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AULA 3 COGNIÇÃO, ATENÇÃO E FUNÇÕES EXECUTIVAS Profª Camila Maia de Oliveira Borges Paraná A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula iremos falar de dois aspectos importantes na cognição, que são essenciais para as nossas ações cotidianas e para o monitoramento de nosso comportamento: a atenção e a autoconsciência. Esses dois aspectos cognitivos são normalmente associados, entendendo que a autoconsciência é dependente da atenção. Entretanto, ao longo deste encontro, entenderemos que nem sempre esta associação é verdadeira. Inicialmente, vamos abordar aspectos do desenvolvimento da atenção e questões relacionadas à sua estimulação. Posteriormente, abordaremos um tema muitas vezes polêmico nas neurociências, a consciência, para então aprofundar o conceito de autoconsciência, sua importância e repercussão no comportamento humano. TEMA 1 – ASPECTOS DO DESENVOLVIMENTO DA ATENÇÃO Entender como a atenção se desenvolve é importante, por diferentes razões. Para os profissionais que atuam com crianças, e mesmo para aqueles que convivem com pessoas dessa faixa etária, é fundamental compreender quanto de foco atencional as crianças apresentam em diferentes idades. Essa compreensão nos dá embasamento para entender melhor o comportamento infantil, saber o que esperar e o que cobrar das crianças, identificar possíveis transtornos e por fim criar e adotar estratégias de estimulação cognitiva. Prestar atenção é fundamental para que possamos aprender algo novo, independentemente da idade, e também para que nossas ações sejam executadas da melhor maneira possível. Podemos afirmar que qualquer comportamento intencional demanda atenção. Mas o que esperar em termos de desenvolvimento, ou seja, quando um bebê começa a realmente prestar a atenção e quando um idoso começa a perder a capacidade atencional? De acordo com Cosenza e Guerra (2011), nos primeiros meses de vida, os circuitos neurais responsáveis pela atenção ainda não estão desenvolvidos. Nessa fase da vida, a atenção é regulada apenas pelos estímulos periféricos, relacionados a um tipo de atenção reflexa, e não voluntária. Os reflexos iniciais se manifestam por um reflexo orientado, através da fixação do olhar, normalmente em estímulos novos e considerados fortes, como por exemplo um barulho alto, uma luz mais forte ou até mesmo um gesto realizado de forma mais brusca. De A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 3 acordo com Luria (1979), a atenção reflexa funciona de forma rápida, visto que, ao aparecer um novo estímulo, o foco de atenção muda em função do reflexo orientado. Com o passar do tempo, os bebês se tornam capazes de dirigir a atenção, até conseguir atingir os níveis atencionais de um adulto. Esse processo depende da maturação neurológica e está relacionado à atenção voluntária. O quadro a seguir apresenta a descrição de Luria (1979) acerca do desenvolvimento da atenção voluntária em crianças. Quadro 1 – Atenção voluntária Faixa etária Desenvolvimento da atenção Primeiro ano de vida Por meio de instruções verbais dos adultos, começa a ocorrer a regulação da atenção do bebê: o adulto fala, age e faz gestos e o bebê começa a orientar a sua atenção para estes estímulos. Através da nomeação e ordenação de ações, começa o desenvolvimento da atenção: “isso é uma colher, pegue a bola”. Ao término do 1º ano Nomeação de objetos e ordens verbais começam a orientar e direcionar a atenção: a criança começa a olhar para o objeto nomeado e consegue buscar e distinguir objetos procurados. Nesta idade, a fala do adulto já direciona a atenção da criança. Apesar do possível direcionamento ao objeto alvo, a criança desvia com facilidade o foco para outros objetos ou estímulos ao redor. Segundo ano de vida O comando verbal do adulto já é considerado mais sólido e capaz de organizar a atenção da criança; apesar disso, o foco atencional só é mantido nas etapas iniciais. Até os três anos de idade Em função da imaturidade neurológica, mais especificamente do córtex, até os três anos de idade observa-se o predomínio da atenção involuntária. Entre dois e três anos, com um pouco mais de maturação cortical, observamos o início da atenção voluntária, quando há a possibilidade de coordenar a fala com ações voluntárias e com a locomoção. De quatro a cinco anos Percepção e comandos verbais já orientam de forma consistente a atenção da criança, regulando o seu comportamento. Segundo Luria (1979) o desenvolvimento da atenção voluntária depende de um processo complexo, que envolve não apenas a maturação neurológica, mas também a estimulação do ambiente. A comunicação estabelecida pelo adulto com a criança é essencial para o desenvolvimento desse processo, que possibilita a organização da atividade consciente do homem. Conforme apresentamos anteriormente, a capacidade de prestar atenção vai sendo aprimorada com o passar dos anos em função da maturação neuronal. Assim, podemos dizer que há um pico de desenvolvimento na adolescência, quando adolescentes e adultos jovens são capazes de prestar atenção a diferentes estímulos ao mesmo tempo, alternando o foco atencional. Porém, assim como nos primeiros anos de vida, essa capacidade mais complexa da atenção vai diminuindo com a idade. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 4 No envelhecimento, observamos uma perda da capacidade atencional, principalmente relacionada à dificuldade de inibir estímulos distratores. Ou seja, com o envelhecimento, fica cada vez mais difícil prestar atenção quando outras coisas nos distraem (Cosenza; Guerra, 2011). Exemplo: ler um livro com a televisão ligada, prestar atenção a uma conversa com uma música tocando ou dirigir em horários de muito movimento. Atualmente, nos deparamos cada vez mais com propostas de estimulação da atenção, seja na infância ou na idade adulta e terceira idade. TEMA 2 – ESTIMULAÇÃO DA ATENÇÃO Antes de iniciar a temática da estimulação cognitiva da atenção, cabe entender os mecanismos neurais envolvidos. Para isto, é preciso falar sobre a neuroplasticidade. De uma forma geral, a neuroplasticidade pode ser definida como a capacidade que o nosso cérebro tem de se reorganizar. Para Muszkat e Mello (2012), essa capacidade de reorganização de padrões e conexões neurais, a partir da experiência do indivíduo, é um dos aspectos mais fascinantes da neurociência. A palavra plasticidade tem origem grega, e está relacionada à capacidade de alguma coisa ser moldada. A neuroplasticidade seria então uma mudança adaptativa nos aspectos estruturais e funcionais do sistema nervoso (Muszkat; Mello, 2012). Nessa definição, o termo adaptativo é de grande relevância, visto que remete à uma condição anterior, seja uma alteração no desenvolvimento neurológico, uma lesão encefálica adquirida (exemplo: tumor cerebral, acidente vascular cerebral ou traumatismo cranioencefálico), ou até mesmo uma situação degenerativa relacionada a alguma doença ou ao próprio envelhecimento. Ao longo da vida, o cérebro apresenta um grande potencial para se desenvolver e se modificar. Esse potencial depende da interação entre aspectos neuronais e da experiência / vivências ambientais. Os aspectos neuronais estão relacionados aos diferentes padrões de conexão entre os neurônios e ao número de sinapses ativas; ao nível de mielinização dos neurônios (mielina: camada lipoproteica localizada ao redor do corpo do neurônio, responsável por atribuir maior eficiência à transmissão de informações); e ao desenvolvimento pré-natal. Já o fator da experiência e das vivências ambientais tem relação com o estímulo recebido ao longo davida (Muszkat; Mello, 2012). A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 5 A partir da compreensão da plasticidade cerebral, e de que o estímulo recebido por um indivíduo contribui para o desenvolvimento e para a reorganização do cérebro, a área da estimulação cognitiva tem ganhado muita atenção nos últimos anos. Em tempos de correria e excesso de informação, a busca por uma melhora na capacidade atencional tem sido frequente, seja no ambiente acadêmico ou ocupacional, seja em casos de transtornos diagnosticados ou de lesões cerebrais adquiridas. Independentemente da situação, sabe-se que a estimulação cognitiva pode ser benéfica, com vista a garantir uma melhor qualidade de vida. A estimulação da atenção pode ser feita através da realização de atividades com lápis e papel, através do uso de computadores, aplicativos e softwares, criados para esse fim, ou a partir de tarefas verbais. Antes de escolher os recursos ou atividades para estimulação, é importante ter um objetivo claro. O sucesso de um programa de estimulação cognitiva está intimamente relacionado ao seu planejamento. O quadro a seguir apresenta alguns aspectos importantes de um planejamento de estimulação. Quadro 2 – Planejamento de estimulação O quê? Como Fazer Conhecer a realidade Identificar possíveis queixas relacionadas à atenção e como elas se manifestam em diferentes contextos (ambiente familiar, social, acadêmico ou profissional). Conhecer qual o impacto dessa dificuldade no cotidiano. Entender a origem das queixas: presença de um transtorno (TDAH, depressão, ansiedade), lesão cerebral ou envelhecimento. A estimulação ainda pode ser feita em alguém sem queixas, mas com o objetivo de aprimorar a capacidade atencional para um melhor desempenho em alguma situação específica, como um concurso, por exemplo. Estabelecer metas A partir da identificação das necessidades, as metas podem ser estabelecidas em: Curto prazo – 2 a 4 semanas Médio prazo – 1 a 6 meses Longo prazo – acima de 6 meses Acompanhar a evolução Observar o engajamento e a motivação durante a realização das atividades. Dentro das possibilidades, escolher tarefas que apresentem algum contexto relacionado aos interesses do cliente. Exemplo: se a pessoa adora futebol, escolher tarefas que falem sobre o assunto. Monitorar resultados e sempre que necessário mudar atividades. Iniciar com atividades mais simples e aumentar o grau de dificuldade de forma progressiva. Outro aspecto importante está relacionado ao tipo de atenção que se quer estimular. Relembrando, a atenção pode ser dividida em: seletiva, concentrada ou sustentada, alternada e dividida. Vejamos alguns exemplos de atividades para a estimulação de cada um dos tipos atencionais citados: A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 6 Atenção seletiva (capacidade de prestar a atenção em um estímulo e de inibir estímulos distratores): procurar imagens específicas em uma revista; encontrar produtos em promoção em um encarte de supermercado. Atenção concentrada/sustentada (habilidade de permanecer concentrado em um estímulo por um período prolongado de tempo): apresentar letras separadamente e solicitar que a pessoa forme palavras. De forma similar, pode-se apresentar palavras isoladas para a construção de frases. As letras ou palavras podem ser apresentadas de forma visual, como por exemplo escritas em papel ou cartolina, podem ser digitadas em slides, ou faladas (neste caso, estimulando a atenção auditiva). Atenção alternada (relacionada à capacidade de alternar o foco atencional, ora em um estímulo, ora em outro): realizar cópias, como por exemplo copiar um texto de um livro no computador; alternar a realização de atividades monitorando o tempo, como por exemplo intercalar a execução de tarefas a cada 5 minutos Atenção dividida (habilidade de prestar atenção em mais de um estímulo ao mesmo tempo): ler um texto com a televisão ligada. Nesta situação, solicita-se que a pessoa responda perguntas sobre um texto para verificar se ela conseguiu prestar atenção. Recomenda-se dar um tempo limite para a leitura, para garantir que a pessoa não esteja desviando o foco atencional para a atividade concorrente. Se a estimulação ocorrer em ambiente de consultório, por exemplo, pode-se optar por passar um vídeo ou até mesmo colocar uma música como estímulo distrator. Conforme já citamos anteriormente, o sucesso da estimulação cognitiva depende da clareza dos objetivos e de um bom planejamento. Além desses fatores, outro aspecto é considerado de suma importância: a consciência das dificuldades. TEMA 3 – CONSCIÊNCIA A consciência é considerada um dos maiores mistérios da humanidade. O seu estudo data de séculos e esteve, inicialmente, nas mãos de filósofos, justamente por ter sido considerado por muito tempo como um assunto para além do alcance da ciência experimental (Bear; Connors; Paradiso, 2017). A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 7 Desde a época de Hipócrates, diferentes teorias foram criadas com o intuito de responder questões acerca da origem e do armazenamento das ideias, do pensamento e das emoções, do modo como a percepção é processada e como influencia o nosso comportamento (Gazzaniga; Heatherton, 2005). Um grande estudioso sobre os aspectos da consciência é o neurocientista português Antonio Damásio. Para ele, nenhum aspecto da mente humana é de fácil investigação, mas o entendimento da consciência, a partir da compreensão dos alicerces biológicos da mente, é um problema supremo (Damasio, 2015). Existem diferentes modelos teóricos relacionados à consciência e à sua ausência. Langer e Padrone (1992, citados por Sohlberg; Mateer, 2010) propuseram um modelo tripartido e descreveram três origens para os problemas de consciência: Um nível básico da consciência, que pode ser chamado de informação: problemas neste nível podem estar relacionados a uma situação na qual o indivíduo não tem acesso a uma informação de forma adequada, quando por exemplo não compreende ou não se recorda de algo. Um segundo nível de consciência, chamado de implicação: neste nível, podemos pensar que uma pessoa tem uma informação, mas não é capaz de entender as implicações e consequências relacionadas a ela. O último nível seria a negação psicológica: aqui, a pessoa tem acesso a uma informação, está ciente de suas implicações, porém a ignora como forma de diminuir uma dor emocional. No primeiro nível, a dificuldade em compreender uma informação pode estar relacionada a algum prejuízo intelectual; da mesma forma, pessoas com quadros demenciais podem não se recordar de informações, contribuindo assim para uma baixa consciência dos fatos e de si mesmas. Uma situação que exemplifica o segundo nível é uma pessoa que tem conhecimento acerca de possíveis consequências de algo, mas não valoriza as suas implicações. Aqui, uma possível explicação poderia ser uma dificuldade relacionada ao sistema de consequências ou análise de riscos. Adolescentes costumam se encaixar neste nível, visto que muitas vezes têm acesso a informações, mas em função de áreas corticais (córtex pré-frontal) ainda imaturas, não conseguem ter uma “visão do futuro”. Precisam de recompensas imediatas e têm a sensação de que nada de ruim pode acontecer com eles. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 8 O terceiro nível pode ser visto em diferentes situações relacionadas ao contexto da saúde, como por exemplo quando uma pessoa recebe um diagnóstico de uma doença terminal. É comum o paciente receber todas as informações com muita clareza, e inclusive ter conhecimento de suas implicações. Mas, por ummecanismo de defesa, nega a dura realidade, evitando entrar em contato com ela. TEMA 4 – CORRELATOS NEURAIS DA CONSCIÊNCIA Grandes nomes da ciência contribuíram para uma abordagem neurocientífica do estudo da consciência. Christof Koch e Francis Crick (Prêmio Nobel com pesquisas do estudo do DNA) foram pioneiros. Correlatos neurais da consciência foram definidos por Koch como eventos neuronais mínimos, mas suficientes para a percepção consciente de algo ou de alguma situação (Bear; Connors; Paradiso, 2017). Apesar de todos os esforços, o desafio na compreensão do funcionamento da consciência permanece. Um dos questionamentos está vinculado à seguinte questão: “poderia a atividade neural ser um pré-requisito para a experiência consciente, ou uma consequência da experiência, e não o substrato neural da experiência?” (Bear; Connors; Paradiso, 2017, 2017, p. 748.) Alguns autores apontam que três regiões do córtex cerebral estão relacionadas à capacidade de se perceber como um indivíduo diferente do outro, com pensamentos e sentimentos próprios: o córtex pré-frontal (região medial), o cíngulo anterior e a ínsula. Apesar dos inúmeros avanços relatados na literatura acerca das bases neurais da consciência, ainda há incertezas sobre o assunto. A consciência e o estado de vigília, assim como a consciência e a atenção, parecem, inicialmente, aspectos interdependentes; entretanto, podem ser distinguidos. Comprovamos esse fato mediante a observação de pacientes com certos quadros neurológicos, que permanecem acordados e alertas, porém com a consciência alterada em relação a si mesmos e aos fatos ao seu redor. Estar consciente vai além de estar acordado e atento (Damasio, 2015). Com base nessa constatação, no próximo tópico abordaremos aspectos da autoconsciência. A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 9 TEMA 5 – AUTOCONSCIÊNCIA Conhecer a si mesmo é algo almejado por diferentes civilizações há bastante tempo. Ownsworth e Clare (citador por Adda, 2012) definem a autoconsciência como a capacidade de um indivíduo de refletir e perceber, em si, mudanças de ordem física, cognitivas, emocionais ou comportamentais. Através de pesquisas com neuroimagem, estudos evidenciaram a participação do lobo frontal e parietal, mais especificamente do hemisfério direito, na autoconsciência (Sherer, 2005, citado por Adda, 2012). Pessoas com alteração de consciência podem apresentar maior risco de desenvolver problemas emocionais a longo prazo, podendo apresentar expectativas irreais e descontextualizadas, além de um prejuízo na habilidade de compreender o motivo de algumas restrições lhe serem impostas. Alterações de autoconsciência também estão relacionadas à interação social, já que a percepção de dicas do ambiente pode ajudar no automonitoramento e na adequação de comportamentos (Adda, 2012). A percepção de dicas no ambiente está relacionada à uma função chamada cognição social, que tem sido muito estudada pelas neurociências nos últimos anos. Entende-se por cognição social a habilidade de identificar, manipular e adequar o comportamento de acordo com informações socialmente relevantes, detectadas e processadas em determinado contexto do ambiente (Adolphs, citado por Monteiro; Louzã Neto, 2010). A cognição social depende do funcionamento de processos cognitivos básicos, como atenção, memória e funções executivas. Em situações em que observamos um engajamento social comprometido, nos deparamos com o prejuízo no reconhecimento de afetos, emoções e intenções, tanto na perspectiva do outro, como em nós mesmos, o que implica alterações nos aspectos da autoconsciência. O entendimento da autoconsciência é relevante em qualquer área relacionada ao comportamento humano. Essa temática torna-se de grande importância em contextos de doenças neurológicas, seja por lesão cerebral adquirida ou por doenças neurodegenerativas. Pacientes com doenças neurológicas tendem a apresentar um prejuízo de autoconsciência de seus déficits. A capacidade de perceber e identificar, em si mesmo, dificuldades ou potencialidades, depende de funções cognitivas como A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 10 percepção, atenção e funções executivas (Ownsworth; Clare, citados por Adda, 2012). A alteração de autoconsciência observada em pacientes neurológicos culmina em um quadro clínico chamado anosognosia, que pode ser definido como a dificuldade ou incapacidade de perceber e reconhecer em si os prejuízos cognitivos e comportamentais relacionados ao desenvolvimento de uma doença ou após uma lesão cerebral, como acidente vascular ou traumatismo cranioencefálico. Considerando a importância de identificar a presença de déficits de autoconsciência, diferentes autores publicaram instrumentos precisos para avaliar tal dificuldade. Um recurso técnico adaptado para a população brasileira e disponível para o uso clínico é a escala PCRS – Patient Competency Rating Scale (Zimmermann; Pereira; Fonseca, 2014). A PCRS é uma escala de autorrelato que foi desenvolvida por Prigatano e colaboradores em 1986, para avaliar a autoconsciência de déficits em quatro domínios: emoção, cognição, comportamento e atividades da vida diária. É um instrumento que visa comparar as classificações das habilidades de pacientes com a percepção dos familiares ou cuidadores. Ao responder a escala, o paciente e/ou cuidador faz julgamentos acerca do desempenho do paciente em 30 tarefas propostas. A classificação do nível de dificuldade do paciente na realização das tarefas é avaliada através de uma escala Likert de cinco pontos (Kolakowsky- Hayner; Wright; Bellon, 2012). O escore varia de 1 ponto (não consegue fazer) a 5 pontos (faz com facilidade ou não se aplica); o escore total pode variar de 30 a 150 pontos. Quanto maior for a pontuação, maior a competência do paciente nas habilidades citadas. A versão adaptada para o Brasil e disponível para o público clínico é uma versão resumida, composta por 17 itens, que avaliam prejuízos executivos, mnemônicos e atencionais (Zimmermann; Pereira; Fonseca, 2014). O prejuízo de autoconsciência pode trazer impactos negativos em diferentes esferas da vida de um indivíduo. A dificuldade de perceber e monitorar o seu comportamento pode interferir em relações familiares, afetivas, sociais, acadêmicas e ocupacionais. Além disso, em contexto clínico, quando um paciente não percebe suas dificuldades, o reconhecimento e a aceitação de intervenções ficam prejudicadas, contribuindo para baixa adesão e reduzido engajamento em tratamentos (Adda, 2012). A luno: S abrina de A lm eida K ufner C aetano E m ail: sabrinakufner96@ gm ail.com 11 REFERÊNCIAS ADDA, C. C. Autoconsciência e reabilitação cognitiva. In: ABRISQUETA-GOMEZ, J. et al. 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