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A Transformação Digital na Educação no Mundo Globalizado Artigo - Transformação Digital e a Nova Globalização Maurício Antônio Lopes Presidente da Embrapa Quem quer que use os serviços do Uber, esse aplicativo para telefone celular que mobiliza um serviço de transporte semelhante ao prestado pelos taxistas, relata a mesma coisa: é atendido com rapidez por um motorista muito atencioso em um automóvel novo, com água gelada, revistas e jornais do dia. Logo descobre ser possível conectar-se a outro aplicativo, que lhe permite escolher músicas a seu gosto durante o trajeto. A despesa é até 35% inferior à de um táxi tradicional, e a cobrança é online, sem manuseio de dinheiro ou cartões de crédito, com recibo enviado por e-mail. O Uber é um dos frutos da nova globalização, definida não apenas pela troca de bens, serviços e capital entre países, mas também, e cada vez mais, por tudo que envolve fluxos de dados e informações digitais, como comércio eletrônico, computação em nuvem, videogames, redes sociais, dentre outros. Em estudo recente, o Instituto McKinsey Global, de Nova Iorque, concluiu que os fluxos transfronteiriços de bens, serviços, finanças, pessoas e dados, na última década, aumentaram o PIB global em cerca de 10% − em 2014 um valor equivalente a cerca de US$ 7,8 trilhões. Os fluxos de dados e informações representaram cerca de US$ 2,8 trilhões deste ganho. O que é surpreendente, pois os negócios de base digital só se tornaram possíveis há cerca de 15 anos, enquanto o comércio tradicional existe há séculos. Uma nova globalização está nascendo com a transformação digital, fenômeno que produz profundas mudanças na forma como a tecnologia é criada, gerenciada e consumida. Se, há vinte anos, menos de 3% das pessoas tinham um telefone celular, hoje, mais de 65% dos habitantes do planeta têm um. Com a revolução digital, novas formas de trabalho e negócios estão surgindo, com impactos para trabalhadores, clientes, fornecedores e parceiros de todas as organizações, públicas ou privadas. A transformação digital expande oportunidades para que mais empresas, indivíduos e países participem da economia global. E muda o eixo dos negócios, já que empresas tradicionais, que, por exemplo, buscam vantagem competitiva em mão de obra abundante e barata, perderão espaço para aquelas que apostam em tecnologia e inovação. Essa mudança pode acentuar assimetrias, já que a lógica da nova economia digital favorece francamente as economias desenvolvidas, cujas indústrias avançam rapidamente para a fronteira da nova globalização. Deficiências em infraestrutura, que impactam a conectividade com o mundo digital, e em educação, que limitam a capacidade criativa e inovadora e o acesso aos serviços e bens do mundo digital, são dificuldades críticas para a participação dos países em desenvolvimento na nova economia. Isso pode levar a rupturas e exclusão, exigindo dos governos novas formas de apoio e suporte aos excluídos digitais. Cerca de 3,2 bilhões de pessoas no mundo já acessam a internet, mas, em 2015, outros quatro bilhões de pessoas ainda permaneciam desconectados do mundo digital. Esta rápida mudança tecnológica representa um imenso desafio para países como o Brasil, que precisarão, em curto espaço de tempo, redesenhar setores e negócios, da indústria pesada à agricultura e ao setor de serviços, para se alinharem ao novo cenário competitivo. Novos players, como o Uber, representam grande desafio para os negócios tradicionais, pois oferecem vantagens substanciais aos consumidores e ganham espaço com rapidez. Além disso, o impacto da transformação digital no mercado de trabalho precisará ser cuidadosamente considerado. Estudo recente concluiu que as tecnologias digitais em uso têm potencial para automatizar até 45% das tarefas realizadas pelas pessoas, o que, apenas nos EUA, equivaleria a uma economia anual de US$ 2 trilhões em salários. É certo que o Brasil precisará ajustar diversos setores da sua economia, seja finanças, varejo, transporte, logística, etc, a esta nova realidade. Por exemplo, segmentos estratégicos da agricultura e da bioeconomia − economia sustentável baseada em recursos biológicos e processos limpos e renováveis − são espaços privilegiados para o país na nova globalização digital. Nesses setores essenciais, conquistar a fronteira tecnológica não é só um desafio comercial, mas um imperativo estratégico. Ao incorporar, por exemplo, práticas e processos de precisão, amplo uso de sensores e mecanismos sofisticados de previsão e resposta a variações de clima, a agricultura, que é um importante pilar da economia brasileira, poderá assegurar equilíbrio nas três vertentes da sustentabilidade – econômica, social e ambiental, o que é uma exigência dos consumidores em todo o mundo. Mas é preciso compreender que a transformação digital não é apenas um destino a alcançar, mas uma jornada feita de mudanças contínuas em processos e modelos de negócios. Com a dinâmica alucinante que marcará o futuro digital, uma coisa é certa: o mundo experimentará uma nova globalização e aqueles que resistirem, presos aos paradigmas da era pré-digital, irão perecer ou viver pressionados por constantes "ventos e trovoadas". O artigo traz o exemplo de um serviço que, através do uso da tecnologia digital, revolucionou o mercado. Oferecendo uma prestação de serviço existente de modo mais econômico, ágil e cômodo para o cliente, apresentando um custo inferior ao praticado, foi possível fazer melhor e com menos. Dessa forma, o artigo traz uma realidade possível, que empresas buscam a todo o tempo para terem sucesso no mercado. Fazendo uma correlação direta com o espaço educacional (que mais nos interessa nesse momento de estudo), da mesma forma, instituições de ensino têm alterado o conceito de ensino/aprendizagem, inserindo, por exemplo, a educação a distância ou híbrida no mercado a custos mais baixos, proporcionando ao estudante acesso à formação de forma mais barata, prática e facilitada. Esse movimento é fruto da globalização e do uso em massa dos telefones celulares e computadores por parte dos consumidores, que passam, através dessas ferramentas, a consumir serviços e produtos de forma digital, como é o caso da educação. Assim, esses avanços têm levado o setor educacional a ser redesenhado sob uma nova realidade e um novo paradigma estratégico que veio para ficar. Transformação digital na Saúde e na Educação são debatidos no último dia do Futurecom Digital Summit 08/07/2020 Mais de 11 mil pessoas, com participação de internautas de todas as regiões do Brasil e de 22 países, tiveram acesso às discussões virtuais em oito dias de jornada O legado deixado pela pandemia do coronavírus já aponta para as grandes mudanças que o mundo globalizado tem absorvido em poucos meses de um aprendizado exponencial em todas as camadas sociais e corporativas. É o que destacam os participantes do último dia de debates do Futurecom Digital Summit no painel “Três anos de Transformação Digital em três meses: Como será a Sociedade do ponto de vista de saúde, educação, econômico e social em 2022?”. O encontro virtual reuniu Sidney Klajner, presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein; Luis Cabral, vice- presidente do Caribbean and Latin America (CSG); Carlos Melles, diretor-presidente do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae); e Carlos Henrique Costa Ribeiro, chefe da Divisão Acadêmica de Engenharia da Computação do Instituto de Tecnologia da Aeronáutica (ITA). O Futurecom Digital Summit, organizado pela Informa Markets, totalmente gratuito, em oito dias de discussões on-line, que ocorreram entre os dias 22 de junho a 2 de julho, atraiu um público de mais de 11 mil pessoas, com participação de internautas de todas as regiões do Brasil e de 22 países, que tiveram chegar nesses objetivos” (Participante D). https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B36 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B29 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B22 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#f2 Figura 2 Recursos indicados pelos entrevistados como fundamentais para o seu crescimento profissional como pesquisador da prevenção O perfil de gestor e militante da causa prevenção permite atender às demandas das políticas públicas, segundo os entrevistados. Um dos entrevistados exemplificou: “a demanda da sociedade é urgente e as políticas públicas não esperam o tempo necessário para a ciência comprovar evidências” (Participante E). Como indicado pelo relatório da IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial, usuários, trabalhadores e gestores do campo da saúde e de outros setores solicitam investimentos e serviços em atenção básica e promoção de saúde mental (Sistema Único de Saúde, Conselho Nacional de Saúde, Comissão Organizadora da IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial, 2010). Nesse cenário, as características pessoais apresentadas, como a crença de que a prevenção pode contribuir para transformações sociais, possivelmente oriunda de suas trajetórias de resistência política, associados ao perfil negociador de gestor, seriam vitais para responder a essa demanda social. Recursos educacionais e ocupacionais. Os recursos educacionais e ocupacionais mencionados pelos participantes foram o conhecimento de múltiplas teorias e áreas de conhecimento (para além da área de formação inicial), domínio de diversos métodos de pesquisa, experiência de formação no exterior, acesso a programas preventivos manualizados e dispor de equipes engajadas e competentes. O conhecimento de diferentes abordagens teóricas foi destacado por todos os entrevistados. Entre as abordagens teóricas, os pesquisadores citaram a necessidade de um conhecimento acurado de teorias do desenvolvimento humano, como o Modelo Bioecológico do Desenvolvimento (Bronfenbrenner, 1979/1996), a psicologia positiva (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000), os estudos sobre a resiliência (Palludo & Koller, 2007) e a compreensão ampla e holística proposta pela saúde pública e saúde coletiva (Aguiar & Ronzani, 2007). Essas abordagens são coerentes com as histórias profissionais dos pesquisadores, como descrito previamente. Durante a jornada profissional dos entrevistados, essas teorias foram alicerces para que eles pensassem preventivamente e pudessem elaborar intervenções. A diversidade metodológica foi apontada como outra condição primordial para que os pesquisadores construíssem suas carreiras em prevenção no Brasil. Os pesquisadores indicaram a necessidade de metodologias mistas, com técnicas quantitativas e qualitativas. Como discutido no ciclo da pesquisa em prevenção, esse prevê diferentes etapas com perguntas de naturezas diversificadas e, por isso, métodos distintos podem ser necessários. Ter experiência de formação no exterior foi indicado como recurso essencial. Segundo os entrevistados, as experiências internacionais que tiveram durante o mestrado, doutorado e/ou pós-doutorado foram determinantes para se aproximarem da prevenção e ampliarem seu conhecimento sobre como fazer intervenções preventivas. Alguns pesquisadores tiveram o primeiro contato com a prevenção em sua experiência internacional, outros narraram que foi através da internacionalização que aprenderam a desenvolver intervenções preventivas e ampliaram seus métodos de avaliação. O contato internacional foi o recurso necessário para avançarem da pesquisa básica para intervenções. A longa e sólida história de pesquisa em prevenção em outros países pode justificar a relevância do suporte internacional (Albee, 1982). O acesso a intervenções internacionais manualizadas é outra contribuição da experiência no exterior. Os pesquisadores atribuíram o acesso a materiais internacionais, principalmente no formato de guias, manuais e descrição de https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B35 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B35 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B35 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B12 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B34 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B34 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B27 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B4 procedimentos, como suporte para implementarem intervenções. A partir dos manuais, o treinamento de estagiários, alunos e auxiliares de pesquisa era facilitado, o que agiliza o trabalho de criação ou customização das intervenções à realidade brasileira e consequente aumento da amostragem dos participantes. A literatura aponta que essa disponibilidade de materiais de replicação é uma etapa fundamental para a disseminação de intervenções, confirmada pelos entrevistados (Elliot & Mihalic, 2004). Em adição, os entrevistados destacam que as equipes funcionam satisfatoriamente se forem equipes produtivas e com suporte social e afetivo entre seus membros. Alguns entrevistados sugeriram que o fato de não limitarem seu estudo e aplicação à academia é um suporte à sua prática, conforme ilustrado neste relato: “eu acho fundamental vestir outra camisa, ver outras demandas, colocar a mão na massa” (Participante F). Os pesquisadores indicaram sua participação em organizações civis e em programas públicos como possibilidade basilar para conhecerem a realidade e pautar suas ações, inclusive acadêmicas, em propostas possíveis. Esse perfil múltiplo e aberto a experiências sociais concretas tem sido valorizado por órgãos nacionais de fomento (Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, 2012) e avaliado positivamente em discussões sobre a disseminação da prevenção. Recursos ambientais. Os recursos ambientais caracterizaram-se por formalizações de redes entre pesquisadores e parcerias com órgãos acadêmicos e políticos (Figura 2). A formalização de redes de pesquisadores inclui o contato com outros pesquisadores com a mesma formação e tema de pesquisa. Para tanto, indicam as parcerias obtidas por meio dos conselhos regionais e federais, principalmente os conselhos de psicologia e eventos promovidos por associações nacionais, como, por exemplo, os congressos da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) e as reuniões da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (ANPEPP). Os entrevistados sugerem, também, a parceria com profissionais de outras áreas de formação que investigam o mesmo objeto de estudo. Os pesquisadores acreditam que o fato de participarem de equipes multidisciplinares tem sido um estímulo e ampliação do entendimento da prevenção e da própria prática. A formalização de grupos de estudo e grupos de trabalho em comunidades científicas nacionais e órgãos públicos seria uma estratégia de operacionalização da parceria com profissionais de diversas áreas. Dessa forma, os pesquisadores sugerem a participação em grupos disponíveis na Sociedade para o Progresso da Ciência (SBPC), por exemplo. Outros ambientes, que eles têm buscado parcerias, são os grupos de estudo e grupos de trabalho dos grandes órgãos de fomento, como a CAPES, o CNPq e fundações regionais de amparo à pesquisa e, por fim, em grupos técnicos de prefeituras, governos estaduais e ministérios, como o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação e o Ministério da Saúde. Os pesquisadores indicaram incluir a discussão da prevenção em grupos com temas diversos, visto que não há grupos específicos de prevenção nas sociedades acadêmicas e em órgãos públicos. As parcerias internacionais são outro tipo relevante de rede profissional (Lo Bianco, Almeida, Koller, & Paiva, 2010). Os pesquisadores apontaram que esse tipo de parceria proporciona agilidade ao avanço da área. Eles salientaram que o processo de adaptação cultural de intervenções com evidência de efetividade é mais rápido que a criação de intervenções e avaliações subsequentes, desde que a adaptação seja pertinente e respeitosa para com a cultura local. Para a internacionalização, os especialistas indicam que o contato pode ser iniciado por meio de visitas técnicas, participação em eventos internacionais e publicação em outras línguas, preferencialmente em inglês. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B16 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B17 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#f2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#f2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B20 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B20 Para jovens pesquisadores, os entrevistados indicaram a formação de grupos de estudos e buscar se inserir em grupo de pesquisa já existentes, além dos todos os recursos discutidos. O valor dos grupos de estudo pode ser exemplificado na fala de um dos entrevistados: “quando nos procuram, as pessoas pedem um recurso ou alguma coisa, algo que temos orientado é: forme um grupo de estudos. Isso vai ser mais importante para você do que assistir uma conferência” (Participante A). Formação Profissional para a Atuação e Pesquisa em Prevenção A primeira recomendação para a formação profissional, feita pelos participantes, é a inclusão do ensino da prevenção nas diretrizes curriculares dos cursos de psicologia. Embora as diretrizes incluam ações preventivas em saúde mental como responsabilidade do psicólogo (Câmara de Educação Superior/ Conselho Nacional de Educação, 2004), os profissionais entrevistados indicaram uma deficiência de disciplinas específicas de prevenção e de práticas preventivas durante a formação. Para tanto, os entrevistados sugeriram a inclusão de disciplinas conceituais de prevenção, a inserção de conteúdos de prevenção em outras disciplinas e o desenvolvimento de atividade práticas preventivas desde o início do curso, preferencialmente em locais com demandas sociais diversas. Os pesquisadores indicaram cinco temas atuais que seriam essenciais para o ensino da prevenção: (a) metodologia científica para elaboração de intervenções; (b) conhecimento aprofundado de estatística e métodos de avaliação; (c) práticas psicológicas baseadas em evidências; (d) técnicas de gerenciamento e (e) conhecimento de políticas públicas das diferentes áreas de atuação do psicólogo. Metodologia de pesquisa e estatística são entendidas como condições para a elaboração e avaliação de intervenções preventivas. Como apontado na discussão sobre a pesquisa e a extensão, a ampliação de conhecimento em métodos diversos e estatística seria de fundamental importância para o desenvolvimento de intervenções cientificamente validadas, sejam elas com métodos quantitativos, qualitativos ou mistos, beneficiando o pesquisador e a população. Entretanto, essa parece ser uma lacuna presente na formação em psicologia (Pfromm Netto, 2007). O ensino de práticas baseadas em evidências é outra área de investimento para o avanço da prevenção. Para os entrevistados, buscar informações e avaliar a literatura especializada na área é fundamental para a formação sólida de profissionais da prevenção. Essa busca tem sido enriquecida pela discussão sobre a análise da melhor evidência disponível. Como defendido pela American Psychological Association (American Psychological Association, 2005), há necessidade de que evidências sejam apresentadas. Os entrevistados salientaram que a formação em práticas baseadas em evidências incluiria os professores, uma vez que muitos desconhecem essa temática. O domínio das políticas públicas e o ensino de técnicas de gerenciamento foram indicados como conhecimentos primordiais para disseminação dos programas preventivos. O conhecimento de políticas públicas incluiria políticas em todos os campos de atuação do psicólogo, como, por exemplo, políticas de saúde, cultura, educação, de proteção à criança e ao adolescente, de apoio aos idosos, de direitos humanos, de segurança pública e da previdência social, para que os programas possam ser disseminados pelos órgãos públicos. Um entrevistado enfatizou que a disseminação dos programas é uma questão de “business”. Para o entrevistado, ter uma linguagem acessível e focada nos benefícios advindos da prevenção e não puramente acadêmica, é requisito para estreitar os laços com os gestores públicos, como exemplificado em sua fala: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B13 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B28 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B7 Como é que você vai vender o seu produto, a prevenção, seu pacote de prevenção para um gestor, você tem que mostrar que vale a pena ele investir, porque aí eu acho que é assim, chega neste ponto é uma questão de business. (Participante E) Esse mesmo argumento foi defendido em um estudo internacional ao afirmar que a inserção de estratégias de marketing e de gerenciamento de projetos, comuns às organizações privadas, por pesquisadores e universidade, poderia acelerar a disseminação de programas preventivos (Rotheram-Borus & Duan, 2003). Desafios e Perspectivas para a Prevenção em Saúde Mental no Brasil O primeiro desafio apontado pelos pesquisadores está relacionado às peculiaridades da atuação pesquisador-professor no Brasil. Os entrevistados indicaram que o perfil do pesquisador brasileiro é caracterizado pelo acúmulo de funções e um suporte reduzido de profissionais contratados que possam auxiliá-lo. Em geral, segundo o relato dos entrevistados, o pesquisador é o idealizador do projeto, o coletor de dados, o facilitador da intervenção, o suporte da instituição onde a intervenção é desenvolvida, o analista de dados, o supervisor de estágio, o professor de disciplinas gerais, o revisor de artigos e, em alguns casos, o coordenador da graduação ou pós-graduação. Não há profissionais contratados para dar suporte à implantação e avaliação das intervenções ou, quando existem, são insuficientes para atender às demandas dos pesquisadores. Os entrevistados indicaram a ausência de uma área de pesquisa em prevenção em saúde mental no Brasil. Os pesquisadores destacaram essa lacuna em sua identidade, pois, em geral, são identificados como especialistas da condição prevenida em seus estudos, como, por exemplo, pesquisador do tema violência, de álcool e drogas, de comportamento antissocial na infância e não como pesquisadores em prevenção. Dessa forma, indicaram áreas de conhecimento fundamentais para o profissional de prevenção e para a possível e futura criação de uma área de prevenção em saúde mental no Brasil. A prevenção estaria na interseção entre as áreas de atuação dos profissionais. Assim, percebe-se que a prevenção é um campo multiprofissional que faz uso de conhecimentos produzidos em áreas de conhecimento como o desenvolvimento humano, avaliação de programas, ciência política, saúde coletiva, economia, pedagogia, serviço social, antropologia, educação física e direitos humanos, por exemplo. Como indicado pelos pesquisadores, o suporte de diferentes áreas de conhecimento enriquece o entendimento dos fenômenos a serem prevenidos. Entretanto, a ausência de uma área específica enfraquece a identidade do estudioso como pesquisador da prevenção e dificulta parcerias e avanços para a área. A organização da rede de saúde mental que prioriza o tratamento foi apontada pelos participantes como outra barreira para a prevenção. Por razões históricas associadas à reforma psiquiátrica, a prioridade da política de saúde mental tem sido a expansão e consolidação dos serviços de base comunitária a pessoas já adoecidas. Contudo, nos últimos anos tem havido uma pressão social crescente para que serviços de atenção básica e promoção de saúde mental sejam inseridos na política nacional de saúde mental (Sistema Único de Saúde, Conselho Nacional de Saúde, Comissão Organizadora da IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial, 2010). A inclusão da prevenção e promoção de saúde mental na agenda política é certamente um dos desafios cruciais para a área. Uma síntese dos desafios e alternativas de enfrentamento sugeridas pelos pesquisadores está disposta na Tabela 1. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B32 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B35 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B35 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#t1 Tabela 1 Desafios e alternativas relativos à pesquisa em prevenção em saúde mental no Brasil, segundo os participantes Desafios Alternativas sugeridas 1. Avaliação dos resultados da intervenção preventiva Avaliar resultados em grupos de comparação não expostos à intervenção. 2. Ausência da prevenção como área de conhecimento científico Informar os conselhos profissionais os avanços da área e contar com a divulgação deste em materiais como as revistas dos conselhos. Criar fóruns de discussão e seminários sobre a prevenção em saúde mental. Apresentar resultados de intervenções em eventos e congressos científicos. Criar grupo de estudo ou grupos de trabalho específicos para a prevenção em saúde mental em sociedades acadêmicas. 3. Difusão do conhecimento científico Transformar os resultados de estudos científicos em textos e materiais acessíveis ao entendimento por público leigo. Divulgação de material de difusão científica de forma ilimitada e gratuita por páginas virtuais, programas de televisão, programas de rádio, revistas impressas e entrevistas com pesquisadores. 4. Adesão e retenção de participantes Realizar intervenções na comunidade de origem dos participantes. Realizar intervenções em parceria com instituições ou órgãos públicos e privados, como Organizações Não Governamentais e Estratégia Saúde da Família. Incluir nas intervenções os agentes sociais da comunidade alvo, como professores, pais, líderes comunitários e médicos. Realizar pesquisas sobre os fatores preditores de desistência e engajamento para participar de intervenções. Replicar os estudos como estratégia para ampliar a amostra. 5. Falta de recursos para estudos longitudinais Obter fomento em editais de apoio para pesquisas de curta duração (como dois anos), mas coletar dados longitudinalmente por meio de editais sucessivos. Os pesquisadores sugeriram alguns passos para uma agenda de pesquisa em prevenção no Brasil, que se subdividiria em três partes: a implementação e avaliação de programas preventivos, a formalização da área de prevenção em saúde mental e a disseminação de intervenções. Em primeiro lugar, como agenda para implementação e avaliação de intervenções preventivas, os pesquisadores entrevistados sugeriram: estreitar os laços da prevenção com a área da avaliação psicológica; adaptar e validar instrumentos para serem utilizados como medidas de avaliação de intervenções; desenvolver competência para a implantação e avaliação de intervenções baseadas em evidências durante a formação; aprimorar as tecnologias já existentes, com ampliação de recursos de avaliação e análise da efetividade desse material; desenvolver intervenções preventivas em equipe multidisciplinar, com parceria entre profissionais da saúde, professores, médicos, estatísticos e economistas; reconhecer e formalizar parcerias com pesquisadores da América Latina, para desenvolver intervenções facilitadas pela proximidade cultural dos países latinos e avaliar mediadores e moderadores para que as intervenções sejam mais breves, mais baratas e com bons efeitos. Em segundo lugar, no que diz respeito à formalização de uma área de prevenção em saúde mental, foram propostas as estratégias: realizar encontros de pesquisadores da prevenção, como simpósios e congressos; realizar pesquisas com profissionais de diferentes formações, investindo em parcerias interdisciplinares e participar de editais de pesquisa de inovação, buscando informação sobre os órgãos financiadores de pesquisa. Em terceiro lugar, no que concerne à disseminação, os participantes enfatizaram a comunicação com gestores e a população em geral e o investimento em estudos longitudinais. Especificamente, recomendaram: transformar os resultados de pesquisas em materiais interessantes para o público leigo; criar manuais e textos que facilitem a replicação das intervenções por outros profissionais em qualquer região do país; aprender a conduzir estudos longitudinais por meio de colaboração com parceiros de diferentes grupos e áreas de pesquisa e investir em pesquisas que analisam o custo-efetividade das intervenções preventivas. Essa análise ampliaria a comunicação entre pesquisadores e gestores públicos e privados. CONSIDERAÇÕES FINAIS Os relatos de pesquisadores em prevenção em saúde mental apontam desafios e direções para o avanço da área no país. A produção de conhecimento em prevenção em saúde mental no Brasil, segundo os pesquisadores entrevistados, pode se beneficiar de uma amplo conjunto de medidas, incluindo o desenvolvimento de múltiplas competências teóricas e metodológicas, a interlocução entre campos de conhecimento, a elaboração de medidas de avaliação adequadas à cultura brasileira, a aproximação entre as atividades de pesquisa e extensão, o aprimoramento do ensino de prevenção na graduação, a construção de redes de pesquisadores, a colaboração internacional e o diálogo entre a academia e as políticas públicas. Este estudo apresenta algumas limitações. Os achados aqui apresentados resultam, exclusivamente, de entrevistas com pesquisadores com produção regular publicada em artigos científicos nas bases de dados citadas (SciELO e PePSIC). Estudos futuros poderiam incluir outros autores relevantes no cenário da prevenção em saúde mental, tais como gestores de políticas públicas, gestores de organizações privadas que desenvolvam programas relacionados à prevenção e profissionais “da linha de frente”, como agentes comunitários de saúde, professores, funcionários de Organizações Não Governamentais, líderes comunitários e educadores, que atuam diretamente na implementação de ações preventivas. Esses achados resultam de um estudo inovador, baseado na busca de informações com os especialistas da área, que representam quase a totalidade de pesquisadores com alta produtividade no campo. Esses resultados, aliados aos obtidos em revisões da literatura da área (Abreu & Murta, 2016; Abreu et al., 2016; Menezes, 2013) e escuta a outros informantes-chave, podem subsidiar planos de ação para o avanço do ensino, pesquisa e prática em prevenção em saúde mental no Brasil. Os avanços demandam tempo e um alto investimento pessoal, profissional e financeiro. Esse tempo poderá ser reduzido se a pesquisa em prevenção continuar sendo conduzida por profissionais capacitados e munidos de mais recursos, derivados das políticas científicas, da formação profissional continuada e da construção de redes de pesquisa, nacionais e internacionais. A proposta da segunda indicação de leitura obrigatória é complementar a reflexão acerca do tema “preservação da saúde mental no mundo globalizado em que vivemos”, voltando nosso olhar para a realidade nacional. O artigo apresenta, a partir do uso da técnica Delphi, experiências e recomendações de pesquisa com prática contínua de prevenção em saúde mental. Além de apresentar os principais impactos complicadores considerando a realizada do País e como políticas públicas, discutem como os profissionais se posicionam em relação às melhorias nas condições que são acometidos com alguma forma de doença mental, bem como apontam maneiras de prevenir adotadas no País. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B23 O artigo comenta ainda sobre as 1021 solicitações urgentes para a melhoria dos serviços de saúde mental no Brasil decorrente da IV Conferência Nacional de Saúde Mental, a penúltima realizada no País, que gerou o último relatório de sugestões de melhorias de serviços de saúde mental no Brasil. Seguem os dados para os interessados em acessar o relatório da IV Conferência Nacional de Saúde Mental: Orientações para Leitura Obrigatória com comentários sobre as indicações https://books.google.com.br/books?id=Ihb0AgAAQBAJ&lpg=PA11&ots=PsHoomn 69K&dq=sa%C3%BAde%20mental%20e%20aten%C3%A7%C3%A3o%20psicossoc ial%20paulo%20amarante%20pdf&lr&hl=pt-BR&pg=PA12#v=onepage&q&f=false Para Organização Mundial da Saúde (OMS), a saúde é, em linhas gerais, um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou enfermidades. Ou seja, fale de saúde não é só fale da doença, e por isso a visão da OMS é bem moderna, mesmo essa descrição do conceito tendo surgido por volta de 1946, pois abarca o sujeito com um todo, individual e não coletivo. E Saúde Mental? Esse termo não tem uma definição determinada pela OMS, assim como a saúde, mas podemos estabelecer uma relação entre a ideia de doença, enfermidade também e tratar dele. E também estabelecer a conclusão de que falar de Saúde Mental seria muito mais do que seu negativo, ou seja, muito mais do que falar de transtornos e doenças mentais. Mas seria então falar do que exatamente? Para chegarmos em alguma resposta, primeiro, como nos traz Paulo Amarante no Capítulo 1 da obra apresentada, temos que compreender que não existe uma só forma de ver o mundo, ou seja, um modo correto e um errado de apreender a existência. A partir daí, refletir o quanto é complicado estabelecer um só conceito de normalidade. E por que pensar sobre normalidade? Porque, no geral, ao pensarmos no adoecimento mental, nos deparamos com o tema daquilo que não é normal, tendo no seu ponto máximo, por exemplo, a loucura. O louco seria, em teoria, o ponto máximo da ausência de saúde mental. Mas o que é a loucura? Ou seja, o que é ser mentalmente normal? https://books.google.com.br/books?id=Ihb0AgAAQBAJ&lpg=PA11&ots=PsHoomn69K&dq=sa%C3%BAde%20mental%20e%20aten%C3%A7%C3%A3o%20psicossocial%20paulo%20amarante%20pdf&lr&hl=pt-BR&pg=PA12#v=onepage&q&f=false https://books.google.com.br/books?id=Ihb0AgAAQBAJ&lpg=PA11&ots=PsHoomn69K&dq=sa%C3%BAde%20mental%20e%20aten%C3%A7%C3%A3o%20psicossocial%20paulo%20amarante%20pdf&lr&hl=pt-BR&pg=PA12#v=onepage&q&f=false https://books.google.com.br/books?id=Ihb0AgAAQBAJ&lpg=PA11&ots=PsHoomn69K&dq=sa%C3%BAde%20mental%20e%20aten%C3%A7%C3%A3o%20psicossocial%20paulo%20amarante%20pdf&lr&hl=pt-BR&pg=PA12#v=onepage&q&f=false Diante dessas questões, Amarante evoca que vários teóricos, partindo nessa direção, deparam com outra questão: quem define o que é normal? E assim, chegamos cada vez mais perto de compreender que, quando pensamos nisso, percebemos que falar de Saúde Mental não é falar de um conceito em si, mas de um campo de conteúdos em movimento. Tratamos em si de uma luta por definir o modo correto ou o modo errado de viver nas sociedades, ou seja, o que é ou não normal. Sendo sem desvio que surge, então, o adoecimento, o transtorno e a loucura. Seria, então, pensar saúde mental um modo de controlar o pensamento das pessoas? Não só. Porque há sim um bem-estar, algo que é palpável quando cuidamos de nosso estar mental, que se reflete no psíquico e também no físico. Mas isso varia conforme o contexto no qual estamos inseridos. Nem tudo que traz bem-estar o é em qualquer lugar do mundo. Isso é tão claro que, por exemplo, em algumas culturas, ouvir vozes não é tido como um problema de saúde mental, entende? Enquanto em outras, é sinônimo de insanidade. Ou seja, o que temos por normalidade, loucura e, sendo assim, saúde mental é uma construção social e cultural – e, muitas vezes, política. Outro exemplo da importância dessa discussão é muito próximo de nós. Em um mundo onde devemos produzir o tempo todo, trabalhar muito mais do que nossas moldes, qualquer indício de tristeza ou de cansaço é denominado depressivo e, logo, tido como depressão. Não que a depressão não exista, mas por que ela surge em destaque em um mundo onde não se pode descansar? É de se pensar. E por que pensar sobre isso para refletir sobre a saúde mental em um mundo globalizado? Acreditamos que fica claro que, primeiro, porque precisa compreender o como se comum o que seria esse campo da saúde mental, suas regras, o que é normal, o motivo desse normal ser o que é, para então entender que ele varia conforme a realidade das culturas e das sociedades, como dito. O normal está o tempo todo sendo questionado por nós, de forma consciente ou não, pois ele prejulga uma rigidez da mente que não existe na prática. O texto de Amarante é sucinto, como toda essa obra, porque apresenta um panorama da transformação desse campo, que envolve questões sobre adoecimento mental, loucura, internação, bem-estar, principalmente no contexto do Brasil. Essa leitura é passo inicial fundamental para pensarmos globalmente sobre os cuidados médicos em Saúde mental daqui para frente, partindo do ponto inicial de compreensão esse amplo conceito. Saúde Mental tem tudo a ver com o tempo e o espaço. O tempo, porque é nele que se dá a vida, caracterizada por um recorte no tempo do mundo. O espaço, porque é nele que se dá a existência, o ser no tempo se localiza em algum lugar. A pandemia de 2020, por conta do Covid-19, veio colocar em várias questões elementos que se relacionam diretamente com o tempo e o espaço. Primeiro, porque dialoga diretamente com nossa permanência neste mundo, com a vida e, por assim dizer, com a morte. A fragilidade de manter esse recorte por vontade própria, ou seja, por manter a vida ficou evidente. Do espaço, porque percebemos que o mundo inteiro está mais conectado do que nunca e um problema que, aparentemente, não tem “nada a ver” com certa sociedade porque está acontecendo do outro lado do planeta, pode, sim, afetar todo o planeta. Nunca estivemos tão conectados, e não é só da internet que estamos falando. Neste vídeo, o Psicólogo e Mestre em Ciências Sociais Aldo Zaiden, a Médica psiquiatra doutora em Filosofia e Ativista da Luta Antomanicomial Ana Marta Lobosque, o Doutor em Psicologia Social Marcos Garcia e o Médico Psiquiatra Paulo Amarante refletem sobre o impacto transformações em nossa história, em nossas vidas. Como lidar com o luto? Com o medo? Com ansiedade que esse momento trouxe e que ainda ressoará por muitos anos em nossa cultura? Na cultura do mundo? Como prevenir seus impactos? É possível fazer isso? Pensar Saúde Mental hoje é pensar um campo vasto, que abarca muito mais do que medicina. É se debruçar sobre as relações, sobre as incertezas e sobre o que nos é mais humano: a razão e os afetos. É escolher o que fazer com o tempo que nos é dado, no espaço em que habitamos e com aqueles com os quais nos relacionamos. Tudo isso diante da possibilidade de que o que aí está pode mudar a qualquer momento, pois é da vida a transformação e a impermanência. https://drive.google.com/viewerng/viewer?url=https%3A//library.educause.edu/-/media/files/library/2020/3/2020_horizon_report_pdf.pdf&embedded=true https://drive.google.com/viewerng/viewer?url=https%3A//library.educause.edu/-/media/files/library/2020/3/2020_horizon_report_pdf.pdf&embedded=true acesso aos debates virtuais com a mesma qualidade dos conteúdos do encontro físico do Futurecom 2020, que será realizado de 27 a 29 de outubro. O Digital Summit contou com aproximadamente 30 horas de conteúdos preparados e apresentados por um verdadeiro ecossistema composto por mais de 100 profissionais representantes de empresas, associações e sindicatos de diferentes vertentes e segmentos da economia brasileira. Todo o conteúdo gerado nesses encontros virtuais está disponível no site do Futurecom 2020. https://cryptoid.com.br/2020/07/ https://www.futurecom.com.br/pt/home.html Como será a relação consumidor x negócio? Qual será o modelo de gestão e estrutura? Foram os principais questionamentos debatidos neste encerramento do evento on-line. “A pandemia acabou sendo uma grande lente de aumento para o setor da saúde sobre aquilo que é ineficaz e, também, daquilo que é bom”, destaca Sidney Klajner, presidente do Albert Einstein. O sistema de saúde já impunha desafios de maior acessibilidade da população à área de saúde, às práticas assistenciais, à redução de desperdícios, a uma gestão coordenada de recursos da área, à reiteração por melhor financiamento da saúde para ampliar o acesso, enfim, a atual circunstância escancarou essas ineficiências. “Alguns avanços foram percebidos, especialmente este recurso da virtualização da relação, que estamos utilizando agora no Futurecom Digital Summit.” “Isso não foi diferente com a evolução que tivemos na telemedicina, na qual o Einstein foi pioneiro ao lançar em 2012, mas que o País ainda age com uma legislação feita em 2002, onde obriga a necessidade de ter médico nas duas pontas, impedindo de aproveitar as vantagens deste tipo de ferramenta, vencendo barreiras logísticas e geográficas, sem uma distribuição homogênea da medicina no Brasil.” “Mas com o decreto, ainda que temporário, conseguimos chegar em outros estados para dar capacitação profissional com ferramentas à distância, principalmente em UTIs”, afirma Klajner. Na opinião do presidente do Albert Einstein, “o grande avanço que a pandemia está nos trazendo é a possibilidade de discutir as ineficiências de maneira mais transparente para que, ao término desta crise, possamos influenciar positivamente o incentivo à inovação, à indústria nacional em saúde, à capacitação adequada. “É o desejo de fazer com que desafios de quem atua na saúde, principalmente para melhorar a longevidade e questões como doenças crônicas, possa ser exercido por meio de um sistema único e arrojado e que pode melhorar ainda mais”. A falta de uma liderança na gestão de saúde para cumprir a Constituição sentida nas esferas municipal, estadual e federal também foi colocada em debate, reforçando que a própria população irá tirar aprendizados com esse momento e poderá pressionar e influenciar lideranças políticas para conquistar esses avanços, juntamente com a atuação de players, stakeholders e empreendedores que têm interesse em melhorar todo esse ecossistema de saúde. No setor do empreendedorismo, Carlos Melles, diretor-presidente do Sebrae, atenta para o fato de que o universo de micro e pequenas empresas no mundo inteiro representa cerca de 99,5% de quase todas as empresas de todos os países. E no PIB (Produto Interno Bruto), esse percentual alcança em média 55% de participação das empresas nos países mais evoluídos. No Brasil, chega a 27%, conquistando também o seu protagonismo, com 18 milhões de pequenos empreendedores. “Iniciamos em fevereiro de 2019 um planejamento de modernização para as unidades de Sebrae de 27 estados e passamos a atuar em rede, digitalizados, tendo o digital como a comunicação mais importante para sermos o Sebrae que o Brasil precisa.” “Trabalhamos em sinergia com as áreas de governo, ministérios, prefeituras, lideranças, programas empreendedores como Sebrae Tec, desenvolvimento de regiões, entre outras, para elevar o nível, olhando a produtividade para ser competitivos”. Ao focar nesse aspecto, a consequência foi, sem dúvida, conquistar mais prosperidade para o setor PME, projetando um PIB 40% para os próximos dez anos. “Precisamos criar bons líderes para sermos bem liderados. E queremos preparar empreendedores para o futuro”, diz Carlos Melles. Entre as mudanças que a atual conjuntura provocou no Sebrae, registrou-se um movimento intenso de inclusão e transformação digital. “Não imaginávamos que estivéssemos tão bem preparados. E fizemos tudo o que precisava nesses três meses. Conseguimos colocar todos os nossos colaboradores em home office e exercer nosso principal ativo que é o atendimento de maneira exemplar. A procura para cursos aumentou em 160%. Nos surpreendemos com a grande transformação que fomos capazes de fazer em tão pouco tempo”, comemora Melles. “Temos que ser solidários e buscar parceiros para as pequenas empresas, incentivando a compra nesse meio. Foi o que fizemos, estimulando os aplicativos, como WhatsApp, e tivemos um crescimento significativo. É preciso retomar, reabrir, mas digitalmente”. Os incentivos ao crédito também têm sido olhados com muita atenção pelo Sebrae. Carlos Ribeiro, vice-reitor do ITA, ressaltou que na educação as tecnologias já estavam disponíveis. “O primeiro grande avanço foi genérico e um tanto vago, mas bastante significativo. Destacamos a experiência geracional (pessoas na faixa de 40 a 60 anos) das atuais lideranças com a crise mundial – situação que, até então, não tinham vivido.” “Mas produziu os resultados usuais, com a capacidade extraordinária da humanidade de se adaptar a uma dificuldade repentina, utilizando os meios disponíveis”, afirma Ribeiro. Aconteceram dois impactos na área da educação com avanços imediatos. Primeiro, as formas de interação em geral, que ocorreram em outras áreas, como a possibilidade de conduzir discussões, algo comum no ensino superior, como eventos de parte da rotina do professor, com participação em banca de defesas de teses, reuniões para discussão de projeto, com pessoas em lugares diferentes. “Esse novo modelo de encontro, até por uma questão de custo, vai ser a norma agora. Eventualmente, serão necessárias discussões presenciais para casos mais complexos, mas para a atividade de rotina o avanço é claro”, destacou o vice-reitor do ITA. No caso do modelo de negócios de educação, o chamado projeto pedagógico, é difícil falar de um avanço perene. Já existiam tecnologia e processos de políticas pedagógicas ligados ao ensino à distância, já praticado de forma consistente por muitas instituições, que envolve um framework específico, diferente do ensino clássico, dotado de um conjunto de tecnologia para atender quem não tem acesso ao campus. Do ponto de ensino presencial, em todos os níveis, o grande avanço foi no know how na disponibilização e busca do conhecimento de professores e alunos no uso de tecnologia para disseminação de conteúdos clássicos (apostilas, material), conteúdos de videoaula e, também, nas formas de interação com ferramentas de ensino on-line). A experiência de muitas instituições é de adoção massiva dessas tecnologias, professor tendo que reaprender a como dar aula usando esses instrumentos. Isso representa um avanço, pois, em várias instâncias, esse modelo é útil. Mas não há uma expectativa de se transformar em um modelo único. “Acreditamos que possa ser usado, no futuro, em um modelo híbrido, com essas tecnologias sendo parte do processo. A educação tem uma questão que torna as mudanças complicadas, especialmente quando precisam ser adotadas de forma emergencial, uma vez que a educação tem caráter reflexivo, as mudanças são lentas, que impactos têm, o que não combina com alterações bruscas”, pontuou Carlos Ribeiro. Ele reforçou que “adquirimos essa experiência e sabemos como tratar essas situações de mudanças abruptas. A maioria das grandes instituições vai incorporar essas tecnologias. É fato que o ensino presencial tem características que não podem ser substituídas pela virtualização, mas há vários aspectos que este formato pode se beneficiar dessas tecnologias”. O maior avanço é a possibilidade de professores e alunos de se envolverem mais fortemente com ferramentas que já estavam disponíveis e que podem ser usadas de forma mais massiva. Luis Cabral, VP da CSG, que participou da conferência on-line direto dos Estados Unidos, destacou a revolução digital catalisada pela pandemia e, especialmente, a demanda das pessoas por hiperconectividade, uma mudança muito acelerada pela circunstância atual, que vai permanecer e será adotada por vários mercados e governos. Na parte de tecnologia, com provedores de telecomunicações e de serviços, a população enxerga a conectividade de forma imediata, seja pelo uso de chamadas de vídeo, ao pedir refeições em aplicativos, entre outras funcionalidades que foram implementadas a toque de caixa nos últimos meses. “Mas a mudança estrutural que essas empresas sofreram para prover essa conectividade é que foi o grande diferencial. É uma questão muito complexa e desafiadora. Temos que ter um cuidado com a segurança dos dados dessas pessoas e todo o sistema tem que caminhar nesse sentido”, afirma Cabral. Modelos do futuro Quais serão os impactos? Como vamos repensar esses modelos em um futuro próximo? Como vamos atender, por exemplo, o sistema de telemedicina, com uma conexão rápida? Luis Cabral reforçou que um outro ponto importante é a legislação. “É fundamental que o 5G entre no mercado brasileiro, precisamos da velocidade da conexão. Há a necessidade de aportar tecnologia para otimizar modelos de negócios, ou seja, é preciso ter toda uma infraestrutura para atender a diferentes frentes. Há ainda os desafios financeiros para investir em tecnologia”, alertou o VP da CSG. No suporte da saúde, a telemedicina se mostra extremamente eficaz. E o 5G também é primordial para que esse sistema ganhe escala e solidez, com uma cirurgia podendo ser realizada à distância. As consultas e atendimentos on-line também são bastante eficientes com benefícios como o de evitar o deslocamento de médicos e de pacientes. “80% de urgências leves são resolvidas por telemedicina”, explicou o presidente do Albert Einstein, que destacou que esse sistema coloca os médicos como tutores da saúde, uma transformação possibilitada com o auxílio da tecnologia. A tecnologia avança nas guerras. E a pandemia é uma guerra. Com isso, a transformação digital que já está há algum tempo em curso foi acelerada e otimizada, com ampliação do uso de Inteligência Artificial e big data, que permite avaliar um grande volume de dados. “Podemos ter um tratamento para determinado paciente de acordo com o sequenciamento genético”, pontou Sidney Klajner. “Essa transformação digital está acontecendo e foi impulsionada porque todas as instituições que trabalham com essa tecnologia dedicaram seus esforços no combate à pandemia, seja na coleta de um hemograma, interpretação por imagem e de dados que permitem fazer alguma projeção”, afirmou ele. O Sebrae também avança no contexto da transformação digital. E um dos exemplos trazidos pelo diretor-presidente da instituição foi a parceria firmada com o Magazine Luiza, Mercado Livre e Buscapé no uso de marketplaces, com inclusão de micro e pequenos empresários nessas plataformas digitais para vender seus produtos. “Melhoramos também os ambientes de startups, com aportes de recursos, para apoio às inovações, com as fintechs. “Entendemos que a retomada tem que ser digital, precisamos que estejamos todos aptos a conviver com esse mundo novo”, destacou Carlos Melles. É consenso que o cenário em 2022 será de mudanças significativas em diferentes setores provocadas pela transformação digital, com aspectos fundamentais como a questão comportamental que se aplica na educação, no empreendedorismo, na medicina, entre outros segmentos. Hoje, há um modelo de interação social que está mudando. A entrega deste serviço será por meio de uma transformação digital completa, desde a infraestrutura até o final da cadeia deste consumidor, com sistema de inteligência artificial e análise de dados, por exemplo. “Teremos uma evolução digital que vai mudar a forma como as pessoas interagem com as outras e com os negócios cada vez mais digital e a experiência do cliente tem que ser fim a fim”, concluiu Luis Cabral, VP da CSG. Inovar, adaptar e transformar é tema de painel no Futurecom Digital Summit Futurecom Digital Summit discute sobre as cidades inteligentes e as tecnologias a serviço da Justiça na pós-pandemia Sobre o Futurecom O Futurecom, o maior e mais importante evento de tecnologia, telecomunicação e transformação digital da América Latina, chega à 22ª edição, que acontece de 27 a 29 de outubro. Lançado em 1998, na cidade de Foz do Iguaçu, o Futurecom foi transferido para Florianópolis posteriormente, onde ocorreu entre 2001 e 2007. A partir de sua décima edição, passou a ser realizado em São Paulo, com duas edições no Rio de Janeiro em 2012 e 2013. A realização https://cryptoid.com.br/banco-de-noticias/inovar-adaptar-e-transformar-e-tema-de-painel-no-futurecom-digital-summit/ https://cryptoid.com.br/banco-de-noticias/inovar-adaptar-e-transformar-e-tema-de-painel-no-futurecom-digital-summit/ https://cryptoid.com.br/banco-de-noticias/futurecom-digital-summit-discute-sobre-as-cidades-inteligentes-e-as-tecnologias-a-servico-da-justica-na-pos-pandemia/ https://cryptoid.com.br/banco-de-noticias/futurecom-digital-summit-discute-sobre-as-cidades-inteligentes-e-as-tecnologias-a-servico-da-justica-na-pos-pandemia/ da Futurecom seguirá as normas e regras estabelecidas pelas instituições estaduais e municipais. Sobre a Informa Markets A Informa Markets cria plataformas para indústrias e mercados especializados para fazer negócios, inovar e crescer. Nosso portfólio global é composto por mais de 550 eventos e marcas internacionais, sendo mais de 30 no Brasil, em mercados como Saúde e Nutrição, Infraestrutura, Construção, Alimentos e Bebidas, Agronegócio, Tecnologia e Telecom, Metal Mecânico, entre outros. Oferecemos aos clientes e parceiros em todo o mundo oportunidades de networking, viver experiências e fazer negócios por meio de feiras e eventos presenciais, conteúdo digital especializado e soluções de inteligência de mercado, construindo uma jornada de relacionamento e negócios entre empresas e mercados 365 dias por ano. A notícia traz informações recentes sobre a temática da transformação digital na educação, que foi discutida no Futurecom, maior evento de tecnologia, telecomunicação e transformação digital da América Latina. Considerando o atual cenário do Coronavírus, o texto aponta as transformações rápidas e emergenciais necessárias para uma adaptação educacional imediata frente à condição imposta de isolamento social. Ao discutir questões de saúde e de trabalho desafiadoras, colocadas pelo cenário da pandemia, destacou-se o impacto da tecnologia no campo da educação. Modificou-se a forma de interação com os estudantes, as quais passarão a ser a prática rotineira a ser seguida, ainda que sem restrições impostas pelo Covid-19. O ensino online trouxe uma nova forma de ensinar e de aprender, fazendo uso de tecnologias diversas. Tendências na educação digital: as previsões do Horizon Report O relatório Horizon Report – Edição para o Ensino Superior é publicado anualmente com as perspectivas de adoção das tecnologias digitais na educação superior. As análises consideram cenários de curto, médio e longo prazo e projetam de que forma tal tecnologia poderá ser utilizada na educação. Mas será que as previsões vêm se concretizando? Veja o que era esperado para o momento atual nas previsões do relatório de 2015. https://library.educause.edu/resources/2019/2/horizon-report-preview-2019 O que previa o Horizon Report de 2015 TECNOLOGIAS A SEREM ADOTADAS NO CURTO PRAZO – 1 ano ou menos (ou seja, em 2016) Bring Your Own Device – BYOD (traga o seu próprio dispositivo): Utilização do próprio recurso de tecnologia do aluno para aprender online. Ainda vemos muitas instituições que compram computadores e tablets para uso dos alunos. Mas a tendência de que cada um use o próprio dispositivo se consolida, especialmente no ensino superior. Hoje se fala muito em web responsiva (que se adapta a diferentes dispositivos) e mobile first (projetar um website primeiro para celular e depois adaptar para computador). Essas tendências de design adaptável a diferentes dispositivos mostram que o BYOD veio para ficar. Learning Analytics and Adaptive Learning: Learning analytics é aplicação de web analytics no perfil do aluno e na análise das suas atividades de aprendizagem online. Adaptive learning é aplicação de learning analytics em softwares e ambientes virtuais de aprendizagem em abordagens de ensino não lineares, ou seja, que se adequam à performance de aprendizagem do estudante. Essa proposta está dentro do guarda-chuva do ensino personalizado e com a inteligência artificial está sendo possível criar grandes plataformas para ensino adaptativo. Ou seja, demorou um pouco mais para se desenvolver do que o previsto inicialmente, mas também parecem ser tendências que vieram para ficar. Augmented and Virtual Reality – Realidade virtual e aumentada: A realidade virtual cria ambientes gerados por computação gráfica que simulam a presença da pessoa. Já a realidade aumentada sobrepõe uma camada de informação digital ao mundo físico por meio de uma tela. Há 5 anos atrás se falava muito nas cavernas digitais como ambiente de realidade virtual. Hoje, com os óculos VR, é muito mais fácil e barato ter acesso a esse tipo de tecnologia, ambas amplamente usadas hoje em dia. Makerspaces – Espaços Maker: Ambientes que aliam robótica com impressora 3D e outros recursos em espaços para explorar a criatividade e aprender com as mãos na massa. Quem teve a oportunidade de visitar a BETT Educar 2019 pode perceber a quantidade de empresas divulgando seus kits, robôs, etc para criar espaços makers nas escolas. Os makerspaces vieram para ficar. Vale à pena olhar mais de perto que tipo de uso pedagógico se está fazendo dos espaços maker nas escolas e faculdades. Affective Computing – Computação afetiva: Propõe que humanos podem programar máquinas para reconhecer, interpretar e simular emoções humanas. A robô Sophia passou pelo Brasil no ano passado e causou o maior frisson. O fato de ela não só reconhecer expressões humanas como ter uma aparência humana e simular as nossas https://www.bettbrasileducar.com.br/ https://www.bettbrasileducar.com.br/ https://noticias.uol.com.br/tecnologia/noticias/redacao/2018/01/10/robo-sophia-ja-sabe-andar.htm https://noticias.uol.com.br/tecnologia/noticias/redacao/2018/01/10/robo-sophia-ja-sabe-andar.htm expressões chega a assustar. A inteligência artificial vem trazendo novas possibilidades para a computação afetiva. Tirando a robô Sophia que, ao que me consta, não é muito utilizada para fins educacionais, talvez o desenvolvimento da computação afetiva não seja como se imaginava. Por outro lado, o uso da inteligência artificial para trabalhar as competências socioemocionais é um grande tema no momento. Robotics – Robótica: Trata de se projetar e aplicar robôs na educação superior. Nesse contexto, robôs são as máquinas automatizadas que cumprem uma determinada quantidade de tarefas. Vemos atualmente uma grande integração de robôs com atividades produtivas mas também aplicadas ao cenário educacional como, por exemplo, o uso de chatbot para ajudar em processos de tomada de decisão. Veja que a maioria das tendências apontadas se concretizou, ainda que não necessariamente da forma esperada e nem no tempo previsto. A realidade aumentada, por exemplo, ainda tem grande potencial de crescimento e o learning analytics crescerá conforme a inteligência artificial se desenvolva. Horizon Report 2019: Prevendo o futuro das tecnologias na educação superior Dado que as previsões do relatório costumam ter grande proximidade com a realidade, vale à pena olhar para o relatório deste ano para ter uma ideia do que virá pela frente. Como o Horizon Report 2019 ainda não está disponível em português, fiz um resumo com as principais informações. CURTO PRAZO – 1 ano ou menos (2020) Mobile Learning: Vêm se desenvolvendo há uma década e hoje se consolida como parte importante das estratégias educacionais híbridas. O foco já não está nos aplicativos, mas sim na conectividade e conveniência. Questões como a responsividade, ubiquidade (acesso a qualquer hora, em qualquer lugar) e personalização de conteúdo, estão mais consolidadas, mas ainda são críticas para se ter sucesso da experiência de aprendizagem com dispositivos móveis. Analytics Technologies – Tecnologias analíticas: Trata de sistemas e dados personalizados e preditivos. A computação tem capacidade cada vez mais crítica de coletar, analisar e interpretar dados, o que pode ajudar as instituições de ensino na análise de dados para tomar decisões estratégicas. MÉDIO PRAZO – 2 a 3 anos (2021-2022) Mixed Reality – Realidade mista: Trata de um espaço híbrido que integra tecnologias digitais com o mundo físico, criando simulações de https://edupyxis.com/2019/03/09/porque-mobile-learning-e-uma-boa-ideia/ https://edupyxis.com/2019/03/09/porque-mobile-learning-e-uma-boa-ideia/ ambientes que misturam os dois mundos. São exemplos a holografia e realidade aumentada interativa, com possibilidade de interação com os objetos virtuais. Artificial Intelligence – Inteligência artificial: Em poucas palavras, é o uso de sistemas de computador para realizar tarefas que costumam ser associadas à cognição humana. Os principais usos a médio prazo estão relacionados à análise de grandes bases de dados (big data) para fazer previsões que forneçam embasamento para o processo de tomada de decisão das pessoas. LONGO PRAZO – 4 a 5 anos (2023-2024) Blockchain: É uma forma de registro digital descentralizado, usado atualmente em criptomoedas. Com o blockchain é possível criar um modelo de certificação altamente confiável, que tem potencial para revolucionar a certificação do ensino superior, por exemplo, como um sistema de verificação de credenciais. [Quer saber mais sobre blockchain? Deixe um comentário!] Virtual Assistants – Assistentes virtuais: Alexa, Siri, Google Assistant já estão presentes nos nossos telefones celulares e em pequenas caixas de som nas nossas casas. Nesse caso, a inteligência artificial é aplicada para fazer reconhecimento de voz e interação com o usuário. Existe um grande potencial dos chatbots apoiarem o processo de aprendizagem. É interessante acompanhar a tendência de se aplicar tecnologias digitais cada vez mais sofisticadas na educação. Fica a reflexão: de que maneira as mudanças nas tecnologias implicam em novas práticas de ensino? Você pode acessar a versão completa do Horizon Report 2019 – em inglês – nesse link. Você usa alguma das tecnologias apresentadas para ensinar? Deixe um comentário e compartilhe a sua experiência! Texto publicado em izabelrego.com Todos os direitos reservados. Sobre a autora: Izabel Rego de Andrade é pesquisadora de ensino de línguas e tecnologias educacionais. Atuou na criação e desenvolvimento de cursos para educação a distância e ensino híbrido como autora, conteudista, coordenadora e tutora. É autora dos artigos desse blog entre outras publicações. https://library.educause.edu/resources/2019/2/horizon-report-preview-2019 https://library.educause.edu/resources/2019/2/horizon-report-preview-2019 https://library.educause.edu/resources/2019/2/horizon-report-preview-2019 Relatório de tendências agora discute o que deu errado em previsões para o ensino superior Projetos de aprendizagem combinada e o redesenho dos espaços de aprendizado, que se expandem do físico para o virtual, são tendências de curto prazo para adoção da tecnologia no ensino superior, diz o relatório Horizon Report: 2019 Higher Education Edition. O estudo funciona como guia de referência e planejamento de tecnologia para educadores, líderes de ensino superior, administradores, formuladores de políticas e especialistas em tecnologia. “Com mais de 17 anos de pesquisa e publicações, o projeto Horizon pode ser considerado a exploração mais antiga da educação de tendências tecnológicas emergentes que apoiam o ensino, o aprendizado e a pesquisa criativa”, afirma o sumário do estudo, criado em 2002 pela ONG New Media Consortium e organizado pela ONG Educause desde o ano passado. Temos dois links de leitura que fazem uma breve análise sobre o Horizon Report 2019, tratando-se de um relatório que possui tradição e excelência; é desenvolvido pelo New Media Consortium (NMC) e compilado pela Organização Não Governamental (ONG) Educase desde 2018. O relatório serve como referência e guia de planejamento de tecnologia para os educadores, gestores de Ensino Superior, administradores, formuladores de políticas e profissionais de tecnologia. A análise presente nos dois links está relacionado ao relatório de 2019, embora já tenhamos uma nova publicação em 2020. Esse relatório foi desenvolvido com 98 especialistas da área e traz as principais tendências de tecnologia e educação, de modo a guiar como instituições ou gestores a acelerar a adoção das tecnologias e também trazer os principais desafios que impedem a adoção, ou o porquê algumas tecnologias relatadas em versões anteriores falharam ou não tiveram sucesso na aplicação em grandes escalas. Seguem algumas das principais tendências que devem ter impacto significativo nas maneiras como faculdades e pesquisas abordam sua missão principal de ensino, aprendizagem e pesquisa. Assim, nenhum curto prazo (próximos um a dois anos) temos o seguinte: Redesenho dos espaços de aprendizagem; Projetos de blended learning, ou ensino híbrido. Já no médio prazo (próximos três a cinco anos): Desenvolver culturas de inovação; https://library.educause.edu/resources/2019/4/2019-horizon-report http://porvir.org/?s=tecnologia&t=1 https://www.nmc.org/ https://www.educause.edu/ https://www.educause.edu/ Foco crescente na definição da aprendizagem. E no longo prazo (por cinco ou mais anos): Repensar como as instituições funcionam; Cursos modularizados ou individualizados. Quanto aos desafios desafios que impedem a adoção de tecnologia no Ensino Superior, são organizados em três categorias relacionadas à dificuldade de resolução, vejamos: Desafios de nível mais baixo de resolução: o Melhoramento da fluência digital; o Aumento da demanda por experiência de aprendizado digital e especialização em design instrucional. Desafios de difícil solução: o Os papéis em evolução do corpo docente com as estratégias da edtech; o Foco no sucesso do aluno. Desafios de alta complexidade: o Avanços na igualdade digital; o Reflexão sobre a prática de ensino. Quanto às tecnologias previstas para o futuro na Educação Superior, o relatório inclui possibilidades que merecem destaque no ensino, na aprendizagem, pesquisa e investigação criativa no futuro, a saber: Previsões para um ano ou menos: o Mobile learning; o Análise de dados. Previsões para dois a três anos: o Realidade mista; o Inteligência artificial. Previsões para quatro a cinco anos: o Blockchain; o Assistentes virtuais. O relatório de 2019 se volta às opções anteriores, especificamente quanto às opções de tecnologia que seria aplicada à educação e que não fosse necessariamente aplicada em escala; mereceram destaques: Jogos e gamificação: as expectativas e realidades; Realidade aumentada e mista: por que, quando e como situar a aprendizagem em contextos autênticos? Aprendizagem adaptativa: compreendendo o seu progresso e potencial. Este assunto é extremamente importante para os estudantes e as instituições de ensino, pois mostra quais são as tendências de tecnologia e/ou inovação na educação deve ser aplicada no futuro. Assistiremos à entrevista do filósofo Mário Sergio Cortella, quem discute o tema de inovação na educação e a relação com as famílias. Note que os alunos atuais não são os mesmos de 10, 15 ou 20 anos atrás e, por vezes, a educação tradicional sem inovação os trata como se fossem equivalentes. Fazer como eu fiz não é fazer o que eu fiz, mas é fazer o que eu faria se eu estivesse agora. Observemos que não podemos repetir exatamente como foi feito no passado, mas dar atualidade para aquilo que está agora. As gerações que estão hoje no Ensino Fundamental, Médio ou Superior, já nasceram com a tecnologia e nós, docentes e discentes, devemos compreender e nos adaptar a esta nova realidade, trazendo isto para a educação. As tecnologias não podem ser utilizadas apenas para a distração e o entretenimento, devendo ser empregadas no contexto educacional, de modo que as famílias têm papéis importantes neste processo. Assista ao vídeo indicado e reflita sobre a nova realidade deste mundo conectado para, então, estabelecer a relação com a educação e como você aprende. Assim, tente relacionar o texto sobre o Horizon report, que mostra quais tecnologias serão empregadas no futuro da educação, e reflita sobre como isto poderá impactar na sua maneira de aprender e ensinar. Bons estudos! Preservação da Saúde Mental no Mundo Globalizado Contextualização Caro (a) aluno (a), Você já percebeu como o termo pandemia tornou-se comum em nossa linguagem em função das implicações da propagação do novo coronavírus? As consequências da covid-19, de proporção intercontinental, acarretaram mudanças nos padrões de comportamento de muitos, a ponto de nos vermos obrigados a criar novos padrões de comportamento, os quais inclusivos nomeamos de “o novo normal”. Mas o fato é que, a despeito da inegável gravidade das sequelas do novo coronavírus em todo o mundo, temos vivido, há tempos, uma epidemia oculta, que, lamentavelmente, não tem repercutido em mudanças tão irrelevantes no estilo de vida das pessoas. Trata-se dos distúrbios de saúde mental. Não é por acaso que esse é o mal do século. Apesar de oculta, a abrangência têm sido cada vez maior. De acordo com o estudo publicado pela Our World In Data, entidade que reúne dados de estudos mundiais, estimava-se em 2018[1], que pouco mais de uma em cada 10 pessoas no mundo (10,7%) sofria de alguma forma de transtorno mental. Entre os mais jovens os dados são mais alarmantes, segundo como Nações Unidas, até 20% dos adolescentes em todo o mundo, de distúrbio de saúde mental[2]. Convido-o, por meio da leitura dos textos, à reflexão sobre quais os esforços tem sido feito para preservação da saúde mental no mundo globalizado em que vivemos. O primeiro texto reflexão mais global considerando o contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. O segundo, traz a ótica da realidade brasileira para o cuidado da saúde mental. Aproveite para pensar sobre o que você tem feito para preservar a sua saúde mental. Lembre-se de que ela é fundamental para que alcance todos os demais objetivos que você tem. A leitura atribuída ao artigo publicado pela Rede de Inovação em Saúde Mental do relatório elaborado pela comissão da revista Lancet sobre uma agenda global de saúde mental no contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Passada uma década da série Lancet de 2007 sobre saúde mental global, uma comissão de 28 pesquisadores da revista The Lancet reavaliou uma agenda global de saúde mental considerando o contexto das 17 metas globais comuns pela Geral das associações das Nações Unidas (ONU): 1 1 Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares; 2 2 Acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e melhoria da nutrição e promover a agricultura sustentável; 3 3 Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades; 4 4 Assegurar a educação inclusiva, equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos; 5 5 Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas; 6 6 Assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos; 7 7 Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos; 8 8 Promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável, emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos; 9 9 Construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável e fomentar a inovação; 10 10 Reduzir a desigualdade dentro dos países e entre eles; 11 11 Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis; 12 12 Assegurar padrões de produção e de consumo sustentáveis; 13 13 Tomar medidas urgentes para combater a mudança climática e seus impactos; 14 14 Conservação e uso sustentável dos oceanos, dos mares e dos recursos marinhos para o desenvolvimento sustentável; 15 15 Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade; 16 16 Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis; 17 17 Fortalecer os meios de implementação e revitalizar a parceria global para o desenvolvimento sustentável. O resultado deixa evidente, entre os vários aspectos que, não há desenvolvimento sustentável sem saúde mental, e que, não se trata somente da questão humanizadora e moral, mas que olhar para saúde mental é olhar também para saúde econômica. A indicação da leitura obrigatória traz o resumo do material da The Lancet, produzido pela Rede de Inovação em Saúde Mental e, traduzido para Língua Portuguesa, mas para aqueles que desejam ter interesse, segue a indicação do relatório, completo em inglês: A Pesquisa em Prevenção em Saúde Mental no Brasil: A Perspectiva de Especialistas Este estudo investigou experiências e recomendações de pesquisadores em prevenção primária em saúde mental no Brasil, com vistas a subsidiar uma agenda de trabalho para o fortalecimento nacional da área. Utilizou-se a técnica Delphi e dez pesquisadores, especialistas em prevenção, foram entrevistados. Investimentos na aproximação entre pesquisa e extensão, incremento do ensino de prevenção, parceria com diversas áreas de conhecimento e estudos de validação de instrumentos para avaliação de programas foram citados como necessidades. Foram apresentados recursos pessoais, profissionais e ambientais, percebidos como apoiadores para a construção da carreira. Foram abordadas direções futuras para a área, tais como a construção de redes de pesquisa e a difusão de programas preventivos. São discutidas implicações dos dados para uma agenda de pesquisa. Condições socioeconômicas precárias, desemprego, baixa escolaridade, fraca rede de apoio, habitação insegura, trabalho informal, estressores ocupacionais e falta de acesso aos bens de consumo estão entre os principais riscos à saúde mental de adultos brasileiros (Ribeiro, Andreoli, Ferri, Prince, & Mari, 2009; Santos & Siqueira, 2010). No Brasil, esse quadro é agravado pelas inúmeras barreiras na busca e acesso ao tratamento, falta de equipes treinadas e de serviços adequados (Brasil, Ministério da Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, Coordenação de Saúde Mental, 2007). Nesse sentido, o relatório da IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial apresentou 1021 solicitações urgentes para a melhoria dos serviços de saúde mental no Brasil (Sistema Único de Saúde, Conselho Nacional de Saúde, Comissão Organizadora da IV Conferência Nacional de Saúde Mental - Intersetorial, 2010). Entre as melhorias, a implantação de serviços em atenção primária e promoção de saúde mental foram destacadas por usuários, trabalhadores e gestores como uma prioridade. Assim, serviços capazes de promover saúde e prevenir agravos à saúde mental parecem ser consensualmente percebidos como relevantes. A prevenção primária em saúde mental consiste em ações que buscam evitar o surgimento de transtornos específicos (Albee, 1982). Segundo modelo de Weisz e colaboradores de compreensão da prevencão, esta faria parte de um desenho integrativo entre promoção, prevenção e tratamento (Weisz, Sandler, Durlak, & Anton, 2005). Assim, a promoção teria como foco a disponibilização de recursos capazes de empoderar indivíduos e coletividades a enfrentar adversidades pessoais e contextuais e incrementar bem-estar. A prevenção, complementarmente, teria como objetivo a redução dos riscos de aparecimento de problemas, incluindo os níveis de exposição ao risco (universal, seletiva e indicada), enquando o tratamento refere-se à assistência àqueles que já apresentam o diagnóstico de um transtorno mental. Nesse modelo, promoção, a prevenção e o tratamento são percebidos como estratégias complementares e que podem se sobrepor. A produção de conhecimentos na área tem seguido um ciclo de pesquisa caracterizado por seis etapas (Mrazek & Haggerty, 1994). A primeira etapa abarca a identificação do problema e sua prevalência, por meio de estudos descritivos e epidemiológicos. A segunda etapa consiste na investigação dos fatores de risco e de proteção relacionados ao problema, os quais permitem o planejamento de alvos a serem abordados nos programas preventivos. A terceira etapa foca o desenvolvimento de programas preventivos, seguido do teste piloto, quando é avaliada a adequação de procedimentos e materiais de intervenção e instrumentos e técnicas de avaliação. A quarta etapa é o teste avançado ou avaliação de eficácia do programa, quando são avaliados os benefícios gerados, obtidos por grupos participantes em comparação a grupos não expostos ao programa, por meio de estudos experimentais. A próxima etapa é a avaliação de efetividade, também realizada através de estudos experimentais, para investigar a manutenção de benefícios do programa implementado, por multiplicadores em novas comunidades. Na última etapa, tem-se a difusão de intervenções baseadas em evidências de eficácia e efetividade em serviços e/ou políticas públicas. A existência de programas de pós-graduação específicos em Ciência da Prevenção, usualmente multidisciplinares e localizados na América do Norte (Eddy, 2011) e Europa, sociedades científicas (como a Society for Prevention Research e a European Society for Prevention Research) e periódicos https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B30 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B33 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B11 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B11 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B35 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B35 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B4 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B37 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B37 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B25 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B15 especializados (como o Prevention Science) representa alguns dos indicadores do avanço desse campo de conhecimento mundo afora. Todavia, revisões da literatura, recentes da produção nacional destinadas à identificação de estudos de avaliação sistemática de programas preventivos para diferentes populações (XXX-autor omitido para evitar identificação, 2012) e programas de promoção de saúde mental e desenvolvimento positivo para crianças (Menezes, 2013), constataram haver um número relativamente reduzido de estudos no Brasil, ainda que crescente nos últimos anos. Abreu e Murta (2016) identificaram 11 publicações, cujos alvos eram a prevenção de problemas de comportamento, violência, abuso sexual, abuso de álcool e drogas e vazio existencial. Menezes (2013) localizou 16 publicações focadas na promoção de competências social, emocional, cognitiva e moral em crianças. Ambas as revisões encontraram uma predominância de estudos pré-experimentais e quase- experimentais, sem avaliações de follow-up e com amostras pequenas. Adicionalmente, verificou-se que grande parte dos estudos em prevenção encontram-se nas etapas iniciais do ciclo de pesquisa em prevenção (estudos para avaliar prevalência, identificar fatores de risco, desenvolver programas preventivos e conduzir teste piloto), sendo escassos os estudos para avaliação de eficácia, efetividade e difusão (Abreu, Miranda, & Murta, 2016). Esse estado atual de produção de conhecimento representa um importante crescimento na produção científica nacional, comparado-se aos achados de mais de uma década atrás (Benetti, Ramires, Schneider, Rodrigues & Tremarin, 2007; Murta 2007), que apontaram à época ampla produção na descrição de prevalência, sintomas e fatores de risco de transtornos mentais, sobretudo em crianças e adolescentes e escassa produção de estudos voltados para o desenvolvimento, avaliação de eficácia e efetividade e difusão de programas de prevenção em saúde mental no país. O aumento em publicações que apresentam o desenvolvimento de programas preventivos e testes preliminares de sua adequação salientam um progresso, ao mesmo tempo em que evidenciam a necessidade de se fazer avançar a área, rumo a estudos de avaliação de eficácia, efetividade e difusão. O fortalecimento da pesquisa e do ensino em prevenção em saúde mental viria ao encontro das necessidades correntes no campo das políticas públicas em saúde no Brasil, que tem solicitado profissionais capacitados para uma atuação competente em prevenção e promoção de saúde na comunidade (Aguiar & Ronzani, 2007; Dimenstein, 1998; Ferreira Neto, 2008; Ronzani & Rodrigues, 2006). Nesse cenário, uma das estratégias para se planejar medidas para o desenvolvimento desse campo é conhecer a opinião de pesquisadores atuantes na área, para se levantar subsídios para agendas de trabalho que sirvam ao avanço das práticas de pesquisa e ensino em prevenção em saúde mental no Brasil. Assim, o presente estudo teve, por objetivo, descrever a perspectiva dos especialistas sobre a pesquisa em prevenção em saúde mental no Brasil. Os seguintes questionamentos foram os norteadores deste estudo: que trajetórias profissionais especialistas brasileiros em pesquisa em prevenção em saúde mental construíram? Como se dá o ciclo da pesquisa em prevenção em suas experiências? Que recursos eles julgam favorecedores da construção de carreiras em prevenção? Que recomendações eles fazem para o ensino de prevenção? Que desafios e perspectivas eles acreditam que essa área de pesquisa vive atualmente no Brasil? MÉTODO Participantes Participaram 10 pesquisadores brasileiros que apresentam publicações contínuas em prevenção em saúde mental, dos quais quatro eram pesquisadores seniores (doutores há mais de 10 anos, com atuação em docência e/ou pesquisa e produção científica relevante em prevenção em saúde mental) e seis eram jovens pesquisadores (doutores há menos de 10 anos, docentes e/ou pesquisadores, com produção de pesquisa em prevenção recente, inferior a 10 anos). A formação dos entrevistados foi, majoritariamente, psicologia (n = 9 psicólogos), seguida de medicina (n = 1). Dos 10 entrevistados, três atuam em prevenção do uso abusivo de álcool e drogas, cinco em prevenção de fatores de risco para problemas de comportamento na infância, um pesquisador em prevenção da violência e um em prevenção de fatores de risco à saúde mental entre adolescentes. https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B23 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B23 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B10 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B10 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B26 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B14 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B18 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B31 Delineamento Realizou-se um estudo descritivo, por meio da técnica Delphi. Essa técnica consiste na consulta a especialistas em um dado campo de pesquisa, sobre temas de seu conhecimento. O nome dessa técnica faz alusão ao Oráculo de Delfos, centro religioso da Grécia Antiga, consultado para tomada de decisões, conselhos e orientações. Usualmente, os participantes de estudos com a técnica Delphi são alcançados via internet e convidados a responder a instrumentos de autorrelato, em mais de uma ocasião, para se chegar a um consenso ao final da coleta de dados, acerca do tópico investigado (Bartholomew, Parcel, Kok, Gottlieb & Fernández, 2011). No presente estudo, optou-se pela coleta de dados face a face e em sessão única por meio de entrevista, para se promover a retenção dos participantes e evitar desistências. Instrumento Utilizou-se um roteiro semiestruturado para condução da entrevista, que contemplava seis eixos temáticos: (1) história profissional relacionada à prevenção; (2) recursos pessoais e profissionais para se tornarem referências na área; (3) formação e competências necessárias para atuar com prevenção; (4) desafios e estratégias de enfrentamento para a prevenção em saúde mental no Brasil e (5) agenda de pesquisa para a área. Procedimentos Foram convidados a participar da pesquisa pesquisadores brasileiros que desenvolvem intervenções sistematicamente avaliadas, em prevenção primária em saúde mental, identificados a partir de uma revisão sistemática de estudos da área (XXX, 2012). Tal estudo foi identificado como a primeira revisão sistemática da literatura nacional de intervenções de prevenção primária para desfechos negativos em saúde mental e como fonte de estudos e identificação. Para tal, a busca foi conduzida sem limite inicial de data para publicação, com data final até março de 2012. Os artigos iniciais foram encontrados a partir das seguintes palavras-chave “prevenção”, “atenção primária”, “atenção básica” e “promoção de saúde”, nas bases SciELO e PePSIC. A partir da identicação de intervenções sistematicamente avaliadas, foram identificados grupos de estudos e os autores dos estudos, que deram origem a outra revisão sistemática que identificou quem faz e a forma como faz prevenção em saúde mental no Brasil (Abreu et al., 2016). Assim, ambas as revisões foram utilizadas como base para o desenvolvimento desse estudo e identificação dos sujeitos de pesquisa. Nas revisões (Abreu & Murta, 2016; Abreu et al., 2016), foram encontradas 11 intervenções preventivas, sistematicamente avaliadas e os autores dessas intervenções foram selecionados como participantes da pesquisa. Ao todo, foram identificados 14 pesquisadores, com publicações constantes na área e 12 foram convidados a participar da pesquisa. Dois pesquisadores faziam parte do mesmo centro de pesquisa e optou-se por entrevistar apenas um, o outro pesquisador não entrevistado é o segundo autor deste estudo. O primeiro contato com os pesquisares foi virtual, por e-mail, quando foi apresentado o objetivo do estudo. Dos 12 contatados, 11 responderam ao e-mail, aceitando o convite de participar da pesquisa e, ao final, 10 foram entrevistados. Todas as entrevistas foram realizadas, por pesquisador treinado, no local escolhido pelo participante entrevistado. A duração aproximada das entrevistas foi de 45 minutos a uma hora. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa xxxx (nome omitido para evitar identificação). Todos os entrevistados foram devidamente informados acerca do propósito da pesquisa, deram o seu consentimento e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e seus direitos foram resguardados. Análise dos Dados As entrevistas foram gravadas em áudio. Em seguida, as informações foram transcritas e o conteúdo organizado conforme os seis eixos temáticos propostos: história profissional relacionada à prevenção; recursos pessoais e profissionais para se tornarem referências na área; formação e competências necessárias para atuar com prevenção; desafios e estratégias de enfrentamento para a prevenção em saúde mental no Brasil e agenda de pesquisa para a área. A análise das transcrições se baseou na análise de conteúdo, do tipo temático e estrutural (Bardin, 1977). Inicialmente, fez-se uma leitura flutuante dos dados, https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B9 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B9 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B2 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B8 em seguida, foram estabelecidas as categorias e subcategorias e, por fim, realizou-se a comparação e a horizontalização das categorizações de cada entrevista, para visualização geral das informações. RESULTADOS E DISCUSSÃO A História dos Pesquisadores e sua Relação com a Prevenção em Saúde Mental A história dos pesquisadores com a prevenção em saúde mental é marcada pela inquietação com o modelo tradicional de saúde e de psicologia. Pesquisadores seniores e jovens pesquisadores relataram histórias diferentes, em resposta às nuances de suas gerações. Os pesquisadores seniores, em geral com mais de 55 anos de idade, narraram que a sua história teve início com a insatisfação de um modelo de saúde (e psicologia), com foco exclusivo na remediação, nos estudos de psicopatologias e no tratamento. Assim, para além desse modelo de pesquisa e prática que priorizava a doença, o modelo biomédico, os pesquisadores buscaram alternativas de formação. Frente a esse “estilo da época”, os pesquisadores encontraram, em teorias do desenvolvimento humano e na saúde pública, possibilidades de uma atuação preventiva. Segundo os pesquisadores, as teorias do desenvolvimento rompiam com os conceitos prioritariamente patologizantes ao propor o entendimento das várias etapas do desenvolvimento saudável e ilustrar formas de intervenções para a promoção de saúde (Ronzani & Rodrigues, 2006). A saúde pública os alicerçava ao propor uma atuação mais comunitária, coletiva, dinâmica, interdisciplinar e acessível à população (Aguiar & Ronzani, 2007). O momento social e político influenciou diretamente a tomada de decisão dos pesquisadores. O contato com a prevenção pelos pesquisadores seniores foi ao final da década de 70, no decorrer da década de 80 e início dos anos 90 do século passado. Historicamente, esse foi o período da implantação do Sistema Único de Saúde- SUS, da reforma psiquiátrica, da discussão sobre a democratização de acesso aos serviços de psicologia e o descontentamento com o modelo biomédico (Machado, Monteiro, Queiroz, Vieira & Barroso, 2007). O início das discussões sobre prevenção em saúde mental no Brasil é semelhante ao vivenciado em outras nações, fortemente atrelado ao conceito de justiça social, como descrito em diferentes estudos por um dos primeiros teoricos da prevenção, George Albee (Albee, 1983, Albee, 1986). Naquela época, reivindicava-se o acesso dos brasileiros a condições básicas de saúde, como alimentação, trabalho, educação e lazer. Igualmente, os defensores da pesquisa e prática em prevenção em saúde mental propunham o investimento em ações para erradicação da pobreza, acesso a direitos e promoção de bem-estar para população como estratégias para prevenção aos transtornos mentais (Albee, 1982). As demandas apresentadas vão ao encontro do contexto social e político vivenciado em vários países, marcados por altos índices de desemprego, problemas sociais graves, redemocratização após regimes ditatoriais e reflexões sobre o compromisso social da psicologia. Esse último aspecto pode ser exemplificado na fala de um dos entrevistados: “não era uma coisa (as intervenções) muito, digamos assim, sistematizada, mas era uma coisa que tinha uma faceta política bastante forte” (Participante A). Os jovens pesquisadores participaram de uma história respaldada pela tutoria dos pesquisadores seniores e de uma visão mais ampla durante a formação da graduação e/ou pós-graduação. Embora, a crítica de uma formação tradicionalmente clínica, individualizada e elitizada ainda estivesse presente em sua formação, os jovens pesquisadores tiveram o suporte de professores e de discussões que apresentavam algumas alternativas preventivas. Historicamente, sua formação e prática incluíram contribuições das discussões sobre a clínica ampliada (Ferreira Neto, 2008) e sobre a inserção dos profissionais de saúde (e psicólogos) na saúde pública, saúde coletiva e políticas sociais (Dimenstein, 1998), no Modelo Bioecológico de Desenvolvimento Humano (Bronfenbrenner, 1979/1996), na logoterapia (Frankl, 1946/1989) e na psicologia positiva (Seligman & Csikszentmihalyi, 2000). O Ciclo da Pesquisa em Prevenção Proposto pelos Pesquisadores https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B31 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B3 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B21 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B21 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B5 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B6 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B4 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B18 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B14 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B12 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B19 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B34 A prevenção em saúde mental no Brasil ainda é incipiente, sendo considerada por alguns como “artesanal”. Com esse termo, um dos entrevistados definiu como os pesquisadores passam pelas etapas do ciclo da pesquisa em prevenção. Em sua fala, o pesquisador afirmou: “artesanal no sentido de você pensar a ferramenta, pensar o recurso, implementar um projeto piloto para poder aperfeiçoar” (Participante B). Em seu caráter artesanal, o ciclo da pesquisa em prevenção vivenciado pelos pesquisadores brasileiros é distinto do ciclo da prevenção proposto pela literatura (Mrazek & Haggerty, 1994). A experiência dos pesquisadores brasileiros difere do proposto pela literatura, por ser acrescido de uma fase de validação de instrumentos (Figura 1). Segundo o narrado por todos os entrevistados, os pesquisadores precisaram ou ainda precisam adiar a implantação das intervenções preventivas, mesmo no estágio do estudo piloto baseado na teoria, para voltar à etapa anterior e adaptar e validar instrumentos ou mesmo criar novas medidas. A escassez de instrumentos adequados para o Brasil é apresentada como um grande desafio para o avanço da pesquisa em avaliação de programas preventivos. Figura 1 O ciclo da pesquisa em prevenção segundo os pesquisadores brasileiros A Relação entre Pesquisa e Extensão nas Universidades e as Implicações para as Intervenções Preventivas No contexto universitário, existe uma relação peculiar entre a extensão e a pesquisa. Em alguns momentos, ambas estão associadas e, em outros, são ações distintas. Na prática dos pesquisadores seniores, a prevenção teve início com a extensão e a inserção do psicólogo na comunidade. Segundo os pesquisadores, a extensão era vista como o local da universidade destinado à prática da prevenção, em que as intervenções preventivas eram ofertadas à população. Assim, a prevenção era reconhecida como uma das formas de oferecer à sociedade uma parcela do conhecimento que a universidade estava produzindo. Como efeito colateral, a extensão não tinha entre suas prioridades a sistematização de seus resultados (Miyazaki, Domingos, Valério, Santos & Rosa, 2002). A falta de sistematização da extensão e a valorização da pesquisa em detrimento da extensão pode ser um dos entraves para os avanços das intervenções preventivas. Alguns pesquisadores citaram a extensão como uma atribuição menos valorizada na prática do pesquisador brasileiro. Um dos entrevistados exemplificou da seguinte forma: “eu sinto um pouco, na academia especificamente, esse preconceito com quem está fazendo extensão. Geralmente quem está na prevenção, está também nessa perspectiva da extensão, como se fosse o primo pobre, o primo rico é a pesquisa” (Participante C). Essa crença dos pesquisadores pode estar associada a um número exponencialmente maior de pesquisas básicas publicadas, em comparação às pesquisas sobre intervenções. Segundo os dados de uma revisão da área, até março de 2012 haviam sido publicados 374 artigos de prevenção em saúde mental. Desses, 256 eram estudos de fundamentação, 31 eram intervenções preventivas e somente 11 desses foram sistematicamente avaliados (Abreu & Murta, 2016). A exigência de produtividade sobre pesquisadores acaba por gerar o que um dos entrevistados se referiu como “A neurose obsessiva do lattes”. O sentido que o termo evoca pode ser identificado como outra variável que permite compreender o investimento em publicações de natureza descritiva, típicas dos estágios iniciais do ciclo de pesquisa em prevenção, em detrimento de pesquisas de desenvolvimento https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B25 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#f1 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B24 https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-37722018000100512&lng=pt&tlng=pt#B2 de programas preventivos, avaliação de eficácia, efetividade e difusão, que requerem um tempo mais longo para planejamento e coleta de dados. Essa expressão foi utilizada para fazer referência à pressão sofrida pelos pesquisadores para publicação de artigos em periódicos científicos, os quais devem ser registrados em seus currículos, para posterior utilização como fontes de dados para avaliação por agências de fomento à pesquisa e à pós-graduação no Brasil. Um dos critérios de classificação da produtividade de pesquisadores e da qualidade dos programas de pós-graduação é o número anual dessas publicações. Um dos entrevistados assim se manifestou acerca disso: Então a gente vai por ensaio e erro, vai ensaiando até chegar ao final: o artigo (refere-se ao artigo de uma intervenção quasi-experimental desenvolvida por ele), durante dez anos. O que é mais fácil? Você em seis meses fazer uma pesquisa, escrever e publicar. Então tem esse caminho da neurose obsessiva do Lattes que a gente vai publicando, sem pensar nessa prática: para que e para quem eu estou publicando? (Participante C) A queda na qualidade das publicações e, até mesmo, as possíveis implicações dessa demanda para o adoecimento dos pesquisadores têm sido discutidas no meio acadêmico (Tuleski, 2012). Avaliações indicam que a qualidade das publicações tem sido comprometida, mesmo com crescimento numérico dessas. Um estudo (Regalado, 2010) que apresentou o Brasil como o 13º no ranking internacional de número de publicação indicou que o impacto das publicações dos pesquisadores nacionais é pequeno e a quantidade de patentes é ainda menor. Isso é coerente com os resultados de outra publicação de uma revista nacional, especializada em divulgação científica, que indicou os entraves brasileiros para a transformação de conhecimento em tecnologia (Marques, 2012). Assim, a quantidade de publicações e sua qualidade, medida em termos de seu impacto social, continuam sendo algo discutível no mundo acadêmico. Como alternativa à separação entre pesquisa e extensão e consequente empobrecimento da avaliação de programas preventivos oferecidos à comunidade, é proposto, pelos pesquisadores, participantes um modelo de coalizão entre ambas. A extensão contribuiria para a inserção da produção científica na comunidade, enquanto a pesquisa auxiliaria com avaliações sistemáticas. Como resultado, os pesquisadores poderiam atender ao seu compromisso ético e social, que é transformar o conhecimento em tecnologia acessível e útil à sociedade, com evidências empíricas de seus resultados. O pesquisador ganharia publicações de maior qualidade metodológica, impacto expressivo e a população um serviço respaldado pela ciência. Recursos Bioecológicos para a Construção de Carreiras na Pesquisa em Prevenção Recursos pessoais. Os participantes mencionaram como recursos pessoais a paixão (pela temática estudada), resiliência, dedicação, resistência à frustração, senso de humor, motivação e habilidades em gestão (Figura 2). O perfil de gestor está associado a habilidades como capacidade de comunicação com pessoas em diferentes posições, habilidade de negociação e flexibilidade. Outra característica de gestor indicada pelos pesquisadores é a capacidade de pensar na pesquisa e seus desdobramentos de forma estratégica, como pode ser observado na fala: “a área é um contínuo, uma linha que em que é preciso pensar na sustentabilidade (...) sempre pensei num planejamento estratégico, eu sempre planejei aonde eu queria chegar e como eu conseguiria