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PRÁXIS 22 (2013) PP. 81-97 A NOVA EVANGELIZAÇÃO: UM DESAFIO PARA A IGREJA EVANGÉLICA BRASILEIRA Antonio Carlos Barro 1 RESUMO O propósito deste artigo é fazer uma reflexão sobre um dos temas mais importantes na práxis da igreja evangélica brasileira, qual seja a evangelização. Essa análise principia pela pergunta chave na eclesiologia: qual a razão de ser da igreja? A partir dos pressupostos que caracterizam a vida da igreja, o autor discute o tema proposto sob a ótica da “nova evangelização” delineando como o processo evangelizador tomará corpo nos dias de hoje, tendo em vista que tanto a sociedade quanto a igreja têm passado por mudanças profundas. Essas mudanças exigem que a velha prática evangelizadora seja colocada de lado e que novos conceitos evangelísticos sejam apropriados pela igreja se a mesma quiser ser relevante no mundo pós-moderno. PALAVRAS-CHAVE Igreja; Evangelismo; Leigos; Nova Evangelização. ABSTRACT The purpose of this article is to reflect upon a theme that is very important in the praxis of the Brazilian evangelical church, that is: evangelization. This analysis starts with a key ecclesiological question: what is the reason for the existence of the church? Deriving from the presupposition that characterize the life of the church, the author discusses the proposed theme under the view of the “new evangelization” delineating how the evangelistic process will take shape today, considering that both society and church are going through profound changes. These changes demands that old evangelistic practices be put aside and those new concepts are appropriated by the church if it desires to be relevant in this post-modern world. KEYWORDS Church; Evangelism; Lay People; New Evangelization. 1 Professor da Faculdade Teológica Sul Americana. Doutor em Missiologia pelo Fuller Theological Seminary, Pasadena, CA – USA. Email: acbarro@gmail.com Introdução Nas igrejas de tradição protestante tem sido bem escassa a reflexão teológica sobre o tema da nova evangelização. O termo tem sido mais usado e debatido dentro dos círculos do catolicismo romano. Ao utilizarmos a terminologia “nova evangelização”, estamos apontando para a necessidade de mais reflexão sobre o papel da evangelização na prática das igrejas evangélicas no mundo pós-moderno. Historicamente os evangélicos são conhecidos pelo ímpeto evangelístico. Em se tratando de Brasil, a atuação da igreja evangélica, quando aqui inserida nos meados do século XIX, se deu dentro de um contexto religioso católico; ainda que houvesse religiões africanas e indígenas, o grande alvo da ação evangelística foi em direção aos católicos. O anticatolicismo era “uma das grandes características da pregação missionária protestante no Brasil” (Mendonça; Velasques Filho, 1990, p. 100). Já são bastante conhecidos os estudos realizados nesse campo 2 . No Congresso Mundial de Evangelização, ocorrido na cidade de Berlim no ano de 1966, o Rev. Benjamin Moraes, representando o Brasil, afirmou que após o Concílio Vaticano II o relacionamento entre católicos e protestantes havia melhorado. Assim sendo, asseverou que “essa área do relacionamento é hoje uma grande porta aberta para evangelismo no Brasil. Desafortunadamente a maioria dos evangélicos não reconhece essa oportunidade e são cautelosos, até mesmo medrosos dessa amizade com os católicos” (Moraes, 1967, p. 277). Como podemos perceber, a evangelização tinha como objetivo converter os católicos ao Cristo, e também ao protestantismo. Caso um católico se declarasse convertido e relutasse em abandonar a igreja católica para afiliar- se a uma igreja protestante, a sua conversão era (e ainda é) colocada em dúvidas. O próprio Moraes,quando descrevendo sobre os obstáculos para o evangelismo no Brasil, afirmou: “A tradição católica no Brasil é muito forte. Muitas pessoas aceitam o evangelho intelectualmente, mas falta coragem para deixar a igreja de seus pais” (Moraes, 1967, p. 278). O famoso hino The lily of the valley, de Charles W. Fry, que no Brasil recebeu vários nomes, tais como “O lírio dos vales”, “Jesus, o bom amigo” e “Achei um grande amigo”, é uma boa ilustração do que se esperava dos católicos. O hino foi muito cantado no meio do povo evangélico. Na letra, uma estrofe em especial chama a atenção, pois descreve um dos alvos da igreja evangélica em relação aos católicos, isto é, o abandono da idolatria: [Jesus] Levou-me as dores todas| As mágoas lhe entreguei| Nele tenho firme abrigo em tentação! | Deixei por Ele tudo, os ídolos queimei!| Ele faz-me puro e santo o coração! A visão de um cristianismo deturpado no meio católico não se dava apenas no Brasil, mas por toda a América Latina. Um dos argumentos para o proselitismo era de que o cristianismo de tradição católico-romana não era suficientemente bíblico (Piedra, 2005, p. 4). Arturo Piedra cita John C. Lowrie, um dos líderes do movimento missionário norte-americano da Igreja Presbiteriana, que legitimava a vinda das missões para a América Latina sustentando: “As pessoas dessas regiões não podiam ser excluídas de uma fé bem mais pura” (Apud. Piedra, 2005, p. 5). 2 Ver as seguintes obras: DUNCAN, Reily. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1984; MENDONÇA, Antônio G. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1984; LEONARD, Emile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história geral. Rio de Janeiro: JUERP, São Paulo: ASTE, 1981; RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo e cultura brasileira: aspectos culturais da implantação do protestantismo no Brasil. São Paulo: CEP, 1981. Esse é o conceito de evangelização que ainda prevalece nos dias de hoje. A igreja evangélica, com raríssimas exceções, continua crescendo muito em decorrência da migração dos católicos para os arraiais protestantes. Segundo o censo do IBGE de 2010, vê-se que o número de católicos no Brasil caiu para 123,3 milhões (cerca de 65% da população). É lógico que esse esvaziamento não se dá apenas com a migração para as igrejas chamadas evangélicas. Há outros fatores; todavia, a troca de denominação é o item que mais contribui para essa queda do catolicismo no Brasil, pois é exatamente nesse período do decréscimo católico que mais cresceu a igreja evangélica, especialmente o pentecostalismo em suas múltiplas variações. 1. A natureza da nova evangelização Vivemos hoje tempos diferentes daqueles quando os protestantes aportaram na América Latina. Não se pode mais falar de uma evangelização que não tome em consideração as mudanças ocorridas na sociedade. Para discorrermos sobre essa nova evangelização, precisamos fazer uma pergunta básica: qual a razão de ser da igreja? Entendemos que a comunidade da fé deriva sua força e inspiração da missio Dei. Percebemos ainda que a igreja tem uma origem divina, conforme as palavras de Jesus Cristo: “... edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18). Isto significa dizer que Cristo assumiu algumas responsabilidades em relação à igreja. A primeira é a da edificação. O termo traz a ideia de construir uma casa, erigir uma edificação. Metaforicamente, significa promover o crescimento da igreja na sabedoria, afeição, graça, virtude e santidade cristã. A segunda é a de proteger a igreja dos ataques externos, especialmente das forças malignas. Isto significa que as forças do mal jamais superarão a força (divina) da igreja. No dizer de Cristo, a derrota da igreja é uma impossibilidade devido ao fato de que ele foi e continua sendo o construtor do edifício. Se as forças do mal lograrem destruir a igreja, logo o próprio Cristo seria desacreditado e ridicularizado. Outro texto que nos ajuda e muito a entender o relacionamento de Cristo com a igreja vem do Apóstolo Paulo na carta aos Efésios, capítulo cinco. Ali aprendemos que Cristo é cabeça,salvador e senhor da igreja; que ele a ama profundamente e por ela sacrificou-se. Essa narrativa de Paulo exemplifica o alto grau de compromisso de Cristo com o seu povo, colocando-o em elevado patamar. A igreja, portanto, não é uma organização de valor irrisório. Aprendemos ainda que a igreja está edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra da esquina; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor” (Ef 2.20-21). Paulo revela que a igreja tem uma herança especial. Ela não surgiu de algum evento corriqueiro ou de um fato ordinário. A igreja tem nas suas bases uma história de lutas e vitórias nas pessoas dos apóstolos, dos profetas e de todos quantos seguiram nesse caminho. Isso não deve ser negligenciado e muito menos subestimado pela igreja contemporânea. Ter uma origem divina e estar sob o controle e orientação de Cristo é muito importante, mas a igreja não se resume apenas a esse relacionamento vertical. Ela, enquanto peregrina na terra, tem uma missão a cumprir – a missão do seu senhor e salvador, ou seja: sua dimensão horizontal. Usarei a ideia de Orlando Costas para discorrer sobre duas dimensões da missão da igreja, que ele chamou de missão última e missões penúltimas. 1.1. A missão última No Antigo Testamento, o profeta Habacuque faz uma profunda revelação da vontade de Deus: “Pois a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas cobrem o mar” (Hc 2.14). O profeta Isaías muitas vezes menciona a glória do Senhor em suas profecias. Ele afirma que “a glória do Senhor se revelará; e toda a carne juntamente a verá; pois a boca do Senhor o disse” (Is 40.5). A glória de Deus é a sua honra, riqueza, esplendor, dignidade, reputação e reverência. Podemos concluir então o desejo último de Deus é que as gentes de todas as partes do mundo conheçam quem ele é e que ele seja glorificado como Deus no meio dos povos. Os autores do Antigo Testamento tinham a consciência da glória de Deus e que essa glória não estava limitada ao povo de Israel. Na verdade, Deus incumbiu Israel de revelar essa glória aos povos da terra. Glorificar a Deus, portanto, é a missão última do povo de Deus. Assim entenderam tanto os antigos, como no Catecismo de Fé de Westminster, em sua primeira pergunta: Qual é o fim principal do homem [mulher]? Resposta: O fim principal do homem [mulher] é glorificar a Deus (Rm 11.36; 1Co 10.31), e gozá-lo para sempre (Sl 73.24-26; Jo 17.22,24). Glorificar a Deus em tudo e em todas as ações fará com que as nossas motivações estejam focadas em Deus. Glorificar a Deus é a nossa missão última por outro motivo, isto é, na eternidade ele continuará recebendo honras e glórias, conforme descrito no livro do Apocalipse. É no desempenho da nossa missão, independente dos resultados, que Deus é glorificado. Jesus Cristo ensinou: “Nisto é glorificado meu Pai, que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos” (Jo 15.8). Em outro lugar lemos: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.16). Notemos que Jesus não fala dos resultados das boas obras, mas sim de realização das mesmas. No cristianismo de hoje, tem-se a ideia de que Deus é glorificado quando alguma coisa produziu resultados positivos. Se der certo, louvado seja Deus; se der errado, choro e lamento. Esse pragmatismo evangélico é extremamente prejudicial para o entendimento do que significa glorificar a Deus. Esse glorificar a Deus se enquadra no primeiro aspecto do que ensinou Jesus sobre a razão de existir do ser humano: “O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor. Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento” (Mc 12.19-30). A teologia de Jesus segue o primeiro mandamento do decálogo (Ex 20). Podemos então concluir que a razão última da existência da igreja é glorificar a Deus. 1.2. As missões penúltimas Enquanto no mundo, a igreja é convocada a participar do projeto redentor de Deus, a missio Dei. Creio que Deus pode usar outras pessoas e outras organizações para cumprir a sua justiça entre os povos. Todavia, entendo que essa responsabilidade recai primeiramente sobre a igreja, o corpo de Cristo. Em resumo, a igreja tem uma missão de serviço bem explicitada pelo apóstolo Paulo na carta aos Gálatas: “E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido. Então, enquanto temos oportunidade, façamos bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6.9-10). Fazer o bem, ou seja, aquilo que é honrável, bom e belo de se ver, em pelo menos duas direções. Primeiro, ensina Paulo, aos da família da fé. Creio que Paulo quer nos mostrar aqui que se a comunidade não se preocupa e nem cuida do seu próprio povo, como cuidará dos de fora? Portanto, os membros da comunidade devem cuidar uns dos outros. Em segundo lugar, Paulo diz que o bem deve ser direcionado a todos, ou seja, aos que não pertencem a comunidade. Esse fazer o bem aos da família da fé e a todos os demais é enquadrado dentro do segundo aspecto do que ensina Jesus ser a tarefa do ser humano, ou seja, amar o próximo. O próximo pode estar dentro da comunidade ou fora dela. O que importa é sermos instrumentos de Deus nesse projeto de resgatar a dignidade do outro. É nesse resgate da vida para Deus que a igreja desenvolve a suas missões penúltimas. Penúltimo aqui não significa de menor importância. A implicação aqui é a respeito do tempo (kairos) desses ministérios, pois eles são realizados enquanto a igreja é peregrina nesse mundo. Depois da consumação dos tempos é óbvio que esses tantos ministérios, como o da evangelização que discutiremos abaixo, não serão mais necessários. O problema dos fiéis é que não existe esse entendimento na comunidade, consequentemente, as atividades dos mesmos são para dentro das paredes do templo e também os recursos são utilizados, em sua grande parte, para o conforto e bem estar dos membros da comunidade. Pouco sobra para a prática ministerial para com os de fora. 1.3. A arena da missão O palco da missão é o mundo. Alias foi o próprio Jesus quem nos deixou essa informação: “O campo é o mundo” (Mt 13.38). É no mundo que o teatro da vida se desenrola. Cada esfera da sociedade necessita receber o poder do evangelho e ser tocada com as demandas de Cristo. Quem pode fazer isso? Naturalmente os milhares de cristãos espalhados pela face da terra. Concordo inteiramente que: Não é preciso “tocar a trombeta” ou fazer um teatro todas as vezes que se realiza um bem, sobretudo, porque é para Deus que se está fazendo. Por isso, Jesus no mesmo sermão, acerca da oração, afirma que não devemos agir como os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, que fazem de suas orações um show particular a fim de serem notados; antes, que se procure um lugar quieto e secreto a fim de não representar nenhum papel diante de Deus (Mt 6.5-6). É uma vida de integridade atuando contra uma religião da hipocrisia (Menezes, 2013). Realmente tem havido um enorme exagero por parte dos líderes e também dos membros das comunidades evangélicas a respeito do pouco que tem realizado. Ou seja, pouca realização e muita propaganda. Todavia, existe o outro lado dessa moeda da prática do bem, conforme já mencionei anteriormente, quando o próprio Jesus afirma: “Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (Mt 5.16). Note que o Pai será glorificado se essas boas obras forem realizadas. Por isso é importante que essas boas obras sejam feitas em nome de Deus e para a glória de Deus. Assim sendo, o cristão caminha nesses doistrilhos: anonimato e publicamente. Como discernir o que deve ficar escondido e o que deve ser visto? Essa orientação é do Espírito Santo e cada um de nós deve ouvir o seu conselho. 2. Os desafios da nova evangelização A igreja caminha em missão nessas duas dimensões: glorificar a Deus e manifestar Deus através de seus ministérios múltiplos. É na dimensão penúltima que acontece a obra evangelizadora e tantos outros ministérios, todavia, o foco do nosso trabalho é a evangelização. Gostaria de enumerar, então, alguns desafios que a nova evangelização apresenta a igreja evangélica frente a uma sociedade plural, cheia de demandas e expectativas. 2.1. A nova evangelização tem que incluir as boas obras Como já mencionei acima, o público alvo da igreja evangélica brasileira quase sempre foi o membro da igreja católica. Entendiam e entendem os evangélicos que os católicos não vão para o céu por causa da idolatria aos santos, da veneração a Maria e da pratica das boas obras como meritórias para a salvação eterna. É fato que o crescimento da igreja evangélica é dependente em grande escala da evasão dos fiéis católicos de suas paróquias, como já observamos acima. Especialmente em relação às boas obras os evangélicos não foram desafiados a praticá-las por duas razões que se sobressaem em relação às demais: (1) a salvação é unicamente pela fé em Cristo e, consequentemente, (2) as boas obras não possuem importância para a salvação. Sempre se ensinou no meio evangélico que as boas obras não salvam, mas que deveriam ser praticadas porque a pessoa é salva, ou seja, as boas obras são vistas como mero adorno da fé cristã. Não é de se admirar então que esse ensino tenha enfraquecido a importância das boas obras. Devemos lembrar que esse assunto não é novo. Na própria Reforma Protestante do Século 16 um forte argumento dos reformadores foi justamente que as obras não possuíam valor salvífico. Os reformadores argumentavam contra a teologia católica, especialmente a esposada por Tomas de Aquino. Estão corretos os evangélicos ao não aceitarem as boas obras como fator preponderante para a salvação eterna. Todavia, no afã de defender a doutrina da salvação pela fé (sola Fide), os mesmos deixaram a prática das boas obras. Aqui está, portanto, um dos problemas da nova evangelização. Se a velha evangelização era basicamente verbal, hoje somente o discurso já não se sustenta. Se no passado acusavam-se os católicos de serem idólatras, hoje a igreja evangélica também tem dezenas de ídolos não em formas de imagens, mas no seu imaginário. Se anteriormente dizia-se que a fé católica era impura, hoje a fé evangélica também está eivada de crenças e misticismos dos mais exagerados. Ou seja, o argumento de que a igreja evangélica é melhor do que a igreja católica já não tem mais tanta força para convencer a migração. Qualquer pessoa mais atenta questionará o evangelizador sobre os desmandos dos líderes evangélicos, da volúpia pelo poder dentro das denominações e, principalmente, pela ganância financeira que não encontra limites. O caminho para a nova evangelização – sem explicitar a quem se dirige o ouvinte, pois hoje é impossível afirmar com certeza que o evangélico é salvo, e que o católico não –, é a pratica das boas obras em nome de Deus. Refiro-me aqui às obras que advêm da fé em Cristo, conforme advogou Martinho Lutero 3 . Se antes o recipiente da mensagem ouvia, hoje ele que ver. Quer ver os atos de justiça e de bondade do povo de Deus. Somente através do serviço ao outro, conforme o modelo deixado por Jesus 3 “Se a justiça consiste na fé, fica claro que somente a fé cumpre todos os mandamentos e torna justas todas as obras. Pois ninguém é justo a não ser que cumpre todos os mandamentos de Deus. Por outro lado, as obras não conseguem justificar ninguém perante Deus sem a fé. O santo apóstolo rejeita as obras e exalta a fé tão aberta e claramente, que se irritaram com suas palavras. Disseram: 'Ora, então não vamos mais praticar boas obras'. São Paulo condena estes como errados e insensatos (cf. Romanos 6.15)” (Lutero, 1999 p. 23-24). Cristo nas Escrituras, é que é que se pode mover o evangelizado a perceber um Deus que se importa e que verdadeiramente o ama. A igreja evangélica brasileira precisa urgentemente rever a sua prática, tirar os pés do templo e andar nas ruas do bairro, da vila e da cidade. O exemplo de ministério bondoso vem de Jesus, que “percorria todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo” (Mt 9.35). O mundo não quer mais ouvir, mas ver Cristo em nós, a esperança da glória (Cl 1.27). 2.2. A nova evangelização tem que ser realizada pelos leigos 4 Os principais atores no desempenho da missão evangelizadora são os chamados leigos. Ou seja, a imensa maioria de pessoas redimidas por Cristo e que fazem parte do seu povo na terra. A missão intramuros é importante, pois é nessa dimensão que se cuida dos que estão sendo incorporados no povo de Deus. Qual a validade de resgatar pessoas para o reino de Deus se não há quem cuide delas? A igreja é uma comunidade terapêutica. Precisamos, todavia, recuperar o significado da missão para o outro que está alheio ao amor de Deus. Quem vai realizar essa missão? Certamente não são os clérigos, ou os profissionais que receberam a função de instruir o corpo de Cristo. Lamentavelmente, decorridos alguns séculos da Reforma protestante, ainda não vencemos a dicotomia clérigo-leigo. Os clérigos se veem como as pessoas mais importantes da comunidade e, em contrapartida, os leigos se veem como incapazes de realizar qualquer coisa para Deus. Dois universos que raramente se cruzam e não se cruzam principalmente porque os clérigos não confiam nos leigos. Está certo Eugene Peterson ao afirmar que é “uma questão de ego, na realidade. Temos milhares de eufemismos para o nosso ego – preocupação espiritual, sabedoria teológica, preparo dos leigos. Todos esses termos podem ser eufemismos para não confiarmos nos leigos” (Peterson, 2009, p. 288). Insistir no ministério profissional com o objetivo de transformar a realidade será perda de tempo e recursos. Os clérigos são importantes no papel a eles confiado, qual seja, instruir e lançar o povo de Deus ao mundo em missão – a missão centrífuga da igreja. Os clérigos existem para servir ao povo e não o contrário. Quando percebemos que a pompa e a circunstância, outrora criticadas no catolicismo romano, fazem parte da igreja evangélica, sendo inclusive motivo de orgulho, podemos tão somente lamentar. O papel que o leigo deve desempenhar na nova evangelização é crucial para que a mensagem do evangelho chegue a lugares mais amplos dentro de nossa sociedade, onde pastores e líderes não podem chegar e nos quais dificilmente seriam ouvidos. Henri Nouwen descreve o retrato das pessoas de nossa sociedade tão moderna e autossuficiente: Por trás de todas as grandes realizações do nosso tempo, há uma profunda correnteza de desespero. Enquanto a eficiência e o controle são as grandes aspirações da nossa sociedade, a solidão, o isolamento, a carência de amizade e intimidade, os relacionamentos arruinados, o tédio, a sensação de vazio e depressão e uma profunda sensação de 4 Para um tratamento mais extenso sobre o tema, ver: BARRO, A. C.; MENEZES, Jonathan. O futuro do leigo na igreja do futuro. In: BARRO, A. C.; KOHL, Manfred. A igreja do futuro. Londrina: Descoberta, 2011, pp. 227-258. inutilidade enchem os corações de milhões de pessoas neste nosso mundo norteado pelo sucesso (Nouwen, 2002, p. 20). Quem ministrará a uma sociedade como essa? Naturalmente que essa missão está nos ombros dos milhares de homens e mulheres que conhecem o amor Deus e podem reparti-lo com pessoas do trabalho, colegasdo futebol, amigos da escola, parentes e vizinhos. Para que isso aconteça algumas barreiras precisam ser ultrapassadas. Duas são primordiais, quais sejam: a resistência dos clérigos em transferir para os leigos o papel de principais atores na missão de Deus no mundo, e a vagarosidade dos leigos em compreender que eles são os atores da missão e não meros coadjuvantes dos clérigos 5 . Após anos de doutrinação ou domesticação dos leigos é natural que eles não tenham a consciência de sua importância na práxis evangélica. Por isso, permanecem na comunidade de forma inoperante; ou ficam “ocupados”, mas não fazendo nada de realmente produtivo para o reino de Deus, mas para si mesmos; ou ainda ficam procurando novas “emoções” na troca por outras comunidades. É senso comum entre teólogos, especialmente entre missiólogos, que o testemunho e o ministério da igreja se dão fora dos limites da comunidade local. O laicato, enfatizamos uma vez mais, precisa entender e internalizar que ele é a igreja de Deus no mundo. Não existe outra. A igreja institucional e hierárquica nada pode fazer. Os cristãos necessitam passar por um processo restaurador da fé, receber uma renovação interior que vem do Espírito Santo e que possa fortalecer a cada um para o cumprimento da missão. A acomodação dos cristãos e a impotência frente aos desafios da sociedade são barreiras a serem vencidas. 2.3. A nova evangelização tem que ser dialogal A velha evangelização era uma apresentação monológica do evangelho. O evangelizador, possuidor do conhecimento de Deus, comunicava e o recipiente passivamente ouvia e era muitas vezes obrigado a dizer apenas “sim” ou “não” perante o oferecimento da mensagem. Era muito comum que, logo após a apresentação do evangelho, surgisse a pergunta: “Você quer receber a Cristo como o único senhor e salvador da sua vida?”. Quando havia resistência o evangelizador auxiliava fazendo o que se chama “a oração do pecador”. Isso consistia na repetição por parte do ouvinte da oração que era feita para receber Jesus como o salvador da vida. Não havia espaço para dialogar sobre dúvidas que pudessem surgir. No mundo de hoje, esse tipo de evangelização está caindo em desuso porque a grande maioria das pessoas quer dialogar e principalmente fazer muitas perguntas a respeito de Deus e especialmente da igreja. Se no passado o evangelizador era despreparado para outras conversas que não fossem aquelas para as quais foi previamente treinado a ter, o mesmo não pode acontecer hoje. Vimos no retrato da sociedade pintado por Nouwen que evangelizar hoje é mais complexo do que simplesmente decorar algumas regras ou estudar um manual de evangelismo e passar adiante. Evangelizar hoje é significa se engajar num diálogo sério e profundo para que o outro sinta que não é apenas um alvo a ser alcançado ou um número a ser acrescentado no rol de membros da igreja. Um aspecto muito importante no evangelismo dialógico é a habilidade de ouvir atentamente o outro. Não existe, a priori, a supremacia de pensamento sobre o 5 Como reitera Peterson: “Os leigos deviam se comprometer fazer o ministério efetivo da igreja, e o pastor deveria se comprometer com a direção espiritual dos leigos” (Peterson, 2009, p. 288). interlocutor, portanto, não se pode dominar a conversa como se o outro não tivesse nada a contribuir. Também não se deve fechar os ouvidos para os anseios e questionamentos que são feitos. Muitas vezes no evangelismo tradicional o outro é ouvido apenas com o propósito de ser rebatido ou refutado quanto aos questionamentos, não se preocupando com a legitimidade dos mesmos. A igreja evangélica tem receio de praticar o evangelismo dialógico, pois pensa que isso equivale a abrir mão do conteúdo do evangelho. Diálogo não significa abrir mão dos pressupostos da fé cristã, dos valores e princípios do evangelho. Aceitar que qualquer caminho tomado conduzirá eventualmente à salvação eterna joga por terra e anula totalmente a cruz de Cristo. Devemos ter um compromisso, sem reservas, com o conteúdo do evangelho conforme revelado por Jesus Cristo e pelo Apóstolo Paulo. A relativização do evangelho já ganhou muito terreno no seio da igreja, principalmente entre teólogos evangélicos com inclinações ao diálogo inter-religioso. No afã de tornar-se moderno e ajustar-se ao conceito do politicamente correto, o conteúdo do evangelho já não é exposto com tanta ousadia e a certeza de ser o Cristo o único mediador entre Deus e a humanidade vem perdendo força. Miroslav Volf, nesse sentido, faz um importante resumo de como as várias correntes teológicas tentam acomodar o evangelho em relação à cultura de acordo com os ditames da época. Podem-se resumir essas correntes em duas tendências principais: ou o evangelho tem algo a dizer por não ser parte da cultura; ou a cultura envolve o evangelho tornando o mesmo irrelevante por ser exatamente igual à cultura. Para Volf, a chave está em o evangelho ser diferente. Diz ele: “Se você tem a diferença, você tem o evangelho. Se você não tem, você terá então simplesmente a velha cultura ou o reino universal de Deus, mas você não terá o evangelho. O evangelho sempre será sobre a diferença; afinal, ele significa as boas novas – alguma coisa boa, alguma coisa nova, e, portanto, diferente!” (Volf, 2011, p. 95 – Tradução minha). Essa declaração de Volf adquire importância porque vivemos exatamente numa época de grande pressão sobre a igreja e sua mensagem salvadora. É na pluralidade das religiões e no diálogo inter-religioso que se questiona o conteúdo do evangelho como único. A tendência por parte das teologias modernas é descaracterizar a unicidade da salvação. O movimento hoje é em direção a um mundo harmonioso onde cada pessoa busca sua maneira de ser feliz. Em um artigo com sugestivo título, Claudio de Oliveira Ribeiro deixa bem claro essa tendência ao defender: Não basta meramente condenar as formas fundamentalistas, pois elas possuem raízes mais vigorosas e na maioria das vezes com significado social profundo. No caso de movimentos fundamentalistas contemporâneos no islã, por exemplo, muitos têm sido vistos como reação defensiva aos impactos da cultura ocidental, percebida como destruidora de valores sociais e religiosos. Algo similar pode se dizer sobre o conversionismo exacerbado de grupos cristãos, que gera uma identidade rígida, mas forma um sentimento de pertença em um mundo de despersonificação e anomia. Talvez, uma comunicação mais dialógica entre as religiões pudesse contribuir para que todas identificassem as próprias limitações e se voltassem, assim, para a promoção dos valores humanos e para o bem-estar de todos (Ribeiro, 2012, p. 102). Retornamos assim ao velho humanismo como sendo o alvo último da existência humana. No Brasil temos até mesmo um ditado popular que poderia ser aplicado aqui: “Cada um para si e deus para todos”. Deus com inicial minúscula ou ainda substituir “Deus” por “ser celestial”, entidade divina ou algo similar. A outra conclusão é também interessante. Qualquer um que enfatizar o papel de Cristo como o único mediador entre Deus e a humanidade será imediatamente classificado como fundamentalista. O caráter do evangelismo dialógico é em verdade altamente respeitoso. O outro tem o direito de continuar crendo na sua própria maneira de se salvar ou de não crer em nada do que diz respeito à pós-morte. Podemos não concordar, mas temos que aceitar e conviver pacificamente com todas as pessoas tenham elas credos religiosos ou não. Na evangelização dialogal o evangelizador também é evangelizado. As proposições que ele/ela faz ao outro retornam à mente com um grande e retumbante eco: “As perguntas, as inquirições que estou fazendo como sendo verdades para o outro, são verdades para mim?” E ainda mais: “Isso que eu indico como sendo a verdadeira vida para o outro, é realidade no meu caminhar?”. Nessesentido, não evangelizamos apenas o mundo, mas também a igreja. Deixamos a superioridade de lado e nos tornamos discípulos no caminho de Emaús, pedindo ao Cristo a sua presença abençoadora: “Fique conosco, pois a noite já vem; o dia já está quase findando” (Lc 24.29). 2.4. A nova evangelização tem que ser integral ou holística A igreja, nessa altura de sua caminhada, necessitaria estar ciente de sua missão. Os textos bíblicos e as reflexões teológicas sobre o tema já deveriam ter encontrado espaço na práxis dos cristãos protestantes. Lamentavelmente não é isso que se vê. 6 A igreja continua isolada no seu próprio mundo, realizando cultos alienantes e, mais trágico ainda, roubando dos cristãos o seu grande privilegio que é transformar a sociedade com o amor de Deus, os princípios e valores do evangelho de Cristo, debaixo da sábia orientação do Espírito Santo. O Pacto de Lausanne chama a atenção para esse aspecto: “Na missão de serviço sacrificial da igreja a evangelização é primordial. A evangelização mundial requer que a igreja inteira leve o evangelho integral ao mundo todo” (Pacto de Lausanne, Art. 6). Para que a igreja leve o evangelho integral ao mundo é mais do que óbvio que ela precisa estar no mundo. Jacques Ellul começa seu livro The presence of the Kingdom afirmando exatamente isso: “A Bíblia nos diz que o cristão está no mundo, e no mundo ele precisa permanecer. O cristão não foi criado a fim de separar-se do, ou viver reticente do mundo” (Ellul, 1967, p. 7). Ainda que o Pacto de Lausanne não tenha tido a ousadia de declarar que a evangelização e o serviço que a igreja presta ao mundo tem a mesma importância no reino de Deus, não se pode negar que foi a partir do mesmo que a igreja evangélica despertou para o lado social do evangelho. Esse lado social era uma das bandeiras da teologia liberal, mas que encontrava resistências nos setores mais conservadores da igreja. Temos outra declaração do Pacto que chama a atenção: “... na ânsia de conseguir resultados para o evangelho, temos comprometido a nossa mensagem, temos manipulado os nossos ouvintes com técnicas de pressão, e temos estado excessivamente preocupados com as estatísticas, e até mesmo as utilizando de forma desonesta. Tudo isto é mundano. A igreja deve estar no mundo; o mundo não deve estar na igreja” (Pacto 6 Para aprofundamento na discussão sobre a falta da missão integral na vida da igreja, sugiro a leitura do ensaio “A missão integral, expectativa e frustração”, de Ricardo Gondim, em: GONDIM, Ricardo. Missão Integral: em busca de uma identidade evangélica. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p. 61-104. de Lausanne, Art. 12). Esse é o resultado da falta da missão integral como elemento norteador da evangelização. A igreja perde o seu referencial e também sua identidade a ponto de cometer deslizes para alcançar seu crescimento numérico. Creio que não podemos mais nos contentar com uma obsoleta forma de evangelização, que pressupõe apenas o interesse pela alma da pessoa. Essa evangelização é meramente um rodízio de batizados. Um ano em uma igreja, outro período em outra. Falta respeito para com os valores do reino de Deus quando fazemos do proselitismo uma arma para encher os templos. O Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE I), realizado em Belo Horizonte em 1983, tinha como um dos objetivos reavaliar a prática de evangelização “perguntando por sua fidelidade à Palavra de Deus e sua eficácia metodológica, buscando superar nossas limitações e propondo novos modelos de evangelização” (Steuernagel, 1985, p. 13). Não creio que esse ideal se concretizou na prática. A luta continua e a obstinação da liderança evangélica um dia será vencida e o ideal de Cristo e seu reino triunfarão. Os postulados da missão integral ainda permanecem como um grande desafio para quase a totalidade das igrejas evangélicas. Grande parte dos pastores e líderes é formada em seminários teológicos onde o tema não está incluído na grade curricular. Se essa liderança não fizer um curso extra ou participar de alguma conferência sobre o tema, certamente que as pessoas debaixo de sua liderança não entenderão o que significa missão integral. Nesse sentido, a Faculdade Teológica Sul Americana, em Londrina, procura desenvolver a sua educação teológica. A missão integral é o guarda- chuva que abriga todas as matérias a serem ensinadas. A pergunta feita a/por cada professor é: “Como a minha disciplina contribui para o avanço da missão integral?”. 7 O alvo da nova evangelização não se resume, dessa maneira, tão somente ao indivíduo e suas necessidades particulares e existenciais, mas, principalmente, na transformação da sociedade. São nos relacionamentos do dia a dia que os sinais da conversão se tornam concretos. Considerações finais Sentindo-se acuada e não sabendo dialogar com essa nova sociedade, a igreja retrai-se ainda mais para dentro de seus portões e abandona sua missão transformadora por sentir-se inadequada frente à sociedade. Para que a igreja pratique a nova evangelização com os postulados acima defendidos, creio serem necessários alguns ajustes. Em primeiro lugar, deve-se ter um compromisso de substituir a evangelização proselitista que ocupa lugar central na prática de quase todas as denominações evangélicas. No passado, esse proselitismo se dava em relação aos católicos romanos, que, por sua vez, não eram considerados como salvos por Jesus Cristo. Hoje, esse proselitismo é inclusivo, direcionado a todas as denominações. O incentivo para se trocar de comunidade é intenso e incessante. Voltamos ao tempo em que “fora da igreja 7 Creio não ser necessário, dado ao limite de espaço, elaborar mais sobre esse tema. Há muitos autores para ser lidos, tais como C. René Padilla, Orlando E. Costas, Samuel Escobar, Caio Fábio, Robinson Cavalcanti, Júlio Zabatiero, dentro tantos outros. Podem-se ver ainda os documentos dos CLADE (até a quarta edição) em: LONGUINI NETO, Luiz. O novo rosto da missão: os movimentos ecumênico e evangelical no protestantismo latino-americano. Viçosa, MG: Ultimato, 2002. Para uma boa introdução ao assunto da missão integral, ver: CARRIKER, Timóteo. Missão integral: uma teologia bíblica. São Paulo: Editora Sepal, 1992. não há salvação”. Fora da denominação do evangelizador não existe a menor possibilidade de salvação! Daí a insistência para mudar de comunidade. Historicamente, podemos afirmar que a evangelização proselitista não resultou ou não produziu mudanças significativas no seio da sociedade. A simples mudança de uma denominação para outra não tornou o novo “crente” em um cristão consciente de sua identidade e papel na missio Dei. A pessoa mudou de endereço eclesiástico, mas continuou com a mesma apatia em relação a participar da missão de Deus no mundo. Qualquer estatística brasileira demonstrará que a sociedade piora a despeito do crescimento das igrejas evangélicas. Portanto, se no passado culpava-se a igreja romana como sendo responsável pelas mazelas brasileiras, hoje essa acusação não faz mais sentido. O católico apenas se tornou protestante, mas continua igualmente ignorante de seu papel de sal da terra e luz do mundo. Em segundo lugar, como consequência do que foi anteriormente afirmado, a nova evangelização deve passar pela superação de duas tradições que se encastelaram na história da igreja protestante, quais sejam: eclesiocentrismo e denominacionalismo. A igreja centralizada em si própria é uma aberração bíblica e teológica. Ela mesma não pode ser o alvo último de sua razão de ser, de sua missão. Nesse sentido, parece que a igreja se assemelha ao profeta Elias quando se volta para Deus e diz: “e só eu fiquei” (1Rs 19.10). A síndrome de Elias faz com que a comunidade e seus membros, influenciados pela liderança, pensem ser os únicos salvos na terra e que todos os demais membros de qualquer outra igreja estão perdidose por isso necessitam de conversão – por “conversão”, aqui, entenda-se “mudança de comunidade”. A veneração denominacional é consequência do eclesiocentrismo. As igrejas locais vivem não somente para si mesmas, mas também para fazer crescer a sua denominação. Esse ideal não é necessariamente um problema, mas se torna um problema quando passa a ser o alvo último da igreja. A denominação precisa ser desenvolvida, mantida e protegida dos ataques dos inimigos – nesse caso, as outras denominações e o próprio mundo com seus encantos. Apela-se então para a história da igreja, seus feitos e seus heróis. Celebra-se muito o passado. A tragédia dessas duas tradições é que elas roubam da igreja exatamente a sua missão hoje. O potencial transformador, a energia e os recursos viram pó e se perdem dentro das paredes do templo. O fiel é ativamente feliz, quando imerso nos diversos programas e atividades locais, e extremamente ineficiente, quando inserido no mundo onde as trevas fazem a festa. Finalmente, mas não esgotando o tema, a evangelização não deve ser baseada em eventos intramuros onde foco da mensagem é apenas (e novamente) o individuo e o objetivo é a mudança de domicilio eclesiástico. Esse tipo de evangelização não possui conteúdos suficientes para que a pessoa possa fazer uma decisão consciente. O resultado da mesma é a produção em larga escala de pessoas que frequentam uma igreja, mas que não entendem os pressupostos da fé cristã e muito menos o papel a ser desenvolvido na missio Dei. A nova evangelização é uma imersão na vida do outro em sua totalidade. Jesus mesmo estabeleceu exemplos desse tipo de evangelismo nos seus profundos diálogos com Nicodemos, com a mulher samaritana, com o jovem rico, Zaqueu e tantos outros. Ele não tinha medo, não criava barreiras ou mesmo demonstrava intolerância para com seus interlocutores. Para ele, o passado do outro não interessava tanto quanto sua perspectiva futura no reino do Pai Celestial. É nesse mesmo caminho que devemos seguir, pois somos amigos de Jesus e, como tais, fazemos o que ele fez e o que ele ordena (Jo 15.14).