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DOENÇAS CRÔNICAS NÃO TRANSMISSÍVEIS 
- As últimas décadas foram de muitas transformações no País, com 
aumento da expectativa de vida, melhora das condições de vida, 
ampliação do acesso a serviços de saúde e mudanças no perfil 
epidemiológico da população. 
→ Desde a sua implantação, o Sistema Único de Saúde (SUS) vem 
contribuindo para essas mudanças e impactando nos indicadores de 
saúde. 
 Com um sistema de saúde público e universal, o País observou 
uma expansão da cobertura de Saúde da Família, da distribuição de 
medicamentos gratuitos e das ações voltadas para um cuidado 
integral e em rede. 
- Algumas melhorias sociais e econômicas também contribuíram para 
melhorar a qualidade de vida dos brasileiros, como a diminuição do 
analfabetismo, o aumento da escolaridade da população, o acesso 
ao saneamento básico e os programas de transferência de renda, 
como o Bolsa Família, que impactam também na saúde das pessoas. 
→ Embora ainda exista muita desigualdade no Brasil, e isso é 
percebido pelas diferenças nos indicadores sociais e de saúde nas 
regiões brasileiras, a construção e consolidação do SUS fez parte 
dessas mudanças. 
 A transição demográfica da população brasileira trouxe novos 
desafios. Se no início do século XX a mortalidade infantil e as 
doenças infecciosas reduziam a expectativa de vida das pessoas, o 
início do século XXI traz uma preocupação com as Doenças Crônicas 
Não Transmissíveis (DCNT). 
 Principal causa de morte em países desenvolvidos e emergentes, 
entre eles o Brasil, essas doenças são responsáveis por mortes 
prematuras (antes dos 69 anos de idade), trazendo impactos sociais 
e econômicos. 
- São, na sua maior parte, evitáveis com mudanças de hábito e estilo 
de vida, já que são fatores de risco para as DCNT o tabagismo, a 
obesidade, o abuso no consumo de álcool e o sedentarismo. 
→ Com o envelhecimento progressivo da população brasileira, é 
esperado um aumento da incidência das DCNT, principalmente se 
medidas de prevenção e promoção da saúde não forem aplicadas 
em tempo oportuno. 
- As DCNT são as doenças cardiovasculares, as neoplasias, as 
doenças respiratórias e o diabetes mellitus. 
→ Acometem todas as camadas socioeconômicas da população, 
mas atingem mais pessoas idosas, com baixa escolaridade e baixa 
renda. 
 Foram responsáveis por 75% dos óbitos em 2015 no Brasil, 
embora tenha havido redução dessas taxas nos últimos anos. Essa 
redução é resultado de várias ações desenvolvidas pelo SUS nos 
últimos 20 anos, como a ampliação da cobertura de Saúde da 
Família, a Política Nacional de Promoção da Saúde e o Plano de 
Ações Estratégicas para o enfrentamento das DCNT para 2011-2022. 
 Outras ações concomitantes contribuíram para ampliar a 
integralidade do cuidado do SUS, como as Redes de Atenção à 
Saúde (RAS) e as Regiões de Saúde. 
- Entre as DCNT, as doenças cardiovasculares são a principal causa 
de morbimortalidade no Brasil. 
→ A hipertensão arterial é o seu principal fator de risco, sendo 
altamente prevalente na população brasileira e afetando 24,7% da 
população das capitais em 2018. 
- As neoplasias são a segunda causa de mortalidade, e seu 
diagnóstico e tratamento precoce são fundamentais para diminuir 
esse número. 
→ Entre os tipos de câncer mais comuns estão os cânceres de 
mama, colorretal e de colo de útero, entre as mulheres; e as 
neoplasias de próstata, colorretal e de sistema respiratório, entre os 
homens. 
- O diabetes mellitus e suas complicações podem se tornar altamente 
incapacitantes, sendo importante o seu diagnóstico precoce e o 
rastreamento das suas complicações, como as neuropatias. 
→ As mudanças de estilo de vida são fundamentais para a melhora 
desse quadro. 
 As doenças respiratórias crônicas incluem a asma e as doenças 
pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC). A distribuição de 
medicamentos para o tratamento da asma, de forma gratuita, e a 
diminuição do tabagismo vêm contribuindo para a redução da 
incidência desses agravos. 
Enfrentamento das DCNT: 
- Em 1986, ano em que acontecia a 8ª Conferência Nacional de 
Saúde no Brasil, ocorria no Canadá a Primeira Conferência 
Internacional sobre Promoção da Saúde, na cidade de Ottawa. 
→ A Carta de Ottawa formaliza as intenções dessa Conferência, em 
consonância com os princípios defendidos na Conferência de Alma-
Ata de 1978, e define a promoção da saúde como o “processo de 
capacitação da comunidade para atuar na melhoria de sua qualidade 
de vida e saúde”, a fim de alcançar o bem-estar físico, mental e 
espiritual. 
 Conforme o documento, a busca pela saúde deve extrapolar o 
limite das ações de saúde, combinando diversas políticas públicas 
para o desenvolvimento de cidades e comunidades saudáveis. 
- No contexto dos países da América, durante a Conferência 
PanAmericana de Saúde, foi aprovada, em 2002, a iniciativa 
CARMEN, sigla para Conjunto de Ações para a Redução Multifatorial 
de Enfermidades Não Transmissíveis. 
→ Essa iniciativa se apoia na prevenção integrada e na promoção da 
saúde, na avaliação das ações executadas e na promoção da 
equidade em saúde. 
- No Brasil, foi aprovada em 2006 a Política Nacional de Promoção 
da Saúde, de acordo com os princípios do SUS e em conformidade 
com o defendido na Carta de Ottawa. 
→ Seu objetivo principal é “promover a qualidade de vida e reduzir 
vulnerabilidade e riscos à saúde relacionados aos seus 
determinantes e condicionantes”, integrando diversos atores (sociais 
e políticos) para atingir esse fim. 
 Em 2011, foi criado o Plano de Ações Estratégicas para o 
enfrentamento das DCNT pelo Ministério da Saúde, com o objetivo 
de: promover o desenvolvimento e a implementação de políticas 
públicas efetivas, integradas, sustentáveis e baseadas em evidências 
para a prevenção e o controle das DCNT e seus fatores de risco e 
fortalecer os serviços de saúde voltados para a atenção aos 
portadores de doenças crônicas. 
- Ele organiza-se em três eixos: vigilância, informação, avaliação e 
monitoramento; promoção da saúde; e cuidado integral. 
→ Além disso, traz metas voltadas para a promoção de hábitos 
saudáveis, a ampliação da oferta de serviços e exames, a redução 
gradual da mortalidade prematura por DCNT, entre outras. 
- Algumas intervenções realizadas, apoiadas pela Organização 
Mundial da Saúde (OMS) pela sua efetividade, incluem: aumento de 
preços e impostos sobre cigarros; proibição de fumar em locais 
públicos; regulação de propagandas de álcool e tabaco; advertências 
sobre os efeitos nocivos do tabaco nas embalagens de produtos; 
políticas de combate ao uso de álcool e direção; e redução do 
conteúdo de sal nos alimentos. 
→ Na assistência à saúde direta, destaca-se o tratamento da 
dependência de nicotina, realizado pela Atenção Básica, com 
atividades educativas em grupo, distribuição de medicamentos e 
acompanhamento contínuo multidisciplinar para apoio na cessação 
do fumo. 
 O combate ao consumo de tabaco talvez seja uma das estratégias 
mais bem-sucedidas realizadas, com resultados bem expressivos. 
Com as ações de combate ao tabagismo, que tiveram início na 
década de 1990 e perduram até hoje, houve uma diminuição 
expressiva no tabagismo. Em 1989, a prevalência em maiores de 18 
anos era de 34,8%, enquanto em 2013 era de 14,7%. 
- Além desse plano de enfrentamento, diversas estratégias foram 
criadas concomitantemente e postas em prática, sobretudo pelas 
equipes de Saúde da Família do País. 
→ Entre essas estratégias, destacam-se o Programa Academia da 
Saúde; a política antitabaco; o incentivo ao aleitamento materno e à 
alimentação complementar saudável; a expansão da Atenção Básica 
e a criação do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF); a 
distribuição gratuita de medicamentos para hipertensão e diabetes; e 
a ampliação de exames de prevenção ao câncer de mama e de colo 
de útero. 
 Todo esse histórico buscamostrar que a prevenção e o combate 
das DCNT estão relacionados às políticas voltadas para a Promoção 
da Saúde, principalmente quando são levados em consideração os 
fatores de risco que causam o diabetes, a hipertensão e alguns tipos 
de câncer. 
- Além de buscar prevenir essas condições, várias dessas ações 
também buscam mudar o cenário epidemiológico já instalado, 
evitando as complicações e a mortalidade precoce causadas por 
essas doenças. 
→ Dessa forma, o papel da Atenção Básica no contexto do SUS é 
imprescindível para colocar em prática a maior parte dessas ações, 
por ser o nível de atenção à saúde mais próximo da vida das 
pessoas, capaz de articular ações de promoção, prevenção e 
controle dessas doenças. 
 Considerando a complexidade de enfrentamento às DCNT, as 
diretrizes e os princípios do SUS e o papel esperado da Atenção 
Básica para a mudança do modelo assistencial no País, outro desafio 
surge: como (re)organizar os serviços de saúde de forma a garantir 
a integralidade do cuidado e melhorar os indicadores de saúde 
relacionados a essas doenças. 
Redes de Atenção à Saúde: 
- Os sistemas de saúde podem operar de forma fragmentada ou 
integrada, muitas vezes de maneira concomitante. 
→ De maneira geral, um sistema fragmentado se organiza por meio 
de vários serviços de saúde que trabalham de maneira isolada e sem 
se comunicarem entre si, sem uma população adscrita definida, e 
voltados para atender situações agudas ou condições crônicas 
agudizadas, como uma crise hipertensiva 
 Nesse tipo de sistema, não existe uma continuidade do cuidado, 
não havendo uma articulação entre atenção primária (ou básica), 
atenção secundária e atenção terciária. 
- Mendes (2011) também aponta que sistemas de saúde 
fragmentados tendem a considerar sua estrutura assistencial de 
forma hierárquica, com ordens de complexidade e importância 
conforme se avança na hierarquia, o que acontece no SUS. 
→ Ao definir seus níveis de atenção em atenção básica, de média e 
de alta complexidade, pode-se criar a ideia equivocada de que a 
Atenção Básica é menos complexa e menos importante, valorizando 
e dando preferência para os demais níveis de assistência. 
 Para alcançar os objetivos de saúde propostos desde o movimento 
da Reforma Sanitária Brasileira e mudar o cenário de saúde 
brasileiro, fortemente afetado pelas DCNT, é necessário que algumas 
mudanças ocorram, substituindo o modelo de atenção à saúde 
fragmentado hegemônico no SUS por um modelo de atenção 
organizado em rede. 
 
 
 
 
- A Portaria n. 4.279/2010 elenca as diretrizes para a organização das 
RAS no SUS, considerando-as como ações e serviços organizados 
de várias formas, com características tecnológicas heterogêneas, 
integradas por meio de sistemas de apoio, com o objetivo de alcançar 
a integralidade do cuidado. 
→ Com a criação das RAS, foram definidas redes temáticas 
prioritárias, com componentes, fases e planos específicos. 
 As redes temáticas definidas foram: Rede Cegonha; Rede de 
Urgência e Emergência; Rede de Atenção Psicossocial; Rede de 
Cuidados à Pessoa com Deficiência; e Rede de Atenção à Saúde das 
Pessoas com Doenças Crônicas. 
 Com a lógica do cuidado em redes, fica mais próximo de se 
alcançar o papel da Atenção Básica de ser a coordenadora do 
cuidado e organizadora da rede. 
- Em conjunto com as RAS, também foram definidas Linhas de 
Cuidado (LC) voltadas para essas redes prioritárias. 
→ Elas são entendidas como itinerários terapêuticos que um 
paciente deve percorrer, nos diferentes pontos de atenção da RAS, 
de forma a suprir suas necessidades de saúde. 
 Com base em protocolos e diretrizes clínicas, a LC contempla 
todo o processo saúde-doença de um agravo, desde a sua 
prevenção até o seu controle, a ser aplicado em qualquer ponto da 
rede de atenção, buscando um cuidado integral. 
A Atenção Básica e as DCNT: 
- Para abordar as DCNT, é necessária uma assistência à saúde 
adequada para todas as características desses agravos. 
→ Quando se fala em RAS, coloca-se a Atenção Básica no centro do 
sistema de saúde, para que ela possa ser efetivamente a 
coordenadora do cuidado. 
 
- Mendes (2012) defende uma nova clínica para a Saúde da Família, 
requalificando as relações entre equipe e usuário, ambos ativos no 
processo de cuidado e autocuidado. 
 Para o autor, as equipes de Saúde da Família devem basear a sua 
atuação nas seguintes dimensões: 
1. Da atenção prescritiva para a atenção centrada na pessoa: 
singularizar o cuidado para cada indivíduo, considerando os 
aspectos objetivos e subjetivos de cada um, sendo o usuário 
ator no processo de cuidado, e não um ser passivo. 
2. Da atenção centrada no indivíduo para a atenção centrada na 
família: a família é considerada uma unidade de cuidado, como 
parte dos recursos que o usuário pode utilizar no seu cuidado 
e como um elo com ele, para melhor entender a sua situação 
de saúde. 
3. No fortalecimento do autocuidado apoiado: permitir que os 
usuários sejam produtores da sua saúde. O portador de uma 
doença crônica convive muito mais tempo sozinho com a sua 
doença do que na companhia de um profissional da saúde. O 
autocuidado é uma forma de empoderar o indivíduo para o seu 
cuidado, promovendo a educação em saúde e a sua autonomia 
nesse processo. 
4. No equilíbrio entre a demanda espontânea e a atenção 
programada: considerando as DCNT, a organização da agenda 
de serviços das equipes de Saúde da Família deve garantir um 
equilíbrio entre atendimentos programados para os usuários e 
atendimentos não programados, ou de demanda espontânea, 
para atender às situações de agudização dessas condições, 
conforme a necessidade desse usuário. 
5. Da atenção uniprofissional para a atenção multiprofissional: 
ampliar o cuidado do indivíduo para além do cuidado centrado 
na consulta médica, com o cuidado prestado por uma equipe 
multiprofissional. 
6. Na introdução de novas formas de atenção profissional: como 
a atenção compartilhada em grupo (diferente dos grupos 
educativos) e a atenção contínua, passando o usuário por 
atendimentos individuais com vários profissionais. Essas duas 
abordagens ainda não foram implantadas no Brasil. 
7. No estabelecimento de novas formas de relação entre as 
equipes da Atenção Básica e a atenção ambulatorial 
especializada: exige que a Atenção Básica opere a RAS de 
forma a coordenar essa rede, mantendo a sua 
responsabilidade no cuidado ao usuário. 
8. No equilíbrio entre o cuidado presencial e o cuidado não 
presencial: ao incrementar as ações não presenciais, amplia-
se o cuidado, podendo ser realizado por monitoramento das 
condições de saúde por meio telefônico ou por correio 
eletrônico. 
9. No equilíbrio entre a atenção profissional e a atenção por 
leigos: essa assistência promovida por leigos (ou por pares) 
consiste em incluir no cuidado ao doente crônico cuidadores 
leigos, também portadores dessas condições. 
- Para contemplar essas dimensões, é necessária a reorganização 
do processo de trabalho das equipes atuantes na Atenção Básica. 
→ Algumas estratégias vêm sendo aplicadas por essas equipes, 
como o Projeto Terapêutico Singular (PTS) e o Apoio Matricial, 
realizado pelas equipes do NASF e pelos serviços de atenção 
especializada. 
- A lógica da LC de DCNT, na Atenção Básica, também articula novos 
saberes e novas práticas para as equipes de saúde, pois, 
diferentemente de protocolos ou diretrizes clínicas, que costumam 
ser mais rígidos, a LC pressupõe novos arranjos assistenciais e de 
gestão. 
→ Assim, na perspectiva dos macroprocessos, a LC de DCNT 
abrange a organização da vigilância e da informação em saúde, a 
comunicação em saúde, medidas intersetoriais, a organização das 
redes de serviço e a identificação de grupos de risco e o uso de 
protocolos. 
 Já na perspectiva dos microprocessos, os autores destacam a 
atuação da equipena coordenação do cuidado, a vinculação e 
responsabilização do cuidador e a busca da produção da autonomia 
do usuário. 
- Diante disso tudo, muitos são os desafios impostos para a Atenção 
Básica brasileira. 
→ Além da responsabilidade de reorganizar uma rede de serviços de 
saúde que ainda opera de maneira pouco integrada e oferece um 
cuidado fragmentado, as equipes de Saúde da Família e de Atenção 
Básica também lidam com dificuldades estruturais no seu dia a dia, 
como dificuldade em fixar profissionais médicos, alta rotatividade de 
profissionais (o que dificulta a criação de vínculo com a população) e 
a diminuição de recursos financeiros nos últimos anos para o 
financiamento do SUS, o que dificulta o acesso e a cobertura da 
população de maneira a cumprir todas as intenções que foram 
descritas. 
 O cuidado às condições crônicas já traz seus desafios pela 
complexidade de abordagem, pelo tratamento e pela atenção que 
exige. 
 Mudanças de hábitos de uma vida inteira não são alcançadas de 
uma forma simples nem pela vontade do profissional de saúde em 
alcançar esse objetivo. Integrar a pessoa, a família e a comunidade 
nesse cuidado é fundamental e requer novas práticas e novas 
estratégias para que se obtenha sucesso nesse enfrentamento. 
- A Atenção Básica está posta no centro da RAS, mas ainda não 
ocupou esse espaço de maneira homogênea pelo Brasil. 
→ Cada região brasileira apresenta a sua realidade em termos de 
recursos e de indicadores. 
 Por isso o protagonismo das equipes é fundamental para a 
mudança assistencial pensada nos primórdios do SUS: são essas 
equipes e esses profissionais que convivem próximos às múltiplas 
realidades das pessoas e dos territórios, dispondo das ferramentas 
para alcançar um cuidado integral e com equidade.

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