão, 1995): Impulsiva-emocional: surge no primeiro ano de vida da criança e é caracterizada pelas interações afetivas; Sensória-motora e projetiva: vai até os 3 anos, é caracterizada pela exploração dos espaços e dos objetos. Também surge o jogo simbólico e a linguagem. Um dos fatores mais importantes do desenvolvimento infantil é o psicomotor. A psicomotricidade envolve aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas, sustentadas pelo movimento, intelecto e afeto, assim, a criança precisa ter estímulos nesses três aspectos para se desenvolver de forma saudável. As atividades escolares que envolvem a psicomotricidade vão proporcionar à criança a expansão dos movimentos espontâneos, a construção da personalidade e uma noção realista do próprio corpo (VELASCO, 2020). Muitos problemas comportamentais, que surgem na primeira infância, podem ser contornados e sanados com o auxílio dos movimentos psicomotores dirigidos pelos professores. Crianças com instabilidade emocional, baixa autoestima, problemas de comunicação oral, introspecção excessiva e isolamento social, encontram no movimento corporal uma nova forma de ver e de interagir com o mundo, podendo acessar suas inseguranças e trabalhar nelas (VELASCO, 2020). A escola também deve ter ambiente estruturadopara a criança se movimentar de forma segura. Toda a área destinada à educação infantil deve ser um espaço lúdico, colorido, cheio de formas, de materiais educativos e que estimulem a curiosidade infantil. Deve haver uma área externa, que além de segura, deve oferecer objetos e brinquedos para as crianças explorarem, aprenderem e se divertirem (VELASCO, 2020). Aqui, cabe uma pausa para algumas definições de jogo. Segundo Dinello (2007), a criança participa de três tipos de jogos: os de exercitação, o simbólico e o de regras. Os jogos de exercitação envolvem repetição e hábito, e são comuns 15 desde os primeiros meses de vida, quando a criança costuma repetir gestos e movimentos. O jogo simbólico vem em seguida, é a brincadeira de faz-de-conta e exercita a imaginação. O jogo de regras acontece quando a criança já consegue entender essas regras e já tem maturação cognitiva e/ou motora para praticá-lo. Por exemplo: damas, jogos de tabuleiro, esportes individuais ou coletivos, bolinhas de gude, esconde-esconde, etc. Compreender as regras e interagir com os outros participantes é fundamental para se praticar o jogo de regras, por isso, as crianças muito pequenas têm dificuldades em participar e geralmente são chamadas pelos colegas maiores de “café-com-leite”, ou seja, apenas participam, sem competir. Existem muitas brincadeiras e atividades lúdicas que o auxiliar na creche de educação infantil pode fazer com suas crianças. De acordo com o site Brasil Escola (2020), existem brincadeiras que além de exercitar o lúdico, irão desenvolver também a parte psicomotora, atingindo assim, mais objetivos de aprendizagem, vejamos algumas: Brincando com as texturas: o professor vai selecionar diferentes materiais como veludo, gel, algodão, lixa, cortiça, etc. Esses materiais devem ter texturas e tamanhos diferentes. O professor coloca uma venda na criança e pede para ela tocar o material e descrever; Gato mia: as outras crianças irão se esconder e uma delas sai para procurá-las. A criança que procura pode dizer por três vezes: gato mia! As crianças escondidas, então, têm que miar; Caminho colorido: o professor espalha papel pardo no chão e distribui tintas para as crianças passarem nos pés, assim, elas irão andar no papel traçando um caminho. O professor pode propor desafios para as crianças treinarem sua coordenação motora; Toca do coelho: o professor espalha bambolês no pátio e coloca as crianças em cada um, uma fica deve ficar fora. Ao sinal do professor, todas saem do seu bambolê e procuram outro, sempre uma sobrará. Outros jogos interessantes com as crianças envolvem as histórias infantis. Ao contar uma história, o professor pode usar fantoches, dedoches, bonecos e as próprias crianças podem participar se vestindo de personagens. O professor pode investir no cenário e no ambiente, transportando a criança para dentro da narrativa, produzindo sons, cheiros e interpretando os contos. A criança também pode criar sua própria história, isso daria a chance de montarem seus personagens fazendo roupas, acessórios, maquiagem, penteados, treinando assim várias habilidades. Para que a criança desenvolva a imaginação e também o movimento psicomotor, a escola deve oferecer brinquedos adequados a cada faixa etária, seguros e criativos. Abaixo, listamos alguns brinquedos interessantes para crianças de 0 a 6 anos que as escolas podem oferecer e que são seguros para cada idade: 16 Para bebês: brinquedos que trabalhem os cinco sentidos, com muita cor, sons variados, tamanhos diferentes. Destacam-se os brinquedos de encaixe e que reproduzem sons do ambiente, chocalhos, móbiles. Sempre em tamanho grande, com peças maiores, para o bebê não engolir; Crianças entre 1 e 3 anos: pode-se inserir livros em alto relevo, figuras, imagens, bonecos e bonecas grandes, ursos e outras pelúcias (antialérgicos); veículos de transportes (os de brincar e os de andar, como trenzinhos e triciclos); brinquedos ao ar livre como bolas, caixas de areia, balanços pequenos; brinquedos de montar com blocos maiores, quebra- cabeças de peças maiores; instrumentos musicais adaptados para a idade, entre outros. Lembremos que os brinquedos vêm com classificação indicativa, então é importante atentar a ela; Crianças entre 3 e 4 anos: brinquedos que estimulem a imaginação, o lúdico, fantasias, acessórios de super-heróis e personagens infantis; brinquedos que simulem situações do cotidiano como mercado, banco, a própria escola, trânsito, cozinhas, postos de gasolina, casinhas, etc.; também pode-se usar jogos de memória, de cálculos simples, de formar palavras, entre outros que sejam didáticos e divertidos. Portanto, enquanto a psicomotricidade vai ajudar a criança a atingir a maturação física, motora e cognitiva com seus exercícios e práticas, a atividade lúdica vai ajudar a criança a desenvolver o aspecto intelectual, o social e afetivo, e as duas unidas farão ainda mais pelo desenvolvimento infantil. Por esse motivo, o ato de brincar é uma prioridade na infância, principalmente na educação infantil. 17 CAPÍTULO 5 – A ADAPTAÇÃO DO BERÇÁRIO À CRECHE O ensino de crianças no Brasil é composto primeiramente pelo Maternal, que vai de 0 a 3 anos, sendo que o Berçário vai de 0 a 1 ano e os maternais 1, 2 e 3 um para cada ano de vida. Em seguida, temos a Educação Infantil de 4 e 5 anos, sendo obrigatória a matrícula da criança. O período que a criança permanece no berçário pode variar de escola para escola, mas geralmente, após 12 meses completos ela costuma ir para o maternal ou creche. Antigamente, somente o maternal era composto por atividades educativas, mas pelas leis atuais a creche também precisa promover desenvolvimento integral da criança. Preparar o bebê para a creche é algo que preocupa tanto os pais, como os educadores e cuidadores. Qualquer mudança de ambiente para crianças muito pequenas requer uma série de cuidados e preparos, sendo assim, deixar o berçário também necessita de atenção. É isso que descreveremos a seguir. • A Transição para a Creche Em primeiro lugar, o preparo deve começar com antecedência e exige paciência e planejamento. Esse momento requer adaptações e habilidades para contornar eventuais imprevistos e fazer ajustes necessários. O bebê que já ficava em um berçário pode estar mais acostumado a pessoas e ambientes diferentes, mas isso não significa que não precise ser preparado previamente. As mudanças na rotina devem ser vivenciadas e experimentadas antecipadamente, para que a criança se sinta segura na transição. A família deve ter participação ativa nesse processo, sendo informada e treinada também com antecedência. Nas primeiras semanas de adaptação na creche, é comum que a criança esteja mais sensível. Acalentar, conversar pacientemente, acolher e explicar o que está acontecendo é essencial nesse momento, mesmo a criança não dominando a linguagem verbal totalmente. Os pais precisam iniciar o processo de integração em casa. Conversando com a criança, explicando que a creche é um ambiente seguro e divertido, mantendo uma postura calma e segura, para não causar ansiedade no bebê. A creche é uma oportunidade de conviver com os pares, o que é fundamental para o desenvolvimento social e cognitivo. A creche, por sua vez, precisa promover a socialização das famílias com o ambiente antes da rotina se iniciar. Nas primeiras semanas, uma pessoa do convívio da criança precisa estar presente todos os dias para ajudar na adaptação, se desvinculando aos poucos, cada dia ficando menos tempo, para a transição não ser brusca. O mesmo vale para crianças que passam do berçário para a creche e terão que conviver com profissionais diferentes, os antigos devem participar da adaptação. Acompanhar a criança de perto, alguns dias da semana, facilita a adaptação na creche Na despedida, os pais precisam adotar uma postura firme, mas compreensiva.Se houver choro, os pais devem ser orientados a ficar calmos, manterem uma expressão serena e conversarem com a criança, explicando que estão indo, mas voltam. Nos primeiros dias, provavelmente, será mais difícil, por isso a ruptura com a família ou o antigo ambiente não pode ser brusca, mas gradual. 18 Por isso, o ideal é haver um diálogo aberto entre a escola e a família, antes dessa passagem. A família precisa ser orientada a evitar atrasos e faltas nas primeiras semanas, para não prejudicar o processo de adaptação e causar ansiedade na criança. É preciso que os educadores informem detalhes sobre a rotina e o comportamento da criança na creche. Esse processo de adaptação é gradual e exige paciência. Se possível, a creche deve permitir que a criança leve brinquedos ou objetos de afeto. Se os pais tiverem muita dificuldade de controlar as emoções na hora da despedida, é bom aconselhá-los a deixar que um outro responsável leve o bebê para a creche, pelo menos nos primeiros dias. Embora a memória de longo prazo da criança ainda esteja em formação, experiências ruins na creche ou escolinha podem ser traumáticas e criar uma imagem ruim do processo educativo. • As Funções do Auxiliar de Creche na Transição Embora todos na creche devam participar da transição do berçário para a rotina regular, o auxiliar de creche tem tarefas e responsabilidades especiais nesse processo, pois é um profissional que está em contato com todos: família, criança, educadores e gestão escolar. Vejamos mais algumas dicas: Planejamento: a gestão escolar possivelmente preparará o ambiente e a equipe para a recepção dos novos bebês vindos do berçário e planejará um cronograma, onde cada um irá desempenhar tarefas de acolhimento. Nesse ponto, é importante que o auxiliar fique atento às essas orientações, tire as possíveis dúvidas, dê sugestões e se mostre disponível para o trabalho com as novas crianças; Preparo Profissional: caso seja ainda inexperiente nesse processo de transição das crianças do berçário para a creche, é importante que o auxiliar converse com funcionários mais antigos, se informando sobre detalhes do processo, sobre as crianças e sobre os procedimentos. Se possível, seria interessante se informar sobre os bebês com funcionários do berçário, para estar preparado para lidar com eles; Organizar o Ambiente: o auxiliar deve estar atento à higiene e segurança do ambiente que irá receber os bebês, monitorando também se está arejado, iluminado e com brinquedos adequados. Fazer uma decoração especial para receber as crianças também é interessante; Recepção da Família: se separar dos filhos é difícil, ainda mais quando são bebês, por isso, é preciso que mães, pais ou responsáveis que deixam as crianças na creche sejam recebidos com alegria, calma e com todas as informações sobre o funcionamento da creche. Se houver comoção, é preciso acalmar os familiares e explicar que o ambiente é seguro e divertido, e que haverá outros bebês, o que é bom para a criança; 19 Acolhimento dos bebês: as crianças podem chorar e se assustar muito nas primeiras semanas, então o auxiliar precisa estar sempre presente, oferecendo afeto e tudo mais que for necessário para acalmá-las; Acompanhamento: o auxiliar deve estar sempre monitorando os bebês para ver se a adaptação deles está indo bem. Qualquer sinal contrário deve ser informado à gestão ou direção, e também aos pais; Diálogo: todas as informações sobre o processo de adaptação dos bebês à creche que o auxiliar julgar importante devem ser passadas à equipe, para que não haja negligência de nenhuma parte; Paciência e Empatia: lembre-se que são bebezinhos, portanto, é muito importante ter empatia, ser paciente e ser afetuoso com eles. Com essas informações, a transição das crianças do berçário para a creche se dará de forma mais tranquila e segura, tanto para elas, como para a escola e a família. 20 CAPÍTULO 6 – SUGESTÕES DE ATIVIDADES PARA O BERÇÁRIO O berçário geralmente acolhe bebês de 0 a 12 meses, mas a idade pode variar de uma instituição para outra. Apesar disso, é um momento de extrema importância para os pequenos, pois ali eles desenvolverão seus aspectos emocionais, cognitivos e sociais na maior parte do tempo. Atualmente, os berçários e creches têm a função tanto de cuidar como de educar. Assim, esses locais prezam pelo desenvolvimento de forma integral, como: Formação da identidade de si mesmo Socialização com os pares Desenvolvimento da comunicação e expressão Desenvolvimento psicomotor Reconhecimento das emoções, pensamentos, sensações e sentimentos. A parte do dia que a criança passa no berçário precisa desenvolver todos esses aspectos, por isso, sua rotina precisa contar com atividades que envolvam a exploração do ambiente, de forma segura, e dos cinco sentidos da criança: olfato, paladar, audição, visão e tato. Durante o dia no local, os pequenos precisam ter suas primeiras experiências com texturas, cores, formas, sons, tamanhos, dentre inúmeros outros elementos da realidade. Assim, as atividades devem envolver: Adaptação ao ambiente e exploração do mesmo; Estímulo da curiosidade; Desenvolvimento dos 5 sentidos; Capacidade de lidar com os sentimentos e emoções. Nesse sentido, as brincadeiras precisam envolver brinquedos coloridos e que emitem sons, pois eles contribuem com o desenvolvimento das crianças. Além desses, há também os brinquedos de empilhar e encaixar, que são ótimos para desenvolver a coordenação e o raciocínio lógico dos bebês. Brinquedos devem ser seguros, com peças grandes, que não oferecem riscos à saúde. Veja algumas dicas de materiais para usar com as crianças: Objetos coloridos Aplicativos que produzem sons de animais e natureza Revistas para fazer colagens Luzes coloridas Tecidos com texturas diferentes O espaço físico do berçário deve ser primeiramente seguro. Não deve haver nenhum material ou objeto que ofereça risco à saúde da criança. Em segundo lugar, precisa ser confortável, arejado e limpo, para que a criança possa explorar o ambiente de forma salubre. Por fim e não menos importante, deve conter materiais e objetos educativos e divertidos, para estimular o desenvolvimento e a curiosidade. O local deve garantir o seu desenvolvimento cognitivo, social, afetivo e motor. Pensando assim, um berçário deve ter: Sala para dormir e repousar: confortável, segura, arejada, limpa e silenciosa; 21 Fraldário e sanitários: com local limpo para troca de fraldas, higienização, banho e cuidados em geral; Sala de brincar: com os brinquedos e atividades de lazer. Pode haver uma brinquedoteca também, mas depende da condição financeira da creche; Local externo: um espaço ao ar livre para as crianças é fundamental, com jardim e hortas, parquinho, gramado. Esse ambiente não precisa ser grande, mas precisa oferecer essas oportunidades de interação com a natureza. Muitas vezes o espaço precisa de recursos para oferecer o máximo para seus bebês, mas nem sempre isso é necessário. Pequenos espaços, com criatividade e colaboração de todos podem se tornar divertidos e eficientes para o desenvolvimento da criança. Atividades com os Bebês Ao pensarmos nas atividades que podemos oferecer para crianças do berçário, precisamos entender que elas precisam ser seguras, educativas e que estimulem o desenvolvimento e a diversão. A seguir, apresentamos algumas dicas: • Esconde – Esconde do cobertor Bebês adoram a brincadeira de esconder. Você pode usar um cobertor, edredom ou qualquer outro tecido para tampar seu rosto e em seguida mostrar à criança. • Caretas Bebês adoram observar rostos e expressões, pois ainda não desenvolveram a comunicação verbal. Por isso, faça caras e bocas para eles enquanto emita sons engraçados. Mesmo que eles não demonstrem grandes reações, como darrisadas, ficará entretido observando. • Rodar, pular e dançar Segurando o bebê no colo, você pode rodar, dançar, pular e balançar. Associe essa experiência à música, cantando ou ouvindo canções divertidas. Não se esqueça de segurar sempre os bebês na postura correta. • Brincadeira com os dedoches Outra atividade que as crianças de uma forma geral amam é com dedoches. Esses dedoches são encaixados nos dedos das mãos e podem ser feitos em casa, com retalhos, cartolina, luvas, etc. Observe a imagem abaixo, do blog Moda Infantil: 22 • Pisca-pisca e Mímica Piscar os olhos e fazer gestos de mímica para os bebês estimula o aspecto cognitivo e a curiosidade, fazendo com que ele também tente imitar o adulto e promovendo a interação. • Teatro de fantoches Use fantoches, bonecos ou até os dedoches para criar histórias para os bebês. Os brinquedos também podem virar personagens. • Encontre o brinquedo Essa é uma brincadeira que estimula o aspecto psicomotor, exercitando os músculos, incentivando o bebê a engatinhar e usar as mãos. Além de ser divertida, também promove a interação com os outros bebês e desenvolve a concentração. Esconda um brinquedo (na frente deles) e deixe a criança procurar. • Circuito Coloque almofadas e travesseiros em cima de um edredom, assim como os objetos preferidos dos bebês. O objetivo é estimulá-los a pegar esses objetos passando por desafios, como desviar de almofadas. Deixe que os bebês se movimentem livremente, sem controlar muito, para que usem todos os grupos musculares. • Bolhas de sabão Essa atividade é bem prática e fácil, mas precisa de cuidados. Selecione sabão neutro, produza as bolas de sabão longe dos bebês, principalmente dos olhos. Se eles quiserem tocar as bolhas, segure-os no colo para apenas as mãozinhas terem contato com o sabão. • Cantigas e Músicas A música e os sons são importantes para o desenvolvimento do bebê, portanto, coloque sempre alguma canção de ninar, músicas próprias para a idade, mostre vídeos divertidos, como os do canal Quintal da Cultura, que tem conteúdo adequado para crianças pequenas. Se você tiver habilidade para cantar ou tocar 23 algum instrumento, apresente-se para as crianças, mas lembre-se de duas coisas: o som não pode ser alto e o conteúdo deve ser apropriado para crianças. • Pintar e Desenhar Deixar que os bebês já entrem em contato com tinta, pincéis, canetinhas, giz de cera e outros materiais de desenho é importante para desenvolver o movimento de pinça com os dedos (veja a imagem abaixo) e assim estimular a coordenação motora fina; Aproveitando as tintas, que obviamente devem ser apropriadas (não-tóxicas, antialérgicas), os bebês podem brincar com os pés e mãos, marcando papel pardo, tecidos, cartolinas, etc. • Natureza Ao ar livre, mostre aos bebês as cores, as formas e os cheiros dos jardins, das plantas. Mostre os pássaros e imite os sons para eles. Uma atividade divertida é imitar os sons dos bichos, mostrando imagens, bonecos ou pelúcias, associando o som ao animal que o produz. Deixe os bebês tocarem os bichinhos e bonecos, para sentirem as texturas. 24 CAPÍTULO 7 – O QUE FAZER NA HORA DO CHORO A creche ou a escolinha são locais onde a criança passa boa parte de seu tempo. Por isso, o choro aparece em diversas situações: na fase de adaptação, na chegada, na saída, em situações de conflito, etc. Crianças de 0 a 6 anos costumam chorar por diversos motivos e neste capítulo, iremos descrever as principais causas do choro infantil e como agir em relação a essas causas. Na rotina de quem cuida ou auxilia, o choro imediato, muitas vezes acontece quando os pais deixam a criança. Essa ansiedade pela separação ocorre com todos por quem a criança tem afeto e até com objetos. Por isso, os momentos de chegada são, na maioria das creches, os mais estressantes. A saída também acaba tendo choro, porque a criança vê o familiar e se emociona, mas é um momento mais tranquilo. Ao longo da rotina cotidiana, no entanto, alguns choros se tornam comuns, como os de birra, tristeza, raiva, fome, sono, enfim, veremos todos esses tipos. Primeiramente, precisamos compreender que quanto menor a criança, menor sua comunicação verbal e por isso, o choro é a principal forma de mostrar dor, desconforto e descontentamento. É um comportamento inato no ser humano, o que significa que já nascemos com a capacidade de chorar. Portanto, é um comportamento natural que se manifesta muito facilmente nos primeiros anos de vida. Aliás, é nossa primeira reação ao nascer. Para quem convive com a criança o choro pode ser desesperador. Quando se conhece bem a criança podemos até identificar o motivo do choro, mas isso não é uma ciência exata e na maioria das vezes o cuidador ou educador fica sem reação, sem saber como intervir na situação. A primeira dica é o acolhimento. Nunca se deixar levar pela raiva e a frustração. É preciso estar aberto a essas emoções da criança e dar o máximo de carinho e atenção que conseguir. Em caso de birra, a atitude é diferente, mas falaremos disso mais à frente. Todos que trabalham com o público infantil precisam estabelecer um vínculo afetivo com as crianças, principalmente as menores. Assim, o acolhimento se torna mais importante nos primeiros momentos do auxiliar com a criança, quando ainda não há um vínculo de confiança estabelecido. Crianças pequenas leem a expressão facial e os movimentos do corpo mais do que prestam atenção em palavras. Isso porque o vocabulário delas e a comunicação oral ainda são muitos reduzidos, portanto, mantenha sempre uma expressão serena e gestos moderados. Nos primeiros dias de trabalho com a criança, pode haver muito choro acompanhado de perguntas. É importante sempre mostrar para a criança que ela não foi abandonada e que os pais irão voltar. Nesse momento use o máximo de distrações que conseguir: histórias, desenhos animados, música, brincadeiras, teatrinho de fantoches, bonecos ou dedoches, etc. Pode acostumar no colo os bebês menores e mais assustados, para não causar traumas, mas aos poucos vá dando espaço e autonomia a eles. Carinho e afeto não estragam 25 ninguém, o oposto sim. Ninguém vai pedir colo para sempre, porque vai chegar uma idade na qual a própria criança fica mais independente, é algo natural. Até os 3 anos, a criança costuma chorar sempre que não entende determinada situação, quando perde o controle sobre algo, ou se sente ferida. Nesse momento, é preciso mostrar, seja com palavras ou de forma lúdica, que tudo está bem. Na maioria dos momentos de choro, acalmar a criança é a principal atitude a se tomar. Ela precisa se sentir segura novamente, por isso um abraço, uma historinha, uma demonstração de que tudo está normal é fundamental. No caso de bebês até 1 ano, é importante que se identifique a razão do choro, pois o choro é a principal forma do bebê comunicar seu desconforto, como estar com a fralda suja, sentir frio, calor, fome, dor ou cólica. Além disso, o choro frequente do bebê também pode indicar que está irritado ou com medo. Conversar com os pais é muito importante até conhecer melhor a criança. Não existe fórmula nesse caso, os pais é quem podem explicar a rotina e as características de seu bebê. De uma forma geral, é ficar atento às fraldas, horário de mamadas, temperatura do ambiente, barulhos, escuridão, qualquer coisa que possa incomodar ou assustar. Caso o choro seja frequente e não se identifique o motivo, o pediatra deve ser consultado, não se pode descuidar da saúde da criança. De acordo com o site Tua Saúde (https://www.tuasaude.com/causas-do-choro-do-bebe/), as principais causas do choro em bebês são: Fome ou sede: normalmente chora com a mão na boca ou abre e fecha a mão constantemente; Frio ou calor: suor ou brotoejas em caso de calor. Extremidades (mãos, pés) frias ou geladas em caso de frio; Dor: o bebê normalmente tentacolocar a mão no lugar da dor enquanto chora; Fralda suja: além do choro a pele pode ficar vermelha; Cólica: o choro do bebê é mais agudo e prolongado e pode-se perceber o abdômen mais distendido; Nascimento dos dentes: o bebê coloca a mão ou objetos na boca de forma constante, além de poder haver perda do apetite e gengiva inchada; Sono: o bebê coloca as mãos nos olhos enquanto chora, além do choro ser bastante alto. Além de ficar atentos a esses sinais, auxiliares de creche, em situações de choro, devem tentar acalmar o bebê, oferecendo colo, alimento, conversando. Caso não esteja muito calor, pode-se enrolar o bebê em uma manta ou pano, não muito apertado, pois assim ele se sentirá protegido e aconchegado como quando https://www.tuasaude.com/causas-do-choro-do-bebe/ 26 estava no útero. Também é interessante massagear costas, pés e mãos (somente em bebês com mais de 30 dias), usando óleos apropriados para essa idade (com autorização de pais e pediatra). Embalar o bebê, no colo, carrinho ou bebê-conforto também ajuda a acalmar. Outra dica é usar o ruído branco, um som constante e suave, como um ventilador ou um secador de cabelo, algo que abafe os sons externos. Nunca coloque, porém, direto no bebê ou muito perto dele. Deitar a criança de lado, no colo ou na cama, deixando em posição fetal, que é semelhante à posição que o bebê tinha no útero da mãe também ajuda a acalmar. Lembrando que se o choro persistir, é preciso procurar o pediatra para mais orientações. Muitas crianças choram por birra. Quando se veem contrariadas, elas começam a gritar e chorar, exigindo que se cumpra o que desejam. Nesses casos existem dois procedimentos que variam conforme a idade e a situação: Retirar a criança do ambiente: leve-a para um lugar afastado, um quarto, uma área externa, um banheiro, qualquer lugar neutro; Afaste outras pessoas: converse somente com a criança, agache na altura dela e explique porque não pode atendê-la. Seja firme, porém fale baixo e pausadamente. Explique tudo de forma clara e objetiva, sem se estender muito; Reflita sobre a situação: antes de negarmos algo para uma criança é preciso refletir bem se é isso mesmo que queremos, pois, uma vez dito o NÃO, ele deve ser mantido até o fim. As crianças testam nossa autoridade e segurança. Uma vez que você cede a ela, perde seu respeito. Claro que esses procedimentos funcionam mais com crianças que já entendem a linguagem verbal, mas com menores, o primeiro procedimento já ajuda bastante. Retirar a criança do ambiente que causa a birra e distraí-la com algum objeto acaba acalmando, porque bebês têm mais memória de curto prazo. Neste caso, diga calmamente que não e retire do ambiente. Já crianças maiores precisam ser orientadas, para entenderem o motivo de não serem atendidas. 27 CAPÍTULO 8 – A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS Contadores de histórias fazem sucesso em grupos sociais em todas as épocas, em todos os lugares e com as mais variadas faixas etárias. Contar uma história de forma a encantar e enlevar as pessoas é uma arte. Essa prática exige do narrador a habilidade de comunicação, a de expressão e a de entretenimento. Neste capítulo, iremos descrever características da boa contação de histórias e como podemos usar essa arte para entreter, educar e encantar as crianças. Contar histórias para crianças, além de um prazer, uma diversão, é ensinar, é transmitir não só conhecimentos, mas emoções, acolhimento e carinho. Ao contar histórias, seja através de livros ou da tradição oral, o adulto estimula a criança a se interessar pelos livros, pela cultura, pela arte e desperta a curiosidade dela para novos universos. Como a criança da creche ainda não é alfabetizada, o adulto se torna a ferramenta de acesso dessa criança ao mundo fantástico das histórias. • Como aprendemos a contar histórias Contar histórias é uma prática antiga. O ser humano vê a contação de histórias de forma lúdica, como prática recreativa. Não só crianças, mas adultos gostam de ouvir uma boa história e saber contá-la é uma habilidade importante. Tão importante, que atualmente é uma profissão. Essa profissão envolve habilidades linguísticas, sociais e artísticas. Contar histórias não se trata somente de ler para crianças, mas interpretar a leitura, dar vida aos personagens e levar o ouvinte ao ambiente em que se passa a narrativa. Fazer roda de histórias é uma tradição antiga, em vários países, as pessoas se reúnem nas horas de lazer, em volta de fogueiras, ou em volta da mesa, ou uma sala de estar, varanda, e até no momento de dormir, para contar e ouvir histórias. São contos de terror, de suspense, de amor, de humor. Quem conta a história precisa conhecer seu público e saber entretê-lo. Assim, muitas narrativas e relatos orais foram passados de geração a geração, de lugar para lugar, de tempos em tempos. A prática de contar histórias envolve uma série de habilidades lúdicas, que fazem do contador uma pessoa especial, que tem o poder de encantar, de transmitir uma riqueza de detalhes e aspectos históricos, culturais, regionais. As histórias não só permitem acesso a mundos diferentes, mágicos, encantados, como transmitem costumes, crenças, hábitos de tempos e povos. Atualmente, o contador de histórias está presente na rotina infantil não só na escola, mas em festas, eventos, nas ludotecas, na internet, entre outros locais. Por isso, a profissão está se tornando cada vez mais elaborada, mais qualificada e diversificada. O contador irá servir de ponte entre a literatura infantil e toda sua diversidade, e as crianças, que ainda não adquiriram a leitura, e essa é uma tarefa que envolve responsabilidade, competência e qualidades. É importante que o contador conheça não só uma boa variedade de histórias, mas também investigue seu público, escolha bem seus instrumentos, prepare o 28 ambiente, prepare a si mesmo e sua caracterização. A principal qualidade de um contador de histórias deve ser o envolvimento com o que está narrando. Ele precisa viver aquele momento de forma intensa, mergulhar na narrativa e todos seus elementos: no tempo, no espaço, nos personagens, nas ações. Além disso, outras características devem fazer parte um bom contador, vamos ver algumas delas: Criatividade: ele precisa ser versátil para poder incorporar várias histórias diferentes, personalizando a contação de cada uma delas; Improvisação: é preciso estar preparado para eventuais obstáculos internos e externos; Interação com o público: se não se estabelecer um vínculo entre quem conta a história e quem a ouve, não haverá entretenimento, nem aprendizado; Interpretação e Representação: ler não é somente ler, é interpretar e representar a história para a criança, usando expressividade, entonações diferentes, gestos, a história precisa ser vivida; Clareza, coesão e coerência: o narrador precisa usar uma linguagem que seja entendida, conectando bem os fatos e ações, descrevendo com habilidade o cenário e os personagens da narrativa, sem se contradizer ou omitir aspectos importantes; Variedade temática: conhecer histórias de diversos gêneros, assuntos e temas, ter um repertório vasto e para todas as faixas etárias; Ser artista: é preciso ter conhecimento sobre alguns elementos de atuação e de caracterização, para valorizar a história. Contar história tem um aspecto teatral então é preciso conhecer essa arte; Naturalidade: toda a narrativa deve ser feita em tom natural, sem parecer automatizada ou artificial; Respeito pela história: contar a história preservando sua essência e conseguindo transmitir essa essência para quem ouve. Outro aspecto importante é que o contador deixe as crianças participarem da contação. É muito difícil para crianças, ainda mais para as menores, ficarem quietas por muito tempo, então, elas precisam e desejam participar da narração. Enquanto conta ahistória, o contador pode criar interações com as crianças, para estimular a participação delas. O auxiliar de creche que for contar histórias precisa ter algumas habilidades próprias para conseguir a atenção e o interesse da criança. Essas habilidades podem ser desenvolvidas no próprio convívio com essas crianças, mas algumas delas podem ser estimuladas previamente através de treinamentos, qualificação 29 técnica, cursos de extensão e capacitação. Algumas dicas são importantes para a leitura de histórias para crianças, vejamos: Ajudar a formar imagens mentais: descrever a história com detalhes e com profundidade, usando uma linguagem entendida pela criança; Usar as imagens do livro, explicando-as; Manter a atenção da criança interpretando o texto, assumindo vozes de personagens, imitando sons, gesticulando; Usar outros materiais como bonecos, fantasias, maquiagem, máscaras, acessórios, dedoches, sons, cenário, fantoches, etc.; Incentivar a participação das crianças na história. Podemos dizer que contar histórias é uma arte. Existem muitos gêneros narrativos que são comercializados e explorados atualmente, seja por meio de livros ou quadrinhos, seja através de adaptações em séries ou filmes. Independentemente do tema preferido da criança, a narrativa infantil tem a função de: Encantar a criança; Mostrar a beleza de vários aspectos do universo; Promover o jogo simbólico, ou seja, estimular a imaginação e o faz-de- conta; Desenvolver a atenção e a concentração; Estimular o raciocínio e a reflexão; Apresentar o mundo das letras à criança; Debater aspectos cotidianos da vida infantil, como medos, desafios, sociabilidade; Estimular a comunicação entre os alunos, entre alunos e pais, alunos e professores; Auxiliar o desenvolvimento da linguagem, verbal e não-verbal. Ouvir uma história é importante para a criança, mas o trabalho não deve parar por aí. O professor precisa estimular a compreensão dessa história, a sua interpretação e discutir todos os aspectos da mesma, para que haja um amplo entendimento por parte da criança. Para isso, ele deve promover outras atividades que ajudem nessa exploração da narrativa, tais como: desenhar, 30 colorir, representar, escolher personagens preferidos, escolher partes preferidas da história, responder perguntas, debater questões, etc. Outra forma importante de se contar histórias é associá-las à música. Se o professor souber tocar algum instrumento, que permita musicalizar narrativas, pode usar esse recurso, ou convidar o professor de música para essa tarefa. Porém, se não houver essa possibilidade, o professor pode pegar conteúdos prontos na internet e colocar para tocar para as crianças, cantando e dançando com elas. A produção de material pelas próprias crianças também é muito importante. Juntos com o professor, os alunos podem criar suas próprias canções, suas próprias histórias e até representar, organizando teatro e apresentações orais. Muitos professores leem para seus alunos clássicos da literatura, porém, de forma adaptada para a idade, ou trabalham contos infantis sob um aspecto mais local, mais adaptado à cultura das crianças. O mais importante no ato de contar histórias, seja através da leitura, seja através da oralidade, é entreter. Se o contador não tiver a atenção e o interesse do público, os outros aspectos não se desenvolvem. Ler para crianças promove a diversão, a socialização e a comunicação. Mais que isso, estimula o desenvolvimento cognitivo, cultural e emocional, daí sua grande importância. 31 CONCLUSÕES Chegamos ao fim de nossos estudos sobre a formação do Auxiliar de Creche. Atualmente, como vimos, a escola tem assumido grandes responsabilidades. A creche, antes voltada para a segurança e os cuidados básicos, hoje é parte da Educação Infantil, o que significa que os profissionais que nela trabalham precisam tanto cuidar, quanto educar. Muitos pais, confiam seus filhos à creche desde muito cedo e é importante que participem da educação e da formação dessas crianças, mesmo elas passando uma boa parte do tempo na creche ou escolinha. Por mais que a legislação oriente a escola a dar uma formação integral para a criança, a família jamais vai deixar de ter certas responsabilidades. Cabe aos pais tomarem as rédeas da educação de seus filhos e serem parceiros da escola e dos professores nessa caminhada. O conceito de infância mudou muito nos últimos séculos e hoje entendemos as necessidades infantis e seu desenvolvimento físico e intelectual. Embora nos tempos atuais a criança seja protegida por leis específicas, a sociedade tem sido bastante relapsa nos cuidados emocionais e psicológicos com o público infantil. Temos muitas informações para nos orientar, mas apesar disso, ainda precisamos nos atentar mais ao que é exposto às crianças, principalmente na internet e outras mídias. Assim, o auxiliar de creche deve ser parte dessa formação infantil, orientando, divertindo e cuidando. 32 BIBLIOGRAFIA AMADO, C. História da Pedagogia e da Educação – Guião para acompanhamento das aulas. Évora: Universidade de Évora, 2007. BELLO, J. L. P. Educação no Brasil: a História das rupturas. Pedagogia em Foco, Rio de Janeiro, 2001. Disponível em: . Acesso em: 31 de maio de 2020. BNCC/MEC. Base nacional comum curricular. Ministério da Educação. Brasília – DF, 2017. Consulta em 21 de maio de 2020. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Lei de diretrizes e bases da educação. Disponível em: . Acesso em 18 de maio de 2020. ________ Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial curricular nacional para a educação infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. _______ Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil. 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