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MISSÕES E EVANGELIZAÇÃO Professor Me. Marcelo Aleixo Gonçalves Professor Me. Roney de Carvalho Luiz GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; GONÇALVES, Marcelo Aleixo; LUIZ, Roney de Carvalho. Missões e Evangelização. Marcelo Aleixo Gonçalves; Roney de Carvalho Luiz. Maringá-Pr.: UniCesumar, 2016. Reimpresso em 2021. 268 p. “Graduação - EaD”. 1. Missões. 2. Evangelização. 3. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-0542-4 CDD - 22 ed. 241 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor Executivo de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva Pró-Reitor de Ensino de EAD Janes Fidélis Tomelin Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Diretoria Executiva Chrystiano Minco� James Prestes Tiago Stachon Diretoria de Design Educacional Débora Leite Diretoria de Graduação e Pós-graduação Kátia Coelho Diretoria de Permanência Leonardo Spaine Head de Produção de Conteúdos Celso Luiz Braga de Souza Filho Gerência de Produção de Conteúdo Diogo Ribeiro Garcia Gerência de Projetos Especiais Daniel Fuverki Hey Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila Toledo Supervisão Operacional de Ensino Luiz Arthur Sanglard Coordenador de Conteúdo Roney de Carvalho Luiz Designer Educacional Ana Claudia Salvadego Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa Arthur Cantareli Silva Ilustração Capa Bruno Pardinho Editoração Matheus Felipe Davi Qualidade Textual Yara Dias Ilustração Daphine Marcon Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não so- mente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in- tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educa- dores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a quali- dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Pró-Reitor de Ensino de EAD Diretoria de Graduação e Pós-graduação Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu- nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessá- rios para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis- cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. A U TO RE S Professor Me. Roney de Carvalho Luiz Graduando no curso de licenciatura em História. Possui mestrado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2012), contemplado com bolsa de estudos pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), e graduação em Teologia pelo Centro Universitário de Maringá (2006). Atualmente, é coordenador e professor do curso de bacharelado em teologia EaD - UniCesumar; professor convidado no curso de pós-graduação lato sensu em teologia bíblica na PUC-PR. É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Atua, principalmente, na área de teologia bíblica. Professor Me. Marcelo Aleixo Gonçalves Pós-graduado em Gestalt Terapia Psicologia (2014). Graduado em Psicologia Bacharelado e Formação de Psicólogo (2014). Bacharel em Teologia pelo Centro Universitário de Maringá - Unicesumar (2013). Pós-graduado em História das Religiões – Universidade Estadual de Maringá - UEM (2007). Mestrado em Missiologia - FTSA Faculdade Teológica Sul Americana (2006). Licenciatura em Filosofia também pela UEM (2004). Graduação em Formação Teológico Pastoral - Seminário Evangélico Metodista de Teologia (2000). É professor no Centro de Ensino Superior de Maringá - Unicesumar. Tem experiência na área de Filosofia, com ênfase em Filosofia da Religião. Atuando, principalmente, nos seguintes temas: aproximações hermenêuticas, exegese bíblica, filosofia, teologia, o divino em Platão e mitologia/mito, História das Religiões, História de Israel, História da Igreja, Poder Pastoral em Foucault e aconselhamento pastoral. Olá, caro(a) aluno(a)! Seja bem-vindo(a) para desbravar reflexões gerais diante de um tema tão oportuno, que visa favorecer sua instrumentalização e preparação para um melhor entendimento de mais um assunto muito relevante para o cristianismo: a Missão e a Evangelização. É importante entender Missão como parte central da teologia cristã, pois tudo que se faz é em função da Missio Dei (missão de Deus), isso porque o Deus da Bíblia é o Deus missionário que trabalha e cumpre uma missão voltada para o resgate da aliança com a humanidade e toda Sua criação. Nosso intento nestas páginas é apresentar, de for- ma panorâmica, alguns aspectos básicos em relação ao tema: Missão e Evangelização. Nosso pressuposto é Deus em Jesus Cristo como o centro/base/alicerce do Evangelho e o autor do chamado, vocare (vocação), para que cada cristão seja um missionário, ou seja, que impelido pelo Espírito Santo cada ser humano continue a apresentar a aliança de Deus em favor de Sua criação. A Graça de Deus é a origem, a possibilidade e a força dinamizadora da missão e da evangelização e parte do pressuposto que Deus em Cristo está no e com o outro antes queo(a) missionário(a), de forma abrangente, seja a ação servidora da Igreja. Queremos te capacitar a partir de fundamentos bíblicos, teológicos, pastorais e históri- cos, a coordenar, com clareza e segurança, projetos contextualizados de ação missioná- ria e evangelística e, assim, cooperar com a Missio Dei. Apresentaremos a doutrina e a prática da Missão e da Evangelização, buscando conciliar teoria e prática atualizadas, trazendo para a vida da igreja um diálogo entre a teologia da encarnação e os desafios presentes da evangelização na sociedade contemporânea. Es- peramos que você reflita sobre as razões bíblico-teológicas para que o desenvolvimento de seu ministério cristão possa ser relevante em contextos urbanos e transculturais. Que Deus abençoe sua vida e seu chamado! Professores Marcelo Aleixo e Roney de Carvalho APRESENTAÇÃO MISSÕES E EVANGELIZAÇÃO SUMÁRIO 09 UNIDADE I MISSÃO CRISTÃ 15 Introdução 16 Missão Cristã – Conceitos E Termos 31 O Que é Missão Cristã? 40 Motivação na Missão Cristã 49 Considerações Finais 54 Referências 56 Gabarito UNIDADE II A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL 59 Introdução 60 A História da Missão Cristã: Por que essa Missão Tem História? 71 O “Grande Século” das Missões Cristãs 81 Missão Integral, Aspectos Gerais 87 Missão Cristã na América Latina 92 Considerações Finais 97 Referências 98 Gabarito SUMÁRIO 10 UNIDADE III TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS 101 Introdução 102 Teologia e Teologia da Missão 113 O Deus Trino e a Missão 116 O Espírito de Deus Atua na Missão Cristã 123 Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? 138 Evangelização e Missão, ou Seja, a Missão de Evangelizar 144 Considerações Finais 149 Referências 151 Gabarito UNIDADE IV EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ 155 Introdução 156 Evangelho, Evangelização e Evangelismo 167 Os Fundamentos Bíblicos da Evangelização Cristã 173 A Teologia da Evangelização Cristã 175 Evangelização Cristã e a Graça de Deus 183 Evangelização na Igreja Primitiva 197 Considerações Finais 202 Referências 204 Gabarito SUMÁRIO 11 UNIDADE V MÉTODOS DE EVANGELIZAÇÃO 207 Introdução 208 Métodos de Evangelização Cristã 211 O Lugar Da Igreja Na Evangelização 216 A Ação Estratégica da Igreja na Evangelização 224 O Evangelista (Santidade de Vida) 232 Conversão (Conceito e Implicações) 260 Considerações Finais 265 Referências 267 Gabarito 268 CONCLUSÃO U N ID A D E I Professor Me. Marcelo Aleixo Gonçalves Professor Me. Roney de Carvalho Luiz MISSÃO CRISTÃ Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar os conceitos e termos que envolvem o tema “Missão Cristã” ■ Conhecer definições que envolvem o tema “Missão”. ■ Verificar alguns fundamentos bíblicos sobre a “Missão”. ■ Entender a motivação evangelística despertando os sentimentos de: gratidão, responsabilidade e de preocupação com os perdidos. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Missão cristã – conceitos e termos ■ O que é Missão Cristã? ■ Motivação na Missão Cristã INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Nosso material está dividido em cinco unidades. Cada uma das três primeiras unidades busca oferecer de forma concentrada alguns temas muito importantes para nossa reflexão sobre a Missão Cristã. As outras duas uni- dades restantes pensarão os pressupostos e os métodos da Evangelização Cristã. Para uma compreensão básica do tema, é necessário fazer uma breve apre- sentação de alguns termos muito utilizados na reflexão sobre Missão Cristã, embora aqui apresentados de forma informativa, no decorrer do material, apa- recerão melhor explanados. Nesta primeira unidade – Missão Cristã: conceitos e termos –, pedimos a sua atenção para as definições e explicações referentes a cada termo: Missão, Missiologia, Missio Dei, Missão Transcultural, Teologia da Missão, Grande Comissão, Missão Integral e Missão Urbana. Apresentamos de forma breve cada termo logo no início, porque entendemos que se pode correr o risco de serem mal entendidos ou confundidos durante as leituras que se seguirão. Neste primeiro momento, os termos aparecem de forma preliminar, porém, no decor- rer da leitura das páginas seguintes, sofrerão uma explanação um pouco mais aprofundada, mesmo se tratando de um material de estudos de aspectos gerais do tema Missão Cristã. O privilégio de ser representante de Deus e o desafio da responsabilidade de sê-lo de maneira adequada devem ter um peso crescente durante a vida do estudante de teologia, por isso, lembraremos de abordar o tema, ainda que de maneira pontual. Queremos, com esse tópico, despertar a ideia da responsabilidade pessoal e de prestar contas a Deus, o Juiz Soberano, um estímulo importante, uma grande motivação, a cumprir, com excelência, o chamado ministerial. Ainda despertar a preocupação pelos não evangelizados e, também, a preocupação pelos já con- vertidos. Trataremos de refletir sobre o objetivo da Missão Cristã e a motivação para a Missão. Ótimos estudos! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 15 ©shutterstock MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E16 MISSÃO CRISTÃ – CONCEITOS E TERMOS Caro(a) aluno(a), para uma compreensão básica desse tema, é necessário fazer uma breve apresentação de alguns termos muito utilizados na reflexão sobre Missão Cristã, embora aqui apresentados de forma informativa, no decorrer do material, aparecerão melhor explanados. O doutor John Stott (2010, p. 47) escreveu que “o ponto de vista mais antigo ou tradicional era o de igualar Missão e evangelismo, missionários e evangelis- tas, missões a programas evangelísticos”. Além disso, esses termos, geralmente, são utilizados com os sentidos mais variados possíveis, algumas vezes gerando confusão entre os mesmos e uma compreensão não correta sobre o que de fato é a Missão. Missão: derivado do latim missio, “envio”, mais especificamente da expres- são latina missione, do verbo mittere, que significa: ação, tarefa, ordem, mandato, compromisso, incumbência, encargo ou obrigação de enviar. Cabe ressaltar o que um simples dicionário apresenta sobre esse termo: ato de enviar ou ser enviado, encargo, incumbência de um dever, compromisso, ordem. E o antônimo é, entre outros, ociosidade. Na língua grega, corresponde à palavra apostole, que, em por- tuguês, é “apóstolo”, isto é, alguém enviado por ordem de outrem para realizar uma tarefa. É associada, exclusivamente, ao cristianismo, até mesmo no Léxico Missão Cristã – Conceitos E Termos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 17 das religiões, editado por Hans Waldenfels, o verbete missão, de Karl Müller SVD, trata, exclusivamente, da Missão Cristã. Em resumo, como apresenta González (2008), a Missão é a atividade de Deus no mundo. Deus é o protagonista da Missão. Deus age no mundo pela Sua graça, para reconciliar o mundo consigo mesmo: 18 Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19 ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da re- conciliação. 20 Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus. (II Coríntios 5.18,19). O termo “missões” está carregado de muitos significados, refere-se à atividade do povo de Deus na comunicação do Evangelho. Para facilitar o aprendizado, optamos, em nossa disciplina, trabalhar tão so- mente o termo “Missão”, ao invés de “Missões”. Tradicionalmente, o termo “Missões”cria uma imagem de movimento unidi- recional: do mundo cristão ao mundo não cristão. Por essa razão, por muito tempo, as missões associavam-se a uma prática missionária eclesiocêntri- ca, na qual a igreja era protagonista da Missão. Portanto as missões são as atividades dirigidas a estender a fé cristã, mesmo em lugares onde a fé já existe. “As ‘missões’ são o que a igreja tem feito – bem ou mal – na gestão de estender a fé fora e dentro das fronteiras onde ela mesma está arraigada” (GONZÁLEZ, 2008, p. 39). Fonte: os autores. MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E18 Karl Barth (1959, p. 120) descreve a Missão da seguinte maneira: entendida no sentido mais estrito da palavra – o qual, contudo, é o sentido real, original – “Missão” significa “enviar”, enviar às nações com o propósito de testificar o Evangelho, o qual representa a raiz da exis- tência e ao mesmo tempo a raiz também de toda a tarefa do povo de Cristo. Na “Missão”, a Igreja se descobre e se põe no seu caminho e, para tanto, dá o passo necessário nas profundezas do seu próprio ser, passo além de seu próprio ser e além do seu próprio ambiente (o que do ponto de vista cristão desperta tantos problemas), para dentro daquela humanidade que está aprisionada a tantas crenças falsas, obstinados e impotentes, e sujeita a tantos deuses falsos (falsos porque refletem simplesmente a própria glória e miséria da humanidade), de invenção e autoridade mais antigas e mais recentes – para aquele mundo dos ho- mens que ainda são estranhos à palavra de Deus concernente à Sua ga- rantia de misericórdia que os inclui, à palavra que em Jesus Cristo tam- bém lhes foi enviada. Portanto, essa palavra deve ser levada primeiro ao homem, como mensagem nova para ele. O chamado que constitui a comunidade é precisamente o mandamento para se levar esta mensa- gem ao mundo dos homens, às nações, aos pagãos. Ao obedecer a este mandamento, a comunidade está empreendendo a “missão aos pagãos”. Tempos atrás, sob o aspecto teológico, a Missão foi tratada apenas como subpro- duto da doutrina do estudo da Igreja, a Eclesiologia. Não muito depois, com as divisões dos temas teológicos, passou a ser colocada como um dos temas da Teologia Prática, muito em função do Conselho Mundial de Igrejas (C.M.I.), órgão do protestantismo, que nasceu do trabalho missionário mundial e dedi- cou muitos estudos à Missão. Podemos dizer que foi o C.M.I., em seus estudos e reflexões, quem trouxe a Missão para o foco central da atenção da Igreja, isso feito, reconhecemos, hoje, que a Igreja existe para a Missão de Deus. É preciso reconhecer que a principal base bíblica para a Missão (Mateus 28.18-20), é, por vezes, mal interpretada, o que lhe impõe uma limitação em sua amplitude, isso porque, muitas vezes, a questão denominacional aparece e busca prender o cha- mado de Jesus a ações particulares de uma igreja, enquanto, na verdade, o texto refere-se à implantação do Reino de Deus, que é bem maior que as denominações. 18 Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a auto- ridade nos céus e na terra. 19 Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mateus 28.18-20). ©shutterstock Missão Cristã – Conceitos E Termos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 19 Então, temos que Missão é o ato de Deus refazer a aliança com o ser humano. Neto (2002, p. 26) escreve que a palavra “Missão”, nos dias atuais, já não está restrita apenas ao ambiente cristão ou religioso. As empresas, indústrias, ins- tituições bancárias etc. adaptaram-se aos novos tempos, deixando claro, para funcionários e clientes, a sua “Missão”. Tornou-se comum entrar num banco e ver escrito em letras garrafais: “Nossa Missão é ser o melhor banco do Brasil, assegurar a satisfação dos clientes, atender às expectativas dos acionistas e con- tribuir para o desenvolvimento do país” (BOSCH, 2002, p. 458). Já segundo Neto (2002, p. 26), nosso ponto de partida para entender a Missão é afirmá-la como o testemunho do amor e da presença de Deus na história pelos cristãos. Desejamos con- ceituar a Missão no âmbito do cristianismo contemporâneo. Vejamos alguns termos: Missionário: um missionário ou evan- gelista é uma pessoa que se deixa usar como cooperador de Deus na Missão e é funda- mental que não haja confusão nos papéis, como percebido, por exemplo, em I Coríntios 3.5-9: 5 Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Se- nhor atribuiu a cada um. 6 Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer; 7 de modo que nem o que planta nem o que rega são al- guma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. 8 O que planta e o que rega têm um só propósito, e cada um será recompensado de acordo com o seu próprio trabalho. 9 Pois nós somos cooperadores de Deus; vocês são lavoura de Deus e edifício de Deus. O missionário é o cooperador do dono da obra, mas a obra não é dele. Como o próprio Jesus um dia disse ao apóstolo Pedro: “‘Simão, filho de João, você me ama?” Ele respondeu: ‘Sim, Senhor, tu sabes que te amo’. Disse Jesus: ‘Pastoreie as minhas ovelhas’” (João 21.16), as ovelhas são do Senhor. Num dos artigos escritos pelo professor Antônio Carlos Barro ([2016], on-line)1, no caso aqui, tra- tando particularmente do missionário num contexto transcultural, comenta que: MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E20 o missionário também existe na forma da sua cultura, tem a mesma aparência do seu povo e os mesmos costumes. Tem a sua cultura ecle- siástica enraizada e com ela identifica-se plenamente. O missionário deve abrir mão do seu direito de pertencer a sua própria cultura antes mesmo de deixá-la. (BARRO, [2016], on-line)1. O missionário não deve ser obstinado, por isso, não pode ancorar-se na sua cultura ao mesmo tempo em que deseja colocar o seu barco em outros portos (culturas). Entre o povo a ser ministrado e o missionário, não deve haver nada, ele é despojado da sua dignidade, ele esvazia-se de si mesmo. Entre o povo a ser ministrado, o missionário é escravo, é pessoa de condição servil e está no meio dos outros para servir, desistindo dos seus próprios interesses. Torna-se semelhante aos outros na medida em que serve. Aos poucos, ele pode ser consi- derado um dentre o povo. “Ele come com os pecadores”, como diziam de Jesus. Humilhar-se é ser cristão. Ninguém será um agente do reino de Deus sem passar pelo processo da humilhação. A obediência a Deus é inquestionável, mesmo em face da morte e dos perigos. Escobar (1997, p. 38) escreve que a reflexão do mis- sionário deve ser sempre iluminada pela Palavra de Deus, “através dos séculos, a obediência ao imperativo missionário de Jesus Cristo, em sua dimensão trans- cultural, recebeu inspiração e direção do modelo pioneiro do apóstolo Paulo”. Missiologia: é a disciplina/ciência teológica que busca estudar a realidade da ação missionária em seu conjunto e em seus diversos elementos e características. Ou seja, é a disciplina da Teologia que se ocupa de analisar e estudar as missões da Igreja sob a luz dos princípios da revelação divina, da história da Igreja, das doutrinas teológicas, conjugando-se com os temas importantes como: a soterio- logia, a Trindade, a cristologia, a eclesiologia, entre outros. Somam-se, ainda, os conhecimentos da antropologia, sociologia e de outros aspectos relacionados, uma vez que, em sua pesquisa, é importante o contato e parceria com outras dis- ciplinas de estudo. Na obra Missões e Antropologia, Filho (2004, p. 67) escreve que “a missiologiacomo disciplina enfrenta alguns problemas. Um deles é que os críticos estão mais preocupados com as ciências sociais do que com os assuntos teológicos”. Outro problema é que a missiologia é feita apenas no ocidente e lhe falta a perspectiva global. Precisa enfrentar situações novas que estão acontecendo no campo missionário, como, por exemplo, o envio de missionários, em maior Missão Cristã – Conceitos E Termos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 21 escala, para os países da janela 10/401. O termo “Janela 10/40” originou-se com Luis Bush, diretor da International AD2000 & Beyond Movement, durante a 2ª Conferência de Lausanne, em Manila, em julho de 1989. Temas como a contex- tualização da Missão da igreja, responsabilidade social na Missão, diálogo como método de evangelismo, questões teológicas no encontro com religiões não cris- tãs e Missão dos seis continentes para os seis continentes precisam ser discutidas amplamente pelos missiólogos, definindo os assuntos mais importantes para o desenvolvimento das missões no século XXI (FILHO, 2004). Em resumo, é a reflexão crítica sobre a Missão, a missiologia é a disciplina que estuda, de forma sistemática e coerente, tudo o que for relacionado à missão de Deus e à da comunidade da fé. É uma disciplina ampla que se desenvolve em diálogo com a Antropo- logia, a Economia, a História, a História das Religiões, a Teologia Siste- mática, e muitas outras disciplinas. (GONZÁLEZ, 2008, p. 67). Observação: González (2008), em sua obra, traz, logo na introdução, o subtema “A história da igreja e a história das missões”, em que escreve que “a história da Igreja e a história das missões não deveriam se separar”. A reflexão crítica sobre a vida da igreja, seja na liturgia, seja na teologia ou nas práticas pastorais, não se deve isolar da reflexão crítica sobre a extensão da fé cristã por parte do povo de Deus em lugares nos quais a igreja chega pela primeira vez ou onde se insere como agente de renovação. Infelizmente, a própria definição das disciplinas – História da Igreja e História das Missões – mostra uma dicotomia, uma estrutura bipolar que parece negar a unidade entre igreja e Missão, insinuando que há cer- tos capítulos na vida da igreja que são parte de sua verdadeira “história” e outros que somente são parte de sua “Missão”. O autor sugere que deveríamos estudar essa história como a História da Igreja em Missão. 1 A partir de Manila, o nome Janela 10/40 ficou convencionado pelas agências missionárias a uma faixa de terra que vai do oeste da África até a Ásia. Subindo a partir da Linha do Equador, fica entre os graus 10 e 40, formando um retângulo. Na região, vive o maior número de povos não evangelizados da terra, cerca de 3,2 bilhões de pessoas em 62 países. É ali que estão algumas megalópoles de hoje, ou seja, cidades com uma grande concentração urbana como Tóquio (Japão), Calcutá (Índia), Bagdá (Iraque), Bancoc (Tailândia), entre outras. De cada 10 pobres da Terra, 8 estão nessa região, e somente 8% dos missionários trabalham entre eles. É nessa faixa que se concentram os adeptos das três maiores religiões não cristãs do mundo: islamismo, hinduísmo e budismo. Na maioria dos países dessa região, há falta de receptividade aos cristãos e, em especial, aos missionários que ali atuam. A liberdade religiosa, quando existe, é frágil. Há necessidade de missionários, líderes, pastores e escolas de treinamento para os poucos cristãos existentes. Há poucos missionários atuando nesses países devido à política de restrições quanto à entrada e perseguições que sofrem. A necessidade de tradução da Bíblia é grande. ©shutterstock MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E22 Missio Dei: a expressão vem do latim, significando “Missão de Deus”, dando a ideia de “o envio de Deus”, no sentido de “ser enviado”, uma frase usada na dis- cussão missiológica protestante, especialmente desde a década de 50. Conforme aponta Guimarães (2012, on-line)2, em seu artigo, essa expressão teve seu uso, primeiramente, em um sentido missionário, em 1934, por Karl Hartenstein, um missiólogo alemão que se inspirou na ênfase que Karl Barth dava a actio Dei, a “ação de Deus”, bem como em uma palestra proferida, em 1928, em que Barth disse que a Missão está relacionada com a Trindade. A ideia da Missio Dei, não o termo em si, teve seu auge no pensamento missionário, em 1952, na cidade de Willingen, por ocasião da Conferência do CoMIn. Foi nessa ocasião que o termo foi entendido de forma clara, e, a partir daí, a Missão passou a ser vista como pro- veniente do próprio Deus, procedente de Sua própria natureza (BOSCH, 2002). Georg Vicedom também teve um papel na popularização do conceito da Missio Dei ao usá-la na Conferência da Cidade do México (1963) e em seu texto The Mission of God (1965). Foi ainda em Willingen que a Missio Dei foi colocada no contexto da Trindade e não no da soteriologia e nem no da eclesiologia. O sentido clássico da expres- são foi ampliado, como claramente o coloca David Bosch (2002, p. 467): Missão Cristã – Conceitos E Termos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 23 a doutrina clássica da Missio Dei como Deus, o Pai, enviando o Filho, e Deus, o Pai e o Filho enviando o Espírito, foi expandida no sentido de incluir ainda outro “movimento”: Pai, Filho e Espírito Santo, enviando a igreja para dentro do mundo. Diante de tal conceito, caro(a) aluno(a), fica claro que a Missão é um atributo divino, da qual a Igreja é convidada (convocada) a fazer parte como um instru- mento para a mesma. Como escreveu Moltmann (1977, p. 64): “não é a igreja que deve cumprir uma Missão de salvação no mundo; é a Missão do Filho e do Espírito mediante o Pai que inclui a igreja”. Historicamente, o conceito de “Missio Dei” foi mutuado da escolástica por Karl Barth em 1932. De lá pra cá, o conceito assumiu um leque bastante amplo de significados, às vezes contrários aos intentos de Barth. Em todo caso, a ideia ajudou a expressar a convicção que a Igreja não é autora e a deten- tora da Missão. Essa última é, antes de mais nada e fundamentalmente, obra do Deus uno e trino. (BOSCH, 2002. p. 467.) Não se pode esquecer que Deus é o protagonista da Missão, pois essa Missão revela o plano de Deus na história humana e leva a termo o projeto do Seu Reino. Cabe à Igreja continuar o caminho missionário, e essa não deve esquecer-se da Missão que Ele nos outorgou e nem do Senhor que a sustenta. “Nem quem planta nem quem rega é alguma coisa, mas Deus é que faz crescer” (Mateus 13.24-30). Hermann Brandt (2006, p. 78) escreve que só se pode falar da Missio Dei como Missio Dei recebida; traduzindo: da corte que Deus faz em Cristo, que não só nos corteja, mas nos “libertou”, “nos tirou de toda servidão [...] para a liber- dade”, pelo fato de Cristo nos “ter conquistado” e nos ter posto “sob seu domínio”. Em outras palavras, a tese da Missio Dei se baseia na experiência dessa liberdade recebida. Contudo, para não ser mal entendido, quero dizer o que isso implica e, também, que me leva a fundamentar o discurso da Missio Dei no testemunho do Evangelho experimentado como libertação. MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E24 Missão Transcultural: é a Missão cristã acontecendo além fronteira, imersa em outras culturas, ou como escreve Barro ([2016], on-line)1 em seu artigo, transcultural no sentido de cruzar qualquer fronteira que separa o mensageiro do ouvinte. Convencionou-se pensar em transcultural como além-mares. Todavia é fato que qualquer Missão, seja ela perto ou longe, é Missão transcultural. Além das barreiras mais conhecidas, como a da linguística,costumes, geográficas, étni- cas etc., temos, ainda, as barreiras sociais, morais, religiosas, familiares. Como escreve Escobar (1997, p. 52), “a Missão cristã sempre implicou em cruzar fron- teiras, porém cada geração cristã, ao cruzar novas fronteiras, tem de explorá-las antes de lançar-se à aventura”. Teologia da Missão: é o estudo do enfoque teológico da Missão cristã; pro- põe elaborar e estudar os temas bíblicos que se destacam apontando a questão salvífica, plano de Deus para todas as pessoas. Nessa perspectiva, a Bíblia apre- senta a história da salvação e o chamamento da Igreja para cumprir a Missão. A Teologia da Missão deve ser algo que nasce no coração de uma Igreja essen- cialmente missionária a serviço dos pobres e dos outros. Deve ser uma Igreja diferente, pois não tem pátria, cultura ou é dona de verdades, ela, sim, espera por sua pátria celestial e, enquanto aguarda, precisa estar empenhada, desen- volvendo a Missão para a qual foi comissionada. Teologia da Missão tem a ver com o Evangelismo que é: aquela atividade de Deus, por meio de seus representantes, com o pro- pósito de promover a redenção dos homens. O Deus da Bíblia está inte- ressado nos homens. O primeiro e maior dos missionários foi o Logos, chamado Cristo, durante sua Missão terrena. (CHAMPLIN; BENTES, 1995, p. 259). Essa Missão é a Missão de uma comunidade eclesial comprometida com a defesa da vida e o anúncio insistente da mensagem de salvação, 18 Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19 ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da re- conciliação. 20 Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus. (II Coríntios 5.18-20). Missão Cristã – Conceitos E Termos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 25 Essa Missão, caro(a) aluno(a), não deve ser simplesmente uma entre muitas ati- vidades da Igreja, deve ser sempre a prioridade, a razão maior de sua existência em relação ao mundo e em obediência à ordenança de nosso Senhor. A Teologia da Missão entende que a Igreja é de natureza missionária, pois nasceu no envio do Filho e na missão do Espírito Santo. Há, ainda, especialmente na América Latina, a Teologia da Missão Integral que frisa a percepção do ser humano em sua integralidade, sua dignidade e ple- nitude de vida e, além disso, entende indissociáveis da mensagem do Evangelho cristão os cuidados com o meio ambiente, criação de Deus e a oposição contra toda forma de opressão e injustiça. Na perspectiva da Teologia da Missão Integral, entende-se que Deus criou o mundo, o fez na expressão do Seu amor e generosidade e culminou sua cria- ção com o ser humano, imagem e semelhança do Criador. Com o ser humano, estabeleceu relacionamento e o incumbiu de cuidar da criação, aspectos que se perderam quando esse era o alvo e em pecado é afastado. 4 Esta é a história das origens dos céus e da terra, no tempo em que foram criados: Quando o Senhor Deus fez a terra e os céus, 5 ainda não tinha brotado nenhum arbusto no campo, e nenhuma planta havia germinado, porque o Senhor Deus ainda não tinha feito chover sobre a terra, e também não havia homem para cultivar o solo. 6 Todavia, brotava água da terra e irrigava toda a superfície do solo. 7 Então, o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente. 8 Ora, o Senhor Deus tinha plantado um jardim no Éden, para os lados do leste, e ali colocou o homem que formara. 9 Então o Senhor Deus fez nascer do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para alimento. E no meio do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimen- to do bem e do mal. 10 No Éden, nascia um rio que irrigava o jardim, e depois se dividia em quatro. 11 O nome do primeiro é Pisom. Ele per- corre toda a terra de Havilá, onde existe ouro. 12 O ouro daquela terra é excelente; lá também existem o bdélio e a pedra de ônix. 13 O segundo, que percorre toda a terra de Cuxe, é o Giom. 14 O terceiro, que corre pelo lado leste da Assíria, é o Tigre. E o quarto rio é o Eufrates. 15 O Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo. (Gênesis 2.4-15). MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E26 A Teologia da Missão Integral se ocupa de temas que chamam a atenção para o resgate do relacionamento dos seres humanos com Deus, com os seus semelhan- tes e, também, com a restauração do propósito inicial – o Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo. E é em Jesus Cristo que essa condição de resgate acontece. Entendemos, teologicamente, que a Missão é um dos atributos pessoais de Deus, isso significa que, do início ao fim, a Missão cristã é a Missio Dei (Missão de Deus) e não do homem. Diante disso, faz-se urgente a busca por uma teolo- gia de missão que não seja antropocêntrica, eclesiocêntrica ou “agenciocêntrica”, mas teocêntrica, isso porque a Missão é uma obra essencialmente de Deus, e Ele nos convocou para cooperarmos na Sua grande obra. Em se tratando de Teologia e Missões, entendo ser importante trazer aqui as palavras de Samuel Escobar (1997, p. 68), quando escreve que, no desenvolvimento recente da teologia na América Latina, a teologia praticamente tem sido missiologia (...), pois para o evangélico latino-a- mericano médio, a evangelização ainda é o âmago da missão da igreja; é a própria razão de ser da igreja. (...) Os teólogos evangélicos na Amé- rica Latina não fazem teologia para a galeria de acadêmicos ou para os cães de guarda fundamentalistas. As questões relevantes na teologia devem ser sempre as mesmas questões de missões. Essa tarefa é empol- gante, mas não sem dificuldades e lutas. E continua explorando esse tema quando afirma que: em relação a missões, a tarefa do teólogo está sempre entre dois ex- tremos: o ideológico e o crítico. Alguns acham que a tarefa do teólogo é prover uma “ideologia” para o empreendimento missionário como ele existe. A função da ideologia é explicar (prover racionalidade) e justificar (sancionar ou legitimar) um fato social. Alguns imaginam a tarefa da teologia de missões exatamente dentro desses parâmetros: a criação de uma teoria de missões que irá substanciar certa expressão do empreendimento missionário. A missiologia simplesmente torna-se metodologia. Outros veem a tarefa da teologia de missões como crítica, em que o empreendimento missionário é submetido à luz das ciências sociais, de modo a expor todas as falhas, ao ponto de, no fim, o próprio trabalho missionário ser abandonado. Essa é uma das maneiras de a missiologia tornar-se uma atividade puramente acadêmica, assumindo a forma de um comentário sempre negativo, sem compromisso com a prática. Penso que, mantendo-se perto da atividade missionária, a missiologia evita a armadilha da esterilidade acadêmica. Mas também Missão Cristã – Conceitos E Termos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 27 creio que, sendo fiel à Palavra de Deus, a missiologia também evita a ar- madilha de simplesmente prover uma ideologia conveniente ao sistema missionário existente. (ESCOBAR, 1997, p. 72). Grande Comissão: a Grande Comissão foi a última comunicação terrena do Senhor Jesus. A tarefa remidora é muito grandiosa e requer uma autoridade especial por detrás dela, a autoridade de Cristo, registrada em Mateus 28.18-20: 18 Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a auto- ridade nos céus e na terra. 19 Portanto, vãoe façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20 ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. A Grande Comissão ordena a todos os cristãos que partam e façam discípulos em todas as nações. O caráter centrípeto da evangelização centraliza-se na comu- nhão com a igreja, o lar espiritual dos que decidem arrepender-se e confiar na verdade do evangelho (BOWIE, 1992, p. 15). Gary North diz que a Grande Comissão é necessária, porque o homem, em sua rebelião contra Deus, esqueceu quem foi que lhe deu a sua missão. Ele esqueceu a quem é histórica e eternamente responsável. Os homens precisam de regenera- ção para reconquistar o favor de Deus. O homem ainda está debaixo do governo de Deus, mas recusa conhecer esse fato. Ele adora outros deuses, quer feitos por ele ou encontrados na natureza (Romanos 1.18-21). Ele pode até mesmo adorar As práticas e os métodos missionários, aliados à teologia que se desenvolve antes, durante e depois da gestão missionária, revelam que a relação entre teologia da missão e a prática missionária não é unidirecional. As teologias da missão foram se desenvolvendo conforme a prática missionária enfren- tava conflitos, triunfos, derrotas e até expulsão. Esta história ilustra como as práticas e as teologias mudam ao longo dos tempos à medida que as circunstâncias históricas modificam a cultura e a tarefa missionária Fonte: González (2008, p. 45). ©shutterstock MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E28 a própria natureza (panteísmo), personificando-a como feminina. O fato é que as duas missões de Deus estão unidas por seu status como pactos. Deus estabeleceu primeiro o pacto do domínio (família), porque o homem não tinha se rebelado ainda. Ele, então, estabeleceu a Grande Comissão (Igreja), porque tinha estabe- lecido o fundamento judicial para um Novo Pacto, um pacto universal que une todos os homens, de todas as raças e antecedentes, sob Deus. 15 E disse-lhes: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. 16 Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17 Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; 18 pegarão em ser- pentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”. 19 Depois de lhes ter falado, o Senhor Jesus foi elevado aos céus e assentou-se à direita de Deus. 20 Então, os discípulos saíram e pregaram por toda parte; e o Senhor cooperava com eles, confirmando-lhes a palavra com os sinais que a acompanhavam. (Marcos 16.15-20). Aqui, como os discípulos, recebemos a grande comissão missionária, na qual o Senhor, que agora se assenta à direita de Deus, nos convoca para que Sua obra continue por intermédio da Igreja, Seu corpo místico. O Evangelho que salienta proeminentemente o poder e a atividade do Filho de Deus na terra termina rasgando novos horizontes para a igreja no mundo. Aquela tarefa até hoje é inacabada, mas o mesmo Senhor ainda opera com os que obedecem ao Seu comando, confirmando a Palavra com os sinais que se seguem. (DAVIDSON, 1997, p. 62). Em relação à “Grande Comissão”, González (2008, p. 56) escreve que “a passagem começa com as palavras: ‘portanto, ide...’”. A conjunção “portanto” implica sempre um antecedente, uma razão para o que segue. Nesse caso, esse antecedente são as palavras do próprio Jesus: “todo poder me foi dado no céu e na terra. Portanto, ide...” (Mateus 28.18-19). Em última instância, a razão pela qual os crentes devem ir a todas as nações não é termos pena dos que se per- dem, ou porque nossa cultura seja superior, ou por termos algo a lhes ensinar. Missão Cristã – Conceitos E Termos Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 29 A principal razão é o senhorio universal de Jesus Cristo. Jesus disse que já é o Senhor de toda a terra. Não há lugar onde Ele não esteja. Não há lugar para o qual seja necessário que os crentes o levem. O Senhor, que era no princípio com Deus, por quem todas as coisas foram feitas, e que é a luz que ilumina todo ser, já está lá. Está atuando nos indivíduos e nas culturas, ainda que não o conhe- çam, ainda que Sua presença seja anônima. Nesse sentido, o que todos os crentes fazem ao darem seu testemunho é convidar outros a crer, levando-os ao conhe- cimento do nome de Jesus, de Seus ensinamentos e de Suas promessas. Mas não levar Jesus. Se o Senhor Jesus já está ali ao chegarmos, isso quer dizer que, no empreendimento missionário, vamos ao encontro, não só de quem não crê, mas também de Jesus, em quem nós já cremos. Indo a esses lugares, nos quais Ele nos disse que Seu senhorio, apesar de desconhecido, é real, conhecemos um pouco mais d’Ele e de Seus propósitos. Assim, por exemplo, “Pedro aprendeu um pouco mais do Evangelho ao pregá-lo ao pagão Cornélio e a igreja antiga aprendeu um pouco mais ao penetrar a cultura grego-romana” (GONZÁLEZ, 2008, p 65). Bosch (2002), logo na introdução de sua obra, nos informa que, desde os anos 50, tem havido uma notável escalada no uso do termo “Missão” entre os cristãos. Isso foi acompanhado de uma significativa ampliação do conceito, ao menos em certos círculos. Até a década de 1950, a palavra “Missão”, mesmo não sendo usada numa acepção unívoca, tinha um conjunto de sentidos razoavel- mente circunscrito. Ela designava: a. O envio de missionários a um território especificado. b. As atividades empreendidas por tais missionários. c. A área geográfica em que os missionários atuavam. d. A agência que expedia os missionários. e. O mundo não cristão ou “campo de missão”. f. O centro a partir do qual os missionários operavam no “campo de missão”. g. Uma congregação local sem um pastor residente e que ainda dependia do apoio de uma igreja mais antiga estabelecida. MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E30 h. Uma série de serviços especiais destinados a aprofundar ou difundir a fé cristã, em geral, em um ambiente nominalmente cristão. Se tentarmos elaborar uma sinopse mais especificamente teológica de “Missão”, assim como o termo tem sido usado tradicionalmente, observamos que ela foi parafraseada como: ■ Propagação da fé. ■ Expansão do reinado de Deus. ■ Conversão dos pagãos. ■ Fundação de novas igrejas. Ainda assim, todas essas conotações associadas à palavra “Missão”, por mais fami- liares que sejam, são de origem bastante recente. Até o século 16, o termo era usado exclusivamente com referência à doutrina da Trindade, isto é, ao envio do Filho pelo Pai e do Espírito Santo pelo Pai e pelo Filho. Os jesuítas foram os primeiros a usá-lo em termos da difusão da fé cristã entre pessoas (incluindo protestantes) que não eram membros da Igreja Católica. Nessa nova acepção, ele estava intimamente associado à expansão colonial do mundo ocidental no que, mais recentemente, se tornou conhecido como Terceiro Mundo (ou, às vezes, Mundo dos Dois Terços). Resumidamente, temos, então, que o termo “missão” pressupõe alguém que envia, uma pessoa ou pessoas enviadas por quem envia, as pessoas para as quais alguém é enviado e uma incumbência. Toda a terminologia pressupõe, assim, que quem envia tem a autoridade para fazer isso. Com frequência, sustentava- -se que quem realmente enviava era Deus, que tinha a incontestável autoridade de decretar que pessoas sejam enviadas para executar Sua vontade. Na prática, entretanto, a autoridade era entendida como sendo conferida à Igreja ou a uma sociedade missionária, ou mesmo a um potentado cristão. Nas missões católicas romanas, em particular, a autoridade jurídica permaneceu sendo, durante muito tempo, o elementoconstitutivo da legitimidade do empreendimento missionário. Fazia parte de toda essa abordagem conceber a missão em termos de expansão, ocupação de campos, conquista de outras religiões e coisas semelhantes. Projeto Missionário: é entendido como o conjunto de esforços, métodos e estratégias para levar adiante a Missão; envolve a parte técnica e operacional e a discussão do alvo. O Que é Missão Cristã? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 31 O QUE É MISSÃO CRISTÃ? Gosto da definição de Hermann Brandt (2006, p. 37), quando diz: minha definição é muito singela: missão é impulso para a transforma- ção. Trata-se de uma definição propositalmente minimalista, oriunda da perspectiva externa. Embora ela não baste para a concepção de Mis- sio Dei (sem excluí-la, entretanto), não se expõe à crítica de que missão seria exclusivamente proselitismo ou colonialismo. Antes, tal redução da compreensão de missão presta-se para incluir a múltipla e recíproca influência, distanciamento, adoção e transformação, os quais, muitas vezes, são excluídos ao se preconizar ou repudiar uma “ordem” autori- tativa de fazer missão. A Missão Cristã teve um desdobramento histórico importante que vale a pena ser percebido: “até o século XVI, o termo missão era usado para a Trindade, referindo-se ao ato do Pai enviar o Filho e, do Pai e o Filho enviarem o Espírito Santo. A conotação era compreendida no sentido da Missio Dei” (BOSCH, 2002, p. 17). A partir daí, uma nova conotação emergiu, no entanto, hoje, o conceito começa a ser visto, uma vez mais, como Missio Dei. Como já visto, Missão é um atributo divino. Esse conceito difere do que tradicionalmente era aceito, ou seja, a propagação do cristianismo, historicamente falando: especialmente a partir do século XVIII, se concebia a missão essen- cialmente em termos geográficos: era quase sempre um cruzamento de fronteiras geográficas com o propósito de levar o evangelho [...] para os “campos missionários” do mundo não-cristão (os países pagãos). (PA- DILLA, 1982, p. 14) Os Jesuítas usavam o termo para descrever a ação da Igreja Católica em difun- dir sua fé entre os que não pertenciam ao seu redil. No último século, a ideia de missão caminhou para o conceito de Missio Dei, pois não existe missão desli- gada de Deus e tudo o que a igreja faz emana da ação de envio de Deus, o Pai, Deus, o Filho, e Deus, o Espírito Santo. Dessa forma, missão e Missio Dei tornam- -se sinônimas, contudo a expressão missão é, por vezes, utilizada para referir-se à Missio Ecclesiae (Missão da Igreja). Esse sentido só é real na concepção do comissionamento da Igreja por parte do Deus trino: MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E32 Deus, o Pai, enviou o Filho, e o Filho é ambos, o Enviado e o Enviador. Juntos, o Pai e o Filho enviam o Espírito Santo, que, por sua vez, envia a Igreja, congregações, apóstolos e servos, colocando sobre eles a obri- gação de cumprir seu trabalho. (BOSCH, 2002, p. 20). A Missio Ecclesiae nada mais é do que a Missio Dei: “Deus não tem uma missão para a sua Igreja, mas uma Igreja para a Sua missão” (BOSCH, 2002, p. 23). Aqui, pode-se destacar outra ênfase que surgiu na conferência de Willingen e poste- rior conferência da Cidade do México, que relacionou a Missio Dei e a Missio Ecclesiae e afirmou que “não há participação em Cristo sem participação em sua missão” (BOSCH, 2002, p. 23). A Missio Ecclesiae, como o recebimento do “envio”, da Missio Dei, ficou clara nas palavras de Cristo em João 20.21 – “Disse- lhes, pois, Jesus, outra vez: paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. As palavras de Jesus evidenciam que Missão é participar do envio de Deus entendido em seu ministério trinitário, cujo fundamento é o amor por toda a humanidade, revelado cabalmente na encarnação de Jesus de Nazaré. Ele é o centro do envio de Deus e a Missão que lhe corresponde segue os seus passos. Nesse sentido, missão é, antes, uma ação divina do que da Igreja. O fato é que a Igreja não tem uma Missão em si, mas diante da entrada do pecado e do processo deformativo que esse trouxe ao mundo, Deus concedeu ao ser humano, em Sua bondade e misericórdia, o privilégio de participar e se envol- ver em Sua missão, a Missio Dei. Assim, “missão é manifestar o amor do Reino de Deus, como compartilhado em Cristo, no poder do Espírito Santo, através de palavras e obras com vistas à transformação, à restauração integral de toda a criação, para a glória divina” (BARRO, 2008, on-line)1. Missão Cristã pressupõe presença e diálogo, deve ser caracterizada pela ida do cristão até a(s) pessoa(s) que necessita(m) ouvir(em) e receber(em) o Salvador Jesus e marcada por uma clara comunicação do propósito de salvação oferecida por Deus. Crendo que o missionário não está sozinho em Missão, pois o Senhor Jesus prome- teu estar presente (Mateus 28.20) e há, também, a presença ativa do Espírito Santo. 7 Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. 8 Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. 9 Do pecado, porque os homens não crêem em mim; 10 da justiça, por- que vou para o Pai, e vocês não me verão mais; 11 e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está condenado. (João 16.7-11) O Que é Missão Cristã? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 33 Missão Cristã pressupõe, ainda, serviço, foi assim que nos ensinou o Senhor Jesus, uma vez que Ele mesmo mostrou que veio para servir e não para ser servido. [...] Ao contrário, quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo, 27 e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo; 28 como o Filho do homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Mateus 20.26,27). Nas palavras de Jesus, é maior quem serve mais e não quem é mais servido. 12 Quando terminou de lavar-lhes os pés, Jesus tornou a vestir sua capa e voltou ao seu lugar. Então lhes perguntou: “Vocês entendem o que lhes fiz? 13 Vocês me chamam ‘Mestre’ e ‘Senhor’, e com razão, pois eu o sou. 14 Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros. 15 Eu lhes dei o exemplo, para que vocês façam como lhes fiz. 16 Digo-lhes verdadeira- mente que nenhum escravo é maior do que o seu senhor, como também nenhum mensageiro, é maior do que aquele que o enviou. 17 Agora que vocês sabem estas coisas, felizes serão se as praticarem. (João 13.12-17). E, para servir, é preciso ter disposição para amar, visto que o amor é a base fun- damental do serviço e de todas as virtudes espirituais (Gálatas 5.22,23). O amor está na base do intuito remidor de Deus, 16 Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. (João 3.16,17). E é esse amor que deve nos inspirar e fazer com que nos comprometamos em ir até as pessoas como embaixadores de Cristo em missão. 16 De modo que, de agora em diante, a ninguém mais consideramos do ponto de vista humano. Ainda que antes tenhamos considerado Cristo dessa forma, agora já não o consideramos assim. 17 Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas! 18 Tudo isso provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19 ou seja, que Deus em Cristo estava reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens, e nos confiou a mensagem da reconciliação.20 Portanto, somos embaixado- res de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus. (II Coríntios 5.16-20). MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E34 No intuito de apresentar o que é a Missão Cristã, recorro a David J. Bosch (2002, p. 26), em seu livro “Missão Transformadora”, em que, logo no início, oferece uma definição “provisória”, seguem os 13 pontos por ele apresentados: 1. Proponho que a fé cristã é intrinsecamente missionária. Um elemento distintivo das religiões missionárias, em contraposição às ideologias mis- sionárias, é que todas elas “aderem a algum grande ‘desvelamento’ da verdade última que creem ser de significação universal” (BOSCH, 2002, p. 189). Ainda, a fé cristã, por exemplo, vê todas as gerações da terra como objetos da vontade salvífica e do plano de salvação de Deus, ou, em termos ne- otestamentários, considera o reinado de Deus que veio em Jesus Cristo como destinado a toda a humanidade. (BOSCH, 2002, p. 189). Essa dimensão da fé cristã não é um extra opcional: o cristianismo é missioná- rio por sua própria natureza, ou nega sua própria razão de ser. 2. A missiologia, como ramo da disciplina da teologia cristã, não é um empre- endimento desinteressado ou neutro; ela procura, antes, olhar o mundo a partir da perspectiva do compromisso com a fé cristã. Tal abordagem não sugere uma ausência de exame crítico. Na verdade, precisamente por causa da missão cristã, será necessário submeter toda definição e toda manifes- tação da missão cristã a uma análise e avaliação rigorosa. 3. Por conseguinte, nunca podemos arrogar-nos delinear a missão com excessiva nitidez e autoconfiança. Em última análise, a missão perma- nece indefinível; ela nunca deveria ser encarcerada nos limites estreitos de nossas próprias predileções. O máximo que podemos esperar é for- mular algumas aproximações do que a missão significa. 4. A missão cristã dá expressão ao relacionamento dinâmico entre Deus e o mundo, particularmente à maneira como ele foi retratado, primeiro, na história do povo do pacto, Israel, e, então, de modo supremo, no nasci- mento, vida, morte, ressurreição e exaltação de Jesus de Nazaré. 5. A Bíblia não deve ser tratada como um depósito de verdades às quais poderíamos recorrer aleatoriamente. Não há “leis de missão” imutáveis e objetivamente corretas às quais a exegese da Escritura nos daria acesso e que nos proporcionariam esquemas que pudéssemos aplicar em cada O Que é Missão Cristã? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 35 situação. Nossa prática missionária não é realizada em continuidade inquebrantada com o testemunho bíblico; ela é um empreendimento intei- ramente ambivalente executado no contexto da tensão entre providência divina e confusão humana (BOSCH, 2002). O envolvimento da igreja na missão permanece um ato de fé sem garantias terrenas. 6. Toda a existência cristã deve ser caracterizada como existência missio- nária, ou, nas palavras do II Concílio Vaticano, “a igreja peregrina é por sua [própria] natureza missionária”. À luz disso, é tautológico falar de um “evangelho universal”. A igreja começa a ser missionária não por meio de sua proclamação universal do Evangelho, mas por meio da universa- lidade do Evangelho que ela proclama. 7. Teologicamente falando, “missões no exterior” não é uma entidade sepa- rada. A natureza missionária da igreja não depende simplesmente da situação na qual ela se encontra em dado momento, mas está baseada no próprio Evangelho. A justificação e a fundamentação das missões no exterior, bem como das missões no próprio país, residem na universali- dade da salvação e na indivisibilidade do reinado de Cristo. A diferença entre missões no exterior e no próprio país não é uma diferença de prin- cípio, mas de alcance. Temos, pois, de repudiar a doutrina mística da água salgada, isto é, a ideia de que viajar para países estrangeiros consti- tui a condição sine qua non de qualquer empenho missionário e o teste e critério final do que seja verdadeiramente missionário. A publicação de Godin e Daniel (1943) foi o primeiro estudo sério que destruiu o “mito geográfico” (Bridston) da missão: ela provou que também a Europa era um “campo de missão”. Esse livro, porém, não foi longe o suficiente. Ao conceito de missão como primeira pregação do Evangelho às pessoas pagãs, ele simplesmente acrescentou a ideia de missão como reapresenta- ção do Evangelho a pessoas neopagãs. Ainda definia a missão em termos de seus destinatários, não em termos de sua natureza, e propunha que a missão está cumprida assim que o Evangelho tenha sido (re)apresentado a um grupo de pessoas (BOSCH, 2002). 8. Temos de distinguir Missão (no singular) de Missões (no plural). O pri- meiro conceito designa primordialmente a Missio Dei (missão de Deus), isto é, a autorrevelação de Deus como Aquele que ama o mundo, o envol- vimento de Deus no e com o mundo, a natureza e atividade de Deus, que compreende tanto a igreja quanto o mundo, e das quais a igreja tem o MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E36 privilégio de participar. Missio Dei enuncia a boa nova de que Deus é o Deus para às/pelas pessoas. Missões (as missiones ecclesiae [“missões da igreja”]: os empreendimentos missionários da igreja) designa formas par- ticulares, relacionadas com tempos, lugares ou necessidades específicos, de participação na Missio Dei . 9. A tarefa missionária é tão coerente, ampla e profunda quanto o são a necessidade e as exigências da vida humana. Várias conferências missio- nárias internacionais têm formulado isso desde os anos 50, como a igreja inteira levando o Evangelho inteiro ao mundo inteiro. As pessoas vivem em uma série de relações integradas, portanto divorciar a esfera espiritual ou pessoal da esfera material e social é indicativo de uma antropologia e sociologia errônea. 10. Segue-se do que foi dito anteriormente que a Missão é o “sim” de Deus ao mundo. Quando falamos de Deus, isso já implica o mundo como teatro da atividade divina. O amor e a atenção de Deus dirigem-se primordialmente ao mundo, e a missão é “participação na existência de Deus no mundo”. Em nossa época, o sim de Deus ao mundo revela-se, em grande medida, no engajamento missionário da igreja no tocante às realidades de injus- tiça, opressão, pobreza, discriminação e violência. Encontramo-nos em grau crescente em uma situação verdadeiramente apocalíptica, em que os ricos ficam mais ricos e os pobres mais pobres, e onde a violência e a opressão tanto da direita quanto da esquerda estão aumentando. A igreja em Missão não pode cerrar os olhos a essas realidades, já que o padrão da igreja no caos de nossa época é completamente político. 11. A missão inclui a evangelização como uma de suas dimensões essenciais. Evangelização é a proclamação da salvação em Cristo às pessoas que não creem n’Ele, chamando-as ao arrependimento e à conversão, anunciando o perdão do pecado e convidando-as a tornarem-se membros vivos da comunidade terrena de Cristo e a começarem uma vida de serviço aos outros no poder do Espírito Santo. O Que é Missão Cristã? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 37 12. Missão também é o “não” de Deus ao mundo. Sugeri que missão é o “sim” de Deus ao mundo. Isso foi proposto na convicção de que há uma continuidade entre o reinado de Deus, a missão da igreja e justiça, paz e integridade na sociedade e de que a salvação também tem a ver com o que acontece às pessoas neste mundo. Ainda assim, o que Deus nos pro- porcionou em Jesus Cristo e o que a igreja proclama e corporificaem sua Missão e evangelização não é simplesmente uma afirmação ou ratifica- ção do melhor que as pessoas podem esperar neste mundo em termos de saúde, liberdade, paz e libertação de carência. O reinado de Deus é mais do que o progresso humano no plano horizontal. Assim, se, por um lado, sustentamos o “sim” de Deus ao mundo como expressão da solida- riedade cristã com a sociedade, também temos de confirmar a missão e evangelização como o “não” de Deus, como expressão de nossa oposição e conflito com o mundo. Nem uma igreja secularizada (isto é, uma igreja que se preocupa apenas com atividades e interesses deste mundo), nem uma igreja separatista (isto é, que só se envolve em salvar almas e prepa- rar os convertidos para o além) podem articular fielmente a Missio Dei. 13. A igreja em missão pode ser descrita em termos de sacramento e sinal. Ela é um sinal no sentido de indicação, símbolo, exemplo ou modelo; é sacramento no sentido de mediação, representação ou antecipação. Não é idêntica ao reinado de Deus, mas também não deixa de estar relacionada com ele; é “um antegosto de sua vinda, o sacramento de suas antecipações na história”. Vivendo na tensão criativa de, ao mesmo tempo, ser chamada para fora do mundo e ser enviada ao mundo, ela é desafiada a ser o jar- dim experimental de Deus na terra, um fragmento do reinado de Deus, tendo “as primícias do Espírito” (Romanos 8.23) como penhor do que há de vir (II Coríntios 1.22). Resumindo, missão é a Igreja em movimento, é marca e comprovante de vitali- dade da Igreja, porque uma Igreja morta é aquela que deixa de ser missionária. ©shutterstock MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E38 MISSÃO CRISTÃ - OBJETIVO Caro(a) aluno(a), o objetivo da Missão Cristã é, primordialmente, a salvação da humanidade em todos os seus aspectos. A missão não pode ser nada menos que a continuação da atividade redentora de Deus mediante a publicação dos fatos da salvação. Essa é a sua autoridade maior e sua comissão suprema. Deus nos envia a dar continuidade na história da salvação, a história da Missio Dei. A meta da Missão Cristã não é simplesmente uma salvação individual, pessoal, nem sequer espiritual; é a realização da esperança da justiça, da socialização de toda a humanidade e da paz do mundo. Esse outro aspecto de reconciliação com Deus pela realização da justiça foi descuidado pela Igreja. A Igreja deve trabalhar por essa realização, baseada na esperança futura, como escreveu Moltmann (2009, on-line)3. A Missão Cristã deve estar intimamente relacionada ao propósito divino e universal, propósito esse enfatizado por Jesus. Sendo assim, o objetivo da Missão Cristã é produzir não somente discípulos, mas também trazer de volta ao Pai Seus filhos, para que sejam transformados, dia a dia, segundo a imagem do Filho de Deus e possam se transformar em pro- clamadores das palavras de salvação a outros. Conforme Efésios 4.13, “até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo”. O Que é Missão Cristã? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 39 A obediência à Missão Cristã precisa se tornar efetivamente a forma de viver da Igreja, consequentemente, a forma de viver de cada cristão, pois não pode haver objetivo maior do que cumprir com excelência o chamado de Deus na vida, anun- ciar o Evangelho da salvação e buscar uma vida reta diante de Deus e dos homens. O que se entende, então, como objetivo/finalidade da Missão é: fazer dis- cípulos de (e para) Jesus e isso significa comunicar o Evangelho e oportunizar preparo para as pessoas reconhecerem a ação de Deus a fim de que amadureçam em sua fé e também se envolvam e participem da Missão, isso em uma ação de amor e promoção da pessoa. Não é simplesmente ir atrás de “adeptos”, é, na rea- lidade, buscar alcançar pessoas para o Reino de Deus que cooperarão conosco com a implantação diária do Seu Reino. Não podemos perder de vista a questão de que o Deus cristão é o Deus missionário, que trabalha e age por nós e pelo mundo. Tudo que se deve fazer na Igreja também deve ser feito em função da Missão. Isso significa dizer que a Missão é Missão de Deus, Ele é sempre o maior interessado, e Sua Missão é estabelecer o Seu Reino. O Reino de Deus se expande maravilhosamente em uma progressão incrí- vel, o que Ele disse uma vez restrito aos israelitas: 5 Agora, se me obedecerem fielmente e guardarem a minha aliança, vo- cês serão o meu tesouro pessoal dentre todas as nações. Embora toda a terra seja minha, 6 vocês serão para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. Essas são as palavras que você (Moisés) dirá aos israelitas. (Êxodo 19.5,6). A partir de Cristo, diz a todos nós: 9 Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. 10 Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam. (I Pedro 2.9,10). Desde o começo da história e até o fim dos tempos, Deus age para salvar o mundo e Sua ação mais contundente foi o envio de Seu Filho Jesus para libertar e sal- var. Conforme Lucas 19.10: “pois o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido”. ©shutterstock MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E40 MOTIVAÇÃO NA MISSÃO CRISTÃ Neste tópico, entendo ser muito significativa a questão da motivação, especialmente, em relação à forma de agir da Igreja primitiva e a partir dela. A motivação evangelística, o cumprimento da Missão, seja na Igreja primitiva, seja na igreja cristã de hoje, deve ser sempre a Pessoa do Senhor Jesus Cristo, Seu amor e a Missão que nos outorgou. Seu amor nos constrange e deve nos impulsionar a darmos passos em direção ao perdido, levando-o a compreen- der a necessidade de se reconciliar com Deus. O QUE PODEMOS ENTENDER SOBRE MOTIVAÇÃO? Motivação é um dos mais importantes processos que explicam a conduta humana. Pode ser definida como uma ação dirigida a objetivos, sendo autorregulada, bio- lógica, cognitiva e espiritualmente. Define-se pelo desejo de exercer altos níveis de esforço em direção a determinados objetivos. Há quem diga, em um jogo de palavras, que motivação seja o “motivo da ação”, isto é, qual a razão/motivo que está por trás da ação? O que impulsiona tal ação? Em nossa opinião, quem melhor respondeu a essas questões foi o apóstolo Paulo em sua carta aos Filipenses (2.1- 11, grifos do autor): 1 Se por estarmos em Cristo nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, 2 completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. 3 Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. 4 Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. 5 Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, 6 que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia ape- Motivação na Missão Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 41 gar-se; 7 mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando-se semelhante aos homens. 8 E, sendo encontrado em forma humana, hu- milhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! 9 Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, 10 para que ao nome de Jesus se dobre todo joe- lho, nos céus, na terra e debaixo da terra, 11 e toda língua confesse que JesusCristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. O motivo da ação evangelística não pode, de maneira alguma, ser a ambição ego- ísta ou a vaidade (muitas vezes, percebemos o quanto isso motiva alguns: igrejas maiores, mais recursos, maior reconhecimento pessoal etc.). Paulo escreve que devemos aprender com o Senhor Jesus, em Sua humildade e obediência, agindo para a glória de Deus. O apóstolo Paulo como exemplo de motivação no ministério. Não só no apóstolo Paulo, mas na grande maioria dos cristãos do primeiro século, percebe-se grande motivação em relação à comunhão, unidade, evange- lização/missão e obediência à Palavra de Deus. A motivação de Paulo não era o sofrimento, como alguns inadvertidamente pensam. O sofrimento acontecia como algo para desmotivá-lo, mas vencia a des- motivação com a fé, a convicção de seu chamado e a certeza da volta de Cristo, exemplo disso, temos no que escreveu para Timóteo (1.11-12): 11 Deste evangelho fui constituído pregador, apóstolo e mestre. 12 Por essa causa também sofro, mas não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou bem certo de que ele é poderoso para guardar o que lhe confiei até aquele dia. Tanto em Paulo como nos primeiros cristãos, havia uma grande motivação, um grande entusiasmo para cumprirem a Palavra do Senhor. Estes cristãos eram homens e mulheres de todos os níveis e posições na sociedade, de todos os lugares do mundo conhecido, tão convictos de que eles tinham descoberto a chave para o enigma do universo, com tanta certeza de que conheciam o único Deus verdadeiro, que nada os impedia de transmitir as boas novas a outras pessoas (...). Podiam ser desprezados, ridicularizados, privados dos seus direitos, roubados em seus bens, suas casas, até em suas famílias, nada os deti- nha. Podiam ser caluniados diante das autoridades como ateus perigo- sos, ser obrigados a sacrificar aos deuses imperiais – eles se recusavam a transigir (chegar a um acordo, negociação) (...). MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E42 No cristianismo tinham encontrado algo totalmente novo, autêntico e satisfatório. Eles não estavam dispostos a negar a Cristo, mesmo diante da opção de perder a vida e até pelo seu estilo de morte faziam conver- tidos à sua fé. (GREEN, 1984, p. 79). O versículo 24 corre o risco de ser mal compreendido, quando Paulo diz que “completo no meu corpo o que resta das aflições de Cristo”, exige de nós cuida- dos nessa leitura, pois de forma alguma o apóstolo está dizendo que a morte de Cristo foi insuficiente, nem que de algum modo, ele fez a obra de redenção com Cristo, mas está expressando a ideia de que um cristão, especialmente um líder, suportará os sofrimentos que Jesus estaria suportando (humanamente falando), se ainda estivesse no mundo, isso porque Cristo disse aos Seus discípulos que, se o mundo o odiasse (como se mostrou de fato), também odiaria Seus discípu- los. Caso as pessoas o perseguissem, elas também perseguiriam Seus seguidores: 18 Se o mundo os odeia, tenham em mente que antes me odiou. 19 Se vocês pertencessem ao mundo, ele os amaria como se fossem dele. Todavia, vocês não são do mundo, mas eu os escolhi, tirando-os do mundo; por isso o mundo os odeia. 20 Lembrem-se das palavras que eu lhes disse: Nenhum escravo é maior do que o seu senhor. Se me per- seguiram, também perseguirão vocês. Se obedeceram à minha palavra, também obedecerão a de vocês. 21 Tratarão assim vocês por causa do meu nome, pois não conhecem aquele que me enviou. (João 15.18-20). O apóstolo Paulo acreditava que estava sofrendo as aflições que Deus permitia que ele sofresse e, na segurança de que estava sempre nas mãos de Deus, via suas tribulações como momentos de alegria e fortalecimento de sua fé, não por “gos- tar” do sofrimento, mas por entender que Deus trata com Seus filhos (Hebreus 12.5-8). Já em Romanos (8.16-17) 16 O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. 17 Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória. Sobre esse tema, escreveu ainda o apóstolo Paulo: 27 Não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo, para que assim, quer eu vá e os veja, quer apenas ouça a seu respeito em minha ausência, fique eu sabendo que vocês permanecem firmes num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica, 28 sem de forma alguma deixar-se intimidar por aqueles ©shutterstock Motivação na Missão Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 43 que se opõem a vocês. Para eles, isso é sinal de destruição, mas para vocês, de salvação, e isso da parte de Deus; 29 pois a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por ele, 30 já que estão passando pelo mesmo combate que me viram enfrentar e agora ouvem que ainda enfrento. (Filipenses 1.27-30). Qual era o segredo de tal fervor nas ações evangelísticas da Igreja Primitiva? Qual a motivação no cumprimento da Missão? Para oferecermos uma resposta a essas questões, recorremos a Green (1984), em sua obra “Evangelização na Igreja Primitiva”, na qual o autor resume, em pelo menos três aspectos, três sen- timentos que norteavam as ações e, sem dúvida, eram a motivação para cumprir o chamado do Senhor. 1. O sentimento de gratidão. 2. O sentimento de responsabilidade. 3. O sentido de preocupação. O sentimento de gratidão O que os motivava não era um dever social, não eram razões humanitárias ou benefi- centes, o que os movia era a experiência extraordinária do amor de Deus que Jesus Cristo lhes proporcionara. A descoberta de que a maior força do universo era o amor, e que esse amor tinha descido ao ponto mais baixo da auto-humilhação para o bem e salvação da humanidade, e descobrir isso provocou um efeito enorme sobre os que creram que nada podiam remover. Paulo entendeu isso e foi despertado nele um imenso sentimento de gratidão, sua vida de amor e autossacrifício na causa do Evangelho mostram com que profundidade este amor o tinha dominado e agora motivado. MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E44 Gálatas 2.20 – “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”. 1 Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo, 2 por meio de quem obtivemos acesso pela fé a esta graça na qual agora estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus. 3 Não só isso, mas também nos gloriamos nas tribu- lações, porque sabemos que a tribulação produz perseverança; 4 a per- severança, um caráter aprovado; e o caráter aprovado, esperança. 5 E a esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu. 6 De fato, no devido tempo, quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios. 7 Dificilmente haverá alguém que morra por um justo, embora pelo homem bom talvez alguém tenha coragem de morrer. 8 Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores. 9 Como agora fomos justificados por seu sangue, muito mais ainda, por meio dele, seremos salvos da ira de Deus! 10 Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo sido re- conciliados, seremos salvos por sua vida! 11 Não apenas isso, mas tam- bém nos gloriamos em Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, mediante quem recebemos agora a reconciliação. (Romanos 5.1-11). E ainda: 11 Irmãos, quero que saibam que o evangelho por mimanunciado não é de origem humana. 12 Não o recebi de pessoa alguma nem me foi ele ensinado; ao contrário, eu o recebi de Jesus Cristo por revelação. 13 Vo- cês ouviram qual foi o meu procedimento no judaísmo, como perseguia com violência a igreja de Deus, procurando destruí-la. 14 No judaísmo, eu superava a maioria dos judeus da minha idade, e era extremamente zeloso das tradições dos meus antepassados. 15 Mas Deus me separou desde o ventre materno e me chamou por sua graça. Quando lhe agra- dou 16 revelar o seu Filho em mim para que eu o anunciasse entre os gentios, não consultei pessoa alguma. 17 Tampouco subi a Jerusalém para ver os que já eram apóstolos antes de mim, mas de imediato parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco. 18 Depois de três anos, subi a Jerusalém para conhecer Pedro pessoalmente, e estive com ele quinze dias. 19 Não vi nenhum dos outros apóstolos, a não ser Tiago, irmão do Senhor. 20 Quanto ao que lhes escrevo, afirmo diante de Deus que não minto. 21 A seguir, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. 22 Eu Motivação na Missão Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 45 não era pessoalmente conhecido pelas igrejas da Judéia que estão em Cristo. 23 Apenas ouviam dizer: “Aquele que antes nos perseguia, agora está anunciando a fé que outrora procurava destruir”. 24 E glorificavam a Deus por minha causa. (Gálatas 1.11-23). O privilégio de ser representante de Deus e o desafio da responsabilidade de sê-lo de maneira adequada tiveram um peso crescente durante a vida e ministério de Paulo, a isso estavam conjugados sua dignidade e amor, paciência e força abun- dante (determinação), e mais marcante ainda: a sua gratidão ao Senhor que o tinha comissionado para tão grande obra. A gratidão de ser chamado ao privilégio de trabalhar na obra do Senhor deve ser uma grande motivação no ministério. O sentimento de responsabilidade Caro(a) aluno(a), outro aspecto muito significativo na questão da motivação dos primeiros cristãos e, entre eles, o apóstolo Paulo, é o sentimento de respon- sabilidade diante de Deus, no sentido de viver a vida de forma coerente com a profissão de fé. Eles viviam sob as vistas de Deus e estavam decididos a agradá- -Lo em tudo o que faziam. Esse objetivo que havia sido aprendido com Jesus em relação ao Pai Celestial, João 8.29 – “Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho, pois sempre faço o que lhe agrada”. Paulo orou nesse sentido quando escreveu aos Colossenses 1.3-14: 3 Sempre agradecemos a Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, quando oramos por vocês, 4 pois temos ouvido falar da fé que vocês têm em Cristo Jesus e do amor que têm por todos os santos, 5 por causa da esperança que lhes está reservada nos céus, a respeito da qual vocês ouviram por meio da palavra da verdade, 6 o evangelho que chegou até vocês. Por todo o mundo este evangelho vai frutificando e crescen- do, como também ocorre entre vocês, desde o dia em que o ouviram e entenderam a graça de Deus em toda a sua verdade. 7 Vocês o aprende- ram de Epafras, nosso amado cooperador, fiel ministro de Cristo para conosco, 8 que também nos falou do amor que vocês têm no Espírito. 9 Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos de orar por vocês e de pedir que sejam cheios do pleno conhecimento da von- tade de Deus, com toda a sabedoria e entendimento espiritual. 10 E isso MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E46 para que vocês vivam de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo, frutificando em toda boa obra, crescendo no conhecimento de Deus e 11 sendo fortalecidos com todo o poder, de acordo com a força da sua glória, para que tenham toda a perseverança e paciência com alegria, 12 dando graças ao Pai, que nos tornou dignos de partici- par da herança dos santos no reino da luz. 13 Pois ele nos resgatou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino do seu Filho amado, 14 em quem temos a redenção, a saber, o perdão dos pecados. Também quando escreveu aos Efésios 4.1-7; 11-16 1 Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam. 2 Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. 3 Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; 5 há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6 um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. 7 E a cada um de nós foi concedida a graça, confor- me a medida repartida por Cristo. (...) 11 E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, 12 com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado, 13 até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. 14 O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. 15 Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. 16 Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função. É também com base nesse sentimento de responsabilidade que Paulo escreve em I Coríntios 9.16-17 (não por questão de lucro financeiro): 16 Contudo, quando prego o evangelho, não posso me orgulhar, pois me é imposta a necessidade de pregar. Ai de mim se não pregar o evan- gelho! 17 Porque, se prego de livre vontade, tenho recompensa; con- tudo, como prego por obrigação, estou simplesmente cumprindo uma incumbência a mim confiada. ©shutterstock Motivação na Missão Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 47 A ideia da responsabilidade pessoal e de prestar contas a Deus, o Juiz Soberano, era um estímulo importante, uma grande motivação, a cumprir com excelên- cia o chamado ministerial. Hebreus 4.13 – “Nada, em toda a criação, está oculto aos olhos de Deus. Tudo está descoberto e exposto diante dos olhos daquele a quem havemos de prestar contas”. O sentimento de preocupação Jesus veio buscar e salvar os perdidos e virá outra vez, agora, para buscar a Sua Igreja. Essa preocupação gerou em Paulo um senso de urgência na pregação do Evangelho, isso porque sabia das palavras de Jesus, em João 9.4 – “Enquanto é dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar”. A preocupação pelos não evangelizados e também a preocupação pelos já convertidos, era a grande motivação dos apóstolos, especialmente Paulo, o que se pode notar em suas pastorais. 13 Ouçam agora, vocês que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganha- remos dinheiro”. 14 Vocês nem sabem o que lhes acontecerá amanhã! Que é a sua vida? Vocês são como a neblina que aparece por um pouco de tempo e depois se dissipa. 15 Ao invés disso, deveriam dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto ou aquilo”. 16 Agora, porém, vocês se vangloriam das suas pretensões. Toda vanglória como essa é maligna. 17 Pensem nisto, pois: Quem sabe que deve fazer o bem e não o faz, comete pecado. (Tiago 4.13-17). MISSÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IU N I D A D E48 1 Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestaçãoe por seu Reino, eu o exorto solenemente: 2 Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. 3 Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. 4 Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltando-se para os mitos. 5 Você, porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério. 6 Eu já estou sendo derramado como uma oferta de bebida. Está próxi- mo o tempo da minha partida. 7 Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé. 8 Agora me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amam a sua vinda. (II Timóteo 4.1-8). O que de fato nos preocupa? Em que está a sua maior preocupação? 32 Lembrem-se dos primeiros dias, depois que vocês foram ilumina- dos, quando suportaram muita luta e muito sofrimento. 33 Algumas vezes vocês foram expostos a insultos e tribulações; em outras ocasi- ões fizeram-se solidários com os que assim foram tratados. 34 Vocês se compadeceram dos que estavam na prisão e aceitaram alegremen- te o confisco dos seus próprios bens, pois sabiam que possuíam bens superiores e permanentes. 35 Por isso, não abram mão da confiança que vocês têm; ela será ricamente recompensada. 36 Vocês precisam perseverar, de modo que, quando tiverem feito a vontade de Deus, re- cebam o que ele prometeu; 37 pois em breve, muito em breve “Aquele que vem virá, e não demorará. 38 Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele”. 39 Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que crêem e são salvos. (Hebreus 10.32-39). Caro(a) aluno(a), queremos ressaltar a importância do objetivo da Missão Cristã, o objetivo da Missão Cristã é, primordialmente, a salvação da humanidade em todos os seus aspectos. E, em especial, pedimos sua atenção para a questão da motivação na Missão Cristã: sentimento de gratidão, sentimento de responsa- bilidade, sentimento de preocupação. O evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens. (Pacto de Lausanne) Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 49 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), nosso intento, no encerramento desta primeira unidade, foi apresentar a você alguns aspectos que entendemos relevantes para o estudo da Missão Cristã. Como você deve ter observado, apresentamos os concei- tos mais utilizados quando se trata deste tema, exemplos: Missão, Missiologia, Missio Dei, Missão Transcultural, Teologia da Missão, Grande Comissão, Missão Integral. Apresentamos, também, embora de forma breve, cada termo logo no início, porque entendemos que pode-se correr o risco de serem mal entendidos ou confundidos durante as leituras que se seguirão. Neste primeiro momento, os termos aparecem de forma preliminar, mas, no decorrer da leitura das pági- nas seguintes, sofrerão uma explanação um pouco mais aprofundada, mesmo se tratando de um material de estudos de aspectos gerais do tema Missão Cristã. Pedimos sua especial atenção em relação ao objetivo da Missão Cristã, a salvação da humanidade em todos os seus aspectos, como também o tópico “A motivação para a missão”, que deve chamar-nos a reflexão. Não há bem maior a se fazer do que cumprir com excelência o chamado de Deus na vida, anunciar o Evangelho da salvação e buscar uma vida reta diante de Deus e dos homens – essa é a Missão Cristã. A citação de Hermann Brandt (2006, p. 71): “missão é impulso para a trans- formação” nos lembra a respeito do versículo que o apóstolo Paulo escreveu abrindo a sua carta a Tito: “Fui enviado para trazer à fé àqueles que Deus esco- lheu, e ensinar-lhes a conhecer a verdade de Deus [...] a fim de que tenham a vida eterna, que Deus lhes prometeu antes do princípio do mundo – e Ele não pode mentir” (Tito 1.1-3, grifo do autor). Nosso objetivo, aqui, é esclarecê-lo(a) sobre nosso estudo e deixar claro que nós também somos enviados a apresentar e ensinar a verdade de Deus, verdade que transforma vidas para a vida hoje e eterna, verdade que deve ser dita a todo mundo, por ordem de Deus, nosso Salvador. Paulo foi e nós também somos encarregados de fazer essa grande obra para Ele. Boa leitura e ótimos estudos! 50 1. Nesta unidade, falamos que o missionário é o cooperador do dono da obra, mas a obra não é dele. O missionário não deve ser obstinado. Nesse sentido, defina com suas próprias palavras: a) O que é Missionário. b) O que é Missiologia. 2. Com base na leitura desta unidade, elabore, com suas palavras, a definição de Missão Cristã. 3. Comente sobre a motivação na Missão Cristã. 4. Descreva, brevemente, com suas próprias palavras, sobre esse método trinitá- rio. 5. Quais são os três sentimentos que norteavam a motivação para cumprir o cha- mado do Senhor? 51 A MISSÃO NO VATICANO II A caminhada da Igreja Latino-Americana, após o Vaticano II, se caracterizou pelo sonho e pela incansável busca de um novo jeito de ser Igreja, fazendo uma recepção fiel e cria- tiva do Concílio Vaticano II (cf. FAGGIOLI, 2013, p. 87). A interpretação do Concílio levou a Igreja a dar passos significativos, desde a Conferência Geral de Medellín em 1968, para se tornar “a Igreja de todos e em particular a Igreja dos pobres” (João XXIII – Mensagem 11/09/1962); [...] De fato, a atividade missionária da Igreja é um direito e dever funda- mental de todos os batizados, de todos os membros do Povo de Deus (cf. AG 35) que, abraçando a causa de Jesus Cristo, se tornam testemunhas, dando razão de sua própria fé (cf. 1Pd 3,15) na família, no trabalho, na comunidade, no lazer. O equívoco que ainda hoje existe é pensar que a missão da Igreja é algo reservada para o clero, teólogos, se- minaristas e freiras; enfim, para entendidos: pessoas que se debruçam o dia inteiro so- bre livros de teologia, manuais e documentos missionários da Igreja. Sem dúvida, tudo isso tem uma parte de verdade, porém, não podemos esquecer que também o povo mais simples tem uma profunda sabedoria, devido à sua própria experiência de vida e pela força do Espírito Santo, “o agente principal da evangelização” (EN 75), que atua na prática missionária de cada batizado de forma inesperada e surpreendente. [...] Hoje como nunca há uma prioridade lógica e axiológica da evangelização. Há certa urgência de anunciar o Evangelho aos homens e às mulheres do nosso tempo, estigmatizados pela violência, desrespeito à vida, exclusão e marginalização. A Igreja, através de sua ação evangelizadora, deve contribuir, junto às outras forças da sociedade, para que o “mundo novo” inaugurado por Jesus Cristo possa desabrochar e se consolidar no meio de todos os povos. “Este é o maior serviço que a Igreja pode oferecer, ao mundo e à humanidade” (cf. RM 2), a partir de sua renovação missionária e conversão pastoral; isto é, uma Igreja toda missionária: seus membros, sua pastoral e suas estruturas a serviço da Vida plena trazida por Cristo. A V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe celebrada em Aparecida, no ano 2007, trouxe as diretrizes para uma pro- funda renovação da vida eclesial das Igrejas do Continente; propondo, de forma sem precedentes, o resgate da dimensão missionária, que “deve impregnar todas as estrutu- ras eclesiais e todos os planos pastorais de dioceses, paróquias, comunidades religiosas, movimentos, e de qualquer instituição da Igreja” (DAp 365). No Documento de Apare- cida, pode-se constatar que a palavra-chave é “missão”. Na realidade, em Aparecida, a missão tornou-se o paradigma-síntese em dois sentidos: primeiro, assume a caminhada missionária das quatro Conferências latino-americanas anteriores; segundo, sintetiza as múltiplas propostasdo Documento sob o prisma da missão (cf. SUESS, 2007, p. 95-96). Com o intuito de uma profunda renovação missionária, a terceira parte do Documento de Aparecida, dedicada ao “agir”, retoma a teologia do Vaticano II repropondo à Igreja Latino-Americana os fundamentos teológicos da missão evangelizadora, formulados no Decreto Ad Gentes, sobre a Atividade Missionária da Igreja: “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, pois ela se origina da missão do Filho e da missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai” (AG 2). “Por isso, o impulso missionário é fruto necessário à vida que a Trindade comunica aos discípulos” (DAp 347). Pode-se afirmar 52 que o elã missionário presente no Documento de Aparecida é fruto da recepção dos três grandes documentos missionários: o Ad Gentes, a Evangelii Nuntiandi e a Redemptoris Missio. [...] Desde Aparecida, o termo “missão”, no âmbito eclesial, seja nos documentos, seja na vida pastoral, tornou-se algo corriqueiro. É uma palavra não mais reservada para alguns âmbitos privilegiados ou especializados; ela cruzou fronteiras, encontrou-se com novas e diversas realidades; foi assumindo matizes diferentes, ora se enriquecendo, ora se empobrecendo. Mas, o mais importante, é que esta palavra, quase mágica, entrou no linguajar do povo das comunidades eclesiais, percebendo, cada vez mais, a riqueza e a beleza, o potencial e o envolvimento que traz no seu bojo o conceito de missão. É verdade que um termo usado de forma inapropriada ou de maneira desmesurada pode sofrer o “efeito inflacionário”, perdendo ou enfraquecendo seu sentido original. A infla- ção do conceito apresenta consequências positivas e negativas: “Uma das consequên- cias negativas é a tendência de definir a missão de uma forma demasiadamente ampla – o que inspirou Neill Stephen a formular sua famosa máxima: Se tudo é missão, nada é missão” (BOSCH, 2007, p. 609). De certa forma é o que está acontecendo hoje com o uso demasiado da palavra “missão”. Parece que qualquer ação, qualquer feito no âmbito da pastoral, se tornou uma ação missionária. Este é o perigo que o termo “missão” está correndo no atual contexto. Com isso acreditamos não ser um motivo suficiente para limitar seu uso; ao contrário, que se use a palavra “missão”, porém agregando elementos que podem explicitá-la melhor a partir do seu verdadeiro significado original. [...] Que- remos nos deixar permear e envolver por este conceito que mostra todo o potencial do amor salvífico de Deus, porque “Deus caritas est”, Deus é Amor (1Jo 4,16). O Amor manifesto em Jesus Cristo e anunciado ao longo dos séculos pela Igreja a todos os po- vos, assistida pela força do Espírito Santo, “que faz com que os fiéis possam entender os ensinamentos de Jesus e o seu mistério” (EN 75), e dessa forma alcançar a plenitude da vida e a salvação. [...] Fonte: Restori (2015). Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR O Que é Missão Integral? C. René Padilla Editora: Editora Ultimato Sinopse: René Padilla mostra que a igreja que se compromete com a missão integral entende que seu propósito não é chegar a ser grande, rica ou politicamente infl uente, mas sim encarnar os valores do reino de Deus e manifestar o amor e a justiça, tanto em âmbito pessoal como em âmbito comunitário. Apresentação: fundada, em 1968, a revista Ultimato apresenta o conteúdo Bíblico em uma forma criativa e contextualizada. Ao lado de muitos outros, participa da proclamação da Boa Nova que nunca fi ca velha, da Esperança que nunca morre e do Salvador que nunca muda. Link: <www.ultimato.com.br>. REFERÊNCIASREFERÊNCIAS BARTH, K. Kirchliche Dogmatik. Vorlesungen, 1959. BÍBLIA. Portuguesa. A Bíblia Viva. 5.ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão. 2008. BOSCH, D J. Missão Transformadora: mudanças de paradigma na Teologia da Mis- são. São Leopold: Sinodal, 2002. BOWIE, R. Light for the nations. Haggai Center for Third World Studies, Haway. 1992. BRANDT, H. O encanto da missão – ensaios de missiologia contemporânea. São Leopoldo: Sinodal, 2006. CHAMPLIN, R. N.; BENTES, J. M. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. São Paulo: Candeia, 1995. DAVIDSON, F. (org.). O Novo Comentário da Bíblia. São Paulo: Vida Nova, 1997. ESCOBAR, S. Desafios da Igreja na América Latina – história, estratégia e teologia de missões. Viçosa: Ultimato, 1997. FILHO, T. da G. L. Missões e Antropologia. Goiânia: CETEO, 2004. GONZÁLEZ, J. L. História do Movimento Missionário. São Paulo: Hagnos, 2008. GREEN, M. Evangelização na Igreja Primitiva. São Paulo: Vida Nova, 1984. HOUAISS, A. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Objetiva: Rio de Janeiro, 2001. MOLTMANN, J. The Church in the Power of the Spirit: A Contribution to Messianic Ecclesiology. London: SCM, 1977. NETO, L. L. O novo rosto da missão – os movimentos ecumênico e evangelical no protestantismo latino-americano. 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Primordialmente, a salvação da humanidade, em todos os seus aspectos, é ma- nifestar o amor do Reino de Deus, como compartilhado em Cristo, no poder do Espírito Santo, por meio de palavras e obras com vistas à transformação, à res- tauração integral de toda a criação, para a glória divina. 3. A pessoa do Senhor Jesus. 4. Missão da Igreja deve se inspirar e se fundamentar no exemplo Trinitário, pois o Pai envia o Seu Filho (João 3.16-18), ambos enviam o Espírito à Igreja (João 14.26,27; 15.26,27; Gálatas 4.6), habitando em nossos corações (Romanos 8.9-11 e 14-16), e nós somos enviados pelo Filho, sendo consolados e guiados continu- amente pelo Espírito de Cristo (João 17.16-19; 20.21-23). 5. O sentimento de gratidão, o sentimento de responsabilidade, o sentido de pre- ocupação. U N ID A D E II Professor Me. Roney de Carvalho Luiz Professor Me. Marcelo Aleixo Gonçalves A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar a questão histórica envolvendo a Missão Cristã. ■ Estudar em um panorama histórico sobre o “Grande Século” das Missões Cristãs. ■ Observar aspectos gerais da Missão Integral. ■ Observar a Missão Cristã na América Latina na perspectiva de autores renomados. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ A História da Missão: por que essa Missão tem História? ■ O “Grande Século” das Missões Cristãs ■ Missão Integral, aspectos gerais ■ Missão Cristã na América Latina INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Nesta segunda unidade, apresentaremos pontos signi- ficativos e não exaustivos da História da Missão em um panorama geral. Este material foi desenvolvido para nosso estudo neste módulo e não se propõe a ser completo em relação à história da missão. Não sei se algum material um dia foi ou um dia será (completo), em virtude da grande gama de possibilidades que esse tema sugere, haja vista que se trata de uma história de muitos anos, ocor- rida a partir de muitas pessoas e em muitos lugares e com muitos detalhes. Nosso intento é apontar alguns detalhes, extratose amostras da riqueza dessa história de missões que chega até hoje a nós, Igreja Cristã. Nesta unidade, será estudado um tema controverso para muitos cristãos, a Missão Integral. Em uma perspectiva inovadora e abrangente em relação à mis- são cristã, a teologia da missão integral foi um grande avanço na busca de um sentido mais amplo, oportuno e muito significativo para a Igreja em missão, sua grande contribuição e relevante chamada para uma nova perspectiva à Igreja em missão, principalmente para a Missão Cristã na América Latina. Ressaltaremos e enfatizaremos que a Missão Cristã tem história e precisa ser mais proclamada a cada dia. Faz-se necessário, também, despertar em nós grati- dão pelos que nos antecederam na Missão, não alienados de possíveis equívocos que a história registra, mas devemos ser menos críticos e mais agradecidos, uma vez que temos uma grande história, tendo em vista o “grande século das mis- sões” e seus personagens mais expressivos. Frisaremos que, em cada um desses conceitos e eras, os cristãos, a partir de seus próprios contextos, debateram-se com a questão do que a fé cristã e, por implicação, a missão cristã significavam para eles. É supérfluo dizer que todos acreditavam e sustentavam que sua compreensão da fé e a missão da igreja era fiel ao intento divino. Isso não quer dizer, porém, que todos pensassem de forma idêntica e que chegassem às mesmas conclusões. Bons estudos! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 59 ©shutterstock A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E60 A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ: POR QUE ESSA MISSÃO TEM HISTÓRIA? Caro(a) aluno(a), um dos materiais que estudei sobre missões e que recorri para a elaboração deste material de estudo é a obra de Justo L. Gonzáles (2008), “História do Movimento Missionário”, e, dessa obra, apresento parte da intro- dução para abrir esta unidade sobre a História da Missão Cristã. “Portanto, ide e fazei discípulos de todas as nações...”. Há poucos textos bíblicos tão conhecidos e citados quanto esse que frequentemente é denominado de a ‘Grande Comissão’. Ao longo dos séculos, essas palavras de Jesus têm inspirado milhões de crentes a levar o Evangelho aos lugares mais remotos da Terra. Uns têm dado dinheiro; outros têm dado a vida. Uns foram bem recebidos; outros morreram como mártires nas mãos daqueles que esperavam evangelizar. Em obediência a essas palavras, igrejas têm sido estabelecidas; escolas e hospitais, construídos; injustiças desfeitas; mulheres oprimidas por tradições ancestrais, libertas, como também se têm ensinado milhões de pessoas a melhorar suas criações, a cuidar de sua saúde e a ler. Muitos idiomas que só existiam em forma oral têm sido transcritos. Se essa fosse toda a história, teríamos razões de sobra para nos gloriar e orgulhar. Mas existe também o outro lado. Ao longo dos séculos, e até o dia de hoje, muitos cristãos fizeram uso, e ainda (infelizmente) o fazem, das palavras de Jesus para propósitos imperialistas ou lucrativos. Cristãos que, tomando o mandato missionário como índice de sua própria A História da Missão Cristã: Por que essa Missão Tem História? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 61 superioridade e, com esse sentido de superioridade, têm destruído culturas e civilizações, estabelecido e defendido regimes despóticos, recorrido às armas para forçar os mais fracos a crer e justificando o injustificável. Tais desmandos nem sempre foram cometidos por hipócritas que simplesmente desejavam se aproveitar da fé cristã. Também foram cometidos por cristãos sinceros, convencidos de que a expansão de sua fé justificava suas ações e que, com isso, serviam a Deus. Convencidos da verdade de sua fé, muitos creram que isso tam- bém era índice da superioridade de sua cultura e, com esse sentido de superioridade, destruíram nações, violando identidades e oprimindo indefesos. Tudo isso confere ao estudo da história das missões sua im- portância e urgência. A história da expansão do cristianismo é, por sua vez, inspiradora e aterradora, servindo-nos de chamado e advertência. Chama-nos a seguir a linha esplendorosa daqueles que antes de nós de- ram testemunho de sua fé e adverte-nos do perigo de imaginar que, por sermos cristãos fiéis, não precisamos nos preocupar com as consequ- ências de nossas ações e de nossas atitudes. GONZALES (2008, p. 13). Nessa coletânea de textos sobre Missões, quero também trazer a esta unidade o parágrafo de apresentação que Bertil Ekström (2001, p. 49) traz em seu livro História da Missão: o estudo da História de Missões é uma interessante aventura que nos leva a descobrir a trajetória missionária e a expansão da igreja cristã desde os seus primórdios até os nossos dias. Entre muitos heróis da fé, alguns se destacaram e se tornaram conhecidos para a posteridade. Outros tantos viveram e lutaram no anonimato, dando contribuição de igual importância. Acima de tudo, no entanto, a história recorda a obra divina. Muitos semearam e muitos regaram, mas quem garantiu o crescimento foi o próprio mandatário da obra missionária, Deus. Como diz Ekström (2001, p. 50), já citado anteriormente, escolher o que destacar desta história é tarefa árdua. Toda narrativa histórica pressupõe um processo seletivo que, a partir de uma visão subjetiva, determina os fatos que serão descritos. E em grande parte, a história, até o momento, tem sido escrita do ponto de vista dos envia- dores, geralmente do hemisfério norte. Assim como já anunciado neste material, nosso autor base para esta pesquisa é David J. Bosch (2002, p. 227), em sua obra “Missão Transformadora”, e parti- cularmente no capítulo 5 – Mudanças de paradigma na missiologia – em que propõe seis subdivisões histórico-teológicas, como apresento a seguir: A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E62 1. O paradigma apocalíptico do cristianismo primitivo. 2. O paradigma helenístico do período da patrística. 3. O paradigma católico romano medieval. 4. O paradigma protestante (da Reforma). 5. O paradigma moderno do iluminismo. 6. O paradigma ecumênico emergente. Em cada uma dessas eras, os cristãos, a partir de seus próprios contextos, deba- teram-se com a questão do que a fé cristã e, por implicação, a missão cristã significavam para eles. É supérfluo dizer que todos acreditavam e sustentavam que sua compreensão da fé e a missão da igreja eram fiéis ao intento divino. Isso não quer dizer, porém, que todos pensassem de forma idêntica e que che- gassem às mesmas conclusões. É claro que sempre houve cristãos (e teólogos!) que achavam que sua compreensão da fé era “objetivamente” exata e, deveras, a única interpretação autêntica do cristianismo. Tal atitude, no entanto, baseia-se em uma perigosa ilusão. Nossos pontos de vista constituem sempre meras inter- pretações do que consideramos ser a revelação divina, não a revelação divina em si (e essas interpretações são profundamente configuradas por nossas autocom- preensões) (BOSCH, 2002, p. 227). Conforme González (2008, p. 79), A Igreja, como povo de Deus, surge dessa missão e participa dela. A Igreja nasce, mantém-se e transforma-se pela missão de Deus. Ao mes- mo tempo, ela também é sujeito ativo nessa missão. Isso é, a Igreja dis- cerne e descobre a atividade de Deus no mundo e dela participa. O percurso da missão cristã é entusiasmante, mas também tem as suas som- bras, como exemplo, a conversão forçada dos saxões por obra de Carlos Magno ou a evangelização do novo mundo da América Latina concebida como “con- quista espiritual”. A história das missões, bementendida, não é somente a história da expansão do cristianismo, mas também a história de suas muitas con- versões – o que a Igreja já tem aprendido e descoberto em diversos tempos, lugares e civilizações (GONZÁLEZ, 2008, p. 79). A História da Missão Cristã: Por que essa Missão Tem História? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 63 A história de Missões inicia, na verdade, na promessa de Deus de resgatar o homem caído por meio da descendência de Eva, proferida logo após a queda do ser humano no pecado. Porém, em termos de uma divulgação do Evangelho pelos cristãos, as origens da obra missionária se encontram na Igreja Primitiva. Costuma-se dizer que o movimento missionário nasceu no seio da Igreja de Antioquia a partir da iniciativa do Espírito Santo, levando a igreja a enviar a Barnabé e Saulo para sua primeira viagem missionária. 1 Na igreja de Antioquia havia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, chamado Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, que fora criado com He- rodes, o tetrarca, e Saulo. 2 Enquanto adoravam o Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: “Separem-me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado”. 3 Assim, depois de jejuar e orar, impuseram-lhes as mãos e os enviaram. 4 Enviados pelo Espírito Santo, desceram a Selêu- cia e dali navegaram para Chipre. 5 Chegando em Salamina, proclama- ram a palavra de Deus nas sinagogas judaicas [...].(Atos dos Apóstolos 13.1-4). A REFORMA E AS MISSÕES Caro(a) aluno(a), muito se pode dizer sobre o período da Reforma Protestante e as Missões, para nosso estudo, neste material, apresentaremos de forma pano- râmica o que Ekström (2001, p. 78) escreve em sua obra sobre esse tema. Após mais de 1000 anos na sombra dos interesses políticos e econômicos, a Igreja foi sacudida por um movimento de peso que gerou mudanças profundas e duradouras. Essa Reforma Protestante foi iniciada por Lutero no começo do século XVI. A Reforma é o termo geral para designar o período de profundas mudanças eclesiásticas e teológicas no cristianismo ocidental com raízes no século XIV, mas estendendo-se até o século XVII. A Reforma refere-se mais especifica- mente ao rompimento com a Igreja Católica Romana, efetuado no século XVI por homens notáveis, como Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio e João Calvino. Eles protestavam contra o que consideravam ser a decadência geral da Igreja Romana e o afastamento dela em relação ao que, para eles, era a fé dos apósto- los e dos pais da igreja primitiva. Tentativas anteriores tinham mobilizado partes A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E64 da Igreja por períodos mais ou menos longos, porém foi a partir da reforma pro- testante que uma parte significativa da Igreja buscou uma volta aos conceitos neotestamentários de igreja e vida cristã. Oficialmente, a Igreja de Roma não aceitou as mudanças propostas pelos reformadores e os excomungou. O movi- mento, no entanto, era forte e “conquistou” regiões importantes, dando origem a diversas ramificações protestantes. Em relação aos antecedentes históricos e razões para a Reforma, temos que a pré-reforma de Wycliffe e Huss deixou marcas na sociedade em que viviam, causando reações por parte do povo contra a relutância da Igreja (romana) em aceitar as reformas propostas por eles. Destacam-se como mudanças significa- tivas nesse período: ■ Mudanças geográficas: pelas viagens exploratórias de portugueses, italia- nos, espanhóis, entre outros. ■ Mudanças políticas: pelas novas colônias que eram estabelecidas e a medi- ção de forças das potências colonizadoras. ■ Mudanças econômicas: na inclusão de novos parceiros comerciais devido ao aumento das viagens pelos mares. ■ Mudanças religiosas: a Reforma estava inserida em um contexto de ques- tionamento dos dogmas religiosos da igreja dominante, havendo, por parte de muitos, um anseio por mudanças. Entre as razões importantes para se buscar a Reforma, Ekström (2001) lista: ■ As mudanças acima que criaram uma expectativa de reformas também na estrutura eclesiástica vigente. O “sagrado”, de repente, era passivo de questionamento e de novas interpretações. ■ A decadência moral da Igreja também levou a um descontentamento geral por parte do povo e até de uma parte do clero. ■ A atuação do Espírito Santo levantando homens com coragem para irem contra o poder político e religioso da Igreja de Roma. A História da Missão Cristã: Por que essa Missão Tem História? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 65 Ekström (2001) escreve ainda que, em relação à decadência da Igreja de Roma, pode parecer propaganda protestante falar sobre isso, no entanto era uma reali- dade no tempo vivido por Lutero e pelos demais reformadores. O próprio Lutero era da Igreja e queria reformá-la de dentro para fora. Algumas áreas mais críti- cas se destacam quanto ao declínio dos padrões bíblicos: ■ A opulência da Igreja, enquanto muitos (a maioria) viviam na miséria. ■ A taxação escandalosa, aborrecendo a classe média. ■ Os escândalos papais, com dissensões e imoralidades. ■ O declínio das ordens monásticas, devido à corrupção e imoralidade. ■ O cruel tratamento dos considerados “hereges”, por exemplo: John Huss. ■ A relutância em aceitar as mudanças na sociedade e, consequentemente, também dentro da Igreja. ■ O jugo com o poder político e econômico. Caro(a) aluno(a), papel importante diante desse quadro é o dos reformadores, aqui apresentados com o enfoque em dois aspectos: a visão missionária e os resultados da Reforma para as missões. Contudo, como escreve González (2008), no começo das missões protestantes, houve grande oposição, então, para nosso estudo aqui, vamos apresentar o ponto de vista dos dois autores que estamos trabalhando nesta unidade: Ekström e González, na expectativa que se comple- mentem em seus pontos de vista. González (2008, p. 204), tratando dos mesmos personagens históricos, escreve que havia a oposição da ortodoxia protestante às missões entre pagãos, durante o período que estamos estudando, a expansão católica oculta a protestante. Isso se deve a uma conjunção de fatores políticos e teo- lógicos. Era de esperar que os primeiros reformadores, que viviam em países sem contato com as terras recém-descobertas, não sentissem o mesmo interesse missionário que sentiam os cristãos da Espanha e de Portugal. Além disso, os reformadores das primeiras gerações justifi- cavam com argumentos teológicos sua falta de interesse missionário, e por essa razão, muitos de seus sucessores se sentiram obrigados a tomar a mesma posição. ©shutterstock A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E66 MARTINHO LUTERO (1483-1546) Filho de camponeses alemães. O pai teve êxito na indústria de mineração e pôde dar bons estudos ao filho. Estudou na Universidade de Erfurt, colando grau de Mestre em 1505. Iniciou estudos de Direito, mas teve uma forte experiência emocional e decidiu ser monge, ingressando para a ordem agostiniana. Foi ordenado ao sacerdócio em 1507. Bacharel em Teologia em 1509 e Doutor em Teologia, em 1512, em Wittemberg. Em Roma, durante dois anos de estada ali (1510 e 1511), descobriu a cor- rupção e a luxúria da Igreja, vendo a necessidade de mudanças. Em 1517, afixou as 95 Teses, iniciando uma série de debates. Foi excomungado pelo papa Leão X em 1520. Lutero criticou fortemente o sistema das indulgências e a corrupção den- tro da Igreja. Traduziu a Bíblia para o alemão, em 1534, já excomungado, tendo traduzido o Novo Testamento em 1522. Contribuiu na reforma da liturgia, no estabelecimento de doutrinas básicas, no uso do idioma nacionalnas missas e na moralização dos sacerdotes. “A justificação pela fé e não por obras” foi, sem dúvida, sua principal tese. Deixou, com sua morte, a liderança para Filipe Melanchton. Devido a divergências com outros líderes reformadores e seu envol- vimento pessoal, defendendo atitudes erradas de amigos, Lutero perdeu apoio de muitos, e outras ramificações surgiram. González (2008) escreve que o interesse de Lutero pelas missões foi sempre marginal. Isso não se deve a uma oposição ao trabalho missionário, mas sim ao fato de que a tarefa de reformar a igreja e converter os “pagãos” que seguiam os velhos costumes e doutrinas ocupava todo seu tempo e atenção. Levado pelo impulso da controvérsia, Lutero chegou a afirmar que a comissão de ir por todo o mundo pregando o Evangelho foi dada somente aos apóstolos, e que os cristãos da modernidade não tinham semelhante mandamento, senão o de permanecer cada um no lugar onde foi colocado para trabalhar pela causa do Evangelho. Em todo caso, sustenta o reformador que sempre há cristãos que são levados para ©shutterstock A História da Missão Cristã: Por que essa Missão Tem História? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 67 terras pagãs em cativeiro, ou em condição semelhante, e tais pessoas são usadas por Deus para ali dar testemunho de sua fé. Contudo, isso não quer dizer que Lutero rejeitasse o trabalho missionário. Pelo contrário, há em suas obras textos abundantes que se referem à esperança da conversão dos pagãos e dos muçulmanos. Além do mais, em alguns desses tex- tos, Lutero dá indícios de uma atitude relativamente positiva em relação a judeus e muçulmanos, ainda que, com o correr do tempo, suas posturas manifestem, por um lado, a esperança da conversão desses e, por outro, um sentido de des- prezo. Além disso, devemos assinalar que determinados aspectos da teologia de Lutero, especialmente a doutrina do sacerdócio de todos os crentes, posterior- mente dariam um grande estímulo missionário ao protestantismo. E em relação a Felipe Melanchthon, González (2008) escreve que, sobre o tema missões, este teve posição semelhante à de Lutero. Para ele, a Grande Comissão foi dada somente aos apóstolos, que já a haviam cumprido. Por essa razão, a igreja não se devia ocupar do trabalho missionário. Por outro lado, Melanchthon pensava que as autoridades civis é que tinham a obrigação de se ocupar de pregação da mensagem cristã. JOÃO CALVINO (1509-1564) Francês, criado em um ambiente de cidade na França, tornou-se um dos líderes da Reforma protestante. Estudou Direito e Ciências Humanas em Paris. Em 1553, experimentou, por meio do estudo da Bíblia, uma instantânea conversão. Aceitou o ensino de Lutero sobre a justificação pela fé, mas da forma exposta por Melanchton, separando a justificação diante de Deus no céu, do novo nascimento na terra do homem con- vertido. Desenvolveu o pensamento que Deus é um regente absoluto, tendo o poder total como caracte- rística principal. Costuma-se simplificar a teologia de Calvino, usando o anagrama TELIP: ©shutterstock A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E68 T – Totalidade da depravação humana. E – Eleição incondicional. L – Limitação da redenção aos eleitos. I – Irresistibilidade da graça. P – Perseverança dos santos. HULDREICH ZWINGLIO (1484-1531) Era suíço, tendo estudado em Viena e Berna. Foi ordenado sacerdote católico em 1506. Por volta de 1516, experimentou uma abertura para a fé evangélica semelhante à de Lutero. Voltou-se para o estudo das Escrituras, ata- cando o sistema medieval da Igreja em 1518. Pregou de forma exegética na catedral de Zurique, em que era pastor, marcando o iní- cio de suas reformas. Zwinglio (ou Zuínglio Ulrico), líder da Reforma Suíça, estritamente com- prometido com o texto bíblico, em determinado momento, rejeitou a posição de Lutero da consubstanciação em relação à presença de Cristo na Eucaristia, argumentando e defendendo uma visão memorialista. Inspirou o início do movimento anabatista, mas, posteriormente, se afastou dele. Em relação à visão missionária dos reformadores, escreve Ekström (2001) que, de uma forma geral, tem criticado os reformadores por não possuírem uma visão missionária maior. Parece lhes faltar o interesse de levar as descobertas da fé para outras partes do mundo conhecido. Em uma comparação com movimentos posteriores dentro do próprio protestantismo, pode-se dizer que tal crítica é fundada. Entretanto, se analisarmos o contexto em que os reformadores viveram e suas preocupações prioritárias, podemos entender seus poucos projetos missionários. A História da Missão Cristã: Por que essa Missão Tem História? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 69 Também seria incorreto dizer que não houve tentativas. Calvino e Coligny, líder dos huguenotes (nome dado aos protestantes na França), se esforçaram por estabelecer colônias em ambas as Américas, com a intenção de ganhar os “pagãos”. Algumas razões para o “pouco interesse” missionário foram: ■ A compreensão dos limites da Igreja – cada paróquia em seu território. ■ Batalhas militares e políticas na Europa. ■ A escolástica protestante com declínio espiritual. ■ A rejeição do monasticismo – ficando sem estrutura missionária. ■ A preocupação com a reforma em si. Entendo importante ressaltar que esse período foi muito controverso, pois mudan- ças de paradigmas tão envelhecidos provocaram incertezas e duras perseguições. É certo que foi prioridade para os reformadores o estabelecimento dos princí- pios bíblicos contidos e defendidos na Reforma, esse, sem dúvida, foi o maior investimento deles, e houve um alto preço que tiveram que pagar por isso, mas é sobre o terreno teológico defendido por eles que podemos e devemos semear o Evangelho por todas as partes e a todas as pessoas. Ekström (2001), em sua obra, traz, também, um comentário sobre os ana- batistas, ou rebatizadores, que surgiram primeiramente na Suíça, onde havia maior liberdade religiosa. A influência de Zwinglio no uso das Escrituras enco- rajou o movimento. Conrad Grebel (1498-1526) é tido como o fundador do movimento anaba- tista, que via no batismo infantil algo contrário às Escrituras. Grebel e outros foram batizados por imersão. Em 1525, Zwinglio rompeu com o movimento anabatista, tornando-se um opositor, inclusive, reconhecendo novamente o batismo infantil. Uma forte perseguição levantou-se contra os anabatistas na Suíça e os seus seguidores foram mortos por afogamento. Em 1531, o movi- mento praticamente não existia mais no país devido às mortes e à emigração para outros países. A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E70 Um dos primeiros anabatistas alemães foi Balthasar Hubmaier (1481-1528). Hubmaier era doutor em Teologia pela Universidade de Ingolstadt e adversário de Lutero. Em 1525, ele e mais 300 seguidores foram batizados por afusão (aspersão). Hubmaier foi queimado em uma estaca, em 1528, por ordem do Imperador, e sua esposa foi afogada no Danúbio pelas autoridades católicas romanas. Ele ensinou a separação entre Igreja e Estado, a autoridade da Bíblia e o batismo dos crentes. Na Holanda, os anabatistas, mais conhecidos como “os irmãos”, passaram a chamar-se de menonitas, conseguindo liberdade religiosa em 1676. Podemos apontar como resultados da Reforma para as Missões: ■ A volta aos conceitos bíblicos, especialmente em relação à Igreja e vida cristã. ■ Uma nova compreensão do Evangelho e da justificação. ■ Uma nova estrutura, mais adequada e contextualizada da Igreja. ■ Liturgia na língua do povo e traduçãoda Bíblia. ■ Lugar para o ministério leigo, facilitando a expansão. ■ O surgimento de ramificações diferentes, dando liberdade de expressão e possibilitando ênfases diferentes de ministério. ■ Separação da Igreja do Estado, deixando a identificação do Evangelho com o poderio político/militar/econômico, sendo que o processo foi rápido em alguns casos; em outros, ainda está em andamento. González (2008) também escreve sobre Zwinglio, Calvino e Bucero. Esses três reformadores tomaram uma posição semelhante à de Lutero e à de Melanchthon, mesmo que estivessem dispostos a aceitar o fato de que a propagação do Evangelho não havia se cumprido ainda. Calvino pensava que o apostolado fora um ofício extraordinário confiado somente aos primeiros discípulos do Senhor, e que a expressão do Evangelho devia ser levada a cabo, na atualidade, com a intervenção das autoridades civis. Bucero e Zwuinglio, por outro lado, pensavam que o ofí- cio apostólico continuava por meio da história da igreja. Para eles, Deus chama as pessoas e as envia a partes distintas do mundo a fim de que o Evangelho seja pregado, mas esse chamado é dado somente a um número muito pequeno de ©shutterstock O “Grande Século” das Missões Cristãs Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 71 pessoas, e quem pretende cumprir o ofício apostólico deve, primeiramente, asse- gurar-se de que foi chamado por Deus para isso. Quanto à responsabilidade da igreja e à necessidade de projetar e organizar um programa missionário, nenhum desses reformadores disse algo a respeito. A questão missionária revela uma dinâmica multidirecional cheia de complexidades e lutas, que refletem e demandam um marco interpreta- tivo coerente e justo. Neste sentido, nossa história não é de triunfo ecle- sial, mas de encruzilhadas e complexidades que têm afinidades com a cruz, e de transformação e esperança que deixam ver um lampejo da ressurreição. (GONZÁLEZ, 2008, p. 128). O “GRANDE SÉCULO” DAS MISSÕES CRISTÃS Ekström (2001) traz também um interessante resumo do Grande Século missionário, mas obviamente que, para aprofundar o assunto, se faz necessário ler a obra toda. O Grande Século missionário, período que compre- ende os anos de 1792 a 1914, pertence às épocas mais brilhantes da história da Igreja e, especialmente, da his- tória de missões. Um movimento missionário sem igual, desde os tempos dos apóstolos, caracterizou esses 122 anos em que a determinação, a coragem, a fé e o sucesso acompanharam a maioria dos pioneiros e seus sucessores. Como antecedentes do Grande Século missionário, o autor apresenta cinco, são eles: ■ A Revolução Francesa (1789) – revolução que deu início a uma série de mudanças ocorridas na França nesse período, envolvendo, principal- mente, as áreas política, econômica e social, mas também com efeitos sobre a vida religiosa. Os resultados desse movimento de transformação fizeram-se sentir muito além das fronteiras francesas e influenciaram todo o pensamento da época. A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E72 ■ As mudanças filosóficas na sociedade europeia – houve uma clara mudança de Iluminismo e Racionalismo para uma nova era de Romantismo, dando lugar às emoções e à imaginação, levando a uma ênfase mais prática do dia a dia. ■ As mudanças religiosas no mundo – as grandes religiões, como o Hinduísmo, o Budismo e o Islamismo, pouco fizeram durante o século XIX, deixando um vácuo invadido pelos cristãos evangélicos. A Revolução Francesa cor- tou, em grande parte, o sustento das missões católicas romanas. A época não foi de avanço para a Igreja de Roma. ■ Os grandes avivamentos – que estavam acontecendo, tanto na Europa, como na América do Norte, prepararam uma base sólida para o empre- endimento missionário que estava para nascer. ■ As mudanças na área de comunicações – a melhoria nas comunicações, possibilitando viagens mais rápidas, e o processo da industrialização que chegava definitivamente foram outros fatores importantes no preparo do caminho para o grande século missionário. As estruturas missionárias foram surgindo para tornar em ação o desejo de levar a fé a outros povos. A estrutura do monasticismo, frequentemente usada pelas missões católicas até essa época, não respondia às novas necessidades impostas pelas diferentes mudanças na sociedade. As igrejas locais, mesmo com o cres- cimento rápido em muitas delas, também tinham poucas possibilidades de, isoladamente, enviar missionários para outras partes do mundo. A solução foi encontrada nas Sociedades Missionárias que reuniam as igrejas, assim como particulares e grupos, para a cooperação. Algumas sociedades eram denomina- cionais, outras indenominacionais. As primeiras sociedades missionárias foram: ■ Sociedade Missionária Batista (Inglaterra), em 1792. ■ Sociedade Missionária de Londres, em 1795. ■ Sociedade Missionária Holandesa, em 1797. ■ Sociedade Missionária Anglicana, em 1799. ■ Sociedade Missionária nos EUA (American Board), em 1810. O “Grande Século” das Missões Cristãs Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 73 ■ Sociedade Missionária Batista (EUA), em 1814. ■ Sociedade Missionária da Basileia (Alemanha), em 1815. ■ Sociedade Missionária da Dinamarca, em 1821. ■ Sociedade Missionária da Suécia, em 1835. Ekström (2001) entende que houve muitas causas para o rápido desenvolvimento de missões nesse período, cita: ■ O despertamento escatológico. ■ O zelo social, educacional e de saúde. ■ A influência dos avivamentos na “chamada divina” ao ministério. ■ A expansão colonial. ■ A conscientização da urgência missionária. Isso ajuda a compreender também o Grande Século Missionário, a história de homens e mulheres que se colocaram à disposição para levar o Evangelho aos mais remotos lugares do planeta. Suas biografias mostram que esses verdadei- ros heróis, ao mesmo tempo humanos e falhos, têm muito a nos dizer sobre a motivação para a obra missionária. WILLIAM CAREY (1761-1834) Chamado de o “pai das missões modernas”, era inglês. Foi sapateiro dos 16 aos 28 anos de idade. Converteu-se na adolescência e pertencia a um grupo de batis- tas. Dedicava-se ao estudo nas horas de folga e assumiu o primeiro pastorado em 1785. Publicou, em 1792, um livro de 87 páginas com o título “Uma inqui- rição sobre a responsabilidade dos cristãos em usarem meios para a conversão dos pagãos”. Carey demonstrava uma forte preocupação missionária e um pro- fundo desejo de se envolver diretamente, indo ao campo missionário. Em uma pregação, em Nottingham, proferiu as palavras: “espere grandes coisas de Deus; tente grandes coisas para Deus”. A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E74 No mesmo ano, foi organizada a Sociedade Missionária Batista e, no ano seguinte, Carey se baseou nos seguintes pontos: ■ Conversão individual. ■ Formação de uma igreja nacional autônoma. ■ Uso de leigos bem treinados nas Escrituras. ■ Treinamento de pastores nacionais. ■ Tradução da Bíblia e de literatura cristã. ■ Participação ativa na sociedade, influenciando a legislação e o ensino. Apesar de muito sucesso, Carey também enfrentou enormes dificuldades, come- çando pelo seu próprio lar. O relacionamento com a Sociedade Missionária nem sempre foi harmonioso e os problemas econômicos se faziam sentir. Sua determinação, no entanto, fez superar as adversidades e Carey marcou uma era, deixando uma inspiração missionária para as gerações posteriores e influências positivas no seu país de trabalho. HUDSON TAYLOR (1832-1905) Era inglês, filho de farmacêutico e pregador metodistaleigo. Converteu-se aos 17 anos, mas desde criança queria ser missionário. Em 1853, viajou para a China, onde, mais tarde, fundou a “Missão para o interior da China”. Em sua estratégia de trabalho, destaca-se seu desejo de identificação com o povo chinês. Vestiu-se como os chineses igualando-se a eles o máximo possível, inclusive quanto ao cabelo e às unhas. Recebeu, por isso, muitas críticas de seus colegas missioná- rios, com os quais teve um relacionamento difícil. O “Grande Século” das Missões Cristãs Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 75 ADONIRAM JUDSON (1788-1850) Americano, inicialmente da Igreja Congregacional, mas foi enviado pelos batis- tas americanos para a Índia. Permaneceu ali pouco tempo e escolheu como novo campo a Birmânia. ROBERTO MOFFAT (1795-1883) Escocês, foi o patriarca das missões na África do Sul. Ficou na história mais conhecido como o “sogro de Livingstone”. Em 1814, entrou para uma sociedade metodista, apesar dos pais serem presbiterianos. Foi enviado pela Sociedade Missionária Londrina (indenominacional) para a África do Sul em 1817. DAVID LIVINGSTONE (1813-1873) Escocês, quem sabe o mais famoso de todos os missionários do período. Estudou medicina e teologia, finalizando os estudos, em 1840, sendo enviado no mesmo ano para a África, pela Sociedade Missionária Londrina. Foi um grande desbra- vador do interior africano, contribuindo, tanto para a divulgação do Evangelho, como para a exploração do continente. MARY SLESSOR (1848-1915) Escocesa, representa o grande continente de mulheres engajadas na obra missio- nária durante este período. De origem presbiteriana, apresentou-se, em 1875, à Missão de Calabar (Nigéria), que era uma das missões que aceitavam missioná- rias solteiras. Fez trabalho pioneiro de evangelismo, mas também se envolveu no apoio a escolas, clínicas médicas e servindo o povo local vivendo de forma simples ao estilo da população de Calabar. A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E76 ROBERT MORRISON (1782-1834) Inglês, presbiteriano e tinha, desde a juventude, o desejo se servir no campo missionário. Apresentou-se à Sociedade Missionária Londrina, em 1804, sendo enviado para a China em 1807. Foi o primeiro a traduzir a Bíblia ao chinês. JOHN PATON (1824-1907) Escocês, presbiteriano, trabalhou, inicialmente, entre os cortiços de Glasgow, como missionário. Em 1858, navegou para as Ilhas do Pacífico, onde trabalhou em diversas ilhas, contribuindo para que, no final do século XIX, poucas ilhas não tivessem sido alcançadas. Ekström (2001, p. 82) conclui “poderíamos citar muitos outros missionários e missionárias, verdadeiros ‘heróis’, desse período”. Inclusive, é importante fri- sar que, mesmo que a história escrita tenha se concentrado nos homens, muitos deles só puderam realizar a obra devido ao apoio de suas esposas. Esse período se encerra na entrada do século XX, em que a expansão mis- sionária protestante e evangélica tinha alcançado todos os continentes e centros missionários tinham sido estabelecidos por todo o mundo. Ainda restavam povos e grupos étnicos não alcançados, mas, definitivamente, a Igreja tinha se tornado um movimento global. MULHERES Nota-se, caro(a) aluno(a), que, historicamente, se fala muito mais de missio- nários (homens) do que de missionárias, mas é, no mínimo, um equívoco não apresentarmos pesquisas mais aprofundadas que apontem e façam justiça ao fundamental trabalho de irmãs que viveram e anunciaram o Evangelho e assu- miram realidades em contextos extremamente difíceis, porém, em sua fidelidade, foram grandes na obra missionária. ©shutterstock O “Grande Século” das Missões Cristãs Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 77 Somente no intuito de comentarmos um pouco mais sobre isso, apresento aqui parte de um capítulo da obra “História do Movimento Missionário”, de Justo González (2008, p. 85), em que o autor, tratando das missões, ainda no período medieval, escreve sobre as mulheres como agentes da missão: “a importante con- tribuição das mulheres para a missão da igreja, durante esse período, merece particular reconhecimento”. Frequentemente, essa contribuição desconhecida, é porque se entende a missão em termos de ir a lugares distantes, algo geralmente vedado à maioria das mulheres. Todavia, se entendermos missão no sentido de viver a plenitude do Evangelho, sobretudo manifestando o amor de Cristo às pessoas marginalizadas e carentes, as mulheres medievais ocuparam um lugar importantíssimo nessa tarefa. Como exemplo disso, podemos mencionar as “beguinas”, mulheres que, sem autorização eclesiástica oficial, se reuniram para levar uma vida comum de pobreza voluntária, devoção, disciplina ascética e serviço aos necessitados. Seus conventos extra-oficiais, ou “beguinajes”, tornaram-se frequentemente centros de alimentação para os famintos, postos de assistência médica, hospitais para leprosos. A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E78 Os primeiros beguinajes datam de antes de Francisco de Assis e Domingos de Gusmão. Além disso, há fortes indícios de que a prática da pobreza, da vida simples e do serviço aos necessitados impactou tanto a Francisco como a Santa Clara, fundadora do ramo feminino dos franciscanos. Paulatinamente, as beguinas foram alcançando autorização oficial por parte da hierarquia eclesiástica, até que Gregório IX, no século XIII, as reconheceu oficialmente. No entanto, essa mesma autorização limitou a originalidade e a flexibilidade que antes as caracterizavam. Isabel da Hungria (1207-1231) foi uma mulher que seguiu o caminho tra- çado pelas beguinas, profundamente influenciada pelo espírito franciscano e por Santa Clara. Era filha do rei desse país e esposa de Landgrave (príncipe) da Turingia. Seus atos de caridade foram tais que, com a morte do esposo, o novo Landgrave expulsou-a da corte, dizendo que seus gastos em obras de caridade eram excessivos. Refugiou-se, então, em Marburgo, de onde transferiu todas as suas possessões aos pobres e se dedicou aos cuidados dos enfermos e dos pobres. Várias das organizações femininas de serviços sociais e médicos veem nela a sua precursora ou fundadora. Ainda, à parte de tais casos famosos, há centenas de outros exemplos de mulheres que, mediante seu compromisso de viver a plenitude do Evangelho, se fizeram participantes da missão em suas comunidades. Temos, então, que a história contemporânea de missões mundiais, viés pro- testante, está marcada por duas fases distintas. O despertamento missionário ocorrido naquele século recebeu grande influência dos irmãos morávios, cujo líder, o conde Nicolaus Ludwig von Zinzendorf, havia sido influenciado pelo pietismo. Esse movimento deu nova vitalidade às missões, devido suas peculia- res características: 1. Cada cristão deve entregar-se totalmente a Cristo para trabalhar em qual- quer lugar do mundo e com total amor à família humana. 2. Cada cristão é um missionário e deve compartilhar sua fé onde está. 3. Cada missionário é um trabalhador e sustenta a si próprio e sua família. O “Grande Século” das Missões Cristãs Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 79 Caro(a) aluno(a), ao entrarmos propriamente no século 19, podemos destacar uma primeira fase na história de missões, cujo personagem principal é o mis- sionário: pregador, pastor, médico, explorador e pesquisador. Destaca-se, nesse período, a figura de William Carey, um pobre sapateiro inglês que foi considerado o “pai dasmissões modernas”. William Carey (1761-1834) foi um missionário, ministro evangelista batista inglês, conhecido como o “pai das missões moder- nas”. Carey foi um dos fundadores da Sociedade Batista Missionária de Londres, na Inglaterra. Como missionário na colônia dinamarquesa, Serampore/Índia, evangelizou e fundou escolas, traduziu a Bíblia para o bengali, sânscrito e inú- meras outras línguas e dialetos. Carey, o mais velho dos cinco irmãos, era filho de Edmund e Elizabeth Carey, que eram tecelões no comércio na vila de Paulerspury em Northamptonshire. William foi levado à Igreja da Inglaterra, quando tinha seis anos, seu pai foi nomeado o secretário da paróquia e escola da aldeia. Quando criança, era naturalmente curioso e muito interessado em ciências naturais, especialmente botânica. Ele possuía um dom natural para a linguagem, apren- dendo latim sozinho. Com 14 anos de idade, seu pai levou-o para ser aprendiz com um sapateiro na aldeia vizinha de Hackleton, Northamtonshire. Seu mes- tre, Clarke Nichols, foi um religioso como ele, mas um outro aprendiz, John Warr, foi um dissidente. Por meio de sua influência, Carey acabaria por dei- xar a Igreja da Inglaterra e se juntar a outros dissidentes para formarem uma pequena igreja Congregacional em Hackleton. Enquanto aprendiz de Nichols, ele também aprendeu grego apenas com a ajuda de um morador local, que teve uma educação universitária. Apesar de nascer em um lar anglicano, sua primeira identificação com a fé genuína foi por meio de seu companheiro de trabalho, John Warr, filho de um desertor da Igreja Estatal. Em 1779, aos 18 anos, nasceu de novo, quando ainda estava identificado com a igreja oficial da Inglaterra e uniu-se a uma pequena igreja batista. Logo começou a se preparar para pregar. Saturou-se de conhecimentos tornando-se poliglota, dominando o latim, grego, hebraico, italiano, francês e neerlandês, além de diversas ciências constantes em sua época. Carey era batista e, em 1793, iniciou o trabalho missionário na Índia. O primeiro missionário norte-americano foi o também batista Adoniram Judson, enviado à Índia, em 1812, e que, após um período de trabalho com Carey, via- jou a Mianmar (ex-Burma), lançando ali as bases do novo projeto missionário. A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E80 Outro grande exemplo desse período foi David Livingstone, considerado como o herói da Inglaterra vitoriana e um dos mais importantes missionários que o mundo já conheceu. Em 1839, foi aceito pela Sociedade Missionária Londrina e, em 1840, enviado à África. Livingstone não foi o primeiro explorador do con- tinente africano, mas é considerado por muitos o mais importante. Viajou 48 mil quilômetros em terras africanas, descobriu rios, estabeleceu medidas tipográfi- cas, cruzou pela primeira vez o lago Tanganica e fixou sua verdadeira extensão. Estabeleceu missões em várias partes da África. Esse primeiro período da história de missões pode ser melhor compreen- dido com a organização das sociedades missionárias: ■ Sociedade Missionária Batista (Inglaterra, 1792). ■ Sociedade Missionária Londrina e Sociedade Missionária da Igreja (1795). ■ Sociedade Missionária dos Países Baixos (Holanda, 1797). ■ Missão da Basileia (1815). ■ Junta Americana de Comissários e Missões Estrangeiras (EUA, 1810). ■ Junta Americana Missionária Batista (1814). Concluindo essa primeira fase da história das missões modernas, percebe-se que ela dura aproximadamente dois séculos, se considerarmos a influência dos moravianos, desde 1730. Foi um período marcado, primeiramente, por inicia- tivas pessoais e, depois, pelo apoio das sociedades missionárias. Nessa época, missão era sinônimo de exploração e colonialismo. No final do século 19 e no início do século 20, teve início uma nova etapa na história das missões mundiais, cujo marco principal foi a Conferência de Edimburgo (1910). Missão Integral, Aspectos Gerais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 81 MISSÃO INTEGRAL, ASPECTOS GERAIS A Missão Integral na Igreja quer expressar duas “verdades” básicas: a. O compromisso com todo o Conselho de Deus. Na missão, não se deveria fazer da Bíblia um picadinho, onde e quando se trabalha com a Bíblia com um critério de seleção limitante. A Bíblia quer e precisa ser considerada na sua totalidade. b. A missão da igreja leva em conta a pessoa na sua totalidade, bem como o contexto no qual a pessoa vive. A missão veste a roupa da encarnação. A Teologia da Missão Integral propõe mesclar ação social com o evangelismo, entendendo o ser humano, em sua totalidade, como criação de Deus, isto é, com suas características/necessidades físicas, materiais e espirituais. Nessa perspec- tiva, busca-se chamar a atenção para a alienação que, muitas vezes, se percebe nas práticas de fé existentes na grande maioria das comunidades e nas atitudes das pessoas. As tradições e os costumes herdados formataram o meio cristão, principal- mente no meio evangélico, trazendo para nós, ainda que não propositalmente, o pensamento equivocado de separar o homem do seu todo, criando partes dis- tintas do ser humano, tempos atrás, maciçamente a ideia de certo dualismo: corpo e alma, que, na verdade, nasceu no dualismo platônico, nossa evangeli- zação era manca, ou seja, centrava sua mensagem nas questões da alma, “salvar almas”, e desprezava totalmente questões relativas ao corpo, que, nessa base de pensamento, era sempre mal. Parece-me que havia uma dificuldade imensa em entender, por exemplo, o versículo 23 do capítulo 5 de I Tessalonicenses, quando o apóstolo Paulo escreve: “que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam preservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”. Não havia, pelo menos a ponto de se per- ceber, uma crítica social, defesa por direitos, éramos somente cidadãos dos céus e daqui não queríamos nada. Hoje, parece que isso se inverteu, somos demasia- damente cidadãos daqui e parece não nos interessar os céus, o equívoco estava e está quando se polariza. Fato é que essa perspectiva precisa ser equilibrada e a Palavra de Deus tem como nos ajudar nisso. A Teologia da Missão Integral A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E82 também quer nos dizer que não podemos separar as pessoas por partes, o todo precisa ser alcançado por Deus e abençoado por Ele, como já citamos aqui, o Pacto de Lausanne – o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens. Essa perspectiva apresentada pela Missão Integral concorda com o que John Stott (2010) escreve em seu livro “A Missão Cristã no Mundo Moderno”, no qual traz uma abordagem equilibrada e holística da missão que, a partir do exemplo de Jesus, aponta o caminho para o trabalho da igreja no mundo. Interessante observar que Stott apresenta definições cuidadosas de cinco termos-chave — missão, evangelismo, diálogo, salvação e conversão — e, biblicamente, oferece um modelo de ministério para as necessidades espirituais e físicas das pessoas, sendo assim, a missão cristã é tanto evangelização como ação social. Escreve Padilla (1982, p. 77) que: o Evangelho não é uma verdade abstrata que podemos reservar para a vida privada, mas sim a revelação de Deus, que assume forma humana pessoal e comunitária em nossa situação concreta e nos transforma em testemu- nhas suas em nosso próprio contexto social e até no último lugar da terra. Ainda há, em alguns lugares, certa dificuldade em se compreender a questão do ser humano integral. Nesse sentido, quero demonstrar que a visão dualista do ser humano, defen- dida pela teologia cristã, ainda que um dualismo moderado, tem sua origem séculosatrás, quase no alvorecer do cristianismo, mais especificamente no segundo século, quando as comunidades cristãs foram infiltradas por ideias gnósticas. O gnosticismo, por sua vez, teve como uma das suas fontes principais o dualismo antropológico platônico. Como consequência, defendia tanto a clássica separação entre espírito e matéria, quanto a imortalidade da alma. Ao longo dos séculos, à medida que ia se formando o pensamento teológico cristão, esse dualismo foi se cristalizando de for- mas variadas, com poucas tentativas de superação. Essa divisão entre o mundo mal da matéria e o mundo bom do espírito não teve sua aplicação restrita tão somente à antropologia, mas passou a determinar também a construção da sociedade em suas dimensões políticas, sociais, econômicas, culturais, religiosas etc. O problema da antropologia iniciou de fato no momento em que as comunidades cristãs come- çaram a elaborar uma teologia. Com forte influência da filosofia helênica, a teologia que daí resultou é um híbrido de pensamento neotestamentário e neoplatônico. Missão Integral, Aspectos Gerais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 83 A título de exemplo, e como nos lembra Leonardo Boff (1973, p. 67), o Novo Testamento não afirma a imortalidade da alma, pensamento este defendido por Platão. O que é afirmado sobejamente nas Escrituras é a fé na ressurreição dos mortos. Já o platonismo afirma a imortalidade da alma e não reconhece a res- surreição, amplamente defendida no Novo Testamento. A mistura desses dois pensamentos (imortalidade da alma – platônica; ressurreição – cristã) deu ori- gem à seguinte teologia: depois da morte do cristão, a alma vê-se diante de Deus, goza de sua presença até o fim dos tempos quando será novamente reunida ao corpo ressuscitado. A partir daí, passou-se a crer nos círculos cristãos que a morte só atinge ao corpo, assim como a ressurreição também é somente para o corpo. Pode-se dizer que esse pensamento não é mais nem bíblico nem platônico, é uma terceira via. Alfonso García Rubio (2006, p. 80) mostra que esse debate não se limitou aos círculos acadêmicos. Tivesse ele permanecido somente no mundo dos embates teóricos, provavelmente não mereceria nossa atenção. Contudo suas consequ- ências práticas podem ser sentidas na forma como a Igreja passou a valorizar a alma em detrimento do corpo, a fé cristã em detrimento das opções sociopolíti- cas, a vida no céu em detrimento da vida na terra, o Jesus divino em detrimento do Jesus humano e assim por diante. Por conseguinte, graves desvios e um cem número de atitudes violentas e discriminatórias foram sustentados pela Igreja com base na metafísica dualista de desprezo pelo corpo. Adiantando o debate, podemos citar, de forma pontual, a Inquisição, as Cruzadas, o genocídio dos povos ameríndios e a escravidão dos povos africanos. Há muito que se possa estudar e discutir sobre a Missão Integral, mas aqui, para nosso estudo, apresentamos algumas ideias que nos informam e nos con- vidam a pesquisar mais sobre este valioso tema. Pregue o Evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras. (São Francisco de Assis) A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E84 O PARADIGMA DA MISSÃO INTEGRAL O movimento da Missão Integral ou Teologia da Missão Integral, populari- zado após o Congresso Internacional de Evangelização Mundial realizado em Lausanne, Suíça, em 1974, ganhou as ruas no Brasil somente depois que o Pacto de Lausanne foi publicado em português, dez anos após sua elaboração. Desde então, a expressão Missão Integral ficou restrita ao debate a respeito da relação entre evangelização e responsabilidade social, e chegou aos nossos dias tão reduzido que qualquer igreja que tem uma creche acredita estar “fazendo Missão Integral”. Evidentemente, isso é uma distorção do conceito em seus termos originais, até porque o Pacto de Lausanne é uma síntese de muitos outros documentos e de um riquíssimo debate teológico, pastoral e missional que correu pela América Latina, inclusive anos antes de Lausanne, como exemplo, no primeiro Congresso Latino-Americano de Evangelização (CLADE I), em Bogotá (1969), e no surgi- mento da Fraternidade de Teólogos Latino-americanos (FTL), em Cochabamba, 1970. O fato é que Missão Integral se tornou um conceito atrelado a ideias como (1) tarefa, pois é missão, e nesse sentido, é menor do que o conceito de vivência ou experiência pessoal e comunitária da fé; (2) ação proselitista: ação que visa à conversão; (3) ação em favor dos pobres: diaconia, projetos sociais, atuação para mudanças das estruturas sociais; (4) polarização ou integração dos temas evangelização e responsabilidade social da igreja. Em outras palavras, o senso comum associa missão integral à evangelização somada à ação social, com uma perspectiva reducionista, apesar de lógica: comprometa-se com as causas da jus- tiça social tanto para adquirir o direito de anunciar o Evangelho quanto para dar credibilidade as suas ações evangelísticas, uma vez que o que importa mesmo é a conversão das pessoas e o crescimento da igreja. Uma reflexão a respeito do con- ceito mais fundamental da teologia ou movimento da missão integral, expresso no tema central do Pacto de Lausanne, a saber, o Evangelho todo para o homem todo, nos levará muito além das fronteiras definidas pela relação evangelização e responsabilidade social. Missão Integral, Aspectos Gerais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 85 O PARADIGMA DO EVANGELHO INTEGRAL Para quebrar o paradigma missão integral = evangelização + responsabilidade social, proponho a substituição do termo missão integral por Evangelho inte- gral. Por Evangelho integral, quero dizer: 1. O Evangelho como lente para leitura da vida em sua totalidade. 2. O Evangelho aplicado a todas as dimensões do humano. 3. O Evangelho aplicado a todas as dimensões da vida. 4. O Evangelho aplicado a todas as dimensões das relações humanas. 5. O Evangelho aplicado a todas as dimensões da vida em sociedade. 6. O Evangelho como realidade que afeta todas as dimensões do universo criado. PACTO DE LAUSANNE Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou, segundo as Escrituras, e de que, como Senhor e Rei, ele agora oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a to- dos os que se arrependem e creem. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconci- liarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que quei- ram segui-lo a negarem a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obedi- ência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo. *Documento produzido durante o Congresso Internacional de Evangeliza- ção Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, de 16 a 25 de julho de 1974, com a presença de 2.700 participantes, representando mais de 150 países. ©shutterstock A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E86 Observe que alguém facilmente diria que um projeto social está relacionado à Missão Integral, mas dificilmente consideraria um encontro de casais realizado em um hotel 5 estrelas como um projeto de Missão Integral. A organização de um centro comunitário é imediatamente percebida como ação de Missão Integral, mas um sarau com muita música e leituras de Fernando Pessoae Adélia Prado exigiria muita explicação para que fosse associado à Missão Integral. O senso comum diria que o médico que dedica um final de semana para trabalho volun- tário numa comunidade da periferia da cidade está fazendo Missão Integral, mas diria que o mesmo médico, cobrando R$ 700,00 por uma consulta em seu con- sultório, está realizando seu trabalho secular (não religioso), ou, no máximo, ganhando dinheiro para financiar projetos de Missão Integral. É urgente ampliarmos o horizonte de reflexão. Extrapolar os limites defi- nidos pelo debate evangelização/responsabilidade social e mergulharmos nas implicações das relações sagrado/profano e religioso/não religioso para a vivên- cia da espiritualidade cristã pessoal e comunitária. O SAGRADO E O PROFANO Os termos sagrado e profano são amplamente discutidos pelos teóricos das ciências da reli- gião, como Mircea Eliade, Émile Durkheim e Rudolf Otto. Para esses teóricos, sagrado é basicamente aquilo que porta uma manifesta- ção do divino ou do transcendente, que Otto (1917), por exemplo, chama de numinoso ou mysterium tremendum, e Eliade (1992) considera ser de uma ordem diferente ou de uma realidade que não pertence ao mundo natural. Nesse sentido, profano não está necessariamente associado a sujo, demoníaco, diabólico ou oposto a Deus. Profano é apenas e tão somente toda ordem natural que não comporta uma manifestação ou relação com o divino, sobrenatural ou transcendente. ©shutterstock Missão Cristã na América Latina Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 87 Em termos simples, a partir de uma perspectiva religiosa cristã, considero sagrado tudo aquilo que está de acordo com o caráter e os propósitos de Deus ou que a Deus esteja relacionado de maneira direta e intencional. Profano seria, então, aquilo que é neutro ou até mesmo está em oposição ao que é sagrado, isto é, aquilo que não está de acordo ou não está relacionado de maneira intencional e direta com o caráter e os propósitos de Deus. A relação das expressões religioso/não religioso e sagrado/profano nos remete imediatamente à compreensão de que, assim como existe uma dimen- são sagrada no espaço não religioso, existe também uma dimensão profana no espaço religioso. Voltando aos exemplos anteriores, um encontro de casais realizado em um hotel 5 estrelas, um sarau com muita música e leituras de Fernando Pessoa e Adélia Prado e a consulta médica ao valor de R$ 700,00 podem perfeitamente serem ati- vidades sagradas, isto é, desenvolvidas de acordo com o caráter e os propósitos de Deus, sendo, portanto, vivências do Evangelho Integral. A expressão Evangelho Integral representa melhor o espírito de Lausanne e do movimento da Missão Integral, a saber: o evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens. MISSÃO CRISTÃ NA AMÉRICA LATINA Muito oportuno o que escreve René Padilla (2005) em sua obra “Missão Integral”, em relação às questões que envolvem a América Latina e o dito Terceiro Mundo, especialmente quando trata do desafio do desenvolvimento e da justiça. Isso porque há vários problemas sociais que a Missão Cristã precisa perceber e se envolver na busca por, pelo menos, ame- nizar o difícil quadro. A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E88 Padilla (2005) escreve que, segundo um relatório das Nações Unidas, emi- tido em 1974, mais de 460 milhões de pessoas no mundo padecem de fome crônica. Você acredita que este número se alterou? Pois alterou, sim, e, infeliz- mente, para pior: Cerca de 842 milhões de pessoas, um em cada oito habitantes do mun- do, sofreram de fome crônica entre 2011 e 2013, ao carecer de alimentos suficientes para levar uma vida ativa e saudável, segundo um relatório publicado pela Organização da ONU para a Alimentação e a Agricul- tura (FAO, indica o documento “O Estado da Insegurança Alimentícia no Mundo (SOFI)”, elaborado pela FAO, o Fundo Internacional de De- senvolvimento Agrícola (FIDA) e o Programa Mundial de Alimentos (PMA). (UMA EM..., 2013, on-line). Afirma Padilla (2005) que o desafio do Terceiro Mundo é um desafio aos ricos, aos seus valores e ideais, a suas ambições e normas, seus pressupostos e seu estilo de vida. E a resposta a esse desafio não pode ser dada somente em termos de atividades caritativas e programas de ajuda; ela tem que acontecer em termos de uma redistribuição das riquezas que responda às exigências da justiça social. Os países pobres da Ásia, África e América Latina têm em comum um sis- tema econômico baseado no intercâmbio de produtos industriais por produtos agrícolas, um sistema que lhes foi imposto pela Europa durante os séculos XVIII e XIX e que os deixou abandonados. Para eles, não há saída, a menos que as nações ricas vejam que o crescimento econômico não é um fim em si mesmo, que a vida econômica somente tem sentido no contexto da solidariedade, mordomia e res- ponsabilidade humana. A Missão Cristã se orienta para o desenvolvimento de toda a pessoa e de todas as pessoas, inclusive a formação de um novo estilo de vida – “um estilo de vida feito para permanecer” – baseado em novos métodos de produção e novos padrões de consumo. Inclui, também, a criação de uma nova tecnologia subordinada ao ser humano e que respeite a natureza. Chegou o momento de dar atenção às palavras de Ernesto Sábato (1974, p. 28): “será necessário, agora, recuperar aquele sentido humano da técnica e da ciência, fixar seus limites, concluir sua religião”. Padilla (2005) escreve que o desafio que a igreja encara no campo de desenvolvimento, hoje, é fundamental- mente o desafio de um desenvolvimento humano no contexto da justiça. Fazem falta modelos de missão plenamente adaptados a uma situação marcada por Missão Cristã na América Latina Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 89 uma distância abismal entre ricos e pobres. Os modelos de missão baseados na riqueza do Ocidente solidarizam-se com essa situação de injustiça e condenam as igrejas do mundo pobre a uma permanente dependência. No final das contas, portanto, são contraproducentes para a missão. O desafio tanto para os cristãos no Ocidente como para os cristãos nos países subdesenvolvidos é criar modelos de Missão centrados em um estilo de vida profético, modelos que apontem para Jesus Cristo como o Senhor da totalidade da vida, à universalidade da igreja e à interdependência dos seres humanos no mundo. Trago, ainda, para nossos estudos sobre Missão Cristã na América Latina alguns parágrafos do livro “O encanto da missão”, do teólogo Hermann Brandt (2006), que contribui muito com o tema, pois reafirma a centralidade da mis- são tanto para as igrejas cristãs quanto para a teologia. Brandt entendia que a missão implica impulso para a transformação, da igreja e do mundo, a quem o Evangelho é anunciado. Nessa obra, da qual apresentamos alguns trechos, o autor escreveu que há quatro tópicos que marcam a teoria e a prática da missão na América Latina: a convivência com o outro; a inserção nas culturas e realidades desse outro; a permeabilidade, que significa um abrir-se às influências e experiências significa- tivas desse outro; por fim, a atualização do Evangelho, que significa que o outro ao apropriar-se desse Evangelho o ressignifica e reinterpreta de modo criador e desafiante. Essas práticas, escreveu Brandt (2006, p. 68): são posturas de discrição, vulnerabilidade, respeito pelos outros. A prontidão para a solidariedade, para encaixar-se no alheio, ser recep- tivo – assim se mantém presente o Evangelho. [...] E isso não como renúncia à missão, mas, pelo menos na América Latina, como missão alternativa. Como missão que [...] se reporta à palavra encarnada de Deus. Escreve-nosainda Brandt (2006) que, na América Latina, hoje, a missão é prati- cada nesse espírito de missão não violenta e, bem por isso, comprometida com o Evangelho da palavra encarnada. Nos últimos tempos, essa prática foi des- crita mediante três conceitos (em outro momento, o autor apresenta também um quarto conceito que cito aqui): A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E90 1. Convívio: a vida conjunta, a missão recíproca, que não se restringe ao aspecto verbal (de passagem, já Justino Mártir, no século II, menciona cristãos judaicos dispostos ao “convívio”). 2. Permeabilidade: deixar entrar os impulsos dos outros, ou seja, missão com paixão – do ponto de vista cristão. 3. Inserção: adaptar-se – implante, aceitação de uma nova identidade, por exemplo, sob as condições de uma cultura indígena – como seguimento da encarnação. 4. Atualizar o Evangelho – por exemplo, na cultura andina. Isso se realiza mediante troca de domicílio com o objetivo de arraigar-se na respectiva cultura indígena e nela representar o Evangelho. O Evangelho motiva missionárias e missionários para a convivência, a inserção, a permeabilidade. São posturas de discrição, vulnerabilidade, respeito pelos outros. A prontidão para a solidariedade, para encaixar-se no alheio, ser receptivo – assim se mantém presente o Evangelho. A crítica de que então o Evangelho estaria ausente é contestada da seguinte maneira: justamente assim mantemos presente o Evangelho, justamente na qualidade de Evangelho. E isso não como renúncia à missão, mas, pelo menos na América Latina, como missão alternativa. Como missão que, em todos os quatro aspectos, se reporta à palavra encarnada de Deus. Nessa mesma obra de Hermann Brandt (2006, p. 82), que apresentamos aqui, há um capítulo intitulado “Missão na América Latina”, e o autor apresenta sete teses. As sete teses apresentadas por Brandt (2006) são: Missão e mercado; O que foi esquecido no ano de Colombo; Missão e poder; Missão como agres- são; Missão e emancipação; Prática e teoria da missão: quatro tópicos; Missão não verbal. Aqui queremos trazer somente alguns trechos para nossa reflexão: Missão Cristã na América Latina Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 91 (Missão e mercado) – Entre nós, as vozes latino-americanas sobre a mis- são, e possivelmente não só vozes da América Latina, estão sujeitas às leis do mercado. O mercado livreiro censura a missão. Dois exemplos, contraditórios apenas na aparência: O intérprete da Bíblia latino-ame- ricano certamente mais conhecido, Carlos Mesters, descreve em seu co- mentário sobre os hinos do servo de Deus de Deuteroisaías como Deus equipa o povo oprimido para a sua missão. Assim, “ele pode contar com a certeza de que esta é a sua missão, recebida do próprio Deus (Isaías 42.6)”. O original brasileiro por isso também levou o título “A missão do povo que sofre”. A editora Neukirchener, que publicou a tradução alemã, considerou esse título unilateral, sujeito a mal-entendidos e contrapodu- cente para as vendas. Por isso o título da versão alemã foi alterado para “a mensagem do povo que sofre”. “Missão” atrapalha a venda. Diferente é o tratamento quando um título polemiza com o conceito de missão. A editora Patmos publicou um dos últimos livros de Leonardo Boff com o título alemão “Deus chega antes do missionário”. Na capa, esse título é relacionado com subtítulos em segundo plano: “Antigamente Deus vinha como missionário”; “Antigamente o missionário vinha como Deus”; “O missionário chega antes de Deus”. Só que o título original é totalmente diferente: Nova evangelização: perspectiva dos oprimidos. E o conteúdo? Apesar de toda a crítica feita à história da missão, sua quintessência é: “O primeiro missionário e evangelizador é o próprio trino Deus”. Antes dos missionários, “o trino Deus já está ali”. E Boff abona isso com uma citação do Concílio Vaticano II, Ad Gentes, nº 2 – (“A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária [isto é, está a caminho como enviada], visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo”. Pois a mensagem da cruz é loucura para os que estão perecendo, mas, para nós, que estamos sendo salvos, é o poder de Deus, pois está escrito: “destrui- rei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes”. Onde está o sábio? Onde está o erudito? Onde está o questionador desta era? (I Coríntios 1.18-31) A HISTÓRIA DA MISSÃO CRISTÃ - PANORAMA GERAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIU N I D A D E92 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), esperamos ter sido oportuna esta segunda unidade. Queremos ressaltar e enfatizar que a Missão Cristã tem história e precisa ser cada dia melhor proclamada. Se faz necessário também despertar em nós grati- dão pelos que nos antecederam na Missão, não alienados de possíveis equívocos que a história registra, mas devemos ser menos críticos (digo da crítica, pela crí- tica) e mais agradecidos, pois temos uma grande história, haja vista o “grande século das missões” e seus personagens mais expressivos. O chamado cristão é para que todas as dimensões da vida sejam santificadas – tornadas sagradas, isto é, desenvolvidas e experimentadas de modo a se confor- marem ao caráter e aos propósitos de Deus. O evangelho integral é a expressão que passo a usar para me referir ao desafio de sujeitar a Deus todas as dimen- sões da existência humana. É preciso também ressaltar a questão da Missão Integral, sua grande con- tribuição e relevante chamada para uma nova perspectiva à Igreja em missão. Acreditamos que em cada um desses conceitos e tempos, os cristãos, a partir de suas próprias realidades e culturas, debateram-se com a questão do que a fé cristã e, por implicação, a missão cristã significavam para eles. É supérfluo dizer que todos acreditavam e sustentavam que sua compreensão da fé e a missão da igreja era fiel ao intento divino. Isso não quer dizer, porém, que todos pensas- sem de forma idêntica e que chegassem às mesmas conclusões. Mas com todo o conhecimento histórico corremos o sério risco de sabermos muito sobre missões, teoricamente falando é claro. Livros são escritos, deba- tes acontecem, seminários sobre missões, semanas missionárias, relatórios com gráficos, vários artigos na internet, slides que apontam lugares/pessoas não alcan- çadas etc., mas, tomara que eu esteja errado, pouco se vê sendo feito na prática. 93 1. Discorra sobre o “Grande Século” das Missões Cristãs. 2. Comente em, no máximo, dez linhas sobre a “Missão Integral”. 3. Gonçalves (2016), no livro “Teologia e História da Missão Cristã”, diz que a Missão Integral na Igreja quer expressar duas “coisas” básicas: a) o compromisso com todo o Conselho de Deus; b) a missão da igreja leva em conta a pessoa na sua totalidade, bem como o contexto no qual a pessoa vive. Assim, em relação a Te- ologia da Missão Integral, MARQUE a alternativa correta: a. A Teologia da Missão Integral propõe arrecadar fundos para enviar os missio- nários. b. A Teologia da Missão Integral propõe mesclar ação social com o evangelismo. c. A Teologia da Missão Integral propõe mesclar evangelismo com a penitência. d. A Teologia da Missão Integral propõe fazer mais discípulos de forma aleatória para um avanço mais rápido do Evangelho. 4. As estruturas missionárias foram surgindo para tornar em ação o desejo de levar a fé a outros. Nisso, houve um desenvolvimento muito rápido de missões nesse período. Assim, Gonçalves (2016), no livro “Teologia e História da Missão Cristã”, afirma que “Ekström (2001) entende que houve muitas causas para o rápido de- senvolvimento de missões neste período”. Sobre as causas que levaram a esse desenvolvimento, ANALISE asassertivas a seguir e MARQUE a alternativa correta: I. O despertamento escatológico. II. O zelo social, educacional e de saúde. III. A expansão colonial. IV. A conscientização da urgência missionária. V. A arrecadação de dízimos para financiar as missões, foi a principal causa para esse desenvolvimento. a. I, II, III e IV. b. II, III e IV. c. I, II e III. d. II e IV. e. Todas as afirmações estão corretas 5. Discorra sobre a missão da América Latina. 94 QUALIDADES DE UMA VIDA MISSIONAL Tácito Leite Filho (2004, p.147) nos apresenta algumas características importantes na vida de um missionário: Mentalidade apostólica – consciência clara do que Deus requer baseada no estudo das Sagradas Escrituras, conhecimento da situação, sensibilidade ao Espírito e experiên- cia prática. Isso significa ter bom conhecimento do propósito e intenção de Deus para com o ser humano, e estar a par do que Deus está fazendo atualmente neste mundo. A diferença entre o verdadeiro e o falso apostolado está na maneira como ele coopera no trabalho de Deus, com zelo na propagação do Evangelho, pela vontade de Deus e não por vaidade humana, evitando propaganda ou proselitismo. Equipamento intelectual – o que dizer da largamente difundida noção de que evange- lização, particularmente entre outras culturas, deve ser realizada por profissionais com preparo especial? Dou graças a Deus para todos que são especialmente preparados em teologia, técnicas pastorais e comunicação transcultural, mas a evangelização do mun- do é tarefa grande demais para ser confiada apenas a um corpo de elite. Ainda que mais deles tivéssemos e ainda que melhores preparados fossem. A clara responsabilidade bíblica pela evangelização não fica limitada a uma classe profissional, mas pertence à igreja inteira e a cada cristão. O testemunho não é privilégio de alguns poucos, mas sim a obrigação de todos. [...] Fé inabalável – em qualquer situação, o missionário deverá imitar o exemplo dos servos de Deus mencionados no texto de Hebreus 11. Fé que fizeram com que conquistassem. Ao passar a fronteira, se enfrenta um novo mundo. Para isso, Deus exige uma fé com- pleta n’Ele. Deus não exige homens com grandes talentos, mas com vidas consagradas. Dons para comunicar a fé – a comunicação da mensagem do Evangelho não pode ser apenas em palavras e ideias, mas com atitudes e experiências. É necessária uma prepara- ção minuciosa na linguagem, habilidade para ouvir e apreciar tão bem quanto testificar e declarar a Palavra de Deus; aptidão para pregar ou falar do Evangelho, não somente nas atividades da Igreja, mas também na vida, trabalho, lar, casamento, família, filhos etc. Profundidade espiritual – precisa haver compromisso e dedicação suficientes para ganhar o respeito dos cristãos e não cristãos. Muitas queixas vieram para as Igrejas do ocidente procedentes do oriente por não terem passado por ali missionários competen- tes, isto é, que pouco puderam transmitir ao povo, por não levarem consigo bagagem espiritual eficiente. “Nós queremos missionários que nos possam ajudar a ir além de nós mesmos”, disseram. Meros técnicos e hábeis profissionais não são o suficiente. O neces- sário e essencial é o espiritual. Persistência – dentre as diversas tarefas a serem realizadas no Reino de Deus, talvez não haja uma que exija maior persistência do que o trabalho missionário em campo pioneiro. Não precisamos fazer qualquer malabarismo para ver na vida do apóstolo Pau- 95 lo esta marcante persistência na realização da obra missionária. Se voltássemos nossos olhos à Birmânia, ao tempo em que ali militava Adoniram Judson, poderíamos verificar que nos primeiros anos, não houve qualquer fruto aparente, somente perseguições e violências. Após sua morte, entretanto, muitas sementes germinaram. Foi a persistência do obreiro que contribuiu para garantir a vitória. Deu sua vida. Foi vitorioso, pois cumpriu o chamado. Renúncia – é outra grande característica na vida do apóstolo Paulo a servir-nos de exemplo e desafio. Ele “abriu mão” dos seus títulos, da sua posição política, do seu cargo administrativo no Império Romano, porque compreendeu que a obra missionária estava a exigir dele uma visão completamente diferente do que até então havia tido. Fez da obra missionária o seu negócio, que mais tarde seria imitado por dezenas e dezenas de homens e mulheres, valorosos no Senhor, que renunciando a tudo, dedicam suas vidas por inteiro à causa missionária. Esforços contínuos precisam ser empreendidos em prol de influências duradouras; missionários são aquelas pessoas que, muitas vezes, necessi- tam estar dispostas a abandonarem sua profissão secular, seus parentes, sua gente e sua terra (sem reservas) e partir em rumo a uma terra desconhecida para lutarem em prol da salvação daquelas pessoas. Vida de oração – foi outro traço distinto do perfil missionário do apóstolo. Isso porque ele sabia dos recursos ilimitados existentes na oração. Há certos momentos quando o missionário percebe que só a oração poderá mover os tremendos obstáculos que pre- tendem impedir a realização da obra. A oração opera grandes transformações no cora- ção do homem. No exercício da obra missionária, ao mesmo tempo em que ora por si, o missionário também se torna um sacerdote na condução do povo a Deus. É como um elo entre o Deus amoroso e um povo necessitado. Amor profundo – obra missionária alguma poderia subsistir se não fosse fundamen- tada no amor. Essa é a motivação básica para o missionário, sendo que existem três dimensões importantes, dentro das quais o amor deve operar, enquanto realiza missões. A obra missionária é, prioritariamente, um profundo ato de amor a Deus. Realizamos mis- sões porque amamos a Deus e desejamos obedecer a Sua vontade. A obra missionária é também um profundo ato de amor ao próximo. Quando o bom samaritano (Lucas 10.30- 17) viu seu próximo massacrado e abatido à beira do caminho “moveu-se de íntima compaixão”. É importante também o amor que o missionário precisa sentir por si mesmo. Ele encontra tantos motivos para apreciar-se a si mesmo como servo de Deus, que com- partilha sua fé não como uma obrigação, mas como a expressão de uma vida realizada, feliz, que encontrou no Evangelho de Jesus Cristo as respostas às suas necessidades fundamentais. A partir dessa realização e em resposta ao amor de Deus, o missionário vai em direção ao próximo, desejando que nele se operem as mesmas bênçãos e vitórias que já são vivenciadas por ele. Fonte: Filho (2004, p.147), MATERIAL COMPLEMENTAR Missão Transformadora - Mudanças de Paradigma na Teologia da Missão David J. Bosch Editora: Sinodal Sinopse: Missão Transformadora está em uma classe toda própria. Tornou-se uma referência-padrão no estudo da missão cristã mundial, sendo talvez o livro-texto mais usado em aula e cursos de missão. O Magnum opus de David Bosch transformou-se em seu legado permanente para todas as pessoas que procuram entender, servir e disseminar a causa de Cristo no mundo. Sepal – Servindo aos Pastores e Líderes É uma missão internacional, estabelecida no Brasil em 1963. Nosso sonho é ver uma igreja saudável, ao alcance de todo brasileiro, que possa levar o evangelho de Jesus Cristo ao mundo todo. Estamos empenhados em causar impacto em líderes e igrejas, encorajando-os e desafi ando-os a desenvolver ministérios saudáveis. A Sepal faz parte da Aliança Global OC, uma missão interdenominacional na sua estrutura e intereclesiástica no seu ministério. Disponível em: <http://sepal.org.br/>. REFERÊNCIAS BARTH, K. Kirchliche Dogmatik. Vorlesungen, 1959. BÍBLIA. Portuguesa. A Bíblia Viva. 5.ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão. 2008. BRANDT, H. O encanto da missão – ensaios de missiologia contemporânea. São Leopoldo: Sinodal, 2006. BOFF, L. A Ressurreição de Cristo. A nossa Ressurreição na Morte: a dimensão antropológica da esperança humana. Petrópolis: Vozes, 1973. BOSCH, D. J. Missão Transformadora: mudanças de paradigma na Teologiada Mis- são. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002. EKSTRÖM, B. História da Missão: a história do movimento missionário cristão. Lon- drina: Descoberta, 2001. FILHO, T. da G. Leite. Missões e Antropologia. Goiânia/GO: CETEO, 2004. GONZÁLEZ, J. L. História do Movimento Missionário. São Paulo: Hagnos, 2008. PADILLA, R. A Evangelização e o Mundo. São Paulo e Belo Horizonte: ABU Editora e Visão Mundial, 1982. PADILLA, R. Missão Integral – ensaios sobre o Reino e a Igreja. Londrina: Descober- ta, 2005. RUBIO, A. G. Unidade na Pluralidade: o ser humano à luz da fé e da reflexão cristãs. São Paulo: Paulus, 2006. SÁBATO, E. Hombres y engranajes: obras y ensayos. Buenos Aires: Editorial Suda- mericana, 1974. STOTT, J. A missão cristã no mundo moderno. Viçosa: Ultimato, 2010. Vários autores. A Missão da Igreja no Mundo Atual (Mundo de Hoje). ABU e Visão Mundial. UMA EM cada oito pessoas sofre de fome crônica no mundo, segundo FAO. 2013. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/2013/10/uma-em-cada-oito- -pessoas-sofre-de-fome-cronica-no-mundo-segundo-fao.html>. Acesso em: 13 out. 2016. 97 GABARITO 1. O Grande Século missionário, período que compreende os anos de 1792 a 1914, pertence às épocas mais brilhantes da história da Igreja e, especialmente, da his- tória de missões. Um movimento missionário sem igual, desde os tempos dos apóstolos, caracterizou esses 122 anos em que a determinação, a coragem, a fé e o sucesso acompanharam a maioria dos pioneiros e seus sucessores. 2. A Missão Integral na Igreja quer expressar duas “verdades” básicas: O compromisso com todo o Conselho de Deus. Na missão, não se deveria fazer da Bíblia um picadinho, onde e quando se trabalha com a Bíblia com um critério de seleção limitante. A Bíblia quer e precisa ser considerada na sua totalidade. A missão da igreja leva em conta a pessoa na sua totalidade, bem como o contexto no qual a pessoa vive. A missão veste a roupa da encarnação. 3. A Teologia da Missão Integral propõe mesclar ação social com o evangelismo. 4. A. 5. Apresentamos aqui um capítulo intitulado “Missão na América Latina”, e o autor apresenta sete teses. As sete teses apresentadas por Brandt (2006) são: Missão e mercado; O que foi esquecido no ano de Colombo; Missão e poder; Missão como agressão; Missão e emancipação; Prática e teoria da missão: quatro tópicos; Mis- são não verbal. U N ID A D E III Professor Me. Roney de Carvalho Luiz Professor Me. Marcelo Aleixo Gonçalves TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar os conceitos e termos que envolvem a Teologia e a Teologia da Missão. ■ Analisar os conceitos bíblicos que envolvem a Teologia da Missão. ■ Verificar alguns fundamentos bíblicos sobre a “Missão”, tanto no Antigo como no Novo Testamento. ■ A participação da Trindade no cumprimento da Missão. ■ Estudar sobre Missão e o Espírito Santo. ■ Estudar o papel da Igreja na Missão. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Teologia e Teologia da Missão ■ O Deus trino e a Missão ■ O Espírito de Deus atua na Missão Cristã ■ Igreja e Missão: qual o papel da Igreja? ■ Evangelização e Missão, ou seja, a Missão de Evangelizar INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Nesta terceira unidade, apresentaremos alguns aspectos significativos sobre a Teologia da Missão, entre eles, o tema a Grande Comissão, a convocação do Senhor para Sua Igreja. Queremos deixar claro que a Missão Cristã tem uma Teologia de base e nasce em uma ordenança de Jesus. Com isso, apresentaremos um tópico no qual abor- damos a Missão Cristã na perspectiva bíblica, pois se tem detectado uma grande falta de alicerce bíblico coerente em muitas iniciativas que se dizem missioná- rias. Devemos voltar à Bíblia Sagrada com humildade e buscar, em sinceridade, sua revelação e direção. Ressaltaremos, também, o Deus trino, a Missão Cristã e a Pessoa e Presença do Espírito Santo nas ações missionárias. Bons estudos! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 101 ©shutterstock TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E102 TEOLOGIA E TEOLOGIA DA MISSÃO Caro(a) aluno(a), iniciemos analisando os termos: Teologia: sistema de crença religiosa acerca de Deus ou da realidade suprema. Geralmente a teologia se refere à fé cristã e à experiência de Deus com base na autorrevelação divina. A teologia também busca ampliar essas verdades à experiência e ao pensamento humano como um todo (GRENZ; GURETZKI; NORDLING, 2002). Michel (1953, p. 35-36) escreveu que toda teologia genuína é batalha contra o teologismo, a teorização, e contra a tentativa de substituir o motivo genuinamente bíblico e histó- rico por uma transformação filosófica. A teologia genuína está relacio- nada a tensões insolúveis e formas de pensamento autodefiníveis das Escrituras Sagradas, as quais não podem tornar-se parte de nenhum esquema humano nem sistema teológico. Atualmente, estamos apai- xonados por simplificações, enquanto a Bíblia glorifica a simplicidade humilde; atualmente, desejamos soluções fáceis, enquanto a Bíblia nos fortalece com as soluções para prosseguirmos; atualmente, desejamos cada vez mais ouvir a nós mesmos, enquanto a Bíblia nos convidaria a ouvir a palavra pura. Teologia e Teologia da Missão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 103 Teologia Bíblica: disciplina que tenta resumir e reformular o ensino de um texto ou autor bíblico sem lhes impor nenhuma categoria moderna de pensamento. O objetivo, ao contrário, é entender a “teologia” de um livro ou autor da Bíblia em seus antecedentes históricos (GRENZ; GURETZKI; NORDLING, 2002). Objetivo da Teologia: é amplo, mas segundo René Padilla (2005), não é a construção de um sistema doutrinário ajustado às leis da lógica, mas sim o dis- cernimento da vontade de Deus para a vida prática. Tem muito mais a ver com a sabedoria, cujo princípio é o temor do Senhor, do que com excelência acadê- mica. Exige, portanto, além da capacidade de raciocinar, um espírito de oração e abertura à direção do Espírito de Deus. Teologia da Missão: para apresentar conteúdo sobre a Teologia da Missão, escolhi lançar aqui, de forma resumida, o capítulo sete – “Em busca de Teologia de Missão”, do autor Johannes Blauw (1966), de sua obra “A natureza missionária da Igreja”. Nas publicações das últimas décadas, a proclamação do Evangelho é vista muito mais como sinal do fim do que como sinal do cumprimento. A evidência para essa tese está em Marcos 13.10 – “E é necessário que antes o evangelho seja pregado a todas as nações” e Mateus 24.14 – “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim”, em que a missão é mencionada entre os sinais divinos, ao lado de aflições como guerras, fomes etc. A vinda do Reino não depende do resultado, mas do fato da pregação. Segundo essa opinião, escreve Blauw (1966, p. 64): a missão, como todos os “sinais”, não admite cálculo único, nem limita- ção única quanto a esta ou qualquer outra geração. De acordo com esta ideia cristã dos primeiros tempos, a Igreja deve proclamar o Evangelho ao mundo todo em cada geração. Desde 1930, o caráter escatológico da missão vem recebendo ênfase cada vez maior. E alguns há que chegam ao ponto de explicar o impasse teológico da Conferência do Concílio Internacional de Missões, realizada em Willingen, em 1952, por meio desta tensão entre o caráter da missão como expectação e cumprimen- to, entre Reino e Igreja. (...) A Igreja e a missão ainda são muitas vezes contrastadas, como estática e dinâmica, introvertida e extrovertida, e o caráter escatológico da missão ainda é confundidomuitas vezes com a agitação apocalíptica e excessiva precipitação. (...) Desde a ressurrei- ção de Cristo e a descida do Espírito Santo, a Igreja e o mundo estão, ambos, em meio às mesmas circunstâncias escatológicas em todas suas ações e responsabilidades – o fim dos tempos é chegado. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E104 ■ Desde o início, a Igreja de Cristo, em sua totalidade, tem sido de natu- reza escatológica. ■ Durante toda sua existência, a Igreja de Cristo é serva do mundo, enviada ao mundo. A comunidade existe para o mundo, porque é a comunidade de Jesus Cristo. Sobre o Evangelho, Padilha (2005, p. 72) nos escreve: O Evangelho não é uma verdade abstrata que podemos reservar para a vida privada, mas sim a revelação de Missão, que assume forma huma- na pessoal e comunitária em nossa situação concreta e nos transforma em testemunhas suas em nosso próprio contexto social e até no último lugar da terra. Ainda sobre a Teologia da Missão, Blauw (1998, p. 67) escreve: consideramos de grande importância que a “teologia da missão” não seja baseada apenas na faixa estreita de alguns “textos missionários”, mas em todo o testemunho, tanto do Antigo quanto do Novo Testa- mento. (...) Talvez não seja demais chamar a atenção para a distin- ção, não sem importância, entre “universal” e “missionário”. Quando chamamos a mensagem do Antigo Testamento de “universal”, quere- mos dizer que ela tem em mente o mundo todo e que é válida para ele. Esta universalidade é a base da mensagem missionária do Antigo Testamento. Por “missionária” entendemos a comissão para o testemu- nho deliberado, para sair. MISSÃO NA PERSPECTIVA BÍBLICA Caro(a) aluno(a), qual a relevância da fé cristã para os nossos dias? A Bíblia tem algo a dizer para o homem pós-moderno? A resposta é sim, em todos os aspectos. Porém, se de um lado tem-se a Palavra de Deus revelada e de outro os destinatá- rios dessa Palavra, como “traduzir” a mensagem de modo que o maior número possível dos destinatários a entendam? A proclamação do Evangelho no mundo nunca pode, nem deve, nem nunca deverá ser qualquer outra coisa que não o falar dos feitos de Mis- são. Assim que a Igreja de Missão começa a proclamar quaisquer outros feitos, que não os feitos de Missão, torna-se infiel e não pode mais ser a benção e o serviço para o mundo. (BLAUW, 1966, p.69). Teologia e Teologia da Missão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 105 João 8.32 – “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará”. Billy Graham, no Congresso de Lausanne/Suíça (1974), foi incisivo ao dizer que “se há uma coisa que a história da Igreja nos deveria ensinar, é a importân- cia de um evangelismo teológico derivado das Escrituras”. Diz o provérbio bíblico que “não é bom proceder sem refletir e peca quem é precipitado” (Provérbios 19.2). Escobar (1997, p. 23), no prefácio de seu livro “Desafios da Igreja na América Latina”, escreve que neste fim de século (1997), encontramos um afã missionário incrível a partir da América Latina, especialmente a partir do Brasil. Isso é moti- vo de alegria para nós que cremos na obrigação missionária da Igreja, mas deve ser também motivo de reflexão à luz da Palavra de Deus e das experiências da história de missões. Muito ativismo sem reflexão pode nos levar a cometer erros, a gastar mal os recursos, a edificar sobre a areia. A Palavra de Deus nos diz que devemos agir e refletir. E ainda, Hoeksema (1973, p. 621): Somente quando a Palavra de Deus é pregada, de acordo com as Escri- turas, ali é ouvida a voz do Bom Pastor, chamando Suas ovelhas pelo nome. (...) Quando a Palavra não é pregada, ali Cristo não fala Sua Pa- lavra de salvação, e ali não está reunida a Igreja. MISSÃO NO ANTIGO TESTAMENTO Blauw (1966, p. 105) aponta que: em anos anteriores, o pensamento sobre missão no Antigo Testamen- to era sempre visto como o resultado final de extenso processo de de- senvolvimento: Javé era considerado como evolução gradual do Deus nacional dos israelitas para o Deus das outras nações e para o Deus mundial; pensava-se que os escritos proféticos, especialmente, teriam cumprido importante função. Assim, o universalismo foi julgado como conseqüência do monoteísmo e a idéia de missão como resultado do universalismo o que provoca grandes embates. No Antigo Testamento, contudo, encontramos um livro surpreendentemente evangelístico, o livro de Jonas, no qual esse profeta tornou-se missionário no estrangeiro (Nínive/Assíria), embora de forma relutante. ©shutterstock TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E106 É importante para a Teologia da Missão ter a verdadeira percepção da mensagem vétero-testamentária, em vista das dificuldades que muita gente tem encontrado em várias passagens referentes aos gentios no Novo Testamento. Estamos nos reportando aqui especificamente ao problema de Jesus e Missão, Jesus e os gentios, que tem movi- mentado tantas penas no correr dos anos. Só mediante o discernimento mais claro da estrutura e intenção da mensagem vétero-testamentária poderia ser encontrada solução satisfatória para esse problema, que – exceto quanto aos pormenores – tem sido, de modo geral, razoavelmente aceito, pelo menos nos círculos missionários. Vale ressaltar que no Antigo Testamento a premissa maior para o povo de Israel é o de possuir a terra, enquanto que, no Novo Testamento, a premissa maior consiste no ir (Marcos 16.15 – “Vão pelo mundo todo e preguem o evan- gelho a todas as pessoas”). MISSÃO NO NOVO TESTAMENTO Blauw (1966), em contraposição à tendência da teologia, dá forte ênfase à conti- nuidade – à inclinação de se ver o Novo Testamento apenas como apêndice do Antigo. Desejamos afirmar enfaticamente que a mensagem neotestamentária nos traz algo bem novo e, ante a claridade dessa coisa nova, o velho não apenas Teologia e Teologia da Missão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 107 perde o resplendor, mas é substituído por algo mais do que mero cumprimento das velhas expectações. No cumprimento, as expectações são não apenas excedidas, mas também ultrapassadas, modificadas e corrigidas. E, em contraposição à outra tendência de dar pouca atenção ao grande significado do Antigo Testamento para o Novo, desejamos afirmar, com a mesma ênfase, que o “novo” no Novo Testamento não é nada mais do que já tinha sido predito no Antigo Testamento, e que é de grande significação o fato de o “novo” no Novo Testamento ser iluminado e clarificado muitas e muitas vezes pelo Antigo, de modo que tomaremos o caminho errado se o negligenciarmos como irrelevante. Parece-me, assim, de importância essencial para a construção da Teologia da Missão, que tanto a unidade quanto a diversidade do Antigo e do Novo Testamentos sejam tidas em mente, pois a diversidade só pode ser corretamente entendida da perspectiva da unidade, e a unidade recebe a sua plena significação da perspectiva da diversidade. Essas coisas devem ser firmemente guardadas na mente, particularmente com respeito à ideia de “missão”, pois o Novo Testamento nos traz algo totalmente novo que está faltando, por completo, no Antigo: a comis- são de proclamação às nações, para a missão no sentido centrífugo. 5 Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus, 6 que, embora sen- do Deusa, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se; 7 mas esvaziou-se a si mesmo, vindo a ser servo, tornando- -se semelhante aos homens. 8 E, sendo encontrado em forma humana, humilhou-se a si mesmo e foi obediente até a morte, e morte de cruz! 9 Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu onome que está acima de todo nome, 10 para que ao nome de Jesus se dobre todo joe- lho, nos céus, na terra e debaixo da terra, 11 e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. (Filipenses 2.5-11). Blauw (1966, p. 84) aponta ainda que a: instalação de Jesus em Sua Soberania e a proclamação necessariamente resultante deste ponto é, assim, escatologia cumprida, tornada história. Com a Páscoa (narrada nos Evangelhos), começou uma nova era, bem como a entronização de novo governador do mundo e sua proclamação entre as nações. Missão é a convocação da Soberania de Cristo. A coisa distintiva acerca desta cristologia é o fato de que no evento pascal, a ressurreição do corpo não é tão acentuada quanto a elevação do Senhor à nova situação messiânica. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E108 Para Blauw (1966), o significado dessa declaração é realçado pelo fato de que a palavra “toda” ocorre algumas vezes: “toda” autoridade, “todas” as nações, “todas” as coisas que ordenei. Esse fato indica que, de acordo com o julgamento do pró- prio escritor do Evangelho, estamos às voltas com uma declaração extremamente importante e que a tudo envolve. O próprio Senhor ressurreto e exaltado dá nova forma à jubilosa mensagem que deve ser levada às nações. “Foi-me dada toda a autoridade” – esse anúncio impede-nos de admitir sim- plesmente que “toda a autoridade” significa uma alta posição. Não é o fato da autoridade em si que é importante, mas o portador da autoridade. O Evangelho é precisamente o fato de que Aquele que sofreu foi crucificado, morto, sepul- tado e ressuscitado, obteve, agora, toda a autoridade como dom do Pai. Dessa maneira, todo o mundo, visível e invisível (céu e terra), foi arrebatado das gar- ras dos outros poderes, quaisquer que sejam. A autoridade que rege o céu e a terra é, desde então, a autoridade do Servo do Senhor humilhado e exaltado. “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações” – essa nova realidade e inaudita não deve ser dada a conhecer apenas a Israel, mas deve ser levada a “todas as nações”. Essa expressão forma contraste com os judeus, com Israel, sobre quem há frequentes referências nesse mesmo Evangelho de Mateus (Mateus 1.1- 17; 2.2; 10.5-6; 15.21-28). Nesse “vão a todas as nações”, está o ponto distinto e decisivo, a grande mudança de direção do Evangelho indicada e preparada por declarações anteriores de Jesus, por exemplo, Mateus 13.38; 22.1-14; 24.14, mas agora em realização. A missão esteve outrora baseada quase exclusivamente nessa “grande comis- são”. O erro não está no fato de a missão ter sido baseada nessa declaração, mas no fato de Mateus 28.18-20 ter sido isolado de todo o testemunho bíblico, uma vez que não se pode negar que aqui, pela primeira vez, a comissão é dada para a ida às nações. Aqui, os limites da pregação do Evangelho, impostos aos apóstolos antes da ressurreição de Jesus (Mateus 10.5), são removidos; todo o mundo deve ouvir acerca da grande salvação. Isso, contudo, só pode ser alcançado mediante um ir, um visitar as nações. Esse ir está ligado à tarefa de fazer discípulos como algo orientador e determinante, a ênfase é o ir (indo). Teologia e Teologia da Missão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 109 O ministério de Jesus, confinado principalmente aos judeus, pois Ele era o Messias dos judeus, foi universalizado pela cena da ascensão, com a Grande Comissão (Mateus 28.18-20; Lucas 24.46-49; João 20.21; Atos dos Apóstolos 1.8). Em cada um desses textos, há alguma modificação no fraseado, pelo que são narrativas suplementares, que abordam pontos referidos por Jesus em seus dias finais sobre a terra. Representam uma espécie de breve comentário sobre coisas que Ele ensinou, da mesma forma que o restante dos Evangelhos. Não se pode ler o Novo Testamento e tentar entender a igreja à parte do propósito de Deus para a humanidade e a história, de onde deriva seu significado. No entanto, a universalidade do Evangelho não significa que todos participarão no Reino de Deus, mas que a igreja proclamará o Reino a todos. (PADILLA, 2005, p. 82) E ainda o texto bíblico do Novo Testamento orienta: 18 Considero que os nossos sofrimentos atuais não podem ser com- parados com a glória que em nós será revelada. 19 A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. 20 Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou, na esperança 21 de que a própria natureza criada será libertada da escravidão da decadência em que se encontra, recebendo a gloriosa liberdade dos filhos de Deus. 22 Sabemos que toda a natureza criada geme até agora, como em dores de parto. 23 E não só isso, mas nós mesmos, que temos os primeiros fru- tos do Espírito, gememos interiormente, esperando ansiosamente nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo. 24 Pois nessa esperança fomos salvos. Mas, esperança que se vê não é esperança. Quem espera por aquilo que está vendo? 25 Mas se esperamos o que ainda não vemos, aguardamo-lo pacientemente. 26 Da mesma forma, o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. 27 E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus. (Romanos 8.18-27). Em outras palavras, na perspectiva do Novo Testamento, o significado da histó- ria, em geral, está intimamente vinculado ao significado cósmico da igreja. Essa não é uma seita composta por umas poucas almas resgatadas do tumultuoso mar da história, mas a manifestação cósmica da multiforme sabedoria de Deus, que criou todas as coisas, o “novo homem” em quem se reproduz a imagem do segundo Adão, os primeiros frutos da nova humanidade (PADILHA, 2005). TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E110 O “ENVIAR” PELAS PÁGINAS DA BÍBLIA SAGRADA A ordenança de fazer discípulos de Jesus Cristo pelo mundo afora chamamos de Missões, devido à pluralidade da tarefa, embora não encontremos este termo nas páginas da Bíblia Sagrada, é fácil encontrarmos o verbo correspondente “enviar”, citamos alguns exemplos: Gênesis 12.1 – “Então o Senhor disse a Abrão: “Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei”. Juízes 6.14 – “O Senhor se voltou para ele e disse: ‘Com a força que você tem, vá libertar Israel das mãos de Midiã. Não sou eu quem o está enviando?’”. Isaías 6.8 – “Então ouvi a voz do Senhor, conclamando: ‘Quem enviarei? Quem irá por nós?’ E eu respondi: Eis-me aqui. Envia-me!”. Malaquias 3.1 – “’Vejam, eu enviarei o meu mensageiro, que preparará o cami- nho diante de mim. E então, de repente, o Senhor que vocês buscam virá para o seu templo; o mensageiro da aliança, aquele que vocês desejam, virá’, diz o Senhor dos Exércitos”. 16 Eu os estou enviando como ovelhas entre lobos. Portanto, sejam as- tutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. 17 Tenham cuidado, pois os homens os entregarão aos tribunais e os açoitarão nas sinagogas deles. 18 Por minha causa vocês serão levados à presença de governadores e reis como testemunhas a eles e aos gentios. 19 Mas quando os prenderem, não se preocupem quanto ao que dizer, ou como dizê-lo. Naquela hora lhes será dado o que dizer, 20 pois não serão vo- cês que estarão falando, mas o Espírito do Pai de vocês falará por inter- médio de vocês. (Mateus 10.16-20). 18 Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada toda a autori- dade nos céus e na terra. 19 Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações,batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, 20 ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos”. (Mateus 28.18-20). 13 Jesus subiu a um monte e chamou a si aqueles que ele quis, os quais vieram para junto dele. 14 Escolheu doze, designando-os apóstolos, para que estivessem com ele, os enviasse a pregar 15 e tivessem autori- dade para expulsar demônios. (Marcos 3.13-15). Teologia e Teologia da Missão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 111 15 E disse-lhes: “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas. 16 Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado. 17 Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; 18 pegarão em ser- pentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”. (Marcos 16.15-18). 1 Reunindo os Doze, Jesus deu-lhes poder e autoridade para expulsar todos os demônios e curar doenças, 2 e os enviou a pregar o Reino de Deus e a curar os enfermos. 3 E disse-lhes: “Não levem nada pelo cami- nho: nem bordão, nem saco de viagem, nem pão, nem dinheiro, nem túnica extra. (Lucas 9.1-3). 1 Depois disso, o Senhor designou outros setenta e dois e os enviou dois a dois, adiante dele, a todas as cidades e lugares para onde ele estava prestes a ir. 2 E lhes disse: “A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Portanto, peçam ao Senhor da colheita que mande traba- lhadores para a sua colheita. 3 Vão! Eu os estou enviando como cordei- ros entre lobos. (Lucas 10.1-3). 44 E disse-lhes: “Foi isso que eu lhes falei enquanto ainda estava com vocês: Era necessário que se cumprisse tudo o que a meu respeito está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. 45 Então lhes abriu o entendimento, para que pudessem compreender as Escrituras. 46 E lhes disse: “Está escrito que o Cristo haveria de sofrer e ressuscitar dos mortos no terceiro dia, 47 e que em seu nome seria pregado o arrepen- dimento para perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. 48 Vocês são testemunhas destas coisas. 49 Eu lhes envio a promessa de meu Pai; mas fiquem na cidade até serem revestidos do poder do alto”. (Lucas 24.44-49). 1 Depois de dizer isso, Jesus olhou para o céu e orou: “Pai, chegou a hora. Glorifica o teu Filho, para que o teu Filho te glorifique. 2 Pois lhe deste autoridade sobre toda a humanidade, para que conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. 3 Esta é a vida eterna: que te conhe- çam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. 4 Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer. 5 E agora, Pai, glorifica-me junto a ti, com a glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse. 6 “Eu revelei teu nome àqueles que do mundo me deste. Eles eram teus; tu os deste a mim, e eles têm obede- cido à tua palavra. 7 Agora eles sabem que tudo o que me deste vem de ti. 8 Pois eu lhes transmiti as palavras que me deste, e eles as aceitaram. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E112 Eles reconheceram de fato que vim de ti e creram que me enviaste. 9 Eu rogo por eles. Não estou rogando pelo mundo, mas por aqueles que me deste, pois são teus. 10 Tudo o que tenho é teu, e tudo o que tens é meu. E eu tenho sido glorificado por meio deles. 11 Não ficarei mais no mundo, mas eles ainda estão no mundo, e eu vou para ti. Pai santo, protege-os em teu nome, o nome que me deste, para que sejam um, assim como somos um. 12 Enquanto estava com eles, eu os protegi e os guardei no nome que me deste. Nenhum deles se perdeu, a não ser aquele que estava destinado à perdição, para que se cumprisse a Escritura. 13 Agora vou para ti, mas digo estas coisas enquanto ainda estou no mundo, para que eles tenham a plenitude da minha alegria. 14 Dei-lhes a tua palavra, e o mundo os odiou, pois eles não são do mundo, como eu também não sou. 15 Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. 16 Eles não são do mundo, como eu também não sou. 17 Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. 18 Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo. 19 Em favor deles eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade. 20 Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, 21 para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. 22 Dei-lhes a glória que me deste, para que eles sejam um, assim como nós somos um: 23 eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados à ple- na unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste. 24 Pai, quero que os que me deste estejam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que me deste porque me amaste antes da criação do mundo. 25 Pai justo, embora o mundo não te conheça, eu te conheço, e estes sabem que me enviaste. 26 Eu os fiz conhecer o teu nome, e continuarei a fazê-lo, a fim de que o amor que tens por mim esteja neles, e eu neles esteja. (João 17.1-26). João 20.21 – “Novamente Jesus disse: ‘Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio’”. Atos dos Apóstolos 1.8 – “Mas receberão poder quando o Espírito Santo des- cer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”. ©shutterstock O Deus Trino e a Missão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 113 11 Como diz a Escritura: Todo o que nele confia jamais será enver- gonhado. 12 Não há diferença entre judeus e gentios, pois o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam, 13 porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. 14 Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? 15 E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: “Como são belos os pés dos que anunciam boas novas”. (Roma- nos 10.11-15). I Coríntios 1.17 – “Pois Cristo não me enviou para batizar, mas para pregar o evangelho, não porém com palavras de sabedoria humana, para que a cruz de Cristo não seja esvaziada”. O DEUS TRINO E A MISSÃO É importante salientar, caro(a) aluno(a), que, quando se fala sobre Missão, temos como pessoa principal o Deus Pai, Filho e Espírito Santo em Sua manifestação salvífica, é a expressão do Deus missionário, pois o plano de Deus para o mundo é uma ação missionária que, durante a história, teve seus contornos e progressão, isso porque Deus mostrou-se ao Seu povo escolhido (Israel) e ensi- nou-os sobre Sua Palavra e vontade por meio da criação e da história. Falar do Reino de Deus em relação ao mundo não é somente afirmar a pro- vidência de Deus, mas falar do Rei-Mediador Jesus Cristo, cujo Reino se faz visível (mesmo que ainda não em sua plenitude) na comunidade que con- fessa Seu nome. (René Padilla) TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E114 Em Jesus Cristo, o Filho, revelou-nos o caminho, a verdade e a vida. Em Seu amor e misericórdia, o resgate e perdão dos pecados. No Espírito Santo, revelou- -nos o consolo, a inspiração e orientação para uma nova vida no Reino. Leonardo Boff (1973, p. 48) liga sua releitura crítica da história da missão na América Latina com uma corroboração dos enunciados do Concílio Vaticano II em Ad Gentes, nº 2, e conclui: O primeiro missionário e evangelizador é o próprio trino Deus”, e éinte- ressante observar a citação contida neste documento, “a Igreja peregri- na é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Sant”. O MÉTODO TRINITÁRIO A Missão da Igreja deve-se inspirar e fundamentar-se no exemplo Trinitário, pois o Pai envia o Seu Filho (João 3.16-18), ambos enviam o Espírito à Igreja (João 14.26,27; 15.26,27; Gálatas 4.6), habitando em nossos corações (Romanos 8.9-11 e 14-16); e nós somos enviados pelo Filho, sendo consolados e guiados continu- amente pelo Espírito de Cristo (João 17.16-19; 20.21-23). 16 Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. 17 Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. 18 Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, por não crer no nome do Filho Unigênito de Deus. (João 3.16-18). 26 Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse. 27 Deixo-lhes a paz; a minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o seu coração, nem tenham medo. (João 14.26,27). João 15.26,27 – “26 Quando vier o Conselheiro, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, o Espírito da verdade que provém do Pai, ele testemunhará a meu respeito. 27 E vocês também testemunharão, pois estão comigo desde o princípio”. O Deus Trino e a Missão Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 115 Gálatas 4.6,7 – “6 E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao coração de vocês, e ele clama: “Aba, Pai”. 7 Assim, você já não é mais escravo, mas filho; e, por ser filho, Deus também o tornou herdeiro”. 8 Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus. 9 Entretanto, vocês não estão sob o domínio da carne, mas do Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vocês. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo. 10 Mas se Cristo está em vocês, o corpo está morto por causa do pecado, mas o espírito está vivo por causa da justiça. 11 E, se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dentre os mor- tos habita em vocês, aquele que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês. 12 Portanto, irmãos, estamos em dívida, não para com a carne, para vivermos sujeitos a ela. 13 Pois se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão, 14 porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. 15 Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temerem, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: “Aba, Pai”. 16 O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus. 17 Se somos filhos, então somos herdeiros; herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo, se de fato participamos dos seus sofrimentos, para que também participemos da sua glória. (Romanos 8.8-17). 16 Eles não são do mundo, como eu também não sou. 17 Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. 18 Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo. 19 Em favor deles eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade. (João 17.16-19). 21 Novamente Jesus disse: “Paz seja com vocês! Assim como o Pai me enviou, eu os envio”. 22 E com isso, soprou sobre eles e disse: “Recebam o Espírito Santo. 23 Se perdoarem os pecados de alguém, estarão per- doados; se não os perdoarem, não estarão perdoados”. (João 20.21-23). O dinamismo da missão assume como método o caminho trinitário. A união, a intercomunicação, o diálogo, a escuta e a complementaridade são assumidos como métodos no fazer a missão. O outro, em sua diferença, é assumido no diá- logo e na complementaridade. Ameaça e atração constituem-se em polaridades no processo da inter-relação. ©shutterstock TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E116 O ESPÍRITO DE DEUS ATUA NA MISSÃO CRISTÃ Desde a criação do mundo, o Espírito de Deus é atuante. Ajudou na criação e mantém a vida viva. Segundo Brunner (2000, p. 79), “a comunidade de Jesus vive sob a inspiração do Espírito Santo; este é o segredo de sua vida, de sua comunhão e de seu poder”. Desde o começo, o Espírito age na história e nas culturas. Daí surge a atitude de escuta, res- peito e silêncio, para não abafar a ação do Espírito. Abrir-se ao Espírito é perder todos os medos, porque a ele cabe conduzir e dire- cionar toda a obra missionária. Padilla (2005, p. 82) escreve que “segundo o propósito de Deus, depois de Pentecostes, o Reino de Deus continuaria como uma realidade presente por meio do dom do Espírito Santo”. Isso está claro pelo fato de que, quando os discípulos de Jesus lhe perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino de Israel”, Ele respondeu: “Não vos compete co- nhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autori- dade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo” [...]. (Atos dos Apóstolos 1.6-8). O Espírito Santo é, portanto, o agente da escatologia em processo de realização. O Reino de Deus que irrompeu na história em Jesus Cristo continua atuando por meio do Espírito Santo. A igreja é o resultado da ação de Deus por meio do Espírito. Ela é o corpo de Cristo e, como tal, a esfera na qual opera a vida da nova era iniciada por Jesus Cristo; o Espírito Santo é o agente por meio do qual essa vida é repartida aos crentes. Conforme II Coríntios 3.6, “Ele nos capacitou para sermos minis- tros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica”. Da mesma forma, o Espírito dá à igreja dons (charismata) que tornam pos- sível sua existência como uma comunidade missionária: O Espírito de Deus Atua na Missão Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 117 4 Há diferentes tipos de dons, mas o Espírito é o mesmo. 5 Há dife- rentes tipos de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. 6 Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. 7 A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum. 8 Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra de conhecimento; 9 a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de curar, pelo único Espírito; 10 a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discer- nimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas. 11 Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, como quer. (I Coríntios 12.4-11). Neste tópico sobre Missão e o Espírito Santo, recorreremos novamente a Ekström (2001) para lhes apresentar uma exposição breve sobre os Despertamentos, período muito rico na história da Igreja, especialmente pela evangelização, des- pertamento para as verdades bíblicas e compromisso social. Diz o autor que o período que chamamos de “Era dos Despertamentos” compreende basicamente os anos de 1600 a 1800 e trata, em primeiro lugar, da Igreja ocidental influenciada pela Reforma Protestante. Seguindo o mesmo espírito de reformas, os diferentes despertamentos sur- giram ou a partir de indivíduos, ou a partir de grupos que se uniram na devoção a Deus. A necessidade de continuar as mudanças no cumprimento da missão da Igreja fez com que se buscassem novas alternativas e novas ênfases na vida cristã. Uma dependência maior de Deus, deixando-se grande parte da estruturatradicional de lado, resultou em uma atuação mais direta do Espírito de Deus e, consequentemente, em um despertamento e avivamento. O Puritanismo – o nome do movimento de Reforma veio do desejo de “purificar” a Igreja da Inglaterra, por parte daqueles que achavam que a Reforma ainda não tinha sido completada. Mais tarde, os puritanos também buscaram a sua própria “purificação” e a da sociedade. É, principalmente, na teologia reformada do continente europeu que os puri- tanos buscaram suas raízes teológicas, com elementos vindos desde a época de Wycliffe. Como aspectos dessa teologia, têm-se: a salvação pessoal vindo intei- ramente de Deus; a Bíblia é o guia indispensável para a vida; a Igreja deve refletir o ensino específico das Escrituras; a sociedade é um só todo unificado. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E118 Os puritanos deram ao leigo uma participação maior na igreja, ao mesmo tempo em que buscavam para cada igreja local um pastor bem preparado para expor as Escrituras. O movimento que surgiu nos primórdios do século XVII, se envolveu com muitas controvérsias na Inglaterra devido a sua visão da sociedade e dividiu- -se em diferentes ramificações. Entre muitos puritanos famosos, podemos citar John Bunyan, autor do livro “O peregrino”. Em termos missionários, apesar de alguma tentativa do próprio movimento se expandir para outros lugares, foi na influência puritana, deixada para as igrejas que se organizam como fruto do movimento, que vemos os maiores resultados positivos. O Pietismo – o movimento pietista teve sua origem no seio da igreja lute- rana alemã, no fim do século XVII. Algumas características do pietismo foram: busca de um relacionamento íntimo com Deus, ênfase em uma ética pessoal (bei- rando ao legalismo), uso maior das Escrituras como única base para a fé, maior participação do leigo (o sacerdócio universal) e uma crescente visão missionária. O pietismo foi um movimento complexo e com muitas facetas, que, em suma, queria reformar a tradição protestante, já um tanto acomodada e longe dos pri- meiros ideais dos reformadores. Dois dos homens importantes do pietismo foram: ■ Philip Jacob Spener (1631-1705), o pai do pietismo. ■ August Herman Francke (1663-1727). A influência do pietismo em missões foi tremendamente importante. Iniciativas missionárias que se organizaram, mais tarde, em igrejas e agências que enviavam missionários buscaram, em grande parte, sua inspiração no pietismo. Entre elas, a Missão de Halle, os Morávios e a Igreja do pacto da Missão Sueca. A Missão de Halle – surgiu de uma cooperação entre o governo da Dinamarca e o movimento petista, com base na cidade de Halle, obra de Francke, em 1705. Foi a primeira missão europeia a enviar missionários para outros continentes. O início se deu, em Tranquebar, na Índia, com a ida de Bartolomäus Ziegenbalg em 1705. O Espírito de Deus Atua na Missão Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 119 A estratégia utilizada por Ziegenbalg foi a ênfase no culto, na pregação, na catequese, na educação, na tradução da Bíblia e na produção de literatura ver- nácula. Ele estudou a filosofia e a religião hindu para melhor conhecer o povo. Outro missionário famoso da missão de Halle foi Christian Schwartz. Os Morávios – eram remanescentes da obra de João Huss. Os poucos que ficaram após as perseguições, encontraram asilo junto ao conde de Zinzendorf, na Saxônia, os quais fundaram, em 1722, uma aldeia denominada Herrnhut (“a cabana do Senhor”). O conde Nicolau Ludwing von Zinzerdorf (1700-1760) tinha, desde cedo, uma forte devoção a Cristo e havia estudado no centro do pietismo em Halle. Liderados por Zinzerdorf, os morávios chegaram aos cinco continentes do mundo com seus missionários. Apesar da pobreza e poucos seguidores, os pri- meiros foram enviados já em 1732. Após 100 anos de atividade missionária, eles contavam com 41 estações, 40 mil batizados nos campos missionários e 208 mis- sionários. Em 1882 (50 anos depois), já tinham aumentado para 700 estações, 83 mil batizados, 335 missionários e 1500 ajudantes nacionais. A proporção de missionários por membros do movimento chegou a 1 por 25, dificilmente igua- lado por outro grupo na história de missões. A estratégia empregada pelos morávios era: ■ Iniciar o trabalho de missões entre povos pouco evangelizados e esquecidos. ■ O missionário deveria ser autossuficiente economicamente por meio de comércio, indústria caseira etc. ■ Aceitar a cultura do povo, não colocando normas europeias de costu- mes e valores. ■ O missionário era o servo do Espírito Santo enviado para evangelizar e não para doutrinar. ■ Se o povo não aceitasse o Evangelho, o missionário deveria procurar outro campo. Os irmãos Wesley – a família Wesley, na Inglaterra, era, já por tradição, profun- damente dedicada à obra cristã. Foram, principalmente, dois irmãos Wesley que se destacaram na história da igreja: John e Charles. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E120 John Wesley (1703-1791), a principal figura do metodismo, tinha, já de berço, influências do puritanismo e do anglicanismo. O movimento que surgiu buscou, não obstante, também aspectos do herrnhutismo e do colonialismo. John, junta- mente com seu irmão Charles, elaborou um método ritualista e ascético para a vida religiosa dos membros. O uso deste método levou ao apelido de metodismo. Foi entre os operários ingleses que o movimento conseguiu maior êxito e, enquanto John Wesley vivia, tratava-se de um avivamento dentro da Igreja inglesa. Após sua morte, organizou-se em uma igreja própria. O metodismo alcançou também a América do Norte, estabelecendo sociedades metodistas, participando na divulgação do Evangelho por todo o mundo, com o envio de missionários, mais tarde na história. Os avivamentos na América – o século XVIII trouxe à América as correntes pietistas já existentes na Europa, causando grandes avivamentos em diferentes grupos religiosos e colônias de imigrantes. O “Grande Avivamento”, nome dado ao conjunto de despertamentos na América, ocorrido na segunda metade do século XVIII, significou uma forte ênfase na experiência pessoal de conversão, incluindo aspectos de emocionalismo e êxtase espiritual. Alguns dos nomes importantes por terem influenciado fortemente os rumos da obra missionária foram: Jonathan Edwards (1703-1758) – que foi ministro congregacional americano, teólogo e escritor. Era um pregador habilidoso e foi chamado de o teólogo do Grande Avivamento. Contribuiu também nas áreas da metafísica, da ética e da psicologia. George Whitefield (1714-1770) – que era inglês, sendo o evangelista mais conhecido do século XVIII e um dos maiores pregadores itinerantes da histó- ria da igreja protestante. Participou ativamente do Grande Avivamento com suas pregações em diversos pontos da “Nova Inglaterra”. Trabalhou ligado aos irmãos Wesley. Calcula-se que tenha pregado 15.000 vezes durante seus trinta e três anos de ministério. John Eliot (1604-1690) – que era inglês e chegou à América em 1631. Foi um dos primeiros e, possivelmente, o maior dos missionários aos índios ameri- canos. Pertencia à Missão Indígena dos Puritanos da Nova Inglaterra e trabalhou durante toda sua vida tentando alcançar os indígenas. A estratégia utilizada pela missão de Eliot foi: O Espírito de Deus Atua na Missão Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 121 ■ Evangelizar, principalmente por meio da pregação. ■ Reunir as pessoas convertidas em igrejas locais. ■ Fundar cidades cristãs em uma forma de segregação (afastamento) da sociedadecorrupta. Eliot e a missão aos índios fazem parte do movimento de despertamento na América devido tanto ao trabalho realizado como à inspiração missionária que foi passada para as gerações posteriores. Ekström (2001) apresenta algumas influências diretas deste período de des- pertamentos para o trabalho missionário: ■ O surgimento de bases missionárias, tanto na Inglaterra e na Europa Continental como na América do Norte. ■ Surgimento de novas igrejas, que mesmo divididas em denominações, eram ativas e crescentes. ■ Ênfase na conversão pessoal e vida devocional intensa. ■ A abertura para a obra do Espírito Santo. ■ Os exemplos de pioneiros que influenciaram outros mais tarde. ■ Participação dos leigos. ■ Investimento na educação. ■ Fervor na evangelização. A ESSÊNCIA DA PESSOA DO ESPÍRITO E SUA FUNÇÃO NA IGREJA DE CRISTO Em Lucas 24, Jesus promete enviar-nos um consolador, que é o Espírito Santo, e que viria sobre a Igreja em Atos 2 de forma mais permanente. Ali, a Igreja seria revestida de poder. O termo grego utilizado para “consolador” é “parakletos” e literalmente significa “estar ao lado”. É um termo composto por duas partícu- las: a preposição “para” - ao lado de - e “kletos” do verbo “kaleo” que significa ©shutterstock TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E122 “chamar”. Portanto vemos aqui a Pessoa do Espírito, cumprimento da promessa, habitando a Igreja, estando ao seu lado para o propósito de Deus. Segundo John Knox, a essência da função do Espírito Santo é estar ao lado da Igreja de Cristo, fazê-la possuir a Face de Cristo e espalhar o Nome de Cristo. Nessa percepção, o Espírito Santo trabalha para fazer a Igreja mais parecida com seu Senhor e fazer o nome do Senhor da Igreja conhecido na terra. A ESSÊNCIA DA PESSOA DO ESPÍRITO E SUA FUNÇÃO NA CONVERSÃO DOS PERDIDOS Cremos que é o Espírito Santo quem convence o homem do seu pecado. O homem natural sabe que é pecador, porém apenas com a interven- ção do Espírito ele passa a se sentir perdido. Há uma clara e funcional diferença entre sen- tir-se pecador e sentir-se perdido. Nem todo homem convicto de seu pecado possui consci- ência de que está perdido, portanto, necessitado de redenção. Se o Espírito Santo não convencer o homem do pecado e do juízo, nossa exposi- ção da verdade de Cristo não passará de mera apologia humana. A Igreja plantada mais rapidamente em todo o Novo Testamento foi plan- tada por Paulo em Tessalônica. Ali, o apóstolo pregava a Palavra aos sábados nas sinagogas e durante a semana na praça e o fez durante três semanas, nas- cendo, assim, uma Igreja. Em I Tessalonicenses 1.5, Paulo nos diz que o “nosso Evangelho não chegou até vos tão somente em palavra” (logia, palavra humana), “mas, sobretudo em poder” (dinamis, poder de Deus), “no Espírito Santo e em plena convicção” (pleroforia, convicção de que lidamos com a verdade). O Espírito Santo é destacado aqui como um dos três elementos que propi- ciou o plantio da igreja em Tessalônica. Sua função na conversão dos perdidos em conduzir o homem à convicção de que é pecador e está perdido, sem Deus, Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 123 em despertar nesse homem a sede pelo Evangelho e atraí-lo a Jesus é clara. Sem a ação do Espírito Santo, a Evangelização não passaria de apologia humana, de explicações espirituais, de palavras lançadas ao vento, sem público, sem conver- sões, sem transformação. Precisa ficar claro que a Missão Cristã, o Evangelizar, é a ordenança de Cristo a nós. A capacitação e as condições vêm do Espírito Santo. Precisamos estar conec- tados ao Espírito Santo e ouvi-Lo, obedecê-Lo e nos entregarmos à Sua vontade. 4 Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês tam- bém não podem dar fruto, se não permanecerem em mim. 5 “Eu sou a videira; vocês são os ramos. Se alguém permanecer em mim e eu nele, esse dará muito fruto; pois sem mim vocês não podem fazer coisa al- guma. (João 15.4,5). IGREJA E MISSÃO: QUAL O PAPEL DA IGREJA? Alguém, certa vez, disse que Deus não tem uma missão para a sua Igreja, mas uma Igreja para a Sua missão, a missão de proclamar o Evangelho a todos e em todos os lugares. A Igreja do Senhor, formada/constituída do povo que Ele resgatou e salvou. Recorro, novamente, a Bosch (2002, p. 442) para aqui apresentar alguns aspec- tos interessantes para nosso estudo: Em um estudo discernente, identificou cinco tipos eclesiais principais. A igreja, propõe ele, pode ser vista como instituição, como corpo místi- co de Cristo. Como sacramento, como arauto ou como servo. Qualquer uma dessas concepções implica uma interpretação diferente da relação entre igreja e missão. Em uma perspectiva histórica, escreve que os católicos sempre tiveram a igreja em elevado conceito. Isso explica por que os dois primeiros modelos de Dulles tendem a predominar na eclesiologia católica. Realçando o primeiro deles, afir- ma-se que, desde a Contrarreforma até a segunda metade do século 19, a ênfase TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E124 prevalecente estava no externo, no jurídico e no institucional. Durante o século 20, o conteúdo das asserções sobre a igreja começou, gradualmente, a mudar. Via-se a igreja agora como Corpo de Cristo e, não, primordialmente, como uma instituição divina. Esse desenvolvimento culminou na promulgação da encíclica Mystici Corporis Christi, em 1943, mas não rompeu com a eclesiologia que a pre- cedeu; a encíclica deixa transparecer uma identificação incondicional do corpo místico de Cristo com a Igreja Católica Romana empírica e inclinavam-se por um conceito menos elevado de igreja. Muitas vezes, distinguia-se a “igreja ver- dadeira” – a ecclesiola ou pequena igreja – dentro da ecclesia, à igreja grande e nominal; essa ecclesiola, e não a igreja oficial, tendia a ser vista como a verdadeira portadora da missão. Aqui, havia um apreço ainda menor pela ideia de igreja como portadora da missão. Seguia-se amplamente o “princípio do voluntariado”. Grupos de indivíduos – às vezes, membros de uma denominação, outras vezes, crentes de várias denominações – reuniam-se em sociedades missionárias que eles consideravam portadoras da missão. Paulatinamente, no entanto, apareceu uma mudança fundamental na percep- ção da relação entre igreja e missão, tanto no catolicismo quanto no protestantismo, de modo que Moltmann (1977, p. 68) pode afirmar: “atualmente, um dos impul- sos mais vigorosos para a renovação do conceito teológico de igreja provém da teologia da missão”. Já Padilla (2005, p. 85) pontua que o Deus da redenção é também o criador e juiz de toda a humanidade que deseja a justiça e a reconciliação para todos. Seu propósito para a igreja, portanto, não pode ser separado de seu propósito para o mundo. A igreja somente é entendida corretamente quando for vista como o si- nal do Reino universal de Deus, os primeiros frutos da humanidade re- dimida. Aqui e agora, em antecipação do fim, na igreja e por meio dela, todo o mundo é colocado sob o senhorio de Cristo e, portanto, sob a promessa de Deus de um novo céu e uma nova terra no Reino de Deus. Bosch (2002, p. 138) amplia a discussão quando escreve que na eclesiologia emergente, “a igreja é vista como essencialmente missionária”. O modelo bíblico que está por trás dessa convicção e que tem sua expressão clássica é aquele que encontramos em I Pedro 2.9,10: Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 125 9 Vocês,porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação santa, povo exclusivo de Deus, para anunciar as grandezas daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. 10 Antes vocês nem sequer eram povo, mas agora são povo de Deus; não haviam recebido misericórdia, mas agora a receberam. Aqui, a igreja não é a remetente, mas a remetida. Sua missão (o fato de “ser enviada”) não é secundária em relação a sua existência; a igreja existe ao ser enviada e edificar-se visando a sua missão. A eclesiologia, portanto, não precede a missiologia. A missão não constitui uma atividade periférica de uma igreja firmemente estabelecida, uma causa piedosa que (pode) ser atendida quando o fogo doméstico já (está) queimando fulgurantemente. A atividade missionária não é tanto uma ação da igreja, mas é simplesmente a igreja em ação, trata-se de um dever que é de toda a igreja, visto que Deus é Deus missionário o seu povo deve ser missionário também. Não se pode mais falar de igreja e missão, apenas falar da missão da igreja. Temos dito que a ação pastoral responde a um fenômeno maior: a missão de Deus. Faz-se necessário, pois, ver a teologia pastoral como uma ótica mis- siológica. Esse esclarecimento é importante, uma vez que na maioria das teologias pastorais (católica e evangélica) escritas na Europa e nas Américas, a relação tem sido inversa, ou seja, encaram a missiologia como um apêndi- ce, no máximo um capítulo da pastoral. Assim, os católicos falam de pasto- ral missionária e os evangélicos de missões e evangelização como divisões da teologia prática. Essa perspectiva da pastoral necessita ser questionada, porquanto leva em consideração o caráter (e não meramente a dimensão) missional da pastoral. Sem missão não pode haver pastoral, porquanto esta existe em virtude e função da missão. Por isso, a fé bíblica apresenta Deus como um Deus missionário que atua pastoralmente na história. Fonte: Costas (1974, p. 89). TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E126 Outra questão que Bosch (2002) apresenta é a de que o povo de Deus é (deve ser) o povo peregrino, isso porque a igreja é vista como o povo de Deus e, impli- citamente, como uma igreja peregrina. No protestantismo contemporâneo, essa ideia aflorou, pela primeira vez, claramente na teologia de Dietrich Bonhoefer e na Conferência do CoMIn de Willingen, em 1952. O arquétipo bíblico, nesse caso, é o do povo peregrino de Deus, tão proeminente na Carta aos Hebreus. A igreja é peregrina não apenas pela razão prática de que, na era moderna, ela não mais dá o tom e, em todas as partes, encontra-se em uma situação de diás- pora; pelo contrário, ser um peregrino no mundo faz intrinsecamente parte da posição ex-cêntrica da igreja. Ela é ek-klesia, “chamada para fora” do mundo, e enviada de volta para dentro do mundo. O forasteirismo representa um ele- mento de sua constituição. O povo peregrino de Deus necessita unicamente de duas coisas: apoio para a jornada e um destino no fim dela. Ele não tem residência fixa aqui; trata-se de uma paroikia, uma residência temporária. Ele está permanentemente a caminho, dirigindo-se aos confins do mundo e ao fim do tempo. Mesmo que haja uma diferença intransponível e entre a igreja e seu destino – o reinado de Deus –, ela é chamada a encarnar, já no aqui e agora, algo das condições que hão de pre- valecer no reinado de Deus. Proclamando sua própria transitoriedade, a igreja peregrina em direção ao futuro de Deus. A missão da igreja é uma extensão da missão de Jesus. É a manifes- tação, ainda que não completa, do Reino de Deus tanto por meio da proclamação como por meio da ação e do serviço social. O testemunho apostólico continua sendo o testemunho do Espírito acerca de Jesus Cristo, por meio da igreja. (PADILLA, 2005, p. 69). A ênfase central do Novo Testamento é que Jesus veio para cumprir as profecias do Antigo Testamento e que, em Sua pessoa e obra, o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente. Um dos conceitos básicos da escatologia judaica no tempo de Jesus e seus apóstolos era o das duas idades (eras ou séculos), claramente expresso m uma fórmula comum na literatura rabínica: “este século” e “o século vindouro”. O dualismo da escatologia judaica reflete o profundo pessimismo no qual o povo tinha caído sob o governo de imperadores pagãos no período pós-exílico. A voz Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 127 de Deus havia se calado; o Reino messiânico prometido pelos profetas não tinha aparecido. Ao contrário, os fiéis de Israel eram vítimas do ódio e da perseguição dos gentios. A partir dessa situação, surgiu, em Israel, um conceito de história com um interesse exagerado no futuro e um persistente desprezo para com o presente. A história estava divorciada da escatologia. Mesmo que os judeus ainda esperassem que Deus estabelecesse uma nova criação, pensavam que isto acon- teceria num futuro distante. O presente estava abandonado, sob o domínio do mal e do sofrimento. Essa escatologia está em oposição à dos profetas do Antigo Testamento, para os quais o cumprimento dos propósitos de Deus na história era de suma importância. Ao longo do Novo Testamento, a doutrina das duas idades é pressuposta, mas sua interpretação é feita à luz da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A premissa fundamental é que, na vida e obra de Jesus Cristo, Deus atuou defini- tivamente para cumprir seu propósito redentor, o ator principal apareceu e foi dado início ao drama escatológico da esperança judia. A escatologia invadiu a história, o impacto daquela sobre esta produziu o que Oscar Cullmann denomi- nou acertadamente “a nova divisão do tempo”. Em contraste com o judaísmo, o cristianismo no Novo Testamento sustenta que o ponto médio da linha do tempo não está no futuro, mas no passado: essa linha chegou em Jesus Cristo. A nova era (“o século vindouro”) da esperança judaica iniciou-se antecipadamente; aqui e agora é possível desfrutar as bênçãos do Reino de Deus. Ainda que o ponto médio da linha do tempo tenha aparecido, a consuma- ção da nova era se realizará no futuro. O mesmo Deus que interveio na história para iniciar o drama está atuando ainda e continuará agindo a fim de levar o drama até sua conclusão. O Reino de Deus é, portanto, uma realidade presente e ao mesmo tempo uma promessa que será cumprida no futuro: ele veio (e está presente entre nós) e virá (de modo que esperamos seu advento). A afirmação simultânea do presente e do futuro tem como resultado a tensão escatológica que permeia todo o Novo Testamento e representa indubitavelmente um redesco- brimento da escatologia “profético-apocalíptica” que o judaísmo tinha perdido. As pesquisas mais recentes no campo da escatologia do Novo Testamento mostram que a tradição mais antiga do ensinamento de Jesus combina a afirmação TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E128 da vinda do Reino como uma realidade presente com a expectativa do cumpri- mento futuro do propósito redentor de Deus. No entanto a premissa básica da missão de Jesus e o tema central de sua pregação não é a esperança da vinda do Reino em uma data previsível, mas o fato de que em sua própria pessoa e obra, o Reino já se tenha tornado presente com grande poder. Jesus afirma que ninguém sabe o dia nem a hora em que o drama escatológico chegará a sua conclusão, “nem os anjos no céu, nem o Filho, senão somente o Pai” (Marcos 13.32). Mas afirma que o último ato do drama (“os últimos dias”) já começou com Ele. O Reino tem a ver com o poder dinâmico de Deus por meio do qual “os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscita- dos, eaos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mateus 11.5). Tem a ver com o Espírito de Deus – o dedo de Deus – que expulsa demônios (Mateus 12.28; Lucas 11.20). Ele é visto na libertação dos poderes demoníacos (Lucas 8.36), cegueira (Marcos 10.46-52), hemorragia (Marcos 5.34) e da própria morte (Marcos 5.23). O reino das trevas que corresponde a “este século” foi invadido; o “homem forte” foi desarmado, conquistado e saqueado (Mateus 12.29; Lucas 11.22). Chegou a hora anunciada pelos profetas: o Ungido veio para dar boas novas aos pobres, sarar os quebrantados de coração, pregar a liberdade aos cativos, dar vista aos cegos, colocar em liberdade os oprimidos e pregar o ano agradável do Senhor (Lucas 4.18-19). Em outras palavras, a missão histórica de Jesus somente pode ser entendida em conexão com o Reino de Deus. Sua missão aqui e agora é a manifestação do Reino como uma realidade presente em sua própria pessoa e ação, em sua pregação do Evangelho e em suas obras de justiça e misericórdia. Em sintonia com isso, o Reino é o poder dinâmico de Deus que se torna visível por meio de sinais concretos que mostram que Jesus é o Messias. É uma nova realidade que entrou no centro da história e que afeta a vida humana, não somente moral e espiritualmente, mas também física e psicologicamente, material e socialmente. Em antecipação da consumação escatológica do final dos tempos, o reino foi inaugurado na pessoa e obra de Cristo, está ativo no meio do povo, ainda que somente possa ser percebido na perspectiva da fé (Lucas 17.20-21). A consumação do propósito de Deus se realizará no futuro, mas aqui e agora é possível vislumbrar a realidade presente do Reino. Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 129 À luz das manifestações visíveis do Reino de Deus, pode-se entender a pro- clamação do Reino por parte de Jesus. Seu anúncio: “o tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Marcos 1.15) não é uma mensagem verbal dada isoladamente dos sinais que o confirmam, é, antes, boa nova acerca de algo que se pode ouvir e ver. Segundo as palavras de Jesus, (a) Ele é uma notícia acerca de um fato histórico, um evento que se está realizando e que afeta a vida humana de muitas maneiras; (b) é uma notícia de interesse público, relacionada com toda a história humana; (c) é uma notícia relativa ao cumprimento das profecias do Antigo Testamento (o malekût Iahweh anunciado pelos profetas e celebrado por Israel tornou-se uma realidade pre- sente); (d) é uma notícia que suscita arrependimento e fé; (e) é uma notícia que resulta na formação de uma nova comunidade, uma comunidade constituída por gente que tem sido chamada pessoalmente. O sentido exato em que o Reino de Deus veio pode ser visto na história da obra de Jesus, que se desenvolve em seguida ao anúncio do Reino. Nele e por meio dele o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente. Outro autor a que recorremos nesta pesquisa foi Blauw (1966, p. 108), e trans- crevemos aqui parte de sua explanação sobre a Igreja, Reino de Deus e Missão: Em parte alguma no Novo Testamento, a Igreja é apresentada como o equivalente do Reino de Deus, mas também em nenhuma parte são apresentadas como opostos entre si. A Igreja é a comunidade reunida em volta de Cristo e reunida por Cristo (e pelos apóstolos, os quais são Seus procuradores). Ela não é em si mesma o Reino, mas é sua mani- festação e forma. A própria Igreja é sinal do novo futuro que irrompeu no mundo. É verdade que a Igreja fez sua aparição como resultado da expectação do Reino de Deus, mas somente no sentido de ter incorpo- rado esta expectação em si mesma. O caráter cristológico da Igreja não exclui o seu caráter escatológico, antes o inclui. Em outras palavras, a Igreja só é “santa, católica e apostólica”1 quando recebe a expectação escatológica da plenitude do Reino. Se não o fizer, a grande pergunta será, então, se ela vai ter o direito de ainda ser chamada comunidade do Reino e do Rei. Se esta confissão da Igreja, como a forma e a antecipação do Reino de Deus, for correta, implicará, então, que a Igreja substitui o “ainda não” do Antigo Testamento pelo “já”, embora este “ainda não” 1 Aqui, o autor faz referência a três dos quatro adjetivos (una, santa, católica [universal] e apostólica), que a Igreja Católica Romana, como também algumas denominações protestantes históricas chamam de Atributos da Igreja, conforme aponta Louis Berkhof em sua Teologia Sistemática. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E130 vétero-testamentário não seja abandonado. Assim, poder-se-ia expres- sar a situação do Antigo e Novo Testamentos da seguinte maneira: “ain- da não” – “já” – “ainda não”. Com respeito ao mundo das nações, isso significa que a Igreja, na medida em que toma o lugar de Israel, representa a salvação que veio em Cristo, do mesmo modo em que no Antigo Testamento podia, em antecipação, representar a sal- vação do mundo. Mas a diferença está em que a Igreja já não apenas antecipa, mas permanece como símbolo das esperanças do Reino na plenitude das nações. A missão vem à tona na medida em que essa esperança para o mundo toma a forma de atos de proclamação em favor de Cristo. Filho (2004, p. 85) diz que, de fato, a Bíblia deixa bem claro que a Igreja existe para realizar um trabalho específico de missões: enviar pessoas a procla- mar boas novas ao mundo: A Igreja — diz Moltmann (1977, p.69) — deve estar aberta a Deus, aos homens, e aberta ao futuro tanto de Deus quanto dos homens. Isso pede da Igreja não uma simples adaptação às rápidas mudanças sociais, mas uma renovação interior pelo Espírito de Cristo e a força do mundo futuro. Isso faz com que a Igreja tenha de ser Igreja de Jesus Cristo e Igreja missionária. Deve ser também uma Igreja ecumênica, que que- bre as barreiras entre as Igrejas. E deve ser também política: a dimensão política — agrade ou não — sempre existiu nela. Jesus disse: “assim como tu [Deus] me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santi- ficados na verdade” (João 17.18,19). A primeira coisa que chama a atenção nesses versículos é onde a nossa Missão tem de ser realizada. A palavra Missão vem do verbo em latim que signi- fica mandar ou despachar. Mas quando perguntamos “a quem (ou aonde) somos mandados?” A resposta é: “ao mundo”. Essa resposta é, provavelmente, a explicação do motivo pelo qual a Igreja evan- gélica na América, por exemplo, não é a Igreja missionária que ela alega ser. Não é que a Igreja evangélica não apoie missões estrangeiras – ela apoia; o problema não está nisso, mas no abandono que o povo evangélico fez da cultura. Muitos parecem ter medo da cultura e, por isso, tentam manter-se o máximo possível afas- tados do mundo, como se isso fosse a receita para não serem contaminados por ele. Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 131 Os evangélicos criaram a própria subcultura. É possível, hoje em dia, ser nascido em um lar cristão, crescer em uma família evangélica, só ter amigos da igreja, frequentar escolas e faculdades cristãs, ler livros cristãos, frequentar um clube cristão (mais conhecido como igreja), assistir a filmes evangélicos, ter um emprego em um lugar administrado por cristãos, ser atendido por médicos cris- tãos e, finalmente, morrer e ser sepultado por um coveiro cristão em um cemitério consagrado. Uma subcultura cristã? Sem dúvida. Mas isso não foi certamente o que Jesus quis dizer quando falou sobre os Seus seguidores estarem “no mundo”. O que significa estar no mundo comoum cristão? É claro que não quer dizer ser como o mundo, porque as marcas de Cristo na Igreja existem para torná- -la diferente. Também não significa abandonar a comunhão cristã ou as nossas convicções básicas. Quer dizer que devemos conhecer não cristãos, aproximar- -nos deles e participar de sua vida de maneira que possamos influenciá-los com o Evangelho, em vez de a vida deles contaminar-nos com seus pontos de vista. A segunda coisa que os versículos 18 e 19 de João 17 ressaltam é a respeito do caráter daqueles que realizarão essa missão, ou seja, de nosso caráter como povo cristão. Somos chamados para ser como Cristo no mundo. Jesus compa- rou os discípulos a si mesmo, tanto no fato de terem sido enviados ao mundo pelo Pai e santificados como em terem sido separados para a obra. Ele disse: “assim como tu [Deus] me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo. E por eles me santifico a mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (João 17.18,19). Temos que assumir a nossa Missão, assim como Jesus assumiu a d’Ele. Precisamos ser como Aquele a quem estamos representando. Na obra “Missões e Antropologia”, Filho (2004) aponta, com base em Atos dos Apóstolos 1.8, que na história da Igreja, esse testemunhar tem tomado mui- tas formas. A missão tem sido levada de muitas maneiras. Por meio do Novo Testamento, lemos sobre testemunhas verbais, mas há evidências de outras ati- vidades pelas quais os cristãos causaram impacto nas vidas das pessoas de suas comunidades, ou seja, a adoração dos cristãos primitivos, a natureza de suas vidas diárias, de seu cuidado com suas necessidades físicas, sua coragem sob o fogo (todos testificavam do que Deus queria dizer ao Seu povo), e a diferença do senhorio de Jesus Cristo em suas vidas. A Igreja reconhecia que a obediência a TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E132 Deus requer firmeza contra algumas práticas sociais e crenças de seu tempo, tais como: tratamento dos escravos, morte dos inocentes, a degradação da mulher, o abandono das viúvas, o insulto à criança etc. E acrescenta que, até hoje, a Igreja de Jesus Cristo permanece no mundo como a luz verdadeira que alumia nas trevas, como disse João Batista. Ela é totalmente apologista da fé em Jesus Cristo. Essa Igreja que tem atravessado os séculos é a única agência defensora das verdades divinas fundamentais. Por essa razão, a Igreja deve defender tudo aquilo que implica em verdade (e vida). Jesus Cristo disse que o mundo não podia compreender o mistério da vinda do Espírito para habitar corporalmente no seio da Igreja, mas disse Ele: “vós entendereis”, acres- centando ainda: “quando Ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo”. Dessa forma, a Igreja (que foi tirada para fora) deve compreender a razão de sua inauguração no Dia de Pentecostes. Pelo seu estabelecimento sob a unção do Espírito, passamos a compreender que ela foi fundada para salvar (aí se usa o verbo, no grego, que significa salvar do pecado, das doenças, aflições, culpas e juízo eterno) o mundo inteiro. Portanto a missão da Igreja é opor-se a tudo aquilo que leva à ruína espiritual. O remédio para a cura do ser humano não se encontra no antropólogo, cientista, biólogo, matemático, psiquiatra ou estadista, mas sim na Igreja composta de homens e mulheres transformados pelo poder da obra de redenção de Jesus Cristo. Assim, missão é a propagação das boas novas ao que perece (FILHO, 2004). Blauw (1966, p. 124) escreve que: a Igreja de Cristo está neste mundo como o sinal do e como a convoca- ção dirigida ao mundo que está por vir (…) tem sido a grande tentação da Igreja em todas as épocas conformar-se com este mundo. Quando o faz ela se transforma em outra sociedade, em “clube de folclore reli- gioso. A Igreja é testemunha de Cristo no mundo (Romanos 12.1,2), ou então não será Igreja obediente a Cristo. Ela é a luz do mundo, o sal da terra (Mateus 5.13-16). Blauw ainda escreve: A Igreja que foi escolhida do mundo é escolhida com esta finalidade – a de realizar para o mundo o serviço de dar testemunho do Reino de Deus que veio e vem em Jesus Cristo. Se é verdade que a teologia Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 133 é realmente Theo-logia – falar acerca de Deus, então não pode deixar de falar do Deus que não é estátua, mas fonte transbordante de bem. (BLAUW, 1966, p. 128 ). Toda a criação e a história são o palco e a matéria-prima da Missão. Especialmente a história, em que os acontecimentos que se sucedem só adquirem significado pleno como Missão de Deus. Por isso, a Igreja Cristã tem a chave da história (anunciando) interpretando a Missão de Deus para o mundo. A Igreja não é parte passiva em relação aos acontecimentos históricos, mas é chamada a agir e a testemunhar o fato de que os acontecimentos têm um significado maior do que o imediato (missão profética da Igreja). A Missão da Igreja é cumprir a Missão de Deus. É da natureza da Igreja que ela tenha uma Missão e essa Missão é a participação no trabalho de Deus, tra- balho que tem lugar entre o advento de Jesus Cristo para inaugurar o Reino de Deus na terra, e Sua segunda vinda em glória, a fim de trazer esse Reino à sua consumação. João 10.16 – “Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco. É necessário que eu as conduza também. Elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. A Igreja existe para a Missão. Em tudo o que ela (Igreja) é e faz, é e existe em função da Missão, ou então perde a sua razão de ser, perde sua identidade, é o que expressa o documento do Conselho Mundial de Igrejas: “tudo na Igreja é e existe para a Missão, que é a renovação do homem em Cristo, e seu contínuo crescimento, de tal sorte que tenhamos não apenas “mais” homens cristãos, mas igualmente tenhamos cristãos ‘melhores’”. A Igreja é, acima de tudo, testemunha e evidência do que Deus tem feito, faz e fará. Somente assim o mundo é notificado desse fato histórico, sua signi- ficação e suas consequências, que são mais do que históricas, porque têm a ver com o Reino de Deus. A Igreja é também um meio pelo qual Deus leva a efeito Seu propósito missionário. A vida interna da Igreja, juntamente com toda a sua estrutura, existe para realizar a Missão de Deus. Assim, a organização da Igreja, as reuniões de culto, os sacramentos, o ensino, a assistência social etc. só adqui- rem sentido quando voltados para a Missão, para a verdade do Reino que a Igreja conhece pelo Espírito Santo (JOSGRILBERG, 1977, p. 34). ©shutterstock TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E134 O LUGAR/PAPEL DA IGREJA NA MISSÃO Qual o “papel” da Igreja no processo de evangelização? Para estudarmos este tópico, precisa ser entendido que a Igreja não é simplesmente uma organiza- ção/instituição de quatro paredes com endereço e CNPJ, ela transcende a tudo isso, ela é viva e acontece a partir da vida de cada um de seus membros. Ela é o resultado da unidade entre seus membros e tem como líder máximo, inspirador e edificador o Senhor Jesus, embora necessite (para nossa perspectiva) ser orga- nizada nos moldes que conhecemos, ela abriga um grande mistério – ser Corpo de Cristo. Quando cada um desempenha o chamado que recebeu, a Igreja se movimenta em obediência ao que o Senhor estabeleceu. Embora cada um receba do Senhor capacidades e chamados específicos, há um ponto em comum entre todos os cristãos, todos somos chamados a evangelizar, mesmo que em espaços e condições diferentes, todos somos chamados a evangelizar. O apóstolo Paulo escreveu sobre isso, Efésios 4.1-16 (grifo nosso): 1 Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocaçãoque receberam. 2 Sejam completamente humildes e dóceis, e sejam pacientes, suportando uns aos outros com amor. 3 Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; 5 há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6 um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos. 7 E a cada um de nós foi concedida a graça, conforme Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 135 a medida repartida por Cristo. 8 Por isso é que foi dito:“Quando ele subiu em triunfo às alturas, levou cativos muitos prisioneiros, e deu dons aos homens”. 9 (Que significa “ele subiu”, senão que também havia descido às profundezas da terra? 10 Aquele que desceu é o mesmo que subiu acima de todos os céus, a fim de encher todas as coisas.) 11 E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, 12 com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edi- ficado, 13 até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimen- to do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. 14 O propósito é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de homens que induzem ao erro. 15 Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. 16 Dele todo o cor- po, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função. Todo o texto é riquíssimo, porém aqui se deve observar com atenção o versículo 16 – “Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função”. Paulo escreve que todo o corpo deve ser ajustado e unido, e isso se faz com o auxílio de todas as jun- tas (que somos cada um de nós), o amor é componente essencial e tudo isso acontece no Corpo quando cada parte realiza a sua função. Creio que temos funções específi- cas e essas devem acontecer para a edificação do Corpo, e creio, também, que temos a função de evangelizar; cada “junta” no espaço que trafega no seu dia a dia, nos rela- cionamentos que possui, deve realizar a função de evangelizar. Enquanto cada um de nós disponibiliza ao Corpo os dons, talentos e capacidades que do Senhor rece- beu para que o Corpo de Cristo seja edificado. Já quando evangelizamos o Corpo, é acrescido dos que o Senhor, por meio de nosso testemunho de vida e palavras (com coerência entre uma coisa e outra) salva, pelo Seu poder, graça e amor. Billy Graham (1961, p. 67), no prefácio de uma das obras escritas por sua equipe, diz que “evangelismo não deveria ser visto como o principal ministé- rio da igreja, nem como ministério opcional, [...] mas evangelismo deveria ser o pico da prioridade no ministério local”. Na mesma obra, ainda é mais incisivo, “evangelismo é a missão central da igreja. Sem ele, os crentes tornam-se intros- pectivos com falta de propósito; o crescimento espiritual fica estagnado, o culto se torna superficial, e o egoísmo sufoca o espírito de dar” (GRAHAM, 1961, p. 67). TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E136 Mesmo com os desafios e problemas que nos impõem o século XXI, a Igreja cristã continuará sendo o espaço regido por Deus para a evangelização do mundo. Apresentamos, abaixo, um texto de Edison Queiroz, autor que trabalha bas- tante o tema missões e que escreve algo pontual sobre a igreja: “Missões” começa no poder do Espírito Santo. É Ele o chefe de missões, porque é quem dirige, motiva, impulsiona e leva a igreja a cumprir sua tarefa missionária. Algumas igrejas dizem que têm o poder do Espírito Santo, mas não têm visão missionária, o que é impossível, porque se de fato tivessem poder, automaticamente teriam visão missionária. Outras querem fazer a obra de missões sem o poder do Espírito Santo, e o resultado é um fracasso total. Jesus conhece nossa fraqueza e incapaci- dade para cumprirmos Sua ordem; por isso, todas as vezes que Ele nos ordenou que fôssemos por todo o mundo, pregando o evangelho a toda criatura, deu-nos também a promessa de nos capacitar com o poder do Espírito Santo. (QUEIROZ, 1995, p. 38). Enquanto Jesus cumpria Seu ministério, percebe-se que tinha também como objetivo deixar discípulos organizados que pudessem dar continuidade à obra de Deus na terra, e essa organização é a Igreja, a junção de todos os cristãos. Ele edifica a Igreja (Mateus 16.18) e deixa a ela uma grande missão. O papel mais significativo que a igreja cristã precisa desempenhar, em relação ao tema Evangelização, na verdade, são basicamente três: 1. Preparar os santos. Conforme Efésios 4.11-13 11 E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, 12 com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cris- to seja edificado, 13 até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da plenitude de Cristo. 2. Enviar os santos. Conforme Atos dos Apóstolos 15.3 – “A igreja os enviou e, ao passarem pela Fenícia e por Samaria, contaram como os gentios tinham se convertido; essas notícias alegravam muito a todos os irmãos”, a Igreja deve estar sempre preparando para enviar. Igreja e Missão: Qual o Papel da Igreja? Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 137 3. Receber os frutos. Há igrejas que não falham tanto na preparação de seus membros, são insistentes quanto ao enviar, mas quando chega a hora de receber os frutos – é uma vergonha. Atrapalham-se, não sabem como se portar, o que dizer. Não possuem sensibilidade alguma (às vezes, nem edu- cação) com os que chegam. Em alguns lugares, esses não são percebidos, em outros, queira Deus que sejam poucos, são abusados com tantas infor- mações mercenárias (praticamente cursos intensivos de dar e receber) e misticismos. A pessoa recém-chegada fica perdida, constrangida, solitá- ria, indecisa e finalmente, infelizmente, se afasta sentindo-se enganada e muitas vezes sem ter tido acesso às verdades do Evangelho. A Igreja pre- cisa ser acolhedora, receptiva, interessada em ajudar, cooperar, oferecer os dons e ministérios que possui para a edificação do novo convertido. Igreja é aprisco, é lugar de ouvir em amor e ensinar na graça do Senhor. Quantos já passaram por nossas denominações e hoje estão fora, longe de nós e até do Senhor? A Igreja precisa, urgentemente, se organizar e ter muito amor para poder receber os frutos, que são o resultado da evan- gelização feita por seus membros, e entender que a glória é do Senhor, porque tudo o que fazemos, fazemos em nome d’Ele, “...como está escrito: Quem se gloriar, glorie-se no Senhor” (I Coríntios 1.31). Falar do Reino de Deus é falar do propósito redentor de Deus para toda a cria- ção e da vocação histórica que a igreja tem com respeito a esse propósito aqui e agora, “entre os tempos”. É também falar de uma realidade escatológica que cons- titui simultaneamente o ponto de partida e a meta da igreja. A missão da igreja, consequentemente, só pode ser entendida à luz do Reino de Deus. Precisa haver uma centralidade do Reino, pois o Reino é a ótica e o caminho para o qual se movimenta o caminho da missão. Não se pode separar o Reino da pessoa de Jesus, como também não se pode identificar a Igreja com o Reino.Ela está no mundo a serviço do Reino já acon- tecendo na história e aberto ao futuro. O reino, nesse sentido, é mais amplo do que a Igreja. O caminho da missão, portanto, terá no Reino de Deus seu objetivo. Percorre as trilhas do Reino, reconhece-o nas pegadas dos povos e culturas e colabora na construção de sua plenitude. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E138 EVANGELIZAÇÃO E MISSÃO, OU SEJA, A MISSÃO DE EVANGELIZAR Recorremos a um texto do pastor Sérgio Paulo Ribeiro Lyra (2012, on-line), pastor e coordenador do Consórcio Presbiteriano para Ações Missionárias no Interior, autor do livro “Cidades para a Glória de Deus” (Ed. Visão Mundial), no qual nos apresenta Deus comissionando Seu povo para cumprir a missão de evangelizar. Afirma o pastor Lyra (2012, on-line) que a missão foi comissionada ao povo de Deus, pois foi por decisão divina que a nação de Israel foi feita povo missio- nário de Deus e, posteriormente, a responsabilidade e privilégio recaiu sobre a igreja (I Pedro 2.9-19). Essa verdade revelada nos leva a indagar: qual a missão desse povo escolhido por Deus? Não é difícil responder que a adoração vem em primeiríssimo lugar. Por adoração, devemos entender uma vida pessoal dedi- cada a Deus, obediente aos mandamentos revelados na Bíblia (João 14.21) e a expressão cúltica comunitária daqueles que participam da mesma fidelidade ao Senhor. Uma vida inteira voltada para adorar e não apenas momentos de ado- ração coletiva em alguns dias. O profeta Isaías, 700 anos antes da vinda de Jesus, profetizou acerca dessa responsabilidade missionária. O Deus único e verdadeiro estava anunciando antecipadamente através daquele profeta a nova aliança que Ele estava para fazer com o seu povo (Isaías 42.6). A nova aliança seria o cumprimento do que já fora prometido acerca da sal- vação, mas também traria uma nova responsabilidade para o povo através de Jesus: “Eu [Deus] o enviei como garantia da aliança que farei com o meu povo, como a luz da salvação que darei aos outros povos” (Isaías 42.6). Observe que a salvação trazida ao povo de Deus pelo Messias tem como objetivo levar a salva- ção aos outros povos. Aqui reside o centro da missão da igreja, o povo escolhido de Deus. Os mis- sionários de Deus no mundo são as pessoas que já foram transformadas pela graça de Cristo. Essa verdade bíblica põe por terra a ideia errada e tão difundida em nossas igrejas que missionários são apenas aqueles que foram vocacionadas para levar o Evangelho a povos em lugares distantes. Destaco, também, que levar o Evangelho não deve ser entendido apenas como o anúncio da mensagem de esperança e fé em Jesus, mas também a chegada dos valores do Evangelho. Sem Evangelização e Missão, ou Seja, a Missão de Evangelizar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 139 deixar de reconhecer o anúncio do Evangelho como a melhor e mais importante notícia para o ser humano, mas também sem desprezar as boas obras, trago a excelente definição do missiólogo David Bosch (2002, p. 476) acerca da missão do povo de Deus: “Missões é o povo de Deus vivendo o Evangelho em palavras e ações, quebrando barreiras em direção da não-fé e da não-igreja”. Escreve ainda o autor que é também Missão o anunciar a glória de Deus e além de anunciar que Deus, através de Jesus Cristo, providenciou a salvação da desgraça gerada pelo pecado, a missão do povo de Deus implica em mostrar a grandeza gloriosa, magnífica e única de Deus, o Criador e Senhor de tudo e todos. O profeta Isaías, ao perceber a grandiosidade da obra missionária do Messias, bradou: “que o Senhor Deus seja louvado, e que a sua glória seja anunciada no mundo inteiro!” (Isaías 42.12). Anunciar a glória de Deus significa falar, divulgar, difundir e mostrar as maravilhas, a beleza singular, o saber infinito e os poderosos feitos de Deus, o único e verdadeiro Deus (Salmo 19.1). As pessoas que não conhecem essa ver- dade não podem adorar a Deus pelo que Ele é e fez. Logo, faz-se necessário e urgente que o povo conhecedor da glória divina seja o divulgador de tão pre- ciosa e importante mensagem e grandiosas ações. O povo de Israel era o foco das ações maravilhosas de Deus, ações que deveriam servir como amostra do que Deus faz pelo seu povo. De forma bastante clara, a nação de Israel deveria ser uma espécie de nação show-room, uma vitrine aos demais povos do que real- mente seria um povo governado por Deus na sua integralidade. Os escritos do Novo Testamento fazem a mesma proposta missionária para a igreja. Jesus ordenou: “vão a todos os povos do mundo e façam com que sejam meus seguidores, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensi- nando-os a obedecer a tudo o que tenho ordenado a vocês” (Mateus 28.19-20). A diferença entre o povo de Israel e a Igreja é que a Igreja não é mais uma “vitrine fixa”, imóvel, que espera que os de fora venham e se aproximem para observar. A Igreja deve ser vista como “mostruário ambulante” da glória de Deus, comunidade que deve ir ao encontro da não-igreja. Pela própria etimologia da palavra “igreja”, ela é uma comunidade “chamada para fora”. O povo missio- nário de Deus não tem a missão voltada para si mesmo, mas para o mundo. Acredito que devemos repetir as mesmas palavras que o profeta Isaías proferiu TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E140 e nos prontificarmos e moldarmo-nos como servos dessa missão: “Cantem ao Senhor uma nova canção! Que ele seja louvado no mundo inteiro, pelos que nave- gam nos mares, pelas criaturas que vivem nas águas do mar e pelos povos de todas as nações distantes!” (Isaías 42.10). A missão da Igreja de Jesus nasceu no coração do Deus ao qual servimos e adoramos com nossas vidas. A glória de Deus já pode ser experimentada pelo seu povo. O serviço a Deus não é penoso ou resultado de pura obrigação sem pra- zer (Salmo 1.1,2). Servir ao Senhor Deus é fator produtor de alegria. Anunciar às pessoas as maravilhas do nosso Deus é privilégio muito recompensador. Sabemos que essas afirmações são verdades bíblicas. Entretanto paira sobre nós as seguintes indagações: “se a igreja é o povo missionário de Deus, por que não encontramos comunidades cristãs cheias de missionários eufóricos e empol- gados na divulgação da salvação em Jesus Cristo?”, “por que não presenciamos milhões de cristãos entusiasmados em falar a muitas pessoas os grandes feitos de Deus?”. Creio que se faz necessário refletir os primeiros discursos do profeta Isaías acerca da relação do povo com Deus. É urgente e imperioso que o povo missionário de Deus volte a ser o povo responsável com que as pessoas não usem o nome de Jesus apenas como mera saudação, ou se referenciem a Deus apenas como um hospital. Para tanto, necessitamos estar, de palavras e coração, agra- dando a Deus com a vida e falando dele com a boca e as obras. A mensagem missionária do profeta Isaías é pertinente e atual para a igreja, o povo missionário responsável por levar as boas novas da salvação, vitrine que mostra ao mundo todas as delícias, maravilhas e bênçãos de se conhecer e ado- rar ao único e verdadeiro Deus. Como já afirmou Charles van Engen (1996) e o pastor Lyra (2012, on-line) em seu artigo, o povo de Deus é povo missionário. E aponta que Isaías atuou como pregador da mensagem de Deus em uma época de grande prosperidade e tranquilidade na nação de Israel. O reinado de Uzias e do seu filho Jotão trouxe estabilidade política e progresso por mais de 50 anos. Contudo esse período de abundância levou o povo a uma vida de ritualismos e formalismos religiosos (Isaías 1). O povo sabia da existência de Deus e praticava os cerimoniais esta- belecidos rotineiramente no templo, entretanto, a vidanão refletia obediência aos mandamentos do Senhor. Tal situação produziu um contexto de aparente Evangelização e Missão, ou Seja, a Missão de Evangelizar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 141 fidelidade na adoração, todavia o que exteriormente era demonstrado com a boca não refletia a realidade do coração (Isaías 29.13). A missão que Deus deu ao profeta Isaías foi a de denunciar o ritualismo e o estilo de vida pecaminoso que o povo praticava associado à hipocrisia de prá- ticas cerimoniais. Além disso, Isaías anunciou a vinda do Messias como evento certo e inadiável e que esse Messias traria solução definitiva para a condena- ção do pecador (Isaías 9 e 53), mas isso exigia do povo santidade, “endireitar os caminhos” (Isaías 40.3). Deus também ordenou ao profeta dizer ao povo que havia uma responsabilidade missionária. Israel fora uma nação escolhida para ser sacerdotal (Êxodo 19.6), o que significava que as demais nações deveriam conhecer a Deus por meio da mediação dos israelitas. Isaías pregava que o povo de Deus deveria ser luz para as nações e anunciar a vinda do Messias (Isaías 2.3-4; 40.9; 60.1-3). Além disso, a responsabilidade missionária que Deus deu ao profeta Isaías tomou proporções transculturais, pois ultrapassou as frontei- ras nacionais para diversas nações: Babilônia (Isaías 13, 21, 46), Moabe (Isaías 15), Síria (Isaías 17), Etiópia e Egito (Isaías 18-20). Nesse contexto, não acredito ser improvável que o profeta Isaías tenha se questionado quanto à efetividade de sua chamada missionária ao povo. Afinal, como implementar a missão quando o povo de Deus não vive de acordo com o que diz acreditar? Como ser povo de Deus e não ser povo missionário? Essas questões são bem pertinentes à Igreja do século 21. Johannes Blauw (1966), em seu livro A Natureza Missionária da Igreja, destaca que igreja missionária é “aquela onde os seus membros buscam agradar a Deus agindo de acordo com a Sua santa vontade revelada nas Escrituras e anunciando a salvação pela fé em Cristo, o Messias”. Acredito que a principal ação missionária da igreja para que Deus seja adorado por todos é esta: viver como povo que é santo e que “proclama as virtudes daquele o tirou das trevas para a sua maravilhosa luz” (I Pedro 2.10). O pastor da igreja reformada holandesa do século 16, Gisberto Voetius, decla- rou que “Deus é o Senhor soberano das missões”. Assim, se a missão é de Deus, atingir o objetivo proposto é garantia plena. Deus é sempre autor de obras aca- badas. Tudo o que Ele determinou na sua Palavra já aconteceu ou certamente irá acontecer. TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E142 O início da ação missionária de anunciar a mensagem e salvar o pecador pela fé parte do coração do próprio Deus, o qual ordenou profetizar acerca do Messias e no tempo escolhido enviou o seu Filho Jesus (Isaías 53). Esse, por sua vez, rogou ao Pai que enviasse o seu Espírito, e é o Espírito Santo que hoje chama, regenera, santifica e capacita a igreja para enviá-la ao mundo com uma missão. A missão na qual Isaías esteve envolvido é a mesma missão na qual hoje estamos envolvidos. É Missio Dei. Logo, pelo menos cinco implicações surgem de imediato: ■ Ela não pode ser abortada – trata-se do plano divino traçado na eterni- dade e trazido à execução no tempo pleno e perfeito de Deus. ■ É Deus quem chama e capacita – todo plano de salvação do ser humano pecador surgiu do coração de Deus. Tendo Ele enviado seu Filho ao mundo, por meio de sua obra, escolheu homens e mulheres que a Ele veem por meio da chamada do Espírito Santo, e são então justificados, regenerados, convertidos e santificados para receberem parte na missão e gozarem eternamente do Seu Reino (Isaías 6.1-6). ■ A soberania divina é que determina os resultados – ao contrário do que muitos pensam, o resultado das missões não pode ser medido apenas por números ou estratégias missionárias, ou ainda atribuído apenas ao esforço e trabalho dos missionários. Se a missão é Missio Dei, é o cristão quem planta a divina semente, mas quem a faz germinar e crescer é Deus. Existe a responsabilidade humana de todo cristão ir e pregar, e a do não cristão que ouve de crer. Mas é sempre Deus que fará a semente do evan- gelho nascer, crescer e produzir frutos. ■ Implica em devoção e sacrifício – isso nos leva ao paradoxo que existe entre a soberania divina e a responsabilidade humana. Ações particula- res da missão de Deus foram por Ele confiadas aos seus servos e servas. Ao sermos por Ele capacitados e termos recebido a comissão (Mateus 28.18; Atos 1.8), de cada crente é esperado fidelidade, presteza, dedica- ção, devoção e decisão de pagar o preço para cumpri-la. Ser participante da missão de Deus é uma tarefa que vale a pena viver e morrer por ela. Evangelização e Missão, ou Seja, a Missão de Evangelizar Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 143 ■ O povo de Deus é a sua única agência missionária – a estreita relação de ser povo de Deus e ser enviado por Jesus nos moldes de sua própria mis- são (João 17.18) é vista como insubstituível, pois não existe nenhuma outra igreja senão a Igreja enviada ao mundo e não há outra missão a não ser a da Igreja de Cristo. É importante saber que Deus é aquele que estabeleceu para si mesmo a mis- são de criar todas as coisas e também criar seres que o adorem (Isaías 42.4-5). Jamais foi vontade do Criador que os seres humanos se tornassem desobedien- tes e rebeldes para com Ele e deixassem de adorá-lo. E, além de adorá-Lo, não podemos deixar de obedecê-Lo, ainda mais com seu chamado tão contundente: (Mateus 28.18-20); (Marcos 16.14-20). Embora em um tempo de relativismos, não podemos relativizar o chamado do Senhor. Não é possível que essas palavras não nos toquem, não nos incomodem; como é possível ficarmos inertes diante de tamanho chamado? Como podemos ficar nos escondendo atrás de teorias, explicações, exegeses e não assumirmos de fato que é Palavra do Senhor a nós, seu chamado imperativo a cada um de nós? Temos sim a missão de evangelizar. Não há como contrapor. Não há desculpas. 1 Na presença de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar os vivos e os mortos por sua manifestação e por seu Reino, eu o exorto solene- mente: 2 Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo, repreenda, corrija, exorte com toda a paciência e doutrina. 3 Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; ao contrário, sentindo coceira nos ouvidos, juntarão mestres para si mesmos, segundo os seus próprios desejos. 4 Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, voltan- do-se para os mitos. 5 Você, porém, seja moderado em tudo, suporte os sofrimentos, faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério. (II Timóteo 4.1-5, grifo nosso). Essa foi a palavra do apóstolo Paulo a Timóteo, é a Palavra do Senhor a nós: “faça a obra de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério”(II Timóteo 4.5). TEOLOGIA DA MISSÃO, ALGUNS ASPECTOS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IIIU N I D A D E144 CONSIDERAÇÕES FINAIS Prezado(a) aluno(a), nesta unidade, quisemos trazer à discussão a questão da crise que há na Missão Cristã, seus motivos, seus agentes, obviamente de forma sucinta, mas nosso intento é provocar a discussão e convocar os irmãos para que no cumprimento do chamado do Senhor, vençamos essa crise, que é basi- camente a inércia do povo de Deus. Ressaltamos o papel da Igreja no assunto missão, como também a ênfase na missão de evangelizar. Cabe aqui um reforçar do chamado do Senhor a todos nós. Procuramos, ainda, oferecer a você alguns pontos para estudos mais restritos à perspectivabíblica que envolve o tema Missão Cristã. É importante que você estudante tenha claro as questões da Missão, como também o assunto Grande Comissão. De grande relevância para o tema, é o chamado do Senhor e a Pessoa e Presença do Espírito Santo no tema Missão, pois como escreveu Emil Brunner (2000), “a comunidade de Jesus vive sob a inspiração do Espírito Santo; este é o segredo de sua vida, de sua comunhão e de seu poder”, uma vez que, como nos lembra o apóstolo João em sua epistola, “enquanto é dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode traba- lhar” (João 9.4). 145 1. Com base nas leituras, discorra sobre o Deus trino e a Missão Cristã. 2. Descreva algumas características do pietismo. 3. Com base nas leituras, elabore, em no máximo 10 linhas, um texto sobre a “Mis- são de Evangelizar”. 4. A proporção de missionários por membros do movimento chegou a 1 por 25, dificilmente igualado por outro grupo na história das missões. Descreva qual era a estratégia empregada pelos morávios. 5. O autor David Bosch (2002, p. 236), citado no livro, trata sobre a questão da crise na Missão Cristã. Assim, ele afirma que a igreja-em-missão contemporânea é desafiada por alguns fatores. Em relação a esses fatores, analise as assertivas a seguir e marque a alternativa correta: I. O ocidente perdeu sua posição dominante no mundo. II. Há um profundo sentimento de ambiguidade em relação à tecnologia e ao de- senvolvimento ocidentais e, em virtude, quando à própria ideia de progresso em si. III. Hoje, devido à tecnologia e a ciência, temos a capacidade de destruir o plano de Deus para salvar o homem. IV. Hoje, temos a capacidade não só de destruir a terra de Deus, mas também – novamente, pela primeira vez na história – de exterminar a humanidade. V. Igualmente, durante muitos séculos, a superioridade da religião cristã sobre as demais religiões foi considerada simplesmente como algo natural (pelos cris- tãos, é claro). a. I, II, IV e V. b. II, IV e V. c. I, II e IV. d. IV e V. e. Todas as alternativas estão corretas. 146 Ecoteologia: um novo paradigma e novas diretrizes para a Missão Integral Devido ao grito do planeta por redenção, o discurso sobre a missão integral da Igreja surge com um novo formato: Ecoteologia. A partir de diretrizes ecológicas, a relação entre evangelização e ação social se justifica ante a relevância do tema e da responsabi- lidade profética da Igreja. [...] Ecoteologia O impacto da exploração do planeta pelo ser humano e as conseqeências de tal ato têm revelado uma realidade alarmante e digna de preocupação. O quadro não é nada positi- vo. A título de ilustração, cito o Efeito Estufa e o Aquecimento Global. No planeta, temos o efeito estufa natural provocado pela liberação natural do carbono que forma uma redo- ma protetora. Essa aprisiona parte das radiações vindas do sol e mantém a temperatura da superfície dentro de um gradiente ideal para os seres vivos. Sem o carbono na atmos- fera, a superfície seria coberta de gelo. Já o excesso, produz elevação da temperatura. O Efeito Estufa e o Aquecimento Global não são consequências isoladas, sem relação com o todo do planeta. Tudo está interligado. Não se pode pensar a realidade de forma dicotomizada, analítica, fruto da polarização entre sujeito e objeto. Essa forma de pensar não faz justiça à realidade que é na sua essência relacional. É necessário ter em mente uma percepção integral da vida como relações de comunicação e comunhão. Estar vivo significa existir em relação com outros. A vida simbiótica é fruto de uma rede de relações recíprocas importante para a compreensão da doutrina ecológica da criação. A quebra de paradigmas é fundamental para que a Igreja se torne mais participativa na so- ciedade. Às vezes, é preciso muita coragem para mudar. À primeira vista, parece fácil mudar aquilo que se tornou obsoleto, mas não é tão simples assim. Antes, é preciso mudar a men- talidade dos acomodados e principalmente dos saudosistas, daqueles que confundem ino- vação com inovacionismo, tradição com tradicionalismo. O que “mata” muito cristão é uma igreja não-participativa, que se limita a suas atividades internas, fechada em quatro paredes. [...] Segunda - a criação é intrinsecamente boa, e carrega em si um sentido, uma inteligibi- lidade interna advinda do próprio ato criador. Deus cria, isto é, suscita uma verdadeira novidade, uma realidade que tem em si mesmo uma estrutura imanente de autogênese e de criatividade, que no ser humano alcança o nível de liberdade. A criação não é fabri- cação de coisas prontas. Criar é fazer com que o outro seja ele mesmo, de modo que, a criação é um campo aberto, dinâmico e criativo. Terceira - do ponto de vista ecológico, toda a criação é perpassada pelo Espírito. [...] Para J. Moltmann, é necessário reafirmar a presença do Espírito que permeia e vivifica o mundo – o Espírito cósmico – que foi suprimida pela cosmovisão mecanicista dos tempos modernos. 147 Quarta - é preciso afirmar que Deus está presente em suas criaturas e todas as coisas estão voltadas para Ele pelo dinamismo do Espírito que habita o mundo. Em vez de panteísmo (Deus é tudo), podemos falar corretamente em um panenteísmo (Deus está em tudo). Leonardo Boff esclarece: “Tudo não é Deus. Mas Deus está em tudo e tudo está em Deus, por causa da criação, pela qual Deus deixa sua marca registrada e garante sua presença permanente na criatura (Pro- vidência). A criatura sempre depende de Deus e o carrega dentro de si. Deus e mundo são diferentes. Um não é o outro. Mas não estão separados ou fechados. Estão abertos um ao outro. Encontram-se sempre mutuamente implicados. Se são diferentes é para poderem se comunicar e estarem unidos pela comunhão e mútua presença” (BOFF, 1995, p. 236). [...] Quinta - a Trindade como modelo para o pensamento ecológico que, priorizando a di- mensão sistêmica ou relacional, vê todos os seres como membros de uma comunidade biótica, interligados por uma cadeia de conexões vitais. Este modelo é possível porque a comunicação de Deus para fora de si na criação já acontece na autocomunicação di- vina, isto é, no interior da própria Trindade. A Trindade é uma comunidade de pessoas distintas, amorosamente interrelacionadas, em comunhão de ser, de bem e de vida, de modo que o universo inteiro tem sua origem fontal nessa amorosa comunhão trinitária. Sexta - o mundo tem uma marca de filiação. Deus cria no Filho, isto é, Jesus Cristo é o modelo da criação e que esta carrega em si as marcas da presença do Filho. O destino do mundo é ser tomado pela filiação. [...] Portanto o senhorio de Cristo se estende a toda a realidade, de modo que o efeito re- dentor de seu ministério pascal não se limita aos seres humanos, mas se estende a todo mundo criado. A bondade intrínseca da criação, já revelada na tradição veterotestamen- tária, vê-se confirmada pela mensagem do Novo Testamento: se a criação de Deus é dádiva do seu amor (1Tm 4,4), nada deve ser tido como impuro em si mesmo (Rm 14,14). Sétima - a criação tem uma clara dimensão salvífica. A intenção de toda criação se ma- nifestará, plenamente, no final, mas está atuante deste o início. Essa linha de continui- dade entre protologia e escatologia é fundamental para uma adequada teologia cristã da criação. É na ressurreição de Cristo que a fé cristã vê, de forma antecipada, a futura completude não somente da espécie humana, mas de todo o universo. O olhar escatoló- gico para a Nova Criação é, desse modo, para a teologia cristã que se depara com a crise ecológica, uma fonte de esperança. Assim é que a Teologia da Criação em uma perspec- tiva da ecologia oferece um novo fundamento epistemológico para a Missão Integral e a provoca a se lançar numa missão consciente do todo e participativa na construção do Reino de Deus aqui e agora. Fonte: Ecoteologia... (2013, on-line)1. MATERIAL COMPLEMENTAR Teologia da Libertação Gustavo Gutierrez Editora: LoyolaSinopse: A matriz histórica da teologia da libertação está na vida do povo pobre e, de modo especial, na vida de comunidades cristãs que surgem no seio da Igreja presente na América Latina. Os maiores desafi os dessa teologia virão das exigências evangélicas, porque teologia da libertação quer dizer teologia da salvação, salvação como ação gratuita de Deus na história. A Missão (título original em inglês, The Mission) É um fi lme britânico, de 1986, um drama histórico dirigido por Roland Joff é e com trilha sonora de Ennio Morricone. Ano: 1986 Sinopse: no fi nal do século XVIII, Rodrigo Mendoza é um mercador de escravos espanhol que faz da violência seu modo de vida, mata o próprio irmão na disputa pela mulher que ama. Porém o remorso leva-o a juntar-se aos jesuítas, nas fl orestas brasileiras. Lá, ele fará de tudo para defender os índios que antes escravizara. Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB) é um fórum interdenominacional, que permite a realização de consultas, congressos e projetos em parceria entre igrejas e agências. Procura promover a sinergia necessária para uso do potencial pleno da Igreja Brasileira em missões, e desta forma, apoiar a Igreja Brasileira no cumprimento da Grande Comissão (Mt. 28:18-20). Disponível em: <http://www.amtb.org.br/>. A matriz histórica da teologia da libertação está na vida do povo pobre e, de modo especial, na vida de comunidades cristãs que surgem no seio da Igreja presente na América Latina. Os maiores desafi os dessa teologia virão das exigências evangélicas, porque teologia da libertação quer dizer É um fi lme britânico, de 1986, um drama histórico dirigido por Roland de escravos espanhol que faz da violência seu modo de vida, mata o próprio irmão na disputa pela mulher que ama. Porém o remorso leva-o a juntar-se aos jesuítas, nas fl orestas brasileiras. Lá, ele fará de tudo para REFERÊNCIAS BÍBLIA. Portuguesa. A Bíblia Viva. 5.ed. São Paulo: Editora Mundo Cristão. 2008. BLAUW, J. A Natureza Missionária da Igreja. São Paulo: ASTE, 1966. BOSCH, D. J. Missão Transformadora: mudanças de paradigma na Teologia da Mis- são. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2002. BOFF, L. A Ressurreição de Cristo. A nossa Ressurreição na Morte: a dimensão antropológica da esperança humana. Petrópolis: Vozes, 1973. BRUNNER, E. H. O Equívoco da Igreja. São Paulo: Novo Século, 2000. COSTAS, O. El protestantismo en America Latina hoy – ensayos Del camino (1972- 1974). San Jose, Costa rica, 1974. 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Busca de um relacionamento íntimo com Deus; b) ênfase em uma ética pessoal (beirando ao legalismo); c) uso maior das Escrituras como única base para a fé; d) maior participação do leigo (o sacerdócio universal); e) uma crescente visão missionária. 3. A nova aliança seria o cumprimento do que já fora prometido acerca da salvação, mas também traria uma nova responsabilidade para o povo através de Jesus: “Eu [Deus] o enviei como garantia da aliança que farei com o meu povo, como a luz da salvação que darei aos outros povos” (Isaías 42.6). Observe que a salvação trazida ao povo de Deus pelo Messias tem como objetivo levar a salvação aos outros povos. Aqui reside o centro da missão da igreja, o povo escolhido de Deus. Os missionários de Deus no mundo são as pessoas que já foram transformadas pela graça de Cristo. 4. A estratégia empregada pelos morávios era: a) iniciar o trabalho de missões en- tre povos pouco evangelizados e esquecidos; b) o missionário deveria ser au- tossuficiente economicamente por meio de comércio, indústria caseira etc.; c) aceitar a cultura do povo, não colocando normas europeias de costumes e valo- res; d) o missionário era o servo do Espírito Santo enviado para evangelizar e não para doutrinar; e) se o povo não aceitasse o Evangelho, o missionário deveria procurar outro campo. 5. A. U N ID A D E IV Professor Me. Roney de Carvalho Luiz Professor Me. Marcelo Aleixo Gonçalves EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Objetivos de Aprendizagem ■ Analisar os conceitos e termos que envolvem o tema Evangelização. ■ Conhecer definições sobre Evangelização Cristã. ■ Verificar alguns fundamentos bíblicos sobre a Evangelização. ■ Associar a teoria e prática na Evangelização. ■ Apresentar a Evangelização como expressão da graça divina. ■ Apresentar o Espírito Santo como capacitador da Evangelização. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Evangelho, Evangelização, Evangelismo ■ Os fundamentos bíblicos da Evangelização Cristã ■ A Teologia da Evangelização Cristã ■ Evangelização Cristã e a Graça de Deus ■ Evangelização na Igreja Primitiva INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Nesta quarta unidade, intitulada Evangelização Cristã, pedimos a sua atenção para as definições e explicações referentes a cada termo. Evangelho, Evangelização, Evangelismo, por se tratar de termos muito utilizados, corremos o risco de não os entender no aspecto real a que se propõe delimi- tar. Nosso objetivo, aqui, é esclarecê-los para contribuircom o nosso estudo. Ofereceremos, também, a análise de alguns conceitos importantes no estudo sobre este tema, é nosso propósito envolver cada aluno(a) com as terminologias da Evangelização, como também seus conceitos, o que certamente será inte- ressante e útil no desenvolvimento de nossos estudos e entendimento do tema. Ainda, nesta mesma unidade, encontraremos um pequeno tópico sobre os Fundamentos Bíblicos da Evangelização, em que procuraremos apontar a pers- pectiva bíblica sobre o tema e entendermos melhor o chamado que o Senhor nos fez a todos. Ofereceremos nas páginas a seguir alguns temas muito signi- ficativos, como: Evangelização e a Graça de Deus, a Teologia da Evangelização e a Evangelização e o Espírito Santo. Nosso intuito é disponibilizar, embora em poucas páginas, um texto que seja relevante para o entendimento sobre a Evangelização e os aspectos que a cercam e definem e, em especial, a ação do Espírito Santo nesse processo de vida, isto é, na chamada para uma nova e gra- ciosa vida, isso porque a Evangelização tem muita (e só deve acontecer) Graça de Deus, é um dos seus mais interessantes canais. Crer é um ato de fé, uma res- posta que damos à revelação de Deus por meio de sua Palavra e do seu Filho Jesus Cristo. É um ato que envolve mais do que a razão e o conhecimento porque, em se tratando da fé cristã, é a crença em uma verdade que nos é dada, vem de fora de nós e envolve os grandes mistérios do poder e da manifestação divina. “A fé cristã é, ao mesmo tempo, imanente e transcendente, envolve a vida e a fideli- dade a Cristo, como também envolve as promessas e verdades que transcendem os limites da ciência e da razão” (BARBOSA, 2008, p. 37). Bons estudos! Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 155 ©shutterstock EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E156 EVANGELHO, EVANGELIZAÇÃO E EVANGELISMO Como escreve Damy Ferreira (2001, p. 37), em seu livro “Evangelismo Total”, “para uma compreensão básica sobre evangelismo, temos que percorrer uma conceituação de ‘evangelho’ e ‘evangelização’, para depois formularmos um enten- dimento plausível sobre ‘evangelismo’”. Evangelho: do grego, evanguélion, significa literalmente “boas novas”, “boas notícias” (Marcos 1.1; 1.15; 16.15), nesses relatos de Marcos, a palavra aprece como substantivo. Já em Lucas 2.10, aparece como uma ação, “mas o anjo lhes disse: ‘não tenham medo. Estou lhes trazendo boas novas de grande alegria, que são para todo o povo’”. No hebraico, o termo correspondente significa “proclamar boas novas”, “tra- zer novas de vitória”. Historicamente se diz que o significado desse termo para os antigos gregos era de “boas notícias de campos de batalha”, notícia esta que poderia chegar de navio, cavalo ou até mesmo por um mensageiro a pé e era anunciada a toda a cidade que estava na expectativa de ouvir as novas. O por- tador da mensagem era o evanguélos, que significava: o mensageiro sagrado. Evangelho, Evangelização e Evangelismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 157 De uma forma ou outra, fato é que essa palavra aparece 72 vezes no Novo Testamento, das quais 54 encontram-se nos escritos paulinos. Mas há, ainda, outro aspecto muito significativo. Delcyr de Souza Lima (1989, p. 2), em seu livro “Doutrina e Prática da Evangelização”, diz-nos que “em outras palavras, para Jesus, o evangelho tinha o sentido de sua presença real entre os homens, cumprindo os desígnios de Deus, com o fim de salvá-los”. Sendo assim, podemos dizer que Evangelho é Jesus Cristo, tudo que Ele fez e nos ensinou, oportunizando a salvação dos pecadores perdidos. Damy Ferreira (2001, p. 37), já citado, diz que é possível resumir o Evangelho em quatro pontos: 1. Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que se havia perdido. Este é o sentido histórico de Jesus. 2. Jesus morreu por nossos pecados. Este é o sentido teológico de Jesus (I Timóteo 1.15). 3. Jesus ressuscitou (I Coríntios 15.1-4). 4. Jesus voltará a este mundo (Atos 1.9-11). É o sentido escatológico do Evangelho. Estes são os fundamentos do Evangelho, que se tra- duzem em fatos da vida de Jesus. Esses fatos foram registrados em livros que são chamados Evangelhos. De um registro para outro, pode haver variação e até problema de tradução, mas esses fatos fundamentais são inconfundíveis e essenciais para tornar alguém sábio para a salvação (II Timóteo 3.15). Então, caro(a) aluno(a), podemos concluir que Evangelho é um conjunto de fatos e ensinos bíblicos que nos apresentam o cumprimento da providência de Deus para a salvação dos pecadores, associados à ação do próprio Espírito de Deus na vida dos homens, revelando-lhes o pecado e suas consequências, e oferecendo- -lhes, em Cristo Jesus, o meio de salvação, que é pela graça de Deus, mediante a fé. Costa (1996), em seu texto, diz que Cristo é o autor e o conteúdo do Evangelho e que esse Evangelho faz oito reivindicações: arrependimento, fé em Jesus Cristo, conversão a Deus, receber o Evangelho, obediência, perseverança, viver de modo digno e dar frutos do Evangelho. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E158 Ricardo Barbosa (2008, p. 26), em sua obra “Conversas no Caminho”, diz que: O Evangelho de Jesus Cristo são as boas novas, boas notícias, palavras de esperança e redenção. É a Palavra de Deus que se fez carne em Cris- to, e veio para habitar entre nós cheia de graça e de verdade. Jesus entra na história dizendo para os ansiosos e temerosos, “não temam”; para os pecadores, “os seus pecados estão perdoados”; para os acusados e ameaçados, “eu não te condeno”; para os cansados, oprimidos e aflitos, “vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados que eu vos aliviarei”. São palavras que salvam, trazem de volta a esperança e criam uma nova comunidade. Evangelização: a evangelização é a ação de evangelizar. Disse um autor que evangelizar poderia ser definido como um mendigo dizer a outro onde conse- guir alimento. Evangelização é uma ação que realiza. É a ação de comunicar o Evangelho, visando levar Jesus aos perdidos para que sejam salvos, por Seu amor e graça. Devemos perceber que a palavra evan- gelizar é diferente de pregar, nem toda a pregação é evangelização. Citamos a seguir dois trechos bíblicos que mencionam a evangelização acompanhada de outras realizações: Lucas 4.18,19: 18 O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos 19 e proclamar o ano da graça do Senhor. Atos 10.36-38: 36 Vocês conhecem a mensagem enviada por Deus ao povo de Israel, que fala das boas novas de paz por meio de Jesus Cristo, Senhor de todos. 37 Sabem o que aconteceu em toda a Judéia, começando na Ga- liléia, depois do batismo que João pregou, 38 como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e poder, e como ele andou por toda parte fazendo o bem e curando todos os oprimidos pelo Diabo, porque Deus estava com ele. Evangelização é a ação cujo objetivo é levar os homens a conhecerem o plano de Deus para a sua salvação; impulsioná-los à aceitação de Jesus Cristo como Filho de Deus, Salvador e Senhor, e integrá-los na vida cristã. ©shutterstock Evangelho, Evangelização e Evangelismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 159 Não podemos esquecer, caro(a) aluno(a), da responsabilidade pessoal de evan- gelizar, algo que não é novo, já aparece na Bíblia desde o Antigo Testamento. No Novo Testamento,fica evidente, em especial, no ministério de Jesus e no livro de Atos. Ainda sobre a Evangelização, o Dr. Haddon W. Robinson, do Seminário Batista Conservador de Denver (EUA), diz que, se Jesus aparecesse na Terra hoje, como fez há mais de dois mil anos atrás, muitas igrejas não O elegeriam para os seus quadros de oficiais. Ele teria Se desqualificado porque andava com as “pessoas erradas”. O evangelista Lucas comenta que cole- tores de impostos e pecadores – pessoas evitadas pelos tipos religiosos porque tinham vidas desordenadas – procuravam-nO para ouvir o que tinha a dizer. Quando chegavam a Ele, Jesus lhes dava boas-vindas calorosas e, frequentemente, comia com eles. O fato de conviver com essas pessoas prejudicava o Seu testemu- nho. Os fariseus e os mestres dos textos sagrados que O observavam classificaram o Seu envolvimento com essas pessoas como uma condescendência secreta com o pecado. Contudo o fato é que Jesus fazia o máximo para cultivar aqueles rela- cionamentos, e se nós seriamente O seguimos, devemos fazer o mesmo. Dar lugar em sua vida para vizinhos não-cristãos exige esforço, ideias e, às vezes, risco. É mais difícil se construírem pontes do que paredes. Mas isto não altera uma realidade: os não-cristãos são atraídos primeiro pelos cristãos e depois por Cristo. Infelizmente, nem todos os cristãos atraem. Como um imã virado, alguns repelem. Contudo, cristãos que vivem para Deus, amam, preocupam-se, riem, compartilham e se en- volvem nas necessidades das pessoas, apresentam um testemunho ine- gável de Cristo em sua sociedade. (ALDRICH, 1992, p. 12). Somos todos chamados a evangelizar, isto é, a pregar a Palavra de Deus de maneira compreensível. A evangelização proclama as bênçãos salvadoras de Deus e tem como principal meta a obtenção do louvor da graça do Senhor. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E160 Quando Deus nos chama a “evangelizar”, Ele quer dizer que devemos con- tar as “boas novas” ao mundo, contá-las na verdade, pois não são novas fáceis, ou novas baratas, mas “boas novas”. As “boas novas” consistem em declarar que Jesus Cristo venceu o mundo. “Filhinhos, sois de Deus, e já os tendes vencido; porque maior é o que está em vós do que o que está no mundo” (I João 4.4). Aqui um pequeno recado. Uma igreja não deve evangelizar: a. Para prestígio pessoal de seu pastor e/ou líderes. b. Simplesmente por marketing. c. Por ser um assunto do momento. d. Para fortalecer a igreja politicamente. e. Para angariar recursos financeiros para outros fins. f. Com a finalidade de projetar-se no cenário religioso. Não devemos nos esquecer das recomendações do apóstolo Paulo à igreja em Corinto sobre o assunto: 10 Conforme a graça de Deus que me foi concedida, eu, como sábio construtor, lancei o alicerce, e outro está construindo sobre ele. Con- tudo, veja cada um como constrói. 11 Porque ninguém pode colocar outro alicerce além do que já está posto, que é Jesus Cristo. 12 Se al- guém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha,13 sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. 14 Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá re- compensa. 15 Se o que alguém construiu se queimar, esse sofrerá preju- ízo; contudo, será salvo como alguém que escapa através do fogo. À luz das Sagradas Escrituras, não há evasivas para que a Grande Comissão não tenha prioridade na Igreja de Jesus Cristo. Lembre-se da recomen- dação do Senhor: “Trabalhai enquanto é dia”. (I Coríntios 3.10-15). Evangelho, Evangelização e Evangelismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 161 Shedd (1996, p. 21) ressalta um aspecto importante quando diz que: a evangelização, que proclama as bênçãos salvadoras de Deus, tem como principal objetivo a obtenção do louvor da sua graça. Quando espalhamos as boas novas por todo o mundo, cumprimos o desejo su- premo de Deus de se tornar conhecido e, consequentemente, louvado. É especificamente como Deus de graça que ele deseja ser conhecido. O caráter glorioso de sua graça soberana deveria evocar o louvor dos redimidos em toda parte (Apocalipse 5.13), a exemplo do que fazem as hostes angelicais (Apocalipse 5.12). Evangelismo: essa palavra não aparece no Novo Testamento. A partícula final ismo denota sistema. Isso quer dizer que evangelismo envolve princípios, métodos, estratégias, técnicas empregadas na ação efetiva de evangelizar. O evangelismo reúne os recursos e fornece as ferramentas de que a evangelização utiliza para realizar seu objetivo. Pode-se dizer, então, que o evangelismo é a metodologia da evangelização. Naturalmente, o evangelismo considera o evangelista, a mensagem, e o pecador a ser alcançado com o Evangelho. Nesse conjunto, o evange- lismo trata da capacitação espiritual do evangelista e de todo o seu pre- paro, bem assim, define a mensagem, sua estrutura e a maneira como deve ser codificada para atingir o pecador. O objetivo da evangelização, que é levar o pecador a Cristo para salvação, é devidamente esquema- tizado pelo evangelismo, que estrutura a verdadeira teologia da salva- ção, para que esta não descambe para outros objetivos. Finalmente, o evangelismo procura tratar de uma análise do pecador, das influências que sofre no seu mundo interior, mergulhado que está neste contex- to de pecado, e identifica, pela sabedoria do Espírito Santo, a maneira como alcançar o pecador no seu “status” e na sua localização ou no seu contexto. Tudo isto pertence ao âmbito do evangelismo. (FERREIRA, 2001, p. 29). ©shutterstock EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E162 Delos Miles (1983, p. 47-48), em seu livro “Introdução ao Evangelismo”, apre- senta algumas ideias sobre o termo: 1. O coração da definição deve ser as boas novas sobre o reino de Deus. As boas novas de que Jesus é o Senhor sobre tudo – sobre o universo físico, sobre a história, sobre os dirigentes das nações, sobre todos nós. Esta é a essência da nossa mensagem. 2. Abrangência global: que alcance a pes- soa no seu todo, com a totalidade do conteúdo do evangelho, com a tota- lidade de Cristo, pela totalidade da igreja, na totalidade do mundo, na tota- lidade do tempo até à eternidade. Isso é o evangelho global no homem glo- bal (integral). 3. Sentido teológico. Exemplo: se a definição não apresenta Jesus como Filho de Deus, como redentor, salvador, não fará sentido. 4. O sentido do prejuízo para quem não aceita a salvação (Romanos 1.18). O evangelismo é como uma faca de dois gumes: abre a porta para a sal- vação e pode abri-la também para a condenação (João 3.18). O evangelismo é o que dá à evangelização as condições adequadas para alcançar a pessoa que precisa da salvação, isso com toda a bagagem cultural e no con- texto em que essa pessoa está. O evangelismo objetiva levar o evangelho onde o pecador estiver. Apresentaremos a seguir algumas definições chamadas clássicas sobre o tema evangelismo e evangelizar: Evangelismo é a ação cujo objetivo é levar os homens a reconhecerem a sua condição de pecadores perdidos e a conhecerem o plano de Deus para sua salvação; conduzi-los à aceitação de Jesus Cristo como Filho de Deus, Salvador e Senhor, e integrá-los na vida cristã. (LIMA, 1989, p. 18). ©shutterstock Evangelho, Evangelização e Evangelismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 163 E ainda: Evangelizar é espalhar as boas novas de que Jesus morreu por nossos pecados e foi levantado da morte de acordo com as Escrituras, e que, como Senhor que reina, Ele agora oferece perdão dos pecados e odom libertador do Espírito a todo aquele que se arrepende e crê. Nossa pre- sença cristã no mundo é indispensável para o evangelismo, e este é o tipo de diálogo cujo propósito é fazer com que se ouça cuidadosamente a mensagem a fim de entendê-la. Mas evangelismo por si mesmo é a proclamação do Cristo histórico e bíblico como salvador e senhor, com vistas a persuadir pessoas a virem a Ele, pessoalmente, e serem recon- ciliadas com Deus. (Pacto de Lausanne: Congresso Internacional para a Evangelização do Mundo, realizado em Lausanne – Suíça, em 1974). Porém, caro(a) aluno(a), quando falamos em evangelismo, não podemos esquecer de mencionar a importância do discipulado. As pessoas precisam de acompanhamento efetivo, precisam aprender a dar os primei- ros passos neste novo caminho. É isso que a Palavra de Deus ensina, pois Jesus chama a todos quantos O seguem para negarem a si mesmos, tomarem sobre si sua cruz e procu- rarem identificarem-se com sua nova vida, nova comunidade. Os resultados do evan- gelismo e discipulado cristão devem incluir obediência a Cristo e Sua Palavra, integração a Sua Igreja e serviço cristão responsável no mundo, até a Sua volta. O que precisa ficar claro é que o âmago da evangelização é proclamar o Evangelho, mensagem que aponta para Jesus Cristo, crucificado e ressurreto, única e verdadeira esperança suficientemente capaz de redimir o ser humano do pecado e da merecida condenação. Apresentando essas definições, entendemos ser necessário concluir com as palavras de Damy Ferreira, que, embora seja uma longa citação, nos ajuda no entendimento desse tema: EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E164 A definição de evangelismo tem que ser calcada no conceito de evan- gelização e de evangelho. Algumas definições apresentadas confundem evangelização com evangelismo e vice-versa. Já mencionei que evange- lismo tem a ver com sistematização. Evangelismo tem a ver com mé- todos, estratégias e técnicas pelos quais se comunica o evangelho ou se realiza a evangelização. À luz do que temos dito, desejo arriscar uma definição que mais se aproxime da realidade do termo: Evangelismo é o sistema baseado em princípios, métodos, estratégias e técnicas tirados do Novo Testamento, pelos quais se comunica o Evangelho de Cristo a todo pecador, sob a liderança e no poder do Espírito Santo, visan- do persuadi-lo a aceitar a Cristo como seu salvador pessoal, de acordo com o comissionamento de Jesus dado a todos os seus discípulos, le- vando, ao final, os que crerem, a se integrarem à igreja pelo batismo, preparando-os para a volta de Cristo (FERREIRA, 2001, p. 44). Evangelização – outras definições Evangelização é a proclamação de Jesus Cristo como Senhor e Salvador, por cuja obra o homem se liberta tanto da culpa como do poder do pecado e se integra nos planos de Deus, a fim de que todas as coisas se coloquem sob a soberania de Cristo (GRAHAM; PADILLA, 1982, p. 139) A proclamação do evangelho inclui um convite para reconhecer e aceitar o senhorio salvador de Cristo em uma decisão pessoal, por intermédio do Espírito Santo, com o Cristo vivo, recebendo seu perdão e aceitando pes- soalmente o chamado ao discipulado e a um novo estilo de vida de serviço (STEUERNAGEL, 1992) Evangelização é o esforço extensivo da igreja, por meio de uma confronta- ção com o evangelho de Cristo, em uma tentativa de conduzir os homens a um cometimento pessoal mediante a fé e o arrependimento em Cristo, como Salvador e Senhor (AUTREY, 1980, p. 12). Fonte: os autores. Evangelho, Evangelização e Evangelismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 165 PACTO DE LAUSANNE Lausanne afirmava haver uma urgência da ação missionária, pois o número de pessoas que nunca sequer ouviram o nome de Cristo era mais de dois bilhões e 700 milhões de seres humanos, ou seja, 2/3 da humanidade (números da época do Congresso). Esse Pacto não só definiu a natureza da evangelização como tra- tou, também, da relação de serviço com ação social da igreja ao declarar que, sendo o ser humano feito à imagem de Deus, ele possui dignidade, indepen- dentemente de cor, raça, religião, cor, cultura, camada social, sexo, ou idade e, portanto, deve ser respeitado e não explorado, é por isso que evangelismo e ação social não podem ser considerados mutuamente incompatíveis. Lausanne tocou também de maneira forte e contundente na responsabilidade da igreja no que diz respeito a oferecer-se como agente virulento de transformação histórica. Esse Pacto afirma a necessidade de a igreja se engajar na agenda de lutas por trans- formações históricas apresentando basicamente cinco itens: ■ Necessidade de dedicação ao serviço de Cristo e de homens enquanto aguardamos a vinda de Cristo. ■ Cobrança aos governos de condições de dignidade humana, conforme consta na Declaração Universal dos Direitos Humanos. ■ Libertação daqueles que sofreram perseguição religiosa. ■ Oposição a toda injustiça, permanecendo fiéis ao Evangelho. ■ Afirmação da igreja como comunidade do povo de Deus e não como instituição. A igreja não deve ser identificada com qualquer sistema social ou político, mas sim como uma entidade compromissada com o Reino de Deus. Neto (2002) apresenta em sua obra algumas informações importantes em relação ao Pacto de Lausanne, transcrevo-as a seguir: EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E166 O Pacto de Lausanne aborda os seguintes temas: o propósito de Deus; a autoridade e o poder da Bíblia; a unicidade e universalidade de Cristo; a natureza da evangelização; a responsabilidade social cristã; a Igreja e a evangelização; a cooperação na evangelização; o esforço conjugado de igrejas na evangelização; a urgência da tarefa evangelística; evange- lização e cultura; educação e liderança; conflito espiritual; liberdade e perseguição; o poder do Espírito Santo; e o retorno de Cristo. (NETO, 2002, p. 76). No Brasil, a chegada do Pacto de Lausanne, efetivamente, deu-se, em 1983, quando foi realizado o Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE-83) em Belo Horizonte, afirma Neto (2002, p. 77). Pacto de Lausanne Evangelizar é difundir as boas novas de que Jesus Cristo morreu por nossos pecados e ressuscitou segundo as Escrituras e de que, como Senhor e Rei, ele, agora, oferece o perdão dos pecados e o dom libertador do Espírito a to- dos os que se arrependem e creem. Mas a evangelização propriamente dita é a proclamação do Cristo bíblico e histórico como Salvador e Senhor, com o intuito de persuadir as pessoas a vir a ele pessoalmente e, assim, se reconci- liarem com Deus. Ao fazermos o convite do evangelho, não temos o direito de esconder o custo do discipulado. Jesus ainda convida todos os que quei- ram segui-lo a negarem a si mesmos, tomarem a cruz e identificarem-se com a sua nova comunidade. Os resultados da evangelização incluem a obedi- ência a Cristo, o ingresso em sua igreja e um serviço responsável no mundo (CONGRESSO INTERNACIONAL DE EVANGELIZAÇÃO, 1974). *Documento produzido durante o Congresso Internacional de Evangelização Mundial, realizado em Lausanne, Suíça, de 16 a 25 de julho de 1974, com a pre- sença de 2.700 participantes, representando mais de 150 países. Os Fundamentos Bíblicos da Evangelização Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 167 Citando Orlando Costas (apud NETO, 2002, p. 79), temos dito que a ação pastoral responde a um fenômeno maior: a mis- são de Deus. Faz-se necessário, pois, ver a teologia pastoral como uma ótica missiológica. Esse esclarecimento é importante, uma vez que na maioria das teologias pastorais (católica e evangélica) escritas na Eu-ropa e nas Américas, a relação tem sido inversa, ou seja, encaram a missiologia como um apêndice, no máximo um capítulo da pastoral. Assim, os católicos falam de pastoral missionária e os evangélicos de missões e evangelização como divisões da teologia prática. Essa pers- pectiva da pastoral necessita ser questionada, porquanto leva em consi- deração o caráter (e não meramente a dimensão) missional da pastoral. Sem missão não pode haver pastoral, porquanto esta existe em virtude e função da missão. Por isso, a fé bíblica apresenta a Deus como um Deus missionário que atua pastoralmente na história. OS FUNDAMENTOS BÍBLICOS DA EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Caro(a) aluno(a), apresentamos nas páginas anteriores definições sobre Evangelismo e Evangelização, porém, no início de nossa abordagem sobre os Fundamentos Bíblicos sobre a Evangelização, faz-se necessário apresentar mais uma e esse será nosso ponto de partida na abordagem desse tema. A definição a seguir foi construída no Congresso Mundial de Evangelização que aconteceu em Berlim no ano de 1966 oferece uma descrição prática e precisa: Evangelismo é a ação cujo objetivo é levar os homens a reconhecerem a sua condição de pecadores perdidos e a conhecerem o plano de Deus para sua salvação; conduzi-los à aceitação de Jesus Cristo como Filho de Deus, Salva- dor e Senhor, e integrá-los na vida cristã. (Delcyr de Souza Lima) EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E168 Evangelização é a proclamação do Evangelho de Cristo crucificado e ressur- reto, o único redentor do homem, de acordo com as Escrituras, com o propósito de persuadir pecadores condenados e perdidos a pôr sua confiança em Deus, recebendo e aceitando a Cristo como Senhor em todos os aspectos da vida e na comunhão de sua igreja, aguardando o dia de Sua volta gloriosa. Comentando essa definição, Russell Shedd (1996, p. 17) diz que “o Evangelho é a principal mensagem das Escrituras”. E continua sua análise explicando que a Evangelização implica em persuasão. Isso é necessário, porque o homem, peca- dor, perdido e condenado pela ira consumidora de Deus, precisa ser convencido pela verdade do Evangelho a confiar nas promessas de Deus e a receber a Jesus Cristo como único Salvador e Senhor, pelo poder do Espírito Santo. Nesse ponto, surge mais uma grande verdade – a necessidade da atuação e presença do Espírito Santo no processo da Evangelização. 7 Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. 8 Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. 9 Do pecado, porque os homens não crêem em mim; 10 da justiça, por- que vou para o Pai, e vocês não me verão mais; 11 e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está condenado. 12 “Tenho ainda muito que lhes dizer, mas vocês não o podem suportar agora. 13 Mas quando o Espírito da verdade vier, ele os guiará a toda a verdade. Não falará de si mesmo; falará apenas o que ouvir, e lhes anunciará o que está por vir. 14 Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês. 15 Tudo o que pertence ao Pai é meu. Por isso eu disse que o Espírito receberá do que é meu e o tornará conhecido a vocês. (João 16.7-15). Para Shedd (1996, p. 9), Sem a iniciativa divina, quem seria persuadido a aceitar a Cristo como único Caminho? Quem poderá, mesmo que assim o deseje e sinta-se capaz, fazer dele o Senhor de sua vocação e de sua vida cotidiana sem o poder do Espírito Santo? Não nos podemos esquecer da igreja, uma vez que a Bíblia é clara quando diz que ser salvo significa estar integrado à família de Deus (corpo de Cristo). A Evangelização não exige ape- nas o compromisso com Deus, dela faz parte também a obrigação para com os irmãos e irmãs que se amam e servem uns aos outros na igreja. Por último, o evangelho aguarda a consumação dos tempo, quando a promessa da volta de Cristo em glória encerrará o dia da graça com o Os Fundamentos Bíblicos da Evangelização Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 169 julgamento final. O estabelecimento pleno de seu Reino em poder e santidade prevalecerá sobre a face da terra (Habacuque 2.14 – “Mas a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas enchem o mar”). A Bíblia Sagrada é franca em ensinar que Deus é o Criador de todas as coisas, é o Criador do ser humano e a esse criou a Sua imagem e semelhança. A cria- ção à semelhança de Deus tinha por objetivo tornar possível a comunhão do homem com Deus. A Evangelização é o plano de Deus por meio do qual a per- feita semelhança de Deus em Cristo poderá ser implantada no homem caído. O livre arbítrio do homem existe para que ele escolha adorar ao seu Criador. Quem nos favoreceu com uma explicação sobre essa questão do livre-arbítrio foi Santo Agostinho, em que entendemos a partir de suas explanações que de todas as faculdades humanas, a mais importante é a vontade, pois sendo essen- cialmente creadora e livre, possibilita ao homem aproximar-se ou afastar-se de Deus. É nisso que reside a essência do pecado, pois, para Agostinho, o pecado é uma transgressão da lei divina, na medida em que a alma foi criada por Deus para reger o corpo, e o homem, fazendo mal uso do livre arbítrio, inverte essa rela- ção, subordinando a alma ao corpo e caindo na concupiscência e na ignorância. Ora, quando Deus pune quem peca, que outra coisa parece Ele dizer, senão isto: por que é que não usaste da vontade livre para o fim que Eu te dei, isto é, para proceder honestamente? (…) Com efeito, se o homem não dispusesse de vontade livre, tanto seria injusto o castigo como o prêmio (AGOSTINHO, lb. II , cap. 1, n. 3). Ocorre que, nesse estado de decadência, a alma humana não consegue salva- ção quando a busca por suas próprias forças. Embora a queda do homem seja de inteira responsabilidade do mau uso de seu livre arbítrio, ele, caindo em si, não tem forças suficientes para fazê-lo voltar às origens divinas, ao plano inicial de Deus. O poder e a força que conseguem que isso ocorra passa necessaria- mente pela atuação ativa do Espírito Santo, uma real conversão (rendição que reconheça humildemente a situação em que está e em um verdadeiro arrepen- dimento abra-se a Pessoa de Cristo), acontece então o novo nascimento – todo esse processo deve ser o alvo da Evangelização. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E170 17 Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: “O justo viverá pela fé”. 18 Portanto, a ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, 19 pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. 20 Pois desde a criação do mundo os atributos invi- síveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de for- ma que tais homens são indesculpáveis; 21 porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obs- cureceu-se. 22 Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos 23 e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. (Roma- nos 1.17-23). Shedd (1996) diz que o principal objetivo do homem na criação é glorificar a Deus, Seu Criador. Se assim não for, surge a pergunta: aue utilidade terá para Deus o homem que nega com a vida e com os lábios a razão por que Deus lhe deu o sopro da existência? Como portador da imagem divina, o homem é capaz de compreenderinte- ligentemente a Palavra de Deus e de atender a ela de modo racional. Ele é capaz de obedecer a Deus e de servi-lo. Pode louvá-Lo e honrá-Lo. À medida que o faz, o propósito para que foi criado é alcançado. Por meio da Evangelização, Deus busca restaurar pecadores “inúteis” direcionando-os para o objetivo original que Ele lhes reservara no momento de sua criação. O homem pecador desviou-se do propósito central da criação divina ao bus- car em outros homens (ou em coisas) sua própria glória, e não a glória de Deus, como denuncia Jesus: 43 Eu vim em nome de meu Pai, e vocês não me aceitaram; mas, se ou- tro vier em seu próprio nome, vocês o aceitarão. 44 Como vocês podem crer, se aceitam glória uns dos outros, mas não procuram a glória que vem do Deus único? (João 5.43,44). É o amor de Deus que sustenta a Evangelização, Deus em Sua misericórdia busca os homens para expressar Seu amor e compaixão. Em I João 4.8, lemos que “Deus é amor”, isso significa, como nos diz C. S. Lewis (1960, p. 17), que Deus “não pode deixar de oferecer o seu dom de amor ao homem transgressor”. Os Fundamentos Bíblicos da Evangelização Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 171 João (3.16,17) registra porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. Essa verdade é tão falada que corre o risco constante de perder o seu impacto, de tanto ser repetida, muitas vezes, parece que já não percebemos a profundidade da mensagem de que o amor de Deus é de tal modo incompreensível que nos oferece o melhor dom que Deus tem para nos dar – o Seu amor que nos salva. 8 Paulo entrou na sinagoga e ali falou com liberdade durante três me- ses, argumentando convincentemente acerca do Reino de Deus. 9 Mas alguns deles se endureceram e se recusaram a crer, e começaram a falar mal do Caminho diante da multidão. Paulo, então, afastou-se deles. To- mando consigo os discípulos, passou a ensinar diariamente na escola de Tirano. 10 Isso continuou por dois anos, de forma que todos os ju- deus e os gregos que viviam na província da Ásia ouviram a palavra do Senhor. (Atos 19.8-10). Packer reforça a tese sobre a importância fundamental do testemunho de vida, parece-nos o melhor método, o mais significativo, algo que nos faz lembrar do texto de Atos 2.42-47, 42 Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao par- tir do pão e às orações. 43 Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. 44 Os que criam man- tinham-se unidos e tinham tudo em comum. 45 Vendendo suas pro- priedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. 46 Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, 47 louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos. Todavia, se não há tempo para um ensino mais detalhado, uma proclamação que leve a pessoa a ser ministrada e acompanhada a ponto de formar ali um discípulo de Cristo (pela via do discipulado), cremos que pode haver uma “obra rápida”, como registra o fascinante episódio de Atos 8.26-39, EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E172 26 Um anjo do Senhor disse a Filipe: “Vá para o sul, para a estrada deserta que desce de Jerusalém a Gaza”. 27 Ele se levantou e partiu. No caminho encontrou um eunuco etíope, um oficial importante, encarre- gado de todos os tesouros de Candace, rainha dos etíopes. Esse homem viera a Jerusalém para adorar a Deus e, 28 de volta para casa, sentado em sua carruagem, lia o livro do profeta Isaías. 29 E o Espírito disse a Filipe: “Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a”. 30 Então Filipe correu para a carruagem, ouviu o homem lendo o profeta Isaías e lhe perguntou: “O senhor entende o que está lendo?” 31 Ele respondeu: “Como posso entender se alguém não me explicar?” Assim, convidou Filipe para subir e sentar-se ao seu lado. 32 O eunuco estava lendo esta passagem da Escritura: “Ele foi levado como ovelha para o matadouro, e como cordeiro mudo diante do tosquiador, ele não abriu a sua boca. 33 Em sua humilhação foi privado de justiça. Quem pode falar dos seus descendentes? Pois a sua vida foi tirada da terra”. 34 O eunuco per- guntou a Filipe: “Diga-me, por favor: de quem o profeta está falando? De si próprio ou de outro?” 35 Então Filipe, começando com aquela passagem da Escritura, anunciou-lhe as boas novas de Jesus. 36 Prosse- guindo pela estrada, chegaram a um lugar onde havia água. O eunuco disse: “Olhe, aqui há água. Que me impede de ser batizado?” 37 Dis- se Filipe: “Você pode, se crê de todo o coração”. O eunuco respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”. 38 Assim, deu ordem para parar a carruagem. Então Filipe e o eunuco desceram à água, e Filipe o batizou. 39 Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe repentinamente. O eunuco não o viu mais e, cheio de alegria, seguiu o seu caminho. Há uma tremenda necessidade de evangelismo hoje, o chamado que o Senhor Jesus nos fez tem que acontecer. E isso não quer dizer que temos que nos limitar a, por exemplo, distribuição de folhetos, estes que, às vezes, nem entregamos a uma pessoa, simplesmente, de forma “secreta”, colocamos em algum lugar para que alguém pegue, nem somos contra isso, mas não é só isso que deve refletir nossa participação na evangelização. Como também não podemos nos pren- der a enviar e-mails com “mensagens” para todas as caixas postais possíveis e entendermos que nossa evangelização foi feita, ou ficar esperando pelos nossos líderes (alguns dizem que evangelizar é tarefa de pastores, são pagos para isso), ou ainda esperar resultados de programas de televisão. Isso é pouco e se prova pouco produtivo. O que de fato precisamos é mudar nosso estilo de vida, permi- tir que o Espírito Santo nos transforme e que nossa vida aponte para uma nova realidade e mostre a presença atuante de Cristo em nós. ©shutterstock A Teologia da Evangelização Cristã Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 173 A TEOLOGIA DA EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ As boas novas proclamadas na Evangelização é o que Deus preparou como solu- ção para o homem perdido/morto em seus delitos e pecados. Desde o princípio, quando o pecado (desobediência) entrou no mundo, Deus deixou claro que Satanás não teria a palavra final. A Bíblia Sagrada traz em suas páginas a narrativa da história da salvação, apresenta de forma contundente a resposta divina à maldade do homem por meio de ações e convites redentores. A Teologia da Evangelização aponta para uma verdade inquestionável – Jesus Cristo é o único caminho para a salvação. João registrou as palavras de Jesus: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (João 14.6), não é um caminho e sim O caminho. O apóstolo Paulo instruindo a Timóteo é veemente (I Timóteo 2.3-6): 3 Isso é bom e agradável perante Deus, nosso Salvador, 4 que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. 5 Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus, 6 o qual se entregou a si mesmo como resgate por todos. Esse foi o testemunho dado em seu próprio tempo. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E174 Essa centralidade na Pessoa de Jesus Cristo aparece também na pregação de Pedro no Sinédrio quando diz: “não há salvação em nenhum outro,pois, debaixo do céu não há nenhum outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12). A Teologia da Evangelização é clara em afirmar que Jesus Cristo é o único e suficiente mediador, único caminho, Salvador eficaz, e que não há nenhum outro caminho, nem outro mediador ou filosofia, religião ou sistema que leve uma pessoa ao encontro do Deus verdadeiro. O professor Hermisten M. P. Costa (1996, p. 17), em seu livro sobre a Teologia da Evangelização, diz que “Evangelizar é Cristo por Ele mesmo” e enfatiza que uma visão defeituosa da Pessoa e obra de Cristo determina a existência de uma “teolo- gia” divorciada da plenitude da revelação bíblica. Cristo, por Ele mesmo, envolve o limite do que foi revelado e o desafio do que nos foi concedido. O Evangelho, diz Costa, é bem mais do que o seu sentido literal nos mostra. “Boas novas” é o que fora prometido no Antigo Testamento e atingiu sua concretude no Novo Testamento, pois o que foi prometido se cumpriu, em Jesus Cristo, se cumpriu de forma plena. Sem aprofundar mais as questões da teologia da evangelização, precisa ficar claro que não há evangelismo, nem evangelização sem o trabalho e a direção do Espírito Santo. No entanto podemos notar que o Espírito Santo trabalha conosco como seres humanos, com inteligência e coopera conosco. Precisamos urgentemente retornar a uma madura e equilibrada Teologia Bíblica, que seriamente aponte para a importância da questão do evangelismo, estamos em nossos dias muito presos a novidades, modismos, técnicas, métodos e modelos surpreendentes e inovadores, mas que na verdade tem se mostrado ineficientes e não nos conduzido a cumprir a nossa missão. Devemos concordar com o pastor Ricardo Barbosa de Sousa (2013, p. 117- 118) quando escreve: o que a novidade faz é direcionar nossa atenção para outras preocu- pações, dando mais valor aos meios e não aos fins. A formação espi- ritual cristã sempre requereu, basicamente, obediência a Cristo no seu chamado a proclamar o Evangelho, fazer discípulos, integrá-los numa comunidade trinitária e ensiná-los a guardar a sua palavra. Ensiná-los a se comprometerem com o serviço como expressão de amor para com o próximo e com o cultivo e a prática de disciplinas espirituais como oração, jejum, arrependimento, confissão, leitura e meditação nas Es- crituras e contemplação. ©shutterstock Evangelização Cristã e a Graça de Deus Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 175 EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ E A GRAÇA DE DEUS Graça de Deus, com certeza, é um dos assuntos mais falados entre o povo cristão e, ao mesmo tempo, mostra-se como um dos menos entendidos e expressado/ praticado em nossos dias. Em relação à graça, temos que é um termo entendido tradicionalmente pelos cristãos como o favor imerecido que Deus oferece a Sua criação e, par- ticularmente, aos seres humanos. Os cristãos consideram a graça divina como preeminentemente estendida aos homens na encarnação, morte e ressurreição de Jesus Cristo, por meio das quais Ele expia os pecados e possibilita a vida eterna a Seu lado. Graça envolve outros assuntos, tais como o perdão, a salvação, a rege- neração, o arrependimento, a vida e o amor de Deus. O termo “graça” vem do latim gratia, ou especificamente no sentido bíblico, o termo vem do grego Charis, que basicamente dá o sentido de favor, benevolência. Em resumo, podemos entender “graça” como favor imerecido; benefício não obtido por serviços; bondade recebida gratuitamente. O dom maravilhoso de Deus – perdão dos pecados e capacidade de viver com dignidade no presente e com esperança para o futuro, ou seja, graça – é o favor que se dispensa ou se recebe de alguém. No sentido bíblico, é o favor que os homens não merecem, mas que Deus livremente lhes concede. Essa graça divina é o segredo maior da redenção, experiência de vida de união com Deus, acompanhado de paz, alegria e segurança. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E176 O termo “graça” aparece, no Antigo Testamento, 11 vezes e, no Novo Testamento, 122 (conforme Bíblia Sagrada, tradução NVI). Como se pode per- ceber, o termo graça aparece no Antigo Testamento, mas foi no Novo Testamento que lhe deu a sua extensão. É o dom de Deus, pleno de generosidade, que envolve o próprio Doador. Resume toda a ação de Deus e tudo o que podemos augu- rar aos outros. A graça divina nasce do amor de Deus, é a expressão desse amor que de tão grande nos alcança, é inexplicável, grandioso demais, palavras não traduzem todo o esplendor. A graça também é assim, inexplicável, grandiosa, imerecida, como nos diz Philip Yancey (2000, p. 71) em seu livro “Maravilhosa Graça”, “Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais. Não há nada que possa- mos fazer para Deus nos amar menos”. Fato é que Ele nos ama e dispensa sobre nós Sua graça, e essa ganha, nos estudiosos, vários conceitos. A graça santificante é o dom pelo qual o homem é transformado pelo Espírito Santo e começa um relacionamento de vida com Deus, o qual é absolutamente gratuito. Nasce, assim, a “nova criatura”, o homem novo. A graça de Deus é cha- mada preveniente, quando nos previne e nos inclina a vontade de escolher o que é bom e agradável a Deus. É absolutamente certo que precisamos dessas duas operações da graça divina, as quais, por sua vez, não anulam nem dispensam o esforço e a responsabilidade humana. Graça também é cognominada atual, quando nos é concedida para nos orientar e nos fortalecer em determinada crise ou circunstância; e habitual, quando constitui poder espiritual que recebe- mos, de modo inconsciente e contínuo, pelo uso dos ritos e sacramentos. Não se trata, pois, de sentimento passivo, estático, senão da manifestação ativa do amor e dos propósitos de Deus no coração e na vida do homem. É a presença dinâ- mica, estimuladora do Espírito Santo, inspirando e robustecendo a alma crente. A universalidade e a salvação pela graça divina são as bases da Escritura, graça que é ativa e não é um sentimento ocioso, manifesta-se no que Ele fez e ainda faz pela salvação dos homens. Por amar o mundo Deus enviou o Seu Filho para salvar o mundo (João 3.16). “Mas Deus prova o Seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Romanos 5.8). Pela pregação do Evangelho da graça (Atos dos Apóstolos 20.24), Deus continua a oferecer a todos os homens os benefícios salvadores da redenção em Cristo. Evangelização Cristã e a Graça de Deus Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 177 A vivência da fé se fundamenta na revelação e na ação da graça divina. Essa se manifesta na vida do cristão e da Igreja por meio da fé pessoal e comunitária, preservando, justificando e santificando. Sem a graça divina, não se pode avan- çar nem um passo na vida espiritual. A força motivadora da ação de Deus é o Seu amor que realiza entre muitos efeitos a decoração das pessoas e das insti- tuições, podando delas o que não convém por meio de Seu juízo e da Sua graça. Independente de conceitos e explicações, o que nos vale saber é que essa graça é dádiva divina, apresentada a nós, nos convidando para dela partilhar, alcança seu auge na Pessoa de Jesus Cristo, o Emanuel que, acima de todas as coisas, quer nos deixar claro que essa instigante e inexplicável graça é oferecida a nós para nos envolver em amor e paz, alegria e segurança, não apenas hoje, mas enquanto durar o amor de nosso Deus, ou seja, eternamente. A graça precisa ser vivida, testemunhada, anunciada e isto aponta para a importância da evan- gelização, é o anúncio da graça às pessoas. “O Espírito e a noiva dizem: ‘Vem!’ E todo aquele que ouvir diga: ‘Vem!’ Quem tiver sede, venha; e quem quiser, beba de graça daágua da vida. [...] A graça do Senhor Jesus seja com todos. Amém” (Apocalipse 22.17 e 21). Russell Shedd (1996, p. 20) diz que “o amor é o incentivo, a graça é a conse- quência prática. Depois de descrever a condição de impotência do pecador, morto em seus delitos e pecados e totalmente dominado pelo príncipe deste mundo”. O apóstolo Paulo acrescenta: “mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo (...). Porque pela graça sois salvos...” (Efésios 2.1,5). Graça é favor imerecido. É o que Deus fez por cada um de nós pecadores impulsionado por Seu grande amor e eterna misericórdia. Quando saímos a proclamar as boas novas de salvação por todo o mundo, cumprimos o desejo supremo de Deus de se tornar conhecido e, consequente- mente, louvado. A Palavra de Deus aponta que é especificamente como Deus de graça que Ele espera ser conhecido. O caráter glorioso de Sua eterna e soberana graça é o que deve evocar o lou- vor dos redimidos em todos os lugares (Apocalipse 5.13), como fazem os seres angélicos (Apocalipse 5.12). EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E178 Quando a graça muda em 180 graus o rumo da vida de um homem, de modo que ele passa a buscar aquilo que desprezava, afastando-se do que desejava ardentemente, ficamos face a face com o propósito evan- gelístico de Deus. Charles Darwin, autor de A origem das espécies, obra de grande influência em que sustenta a teoria da evolução, observou a conversão de um bêbado imprestável. Ele reconheceu prontamente que nenhuma ciência ou tecnologia em todo o mundo poderia ter rea- lizado a mudança que presenciou. A graça restaura a nobreza perdida e inculca a responsabilidade. Como disse, depois de longo sofrimento, a mulher de um alcoólatra convertido: “Sei muito pouco sobre a trans- formação da água em vinho; mas sei muita coisa sobre a transformação do vinho em mobília e em comida” (SHEDD, 1996, p. 20). O Cristianismo prega a restauração com Deus, significando a restauração da autoridade do homem governada pela lei sobre o mundo todo. Mas sem reden- ção e sem obediência à lei bíblica, Deus sabe que os homens não podem exercer um domínio justo. Assim, por graça, Ele preparou um caminho de restauração. Esse é o evangelho salvador e curador de Jesus Cristo. Nada deve ser excluído da cura de Cristo: nem a família, Estado, negócio, educação e muito menos a igreja institucional. A salvação é aquilo que cura as feridas infligidas pelo pecado: cada tipo de ferida e cada tipo de pecado. É por isso que a Grande Comissão foi dada: capacitar a humanidade a retornar ao serviço fiel sob Deus e sobre a criação. A salvação de Deus nos traz de volta a Seu propósito original. Evangelização como expressão da graça divina: 7 Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. 8 Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9 Foi assim que Deus mani- festou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. 10 Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados. 11 Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros. 12 Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor está aperfeiçoado em nós. 13 Sabemos que permanecemos nele, e ele em nós, porque ele nos deu do seu Espírito. 14 E vimos e testemunhamos que o Pai enviou seu Filho para ser o Salvador do mundo. 15 Se alguém confessa publicamente que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus. 16 Assim conhecemos o amor que Deus tem por nós e confiamos nesse amor. Deus é amor. Todo aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele. (...) 19 Nós amamos porque ele nos amou pri- Evangelização Cristã e a Graça de Deus Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 179 meiro. 20 Se alguém afirmar: “Eu amo a Deus”, mas odiar seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. 21 Ele nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também seu irmão. (I João 4.7-21). Neste tópico, caro(a) aluno(a), queremos apresentar uma reflexão sobre os sinais/ marcas da graça e misericórdia e, para isso, entendemos fundamental a leitura que acabamos de fazer (I João 4.7-21) em que o apóstolo João nos informa que Deus é amor. É desse ponto que queremos iniciar essa reflexão. Partindo do amor de Deus, e isso é importante, pois, uma vez que Deus é amor, a questão da graça surge, pois o amor é algo fantástico, mas precisa ser expresso e, quando é expresso, torna-se graça. Então, embora saibamos que a definição de graça seja favor imerecido, podemos também entender graça como amor sendo expresso, amor (incondicional) que nos atinge, amor em direção ao outro. Amor soa como algo abstrato, mas, quando expresso, é graça e aí se torna concreto. Extrapola a ideia de sentimento, ganha efetiva expressão, chega até nós, é graça o amor em expressão. É nesse aspecto que queremos abordar esse tema, a expressão efetiva e clara do que, como cristãos, cremos que temos recebido dos sinais de Deus em nossas vidas e a partir delas. É importante relermos dois versos que considero básicos para o nosso entendimento (I João 4): Verso 9 – Foi assim que Deus manifestou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. Verso 11 – Amados, visto que Deus assim nos amou, nós também devemos amar uns aos outros. Pois bem, Deus manifestou seu amor, Deus o expressou como? Enviando Seu Filho ao mundo. E, no verso 11, a chamada do apóstolo João a todos nós, foi assim que Deus fez e é assim que nós devemos também fazer (Deus evangelizou). Esse é um cuidado que devemos ter, não somos chamados a sentimentos sem expressão efetiva, é preciso decidir/escolher amar e isso se faz amando de fato, expressando o nosso amor e sendo assim, é graça. Exatamente o que Deus fez por cada um de nós, como registra João 3.16,17 (grifo nosso) Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E180 Porque Deus amou entregou seu Filho, fez algo, não ficou na esfera do senti- mento, houve ação, ação que nos atingiu, isso é graça. Abrindo um parêntese, na mesma linha de raciocínio, temos também a FÉ. Todos sabem de cor que a definição de fé esta registrada em Hebreus 11.1 – “Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos”. Porém, não adianta saber a definição, dizer que tem fé, se não há expressão dessa fé que se disse ter. Na sequência do próprio capítulo 11 de Hebreus, logo no verso 2, nos diz que: “pois foi por meio dela que os antigos receberam bom testemunho”. Como isso pode ter acontecido se a fé fosse tratada somente como uma certeza do que se espera e uma prova do que não se vê? É porque, na vida dos antigos, e eles estão registrados por todo o capítulo, a fé não foi simplesmente uma crença interna, foi algo expresso, fizeram várias coisas movidos pela fé. A fé ali deixou de ser abstrata e passou a ser algo concreto, não somente percebida em pala- vras, mas em ações. Reforçando essas palavras, temos o texto de Tiago 4.14-26, que merece ser lido: 14 De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo? 15 Se um irmão ou irmã estiver neces-sitando de roupas e do alimento de cada dia 16 e um de vocês lhe disser: “Vá em paz, aqueça-se e alimente-se até satisfazer-se”, sem porém lhe dar nada, de que adianta isso? 17 Assim também a fé, por si só, se não for acompanhada de obras, está morta. 18 Mas alguém dirá: “Você tem fé; eu tenho obras”. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras. 19 Você crê que existe um só Deus? Muito bem! Até mesmo os demônios creem — e tremem! 20 Insensato! Quer cer- tificar-se de que a fé sem obras é inútil? 21 Não foi Abraão, nosso ante- passado, justificado por obras, quando ofereceu seu filho Isaque sobre o altar? 22 Você pode ver que tanto a fé como as obras estavam atuando juntas, e a fé foi aperfeiçoada pelas obras. 23 Cumpriu-se assim a Es- critura que diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”, e ele foi chamado amigo de Deus. 24 Vejam que uma pessoa é justificada por obras, e não apenas pela fé. 25 Caso semelhante é o de Raabe, a prostituta: não foi ela justificada pelas obras, quando acolheu os espias e os fez sair por outro caminho? 26 Assim como o corpo sem espírito está morto, também a fé sem obras está morta. A fé precisa ser expressa. Devemos viver pelo que cremos e conforme o que cre- mos, não simplesmente palavras e sim ações. Não manuais e regras de fé, mas uma vida que mostre a fé que temos. Evangelização Cristã e a Graça de Deus Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 181 Mas voltemos ao tema “amor em expressão”, ou seja, a GRAÇA. Sendo assim, graça não é apenas um ato de amor, é um ato de amor que atinge o outro, aben- çoa-o, liberta-o, perdoa-o, ajuda-o, abre-lhe uma nova condição/possibilidade, anuncia-o a vida eterna em Jesus. Não foi exatamente isso que Jesus fez com cada um de nós? Em Sua graça, Ele nos atingiu e abençoou. Não foi exatamente isso que disse em Mateus 10.7,8: “Por onde forem, preguem esta mensagem: O Reino dos céus está próximo. Curem os enfermos, ressuscitem os mortos, purifiquem os leprosos, expulsem os demônios. Vocês receberam de graça; deem também de graça” (grifo nosso). Somos, então, aqui, chamados a uma reflexão que nos desafia a pensarmos em como expressar o amor, como agir com Graça em relação ao irmão e também em relação ao perdido, aquele que não conhece a Cristo como seu Senhor e Salvador, “vocês receberam de graça; deem também de graça”, por exemplo, a salvação que temos foi algo resultado da graça do Senhor sobre nossas vidas, recebemos de graça e, por graça, devemos levar essa mesma graça a tantos outros que estão ao nosso redor. Citamos aqui novamente Billy Graham (1961, p. 67), como já fizemos no início deste material, no prefácio de uma das obras escritas por sua equipe, o autor diz que “evangelismo não deveria ser visto como o principal ministério da igreja, nem como ministério opcional [...] mas evangelismo deveria ser o pico da prioridade no ministério local”. Entenda o que queremos dizer. Evangelização não deve ser um ministério e dei- xarmos tudo na mão dos que com esse ministério estejam envolvidos – evangelização deve ser a característica marcante e efetiva de todo o ministério na Igreja de Cristo, que somos nós. Você talvez seja um líder em sua denominação, além de suas preocu- pações, ocupações, atribuições, planejamentos e agendas, o que seu ministério (sua liderança) tem feito no aspecto da evangelização? Qual é o seu projeto evangelístico por meio do ministério do qual você participa? Sua congregação? Igreja? Pequeno grupo? Na mesma obra que também já citamos em outro momento, Billy Graham (1961, p. 67) é ainda mais incisivo: “evangelismo é a missão central da igreja. Sem ele, os crentes tornam-se introspectivos com falta de propósito; o cresci- mento espiritual fica estagnado, o culto se torna superficial, e o egoísmo sufoca o espírito de dar (compartilhar)”. Sabemos disso, cremos nisso, fazemos reuni- ões sobre isso, mas algo acontece que nos trava. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E182 Ficamos “ensimesmados”, preocupados com o nosso próprio bem-estar e esquecendo do chamado que todos recebemos. Críticos e frios nos contentamos (e buscamos muito isso) com momentos de êxtase/elevo espiritual, algumas vezes válidos, outras somente emocionais, em que acontecem “massagens” de reforço em nossa alma, em que “as mãos” que massageiam são, muitas vezes, expressões verbais de autoajuda, de efeito, (como: “você é especial!”, “vai dar tudo certo!”). Alma esta que cauterizada não se aflige mais em ver o perdido e/ou aquele que está sofrendo. Perdemos nosso objetivo/alvo e, assim, temos carências (de sen- tido, de função, de objetivo, de afago emocional), então, nos tornamos gente insatisfeita, murmuradora, afiada em críticas e comentários, profundamente exi- gentes, gostamos mais das conversas de canto de boca, nos cantos da igreja, ou nos encontros ocasionais na rua, em que nos sentimos menos observados e aí despejamos nossas opiniões sem amor, sem graça, coisa de gente mal curada em suas emoções e sem percepção correta de seu chamado, função e responsabili- dade de alguém que se diz cristão. Conversas que, muitas das vezes, exigem que tapemos a boca, nos afastemos, agimos então sorrateiramente. Nada nos basta, nada nos preenche, queremos alucinadamente mais, se aqui não há a empolga- ção que queremos, vamos atrás, sem compromisso com o local em que Deus nos plantou. A oração daqui não é boa, não tem poder, vou para tal lugar e vai mesmo e, pior, arrasta outros também insatisfeitos. O louvor aqui é tal, lá é melhor. A pregação aqui é assim, lá é melhor. O problema até não é esse, pois, estando lá, passado alguns dias, a insatisfação volta e começa tudo de novo e já começam a procurar um outro lugar. Gente sem objetivos claros (ou objetivos questioná- veis), gente que não se envolve nos desafios propostos, gente que não cumpre a missão que Deus deu, fica insatisfeita, crítica e quase afogando de tanto amargor, tem a necessidade de derramar sobre qualquer um que passe. E a evangelização? Como se envolver em evangelização se a maior busca é por satisfação e conforto próprio? Como tirar os olhos do próprio umbigo e olhar para o outro que neces- sita ouvir a Palavra de Deus? Como cumprir o chamado da grande comissão se se está tão absorvido na busca de desejos pessoais? Só se muda isso com muito amor. Expressando o amor, agindo com graça, e o Evangelizar é expressão da graça de Deus a todas as pessoas. ©shutterstock Evangelização na Igreja Primitiva Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 183 7 Amados, amemos uns aos outros, pois o amor procede de Deus. Aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. 8 Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. 9 Foi assim que Deus mani- festou o seu amor entre nós: enviou o seu Filho Unigênito ao mundo, para que pudéssemos viver por meio dele. (I João 4.7-9). Busquem, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas (Mateus 6.33). Enquanto é dia, precisamos rea- lizar a obra daquele que me enviou. A noite se aproxima, quando ninguém pode trabalhar (João 9.4). EVANGELIZAÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA Caro(a) aluno(a), quando analisamos a história do evangelismo, desde os tempos da igreja primitiva, notamos que esse passou por várias modalidades de aplicação, de acordo com os contextos históricos que foram sendo formados. O direcio- namento da mensagem do Evangelho ao povo judeu tinha uma abordagem dife- rente da abordagem feita aos gregos na evangelização da Ásia Menor, abordagem que foi diferente também no contexto dos romanos. Quando se quer tratar desse tema, Evangelização na Igreja primitiva, em nossa opinião,quem melhor escreve sobre esse assunto é Michael Green. Sua pes- quisa e forma de apresentação nos trazem informações valiosíssimas e nos chamam para uma reflexão que deve nos levar a um bom entendimento sobre o tema. Em seguida, trazemos algumas de suas pesquisas, mas é altamente recomendada a leitura de sua obra. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E184 Jesus encarregou um pequeno grupo de onze homens para executar sua obra e levar o evangelho a todo o mundo (Mateus 28.19). Eles não eram pessoas impor- tantes, nem bem instruídas, e também não tinham pessoas influentes atrás de si. Eles não eram ninguém em seu país, e, de qualquer forma, seu país não passava de uma província de segunda classe na extremidade oriental do mapa romano. Se eles tivessem parado para avaliar as chances de sucesso da sua missão, mesmo tendo a convicção de que Jesus estava vivo e que seu Espírito os acompanhava para equipá-los para sua tarefa, eles teriam desanimado; tão grandes eram as condições adversas. Como eles conseguiriam? Mesmo assim, eles conseguiram. Porém é igualmente verdade se dissermos que nenhum outro período da história do mundo estava melhor preparado para receber a jovem Igreja que o primeiro século d.C., com oportunidades enormes para espalhar e compreender a fé, em um império literalmente mundial. A conjunção de elementos gregos, romanos e judaicos nesta praeparatio evangelica é do conhecimento de todos, mas vale a pena relembrá-la, para colocarmos esse estudo em sua perspectiva certa. No pri- meiro relato que temos da expansão do cristianismo, os Atos dos Apóstolos, fica visível em cada página a contribuição da Grécia, Roma e Judaísmo. No segundo século, os cristãos começaram a pensar mais e se conscientizar do contexto sobre o qual a Igreja fora edificada, e passaram a falar da providência divina que tinha preparado o mundo para o surgimento do cristianismo. Nem todos os seus argu- mentos têm o mesmo peso, mas é inegável que o primeiro século abriu estradas de valor incalculável para a difusão do Evangelho (GREEN, 1984, p. 11). O que Green (1984) está dizendo é que o clima de mudanças, a instabilidade nos paradigmas e a grande mistura de culturas favoreceram a evangelização no primeiro século. No entanto não foram só favorecimentos, alguns significativos obstáculos judaicos atrapalhavam a expansão do evangelho. Nunca foi fácil atrair judeus para a crença cristã que estava surgindo, embora muitos confundissem o nascente cristianismo com o judaísmo. A primeira e prin- cipal dificuldade com que os primeiros missionários se depararam foi o fato de que eles não eram ninguém. Uma meia dúzia de homens sem formação rabínica formal estavam tentando corrigir a teologia e a fé, sem falar das práticas reli- giosas, de líderes religiosos profissionais preparados adequadamente; além do mais eram homens portadores de uma tradição oral que diziam até Moisés. Que Evangelização na Igreja Primitiva Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 185 impertinência! Não é de estranhar que o sumo sacerdote os tratou com um misto de admiração e pena, como “homens iletrados e incultos” – Atos 4.13 – “Vendo a coragem de Pedro e de João, e percebendo que eram homens comuns e sem instrução, ficaram admirados e reconheceram que eles haviam estado com Jesus”. A vontade de rir desapareceu quando esses leigos ignorantes começaram a atrair um séquito considerável (inclusive alguns sacerdotes – Atos 6.7 – “Assim, a palavra de Deus se espalhava. Crescia rapidamente o número de discípulos em Jerusalém; também um grande número de sacerdotes obedecia à fé”) e a mexer em um vespeiro bem no meio das autoridades religiosas, acusando-as de assassinato judicial. O movi- mento tinha de ser extirpado no nascedouro (GREEN, 1984, p. 32). Outro grande obstáculo que se impôs foi a afirmação que faziam a respeito de Jesus, não teria sido tão mau se os cristãos tivessem se contentado em afirmar que Jesus era o Messias (o que incomodaria só os judeus). Mas eles foram muito além. A primeira confissão batismal de que temos notícia foi a curta afirmação de que “Jesus é Senhor” (Filipenses 2.9-11). Com essas afirmações incomoda- ram, além do judaísmo o império romano que tem os seus próprios senhores. Mas mesmo em relação ao próprio judaísmo: é preciso relembrar que ‘Senhor’ é o termo especial usado para Deus no Antigo Testamento; na Septuaginta ele traduz a palavra Adonai. Não havia engano. O próprio Jesus, e depois dele os primeiros cristãos, usaram muito o Salmo 110.1, onde Davi fala ao ‘meu Senhor’. “Isto foi interpretado com referência a Jesus, que, por conseguinte, era Senhor de Davi. (GREEN, 1984, p. 34). Some-se a isso o fato de que agora os gregos e os bárbaros tinham a mesma facili- dade para fazer parte do povo de Deus, sem insistir no arrependimento doloroso implícito na cirurgia simbólica da impureza dos gentios na circuncisão. Isto era horroroso. No lugar da devoção à antiquíssima Torá de Deus, o novo culto ensi- nava a adoração de um segundo Deus nascido de uma virgem e executado como criminoso. No lugar do sábado, o primeiro dia da semana foi separado para o culto e chamado atrevidamente de Dia do Senhor – como se Deus não tivesse separado de maneira especial o sétimo dia. Como esse tipo de pessoas, que deso- bedeciam tão descaradamente aos mandamentos de Deus, poderiam afirmar que estavam representando-O, fazendo, de fato, o que Ele havia lhes pedido, como eles poderiam entender isso? EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E186 Apesar de todos os obstáculos e das oposições que sofreram, tiveram vitó- rias importantes e podemos apontar como alguns dos motivos a fidelidade na pregação do Evangelho e o testemunho de vida. 42 Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao par- tir do pão e às orações. 43 Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. 44 Os que criam man- tinham-se unidos e tinham tudo em comum. 45 Vendendo suas pro- priedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade. 46 Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração, 47 louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava diariamente os que iam sendo salvos. (Atos 2.42-47). Algo importante para salientarmos é a conversão cristã no âmbito da igreja pri- mitiva. A conversão cristã foi algo bastante difícil de ser entendida no primeiro século, e Green aponta três razões: 1. Os helênicos não achavam que era necessário ter uma crença para par- ticipar de um culto, ou seja, dificuldade de abrir mão do politeísmo. A resistência acontecia pelo fato de entenderem que Jesus deveria ser mais um colocado em seu panteão de deuses, não exclusivo. E mais: o culto era entendido, muitas vezes, para atender uma necessidade de momento e não um relacionamento com Deus. 2. Os helênicos não consideravam a ética como uma parte da religião. Não havia quase nenhuma importância para o comportamento se uma pessoa era adoradora de Mitras ou de Ísis, os seus cultos exigiam apenas pureza ritual, ou seja, grande dificuldade de entender a necessidade de mudança de vida (transformação efetiva). Ou seja, um dualismo, dentro do espaço religioso uma comportamento, fora outro. A religiosidade não deveria interferir na vida cotidiana. 3. A ideia de conversão também foi surpreendente para eles por causa da exigência de exclusividade que ela fazia aos seus devotos. Isso porque os cristãos tinham que pertencer de corpo e alma a Jesus, que era chamado de seu dono. A resistência com a questão de serem entendidos como ser- vos, terem um dono,conforme a perspectiva do Evangelho, algo que para um povo que se considerava livre ficava mal explicado, o que nas prega- ções do apóstolo Paulo vão ganhando o real significado. Evangelização na Igreja Primitiva Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 187 Fato é que o cristianismo foi atraindo pessoas no mundo antigo e as razões para que o Evangelho se espalhasse de maneira tão rápida e abrangente são citadas por Lucas, o homem que forneceu registros dos aspectos da evangelização na igreja primitiva e, em sua opinião, os aspectos mais importantes são os que não dependem de pessoas, isto é, o Espírito Santo de Deus e a Palavra de Deus. Green diz que o principal assunto de Atos dos Apóstolos é a obra do Espírito Santo, e que ele é o agente supremo na missão cristã. Porém é exatamente esse fator o mais esquecido nos estudos sobre a conversão na igreja primitiva. Os cristãos tinham certeza de que o Espírito de Jesus tinha vindo a eles e habitava para equipá-los para a evangelização, para torná-Lo conhecido a outros. “Atos é a história de como este plano foi executado, visto da perspectiva de um homem do tempo dos apóstolos” (GREEN, 1984, p. 184). A grandiosidade da perspectiva de Lucas está em que ele mostra melhor que qualquer outra pessoa que a igreja só consegue viver evangelizando, seguindo todos os caminhos novos que o Espírito abre. João e Paulo também o fizeram. O segundo grande instrumento da evangelização é a Palavra de Deus e não é exagero dizer que a Palavra é o principal instrumento na missão evangeliza- dora da igreja, sob o poder do Espírito de Deus. Os cristãos certamente usavam um padrão básico para destacar esta “Palavra”. (...) Nunca venceremos as dificuldades da definição precisa dos limites desta “Palavra”, pela razão simples de que os primeiros cris- tãos eram muito flexíveis quanto ao método de abordagem de estra- nhos, apesar de todos terem o mesmo objetivo e sua mensagem ter conteúdo semelhante. (GREEN, 1984, p. 185). E a Palavra que eles anunciavam era baseada em três pontos básicos importan- tes e que devem nos fazer refletir: 1. Eles pregavam uma Pessoa. Sua mensagem era abertamente cristocên- trica – eles anunciavam Jesus. Das cartas de Paulo e de Atos podemos até concluir que se falava pouco da sua vida, do seu ensino e dos seus milagres. Toda a ênfase recaía sobre a sua cruz e ressurreição, e seu atual poder e importância. Com toda a certeza, Jesus ressurreto era o centro de sua mensagem. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E188 22 Os judeus pedem sinais miraculosos, e os gregos procuram sabe- doria; 23 nós, porém, pregamos a Cristo crucificado, o qual, de fato, é escândalo para os judeus e loucura para os gentios, 24 mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. (I Coríntios 1.22-24). 2. Eles pregavam um dom, o dom do perdão, o dom do Espírito, o dom da adoção, da reconciliação. Um dom que fazia “os que não eram povo” ser parte do “povo de Deus”, o dom que aproximava os que estavam longe, (Atos 2.38; Romanos 8.15; II Coríntios 5.19ss.). Encontramos duas coi- sas combinadas no sermão de Pentecostes: o perdão dos pecados e o dom do Espírito Santo, são esses dois elementos que Pedro anuncia e oferece. O perdão do passado e poder para o futuro eram os dois aspectos prin- cipais do dom de Deus que os apóstolos proclamaram. 3. Eles esperavam uma resposta. Os apóstolos não se constrangiam em pedir às pessoas que se decidissem a favor ou contra o Deus que decidira-se por eles. Eles esperavam resultados. Eles desafiavam as pessoas a fazer alguma coisa com a mensagem que tinham ouvido. E qual a resposta que espe- ravam? A resposta é muito evidente nas páginas do Novo Testamento, as pessoas precisam fazer três coisas. Antes de tudo, elas precisam se arre- pender, mudar sua atitude em relação ao antigo estilo de vida, estarem dispostas a abandonar seus pecados. Isso implicava em um rompimento total com o passado. Não seria real sem “frutos dignos de arrependi- mento” (Atos 26.20). Por meio da fé salvadora, as pessoas se entregam “a Cristo” e, a partir dali, vivem a fé cristã permanecendo “em Cristo”. Ninguém pode viver em Cristo sem ter-se entregue a Cristo. O salto de fé é necessariamente anterior à vida de fé. E havia mais uma condição colocada a todos os que queriam iniciar a vida cristã, era, sem dúvida, o batismo. Evangelização na Igreja Primitiva Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 189 EVANGELIZAÇÃO A PARTIR DA PERSPECTIVA DO NOVO TESTAMENTO Caro(a) aluno(a), evangelização, a partir da perspectiva do Novo Testamento, traz algumas características que são muito importantes e devem ser considera- das quando nos propomos a estudar o assunto: O primeiro aspecto é a questão geográfica. Como registra Mateus (4.23) – “Jesus foi por toda a Galileia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo”. E não é só aqui que percebemos isso, há uma série de versículos que apontam para a totalidade geográfica. O que precisa ser percebido é a preocupação dos autores em informar que o Evangelho era pregado em todos os lugares, cidades, aldeias, ou seja, por todo o lugar possível. É natural pensar que isso ocorria para que se cumprisse a ordem dada por Jesus, por exemplo, em Atos 1.8 – “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, e até os confins da terra”. Ou ainda, Marcos 16.15 – “E disse-lhes: ‘Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pes- soas’”. Essas palavras de Jesus nos informam que a evangelização deve ter como alvo geográfico todo o bairro, cidade, países, enfim, todos os lugares onde hou- ver pessoas que carecem de ouvir as boas novas do Evangelho do Senhor Jesus. O segundo aspecto que vale ressaltar envolve a questão da totalidade popu- lacional. No Novo Testamento, há também a preocupação com a totalidade populacional. Como vimos, a ordem de Jesus foi a de ir “por todo mundo” (totali- dade geográfica) e “pregar o evangelho a toda criatura” (totalidade populacional) (Marcos 16.15). Na mesma linha de pensamento, a comissão dada aos discípu- los que Mateus registrou foi a de ensinar “todas as nações” (Mateus 28.19)”. Um dos registros bíblicos mais contundentes quanto a esse aspecto vemos em Atos 19.10, em que Lucas informa que, por espaço de dois anos, “todos os que habita- vam na Ásia, tanto judeus como gregos, ouviram a palavra do Senhor”, percebamos aqui as expressões “todos os que habitavam na Ásia” e “tanto judeus como gre- gos”, é o sentido da totalidade das pessoas, dentro da geografia de cada grupo. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E190 O terceiro aspecto compreende a totalidade dos segmentos da sociedade. O Espírito Santo procura atingir todos os segmentos especiais da sociedade, sem discriminação, sem acepção de pessoas. Jesus é sempre o nosso maior exemplo e com Ele podemos ver como isso ocorria, Jesus e os cegos: 46 Então chegaram a Jericó. Quando Jesus e seus discípulos, juntamente com uma grande multidão, estavam saindo da cidade, o filho de Timeu, Bartimeu, que era cego, estava sentado à beira do caminho pedindo esmo- las. 47 Quando ouviu que era Jesus de Nazaré, começou a gritar: “Jesus, Fi- lho de Davi, tem misericórdia de mim!” 48 Muitos o repreendiam para que ficasse quieto, mas ele gritava ainda mais: “Filho de Davi, tem misericórdia de mim!” 49 Jesus parou e disse: “Chamem-no”. E chamaram o cego: “Âni- mo! Levante-se! Ele o está chamando”. 50 Lançandosua capa para o lado, de um salto pôs-se em pé e dirigiu-se a Jesus. 51 “O que você quer que eu lhe faça?”, perguntou-lhe Jesus.O cego respondeu: “Mestre, eu quero ver!” 52 “Vá”, disse Jesus, “a sua fé o curou”. Imediatamente ele recuperou a visão e seguiu Jesus pelo caminho. (Marcos 10.46-52). Além disso, podemos ver Jesus com os paralíticos, por exemplo, em Marcos 2.1- 12; os surdos-mudos em Marcos 7.31-37; 9.25-29; os enfermos em geral em João 5.1-15; e todas as demais pessoas que, de uma forma ou outra, sofriam discrimi- nações, sejam religiosas ou sociais, por exemplo, as que adulteraram, as prostitutas (Lucas 7.36-50) etc. Não porque concordava com suas práticas, mas porque tinha o perdão para lhes oferecer a oportunidade de uma nova vida, mostrava que o amor é maior que a lei e que o amor liberta e perdoa muitíssimos pecados (I Pedro 4.8), essas eram as boas novas que Jesus lhes ensinava e mostrava, olhando para essa verdade cabe a nós uma reflexão sobre o nosso agir evangelístico. 1 Jesus, porém, foi para o monte das Oliveiras. 2 Ao amanhecer ele apareceu novamente no templo, onde todo o povo se reuniu ao seu redor, e ele se assentou para ensiná-lo. 3 Os mestres da lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher surpreendida em adultério. Fizeram-na fi- car em pé diante de todos 4 e disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em ato de adultério. 5 Na Lei, Moisés nos ordena ape- drejar tais mulheres. E o senhor, que diz?” 6 Eles estavam usando essa pergunta como armadilha, a fim de terem uma base para acusá-lo. Mas Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. 7 Visto que continuavam a interrogá-lo, ele se levantou e lhes disse: “Se algum de vocês estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar pedra nela”. 8 Incli- nou-se novamente e continuou escrevendo no chão. 9 Os que o ouvi- ram foram saindo, um de cada vez, começando pelos mais velhos. Jesus Evangelização na Igreja Primitiva Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 191 ficou só, com a mulher em pé diante dele. 10 Então Jesus pôs-se em pé e perguntou-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém a condenou?” 11 “Ninguém, Senhor”, disse ela. Declarou Jesus: “Eu também não a condeno. Agora vá e abandone sua vida de pecado”. (João 8.1-11). Entendemos que o texto que melhor represente essa busca de Deus por todos os segmentos da sociedade para o Seu reino está registrado na parábola da Grande Ceia, em Lucas 14.15-24, especialmente no verso 21, quando o Senhor ordena: “...vá rapidamente para as ruas e becos da cidade e traga os pobres, os aleijados, os cegos e os mancos”, ou seja, gente desfavorecida e esquecida, seja pela religião ou pela sociedade, porém, as boas novas para elas é que são lembradas e convi- dadas por Deus, mas quem vai lhes anunciar isso hoje? 12 Não há diferença entre judeus e gentios, pois o mesmo Senhor é Senhor de todos e abençoa ricamente todos os que o invocam, 13 porque “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. 14 Como, pois, invo- carão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão, se não houver quem pregue? 15 E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: “Como são belos os pés dos que anunciam boas novas!”. (Romanos 10.12-15, grifo nosso). Ampliando esse aspecto, torna-se importante salientar o assunto, oferecendo um exemplo real que acontece na Índia, embora saibamos que não difere muito de nenhum outro país ou povo. De 4 a 5 milhões dos habitantes de Bombaim vivem em favelas. O especia- lista em missões urbanas Viju Abraham chama a atenção da igreja para os grupos marginalizados de Bombaim: prostitutas (150 mil), mendigos, leprosos (70 mil vivem de esmolas), cegos, crianças desamparadas, moribundos desamparados, deficientes físicos e doentes mentais. A situação de Bombaim – onde se loca- liza a maior indústria cinematográfica do mundo, com 700 filmes por ano e 2 milhões de empregados – tende a se agravar, pois a cidade recebe 1500 novos residentes por dia (meio milhão por ano). Enquanto o Rio de Janeiro tem 324 habitantes por quilômetro quadrado, Bombaim tem uma densidade demográ- fica 42 vezes maior. Cerca de 70% das moradias estão em favelas e, para suprir a carência, seria necessário construir mais de 90 mil casas anualmente por uma década inteira, o número de cristãos em Bombaim cresceu apenas 5,18% em dez anos, o que quer dizer que a porcentagem de cristãos fica em torno de 4,79% da população (CÉSAR, 1999). EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E192 O quarto aspecto é a totalidade da mensagem (mensagem completa), exis- tem certos elementos essenciais na composição da mensagem da salvação, como exemplo citamos a ministração de Filipe ao etíope, Atos 8.26-40, a mensagem foi apresentada de forma completa que redundou no etíope pedindo pelo batismo. 26 Um anjo do Senhor disse a Filipe: “Vá para o sul, para a estrada deserta que desce de Jerusalém a Gaza”. 27 Ele se levantou e partiu. No caminho encontrou um eunuco etíope, um oficial importante, encarre- gado de todos os tesouros de Candace, rainha dos etíopes. Esse homem viera a Jerusalém para adorar a Deus e, 28 de volta para casa, sentado em sua carruagem, lia o livro do profeta Isaías. 29 E o Espírito disse a Filipe: “Aproxime-se dessa carruagem e acompanhe-a”. 30 Então Filipe correu para a carruagem, ouviu o homem lendo o profeta Isaías e lhe perguntou: “O senhor entende o que está lendo?” 31 Ele respondeu: “Como posso entender se alguém não me explicar?” Assim, convidou Filipe para subir e sentar-se ao seu lado. 32 O eunuco estava lendo esta passagem da Escritura: “Ele foi levado como ovelha para o matadouro, e como cordeiro mudo diante do tosquiador, ele não abriu a sua boca. 33 Em sua humilhação foi privado de justiça. Quem pode falar dos seus descendentes? Pois a sua vida foi tirada da terra”. 34 O eunuco per- guntou a Filipe: “Diga-me, por favor: de quem o profeta está falando? De si próprio ou de outro?” 35 Então Filipe, começando com aquela passagem da Escritura, anunciou-lhe as boas novas de Jesus. 36 Prosse- guindo pela estrada, chegaram a um lugar onde havia água. O eunuco disse: “Olhe, aqui há água. Que me impede de ser batizado?” 37 Dis- se Filipe: “Você pode, se crê de todo o coração”. O eunuco respondeu: “Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus”. 38 Assim, deu ordem para parar a carruagem. Então Filipe e o eunuco desceram à água, e Filipe o batizou. 39 Quando saíram da água, o Espírito do Senhor arrebatou Filipe repentinamente. O eunuco não o viu mais e, cheio de alegria, se- guiu o seu caminho. 40 Filipe, porém, apareceu em Azoto e, indo para Cesaréia, pregava o evangelho em todas as cidades pelas quais passava. Em Antioquia, durante um ano, as lideranças “ensinaram muita gente” (Atos 11.26). É um discipulado completo. E, quando examinamos as principais pre- gações do Novo Testamento, verificamos a preocupação dos mensageiros em colocar certos elementos fundamentais de informação na exposição do plano de salvação (FERREIRA, 2001, p. 15-16). O quinto aspecto é a totalidade dos meios de comunicação. É procurar per- ceber quais meios de comunicação devem ser utilizados para atingir o objetivo de evangelizar. O apóstolo Paulo em I Coríntios 9.22 escreve que “... fiz-me tudo Evangelização na Igreja Primitiva Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 193 para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns”. A expressão “todos os meios” deve ser considerada, embora no tempo de Paulo as limitações fossem muitas e os meios, poucos, o apóstolo não abria mão de sua missão. Hoje, necessi- tamos de sensibilidade para procurarmos utilizar os vários meios de comunicaçãopossíveis que estão a nossa disposição. Envolver todo o esforço possível aprovei- tando ao máximo os meios de comunicação para realizar um evangelismo total. O sexto aspecto é a totalidade da pessoa (ser humano integral, o homem em seu todo). Há um verso do Antigo Testamento (Deuteronômio 6.5) que o evangelista Marcos recupera (12.30) que diz: “ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças”. Esse verso aparece no contexto de uma conversa de cunho evangelístico promovida por Jesus com um escriba, nele, são apresentadas algumas divisões significativas para nossa compreensão: ■ “De todo o seu coração” e “de toda a sua alma” remetem ao lado emocio- nal e espiritual da pessoa. ■ “De todo o seu entendimento” remete ao lado racional da pessoa. ■ “De todas as suas forças” remete ao lado físico da pessoa. Partindo da compreensão desse texto, fica evidente que a pessoa deve amar a Deus na totalidade de seu ser, da sua natureza e potencial. Refere-se ao homem integral. E, aqui, transcrevemos o comentário de Damy Ferreira (2001. p. 17): Ora, sabemos que quando a motivação religiosa atinge apenas as emo- ções de uma pessoa, seja que tipo de religiosidade for, essa pessoa tor- na-se fanática, porque não exerce religião com entendimento, mas ape- nas com a emoção. Aliás, a Bíblia adverte que a emoção é enganosa, e nós sabemos disto (Jeremias 17.9 – “O coração é mais enganoso que qualquer outra coisa e sua doença é incurável...”. Por outro lado, quan- do a pessoa exerce religião apenas no espírito, de maneira meramente intuitiva, ela cai no misticismo. Quando a pessoa exerce a sua religiosi- dade apenas com a razão, ela cai no racionalismo e torna-se apenas um religioso intelectual. Em todos estes casos, estaria o ser humano sendo tangido apenas parcialmente para a experiência religiosa. Tudo isso está acontecendo em nossos dias. De uma maneira ou de outra, inten- cional ou inadvertidamente, alguns grupos religiosos estão praticando uma abordagem evangelística meramente emocional, que está criando um ambiente religioso fictício, e não está levando as pessoas a uma in- EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E194 tegração perfeita com Cristo, pela conversão. Num segundo exemplo, alguns grupos estão trabalhando num puro intelectualismo, construin- do uma religiosidade meramente racional, e daí os chamados “teólogos liberais” que quase não creem mais na Bíblia. Num terceiro exemplo, há aqueles que tornam-se místicos, vivendo introspectivamente, numa “santidade de clausura”, de mera contemplação, que a ninguém edifica. O Novo Testamento nos apresenta um evangelismo que procura “acertar” e atender o ser humano em sua totalidade (ser humano integral), atingir todas as áreas de sua natureza. O Espírito Santo trabalha inicialmente no entendimento. Foi assim com Filipe ministrando ao etíope, sua pergunta: “o senhor entende o que está lendo?” e imediatamente a resposta do etíope: “Como posso entender se alguém não me explicar?” (Atos 8.30,31), as boas novas precisam ser entendidas para então serem cridas. Com o apóstolo Pedro, algo semelhante acontece. Embora resistente por suas convicções judaicas, foi enviado à casa de Cornélio. Um anjo lhe apareceu como também apareceu ao centurião. O anjo não trouxe a Cornélio a mensagem de salvação, instruiu que esse pedisse que Pedro viesse. Na evangelização, faz-se necessário que uma pessoa humana explique a salvação, é necessário cumprir o processo de identificação. Depois de algumas dificuldades, o apóstolo vem, a mensagem é pregada, o Espírito Santo é derramado e toda essa família pode ser salva. Pedro teve que explicar a igreja o ocorrido e quando o faz comenta: “Ele nos contou como um anjo lhe tinha aparecido em sua casa e dissera: ‘Mande bus- car, em Jope, a Simão, chamado Pedro. Ele lhe trará uma mensagem por meio da qual serão salvos você e todos os da sua casa’” (Atos 11.13,14). Na evangelização do etíope, ele, primeiro, foi levado a entender, depois, creu, como mesmo confessa em Atos 8.37 – “Disse Filipe: ‘Você pode, se crê de todo o coração’. O eunuco respondeu: ‘Creio que Jesus Cristo é o Filho de Deus’”, evidente- mente o entendimento alcançado aqui é resultado duma ação do Espírito Santo. Sobre esse tema, Damy Ferreira (2001) diz “aí está o “homem-razão” sendo trabalhado para que o “homem-emoção” possa responder com a “vontade” na qual vai se consolidar a experiência espiritual”. É nessa linha de pensamento que o apóstolo Paulo diz: “se você confessar com a sua boca que Jesus é Senhor e crer em seu coração que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo. Pois com o cora- ção se crê para justiça, e com a boca se confessa para salvação” (Romanos 10.9,10). ©shutterstock Evangelização na Igreja Primitiva Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 195 OS MÉTODOS DE EVANGELIZAÇÃO NA IGREJA PRIMITIVA: O cristianismo está embutido na vida, porém, ele é proclamado pelos lábios. Se houver uma falha em qualquer um dos dois aspectos, o evangelho não pode ser transmitido. Michael Green, em sua obra, oferece um comentário sobre os métodos de evangelização na Igreja Primitiva, aqui o citamos (1984): Evangelização Pública: 1. A pregação na Sinagoga. 2. Pregações ao ar livre. 3. Pregações proféticas. 4. Evangelização por meio do ensino. 5. Evangelização por meio do testemunho. EVANGELIZAÇÃO CRISTÃ Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IVU N I D A D E196 Evangelização nos Lares: 1. A importância da evangelização nas casas (algo importante na igreja pri- mitiva, pois havia um significado sociológico do lar, o desafio da conversão dos maridos e/ou das esposas, como também a conversão dos escravos e libertos. As crianças no lar). Evangelização Pessoal: 1. Encontros pessoais. 2. A visitação (casa em casa). 3. Evangelização pela literatura (a importância das Escrituras). Caro(a) aluno(a), a motivação evangelística, seja na Igreja primitiva, seja na igreja cristã de hoje, deve ser sempre a Pessoa do Senhor Jesus Cristo, Seu amor e a missão que nos outorgou. Seu amor nos constrange e deve nos impulsionar a darmos passos em direção ao perdido, levando-o a compreender a necessidade de se reconciliar com Deus. Sentimento de gratidão, Sentimento de responsabilidade e Sentimento de preocupação. Era a motivação dos primeiros cristãos, era a motivação do após- tolo Paulo, era o que os movia – o que nos motiva hoje na Evangelização? Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 197 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno, nesta unidade, pudemos estudar sobre a Evangelização pelo prisma histórico da Igreja Primitiva, os primeiros evangelistas e a forma de atuação. Para isso, dividimos esta unidade em alguns temas: Evangelização a partir da perspectiva do Novo Testamento, Métodos de Evangelização na igreja primitiva, Motivação evangelística na igreja primitiva e o apóstolo Paulo como exemplo de motivação no ministério. Foi-nos possível, pelo menos de forma panorâmica, perceber o contexto histórico, social e cultural (religioso) nessa época de grandes transformações. Vimos, também, os desafios que os primeiros evangelistas enfrentaram e a forma e prática da ação evangelizadora. Refletimos sobre os Fundamentos Bíblicos da Evangelização, procurando, embora de forma breve, demonstrar a perspectiva bíblica sobre o tema. E, concluindo esta unidade, foram apresentados alguns temas relevantes para a questão da Evangelização: A Teologia da Evangelização, Evangelização Cristã e a Graça de Deus. Encerramos repetindo a pergunta que anteriormente fizemos: eram essas as