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SP 3 Delirium e tipos de demência 1 SP 3 - Delirium e tipos de demência Compreender a epidemiologia, fisiopatologia, clínica e os critérios diagnósticos de depressão no idoso Epidemiologia: Em pacientes idosos doentes e hospitalizados, a prevalência de depressão é 25% Em 2020, a depressão estará atrás apenas das doenças cardiovasculares como causa de incapacidade global, sendo um dos principais problemas de saúde pública em pessoas idosas. A prevalência da depressão maior é estimada em 1 a 2% em idosos na comunidade e 10 a 12% na atenção primária Até 27% dos idosos experimentam sintomas depressivos substanciais que podem ser aliviados com a intervenção. Em idosos institucionalizados, as taxas de depressão maior são muito mais altas: 12% para idosos hospitalizados e 43% para idosos permanentemente institucionalizados O World Health Organization Primary Care Study relatou que 60% dos pacientes da atenção primária tratados com medicamentos antidepressivos ainda preenchem critérios para a depressão um ano depois, com taxas de eficácia semelhantes para os antidepressivos em pacientes idosos comparados com aqueles com menos de 60 anos As mulheres têm o dobro de chance de experimentar depressão maior em comparação com os homens Alta prevalência em idosos com mais de 65 anos de idade, aumentando nos portadores de comorbidades e com uma incidência de até 40% nos pacientes com demência Prevalência a depender da faixa etária, sendo de 17,1% para os maiores de 75 anos, 20 a 25% para os maiores de 85 anos, 30 a 50% para os SP 3 Delirium e tipos de demência 2 maiores de 90 anos e de 0 a 29% nos centenários Fatores de risco: Mulheres (apresentam mais sintomas depressivos que os homens, sendo mais facilmente diagnosticadas) Episódios prévios ou história familiar de depressão Falta de apoio social Escolaridade: a pouca instrução está associada a sintomas depressivos Fatores socioeconômicos: determinantes socias de saúde como a pobreza e os baixos salários estão relacionados com sintomas depressivos, no entanto, a riqueza não é fator protetor Uso de álcool ou outras substâncias Perda recente de um ente querido Doença psiquiátrica Uso de medicamentos: alguns anti-hipertensivos, diuréticos, analgésicos, corticosteroides, antipsicóticos, benzodiazepínicos, antiparkinsonianos, tuberculostáticos e o álcool Solidão: sentimento subjetivo, negativo Traumas psicológicos: os mais importantes são aqueles que afetam grandes grupos e são intencionais, como guerras, campos de concentração e terrorismo. Eventos estressores: os eventos mais comuns em idosos são luto, doenças crônicas, aposentadoria, limitação das atividades diárias, migração Viuvez sem um rearranjo conjugal posterior é a situação que mais predispõe à depressão. A perda de um companheiro modifica os recursos familiares no ambiente doméstico, na relação com familiares e amigos e na rotina diária Condições clínicas: Parkinson Infarto do miocárdio recente Acidente vascular encefálico AVE SP 3 Delirium e tipos de demência 3 Alzheimer Fisiopatologia: Tem etiologia multifatorial, podendo envolver genéticos, biológicos, epigenéticos, ambientais ou comportamentais. Existem 3 principais etiologias: TEORIA DAS MONOAMINAS A hipótese mais tradicional é a das monoaminas (dopamina, norepinefrina e serotonina): Nas pessoas sem a doença → as monoaminas são liberadas na fenda sináptica pelos neurônios pré- sinápticos e vão ter 3 destinos diferentes: Captadas pelo neurônio pós sináptico, efetivando a neurotransmissão Retornam ao neurônio pré-sináptico através da bomba de recaptação Degradadas pela enzima monoamina oxidase MAO Nas pessoas com depressão → algumas dessas etapas estão comprometidas, reduzindo a quantidade das monoaminas na fenda sináptica Essa teoria é corroborada pelo mecanismo de ação de vários antidepressivos, mas ainda deixa algumas questões em aberto, como a latência para início da ação antidepressiva e a falta de resposta, em um terço dos casos, quando são utilizados os antidepressivos cujos mecanismos de ação se baseiam na neurotransmissão das monoaminas HIPÓTESE DA NEUROPLASTICIDADE Nas pessoas sem a doença → a proteína mTOR, mediadora da proliferação, sobrevivência e metabolismo celular, eleva a expressão do RNAm do fator neurotrófico derivado do cérebro BDNF no hipocampo e córtex pré-frontal O aumento do glicocorticóide (derivado do cortisol, portanto, devido ao estresse) reduz a expressão do RNAm do BDNF, levando a atrofia dos neurônios do hipocampo. O tempo necessário para reverter a atrofia neural justifica a latência da ação antidepressiva BDNF, portanto, está reduzido em pessoas com depressão, tornando ele um bom biomarcador para depressão HIPÓTESE DA NEUROGÊNESE SP 3 Delirium e tipos de demência 4 A perpetuação de níveis elevados de glicocorticóides reduz o fenômeno da proliferação na neurogênese hipocampal, causando atrofia e retroalimentando uma cascata de eventos negativos (estresse → aumento do glicocorticoide → redução da neurogênese hipocampal → falência do feedback negativo → permanência do aumento do glicocorticoide → redução da neurogênese hipocampal →...). Esse mecanismo ocorre por duas vias distintas, e as monoaminas participam de apenas uma delas A depleção de serotonina e norepinefrina reduz a proliferação de células precursoras de neurônios no giro denteado. Inversamente, se existir elevação da serotonina ou norepinefrina nos terminais sinápticos dos neurônios serotoninérgicos ou noradrenérgicos que se projetam no giro denteado do hipocampo, pode haver aumento da proliferação de células precursoras de neurônios nessa camada Vários fatores biológicos, psicológicos e sociológicos predispõem indivíduos idosos à depressão. As alterações do sistema nervoso central relacionadas com o envelhecimento (especialmente as alterações nas concentrações dos neurotransmissores), podem desempenhar um papel no desenvolvimento da depressão geriátrica. A depressão vascular, normalmente observada em cerca de 30% dos sobre- viventes de acidentes vasculares encefálicos, está ligada a aumentos de intensidade da substância branca, que são regiões brilhantes observadas no parênquima cerebral por meio da ressonância magnética ponderada em T2. Marcadores inflamatórios como a interleucina 6 IL6 também foram associados com a depressão, bem como a deficiência de vitamina D. Outros problemas físicos, como o comprometimento visual e a dor crônica e um leve comprometimento cognitivo, estão igualmente associados com a depressão. Existem vários diagnósticos médicos que aumentam o risco de depressão em idosos. Esses incluem doença cardiovascular, câncer, doença de Parkinson, acidente vascular encefálico, doença pulmonar, artrite, perda auditiva e demência Muitos fatores psicossociais aumentam a probabilidade de depressão em idosos. Esses fatores incluem não ser casado, morar sozinho, ter pouco ou nenhum apoio social, perda recente e luto prolongado, ser um SP 3 Delirium e tipos de demência 5 cuidador e ter baixo nível socioeconômico Barua et al., 2010; Clark et al., 2013. O risco de depressão é ainda maior se houver história familiar de depressão, abuso de substâncias atualmente ou no passado, história de episódio depressivo anterior ou tentativa de suicídio no passado. As per- das, reais ou percebidas como tais, são comuns na população geriátrica e podem ser um fator contribuinte para a depressão. A perda de emprego, renda e apoios sociais (especialmente a morte de familiares e amigos) aumenta com a idade e pode resultar em isolamento social e subsequente luto e depressão franca. A perda da independência, que ocorre com a perda de uma permissão para dirigir ou em caso de declínio Clínica: Caracterizada por humor deprimido ou perda de interesse em quase todas as atividades (anedonia) ou ambos por pelo menos duas semanas, acompanhados por um mínimo de 3 ou 4 dos seguintes sintomas(de um total de pelo menos cinco sintomas): Maior irritabilidade Delírio (pobreza, doença ou conteúdo niilista) Mudanças no padrão do sono: Hipersonia ou insônia (sintoma que mais motiva a busca de ajuda médica) Sentimentos de desvalia ou de culpa excessiva Fadiga ou falta de energia Sentimento de solidão (social ou emocional) Sintomas em múltiplos domínios cognitivos → função executiva, concentração, atenção e memória, além de redução da velocidade de processamento cognitivo Capacidade diminuída para pensar ou concentrar-se Alteração substancial em apetite ou perda de peso não intencional Agitação psicomotora ou retardo psicomotor Desinteresse sexual Hipocondria Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio SP 3 Delirium e tipos de demência 6 Queixas somáticas (destaque para: perda de peso, constipação intestinal, despertar precoce, fadiga, dor) A intensidade da depressão varia e é importante na determinação do tratamento ideal e do prognóstico Depressão leve → marcada por nenhum ou por poucos sintomas além do número mínimo necessário para preencher os critérios diagnósticos definidos antes (os sinais apresentados antes), sendo acompanhada por mínimo prejuízo funcional Depressão moderada → inclui um maior número e intensidade de sintomas depressivos com moderado prejuízo funcional Depressão grave → marcada intensidade e sintomas depressivos difusos com prejuízo funcional significativo Além disso, nos idosos, a depressão pode se apresentar com queixas cognitivas de maneira tão importante que podem simular um quadro demencial, caracterizando um quadro chamado pseudodemência depressiva Idosos têm pior prognóstico e curso mais crônico Os idosos não apresentam os sintomas típicos de depressão, como humor depri- mido ou tristeza. Eles podem, no entanto, responder a perguntas específicas sobre estarem ou não se sentindo deprimidos. Por isso, é importante perguntar diretamente aos indivíduos idosos sobre a depressão, usando breves ferramentas de rastreio ou, sim- plesmente, perguntando se estão se sentindo deprimidos. SP 3 Delirium e tipos de demência 7 Os sinais e sintomas indicativos de depressão relatados podem estar relacionados a uma doença física e podem estar exacerbados ou exagerados pela depressão. Embora seja, por vezes, um processo diagnóstico lento e difícil, é fundamental descartar problemas médicos (agudos ou crônicos) antes de realizar um diagnóstico definitivo de depressão. A depressão maior é caracteristicamente diagnosticada por meio de evidências de humor deprimido e/ou perda de interesse e prazer. Também pode haver mudança de apetite, particularmente perda do apetite, insônia ou hipersonia, agitação ou retardo psicomotor, perda da energia e fadiga, sentimentos de inutilidade, dificuldades de concentração e/ou pensamentos recorrentes de morte ou suicídio. Esses sinais e sintomas típicos frequentemente não são notados em idosos ou são considerados normais durante o envelhecimento ou na presença de outras comorbidades. Pacientes idosos deprimidos são mais propensos a se preocupar com sintomas somáticos e cognitivos e relatam humor deprimido e preocupações com culpa, crises de choro, tristeza, medo ou sentimentos de que a sua vida foi um fracasso com menor frequência. Esses pacientes comumente relatam dificuldades para perceber seu estado de saúde e reclamam repetidamente sobre obstipação e frequência urinária. Esses indivíduos podem não reconhecer os sentimentos de tristeza persisten- tes. Em vez disso, podem reportar persistente perda de prazer e interesse em atividades antes prazerosas (anedonia). Geralmente, indivíduos idosos não apresentam os sinais e sintomas de humor depressivo que satisfazem os critérios para um distúrbio depressivo maior. Depressões menores ou subsindrômicas são mais comuns do que a depressão maior. Essas são definidas como um ou mais períodos de sintomas depressivos, idênticos aos episódios depressivos maiores quanto à duração (duas semanas ou mais), porém envolvendo menos sintomas e menor comprometimento. Um episódio de depressão subsindrômica envolve tristeza/humor deprimido ou perda do interesse/prazer por praticamente todas as atividades. O diagnóstico de depressão em idosos, seja a depressão maior ou a menor, é compli- cado pela sobreposição de doença física. SP 3 Delirium e tipos de demência 8 Pacientes com doenças físicas graves podem estar preocupados, por exemplo, com pensamentos sobre a morte ou inutilidade em decorrência da incapacidade concomitante. Idosos com depressão também tendem a apresentar taxa mais alta de ansiedade, nervosismo e irritabilidade do que os indivíduos mais jovens. Os idosos podem se envolver na somatização e colocar-se em risco para doenças iatrogênicas que ocorrem em decorrência de exames e tratamentos desnecessários. Dentre os idosos deprimidos, os sintomas somáticos são mais comuns que entre adultos jovens, com destaque para: perda de peso, constipação intestinal, despertar precoce, fadiga e dor. Os idosos também apresentam mais irritabilidade, delírio (pobreza, doença ou conteúdo niilista),agitação psicomotora, desinteresse sexual e hipocondria e menos sentimento de culpa e humor deprimido Enache, 2015; Lackamp et al., 2016. As mulheres mais idosas são o grupo com mais sintomas e também com maior possibilidade de apresentação clínica atípica. O sentimento de solidão (social ou emocional) deve ser investigado pela sua associação bem estabelecida com a depressão, especialmente para idosos institucionalizados. Este é um dos exemplos de que a investigação sintomatológica não se esgota na anamnese tradicional, pois existe a possibilidade de ocultação do sintoma para que não haja comprometimento das relações familiares Lan et al., 2015. Um grande número de idosos apresenta sintomas depressivos que não preenchem os critérios diagnósticos para depressão, mas permanecem associados a sofrimento significativo ou comprometimento da funcionalidade Worralla et al., 2020. O processo de desenvolvimento da depressão no idoso pode durar anos, sendo, portanto, mais crônico do que agudo. Mesmo após o tratamento adequado, um terço melhora e permanece bem, outro terço apresenta recaída e o restante não melhora, cronifica. Fatores intrínsecos e extrínsecos podem contribuir para a cronificação dos sintomas, devendo ser identificados e evitados Tabela 27.5 Enache, 2015 SP 3 Delirium e tipos de demência 9 Diagnóstico: No idoso o diagnóstico é complicado pelo fato de que ele vai ter menos queixas somáticas e mais queixas físicas, sendo difícil de diferenciar o quadro de problemas clínicos subjacentes Utiliza-se a história clínica + os sintomas apresentados + ferramentas de rastreio (ex: Geriatric Depression Scale ou uma outra escala que utiliza apenas duas perguntas sobre humor deprimido e anedonia, ambas efetivas para detecção de depressão) O diagnóstico é essencialmente clínico, e a avaliação inclui: História clínica (diagnósticos prévios, dor, polifarmácia, adesão e resposta a tratamentos previamente propostos e medicamentos em uso) História psiquiátrica (passado de depressão, pensamento ou tentativa de suicídio, consumo de álcool) História social (eventos estressores, suporte social, direção de veículos, acesso a armas) SP 3 Delirium e tipos de demência 10 História familiar (depressão, demência e suicídio) DURANTE A ANAMNESE � Importante reservar períodos distintos para o idoso com e sem acompanhante e para o acompanhante sozinho, especialmente se o idoso tem pouca clareza sobre seus sintomas ou apresenta déficit cognitivo e/ou sensorial � Avaliar o desempenho em atividades básicas e instrumentais da vida diária, para um melhor planejamento do cuidado � Avaliar as funções cognitivas no momento inicial para estabelecer a possibilidade de demência associada e um parâmetro de evolução de um possível déficit � Rastrear sintomas ansiosos. A investigaçãode risco de suicídio deve ser realizada, seguindo a ordem de pensamento, desejo, elaboração e execução de plano e tentativas prévias. EXAMES LABORATORIAIS Nenhum exame laboratorial ou de imagem é capaz de instituir o diagnóstico de qualquer transtorno depressivo Entretanto, alguns exames laboratoriais para investigação de diabetes, hipotireoidismo, deficiência de vitamina B12 e de ácido fólico estão indicados como diagnóstico diferencial Caso a etiologia vascular seja suspeitada → solicitar ressonância magnética do encéfalo É demonstrado que têm alterações da estrutura e função cerebral na depressão de início tardio, com padrões de alteração intermediários entre indivíduos normais e com demência ESCALAS DE RASTREAMENTO DE DEPRESSÃO Escala de rastreamento não diagnostica depressão, apenas sinaliza para a possibilidade do diagnóstico. Portanto, a avaliação clínica após a aplicação da escala é fundamental Existem várias escalas validadas para uso em idosos, como a Escala de Depressão Geriátrica GDS, Patient Health Questionnaire 9 PHQ9, Escala de Beck BDI e a Escala de Hamilton GDS É a mais popular e é a única desenvolvida para idosos SP 3 Delirium e tipos de demência 11 Tem aplicação rápida e fácil com respostas de sim e não, referentes as duas últimas semanas A versão original tem 30 itens, mais a principal tem 15 (visto que tem mais especificidade e sensibilidade, justificando seu uso) Tem a vantagem de que não inclui sintomas somáticos, reduzindo a interferência de sintomas que podem confundir o avaliador, devido às comorbidades que o paciente pode apresentar RESULTADOS PARA A GDS 15 A partir de 5 pontos → depressão De 8 a 9 pontos → depressão moderada Acima de 10 pontos → depressão grave O escore da GDS 30 sugere depressão a partir de 11 pontos; e o da GDS 15, a partir de 5 pontos. Mesmo sem avaliar objetivamente a gravidade dos sintomas, indica depressão moderada de 11 a 20 e 8 a 9, e grave acima de 21 e 10 pontos para a GDS 30 e a GDS 15, respectivamente Reconhecer o quadro clínico da pseudodemência Causas SP 3 Delirium e tipos de demência 12 O termo “pseudodemênciaˮ se refere a condições neuropsiquiátricas que simulam o prejuízo cognitivo. Na maioria das vezes está associada a comprometimento cognitivo secundário à depressão , mas também pode ocorrer na doença bipolar, na esquizofrenia, nos transtornos de ansiedade, no transtorno de estresse pós-traumático, na somatização, nos transtornos de personalidade e nas epilepsias parciais complexas O termo “pseudodemência depressivaˮ foi inicialmente utilizado para descrever o declínio cognitivo em pacientes com o diagnóstico de síndrome depressiva, que se torna reversível com o tratamento. Quadro clínico Alguns idosos podem desenvolver uma síndrome demencial (antigamente denominada “pseudodemênciaˮ) secundária à depressão, que pode ser revertida após remissão dos sintomas depressivos. Esses pacientes costumam se apresentar com uma depressão de início tardio grave e uma síndrome demencial leve. Quando comparados aos pacientes deprimidos com doença de Alzheimer, os pacientes com depressão apresentam mais sintomas psíquicos e de ansiedade somática Características gerais: Várias condições que podem simular uma demência (depressão é a mais comum) Mas são reversíveis O próprio paciente se queixa (diferente da demência, que geralmente o acompanhante que diz os sintomas) SP 3 Delirium e tipos de demência 13 O termo pseudodemência se refere a condições neuropsiquiátricas que simulam o prejuízo cognitivo. Na maioria das vezes está associada a comprometimento cognitivo secundário à depressão, mas também pode ocorrer na doença bipolar, na esquizofrenia, nos transtornos de ansiedade, no transtorno de estresse pós-traumático, na somatização, nos transtornos de personalidade e nas epilepsias tipo parciais complexas O comprometimento cognitivo frequentemente acompanha a depressão e pode ser grave o suficiente para dificultar o diagnóstico diferencial com demência. A depressão pode preceder, ocasionar ou ocorrer simultaneamente à demência; uma boa avaliação clínica e os testes de avaliação do estado mental, incluindo avaliação neuropsicológica e a aplicação de escalas específicas para depressão, como a GDS (escala de depressão geriátrica) e a escala de Cornell, auxiliam no diagnóstico diferencial Quando o declínio cognitivo é um sintoma inicial da depressão, outros sinais vegetativos podem também estar presentes. Transtornos do sono e do apetite, perda ou ganho de peso, queixas somáticas, dores crônicas, retardo ou agitação psicomotora, perda de energia ou fadiga, além de anedonia, isolamento social, humor SP 3 Delirium e tipos de demência 14 disfórico e passado de doença depressiva são frequentes no idoso como indicadores importantes para o diagnóstico da depressão. Compreender a etiologia, sintomas e diagnóstico da doença de Alzheimer (sucinto) Doença de Alzheimer A prevalência da DA ao longo da vida é superior a 11% entre os homens e superior a 21% entre as mulheres. A maior parte desses pacientes apresenta DA de início tardio (a partir dos 65 anos de idade). A DA de início precoce é muito menos comum. A DA constitui a causa mais comum de demência em todo o mundo. Genética. A DA de início tardio (i.e., esporádica) tem sido mais estreitamente ligada geneticamente aos genes que codificam a apolipoproteína E, em particular o alelo épsilon 4 da apolipoproteína E APOE4, que está presente em 14% da população geral. Os heterozigotos têm um aumento de 3 vezes no risco de DA, enquanto os homozigotos apresentam um risco 8 a 12 vezes maior. Entretanto, 30 a 60% dos pacientes com DA não possuem esse alelo. Não se recomenda utilizar o APOE4 como ferramenta de rastreamento, visto que ele não é específico e que não há nenhuma intervenção preventiva ou terapêutica que possamos oferecer com base nos resultados do teste. Para pacientes que desejam realizar esse teste, deve-se considerar o seu encaminhamento para aconselhamento genético. Apenas como comentário adicional, o impacto do alelo APOE4 não se limita a aumentar o risco de DA; ele também aumenta o risco de DCL. Além disso, os portadores de APOE4 têm menos capacidade de manter uma saúde neuronal após acidente vascular cerebral AVC ou traumatismo craniano. Por outro lado, os dados sugerem que o APOE2 pode ser protetor contra a DA e está associado a um aumento do tempo de vida em pacientes com e sem DA. Fatores de risco. O envelhecimento, o sexo feminino e o alelo APOE4 são fatores de risco não modificáveis bem estabelecidos. Os fatores de risco SP 3 Delirium e tipos de demência 15 potencialmente evitáveis ou reversíveis incluem: Os mesmos fatores que aumentam o risco de doença cardiovascular (p. ex., hipertensão, síndrome metabólica e hiperglicemia). História de lesão cerebral traumática. Transtornos do sono. Alguns medicamentos com atividade anticolinérgica (p. ex., antidepressivos, antipsicóticos e fármacos antiparkinsonianos). Baixo nível de atividade tanto física quanto cognitiva ao longo da vida. Histologia. As características patológicas essenciais da DA consistem nos emaranhados neurofibrilares (compostos por agregados intracelulares em forma de chama da proteína tau hiperfosforilada, uma proteína associada a microtúbulos) e placas neuríticas senis (agregados extracelulares de beta-amiloide). O acúmulo dessas substâncias no tecido cerebral está associado à degeneração neuronal, morte celular e angiopatia cerebral. Apresentação clínica e diagnóstico. Em geral, a DA manifesta-se com progressão insidiosa de déficits de memória. Os problemas relacionados com a memória de curto prazo – dificuldade em recordar eventos recentes, em oposição a eventos antigos – habitualmente são os primeiros a aparecer. Com o passar do tempo, surgem outros déficits cognitivos, que frequentemente flutuam de dia para dia e que podem incluir comprometimentointelectual e das funções executiva e visuoespacial, juntamente com déficits de linguagem e alterações na personalidade e no comportamento. Os pacientes podem apresentar julgamento prejudicado, confusão, desorientação, depressão, ansiedade e – em última análise – delírios e alucinações. Alguns pacientes podem desenvolver apatia profunda, outros, agitação, e outros, ainda, períodos alternados de apatia e agitação. Exceto quando a DA está em seus estágios iniciais – quando a função intelectual ainda está até certo ponto preservada –, os pacientes não têm consciência do que está acontecendo com eles. Por fim, os SP 3 Delirium e tipos de demência 16 pacientes ficam acamados, incapazes de andar independentemente e desenvolvem incontinência vesical e intestinal. Queixa de Desempenho Cognitivo: Idosos frequentemente se queixam de piora cognitiva ao envelhecer. Profissionais de saúde devem estar atentos para identificar e avaliar a acuidade mental. Consideração das variações individuais influenciadas pela idade e escolaridade. Fase Prodrômica da Doença de Alzheimer DA: DA tem um longo período pré-clínico ou assintomático. Sintomas iniciais incluem dificuldades de memória, aprendizagem, atenção, função executiva, linguagem, perceptomotor e cognição social. Nessa fase, as alterações cognitivas não interferem significativamente nas atividades diárias. Primeiros Sinais de Demência: Esquecimento aparente e alterações de personalidade e cuidado pessoal. Esses sinais podem indicar a transição para demência ou transtorno neurocognitivo maior TNCM. Progressão da Demência na DA: A demência na DA frequentemente se inicia após os 60 anos. Progressão gradual dos sintomas ao longo de 8 a 12 anos, com variação entre 2 e 25 anos. A fase inicial dura 2 a 3 anos, com comprometimento da memória declarativa episódica e dificuldades para lembrar nomes, compromissos, e fatos recentes. Fase Intermediária da DA: Dura entre 2 e 10 anos. Sintomas focais incluem afasia, apraxia, agnosia e distúrbios visuais-espaciais. SP 3 Delirium e tipos de demência 17 Deterioração da memória remota e capacidade de julgamento. Declínio Funcional: Perda de habilidades para realizar tarefas da vida diária. Dificuldade para realizar atividades instrumentais (ex.: lidar com finanças, cozinhar) e atividades básicas (ex.: vestir-se, alimentar- se). Sintomas extrapiramidais como alterações na marcha e postura. Sintomas Neuropsiquiátricos BPSD: Incluem agitação, perambulação, agressividade, depressão e alterações de comportamento. Três grupamentos de sintomas: depressão, psicose e apatia associadas à DA. Fase Avançada da DA: Dura de 8 a 12 anos. Todas as funções cognitivas estão gravemente comprometidas. Pacientes ficam totalmente dependentes, acamados, e a morte ocorre devido a complicações como septicemia. Instrumentos de Avaliação da DA: FAST Functional Assessment Stages) e CDR Clinical Dementia Rating) são utilizados para avaliar e classificar os estágios da DA. Recomenda-se uma RM para descartar as causas estruturais de demência. As características clássicas que sugerem DA na RM do cérebro incluem atrofia cortical com aumento ventricular, juntamente com atrofia do hipocampo e lobos temporais mediais. Essas alterações não são específicas da DA, porém altamente sugestivas do diagnóstico no contexto clínico correto. O PET scan, embora não seja realizado rotineiramente, pode demonstrar hipometabolismo nos lobos temporoparietais posteriores. Confirmação da Demência/TNCM na DA: O primeiro passo é confirmar o diagnóstico de demência ou transtorno neurocognitivo maior TNCM causado pela DA. SP 3 Delirium e tipos de demência 18 Deve-se considerar os critérios propostos para o diagnóstico, diferenciando-a de outras condições clínicas, neurológicas ou psiquiátricas que apresentam sintomas semelhantes. Definição de Demência: A demência é definida como uma síndrome caracterizada pelo comprometimento de múltiplas funções corticais superiores. Déficits Cognitivos Envolvidos: Comprometimento da memória, pensamento, orientação, compreensão, linguagem, cálculo, capacidade de aprendizagem, pensamento abstrato e julgamento. A deterioração dessas funções pode variar, afetando alguns domínios cognitivos enquanto outros permanecem preservados. Alterações Psicológicas e Comportamentais: O comprometimento cognitivo geralmente é acompanhado, e às vezes precedido, por alterações psicológicas, comportamentais e de personalidade. SP 3 Delirium e tipos de demência 19 Compreender a epidemiologia, fisiopatologia, fatores de risco e causais, clínica e os critérios diagnóstico para Dellirium Epidemiologia: Delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica constituída pela alteração aguda e flutuante do estado mental, associada à dificuldade em focar, manter ou alternar a atenção, e que geralmente se associa a uma condição orgânica subjacente, correspondendo ao que seria um quadro de insuficiência cerebral aguda. Ele aparece quando o indivíduo é incapaz de manter a homeostase cerebral em face de um ou mais agentes nocivos Com o envelhecimento populacional, o delirium tem importância crescente na atenção à saúde do idoso. Até 50% dos idosos hospitalizados são afetados pelo delirium durante a internação e estima-se que mais de USD 160 bilhões sejam gastos anualmente nos EUA com o distúrbio. Além disso, o delirium muitas vezes representa o ponto inicial de uma cascata de eventos que leva a complicações clínicas e prognóstico desfavorável, incluindo declínio cognitivo e funcional, prolongamento de hospitalizações, maior risco de institucionalização e maior morbimortalidade. A prevalência de delirium na comunidade é baixa 1 a 2%, podendo chegar até 40% nas instituições de longa permanência. Sua instalação costuma determinar a ida dos pacientes às unidades de pronto atendimento, onde a prevalência é de aproximadamente 25%. No entanto, apenas 24 a 35% dos casos de delirium são identificados nesse cenário. A frequência de delirium muda de acordo com o ambiente estudado e o método de avaliação, com as maiores incidências na UTI, cuidados SP 3 Delirium e tipos de demência 20 pós-operatórios e cuidados paliativos. Contudo, é um distúrbio que acomete especialmente indivíduos idosos, com incidência acumulada descrita entre 29 e 64% em enfermarias gerais e geriátricas. A disponibilidade de dados específicos da população brasileira é limitada e com grande discrepância de resultados. Além de comum, a ocorrência de delirium parece estar associada a maior risco de complicações e prognóstico desfavorável. Idosos acometidos falecem ainda durante a internação em 25 a 33% dos casos, e já foi descrito delirium como o principal preditor de mortalidade intra-hospitalar em uma enfermaria geriátrica. O estado confusional agudo também está associado a aumento dos custos, internações mais prolongadas, aumento do risco de institucionalização e complicações clínicas mais frequentes, como úlceras de pressão, quedas e infecções pulmonares. Um estudo realizado no Hospital das Clínicas de São Paulo → evidenciou que 1 a cada 3 pacientes com covid-19 apresentou delirium durante a internação. Fisiopato: Os mecanismos que levam à instalação de delirium são complexos e ainda pouco compreendidos. Com o envelhecimento, há uma redução da população neuronal, do fluxo sanguíneo e de neurotransmissores reguladores do estresse, bem como anormalidades da transmissão colinérgica. Há também uma alteração da resposta das células da glia aos estímulos nosológicos. Assim, alterações metabólicas cerebrais, resultantes de hipóxia, hipo ou hiperglicemia, inflamação sistêmica, estresse, privação de sono, uso de medicamentos e aumento da permeabilidade da barreira hematoencefálica, podem se combinar, levando à perda de homeostase neurológica e ao desencadeamento do delirium. No entanto, o comprometimento de mecanismos compensatórios explica apenas em parte a maiorsuscetibilidade de idosos ao desenvolvimento de delirium. Conhecendo a natureza multifatorial da síndrome, é pouco provável que exista um único conjunto de componentes contribuindo para sua instalaçã e levando à SP 3 Delirium e tipos de demência 21 desorganização de redes neurais complexas e à consequente insuficiência cerebral aguda. O intricado equilíbrio entre fatores psicológicos, neurológicos e imunológicos parece ter particular relevância para esse processo, e estudos indicam que ativação imune e inflamação crônicas, características da imunossenescência, desempenham um papel central na fisiopatologia do delirium. As pesquisas atuais relacionadas a biomarcadores específicos têm sido promissoras, mas todas exigem uma investigação mais profunda: S100 beta, fator de crescimento semelhante à insulina tipo 1, enolase específica do neurônio e marcadores inflamatórios incluindo citocinas interleucina IL8, fator de necrose tumoral TNF)-alfa, proteínas quimioatraentes de monócitos MCP1, procalcitonina e cortisol. Fatores de risco e causais: Do ponto de vista clínico, o desenvolvimento do delirium depende de uma complexa relação entre fatores que conferem vulnerabilidade ao paciente e a exposição a agentes nocivos, conhecidos respectivamente como fatores predisponentes e fatores precipitantes. SP 3 Delirium e tipos de demência 22 SP 3 Delirium e tipos de demência 23 Os medicamentos são o fator precipitante mais importante, contribuindo com mais de 40% dos casos de delirium. Os medicamentos mais associados com delirium são aqueles com efeitos psicoativos conhecidos, como sedativos hipnóticos, opiáceos bloqueadores de H2 e anticolinérgicos. Além disso, o risco de delirium aumenta em proporção direta com o número de medicamentos prescritos. Tratamentos fitoterápicos estão sendo cada vez mais reconhecidos como fatores que causam ou contribuem para o delirium, sobremaneira quando tomados concomitantemente com uma medicação psicoativa. Isso é particularmente verdadeiro no caso de ervas psicoativas, como a erva- de-são-joão, kava kava e raiz de valeriana. SP 3 Delirium e tipos de demência 24 Quanto mais fatores predisponentes estão presentes, ou quanto maior seu impacto sobre a reserva fisiológica individual (síndrome demencial, por exemplo), maior a vulnerabilidade para delirium, e, portanto, menor a intensidade de agressores necessários (fatores precipitantes) para que ele ocorra. Clínica: As principais características do delirium são a instalação aguda e o curso flutuante. Aguda, pois as alterações da cognição e da atenção tornam-se evidentes em algumas horas ou poucos dias. Curso flutuante, porque seus sintomas variam de intensidade ao longo do dia, podendo inclusive cursar com períodos assintomáticos e intervalos de lucidez. No entanto, em idosos, o início do quadro pode ser insidioso, precedido por alguns dias de irritabilidade, insônia e diminuição da concentração. A alteração da atenção se caracteriza pela dificuldade em focar, manter ou alternar a atenção. Percebe-se que os pacientes afetados têm dificuldades para realizar tarefas que exijam algum foco, como recitar os meses de trás para a frente, obedecer a comandos com múltiplas etapas ou acompanhar uma conversa, sendo facilmente distraídos. O delirium representa uma disfunção global da cognição, cursando com o comprometimento de outros domínios cognitivos além da atenção. Pacientes com delirium podem, por exemplo, apresentar alterações de memória, principalmente da memória recente, com dificuldades para assimilar novas informações. Também se observam com frequência: Alterações de orientação temporal e espacial. Desorganização do pensamento, que pode se tornar fragmentado, lentificado ou acelerado. Alucinações auditivas ou visuais. Disnomias e disgrafias, alterações da linguagem consideradas bastante sensíveis em delirium. Alterações do humor com labilidade emocional. Alterações do ciclo sono-vigília, com sonolência diurna e sono noturno fragmentado e reduzido. SP 3 Delirium e tipos de demência 25 Alterações de atividade psicomotora. O delirium pode ser classificado, conforme os padrões predominantes de psicomotricidade, em delirium hipoativo, hiperativo ou misto. Pacientes com delirium hiperativo frequentemente têm pensamento acelerado, estado de consciência hiperalerta, com agitação, alucinações, agressividade e alterações autonômicas como taquicardia, sudorese e rubor facial. É menos frequente que o delirium hipoativo, porém mais facilmente reconhecido devido à exuberância da apresentação. Já pacientes com delirium hipoativo geralmente têm menor movimentação espontânea, pensamento lentificado, letargia e sonolência. Apesar de ser a apresentação fenotípica mais comum de delirium, é menos diagnosticada e tem pior prognóstico. No delirium misto, as formas hiperativas e hipoativas se alternam no decorrer do tempo. Por fim, delirium subsindrômico é um termo empregado para caracterizar a situação clínica em que uma pessoa apresenta uma ou mais características de delirium, entretanto não preenche todos os critérios para confirmar o diagnóstico. Delirium subsindrômico pode acontecer precedendo delirium ou persistindo após sua resolução, sendo também relacionado a pior prognóstico, declínio funcional, declínio cognitivo e aumento de mortalidade. SP 3 Delirium e tipos de demência 26 Diagnóstico: O diagnóstico de delirium é clínico e engloba duas etapas essenciais: a detecção do delirium e o esclarecimento de suas causas. SP 3 Delirium e tipos de demência 27 Um exame físico detalhado é fundamental para a avaliação do delirium. Muitas vezes, o delirium pode ser a manifestação inicial de uma doença grave subjacente em uma pessoa idosa; assim, a observação atenta buscando por sinais no exame físico pode permitir um diagnóstico precoce de uma patologia precipitante. Uma pesquisa cuidadosa por evidências de infecções ocultas deve ser realizada, incluindo os sintomas de pneumonia, infecção do trato urinário, processos abdominais agudos, infecções articulares ou sopro cardíaco de instalação recente. Um exame neurológico detalhado, com atenção a sinais focais ou lateralizados, também é fundamental. Academicamente, o delirium é definido pela presença dos critérios da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais DSM5. SP 3 Delirium e tipos de demência 28 No entanto, inúmeros instrumentos foram desenvolvidos nos últimos anos para uma melhor sistematização do diagnóstico de delirium na prática clínica. Destacam-se dentre esses instrumentos o Confusion Assessment Method CAM, instrumento validado para o português e que abrange nove itens de avaliação: Início agudo e curso flutuante. Déficit de atenção. Desorganização do pensamento. Alteração do nível de consciência. Desorientação. Déficit de memória. Distúrbios sensoriais. Alteração de atividade psicomotora. Alteração do ciclo sono-vigília. Em sua versão curta e mais comumente utilizada, apenas as primeiras quatro características do CAM são avaliadas, sem prejuízo importante para sensibilidade e especificidade diagnósticas do instrumento. O CAM é um instrumento simples e de fácil aplicação por profissionais da saúde treinados, com sensibilidade de 94 a 100% e especificidade de 90 a 95%. SP 3 Delirium e tipos de demência 29 Os exames laboratoriais para avaliação de pacientes delirantes devem incluir hemograma completo, eletrólitos (incluindo cálcio), função renal e hepática, glicose e saturação de oxigênio. Além disso, na pesquisa de uma infecção oculta, devem ser consideradas hemoculturas, culturas de urina, exame de urina e radiografia de tórax. Quando não se identificam fatores contribuintes específicos em um determinado paciente, podem ser solicitados outros exames. Estes incluem testes da função da tireoide, gasometria arterial, níveis de vitamina B12, níveis de doses de medicamentos, examestoxicológicos, níveis de cortisol e uma avaliação do líquido cefalorraquidiano. Imagens cerebrais com tomografia computadorizada ou ressonância magnética são indicadas quando há história ou sinais de queda recente ou traumatismo craniano, febre de origem desconhecida, sintomas neurológicos focais recentes ou quando nenhuma causa óbvia foi identificada. Um eletroencefalograma pode ser indicado para avaliar a SP 3 Delirium e tipos de demência 30 presença de atividade convulsiva oculta. Também pode ser usado na diferenciação de delirium de distúrbios psiquiátricos não orgânicos. O diagnóstico diferencial principal de delirium é com as síndromes demenciais. Apesar de apresentarem características clínicas que as diferenciam do delirium, como preservação da capacidade de manter a atenção ou um declínio cognitivo de curso mais lento (meses a anos), a distinção pode ser difícil em algumas situações. Na demência vascular, por exemplo, o declínio cognitivo ocorre de modo abrupto. A demência por corpúsculos de Lewy, por sua vez, pode apresentar alucinações e oscilações de cognição no início do quadro. Além disso, a própria sobreposição de delirium e demência pode dificultar o diagnóstico correto. Transtornos psiquiátricos primários, como depressão maior, transtorno bipolar e esquizofrenia, possuem alguns sintomas semelhantes ao delirium, mas em geral a cognição se preserva. A distinção pode se tornar mais difícil na presença de sintomas psicóticos ou quando existe desorganização do pensamento. Em todas essas situações, a anamnese cuidadosa e o exame físico detalhado são fundamentais para a elucidação correta do diagnóstico. Citar as medidas para prevenção e o tratamento não farmacológico do Dellirium As principais medidas para a prevenção são de cunho não farmacológico. Deve-se identificar as causas potencialmente relacionadas ao quadro (principalmente dor, uso de dispositivos invasivos, constipação intestinal, retenção urinária e medicação) e instituir terapia específica. Ajustar horários de sono e vigília (controle de luminosidade, ajuste de horário de tomada de medicação e checagem de sinais vitais), instituir nutrição adequada, corrigir déficits sensoriais (uso de óculos, aparelhos auditivos), estimular orientação temporoespacial (informar com frequência em que o idoso está, qual dia da semana e a hora), acolher o idoso (garantir acesso aos familiares, contato presencial ou por vias digitais) e a mobilização precoce. Tais medidas devem ser estimuladas mesmo após a instalação do quadro, apesar de poucas evidências científicas para tal Cerveira et al., 2017 SP 3 Delirium e tipos de demência 31 A estratégia ideal de cuidados em saúde ao paciente em relação ao delirium é a prevenção primária. Portanto, é fundamental conhecer e identificar os fatores de risco de forma adequada e se antecipar em relação a eles com estabelecimento de intervenções. SP 3 Delirium e tipos de demência 32 Existem algumas medidas conhecidamente eficazes na redução de incidência de delirium recomendadas pelas diretrizes da Scottish Intercollegiate Guidelines Network SIGN. O Hospital Elder Life Program HELP consiste em um protocolo de intervenção multicomponente que atua de forma sistemática em fatores de risco, como imobilidade, privação do sono, déficit cognitivo e sensorial (auditivo e visual) e desidratação. Há evidências, na literatura, que essa estratégia levou a uma redução absoluta de 5% dos casos de delirium, em pacientes clínicos gerais com 70 anos. O HELP também foi capaz de reduzir a frequência dos episódios nos pacientes que desenvolveram o quadro. Habitualmente, inclui-se medidas de enfrentamento em relação a constipação, dor, hipóxia e infecção, conforme preconizado pelas diretrizes do Instituto Nacional de Saúde e Excelência em Cuidados NICE. Há algumas linhas de pesquisa que investigam a aplicabilidade de drogas antipsicóticas na prevenção de delirium em pacientes com alto risco, embora existam evidências que desencorajam a prescrição de haloperidol e antipsicóticos de segunda geração. Contudo, ainda há divergências em relação à eficácia desses medicamentos, uma vez que alguns trabalhos revelam que melatonina, anticolinérgicos e antipsicóticos não foram eficazes para evitar o delirium. É válido ressaltar a importância de diagnosticar qualquer condição médica subjacente potencialmente causadora de delirium e seu SP 3 Delirium e tipos de demência 33 tratamento adequado na prevenção primária. A resolução do quadro de delirium já instalado depende da correta identificação e oportuno e adequado tratamento da causa base. Abordagem Multidomínio Consiste no tratamento sintomático do delirium; na correção dos insultos orgânicos responsáveis pelo quadro (correção de distúrbios metabólicos, hidroeletrolíticos, controle da dor, hidratação, tratamento antimicrobiano etc.); na explicação dos riscos e futuros associados ao delirium; e em tratamento de suporte. A assistência direcionada aos múltiplos domínios do delirium demanda envolvimento de equipe multidisciplinar no cuidado. O tratamento de suporte tem como objetivo resolucionar situações frequentes presentes no idoso com delirium, como desidratação, desnutrição, úlceras de pressão, distúrbio hidroeletrolítico etc. O tratamento sintomático conta com medidas não farmacológicas de natureza educacional, ambiental e psicossocial, podendo envolver familiares e amigos. São ações úteis: repetição de informações de orientação no tempo e no espaço, explicação constante e repetida sobre o status de saúde e possíveis procedimentos a serem realizados, controle ambiental visando redução de gatilhos sensoriais e recursos de reorientação, estímulo a mobilização etc. A terapia farmacológica não compõe a abordagem terapêutica específica de rotina do delirium, ficando reservadas a casos com falha terapêutica diante das intervenções não farmacológicas recomendas e a quadros de delirium hiperativo, haja a vista que os sintomas colocam em risco à vida do próprio paciente, de outras pessoas e à continuidade do tratamento da causa primária. Quando necessário, os antipsicóticos são os medicamentos de primeira linha, com destaque para o haloperidol, considerado fármaco de escolha, em vista do baixo custo e apresentações variadas (oral e parenteral – intramuscular e intravenosa). De modo geral, evita-se a administração intravenosa, pois é associada à indução de arritmias e pelo efeito terapêutico breve. Os antipsicóticos atípicos – olanzapina, risperidona, quetiapi na – configuram uma alternativa ao haloperidol, SP 3 Delirium e tipos de demência 34 tendo como principal vantagem, menor taxa de efeitos extrapiramidais associadas e principal desvantagem à única forma de apresentação (oral), não sendo documentada diferença de eficácia entre os antipsicóticos. Em se tratando de delirium secundário a abstinência ao álcool ou a benzodiazepínicos, utiliza-se benzodiazepínicos, com preferência ao lorazepam (me nor meia-vida e menor quantidade de metabólitos ativos). Discutir as diferentes formas de violência contra a pessoa idosa Apenas de janeiro a maio deste ano, o Disque 100, da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, recebeu 47 mil denúncias e registrou 282 mil violações referentes às pessoas idosas. Violência física: Os abusos físicos constituem a forma de violência mais perceptível aos olhos dos familiares, mas nem sempre o agressor irá cometer agressões que sejam tão perceptíveis como espancamento com lesões ou traumas que possam chamar a atenção. Em algumas situações, os abusos são realizados na forma de beliscões, empurrões, tapas ou agressões que não tenham sinais físicos. A maior parte das agressões físicas acontece dentro da própria casa da pessoa idosa, no seio de sua família, ocasionada por pessoas muito próximas como filhos, cônjuge, netos ou cuidadores domiciliares. Abuso psicológico: A violência psicológica também é crime passívelde pena de detenção. Ela ocorre em atos como agressões verbais, tratamento com menosprezo, desprezo ou qualquer ação que traga sofrimento emocional como humilhação, afastamento do convívio familiar ou restrição à liberdade de expressão. Também acontece ao submeter a pessoa idosa a condições de humilhação, ofensas, negligência, insultos, ameaças e gestos que afetem a autoimagem, a identidade e a autoestima. Negligência, abandono e violência institucional: Os casos de negligência e abandono ocorrem quando há recusa ou omissão de cuidados que podem acarretar sérios prejuízos ao bem- estar físico e psicológico da pessoa idosa. Infelizmente esse é um ato muito comum, pois se manifesta tanto no seio familiar como em SP 3 Delirium e tipos de demência 35 instituições que prestam serviços de cuidados e acolhimento a pessoas idosas. A negligência se trata da recusa ou omissão de cuidados. Já o abandono é uma forma de violência que se manifesta pela ausência de amparo ou assistência pelos responsáveis em cumprir seus deveres de prestarem cuidado a uma pessoa idosa. A violência institucional se trata de qualquer tipo de violação exercida dentro do ambiente institucional público ou privado praticada contra a pessoa idosa. Instituições também podem cometer negligência por meio de uma ação desatenciosa ou omissa por parte dos funcionários ou por não cumprir alguma ação que deveria ter sido realizada. Abuso financeiro: A violência financeira é caracterizada pela exploração imprópria e ilegal ou uso não consentido dos recursos financeiros da pessoa idosa. O violador se apropria indevidamente do dinheiro e cartões bancários da pessoa idosa utilizando o valor para outras finalidades que não sejam a promoção do cuidado. Geralmente acontece por parte de familiares, conhecidos e instituições financeiras. Alguns idosos são vítimas deste tipo de violência devido à falta de informação ou ainda por acreditarem na ação despretensiosa do violador. Violência patrimonial: É qualquer prática ilícita que comprometa o patrimônio do idoso, como forçá-lo a assinar um documento sem ser explicado para quais fins é destinado, alterações em seu testamento, fazer uma procuração ou ultrapassar os poderes de mandato, antecipação de herança ou venda de bens móveis e imóveis sem o consentimento espontâneo do idoso, falsificações de assinatura. A autonomia da pessoa idosa, enquanto sujeito de direitos, sem dúvida é uma premissa que deve ser respeitada e promovida. Violência sexual: Os abusos visam obter excitação, relação sexual ou práticas eróticas através de coação com violência física ou ameaças. Essas violações podem ocorrer na própria casa, cometidas por pessoas da família, e em instituições que prestam atendimento a pessoas idosas. Mulheres idosas com patologias físicas que as impeçam de andar são ainda mais SP 3 Delirium e tipos de demência 36 vulneráveis. Atos como beijos forçados, penetração não consentida e toques no corpo são atos mais comumente observados. Também são ainda mais vulneráveis as pessoas idosas acometidas por doenças neurológicas ou psiquiátricas como Alzheimer e esquizofrenia, que podem ter dificuldade de transmitir a informação corretamente, dificultando a denúncia da violência sofrida. Discriminação: Refere-se a comportamentos discriminatórios, ofensivos e desrespeitosos em relação à condição física característica da pessoa idosa, com desvalorização e inferiorização. Uma atitude discriminatória resulta na destruição ou comprometimento dos direitos fundamentais do ser humano, prejudicando um indivíduo no seu contexto social, cultural, psicológico, político ou econômico. Em relação à pessoa idosa, os termos etarismo, idadismo ou ageísmo têm sido utilizados na tipificação e combate a crimes de discriminação e preconceito relacionados à característica da idade alcançada pela pessoa idosa. Campanha Junho Violeta tem como objetivo conscientizar a sociedade brasileira sobre a necessidade de atuar na garantia dos direitos humanos e no enfrentamento à violência contra as pessoas idosas. O Estatuto do Idoso, Lei 10.741/2003, prevê como crime a conduta de colocar em risco a vida ou a saúde do idoso, através de condições degradantes ou privação de alimentos ou cuidados indispensáveis. A pena prevista é de 2 meses a 1 ano de detenção, e multa. Se o resultado do crime for lesão corporal grave, a pena aumenta para 1 a 4 anos de reclusão. Por fim, se o resultado for morte, a pena é de 4 a 12 anos de reclusão. Art. 4o Nenhum idoso será objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei Referências � Duarte, Paulo de, O. e José Renato G. Amaral. Geriatria: prática clínica. Disponível em: Minha Biblioteca, 2nd edição). Editora Manole, 2023. SP 3 Delirium e tipos de demência 37 � Williams, Brie, A. et al. CURRENT Geriatria. Disponível em: Minha Biblioteca, 2nd edição). Grupo A, 2015. � Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania Violências contra a pessoa idosa: saiba quais são as mais recorrentes e o que fazer nesses casos - https://www.gov.br/mdh/pt- br/assuntos/noticias/2023/junho/violencias-contra-a-pessoa-idosa-saiba- quais-sao-as-mais-recorrentes-e-o-que-fazer-nesses-casos � Freitas, Elizabete Viana. Tratado de geriatria e gerontologia/Elizabete Viana de Freitas, Ligia Py. 4. ed. – Reimpr.]. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017 � Kane, Robert, L. et al. Fundamentos de geriatria clínica. Disponível em: Minha Biblioteca, 7th edição). Grupo A, 2014. https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/junho/violencias-contra-a-pessoa-idosa-saiba-quais-sao-as-mais-recorrentes-e-o-que-fazer-nesses-casos https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/junho/violencias-contra-a-pessoa-idosa-saiba-quais-sao-as-mais-recorrentes-e-o-que-fazer-nesses-casos https://www.gov.br/mdh/pt-br/assuntos/noticias/2023/junho/violencias-contra-a-pessoa-idosa-saiba-quais-sao-as-mais-recorrentes-e-o-que-fazer-nesses-casos